domingo, fevereiro 26, 2012

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 26/02/12
Banco do Brasil faz primeira grande campanha publicitária no exterior
De olho na internacionalização _ a sua, a de clientes e a da concorrência _ o Banco do Brasil lança hoje, pela primeira vez, uma grande campanha de comunicação no exterior. O banco está presente em 23 países.

A campanha, cujo valor o banco afirma não informar por questões contratuais, pretende mostrar que o banco pode ser o principal elo para negócios com investidores de todo o mundo, segundo afirma o vice-presidente Paulo Roberto Caffarelli.

"O BB precisa ser um banco global para estar perto dos clientes. Muitos têm representação fora do Brasil", diz. "Além de apoiar a internacionalização das empresas, queremos atender os brasileiros que vivem no exterior."

Uma terceira razão para se internacionalizar é a necessidade de ganhar escala.

"Além de concorrentes brasileiros, estrangeiros vêm cada vez mais para o Brasil. Precisamos de escala para ter preços competitivos."

Os principais mercados fora são América Latina, Estados Unidos, Ásia e África.

Até 2015, o banco espera ter 20 agências espalhadas pelos EUA, onde comprou em 2011 o EuroBank, que passará a se chamar Banco do Brasil das Américas.

"Estamos transformando o escritório de Xangai em agência e abrimos a BB Securities Ásia, em Cingapura." Na África, onde a parceria com o Bradesco e o português Banco Espírito Santo, foi suspensa, o BB mantém os planos de atuação. "Mas o BES não é mais a única opção."

Números
23
é o número de países onde o Banco do Brasil está presente

EuroBank,
dos EUA, foi a última instituição adquirida no exterior; o negócio foi fechado em abril do ano passado

20
agências nos EUA até 2015 é o objetivo do banco

60
novas agências na Argentina é a projeção para 2015

O que estou lendo
Franco Bernabè, presidente da Telecom Italia
O italiano Franco Bernabè, presidente da Telecom Italia, que detém a TIM no Brasil, encerrou a leitura de "Outliers: The story of success", de Malcolm Gladwell.

Publicado no Brasil pela ed. Sextante, "Fora de Série - Outliers" tenta responder o que os empreendedores bem sucedidos têm de diferente.

De acordo com o escritor inglês Gladwell, a cultura, a família, a geração e a educação da pessoa influenciam em seu sucesso.

"É um livro que realmente recomendo", diz Bernabè, que vive em Roma.

Riscos políticos reorientam investimentos no mundo em 2012

As turbulências políticas recentes tiveram forte influência sobre as operações de multinacionais e sobre a orientação de destinos para investimentos pelo mundo nos último ano.

Países como Mianmar, Afeganistão e Iêmen subiram no ranking que considera critérios como fragilidade dos Estados, crime organizado arraigado, falha de resolução de conflitos diplomáticos, corrupção, terrorismo, comércio ilícito e outros.

A Somália permanece no topo entre os 20 de maior risco. Cenários de recentes violações de direitos humanos, Síria e Líbia também estão no grupo, segundo Donnie DiCarlo, executivo da Marsh, que analisou o trabalho.

"Mas há países, como a Arábia Saudita, que hoje têm risco médio, e estão caminhando na direção correta, com tentativas de aberturas, especialmente em relação às mulheres", afirma.

O Brasil também parece se mover para a redução de riscos. "Há questões ligadas a corrupção, mas esse é um problema difícil de eliminar e o país está trabalhando para combater", diz DiCarlo.

O Brasil está bem entre os vizinhos, segundo Eugenio Paschoal, presidente da unidade brasileira da Marsh.

"O país possui atualmente uma alta capacidade de absorver choques e um ambiente econômico favorável. Isso dá uma visão aos investidores para que se posicionem", afirma Paschoal.

Apesar das turbulências geopolíticas em diversas economias, muitos países apresentaram maiores oportunidades de expansão para multinacionais, devido a melhorias em seus ambientes regulatórios e legais, de acordo com o estudo.

Países de risco médio, como Brasil, Peru e México, estão entre as economias com ambientes mais favoráveis ao investimento empresarial, segundo os critérios.

Mãe bancária
A campanha internacional do BB terá Gisele Bündchen e o mote "Banco do Brasil. Do Brasil para o mundo. Do mundo para o Brasil". A mãe da modelo é aposentada do banco, onde trabalhou por 35 anos, como escriturária em agências do Sul do país.

Pano
As vendas de tecidos na primeira quinzena de fevereiro foram 2% inferiores às do mesmo período de 2011, segundo o sindicato do comércio atacadista do setor de SP.

GOSTOSA


Dois caminhos - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 26/02/12
Dois fantasmas estiveram presentes na história da América do Sul do século XX: o autoritarismo e a inflação. Em alguns momentos, chegaram juntos. Às vezes, o autoritarismo se vestiu com o discurso modernizante e benemérito. Perón fez isso na Argentina com os "descamisados", Getúlio fez isso com a legislação trabalhista. Em alguns vizinhos os fantasmas voltam a rondar recentemente.

Traços desse caudilhismo benemérito estão na Venezuela de Hugo Chávez. Ele implantou políticas públicas importantes num país que tem uma alta taxa de pobreza e miséria. Surgiu e se fortaleceu nas falhas do sistema político tradicional, que em décadas no poder - no revezamento entre Copei e Ação Democrática - mantinha a mesma oligarquia e a mesma exclusão no país.

O problema de Chávez, demonstrado nesses 13 anos no poder, é o uso da democracia contra a democracia. Ele ameaçou e encurralou a imprensa, mudou regras eleitorais para se beneficiar, fez eleições que lhe deram maioria e usou as maiorias para mudar a Constituição em seu favor. A oposição perdeu-se em seus erros. Para e eleição deste ano, ela se uniu em torno de Henrique Capriles, governador de Miranda, e pela primeira vez em muito tempo parece competitiva.

Ao mesmo tempo, a economia sente o peso dos gastos sem lastro do governo Chávez, da hostilidade aos investidores locais e estrangeiros e da instabilidade normativa do governo. Os supermercados enfrentam crônico desabastecimento e a inflação está entre 25% e 30% ao ano há muito tempo. Isso faz com que o dinheiro dado ao pobre perca valor mais rapidamente. O país cresceu 4,5% no ano passado, mas depois de dois anos de recessão.

É nesse contexto que surge um fator que aumenta o grau de incerteza do país, o câncer de Chávez, que está agora enfrentando sua segunda cirurgia. Como ele manteve o poder espalhando o conflito na sociedade, a Venezuela enfrentará nos próximos anos tempos instáveis, qualquer que seja a evolução dos acontecimentos.

A Argentina dos Kirchner vive um quadro parecido em alguns pontos. Cristina iniciou com força seu segundo mandato e aproveitou o bônus eleitoral para aprovar lei que encurrala a imprensa: por um lado, a censura; por outro, o controle da matéria-prima dos jornais, o papel. O governo argentino não fez tantas barbaridades constitucionais quanto Chávez, mas está desorganizando a economia.

A inflação está alta e o governo decidiu brigar com os índices. Os números subversivos sofrem perseguição. O governo fabrica os seus no Indec (o IBGE argentino) e multa o instituto privado que divulgar seus dados. Garante que a inflação está em 9%, mas seus próprios companheiros da CGT pedem 25% nas negociações trabalhistas alegando que querem a reposição da inflação. Em quatro anos, ela acumula 137%. A revista "Economist" decidiu que não vai mais publicar índices oficiais da Argentina entre os mais de mil dados de todos os países que publica semanalmente. A revista, num artigo com o título "Não minta para mim, Argentina", avisa que passará a usar o índice feito nos Estados Unidos por internet, que testado no Brasil e na Venezuela conseguem se aproximar muito dos índices oficiais. O que leva um país que enfrentou 200% de inflação ao mês a brincar com um inimigo desses?

No Equador, o presidente Rafael Correa decidiu seguir um roteiro inspirado em Hugo Chávez. Foi para a Justiça contra um jornal e um editorialista, pedindo uma indenização milionária e a prisão dos donos do "El Universo" e do autor do texto. O artigo foi republicado em oito jornais do Grupo de Diários América, inclusive no GLOBO, na sexta-feira. Saiu em 55 jornais da Colômbia.

No artigo, Correa é criticado e chamado de ditador pela maneira como conduziu um caso de protesto policial. Mais do que o fato em si é a maneira de enfrentar a crítica. Primeiro, ele mudou a Suprema Corte e trocou seus integrantes. Depois, submeteu seu processo contra o jornal e o jornalista. E o que aconteceu? Bingo! Ele ganhou a causa. O jornalista Emílio Palácio está pedindo asilo, os donos do jornal "El Universo" também estão fora do país, e o jornal está ameaçado por uma dívida que é maior do que o seu patrimônio. O presidente vem dando sinais de que pode "perdoar" os donos do jornal e o ex-editorialista da pena de prisão.

Os governantes na América do Sul que chegaram ao poder pelas eleições e com programas de combate à pobreza atendem a velhas demandas da sociedade, que quer ser democrática e menos desigual. Lamentável que alguns tenham preferido o caminho de minar pilares da democracia, perseguir adversários, ameaçar a imprensa, intervir no Judiciário e manipular eleições subsequentes para permanecer no poder.

O caudilhismo benemérito já vivemos. Alguns deixaram suas ambiguidades a confundir historiadores. Getúlio foi ditador e governante eleito. Representou a seu tempo o progresso social e trabalhista mas comandou uma polícia política violenta, instaurou a censura do DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda, e impôs uma Constituição.

Temos aqui exemplos demais para mostrar que o caminho é democracia com estabilidade econômica.

Trator - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 26/02/12


COM FERNANDA KRAKOVICS 

O governo pressiona a Câmara para agilizar a votação do projeto que redistribui os royalties do petróleo. Alega que, enquanto a proposta não for aprovada, não pode fazer os leilões para exploração do pré-sal. Depois da votação, o passo seguinte é constituir a empresa Pré-Sal Petróleo S.A, cuja criação já foi aprovada. A estatal vai coordenar a exploração do petróleo do pré-sal.

