sábado, janeiro 17, 2009

RUY FABIANO

O terrorista é nosso

BLOG DO NOBLAT

Nos anos 80 do século passado, a diplomacia brasileira comprava uma briga bizarra com a inglesa em torno de um personagem que estava longe de justificá-la: Ronald Biggs, foragido depois de assaltar, em 1963, um trem do correio inglês, que recolhia depósitos de bancos da Escócia e os levava para Londres.

Roubou 631 mil e 784 libras esterlinas em notas miúdas - o equivalente hoje a cerca de 220 milhões de reais. Era o maior assalto naqueles moldes já havido.

Biggs teve melhor sorte que seus comparsas e conseguiu fugir da prisão para o Brasil, depois de passar pela Austrália e Panamá, alojando-se no Rio de Janeiro, em 1970, com a parte que conseguiu salvar do assalto (e que nunca se soube quanto era).

Desfrutava de uma rotina discreta de bon vivant, freqüentando boates e moças da rua Prado Junior, em Copacabana. Quando descoberto, no final dos anos 70, tratou de ter um filho com uma delas, a dançarina Raimunda de Castro, para garantir direitos de cidadania brasileira. E, espantosamente, conseguiu.

Não obstante o empenho do governo britânico, o Itamaraty esmerou-se em preservá-lo. Biggs acabou preso por conta própria: acreditou num acordo com a polícia inglesa, que, em troca de sua entrega, prometia libertá-lo em curto prazo. Não foi assim. Entregou-se e cumpre hoje pena de prisão perpétua na prisão de Belmarsh, de segurança máxima, em Londres.

Na Inglaterra, ao contrário do Brasil, os crimes não prescrevem. Seu filho brasileiro, Michael Biggs, famoso por integrar nos anos 80 a banda infantil Turma do Balão Mágico, da TV Globo, sustenta que ele é prisioneiro político e tenta, em vão, sensibilizar os tribunais europeus de direitos humanos para a situação do pai, que, depois de preso, e hoje com 80 anos, já teve três derrames.

Não há, porém, nos tribunais europeus um Tarso Genro. Se houvesse, é provável que Biggs, a esta altura, já estivesse solto, escrevendo suas memórias. Tarso, como se sabe, acaba de considerar perseguido político – e em decorrência, a lhe conceder asilo – o terrorista italiano Cesare Battisti, de 54 anos.

Battisti foi condenado a prisão perpétua em seu país por nada menos que quatro assassinatos, quando liderava um grupo terrorista denominado Proletários Armados pelo Comunismo (PAC).

Nada atenua os seus crimes. O seu país não vivia em regime de exceção, o que, em tese, poderia justificar o recurso à ação armada. Vivia, como ainda vive, em pleno Estado democrático de Direito. Foi julgado, portanto, segundo o processo democrático, e considerado terrorista. Pela Constituição brasileira (artigo 5º, incisos XLIII e XLIV), terrorismo, como a tortura, é definido como “ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático”. É, nesses termos, crime hediondo, “inafiançável e imprescritível”, e “insuscetível de graça ou anistia”. O ministro ignorou, portanto, a Constituição.

Mais: o Brasil mantém acordo de extradição com a Itália, que, com base nele, reclama o terrorista. O Estado brasileiro, antes do inusitado gesto do ministro da Justiça, Tarso Genro, manifestara-se, como não poderia deixar de ser, favoravelmente à extradição.

O Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão do próprio Ministério da Justiça, e integrado por representantes do Itamaraty e da Polícia Federal, negou asilo ao prisioneiro. Tarso passou por cima disso, e do Supremo Tribunal Federal (a quem, segundo os especialistas, deveria caber a palavra final), e da Constituição, e considerou o terrorista e homicida “refugiado político”.

Além de semear perplexidade em seu redor – ele, que, paradoxalmente, quer rever a Lei de Anistia para condenar crimes contra a humanidade -, gerou um conflito diplomático absolutamente desnecessário com a Itália. Conflito constrangedor, pois não há razões morais e jurídicas a respaldar a decisão brasileira.

É interessante que o mesmo ministro, que invoca agora razões humanitárias, tenha negado asilo a dois boxeadores cubanos que, em 2007, após o Panamericano, no Rio, pediram para refugiar-se no Brasil, temendo perseguições em Cuba. O governo brasileiro, Tarso Genro à frente, devolveu-os a Fidel Castro, que os encarcerou.

Para que defendê-los? Eram atletas – e ao Brasil só interessam bandidos e terroristas, como Biggs e Battisti, embalados por seus defensores numa aura romântica de heróis contemporâneos. Desistam, italianos: o terrorista é nosso!


Ruy Fabiano é jornalista

DORA KRAMER

No modo empírico

O ESTADO DE S PAULO

O presidente Luiz Inácio da Silva já deu a resposta às autoridades italianas que manifestaram intenção de pedir a ele que reveja a extradição de Cesare Battisti: é não. Segundo ele, trata-se de uma questão de soberania nacional. Lula pede respeito à decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, em mais uma demonstração da sua (de ambos) capacidade de escrever errado por linhas tortas.

A soberania do Estado brasileiro não esteve em destaque quando os pugilistas cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara deixaram a comitiva do Pan-Americano, no ano passado, em busca de asilo.Ali se despacharam os esportistas para atender de pronto à ditadura amiga, desconsideraram-se as óbvias circunstâncias e montou-se uma ficção – com a gentil colaboração da miopia nacional – segundo a qual os atletas estavam desorientados, mas loucos para voltar a Havana. Onde os aguardavam as respectivas famílias, reféns do regime, e a interrupção das carreiras a título de punição exemplar.

Aqui, no caso do italiano, simplesmente se ignoraram as posições de instância consultiva do próprio Ministério da Justiça (o Conselho Nacional de Refugiados), do procurador-geral da República, do Itamaraty e se houve por bem interferir no processo judicial italiano.

O presidente da República põe a autonomia do Estado brasileiro na roda por causa de uma questão de cunho ideológico. Pede respeito à decisão de Tarso Genro, mas desrespeita as posições do procurador, do Conare e do Ministério das Relações Exteriores, quando menospreza o contraditório e diz que o ato foi uma "decisão do país".

As instâncias contrárias, ao que se sabe, fazem parte do país. São todas constitucionalmente legítimas, não se pode acusá-las de intromissão indevida nem se deve deixar de considerar a hipótese de que tenham embasado suas posições no processo, na diplomacia, na legislação nacional e internacional e, sobretudo, no bom senso.

A extradição, portanto, não foi uma sentença decretada pelo "Brasil". Foi uma atitude de caráter particular, produto de um modo de pensar. Respeitável, embora não representativo da soberania nacional, muito menos adequado do regime democrático, por autocrático.

A se aceitar a alegação do presidente, chega-se à conclusão de que o Ministério Público, a Chancelaria e o órgão auxiliar do Ministério da Justiça para assuntos afins não se aliam aos preceitos da autoridade moral do Brasil. E para raciocinar por hipótese, em situação de semelhante agressão à soberania estará o Supremo Tribunal Federal, se porventura vier a acatar o recurso do governo italiano.

Tal possibilidade, entretanto, por ora é mera suposição. De concreto, o que se tem é, de um lado, o peso de instituições abalizadas e desapaixonadas e, de outro, o presidente de novo exercendo o hábito de decidir de ouvido.

