quarta-feira, julho 04, 2012

Uma decisão desastrosa - FRANCISCO DORNELLES


O Globo - 04/07


A democracia na sua face visível é dissenso, ou seja, a luta em torno do poder. Na sua face invisível ela é o consenso em torno das regras que regulam o dissenso político.

O binômio dissenso-consenso permite penetrar na essência da Constituição do estado democrático: ela é o documento que, além de institucionalizar o poder, contém as regras do jogo político democrático.

Ulysses Guimarães qualificou a Constituição brasileira de 1988 como a constituição cidadã, que atendia a todos os requisitos de um Estado democrático.

Os parlamentares petistas não participaram de sua homologação, por considerarem que ela consolidava o interesse das classes dominantes.

O deputado Roberto Campos qualificou-a como a Constituição do atraso e do retrocesso.

Todos eles analisaram de forma diferente o texto constitucional, com aplausos e críticas. Mas nenhum deles entendeu que a Constituição deveria ser desrespeitada, rasgada ou ignorada.

Foi o que fez o Brasil em relação ao Paraguai. O Congresso paraguaio, quase por unanimidade, e em conformidade com o texto constitucional, afastou o presidente da República. A Suprema Corte manifestou-se, ratificando os procedimentos utilizados pelo Congresso.

O Brasil, sob o comando de alguns dos membros da Unasul, propôs sanções de natureza política contra o Paraguai, suspendendo-o das reuniões do Mercosul, sob o fundamento de que o prazo do processo de afastamento foi reduzido.

O Brasil e todo o mundo têm o direito de discordar do procedimento adotado. Mas essa discordância não permitiria ao Brasil ignorar o fato de que ele se deu em conformidade com o texto constitucional do Paraguai.

O mais triste do problema paraguaio foi a mensagem que Brasil, praticamente comandado por quatro dos membros da Unasul, que não respeitam a liberdade de imprensa e os poderes do Congresso e do Judiciário, lançou para toda a América Latina.

A mensagem foi a seguinte: os presidentes da Argentina, da Venezuela, da Bolívia e do Equador podem continuar a coibir as liberdades de imprensa e desrespeitar o Congresso e o Judiciário. E, caso os Congressos dos respectivos países tomem qualquer medida para conter o poder ditatorial dos seus chefes de Estado, o Brasil estará pronto para intervir e exercer o seu questionável poder de polícia contra as decisões dos respectivos congressos.

A decisão do Brasil em relação ao Paraguai foi uma das mais tristes da diplomacia brasileira, em franco contraste com sua tradição de autonomia, de defesa do princípio da não intervenção em assuntos estrangeiros. A diplomacia de Estado, de natureza estável, cedeu lugar à diplomacia de governo, perigosamente instável.

O Brasil seguiu uma linha de prepotência desrespeitosa, ignorando a Constituição do Paraguai.

Espero que o Brasil reconheça o erro cometido e encontre com serenidade um caminho para corrigir sua desastrosa decisão em relação ao Paraguai.

A ilegalidade da incorporação da Venezuela - CELSO LAFER

FOLHA DE SP - 04/07


O respeito ao direito internacional é dimensão caracterizadora do Estado democrático de Direito. Ele tem, entre seus valores, a importância da preservação da legalidade como meio de assegurar a convivência coletiva. No plano internacional, as normas do direito internacional cumprem duas funções importantes para a manutenção da segurança das expectativas, inerente ao princípio de legalidade: indicar e informar aos Estados sobre o padrão aceitável de comportamento e sobre a provável conduta dos atores estatais na vida internacional.

O Tratado de Assunção, que criou o Mercosul, prevê adesões, mas estabelece que sua aprovação "será objeto de decisão unânime dos Estados-partes" (artigo 20). Não vou discutir os critérios que levaram Argentina, Brasil e Uruguai a considerar, invocando o Protocolo de Ushuaia, que houve ruptura da ordem democrática no Paraguai. Pondero apenas que foi uma decisão tomada com celeridade semelhante à que caracterizou o impeachment do presidente Lugo e que ela não levou em conta o passo prévio previsto no artigo 4 do referido protocolo: "No caso de ruptura da ordem democrática em um Estado-parte do presente protocolo, os demais Estados-partes promoverão as consultas pertinentes entre si e com o Estado afetado".

Com a suspensão do Paraguai, que ainda não havia aprovado a incorporação da Venezuela ao Mercosul, Argentina, Brasil e Uruguai emitiram declaração sobre a incorporação da Venezuela, a ser finalizada em reunião convocada para 31 de julho no Rio de Janeiro. O Tratado de Assunção e o Protocolo de Ouro Preto, que deu ao Mercosul sua estrutura institucional, são tratados-quadro de natureza constitucional. Suas normas são superiores às de outras normativas que dela derivam. Inclusive as que levaram aos desdobramentos da suspensão do Paraguai, que não têm a natureza de uma reunião ordinária de condomínio.

O Protocolo de Ouro Preto estabelece: "As decisões de órgãos do Mercosul serão tomadas por consenso e com a presença de todos os Estados-partes" (artigo 32), exigência indiscutível para uma decisão que vá alterar a vida do Mercosul, como a incorporação de um novo membro. Daí, a lógica do artigo 20 do Tratado de Assunção, antes mencionado, que é constitutivo do Mercosul e dele inseparável. A Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, de 1969, está em vigor no Brasil. Deve ser executada e cumprida tão inteiramente como nela se contém, como estatui o decreto 7030 de 14/12/2009 (artigo 1º).

A convenção estabelece, no artigo 26, que "todo tratado em vigor obriga as partes e deve ser executado por elas de boa-fé". Estipula, no artigo 31, como regra geral de interpretação, que "um tratado deve ser interpretado de boa-fé, segundo o sentido comum atribuível aos termos de tratado em seu contexto e à luz do seu objeto e finalidade". A exigência da aprovação do Paraguai à incorporação da Venezuela no Mercosul me parece indiscutível à luz dos termos do Tratado de Assunção e de seu objeto e finalidade.

A decisão de incorporar a Venezuela, como foi feita, não atende a obrigações relacionadas à observância de tratados previstas na Convenção de Viena. Carece de boa-fé, seja na acepção subjetiva de uma disposição do espírito de lealdade e honestidade, seja na acepção objetiva de conduta norteada para esta disposição. Trata-se, em síntese, de uma ilegalidade. Contrapõe-se ao que ensinava Rio Branco: "O nosso Brasil do futuro há de continuar invariavelmente a confiar acima de tudo na força do Direito e no bom senso".

O Uruguai e o golpe pró-Chávez - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 04/07


Ainda é possível barrar o ingresso da Venezuela no Mercosul e corrigir o desatino cometido em Mendoza, na semana passada, na reunião de cúpula do bloco, alertam o chanceler do Uruguai, Luis Almagro, e o vice-presidente, Danilo Astori. "Não compartilho a decisão de autorizar a entrada da Venezuela como membro pleno, porque se trata de uma agressão institucional muito importante, talvez a mais grave dos 21 anos do Mercosul", disse Astori, segundo informou o jornal El Observador, de Montevidéu, na edição de ontem. De acordo com Almagro, a proposta de só oficializar em 31 de julho a adesão do novo sócio partiu do governo uruguaio. "Sendo assim, teremos de avaliar a possibilidade de reverter o anúncio", acrescentou.

A admissão da Venezuela foi anunciada na última sexta-feira, no fim da reunião em Mendoza. Suspenso o Paraguai, por causa do impeachment do presidente Fernando Lugo, o governo brasileiro decidiu aproveitar a oportunidade para admitir o presidente Hugo Chávez como sócio com plenos poderes na direção do bloco. Entendeu que o último obstáculo, o Senado paraguaio, estava afastado.

Os governos brasileiro e argentino haviam sido, durante anos, os defensores mais entusiasmados da inclusão do presidente bolivariano entre os dirigentes do bloco. Desde logo especialistas puseram em dúvida a legalidade da manobra, porque o Paraguai, apesar de suspenso, continua membro da união aduaneira.

A interpretação desse lance como um golpe no Mercosul foi reforçada pelos comentários de Almagro e Astori. Segundo o vice-presidente, a aprovação do ingresso da Venezuela atingiu o coração do Tratado de Assunção. Uma das regras mais importantes, lembrou, condiciona a entrada de um sócio pleno à aprovação de todos os membros plenos já existentes. Depois dessa violação, advertiu Astori, poderá acontecer qualquer coisa no âmbito do Mercosul, até as instituições se enfraquecerem a ponto de se tornarem inúteis.

Segundo Almagro, o governo uruguaio era contrário à ideia de aproveitar a suspensão do Paraguai para aprovar a entrada da Venezuela. O presidente José Mujica era favorável à admissão do quinto sócio, mas considerou imprópria a ocasião, acrescentou o ministro. De acordo com ele, a presidente Dilma Rousseff pediu licença aos chanceleres para, em particular, "falar politicamente" com os colegas Cristina Kirchner e José Mujica.

O presidente uruguaio, disse Almagro, contestou a proposta, mas acabou renunciando ao direito de veto. No momento do anúncio formal, teria apenas manifestado sua insatisfação, trocando de lugar com o embaixador uruguaio e sentando-se na segunda fileira.

Tecnicamente, portanto, Mujica aprovou a ação proposta pelas presidentes Dilma Rousseff e Cristina Kirchner (esta, como presidente pro tempore do Mercosul, havia vetado a presença, na reunião de Mendoza, do novo governante paraguaio).

Os governos do Brasil e da Argentina contestam as declarações do chanceler e do vice-presidente do Uruguai e realçam a unanimidade da decisão. Segundo o chanceler argentino, Héctor Timerman, e o assessor do governo brasileiro para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, os presidentes ouviram a opinião de seus conselheiros jurídicos sobre a legalidade do ingresso da Venezuela.

Há bons argumentos, no entanto, para contestar essa decisão e denunciá-la como violação das normas do Mercosul, como afirmam os dois representantes do governo uruguaio. Ainda é possível a reconsideração e os governos deveriam aproveitar a oportunidade. Além de tudo, o Mercosul precisa, antes da admissão de novos sócios, de uma séria correção de rumo e de um retorno aos objetivos iniciais, há muito abandonados.

Sem isso, a permanência no bloco será apenas um entrave a qualquer governo interessado em acordos relevantes e oportunidades para inclusão na economia global. O próprio governo uruguaio já celebrou um acordo limitado de comércio e um de proteção de investimentos com os Estados Unidos, em 2007, e pode ter, assim como o Paraguai, interesse em iniciativas mais ambiciosas.

O Mercosul de hoje só atende às fantasias dos governantes do Brasil e da Argentina.

O Zé e o BIS - ANTONIO DELFIM NETTO

FOLHA DE SP - 04/07


Meu compadre Zé, sujeito arretado, trabalhador honesto e temente a Deus, ganha com seu trabalho duro cerca de R$ 1.200 por mês. Pagava R$ 200 de aluguel. Cuidadoso, não tinha qualquer dívida. Não constava nas estatísticas dos bancos e muito menos na de devedores duvidosos.