Rio quer ganhar tempo
A ideia do governo é aprovar requerimento de urgência para levar o projeto de redistribuição dos royalties direto para o plenário, sem passar pela comissão especial. Os estados produtores resistem. Para Rio e Espírito Santo, a estratégia é tentar adiar a votação o máximo possível. O PT reivindica a relatoria do projeto. Lideranças petistas argumentam que seria desconfortável para o PMDB ter o relator, já que ele seria pressionado pelo principal governador do partido, Sérgio Cabral (RJ). Os estados não produtores e a Confederação Nacional dos Municípios farão manifestação, dia 14, para pressionar pela votação.

Temos interesse que essa situação se resolva logo, e bem” — Edison Lobão, ministro de Minas e Energia, sobre o projeto de redistribuição dos royalties

CAMPANHA. 
Em discurso amanhã na 19ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, a ministra Maria do Rosário, na foto, vai lançar a candidatura do Brasil para membro da entidade. Ela aproveitará ainda a passagem por Genebra para trabalhar pela candidatura de Wanderlino Nogueira Neto, para o Comitê dos Direitos da Criança das Nações Unidas, e de Roberto Caldas, para a Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Holofote
Com o STF completo, a ideia do tribunal é enfrentar um tema polêmico por semana. Depois da decisão sobre a Ficha Limpa, há na pauta temas como o aborto de fetos anencéfalos. Mas nada supera o mensalão, previsto para maio.

“AI-5 da Copa”
A CUT tenta implodir projeto do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) para “incrementar” a segurança da Copa. Na proposta, chamada pela central sindical de “AI-5 da Copa”, há um capítulo limitando o exercício do direito de greve três meses antes do início desses torneios até o seu final, nas cidades-sede. As regras especiais valeriam para categorias como operadores de transporte coletivo, hotelaria e construção civil.

Por cima
O ex-presidente Lula pressiona o presidente do PSB, governador Eduardo Campos (PE), a apoiar a candidatura de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo. O diretório regional do partido prefere ir com José Serra (PSDB).

PRAZO. 
Relator do pedido do PSD para ter acesso ao fundo partidário já neste ano, o ministro Marcelo Ribeiro deixa o TSE no dia 30 de abril.

SINAL AMARELO. 
O PSDB está preocupado com a eleição de Porto Alegre. O problema não é nem ir para o segundo turno, é ficar na lanterna, longe dos três primeiros colocados. Até o momento, o nome do partido é o deputado Nelson Marquezan Júnior.
A MINISTRA Ideli Salvatti (Relações Institucionais) já se colocou à disposição do PT para fazer campanha, durante os finais de semana, para os candidatos do partido nas eleições municipais.

Sem refresco
Integrantes do governo dizem que o ministro Alexandre Padilha (Saúde) é o mais cobrado pela presidente Dilma. E não adianta ele dizer que muitas ações dependem de estados e municípios, porque Dilma não quer nem saber.

Recuo
O PSD ainda não entrou no Supremo Tribunal Federal, questionando a decisão da Câmara de negar ao partido direito de ter participação proporcional ao seu tamanho nas comissões, porque ainda aposta em uma saída negociada.

Trocas e truques - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 26/02/12


Senador não é eleito para legislar? Por que então o presidente da República o convida para ministro?

Pouca gente há de se lembrar de um personagem que, antigamente, habitava o livro de leitura no colégio e que se chamava João Pergunta. E, se assim se chamava, era porque vivia a perguntar sobre tudo o que via ou ouvia. Às vezes penso que sou um pouco como ele, já que estou sempre a questionar o que acontece em meu redor. E particularmente no campo político, uma vez que é ali que muita coisa de nossa vida se decide.

Como não sou especialista no assunto, posso às vezes formular perguntas tolas, cuja resposta todo mundo já sabe, menos eu. Mesmo assim, insisto, porque, se não o entendo, não fico quieto.

Uma dessas coisas é a insistência com que ultimamente se nomeiam parlamentares para a função de ministro. Sei muito bem que isso não é de agora, mas sei também que nunca se tornou tão frequente. Alguma razão deve haver, porque político não prega prego sem estopa. E tanto mais pelas implicações decorrentes disso.

Pense comigo: deputado, senador não é eleito para legislar? Por que então o presidente da República os convida para ministro? Desconfio haver algo de errado nisso.

Ou será que não? Vamos examinar: o Estado brasileiro é composto de três poderes que, para o bom funcionamento do regime democrático, são independentes uns dos outros. Se não me engano, o Congresso tem como uma de suas funções fiscalizar o Executivo, impedindo assim que o presidente da República desobedeça o que o Parlamento decidiu e a legislação prevê. Logo, a relação entre esses dois poderes, se deve ser harmoniosa, deve também preservar-lhes a autonomia.

Será que essa autonomia se mantém quando o presidente da República coopta deputados e senadores para compor seu ministério?

Estará, no mínimo, comprometida, uma vez que o ministro é um auxiliar subalterno do presidente da República, a quem deve obedecer. E então a coisa fica assim: elegemos o cara para a função de legislador -o que significa representar-nos na elaboração das leis, na defesa de nossos direitos de cidadão, e ele passar a servir ao poder. Não só não cumpre com a função para a qual o elegemos como passa a servir ao poder que deve ser fiscalizado por ele. Há algo de errado nisso ou sou eu que estou vendo chifre em cabeça de cavalo?

Não estou não, mesmo porque a coisa não fica aí. Na verdade, o presidente não o nomeia ministro por sua competência técnica, e sim por sua importância dentro do respectivo partido. Ou seja, ao fazê-lo, o presidente coopta não apenas o escolhido mas também o partido a que ele pertence. Disso resulta que, se por um lado, a relação autônoma entre os dois poderes se rompe, por outro lado e por isso mesmo, o ministério passa a ser um feudo do partido, que o usa conforme seus interesses político-eleitorais.

E como isso implica o desvio do dinheiro público para os cofres do partido, essa operação fraudulenta, para se efetuar, leva inevitavelmente ao envolvimento de outros personagens e instituições fajutas, como se viu recentemente nos escândalos de vários ministérios.

Mas a coisa não para aí. Como causa primeira de tudo isso, no caso do governo Lula, por exemplo, havia um projeto de poder pouco democrático, que está na origem mesma do PT. Como seu propósito era (e é) manter-se no poder indefinidamente, Lula evitou, em seu primeiro governo, aliar-se ao PMDB, que exigiria dele a partilha dos ministérios.

Como se sabe, está aí a origem do mensalão, que consistia em comprar com dinheiro os pequenos partidos, em vez de lhes dar cargos importantes no governo. Devido ao escândalo que resultou disso, Lula mudou de tática e passou a comprar os partidos de outro modo, oferecendo-lhes ministérios. Era o passo que faltava para que o governo petista se convertesse nessa espécie de neopopulismo, que rege hoje o país.

Essa cooptação de políticos visando a manutenção do poder teve como resultado um fenômeno até então inédito na vida política brasileira: a demissão, em apenas um ano, de sete ministros implicados em corrupção. O último deles entregou o cargo outro dia, e seu substituto -do mesmo partido, claro- também responde a processos na Justiça. Como se vê, ficha limpa, entre essa gente, é raridade.

Dnit, fruto do modelo petista - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 26/02/12


O impressionante retrato da falência estrutural e administrativa do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) apresentado pelo Estado (19/1), em reportagem de Fábio Fabrini, é também um retrato da incapacidade do governo do PT de avaliar a gravidade dos problemas e, quando consegue fazer isso, de sua incompetência para solucioná-los. Dos dez anos de existência do Dnit, em nove o governo federal esteve sob o comando do PT, que deixou a autarquia na situação em que se encontra.

"O que fazem com ele (Dnit) é uma covardia", diz seu diretor executivo, Tarcísio Gomes de Freitas, um auditor da Controladoria-Geral da União (CGU) colocado no cargo pela presidente Dilma Rousseff depois da limpeza na direção do órgão, com a demissão de envolvidos em denúncias de pagamento de propinas. A primeira providência de Freitas no exercício do cargo foi estudar a situação da autarquia e sua conclusão revela o descaso com que o Dnit tem sido dirigido. O órgão não tem condições estruturais de executar as funções para as quais foi criado.

Não é uma repartição pública qualquer. Trata-se do órgão responsável por alguns dos maiores investimentos federais, especialmente nas obras inscritas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e pela operação, administração, manutenção, ampliação e gestão da infraestrutura de transporte rodoviário, ferroviário e aquaviário.

Há alguns meses, o Dnit anunciou que, até o fim de 2016, executará um programa de melhorias em 57% da malha rodoviária federal sob sua responsabilidade, ao custo de R$ 16 bilhões. Ou seja, de 55,6 mil quilômetros de rodovias pavimentadas sob administração da autarquia, 32 mil receberão melhorias.

As conclusões a que chegou seu diretor executivo deixam sérias dúvidas quanto à execução dessas obras no prazo anunciado. "O Dnit não tem condições de tocar o PAC", disse Freitas ao Estado. Suas deficiências atrasam obras, retêm pagamentos (levam "incríveis 300 dias", depois de feita a medição de um serviço, para efetivar o pagamento devido) e favorecem desvios.

Seu quadro de pessoal é formado por 2.695 servidores de carreira, menor do que o do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de São Paulo, de 3,8 mil, segundo Freitas. Tão grave quanto a escassez de funcionários - seriam necessários 6.861 para administrar a execução dos 1.196 contratos na área de infraestrutura de transportes, a maioria integrante do PAC - é o despreparo do pessoal.

O Dnit tem 126 porteiros e apenas 9 contadores para examinar os milhares de contratos e sua execução; 94 motoristas e só 7 auditores de controle interno. Explica-se, assim, por que existem mais de 500 relatórios de prestação de contas aguardando exame pelo órgão. O Dnit tem 131 datilógrafos, para desempenhar uma tarefa que não existe mais, mas só 10 técnicos de estrada e nenhum topógrafo.

"Como é que eu vou ter um bom ambiente de controle num órgão que gere R$ 15 bilhões e tem uma auditoria interna com 7 auditores?", queixa-se o diretor. Para suprir a escassez de quadros, o Dnit tem contratado funcionários terceirizados de maneira irregular, pois muitos desempenham funções em áreas ligadas à finalidade do órgão e que deveriam ser exercidas por servidores concursados.

