terça-feira, junho 26, 2012

Isolamento calculado - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 26/06


BRASÍLIA - A Argentina está na presidência do Mercosul, será a anfitriã da reunião do bloco com associados na próxima sexta e aproveita a crise no Paraguai para sair em desabalada carreira em busca de protagonismo regional.
Cristina Kirchner tem sido cada vez mais chavista e menos lulista (ou seja, mais radical, menos negociadora), e adere ao eixo Venezuela-Equador-Bolívia justamente quando ele parece mais vulnerável. Confronta a imprensa, bate de frente com a Espanha, assusta os já parcos investimentos internacionais. Mas Cristina não está com essa bola toda: a economia vai mal, as greves pipocam.
O Brasil corre atrás na crise do Paraguai, tentando uma "ação pedagógica", não uma declaração de guerra: nem deixar a deposição de Lugo passar em branco, até para não estimular golpismos por aí afora, nem asfixiar o país vizinho, já tão sofrido.
Enquanto os chavistas retiram seus embaixadores de Assunção, e Chávez já corta o fornecimento de petróleo, o Brasil chama o embaixador Eduardo Santos para consultas e adia qualquer sanção prática para a reunião de sexta. Defende soluções conjuntas, não isoladas e afoitas, como as venezuelanas.
Dilma não irá a Mendoza com ganas de jogar o novo governo Federico Franco na lona, mas disposta a aplicar, além da "ação pedagógica", um "isolamento calculado" até as eleições de abril de 2013. Leia-se: ela quer um Paraguai isolado politicamente, mas funcionando economicamente. Não só para preservar os paraguaios, mas principalmente para garantir os interesses brasileiros no país -que não são poucos.
Também pesa na cautela brasileira o fato de as instituições paraguaias terem aprovado a deposição: o Congresso votou de forma acachapante, Lugo aceitou no primeiro momento, a Suprema Corte avalizou e a igreja abençoou. Quem, no Paraguai, está pedindo ingerência externa para manter sua democracia?

Guerra cibernética e robôs de defesa - RUBENS BARBOSA


FOLHA DE SP - 26/06


Os avanços tecnológicos vêm colocando enormes desafios para a paz e a segurança internacional. Quando Clausewitz, há quase 200 anos, fez a observação de que a guerra é a continuação da política por outros meios, não poderia imaginar que ela seria hoje tão atual. Estamos vivendo um período em que a guerra começa a operar por outros meios, não o convencional, como entendido até aqui, mas por instrumentos eletrônicos cada dia mais sofisticados.

A guerra cibernética com objetivos militares ofensivos, com vírus nos computadores iranianos e a utilização de veículos aéreos não tripulados (Vants ou "drones") na eliminação de líderes da Al-Qaeda, desafia as normas internacionais vigentes e coloca questões morais e políticas que deverão ser enfrentadas pela comunidade internacional.

Os EUA e Israel, por meios cada vez mais sofisticados, atacaram os sistemas de computadores que administram as instalações iranianas de enriquecimento de urânio, ampliando significativamente o primeiro uso contínuo de armas cibernéticas. No contexto de uma operação denominada Jogos Olímpicos, um vírus, Stuxnet, desenvolvido nos EUA e em Israel, atacou as instalações em Natanz e depois desativou temporariamente quase mil das 5 mil centrífugas usadas pelo Irã para a purificação do urânio. Outra arma cibernética, o vírus Flame, teria atacado computadores de funcionários do governo iraniano, subtraindo informações estratégicas.

Pouco mencionadas são as ações cibernéticas da China contra os EUA, e vice-versa. Os serviços de inteligência norte-americanos identificaram 20 grupos associados ao Exército e às universidades chinesas responsáveis pelos ataques ao Google, à RSA e a outros alvos americanos. Além dessa espionagem industrial, foram registradas invasões na rede de geração e transmissão de energia e em outras áreas de infraestrutura. Os EUA foram os primeiros a criar um Comando para a cibernética, o que, segundo os chineses, contribuiu para a militarização do sistema. A Agência de Segurança Nacional americana transfere informação reservada para mais de 20 empresas de defesa, para que sejam desenvolvidas formas ofensivas e defensivas para o resguardo dos interesses nacionais de Washington.

EUA e China, no contexto do Diálogo Estratégico e Econômico e de contatos militares regulares, começaram em 2011 a discutir formas para impedir a escalada dos ataques cibernéticos e meios para a rápida comunicação entre suas capitais. EUA e Rússia mantêm esses contatos há algum tempo e estabeleceram uma linha vermelha para evitar incidentes graves, o que talvez possa se repetir com a China. Contatos regulares com Israel e com os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estão se intensificando.

A utilização de arma cibernética tenderá a se acentuar, podendo causar enormes problemas para a população civil, caso energia, transporte e comunicações venham a ser afetados pela ação antagônica entre governos.

Os robôs militares operam, atualmente, no mar, na terra e no ar. Os países que desenvolvem robôs para fins de defesa estão se equipando com todo tipo de forças de combate e serviços de inteligência cuja capacidade operacional está aumentando continuamente.

As regras de conduta militar no teatro de operações determinam que a decisão do disparo de uma arma deve ser humana. Essa restrição começa a ser questionada com a multiplicação do uso militar dos robôs, porque já existe a possibilidade de os Vants de inteligência artificial aperfeiçoada, por exemplo, tomarem decisões letais de combate autônomas, baseadas nas informações de que dispõem.

À medida que a tecnologia se desenvolve e permite maior autonomia dos robôs, a ideia de máquinas controladas a distância por computadores tomando decisões que põem o mundo diante questões morais é cada vez mais real e representa um grande desafio para a comunidade internacional.

Essa questão desperta o debate sobre o que foi chamado pela revista The Economist de "a moral e a máquina". A capacidade dos robôs de decidir entre o certo e o errado coloca dilemas como, por exemplo, o de aceitar ou não que um Vant deva disparar um míssil para eliminar um militante terrorista escondido em local onde se encontram também civis.

Além do problema moral, o uso regular dos robôs está também desafiando as regras internacionais estabelecidas pelas Nações Unidas e o princípio da soberania dos Estados. Uma alta funcionária da ONU, recentemente, levantou sérias dúvidas sobre a legitimidade dos Vants perante a lei internacional e a violação dos direitos humanos, em vista dos assassinatos e ferimentos infringidos a civis indiscriminadamente.

O secretário de Defesa dos EUA, em visita recente à Índia e ao Afeganistão, não se cansou de repetir que, apesar das reclamações do Paquistão pela violação do seu espaço aéreo, as operações com os Vants vão continuar a eliminar suspeitos de terrorismo em nome da defesa dos interesses dos EUA. A guerra ao terrorismo, iniciada por George W. Bush e continuada por Barack Obama, está, na prática, restrita hoje aos ataques dos Vants, que, segundo os últimos números, eliminaram 269 militantes no Paquistão e 38 no Iêmen, todos alegadamente da alta hierarquia da Al-Qaeda, com danos colaterais - um eufemismo para mortes não desprezíveis na população civil. E consta que Obama toma pessoalmente para si a última decisão sobre os membros da Al-Qaeda que devem ser eliminados.

A comunidade internacional vai ter de responder ao desafio dessas questões morais, políticas e de soberania introduzidas pela utilização dos robôs e das armas cibernéticas de defesa ou de ataque.

O Brasil não deveria ficar ausente do debate. Cabe participar das iniciativas que já surgiram para enfrentar o problema, como o Comitê Internacional para o Controle de Armas Robóticas, criado nos EUA.

PRESSÃO MÁXIMA - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 26/06

O ministro Ricardo Lewandowski, do STF (Supremo Tribunal Federal), fez bateria de exames na manhã de ontem em SP. De acordo com interlocutores próximos, ele está "descompensado" com o trabalho dos últimos meses para finalizar o relatório do mensalão.

NARIZ VERMELHO
A pressão, sobretudo interna, do próprio STF, para que ele entregasse logo o relatório, que revisa o de Joaquim Barbosa, também estressou o ministro. Entre seus defensores a palavra mais suave para definir a atitude de outros magistrados é "palhaçada".

SER OU NÃO SER
O relatório de Lewandowski concorda em vários pontos com o de Joaquim Barbosa. Mas não em todos. A advogados dos réus, o ministro manifestou dúvidas em relação à acusação de lavagem de dinheiro, também em virtude de mudanças nas regras internacionais que tratam desse tipo de crime.

ALOPRADO MUNICIPAL
O deputado Campos Machado, presidente do PTB de SP, diz que é "despeitado" o petista que julga que ele manterá a candidatura de Luiz Flavio D'Urso a prefeito só para tirar votos do tucano José Serra e ajudar o PT. "Não pode ser nem considerado um aloprado."

NEGO OUTRA VEZ
Machado, que está afônico, escreveu à coluna: "Pela primeira vez me manifesto sobre o assunto", ou seja, sobre o convite do PT para D'Urso ser vice de Fernando Haddad. Ele diz que o convite não partiu de Paulo Maluf. "Fui eu, como presidente do PTB, que recebi um telefonema, atencioso e educado, do presidente estadual do PT, meu amigo Edinho Silva." Que, segundo diz, "jamais imaginava uma negativa de nossa parte".

MARCHA LENTA
O tempo para conseguir estacionar no novo shopping JK Iguatemi, na Vila Olímpia, no fim da tarde de domingo, era de meia hora. Funcionários tentavam orientar os motoristas, mas a ajuda foi insuficiente no terceiro dia de funcionamento do local.

CADÊ O LIXO?
E no novo empreendimento, que conta com grifes de luxo como Lanvin e Goyard, até anteontem à noite faltava algo básico: lixeiras. A coluna viu várias pessoas perguntando a seguranças onde encontrar uma. Na sorveteria Freddo, os clientes que acabam de tomar seus sorvetes pediam aos funcionários do local para jogarem fora os copinhos, pois não conseguiam achar os lixos.

PREÇO GRINGO
E as lojas internacionais Zara Home e Topshop ainda não haviam colocado preços em reais em muitas peças.

As etiquetas mostravam valores em moedas como dólar, libra e euro.

NOVELEIROS
Comentário de muitos espectadores presentes no show de Marisa Monte, no fim de semana, em São Paulo, quando ela interpretou "Depois": "Olha a música do Jorginho e da Nina". A canção está na trilha da novela "Avenida Brasil".

CINDERELA
E chamava a atenção de muitas mulheres na plateia o sapato de salto da cantora, com um tressê dourado e preto. O modelo é de uma coleção antiga da grife Prada.

PECHINCHA
Depois da última derrota do Brasil para a Argentina, uma das maiores lojas de departamentos em Berlim passou a dar desconto em todos os itens verde-amarelos. A camisa canarinho baixou de 75 euros para 22,95.

DOMINGO TEATRAL
A peça "A Doença da Morte", protagonizada por Paula Cohen e Eucir de Souza, teve pré-estreia anteontem, no Teatro Augusta. A atriz Karin Rodrigues estava na plateia.

APLAUSOS ATREVIDOS
Espetáculo dirigido por Jô Soares, com texto de Maurício Guilherme, "Atreva-se" teve estreia para convidados no Teatro das Artes no fim da semana. A comédia é inspirada no cinema "noir" e tem no elenco os atores Marcos Veras e Mariana Santos, entre outros.