Foi tentado pelo Diabo. Comprou uma residência no programa Minha Casa, Minha Vida e hoje paga R$ 200 de prestação. De acordo com a mistificação estatística a que todos somos sujeitos, o Zé está agora altamente endividado! Num fechar de olhos, passou de virtuoso não devedor a um suspeito inadimplente potencial que deve 20% da sua renda! Pobre do Zé. Quem mandou ser ambicioso!

Isso não é uma parábola. Há milhares de Zés "exagerando" no crédito porque essa é a sua "riqueza"! Isso impressionou alguns economistas locais e acabou sendo ouvido em Basileia. Foi expresso no relatório anual do Bank of International Settlements, o famoso BIS.

O assunto causou comoção. Os economistas do BIS contam-se entre os mais bem apetrechados do mundo. E justamente. Sempre mantiveram distância da vertigem cientificista. De fato, em 2005/2006, seus trabalhos deixavam claro que a aparente calmaria que o Fed atribuía às virtudes da sua política monetária escondia perigos insuspeitados.

Eles e mais meia dúzia de bons profissionais alertaram para a crise que se construía num sistema financeiro cuidadosamente desregulado em nome de uma suposta "ciência". É preciso, portanto, ouvi-los quando falam.

O aumento do endividamento das famílias no Brasil é mencionado ligeiramente nas págs. 26 a 30 do relatório, sempre com muito cuidado. Não há qualquer observação com conotação negativa. Aliás, a comparação das taxas de crescimento da relação crédito/PIB é tratada corretamente: "O rápido crescimento do crédito não é necessariamente ruim. Os sistemas financeiros de alguns países emergentes ainda são relativamente subdesenvolvidos e muitas famílias e empresas estão fora deles. Assim, o rápido crescimento do crédito pode refletir tanto um desenvolvimento financeiro quanto um excesso" (pág. 28).

Como deveria ser óbvio, o aumento da relação crédito/PIB de 25% para 50% em poucos anos no Brasil não pode e não deve ser considerado um "excesso", porque ainda temos uma das menores bancarizações do mundo. E como aumentá-la senão fazendo o crédito crescer mais do que o PIB?

Houve, seguramente, algum excesso no setor de automóveis que foi agravado pela imbecilidade que atingiu o sistema de leasing. O que ninguém falou é que na pág. 30 do relatório (gráfico III.7) o BIS mostra a higidez do sistema bancário brasileiro.

Quem comprará biquínis de quem? - ELIO GASPARI

O GLOBO - 04/07


Passando por Buenos Aires, a simpática figura do primeiro-ministro chinês Wen Jiabao propôs a negociação de uma zona de livre comércio com o Mercosul. Beleza. O Brasil passará a vender biquínis do tipo fio dental para centenas de milhões de mulheres chinesas. Falso. O Império do Meio exporta mais "fios dentais" que Pindorama.

A proposta de Wen Jiabao atende à política chinesa de expandir suas exportações por meio de acordos de livre comércio. Já firmaram nove, do Chile a Singapura e do Peru ao Paquistão. Atualmente, negociam 28 outros tratados, nos cinco continentes. Para um país que em 2008 perdeu 20 milhões de empregos no setor exportador, nada mais certo. Até que ponto esse movimento será duradouro, não se sabe.

Quando os americanos propuseram uma zona de livre comércio à América Latina, a ideia foi derrubada, com alguma razão, porque nela estaria embutida a destruição da indústria brasileira. Agora a proposta vem da China, com alavanca argentina e a doutora Dilma diz que "em um quadro de crise de caráter agudo como a atual, que parece estender-se por um período longo, é importante que os países como a China e o Mercosul estreitem relações. Para nós, é indiscutível a prioridade que damos à relação com a China".

A subordinação de uma parte do comércio exterior brasileiro ao Mercosul é uma política arriscada, talvez suicida. Os companheiros acabam de admitir a Venezuela, aproveitando-se da cassação do Paraguai. Com isso, numa época de crise, o Brasil junta sua economia à dos dois únicos países do mundo com inflação superior a 25%. Deixando-se de lado a opinião que se tenha de Cristina Kirchner e Hugo Chávez, seus mandarinatos transformaram a Argentina e a Venezuela em encrencas.

O Mercosul já foi uma construção voluntarista. Hoje caminha para ser casa de loucos. Nela, todos desentenderam-se com o Paraguai, e a diplomacia companheira desentendeu-se com o chanceler uruguaio. A proposta da criação da zona de livre comercio com a China, numa videoconferência a partir de Buenos Aires, logo depois de Wen Jiabao ter deixado o Rio de Janeiro, parece ter sido concebida num manicômio. Uma sugestão desse tamanho demandaria ao menos reuniões técnicas preparatórias e, quando os chefes de Estado tivessem que entrar em cena, isso deveria ocorrer em carne e osso, não na telinha.

No ano passado, 81% do valor das exportações brasileiras para a China vieram de minérios, grãos e petróleo. Em pouco mais de dez anos, as exportações de bens industrializados caíram de 58% para menos de 15%. Graças aos chineses os brasileiros compram têxteis e eletrodomésticos baratos, mas nessa relação há uma instabilidade perigosa. Quando a doutora Dilma estudava no Colégio Estadual Central, em Belo Horizonte, estava na moda a "Canção do Subdesenvolvido", de Carlos Lyra. O Grande Satã da época eram os Estados Unidos, e sua letra dizia assim:

"E começaram a nos vender e a nos comprar

Comprar borracha - vender pneu

Comprar madeira - vender navio

Pra nossa vela - vender pavio"

Pequim e Brasília sabem que precisam conversar. Enquanto forem os dois, todo mundo terá a ganhar. Se o Mercosul entrar nessa negociação com seu multilateralismo chavecado, vale repetir Luís Eduardo Magalhães: "Não há a menor chance de dar certo."

Momento de aflição - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 04/07


Na política, há um momento em que ninguém é de ninguém que se define com uma expressão trazida da linguagem nordestina: a situação está de vaca não reconhecer bezerro. Brasília vive tal momento de aflição pela expectativa de um futuro tumultuado na economia, que tem naturalmente reflexos na política.

Nesses momentos, não há certeza de nada, e muitas especulações povoam o imaginário normalmente fértil dos políticos. Como sempre, o centro de tais especulações é o ex-presidente Lula, de quem depende o futuro de muita gente.

Lula está de posse de todas as suas capacidades natas que fazem dele o grande líder político que é, ou a doença deixou-o sem condições plenas de fazer o que mais sabe, articulações políticas para ampliação ou manutenção do poder?

A jogada paulistana, com a escolha de Fernando Haddad e a aliança malufista, é um movimento que levará o governo a arrombar a fortaleza tucana, ou será a prova de que o ex-presidente já não é mais o mesmo?

O que há por trás dos movimentos do PSB de enfrentamento do PT em várias capitais?

Lula tem uma agenda própria com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, ou, ao contrário, Campos prepara-se para abandonar o barco governista diante da expectativa de um futuro que evidenciará a fadiga de material de um partido que completará 12 anos de poder nacional e espraiou sua influência em todos os níveis governamentais, a ponto de tirar o fôlego de seus aliados?

E a relação da presidente Dilma Rousseff com seu "criador", como vai? Em público, a presidente não perde oportunidade para elogiar Lula, prestando-lhe todas as homenagens possíveis.

Na prática, vem adotando posturas governamentais que vão de encontro a pontos-chave da política lulista. A mais recente delas é a reviravolta que deu na política de gestão da Petrobras, recolocando a empresa no caminho da boa gestão corporativa, refazendo orçamentos, cancelando projetos, retirando da empresa qualquer resquício de politização.

A presidente Dilma Rousseff, sem fazer alarde, vem tentando, por exemplo, aprovar no Congresso algumas das chamadas "reformas estruturais" de que o país tanto necessita, relegadas pelo governo Lula quando este desistiu delas para encontrar caminhos mais fáceis de lidar com as corporações e os partidos políticos.

Em vez das reformas da Previdência, trabalhista, tributária, Lula descobriu o atalho do Bolsa Família. O governo Lula neutralizou a ação congressual, montando uma enorme aliança política com partidos completamente distintos programaticamente, mas com um ponto em comum: nenhum deles dá mais valor ao programa do que aos benefícios que possa obter apoiando o governo da ocasião.

Ao mesmo tempo, o governo tratou de controlar os chamados "movimentos sociais" com verbas generosas e espaços de atuação política quase sempre neutros, popularmente conhecidos como "oposição a favor".

A política sindical é o melhor exemplo dessa neutralização dos eventuais adversários. A Força Sindical, de Paulo Pereira, deixou de disputar poder com a CUT, e juntas ampliaram o espaço de atuação sindical.

Uma manobra nesse sentido foi a inclusão das centrais sindicais na distribuição da verba do imposto sindical obrigatório, que um dia Lula prometeu acabar.

A presidente Dilma conseguiu aprovar, depois de muitos anos, a regulamentação dos fundos de previdência do funcionalismo público, aprovados no raiar do governo Lula, mas nunca colocados em prática.

A mudança do sistema de aposentadoria dos funcionários públicos é dos pontos mais importantes da reforma da Previdência.

De fato, o governo tem agora uma nova batalha na reforma da Previdência, com a tendência majoritária no Congresso de terminar com o fator previdenciário, mecanismo criado há 12 anos, ainda no governo Fernando Henrique, para inibir aposentadorias precoces do INSS.

A presidente já mandou um recado à sua base parlamentar: só aceita o fim do fator previdenciário se conseguir acordo para o estabelecimento da idade mínima de aposentadoria, que seria de 60 anos (mulheres) ou 65 (homens) para os novos trabalhadores, além de uma legislação que obrigue os que entraram recentemente no mercado de trabalho a permanecer mais tempo na ativa.

Caso contrário, deverá vetar qualquer proposta que apenas acabe com o fator previdenciário.

A ansiedade provocada pela visão que considera tecnicista do governo faz com que a base aliada crie uma agenda paralela de aumento dos gastos públicos que nada tem a ver com a decisão do governo de manter uma política fiscal rígida durante a crise econômica internacional.

Mesmo sem descuidar da parte do crédito, a arma utilizada pelo governo Lula para enfrentar a crise em 2008, o governo Dilma dá grande importância à manutenção do equilíbrio fiscal, para não perder a credibilidade dos investidores.

Por isso, a agenda política do Congresso de aumentos de diversas categorias não está em sintonia com a do Planalto.

A decisão da presidente de não participar da eleição municipal, anunciada ontem, é mais um sinal do seu distanciamento do dia a dia da política partidária, o que causa desgaste interno, mas aumenta sua popularidade, especialmente junto à classe média, da qual provém.

A presidente Dilma equilibra-se entre atitudes republicanas que não privilegiam sua base aliada e um populismo intervencionista na economia, que lhe dão credibilidade junto à opinião pública.

E vai levando sua base aliada da melhor maneira que consegue, abrindo os cofres eventualmente para acalmar os ânimos.

