quarta-feira, dezembro 07, 2011
A inútil emenda do diploma de jornalista - EDITORIAL O GLOBO
O Globo - 07/12/2011
A Constituição brasileira é conhecida pelo excesso de detalhismo. Talvez porque grupos organizados na sociedade sempre busquem incluir na Carta dispositivos de seu interesse, nela há uma quantidade excessiva de temas que poderiam ser regulados por legislação ordinária. Mas, como o objetivo desses grupos é perpetuar benefícios, eles tentam, e à vezes conseguem, a blindagem do texto constitucional, só alterado num ritual de votações sucessivas e quórum qualificado.
Um caso exemplar é a proposta de emenda constitucional patrocinada nos corredores do Congresso por corporações sindicais com raízes no serviço público para restabelecer a obrigatoriedade do diploma de jornalista. Na semana passada, a PEC passou com sucesso pelo primeiro turno de votação no plenário do Senado, por 65 votos a sete, com apoio suprapartidário, sinal da força do lobby. Apenas o PSD fechou questão contra.
Tudo inútil, pois a manobra vai contra decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), tomada em 2009, a partir de recurso impetrado contra posição da Justiça de São Paulo. Tão logo caiu a exigência, grupos de sindicalistas começaram a agir em Brasília para viabilizar a tal PEC.
O fim do diploma veio atender a especificidades do ofício. As redações, que, antes da regulamentação da profissão, em 1969, congregavam talentos de várias formações, tiveram de se renovar limitadas a diplomados.
O julgamento do Supremo que revogou parte do decreto-lei regulamentador, baixado pela ditadura, estabeleceu uma ligação clara entre a exigência do diploma e a limitação à liberdade de expressão e do livre exercício de profissões sem possibilidade de causar prejuízos e danos a terceiros.
É descabida a tramitação da PEC do diploma porque liberdade de expressão e de imprensa é cláusula pétrea da Constituição. Não pode ser revogada, contrariada por qualquer outra lei, tampouco por uma emenda à própria Carta cujo espírito a contrarie.
Com o fim da exigência do diploma, pouco mudou nas redações (ela deixou de vigorar em 2007, por liminar). Apenas as empresas puderam contratar, sem riscos jurídicos, a colaboração de especialistas com outras formações. Nenhuma faculdade, isoladamente, é capaz de formar pessoas em condições de tratar com eficiência da enorme variedade de assuntos abordados pelas redações profissionais, todas há algum tempo multimídia.
Também não alterou a prioridade que as empresas concedem aos diplomados pelas faculdades de comunicação, instruídos no domínio de técnicas que jornais, revistas, rádios, TVs, sites etc. necessitam. Tanto que o perfil de contratação não sofreu alterações substanciais. Sem a reserva de mercado do diploma, as faculdades têm, ainda, estímulo para aperfeiçoar a qualidade do ensino, a fim de facilitar a contratação de profissionais que já são procurados pelos empregadores.
Inútil, pela base legal frágil, a PEC serve apenas para políticos fazerem um gesto a lobistas.
Patrícia Poeta! Domingo todo dia! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 07/12/11
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
E com a Patrícia Poeta no "Jornal Nacional", a gente vai pensar que todo dia é domingo. OBA! Domingo Nacional! E a charge do Zé Dassilva com o Bonner: "Última Notícia! Fátima, esquenta a janta que eu tô chegando". Adorei o "JN": parecia Miss Universo! Miss Fátima passando o bastão pra miss Poeta!
E as matérias do desenvolvimento profissional da Fátima e da Patrícia? São idênticas: começam com aquele cabelo macarrão parafuso fazendo matéria de esgoto e saneamento, depois matéria que tem que chorar, depois são enviadas especiais a algum país que solta fumaça pela boca, voltam pro "Fantástico" e terminam na bancada!
E a TV Vale Tudo revela o diálogo das misses: "Fantástico, né, querida?". "Mas não é 'Jornal Nacional?'" E uma amiga minha diz que sexo na casa dela tá cada vez mais "Fantástico": aos domingos depois da pizza!
E esta é inédita: Adriano não foi na balada da comemoração do Timão! Adriano faltou na balada!
E olha esta antipredestinada. Assessora de comunicação da empresa do Ronaldo Fenômeno: Sandra Azedo!
O Ronaldo tem quatro sugestões pra Copa 2014: 1) mascote: um hipopótamo; 2) gordo não paga meia-entrada; 3) segurança feita por uma equipe de lutadores de sumô; 4) show de abertura: Fat Family!
E tem aquele deputado a favor da divisão do Pará: João Salame Neto. O Salame quer fatiar o Pará! E este é o grande problema da divisão do Pará: mais três Estados pra gente decorar. Qual a capital de Carajás? Qual a capital de Tapajós? Eu só conheço de cor a capital de Honduras. Tegucigalpa! Rarará!