Segundo consta, Lula não sabia nada sobre o caso até o mês passado e foi convencido pelo ministro da Justiça e pelo jurista Dalmo de Abreu Dallari de que a extradição obedeceria à tradição brasileira.

Tal relato poderia não ser digno de confiança, mas não são boatos porque combinam perfeitamente com as declarações do presidente a respeito. De acordo com Lula, a decisão se justifica porque o "Brasil é um país generoso" e Cesare Battisti foi condenado "por um crime antigo". Além disso, "passado tanto tempo ele é outra pessoa, é um escritor".

Ademais, pondera, a França concedeu asilo a outro acusado "das mesmas coisas". O presidente Lula não tem, e expõe a evidência, nada mais que uma leve impressão sobre o assunto. Repete de forma superficial o que ouviu de um lado e se abstém de cotejar todas as informações ou ao menos de perguntar ao procurador-geral, ao ministro das Relações Exteriores a razão de seus votos contrários à extradição.

A intuição é um excelente atributo, o empirismo funciona, mas a ausência de conhecimento e de curiosidade em geral induz ao equívoco. Não necessariamente em relação ao conteúdo, mas no tocante à abordagem de um tema quando assume o caráter de polêmica.

É de se esperar que o presidente da República nessas ocasiões esteja preparado para debater em patamar mais elevado e condizente com a soberania nacional.

Quanto pior

No discurso, o DEM e parte do PSDB apoiam a candidatura de José Sarney para a presidência do Senado por respeito ao princípio da proporcionalidade, já que o PMDB é a maior bancada da Casa.

À vera, porém, apoiam porque é o caminho mais curto para o atrito irremediável entre o PT e o PMDB. Experientes do tema, tucanos e ex-pefelistas, hoje democratas, sabem o custo presumido desse tipo de conflito.

Similar

Com o delegado Protógenes Queiroz na chefia de inquéritos, o advogado de defesa é quase um acessório dada sua inesgotável capacidade de abrir brechas para anulação de provas.

LAURO JARDIM

REVISTA VEJA

Panorama
Radar

Lauro Jardim
ljardim@abril.com.br


• Televisão

Record bate Globo e compra Pan de 2015
Na quinta-feira passada, ocorreu mais um embate feroz entre a Globo e a Record na Cidade do México. A vencedora foi a emissora do bispo Edir Macedo. Por cerca de 20 milhões de reais, a Record comprou os direitos de transmissão para o Brasil e para o mundo dos Jogos Pan-Americanos de 2015, cuja cidade-sede ainda não foi definida. Adquiriu os direitos não só para a televisão, mas para todas as mídias. É a quarta vez consecutiva que a Record bate a Globo numa disputa olímpica: venceu também a briga para transmitir os Jogos Olímpicos de Inverno de 2010, o Pan de 2011 e a Olimpíada de Londres, em 2012.

 

Os quatro temas-chave de Aécio 2010

Lailson Santos
O conciliador Aécio: ele acha 
que a capacidade de atrair opostos pode ajudar


A estratégia de pré-campanha de Aécio Neves para 2010 não se resumirá a viagens por todos os estados brasileiros entre março e outubro. Aécio não quer debater soluções para o país de mãos vazias. Para isso, encomendou propostas a alguns economistas ligados à Casa das Garças (um centro de pensamento econômico sediado no Rio de Janeiro, fortemente ancorado na turma da PUC-RJ). Aécio quer escolher quatro temas-chave, botá-los debaixo do braço e rodar o país discutindo-os. Seria uma espécie de carta de intenções. Ele tem dito a interlo-cutores mais próximos que um apelo poderoso de sua imagem como político é a conciliação. Algo que não é próprio nem de José Serra nem de Dilma Rousseff. Seria o perfil político mais adequado a um momento de crise econômica.

 

• Eleições 2010

Marta e Dilma
Marta Suplicy tinha planos de ficar na muda neste semestre. Mudou de ideia. Resolveu oferecer em sua casa um jantar de apoio a Dilma Rousseff no dia 13 para tentar espantar os rumores de que não está contente com a escolha de Lula para 2010.

 

 

Beto Barata/AE
O consultor
Dirceu: temporada de dois meses de estudos em Nova York

• PT

Sala de aula
O ex-líder estudantil José Dirceu voltou a estudar. Desta vez, inglês. Desde o início de janeiro, Dirceu está em Nova York, matriculado em um curso intensivo para afiar o seu inglês. É colega de escola do ator Lázaro Ramos. A temporada nova-iorquina de Dirceu, que alugou um apartamento no Upper West Side, termina no fim de fevereiro.

 

• Câmara

Prêmio de consolação
Os aliados de José Sarney na disputa pela presidência do Senado começam a se articular para que o petista Tião Viana fique com o cargo de líder do governo no Congresso – em substituição a Roseana Sarney. Sai Sarney, entra Sarney...

Com a bênção de Lula
A propósito da eleição para a presidência do Senado e da conversa que José Sarney e Lula terão nos próximos dias sobre o assunto, o senador Cristovam Buarque observa: "Esse processo me dá vergonha. Sinto-me como no tempo dos militares, em que o presidente do Senado é escolhido pelo Palácio do Planalto. Que democracia é essa?".

 

• Cerveja

A número 1 de lá
Portugal é testemunha de uma "guerra" que o brasileiro já viu muitas vezes: a das cervejas. A Sagres acaba de destronar a Super Bock, tornando-se a número 1 no país, depois de vinte anos na vice-liderança. A artilharia da guerra de lá veio do publicitário Eduardo Fischer, que detém a conta da Sagres e participou de todas as guerras de cervejas no Brasil.

 

• Cinema

Nossa Hollywood
Depois de virar um filão dos cineastas brasileiros, com Cidade de Deus, Tropa de Elite, Ônibus 174 e tantos outros, a violência no Rio de Janeiro torna-se agora tema de um diretor estrangeiro. Jon Blair, vencedor do Oscar de melhor documentário em 1995, acaba de concluir um filme sobre o faroeste carioca. O documentário recebeu o nome provisório deDancing with the Devil in the City of God (Dançando com o Diabo na Cidade de Deus) e mostra a vida de dois dos dez traficantes mais procurados do Rio de Janeiro, que abrem sua casa, mostram sua família e os territórios que dominam.

 

• Turismo

Dólar bem-vindo

Oscar Cabral
De bolsos abertos
Os turistas estrangeiros quase triplicaram seus gastos em cinco anos

O Banco Central anuncia nos próximos dias que 2008 fechou com um ingresso recorde de dólares trazidos pelos turistas estrangeiros. Eles gastaram 5,7 bilhões de dólares por aqui – 26% a mais do que os 4,5 bilhões de dólares de 2007 e quase o triplo do registrado em 2003. O número de turistas, contudo, permanece inalterado: 5,2 milhões em 2008, na maior parte americanos.

