sexta-feira, fevereiro 13, 2015

O Eldorado virou pó - HELIL CARDOZO

O GLOBO - 13/02

O Brasil acreditou na propaganda do PT. Milhares de incautos caíram na pegadinha do ex-presidente Lula

Nove anos depois do anúncio de que Itaboraí seria a terra prometida, escolhida para sediar o Comperj, maior polo petroquímico do país, assistimos estarrecidos ao sonho virar pesadelo.

De polo petroquímico, o Comperj virou refinaria. O que inicialmente deveria terminar em 2013, agora só em 2017. Vieram as greves dos trabalhadores, primeiro sinal de que alguma coisa ia mal. Na sequência, o escândalo do petrolão e a queda do preço do barril de petróleo para menos da metade do que valia há dez anos, ameaçando seriamente inviabilizar o pré-sal e a própria Petrobras.

Não será surpresa se a nossa refinaria virar em breve um posto de gasolina.

Desde que foi feito o anúncio, em 2006, pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva, o melhor vendedor de ilusões que a história recente já produziu, de que Itaboraí era a terra prometida, escolhida para sediar o empreendimento da Petrobras, a cidade nunca mais foi a mesma.

Até então, éramos um município de pouco mais de 180 mil habitantes, onde as pessoas se cumprimentavam pelo nome e dormiam de janelas abertas. Uma cidade dormitório, mais conhecida por suas laranjas, cerâmica e quebra- molas do que pelo fato de ter abrigado um dos portos mais importantes do Império, o Porto das Caixas. Sim, o IDH era baixo, mas as expectativas também.

A partir daquele dia, o Fusca virou Ferrari. A cidade acelerou de zero para 200 km. A população cresceu rapidamente, com a chegada de trabalhadores e suas famílias, pressionando por serviços públicos que já não eram lá um modelo de eficiência. Juntos, vieram a inflação e a especulação imobiliária que deixaram os aluguéis cobrados em Itaboraí em meados de 2012 comparáveis aos do Leblon, Zona Sul do Rio.

Os moradores mais antigos se assustaram com tamanha confusão e com tantas caras novas que chegaram à cidade; já os mais jovens se encheram de esperança. Era mesmo excitante viver numa cidade tão próspera que assistia à chegada de hotéis de grandes redes, centros comerciais, prédios de luxo e shopping centers, entre outras novidades.

Hoje, a realidade é outra. O cenário é de desolação: os trabalhadores que vieram atrás do Eldorado agora estão desempregados, e vagam sem rumo pelas ruas da cidade sem poder retornar para casa; os aluguéis reduzem e a violência grassa na mesma velocidade em que a economia despenca. Recentemente, uma grande rede hoteleira anunciou a suspensão da construção da segunda unidade no município. Há investidores que sequer vieram buscar as chaves dos imóveis que compraram.

Os cofres públicos sofrem o impacto. A arrecadação de ISS, que já foi de R$ 30 milhões/mês, está em R$ 18 milhões e deverá cair em breve para menos da metade. Como atender à demanda por serviços públicos de uma população que cresceu, segundo o IBGE, mais de 20% em tão pouco tempo? A matemática não fecha. O Brasil acreditou na propaganda do PT. Milhares de incautos caíram na pegadinha do ex-presidente Lula. Agora é preciso responder: quem arca com tamanho prejuízo?


PT morre. E maçã com cerejas - REINALDO AZEVEDO

FOLHA DE SP - 13/02

Valentias de moribundo são um espetáculo melancólico. O PT era uma neurose. Agora é só uma necrose moral


Não disputo o poder e, para mim, ganhe este ou aquele, a vida segue a mesma. Os petralhas ainda não conseguiram a minha cabeça na bandeja, rodeada de cerejas e com uma maçã na boca, embora já tenham tentado algumas vezes. Gostam de propor trocas indecorosas aos contratantes, até agora rejeitadas.

Pouco afeitos ao trabalho duro, os companheiros ignoram que tenho outras habilidades além de juntar coordenadas e subordinadas. E nenhuma delas é executada de joelhos ou depende de patrocínio da Petrobras ou de estatais que virarão, cedo ou tarde, caso de polícia.

E porque não disputo o poder, a irritação ou o gozo que me provocam a política são, vá lá, puramente intelectuais. E, ora vejam, vou me irritando ou gozando cada vez menos com ela. Para que algo excite a nossa imaginação, é preciso haver "encantamento", palavra oriunda do mesmo manancial semântico de que vêm o canto e o poema. Pesquisem. Irrita-se aquele que se deixa estimular, excitar, que se sente instigado. Encantamento e irritação são expressões benignas de importar-se.

No meu próximo artigo, defendo o impeachment da Dilma. Neste, permitam-me que expresse o tédio que essa gente provoca em mim. O tédio é parente do ódio, mas se trata de uma aversão mais contida, mais serena, mais preguiçosa. E me enfadam menos os donos do poder, que estão por aí tentando achar uma saída, uma desculpa, uma trilha culposa que os livre do dolo e da cadeia, do que seus escribas.

É possível que alguns estejam apenas ganhando a vida --fazer o quê? Essa profissão existe, e eu defendo que seja regulamentada. Mas há também, e são ainda mais patéticos, os que emprestam a sua pena à justificação da bandalheira de olho apenas no soldo moral. Não querem se confundir com os reacionários, ainda que possam se confundir com ladrões. Escolhas morais.

De novo, para surpresa de ninguém, está na praça a tese do suposto confronto entre "conservadores e progressistas", entre "golpistas e legalistas", entre "nós e eles". E alguns articulistas se prestam ao triste papel de tingir o nariz de marrom. Rui Falcão descobriu que queremos mesmo, os maus, é privatizar a Petrobras, acabar com o regime de partilha e pôr um fim à política de conteúdo nacional --aquela que já provocou um edificante rombo de R$ 20 bilhões. Em nome do povo! Por isso o seu partido denunciou, numa resolução, a conspiração da direita e aproveitou para pregar o controle da "mídia".

José Eduardo Cardozo, que ficou mais magro com uma dieta argentina, mas nem por isso passou a ter ideias mais severas --não leu Musil...--, acha que não se deve usar a roubalheira na Petrobras para disputar um terceiro turno. Segundo diz, só pessoas com "problema psicológico" defendem o impeachment de Dilma. Tá.

Ele cansou de usar o direito como argumento. Perde! Prefere mandar o oponente para o hospício. É uma tradição da escola de pensamento da qual é oriundo. Este senhor tem ideias originais sobre investigação de atos petistas desde o caso Lubeca, que já tem quase 30 anos. Era o ovo da serpente.

Os companheiros ainda não perceberam que sua organização começou a morrer. As valentias de um moribundo são sempre um espetáculo melancólico. Quer falar de psicologia, Cardozo? O PT era uma neurose. Agora é só uma necrose moral.

Revolta no Planalto - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 13/02


Se algum eleitor ainda não percebeu, aqui vai a notícia política mais importante da atual temporada em Brasília: há um clima de rebeldia que, pelo menos no momento, reina no Planalto.

Alguns fatos desta semana provam esse fenômeno político, que também pode ser definido como administrativo. Na terça-feira, o Congresso deu duas demonstrações da citada rebeldia. A Câmara dos Deputados aprovou uma novidade que pode ter efeitos nunca vistos: é uma emenda constitucional que obriga o Executivo a executar, sem protesto nem choro, todas as emendas constitucionais aprovadas pelo Legislativo. O nome oficial disso é “orçamento impositivo”.

Em países com regimes legislativos, isso pode ser comum e natural. Onde impera o Executivo — como se supunha que acontecia por aqui — as coisas são diferentes: alterações na Constituição dependem de endosso pelo poder central.

A outra manifestação de rebeldia foi a exclusão do PT do comando de uma comissão incumbida de um projeto de reforma política. O qual, se levado a sério (o que nem sempre acontece em Brasília) pode ter efeitos de extrema importância.

Para irritar mais um tanto o pessoal do Palácio do Planalto, é possível a aprovação da chamada “Pec da Bengala”, que adia de 70 para 75 anos a idade limite para servidores públicos. Ela impedirá que Dilma tenha o prazer de escolher cinco novos membros do Supremo Tribunal Federal.

O pessoal da arquibancada talvez não saiba, mas presidentes da República, por alguma razão que ignoramos, gostam de nomear os ocupantes de cargos importantes. Os vitalícios, então, eles adoram.

Os suspeitos de sempre - FERNANDO GABEIRA

O ESTADO DE S.PAULO - 13/02

Escolheram mais um suspeito de sempre. Essa frase, de um jornalista americano, sobre o novo presidente da Petrobrás é precisa.

Certamente não se referia à trajetória pessoal de Aldemir Bendine. Ele ignora que o banqueiro guarda dinheiro no colchão ou que fez um empréstimo generoso à socialite Valdirene Aparecida Marchiori. Creio que queria apenas dizer que o governo arruinou a Petrobrás e dificilmente encontrará alguém, dentro dos seus quadros, capaz de reconstruí-la.

Era preciso um novo presidente com capacidade e autonomia. Se alguém com talento conseguisse sobreviver no governo, decerto seria alvejado pelos atiradores do PT ao revelar alguns vestígios de autonomia.

O PT completou 35 anos com festa. E de alguma forma lembrando a frase "cuidado com os idos de março". É uma data do calendário, talvez o dia 15, lembrada pelo assassinato de César. Os idos de março sempre evocam momentos trágicos para um governo.

No caso brasileiro, o grande adversário do PT é sua própria visão de mundo. O partido considera manobra golpista a enxurrada de dados sobre corrupção na Petrobrás e outros órgãos do governo. Por exemplo, um ex-gerente, em delação premiada, disse que o PT recebeu mais ou menos US$ 200 milhões em propinas, na área de abastecimento. O partido nega.

Usando o senso comum, parece-me absurda a controvérsia em torno de meio bilhão de reais. Se esqueço de pagar uma água de coco no bar do Baiano, no Flamengo, ele é o primeiro a me lembrar que faltam R$ 5. Se tenho direito a troco de apenas R$ 1, reclamo prontamente. Como é possível que uma verba de R$ 500 milhões, oriunda de contratos reais da empresa, transite tão etereamente a ponto de uma intensa investigação não determinar sua trajetória?

A decisão do PT de negar todas as evidências é a manobra mais perigosa que o partido já engendrou nos últimos anos. Dizem os jornais que na festa de aniversário, em BH, o PT prometeu manifestações públicas para defender o governo e isolar o golpismo. Isso é mais animador, pois pode precipitar a realidade. Bandeiras e camisas vermelhas acusando a Lava Jato de manobra golpista podem revelar ao partido um pouco da realidade.

Ando muito pelas ruas. Mas pode ser que ande pelas ruas erradas e tenha uma falsa impressão. Mas a pesquisa Datafolha mostrando a queda na aceitação de Dilma confirma minhas intuições. Não será fácil de novo desfilar com macacões laranja defendendo uma Petrobrás que a maioria acredita ter sido saqueada pelo PT e aliados. Com que palavras de ordem sairão às ruas? "A Petrobrás é nossa" não é um refrão aconselhável para as circunstâncias. Resta talvez a resistência a um golpe hipotético.

E talvez nisso esteja a grande esperança do PT. Um golpe seria sua redenção, a condição de vítima talvez sepultasse o peso dos bilhões roubados da Petrobrás. Mas não há golpe no horizonte. As próprias condições de inserção internacional do Brasil já sepultaram qualquer solução fora da lei. Resta o desenrolar implacável de um processo de corrupção gigantesco que atrai a atenção mundial, porque ocorreu numa empresa globalizada.

A tática de negar sua responsabilidade neste processo histórico será um dado decisivo na história do PT. Muitos já denunciam o medo de Lula e Dilma de discutir abertamente o que se passou na Petrobrás. Pode ser que Lula, Dilma e o PT analisem como coragem sua disposição de enfrentar o processo afirmando que tudo o que o partido recebeu foi doação legal. Mas de onde veio o dinheiro senão do saque da Petrobrás?

No momento é possível reunir a coragem para negar. Mas com o avanço das evidências seria preciso uma coragem muito maior para negar também a lucidez das instituições jurídicas e da opinião pública nacional.