E a manchete de "O Dia": "Homem preso por filmar a própria sogra nua". Terrorista! Qual o crime? Atentado aos próximos! Ele tava fazendo um filme de terror? Ou era clipe pra inscrição no "Big Brother"?
E do jeito que a Dilma tá chutando ministro, ela vai ser convidada a dar o pontapé inicial na Copa! Chutando o Ricardo Teixeira! Rarará!
O Brasileiro é Cordial! Olha o cartaz numa banca do Brás, aqui em São Paulo: "Não dou informação e nem quero discutir". E esta: "Garagem! Evite tabefe". E outra: "Quem for pego mijando ou cagando, vai levar madeirada". Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
A Bolsa-Consultoria de Pimentel - ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 07/12/11
Se a doutora Dilma acha que pode manter Fernando Pimentel no Ministério do Desenvolvimento, deve chamar de volta Antonio Palocci, pedindo-lhe desculpas pelo mau jeito. Ambos fizeram fortuna dando consultorias a empresários. Palocci ganhou R$ 7,5 milhões em quatro anos e perdeu a chefia da Casa Civil. O repórter Thiago Herdy revelou que Pimentel coletou R$ 2 milhões em menos de dois, a partir do fim de janeiro de 2009, quando deixou a Prefeitura de Belo Horizonte.
O ministro argumenta que sua experiência a serviço da cidade justifica uma remuneração de cerca de R$ 1,2 milhão líquidos. Como sua empresa, a P21, foi desfeita em dezembro de 2010, "isso dá cerca de R$ 50 mil por mês, é uma remuneração compatível com o mercado de executivos".
Não se conhece a lista de clientes de Palocci, mas sabe-se que a Federação e o Centro de Indústrias de Minas Gerais pagaram R$ 1 milhão a Pimentel por nove meses de consultoria. Para o sindicalismo patronal, esse é um santo dinheiro, pois não é necessário ganhá-lo para fazer os cheques. O numerário vem da Viúva, pelos impostos que incidem sobre as folhas de pagamento. O patronato reclama da carga tributária e do Custo Brasil, mas não quer largar esse mimo.
Se Pimentel pudesse apresentar os estudos que fez para a FIEMG, tudo estaria resolvido. Ele diz que prestou "uma consultoria direta", seja o que for que isso significa. O general Brent Scowcroft, presidente do Conselho de Inteligência do presidente George Bush e assessor para assuntos de segurança nacional de dois de seus antecessores (Bush pai e Gerald Ford) recebia US$ 300 mil anuais para comandar o escritório de consultoria do ex-secretário de Estado Henry Kissinger em Washington. Pimentel faturou o dobro, só com a Fiemg.
Em 1986, os melhores fregueses de Kissinger pagavam US$ 420 mil anuais. Na presidência da Fiemg, o doutor Robson Andrade, atual mandarim da Confederação Nacional das Indústrias, pagou cerca de US$ 550 mil a Pimentel. Um verdadeiro caçador de talentos. Seu consultor fora prefeito de Belo Horizonte e era candidato ao governo de Minas. Viria a ser um breve coordenador da campanha de Dilma Rousseff e, com sua vitória, foi para o ministério. Os empresários brasileiros não são perdulários, apenas sabem que o dinheiro vindo da Viúva tem um zero a mais.
Em fevereiro de 2010, Pimentel dizia que seu patrimônio não chegava a R$ 1 milhão. Com a P21, em dois anos, amealhou algo como o dobro do que acumulara em outros 30 de vida adulta. Justificando o desempenho, diz que essa "foi a forma que eu tive de ganhar dinheiro e sobreviver".
Em janeiro passado, o petista Patrus Ananias, um de seus antecessores na Prefeitura de Belo Horizonte, deixou o Ministério do Desenvolvimento Social, onde, ao longo de seis anos, movera orçamentos de R$ 40 bilhões, e foi sobreviver batendo ponto como funcionário da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
Pimentel é um comissário histórico e está no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Sua freguesia está no andar de cima. O exercício do poder deu-lhe acesso ao programa Bolsa Consultoria. Patrus Ananias, pobre homem, cuidava da clientela do Bolsa-Família.
Se a doutora Dilma acha que pode manter Fernando Pimentel no Ministério do Desenvolvimento, deve chamar de volta Antonio Palocci, pedindo-lhe desculpas pelo mau jeito. Ambos fizeram fortuna dando consultorias a empresários. Palocci ganhou R$ 7,5 milhões em quatro anos e perdeu a chefia da Casa Civil. O repórter Thiago Herdy revelou que Pimentel coletou R$ 2 milhões em menos de dois, a partir do fim de janeiro de 2009, quando deixou a Prefeitura de Belo Horizonte.
