quinta-feira, abril 30, 2009

MERVAL PEREIRA

Polarização


O Globo - 30/04/2009
 

O paradoxo de a política brasileira estar polarizada entre um partido estruturado que está no governo, mas não tem candidato natural à sucessão presidencial, e outro, na oposição, que tem dois candidatos viáveis, mas não tem uma organização nacional que lhe dê suporte, mostra o quanto nosso sistema partidário é frágil e necessita de uma ampla reforma. PT e PSDB monopolizam a política nacional desde que, em 1989, na primeira eleição depois da redemocratização do país, Lula apresentou-se pela primeira vez como candidato a presidente da República.

 

Os dois outros grandes partidos brasileiros, o PMDB e o DEM, antigo PFL, têm tido nas últimas eleições papel de coadjuvantes, abstendo-se de apresentar candidatos à Presidência da República.

 

Anteriormente, quando o fizeram, “cristianizaram” figuras de peso da política nacional, fosse o presidente do PMDB Ulysses Guimarães, fosse o vice-presidente Aureliano Chaves pelo PFL.

 

O PSDB, que fora fundado pouco mais de um ano antes da primeira eleição democrática depois da ditadura militar, numa dissidência do PMDB, apresentou como candidato em 1989 o senador de São Paulo Mario Covas, que não chegou ao segundo turno na eleição em que Fernando Collor derrotou Lula.

 

Com a chegada do senador Fernando Henrique Cardoso ao posto de ministro da Fazenda no governo de Itamar Franco, em 1993, o PSDB passaria a predominar na vida política brasileira pelos anos seguintes, com a elaboração do Plano Real e a eleição de Fernando Henrique para a Presidência por duas vezes no primeiro turno, sempre derrotando Lula.

 

Dez anos depois, foi a vez de o PT chegar ao poder com o mesmo Lula, que derrotou o candidato do PSDB, José Serra, no segundo turno na eleição de 2002. Nos últimos 20 anos, portanto, o Partido dos Trabalhadores apresentou-se ao eleitorado na pessoa de seu líder máximo, sem que houvesse uma renovação de quadros em nível nacional, apesar de estar no poder a seis anos e ter elegido diversos governadores nas eleições de 2006.

 

Na única vez em que houve uma tentativa de substituir Lula como candidato à Presidência, em 2002, o partido fez uma prévia em que o senador Eduardo Suplicy foi derrotado fragorosamente.

 

O PSDB, desde 2002, tem como candidato natural o atual governador de São Paulo, José Serra, embora essa tendência tenha sido contestada internamente com êxito em 2006, pelo então governador paulista Geraldo Alckmim, e hoje pelo governador de Minas Gerais, Aécio Neves, o que prova que o partido tem uma renovação interna de quadros mais efetiva que o PT.

 

Para se ter uma ideia de como o PSDB é desarticulado em termos nacionais, basta ver que o partido não tem deputados em nada menos do que oito estados brasileiros.

 

Criado em torno de figuras nacionais de peso, continua girando em torno delas, assim como o PT gira em torno de Lula, sem ter líderes com luz própria em nível nacional.

 

O PT tem recuperado a militância política que sempre foi o seu forte, depois de perdê-la em grande parte devido ao trauma do mensalão, em 2005.

 

O partido, que passou por uma ameaça de dissolução na eleição de 2006 devido às denúncias de corrupção envolvendo sua cúpula, conseguiu sobreviver ao escândalo, embora perdendo peso político, que vem sendo recuperado aos poucos graças em grande parte à alta popularidade do presidente Lula.

 

A contestação interna no PSDB à candidatura Serra, em 2006, também deu certo por uma decisão do próprio, que levou em conta o perigo de o PSDB perder tanto o governo paulista quanto a própria Presidência, devido à recuperação de popularidade de Lula no pós-mensalão.

 

Caso isso acontecesse, o PSDB corria o sério risco de desaparecer do cenário político.

 

Governando dois dos mais importantes estados brasileiros — São Paulo, com Serra, e Minas Gerais, com Aécio —, o PSDB permanece como um peão importante no panorama político nacional, embora tenha perdido representatividade no Congresso Nacional e nas prefeituras.

 

Os dois sabem que somente unidos poderão se contrapor ao PT turbinado pela popularidade de Lula, e por isso, à medida que a campanha presidencial avança, mais vai alcançando um entendimento, com vistas à retomada do poder nacional.