CURTO-CIRCUITO

Orlando Silva recebeu MV Bill, Celso Athayde e Jeferson De para feijoada em sua casa, no sábado.

A exposição de fotos "Fragmentos de Simplicidade", de Carlos Aliperti, abre hoje, no MIS, às 19h.

Roberto DaMatta fala hoje no Fórum de Gestão de Conhecimento, Comunicação e Memória, no Espaço Votorantim, às 9h.

A Ímã Foto Galeria promove abertura da exposição "Brasil de Dentro - A Vida que Poucos Vêem", de Franco Hoff, hoje, às 20h, na Vila Madalena.

O Prêmio Masp Mercedes-Benz de Artes Visuais reconhece Anna Maria Maiolino e Paulo Nazareth como vencedores, hoje, às 19h30.

com ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, LÍGIA MESQUITA e OLÍVIA FLORÊNCIA

A internet BR faz 20 anos - PEDRO DORIA


O GLOBO - 26/06

Na semana seguinte à Rio 92, quando todos os chefes de Estado e especialistas e diplomatas já haviam deixado a cidade, ficou uma herança. Ganhamos de presente a internet. Antes da conferência, só era possível entrar na rede através de umas poucas universidades. O Laboratório Nacional de Computação Científica, próximo à UFRJ da Praia Vermelha, no Rio, Unicamp e USP, em São Paulo. Para ter conta, só sendo professor e aluno com autorização por escrito. Ou, uns parcos, que acessavam contas piratas nessas mesmas universidades (colunistas de jornal, dizem, eram uma praga). Aí veio a Rio 92, o Ibase, e tudo mudou.

A internet brasileira tem muitos pais, engenheiros que, desde 1986, lutaram dentro de suas instituições para ligar a academia à rede tão fundamental para a conversa científica. Mas foi um deles que trouxe a internet para fora dos campi: Carlos Afonso, o C. A.

C. A. fora companheiro de Herbert de Souza, o Betinho, no exílio. De volta ao Brasil, fundaram juntos, em 1981, o Ibase, uma ONG preocupada em democratizar acesso a informação. E, para ele, mesmo em princípios da década de 1980, informação e computador caminhavam juntos. Pode parecer evidente, hoje. Não era tão claro assim.

Se o Brasil parece burocrático hoje, houve o tempo em que tudo era muito pior. E conseguir permissão para se conectar (caro) à rede via Embratel exigia o impossível e mais um pouco. A conferência da ONU, porém, abriu espaço para mudanças. Estrangeiros no país precisavam de internet. E havia, no Ibase, uma pessoa que sabia montar essa infraestrutura. C. A. criou um provedor de acesso permanente. Quando a conferência terminou, o Ibase e seu Alternex permitiram que qualquer um, em troca de uma taxa mensal, tivesse sua conta naquela rede misteriosa. O e-mail da geração de pioneiros da internet pátria terminava em arroba ibase.apc.org.

Não era uma internet que o típico usuário de hoje reconheceria. Não havia web. Quer dizer, havia. Mas a web, que nasceu em 1989, era pequena, só rodava em texto, não tinha qualquer gráfico, quanto mais som. Os dois serviços mais populares na internet de antanho, implementados pelo Ibase, eram Gopher e Usenet. A Usenet era uma gigantesca base de fóruns de discussão, a avó do Facebook. De teatro shakespeariano a pornografia, passando por piadas e mecânica quântica, tudo tinha sua conferência na Usenet. E, exatamente como hoje, as conversas eram instigantes e emocionadas às vezes, surpreendentemente grosseiras noutras. Algumas coisas, na internet, não mudam.

Na ausência da web gráfica, Gopher era a maneira fácil de acessar a rede. Em vez de decorar comandos em texto no sistema Unix, tudo no Gopher se encontrava num menu hierárquico. Um diretório de livros on-line, por exemplo, poderia oferecer a lista dos tópicos. E, assim, via Gopher, seguia-se de diretório em diretório até encontrar o desejado. Naquele tempo sem Google, busca era algo que se fazia via Archie ou Veronica. Como era pequena a internet.

A história de como o Ibase do Betinho trouxe a internet para os brasileiros ainda tem de ser melhor contada. É uma história que envolve muito improviso tecnológico feito por gente extremamente capaz, muito drible nas restrições impostas por burocratas e, principalmente, visão.

Visão porque ninguém tinha como saber que a internet explodiria. Aquele período entre meados de 1992 e 1995 marcou um tempo em que a rede era quase um hobby para gente ligada em computador (já viciava). E, muito hábil, a turma do Ibase rapidamente implementou o acesso via SLIP e, depois, PPP, as misteriosas siglas que permitiriam a seus usuários navegar usando Mosaic. Popularizado a partir de finais de 94, foi o primeiro navegador gráfico, antes de Netscape, antes do IE. Uma web de páginas com fundo cinza, links azuis e roxos. Já tinha imagens e parecia coisa doutro mundo. O Gopher estava fadado à rápida extinção.

Quando percebeu que a internet ficaria grande muito rápido, a Embratel ainda tentou garantir seu monopólio do acesso. Não conseguiu. A privatização das telecomunicações também estava começando. A Rio+20 não deixou, nem teria como deixar, uma herança destas. Mas ela marca, também, os 20 anos da nossa internet.

Golpe ou impopularidade? - HÉLIO SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 26/06


SÃO PAULO - A pergunta cabível não é se houve um golpe no Paraguai, mas, sim, qual a natureza do impeachment. Este, como outras relíquias institucionais, se apresenta de modo ambíguo o bastante para comportar diferentes interpretações.
O mecanismo surgiu na Inglaterra medieval como uma forma de processar e condenar autoridades que, por serem amigas do rei, estavam acima da lei. Em vez de seguir os trâmites normais, o julgamento de impeachment ocorria no Parlamento, que era o que de mais perto havia de um poder independente ao da Coroa.
Assim, se reduzirmos o impeachment a um procedimento penal, os entusiastas de Lugo têm razão em queixar-se do açodamento com que o caso foi julgado, o que constituiria violação ao direito de ampla defesa.
O problema é que o homem, já dizia Aristóteles, é um animal político. Desde os primórdios o impeachment foi usado não só para julgar crimes de autoridades, mas também para livrar-se de políticos impopulares. A tendência foi reforçada com os avanços institucionais pós-Iluminismo: ao menos em teoria, todos, independentemente de condição social ou ligações, seriam processados na Justiça pelos crimes que cometessem.
Não é coincidência que, na Inglaterra parlamentarista, o instituto tenha se tornado obsoleto, sendo substituído pela moção de desconfiança, capaz de depor um governo em minutos sem que ninguém evoque nenhum suposto direito de defesa.
Nessa interpretação mais política do impeachment, Lugo caiu porque perdeu apoio popular -a economia despencou de 15% de crescimento em 2010 para 1,5% de retração neste ano- e se isolou dos partidos -tentou trazer os colorados para o governo, mas falhou e, com isso, afastou os liberais, que o apoiavam. Resultado: 39 votos a 4 pelo afastamento.
Cada um pode ficar com a interpretação que preferir, mas é importante deixar os paraguaios decidirem sem interferências seu destino.

Assembleia de Deus - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 26/06

A igreja evangélica Assembleia de Deus foi quem criou o Partido Ecológico Nacional. O seu presidente, Adilson Barroso, está convidando os 24 deputados eleitos pela igreja para ingressarem no PEN. Ontem, acertou que o deputado Francisco Francischini (PSDB) vai comandá-lo no Paraná. A sigla que mais vai perder é o PSC: são da Assembleia 10 de seus 16 deputados. A Assembleia segue os passos da Igreja Universal do Reino de Deus, que já tem há algum tempo seu partido, o PRB.

Vem aí o deputado da tornozeleira
Favorita nas eleições para a prefeitura de Arapiraca (AL), a deputada Célia Rocha (PTB) será substituída no Congresso pelo suplente Francisco Tenório (PMN-AL). Delegado da Polícia Civil, acusado de dois homicídios, desde fevereiro, enquanto aguarda o julgamento, está em prisão domiciliar e usa tornozeleira eletrônica para controle de seus movimentos. Ele já foi deputado estadual e federal, além de ter sido presidente da Associação dos Delegados da Polícia Civil. Ele, que já esteve um ano preso, é acusado de ser o mandante dos assassinatos do ex-cabo PM José Gonçalves (1996) e do pistoleiro Cícero Belém (2005).

"O PSB não pode ficar com o PT num abraço de afogados. Lançamos candidatos pela manutenção de uma força de esquerda no poder” — Roberto Amaral, vice-presidente do PSB, sobre as divergências no PT e as candidaturas do PSB em Recife e Fortaleza 

RAPAPÉ. A presidente Dilma estava reunida, ontem de manhã, com alguns ministros, entre os quais Antonio Patriota (Relações Exteriores) e Celso Amorim (Defesa), quando mandou chamar o comandante do Exército, general Enzo, ao Planalto. A presidente deu pessoalmente parabéns às Forças Armadas pela segurança na Rio+20. Os comandantes da Marinha e da Aeronáutica também foram acionados, mas não estavam em Brasília.

O duelo
O favoritismo do ex-prefeito Firmino Filho (PSDB) mudou os planos do ex-governador e senador Wellington Dias (PT-PI). Ele decidiu concorrer à prefeitura de Teresina, para manter uma frente de oito partidos alinhada ao projeto petista.

Sem volta
O PT ainda tenta demovê-lo, mas o governador Eduardo Campos (PSB-PE), está montando uma chapa que já tem dez partidos à prefeitura de Recife. Participa das negociações um ex-adversário: o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB).

O governo Dilma e o caso Eduardo Braga
A despeito das especulações, inclusive no âmbito da política local de Manaus (PMDB), o Planalto não considera a possibilidade do líder do governo no Senado, Eduardo Braga (AM), deixar a função. Um ministro explicou ontem que esta hipótese, na ótica do governo, foi vencida quando Braga recebeu o convite da presidente Dilma para exercer a função. Ela jamais o convidaria para a tarefa se soubesse que ele disputaria a prefeitura.

O rolé
Concluída a Rio+20, o rei da Suécia, Carlos Gustavo, ficou até domingo passeando no Brasil. Ontem, permaneciam pelo Rio de Janeiro o primeiro-ministro de Tonga, Siale´Ataongo Tu´Ivakanõ, e o presidente de Myanmar, Thein Sein.

Lição de vida
Dirigentes partidários estão revoltados com a ação política das siglas nanicas. Dizem que nenhum candidato ou partido escapa de ter de pagar um "pedágio" para tê-los na coligação, em troca de preciosos segundos de propaganda na TV.

TRÊS DEPUTADOS e um senador que participaram da deposição do ex-presidente Fernando Lugo, no Paraguai, estão no Brasil para defender o processo de impeachment. A Frente Parlamentar do Agronegócio oferece almoço para eles hoje.

O SENADOR Francisco Dornelles (PP-RJ) quer o Brasil fora da Unasul. Seu argumento: "A Unasul é integrada por presidentes que não respeitam a liberdade de imprensa, o Congresso e o Judiciário".