Mas, quanto maior sua aceitação pela população, mais se afasta de seus apoios políticos, o que é um paradoxo de difícil solução.

Quem ri por último - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 04/07

Diante da decisão do PT de lançar a candidatura de Patrus Ananias, a direção do PSB desistiu de intervir em Belo Horizonte. O vencedor do novo embate envolvendo os dois partidos é o senador Aécio Neves (PSDB), que isolou os petistas e se aproximou ainda mais do governador Eduardo Campos (PE), "player" importante em 2014. Campos queria garantir a aliança para não transmitir a impressão de ruptura unilateral com o PT, mas acredita agora que a cizânia é "fato consumado''.

Forcinha O ímpeto com que o antes discreto Marcio Lacerda rechaçou o PT se deve, além da pressão de Aécio, à entrada em cena do sempre explosivo Ciro Gomes, aliado antigo do prefeito e que também anda às turras com os petistas em Fortaleza.

Itinerante 
Em plena disputa velada com tucanos pelo protagonismo na campanha de José Serra, o PSD de Gilberto Kassab, que emplacou a coligação proporcional e o vice, tomará a frente também nas incursões do candidato pelos bairros. Guilherme Afif pilotará "road-show" por 96 distritos paulistanos.

Agora tem Em reuniões direcionadas a líderes de moradores e entidades, o vice-governador apresentará vídeos com o portfólio de obras e programas para cada uma das regiões visitadas. O acervo inclui as passagens de Serra pela prefeitura e pelo governo do Estado.

Reduto Dilma Rousseff dará nova mãozinha a Luiz Marinho (PT), candidato à reeleição em São Bernardo. A presidente estará na cidade campeã de repasses federais sob sua gestão amanhã, penúltimo dia permitido pela lei para inaugurações. Entregará a UPA do bairro Assunção.

Parabólica 
O evento, comandado pelo ministro Alexandre Padilha (Saúde), será transmitido via satélite para outros municípios onde serão descerradas placas em unidades de saúde similares.

Bumerangue O bloco PSD-PSB, com mais de 60 deputados, é visto no Planalto como novo foco de encrenca, desta vez para a sucessão na Câmara. Integrantes das siglas advogam candidatura própria. O PMDB, contudo, diz que o governador Eduardo Campos tem compromisso com Henrique Alves (RN).

Pibinho 1 O Produto Interno Bruto paulista, calculado pela Fundação Seade, cresceu 0,6% no primeiro trimestre em relação ao último de 2011. O índice, que será divulgado hoje, foi impactado sobretudo pelos desempenhos negativos da agropecuária, da construção civil e da indústria automobilística.

Pibinho 2 No ritmo da atividade industrial, apresentam queda mais acentuada os segmentos de vestuário (-11,8%), veículos automotores (-10%), máquinas e equipamentos de informática (-8,7%), material eletrônico e comunicações (-7,3%) e papel e celulose (-2,2%).

No gogó Roberto Gurgel avisou que usará, sozinho, as três horas reservadas para a acusação no julgamento do mensalão. Advogados dos réus acreditam que o procurador-geral da República poderia dividir a tarefa com auxiliares, como permitiu o STF ao fixar as regras da sessão.

Banco Imobiliário Meses após vender a polêmica casa que a CPI investiga se foi comprada por Carlinhos Cachoeira, por R$ 1,4 milhão, o governador Marconi Perillo (PSDB) comprou apartamento em São Paulo por R$ 1,16 milhão. O imóvel foi vendido por André Luiz de Oliveira, seu ex-assessor especial.

Outro lado A assessoria do governador afirma que o apartamento foi comprado para sua filha e diz que André Luiz é amigo de Perillo. Ele foi exonerado em junho.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

TIROTEIO

"Dilma faz bem em se manter distante das eleições municipais. Mas essa decisão deveria valer também para São Paulo."

DO SENADOR PEDRO SIMON (PMDB-RS), criticando a troca de cargos no governo pelo apoio de Paulo Maluf a Fernando Haddad (PT).

CONTRAPONTO

Contratempos femininos


Em palestra para juízes eleitorais do Rio, na Emerj (Escola de Magistratura do Rio), segunda-feira, a presidente do TSE, Carmem Lúcia, falava sobre o sistema de freios e contrapesos da democracia quando se lembrou que um aluno, certa vez, escreveu "freios e contratempos".

-Aluno não tem jeito. Aluno cola. O que a gente faz como professor é apenas dificultar.

E fez uma analogia que arrancou risos da plateia:

-É igual a nós, mulheres. Homem trai. O que gente tem que fazer é dificultar. Não que eu goste... Nem do homem que trai nem do aluno que cola.

Lula quer provar que 'neomalufismo' compensa - JOSÉ NÊUMANNE


O ESTADÃO - 04/07

Ex-presidente foi contra volta dos exilados, fim da inflação e planos sociais dos tucanos


Nestes últimos dias, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem desafiado a própria fama de infalível em estratégias políticas com uma série de "pisadas na bola", como se diz na gíria futebolística, que ele tanto aprecia, num território no qual sempre desfilou com desenvoltura.

Enquanto os adversários tucanos se engalfinhavam em lutas internas intermináveis e injustificáveis para escolher o candidato à sucessão de Gilberto Kassab (PSD) na Prefeitura de São Paulo, Lula não ouviu lideranças locais, federalizou o pleito e lançou Fernando Haddad com a justificativa de que aposta no "novo" e repete a audácia de ter indicado Dilma Rousseff para presidente, em 2010. O risco é que, se Haddad perder, dará a Dilma a oportunosa ensancha de mostrar que ela não ganhou só por causa do apoio dele, mas teve méritos próprios.

A aposta isolada de Lula ignorou a lição do poeta britânico William Congreve, que, no século 17, constatou o óbvio ululante: "Não há no céu fúria comparável ao amor transformado em ódio nem há no inferno ferocidade como a de uma mulher desprezada". Da mesma forma como, segundo Arnaldo Jabor, teria escolhido Dilma para lhe suceder por imaginar que, sendo mulher, ela não o trairia, pensou que, depois de pisar nos calos da senadora Marta Suplicy (PT-SP), pudesse contar com seu apoio leal e entusiástico na campanha do favorito. Deu no que deu: a ex-prefeita virou a "fera ferida" da canção de Roberto Carlos e é, ninguém duvide, o maior empecilho para os planos de Lula conquistar uma vitória pessoal no pleito em São Paulo, cujo eleitorado lhe tem sido historicamente hostil. Ele próprio perdeu para José Serra e para Geraldo Alckmin e seus candidatos Marta Suplicy e Aloizio Mercadante Oliva foram derrotados por José Serra, ela também por Gilberto Kassab há quatro anos, além de Dilma Rousseff para o mesmo Serra nas urnas paulistanas. Outra lambança de Lula na mesma disputa foi deixar-se fotografar afagando o "filhote da ditadura" Paulo Maluf em troca do apoio do Partido Progressista (PP).

Os 95 segundos do PP malufista no horário gratuito, cedidos em troca dos afagos no jardim da mansão do dr. Paulo, geraram a crise da saída da ex-prefeita Luiza Erundina da chapa lulista, numa evidência de que, como o crime, o "neomalufismo" poderá não compensar.

No afã de eleger Haddad, o ex-presidente passou a seu eleitorado devoto e leal a impressão de Kassab - que se dispôs a apoiar o favorito dele e chegou a comparecer a uma reunião petista - lhe ter passado a perna. Tenha sido ou não esperteza do prefeito, a iniciativa dele empurrou o ex-governador José Serra para a disputa e convenceu seus desafetos no PSDB a compreenderem que a única forma de manter a oposição ao poder federal na maior prefeitura do País será apoiá-lo sem restrições, embora tapando o nariz.

Outro episódio posterior ao diagnóstico do câncer na laringe desmentiu mais até do que a fama de infalível do ex-presidente, pois contradisse um histórico de bom senso que o tem aproximado do cidadão comum, responsável por vitórias dele e de seus candidatos e altíssimos índices de popularidade por eles obtidos. Trata-se do encontro com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes no escritório do amigo comum Nelson Jobim. Mesmo que a versão do interlocutor - segundo quem Lula apelou para ele evitar que o julgamento do mensalão coincidisse com as eleições municipais - não seja absolutamente fidedigna, não faz sentido a exposição a que ele e alguns membros da última instância do Poder Judiciário - Gilmar, entre eles - se expuseram, às vésperas de um momento relevante como as sessões nas quais se julgará o maior escândalo de corrupção atribuída a seu governo na vigência do gozo da aposentadoria. Nada justificaria tal cruzada peripatética estando fora da Presidência, período no qual prometera se comportar com o máximo de discrição, e durante delicado tratamento de saúde.

Fato é que quem se surpreende com essas derrapadas do líder tido como infalível desconhece sua biografia. Nem sempre Lula foi sequer sensato como se pensa que foi. Em 1978, o ex-governador Cláudio Lembo, atendendo ao chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, lhe pediu apoio para a anistia e a volta dos exilados. Ele negou. Em 1985, apoiou a expulsão do Partido dos Trabalhadores (PT) dos deputados Bete Mendes, Airton Soares e José Eudes porque votaram em Tancredo Neves contra Paulo Maluf no Colégio Eleitoral, alegando que os dois candidatos eram "farinha do mesmo saco". Em 1988, o partido só assinou a Constituição dita "cidadã" por apelo insistente do presidente do Congresso Constituinte, Ulysses Guimarães (PMDB-SP). No mesmo ano, omitiu-se na campanha da candidata petista à Prefeitura de São Paulo, Luiza Erundina, que tivera a ousadia de vencer seu favorito, Plínio de Arruda Sampaio, na convenção. Em 1993, apesar de ter participado da derrubada de Fernando Collor no Congresso, o PT recusou-se a participar do governo tampão do vice Itamar Franco e suspendeu a filiação da mesma Erundina, porque ela ousara desafiar novamente o chefão ao aceitar a Secretaria da Administração Federal - o que a levou a migrar para o PSB em 1997.

Aconselhado por Aloizio Mercadante Oliva, Lula levou os petistas a votarem contra o Plano Real, acusando-o de "estelionato eleitoral", posição que o levou a duas derrotas eleitorais seguidas no primeiro turno para o criador do maior projeto social da História do País, Fernando Henrique Cardoso. E, na oposição, se opôs ferozmente à privatização, à adoção do câmbio flutuante, às metas de inflação, à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e aos programas sociais propostos pelos tucanos.

Fiel à condição confessa de "metamorfose ambulante" (apud Raulzito Seixas), contudo, elegeu uma anistiada presidente. E agora enfrenta o desafio de provar que o "neomalufismo" não é crime e pode compensar. Se conseguirá só Deus sabe.