J. R. GUZZO

REVISTA VEJA

J.R. Guzzo 
Opção inválida

"O problema real não é o estado brasileiro ser
forte ou fraco; o problema é que ele não existe"

Está de novo no ar a discussão em torno da necessidade de estabelecer um "estado forte" no Brasil. O estímulo para o debate, desta vez, é a crise econômica, que turbinou os amigos do "estado forte" pelo mundo afora – eis aí, argumentam eles, a prova de que os governos têm de mandar muito mais do que mandam, para não deixar que problemas tão sérios assim continuem ocorrendo. Os mais esperançosos chegam a imaginar, até, que existe em toda essa história uma demonstração de que o capitalismo, afinal, ainda pode ser derrotado em algum momento do século XXI, após 200 anos de tentativas malsucedidas para acabar com ele. Os menos ambiciosos se contentam com uma situação em que a liberdade econômica é tolerada, mas na qual sempre caberá ao governo dar a palavra final (e a inicial, também) em tudo o que julgar de alguma importância.

Não é por falta de torcedores que o Brasil não desfruta, neste momento, os benefícios do "estado forte". No governo, por exemplo, todo mundo é a favor – e mesmo quem não pensa muito no assunto diz que é, se por acaso alguém perguntar. Os dois nomes mais citados para a eleição presidencial de 2010, a ministra Dilma Rousseff e seu principal adversário, o governador de São Paulo, José Serra, são tidos como grandes amigos do "estado forte". Na verdade, o difícil hoje em dia é achar quem pense diferente – na política em geral, nos meios universitários, nas associações de empresários, nos órgãos de comunicação, nos sindicatos e por aí afora. (Muita gente, é claro, não está nessa discussão a passeio. As empreiteiras de obras públicas, por exemplo, estão sempre entre as mais entusiasmadas admiradoras do "estado forte" neste país.)

A dificuldade de tirar algum proveito efetivo dos discursos sobre o assunto está no seu ponto de partida. O problema real não é o estado brasileiro ser forte ou fraco; o problema é que ele não existe. Não existe em grande parte do território nacional, nem nas realidades práticas da vida diária de milhões de cidadãos brasileiros. Para que ficar pregando as virtudes de um poder público mais forte se ele não é capaz, hoje, de exercer um mínimo de autoridade em questões em que tem obrigação de estar presente? Todo mundo, numa conversa a sério, sabe perfeitamente bem que não se chega a lugar nenhum sem haver, no início de tudo, o entendimento de que as leis e as regras só valem alguma coisa se a maioria dos cidadãos acreditar que elas serão realmente aplicadas – o tempo todo, da mesma forma e para todas as pessoas. É aí que começa, no Brasil, a complicação com o "estado forte". Que motivo alguém teria, por exemplo, para acreditar em certidões produzidas por cartórios de registro de imóveis no interior do Pará? Órgãos do próprio governo, aliás, são os primeiros a não acreditar nelas. Não se acredita, no fundo, na maior parte da documentação fundiária da Amazônia como um todo – e a Amazônia cobre 60% do território brasileiro. O governo manda tanto, nessa questão, quanto manda nos anéis de Saturno.

A inexistência do estado, ali, vai muito além de problemas imobiliários. Uma reportagem recente da Folha de S.Paulo informou que um minério radioativo de exploração ilegal, a torianita, é extraído e contrabandeado livremente no Amapá há quase um ano; a Polícia Federal sabe disso, mas não pode fazer apreensões porque não tem onde guardar o material que for apreendido. A PF quer que a Comissão Nacional de Energia Nuclear cuide dessa torianita; a comissão não quer cuidar – nem ela nem a Polícia Militar Ambiental do Amapá. A PF entrou com uma ação contra a CNEN na Justiça, para obrigá-la a retirar do local o minério que já tinha capturado antes de suspender suas operações. Ganhou, mas o problema está longe de ser resolvido. A CNEN não quer fazer novas retiradas de material, por achar que isso não é obrigação sua, e a PF entrou com uma segunda ação judicial contra ela, ora em andamento. O contrabando continua.

O estado brasileiro não tem força para dar escrituras a milhões de moradores de favelas; o direito de propriedade, para eles, tem de ser assegurado a bala. Não consegue ampliar as pistas do aeroporto de Porto Alegre, por ser incapaz de remover a favela que deixou criar nas suas cabeceiras, nem fazer com que trens de carga andem a mais de 2 quilômetros por hora em áreas que foram invadidas junto aos trilhos, quando o estado era dono dos trens, dos trilhos e das áreas. Não controla nem as obras do PAC, bombardeadas por liminares, ONGs e guerras entre os seus próprios funcionários. Estado forte?

No Brasil de hoje, opção inválida.

ANDRÉ PETRY

REVISTA VEJA

André Petry colunadopetry@abril.com.br
O mal do umbigo

"Pior que o silêncio é o trânsito livre do preconceito contra o estudo no exterior, uma doença que mistura antiamericanismo com o vírus do provincianismo"

Quando o professor Jorge Guimarães, presidente da Capes, a entidade que mais distribui bolsas no exterior, disse que não se devia mais investir no estudo de economia lá fora, o mundo acadêmico deveria ter desabado. A frase exata, dita em entrevista ao jornal O Globo: "Vamos continuar mandando alunos para formar doutores num modelo que faliu o mundo? Esse modelo se mostrou totalmente anticientífico, para dizer o mínimo". Como se sabe, os acadêmicos não reagiram à enormidade do professor. Ficou subentendida a aceitação da ideia de que estudo não é aprendizado, mas doutrinação, sendo inútil estudar solução com quem cria problemas.

Pior que o silêncio é o trânsito livre do preconceito contra o estudo no exterior, uma doença que mistura antiamericanismo com o vírus do provincianismo. Tem cura, mas é contagiosa e pode matar a inteligência. O Institute of International Education, dos Estados Unidos, informou que nunca houve tantos estrangeiros nas universidades americanas. São 620 000. O país que mais despacha estudantes para lá é a Índia, pelo sétimo ano consecutivo. São 94 000 indianos. Pode-se dizer que o domínio do inglês favorece a presença dos indianos nos EUA, mas o segundo país é a China, com 81 000.

Para fechar a lista dos campeões na era dos Brics, seria natural que, depois de Índia e China, viessem Brasil e Rússia. A Rússia não aparece. Talvez julgue lhe bastar sua Academia de Ciências, um dos maiores centros mundiais de produção científica. E o Brasil também não. O terceiro país é a Coreia do Sul, com 70 000 estudantes. Depois, vêm Japão, Canadá, Taiwan, México, Turquia, Arábia Saudita e, completando os dez-mais, Tailândia. No segundo bloco, Nepal, Alemanha, Vietnã, Inglaterra, Hong Kong, Indonésia e – enfim! – Brasil, com 7 500 estudantes, apenas um pouco mais do que a Colômbia.

O número raquítico explica, em parte, o papelão brasileiro nas ciências. A produção brasileira, medida pelo número de artigos publicados nas 
10 000 revistas científicas mais renomadas do mundo, vem crescendo, mas não é compatível com o PIB. Disputamos o 15º lugar com Suécia, Suíça, Taiwan e Turquia. Pior que isso é o número de patentes registradas, um indicador do nível de inventividade. Também tem aumentado, mas é desanimador. Conforme dados da ONU, o Brasil registrou 585 patentes em 2006. Para ficar nos Brics, a China cresce em ritmo fabuloso. A Rússia registrou quase 20 000. A Índia, 2 300. E o Brasil, 585. Rivalizamos com a Romênia, o ex-charco de Ceausescu.