DEPOIS da realização da Rio+20 e da intervenção no Paraguai, o movimento para derrubar o ministro Antonio Patriota (Itamaraty) perdeu o fôlego.

Qual é a política? - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 26/06


Precisou que a hemorragia nas finanças da Petrobrás atingisse níveis críticos para que, afinal, o governo Dilma concordasse com o reajuste dos preços dos combustíveis. Ainda assim, chegou tarde e foi insuficiente.

Chegou tarde porque desde o início de 2011 os presidentes da Petrobrás, primeiramente José Gabrielli e, em seguida, Graça Foster, vêm reclamando recomposição das receitas da empresa.

Não tem cabimento o argumento de que este reajuste não poderia ter sido dado antes porque produziria inflação. A decisão anunciada foi reduzir na mesma proporção o imposto embutido no preço, a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), de maneira a evitar impacto sobre o custo de vida. Se foi assim, poderia ter vindo antes. O argumento de que o governo perderia arrecadação também não tem fundamento, uma vez que a Cide não é tributo arrecadatório; é apenas regulatório. Seria o mesmo que dar a desculpa de que o governo não pode reduzir o Imposto de Importação (taxa alfandegária), destinado a regular o comércio exterior, porque não pode perder receita.

Este foi, também, um reajuste insuficiente, incapaz de assegurar toda a munição necessária para que a Petrobrás possa dar conta do enorme programa de investimentos no período 2012-2016, de nada menos que US$ 47,3 bilhões por ano. A direção da Petrobrás havia pedido 15%.

Na semana passada, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, argumentava que um reajuste era justo porque, afinal, havia nove anos que os preços dos combustíveis permaneciam inalterados para o consumidor. Apesar do raciocínio do ministro Lobão, os preços ao consumidor continuam inalterados.

Nada impede que, depois das eleições, venha outro reajuste. Só que dessa vez não haverá como amortizar o impacto sobre o orçamento do consumidor, pois o governo zerou a Cide.

O mais grave é que, também na definição dos preços dos combustíveis, o governo atua improvisadamente. Até agora, dedicava-se a fazer política de preços com o caixa da Petrobrás, pouco se importando com as enormes distorções que se avolumavam na economia.

Há alguns dias, as autoridades vinham admitindo que passou a ser necessário recompor a capacidade de investimento da Petrobrás. Ontem, Graça Foster assegurou que, daqui para a frente, os preços seguirão o mercado internacional. É a palavra dela, tanto quanto foi palavra dela e a do presidente anterior quando advertiram que o ajuste seria inevitável sem, no entanto, comoverem o governo.

Agora, nem o equilíbrio de caixa da Petrobrás foi recuperado nem as distorções dessa política foram removidas. Os preços favorecidos da gasolina e do óleo diesel seguirão aumentando artificialmente o consumo e exigirão volumes cada vez maiores de importação de gasolina. Como a Petrobrás não consegue produzir gasolina suficiente para dar conta do consumo, também pressionarão as importações e, assim, contribuirão para o desempenho insatisfatório da balança comercial.

Esse achatamento dos preços e a falta de uma definição de uma política clara dos combustíveis também sufocam a produção de biocombustíveis, especialmente de etanol e biodiesel, porque não garantem remuneração satisfatória para o produtor. O governo Dilma enfrenta o risco de ser responsabilizado pela deterioração crescente da produção de combustíveis renováveis.

Paraguai soberano - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 26/06


Apesar de cercear direito de defesa, impeachment do presidente foi constitucional; é abuso dos países vizinhos pretender impor sanções


A Corte Suprema de Justiça do Paraguai recusou ontem a alegação do ex-presidente Fernando Lugo de que foi inconstitucional o fulminante processo de impeachment pelo qual o Congresso o depôs, entre quinta e sexta-feira passada.
Com a decisão, caem por terra as pretensões de invalidar a posse do vice Federico Franco como sucessor constitucional. Também ontem a Justiça Eleitoral do país vizinho refutou a possibilidade de antecipar as eleições presidenciais, previstas para abril de 2013.
Não resta dúvida de que o impedimento de Lugo se deu sob evidente cerceamento do direito de defesa, cujo exercício ficou confinado a apenas duas horas de argumentação perante os parlamentares. Infelizmente, porém, a Constituição paraguaia não disciplina esse importante aspecto.
Exige apenas que o processo seja aprovado por dois terços da Câmara e que o afastamento ocorra se assim decidirem dois terços do Senado -limites amplamente superados nas votações que consumaram o impeachment.
Como motivo, basta a alegação genérica de "mau desempenho de suas funções".
Eleito numa plataforma esquerdizante, o ex-bispo católico Fernando Lugo conduzia um governo populista e errático, prejudicado pela conduta pessoal do mandatário, compelido a reconhecer filhos em escandalosos processos de paternidade.
Mas o motivo principal da derrocada foram os efeitos desastrosos da crise econômica no Paraguai, cujo produto nacional deverá encolher 1,5% neste ano. A popularidade presidencial se desfez depressa, tornando possível a formação da esmagadora maioria congressual que o afastou do cargo.
Por afinidade ideológica -maior no caso da Argentina, menor no de Brasil e Uruguai-, os demais governos do Mercosul decidiram suspender a presença do vizinho na reunião do organismo, que deve culminar na sexta-feira próxima, quando examinarão possíveis sanções contra o novo governo em Assunção.
Esse comportamento é injustificável. As cláusulas democráticas previstas pelo Mercosul e pela Organização dos Estados Americanos (OEA) aplicam-se a flagrantes violações da ordem constitucional. Ainda que o impedimento de Lugo seja criticável, as instituições paraguaias têm funcionado de acordo com as leis daquele país.
Com um triste histórico de ingerência na política interna do Paraguai, país que mantém laços de dependência econômica em relação ao Brasil, o melhor que o Itamaraty tem a fazer é calar-se e respeitar a soberania do vizinho.

Profetas do apocalipse - XICO GRAZZIANO


O ESTADÃO - 26/06


Acabou a Rio+20. Afora as frustrações advindas da falta de ousadia, esquentar o tema do desenvolvimento sustentável foi o grande mérito da conferência. Jamais tantas notícias socioambientais se destacaram no mundo. Por outro lado, a profusão de discursos criou uma espécie de Torre de Babel ecológica. Todos falam, mas poucos se entendem. Haverá tempo para salvar o planeta?

Começa pela arrogância humana a série de controvérsias que permeia o recente debate ambiental. Querer "salvar o planeta" exibe uma soberba incomparável na história da humanidade. Tal ideia, absurda, radicaliza a visão antropocêntrica, creditando ao ser humano uma prepotência acima de qualquer outra atribuída a ele, dono do universo e dos planetas. Imagine.

Na Idade Média, o Iluminismo deu força à razão. O intelecto, alimentado pela ciência, livrou o homem do desígnio divino, subjugado pela natureza bruta. Seu destino começou a ser moldado com ajuda da tecnologia, representando, ao sair das trevas medievais, passo fundamental da civilização. Floresceu o humanismo.

Mas a evolução tecnológica combinada com a explosão populacional gerou, séculos depois, um crescimento econômico agressivo aos recursos naturais. O homem, que pensava tudo poder, começou a sofrer as consequências da destruição de seu próprio habitat. A crise ambiental lhe ofereceu pílulas de humildade que, ingeridas com mínima visão holística, fizeram bem à humanidade. Surgiu o conceito do desenvolvimento sustentável.

Na abertura da Conferência da ONU no Rio de Janeiro, o vídeo Bem-vindo ao Antropoceno retomou, noutro nível, esse debate filosófico. Vai esquentar a discussão. Quem propõe substituir a atual era geológica do Holoceno - que vige desde o último período glacial, há 12 mil anos - pela nova denominação assume que as atividades humanas se sobrepõem às forças cósmicas. Representa a maior das ousadias da mente humana. E, talvez, o pior dos equívocos.

Tem sido terrível perceber a queda na compreensão de que o perigo ecológico ronda a civilização humana, não o planeta Terra. Até então a dubiedade, elementar, permanecia quase que restrita às salas de aula, afetando principalmente crianças, estimuladas pelo idealismo dos mestres a defenderem o meio ambiente. Nestes dias, porém, pulularam campanhas e matérias jornalísticas dando dicas de como "salvar o planeta". Uma bobagem inigualável.

Os problemas ecológicos afetam, e comprometem, isso, sim, o futuro da humanidade. A pressão sobre os recursos naturais, se continuar aumentando, trará reveses na qualidade da existência humana. Em certas partes do mundo, populações padecem com a falta de água potável, sofrem com a poluição da atmosfera, amargam com a desertificação. O planeta nem liga. Basta uma dose de insignificância humana para perceber a diferença.

Esconde-se, aqui, um lamentável engano. O ambientalismo começou a tratar o gás carbônico (CO²), conhecido na biologia e na agronomia como o "gás da vida", como um vilão planetário, responsável pelo efeito estufa da Terra. Ora, a absorção do CO² através dos estômatos das plantas permite realizar a fotossíntese, processo vital que transforma energia solar em energia química, base dos carboidratos e proteínas vegetais. Libera, ademais, oxigênio no ambiente.

Entrou na moda "neutralizar" as emissões de CO² à busca de um certificado de boa conduta ambiental. Noutro dia, um ônibus circulava nas ruas da capital paulista entupindo a atmosfera com fumaça preta, embora ostentando logo acima do sujo escapamento um lindo dizer: "carbono neutro". Licença para poluir.

A teoria do aquecimento global anda crescentemente contestada pelos cientistas "céticos". Veremos qual o fim dessa polêmica. Em qualquer hipótese, porém, é inaceitável considerar o gás carbônico no capítulo da poluição. Esse absurdo conceitual embaralha a mente das pessoas e alivia a barra dos verdadeiros poluidores. Há quem acredite, por exemplo, ser o arroto bovino mais danoso à atmosfera que o escapamento dos automóveis. Risível.

O caldo das novas formulações está criando uma charada indecifrável. Sem entender direito dos assuntos, as pessoas tendem ao repeteco dos chavões, onde tudo se mistura, se confunde, se banaliza na vontade de, orgulhosamente, ajudar a "salvar o planeta".

Que ninguém duvide: graves ameaças ecológicas afetam a civilização humana. O conflito entre a população, que continua crescendo, e os finitos recursos planetários tende ao colapso. O avanço tecnológico auxilia, constantemente, na superação dos obstáculos. Mas, como diria o caboclo do interior, o buraco é mais embaixo. Em algum momento deverá haver radical modificação no modo de vida.

Por que algumas sociedades tomam decisões desastrosas? A intrigante pergunta faz Jared Diamond nos capítulos finais de Colapso, seu famoso livro. Na resposta, obviamente, se encontram variadas razões. Nem sempre foram capazes de diagnosticar corretamente seus problemas. Muitas vezes seus líderes foram imediatistas, não estadistas, que olham longe.

Jamais, porém, aconteceu de as sociedades pregressas apostarem no atraso para vencer seus desafios. O dilema civilizatório atual somente se resolverá na base do conhecimento aliado ao convencimento, uma mistura de liderança visionária com educação ambiental. A solução passa longe do vandalismo demonstrado pelo MST ao destruir, no último dia da Rio+20, o stand da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA). Atitude fascista.