Pela experiência, o que acontece nesses casos é sempre muito doloroso. O PT ainda está um pouco escondido, mas pode observar, por exemplo, o que aconteceu com Graça Foster e Nestor Cerveró: tornaram-se máscaras de carnaval; os vizinhos ergueram faixas contra Graça.

O partido, contudo, escolheu o caminho mais espinhoso para enfrentar o processo. Como no passado, tentará convencer as pessoas de que estão erradas e foram manipuladas pela imprensa.

Outro dia, um homem na rua me disse: "Às vezes me arrependo de ser consciente. Se fosse apenas desligado do Brasil, não sofreria tanto. É muito duro para as pessoas, presenciando um processo com números, nomes de contratos, delatores premiados e tudo o mais, assistirem a alguém dizer que tudo isso é uma grande manobra. Querem me convencer de que sou maluco". Disse ao homem que era um processo mais amplo e, no fundo, está em jogo isto mesmo: ou se pune a corrupção, prendem-se as pessoas e se obriga os partidos a pagarem um enorme preço político, ou então a tática do PT triunfou.

Será preciso enlouquecer todo um país. É uma jogada de alto risco. No mensalão, de punhos erguidos, descobriram a realidade dos presídios e trataram de sair fora, deixando nas grades as secretárias que fechavam envelopes.

Em caso de vitória, terão de governar um País enlouquecido. Em caso de derrota, as consequências são imprevisíveis. Desde a camisa de força até cumprir inversamente a profecia de Delúbio Soares de que o mensalão com o tempo será uma piada. É o próprio PT, com o tempo, que pode virar uma piada.

Se esse é o caminho escolhido, então que vengan los toros. Marqueteiros de todo o País, uni-vos em torno da grana que ainda está nos cofres e provem que essa montanha de dinheiro roubado é apenas miragem, que Pasadena foi um bom negócio e a Petrobrás vai bem, apenas ameaçada pelos inimigos externos.

Procurem fazer um bom trabalho. No mensalão, lembrem-se, sobrou para os marqueteiros. Milhões de dólares rolam pelos computadores num simples toque no teclado. Mas isso não significa que sejam invisíveis.

O empresário de Santa Catarina que tinha 500 relógios num cofre tem lá sua lógica. O tempo está contra a quadrilha, é preciso detê-lo de qualquer forma.

A conquista da hegemonia - MARIA CRISTINA FERNANDES

VALOR ECONÔMICO - 13/02

Ouvir e mostrar que se importa com o que ouve

No seu primeiro ano de governo, enfrentou tentativa de golpe, revolta estudantil contra o aumento de passagens, CPI na Petrobras, revolta de produtores agrícolas afetados pela queda de preços no mercado internacional e sindicatos inquietos com a escalada da inflação.

Dos quatro presidentes eleitos entre as duas ditaduras do século passado, Juscelino Kubitschek foi aquele que chegou ao poder com o menor número de votos (35,6%). Venceu em 15 Estados e perdeu em nove.

JK propôs anistia aos militares que o ameaçaram com golpe e abriu o Palácio do Catete para estudantes rebelados, udenistas, cafeicultores e sindicalistas. Foi o único dos civis daquele período a concluir o mandato.

Dilma é a presidente mais minoritária (41,6% no 1o turno e 51,6% no segundo) desde o golpe que abreviou a geração de Juscelino. Assim como JK, também venceu em 15 Estados, mas perdeu em 12 - nos dois turnos.

Antes de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lhe dizer ontem que precisa se abrir para os que não a elegeram, outro aventureiro já havia lançado mão da mesma advertência.

Numa passagem desapercebida de seu discurso na eleição à Presidência da Câmara, o deputado Eduardo Cunha distinguiu a vitória eleitoral de Dilma do que chamou de "hegemonia eleitoral" e disse que só esta lhe daria "hegemonia política".

A hegemonia pressupõe consentimento de interesses mais que a soma de votos. Mas o presidente da Câmara não recorre a Gramsci. Dá sua própria explicação para a ausência de hegemonia que conforma o poder da presidente: "Quando Lula e Dilma ganharam as eleições anteriores foi uma vitória tão grande que não deu margem a contestações. Desta vez o resultado foi muito mais apertado. Esses 28 partidos da Câmara são decorrência da falta de hegemonia eleitoral da presidente e do PT, que só tem 13% dos assentos da Casa".

Não se trata de um golpista. Seu projeto está condicionado à permanência da presidente no poder. Mais do que a relação entre Dilma e Lula, é aquela entre os presidentes da República e da Câmara que moldará o segundo mandato.

Cunha ganhou a eleição da Câmara com o apoio desses partidos cuja existência debita na ausência de hegemonia eleitoral da presidente. Na falta de uma polaridade no Congresso que reproduza o resultado da eleição presidencial, busca galvanizar os deputados que estão na base do governo, mas cujos eleitores não marcaram 13 para presidente.

A esse movimento de expansão de Cunha contrapõe-se o acanhamento da presidente na dificuldade de ampliar as bases de sua legitimidade. Para ficar apenas nas quatro últimas nomeações de seu governo: Secretaria de Assuntos Estratégicos, Autoridade Pública Olímpica, Caixa Econômica Federal e Petrobras.

Mangabeira Unger reforça a imagem de um governo sem talento para as ambiguidades. Edinho Silva é um tesoureiro de campanha no comando do evento internacional de maior vulto do segundo mandato. Miriam Belchior marcou sua despedida do Conselho da Petrobras com o voto contrário ao balanço que derrubou Graça Foster. Aldemir Bendine é a demonstração de que o mercado desconfia de seus próprios conceitos, como o de governança.

As escolhas sinalizam as dificuldades em se convencer a presidente a ouvir, mostrar que se importa com o que ouve e é capaz de acreditar que a grande maioria dos brasileiros, mesmo aqueles que não a escolheram, querem que cumpra seu mandato até o fim. Sem essa ausculta, pode até apelar a João Santana mas, no máximo, vai conseguir ampliar a comunidade de surdos para além do Planalto.

Age como quem parece ter gastado sua cota de concessões com a escolha de Joaquim Levy. No conjunto da obra, o ministro da Fazenda aparece como a garantia de que, resguardada a base monetária, o voluntarismo continue em voo livre.

Os dois ministros mais bem aparelhados para a negociação política, Jaques Wagner e Aldo Rebelo, foram alocados em pastas periféricas enquanto o coração do governo, a Casa Civil, continua nas mãos doministro com quem a presidente toca de ouvido a sonata do autismo.

Dilma Rousseff conseguiu convencer até a alguns de seus mais próximos colaboradores em outubro do ano passado de que ouviria mais quando, uma hora depois de a Justiça Eleitoral informar sua irreversível vantagem, disse aos brasileiros que "queria ser uma pessoa melhor".

Era apenas a presidente dando início ao terceiro turno. Passados mais de três meses do fim daquela campanha, hoje é possível se dar conta de que os termos em que a conduziu, para além dos adversários, foram prejudiciais a si mesma.

Em 2010 a presidente já havia sido apresentada ao trailer da campanha do ano passado. Mas Lula não saía do palanque e a campanha era menos arriscada. Naquele momento, rejeitou as simplificações, por burras e ingênuas.

No miolo, ainda era a mesma Dilma Rousseff que, 40 anos antes, ao deixar a prisão depois de ignominiosa tortura, protegeu-se sob o manto da honestidade intelectual, do rigor e da tarefa cumprida. As medidas ainda eram da heroica guerrilheira, mas foi com elas que entrou no jogo político.

Este manto começou a se rasgar quando Dilma optou, quatro anos depois, pelas verdades seletivas da campanha.

Esgarçou-se mais com o cerco à Petrobras e o vozerio de racionamento, rebaixamento e impedimento. A crise passou a colocar em xeque as virtudes em que se fiou lá atrás para voltar ao jogo e ir pra frente com o Brasil.

Em algum momento será aconselhada a recosturar o manto para pedir desculpas, como Lula o fez, de Paris, quando se escancarou o mensalão.

Tem três anos, dez meses e 15 dias a cumprir. Não é uma sentença. É a missão que o eleitor, livre e soberanamente, lhe conferiu. Não é a primeira nem será a última presidente a começar um mandato sob crise e não há razão objetiva que a impeça de superá-la.

Carlos Araújo, ex-marido e uma das pessoas mais a influenciam, costuma presentear a ex-mulher com livros sobre Getúlio Vargas, brasileiro de sua predileção, mas é Juscelino quem parece faltar à sua cabeceira.

Entre o espelho e o marqueteiro - ROGÉRIO FURQUIM WERNECK

O GLOBO - 13/02

De desastre em desastre, a presidente Dilma se vê com espaço de manobra cada vez mais restrito


Fevereiro vem impondo duro choque de realidade a quem ainda não se dera conta da extensão do despreparo da presidente Dilma para enfrentar a grave conjunção de crises com que agora se depara. Na esteira de uma atuação espantosamente desastrada, o Planalto parece ter estreitado ainda mais o já reduzido espaço de manobra com que contava para lidar com leque tão amplo de dificuldades.

O primeiro desastre foi o retumbante fracasso do pretensioso esquema de segurança parlamentar que, supostamente, estaria garantido pelas forças políticas representadas no novo ministério. Apesar de todo seu empenho, o Planalto não conseguiu evitar que o Deputado Eduardo Cunha, notório desafeto de Dilma, conquistasse a presidência da Câmara em primeiro turno, com 267 votos. Não bastasse seu candidato ter tido pífios 136 votos, o PT se viu completamente alijado da Mesa Diretora da Câmara.

Quatro dias depois, para grande irritação do Planalto, a oposição, apoiada por 52 parlamentares da base aliada do governo, conseguiu aprovar a instalação de nova CPI da Petrobras na Câmara, prontamente autorizada pelo presidente da Casa. E foi só o começo. A presidente vem tendo desgostos quase diários com o que vem ocorrendo naquela Casa.

Ainda atordoado pela consciência da precariedade do seu apoio parlamentar, o Planalto logo se viu às voltas com novas trapalhadas na condução da crise da Petrobras. Indignada por ter o Conselho de Administração da empresa admitido que os ativos da companhia poderiam vir a sofrer baixas contábeis da ordem de R$ 88 bilhões, Dilma anunciou que Graça Foster seria afastada da presidência da estatal.

Como já havia feito com Guido Mantega na Fazenda, a presidente pediu a Graça Foster e demais diretores que permanecessem no cargo até que fosse concluído o problemático fechamento do balanço da empresa. Para sua grande surpresa, a diretoria recusou-se a desempenhar tal papel. Preferiu demitir-se em bloco. E Dilma viu-se, de repente, obrigada a encontrar, em 48 horas, um nome com perfil adequado que se dispusesse a assumir a presidência da Petrobras em meio à grave crise que atravessa a empresa.

Entalada nessa posição tão difícil, a presidente poderia ter aproveitado a oportunidade para escolher um nome respeitável e independente, que fosse capaz de repassar a empresa a limpo. Mas preferiu uma solução caseira, que lhe permitisse manter a presidência da empresa sob seu estrito controle e assegurar a blindagem que obceca o Planalto: impedir que o Conselho de Administração e a cúpula do governo venham a ser de alguma forma responsabilizados pelo que aconteceu na Petrobras.

Foi um erro grave. É bem provável que a presidente se arrependa amargamente de ter perdido a oportunidade de pôr em marcha um esforço convincente de reconstrução da Petrobras em outras bases. Dilma parece ainda não ter percebido que, a esta altura, já não será no âmbito da própria estatal que afinal será estabelecido se o Conselho de Administração da empresa ou o Planalto devem ou não ser responsabilizados pelo que aconteceu. E que, caso ela própria venha a ser responsabilizada de alguma forma, estará em posição muito menos confortável do que estaria se pudesse ostentar empenho inequívoco e genuíno em passar a estatal a limpo no seu segundo mandato.

No governo, houve quem se queixasse de que, na escolha do novo presidente da Petrobras, Dilma teria tomado uma decisão solitária, sem consultar ninguém. A informação de que só consultou a si mesma é mais uma evidência de que a presidente, desalentada, quem sabe pela qualidade da assessoria de que se cercou, tem-se mantido preocupantemente isolada.