 

A reunião que tiveram na noite de segunda-feira em Belo Horizonte parece ter marcado um acordo definitivo em torno das prévias que, definidas para janeiro ou fevereiro, serão precedidas de viagens nacionais dos dois para mobilizar os líderes regionais do partido.

 

O que definirá a escolha, no entanto, devem ser mesmo as pesquisas nacionais de opinião. Se a posição de liderança que o governador José Serra ostenta hoje se mantiver inalterada, é provável que o próprio Aécio abra mão da candidatura.

 

O que não está certo é se aceitará ser o vice da chapa, embora essa possibilidade esteja mais próxima de se viabilizar do que já esteve.

 

Se, eventualmente, os ventos eleitorais mudassem até o começo do próximo ano, o caminho de Serra seria a tentativa de reeleição ao governo de São Paulo.

 

Do lado do PT, a doença da ministra Dilma colocou um ponto de interrogação no jogo armado há mais de um ano pelo presidente Lula.

 

Essa desarrumação do tabuleiro certamente dará uma nova dinâmica à aliança com o PMDB, partido conhecido como fiel apenas à expectativa de poder.

 

Além da popularidade de Lula na crise econômica, o PMDB tem agora que avaliar até que ponto a doença da candidata oficial terá influência na escolha dos eleitores.

 

O PSDB, um partido fragilizado pelos oito anos fora do poder, tem no momento melhores perspectivas que o PT, que é um partido bem organizado, mas não conseguiu renovar suas lideranças, pela característica centralizadora e especialíssima de Lula.

GOSTOSA


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INFORME JB

Patrus e Pimentel já disputam em MG

 Leandro Mazzini
Jornal do Brasil - 30/04/2009
 

A tão peculiar discrição dos mineiros para fazer negócios não seria diferente na arte da política. A coluna falou ontem de dois petistas que já disputam internamente, quietinhos, cada qual a seu modo, a indicação do partido para o governo do estado: Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte, e Patrus Ananias, o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Pois Patrus não só confirmou à coluna que está em pré-campanha como também entregou a agenda. Todo fim de semana, visita municípios mineiros para reforçar seu nome. A exemplo de Pimentel. Ambos tomam os cuidados necessários, aliás, para não esbarrarem pelas estradas ou gabinetes de alcaides. O fato é que a campanha de Minas já começou. Pelo menos no PT.

Bonde dos reitores

A educação do Brasil não é a melhor do mundo, mas os reitores das federais que se reuniram na terça com o ministro da Educação, em Brasília, não abrem mãos de carros turbinados, com ar condicionado e bancos de couro (foto).

Folga

O ministro Patrus Ananias vai entrar de férias durante 15 dias, a partir de 4 de maio.

Trabalho

Está pronto o modelo de prévias do PSDB para escolher o candidato à Presidência para 2010. Será encaminhado a partir de segunda-feira para José Serra e Aécio Neves.

Torpedo, amém

Vejam como a Igreja entra nos novos tempos, pelo menos fora da liturgia. Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, tem se comunicado por torpedo estes dias com a equipe, em Itaici (SP), onde acontece uma reunião de bispos.

Na rede

Dom Orani, aliás, antenado na internet, avisou à coluna que não descarta lançar um blog para se aproximar do público jovem: "Até teria interesse, mas teria de encontrar tempo necessário para isso".

Lula lá

O presidente Lula já vai lançar o seu blog, dica do parceiro Barack Obama, em dois meses.

Golpe na pista

Há um papo nos corredores do setor de aviação. Tudo o que as aéreas queriam como pretexto para manter os preços das passagens internacionais, contrariando a determinação da Anac, que prevê desconto, era o aumento do querosene de aviação em 6,2%.

Ao mar

Rosinha Matheus, prefeita de Campos, disse à coluna que não foi convidada para ir com o presidente Lula e o governador Sérgio Cabral para alto-mar, no evento em Tupi. Mas, se quiserem, ela vai.

É ela mesma

Do presidente do PT, Ricardo Berzoini, sobre a candidatura ao Planalto: "A ministra (Dilma) tem amplo apoio do partido, e essa questão da doença, pelo tipo de diagnóstico, não dá razão para avaliarmos qualquer alternativa".

Corredor de BH

Com a capital mineira prestes a ser escolhida uma das sedes para a Copa de 2014, o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, quer investir no corredor de ônibus para o evento. Disse que serão 44 quilômetros de vias exclusivas.

Pampulha, não

Apesar de ser assunto da esfera federal, Lacerda disse ter certeza de que o Aeroporto da Pampulha, no Centro, alvo de cobiça das grandes companhias, continuará só para aviação regional.