Pior. Espanta perceber a atração de certo ambientalismo - aquele messiânico - por esse viés autoritário. Urge distância desses (falsos) profetas do apocalipse.

Exemplos regionais - PAULO BORNHAUSEN


O GLOBO - 26/06

A secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton, em uma de suas manifestações na Rio+20, reforça minha convicção de que talvez uma das discussões mais importantes da Conferência não tenha recebido a atenção necessária. Para a sua afirmação de que "precisamos encontrar formas criativas para gerar o desenvolvimento sustentável", tomo a liberdade de afirmar que os estados regionais, ou subnacionais, estão repletos de exemplos nesse sentido, e que esses exemplos foram apresentados na Conferência, no fórum da Rede dos Governos Regionais, organizado com rara competência pela secretária-executiva da Rede, Maruxa Cardama.

Livres das amarras institucionais, diplomáticas, econômicas que dificultaram os países presentes na Rio+20, mais uma vez, a produção de um documento consistente e que realmente respondesse às nossas expectativas e temores em relação do futuro do planeta, estados, regiões e municípios de todas as partes do mundo estão desenvolvendo, já, as "formas criativas para gerar o desenvolvimento sustentável".

O ex-ministro Celso Lafer, presidente da Fapesp e professor emérito da USP, definiu bem as frustrações em relação ao resultado final da Rio+20. Ele constata que "se olharmos as urgências que estão em jogo vamos ver que o documento está aquém das expectativas e das necessidades da humanidade".

O que merece, na minha percepção, atenção de todos é que as necessidades da humanidade são materializadas no ambiente local, no espaço territorial das cidades, dos municípios. E foi isso que pudemos apreciar nas reuniões da Rede dos Governos Regionais, à qual Santa Catarina aderiu, como o quarto estado brasileiro a fazer parte dela - os outros são São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Goiás.

A Declaração do Rio, subscrita por governos subnacionais na Cúpula Mundial de Estados e Regiões, onde estiveram presentes mais de trinta governadores e ministros de regiões subnacionais e Estados Federados do mundo todo, merece, assim, um destaque mais relevante.

Nela, entre outras recomendações, reiteramos o papel crucial dos governos subnacionais na elaboração e aplicação de legislação, políticas e mecanismos que levam ao desenvolvimento sustentável. E pedimos aos organismos internacionais de financiamento que alinhem suas ações com as necessidades das comunidades locais para alcançarem o desenvolvimento sustentável.

Santa Catarina está fazendo sua parte. Apresentamos nosso novo modelo de gestão ambiental, o SC Terra Sustentável, baseado no sistema de Denominação de Origem Sustentável, objetivando o reconhecimento de produtos catarinenses cuja origem seja um território sustentável, conforme padrão adaptado à realidade do território e da cadeia produtiva específica.

E lançamos o Observatório & Transparência para a Sustentabilidade, com o propósito de acompanhar regularmente iniciativas e experiências nacionais e internacionais como referência para melhoria contínua da estratégia ambiental catarinense; dar transparência aos resultados progressivos de implementação da estratégia ambiental de Santa Catarina, tanto para os parceiros quanto para a sociedade em geral; estabelecer canal de participação social, a partir de informações consistentes e fidedignas, para o aperfeiçoamento contínuo de Santa Catarina, Terra Sustentável.

Ainda na Declaração do Rio, reconhecemos a necessidade de continuada troca de experiências e aprendizado com práticas locais de todo o mundo.

Compartilho das frustrações quanto ao resultado final da Conferência, no que concerne a decisões a serem tomadas pelos líderes mundiais. No entanto, com o que foi apresentado na Cúpula Mundial de Estados e Regiões, renovo minha crença de que as metas mundiais de desenvolvimento sustentável têm mais chances de serem alcançadas com a ação dos Estados Federados, das regiões, das cidades e de outras autoridades locais, como firmamos na Declaração do Rio.

Para salvar a Bancoop - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 26/06


Já não sem tempo, o Ministério Público (MP) requereu a intervenção judicial na Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop), com o afastamento do seu presidente e de duas diretoras, além da indisponibilidade dos seus bens até o limite dos valores devidos pela entidade. "Esgotou-se a expectativa de que os administradores observassem seus deveres e regularizassem eventuais desmandos", escreveu a promotora de Justiça do Consumidor Karyna Mori, na petição de 118 páginas.

A rigor, os desmandos não são menos reais do que a relutância da cúpula da cooperativa em ressarcir as vítimas de um escândalo cujas primeiras evidências foram levantadas em 2006. A cooperativa, criada 10 anos antes por um sindicato atrelado ao PT, tungou 3 mil cooperados que acreditaram na promessa fraudulenta de se tornarem proprietários de imóveis pelos quais desembolsariam 40% menos do que os valores de mercado.

Em outubro de 2010, o MP paulista pediu abertura de processo por formação de quadrilha, estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro contra o então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, e cinco outros companheiros. Depois de participar da diretoria da entidade durante oito anos, ele a presidiu de 2005 a fevereiro de 2010. Os incautos cooperados compraram na planta e pagaram as prestações de 1.126 moradias, no valor total de R$ 100 milhões. Ou não receberam os imóveis ou os receberam sem condições de serem ocupados.

Dos 46 empreendimentos oferecidos pela Bancoop, 28 não foram concluídos e 13 nem sequer saíram do papel. Vaccari e seus comparsas foram acusados pelo promotor José Carlos Blat de cavar um rombo de R$ 168 milhões na conta da entidade. "Uma parte foi para o PT", sustenta o promotor. Um único repasse de R$ 200 mil foi identificado. Mas R$ 31 milhões foram sacados na boca do caixa em sucessivas operações. "A quadrilha contava com sofisticada manipulação de dados dos balanços contáveis", registrou Blat.

A sua colega Karyna Mori, por sua vez, destaca no seu documento que a atual diretoria da Bancoop é intimamente ligada aos seus antecessores. O presidente Wagner de Castro, para começar, acumula ainda as presidências dos sindicatos dos bancários do ABC e São Paulo. Ele é filiado ao PT, assim como a diretora técnica Ivone Maria da Silva, também dirigente de organismos sindicais ligados à CUT. Ela doou recursos para a campanha do candidato a deputado federal do ex-diretor do Bancoop Ricardo Berzoini.

A propósito, quando coordenador da campanha de reeleição do presidente Lula, em 2006, Berzoini chamou o ex-diretor do Banco do Estado de Santa Catarina Jorge Lorenzetti para integrar a equipe de inteligência do PT. Tornou-se um dos nove "aloprados" - protagonistas da tentativa de comprar, por R$ 1,7 milhão, um dossiê contra o então candidato tucano ao governo paulista, José Serra. Há dias, a Justiça de Mato Grosso enfim abriu processo contra os envolvidos no escândalo.

O criminalista Alberto Zacharias Toron, defensor de um deles, Hamilton Lacerda, que à época coordenava a campanha do petista Aloizio Mercadante ao Palácio dos Bandeirantes, disse estranhar que a denúncia tenha sido oferecida (e aceita) "em período pré-eleitoral e muito próximo ao julgamento do mensalão". Coincidentemente - ou não -, o advogado da Bancoop, Pedro Serrano, acusa a promotora Karyna de ser movida pelo "desejo inconfessável de levar essa questão para as próximas eleições, dando caráter político à demanda".

Por esse raciocínio, os escândalos da Bancoop, mensalão e aloprados não poderiam ser objeto de procedimentos judiciais em anos de eleição - um em cada dois, no Brasil. No caso da cooperativa, a Justiça deveria ignorar o prosseguimento, segundo a promotora, "das práticas achacantes para cobrir os rombos verificados até o momento". O pedido de intervenção judicial na entidade, conforme deliberação de 2011 do Conselho Superior do Ministério Público, visa a sustar tais práticas, cujo custo recai não sobre a diretoria, mas sobre a entidade, em prejuízo dos cooperados.

O começo do segundo ato - GILLES LAPOUGE


O Estado de S.Paulo - 26/06


A Primavera Árabe do Egito, essa sublevação da rua, essas massas em júbilo que fizeram da Praça Tahrir, em janeiro e fevereiro de 2011, um baluarte da liberdade, encerrou-se, no domingo, com a eleição para presidente de Mohamed Morsi, o candidato da Irmandade Muçulmana (islâmica) que venceu o candidato dos militares, o general da reserva Ahmed Shafiq (que foi primeiro-ministro de Hosni Mubarak).

Tudo isso parece uma ironia da história. No ano passado, as revoltas da Praça Tahrir tinham por objetivo, de um lado, acabar com o controle do Exército sobre o país, de outro, rejeitar o islamismo político. Um ano após o triunfo dos democratas da Praça Tahrir, eis a conclusão: os "democratas" sumiram. E as duas forças contra as quais eles lutavam, duas forças que, aliás, se odeiam, dividem o poder: os islâmicos (Irmandade Muçulmana)levaram a presidência enquanto o Exército, que perdeu a eleição presidencial, assegurou para si o controle sobre o Parlamento e a redação de uma futura Constituição.

Imaginar o futuro próximo nesse teatro de sombras seria uma piada. Mas podemos nos perguntar sobre a relação entre Egito e Israel caso a Irmandade Muçulmana exerça de fato o poder. É o que fazem os israelenses - sem alegria nem otimismo. Não esqueçamos de que o Egito havia assinado, em Camp David, um acordo de paz com Israel em 1979 que vale desde então para o Egito uma ajuda americana de US$ 2,1 bilhões por ano e estabilizou as relações entre o Egito e Israel. Mas, e agora? Com a partida de Mubarak e a Irmandade instalada no Cairo, será que o Egito retomará as hostilidades contra Israel? O presidente Mohamed Morsi foi tranquilizador. Ele respeitará os acordos com Israel. Ótimo. Mas quando ele fala do Estado judeu, refere-se a ele como "entidade sionista". Mau presságio.

Os israelenses viram suas lunetas para um ponto preciso do Oriente Médio: a Faixa de Gaza, que está ocupada pelos membros do Hamas, a ala extremista dos palestinos, ao contrário da Cisjordânia, que é controlada pelos palestinos moderados da Fatah. Não custa lembrar que o Hamas foi fundado em 1987 por membros dessa mesma confraria da Irmandade Muçulmana que hoje acaba de assumir a presidência no Cairo.

De imediato, uma outra nuvem. O Egito vai consagrar todas as suas forças para acalmar a situação interna. Com isso, vai afrouxar a vigilância que exerce sobre o Sinai, essa língua de deserto que lhe pertence, ao sul de Israel.

Desde a Primavera Árabe, esse Sinai já é pouco controlado pelo Exército egípcio. Virou uma terra de ninguém. Tribos beduínas praticam a extorsão e o terrorismo. Segundo Jerusalém, esse desregramento é respaldado justamente pelos grupos islâmicos de Gaza.

Compreende-se, portanto, que as autoridades de Israel tenham acolhido a vitória de um "irmão" no Cairo como uma calamidade. Com uma grande incógnita, de mais a mais: qual será o comportamento dos militares egípcios que não simpatizam com os islâmicos? Sobre esse ponto, nenhuma certeza. Tudo faz pensar que a eleição de um membro da Irmandade à presidência, longe de encerrar o processo democrático, nascido há um ano, ao confiscá-la para benefício dos islâmicos, não nada mais do que o começo do segundo ato de uma peça de teatro cujo desfecho ninguém saberia prever. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK.