A situação tende a piorar. Mais da metade do pessoal tem mais de 51 anos de idade e 43% do total dos atuais funcionários se aposentarão até 2015. Essa tendência é conhecida há muitos anos. O antigo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, do qual o Dnit herdou muitas atribuições e servidores, chegou a ter um quadro de cerca de 25 mil funcionários na década de 1980. A redução desse número, desde então, nem sempre foi ruim para o serviço público, dados o notório inchaço do órgão e as frequentes denúncias de casos de corrupção ali verificados.

A rapidez com que se reduziu seu quadro, porém, criou problemas sérios para o órgão que lhe sucedeu. Mas nada foi feito para ordenar esse processo nocivo para o desempenho e a eficiência do Dnit. Apesar da gravidade da situação, aparentemente o governo do PT continua sem entendê-la. Não há nenhuma previsão para novas contratações.

Tempos de diálogo e pragmatismo - GAUDÊNCIO TORQUATO


O Estado de S.Paulo - 26/02/12


A campanha municipal deste ano poderá ser considerada como o coroamento do ciclo da redemocratização iniciado na década de 1980. O conceito do momento é o de contemporização, usado pelos partidos para fazer convergir pontos de vista, integrar escopos ideológicos, principalmente os alinhados à social-democracia. Várias siglas compartilham hoje o espaço por ela habitado. O sopro contemporizador implica também formação de alianças a torto e a direito, sem vetos de uns a cores partidárias de outros, na esteira de um pragmatismo inusitado, focado no alargamento dos espaços de poder.

A mais expressiva sinalização nessa direção é dada pelo ex-presidente Lula ao procurar atrair o PSD, do prefeito Gilberto Kassab, para a campanha de Fernando Haddad (PT). Outros entes ditos de esquerda, como PSB e PCdoB, também se inclinam a estabelecer parcerias com siglas distanciadas de sua posição no arco ideológico, corroborando a ideia de que um gigantesco ajuntamento partidário ocupa o centro da cena eleitoral. Tal iniciativa precede o realinhamento da moldura político-institucional, a se iniciar após o pleito.

Há quem veja nessa movimentação interpartidária irresponsabilidade política e ideológica. Apontam-se, entre as razões, a desidratação do debate político, o esvaziamento dos conteúdos partidários e dos grupos de oposição, fatores debitados à "mediocridade das elites dominantes", nas palavras do historiador Carlos Guilherme Mota (Estado, 19/2). Será que o País chegou mesmo ao degrau mais baixo da escada civilizatória em matéria de política ou há fundamentos para acreditar que atravessa mais um momento de transição, como tem ocorrido no processo de consolidação de suas instituições?

É oportuno lembrar que a desvitalização das instituições políticas não é um fenômeno brasileiro. A imbricação (pragmática) das siglas nacionais se dá na esteira da crise que assola a democracia contemporânea, cujos vértices podem ser assim enumerados: pasteurização doutrinária, desradicalização e declínio dos partidos, queda de ânimo dos participantes, enfraquecimento dos Parlamentos, fortalecimento do Poder Executivo e arrefecimento das oposições.

O amortecimento dos mecanismos políticos clássicos, na visão do sociólogo Roger-Gérard Schwartzenberg, expande-se no seio da "tecnodemocracia", sistema alicerçado em vastas e complexas organizações administradas por uma nova oligarquia econômica, mais dependente do Estado que a velha democracia liberal. Sob esse império, expandido a partir da queda do Muro de Berlim, floresce nova ordem política e social, em que não há mais lugar para particularismos ideológicos e intransigências doutrinais. A política refunde-se e se redistribui, agora cultivando regiões, associações, setores organizados, que passam a funcionar como novos circuitos de representação. A expansão econômica, alterando as clivagens partidárias do passado, substitui o antagonismo de classes por diálogo e negociação. Os partidos de massa dão lugar aos catch-all parties (partidos agarra-tudo), cuja inspiração é chegar ao poder a qualquer custo e a qualquer momento. O similar brasileiro seria o partido-ônibus, que recebe passageiros a qualquer hora e em qualquer estação.

A análise da política brasileira fora desse painel corre o risco de ganhar viés indesejável. Dito isso, convém recordar que a dinâmica da política obedece a um movimento pendular, com altos e baixos, na sequência de ciclos democráticos alternados com ciclos autoritários. As curvas no caminho da democracia desmantelam a identidade partidária. No período democrático 1945-1964, nossas agremiações tinham limites definidos: o PTB, um partido de massas, agrupava bases trabalhistas e conquistas da era Vargas; a UDN representava as elites urbanas e a aristocracia; e o velho PSD tinha suas raízes fincadas nas oligarquias rurais. A ditadura de 64 empacotou esse retrato. Criou a Arena, herdeira das bases udenistas e de parte das pessedistas, e o MDB, que teve papel transcendental na redemocratização e passou a agregar correntes trabalhistas, grupamentos de outros partidos e os movimentos de massa dos anos 80. A seguir, desdobrados da matriz partidária, nasceram o PSDB e o PT, o primeiro ancorado no ideário da social democracia e o segundo, portando a bandeira do socialismo, sob liderança de Lula, juntou núcleos de trabalhadores, intelectuais de esquerda e setores da Igreja Católica.

De lá para cá, a crise intermitente na esfera política nivelou por baixo a malha partidária, escancarando um painel negativo: escândalos em série flagrando atores políticos; obsolescência do sistema eleitoral com suas contrafações, como a modelagem proporcional, pela qual o eleitor vota num candidato e acaba elegendo outro; competitividade partidária, inspirada no lema "o poder pelo poder". Registram-se, é oportuno frisar, coisas positivas, como o controle da inflação e o Plano Real, triunfos do governo FHC; a consolidação de grandes conquistas, a partir da inserção de 30 milhões de brasileiros no meio da pirâmide, na era Lula; decisões de vulto tomadas na esfera do Supremo Tribunal Federal.

Agora, na administração Dilma Rousseff, uma inflexão se faz necessária: o petismo/lulismo agora terá de repartir com parceiros de proa - PMDB, PSB, PDT, PTB, PP - glórias e insucessos do ciclo que se inaugura no País. Em suma, o período Lula fechou o portão da era 64. A dinâmica política, doravante, será carimbada com o prefixo pós. Radicalismos estão sendo arquivados. Na nova trajetória, o espaço ideal é o centro e as palavras de ordem são diálogo e pragmatismo. Lula sabe, por exemplo, que o PT precisa de uns 15% a mais de votos em São Paulo para seu candidato, Haddad, ultrapassar os 30% históricos do partido.

Resumo da ópera: quem quiser enxergar densidade ideológica no pleito municipal deste ano, principalmente nas campanhas dos maiores partidos, deverá ficar a ver navios.

Decisão solitária - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 26/02/12
Uma preocupação ajuda a explicar a demora de Dilma Rousseff para nomear os membros da Comissão da Verdade. A presidente tem dito que o grupo não é "como um ministério", em que você pode trocar os ocupantes caso apareçam restrições ou denúncias.

Por isso, Dilma centralizou a escolha dos nomes e não tem dado espaço para aliados e assessores darem palpites. A presidente não quer ex-presos políticos nem militares no grupo, para que não se transforme num "palco para ajustes de contas", diz um auxiliar.

Por fim, Dilma quer uma mulher na comissão, critério que tem usado em todas as áreas de sua gestão.

Horizonte A anunciada entrada de José Serra na disputa eleitoral devolve à estaca zero as tratativas do PSB paulistano com Fernando Haddad. O partido, na base de Geraldo Alckmin e alinhado a Gilberto Kassab, discutirá seu rumo mirando 2014.

Blasé O PT evitou tornar a pré-candidatura Serra o tema central da reunião de ontem do conselho político de Haddad. A avaliação foi que ele unifica o campo adversário, mas não anula o que chamaram de "contradições" internas entre PSDB e PSD.

Supertrunfo A exemplo de 2004, o comando tucano pretende recorrer a FHC na tentativa de demover José Aníbal. À ocasião, o hoje secretário da Energia assumiu o programa de governo serrista e elegeu-se vereador.

Exclusividade Lula pediu a João Santana que, se possível, atue apenas como consultor de Hugo Chávez na eleição venezuelana. O ex-presidente quer dedicação exclusiva do marqueteiro à campanha de Haddad.

Ladainha Do ministro Aldo Rebelo (Esporte), sobre a necessidade de assegurar, em entrevistas diárias, que todas as obras estarão prontas para a Copa: "A Bíblia tem mais de 2.000 anos e o padre a repete em todas as missas. Eu vou repetir só até 2014".

Prazo O presidente de Itaipu Binacional, Jorge Samek, tem recebido sinais palacianos de que sua longeva permanência no cargo estaria próxima do fim. O petista está no comando da empresa desde o primeiro dia de Lula.

Plano B Samek pode precipitar sua saída de Itaipu se lançando candidato a prefeito de Foz do Iguaçu, cidade paranaense onde está sediada a empresa. O PT dá sua eleição como certa, caso a candidatura se confirme.

Virada... O governador Renato Casagrande (PSB) propôs ao senador Ricardo Ferraço (PMDB) ser o candidato de seu grupo à Prefeitura de Vitória. O convite foi feito em reunião da qual participou o ex-governador Paulo Hartung, até aqui o nome de consenso para a disputa.

...capixaba Ferraço, que ainda tem sete anos de mandato no Senado, pediu que Casagrande encomende uma pesquisa para medir suas chances. Hartung prefere aguardar 2014 para voltar ao tabuleiro político, e só será candidato caso seja o único nome capaz de unir o grupo.

Fome de bola A cúpula do PC do B avisou ao PT que só abrirá negociação sobre alianças nas cidades em que ambos têm pré-candidatos após a segunda quinzena de março. Até lá, o partido manterá suas dez candidaturas em capitais.

Veja bem O PT deixou claro que é um equívoco pensar em alianças em todas essas cidades. Deu uma brecha para acordo em Florianópolis e em Manaus -onde a senadora Vanessa Grazziotin tem dito que não será candidata.

Tiroteio
O PT trava uma disputa olímpica com o próprio PT pela medalha de ouro no quesito aparelhamento no BB. É assim também na CEF, na Petrobras e nos fundos de pensão.