Para chegar ao que julga ser seu destino manifesto de potência, o Brasil precisa aprender a olhar para além do próprio umbigo, sem preconceito. Em sua entrevista, o professor Guimarães só reforçou o preconceito. E deixou uma dúvida. Ele anunciou mais investimentos para bolsas de estudo nas áreas de oceanografia e bioenergia. Mas os países ricos não são os que mais poluem os oceanos e os maiores culpados pelo aquecimento global? Vamos formar doutores nesse modelo falido...?

CLAUDIO DE MOURA CASTRO

REVISTA VEJA

Claudio de Moura Castro
Educação em áreas conflagradas

"É preciso cuidar da educação e, ao mesmo tempo, de uma boa coleção de problemas no entorno da escola"

Atômica Studio


A ciência tomou corpo quando se descobriu ser mais fácil entender o mundo classificando o que se quer estudar. Aristóteles deu a partida. Muito depois, Lineu pôs ordem na biologia, separando os bichos e as plantas ("Esse de seis perninhas vai com o outro, também com seis"). Assim agrupados, fica mais fácil estudá-los e encontrar-lhes outros traços comuns. Para E. Junger, a razão encontra a sua suprema metáfora na classificação das espécies da flora. Classificamos até em um campo desconjuntado como a educação. Para entender os avanços e atoleiros do nosso ensino, proponho repensar as classificações costumeiras. Consideremos as escolas como pertencendo a três categorias. Há as escolas dos grotões, há as escolas das cidades médias e pequenas e, finalmente, há as escolas conflagradas das periferias urbanas e favelas. (Abandonamos aqui as grandes capitais, pois não percebemos generalizações relevantes.)

Os grotões vivem no círculo vicioso da pobreza. A seu favor, são mundos fechados e estáveis, onde cada um é cada um. Mas, na maioria deles, as vantagens da educação não são percebidas. Como consequência, o ensino é ruim e poucos se importam com isso. A depender da sua própria dinâmica, nada vai mudar. Porém, com um bom empurrão de fora, transformações são possíveis. As cidades pequenas e médias vivem em um equilíbrio instável, do ponto de vista da educação. As que são dinâmicas, e estão onde o prefeito acredita em escola, têm tudo de que precisam para progredir. Com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), sabe-se onde elas estão. Aos poucos, as mais inquietas vão aprendendo os caminhos. Em um bom número delas há avanços consideráveis. Algumas tomaram as rédeas nos dentes e dispararam. Passaram na frente das capitais, mais ricas e com mais tradição. E isso aconteceu em todos os níveis. Em São Paulo, até os pesquisadores já publicam mais no interior do que na capital.

Finalmente, temos as favelas e periferias das grandes capitais. Esse é o enguiço mais sério. Não lhes faltam recursos nem atenção. Contudo, estão travadas e perdendo espaço para as cidades menores. Por exemplo, dos 645 municípios do estado, a cidade de São Paulo está no 565º lugar no Ideb. O nó da questão é que são regiões conflagradas. A comunidade local teve seu tecido social dilacerado pelo crescimento atabalhoado ou foi invadida por vagas de imigrantes que não conseguiram se integrar na enorme confusão das periferias. Algumas são como praças de guerra, por seus problemas de insegurança, criminalidade, desemprego, pobreza e desintegração familiar. Nesses casos, faz sentido lembrar a hierarquia do psicólogo Abraham Harold Maslow. Para ele, as pessoas só se fixam em certos objetivos pessoais depois que outros mais importantes já foram resolvidos. Insegurança física, desemprego e condições precárias de vida vêm antes de educação. Sem que essas questões sejam minimamente atendidas, pouquíssimos darão atenção ao ensino.

Portanto, a não ser que se "pacifiquem" essas periferias, estão fadadas ao insucesso as tentativas heroicas dos secretários de Educação de nelas agir. São outras as prioridades, tais como sobreviver às guerras de gangues do narcotráfico. Isso tudo nos leva à necessidade de políticas educativas diferentes para elas. É preciso cuidar da educação e, ao mesmo tempo, de uma boa coleção de problemas no entorno da escola. A tarefa ultrapassa o alcance das secretarias de Educação. Porém, requer uma ação minimamente coordenada com elas. Polícia, assistência social, saúde e políticas de emprego têm de entrar em cena e agir de forma articulada. Há boas experiências no Brasil e devemos aprender com elas. Mas citemos um caso com grande visibilidade: Medellín, na Colômbia. A cidade chamava atenção pela virulência das guerras do narcotráfico (vi soldados empunhando fuzil nas varandas da escola). Mas foi pacificada por um bom prefeito.

Em conclusão, alguns pensam que os grotões podem esperar. Mas, se for para consertar, é possível. Entre as cidades pequenas e médias, as mais dinâmicas começam a se mover. Nas outras, é cutucar os prefeitos lentos e recalcitrantes com respeito à educação. Nas praças de guerra das periferias, só educação não resolve. Ou entramos com programas mais abrangentes, ou nada vai acontecer – além de se repetirem as explosões costumeiras.

"PRÁSTICA"


SÁBADO NOS JORNAIS


- Globo: EUA socorrem bancos mas ações continuam em queda

- Folha: Maior banco dos EUA recebe ajuda de US$ 117 bilhões

- Estadão: Crise bancária se agrava nos EUA

- JB: Esperança de cessar-fogo

- Correio: Força-tarefa para regularizar lotes

- Valor: Citi é pressionado a vender ativos e encolhe no Brasil

- Gazeta Mercantil: Crise força empresas a reinventar função do RI

- Jornal do Commercio: Dia de transtornos

sexta-feira, janeiro 16, 2009

"OPERASSÃO PRÁSTICA"


ELIANE CANTANHÊDE

Como em Gaza, mas resistindo


Folha de S. Paulo - 16/01/2009
 

A guerrinha PT versus PSDB corre solta, mas onde ela é mais escancarada é na política externa, onde ex-chanceleres e embaixadores tucanos arrancam as penas criticando o atual ministro, Celso Amorim -que nunca teve nada de petista, diga-se de passagem, mas é acusado de transformar o Itamaraty numa espécie de bunker dos resquícios esquerdistas do PT.
Luiz Felipe Lampreia já tinha dito que as gestões de Amorim no Oriente Médio "beiravam o ridículo". Celso Lafer acrescentou que são "uma forçação de barra que não faz nenhum sentido". Estava faltando o ex-embaixador em Londres e em Washington Rubens Barbosa.
Não falta mais.
Ao saber que Amorim iria visitar Síria, Israel e cia. -de onde voltou na madrugada de ontem-, Barbosa ironizou na base do "agora vai": "Fiquei animado, porque até aqui nem o Sarkozy, nem o presidente da União Europeia, nem a ONU tinham conseguido demover Israel e os palestinos".
Para Barbosa, as ações e declarações do PT e do governo, e não só de Amorim, são o que vem chamando de "ideologização e partidarização da política externa". E provoca: "Só falta agora, para complementar os esforços da política externa, a ação do MST em manifestações pró-Hamas... (a exemplo do que dizem que vão fazer no Paraguai)".
Ao se desabalar para a região em guerra, Amorim fez apenas uma coisa, na opinião de Barbosa: "Cumpriu sua parte na política externa do PT". E lá vem mais ironia: "O Brasil do PT não consegue neutralidade e liderança nem para resolver a questão das "papeleras" entre Argentina e Uruguai...".
Coitado do Amorim, que parece a faixa de Gaza de tão cercado por todos os lados: atacado pelos inimigos e sujeito ao fogo amigo do PT e do próprio governo -um agride Israel com referências ao nazismo, o outro, numa canetada, concede asilo a condenado italiano exigido pelo governo Berlusconi. Tarso Genro cria a crise, o Itamaraty que se vire.