A estratégia do atraso - ROLF KUNTZ


O ESTADÃO - 04/07

Desta vez,vai.Com o companheiro Chávez no Mercosul e o comércio regional comandado pelo ministro argentino Guillermo Moreno, o Brasil e seus vizinhos vão desemperrar o comércio exterior - se o governo uruguaio, é claro, desistir de contestar a lambança realizada em Mendoza para a admissão da Venezuela. Por enquanto, há alguns probleminhas, mas nenhum com suficiente importância para impressionar a presidente Dilma Rousseff e seus estrategistas. De janeiro a junho as exportações brasileiras para o Mercosul, US$ 11,1 bilhões, foram 14,7% menores que as de um ano antes. Esse resultado é explicável principalmente pela diminuição de 16% nas vendas para a Argentina, a segunda maior economia do bloco e a principal defensora de barreiras comerciais entre sócios de uma união aduaneira. O ministro Moreno aperfeiçoou essa política, impondo mais restrições burocráticas à importação e obrigando os empresários a exportar um dólar para cada dólar importado.

As demais parcerias estratégicas definidas por Brasília continuam funcionando magnificamente e restaurando, em alguns casos,algumas venerandas práticas de outras eras.Os embarques para a China renderam US$ 21,1 bilhões e ficaram 4,7% acima dos registrados no primeiro semestre do ano passado, mas a relação entre a economia chinesa e a brasileira continuou moldada segundo o velho padrão colonial: troca de matérias- primas por manufaturados. Ninguém deve acusar o governo petista de bancar o moderninho e menosprezar o passado.

Segundo as últimas informações disponíveis no site do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, de janeiro a maio o Brasil exportou para a China manufaturados no valor de US$ 892,6 milhões, 5,2% das vendas para aquele mercado. Somando-se os semimanufaturados, chega-se a US$ 2,3 bilhões de produtos industriais, 13,1% do total. O mesmo padrão é observado no comércio com os três parceiros do grupo Bric- Rússia,Índia e China. Os manufaturados vendidos pelo Brasil somaram US$ 1,1 bilhão, 5,5% dos US$ 20,6 bilhões exportados. O total dos industrializados chegou a US$ 3,3 bilhões, 16% do valor faturado pelo Brasil.

Se a presidente Dilma Rousseff examinasse rapidamente outras parcerias comerciais do País, ficaria provavelmente surpresa com um descuido ideológico de seus estrategistas. A diplomacia brasileira esforçou-se bravamente, a partir de 2003, para evitar maior envolvimento com os mercados do mundo rico - especialmente do Império,como diria o líder Hugo Chávez - , mas as vendas para Estados Unidos e União Europeia ainda proporcionam quase um terço da receita( 32,2% no primeiro semestre deste ano). Mais que isso: os mercados mais desenvolvidos do mundo se mantêm como grandes compradores de manufaturados made in Brazil.

De janeiro a maio,os americanos compraram US$ 5,1 bilhões de manufaturados brasileiros (45% do total importado) e US$2,4 bilhões de semimanufaturados. Os US$ 7,5 bilhões de industrializados corresponderam a 63,8% da receita do Brasil no comércio como Império naqueles cinco meses.

O intercâmbio com a União Europeia também viola o padrão imaginado pelos salvadores do Brasil.Até maio,as exportações de manufaturados para o bloco europeu chegaram a US$ 7,3 bilhões, 37% do total, e as de industrializados, US$ 10 bilhões, 50,7%. Detalhe interessante: vários países europeus estão afundados em recessão e as vendas brasileiras para a região, no primeiro semestre, US$ 23,9 bilhões, foram 7% menores que as de janeiro a junho do ano passado. Mesmo assim, o mercado europeu é mais propício à indústria brasileira que os mercados dos "parceiros estratégicos". Os US$ 12,4 bilhões de manufaturados remetidos aos Estados Unidos e à União Europeia entre janeiro e maio corresponderam a 60% do valor de todas as categorias de produtos exportadas para China, Rússia e Índia.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os Kirchners nunca se deixaram iludir pela tentação de um comércio não colonial com americanos e europeus. Graças à sua perspicácia e à visão estratégica de seus assessores, evitaram qualquer compromisso favorável à intensificação dos negócios industriais com as velhas potências dominadoras. Agora, enriquecidos com a inspiradora participação do companheiro Chávez, os governos brasileiro e argentino poderão reforçar os laços com as potências verdadeiramente comprometidas com o futuro da América do Sul, como os Brics e outros parceiros do "Sul". Mas ainda será possível avançar em outras áreas. Que tal, por exemplo, aumentar os impostos sobre as vendas externas de manufaturados? Mais que um passo, seria um salto na direção de um comércio muito mais parecido com o dos velhos e bons tempos coloniais.

As fronteiras da ciência - MARIA CLÁUDIA BIDO

ZERO HORA -  04/07


Bastante divulgado (e com razão!), o Ministério da Educação possui o programa Ciência Sem Fronteiras, permitindo que 100 mil alunos estudem no Exterior, custeados parcial ou integralmente pelo governo nos próximos anos. As bolsas para Portugal e Espanha disparam na preferência dos estudantes brasileiros. Mas restam milhares de oportunidades, com destino a países em todos os continentes, sendo a língua inglesa o principal passaporte.

A intenção é elevar o nível de aprendizagem do alunado daqui, por meio da experiência internacional para que isso resulte num salto tecnológico, o que deve redundar em melhor qualidade de vida. Ao interagir com educadores das mais variadas instituições do mundo, nossos jovens levam a imagem deste país como emergente cultural, assim como buscam novos conceitos e formas de pesquisa, além de convivência com a diversidade. O que é tão importante quanto o estudo é a oportunidade de ver o Brasil sob outra perspectiva e até valorizá-lo com outros olhos, assim como fazer amigos e redes de contatos, viver situações inusitadas, deixar de agir com preconceitos e, ao mesmo tempo, ser visto sem preconceitos. É a chamada "vivência global", difícil de ser quantificada, mas imensamente rica.

Meu recado é para pais, educadores e alunos para que aproveitem porque, como diz o gaúcho, "a oportunidade passa encilhada". Mas, para termos a mala pronta na hora do embarque, é necessário que tenhamos todas as peças dessa engrenagem à disposição. As fronteiras existem, sim, e uma delas é a capacidade de comunicação no idioma requisitado.

O aprendizado sério e comprometido de uma língua adicional acontece pelo tempo de exposição aos conteúdos para que os insights surjam, assim como é fundamental o estímulo de um bom professor, para que os questionamentos e as ideias apareçam e aflore o desejo da pesquisa e da inovação.

No país antes conhecido essencialmente pelo Carnaval e futebol, a missão de hoje é provar que somos muito mais. Devemos pensar em nossa formação, assim como os gestores estabelecem metas para uma empresa, professores fazem seus planejamentos de aula e famílias fazem planos de viagem de férias.

Que os pais estimulem seus filhos, e professores façam o mesmo pelos seus educandos para que estudem línguas internacionais, como o inglês, e possam ingressar nessa onda de oportunidades. Conhecimento é algo que ninguém nos tira. Associado à atitude, só abre portas.

Quarto do pânico - ALEXANDRE SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 04/07
Por que o Banco Central parece entrar em pânico toda vez que a cotação do dólar passa de R$ 2?

O PIB brasileiro anda de lado desde o ano passado, tendo crescido meros 0,8% entre o primeiro trimestre de 2011 e o primeiro de 2012. Em contraste, o emprego -medido nas seis principais regiões metropolitanas do país- aumentou 1,8%.

Tomado ao pé da letra, esse resultado é preocupante, ao sugerir que cada trabalhador brasileiro produz, em média, 1% menos do que era capaz há um ano.

Como a expansão da produtividade é a base sobre a qual se apoia o crescimento sustentável, se confirmado, isso indicaria limites muito estreitos para o aumento da produção.

Eu, porém, não tomaria esses números literalmente. Mesmo a se considerar que, com a taxa de desemprego no mínimo histórico, empresas sejam obrigadas a contratar de forma crescente os trabalhadores menos qualificados, a queda absoluta da produtividade me parece um exagero.

Caso fôssemos repetir o mesmo cálculo, digamos, no segundo trimestre de 2010, quando o PIB crescia quase 9% e o emprego 4%, concluiríamos que a produtividade então se expandia a vertiginosos 4,6%.

Posto de outra forma, algo mais técnica, dizemos que essa medida da produtividade (ou a produtividade "observada", em oposição à produtividade "verdadeira") é fortemente pró-cíclica, isto é, cresce quando a economia se expande e cai quando ela desacelera.

Não se trata, portanto, de uma estimativa das mais úteis para avaliar o potencial de crescimento do país, pois se mostra otimista demais nos períodos de expansão e exageradamente pessimista no caso oposto.

Há, todavia, formas de contornar esse problema, desde que estejamos dispostos a incorrer em certos custos. Nesse caso específico, para lidar com a questão da flutuação cíclica da produtividade, utilizei uma medida de tendência, que, por construção, tenta evitar precisamente esse tipo de fenômeno.

O principal custo disso é a perda de uma noção mais clara do que tem ocorrido nos últimos trimestres. Por outro lado, estimamos que a expansão da produtividade teria se mantido em ritmo pouco superior a 1,5% por ano de 2006 para cá, desempenho que, se não é brilhante, também não corroboraria a noção de queda da produtividade.

Há, é bom dizer, alguns sinais de desaceleração do ritmo de crescimento da produtividade no setor industrial, aparentes também nos dados mensais de produção e de emprego daquele setor, mas não da economia como um todo.

Por outro lado, o aumento salarial vem se acelerando. Tanto os dados do IBGE, cobrindo as seis regiões metropolitanas e todas as modalidades de trabalho, quanto os do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) -cuja abrangência é nacional, mas que se concentra apenas nos empregos formais- indicam que os salários médios vêm crescendo cerca de 11% a 12% na comparação com o mesmo período do ano anterior, provavelmente em resposta à redução persistente da taxa de desemprego.

Entretanto, se cada trabalhador custa agora 11% ou 12% mais, mas produz apenas 1,5% a mais, então o custo de cada unidade de trabalho deve ter crescido em torno de 9,5% a 10,5%, com implicações relevantes para a economia.

Nos setores mais sujeitos à competição internacional, mas onde os preços externos se encontram a níveis historicamente baixos (manufaturas), a capacidade de repasse dos custos aos preços é reduzida e, portanto, é a redução das margens que absorve o custo mais alto da mão de obra. Em contraste, nos setores mais protegidos (serviços), o repasse tem sido intenso.

Não é por outro motivo que a inflação de serviços -a despeito da mudança de pesos ocorrida no começo do ano- se mantém elevada, enquanto a inflação de bens duráveis (auxiliada por cortes temporários de impostos) é negativa.

Posto de outra forma, o dólar barato ajudou a conter a inflação, ao compensar, pelo lado dos bens industriais, a pressão dos serviços.

Dá para entender por que o Banco Central parece entrar em pânico toda vez que o dólar supera R$ 2?