O que agora se noticia é que, alarmada com a rápida queda de sua popularidade e com a extensão da deterioração de sua imagem, Dilma estaria convencida de que precisa se reaproximar de seu marqueteiro. Uma reação redondamente equivocada. Passar a entremear consultas ao espelho com sessões de ilusionismo não é exatamente o tipo de arejamento de que a presidente precisa.

Temer defende distritão - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 13/02

O vice-presidente da República, Michel Temer, telefona para entrar no debate a favor do distritão, sistema eleitoral em que os candidatos a deputado federal mais votados em cada estado são eleitos, sem depender de coligações partidárias nem de votos na legenda. Temer alega razões "de natureza jurídica e política" para apoiar a mudança, e diz que o voto proporcional anula um preceito básico da democracia: a maioria pratica os atos de governo, respeitando a minoria.

Algumas ideias sobre o tema foram colocadas no papel pelo vice-presidente, que ressalta que presidentes, governadores, prefeitos e tribunais governam por meio do critério da maioria. Em um trabalho sobre o tema que me enviou, ele lembra que os três primeiros se elegem por essa forma exigindo-se, às vezes, maioria absoluta. Nos tribunais, as decisões judiciárias, que são atos de governo, se dão por maioria de votos. Na visão de Michel Temer, o parlamentar que vota a favor ou contra um Projeto de Lei está praticando ato de governo, e agindo em nome do povo.

O sistema proporcional cria situações que, para ele, negam a regra básica de que todo o poder emana do povo, e que o desejo da maioria deve prevalecer. Uma hipótese a que Temer se referiu no trabalho serve de exemplo, a partir de um caso concreto: um deputado federal eleito com cerca de 1.600.000 votos conduziu pela legenda mais quatro ou cinco deputados. Um deles com 285 votos. Um candidato de outra legenda com 128.000 votos não foi eleito em face do chamado quociente eleitoral.

"Quem representava mais corretamente a regra segundo a qual o poder emana do povo, o de 285 ou o de 128.000 votos?" pergunta Temer. Para rebater a tese de que o distritão enfraquece os partidos políticos, em favor de uma ação personalista do deputado - como advertiu ontem aqui o dentista político Jairo Nicolau -, Temer ressalta que hoje o sistema proporcional prestigia o partido político em detrimento da vontade da maioria popular, e, para ele, entre dois valores constitucionais, vontade majoritária e partido político, deve prevalecer o primeiro.

Ele acha que, ao contrário, o distritão favorecerá os partidos, que não terão que fazer coligações e poderão reduzir o número de candidatos, escolhendo um grupo mais homogêneo para a disputa. Como o Supremo já decidiu pela fidelidade partidária daqueles que são eleitos pela legenda, Temer diz que a emenda constitucional que vier a estabelecer o voto majoritário incluirá no artigo seguinte a fidelidade como critério.

Ele lembra que quando o partido organiza a sua chapa de deputados federais, que pode ser uma vez e meia o número de cadeiras que cabem ao estado, vai se procurar candidatos que às vezes não têm mais do que 500 votos, apenas para engordar o quociente partidário. Ou, então, uma figura muito popular e fora dos quadros partidários que possa trazer um milhão e meio ou dois milhões de votos.

Não significa que tais cidadãos não possam concorrer, diz Temer. Poderão fazê-lo e se eleger, mas não levarão consigo deputados que não tiveram votos ensejadores da maioria. Temer considera certo que os partidos meditarão sobre quantas vagas poderão obter. Se forem 5 ou 6, o partido não lançará mais do que 12 ou 15 candidatos, tornando mais programáticas a fala no rádio e na televisão e nos materiais de propaganda e menos custosas as campanhas eleitorais.

Temer, no entanto, não é contra a ideia de "distritalização" do voto para os deputados estaduais e para os municípios com mais de 200 mil eleitores. Nessas hipóteses, sim, escreveu ele, as regiões do estado ou do município devem ter representação regional nas Casas legislativas. A representação se toma mais efetiva já que aproxima o eleitor do eleito.

Ele defende a adoção do distrital misto, metade eleito pelo voto majoritário e metade pelo distrito, porque há figuras de expressão, mas que não têm base distrital. No caso dos estados e municípios vale a regionalização. O deputado estadual e o vereador legislam para o todo estadual e municipal, mas levarão para as Casas legislativas as aspirações parciais dos seus distritos para formação da vontade global do estado ou do município.

Não é o caso, ressalta Michel Temer, do deputado federal que, sendo representante de todo o povo brasileiro, ao contrário dos senadores, que representam os estados, legisla para todo o país, avaliando as aspirações do povo brasileiro do seu "distritão" (Estado).

Bom Carnaval a todos. A coluna volta a ser publicada na quinta-feira, dia 19.

Um tsunami às avessas - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 13/02

Foi só cair um pouco de chuva neste verão escaldante do Sudeste e do Centro-Oeste para o Planalto e o governo paulista adiarem medidas mais efetivas a fim de enfrentar as atuais e gravíssimas crises energética e hídrica do país. São crises gêmeas, debitadas na conta de São Pedro e que resultaram de série de erros de planejamento, de adiamentos de providências e, sobretudo, de informações sonegadas ao público em virtude do calendário eleitoral.

O ano começou sob o espectro do racionamento de água e de eletricidade, acompanhado da escalada nos preços das tarifas graças a custos represados e endividamentos de concessionárias. Mas as autoridades ainda preferem apostar tudo na sorte, postergando a solução racional e mais barata. Apresentar à população, com responsabilidade e em detalhes, o real quadro de dificuldades e pedir a colaboração de todos para atravessar um período transitório de sacrifícios, enquanto se buscam alternativas duradouras, seria o mínimo que os governantes poderiam fazer.

Sem a economia voluntária e consciente do cidadão, só restará aos governantes determinar cortes obrigatórios do fornecimento de serviços essenciais e reajustes ainda mais salgados nas tarifas. A escassez impõe diálogo franco do Executivo com a população, uma negociação com os demais Poderes e a mediação de conflitos entre as unidades da Federação decorrentes deste processo. Mas o que tem se visto ainda é a escaramuça, o retardo e o eufemismo. Racionamento se tornou um palavrão para governos, mesmo após os prejuízos políticos da má gestão do estresse hidrelétrico e nas companhias de saneamento já terem batido forte nas pesquisas de opinião.

A postura oficial de tentar mascarar a realidade alcançou até o Ministério da Agricultura, setor também diretamente atingido pelas longas estiagens. A titular da pasta tratou de fazer coro ao discurso contemporizador do colega de Minas e Energia e descartou impactos na produção e nos preços agrícolas em razão da secura. "Estamos vivendo uma catástrofe no campo, um tsunami às avessas", rebateu o ex-ministro da pasta Roberto Rodrigues, ao Correio.

A presidente Dilma Rousseff, que tem o setor energético como marca pessoal de sua trajetória política, está disposta a negar até o último minuto a necessidade de repactuar o consumo de água e eletricidade no país ou mesmo preparar o terreno para cortes planejados do abastecimento. As chuvas de fevereiro empurraram a decisão do Planalto de esticar o horário de verão por mais um mês e a do Palácio dos Bandeirantes de iniciar o rodízio na Grande São Paulo. Em paralelo, circulam nas redes sociais piadas em torno do sofrimento dos que não têm recursos hídrico e elétrico permanentemente à disposição.

Os apagões deixaram milhões de brasileiros no escuro mês passado e técnicos do Ministério de Minas e Energia já propuseram até o uso excepcional de geradores de shopping centers no horário de maior demanda, puxada pelos equipamentos de ar-condicionado. Mas o alívio esperado para o sistema nacional parece estar dependente da combinação de melhoras inferiores a 1% nos níveis de represas e a reajustes de tarifas acima de dois dígitos. Com isso, o setor elétrico é o único para o qual expectativas de recessão e de piora histórica da atividade industrial soam como notícia boa.

O PT no contra-ataque - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 13/02

Já que o governo não consegue sair das cordas, o PT resolveu que é hora de salvar a própria pele. O presidente nacional do partido, deputado estadual paulista Rui Falcão, interpretando o sentimento de profunda apreensão que assalta os petistas às vésperas do ingresso da Operação Lava Jato na fase de indiciamento dos políticos envolvidos no escândalo da Petrobrás, anunciou a decisão de interpelar a força-tarefa daquela operação - ou seja, a Polícia Federal e o Ministério Público - e também os investigados que estão fazendo acordos de delação premiada. A tese de Falcão é que os delegados e procuradores federais estão criando condições para que a operação se transforme em instrumento da oposição para "criminalizar" o PT.

Por sua vez, obedecendo à orientação do Palácio do Planalto - que responde ao aumento da pressão do partido para que o governo cumpra sua parte, que é a de pelo menos defender a presidente da República -, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, valeu-se de entrevista ao Estado para requentar a tática lulopetista de dividir o País entre "nós" e "eles". Para Cardozo, "eles" estão tentando "apagar o passado e criar um clima passional" contra Dilma Rousseff.

Em ambas as manifestações fica clara a intenção de aplicar a velha tática diversionista: se não dá para sair do buraco, traga os inimigos para dentro dele. No que se refere ao escândalo da Petrobrás, por exemplo, o PT já não se dá ao trabalho de negar que membros importantes do partido tiveram participação na esbórnia. Empenha-se agora em demonstrar que "eles" também têm culpa. O ministro da Justiça insistiu em que "os depoimentos da Lava Jato mostram que a corrupção da Petrobrás começa muito antes do governo Lula". Também Rui Falcão bateu na tecla de que os indícios de corrupção nos governos do PSDB devem ser "devidamente investigados".

De qualquer modo, já é um avanço Cardozo admitir que houve corrupção na Petrobrás. Até pouco tempo atrás, qualquer menção a esse assunto era repelida pelos petistas sob o argumento de que por detrás das denúncias se ocultava a intenção dos inimigos do povo de privatizar a estatal.

Há que se reconhecer, ainda, que o ministro da Justiça evoluiu também em outro ponto importante: "O caixa 2 eleitoral, por exemplo, tem que ser considerado crime". Sem efeito retroativo, obviamente, diria Delúbio Soares, o campeão dos "recursos não contabilizados".

Preocupado em aliviar o peso das acusações contra seu partido, que só aumentará na próxima fase da Lava Jato, Rui Falcão insiste na afirmação de que todas as doações de empreiteiras para campanhas eleitorais do PT foram "feitas legalmente". É até provável que seja isso mesmo. Mas a formalização legal de uma doação não elide o fato de ela ter sido o produto de um arranjo criminoso. E é disso que se trata.

Em seu pronunciamento, ao contestar o trabalho da força-tarefa que investiga o escândalo, Falcão acabou comprometendo a posição oficial do governo Dilma, que procura fazer crer que o escândalo só existe porque ele, o governo petista, autorizou, apoia e estimula as investigações. Além disso, Falcão acabou admitindo, implicitamente, com uma frase infeliz, a participação do PT na farra da propina: "Se disserem que a gente recebeu dinheiro de propina, é porque os demais também receberam". "Também" receberam?

O presidente do PT traduziu a preocupação de todo o partido de blindar o tesoureiro da legenda, João Vaccari Neto, de acusações sobre propinas. A mobilização que Falcão articula se deve ao papel de grande e reconhecida importância e competência com que o tesoureiro petista se empenha há uma década no trabalho vital de captação de recursos para as atividades partidárias, particularmente as dispendiosas campanhas eleitorais. Favorece também a imagem de Vaccari dentro do partido seu desempenho à frente da cooperativa habitacional dos bancários, a Bancoop, que lhe trouxe problemas com muitos cooperados, a polícia e a Justiça, mas deixou feliz gente da nomenklatura petista, inclusive Lula.

A contraofensiva petista está armada para tentar impedir que as investigações da Operação Lava Jato devastem o partido. Resta saber se haverá dedos suficientes para tapar todos os buracos que não param de surgir no imenso dique que ainda retém o mar de lama.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“A palavra impeachment está na boca do povo brasileiro”
Senador Cassio Cunha Lima (PB), líder do PSDB, acreditando na destituição de Dilma



Atraso no setor elétrico dá prejuízo bilionário

Além da incapacidade de realizar projetos de geração e transmissão, diretores de Engenharia de estatais do setor elétrico como Eletrobras, Eletronorte, Eletrosul, Chesf e Furnas, prepostos do PT, fixaram um modelo de negócio vulnerável à corrupção. Eles definem projetos, fazem “chamamento” (e não licitação) e escolhem parceiros de EPEs (Empresas de Propósito Específico) constituídas para a execução das obras. Apesar de “minoritárias” nas EPEs, as estatais é que mandam.