A bela...

O prefeito negou que tenha havido debate para contratar uma atriz mineira para a propaganda dos 100 dias de governo. "A Patrícia Pillar, além de ótima atriz, já atuou em outras campanhas em BH".

... e a fera

Patrícia é mulher do deputado Ciro Gomes (PSB-CE), que andou xingando no microfone da Câmara semana passada.

Clausura

Paula Oliveira, a brasileira que se enrolou na Suíça com a autoflagelação, e perdeu o namorado, continua em prisão domiciliar, com tratamento psicológico.

ELIANE CANTANHÊDE

Frágil esboço de reação


Folha de S. Paulo - 30/04/2009
 

Cá para nós, Lula nunca se identificou com o Congresso nem valorizou a sua importância. Mas setores do governo, à frente o ministro da Justiça, Tarso Genro, já se mobilizam para tentar neutralizar o preocupante nível de desgaste do Legislativo.
O desequilíbrio é crescente entre os Poderes. O Executivo parece ainda mais forte do que já é naturalmente. O Judiciário está na boca do povo, mas isso não impede que continue invadindo a seara legislativa. Já o Legislativo despenca com castelões, casarões, empresas fantasmas, dinheiro e passagens voando.
Cria-se um círculo vicioso: os escândalos impedem a renovação de agenda e de quadros, e a falta de renovação é uma fonte de escândalos. O ambiente fica irrespirável, e o medo bateu à porta.
Por isso, Tarso Genro foi ontem a Sarney (Senado) e ambos têm linha direta com Gilmar Mendes (STF) e Michel Temer (Câmara) para segurar o Parlamento, um caminhão desgovernado, ladeira abaixo. A imagem já se cristalizou na opinião pública. Eles querem evitar o torpor de quem tem um mínimo de responsabilidade para esboçar reação. Com que arma? Acredite você ou não, com a mesma de sempre: a reforma política, além do tal Pacto Republicando para resgatar a agenda parlamentar.
O operador da reação é o deputado Ibsen Pinheiro, jurando que duas propostas estão a caminho do consenso entre os partidos para aprovação ainda neste semestre: financiamento público de campanha (justamente para atrair "novos talentos") e o voto em lista (para democratizar as eleições).
Neste caso, o projeto tem um doce para os caciques, permitindo lista dupla, como no Uruguai: uma do partido, outra das "bases". E tem outro doce para os atuais parlamentares: eles teriam prioridade numa lista submetida a convenção.
Parece muito pouco para segurar o caminhão na banguela. Mais um quebra-galho para um choque de moralidade que nunca vem.

ARI CUNHA

Salário mínimo


Correio Braziliense - 30/04/2009
 

Desde que criado por Getúlio Vargas, o salário mínimo sempre foi a preocupação dos trabalhadores. Às vésperas de entrar em vigor, ainda não se sabia qual a decisão do presidente. Havia manifestações em vários estados. Sem resultados, porque a determinação do salário mínimo era feita de maneira decisiva e em cima da hora. No governo Lula da Silva, a coisa muda de figura. O próximo salário mínimo será de R$ 506,14. Terá validade somente a partir de janeiro de 2010. Mas será respeitado. O trabalhador terá exigências profissionais a cumprir, mas vai ganhar muito mais. Aulas serão ministradas para que o povo sinta a necessidade de melhorar a parte profissional. A prática mostrava que os aumentos eram mínimos. A sua divulgação sempre foi motivo de reclamações para quem estava empregado. O trabalhador, no mais das vezes, apertava o cinto e sempre dava para viver. Outros, afoitos, protestavam, mas não tinham direitos a tanto. Com a inversão das coisas, a mudança foi total. O salário mínimo sempre é de bom alvitre para quem vive dele. A dificuldade do momento são as prefeituras pobres e os estados de salários baixos. Há lugares em que o salário mínimo não é atendido pelos governos. Quem trabalha para empresas particulares tem a vantagem de o dinheiro estar em dia na data exata.


A frase que não foi pronunciada

“De duas coisas ninguém foge na vida: morte e impostos.”
Dona Maria das Dores, pensando enquanto acompanha a declaração de renda.


Democracia 
Viver em um país cheio de corrupção, mas democrático, é uma coisa. Enquanto a classe artística reclama das empresas aéreas brasileiras quanto ao transporte de instrumentos musicais, na Rússia, nenhuma flauta ou qualquer outro instrumento sai do país sem a anuência de autoridades do governo. 