DO LÍDER DO PSDB NO SENADO, ÁLVARO DIAS (PR), sobre a crise que opõe o atual presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, homem de confiança de Guido Mantega, e o presidente da Previ, Ricardo Flores.

Contraponto


Assunto de Estado
O secretário particular de Geraldo Alckmin, Marco Antonio Castello Branco, telefonou para um prefeito a pedido do governador. Não conseguiu falar, deixando recado com a mãe do político para que ele retornasse a ligação.

Alguns minutos depois, o prefeito ligou. Quando Alckmin atendeu, ele perguntou, alarmado:

-Governador, o que aconteceu?

Diante da surpresa de Alckmin, ele completou:

-Minha mãe disse que o sr. mandou um ex-presidente da República me procurar. Deve ser algo muito grave!

GOSTOSA


Muitas novidades - 2 - JOÃO UBALDO RIBERO


O Estado de S.Paulo - 26/02/12


A história do pai desnaturado que anunciei no domingo passado me foi contada como verídica. Em Itaparica, ninguém mente, de maneira que com certeza é mesmo. Trata-se do pungente drama vivido por uma família cujo sobrenome, muito importante para o desenrolar dos acontecimentos, aqui será mudado, para não causar problemas. Deu-se que, em certa época, em certa localidade da ilha, um jovem pobre, mas muito trabalhador e esforçado, subiu na vida e criou coragem para pedir em casamento a filha mais nova dos Pimentéis, orgulhosa família descendente de barões do tempo das baleias e de nariz franzido tão empinado que o povo chamava a matriarca de "Quem Bufou?". A família fez tudo para que o noivado não se concretizasse, mas a moça também estava apaixonada pelo rapaz e não houve jeito. Acabou, para se livrar de mais chateação, cedendo a uma exigência do velho "Foi Você" (apelido natural para ele: a velha fazia cara de "Quem Bufou?" e depois o velho vinha atrás, olhando para todo mundo com cara de "Foi Você"). Tudo bem, haveria o casamento, mas nenhum dos filhos do casal levaria o humilde "dos Santos", sobrenome do rapaz. Portariam o orgulhoso Pimentel, mas nada de Santos.

Acontece que não contavam com a altivez e a astúcia do itaparicano. Para não encompridar a história, o casal teve três filhos e o pai botou neles os nomes de Fulano, Beltrano e Sicrano Pimentel. Dizem que até hoje os parentes brigam para mudar os nomes, situação complicada porque Beltrano e Sicrano se solidarizaram com o pai e registraram os filhos mais velhos como Beltrano Júnior e Sicrano Filho. Já Fulano, compreensivelmente, não fez a mesma coisa, porque puseram nele o apelido de "De Tal", foi muita crueldade da parte da voz do povo. Perguntavam "quem é aquele?" e respondiam "ah aquele é Fulano de Tal, mas pode chamar de De Tal mesmo, que ele atende".

Ainda por cima, por uma circunstância linguística, o "De Tal", pois que o pessoal da happy hour das seis da manhã embola um pouco as consoantes, acabou percebido por muitos como "Dedal" e De Tal passou a também ser conhecido pela alcunha de Dedal, o que - vejam como é esta vida ingrata - levou certos preconceituosos a opinar que ele devia ser costureiro de altas modas afrescalhadas e, portanto, falso ao corpo, designação hoje politicamente incorreta, mas nessa época ser gay não estava ainda na moda e o sujeito precisava ser muito macho para encarar a complexa situação em que ele se viu.

O fato é que a história teve um final melancólico para Fulano, que, na busca de sossego, se mudou para Nazaré das Farinhas, mas dizem que não se deu tão bem, talvez por ter ganho novo apelido, deve ser sina. Lá em Nazaré, me contam que ele é conhecido como Esse Menino e ninguém sabe o nome dele - quer dizer, o sujeito não consegue ser nem Fulano, nem De Tal, é duro. E comentam que o pai desnaturado acabou se consumindo na cachaça, mas nunca arrependido do que perpetrou. Dizem que, pouco antes de morrer, questionado sobre os nomes dos filhos, teria respondido grosseiramente que eles ainda deram sorte, porque os nomes iam ser Merdêncio, Caguêncio e Bostêncio, mas o escrivão sempre achava que pegava mal e não fazia o registro, mesmo que a propina fosse mais gorda que a de um alto governante federal.

Depois desse flagrante da vida real, passo ao também prometido furo de reportagem. Em todos os meus anos de jornalismo, nunca dei um furo de reportagem e fico até meio nervoso. Durante minha mais recente estada na ilha, Zecamunista me visitou algumas vezes para conversar e pronunciar algumas festejadas conferências, mas não deixou transparecer nada de seus planos mais audaciosos. Parecia estar inteiramente concentrado em aperfeiçoar o projeto de instituição do Comitê Proletário de Defesa do Vernáculo, após ter tido algumas experiências traumáticas, a última das quais envolveu uma pizza.

- É bem feito, que é para eu esquecer pizza, o pastelão gordurento que italiano não come e é monopólio do imperialismo ianque e das multinacionais de remédio contra azia! - bradou ele. - E ainda por cima é delivery. O indivíduo pede que lhe entreguem uma pizza e o sacaneta corrige: é delivery, senhor. É delivery a mãe dele, minha pizza é entregue, eu faço questão de que ela seja en-tre-gue! Se o governo não garante nada, pelo menos garanta que a gente vai continuar a entender o que se fala. Eu vou contar o que esse infeliz me disse. A pizza já estava demorando quase uma hora e aí eu liguei para reclamar e sabem o que ele falou? Ele disse "Eu tinha colocado para o senhor de que a delivery ia estar atrasando". Foi isso o que ele me disse e eu quase vou lá com minhas pistolas para fazer justiça pessoalmente e restaurar o primado do homo sapiens, é legítima defesa, estão assassinando a língua portuguesa, são uns antropoides!

Somente no último dia foi que ele me chamou a um canto e confidenciou o que agora é furo de reportagem: fará uma rara visita ao Rio de Janeiro, algum dia do próximo mês. No seu dizer, "a mulher carioca é a deusa no pedestal alcandorado de meu coração e a diaba na usina lasciva de meus nervos tropicais", mas não é bem por ela que ele vem. Pretende fazer no Rio o lançamento nacional dos Bem-te-vis da Pátria, entidade cívica que congregará os brasileiros vigilantes, sob o grito de guerra "Bem Te Vi, Ladrão!". Os militantes usarão camisetas estampadas com um bem-te-vi de binóculo e carregarão um apito que imita o canto do bem-te-vi. Cada vez que passar um político ladrão, apito nele, assim como em estádios, auditórios e demais locais públicos.

- Confio no Rio de Janeiro para salvar o nosso povo - disse Zeca ao telefone, emocionado. - Ainda vamos ler no jornal que um safado desses foi bem-te-vizado para fora do Posto 9.

Domingo de Cinzas - AGAMENON MENDES PEDREIRA


O GLOBO - 26/02/12




Que me desculpem os outros comunistas do GLOBO, quer dizer, colunistas do GLOBO, mas a verdade é que neste ano eu estou arrebentando! Primeiro veio o sucesso do meu filme, "As aventuras de Agamenon, o repórter", que levou quase um milhão de espectadores aos cinemas e é, até agora, a sétima bilheteria no Brasil. Fiquei atrás apenas do esquisitão "Gato de Botas", mas, em compensação, ultrapassei o veloz cavalo de Spielberg. É mole? É, é mole, sim...

Para coroar este começo de ano alvissareiro, também desfilei no Sambódromo defendendo as cores da vitoriosa e campeoníssima Unidos da Tijuca. Atendendo ao convite do genial carnavalesco Paulo Barros, que me deu acesso a várias alas e passistas da sensacional escola tijuquense, desfilei em vários carros, num tour de force que faria inveja a Sabrina Sato, Luiza Brunet, Valesca Popozuda e outras gostosas da Sapecaí, quer dizer, Sapucaí.

Comecei o desfile fantasiado de Roberto Carlos no carro abre-alas. Em meio à realeza que homenageava Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, mostrei que o Rei Roberto Carlos também sabe dizer no pé. Logo em seguida, corri para o belíssimo carro alegórico que homenageava os bonecos de barro do Nordeste.

Sentado numa privada, na frente de todos, produzi ali mesmo uma enorme escultura artesanal em homenagem ao grande Mestre Vitalino, o Rei do Barro. E como gran finale apoteótico, ainda saí ao lado da sensacional rainha da bateria da Unidos da Tijuca, totalmente nu, usando apenas um tapa-sexo de três metros e meio. O pagodeiro Belo, marido da Gracyanne, não curtiu no Facebook aquela perigosa proximidade entre sua sarada esposa e as minhas arrojadas evoluções eroto-carnavalescas. Mas o Belo sabe muito bem que eu só tenho olhos para a Isaura, a minha patroa e cabrocha. Os críticos e comentaristas mais uma vez moscaram e só ficaram falando da "paradinha" da Mangueira, mas eu experimentei e posso afirmar que a "paradinha" do Borel é muito superior!

Mas nem tudo é alegria no carnaval. A verdadeira Quarta-feira de Cinzas aconteceu na apuração das escolas de samba de São Paulo, que, como todos sabem, é o verdadeiro tumulto do samba. Como eu já disse no Twitter, em São Paulo o carnaval é comandado pelas torcidas organizadas. No Rio, pelo crime organizado. Inconformados com as notas dos jurados, alguns vândalos da Império da Casa Verde de Noca, Gaviões do Fidel e Vai Vai Dar Porrada interromperam a apuração e rasgaram as papeletas dos jurados, fazendo um verdadeiro papelão. Felizmente um X-9 dedurou os arruaceiros e, por causa disso, o prefeito Gilberto Kemssab? ameaçou a Liga das Escolas de Samba de São Paulo. Kemssab? avisou que, se os baderneiros não forem punidos, em 2013 a organização do carnaval paulista será feita pelo PCC.