O Banco Central e o câmbio - CELSO MING


O ESTADÃO - 04/07
Pela primeira vez nos últimos 20 anos, um diretor do Banco Central vem a público para avisar que as cotações do dólar têm de subir. Mais ainda, têm de subir porque o desempenho da indústria não foi satisfatório dois meses antes. Foi o que declarou ontem o diretor de Política Monetária, Aldo Luiz Mendes.
Mesmo depois de 1999, quando foi definida a livre flutuação do câmbio no Brasil, ninguém no governo federal definiu que essa flutuação se faria de modo absoluto, no sentido de que a cotação da moeda estrangeira seria aquela que fosse determinada pela oferta e procura sem interferência das autoridades.

Sempre se soube que o câmbio no Brasil- como, de resto, em todo o mundo - opera no regime de "flutuação suja". A diferença é que, em 2004, o próprio Banco Central definiu que essa intervenção se faria em duas condições: quando fosse preciso neutralizar a excessiva volatilidade das cotações- caso de uma forte entrada ou saída de dólares: ou houvesse necessidade de formar reservas.

A partir do governo Dilma, sem declaração prévia, essa regra foi alterada. O próprio Banco Central tratou de puxar as cotações para cima para conter a excessiva valorização cambial (baixa do dólar).

Com isso, as cotações saltaram para acima dos R$ 2 por dólar, chegando ao máximo de R$ 2,0830 no dia 28 de junho. Nesta semana, o próprio Banco Central voltou a vender moeda estrangeira aparentemente porque entendeu que a desvalorização fora longe demais. As cotações voltaram a cair para abaixo dos R$ 2 por dólar, o que parece ter incomodado em especial o diretor de Política Monetária, que ontem passou o recado de que o Banco Central terá de voltar a comprar moeda estrangeira, agora no mercado de derivativos.

A condução da política de câmbio pelo Banco Central está pouco clara. Tanto não lhe interessam cotações acima de R$ 2,10 por dólar como não lhe interessam cotações abaixo de R$ 2 por dólar, o que, por si só, caracterizaria um limite estreito de variação.

Porém, mais esquisita é a afirmação de um diretor do Banco Central, cuja única função é cuidar da saúde da moeda, de que, no momento, é o desempenho da indústria que tem de determinar a política cambial, não importando muito as causas do seu baixo resultado nem o comportamento do resto da economia.

Ontem, o IBGE divulgou os resultados de sua pesquisa sobre a produção industrial e o que se viu é decepcionante: queda de 0,9% em maio em relação a abril; queda de 4,3% em relação a maio do ano passado; e de 3,4% nos primeiros cinco meses do ano em relação a igual período do ano passado (veja o Confira).

Tanto a presidente Dilma como o ministro Guido Mantega vêm afirmando que o avanço in satisfatório do sistema produtivo (e não só o da indústria) é consequência da crise internacional - fator que não explica tudo. Em nenhum momento foi adiantado que esse fiasco tema ver com a excessiva valorização do real nem que a desvalorização induzida até aqui teria de ser acentuada para salvar a produção.

É incompreensível que uma autoridade da área monetária declare que é preciso empurrar o câmbio, qualquer que seja a direção. Mesmo que decididas equivocadamente, essas coisas não se anunciam; simplesmente se fazem.

CLAUDIO HUMBERTO

“Hoje, eu sou a bola da vez”
Senador Demóstenes Torres (GO), afirmando que depois dele outro senador será alvo

CPI VAI AO STF CONTRA EXCESSO DE HABEAS CORPUS

Integrantes da CPI mista do Cachoeira devem visitar o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Carlos Ayres Britto, para reclamar do excesso de habeas corpus concedidos aos convocados para depor, na condição de investigado ou de testemunha. É o que propõe um requerimento do deputado Luiz Pitiman (PMDB-DF), membro efetivo da CPI. Até agora, apenas seis dos 25 convocados prestaram depoimento.

HC ATRAPALHA

Luiz Pitiman alega que a profusão de habeas corpus até mesmo para testemunhas tem atrapalhado as investigações da CPI do Cachoeira.

NOVA CHANCE

Após sua mulher dizer à TV que ele “tem muito a falar ao Brasil”, Carlos Cachoeira deve ser novamente chamado a depor na CPI.

AMOR SEM PAZ

Marta Suplicy (PT-SP) esqueceu o microfone ligado enquanto atendia o telefone, na mesa do Senado: “Alô, amor!”. Não era Fernando Haddad.

FILHO PARA PAI

Líder do PDT, o senador Acir Gurgacz (RO) se licenciou ontem para cuidar das eleições municipais. Assumiu seu pai, Assis Gurgacz.

PARAGUAI PODE, ENFIM, APROVAR BASE DOS EUA

Questão controversa há anos no Paraguai, a instalação de uma base militar no país poderá agitar as eleições marcadas para abril. Suspenso da Unasul e do Mercosul, além de abrir caminho para alianças econômicas com Europa, China e EUA, o Paraguai cederia espaço estratégico na fronteira da Tríplice Aliança, “reduto terrorista”, segundo os americanos. O Mercosul vetava qualquer discussão sobre o tema.

OLHO NO AQUÍFERO

Com a pretendida base no Paraguai, os EUA pretendem monitorar a maior reserva de água subterrânea do mundo, o Aquífero Guarani.

SONHO ANTIGO

O Paraguai tem acordo de treinamento militar com os EUA, mas o ex-presidente Fernando Lugo resistia à instalação da base militar.

INIMIGOS, PERO...

O bravateiro Hugo Chávez adora falar mal dos Estados Unidos, mas o Obama continua sendo o maior comprador de petróleo da Venezuela.

MOVIMENTAÇÃO TRILIONÁRIA

O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) telefonou, ontem, ao presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, pedindo explicações sobre uma informação estonteante chegada à CPI: a Delta teria movimentado R$ 1,4 trilhão, entre os anos de 2002 e 2012, mas faturou R$ 7 bilhões.

TROCA DE CHUMBO

Se não obter o apoio do PSDB na blindagem de Fernando Cavendish (Delta) e o ex-diretor do DNIT Luiz Antonio Pagot, o PT pode convocar Paulo Preto e o empresário paulista Adir Assad, ligados a José Serra.

REDE DE PROTEÇÃO

O PMDB ajudará a impedir a convocação de Fernando Cavendish, com o objetivo de não dar mole para quem deseja atingir o governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

POR POUCO

Lula daria “pitacos” na reunião do Mercosul em Mendonza, Argentina, na sema passada.

Não foi, para “preservar a voz” e porque Hugo Chávez também não foi.

Poupamos a grana de cinco seguranças que o acompanhariam.

NA LISTA

O presidente do Uruguai, José Mujica, é candidato ao troféu “Biruta de Aeroporto” de 2012: disse antes que era a favor da entrada da Venezuela no Mercosul, agora revela ter sido pressionado pelo Brasil.

ASSIM É, SE LHE PARECE

Advogado petista, Luiz Eduardo Greenhalgh deu recado à la Lula no Twitter: “Delúbio Soares é das mais respeitadas figuras do PT. Não procedem as notícias de que assumiria culpas que não existem”.

EM CAMPANHA

Candidatíssimo ao governo do Ceará em 2014, o senador Eunício Oliveira (PMDB) participou, no fim de semana, do lançamento de 38 candidaturas municipais em seu Estado.

NÃO LARGA O OSSO

O PSDB mineiro acredita que será difícil o PT sair da aliança pela reeleição do prefeito Márcio Lacerda (PSB) em Belo Horizonte. É que os petistas têm hoje cerca de 900 cargos na prefeitura.

INDIGESTÃO

A Coreia do Norte finalmente liberou a pizza, não a conhecida “pizza” brasileira que lá costuma levar ao pelotão de fuzilamento.


PODER SEM PUDOR

O DELEGADO PROFESSOR

O jovem Tancredo Neves assumiu a promotoria pública em São João Del Rey (MG). Foi chegando e arranjando uma namorada. Mal sabia que o delegado havia proibido namoro nas praças. Por isso ele se misturou aos muitos casais que ocupavam um dos jardins públicos da cidade. A polícia chegou de repente e expulsou todo mundo. Tancredo já ia protestar quando o delegado o percebeu. Rápido, o policial mostrou que tinha muito a ensinar a ele:

- Doutor, botei esse pessoal para fora para deixar o senhor à vontade...

QUARTA NOS JORNAIS


- Globo: Nem incentivos de R$ 102 bi seguram queda da indústria
- Folha: Indústria registra o 9o tombo seguido apesar de incentivo
- Estadão: Indústria cai mais e BC pode intervir no câmbio
- Correio: Cresce cerco golpe ‘pagou, virou europeu’
- Valor: Procura de executivos para a indústria começa a cair
- Zero Hora: Mortes põem em xeque estratégia contra a gripe A

terça-feira, julho 03, 2012

Defunto errado - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 03/07

A 18+ Câmara Cível do TJ-RJ condenou a Santa Casa do Rio a indenizar emR$ 12 mil uma família da alta sociedade carioca.
É que, na cremação do patriarca do clã vip, descobriu-se que o corpo... era de outro. O falecido já havia sido cremado por engano por outra família.

Censura venceu
O selo Primeira Pessoa, da editora Sextante, não conseguiu até ontem reverter na Justiça do Paraná a liminar que mandou suspender, a partir de hoje, as vendas de “Anderson Spider Silva”, biografia do campeão de MMA.
A ação foi movida por Rudi-mar Ferdigo, dono de academia em Curitiba, acusado pelo lutador, no livro, de “pessoa do mal”.

Bahia 2013

Jaques Wagner, governador da Bahia, vai erguer um mega-centro de convenções na Costa do Sauípe, orçado em R$ 4 milhões, com infraestrutura exigida pela Fifa, para o sorteio dos grupos e dos jogos da Copa de 2014, em dezembro de 2013.
O evento receberá 5 mil pessoas —1.500, convidadas da Fifa.

Fernanda boneca
Fernanda Venturini vai ganhar da Mattel uma versão personalizada da ...í Barbie, com suas feições, vestida com uniforme da seleção brasileira de vôlei (com o seu número 14 estampado). Merece.

Gullar por Gullar

Aos 82 anos, Ferreira Gullar continua com um vozeirão.
Não é à toa. Aos 18, foi locutor na Rádio Timbira, no Maranhão. Agora, recita versos em CD produzido por Paulinho Lima, da gravadora Luz da Cidade. Título: “Poemas de Gullar por Gullar”.

LIZANDRA SOUTO, 37 anos, a bonita atriz que voltará à telinha em "Salve Jorge", próxima novela de Glória Perez, na TV Globo, posa para a nova edição da revista "Contigo", amanhã nas bancas. Na entrevista, fala de sua separação do ex-jogador Tande. Diz que "está pronta para recomeçar": "Se quisesse, saía todos os dias, mas nunca fui de sair muito. Estou pronta, mas com os mesmos princípios e o mesmo caráter"

Gois na Flip I
Hermínio Bello de Carvalho, 77 anos, relançará na Flip o livro “Áporo itabirano”, que reúne cartas que trocou com Carlos Drum-mond de Andrade (1902-1987).
No lançamento, exibirá um documentário em que aparece com Drummond, Jota Efegê (19021987) eNássara (1910-1996).