COLUNA PAINEL

Ideologia italiana


Folha de S. Paulo - 16/01/2009
 

Acusado pelo governo da Itália de ter apelado ao ideário de esquerda na negativa à extradição de Cesare Battisti, o Brasil ressalta em relatório de 56 páginas encaminhado ao Senado, em novembro, "que os dados evidenciam com clareza o fortalecimento da ideologia de direita junto à sociedade italiana".
O documento, assinado pelo Ministério das Relações Exteriores, traça um panorama político e econômico da Itália e diz que o discurso de direita busca hoje todo o país, o que se evidenciaria pela votação que elegeu em abril Silvio Berlusconi. O texto embasa a indicação do ex-ministro José Viegas para a embaixada brasileira em Roma, ainda pendente de votação.

Meio a meio
Na sua última reunião, em dezembro, a Executiva Nacional do PT discutiu brevemente o caso do italiano Cesare Battisti, mas evitou tirar uma posição. Os membros se dividiram entre os favoráveis ao asilo político e os que argumentaram que não tinham opinião formada. Parte do PT avalia que não é assunto no qual o partido deva se intrometer. 

A favorita
O ministro Marcio Fortes (Cidades) foi escalado para ser estrela do aniversário de 176 anos de Nova Iguaçu (RJ), inaugurando obras do PAC destinadas a urbanização de favelas, cujo investimento da União é de R$ 326 milhões. Em 2008, só a pasta das Cidades desembolsou R$ 29,6 milhões para obras no município de Lindberg Farias (PT). 

Terceiro turno
Neoaliados em Salvador, ACM Neto (DEM) e Geddel Vieira Lima (PMDB) travam uma disputa para controlar a Câmara Municipal. Os "demos" querem emplacar Paulo Magalhães Jr. na presidência da Casa em troca de apoio a Geddel para indicar a chefia da União dos Municípios da Bahia. O PMDB do ministro, entretanto, quer as duas cadeiras. 

Warm-up
A tradicional lavagem do Bonfim, ontem, foi marcada pela corrida para ver quem chegava primeiro entre as comitivas do governador Jaques Wagner (PT) e a dos "demos" ACM Neto e José Carlos Aleluia, deputados, e Paulo Souto, ex-governador.

Acelerador
A pedido do Palácio do Planalto, o Ministério da Previdência corre contra o tempo para antecipar de março para fevereiro a concessão em 30 minutos do salário-maternidade e da aposentadoria por tempo de contribuição -hoje o benefício em meia hora é possível para a aposentadoria por idade. 

Palanque
A antecipação daria a Lula a oportunidade de anunciar as medidas em em São Paulo, no dia 27, quando haverá comemoração dos 86 anos da Previdência Social. 

Boquinha
Um dos personagens centrais do escândalo do Detran gaúcho, Cezar Busatto (PPS) ganhou emprego no primeiro escalão da Prefeitura de Canoas, comandada por Jairo Jorge (PT), afilhado do ministro Tarso Genro. O PT divulgou nota atacando Busatto, que integrava a equipe da tucana Yeda Crusius. 

Infiéis
Pesquisa elaborada pelo Cepam (Centro de Estudos e Pesquisas de Administração Municipal), ligado à Secretaria de Planejamento do governo paulista, aponta que 69,3% dos prefeitos eleitos no Estado disseram já ter migrado de partido. 

Bolsa
Saiu ontem no "Diário Oficial" nova fornada de anistiados políticos do regime militar. Entre os 52 agraciados, está o ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont (PT), que receberá R$ 267 mil, mais pensão mensal de R$ 2.000. 

Visita à Folha
Solange Paiva Vieira, diretora-presidente da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), visitou ontem a Folha. Estava acompanhada de Paulo Henrique de Noronha, chefe de Comunicação Social.

Tiroteio

"O senador Mario Couto não vê as obras porque prefere os ambientes chiques de Brasília à periferia de Belém"


Da governadora 
ANA JÚLIA CAREPA (PT-PA), em resposta às críticas do senador Mario Couto (PSDB), para quem, apesar do repasse de verbas da União, "não há obras de infraestrutura" executadas pelo governo paraense para abrigar o Fórum Social Mundial.

Contraponto

Replay

Momentos antes de começar anteontem uma entrevista ao locutor Luciano do Valle, da Band, o presidente Lula apontou para a funcionária da Presidência Sandra Dorman, que trabalha na área administrativa do Palácio do Planalto e ajudava nos preparativos para a gravação.
-Luciano, ela é tia do Kaká!-, disse, sobre o jogador da seleção brasileira.
O locutor espantou-se e perguntou se era verdade. O presidente respondeu que sim:
-Inclusive várias daquelas coisas incríveis que você vê o Kaká fazendo com a bola, na TV, fui eu que mostrei para a Sandra, que depois explicou para ele...

DORA KRAMER

Na presença da adversidade


O Estado de S. Paulo - 16/01/2009
 

Dora Kramer, dora.kramer@grupoestado.com.br

Enquanto o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, com seu linguajar pitoresco e raciocínio manhoso, estiver na linha de frente da “defesa do trabalhador” e do ataque aos “patrões”, a cena fica entendida como simples performance sindicaliza.

Ruim, mas sem maior consequência. Demagógica, oca, mas em conformidade com o perfil do personagem escalado, na condição de presidente do PDT, para representar o partido na coalizão de apoio ao presidente Luiz Inácio da Silva.

Partido fundado por Leonel Brizola, o PDT é também a legenda de origem do senador Cristovam Buarque, que retornou a ela depois de anos no PT, de onde saiu por divergência de procedimentos e depois de uma passagem pelo Ministério da Educação.

O que faz Cristovam Buarque nessa história que começa com as bravatas de Carlos Lupi e logo concluirá pela inadequação de o presidente da República abrir espaço ao sindicalista nele mais ou menos adormecido?

Nos idos dos 90, ainda governador petista do Distrito Federal, Cristovam era das poucas vozes do PT a alertar para a necessidade de o partido abandonar a lógica da reivindicação, deixar de lado a defesa corporativista impressa em seu DNA sindicalista e abraçar causas que dissessem respeito à sociedade inteira.

Só dessa forma, argumentava Cristovam, o partido poderia se preparar para um dia realmente disputar a sério o poder e, no caso de vitória, administrar o País com todos os seus desafios.

Enquanto olhasse apenas para a “mesa de negociações” entre patrões e empregados onde Lula forjara suas habilidades políticas, seria parte sem a indispensável noção do todo.

Carlos Lupi, presidente licenciado do PDT, não ouviria as ponderações do filiado. A prepotência adquirida no cargo não lhe permitiria enxergar que não é ministro dos sindicatos.