Quem tirou Lugo - JANIO DE FREITAS


FOLHA DE SP - 26/06

Um dos seus compromissos eleitorais foi cumprido: não se pôs a serviço dos donos do ilegal Paraguai

A falta de explicação convincente por parte da repentina aliança parlamentar que derrubou Fernando Lugo tem, ela própria, explicação simples. E íntima das relações comerciais verdadeiras entre o Brasil e o Paraguai.

É óbvio que não foi o choque de lavradores e polícia o motivador, em apenas 30 horas, da união repentina dos congressistas paraguaios e da derrubada do presidente.

Polícia e lavradores são indígenas contra indígenas, situação historicamente incapaz de provocar qualquer comoção ou atitude no Congresso do Paraguai.

Fernando Lugo, muito pouco ativo quanto a muitos dos seus compromissos de campanha, cumpriu um deles sem concessão: não criou oportunidades para a corrupção e não fomentou a produção e o comércio ilícitos. Rompeu assim com a tradição das presidências locais e dos apoios parlamentares, sociais e judiciais que lhes permitem existir.

As fábricas de produtos falsificados estão, sem mascaramentos, na própria capital Assunção, como pelo Paraguai todo.

Os nossos carros roubados destinam-se, em grande parte, à receptação permitida e estimulada no Paraguai, onde podem trafegar mesmo com a placa brasileira. Os cigarros e tantos outros produtos brasileiros que chegam ao Paraguai beneficiados, no preço, pelas isenções para exportação, voltam ao Brasil como contrabando e enchem o comércio de rua e inúmeras lojas de nossas cidades.

O pequeno Paraguai é o maior centro conjunto de falsificação e comércio ilegal de produtos. Nos últimos anos, uma inovação constatada: com os produtos que transitam pelo Paraguai e entram no contrabando para o Brasil, muito da produção falsificada no próprio Paraguai traz o registro "made in China".

É incalculável o custo, para o Brasil, do contrabando e da receptação de carros e motos roubados aqui, o que está obrigando à criação de uma nova rede policial-militar de proteção da fronteira.

E ainda há o narcotráfico. A Bolívia e a Colômbia ficam com a culpa toda, mas o Paraguai não é menos fornecedor que ambas, com suas rotas de contrabando, e é provável que já seja o maior canal de entrada de drogas variadas.

O pequeno Paraguai é, proporcionalmente, o maior centro de receptação de roubo, produção de falsificados e contrabando. Com participação importante no narcotráfico.

No país de maioria tão pobre, quem possui e quem controla o sistema imenso dessas atividades ilegais? Quem pode fazê-lo sem preocupação alguma com problemas de ordem legal? E quem são os políticos, os congressistas desse país triste e infeliz?

Um dos seus compromissos com o eleitorado, Fernando Lugo cumpriu-o: não se pôs a serviço dos donos do ilegal Paraguai. À primeira oportunidade, caiu.

CLAUDIO HUMBERTO

“Saio ferido, mas não, derrubado”
Netinho (PCdoB) e seu entusiasmo por apoiar Fernando Haddad (PT) para prefeito

LULA FAZ O PT IGNORAR ALIANÇA COM PTB EM TERESINA

Seguindo a mesma estratégia de outras capitais, o ex-presidente Lula decidiu que o PT vai mandar às favas o prefeito de Teresina, Elmano Férrer (PTB), e lançar o senador petista Wellington Dias à prefeitura da capital do Piauí. Seu vice será o deputado estadual Cícero Magalhães, também do PT. O senador, cuja suplente é a petista Regina Sousa, deverá ser oficializado em nova convenção do PT na quinta-feira.

BATEU, LEVOU

A decisão de Lula pode ser retaliação ao apoio do PTB, no Recife, ao candidato do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB).

CRAVO E FERRADURA

Além do Recife, o PT rompeu com o aliado PSB também na campanha para a Prefeitura de Fortaleza.

NAUFRÁGIO

A fragata Dodswoth, velha e sem manutenção, será de novo passada nos cobres pela Marinha do Brasil. O primeiro comprador já desistiu.

PERGUNTA NO BOTEQUIM

Maluf, que prometeu uma garrafa de Romanée Conti para Lula, entregaria a chave de sua adega para o novo “cumpanhêro”?

ARAPONGAS DA ABIN AGORA ‘INVESTIGAM’ NO GOOGLE

É grande a insatisfação (e o desperdício) na Agência Brasileira de Inteligência (Abin), com agentes ociosos e insatisfeitos com o salário, ainda que 90% do orçamento de R$ 350 milhões se destinem a pagar pessoal, com média salarial de R$ 12 mil. O resto vai para a “investigação”, limitada à pesquisa no buscador de internet Google – a Abin evita a escuta telefônica. Mas gastar no cartão secreto, pode.

MISSÃO IMPOSSÍVEL

O PSDB tenta fazer José Maranhão (PMDB) desistir da Prefeitura de João Pessoa (PB) em favor de Cícero Lucena, o candidato tucano.

LÁ, COMO LÁ

Coincidência curiosa: chama-se Fernando o presidente que foi destituído no Paraguai, e o sobrenome do vice que assumiu é Franco.

GONGADA

Declarada inidônea pela Controladoria-Geral da União, a Delta finalmente perdeu licitação do DNIT-PE, diferente do que ocorreu no Ceará semana passada.

REFORÇO NA CPI

Relator da CPI do Cachoeira, Odair Cunha (PT-MG) pedirá reforço de especialistas ao ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) para analisar dados das quebras de sigilo. Hoje, quinze assessores fazem o serviço.

‘GOLPE’ É LOROTA

No “golpe” paraguaio, não há generais nem tanques nas ruas, não há prisões nem cassações, a liberdade de imprensa está preservada, e até o presidente deposto não foi em cana, nem mesmo para o exílio.

HUMILHAÇÃO

Dilma impôs grande humilhação ao ministro Antonio Patriota (Relações Exteriores) ao convocar o antecessor e atual ministro da Defesa, Celso Amorim, para discutir a destituição do presidente paraguaio. Amigos esperaram que, tomado em brios, Patriota se demitisse. Em vão.

LUGO É ANTIBRASIL

Dilma deveria lembrar que Lugo chegou ao poder atacando o Brasil, acusando-nos até de “roubar” as riquezas do seu país. Esse discurso populista e leviano incitou a hostilidade aos brasiguaios.

SIMPATIA SUECA

O rei e a rainha da Suécia estiveram em Itirapina (SP), no fim de semana, para a homenagem a Fernando Arruda Botelho, falecido há dois meses em acidente de aviação. Ao contrário de muitos brasileiros, a simpática rainha Silvia cantou inteirinho o nosso hino nacional.

FALTA RATIFICAR

O deputado Dr. Rosinha (PT-PR) reconheceu no Twitter a informação da coluna de que o protocolo Ushuaia 2 não foi ratificado pelo Congresso paraguaio, não podendo proteger contra golpes de Estado. E justificou: “O Congresso o rejeitou porque preparava o seu.” Ah, bom.

CAMINHO DAS PEDRAS

O Espaço Cultural STJ promove nesta terça, às 18h30, o lançamento do livro Recursos para os Tribunais Superiores, de Osmar Mendes Paixão Côrtes. O autor é um craque: bacharel e mestre em Direito pela UnB e doutor em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP.

BOBEOU, DANÇOU

Em almoço, sábado, o ex-ministro Nelson Jobim disse que o paraguaio Fernando Lugo deveria ter chamado Antonio Carlos de Almeida Castro para defendê-lo. Não perderia o poder vapt-vupt, em apenas 36 horas.

PENSANDO BEM...

...golpe curioso esse, no Paraguai: só incomoda quem não está lá.



PODER SEM PUDOR

UM JUIZ FALTOSO

Coronel Joça Maranhão era o chefe político de Aliança (PE) e queria remover um juiz da cidade. Procurou o governador, general Cordeiro de Farias, e expôs o seu pedido sem rodeios, ofendendo o coitado do juiz:

– Ele tem todas as faltas: bebe muito, é mulherengo, corrupto, venal, desleixado e preguiçoso.

– Tem todas essas faltas, coronel? – insistiu Farias, impressionado.

– Tem tudo o que é falta, general. De falta mesmo só não tem falta de ar.

TERÇA NOS JORNAIS


- Globo: Bolsa Família já registra benefício de até R$ 1.332
- Folha: Ministro rejeita pressão, e mensalão atrasará no STF
- Estadão: Petrobrás quer novos reajustes da gasolina
- Correio: Conselho de Ética pede cassação de Demóstenes
- Valor: Graça faz diagnóstico severo da Petrobras
- Estado de Minas: A necessidade de cada um
- Jornal do Commercio: Eduardo e Jarbas juntos
- Zero Hora: Atrasos em perícias levam a intervenção no INSS da Capital

segunda-feira, junho 25, 2012

O Lula Malufou! - REVISTA VEJA


Por um minuto e meio no horário eleitoral, Lula se rende a Maluf, o político-símbolo de todas as mazelas que o PT um dia foi contra

Otávio Cabral

Quanto vale um minuto e meio de propaganda elei­toral gratuita na TV? Na semana passada, o ex-presidente Lula deu a sua resposta: vale uma vice-prefeita quase perfeita, um racha no comando da campanha e uma militân­cia aturdida, frustrada e envergonhada - além de uma meia dúzia de bandei­ras, entre as que o seu partido conser­vava de fato e as que só existiam na memória de alguns petistas que passa­ram os últimos dez anos em Marte. Ao posar sorridente ao lado do seu um dia antagonista, contraponto ideológico, encarnação do mal e "filhote da dita­dura", Paulo Salim Maluf, o ex-presi­dente Lula ultrapassou a linha demar­catória que separa a prática de selar alianças promíscuas - também cha­mada de pragmatismo politico - do mais puro cinismo.

Na semana passada, em busca de 1 minuto e 35 segundos de propaganda de televisão para o candidato do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Had­dad, ele entrou" pela primeira vez na ca­sa onde, há 49 anos, mora o seu rival histórico. Ao lado de Haddad, reuniu-se com o ex-prefeito e ex-governador de São Paulo, corrupto procurado pela In­terpol e classificado pelo Banco Mun­dial como um expoente do assalto aos cofres públicos. Depois de comerem uma feijoada, os três fecharam o apoio do PP de Maluf ao PT de Lula e Had­dad. No jardim do ex-governador, tro­caram abraços, apertos de mãos e posa­ram para as fotos que selaram a aliança. As consequências foram imediatas.

Minutos após a divulgação da ima­gem, a deputada e ex-prefeita Luiza Erundina, do PSB, desistiu de ser vice de Haddad. A VEJA.com declarou: "Maluf representa o atraso e a falta de ética. Tudo que eu rejeito na política e que a sociedade também não aceita". Erundina havia entrado na chapa para suprir a falta de Marta Suplicy, que abandonara a campanha insatisfeita com a atuação imperial de Lula. Até a semana passada, Marta era uma voz isolada, mas a aliança com o PP engros­sou o coro dos insatisfeitos. E, dadas as últimas encrencas em que Lula meteu o partido, al­guns deles já põem em dúvida o prover­bial tirocínio potitico do ex-presidente.