Gois na Flip II

A Casa da Palavra lançará na Flip “Um poeta na política: Mário de Andrade, paixão e compromisso”, de Helena Bomeny. Fala do lado político do escritor, que dirigiu o Departamento de Cultura de São Paulo (1934-1937).
O livro traz cartas inéditas trocadas por Mário com o então ministro Gustavo Capanema.

Gois na Flip III

“Uma literatura nos trópicos”, de Silviano Santiago, da Rocco, foi lançado no Chile.
O crítico literário fará a palestra de abertura da Flip, quarta, ao lado de Antonio Cicero.

Largo do Millôr
Vai ficar assim o Largo do Mil-lôr, na Pedra do Arpoador, no Rio, homenagem aprovada por Eduardo Paes ao grande escritor (1923-2012), sugerida por amigos como Jaime Lerner — que assina, aliás, o projeto acima.

Dilma no Rio
Sexta agora, Dilma vem ao Rio inaugurar com Eduardo Paes o bairro Carioca, em Benfica, e a nova unidade de emergência do Hospital Miguel Couto.

Aprovada com louvor
Pesquisa da Embratur com estrangeiros que vieram à Rio+20 mostra que 75% aprovaram nossa segurança pública (soma de “ótimo” e “bom”).

Mas...
O trânsito parece mesmo pedra no caminho: 80% consideraram “ruim” ou “muito ruim”.
Contudo, 71% aprovaram, acredite, nosso serviço de táxis.

Multa milionária

A prefeitura do Rio multou em R$ 1.921.228,25 a empresa Adshell, por ter “descuidado” dos totens usados para identificar monumentos e edifícios históricos da cidade.
Mais da metade estaria danificada. É pena.

Um senador, um caminho - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE 03/07

uma palavra política, quando bem colocada, pode ter mais força do que horas de discurso jurídico. Foi com esse espírito que o senador Demóstenes Torres aceitou o conselho de seus advogados e estará todos os dias na tribuna da Casa, até o dia da sessão fatal. A atitude de Demóstenes tem, à primeira vista, apenas o sentido de se defender, uma vez que ele estreou ontem apenas negando todas as acusações que pesam contra ele, especialmente, a de usar o mandato para ajudar um contraventor, no caso, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

Mas Demóstenes quer mais com esses discursos, reservados e decididos a funcionar como o epilogo de uma novela que se arrasta há 126 dias. Na fala de março, quando ele negou qualquer relação mais próxima com Cachoeira, mostrava-se altivo. No limiar da arrogância. O comportamento foi mudando dia após dia, no ritmo em que iam surgindo mais diálogos entre ele e o contraventor, divulgados a conta-gotas. Chegou ao ponto de o senador dizer em alto e bom som: "Não sou mais o Demóstenes". Ao mencionar essa frase, deu asas a versões sobre uma dupla personalidade ou atitude — no Senado, seria o destemido promotor, ao passo que, em Goiás, aceitava os deslizes do amigo Cachoeira.

Por falar em personagem

Agora, com os discursos de ontem e ao longo dos próximos dias, Demóstenes se prepara para unir essas duas figuras. Nos meandros de cada negativa que fez para contrapor as acusações de uso do mandato em benefício do contraventor, está a vontade do senador de revisitar e revisar a própria biografia. No intuito de preservar o mandato, o limiar da arrogância a que chegou a sua fala de março foi substituído por uma humildade absoluta e pedidos infindáveis de perdão àqueles que o apoiaram no início desse longo caminho. 

O probelma entretanto, não está resolvido. Até porque, Demóstenes não abriu sua fala a comentários de seus próprios colegas, os chamados apartes. O senador Pedro Taques (PDT-MT), por exemplo, não integra o Conselho de Ética. E, como integrante da CPI, não teve a chance de fazer perguntas públicas ao colega, uma vez que Demóstenes se recusou a falar naquele colegiado, seguindo àrisca o conselho dos advogados. Ontem, Taques, um dos poucos em plenario, esperava tazer perguntas. Não conseguiu. Ao não permitir apartes, Demóstenes abriu a guarda para que seu discurso fosse lido como mais do mesmo, perdendo substância como fator capaz de recuperar os resquícios do tempo em que a presença dele era um verniz à imagem do Senado.


Por falar em verniz...

A estratégia de Demóstenes, entretanto, é inédita. Nunca um senador às vésperas de ser julgado pelos próprios colegas passou dias a fio na tribuna, ampliando o tempo de defesa. Mas não lhe resta alternativa, a não ser trilhar pela estreita picada na mata e voltar, nem que seja por um curto espaço de tempo, a ser aquele Demóstenes acostumado a cumprimentos efusivos por integrantes do chamado clube dos "intransigentes", capitaneado por Pedro Taques e Randolfe Rodrigues (PSoL-AP).

Ninguém acredita, entretanto, que as falas sirvam de poção mágica ou reversão de expectativas. O semblante de Demóstenes, dentro do elevador, quando um repórter lhe perguntou se ele esperava "reverter" a cassação com os discursos, denunciava as poucas chances dessa virada, digamos assim. Na hora, o senador olhou para o advogado, que intercedeu e tratou a pergunta como pré-julgamento. No fundo, Demóstenes sabe que ali a decisão é política e tem plena consciência de que seus colegas preferem seguir para o recesso sem o peso de preservá-lo e, depois, serem obrigados a dar explicações nos palanques. E, de mais a mais, contra a unanimidade demonstrada no Conselho de Ética, sobram poucos argumentos. A tendência de cassação permanece. E, até o presente momento, nada indica que mudará.

Por faiar em palanques...

Pedro Taques e Blairo Maggi (PR-MT) estarão no mesmo palanque na disputa pela prefeitura de Cuiabá. Ambos apoiam Mauro Mendes, do PSB. A capital matogrossense é mais uma cidade importante onde PSB e PT competem entre si. Depois, ainda vêm os socialistas tentar convencer a todos que está tudo nos conformes entre os dois partidos. Vale lembrar que PFL e PSDB começaram a brigar assim há alguns anos. Mas essa é outra história. Essa semana, além do caminho de Demóstenes, resta saber o que será do fator previdenciário, em pauta hoje na Câmara. Esse sim, um problema bem mais imediato sara o governo resolver do que o embate eleitoral entre os aliados.

GOSTOSA


Nova rota - MARCIA PELTIER

JORNAL DO COMMÉRCIO  - 03/07

A região Norte registrou, em cinco anos, o maior crescimento percentual (243%) do número de empresas, de 193 mil para 663 mil, segundo o IPC Maps. O Nordeste aparece em seguida, com alta de 167%, de 884 mil para 2,361 milhões, entre 2007 e 2012. Marcos Pazzini, diretor da IPC Marketing Editora, frisa que esse movimento reflete a melhoria de renda das famílias, que tem elevado o potencial de consumo da população. O Brasil tem, hoje, mais de 13 milhões de empresas, e a maior quantidade ainda está na região Sudeste, com quase 6,5 milhões, ou seja, uma a cada 12,7 habitantes.

Agenda aberta

Na eventualidade de ir à abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, dia 27, Dilma participará de coquetel oferecido para os chefes de Estado pela rainha Elizabeth, no Palácio de Buckingham. O Itamaraty também tentar marcar um encontro bilateral entre a nossa presidente e o primeiro-ministro David Cameron. Antes disso, Dilma poderá ir, dias 15 e 16, à Cúpula dos Povos Africanos, em Adis Abeba, capital da Etiópia.

Lenços à mão

Apesar de não ser um espetáculo triste, Herivelto como conheci, o monólogo-musical com Marília Pêra, está fazendo o público se comover às lágrimas. Nesta quinta-feira será a sessão para convidados no Teatro Net Rio, com presenças confirmadas de Bibi Ferreira, Gilberto Braga, Camila Morgado e Miguel Falabella. Filho de Grande Otelo, que foi grande amigo de Herivelto Martins, o ator José Prata parabenizou Yaçanã Martins e Cacau Hygino, autores do livro no qual a peça é inspirada: “Vocês conseguiram dar dignidade à vida de um boêmio. Eu tentei e não consegui”, desabafou.

Magnata dos imóveis

Presidente do Equity Group Investiments, o americano Sam Zell desembarca no Brasil, em outubro, para o 12º Congresso Internacional de Shopping Centers e Conferência das Américas. Criador de três dos maiores fundos de investimentos imobiliários da história, um dos quais detinha ações da Gafisa, Zell fará palestra sobre mercados emergentes. Considerado o 63º homem mais rico dos EUA, com fortuna avaliada em US$ 5 bilhões, Zell também é o chairman do Tribune Company, um conglomerado de mídia.

Efeito Cachoeira

Placa de empreiteira afixada na grade de prédio em reforma em rua nobre da Tijuca: “Não damos propina. Se quiser, não ligue para nós”.

Longe do óbvio

Brasileira nascida na França, Karla Skinner lança hoje, na Livraria Timbre, o guia França para poucos, no qual destaca roteiros menos conhecidos, mas com charme de sobra. Mestre em Línguas e Literaturas Francófonas pela UFRJ, ela cita cidades como Chabéry, onde Rousseau viveu, e Rouen, cenário de romances de Flaubert, sempre associando referências culturais e históricas às dicas de serviço e lazer.

Cidade dos coquetéis

De segunda a quinta-feira próximas mais de 18 mil drinques serão preparados no Copacabana Palace. Pela primeira vez o Brasil vai sediar uma final do Diageo World Class, o Oscar da coquetelaria mundial, com 40 bartenders de várias partes do mundo participando de inúmeras baterias. Paulo Freitas, o único brasileiro na disputa, estará em casa: ele trabalha, há três anos, no Bar do Copa.

Viajante

Pela primeira vez, moradores de Brasília verão de perto o quadro Primeira Missa no Brasil, na exposição Retratos da Brasilidade, que ocupa a partir de hoje o Salão Negro do Congresso Nacional. O óleo, pintado em 1861 por Vitor Meireles, faz parte do acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e de lá só saiu duas vezes: em 2007, para percorrer capitais da região Sul e, no ano passado, para um festival de arte em Bruxelas.

Comércio selvagem

Sábado, no Mercadão de Madureira, onde muita gente vai em busca de Havaianas que serão dadas como lembrança em festas, uma mulher entrou numa loja e surrupiou uma arara inteirinha das ditas sandálias, mais bijuterias. Uma das vendedoras suspeitou e chamou o segurança, porém antes que ele chegasse a pobre atendente levou muitas mordidas da ladra, que ainda conseguiu fugir, deixando para trás as bolsas.

Livre Acesso

De domingo até 14 de julho, a Câmara de Comércio França Brasil lança a Semana Francesa, evento que reúne restaurantes franceses da cidade, em homenagem à queda da Bastilha. Cada chef preparou um menu especial que inclui entrada com prato principal e sobremesa, a preços convidativos. A chef Luanna Malheiros, do Bistrô La Cigale servirá Tartine de Capri, canard au miel de lavande e creme brulée.

A HE:labs comemora, hoje, uma ano de sucesso do produto Startup Dev – metodologia que permite o desenvolvimento de um software em até 48 horas, com coquetel, às 19h, no Pistache, em Botafogo.