É ministro do País que não precisa de ameaças vãs de punição ao setor produtivo, mas daquela visão ampla que desde há muito prega o hoje senador Cristovam Buarque, para enfrentar a crise, encarar as agruras da impossibilidade de atender a todos os interesses quando o cobertor encurta e a situação requer espírito público. No sentido coletivo do termo. 

Querer e poder

No caso das disputas dentro do Congresso, as querências dos presidentes da República não necessariamente correspondem às poderências.

Lula “tranquilizou” Michel Temer dizendo que o melhor cenário para ele é o PMDB na presidência da Câmara e o PT, com Tião Viana, na do Senado.

Nessa altura do segundo mandato de Fernando Henrique ele também tranquilizava sua base dizendo que o quadro mais confortável para o Planalto seria Jader Barbalho na presidência do Senado e Inocêncio Oliveira na da Câmara.

Jader foi eleito, renunciou em meio a denúncias. Inocêncio foi abalroado pela candidatura (vitoriosa) do tucano Aécio Neves.

A partir daí, as relações entre os três principais partidos da aliança - PSDB, PFL e PMDB - nunca mais foram as mesmas, com consequência direta sobre a eleição presidencial de 2002. 

Mal comparado

O ministro da Justiça, Tarso Genro, não enxerga por que não quer a diferença entre asilos políticos concedidos pelo Brasil a chefes de Estado apeados do poder e a recusa de extradição ao italiano Cesare Battisti.

Battisti foi condenado por homicídio pela Justiça de um País cujas instituições funcionam à normalidade. O ministro tem a prerrogativa de tomar a decisão que tomou, mas não dispõe de salvo-conduto para distorcer os fatos sem contestação.

Os atletas cubanos entregues a Havana quando tentaram refúgio no Brasil logo após os jogos panamericanos para atender ao governo de Cuba também foram, ao inverso, objeto dessa adaptação autocrática da realidade à posição ideológica de determinado grupo.

Naquele caso a conta foi paga pelos atletas, banidos do esporte, pois o Estado atendido deu-se por satisfeito e a reação no Brasil diluiu-se na geleia da benevolência geral para com a ditadura de Fidel Castro.

Nesse episódio de Battisti, ao se imiscuir em decisão do Judiciário italiano, o Brasil pode ter contratado um grave atrito diplomático sem dispor da estatura política e da sustentação legal suficientes para enfrentar. 

Tratou uma ditadura como democracia, agora atuou no modo vice-versa e terá necessariamente de se valer do nem sempre prestigiado Itamaraty para desatar o poderoso nó.

Os pedidos de recuo, feitos diretamente ao presidente Lula, tendem a ser inúteis, pois Tarso Genro submeteu a decisão a ele antes de divulgá-la certamente garantindo que não haveria obstáculos. Ou Lula teria medido as consequências.

É um bom exemplo de como nem sempre é bom o governante agir na confiança da avaliação alheia e formar juízo a partir do próprio discernimento. Obtido mediante o conhecimento dos fatos por meio, entre outros meios, da leitura dos dados em jogo.

SEXTA NOS JORNAIS


- Globo: Israel faz 110 ataques e atinge ONU, jornalistas e um hospital

- Folha: Israel ataca prédio da ONU e hospital

- Estadão:Israel mata líder do Hamas; prédio da ONU é atingido

- JB: Montadoras do Rio dão férias coletivas

- Correio: Como é caro manter os filhos na escola

- Valor: Citi é pressionado a vender ativos e encolhe no Brasil

- Gazeta Mercantil: Crise força empresas a reinventar função do RI

- Estado de Minas: A BH que abre vagas, investe e desafia a crise

- Jornal do Commercio: Estado anuncia uma cidade para a Copa

quinta-feira, janeiro 15, 2009

SURUBA


EDITORIAL FOLHA DE SÃO APULO

Assunto da Itália

Folha de S. Paulo - 15/01/2009
 

O ASILO político a Cesare Battisti, italiano condenado em seu país à prisão perpétua por quatro homicídios ocorridos na década de 1970, é um equívoco. De uma vez, o governo Lula contrariou decisões consumadas dos Judiciários da Itália e da França e da Corte Europeia de Direitos Humanos.
No Brasil, a vontade do Planalto refutou orientação do Comitê Nacional dos Refugiados e evitou que o pedido de extradição de Battisti, feito pela Itália, fosse julgado no Supremo Tribunal Federal. O procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, pede seu repatriamento.
O governo Lula alega que Cesare Battisti, ex-integrante de um grupo terrorista de esquerda, é um perseguido político que foi julgado "in absentia", sem direito à ampla defesa. O Executivo brasileiro não deveria entrar nesse mérito quando do outro lado há uma democracia estabelecida, com Judiciário autônomo.
A "doutrina Mitterrand", socialista que presidiu a França de 1981 a 1995, está superada nas cortes francesas. Durante anos, ela deu guarida a ativistas de esquerda estrangeiros que haviam cometido crime em seus países.
Battisti, que se diz inocente, era um dos beneficiados até que mudaram, na França, a orientação política e a jurisprudência, causa de desavenças diplomáticas incômodas na União Europeia. O Judiciário francês decidiu extraditá-lo, mas Battisti fugiu do país e sabiamente, vê-se agora, desembarcou no Brasil.
A suposta falta de acesso à ampla defesa, no caso, já foi rechaçada na Corte Europeia de Direitos Humanos, instância competente para julgar alegações de abusos em nações da UE.
O caso Cesare Battisti é incomparável com asilos concedidos pelo Brasil a ex-ditadores e ex-governantes sul-americanos. Aqui se tratava de remediar situações explosivas nos instáveis países de origem e/ou de preservar a integridade física do asilado, sujeito, de outro modo, à arbitrariedade de sistemas políticos e judiciais precários.
Nenhum desses critérios se aplica à Itália, nem a Battisti. Seu destino é assunto exclusivo do Judiciário italiano e do sistema de apelações europeu. A concessão do asilo decorre, apenas, de uma ação entre amigos no seio de uma certa esquerda. Temas de Estado, no entanto, requerem outra abordagem, e espera-se que Lula reconsidere a decisão.

VINICIUS TORRES FREIRE

Mais notícias "aziáticas"


Folha de S. Paulo - 15/01/2009
 

Cai consumo de gás e de eletricidade; dado preliminar sobre balança comercial indica déficit para breve

MAIS INDICADORES confirmam a conta do desastre de dezembro. O consumo de eletricidade no mercado livre (grandes empresas) caiu 1% ante dezembro de 2007 (estimativa baseada em amostra da empresa Comerc, comercializadora de energia) e 18% de novembro para dezembro. O consumo de gás natural na indústria recuou 24% de dezembro de 2007 para dezembro de 2008. Nos dados preliminares, o consumo de papelão ondulado caiu 4,5% em dezembro, ante o mesmo mês do ano passado.
Considerando a derrocada na produção de veículos (54%), no tráfego de caminhões pesados (0,8%) e da carga de energia elétrica (5%), outros indicadores coincidentes, estima-se que a produção industrial tenha levado um tombo de 8% em dezembro -ante dezembro de 2007.
Alguns setores, como o de veículos, dizem que a coisa parou de piorar, mês a mês. Mas anda abaixo do nível de 2008. E a siderurgia diz que continua a deterioração. O pessoal de máquinas também.