Em São Paulo, essa dúvida ajudou a produzir dois núcleos em confronto. O executivo é comandado por dirigentes municipais do PT, como os vereadores Antonio Donato, José Américo e Chico Macena e o deputado Simão Pedro. Já o núcleo político é pilotado por "foras­teiros", como o próprio Lula e Luiz Marinho, de São Bernardo, Edinho Sil­va, de Araraquara, e Emídio de Souza, de Osasco. Os paulistanos consideram que os "forasteiros" não entendem as peculiaridades do eleitorado local e tomam decisões erradas sem consultá-los. Acreditam que a aliança com Ma­luf (batizada Malddad, pela junção dos sobrenomes dos protagonistas) trará muito mais prejuízo eleitoral do que lu­cro à campanha de Haddad.

Apesar das reações, Lula segue de­fendendo sua estratégia. Ele repete co­mo um mantra, desde que escolheu o desconhecido ex-ministro da Educa­ção para disputar a prefeitura da maior cidade do país, que é preciso muito tempo de TV para tornar Haddad co­nhecido e viável eleitoralmente. "Não importa o que falem do Haddad, o que importa é que falem dele", afirmou o ex-presidente a um interlocutor na úl­tima quinta-feira. Foi seguindo essa lógica que ele aceitou a exigência de Maluf de selar o acordo na sua casa – detalhe que, longe de servir apenas para embelezar as fotos, foi esperta­mente providenciado pelo anfitrião para evidenciar a sujeição do petista à sua vontade.

Embora não seja possível medir quantos votos rende um minuto na TV, uma coisa é certa: seu valor é tão maior quanto mais desconhecido for o candi­dato em questão. Por essa equação, Haddad, desconhecido por 60% do eleitorado, precisa desesperadamente de cada segundo. (leia o artigo de Roberto Pompeu de Toledo na pág. 150). Ele não ocupa um cargo que ajude a expô-lo nem tem obras realizadas para propagandear. Na última pesquisa do Datafolha, divulgada na semana passa­da, Haddad cresceu de 3% para 8% ­ainda bem abaixo dos 30% de Serra. João Santana, marqueteiro da campanha, concorda com Lula que o crescimento foi decorrência da exposição de Haddad em programas populares de TV.

Alianças espúrias, ditadas unica­mente pelo desejo de aumentar a expo­sição de um candidato na TV ou de ga­rantir votos no Congresso, não são, evi­dentemente, uma criação petista, como diz a Carta ao Leitor (página 15). Na atual campanha, o PSDB de José Serra também queria o apoio de Maluf, que so acabou ao lado de H"addad porque recebeu o "pagamento à vista" - a Se­cretaria de Saneamento Ambienta do Ministério das Cidades -, enquanto os tucanos fizeram promessas de cargo em um futuro governo. O PP de Maluf foi governo nos oito anos de Fernando Hen­rique Cardoso (o que nunca foi aceito pelo ex-governador Mario Covas) e está ao lado do PT desde o terceiro ano do governo Lula. Mas a união de Lula e Maluf tem peso diferente.

"Juntá-los é como unir o Corin­thians e o Palmeiras em um único ti­me", compara o cientista político Ru­bens Figueiredo. ""As torcidas jamais se entenderiam". O PT nasceu como o partido de resistência ao regime mili­tar, do qual Maluf era um dos princi­pais apoiadores. O PT era o partido dos mutirões e Maluf, das grandes obras. Enquanto os petistas hasteavam a bandeira dos direitos humanos, Ma­luf pregava que "bandido bom é bandi­do morto". Os governos petistas valo­rizam políticas de inclusão de mulhe­res. Já Maluf se notabilizou pelo "estu­pra mas não mata".

É certo que o PT há muito largou no caminho a bandeira da ética, assim como é fato que Maluf, aos 80 anos de idade, incontáveis processos na Justiça e nenhum mandato executivo há dezes­seis anos, perde muito da aura de tuba­rão da corrupção. Está mais para um leão sem dentes. Mas em algum canto da memória coletiva permanecem as imagens um dia associadas a um e ou­tro. E, na foto planejada por Maluf e endossada por Lula, essas imagens produziram uma trombada monumen­tal. O tamanho do estrago que ela cau­sou começará a ser medido em outu­bro, quando se abrirem as urnas.

A Conta Chegou - MAÍLSON DA NÓBREGA

REVISTA VEJA


A virtual estagnação do PIB no primeiro trimestre pode ter sido mais um sinal de que o Brasil iniciou um ciclo de baixo crescimento. Teríamos voltado a ser uma economia de baixa produtividade. Entre 2010 e 2012, perdemos oito posições no índice de Competitividade Mundial, do International Institute for Management Development. Passamos do 38° para o 46° lugar entre 59 países. A perda de dinamismo tem a ver com a crise mundial, mas sua maior razão está aqui.

A produtividade é a chave do crescimento. Nos Estados Unidos, ela explicou 80% da expansão do PIB nos anos anteriores à crise. A produtividade tem a ver com educação, ciência, tecnologia, direitos de propriedade, respeito a contratos, gestão do governo e das empresas, inovação e qualidade da tributação e da infraestrutura. Construir tudo isso leva tempo. Duas das condições básicas para a Revolução Industrial do século XIX nasceram pelo menos dois séculos antes: a Lei de Patentes (1624) e a Revolução Gloriosa (1688). As patentes passaram a ser concedidas apenas para invenções. Foram eliminados privilégios de monopólios garantidos a comerciantes e corporações. A Revolução Gloriosa extinguiu o absolutismo dos reis, atribuiu independência ao Judiciário e definiu direitos de propriedade, criando incentivos para investir e inovar.

Essas mudanças geraram efeitos na produtividade muito depois. No século XVIII, a Inglaterra viveu uma febre de inovações, motivada pela busca de um mecanismo para bombear a água que inundava as minas de carvão. Surgiu daí a famosa patente para a máquina a vapor de James Watt (1769). Ao transformar vapor em energia mecânica, a máquina viabilizou a instalação de fábricas fora da beira dos rios, onde funcionavam as rodas-d"água que movimentavam engrenagens.

Hoje, avanços institucionais levam menos tempo para amadurecer. No Brasil, demorou menos de vinte anos para que o ciclo de reformas iniciado em 1986 e acelerado no governo FHC ampliasse o potencial de crescimento. No período FHC, o crescimento anual do PIB foi de 2,3% ao ano. Ele subiu para 4,1 % no governo Lula. Decompondo-se o desempenho do PIB pela contribuição dos investimentos, do fator trabalho e da produtividade, esta explicou 6.7% da expansão do período FHC e 33,7% do governo Lula. A produtividade respondeu por 88% da diferença de crescimento do PIB entre esses dois períodos de governo.

Para usar uma metáfora agrícola, a produtividade seria a colheita de frutos de plantações anteriores. Sua continuidade depende, todavia, dos cuidados com as árvores existentes e do plantio de novas. Lula começou o seu governo plantando. Promoveu uma série de reformas microeconômicas coordenadas pelo seu primeiro ministro da Fazenda. O ambiente de negócios melhorou e o crédito se expandiu vigorosamente. Nasceu uma promissora fase do financiamento habitacional. A partir de 2005, o ímpeto reformista foi abandonado. O governo passou a surfar sobre as ondas formadas pelas conquistas anteriores e pelo boom das exportações de commodities. O foco se centrou basicamente na demanda. A bem-sucedida ação para estimular o consumo na crise de 2008 parecia dar razão à estratégia.

Um modelo de crescimento baseado no consumo é desejável e funciona quando a oferta cresce de forma compatível com a demanda. Sob o ângulo da oferta, havia mão de obra disponível, mas o capital físico não cresceu o necessário (apesar do foguetório sobre os investimentos do PAC). Na ausência de novos plantios, a produtividade do capital físico e da mão de obra diminuiu. A indústria de transformação passou a ter produtividade negativa. O potencial de crescimento caiu.

A não ser que haja reformas, a economia dificilmente vai crescer mais do que 3%, talvez 4% aqui e ali. A volta ao crescimento dos tempos do governo Lula pode ter ficado para trás. Não dá para “levantar"" o PIB apenas com discursos, reuniões, desonerações tributárias pontuais ou queda forçada dos juros. A conta de anos sem reformas parece ter chegado inapelavelmente. Espera-se que a situação crie incentivos à sua retomada. Mesmo se elas forem realizadas, seus frutos plenos serão colhidos em futuros governos. Como aconteceu com Lula. Seria irônico, não?