Alfredo Lopes foi reeleito para a presidência da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado do Rio de Janeiro (ABIH-RJ), no biênio 2012/2014.

A estreia de Em nome do Jogo, com Marcos Caruso e Erom Cordeiro, será sábado, às 21h30, no Teatro Fashion Mall.

Com o patrocínio da Shell Brasil, o projeto Curta na Praça chega à sua quinta edição, que se encerra em Búzios este sábado e domingo. A iniciativa, que já passou por São Francisco de Itabapoana, Macaé, Campos, além das cidades capixabas de Itapemirim, Guarapari e Vitória, conseguiu atingir um público de 15 mil espectadores. O roteiro faz parte da área de influência de atividades da Shell no segmento de upstream na Bacia de Campos.

O Instituto e a Revista Ciência Hoje estão comemorando 30 anos de existência com uma exposição gratuita na Casa da Ciência, em Botafogo, até o próximo domingo.

Plano (do) piloto - TUTTY VASQUES

O ESTADÃO - 03/06

Ok, deve ter sido mesmo acidente de percurso, ninguém é doido de pensar que os pilotos da FAB tiveram intenção de quebrar as vidraças do STF, mas o descuido com a altitude dos caças que saudavam a cerimônia de troca da Bandeira na Praça dos Três Poderes deixa no ar um sentido figurado: há sim uma forma de tirar o sossego de quem tem telhado de vidro em Brasília, ainda que este não seja o caso do Supremo! 
Se os Mirage 2000 tivessem passado um pouquinho mais pra lá ou pra cá na rota festiva do sobrevoo dominical, estaria chovendo caco de vidro até agora no Congresso Nacional ou Palácio do Planalto, dependendo daquilo que Lúcio Costa chamava de "Plano (do) Piloto". 
Nunca antes na história deste País uma metáfora foi tão pouco sutil em sua exposição pública. Nem o Lula quando se exprime através do futebol consegue estrago igual entre a intenção e o gesto de se fazer entender. 
Por falar em Lula, não foi ele que em 2009 chegou a anunciar a compra de 36 caças franceses? Para quem ainda não tinha uma boa teoria conspiratória a respeito, a "onda de choque" que estilhaçou as vidraças do STF às vésperas do julgamento do mensalão fala mais que mil palavras. 
Ou não, né?! 

Eu, hein! Os problemas de roteiro de Os Mercenários 2 subiram à cabeça de Chuck Norris, parceiro de Sylvester Stallone, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger no filme de ação. O ator tem dado entrevistas em que acusa o presidente Obama de desenvolver um "plano secreto para infiltrar gays entre escoteiros". Nem o cinema brasileiro dos anos 1970 produzia diálogos tão sem sentido! 

Púbis retrô A TV Globo procura uma dublê de púbis para as cenas de nu frontal de Juliana Paes em Gabriela por um motivo muito simples: não havia depilação a laser na Ilhéus dos anos 1920. Cláudia Ohana já disse que não topa o papel! 

Agora vai! Enfim, uma boa notícia protagonizada pela ministra da Cultura, Ana de Hollanda, que defendeu no domingo em São Petersburgo a candidatura vitoriosa do Rio a Patrimônio Mundial da Humanidade. Periga até cair do cargo! 

Arrastão do sopão Os mendigos da Praça da Sé e adjacências estão montando um esquema inspirado no Vizinhança Solidária implantado em bairros como Vila Madalena e Itaim-Bibi. Corre no centrão de São Paulo o boato de que a onda de arrastão vai chegar ao sopão. Será? 

Fim de uma era Louras de todo mundo, uni-vos! Pois se até Luana Piovani e Ticiane Pinheiro fizeram as pazes, caramba, não há por que continuar falando mal umas das outras por aí! 

Culpado genérico"Delúbio é bom companheiro/ Delúbio é bom camarada/ Delúbio é um amigo batutaaaaaa/ Delúbio é um bom (...)!" JOSÉ DIRCEU, cantando no chuveiro. 

O passado bate à porta - ELIANE CANTANHÊDE


FOLHA DE SP - 03/07


BRASÍLIA - No México, o PRI (Partido Revolucionário Institucional) mandou e desmandou por 71 anos, ficou fora do poder durante 12 e está de volta, por eleições diretas. Ou seja, pelos braços do povo.

No Paraguai, o Partido Colorado, que respaldou a sangrenta ditadura de Alfredo Stroessner e ficou 61 anos no poder, também está esquentando o time para voltar de onde, aparentemente, nunca saiu. O governo do solitário ex-bispo Fernando Lugo parece um hiato de quatro anos. O partido, eufórico, acha que ganha fácil as eleições de abril de 2013.

A história não se repete, a não ser como farsa... Mas os partidos latino-americanos mais carcomidos por golpes, ditaduras e corrupção são como carrapatos no poder. Saem, mas ficam. Saem, mas mantêm-se enraizados nas instituições, nas Forças Armadas, nas sociedades.

Pior: não encontram oposição de fato que consiga assumir as rédeas, conduzir o país, combater as desigualdades sociais, mantendo equilíbrio político, dinamismo na economia, relações diplomáticas sólidas. Vide Lugo, um sonho de verão.

Para recuperarem a cadeira e manterem o poder que sempre tiveram, o PRI e o Partido Colorado têm o cuidado de renovar a cara e o discurso. O eleito no México, Enrique Peña Nieto, é um advogado de 45 anos com jeitão contemporâneo. O candidato mais forte dos colorados no Paraguai, Horacio Cartes, é um dos homens mais ricos do país, desses com pinta de "modernidade".

A história, as práticas e os aliados, porém, são os de sempre. Os partidos mudam para não mudar. Não dá para acreditar que a prioridade do PRI seja combater o narcotráfico, principal poder no México, nem a dos Colorados de Cartes seja combater a desigualdade social e a corrupção, maiores calamidades paraguaias.
O povo põe, o povo tira, o povo põe de novo. Democracia é assim mesmo, cheia de defeitos. Pena que ainda não inventaram nada melhor.

Uma defesa da hipocrisia - JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE SP - 03/07

O fato de algo ser moralmente condenável não significa que deva ser legalmente proibido



Ironias da vida: falamos com uma pessoa de tendências progressistas sobre a liberalização das drogas. Ela concorda: as políticas repressivas falharam. Só a liberalização diminui o tráfico.

E, além disso, cada um sabe de si na forma como usa e abusa da própria liberdade: quem sou eu para impor a terceiros os meus pontos de vista moralistas e repressivos?

Calma, camaradas. Tanta violência retórica não se justifica: já escrevi repetidas vezes que o meu "conservadorismo de costumes" só se aplica a matérias de vida ou morte.

A liberdade individual termina quando começa a liberdade dos outros? Deploro esse clichê.

Melhor dizer que a liberdade individual termina quando está em causa uma vida humana -a do próprio ou a de terceiros. Aborto, eutanásia, suicídio assistido, pena de morte- não contem comigo para a jornada.
Mas contem comigo para o resto. E o resto, lamento informar, inclui a prostituição também.

Sim, eu sei: idealmente, o amor não deveria estar à venda, embora seja sempre possível contar a piada de que a única diferença entre sexo pago e sexo grátis é que sexo grátis, normalmente, fica mais caro.
Aqui, o meu interlocutor progressista hesita. Se mudamos o gênero da palavra e escrevemos "interlocutora", o feminismo vem à tona e decide o assunto: a prostituição degrada as mulheres, alimenta o tráfico de seres humanos e deve ser reprimida pelas autoridades.


Um bom exemplo dessa atitude radical está na França. Leio nos jornais que o governo progressista de François Hollande tem um Ministério dos Direitos das Mulheres.

E a ministra, Najat Vallaud-Belkacem, quer acabar com a prostituição no país. A sra. Vallaud-Belkacem, manifestamente, nunca leu Maupassant ou Flaubert, escritores que construíram o melhor da literatura francesa no conforto dos bordéis.

Para a ministra, é preciso um plano de ação contra o negócio, desmantelando redes de tráfico e proxenetismo. Os clientes também serão duramente penalizados.

Perante essa deriva persecutória, só me resta dizer: "bonne chance, madame". Mas também acrescento que a ambição governamental será inútil e, além disso, abusiva.

Começa por ser abusiva porque o governo francês confunde tudo: tráfico de seres humanos com a decisão autônoma de alguém vender o corpo para fins sexuais.

As duas situações não habitam o mesmo plano moral. Traficar ou escravizar alguém é um crime contra a liberdade de terceiros. Vender o corpo para fins sexuais pode ser uma degradação da condição humana do sujeito -ou, para usar a linguagem kantiana, uma forma de sermos tratados como um meio, não como um fim.

Mas essa decisão, moralmente condenável, não constitui uma ameaça para ninguém. A minha vida e mesmo a minha liberdade não estão ameaçadas se a vizinha do lado gosta de receber cavalheiros ao serão.
Por outro lado, a ambição do governo francês será também inútil. A prostituição não é apenas a mais velha profissão do mundo. Como dizia Nelson Rodrigues, com sua insuperável sabedoria sobre a natureza humana, é também a mais velha vocação.

E nem todas as leis serão capazes de alterar a realidade: enquanto houver gente disposta a vender e a comprar sexo, haverá um mercado para o negócio.

A única diferença é que, em países que fizeram da proibição uma cruzada, esse mercado funciona na clandestinidade, desprotegendo ainda mais as mulheres que o Estado imagina proteger.

Nada disso significa, obviamente, que cabe ao Estado regular a atividade como se a prostituição fosse apenas mais um negócio entre vários. Ou, pior ainda, que o Estado pode legitimamente lucrar com ele, taxando os seus proventos. O Estado não deve ser um proxeneta coletivo.

Tolerar a prostituição significa apenas isso: tolerar. O fato de algo ser moralmente condenável não significa que deva ser legalmente proibido.

A hipocrisia, como dizia um francês ilustre, pode ser a homenagem que o vício presta à virtude. Mas, sem essa homenagem, as sociedades humanas seriam lugares inóspitos para habitar.

Menos 50% - SONIA RACY

O ESTADÃO - 03/07

A desaceleração da economia é visível. No começo do ano, o Estado de São Paulo trabalhava com um aumento real de arrecadação de 4%. Ontem, Andrea Calabi, secretário da Fazenda, recebeu as contas e ficou preocupado: ICMS de junho subiu 6,9%. Descontada a inflação de 5%, temos um crescimento real de somente 1,9%, na comparação com junho do ano passado. 
No semestre? Coincidentemente, o mesmo número: fechou com ICMS 6,9% maior. 

Sangria A PF fará, amanhã, uma … campanha de doação de sangue. O título? “A Polícia Federal dá sangue pelo Brasil.” 
A categoria faz operação-padrão esta semana por aumento. E decide, em agosto, se entra em greve de vez. 

Puro azar Ivan Sartori, do TJ-SP, descarta estudo prévio da vítima. Acha que a escolha de sua filha e sobrinha por bandidos em sequestro relâmpago no fim de semana foi aleatória. 