Drible na lei

As empresas escolhidas pelos diretores petistas ficam com 51% das EPEs e as estatais com 49%. Por isso, a EPE é considerada privada.

Sem licitação

Apesar dos 49% da EPE, estatais do setor elétrico, por seus diretores de Engenharia, definem tudo, principalmente contratos. Sem licitação.

Aparelhamento

Na estatal Chesf, o PT “aparelhou” de 34 das 52 EPEs, indicando como diretores militantes incapazes, impondo ritmo de cágado às obras.

Atraso e prejuízo

Tanta incapacidade provocou atraso em 272 obras na área de energia e prejuízo R$ 65 bilhões ao Brasil, segundo estudo da Firjan.

Dilma prefere os conselhos de assessor a Lula

Dilma tem dado mais ouvidos ao assistente pessoal Anderson Dornelles do que ao ex-presidente Lula, antigo guru e padrinho político. O gaúcho de 35 anos, que Dilma conheceu quando ele tinha 13 anos como seu office-boy, Anderson é chamado por ela de “Bebê” ou “Menino” e acabou promovido de “porta-celular” a confidente e até conselheiro político. Ele se dirige a ministros como se fosse um deles.

Ojeriza a milico

Anderson ficou ainda mais a próximo de Dilma, na medida em que cresceu o desprezo dela por ajudantes de ordem militares.

Na mira do Bi

Aloizio Mercadante (Casa Civil), que afastou de Dilma todos os seus antigos assessores, não conseguiu (ainda) “queimar” Anderson.

Esse cara sou eu

Dornelles controla o celular, o tablet e a agenda de Dilma, e não é apenas um garoto de recados. É mesmo a voz da presidente.

Porta-silêncio

Dilma anda tão emburrada que sobrou até para seu porta-voz Thomas Traumann, que há um mês não consegue falar com ela. Pede hora, insiste, mas não recebe resposta do gabinete de madame.

Alerta máximo

Com a derrota de seu candidato na disputa para o cargo de Líder do PMDB na Câmara, o vice Michel Temer ficou mais esperto: com a vitória de Leonardo Picciani, a bancada do Rio de Janeiro articula sua substituição no comando do partido pelo ex-governador Sérgio Cabral.

Modesto, ele

Eduardo Cunha nega ter influenciado votação que elegeu Leonardo Picciani líder do PMDB na Câmara. Chamou isso de “fofoca” e afirmou que, caso houvesse interferido, a diferença não seria só de um voto.

Bloco na rua

Líder do PSDB no Senado, Cássio Cunha Lima (PB) garante que, haja carnaval ou não, o tucanato “colocará o bloco na rua” para investigar o governo Dilma no Petrolão, Eletrobras, fundos de pensão e BNDES.

Prova viva

O médico Sinval Malheiros (PV) foi ao Ministério da Saúde para discutir surto de dengue em Catanduva (SP). O deputado, que já não passava bem na audiência, só não sabia que era mais uma vítima da doença.

Luta é na Justiça

Reeleito para o terceiro mandato, o deputado Alfredo Kaefer (PSDB-PR) esclareceu ontem que uma empresa dele solicitou recuperação judicial, mas o juiz decretou a falência e ainda estendeu a decisão a 26 outras empresas, algumas que nem saíram do papel. Ele vai recorrer.

Faca no pescoço

Apesar de ter ajudado a eleger Eduardo Cunha, o PP está confiante que não perderá espaço no governo. Para seus dirigentes, Dilma tem juízo e sabe que precisará, mais que nunca, de apoio na Câmara.

Fura poço

Ex-vice-governador do DF, Tadeu Felippelli pressiona PMDB para obter cargos no setor de infraestrutura, como DNIT ou Valec, vinculados ao Ministério dos Transportes. O PR briga para não abrir mão deles.

O loroteiro

Presidente, Lula prometeu que nordestino algum precisaria recorrer mais a um caminhão-pipa. Hoje são mais de mil, segundo contabilizou o deputado Raimundo Matos (PMDB-CE).


PODER SEM PUDOR

Já morreu tarde

Em 1955, um ano após a morte de Evita e pouco antes de cair, o general argentino Juan Domingo Perón demitiu o poeta maior Jorge Luis Borges de uma sinecura na Biblioteca Nacional de Buenos Aires.

- Perón es un miserable! - reagiu o poeta

Em 1973, Perón retornou ao poder e faleceria em seguida. Um jornalista procurou Borges e tentou induzi-lo a uma resposta generosa sobre o morto. Ele repousou as mãos sobre o cabo da bengala e exclamou:

- Ahora, Perón es un miserable muerto!

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Meio mérito - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 12/02

Caem todos na ingrata tarefa de tentar explicar que a investigação é um êxito histórico, mas os resultados, uma conspiração anti-PT


Teoria do PT: roubalheira, sempre houve; só que antes era escondida pelos governos e, agora, desde a presidência de Lula, é investigada às claras.

Sendo isso verdade, o mensalão e a lava-jato devem ser incluídos no rol de realizações da era petista. Sem nenhum exagero, esse tremendo flagra na corrupção pode até aparecer na lista do “nunca na história deste país....”

Ocorre que o PT, pelo que dizem seus militantes, do mais ilustre até a base, não aceita esse mérito. Mensalão? Nunca existiu. Os condenados e presos? Vítimas da mídia e das elites. Lava-jato? Não tem nada provado, só denúncias de criminosos-delatores. Milionárias doações de campanha feitas por empresas suspeitas? Absolutamente legais.

De maneira que ficamos assim: o governo do PT não esconde, nem engaveta nada, mas manda investigar e punir, dando independência e condições de trabalho a Justiça, promotoria e Polícia Federal. Era o que dizia a presidente Dilma durante sua campanha, foi o que repetiu para O GLOBO o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, ainda nesta semana. Mas o resultado da investigação, segue a teoria petista, está sendo manipulado com o fim de derrubar o próprio PT.

Mesmo com a ajuda dos marqueteiros e com o talento de Lula para driblar as questões delicadas, fica meio esquisito. Se os governos petistas tiveram tanto poder para colocar Justiça e polícia na investigação, como poderiam ter sido tão ludibriados a ponto de tudo virar uma “manobra para criminalizar o PT"? Fica difícil explicar, inclusive nos tribunais, que a investigação foi uma boa, mas os resultados, não.

Tudo considerado, o PT quer meio-mérito.

Por isso, soam tão esquisitas declarações como as do ministro da Justiça (GLOBO, 10 de fevereiro). Por exemplo: “O governo (Dilma) não cede um milímetro na sua orientação de que tudo deve ser apurado... e punido com máximo rigor... Agora se dá garantias para que se faça..."

Apurar e dar garantia aos poderes independentes é obrigação de qualquer governo. Mas , vamos lá, aceitemos provisoriamente a tese de que este governo e o de Lula têm esse mérito porque os outros seriam de roubalheira sem apuração. E, por isso, completa o ministro: “É um dever da Polícia Federal apurar se (a corrupção) é no governo A, B ou C".

Quer dizer, então, que a Polícia Federal e o Ministério Público só vão atrás dos malfeitos dos governos petistas? Reparem: a Polícia Federal está no organograma do Ministério da Justiça. O ministro não pode, pela lei, e não deve, pela ética, interferir nas investigações e selecionar os fatos que serão ou não objeto de investigação. Mas o ministro nomeia e demite os chefes da PF — e, vamos convir, seria um motivo de demissão se a polícia não estivesse cumprindo seu dever de “apurar se é no governo A, B ou C".

Mais diretamente: o ministro não pode ou não deve chamar o chefe da PF e mandar parar a investigação que apanha petistas. Mas pode cobrar: e os outros? E demitir se a apuração for enviesada.

Não faz isso — e aqui vai o outro lado — porque as descobertas da PF, do Ministério Público e do juiz Moro são avassaladoras. Só haveria um meio de, na política, afastar essa corrupção do PT e seu governo: seria admitir os fatos, pedir desculpas e separar os culpados dos inocentes.

Deve haver inocentes, não é mesmo? O que estará sentindo o militante fiel da base, que não pegou um centavo, ao saber, por exemplo, que o ex-chefe José Dirceu recebeu mais de R$ 4 milhões, para sua empresa, não para o partido, por consultorias de sociologia e economia?

Não é possível que esteja todo mundo envolvido. Mas é, sim, estranho que os inocentes não tenham se revoltado. Você luta por uma causa e aí vêm uns caras que, em nome do partido, enchem os bolsos? Não tem nada de mais?

Acontece que o problema é mais complicado para eles. Não se pode dizer que sejam todos corruptos, mas pode-se dizer que eles, militantes, quadros e associados do PT, não vivem mais fora do governo. Por isso, é preciso defendê-lo a qualquer custo, mesmo sabendo que está sendo mantido à custa de dinheiro ilícito.

Dá para imaginar a cena, o chefão da turma dos pragmáticos, digamos assim, dizendo ao militante de fé: e você acha que a gente ia ganhar eleição vendendo estrelinha na Cinelândia?

E assim acabam todos envolvidos, os com dinheiro e os sem dinheiro. Assim caem todos na ingrata tarefa de tentar explicar que a investigação é um êxito histórico mas os resultados são uma conspiração anti-PT.

Tão ingrata quanto dizer que ajuste fiscal é só uma pequena medida corretiva. Ou que não tem ajuste coisa nenhuma. Ou ainda: quem disse que não faria o ajuste?

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Apertem os cintos, o TelePrompTer travou - GUILHERME FIUZA

Revista Época

Com todas as tormentas que rodeiam o governo Dilma, nada poderia ser mais grave e ameaçador do que o que se passou na primeira reunião ministerial do segundo mandato. Pior que a inflação, a recessão, o apagão e o petrolão: o TelePrompTer travou. E, sem TelePrompTer, a República prendeu a respiração.

O Brasil é um país irresponsável. Está cansado de saber que, quando Dilma começa a mentir muito, ela trava. Foi assim na campanha eleitoral, quando após um debate na TV ela teve de ser socorrida. Numa entrevista ao vivo, a mente presidencial mergulhara numa tal ciranda desconexa que o equipamento enguiçou. Nem João Santana, com uma junta de mecânicos e eletricistas de última geração, poderia evitar que aquele fusível queimasse. Daí a importância vital do TelePrompTer para os rumos da nação. É a segurança dos brasileiros que está em jogo.

Ainda assim, não obstante todos os alertas e advertências, o pior aconteceu. Dilma abria solenemente a primeira reunião com seu novo ministério de notáveis, no clima de esperança e euforia que cerca seu segundo mandato, quando tudo ruiu. O TelePrompTer, pilar da democracia companheira, que garante que a presidente diga coisa com coisa, começou a ralentar. Sinais de angústia tomaram as feições presidenciais, enquanto o discurso ia se enchendo de pausas, numa tentativa de adaptação ao ritmo defeituoso do equipamento golpista. Mas não adiantou.

O TelePrompTer foi então abandonado pela chefe da nação. Ela ainda tentara fazê-lo pegar no tranco, esculhambando ao vivo seu operador - em mais uma cena típica do instinto maternal da "presidenta" mulher. O teor de mentira do discurso de Dilma estava [altíssimo naquele momento, e quem sabe pode ter sido essa a causa do apagão no TelePrompTer, porque as máquinas também têm lá sua dignidade. Nem é preciso entrar muito em detalhes sobre o que Dilma estava pregando diante de seu novo e virtuoso ministério. Basta dizer que ela estava defendendo a... Petrobras. E o nacionalismo. Quando se deu o apagão, a presidente estava dizendo algo como "toda vez que tentaram desprestigiar o capital nacional, estavam tentando na verdade..." Aí travou. Nem o TelePrompTer aguenta mais tamanha carga de cara de pau. Só o cidadão brasileiro ainda tem estômago para isso.