Atualizado 
Sérgio Maggio, jornalista da casa, entrou na teia do Twitter. Onda criada na Califórnia. Trata-se de um miniblog em que as notícias são enviadas para interessados com poucas palavras e em vários momentos do dia. Por celular ou pelo computador. Considerada a rede social que mais cresce na atualidade. 

Vigilância 
Cada vez que a Anvisa demora no processo de registro de um agroquímico, as multinacionais avançam. Com a patente dos substitutos, rapidamente tomam o lugar dos genéricos nacionais. O Senado pede respostas aos ministérios da Saúde e Agricultura. 

Mau negócio 
Assustado, o poupador sente saudades do tempo dos cofres de porquinhos. Depositados R$ 1 mil na poupança. Meses depois, o dinheiro rendeu só para o banco. O cliente sacou os R$ 996 que sobraram e deu o veredicto: “Testado e reprovado”. 

Cachaça 
A perfeição com que se fabrica cachaça em Salinas, Minas Gerais, é uma realidade. Mas há exploração no pedaço. Há garrafa de cachaça vendida acima do valor de quatro litros de uísque escocês. Convenhamos que é exagero cobrar tanto por bebida que se faz a custo infinitamente menor. 

Trânsito 
Brasília começa a sofrer com o trânsito. O número de veículos vendidos tem dado boa renda ao Distrito Federal. Bom seria que mais carros fossem vendidos no DF. O que falta são pistas. Construí-las em Brasília não custa nada de indenizações de áreas. 

Artistas em dificuldades 
Artistas profissionais estão sofrendo a dificuldade da vida na Europa. Com a perda do valor do euro, o orçamento de quem vive das artes ficou mais apertado ainda. A intenção de alguns prejudicados inicialmente foi mudar para outros países. Pior é que a crise econômica abate todas as profissões e a dos artistas é atingida em cheio.

História de Brasília

O pessoal que mora nas casas da Caixa Econômica está todo satisfeito, pensando que terá poste duplo para a iluminação de suas casas. Mas não é nada disso. Foi erro de engenharia, mas os postes mal colocados já estão sendo substituídos. (Publicado em 29/1/1961)

MÍRIAM LEITÃO

Balanço das horas


O Globo - 30/04/2009
 

A economia, onde havia maior emergência, foi o ponto em que o presidente Barack Obama teve o desempenho mais fraco. Em 100 dias ele fez mudanças históricas nas áreas ambiental, política internacional, científica. Mas ainda patina na crise econômica. O fantasma da crise bancária ainda não foi afastado, as montadoras continuam quebradas, o plano de estímulo não chegou às pessoas.

 

Na época da campanha eleitoral, Obama falava sempre do conflito entre Wall Street e Main Street, numa alegoria da encruzilhada entre o mundo das grandes finanças e o mundo do cidadão comum. Prometeu que sua prioridade seria Main Street. Nenhuma das duas respira aliviada, mas seu governo passou pelo dissabor de ver que os executivos de uma seguradora quebrada, onde o contribuinte pôs mais de uma centena de bilhões de dólares, pagou bônus aos seus executivos. Wall Street levou a melhor neste caso.

 

Ontem foi divulgado o terceiro trimestre consecutivo de encolhimento do PIB americano. Um tombo maior do que o esperado, acima de 6%. Três trimestres de queda é um fato que só aconteceu 34 anos atrás. A utilização da capacidade ociosa está no mais baixo nível desde que o dado existe: 1967.

 

É resultado ainda da herança maldita. Ele recebeu um país em recessão grave, sob risco de depressão. Ninguém resolve isso em 100 dias. Qualquer pessoa sabe que a economia tem seu tempo e decisões de hoje demoram a fazer efeito. O programa de estímulo só começará a ter impacto realmente relevante em meados do atual trimestre, mas é mais seguro esperar reflexos no segundo semestre.

 

A pedra da crise bancária está no mesmo lugar. Ele anunciou pacotes de trilhões que ainda não levaram a nada de concreto. Sem a solução desse problema, não haverá remédio duradouro para a crise econômica.

 

O secretário do Tesouro, Timothy Geithner, já entrou enfraquecido no cargo, por causa do escândalo da não declaração do dinheiro recebido quando era funcionário do FMI. Só por ficar na defensiva ele já perdeu parte do impulso inicial. Seu plano, que foi anunciado como a grande solução, ainda não produziu efeitos concretos.

 

Quando surgiu, no dia 10 de fevereiro, foi recebido com dúvidas e ceticismo.

 

O mercado despencou.

 

Quase um mês depois ele foi detalhado, e o mercado reagiu bem.