Silêncio absoluto Se Fernando Cavendish for mesmo convocado, vai aqui a informação: se manterá calado na CPI do Cachoeira. 

Todo falante A estratégia traçada por Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, para Demóstenes Torres é fazer discurso diário de prestação de contas no Congresso. Começou ontem. 

Número 1 Fernando Haddad vai ligar para Luiza Erundina. 
Quer a ex-prefeita - além de metade da República - na largada da sua campanha de rua, dia 7, na Praça do Patriarca. 

Sem férias Carlos Ayres Britto ficará na capital federal em julho. Cabe ao presidente do STF julgar pedidos urgentes durante o recesso. 
Às vésperas do mensalão, além de se preparar para o longo julgamento, o ministro estuda a apresentação de medidas para agilizar decisões - tanto do Supremo quanto do Conselho Nacional de Justiça, que também é comandado por ele. 
As propostas precisam ser aprovadas por seus pares em sessão administrativa para que possam entrar em vigor. 

Sem janelas Ayres Britto, aliás, precisou usar seu gabinete do CNJ para despachar ontem por causa do incidente dos caças, que estilhaçou os vidros do STF domingo. 
A administração do tribunal está calculando os prejuízos. 

Sem janelas 2 Outros ministros do Supremo levantaram as mãos para o céu. 
Pior seria se tivesse acontecido durante o julgamento do escândalo, que começa dia 2 de agosto. 

Prodígio Paulo Uchoa acaba de ter seu agrément concedido pelo governo do Congo. Trocará Nova York, onde é conselheiro, por Kinshasa, onde será embaixador. 
Leva experiências acumuladas nas embaixadas de Paris e Nova York, mais Beirute e Riade. 

Na frente Cem obras sobre a carreira de Willy Rizzo serão expostas no Mube a partir do dia 10 de agosto. Dentro do projeto Iguatemi Photo Series. 

Tem ciclo em homenagem aos 100 anos do cineasta japonês Keisuke Kinoshita no Sesc Pinheiros. Hoje. 

Terça Insana começa temporada no Teatro Itália. Hoje. 

Mara Carvalho estreia seu espetáculo Ator Mentada, no Teatro Folha. Hoje. 

Shakira é uma namorada coruja. Depois da vitória de seu Piquet, anteontem, a cantora postou que a Espanha tinha feito história. “Orgulhosa de ti”, afirmou, depois de dizer que o jogo ocorria no estádio em que ela cantou na inauguração, em Kiev, dezembro do ano passado. do ano passado. 

Dois bons programas: compras e agricultura - ANTONIO DELFIM NETTO

VALOR ECONÔMICO - 03/07



A situação social e econômica do mundo é preocupante. A eurolândia, os 17 países (25% do PIB mundial) que adotaram o euro, fixando de maneira irrecorrível o valor das suas moedas nacionais, encontra-se num lamentável nevoeiro, que parece dar sinais de começar a dissipar-se.

Por outro lado, os EUA (20% do PIB mundial) vão se recuperando mais lentamente do que se esperava, mas - com inovação e crédito - estão mudando com rapidez a sua estrutura produtiva: 1) no que diz respeito ao custo da energia com o "shale gas"; 2) executando uma cuidadosa política industrial, que leva em conta a fragmentação dos processos produtivos, estimula a produção de energia renovável e abre espaço para as indústrias química e eletrônica; e 3) facilitando a mobilidade de trabalhadores para baixar os salários horários. Os resultados disso já são visíveis e refletem-se no fato que muitos investimentos para ampliação da capacidade, com nova tecnologia, voltam a instalar-se nos EUA (GE, Caterpillar e outras).

A China e os países asiáticos (31% do PIB mundial) têm os seus problemas, mas nada indica que, incluindo o Japão, crescerão menos do que 5% (a China talvez perto de 7,5%, a Índia 6% e o Japão um pouco mais de 2%). A América Latina (6% do PIB mundial) vai crescer 3%, um pouco mais do que o Brasil (em torno de 2%), com destaque para a Colômbia e Peru.

Governo está atento à grave concentração da produção agrícola

Do ponto de vista da taxa de inflação, com exceção da Argentina e da Venezuela, que devem andar às voltas de 25%, os demais países estão relativamente bem comportados, todos abaixo de 6%. No Brasil, espera-se menos do que 5%.

Olhado o mundo desse ponto de vista, poderíamos concluir que a situação não é tão dramática. O problema é que o diabo está nos detalhes. Como disse Merkel, "todos sabemos o que fazer. O que não sabemos é como ganhar as eleições, para fazê-lo". Na situação instável em que se encontra a eurolândia, uma crise bancária a liquidaria e, provavelmente, imporia ao mundo uma recessão equivalente à de 1929. Isso agora parece provisoriamente afastado com o uso do mecanismo de estabilização financeira para recapitalizar os bancos, o que será um grande alívio no curto prazo.

É preciso prosseguir na integração política, fiscal e monetária. O que se discute é a ordem em que ela será feita. A despeito dos problemas e das dificuldades que delas emergirão, parece claro que a tarefa para dar tranquilidade à eurolândia e ao mundo, o fundamental, é criar uma verdadeira união monetária e entregar a garantia de estabilidade do sistema financeiro ao Banco Central Europeu, dando-lhe, simultaneamente, o papel de emprestador de última instância, com capacidade de emitir um título de responsabilidade solidária da própria eurolândia.

Qual deve ser o comportamento do Brasil nesse teatro ameaçador? Devemos: 1) por as "barbas de molho" e prosseguir na tarefa de manter hígido nosso sistema financeiro e garantir a sua estabilidade e liquidez; e 2) utilizar nosso mercado interno para a sustentação do crescimento possível diante da eventual tempestade.

É isso que está fazendo o governo com a série de medidas que vem tomando, mas que parecem fazer pouco sentido para alguns analistas, que insistem em ignorar os problemas de governança quando, como hoje, a política pretere a economia.

Na semana passada, tivemos dois eventos importantes que confirmam aquela orientação. O direcionamento das compras governamentais, que talvez tenha pouco efeito em si mesmo, mas indica o caminho a ser perseguido, e a aprovação de uma bem estruturada política agrícola e pecuária, ações fundamentais para acelerar o PIB e ajudar no controle da inflação.

Estabeleceu-se um volume de crédito de R$ 87 bilhões para comercialização e custeio (com limite ampliado em 23% para cada produtor) e R$ 28 bilhões para investimento, cujos juros baixaram de 6,75% para 5%. Um aumento de 7,5% sobre a safra 2011/2012, que sofreu grandes problemas com a variação do clima. Há alguns aspectos importantes, que mostram um novo enfoque do ilustre ministro Mendes Ribeiro: um aumento de 34% dos recursos do programa nacional de apoio ao médio produtor rural, cujos juros caíram de 6,25% para 5%.

Chamamos a atenção às palavras da presidente Dilma na cerimônia: "O médio produtor rural não pode continuar espremido entre as políticas para os grandes produtores e para os agricultores familiares", o que revela que o governo está antenado com a grave concentração da produção na área agrícola.

De fato, um magnífico trabalho produzido por seis pesquisadores da Embrapa ("Um Modelo de Produção para a Agricultura Brasileira e a Importância da Pesquisa da Embrapa", 2012), com base no Censo Agropecuário de 2006, mostrou que, dos 4,4 milhões de estabelecimentos existentes naquele ano, apenas 27 mil (0,62% do total) produziram 51% da renda bruta; 473 mil (10,74%) produziram 35% e os restantes 3,9 milhões (89%) produziram apenas 13,3% da renda bruta!

O fato marcante é que a intensidade do uso de nova tecnologia é a principal explicação para aquelas diferenças. Ela é utilizada apenas por uma minoria. Isso mostra que a velha e abandonada extensão rural deveria merecer mais prioridade, mais atenção e mais recursos por seu dramático efeito sobre a renda bruta da agricultura.

Abraço ao passado - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 03/07


Em países onde a pobreza é grande, a idade mínima para a aposentadoria cria discriminação social



A menos que o governo esteja nostálgico do neoliberalismo, ao qual, no entanto, fez oposição feroz no governo Fernando Henrique, não se compreende o empenho dos ministros Guido Mantega, Ideli Salvatti e Garibaldi Alves pela aprovação da idade mínima e mais alta para a aposentadoria. Com o estímulo dos três, os líderes da bancada governista incluíram o projeto altamente antissocial nas votações previstas para esta semana.

O governo Fernando Henrique adotou a tese da idade mínima elevada como solução para a Previdência, mas não conseguiu que o Congresso fizesse o mesmo. Embora não fosse numerosa, a resistência se manifestou até na base governista. Não era para menos.

Em países onde a pobreza é grande e a escolaridade média é de curta duração, idade mínima (e alta, claro) para a aposentadoria é discriminação social. É contra os desfavorecidos economicamente e a classe média baixa, que começam a trabalhar com idade muito inferior às das demais escalas da população. O próprio Estado é o primeiro a reconhecê-lo, ao armar-se da (ineficaz) proibição de trabalho para menores de 14 anos.

Se adotada a medida, os que a necessidade faz começarem mais cedo vão trabalhar, até chegar à idade mínima para aposentadoria, por muitos mais anos do que os demais. Hoje as mulheres que contribuem para a Previdência por 30 anos e os homens por 35 conquistam o direito a aposentar-se. Se impostas as idades mínimas de 60 anos e 65, respectivamente, para mulheres e homens, a multidão que começa com 15 anos, 16 anos, como vemos pelo país todo, nos casos femininos vai trabalhar em torno de 10 anos mais do que a classe média para ter o direito à aposentadoria. Nos casos masculinos, em torno de 15 anos mais.

É preciso notar, ainda, que as aposentadorias do INSS não permitem que grande parte das aposentadorias crie aposentados mesmo. Continuar trabalhando, se o corpo aguenta, é a solução comum para as necessidades familiares.

Elevar a idade mínima de aposentadoria, onde as condições econômicas da população são horrivelmente diferenciadas, é agravar a discriminação social.

A VOLTA

O presidente mexicano Felipe Calderón torna público o propósito de mudar-se para o exterior, tão logo deixe a Presidência. Assim já disse o suficiente sobre o seu governo.
O sucessor eleito, governador Enrique Peña Nieto, fez-se notório fora do México pela presença numerosa nos jornais e TV atentos ao que se passa no mundo: foi muito citado em casos de corrupção no Estado do México, por usos pessoais, antiéticos e eleitoreiros nos 12 anos de sua administração estadual. A vitória que o leva para a Presidência está marcada por denúncias de ação fraudulenta, inclusive as graves acusações que lhe faz, nesse sentido, o jornal inglês "The Guardian".

Já a eleição de Felipe Calderón disseminara certezas de fraude, com a diferença de apenas 0,5% do vitorioso para o adversário López Obrador. O velho PRI, partido que se manteve no poder por 71 anos de corrupção, volta com o moço Peña Nieto. Não traz uma promessa de boas contribuições para o Brasil e a América Latina.