Quase ao mesmo tempo que Dilma denunciava os que tentam desprestigiar o capital nacional, a Operação Lava [ato comprovava como o PT fez para prestigiar o assalto à Petrobras. O consultor Julio Camargo confirmou à Justiça que o pagamento de propinas a Renato Duque, fantoche da turminha de Dilma na Diretoria de Serviços da estatal, era a "regra do jogo" Em seguida, a informação que num país com um pouco de juízo teria derrubado imediatamente o governo: o empresário Augusto Ribeiro Mendonça Meto, do grupo Toyo Setal, confirmou ter sido orientado a pagar parte da propina por negócios com a Petrobras em forma de doação oficial ao PT.

É preciso repetir, porque muitos leitores a esta altura estão certos de que houve erro de redação na frase acima. O que está escrito lá não faz o menor sentido. Vamos à repetição: está confirmado que o PT inventou a propina legal. Para ganhar contrato com a Petrobras, o fornecedor não tinha de pagar "um por fora" ao diretor da estatal, mas "um por dentro" ao PT. Corrupção transformada em doação oficial ao Partido dos Trabalhadores. Aquele do mensalão, sabe?

O que mais o Brasil quer ver? O que mais você está esperando, prezado cidadão brasileiro, para sair às ruas e enxotar esses cordeirinhos socialistas que estão arrancando as calças da nação? Está esperando a quadrilha dizer a você que só chegará luz a sua casa se você der "um por dentro" ao PT?

Contando, ninguém acredita. Numa tarde quente de domingo, a base parlamentar irrigada pelo petrolão tomava posse alegremente no Congresso Nacional, com direito a selfies sorridentes com seus familiares. Assistindo na TV ao domingo feliz no jardim zoológico, o brasileiro comum bancava a farra com o aumento de impostos decretado pelo governo popular. Pelo visto, essa é a regra do jogo.

Você acha que não? Então mova se, prezado contribuinte. Até o TelePrompTer do Palácio já se rebelou contra a farsa companheira.

A palavra "I" - J. R. GUZZO

Revista Veja

Uma das complicações da política brasileira de hoje é que a poeira não baixa. Deveria baixar, pela lei da gravidade; "se subiu tem de descer", dizia Raul Seixas numa de suas muitas observações notáveis. Mas no Brasil da presidente Dilma Rousseff a lei da gravidade parece não estar funcionando. Seria mais uma dessas leis que não pegam?

O fato concreto é que a poeira em volta do governo, quase sempre levantada por ele mesmo, continua subindo — e o inconveniente disso é que deixou de existir a opção de esperar que a poeira baixe antes de tomar decisões, como recomenda a sempre tão prudente sabedoria popular. Esperar como? Antes de se desmanchar uma nuvem já vem outra, e se alguém ficar esperando o ambiente clarear corre o risco de passar a vida sem fazer nada. No momento, com a catástrofe que o Palácio do Planalto criou ao se deixar moer como picadinho na eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara dos Deputados, subiu um poeirão de estrada de terra em Mato Grosso em tempo de seca. Vai ficar aí por tempo indeterminado — e o resultado é que a vida pública brasileira continuará no voo cego que vem fazendo nos últimos quatro anos.

Sempre há a esperança de que bata um vento capaz de limpar a atmosfera, mas a experiência informa que está rodando no governo Dilma um programa pelo qual os ventos, caprichosamente, não têm tido a bondade de produzir os efeitos esperados deles — a cada vez que venta, ao contrário, tudo o que se tem é mais poeira. Mal começou o ano de 2015, e mal começou o segundo mandato da presidente, e já estamos em pleno breu. Para ficar numa lista resumida, continua em perfeita forma a tempestade de areia levantada no ano passado pelo assalto sem precedentes, e sem limites, aos cofres da Petrobras — só possível, na vida real, pela colaboração prestada aos assaltantes durante doze anos seguidos por parte dos dois governos do PT; no melhor dos casos, é um espetáculo de inépcia, negligência e imperícia que respeitados juristas já acham vizinho da cumplicidade. Do fim do ano para cá, a coisa só fez piorar. Seguiu-se, logo de cara, a nuvem de pó desse incompreensível novo ministério. Logo depois veio a revelação de que o Brasil corre o risco de um desastre no fornecimento de energia elétrica — ao contrário da afirmação pública da presidente, um ano atrás, de que graças ao seu governo o país tinha energia de sobra, barata e eterna. As contas públicas de 2014 fecharam com um rombo inédito na história: o governo federal arrecadou por volta de 1,2 trilhão de reais, mas conseguiu gastar quase 350 bilhões de reais a mais do que isso. Enfim, na eleição da Câmara, Dilma e seus grandes estrategistas políticos lançaram-se a uma aventura desesperada. Inventaram de declarar guerra a Eduardo Cunha, embora ele comande uma porção decisiva do PMDB, partido que há doze anos é o principal aliado do próprio governo, perderam e criaram uma nova liderança para a oposição, mais perigosa que todas as que já estavam aí.

A vitória de Cunha parece um desses casos clássicos em que a malícia é superada pela burrice. Dilma queria derrotar o PMDB para pagar menos por seu apoio. Vai pagar mais, e não pode fazer nada contra a bizarra espécie de aliado-adversário que criou. Não pode, é claro, expulsar o PMDB do governo, como não podia desde o começo da briga; não pode retaliar nem os partidos anões que comprou com cargos e que a traíram votando em Cunha. Quem iria colocar em seus lugares? Para piorar, o candidato da presidente ficou com pouco mais de 25% dos votos na eleição — uma soma ridícula, francamente, para quem pretende a "hegemonia" na vida política brasileira, como está escrito nos documentos oficiais do PT. A torcida do governo, agora, tenta se animar com a ajuda que imagina receber de gigantes do movimento de massas como Gilberto Kassab e Renan Calheiros — é a isso que está reduzida.

Mais que tudo, Dilma pôs em circulação, inteiramente de graça, a palavra "impeachment". É um despropósito, levando-se em conta que não está provada até agora nenhuma conduta criminal em relação a ela. Só está provado que faz um governo horrível, mas a Constituição não diz que o governo tem de ser bom; diz apenas que tem de ser eleito. Se é ruim, o remédio prescrito pela lei são eleições de quatro em quatro anos. Ao mesmo tempo, o Congresso não é obrigado a esperar decisões da Justiça para depor presidente algum; fez exatamente isso, por sinal, com Fernando Collor. Eis aí o que pode acabar sendo, para Dilma Rousseff, a mãe de todas as poeiras.

O que é isso, companheiros? - RUTH DE AQUINO

Revista Época 

Os 35 anos do Partido dos Trabalhadores não poderiam ser comemorados sob nuvens mais negras (leia o artigo de Fernando Schüler à página 46). O número do PT é 13 e também são 13 os anos no Poder. Fundado no auditório de um colégio de freiras em 1980, o PT parece a bela adormecida. Alheio ao caos a sua volta, num sono profundo, enfeitiçado pela bruxa e à espera de um príncipe encantado que resgate sua vida, sua moral, seus valores, seus súditos e seus sonhos. O príncipe não aparecerá. Ele já abandonou o castelo e se juntou aos aliados amotinados, que sentiram algo de podre no reino.

O tesoureiro foi recolhido em casa por policiais que precisaram pular o muro. Ele não explica como o PT tesourou o Brasil em cerca de US$ 200 milhões em propinas para entregar tudo ao rei e à rainha - caso sejam verdadeiras as denúncias do delator. Como erguer com orgulho, no aniversário, o punho e a estrela vermelha de cinco pontas? Em outros tempos, punho erguido era símbolo de luta, de dignidade. Foi vulgarizado pelos condenados por improbidade. Hoje, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, não convence ao afirmar: "Não aceitamos o estigma da corrupção, somos um partido honesto, que cumpre as leis". Palavras de pomba ou de falcão?

Não há alegria na constatação de que um partido de esquerda traiu de forma tão desavergonhada seus ideais de ética e transparência. O deputado federal Chico Alencar, um dos fundadores do PT, chorou em 2005 quando soube do caixa dois pago pelo operador Marcos Valério e pelo então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, ao marqueteiro Duda Mendonça - para eleger Lula. O cartaz no Congresso, rabiscado por petistas desiludidos, dizia: "Não em nosso nome".

Mal sabíamos que era um episódio cândido, diante das perversidades com o dinheiro público que o PT, em vez de frear, aprofundou. Em 2005, Lula disse: "Estou com o peito doendo. A gente não precisava estar vivendo isso. Nunca participei de arrecadação de campanha". Agora, uma década depois, Chico Alencar lembra versos de Chico Buarque que o emocionaram durante anos após sair do PT. São da canção "Meia-noite": Seu navio carregado de ideais/ que foram escorrendo feito grãos/as estrelas que não voltam nunca mais/e um oceano para lavar as mãos.

"Durante um bom tempo eu chorava quando ouvia essa música. Mas esses grãos nem existem mais. A nau do PT é um navio pirata que não escolhe porto, saqueia o que vê pela frente", disse o deputado federal do PSOL do Rio de Janeiro, formado em história. "No início do século passado, o sociólogo Robert Michels já falava da degeneração dos partidos operários quando chegavam ao Poder, com suas burocracias, nomenclaturas, oligarquias. O PT é mais um."

Em 2002, Lula, pela quarta vez candidato a presidente, disse aos companheiros: "Cansei de disputar eleição só para marcar posição. Que o partido se vire. Quero vencer". Duda Mendonça era conhecido como "o bruxo das campanhas", um marqueteiro capaz de fazer o Maluf parecer honesto. Petistas éticos pediram a Delúbio que publicasse os gastos da campanha com transparência. "Transparência demais é burrice", respondeu Delúbio numa reunião do diretório.

Burrice foi, depois do mensalão, continuar a tesourar o país usando sua maior estatal, a Petrobras, em conluio com empreiteiras. "Nem o mais desvairado dos privatistas conseguiria fazer com a Petrobras o que o PT fez", diz Chico Alencar. Os programas podais do Brasil não rivalizam nem de longe com os desfalques que vêm à tona na Operação Lava Jato. É constrangedor para o PT comemorar aniversário como se fosse uma vítima das circunstâncias.

Aniversário deve servir para rever a vida, mudar atitudes nefastas, posturas egoístas, descuidos com a saúde. Em seus 35 anos, o PT deveria retomar uma tradição esquecida da esquerda e fazer profunda autocrítica. Se continuar nessa de celebração, desagravo público e chororô de perseguido pela mídia, aprofundará a decadência. Não adianta culpar antecessores e tucanos. O pecado do pregador choca muito mais que o pecado do pecador. O PT traiu suas promessas. Entre sua eleição e a posse, Lula disse: "Não temos o direito de errar". Abusou do erro. Hoje, o PT é engolido até por aliados.

Uma multidão de militantes interpreta as críticas a Dilma como "golpe". Isso é "falta de assunto", como disse Zé Dirceu em J999 ao pedir o impeachment de Fernando Henrique Cardoso por manobrar o câmbio em seu favor. Sem Graça Foster de para-raios, Dilma está mais vulnerável sim. O que não é nada bom para o Brasil. O petrolão é péssimo não só para os partidos e a economia, mas para a deterioração de nosso cotidiano e nossa autoestima. A bandidagem de cima estimula a bandidagem de baixo. O desencanto com o Brasil é ruim para a saúde.

A Petrobras pode ser privatizada? - MAILSON DA NÓBREGA

Revista Veja 

Diante dos notórios desmandos na Petrobras, muitos defendem a privatização da estatal. Sob o prisma da racionalidade econômica, a medida geraria enormes benefícios para a empresa, seus funcionários e o país.

As privatizações da Vale e da Embraer demonstraram que mesmo estatais bem geridas podem colher gigantescos ganhos de eficiência depois de privatizadas. Elas se livram das amarras do controle do governo — nomeações políticas, regras de licitação, descontinuidade administrativa, gastos de propaganda de interesse do governo e por aí afora. Mas a privatização da Petrobras dificilmente teria o apoio da sociedade.

A ação empresarial do Estado se acentuou a partir do século XIX na Europa. Países que não reuniam as condições que enriqueceram o Reino Unido buscaram criá-las via empresas estatais — como bancos e ferrovias — para fomentar a industrialização, A teoria econômica, desde Adam Smith, justifica a criação de estatais quando o setor privado não é capaz de prover bens e serviços essenciais ao desenvolvimento. São as "falhas de mercado".