Oscar 2012! Melhor DVD pirata! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 26/02/12



Hoje é Dia de Dormir em Pé! Dia do Oscar! Merece um Oscar quem tiver saco de assistir ao Oscar até o fim!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Hoje é Dia de Dormir em Pé! Dia do Oscar! Merece um Oscar quem tiver saco de assistir ao Oscar até o fim!
Melhor atriz, às 2h. Sendo que às 2h qualquer mulher é uma grande atriz. Rarará! E aquele monte de discursos de "obrigado"? O Oscar devia ser entregue no drive-thru do McDonald's. O cara pegava a estatueta, passava ketchup e ia pra casa! Rarará!
Dia do "brega carpet". O "red carpet" devia se chamar "brega carpet"! E todo ano eu falo, insisto e repito: devia ter um Oscar pra melhor pipoca! A pipoca é sempre melhor que o filme! E Oscar pra melhor DVD pirata! Porque, numa banca de rua, "Vidas Cruzadas" estava anunciado como "Vidas Cuzadas!" Rarará!
E o Oscar de melhor intertrepação é do Zé Mayer! E Oscar de melhores efeitos especiais: apuração de escola de samba em São Paulo!
E a celebridade do Carnaval: o Rasgador de Notas. Ficou mais famoso que a J.Lo, o Neymar e o Michel Teló. E eu pedi pra ele vir rasgar o meu Imposto de Renda. Rasga meu IR! E um vizinho pediu pra ele rasgar o IPVA! E a fatura do cartão! E o boleto da "facul"!
E o site QMerda sugeriu pra ele invadir uma livraria e rasgar os livros do Sarney. Rarará! E uma amiga minha falou: "Ele é lindo, quero que ele me rasgue todinha". Rarará! E diz que na apuração das escolas do Rio não teve tumulto porque todos foram presos antes. Os bicheiros. As duas forças que sustentam o Carnaval do Rio: o bicho e a bicha!
E um amigo meu ainda não conseguiu sair de Salvador: toda vez que ele vai pro aeroporto, passa um trio elétrico e ele vai atrás e perde o avião! Rarará! E a piada pronta do ano: Ricardo Teixeira tem uma casa em Boca Ratón! Rarará!
E a manchete do Piauí Herald: "Serra anuncia que só será candidato se não houver eleição". E quem vai ser a vice do Serra? A Sônia Abrão? Rarará!
E o Oscar é sempre assim: a vencedora dá um grito, põe a mão na cara, beija a colega, sobe e diz: "Não tenho palavras". E solta umas 900 mil palavras! E a Meryl Streep?! Oscar sem a Meryl Streep não existe, é como televisão sem tela, bule sem bico e mulher sem perereca! Eu amo a Meryl Streep! Ela solta um pum e já é indicada pro Oscar! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

A invenção da democracia - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 26/02/12



SÃO PAULO - Já que estão tirando tudo dos gregos, dou minha contribuição à pilhagem, roubando-lhes os direitos autorais sobre a democracia.

Desde criancinhas, aprendemos que foram os gregos, mais especificamente os atenienses do século

5º a.C., que inventaram e implementaram o sistema pelo qual o povo governa a si mesmo. O problema é que essa ideia é falsa. Trata-se de um mito forjado no século 19 e que perdura até hoje, apesar do acúmulo de evidências em contrário.

Como mostra John Keane no instigante "Vida e Morte da Democracia", a palavra "democracia" e práticas a ela relacionadas já circulavam pelo mundo grego desde o final da Idade do Bronze (c. 1.500-1.200 a.C.).

Suas raízes remontam a inscrições conhecidas como Linear B, do período micênico, nas quais aparece o termo "damokoi", para designar funcionários que agiam em nome do "damos", isto é, do povo. Pelo menos a metade das cerca de 200 cidades-Estado gregas experimentou a democracia, muitas delas antes da Atenas do século de ouro.

Keane vai mais longe e oferece farta documentação de que o elemento central da democracia, as assembleias populares autônomas, surgiram ainda antes no Oriente, em territórios que hoje correspondem a Irã, Iraque e Síria -sim, a história pode ser profundamente irônica.

De lá, ela se espalhou para todos os lados, como forma eficaz de combate contra a tirania. A leste, chegou até o subcontinente indiano. Por volta de 1.500 a.C., no início do período védico, repúblicas dirigidas por assembleias eram comuns. A oeste, o costume do autogoverno atingiu as cidades fenícias de Biblos e Sidon, de onde ganhou a civilização grega.

Essas descobertas implicam que ciclos de nascimento e morte da democracia são bem mais comuns do que pensamos. Num mundo em que até o passado é incerto, devemos nos acautelar contra o excesso de otimismo com o futuro.

A ineficácia dos moralismos - ROBERTO ROMANO


O Estado de S.Paulo - 26/02/12


A Lei da Ficha Limpa pode atenuar os comportamentos corrompidos da política nacional. Importa, no entanto, agir com prudência diante dos fatos. A lei opera no fim de um processo que inclui ações desonestas de parlamentares e de membros do Executivo, de representantes de empresas e de funcionários em todos os Poderes. Os partidos políticos são dirigidos por oligarcas que ignoram limites à sua ambição pessoal e de grupo. O clã Sarney exemplifica perfeitamente o caso. Sem democracia interna nas agremiações e limites à permanência nos cargos diretivos, primárias obrigatórias e outras medidas corretivas, o filtro da Ficha Limpa logo estará bloqueado, sendo apenas ornamento jurídico.

Num país onde a corrupção é sistêmica, vale acompanhar os textos lúcidos e serenos de um dossiê publicado na Revista Internacional de Teoria do Direito e de Sociologia Jurídica (número 72, 2009, CNRS, França). Ali analistas competentes se debruçam sobre casos exemplares, como os da Itália, da Bulgária, da Polônia, do Marrocos. O exame interessa a todos os países, na presente crise estatal e de mercado. Sintetizo o caso da Itália porque ele mostra o quanto é equivocada a tese de que escândalos e tribunais mudam o juízo dos eleitores ou melhoram a forma democrática.

Na Itália existem financiamento ilegal de partidos, trapaças no mercado e no setor público, clientelismo e mesmo simbiose ocasional com a Máfia. O descalabro leva à queda de poderosos, na Democracia Cristã. A partir daí surgem os incorruptíveis juízes, seguidos pelos promotores, Quixotes contra a "partidocracia". Esta é desvalorizada e a legitimidade plena passa ao Judiciário. Deveria ser consequente a mudança dos eleitores diante do novo quadro. As urnas concederiam vitória aos probos, e apenas a eles. Não foi o que ocorreu. Os juízes desempenharam papel moralizador, mas não houve mudança nos costumes e práticas institucionais. O movimento das Mãos Limpas apressa a queda dos antigos oligarcas, dando oportunidade para novos dirigentes que aproveitam, para chegar ao poder, a campanha em prol da ética. Mais de 150 parlamentares italianos e quase 1.800 chefes locais são implicados, seis ministros do governo solicitam demissão (algo que lembra o Brasil).

As oposições usam os processos contra os corruptos. Mas quem integra as hostes da oposição? Os neofascistas da Liga do Norte, que gritam contra o "Parlamento dos ladrões", e a esquerda, que agita o moralismo até o paradoxo. Com o alarido em prol da "ética na política" progridem os moralistas. O Parlamento passa a ser visto como ilegítimo. Os deputados, tal é a palavra de ordem, devem seguir os juízes em tudo, exercendo formas "limpas" de mando político.

Silvio Berlusconi pertence à liderança moralista e se torna imbatível com a Forza Italia (criada em 1994), que, aliada à Liga do Norte e aos neofascistas, chega ao poder. A riqueza pessoal de Berlusconi, a sua rede empresarial, potencia a propaganda sobre a "moralização da vida pública". Também ajuda muito o trabalho de seus técnicos, afeitos às pesquisas de opinião e ao marketing. Ajudantes do empresário gerenciam seus atos políticos.

"A velha classe política foi expulsa pelos eventos e ultrapassada pelas exigências do nosso tempo. A queda dos velhos governantes, esmagados pelo peso dos déficits públicos e por um sistema ilegal de financiamento dos partidos, deixou o país no despreparo e incerteza em momento difícil de renovação e passagem a uma nova República" (Berlusconi). Seriam necessários novos homens, novas ideias, novas práticas para salvar a Itália. A Forza Italia obtém mais de 20% dos votos em 1994, torna-se o primeiro partido do país. Instalado no poder, Berlusconi é alvo de processos penais por corrupção. Mas a Forza Italia se apega ao governo, apoiada por 20% a 30% do eleitorado. O movimento absorve antigos oligarcas e "renova" a política com profissionais subservientes a Berlusconi na máquina pública e nas empresas.

Com a ascensão dos ex-moralistas, o jogo corrupto continua, apoiado pelos eleitores. "Após ser usada pela classe política para se renovar, a magistratura foi abandonada e, com ela, a exigência de moralidade e transparência de que ela era a portadora" (J. L. Briquet). E surge a campanha contra os "juízes vermelhos", acusados de fomentar golpes judiciários em prol dos "comunistas" (Cf. Berlusconi, S.: L'Italia che Ho in Mente). Quanto mais submerso em processos, mais o líder popular ataca o Judiciário.

Mas não apenas a direita retoma a corrupção como instrumento de governo. A esquerda levanta-se contra os juízes. Surgem manifestos que exigem "manter rigorosamente separados os assuntos da Justiça e os da política". O alvo? Garantir "a estabilidade e a confiança necessária ao país". O juiz deve retornar ao seu "lugar natural" e restituir à política "a autoridade que decorre do mandato popular". Massimo d'Alema, secretário nacional dos democratas de esquerda, defende "o retorno à posição subsidiária da Justiça em face da política (...), o funcionamento normal da jurisdição após a fase excepcional da crise, que, se foi salutar, é historicamente ultrapassada". (D'Alema: Sovranità della politica e primato della norma, 1997).

Os moralistas políticos esquecem que nem sempre o eleitor é movido pelo direito, por justiça, transparência, valores éticos positivos. A política não é palco exclusivo da razão, mas campo hegemônico das paixões. Entre os cidadãos e as urnas existem os partidos, os interesses mercantis, a propaganda, os antigos costumes, os favores prestados pelos ocupantes do poder às famílias, às cidades, às regiões. E sempre pode surgir um grupo demagógico que "denuncie" a corrupção alheia, disposto (uma vez chegado aos palácios) a desculpar a falta própria de escrúpulos.

Sem a democratização dos partidos, de direita ou esquerda, a Ficha Limpa será apenas o que seu nome diz: vazia.