 

O governo americano anunciou que usaria algumas armas: um plano de capitalização dos bancos, desde que eles se mostrassem viáveis através dos testes de estresse; um fundo formado por capital público e privado para a compra de ativos podres; outra parte seria dinheiro do Fed, para reativar o mercado de papéis lastreados em diversas dívidas, como cartão de crédito, financiamento de estudante e ativos imobiliários.

 

Tudo isso era para evitar a estatização dos bancos, mas se parece com uma espécie de estatização envergonhada, pela porta dos fundos. Os 19 maiores bancos estão sendo auditados nesses testes de estresse, mas o que se sabe é que até os mais fortes, como o Citibank e o Bank of America, receberão novas montanhas de dinheiro do contribuinte.

 

Aí fica uma grande questão: qual a diferença em relação aos cheques distribuídos aos banqueiros pelo governo Bush? A outra ferramenta de capitalização dos bancos — o fundo com capital privado e público — não virou realidade.

 

A novidade neste ponto é que o governo encontrou uma fórmula para sair da armadilha de arbitrar quais ativos dos bancos seriam podres e que valor eles teriam: realizar leilões dos papéis que os bancos decidissem que são podres e, nos lances que dessem, os eventuais compradores é que arbitrariam o valor. A solução foi encaminhada, mas o governo se perdeu no temor de fazer uma estatização assumida.

 

Tenta encontrar uma saída que o afaste dos extremos: a estatização ou a quebra de bancos.

 

Obama tem que remover os destroços da crise bancária e conseguir fazer com que o sistema volte a funcionar, para que a economia retome o crescimento em algum momento.

 

Em outras áreas, Obama fez muita diferença em pouco tempo. Mudaram de água para vinho a atitude e a política do governo americano em relação ao tema mais decisivo do século XXI: a mudança climática. O presidente já retirou o veto dos Estados Unidos a um acordo climático global e fez reuniões com os principais emissores dos gases de efeito estufa para mostrar a eles que o caminho, agora, é o da conciliação com o planeta. O órgão ambiental do governo tomou uma decisão histórica ao reconhecer a letalidade dos gases de efeito estufa e agora ele busca, no Congresso, uma lei que restrinja as emissões. Na área científica, a chegada de Obama equivale ao fim da visão medieval de Bush, que proibia pesquisas com célulastronco e censurava cientistas na questão climática, para o mundo novo do iluminismo.

 

A Ciência voltou a respirar o ar da inteligência livre com Obama no poder.

 

Na política internacional, ele fez gestos aguardados há décadas, como anunciar o fechamento de Guantánamo e ter uma palavra serena em relação ao mundo árabe. Nas reuniões da Cúpula das Américas e do G20, o país de Obama mostrou um jeito diferente: mais humilde, mais sedutor, mais moderno.

O IDIOTA


CLÓVIS ROSSI

A fábrica da desigualdade


Folha de S. Paulo - 30/04/2009
 

Perdoe o leitor se insisto no tema da desigualdade. Mas, se o presidente Lula pôde dizer uma vez que, qualquer dia, alguém o apontaria como "o chato do etanol", de tanto que fala no assunto, não me incomoda tornar-me "o chato da desigualdade".
É, afinal, a maior chaga aberta na pátria. Chaga que tem sido escamoteada pela lenda de sua queda, baseada em pesquisas que apontam apenas a diminuição da desigualdade entre salários, não entre rendimentos do capital e do trabalho -essa sim a grande diferença.
Para piorar ainda mais as coisas, há o fato de que a desigualdade é não apenas de renda mas também de oportunidades, de que dá contundente prova o resultado do Exame Nacional do Ensino Médio.
Aceitando o precioso ensinamento contido na análise de Antônio Gois na 
Folha de ontem, nem vou falar da abissal diferença de desempenho entre escolas públicas e privadas, velha conhecida.
O ponto principal, exposto por Gois e também por Reynaldo Fernandes, responsável pelo Inep, o instituto que faz o exame, é este: "Nenhuma prova mede só a qualidade da escola. Mede a do aluno, a formação dos pais e o contexto socioeconômico", como diz Reynaldo Fernandes.
Tradução: filho de família pobre vai para escola pobre (no sentido de qualidade de ensino), filho de rico, para escolas mais equipadas. Consequência inexorável: o filho do rico tem mais possibilidades, também pela educação, de continuar rico ou ficar mais rico, enquanto ao filho do pobre o que se oferece é uma grande chance de perpetuação da pobreza -e, por extensão, da desigualdade com o concorrente rico.
Fecha o círculo a afirmação de Fernandes de que "esse resultado se repete ano a ano", coisa, de resto, que todos estamos cansados de saber. Traduzindo: ano a ano, mantemos o molde da desigualdade.