A partir da primeira metade do século XX, a esquerda viu outras razões para criar estatais ou estatizar empresas privadas: atividades-chave deveriam ser guiadas pelo interesse nacional, e não pelo objetivo único do lucro. O mesmo se dizia de setores "estratégicos", como o de petróleo e o de ferrovias, e dos associados à defesa, caso das áreas espacial e nuclear.

No intervalo das duas grandes guerras, partidos socialistas abraçaram essas ideias. O Partido Trabalhista britânico, vencedor das eleições de 1945, as adotou sob a liderança do primeiro-ministro Clement Attlee. Foram estatizados a indústria do carvão, as ferrovias, os telégrafos, a siderurgia, a energia elétrica, a aviação civil e o Banco da Inglaterra (o atual banco central), que fora controlado por capitais privados desde sua fundação (1694). Já estavam sob o controle do governo o petróleo e a BBC.

No início, a impressão foi de melhoria na operação das empresas, mas depois se percebeu, em especial nos anos 70, que nem as premissas da estatização eram corretas nem as estatais eram eficientes. Passados 34 anos da aprovação da plataforma de Attlee, o eleitorado britânico elegeu o Partido Conservador e aprovou a privatização, afinal implementada, com firmeza, pela primeira- ministra Margaret Thatcher. Na volta ao poder como primeiro-ministro Tony Blair (1997), os trabalhistas mantiveram as privatizações.

No Brasil, as ideias da esquerda europeia se acentuaram pelas crenças antiliberais de nossas origens culturais. As primeiras estatais surgiram no princípio do século XX e se alastraram no pós-guerra. O apoio à privatização nos anos 1980 se inspirou no exemplo britânico e nas ineficiências das estatais. O processo iniciou-se com a devolução, ao setor privado, de empresas antes estatizadas. Acelerou-se na década de 90 com a venda de empresas industriais e das estatais das áreas de telecomunicações e energia, além da Vale, da Embraer e de bancos estaduais. Contrário a tudo isso, Lula, à la Tony Blair, manteve as privatizações depois que se elegeu.

O apoio à privatização nunca se estendeu a estatais como o Banco do Brasil e a Petrobras. Tende a continuar assim por muito tempo, pois elas são símbolos venerados por uma maioria favorável a esse tipo de ação do Estado. Como disse Edmar Bacha, símbolos existem também em países avançados, como os aeroportos nos Estados Unidos, que são estatais. O mesmo se dirá da BBC no Reino Unido e do petróleo na Noruega.

A diferença em relação ao Brasil é a forma como as estatais são administradas. Lá, seus gestores são profissionais gabaritados, escolhidos de forma impessoal, geralmente por head-hunters. Adotam-se princípios de governança corporativa típicos das empresas privadas de capital aberto.

Sem ambiente nem apoio para privatizar a Petrobras, uma forma de coibir a repetição do escândalo do petrolão é guiar-se pelo exemplo de países ricos, incorporando suas regras de escolha dos dirigentes e de gestão das estatais. Os ganhos de eficiência não seriam tão espetaculares quanto na privatização, mas a operação e a produtividade de uma empresa seriam bem melhores

Lula, a missão - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 10//02

Em recente conversa, o ex-presidente Lula disse a um interlocutor o seguinte: "Vamos ter que passar dois anos comendo merda, para depois tentar sair da crise. Mas nesse período tem que fazer política, e a Dilma não faz".

Confirmado o diagnóstico com a recente pesquisa Datafolha mostrando a popularidade da presidente Dilma no chão, Lula resolveu trazer para si a tarefa de "fazer política", e a primeira providência foi liberar a informação de que, sim, será candidato a presidente da República em 2018.

Menos de dois meses do segundo mandato de Dilma, e a candidatura de Lula já está na rua para alimentar os militantes com uma expectativa de poder que a cada dia fica mais escassa diante das diversas crises que envolvem o governo, da economia à política.

Lula em campanha, viajando pelo país revivendo a Caravana da Cidadania dos velhos tempos, é uma barreira política formidável a movimentos de descontentamento na sociedade e a manobras políticas que possam levar ao impeachment da presidente Dilma.

Com o decorrer do processo, veremos se a insatisfação popular crescerá a ponto de inviabilizar a campanha de rua de Lula ou se ele terá força suficiente para neutralizar as previsíveis manifestações contrárias ao governo, nesses dois anos em que os governistas terão que "comer merda".

Assim como fez no mensalão, Lula começa sua campanha sobre o petrolão pregando "humildade e coragem" no discurso em Belo Horizonte no aniversário de 35 anos do PT. E, assim como em 2005, ele fala em reconstruir o partido, voltar às suas origens. Na célebre reunião na Granja do Torto em que ele se disse "traído", Lula lembrou a fundação do PT em 1980: "(...) no início da redemocratização decidi criar um partido novo que viesse para mudar as práticas políticas, moralizá-las e tornar cada vez mais limpa a disputa eleitoral no nosso país. (...) Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento. Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia, e que chocam o país. (...) eu não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas".

Pois bem. Em 2015, Lula assume a mesma postura diante do petrolão: "Temos a oportunidade histórica de elaborar um novo Manifesto do PT, capaz de traduzir nossos compromissos para os dias de hoje e para os próximos 35 anos".

Ele propôs "o desafio" de resgatar os ideais dos anos de fundação do partido, em 1980. "O Partido dos Trabalhadores surge da necessidade sentida por milhões de brasileiros de intervir na vida social e política do país para transformála. (...) O PT nasceu para mudar".

Mais uma vez Lula falou em traição: "Se alguém tiver traído a nossa confiança, que seja julgado e punido, dentro da lei, porque o PT, ao contrário dos nossos adversários, não compactua com a impunidade".

Para Lula, o problema do PT é que ele "se tornou um partido igual aos outros. Deixou de ser um partido das bases para se tornar um partido de gabinetes. Há muito mais preocupação em vencer eleições, em manter e reproduzir mandatos, do que em vitalizar o partido".

Lula citou a "militância paga", sempre criticado pelo PT na "política tradicional". "(...) É nesse ambiente que alguns, individualmente, cometem desvios que nos envergonham diante da sociedade e perante a história do PT. (...) Penso que esse processo chegou ao limite no PT", decretou Lula.

Estaria tudo certo se, a partir do mensalão, Lula tivesse comandado uma refundação do PT, e o partido mudasse de atitudes. Como se vê agora no petrolão, enquanto Lula discursava quase chorando no mensalão, estava em curso um escândalo muito maior dentro da Petrobras, e sabe-se lá onde mais.

No intervalo entre o julgamento do mensalão, com a condenação das principais lideranças petistas, e o surgimento do petrolão, Lula mudou o discurso e chegou a afirmar que o mensalão nunca existira. Prometeu até mesmo se dedicar a demonstrar ao povo brasileiro que tudo não passou de uma farsa, coisa que nunca fez.

Agora, ele encurtou o caminho: ao mesmo tempo em que fala em reencontrar as raízes fundadoras do PT, Lula sugere que o caso do petrolão está sendo utilizado politicamente para criminalizar seu partido. Essa atitude dúbia faz parte do seu show, com o qual pretende neutralizar os efeitos das crises política e econômica que envolvem o segundo mandato de Dilma.

Com ferro foi ferida - DORA KRAMER

O Estado de S. Paulo - 10/02

A notícia de que a perplexidade tomou conta do Palácio do Planalto com a derrocada dos índices de popularidade e confiabilidade da presidente da República é prima-irmã daquela irritabilidade que recai sobre a pessoa de Dilma Rousseff quando algum fato tem repercussão negativa na opinião pública.

Ambas são versões oficiais destinadas a criar um espaço de prudente (embora falsa) distância entre ela e a má nova. Ou velha, tanto faz. Algum ato de governo pegou mal? "Dilma ficou muito irritada", avisa a assessoria.

O brasileiro não gostou de constatar que Dilma mentiu na campanha eleitoral a respeito de rigorosamente todos os principais temas em debate com os oponentes? Mais que depressa o departamento de propaganda do governo informa que foi um choque para ela saber disso.

Ora por quem sois. A pesquisa do Instituto Datafolha explicitou em números uma realidade que os fatos estavam contando por si todos os dias. Ou alguém no Palácio do Planalto poderia esperar algo de diferente quando uma presidente da República recentemente reeleita simplesmente some de cena enquanto são anunciadas medidas que, segundo a candidata a conquistar votos, não seriam tomadas em hipótese alguma?

Ou, por outra, seriam impostas cruelmente ao País caso o eleitorado optasse por escolher um de seus adversários. Qualquer um dos dois, Marina Silva ou Aécio Neves, seriam os culpados por graves agruras. Ela, Dilma Rousseff, seria o caminho das soluções. Note-se o silêncio pós-posse que contrariou até o discurso da noite da vitória em que ela conclamava a Nação à união e ao "diálogo".

Daí em diante não explicou mais nada. Quando falou, limitou-se a monólogos fantasiosos seguindo a mesma toada da agenda ilusória montada para a campanha eleitoral. A roubalheira na Petrobrás era culpa de um ou outro funcionário; a crise econômica, decorrência da situação internacional;, a inflação, inexistente e o que mais não vá bem, produto de pessimismo.

Deixou o ponto crucial que era o ajuste na economia ao encargo do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, como quem tenta se preservar e - aqui de novo, se distanciar - da má notícia. Deu a seguinte impressão: se sair errado, a culpa é dele.

A se acreditar que a presidente da República e seu grupo fechado de conselheiros foram realmente pegos de surpresa com o efeito dessa conjunção de desastres - nem todos citados, pois de conhecimento geral -, é de se concluir pela gravidade da situação de isolamento total do núcleo governante.

Não há no tão competente departamento de comunicação governamental um acompanhamento permanente de pesquisas? E aquela consulta que o PT anunciou que contrataria para detectar as razões do claudicante desempenho eleitoral? Dela nunca mais se ouviu falar.

A julgar pela reação improvisada e repetitiva do anúncio da montagem de uma "agenda positiva" como se a agenda negativa não fosse fruto do choque de ações do governo com a agenda ilusória da campanha, há um apagão de sensatez no Palácio do Planalto. Ou um surto de ingênua credulidade no poder eterno do ilusionismo.

E ausência de noção de limite. João Santana, o marqueteiro, extrapolou, exagerou e ganhou a eleição. Entregou a mercadoria. O dia seguinte é serviço de quem ganhou. Há um dado terrível para a presidente na pesquisa do Datafolha: 47%, 54% e 50% dos consultados consideram que ela é desonesta, falsa ou indecisa.

Produto de quê? Da exacerbada contradição entre o discurso de campanha e as ações logo depois. Portanto, talvez não seja um exagero concluir que, se não tivessem sido tantas e tão flagrantes as mentiras, se a campanha de Dilma não tivesse procurado colocar na boca dos opositores palavras que nunca disseram, possivelmente a crise não atingiria tão gravemente a imagem da presidente.

Recessão encomendada - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 10/02

O Brasil caminha para a recessão porque o governo cometeu sucessivos erros. Aumentou os gastos e produziu um enorme déficit; reprimiu tarifas; ignorou os alertas sobre a crise elétrica, permitindo que as empresas pegassem empréstimos para repassar aos preços. Agora é a hora do ajuste: a inflação subiu, a crise elétrica se agravou e os gastos têm que ser cortados.

Os problemas que o país enfrentará este ano não foram culpa do mundo. São crises feitas aqui mesmo. Para piorar, os governos estaduais, principalmente o de São Paulo, cometeram o mesmo erro de adiar as medidas que tinham que ter tomadas para mitigar os efeitos da seca. Agora, a economia já enfraquecida terá que enfrentar dois racionamentos: de água e energia.

A política industrial falhou completamente no primeiro mandato da presidente Dilma. E falhou porque estava errada e desatualizada. No ano em que o governo gastou R$ 104 bilhões em desoneração, a indústria teve um tombo de 3,2%. Só é comparável com o ano da crise de 2009. A queda é tal que contamina o ano de 2015, em que a indústria já começa lá em baixo, tendo que refazer o caminho da volta.

A queda não foi um fato isolado. A situação da indústria é dramática há bastante tempo. Nos últimos seis anos, foram três períodos de queda e três de alta. Em 2011, houve um raquítico crescimento de 0,4%, seguido de um tombo de 2,3%, em 2012. Em 2013, alta de 2,1%, e agora a retração de 3,2%. A produção está num nível 8% menor do que em setembro de 2008 quando começou a crise financeira internacional.