"Déficit" comercial
Economistas do Unibanco chamam a atenção para o fechamento de câmbio no comércio exterior de dezembro: ficou negativo pela primeira vez desde outubro de 2001 (US$ 119 milhões). No primeiro terço de janeiro, está negativo em US$ 510 milhões. Trata-se do dinheiro que de fato entra e sai na conta de exportações e importações. Não é, pois, o saldo comercial.
O tombo em outubro de 2001, em relação à média dos 12 meses antecedentes, foi de cerca de US$ 1,2 bilhão. Em dezembro de 2008, foi de US$ 4,3 bilhões. O dado de um mês da conta comercial não diz muita coisa. Mas assusta, dado o contexto do tropeço assusta. A balança do ano é uma incógnita. Além do preço de commodities e do tamanho da recessão no mundo rico, o desempenho da balança comercial depende muito do saldo de combustíveis. Incluindo combustíveis, a queda do saldo bate em 34% (em 12 meses). Sem combustíveis, a redução foi menor, em torno de 21%.
Notícia mais animadora foi a do nível de financiamento dos exportadores. Voltou ao que era antes da explosão da crise, em setembro de 2008: os ACCs ficaram em torno de 30% da entrada de dinheiro de exportação. Mas, no conjunto da ópera, as notícias continuam "aziáticas", de dar azia, como diz Lula. 

"Errei" e dívida externa privada
Na coluna de domingo, o colunista comentava que o BC promete desde dezembro emprestar dinheiro das reservas internacionais, sem fazê-lo, mas no meio de um parágrafo sobre crédito para exportadores (que está funcionando). Mas a nova linha do BC, financiada pelas reservas, é para rolagem de dívida externa de empresas, como se sabe.
Desculpe, por favor, a confusão.
Henrique Meirelles informa que a linha para rolagem de dívida ainda não saiu porque o BC estuda como dar base jurídica forte à medida e está checando a experiência internacional no assunto. O pacote ainda não está definido. Mas diz-se que empréstimos intercompanhias (de matriz para filial) devem ficar de fora. A linha deve ser só para empresa que lançou títulos e bancos.

ELIANE CANTANHÊDE

Espírito de ano novo


Folha de S. Paulo - 15/01/2009
 

O governo brasileiro amanheceu mais "esquerdista" em 2009 e vem dando diferentes demonstrações disso. A última foi a canetada de Tarso Genro (Justiça), que passou por cima do Itamaraty, do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados) e do Supremo Tribunal Federal para conceder asilo político ao italiano Cesare Battisti. 
Ex-líder da organização terrorista Proletários Armados pelo Comunismo, Battisti foi condenado a prisão perpétua na Itália pela morte de pelo menos quatro pessoas. Para o governo italiano, cometeu crime comum. Para o brasileiro, foi crime político. A diferença: criminoso comum é extraditado, criminoso político tem direito a asilo. Lembre-se que o governo brasileiro é cheio de ex-presos políticos e agiu mais pelo passado e a ideologia do que pelo presente e o pragmatismo jurídico-diplomático, numa decisão pró-asilo que irritou o governo da Itália e vai ser uma dor de cabeça para Lula, que desembarca hoje na Bolívia imbuído desse "espírito esquerdista" do ano novo e pronto para enrolar ou Evo Morales ou os técnicos brasileiros. 
O governo manteve a compra de muito mais gás da Bolívia do que o Brasil precisa, só para continuar gerando receitas para o vizinho pobre. 
Será cada vez mais difícil sustentar que foi uma "decisão técnica". Até pela aritmética: chove a cântaros, as hidrelétricas estão cheias, as empresas consomem menos gás durante a crise. Mais oferta e menos demanda não é igual a grande compra de gás no exterior. Se Edison Lobão (Minas e Energia) tem de se render à pressão "esquerdista" para comprar mais gás da Bolívia, Genro (Justiça) rende a diplomacia e a Justiça à sua lógica "esquerdista". Vai ser aplaudido pelo seus já aliados, mas tende a receber uma saraivada de críticas de toda parte e pode até vir a recuar. 
E é assim que o Brasil acaba de ganhar mais um chanceler, entre tantos, enquanto Amorim circula pelo Oriente Médio: Tarso Genro.

COLUNA PAINEL

Imunidade trincada


Folha de S. Paulo - 15/01/2009
 

Protegido dos efeitos da crise, segundo as palavras do presidente Lula, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) sofre baixas. Por decisão de Dilma Rousseff (Casa Civil), serão adiados os leilões de concessão à iniciativa privada de dois trechos das ferrovias Norte-Sul e Oeste-Leste, um dos destaques do programa. Previstas até então para este semestre, as concessões só devem sair no final do ano ou em 2010.
O presidente da Valec -órgão que tem a função de construir e explorar as ferrovias- confirma: "Devido à crise, a ministra Dilma tomou essa decisão. Estava toda a parte técnica pronta, mas havia o receio de que o leilão fracassasse. O bom senso manda aguardar mais", diz José Francisco das Neves.

Crédito.
 O principal motivo da decisão foi a avaliação de que as empresas interessadas teriam dificuldade em conseguir crédito nesse momento. O governo diz que as obras continuam sendo feitas, mas novos congelamentos de concessões de ferrovias e rodovias estão em estudo. 

Para depois
Os trechos ferroviários cujos leilões vão ser adiados são Anápolis (GO)-Estrela d"Oeste (SP), da Norte-Sul, e Ilhéus-Barreiras (BA), da Oeste-Leste. 

Churrasco
Em visita ao colega Aécio Neves (PSDB-MG), Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) convidou ontem o governador mineiro a incluir João Pessoa na caravana programada pelo país. Cunha Lima defendeu as prévias no PSDB. "O que não pode é repetir erros do passado. Se for para decidir o candidato em um restaurante, que seja numa grande churrascaria." 

Gelada
Um grupo de dez deputados federais embarca hoje para a Antártida, a convite da Marinha. A expedição ganhou o apelido de "Entrando numa fria, parte 2". No ano passado o mau tempo reteve por quatro dias um grupo de congressistas no continente. 

Shopping
A Base Naval de Aratu, na Bahia, onde Lula costuma passar férias, vai receber um banho de loja. Ao custo de R$ 29 mil, estão sendo comprados fabricadores de gelo, lâmpadas contra insetos, cafeteiras, sanduicheiras e aparelhos para amaciar carne.

Barrados
Os congressistas brasileiros que pretendiam ir à posse de Barack Obama chegaram a recorrer ao embaixador dos EUA no Brasil, Clifford Sobel. Apesar disso, não foi concedido assento na solenidade. "Ele disse que cada país será representado pelo respectivo embaixador em Washington", afirmou o senador Eduardo Suplicy (PT-SP). 

Amigos
Entrou em vigor nessa semana acordo bilateral entre o Brasil e a Liga Árabe, que representa 21 países, incluindo delegação da Palestina. A partir de agora, a liga poderá operar livremente e ter sede no Brasil. 

Um e outro
A comissão do Congresso composta por oito deputados e um senador que acompanha a crise em Gaza enviou carta à embaixada israelense criticando a invasão no território. Já a carta destinada à representação Palestina presta solidariedade e não diz uma palavra sobre o terrorismo do Hamas.