QUINTA NOS JORNAIS

- Globo: Alerta mundial cresce e OMS diz que pandemia é iminente 

 

- Folha: OMS alerta para "pandemia iminente"

 

- Estadão: OMS eleva ainda mais alerta para gripe suína

 

- JB: Juro brasileiro cai de 1º para 3º do mundo

 

- Valor: Abril termina com um novo ânimo no mercado de ações

 

- Gazeta Mercantil: Gripe suína beira a pandemia, mas bolsas sobem no mundo

 

- Estado de Minas: Risco maior de gripe está em BH e São Paulo

 

- Jornal do Commercio: Leão nas alturas

quarta-feira, abril 29, 2009

AUGUSTO NUNES

veja on-line

O homem do top-top-top está muito animado com mais uma má notícia

29 de abril de 2009

Só a descoberta do defeito mecânico no avião da TAM que explodiu no fim da pista de Congonhas deixou Marco Aurélio Garcia tão animado quanto a descoberta da doença da ministra Dilma Rousseff. Em julho de 2007, o assessor especial do presidente Lula saudou com o mais ultrajante top-top-top a notícia, divulgada pelo Jornal Nacional, de que a negligência do governo federal não fora a causa principal do acidente que matou 154 brasileiros. Flagrado por um cinegrafista, tentou reduzir a celebração obscena a um desabafo gestual endereçado aos eternos inimigos do povo, interessados em desmoralizar um sistema de transporte aéreo impecável. Se o culpado fora o piloto, a TAM que se explicasse. Quanto aos parentes das vítimas, que se queixassem à empresa. Ou a Fernando Henrique Cardoso.  Ou ao bispo.

Agora longe de câmeras que ignoram o direito à privacidade, vem aí mais um top-top-top do especialista em complicações cucarachas que só por falta de tempo não virou garoto propaganda do programa Saúde Bucal. A julgar pelas primeiras declarações sobre o câncar de Dilma, Garcia só espera que a escolhida por Lula apareça um pouco melhor no retrato extraído da próxima pesquisa de opinião para comemorar a (para os adversários) péssima notícia: o linfoma da candidata livrou o PT de agonizar abraçado a candidatos acometidos de anemia aguda.”Eu ouvi um parecer do meu filho que é médico que me deu duas opiniões e me parece que a segunda é mais importante”, começou o diagnóstico. “Do ponto de vista médico ele me disse que ela tira isso de letra, mas do ponto de vista político ele disse que isso vai reforçar a candidatura dela”. Do ponto de vista do Brasil que pensa, Garcia conseguiu, com 53 palavras, agredir o idioma, atropelar a sensatez e esfaquear a misericórdia.

Ele também ouviu o filho mora em Londres antes de afrontar milhões de brasileiros feridos pelas dimensões apavorantes do desastre no aeroporto em São Paulo. “Tivemos uma conversa por telefone”, informou. Não foi uma conversa, soube-se agora. Foi uma consulta com o jovem inventor da medicina política. Há dois anos, deve ter ouvido do garotão que mais importante que confortar os parentes das vítimas era isentar o governo de culpas. Nesta semana, ouviu o parecer que apresentou ao Brasil a versão londrina do médico modelo de Lula.

Como ensinou o presidente, o filho de Garcia não diz  “sifu” nem ao moribundo na hora da extrema-unção. Mas vai além: depois de dizer ao paciente que existem chances de escapar da morte, também oferece uma taça de champagne. O conselheiro de Lula prefere festejar más notícias com o top-top-top popularizado nos melhores tempos do Pasquim por uma das grandes criações do cartunista Henfil: Baixim, um dois fradinhos, que vivia batendo uma mão aberta na outra fechada para provocar Cumprido, o parceiro bem-comportado. Garcia usa o gesto para provocar o país.  O filho de Henfil era divertidamente perverso. O pai do gênio de jaleco é apenas cruel.

Em “Bonitinha, mas ordinária”,  um personagem de Nelson Rodrigues repete obsessivamente que “o mineiro só é solidário no câncer”. A mineira Dilma acaba de descobrir que o gaúcho Garcia não é. Nem num linfoma.