O ''Retrato de Adele'' conta uma época - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 26/02/12


Boa notícia para quem se encantou com o livro "A Lebre com Olhos de Âmbar", de Edmund de Waal, publicado há alguns meses no Brasil. Saiu nos Estados Unidos "The Lady in Gold" ("A Mulher Dourada - A história extraordinária da obra-prima de Gustav Klimt, o retrato de Adele Bloch-Bauer"), da jornalista Anne Marie O''Connor. O e-book sai por US$ 15,99.

A partir do destino de uma coleção de 264 pequenas esculturas japonesas, De Waal contou a história de sua família, a dos banqueiros judeus Ephrussi. Elas foram reunidas em Paris, guardadas em Viena, voaram para Tóquio e estão em Londres. Os Ephrussi perderam tudo o que tinham no confisco nazista, quando a Áustria, em êxtase ariano, foi anexada pelo Reich. A pedido do arcebispo de Viena, os sinos da cidade repicaram, saudando as tropas alemãs.

"A lebre" evitou o tom de indignação diante do antissemitismo e do Holocausto.

É um livro da alma, sem fígado. Mostra os Ephrussi no esplendor de Paris e Viena e na desgraça europeia da guerra. Contando a história do retrato de Adele Bloch-Bauer, O''Connor tomou o caminho oposto. Pisou firme na denúncia do antissemitismo que matou 65 mil judeus austríacos. Expôs os governos do pós-guerra, numa briga que só acabou em 2006.

Adele era mulher de um barão do açúcar, e Klimt pintou-a três vezes. Provavelmente namoraram. Um dos retratos, de 1907, com um fundo dourado em delírio bizantino, é uma das maiores obras de arte do século XX. Como os Ephrussi, os Bloch-Bauer foram depenados. O retrato, rebatizado como "Mulher em dourado", foi para um museu austríaco. Quando a guerra terminou, o novo governo desestimulou as reparações individuais das famílias de judeus espoliados e criou um sistema de devolução de obras de arte que apenas dissimulava a extorsão.

Esqueceram-se de uma sobrinha de Adele que fugira para os Estados Unidos e tinha uma loja de roupas em Los Angeles. Ao contrário dos Ephrussi, que receberam ninharias, Maria Altmann resolveu brigar. Estimulada por um repórter austríaco, conseguiu a ajuda de um jovem advogado, neto do compositor Schoenberg. Enfrentou a burocracia cultural e diplomática da Áustria, que se recusava a devolver o retrato de Adele e outros quatro quadros roubados da casa de sua tia. Seu litígio parecia risível, até que o advogado bateu à porta da Corte Suprema dos Estados Unidos e teve reconhecido o seu direito. Em 2006, humilhado, o governo da Áustria aceitou uma arbitragem e devolveu as obras. O "Retrato de Adele" foi comprado por US$ 135 milhões e hoje está na Neue Gallery, na esquina da Rua 86 com a Quinta Avenida, a poucos quarteirões do museu Metropolitan. Os outros quatro quadros foram a leilão e não se sabe quem os arrematou. Um deles, um retrato de Adele pintado em 1912, nunca mais foi mostrado. Quando os austríacos lamentaram que os quadros deixassem o país, Maria Altmann foi à forra: "Eles ficaram lá 68 anos, poderiam comprá-los". Os cinco herdeiros de Adele receberam cerca de US$ 300 milhões, e US$ 96 milhões foram para o advogado Rudolf Schoenberg.

Adele morreu de meningite em 1925, sem deixar filhos. Seu marido acabou-se num quarto de hotel em 1945, na Suíça. O tio foi fuzilado pelos comunistas na Iugoslávia. A tia foi para o Canadá, e sua filha conheceu num jantar um jovem alemão que, aos 15 anos, fugira do Exército Vermelho, lavara pratos num hotel de Vancouver e conseguira um emprego como motorista de cargas. Era o príncipe Auersperg, de uma dinastia cuja linhagem remonta ao século XI. Casaram-se. Hoje a princesa é uma renomada cancerologista. Maria Altmann morreu no ano passado, aos 94 anos.

Para os admiradores da "Lebre com olhos de âmbar": o quadro de duas meninas, filhas do banqueiro francês Cahen d''Anvers, que Charles Ephrussi negociou com Renoir, está no Masp. Elisabeth, a menina do vestido azul, convertera-se ao catolicismo e vivia na França. Em 1944, foi colocada num trem com destino a Auschwitz. Morreu no caminho.

Jet set

Um jet ski entregue a um garoto de 13 anos matou uma criança de 3 que fazia castelos na areia de Bertioga, em São Paulo. Ela havia sido levada para a praia porque pedia para conhecer o mar. O jovem abandonou o local, foi para casa e, com a mãe, deixou o condomínio onde estavam. Escafederam-se enquanto a menina agonizava, à espera de socorro.

Com depoimento marcado para quinta-feira, o pai não o levou à delegacia. Passada uma semana, o doutor ainda não botou o rosto na vitrine para defender o filho. Bateu o telefone quando foi localizado por um jornalista. Até agora, só se ouviu a voz dos pais de Grazielly, a criança morta. Ele é motorista, e ela, auxiliar de panificação.

Segundo o advogado da família do adolescente, Maurimar Chiasso, juiz aposentado e ex-candidato a deputado federal pelo PRTB, "não há condição de esse jovem ser ouvido em face a tamanho assédio e tamanho risco que ele está correndo". A família do garoto vive numa terra de selvagens. Nela, é mais arriscado fazer castelos na areia do que comparecer a uma delegacia policial.

Pelo andar do jet ski, a Polícia paulista poderá ser atraída para o papel de vilã no encaminhamento do episódio.

Rubens Paiva

Se alguém procurar nos arquivos americanos, provavelmente descobrirá que, poucos dias depois da prisão de Rubens Paiva, em janeiro de 1971, a Central Intelligence Agency sabia que o haviam matado.

Richard Bloomfield, que à epoca era o encarregado de assuntos econômicos na embaixada no Rio, conhecia a família de Paiva e procurou o chefe da estação da CIA. Dias depois, ouviu: "Muito tarde".

Se o doutor passou a informação a Washington, não se sabe, mas deveria tê-lo feito.

Problema doméstico

Bashir Assad, o carniceiro da Síria, tem um problema doméstico. Se for para o exílio, terá que viver, murado, fora do circuito Elizabeth Arden. Sua mulher, Asma, chamada pela revista Vogue de "A Rosa do Deserto" e pela Paris Match de "raio de luz num país de sombras", terá dificuldade para se adaptar a uma nova vida.

Madame Natasha

Zelando pelos caminhos do idioma, Madame Natasha concedeu mais uma de suas bolsas de estudo. Desta vez para o Tribunal de Contas da União, por um trecho de seu acórdão 3.260, no qual determinou ao Dnit que:

"Promova no prazo de 180 dias (...) estudos e pesquisas (...) com o objetivo de estabelecer normatização acerca da diferenciação dos esforços de roçada e de limpeza dos dispositivos de drenagem de acordo com as respectivas isocurvas de precipitação (isoletas), associadas a temperatura e evapotranspiração, ou qualquer outro elemento que melhor reflita o crescimento das gramíneas e leguminosas".

Eles quiseram dizer que o Dnit deve estabelecer um cronograma para as roças e a limpeza das calhas das estradas.

$$$

Habituado a administrar crises com aliados, o comissariado petista está diante de duas encrencas em que companheiros querem liquidar companheiros.

Uma está na Petrobras, no rescaldo da queda de Sergio Gabrielli. A outra, no Banco do Brasil.

Em nenhuma das duas há divergências relacionadas com estratégias ou diretrizes de políticas públicas. Só controle de cargos e de caixas.

Nova chuva de euros - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 26/02/12


Nesta próxima quarta-feira, o ministro Guido Mantega terá mais razões para reclamar dos efeitos da tal guerra cambial que ele não para de denunciar.

Será o dia em que as impressoras do Banco Central Europeu (BCE) voltarão a funcionar a alta velocidade para emitir moeda destinada a empréstimos (ilimitados) para os bancos.

A primeira operação dessa natureza foi realizada dia 27 de dezembro, quando foram emprestados 489,2 bilhões de euros, por três anos, a juros de 1% ao ano. Foi a primeira grande descarga de artilharia comandada pelo novo presidente do BCE, Mario Draghi (foto).

Alguns analistas esperam procura ainda maior por essa linha de crédito pelos bancos europeus nesta segunda operação agendada para o dia 29. Argumentam eles que, desta vez, não haverá o constrangimento dos bancos que houve na anterior, quando a procura pelas generosas tetas do BCE ainda poderia ser entendida como sinal de fragilidade patrimonial, algo que pode ser mortal para um banco.

O objetivo do BCE com essas operações é acabar com o estancamento do crédito na Europa e contribuir, assim, para a redução dos juros cobrados pelos investidores no financiamento da dívida dos países do euro. Fácil de entender: mais dinheiro disputando o mesmo volume de títulos implica redução da remuneração paga por esses títulos.

Mesmo que o total dessa segunda rodada de financiamentos do BCE também fique em torno do meio trilhão de euros, será mais uma chuvarada de moeda que será despejada no mercado internacional. Parte dessa dinheirama acabará inevitavelmente fluindo para o Brasil e se encarregará de ajudar a derrubar as cotações da moeda estrangeira no câmbio interno. É esse reforço à tendência de valorização do real que o ministro Mantega mais teme.

Apenas para completar o cenário da guerra cambial, convém relembrar que o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) emitiu US$ 2,9 trilhões desde 2008 para recomprar no mercado financeiro tanto títulos públicos como privados. E o BCE já carrega em seu balanço 2,7 trilhões de euros (veja gráficos no Confira).

É claro que nem as autoridades monetárias dos Estados Unidos nem as da Europa aceitam o diagnóstico da guerra cambial cultivado por Mantega. Eles repetem que não estão fazendo nada além de defender suas moedas contra as estocadas da crise. E mais: recomendam que, em vez de denunciar essas operações, o resto do mundo deveria aplaudi-las, porque contribuem para estancar o contágio financeiro.