Telefone mudo
Após oito dias da divulgação de que o celular da secretária do líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP), foi alvo de escuta ilegal, a Anatel ainda não se manifestou sobre o caso. Na próxima segunda, o tucano e o presidente da CPI dos Grampos, Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), devem ir à agência. 

Isca
Uma das ideias mais mirabolantes em discussão na campanha de Aldo Rebelo (PC do B) à presidência da Câmara é implantar mutirão de votação de quinta a domingo, a cada bimestre. Seriam sessões reservadas a projetos de deputados que estivessem presentes na ocasião, já que a pauta normal é dominada por propostas do governo. 

Tiroteio


"O governo preferiu colocar-se ao lado de um fugitivo em vez de apoiar o pleito de um país com o qual tem relação. E isso sem consultar a Justiça brasileira, o que é muito preocupante." 

Do senador 
NEUTO DE CONTO (PMDB-SC), que tem cidadania italiana, sobre a recusa do Brasil em extraditar o italiano Cesare Battisti.

Contraponto

Na moda

Em conversa anteontem com uma jornalista, o ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional), cujo nome figura na lista de especulações para 2010, explicava que voltará ao trabalho somente na semana que vem.
-Não é porque estou de férias. É que estou me recuperando de uma cirurgia no rosto!
A repórter, então, provocou:
-Não me diga que o senhor fez plástica como a Dilma, para virar vice-presidente na chapa dela...
De pronto, o ministro tratou de desmentir:
-Pelo amor de Deus! Não tem nada disso, não!
Geddel se recupera de uma cirurgia nos dentes.

ROLF KUNTZ

Otimistas versus informados


O Estado de S. Paulo - 15/01/2009
 

A boa notícia é que os brasileiros estão entre os mais otimistas em relação ao País e às possibilidades de aumento da renda familiar nos próximos 12 meses. No Brasil, 79% dos entrevistados disseram acreditar nesse aumento, enquanto nos Estados Unidos apenas 34% manifestaram essa expectativa e somente 11% no Japão, segundo pesquisa realizada em 17 países. A má notícia aparece quando se combina essa informação com os últimos dados sobre o emprego e sobre o desempenho de importantes setores industriais: se o quadro piora tão rapidamente enquanto os brasileiros estão confiantes, como ficará a situação quando mais pessoas se apavorarem com a crise?

O otimismo da maioria dos brasileiros dá ao governo um bom ponto de partida para definir e aplicar medidas contra a recessão. Boa parte da confiança captada na pesquisa deve estar vinculada à popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas essa confiança tende a se esgotar com a multiplicação das demissões, a contenção do consumo e o rebaixamento do padrão de vida de milhares ou até milhões de famílias.

Outro detalhe relevante é a associação entre classe econômica e otimismo/pessimismo. No grupo D/E, o mais pobre, 47% expressaram a esperança de melhora da situação do País nos próximos três meses. A porcentagem cai para 31% na classe C e para 25% no grupo A/B. Essas camadas não se diferenciam apenas pela renda e pelas posses, mas também pela educação e pela informação.

O otimismo registrado pela pesquisa varia inversamente ao grau de informação do entrevistado. Os mais informados não estão necessariamente em situação pior que a dos outros. Mas sabem mais a respeito do mundo, não só porque absorvem e processam mais notícias, mas também porque são mais atentos ao noticiário econômico mais complexo. Muitos, ao contrário do presidente da República e de boa parte de seus mais entusiasmados admiradores, leem jornais e revistas e assistem aos melhores programas informativos da TV.

Tudo isso explica seu menor otimismo, embora disponham, quase certamente, de melhores condições para enfrentar períodos de vacas magras.

Quanto mais informado o cidadão, menor a sua propensão a engolir a retórica presidencial sobre medidas anticrise, especialmente sobre a sustentação de investimentos. Boa parte dos investimentos financiados pelo Tesouro está emperrada, como já foi noticiado muitas vezes, e isso inclui numerosos projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Se o presidente coordenasse e administrasse tanto quanto fala, o ritmo de execução dos projetos constantes do 
Orçamento da União seria com certeza muito mais satisfatório. Nenhuma outra pessoa pode exercer essa função no governo federal, porque há uma evidente escassez de liderança e de competência gerencial no primeiro escalão do Executivo. As poucas demonstrações de bom senso ficam a cargo do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, mas sua influência é restrita.

No gabinete palaciano, há quem tenha poder para neutralizar boas iniciativas e para dar péssimas ideias ao presidente, mas não há sinal de liderança administrativa. A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, pode ser apontada pelo presidente Lula como gerente e até mãe do PAC, mas sua atuação não tem a mínima correspondência com esses títulos. Basta ver alguns números: em 2008, dotação orçamentária de R$ 18,84 bilhões e desembolsos de apenas R$ 11,32 bilhões, incluídos neste valor R$ 7,56 bilhões de restos a pagar de 2007.

Investimentos federais seriam importantes para manter a economia em movimento. Mas não basta o presidente fazer um discurso por dia, em tom furioso, para ocorrer a execução das obras. Parte dos brasileiros pode até se impressionar, mas essa retórica não garante empregos no setor privado. Quanto aos estímulos fiscais, até agora tiveram pouco efeito. Em dezembro, a redução de impostos pode ter facilitado a venda de automóveis, mas o efeito dessa medida é limitado. O governo ainda não acertou a mão na política de incentivos e não deu atenção suficiente ao perigo cada vez maior de problemas no balanço de pagamentos. As melhores iniciativas partiram do Banco Central: oferta de dólares para o financiamento da exportação e para a liquidação de dívidas não renovadas. Pelo menos uma área da administração federal mostra alguma noção de foco e alguma percepção do que pode fazer diferença. Mas só os menos otimistas são bastante informados para perceber detalhes como esse.

ANCELMO GÓIS

O gás político


O Globo - 15/01/2009
 

Evo Morales, no encontro com Lula hoje em Puerto Suárez, vai espernear contra a redução de fornecimento do gás boliviano para o Brasil. 

Semana passada, o governo decidiu diminuir o suprimento diário de 30 milhões de metros cúbicos para 19 milhões. No mesmo dia, recuou um pouco, pressionado por ministros bolivianos, e aumentou o teto de compra para 24 milhões. 

Segue... 

O governo alegou que o recuo se deve à necessidade de manter três usinas termelétricas ainda em funcionamento. 

Só que o pessoal do setor acha que ficará cada vez mais claro que o funcionamento é excesso de zelo, ou... de política. 

Não veio a turismo 

Quem esteve no Brasil estes dias foi o americano Rex W. Tillerson, nº 1 da Exxon, a maior petrolífera do mundo. 

Apesar da crise ele aposta fichas no pré-sal brasileiro. A Exxon lidera um consórcio no bloco BM-S-22 na Bacia de Santos. 

As voltas... 

O ministro Edison Lobão estava no aeroporto de Brasília quando foi abordado por uma senhora: 

- Sou sua eleitora lá do Maranhão. 

Lobão encheu-a de afagos e ela, toda feliz, esticou o papo: 

- Eu sei que o senhor já foi deputado. Mas agora o senhor faz mesmo o quê? 

- Sou ministro. 

...que o mundo dá 

A senhorinha caprichou no sotaque nortista, deu-lhe um tapinha nas costas, e sentenciou: 

- Ô, subiu muito, hein!