GRIPE SUÍNA

Perguntas & Respostas


Gripe suína: entenda como a epidemia começou


Depois de amedrontar os mexicanos e americanos, a gripe suína ameaça se alastrar pelo mundo, num devastador efeito dominó, e já deixa em alerta autoridades sanitárias de vários outros países. A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirmou que existe risco de uma nova pandemia mundial. Entenda o que é a doença e como ela surgiu.

1. O que é a gripe suína?
Uma doença respiratória que começa em criadores de porcos, um vírus gripal do tipo A que pode se propagar rapidamente. A transmissão começa, em geral, por meio de pessoas que estejam em contato com esses animais. A epidemia teve início no México, o país mais atingido.

2. Quais os sintomas?
Os sintomas da gripe suína são similares ao da gripe comum, porém mais agudos. Segundo o Ministério da Saúde, é comum o paciente apresentar febre acima de 39 graus, acompanhada de problemas como tosse e dores de cabeça, nos músculos e nas articulações.

3. Qual é o agente causador da doença?
O vírus influenza. Assim como no ser humano, os vírus da gripe sofrem mutação contínua no porco, um animal que possui, nas vias respiratórias, receptores sensíveis aos vírus da influenza suínos, humanos e aviários. Os porcos tornam-se, então, como que tubos de ensaio, que combinam e favorecem o aparecimento de novos tipos de vírus. Esses vírus híbridos podem provocar o aparecimento de um novo tipo de gripe, tão agressivo como o da gripe aviária e tão transmissível como o da gripe humana. Ainda desconhecido do sistema imunológico humano, esse vírus poderia desencadear uma pandemia de gripe.

4. Quais são as formas de contágio?
A gripe de origem suína não é contraída pela ingestão de carne de porco, mas por via aérea, de pessoa para pessoa, como recordou neste sábado em Paris o Ministério da Agricultura. Isso porque, de acordo com os Centros de Controle de Enfermidades dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês), a temperatura de cozimento (71º Celsius) destrói os vírus e as bactérias presentes na carne de gado suíno. Preocupados com a transmissão pelo ar, alguns mexicanos estão usando máscaras cirúrgicas e evitando o contato muito próximo com outras pessoas.

5. A doença gripe suína tem cura?
Drogas antivirais podem ser usadas no tratamento e na prevenção do mal. Sua atuação consiste em impedir que o vírus da gripe suína se reproduza dentro do corpo humano. A eficácia do tratamento será maior se ele for iniciado até dois dias após os primeiros sintomas.

6. Existe vacina contra o mal?
Só para porcos. Não para o ser humano. Segundo as autoridades mexicanas, que citam a Organização Mundial de Saúde (OMS), a vacina existente para humanos é para um tipo anterior do vírus, contra o qual não é tão eficaz. Mas "a produção de vacina pode tornar-se possível na medida em que o vírus tenha sido identificado". O Tamiflu, o medicamento que contéme oseltamivir, utilizado contra a gripe aviária, é eficaz, diz a OMS. A vacina contra a gripe estacionária humana não protege contra a gripe suína.

7. O que a OMS diz a respeito? 
A OMS está em estado de alerta, "porque há casos humanos associados a um vírus de gripe animal, mas também pela extensão geográfica dos diferentes focos, assim como pela idade não habitual dos grupos afetados", segundo a entidade afirma em comunicado oficial. A OMS elevou o atual nível de alerta de pandemia de 3 para 4 (o que ainda não caracteriza a existência de pandemia). A escala vai de 1 (baixo risco de casos humanos) a 6 (transmissão sustentável e eficiente entre humanos).

8. A internet oferece fontes seguras de informação sobre o assunto?
Sim. Os sites da OMS (em inglês, com opções de espanhol e francês), da Organização Panamericana de Saúde (Opas, em inglês e espanhol) e dos Centros de Controle de Enfermidadesdos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês, idioma do site)

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BRASIL S.A

Perversão política


Correio Braziliense - 29/04/2009
 

Explorar a doença da ministra para alçar a sua candidatura é cruel e desrespeitoso


A perversão na política nacional não tem limites, e não se resume à manipulação do mandato parlamentar para fins particulares, como se descobre pela revelação dos podres do Congresso. A exposição da doença da ministra Dilma Rousseff — um tumor no sistema linfático, felizmente diagnosticado em estágio inicial — foi um exemplo de desprendimento pessoal. Mas deturpado por oportunismo dos outros. 

O consultor de política externa do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, declarou que “isso”, referindo-se ao tumor, “vai reforçar a candidatura dela”. Não se diz “isso”. É câncer. Outros aliados disseram coisas assemelhadas. Fica implícita a visão utilitarista. 