Mantega está avisando que vai acionar seu arsenal de medidas para defender o real contra a excessiva valorização provocada por esse afluxo de moeda estrangeira. Mas ele não diz nem a que cotação começa a excessiva valorização do real nem o que vai fazer para evitá-la, além da habitual operação enxuga-gelo levada adiante pelo Banco Central.

Em todo o caso, já deu para conferir que o ministro fica muito incomodado quando a cotação do dólar resvala para abaixo de R$ 1,70 (sexta-feira fechou a R$ 1,71). E esse nível tem sido entendido como uma espécie de piso para o câmbio do Brasil.

GOSTOSA


Minha turma - LUIZ FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 26/02/12
Agora que o sangue serenou e todas as garrafas que lancei ao mar com mensagens ao desconhecido voltaram sem resposta, ou com o texto corrigido, agora que nem o eco responde aos meus gritos no precipício, ou responde mas com o tom enfarado de quem não aguenta mais repetir sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa, agora que descobri que nenhum dos meus gurus tinha a resposta certa e um até confessou que nem ouvia as minhas perguntas e só fazia sim com a cabeça por boa educação, o que explica ele ter respondido sim quando eu perguntei se deveria seguir o Bhagavad Gita, o Kama Sutra, o Capital ou uma combinação dos três, agora que já não se distingue a voz de uma secretária de outra no telefone pois todas são eletrônicas e iguais, e da última vez que implorei por um contato humano, alguma coisa viva – uma hesitação, um erro de concordância, um resfriado, até, em último caso, uma reação irritada – a voz disse “para reação irritada, digite 4”, agora que eu não quero mais respostas, agora que eu desisti, vem você me dizer que eu não estou sozinho, que há outros como eu que já não esperam mais nada salvo a resignação dos mortos num bom sofá com controle remoto e talvez pipoca, que abominam a despersonalização, principalmente das pessoas, a pulverização de todas as certezas, o espargimento de todas as dúvidas, a eterização de todas as coisas – e que eles têm um site na Internet!

Mas acho que você me deu o endereço errado pois, na minha caça desesperada a ávidos de resignação e burrice programada como eu, já dei num site que ensina a fazer bombas caseiras, outro de quem tem tara por Matildes, outro de um homem que propõe a troca de fotografias do seu bigode ridículo com as de bigodes ridículos de todo o mundo com a possibilidade de casamento e, veja você, um de alguém que propôs comprar vários dos meus órgãos para comer. Não que eu fosse aceitar, sou muito apegado a todos os meus órgãos apesar do que alguns têm me feito passar, mas só por curiosidade perguntei como ele prepararia, por exemplo, meu fígado e, num rasgo de sentimentalismo, sugeri que o servisse acompanhado de um Sauterne de boa safra. Talvez seja esta a auto-indulgência que nos reste, no momento do nosso desencanto, antes do último sofá. O tal cara que estava a fim das minhas tripas à moda de Caen não respondeu mas descobri que eu tinha entrado num fascinante mundo doente, ao entrar na Internet atrás da minha turma. Quando tudo se volatiza e vira impulso pelo ar o que sobra é isso, o ser humano reduzido às suas fomes e às suas esquisitices primevas, livre de qualquer controle ou compunção. A cara mais terrível da liberdade: cara nenhuma, ou apenas a cara que se quiser mostrar na net. Terroristas, fetichistas e canibais são – ou espero que sejam – minorias entre os habitantes deste mundo. Mas, sei não. Há algo de assustador nessa variedade de prospecções predatórias, de buscas globais por afinidades estranhas, só esperando o toque numa tecla de computador para entrar na nossa casa e na nossa vida. Sei lá se eu não tenho alguma obsessão secreta (pés de noviças, por exemplo) só esperando um correspondente para se manifestar. Desisti de localizar meus similares na Internet, os revoltados até com a revolta, começando por secretárias com voz de máquinas, quando me dei conta que a primeira condição para ser mesmo da minha turma seria não frequentar a Internet. 

É a China que se defende do Brasil... - ALBERTO TAMER


O Estado de S.Paulo - 26/02/12


É isso mesmo. A China decidiu se defender reduzindo a sua dependência relativa da importação de commodities brasileiras, petróleo, soja e minérios. Ela silenciou à insinuação do governo para conter a invasão de manufaturados chineses no mercado interno, que competem e marginalizam a indústria brasileira.

Eles crescem, geram empregos lá, enquanto a produção brasileira estagna, encolhe e enfrenta um processo de desindustrialização, a qual já é evidente em muitos setores.

Não só isso, as empresas chinesas, estatais ou controladas pelo governo, estão usando abertamente o subterfúgio da triangulação a tal ponto que até produtos "fabricados" no Paraguai continuam entrando no Brasil. Logo o Paraguai...

O governo tem recorrido a ações para conter essas operações, mas chegam a levar um ano, como foi o caso dos cobertores de fibras sintéticas.

Enquanto isso, os manufaturados chineses continuam entrando e desalojando a produção nacional, o que ajuda a explicar sem dúvida a estagnação da indústria brasileira em 2011, sem sinais de alento este ano. Em janeiro ela recuou novamente e os estoques aumentaram.

O que fazer? Como mudar esse cenário? O Brasil não poderia usar o fato de ser grande exportador de commodities para a China para a forçá-la a rever sua política agressiva comercial? Afinal, exportamos anualmente para a China mais de US$ 40 bilhões em commodities, minérios, petróleo e alimentos, a quase totalidade das nossas exportações, enquanto mais de 90% das nossas importações são industrializados, agora também máquinas e equipamentos. Não seria esse um instrumento de defesa, se vocês exportam mais, nós lhes exportaremos menos... Decidam.

Mas eles já decidiram, vão se proteger do Brasil...

Sim, a China se defende. A coluna levantou essas questões com Jorge Arbache, professor da Universidade de Brasília e autor de excelente análise sobre o mercado Brasil-China. "A China é grande importadora de commodities brasileiras, sim, principalmente soja, minério de ferro e petróleo mas já se conscientizou dessa dependência e está tomando medidas para atenuá-la. Vem diversificando cada vez mais seus fornecedores e até mesmo produzindo em outros países para garantir o abastecimento futuro", responde Jorge Arbache. Um exemplo, a participação do Brasil nas importações chinesas de minério de ferro caíram de 27% em 2007 para 21% no ano passado. Não há duvida, a China está reduzindo a dependência das importações do Brasil, Austrália e Índia, hoje são os principais exportadores através da diluição das importações de mais de 44 países.

Produzir fora. Além disso, continua Arbache, está comprando minas inteiras especialmente na África e América Latina. O objetivo é não só se abastecer, mas aumentar seu peso, que já é grande, na formação dos preços dos minérios no mercado mundial.

Vejam os números. "Os chineses importaram 686 milhões de toneladas de minério de ferro no ano passado, cerca de 50% do consumo mundial", lembra Jorge Arbache. Já quanto à soja, somos responsáveis por 38% das importações Chinesas. Passamos, pela primeira vez, os Estados Unidos no ano passado, somos agora os maiores vendedores de soja para os chineses, mas eles compraram 19,8 milhões de toneladas do Brasil, sim, mas importaram ao todo nada menos que 52 milhões de toneladas.

É isso. Como se vê, diz Jorge Arbache, os chineses querem reduzir a dependência das commodities e influenciar cada vez mais nos preços. Querem se proteger e até mesmo ter produção própria fora do país. O mesmo vale para petróleo, diz Arbache. "Como eles são os maiores compradores mundiais de muitas commodities, têm enorme e crescente influência na formação do preço e podem forçar fornecedores a revê-los. Na verdade, eles já se utilizaram dessa prática inúmeras vezes, como no caso das importações de minério de ferro."

Brasil depende mais. "Dessa forma, ao contrário do que poderia parecer, nós dependemos muito mais da China do que vice-versa", afirma o economista, que se especializou no comércio entre os dois países. "E quanto mais o tempo passar sob esse regime, maior será o estrago para nós."

Commodities empobrecem. Mesmo assim, tivemos um superávit comercial com a China, agora nossa principal parceira, responde Arbache, "mas devemos observar que os mais visíveis e profundos efeitos da dependência das commodities, que são a desindustrialização de um lado e a crescente influência do setor de commodities na economia e na política do outro lado." "Os setores de agropecuária e extração mineral empregam menos de 1,6 milhão de pessoas com carteira de trabalho, enquanto a indústria emprega 8 milhões e em geral paga salários e oferece condições de trabalho bem melhores. Ademais, os setores de commodities pagam normalmente muito menos impostos que os demais, e dependem muito menos da produtividade e da inovação para exportar."

E então? Então que o Brasil está diante do grande desafio de conter o aumento e até mesmo reverter essa dependência crescente das commodities sem afetar negativamente a balança comercial. E isso é mais grave agora, porque o superávit comercial vem recuando e deverá ser de US$ 19 bilhões neste ano, em contraste com os quase US$ 30 bilhões em 2011.

Primarização e empobrecimento, um desafio tão sério que iremos analisar com o professor Arbache na próxima coluna.

A torre de Babel - LUIZ PAULO HORTA


O GLOBO - 26/02/12



Em tempos muito remotos, conta a Bíblia, só havia uma língua na terra. Escondida na Arca, aquela humanidade primitiva tinha sobrevivido ao Dilúvio; e agora, confiante em si mesma, queria deixar um sinal da sua importância. Na terra de Senaar, surgiu a ideia peregrina: "Façamos para nós uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não sejamos dispersos pela face da terra."

O Senhor da Bíblia tomou de mau jeito essa demonstração de orgulho. Embaralhou as línguas dos construtores, e lá ficou a torre inacabada.

É uma história antiga, contada na clave do mito. Mas será que é só um mito? Entrevistado pelo GLOBO, o economista André Lara Rezende diz que, brevemente, teremos de mudar um tipo de pensamento econômico que só sabe raciocinar com a ideia de crescimento. A terra, sustenta André, não suporta mais essa ênfase.

Eu, que não sou economista, tenho esse feeling em relação à China: é crescimento demais, aquilo vai acabar explodindo - na política, ou na economia, ou na ecologia.

Você me dirá que, sem crescimento, não se diminui a miséria. É um louvável pensamento humanitário. Estamos impregnados dele até a medula. Mas seria preciso - é o que sustenta André Lara - encontrar outras formas de diminuir a miséria. Talvez por uma melhor distribuição das riquezas acumuladas.