O governo apostou nos subsídios e redução de impostos. As medidas não funcionaram e causaram distorções como os rombos nas contas públicas. O setor de veículos automotores, reboques e carrocerias - tão beneficiado pelo governo, com redução de impostos, restrição a importados e estímulo ao crédito - terminou o ano com uma retração de 16,8% no ano passado, pelos números do IBGE. Foi o que mais caiu.

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) acha que há "risco de colapso nos investimentos". A retração nos investimentos ocorre há três trimestres seguidos na indústria, como mostram os números da produção de bens de capital.

Os dados da Abimaq, entidade que representa a indústria que produz máquinas e equipamentos, já mostravam que o ano havia sido ruim para o investimento. Houve queda de 15% no consumo aparente de máquinas (consumo da produção interna mais as importações) e fechamento de 12 mil postos de trabalho de janeiro da dezembro.

Pelas contas da consultoria Rosenberg Associados, caso a indústria não encolha mais e mantenha o mesmo nível de produção de dezembro ao longo de todos os meses deste ano, ela fecharia 2015 com retração de 4,1%. É o chamado carregamento estatístico, que este ano será negativo.

Os bancos e consultorias ouvidos pelo Banco Central projetaram ontem crescimento zero para o PIB este ano. E várias instituições estão prevendo queda de 0,5%. A MB Associados está com a previsão de um PIB negativo de 1%, a mesma calculada por Alexandre de Ázara, sócio e economista-chefe do Banco Modal, que ainda estima inflação de 7,9%. Na produção industrial, os números estão sendo revistos para baixo há cinco semanas seguidas pelo mercado financeiro, com a ameaça cada vez maior do tarifaço e do racionamento de energia. Há um mês, a projeção era de alta de 1%.

Ao mesmo tempo em que o consumo interno perde força, o crescimento industrial pela exportação é pouco provável, mesmo com a desvalorização do real. O país não fez acordos comerciais nos últimos anos e ficou dependente da venda de produtos manufaturados para o Mercosul. Os argentinos são os principais compradores e estão em crise cambial, subindo barreiras comerciais e atrasando pagamentos a seus fornecedores.

O governo colhe agora o que plantou. O problema é que quem paga pela má colheita somos nós. A alta da inflação, o tarifaço de energia, a alta dos juros vão retirar renda das famílias. A administração errática da presidente Dilma produziu queda de confiança em todos os segmentos empresariais. E agora pesa sobre as famílias e as firmas o risco do racionamento de energia.

Europa que ri, Brasil que chora - GILLES LAPOUGE

O Estado de S. Paulo - 10/02

Há alguns anos nos habituamos a ter pena da "pobre Europa", com todos os seus motores engripados. E sempre oferecíamos como exemplo o Brasil, que liderava a corrida, registrando altos crescimentos, ano após ano. A Europa estava imóvel, ou recuava, ao passo que o Brasil seguia seu caminho e havia encontrado enfim o seu "famoso futuro" que Stefan Zweig, desde 1940, lhe havia prometido.

Hoje perguntamos se não é caso de atualizar o software. Tudo se passa como se uma mudança de orientação estivesse em curso. Brasil e Europa dão a impressão de que mudaram seus papéis: a "lata velha" europeia se enfurece e acelera, enquanto o motor do Brasil engasga e seu acelerador quebra.

Os europeus mal acreditam nessa fadiga brasileira. Estavam tão habituados a ver o país de Lula crescer em espiral, lançar-se no zênite em companhia da China e se recusam a crer que a era Dilma não é a era Lula.

No jornal Figaro, um economista de renome, Nicolas Baverez, definiu a situação como "o crash do Brasil". E apresenta uma série de cifras e dados estatísticos que os brasileiros conhecem bem, infelizmente, mas que a Europa recusa-se a levar a sério. Ele evoca o escândalo e o desastre da Petrobrás, consequência, símbolo e acelerador do "mal brasileiro".

"Dilma não cessou de negar a crise, cedendo a uma deriva demagógica e nacionalista, buscando 'bodes expiatórios nos predadores internos e inimigos do estrangeiro'. O restabelecimento das finanças públicas e da política de oferta indispensável para a recuperação vão no sentido contrário da campanha de Dilma e validam o programa de seu opositor Aécio Neves."

Ele conclui seu artigo com um conselho: "É vital que o Brasil, com base nos seus trunfos formidáveis, coloque fim à deriva autoritária, nacionalista e populista, para escolher o campo do Estado de Direito e da reforma econômica".

Despertar. Como num jogo de equilíbrio, à medida que o Brasil afunda, a Europa desperta. Não é um despertar de sobressalto, estilo americano. Mas, depois de sete anos de vacas magras e cada vez mais magras, o mínimo progresso é um milagre.

Em novembro, Bruxelas previa para 2015 um crescimento de 1,5% na União Europeia e de 1,1% na zona do euro. Hoje, eis as novas previsões: 1,7% para a União Europeia e 1,3% para a zona do euro. Em 2016 essas porcentagens aumentarão para 1,9% e 2,1%. Claro que são saltos muito pequenos, mas, depois de sete anos de aflição, o efeito é de um salto de atleta.

A causa dessa melhora é conhecida: o esforço de todos os países da zona do euro. E a ele se adicionam dois eventos fortuitos: o recuo da moeda comum, o euro, que reanimou as exportações, e a queda dos preços do petróleo, que desafoga as contas das nações e das famílias.

É preciso que o comboio europeu não tropece numa grande pedra, por exemplo, na crise grega, já que Atenas decidiu atacar de frente Bruxelas, Berlim e alguns outros alvos, com o objetivo de por fim à "mania de austeridade" imposta por Angela Merkel aos países do sul da Europa.

Mas, se Bruxelas, como os gregos, os alemães e todos os outros, administrar prudentemente a cólera grega, ela poderá ter um efeito positivo sobre toda a Europa. Se Atenas, estimulada pelo desespero, conseguir soltar as amarras colocadas por Merkel e por Bruxelas no crescimento, o "acesso de cólera" dos gregos não terá sido inútil: países que fraquejam há anos sob o peso da "austeridade" poderão recobrar o gosto pela vida, o crescimento, e comunicar seu bom humor para toda a zona, a países como a Grécia, em primeiro lugar, mas também Itália, Portugal, Espanha. E mesmo a França. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Cartel à brasileira - GIL CASTELLO BRANCO

O GLOBO - 10/02

É de vital importância que as investigações avancem. A cadeia é pedagógica. Para os empresários e para os políticos


Cartel não é como jabuticaba, que só existe no Brasil. Entre 2010 e 2014, a Comunidade Europeia aplicou multas equivalentes a R$ 27,2 bilhões por práticas de cartel. Os valores quase triplicaram em relação ao período de 2000 a 2004, quando as penalidades totalizaram R$ 10 bilhões. Em 2012, por exemplo, a LG Electronics e a Philips receberam, cada uma, multas de aproximadamente R$ 2,2 bilhões.

No Brasil, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) tem adotado rigor semelhante. No ano passado, o chamado cartel do cimento foi multado em R$ 3,1 bilhões. O Cade ainda determinou a venda de fábricas e proibiu operações no ramo de cimento e de concreto até 2019.

No caso da Petrobras, no entanto, a situação vai além de empresas que combinam preços e dominam mercados. O fio da meada foi puxado por investigação da Polícia Federal em uma casa de câmbio, localizada num posto de gasolina de Brasília, por coincidência a quatro quilômetros da Praça dos Três Poderes. A partir daí, surgiram, em conluio, doleiros, contadores, executivos de empreiteiras, diretores e funcionários da estatal, empresas-laranjas, partidos e políticos da base governista. Se for comprovado o que dizem os delatores, só o PT arrecadou cerca de R$ 500 milhões, de 2003 a 2013. Associado ao mensalão, trata-se de ambicioso projeto de perpetuação no poder, gestado por corruptos reunidos em uma organização criminosa, verdadeira roda da fortuna ilícita institucionalizada à custa do Erário.

Como algumas empresas investigadas mantêm relações com políticos e são tradicionais financiadoras de campanhas eleitorais — em 2014 doaram R$ 386 milhões —, vários “pizzaioilos” tentam desmobilizar as apurações com argumentos esfarrapados. Uma das falácias é afirmar que caso as empresas envolvidas sejam decretadas inidôneas o país vai parar. Balela.

Estudo realizado pela Associação Contas Abertas nos investimentos dos Três Poderes no âmbito federal revela que, no ano passado, as empreiteiras investigadas na Lava-Jato foram responsáveis por apenas 6,3% dos valores pagos pela administração direta. O percentual irrelevante é explicado pelos investimentos abrangerem não somente obras, mas também a aquisição de máquinas e equipamentos. Como é óbvio, as empreiteiras investigadas não têm qualquer relação com a compra de tratores, aviões, caminhões etc. Os cálculos não incluem os consórcios, estados e municípios.

Quando se considera apenas a rubrica “obras e instalações” — dentro do montante dos investimentos federais, cujo valor total em 2014 alcançou R$ 57,2 bilhões —, a participação das empreiteiras cresce. Do total de R$ 15,8 bilhões investidos pela União em obras e instalações, as empreiteiras ficaram com 23%. Nesse item estão incluídas as despesas com os projetos e a execução das obras até sua conclusão. Essa participação das empreiteiras em um quinto dos investimentos em obras e instalações não é pequena, mas está longe de ser enorme como se sugere. Além disso, convenhamos, a impunidade não pode estar relacionada ao tamanho das empresas.

Na Controladoria-Geral da União, há oito processos administrativos que podem resultar em declarações de inidoneidade e em impedimentos de empresas celebrarem novos contratos com a União. Essas sanções não necessariamente acarretam a interrupção dos contratos em andamento, avaliados caso a caso, segundo o interesse da administração pública. Exemplo de que a inidoneidade não é o fim do mundo é a Delta Construções, que continua a tocar obras públicas, tendo recebido, inclusive, R$ 134 milhões da União em 2014.

De fato, tanto as empreiteiras quanto o governo — com desaprovação crescente —, não veem a hora de esse inferno terminar, se possível sem inidoneidades e provas cabais de envolvimento da cúpula do PT. Nesse contexto, eventuais acordos de leniência não podem se transformar em acordos de conveniência política. Para que não pairem quaisquer dúvidas, entendo que as condições para a celebração desses acordos devem ser previamente avaliadas pelo TCU e, se for o caso, questionadas pelo Ministério Público no Judiciário.

É de vital importância para o país que as investigações avancem, com a identificação dos responsáveis pelos delitos, sejam pessoas físicas, jurídicas ou ambos. Sobre a punição dos cartéis, é conhecida a frase de um funcionário do governo dos EUA: “Já vi muitos empresários dispostos a trocar o aumento da multa por menos dias na prisão, mas nunca o contrário.” Em outras palavras, a cadeia é pedagógica. Para os empresários e para os políticos.

A impopularidade que Dilma construiu - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 10/02

Surpresos e alarmados com a forte queda nos índices de avaliação da presidente Dilma Rousseff, o governo e o PT se articulam, não necessariamente entre si, para recolher os cacos da desastrada atuação da criatura de Lula em todas as frentes, da política à econômica, obra que em seu conjunto é tida como a mais grave ameaça concreta, em 12 anos, ao projeto de poder do lulopetismo.

Em apenas dois meses, como revelou pesquisa Datafolha, despencou quase à metade, de 42% para 23%, o número de brasileiros que consideram ótimo/bom o governo de Dilma, enquanto aumentou de 24% para 44% o daqueles que o julgam ruim/péssimo. É o reflexo do choque de realidade pós-eleitoral para o qual a chefe do governo contribui decisivamente com a soberba e a teimosia que inspiram suas decisões quase sempre balizadas por uma bitola ideológica estreita e arcaica. A escalação da equipe econômica foi, pelo menos até aqui, uma surpreendente exceção a essa regra.

Ganhar a Presidência por estreita margem de votos nas urnas em outubro havia sido uma dificuldade desconhecida pelo PT nos três pleitos anteriores. Pesaram decisivamente no resultado eleitoral a raspa do tacho da credibilidade do lulopetismo nas camadas mais populares do eleitorado e também, talvez decisivamente, o despudor com que o marketing da campanha submeteu os brasileiros ao terrorismo eleitoral, lançando na conta dos adversários o espectro da fome e do desemprego.