Não se diz coisas assim sobre mal tão agressivo, que abate, reduz a imunidade, provoca reações desagradáveis, dando teor oportunista às manifestações espontâneas e sinceras de solidariedade de todos. 

A corrida eleitoral é um detalhe, além de distante, para daqui a 18 meses. Nem deveria já estar lançada pelo presidente Lula à sua sucessão, embora informalmente. Ela pode ser a candidata, mas por ora tem obrigação maior com sua própria saúde — e é só o que lhe deve importar, sem constrangimentos. Soa muito mal dizer que “isso deve ter impactado muito bem na opinião pública do país”, como se drama pessoal fosse atributo para eleger seja lá quem. 

Foi desrespeitoso, mas também cruel. Em Manaus, o presidente, ao lado da ministra, disse ter “a convicção de que ela não vai parar um dia sequer”, ainda que antes tenha afirmado que “a prioridade zero é cuidar da saúde dela, até porque com essas coisas a gente não brinca”. Dilma é candidata, ministra de coordenação gerencial do governo, na prática, e gestora do programa de obras do PAC. 

A ordem de importância das responsabilidades merece ser revista. Sem pressão, que é o que a submete tais manifestações — mesmo que ela as receba como normais. A tendência em situações-limite como esta é a vontade de superação. Mas depende do que. Da doença, a força interior é decisiva. Para mostrar-se supermulher, é exigir demais de um momento de submissão total às ordens médicas. 

Não será preciso muito mais para se diferenciar na cena nacional. O festival de horrores exibido pelos parlamentares já destaca quem tenha um mínimo a apresentar, e a ministra tem bem mais que isso. 

A Câmara se convence 
A Câmara na derradeira hora voltou atrás e fez aprovar por ato de sua direção as medidas moralizadoras propostas pelo presidente da Casa, deputado Michel Temer. Se fosse a voto no plenário, como uma grande parcela dos deputados pretendia, não era pequeno o risco de derrota de Temer, lançando a Câmara num buraco pior do que está. 

O que se aprovou foi a limitação da cota de passagens aéreas só ao parlamentar. Viagens ao exterior e de assessores a serviço vão ter de passar pela Mesa da Câmara. O Senado já havia feito igual. 

Se houver transparência, talvez não se ouçam mais histórias de deputados doando passagens a time de futebol do Ceará ou levando a namorada famosa e a sogra para passear em Miami. Ou do senador que as sorteou em festa de fim de ano entre jornalistas de seu estado. 

Mas há mais absurdos 
Outro pagou advogado contratado para defendê-lo junto à Comissão de Ética com verba de gabinete. Só pode ser sarcasmo tanto quanto a do casal de parlamentares que embolsa ajuda-moradia residindo em Brasília. Os acintes não param. Descobriu-se, melhor, atentou-se — pois tudo é do arco da velha — para outra aberração no limite da decência: senadores e familiares dispõem de plano de saúde para a vida toda, vitalício, com reembolso até de consultas médicas. 

Suplentes também, mas precisam exercer o mandato por seis meses. Ah, bom! Até 1995, bastava um dia de mandato para o senador ter o seguro-saúde vitalício. Os que os faz melhores que os brasileiros em geral, sem acesso a privilégios, e que lhes pagam os salários? 

Expedientes amorais 
A perplexidade está em toda parte. Só parece não ser maior que a dos parlamentares, surpresos com a divulgação de seus expedientes amorais e a reação do que chamam de “pulsar das ruas”. Moralizar o acesso às passagens foi um começo. Restam as demais mordomias, da época da mudança para Brasília, que se perpetuaram e cresceram. O subsídio existe para permitir a quem tenha poucos recursos exercer o mandato parlamentar. Este é o limite ético do incentivo. O resto não pode diferir do que é possível às pessoas em geral. Quem não gostar que não se candidate. Política é missão, não meio de vida. 

Nem tudo está perdido 
A sacudida entre os parlamentares já provoca indícios de que nem tudo está perdido. O líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza, por exemplo, defende uma “reforma administrativa profunda, porque há problemas não só no Legislativo, mas em todos os poderes”. Ele propõe desvincular os salários de deputados federais e senadores dos de deputados estaduais e vereadores, assim como de promotores e procuradores dos vencimentos da magistratura. A idéia é acabar com o efeito cascata, que amarra uma categoria à outra, mesmo que a similitude seja apenas aparente. Vaccarezza retoma antiga visão do PT sobre a vida pública. É um avanço. Voltaremos ao tema.