Uma notícia se sucede à outra. Também no GLOBO, leio uma boa reportagem sobre o uso da água no planeta. A agricultura que se pratica hoje consome muita água. De novo, a conta não fecha. Países como o Brasil ainda aparecem relativamente bem nessa foto. Mas o mesmo já não acontece com a China, e até com os Estados Unidos. Por escassez de água, eles dependerão cada vez mais de produtos importados do Brasil. E, para atender a esta sede, vamos pressionar os nossos próprios recursos, perdendo as vantagens que a natureza nos dá.

E assim se volta à velha história bíblica. Mitos imemoriais, em todas as culturas humanas, falam da tendência que nós temos de ultrapassar os limites. Por trás dessa tendência, o vício dos vícios, que é o orgulho.

Se você não gosta de mitos, vamos às histórias concretas. Lembro a de Alcibíades, sedutor e corruptor, discípulo de Sócrates. Houve um momento, na história grega, em que Atenas se equilibrava à frente de uma coalizão instável. O ciúme das outras cidades provocara a guerra do Peloponeso; mas um pouco de habilidade teria preservado o status quo a favor de Atenas. Até que Alcibíades joga o seu peso na balança: ele queria mais, sempre mais. Arrasta os atenienses para a desastrosa expedição da Sicília. E assim se perde a guerra, e com ela a mais bela civilização da Antiguidade.

É fácil empilhar uma história depois da outra - a de Luís XIV, que desperdiçou um momento privilegiado da história francesa; a de Guilherme II, que recebeu uma Alemanha unificada das mãos de Bismarck e a jogou numa aventura militar que, mais adiante, insuflaria o nacionalismo que deu - você sabe em quem. Tudo isso constituindo o que Jorge Luís Borges chamaria de "a história universal da infâmia".

Não haveria saída para esse enredo? Uma coleção respeitável de textos filosóficos ou religiosos procura advertir o ser humano para a possibilidade sempre presente da arrogância e da loucura. O ideal da velha Grécia era o "nada em excesso" ("meden agan"). Os gregos batiam nessa tecla talvez porque soubessem como eles eram dados a excessos.

Mas quem não é? Conta-se de Santo Agostinho que ele teria dito: "Senhor, fazei-me casto; mas não hoje!"

De todas as civilizações do mundo, nenhuma me parece ter andado tão próxima do equilíbrio como a da velha China. Basta ler Confúcio, ou Lao-Tse, e ver o modo como um equilibra e tempera o outro. Nesse velho modelo, a ideia de evitar os excessos tinha lugar de honra. Como na "Canção da metade", de Li Mi-an:

"A metade do caminho, para o homem, é o melhor estado, quando o passo mais lento lhe autoriza a calma. Um amplo mundo jaz entre o céu e a terra. Viver a meio caminho entre o campo e a cidade, ter granjas a meio caminho do arroio e da colina, ser metade estudioso e metade proprietário e metade negociante, e possuir uma casa metade luxuosa e metade singela ... ter uma esposa que não é nem demasiado simples nem demasiado sabida ... É mais prudente ébrio quem é metade ébrio, e as flores meio abertas são mais belas ... como navegam melhor os barcos a meia vela ...!"

Esta é uma China que parece infinitamente remota. Tão diferente da China que agora resolveu imitar todas as loucuras do Ocidente.

O reajuste da gasolina - AMIR KHAIR


O Estado de S.Paulo - 26/02/12


1 Decisão importante - Dia 20 o governo tomou a decisão de estimular o crescimento econômico via redução da taxa de juro ao tomador (pessoas e empresas). Para isso vai usar suas instituições oficiais (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) para induzir a concorrência bancária. É a medida mais eficaz para alavancar o crescimento econômico, e as instituições oficiais constituem seu principal caminho indutor.

Vale dizer que não é a Selic que inibe o consumo, mas a taxa de juro ao consumidor, que não depende dela. Essa taxa constitui a maior anomalia da economia na comparação internacional. Desde 2000 em nenhum mês (!) o Brasil deixou de figurar no topo do ranking da maior taxa de juro ao consumidor num conjunto amplo de países. Essa anomalia é bem maior que a da Selic na comparação internacional.

Se o governo atingir seu objetivo, a maior parte do crescimento econômico será viabilizada, pois a redução da taxa de juro ao consumidor amplia substancialmente o poder aquisitivo dos que usam o crediário. Outra vantagem é a redução da inadimplência. Assim, ganha o consumidor nas compras presentes e futuras pela maior possibilidade de ter ficha limpa.

2. Falta decidir - Se por um lado o governo acertou ao procurar induzir os bancos para a redução da taxa de juro, por outro parece estar errando ao manter congelado o preço ex-refinaria da gasolina, que há muito tempo está defasado na comparação internacional. Não procede a desculpa do governo de que os reajustes de preço não podem ocorrer ao sabor das oscilações nos preços internacionais. Na realidade, não se trata de oscilações, mas sim de longo período de ampla defasagem. A verdadeira razão do governo é que a Petrobrás reajustando os preços da gasolina vai criar inflação. Isso de fato pode ocorrer num primeiro momento, mas não se sustenta, pois o verdadeiro regulador de preço dos bens é o produto importado, que não depende do preço da gasolina, e a tendência é de redução/estagnação dos preços internacionais.

Não deveria, no entanto, ser elevado o preço do óleo diesel e do gás liquefeito de petróleo (GLP). O óleo diesel é insumo básico no custo do transporte coletivo por ônibus e no transporte rodoviário de carga. O GLP é usado na maior parte das residências como combustível nos fogões, pesando no orçamento para as camadas de menor renda.

Deveria, no entanto, reajustar o preço ex-refinaria dos demais derivados do petróleo (óleo combustível, óleo lubrificante e querosene de jato), pois eles têm estrutura de preço baseada em preço de petróleo inferior ao praticado no mercado internacional. Esses reajustes permitem o subsídio cruzado ao diesel e GLP e a elevação de preço não se concentrar só na gasolina.

São inúmeras as vantagens com a elevação do preço da gasolina. Cito algumas: a) reduz a poluição atmosférica; b) melhora o trânsito; c) reduz a importação de gasolina; d) potencializa a Petrobrás e; e) melhora as contas do governo.

3. Poluição - Com o aumento no preço da gasolina ocorre redução dos gases da combustão ao diminuir os veículos em circulação, e na substituição da gasolina pelo álcool, que é menos poluidor. O benefício à saúde atinge a todos.

4. Trânsito - O trânsito depende da quantidade de carros em circulação, que se encontra saturada em quase todas as cidades de grande e médio portes, e é importante causa de estresse para os motoristas. A elevação do preço da gasolina reduz os carros em circulação, aliviando o trânsito. A velocidade média dos veículos aumenta, reduzindo os tempos de viagem do transporte individual e coletivo por ônibus. A demanda adicional por transporte em ônibus pode assim ser atendida.

5. Importação de gasolina - O consumo de etanol diminuiu com o baixo preço da gasolina, o que obrigou o País a importar gasolina, subsidiando-a para o mercado interno. Em 2010 essa importação foi 18% superior à de 2009. Em 2011 foi 24% superior à de 2010 e em janeiro deste ano superou em 36% igual mês de 2011. Com a elevação do preço da gasolina o etanol poderá subir de preço, tendendo a atingir 70% do preço da gasolina, elevando sua oferta e reequilibrando a relação de consumo gasolina/etanol rompida há alguns anos, permitindo expressiva redução nas despesas da Petrobrás com menor importação de gasolina.

6. Petrobrás e governo - A Petrobrás, maior empresa da América Latina e líder mundial na tecnologia de exploração de petróleo em águas profundas, está diante do seu maior desafio: a extração de petróleo do pré-sal, onde o conhecimento tecnológico ainda é incipiente. Os investimentos para essa empreitada são de magnitude ímpar em escala global. Os recursos para investir vêm do capital próprio, originado pelo lucro, e de empréstimos. Na equação financeira é fundamental maximizar o capital próprio e obter empréstimos com taxa de juro baixa.

Ora, o governo ao segurar os preços dos derivados de petróleo está dificultando a obtenção dos recursos pela via do capital próprio. Isso ficou evidente no balanço do último quadrimestre de 2011, quando o lucro da empresa despencou, surpreendendo a todos. Segundo o diretor financeiro da Petrobrás Almir Barbassa, a defasagem de preços foi responsável por cerca de 50% da queda do lucro no quarto trimestre que ficou em R$ 5 bilhões, contra R$ 10,6 bi em igual trimestre de 2010. Isso maculou a imagem da Petrobrás e suas ações sofreram forte queda. Se não ocorrer com urgência o reajuste da gasolina, a Petrobrás pode correr o risco de operar com prejuízo!

É claro que a Petrobrás não é como a Vale do Rio Doce, que para elevar seu lucro dobrou o preço do minério de ferro no início de 2010, prejudicando empresas e consumidores. Caso o governo concordasse com elevação substancial de preços dos derivados de petróleo, a Petrobrás daria lucros fabulosos e o governo, como importante acionista, receberia polpudos dividendos. Felizmente não é o caso. Há a responsabilidade dos impactos que podem ser causados na economia, na fixação dos preços ex-refinaria dos derivados do petróleo, onde alguns foram destacados para o óleo diesel e GLP. É isso que caracteriza uma empresa estratégica.

A elevação do preço da gasolina tem as vantagens supra indicadas, além de: a) potencializar o capital próprio da Petrobrás, aliviar seu fluxo de caixa e ampliar seu poder de negociação nos empréstimos; b) elevar o valor de suas ações e; c) permitir maior distribuição de dividendos, especialmente ao governo.

Finalmente, o reajuste da gasolina pode sinalizar uma saudável guinada para a política de estímulo à indústria automobilística, não mais baseada na produção de carros para o mercado interno, que agrava a já saturada malha viária, mas de estímulo à produção de ônibus, caminhões para transporte de carga e máquinas agrícolas, e de desestímulo para os veículos que consomem mais combustível elevando seu IPI.

Passou da hora de reajustar a gasolina. A Petrobrás não deve ser usada como biombo da inflação diante do maior desafio da sua história, que é garantir ao País os frutos da exploração no pré-sal. Vamos aguardar.