Coveiros do Leviatã - ROBERTO ROMANO


REVISTA VEJA


Nossos partidos abusam do eleitor ao mercadejar alianças. Longe de conceitos ou doutrinas, pechincham e barateiam adesões. Não existem diferenças entre eles porque, diriam os petistas juvenis, todos são "farinha do mesmo saco", Weber, Marx, Tocqueville, Bobbio e outros tentaram pensar a política. Hoje ela atinge o impensável.
O estado, desde o seu nascimento, sofre – ameaças de morte. Sempre que os dirigentes abusam do poder, os governados se rebelam. Assim ocorre nos levantes democráticos (séculos XVII na Inglaterra e XVIII nos EUA e na França), quando garantias e direitos são arrancados do maquiavelismo absolutista. No século XX, a divindade mortal sente o cheiro da morte. Num espasmo para garantir sobrevida, ela passa ao totalitarismo, se alimenta dos corpos trucidados na Alemanha, na URSS, no mundo. Com a Guerra Fria, o seu poder atinge o ápice. Nas batalhas pelo controle internacional, o Leviatã extenua as fontes econômicas, culturais, jurídicas, religiosas. Os partidos assumem ideologias para conservar diferentes formas de poder. Comunismo ou republicanismo entram na paleta dos ideários, que reúne cores mistas como o gaullismo na França e o trabalhismo inglês. Existiram formas ideológicas porque o estado ainda administrava a sua crise mortal.
Com o fim da URSS, desaparece a bipolaridade planetária, perdem força os poderes estatais. Crises financeiras, desindustrialização, choques desastrosos no comércio externo, diplomacia sem arte, sociedades à míngua de segurança. A soberania é corroída com maior ou menor efeito. O caso da Europa mostra quanto às lesões podem ser profundas e duradouras. Sem o poder soberano (em campo nacional) ou hegemônico (no internacional), as ideologias perdem sentido.
Como o estado é o terreno da politica, com seu enfraquecimento, somem a causa e a razão de qualquer doutrina. Na crise, o primeiro signo letal é a perda de substância programática nos partidos. Partidos projetam formas de estado e sociedade. Eles oferecem aos eleitores um plano de ordem social e jurídica: liberal, socialista etc. Vencendo as eleições, os dirigentes tentam aplicar o prometido. Se vence o socialismo, dele se espera a preeminência do coletivo sobre os indivíduos. Os vencidos seguem para a legítima oposição. Vitorioso o liberalismo, as políticas seguem outras vias. Na democracia, a derrota ou a vitória nunca expulsam os adversários da cena pública. A alternância do mando prolonga a vida do Leviatã. Caso uma agremiação tenha um programa, mas, para atingir e manter indefinidamente o mando, se alie a setores que pregam o contrário do que ela promete ao eleitor, ocorre o estelionato eleitoral. O programa, depois de escolhido, não pertence mais aos eleitos, mas à maioria que o sufragou. Ao quebrarem a fé pública, os partidos chegam à infâmia e a sua política se limita ao camelódromo dos votos.
Na compra de certo produto, o cliente experimenta suas virtudes ou defeitos. Não se dá o mesmo nas urnas. Como diz um sábio, "o eleitor não conhece antecipadamente o efeito de sua escolha, porque o poder do partido ou candidato ao qual deu o voto depende do maior ou menor número de votos que eles receberam de outros eleitores, sobre os quais ele não exercita isoladamente nenhuma influência". No comércio politico, o poder se conquista com votos. Para adquiri-los e livrar-se das despesas de sua compra, o demagogo "usa o poder conquistado ou adquirido para obter benefícios ( ... ). O poder custa, mas rende. Se custa, deve render. O jogo é arriscado: às vezes, custa mais do que rende, se o candidato não é eleito; mas ele rende mais do que custa" (Norberto Bobbio, "A utopia de cabeça para baixo").
E assim vive a maioria dos partidos. Max Weber diz que a diferença entre a política americana e a europeia reside no fato de que a primeira se caracteriza pela pragmática do mercado eleitoral, sob a batuta de um chefe (o boss) que negocia alianças. Os europeus seriam doutrinários. Descontada a injustiça weberiana para com os americanos, o tipo por ele referido se universaliza na crise de estado. O mercadejo eleitoral tudo vende, tudo troca, tudo compra. O Brasil piora a tendência. Após o regime de força (quando liberais e esquerdistas se uniram para lutar, por meios distintos, contra o arbítrio), a esquerda e os conservadores acentuaram seus ideários e doutrinas. Foi a hora da pureza ética, da guerra pelo monopólio da virtude. Após Sarney e o impedimento de Collor, a social-democracia subiu ao Planalto com FHC. E chegou a vez do socialista Partido dos Trabalhadores. Para garantir a "governabilidade", no entanto, surgem a feira das alianças ("É dando que se recebe"), o mensalão e outros recursos mercadológicos.
Para explicar o vezo dos oligarcas, só Nietzsche: "Eles querem o poder e, antes, muito dinheiro, a alavanca do poder. Todos eles almejam ganhar o trono. Com frequência, é a lama que está sobre o trono, e não raro o trono está plantado na lama" (Zaratustra). Tem razão Nietzsche, basta rever a foto de Lula e Maluf: nela, aparece o lado real da mentira ideológica. Antonio Donato, coordenador da campanha do petista Haddad, explica: "Quem está neste jogo tem de jogar o jogo que existe, e não o do mundo ideal, que não existe". Com defensores desse naipe, o Leviatã será enterrado no Brasil. Diagnóstico da moléstia que o levará à cova? Esclerose mental.

Todo mundo quer propina - WALCYR CARRASCO

REVISTA ÉPOCA

Falamos muito de corrupção na política. Mas o "por fora" corre como sangue nas veias da sociedade brasileira 


Tive uma amiga que foi diretora de uma fábrica de relógios populares. Durante uma pizza, me contou satisfeita:

- Conseguimos uma superencomenda de uma rede de supermercados. Elogiei sua competência. Ela riu.

- E esperteza! Revelou que já conhecia o responsável pelas compras por meio de outra empresa onde trabalhara, na área de vendas.

- Com ele tem jogo. Em um fim do ano, lhe demos um carro. Em outro, uma viagem ao exterior com toda a família. Agora foi só chegar e dizer: vamos fazer um joguinho?

Fiquei pasmado. Sempre trabalhei como jornalista e escritor. Nunca como executivo de uma fábrica. Conversando mais um pouco, descobri que é "normal"que responsaveis pelas compras recebam um "por fora". Não tenho estatísticas. Prefiro acreditar que há um grande número de profissionais honestos, que pensam somente no preço fmal para o consumidor. Mas a corrupção corrói o dia a dia.

Falamos muito de corrupção na política. Escândalos acontecem o tempo todo. Do suborno cotidiano mal se fala. E um "imposto" extra sobre o que pagamos em supermercados,lojas de rede. Direto, quando sugerido pelo funcionário. Indireto, se é estabelecido pelo responsável pelas compras ao escolher os fornecedores. Nesse último caso, seria ingenuidade achar que o valor da propina não afete o bolso do consumidor. Além de conviver com uma carga tributária altíssima, somos obrigados a suportar esse "imposto" extra.

É difícil não conviver com o banditismo entranhado no corpo da sociedade. Eu frequentava um restaurante luxuoso em São Paulo. Entregava o carro ao manobrista e ele me dava um recibo, para pagar com a conta. Nas últimas vezes, pedi:

- Cadê o papelzinho?

- O senhor não precisa - disse o valet.

Claro que, ao sair, dei gorjeta. A situação se repetiu outras vezes. Então caiu minha ficha. O rapaz não me dava o recibo para eu não pagar o estacionamento do restaurante, e ele próprio embolsar a gorjeta. Eu o ajudava a roubar o restaurante! Não voltei mais lá. Que fazer quando for? Discutir para pegar o recibo? É uma situação simples. Mas que demonstra como estamos cercados pela roubalheira.

Certa vez estava em Santos, no litoral paulista. Acompanhei um primo na visita a um amigo de férias na praia. Para minha surpresa, o primo aproveitou para finalizar a encomenda de uma carga de produtos químicos para a empresa onde o amigo era executivo. Acertaram quantidade e preço. Então, na frente da mulher, dos filhos e até de mim mesmo, que nem sequer conhecia, o amigo perguntou:

- E o meu?

Meu primo respondeu tranquilamente.

- Já está na conta: 30%.

Fiquei furioso por ser levado a testemunhar a situação. Mais tarde, reclamei com meu primo. Ele disse:

- Se eu não fizer isso, não vendo nada. Todo mundo quer propma.

A corrupção corre como sangue nas veias da sociedade brasileira. No passado, o ministério e secretarias de Educação de cidades e Estados compravam livros e enviavam a escolas. Isso continua acontecendo. Mas criou-se também um "vale livro". Os responsáveis pelas escolas recebem uma determinada quantia em vales para comprar diretamente os títulos de sua preferência em feiras e salões literários. A ideia não poderia ser melhor, pois descentraliza a escolha. Pelo menos é o que eu achava. O responsável pelos estandes de uma grande livraria me contou que é comum a exigência de um acordo. Quem vai fazer as compras exige um"por fora". Em troca, gasta tudo o que tem numa só livraria ou editora. carro. É o cúmulo, mas não podia deixar de vender, disse. Também quero frisar: a maioria das educadoras não faz isso. Tenho bastante intimidade com feiras e salões literários para garantir. Mas acontece. E a boa intenção da ideia vai para o lixo.

Há tanta corrupção que a gente nem tem mais consciência que é. Já vi cliente dar gorjeta ao açougueiro do supermercado para garantir um filé melhor. Tem quem dê gorjeta ao maître para passar na frente da fila de espera de restaurante. Colunistas sociais espalhados pelo país elogiam quem dá presentes. Alguns médicos da rede pública pedem um extra para operar um necessitado. Tem até uma senha: PE E por aí vai.

Faço um esforço diário para evitar esse mundo onde ter vantagem é tudo. Só vejo uma saída: denunciar os safados a quem de direito. Tolerância zero para a corrupção! Mesmo que o corrupto seja aquele vizinho tão simpático.

O país já cansou de Lulas e Malufs - EDITORIAL REVISTA ÉPOCA

A fotografia de Lula ao lado de Maluf despertou indignação. Ela justapôs o ex-presidente em cujo mandato vicejou o maior escândalo de corrupção da história recente do Brasil ao ex-governador de São Paulo na lista dos procurados por lavagem de dinheiro pela Interpol. Diante de uma imagem dessas, é natural que o brasileiro sinta desânimo diante da política e dos nossos homens públicos. Isso é bom. Revela que nosso país está incomodado com a corrupção.

Os corruptos estão presentes não apenas nos gabinetes de Brasília ou nas antessalas do poder. Eles aparecem em todos os modelos, tamanhos e classes sociais - de gerentes de compras a manobristas; de colunistas sociais a médicos da rede pública. "Há tanta corrupção que a gente nem tem mais consciência que é" escreve Walcyr Carrasco em sua coluna na página 96. "Já vi cliente dar gorjeta ao açougueiro do supermercado para garantir um filé melhor."

Por causa desse traço cultural, os escândalos de corrupção acabam dominando a cobertura política na imprensa brasileira. Tal cobertura é fundamental para o fortalecimento das nossas instituições, uma vez que é preciso conhecer quem são e como agem os corruptos para poder combatê-los. O maior exemplo recente disso resultou na CPI que investiga os braços da organização criminosa montada pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira. Hoje, a CPI se debruça sobre as contas da empreiteira Delta, que irrigava o esquema de Cachoeira com o dinheiro que recebia de contratos públicos. A reportagem da página 36 revela novas suspeitas que comprometem ainda mais a Delta com Cachoeira.

A tolerância com as transgressões é, segundo nosso articulista Roberto DaMatta, um traço cultural do brasileiro (leia seu artigo na página 14). Praticamos, nas palavras dele, "um individualismo que se curva diante das relações, dos parentes e dos amigos". A tolerância tem um lado positivo, pois fez do Brasil um país mais aberto em questões étnicas ou religiosas. Mas ela também cobra seu preço. Na tolerância com os delitos está a raiz da impunidade. Isso precisa mudar."Não dá mais para, com os amigos e partidários, furtar o dinheiro de todos", escreve DaMatta. Espera-se que os parlamentares da CPI do Cachoeira não sucumbam ao lado nefasto da nossa tolerância e sejam rigorosos na apuração dos desvios de dinheiro. O país já cansou de Lulas e Malufs.

Na trilha dos milhões da Delta - REVISTA ÉPOCA

Época identifica no Rio de Janeiro uma rede de empresas sonegadoras de impostos. Uma delas recebeu dinheiro do esquema cachoeira-Delta, seguindo o mesmo padrão adotado pelo grupo no Distrito Federal


Hudson Corrêa, Marcelo Rocha e Murilo Ramos

Desde que descobriu que R$ 40 milhões saíram das contas da construtora Delta, sediada no Rio de Janeiro, para empresas de fachada, a CPI do Cachoeira patina na investigação da lavagem de dinheiro. A apuração pode esbarrar até em caixa dois de campanhas eleitorais, possibilidade que tira o sono de muitos políticos. A Delta tinha contratos milionários com órgãos públicos. Em troca, pode ter desviado recursos do Erário para a corrupção. Enquanto a CPI não sai do lugar, Época descobriu no Rio de Janeiro uma teia que sonegou R$ 300 milhões em Imposto de Renda e contribuições para a Previdência entre os anos de 2000 e 2004. Essa nova rede, até agora desconhecida dos parlamentares, está ligada a uma empresa fantasma já investigada pela CPI. A movimentação ilegal ocorreu dentro do período que a CPI se propôs a apurar: os últimos dez anos.