O pior, contudo, vê-se agora, foi a falta de escrúpulos com a qual a campanha petista mentiu sobre a intocabilidade dos benefícios trabalhistas, acusando os adversários de planejar o retorno à estabilidade econômica à custa de conquistas sociais, para no dia seguinte à posse o governo anunciar "correções" de algumas "distorções" daqueles benefícios. Hoje, ministros e dirigentes petistas enfatizam a necessidade de "explicar as medidas do governo". Mas o que compromete a credibilidade de Dilma é, menos do que o efeito dessas medidas, o fato de a então candidata ter mentido sobre elas. Uma grande mentira que se explicitou no momento em que Dilma cedeu à imposição dos fatos e contrariou suas próprias convicções ao nomear uma equipe "neoliberal", sob o comando de Joaquim Levy, para enfrentar o desafio de, desde logo, botar as contas do governo em ordem. Acresce a isso, decisivamente, o escândalo da Petrobrás, que macula indelevelmente personagens favorecidos por frequentadores e aliados do Planalto e respinga na chapa vencedora do pleito de 2014, beneficiados por dinheiro de procedência mais do que duvidosa. Compromete Dilma sua incapacidade de dialogar e de se articular com os demais protagonistas da cena política - consequência do voluntarismo de quem se julga onisciente. É conhecida a falta de disposição de Dilma para o chamado jogo político. Isso até poderia ser visto como mérito, quando se leva em conta o nível de fisiologismo a que o jogo político foi rebaixado durante os oito anos de Lula, a pretexto de garantir a "governabilidade". Mas Dilma nada fez para sanear o pântano moral criado por seu mentor. Ao contrário, serviu-se dele quando conveniente e não será torcendo o nariz, fingindo que resolve tudo sozinha e deixando o jogo correr que a presidente conseguirá governar.

A aversão da presidente ao diálogo é tão profunda que nem mesmo com seu partido ela conversa. Reduziu o núcleo duro do poder a um punhado de políticos com os quais tem afinidades ideológicas - ou que trocam a fidelidade à chefe pela possibilidade de desenvolver projetos políticos ou pessoais próprios. Assim, alijou do seu círculo próximo a corrente majoritária do PT e aquele que é ainda seu maior símbolo e liderança.

Nesse cenário ameaçador para seu projeto de poder, o PT, Lula à frente, vai ter de encontrar seu caminho apesar do governo. O escândalo da Petrobrás, que entra agora na fase mais polêmica, a do indiciamento dos políticos; a vigorosa reação do maior aliado, o PMDB, à frustrada tentativa de Dilma de minar seu poder no Congresso; as previsões pessimistas sobre a recuperação da economia no curto prazo; a corrosão do apoio popular à presidente e a possível volta das manifestações de rua - tudo isso anuncia dias difíceis para o País. Piores ainda para o PT, e que se tornarão intoleráveis se, finalmente, a oposição decidir desempenhar o papel para o qual foi eleita.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não se pode falar em golpismo quando se fala em impeachment”
Senador Cristovam Buarque (PDT-DF), ex-ministro da Educação do governo Lula


‘OPERADOR’ PODE CONTAR QUEM RECEBIA COMISSÕES

Já recolhido à carceragem da Polícia Federal em Curitiba, o “operador” Mario Goes, que atua na Petrobras há décadas, pode revelar quem na estatal recebia o bônus pago, por todos os estaleiros, aos executivos das empresas que encomendam navios e plataformas. É praxe, em estaleiros, o pagamento de “owner discount” correspondente a 5% do valor do navio ou plataforma, que pode custar mais de US$ 1 bilhão.

A PRAXE

O “bônus” ou “owner discount” de 5% do valor do navio ou plataforma é pago “por fora” ao executivo que decidiu a encomenda, onde ele quiser.

ARQUIVO VIVO

A prisão de Mário Goes é relevante porque ele intermediou a maioria dos grandes negócios da Petrobras no exterior, nas últimas décadas.

ESPECIALISTAS

Para formular ao “operador” Mário Goes as perguntas certas, a força-tarefa da Lava Jato deveria recorrer a quem atua no comércio marítimo.

CADEIA FAZ PENSAR

Aos 73 anos e bilionário, Mário Goes certamente reflete na cadeia se é isso mesmo – cadeia – o que ele deseja para o próprio futuro.

PT ‘CRESCE O OLHO’ E QUER TIRAR PORTOS DO PMDB

Pupilo do vice Michel Temer, o ministro Edinho Araújo (Portos) corre risco de ser engolido pelo PT, que ganhou poder de influência na sua repartição. O PT se aproveita da ignorância do novo ministro em relação ao sistema portuário para aprovar medidas e preencher cargos no gabinete, por meio do secretario-executivo Guilherme Penin, petista que é fiel escudeiro do ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil).

MANDA E DESMANDA

Guilherme Penin foi assessor especial de Aloizio Mercadante na Casa Civil, e nomeado secretário-executivo de Portos em novembro de 2014.

APARELHOU GERAL

Conhecido no setor portuário, o secretario-executivo já preencheu este ano pelo menos quatro cargos de confiança no gabinete do ministro.

CUIDADOS

Inspira cuidados o estado de saúde de José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobras e da BR, ex-senador e ex-presidente do PT.

SÓ UM TROMBADINHA

Comparado ao “operador” Mário Goes, preso desde domingo, o lobista do PMDB, Fernando Baiano, também no xilindró, seria no máximo um office-boy de luxo, responsável pelo transporte de malas de dinheiro.

OUTRO ESTELIONATO

A energia que abastece as residências ficará no mínimo 41% mais cara em 2015, segundo especialistas, sem contar o impacto da vigarice das “bandeiras tarifárias”. Há um ano Dilma prometia “reduzir” a tarifa.

ARTHUR NA CCJ

A mais importante comissão da Câmara, Constituição e Justiça, será presidida por Arthur Lira (AL), primeiro deputado do PP conquistar essa posição. O último alagoano no cargo foi José Thomaz Nonô, em 1994.

VOU DE TÁXI

Moradores da pequena rua J.J. Seabra, no Rio, perderam uma de suas melhores atrações: o agora confiscado Lamborghini de Eike Batista, que até dias atrás saía dele como o Batman, para jantar na região.

O TROCO

O presidente reeleito do Senado, Renan Calheiros, já mandou avisar ao PSDB para “botar a bola no chão”, nos embates de plenário, sob o risco de também ficar fora das presidências de comissões de mérito.

VALA COMUM

Certo de que a criação da CPI da Petrobras é um caminho sem volta, o PT agora vai trabalhar para estender as investigações dos governos Lula e Dilma para a gestão do tucano Fernando Henrique Cardoso.

CPMI, O RETORNO

Líder do PSDB, Cássio Cunha Lima (PB), acredita que conseguirá de 29 a 32 assinaturas para criação da CPMI da Petrobras. Além da oposição, o tucano negocia com quatro senadores da base do governo.

CORTES NO DF

O chefe da Casa Civil do governo do Distrito Federal, Hélio Doyle, garante que até 29 de janeiro foram reduzidos de 7.887 para 1.428 os cargos “de confiança”, de livre provimento, além do corte de 507 cargos com vínculo. Segundo ele, a economia foi de R$ 21,5 milhões em um mês.

PENSANDO BEM...

...o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró agora alega que é maluco, mas nunca será acusado de haver rasgado dinheiro.


PODER SEM PUDOR

PARENTE E PARCEIRO

O deputado Manuel Gilberto fazia oposição sem tréguas ao governador Moura Cavalcanti ("no Nordeste, quem não é Cavalcanti é cavalgado", dizia), em Pernambuco, e sempre dava um jeito de mostrar intimidade com a obra de Eça de Queiroz. Certa vez, ao responder a aparte do colega Maviel Cavalcanti, primo do governador, ele ironizou:

- Vossa Excelência tem mesmo que defender esse governo, porque, tal qual um personagem de Eça, o deputado é parente, patrício e parceiro.

domingo, fevereiro 08, 2015

Ah, se não fosse a realidade! - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 08/02

Não me lembro de nenhum presidente que, após ser eleito, desapareça da vista da nação, como fez Dilma


Não me lembro de nenhum presidente da República que, após ser eleito e empossado, desapareça da vista da nação, como fez Dilma Rousseff. Em geral, o que ocorre é o contrário: já que, eleito ou reeleito, o presidente conta com a acolhida da maioria da opinião pública, que lhe deu a vitória nas urnas.

Mas a Dilma sumiu. Ela, que esteve em 2014 no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, onde garantiu que a economia brasileira ia às mil maravilhas, desta vez não foi lá: mandou o seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy, nomeado por ela para corrigir os erros que ela e Mantega cometeram.

Claro que ela não poderia voltar a Davos para desdizer tudo o que dissera antes. Esse papel coube ao ministro Levy que é, aliás, o único de seus ministros que se atreve a chamá-la de presidente e não de presidenta. Não se sabe até quando.

Pois bem, em vez de ir a Davos, dirigiu-se a La Paz para homenagear Evo Morales, também reeleito presidente da Bolívia. Dá para entender. Lá não seria obrigada a explicar por que mudou tão radicalmente uma política econômica que, segundo ela mesma, era um sucesso.

Enquanto isso, o mago João Santana --capaz de mudar água para vinho-- preparava o discurso que ela pronunciaria na primeira reunião com todos os seus 39 ministros.

Era um discurso difícil, não apenas porque teria que explicar por que mudou a política econômica, como também por que extinguiria direitos dos trabalhadores, que ela prometera preservar, "nem que a vaca tussa".

Uma encrenca, sem dúvida, mas teria de enfrentá-la, mesmo porque a principal característica do lulo-petismo é manter-se, diante do povão, como o salvador da pátria.

É certo que todo partido procura colocar-se, perante o eleitorado, como capaz de resolver os problemas do país e, particularmente, melhorar a vida de cada cidadão. Mas isso não é a mesma coisa que propõe o PT, como partido originário da esquerda revolucionária.

Isso porque, diferentemente dos demais partidos, o partido revolucionário promete mudar radicalmente a sociedade, alijando do poder os exploradores do povo, isto é, os capitalistas. Noutras palavras, o partido de esquerda é essencialmente ideológico, defende a criação de uma nova sociedade, dirigida não pelos patrões e, sim, pelos trabalhadores. Teoria essa que, na prática, mostrou-se inviável, uma vez que, em nenhum dos países onde o comunismo chegou ao poder, o governo foi exercido por trabalhadores.

Esses partidos não existem mais. Os que existem, como o PT, por exemplo, são na verdade partidos populistas, que se apresentam como defensores dos pobres, mas se aliam a setores empresariais, aos quais fazem concessões para se manter no poder.

Porque não podem mostrar-se, diante dos seus eleitores, como realmente são; fazem o jogo dos interesses empresariais, mas discursam como adversários deles.

E, assim, ganham os dois: os capitalistas, que nada têm a temer --consequentemente ganham mais--, e os populistas, que manipulam o descontentamento dos pobres com programas assistencialistas.

Esse foi o discurso do PT, que o manteve desde sempre, enquanto foi possível. Agora, no caso de Dilma Rousseff, a situação encrencou, porque a política governamental adotada, após anos e anos, terminou por levar a economia do país a esta situação crítica, o que a obrigou a chamar alguém para evitar que o barco afunde.

Mas como dizer essa verdade ao país se, até outro dia, durante a campanha eleitoral, afirmava o contrário? E, sobretudo, como dizê-la ao eleitorado petista que, por sua vez, não quer ouvir a verdade? Não pode, claro. Daí o estranho discurso que Dilma fez a seus ministros e a seus eleitores.

É que ela vai fazer, neste novo mandato, tudo o que disse que não faria. E acusava Aécio Neves de desejar fazer, quando, de fato, tratava-se de medidas exigidas pela situação crítica a que ela, Dilma, levara o país.

Por isso mesmo, como não pode dizer que não o fará, tampouco que o fará, pronunciou um discurso de crioulo doido quando garantiu que a mudança radical que sofrerá a sua política econômica é apenas a continuação natural daquela que fracassou. Por que, então, demitiu Guido Mantega, o responsável por ela?