A peça-chave da rede carioca chama-se Flexafactoring Fomento Mercantil, empresa que recebeu pelo menos R$ 120 mil do esquema Cachoeira-Delta entre 2010 e 2011. Ela poderia passar despercebida no universo de 29 empresas a investigar, não fosse um dos responsáveis por essa empresa acusado de sonegar R$ 300 milhões. Esse personagem, o empresário Mario Cezar de Moraes Godinho, aparece como testemunha de criação da Flexafactoring. Uma das sócias da firma, Tatiana Correia Rodrigues, de 26 anos, mora no Encantado, bairro de classe média baixa no Rio. Está desempregada e com seis meses de aluguel, no valor de R$ 250, atrasados. No papel, consta que ela investiu R$ 60 mil na Flexafactoring.

"Nunca ouvi falar de Godinho. É muito dinheiro para mim", diz Tatiana.

No mesmo Encantado, ficam os endereços dos donos de outra das 29 empresas usadas nas transações financeiras do grupo de Cachoeira, a Zeus Administração e Assessoria, que recebeu uma quantia ainda maior do esquema: R$ 176 mil.

O empresário Mario Godinho é um mistério. Tem 76 anos e aparece como sócio de oito empreendimentos que também devem ao Fisco. A Procuradoria da Fazenda Nacional e o Ministério Público Federal moveram processos contra ele e quatro empresas suas acusadas da sonegação milionária. Nas outras quatro empresas das quais Godinho é sócio, o golpe no Fisco ainda é desconhecido. O paradeiro de Godinho é uma incógnita. A Justiça resolveu intimá-lo por edital publicado na imprensa. No encalço de Godinho, oficiais de justiça já fizeram uma peregrinação ao Encantado e a Ipanema, na zona Sul carioca, onde também havia um endereço ligado ao nome de Godinho. O único bem encontrado em seu nome foi um Fiat Uno, ano 1994, com uma multa de trânsito vencida por estacionar na calçada.

As outras quatro empresas de Godinho com dívidas milionárias foram localizadas. Em 2000, ele abriu a PL Administração e a Assessoria financeira Iups, ambas em parceria com o sobrinho Marlos André, cujo paradeiro também é desconhecido. As duas empresas, abertas para movimentar dinheiro e operar cartões de débito, sonegaram R$ 216 milhões, segundo a Procuradoria da fazenda. Pelo cadastro da receita federal, elas têm o mesmo endereço no encantado. No local, há um sobrado de três andares à venda, e ninguém diz conhecer Godinho. Em julho de 2001, ele transferiu a empresa lups para o nome de dois laranjas: Carlos Alberto Siqueira e Tânia Germano Siqueira. Tânia mora numa vila de casas de classe média baixa a poucos metros de onde deveria estar a sede da empresa. Carlos Alberto tem endereço na Penha, mas também não foi localizado. Procurada por Época, Tânia, de 54 anos, disse desconhecer sua participação em qualquer sociedade. Também para o nome dela, Godinho transferiu em abril de 2002 a MG Administração, da qual a Fazenda Nacional cobra uma fatura de R$ 60 milhões. O Ministério Público Federal move uma ação penal contra Godinho, seu sobrinho Marlos André e as laranjas Tânia e Carlos Alberto, suspeitos de crime contra a ordem tributária, com pena de dois a cinco anos de prisão.

No coração do esquema Cachoeira, o Centro-Oeste, o padrão de circulação de grandes somas de dinheiro se repete. A comerciante Roseli Pantoja da Silva, de 33 anos, é uma das sócias da Alberto e Pantoja Construções e Terraplenagem Ltda. A empresa é a principal das criadas e usadas pela turma do bicheiro Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, para escoar dinheiro recebido pela Delta - grande parte vinda de contratos com o governo federal. A Alberto e Pantoja foi usada para desviar cerca de R$ 30 milhões recebidos pela Delta. A Polícia Federal suspeita de que Roseli tenha sacado o equivalente a R$ 5,2 milhões desse montante em 66 operações. Na busca por informações, a PF investiga outra identidade de Roseli, Rosely Pantoja da Silva, com "y". A empresária laranja tem ainda dois CPFs diferentes. Há três meses, a Delta é questionada sobre que serviços a Alberto e Pantoja prestou para merecer tanto dinheiro. A Delta não responde. Procurado por Época, o ex-diretor para o Centro-Oeste Cláudio Abreu informou que não comentaria as ações de Roseli.

A Alberto e Pantoja foi registrada em fevereiro de 2010 na Junta Comercial do Distrito Federal com documentos fraudados. Segundo Geovane Martins, tabelião do cartório de Gama, cidade próxima a Brasília, a cópia do contrato de constituição da Alberto e Pantoja apresenta sinais evidentes de falsificação. Os carimbos usados não seguem o padrão do cartório, e a assinatura do escrevente responsável não coincide com a original. O ato de constituição da empresa apresenta as assinaturas de duas testemunhas. São dois irmãos donos de um escritório de contabilidade. Diante da reportagem de Época, um deles exibiu documentos e assinou para mostrar que sua letra era diferente da registrada nos documentos da Alberto e Pantoja. Mesmo com tantas inconsistências, a turma de Cachoeira levou a papelada até a Junta Comercial do DF e saiu de lá com o registro da Alberto e Pantoja. O grupo ainda se valeu de uma carteira de identidade falsa de Roseli. Para completar, no endereço da Alberto e Pantoja informado à Junta Comercial funciona uma oficina mecânica.

O contador Gilmar Carvalho Moraes é ex-marido de Roseli e responsável, segundo documentos em poder da CPI, pela declaração de Imposto de Renda da Alberto e Pantoja relativa a 2010. Naquele ano, a empresa recebeu R$18 milhões da Delta e distribuiu os mesmos R$ 18 milhões. Moraes afirma que seu nome e o de Roseli foram usados por falsários para abrir a empresa. Segundo ele, Roseli mora em São Paulo e tira seu sustento de vendas ocasionais. "A gente não tem nada a ver com Cachoeira", diz. Moraes afirma que Roseli e ele não tiraram proveito das movimentações financeiras. "Estamos na pior." Ao que parece, todos estão. Até mesmo Fernando Cavendish, que alegou estar perto da falência. Ninguém admite ter visto a cor dos milhões distribuídos pela Delta. Não há dúvidas de que eles existem. Falta encontrar seu destino final.

O fiasco do Lula+90 - RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA 

O que se faz por 90 segundos na televisão? Chamam de propaganda gratuita, mas já saiu caro o minuto e meio que Lula ganhou na telinha, em sua luta pragmática pelo poder em São Paulo. O preço alto nada tem a ver com a aliança explícita entre o PT e o PP, mas com a figura do aliado. Haddad o Novo apareceu com sua carinha de lebre entre duas raposas, Lula e Maluf. Saiu amassado da história.

Conta assim Esopo: uma lebre encontrou com a raposa da qual só conhecia a fama. Perguntou: "Na verdade ganhas mesmo muitas coisas ou tu as tens porque teu nome é raposa?". Responde esta: "Para tirar as dúvidas vem à minha casa onde vou servir um almoço". Quando entrou na toca da raposa, verificou tarde demais que ela, lebre, era o almoço! A própria lebre conclui: "Na minha desgraça, finalmente descobri que a fama da raposa não vem do mérito, mas da astúcia".

Como na fábula, assim se deu o encontro, cuja foto não aparece no site do Instituto Lula, mas será explorada por adversários na campanha pela prefeitura em São Paulo. Maluf, "símbolo da pouca-vergonha nacional" segundo o Lula barbudo de 1984, condicionou a aliança a uma feijoada com refrigerantes e pudim em sua casa, com direito a foto nos jardins (leia mais na reportagem da página 42).

Em 1993, Maluf comparou Lula a uma "ave de rapina que não trabalha há 15 anos e não explica como vive".

Mas, "por amor a São Paulo", decidiu lular e passou a mão na cabeça de Haddad o Novo para que todos os fotógrafos registrassem o gesto do padrinho. Levantou o dedo polegar e sorriu seu sorriso de raposa procurada pela Interpol.

Quem comeu quem afinal? Quem vai rir por último? A indigestão tirou de cena a vice socialista Erundina, que achou "abominável" o encontro com o inimigo. Maluf destruiu o slogan criado por João Santana para Haddad: "Um homem novo para um tempo novo". Lembrei-me de O bebê de Rosemary, de Roman Polanski. Não parece?

A operação abafa foi intensa. O ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, afirmou que houve apenas "uma troca de cargos" no acordo com o PP de Maluf. "Não houve dinheiro", disse Carvalho.Ah,bom. O esclarecimento se faz necessário diante do personagem.

O verbo malufar, associado a roubar, ultrapassou fronteiras e ganhou o mundo. "De tanto malufar, os Maluf foram presos", escreveu o jornal Le Monde em 2005, quando o ex-prefeito e seu filho foram detidos pela Polícia Federal. Segundo a PF, coagiram uma testemunha que os acusou de chefiar empresas offshores e contas bancárias em seis países.

O apoio de Maluf era disputado tanto pelo PSDB de Serra quanto pelo PT de Haddad até uma semana atrás. Ambos os candidatos queriam mais "inserções" na TV. Que se lixassem os princípios, as siglas, as histórias dos partidos, os programas de governo. Serra já tinha como aliado o PR, maior parceiro do governo Lula no escândalo do mensalão. Uma promiscuidade de fazer inveja ao Bataclan da Ilhéus de Nacib e Gabriela.

Lula prometeu a Maluf mais do que Serra. Prometeu um cargo no Ministério das Cidades. Lula malufou porque, nas palavras serenas do sociólogo petista Emir Sader, citado no jornal Folha de S.Paulo, "o fundamental é derrotar a tucanalha". É vergonhoso que, mesmo fora da Presidência e convalescendo de um câncer agressivo, Lula continue a rasgar todas as bandeiras éticas de um partido que chegou a ser visto como a esperança para renovar a política no Brasil.

Os mais calejados perguntam. Por que a surpresa? Ao lado de Sarney, Collor, Jader e Renan, ou abraçado ao iraniano Mahmoud Ahmadinejad, Lula reescreveu sua história em oito anos de governo. Confessou-se metamorfose ambulante. É viciado na falta de regras do jogo político brasileiro.

Seria interessante saber como Dilma engole os afagos entre Lula e Maluf - o homem que, quando governava São Paulo em 1979, a poucos dias da Lei da Anistia, formalizou a instalação do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações) num terreno do governo de São Paulo. "As marcas da tortura sou eu", disse Dilma. "Me deram um soco e o dente deslocou-se e apodreceu." O novo amigo de Lula é um soco no estômago de petistas históricos. Mais um.

Maluf diz que Lula não impôs restrição a que ele apareça na propaganda de TV: "O tempo é meu e sou proibido de aparecer?" Faz sentido. Haddad já chama malufistas de "companheiros". E assim o PT faz mesuras e ouve calado as lições de Maluf: "Não tem mais no mundo esquerda e direita. O que tem hoje é "efficacité" (eficácia em francês)". Argh.

Se a Rio+20 pecou por falta de ambição, o Lula+90 peca por excesso. A foto já histórica dessa aliança simboliza a política do ferro-velho. Ela polui e contamina mais o ambiente no Brasil do que muitos esgotos a céu aberto. Saneamento já.