O ministro argumenta que sua experiência a serviço da cidade justifica uma remuneração de cerca de R$ 1,2 milhão líquidos. Como sua empresa, a P21, foi desfeita em dezembro de 2010, "isso dá cerca de R$ 50 mil por mês, é uma remuneração compatível com o mercado de executivos".
Não se conhece a lista de clientes de Palocci, mas sabe-se que a Federação e o Centro de Indústrias de Minas Gerais pagaram R$ 1 milhão a Pimentel por nove meses de consultoria. Para o sindicalismo patronal, esse é um santo dinheiro, pois não é necessário ganhá-lo para fazer os cheques. O numerário vem da Viúva, pelos impostos que incidem sobre as folhas de pagamento. O patronato reclama da carga tributária e do Custo Brasil, mas não quer largar esse mimo.
Se Pimentel pudesse apresentar os estudos que fez para a FIEMG, tudo estaria resolvido. Ele diz que prestou "uma consultoria direta", seja o que for que isso significa. O general Brent Scowcroft, presidente do Conselho de Inteligência do presidente George Bush e assessor para assuntos de segurança nacional de dois de seus antecessores (Bush pai e Gerald Ford) recebia US$ 300 mil anuais para comandar o escritório de consultoria do ex-secretário de Estado Henry Kissinger em Washington. Pimentel faturou o dobro, só com a Fiemg.
Em 1986, os melhores fregueses de Kissinger pagavam US$ 420 mil anuais. Na presidência da Fiemg, o doutor Robson Andrade, atual mandarim da Confederação Nacional das Indústrias, pagou cerca de US$ 550 mil a Pimentel. Um verdadeiro caçador de talentos. Seu consultor fora prefeito de Belo Horizonte e era candidato ao governo de Minas. Viria a ser um breve coordenador da campanha de Dilma Rousseff e, com sua vitória, foi para o ministério. Os empresários brasileiros não são perdulários, apenas sabem que o dinheiro vindo da Viúva tem um zero a mais.
Em fevereiro de 2010, Pimentel dizia que seu patrimônio não chegava a R$ 1 milhão. Com a P21, em dois anos, amealhou algo como o dobro do que acumulara em outros 30 de vida adulta. Justificando o desempenho, diz que essa "foi a forma que eu tive de ganhar dinheiro e sobreviver".
Em janeiro passado, o petista Patrus Ananias, um de seus antecessores na Prefeitura de Belo Horizonte, deixou o Ministério do Desenvolvimento Social, onde, ao longo de seis anos, movera orçamentos de R$ 40 bilhões, e foi sobreviver batendo ponto como funcionário da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
Pimentel é um comissário histórico e está no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Sua freguesia está no andar de cima. O exercício do poder deu-lhe acesso ao programa Bolsa Consultoria. Patrus Ananias, pobre homem, cuidava da clientela do Bolsa-Família.
Nesta 'terra do nunca' o crime sai bem na fita - JOSÉ NÊUMANNE
O Estado de S.Paulo - 07/12/11
Neste fim de semana William de Oliveira brilhou nas páginas dos jornais em várias fotografias. Uma, atual, que mereceu maior destaque, registra sua presença à mesa com Francisco Bonfim Lopes, o Nem, chefão do tráfico de drogas na Favela da Rocinha preso recentemente. A imagem, obtida e fornecida aos meios de comunicação pela polícia do Rio de Janeiro, seria o flagrante do momento em que intermediava a venda de fuzis ao traficante. Como convém a uma reunião de negócios, o ambiente parecia tenso, e não era para menos: na companhia dos protagonistas, o figurante Alexandre Leopoldino, auxiliar de manutenção na Superintendência de Engenharia e Manutenção (Supem) da Casa Civil do governo do Estado do Rio de Janeiro, segurava ostensivamente um fuzil. Em outra foto, de semblante carregado, William, também servidor público, lotado no gabinete da vereadora Andrea Gouvêa Vieira, do PSDB, que o exonerou assim que soube da notícia, aparece algemado na hora da captura. Nas outras fotos, a mesma personagem mostra seu melhor sorriso de dentes alvos ao lado de figurões da República e do Estado: a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governador Sérgio Cabral e o ex-governador e ex-secretário de Segurança Anthony Garotinho.
Ninguém, é claro, está imune a ter registrada uma camaradagem explícita com alguém acusado de crime grave, por uma câmera fotográfica. Personalidades públicas, como artistas e candidatos a cargos eletivos, estão sujeitas a ser surpreendidas por conexões incômodas com a publicação de imagens como essas. Acusar uma celebridade de cumplicidade com um criminoso por um flagrante infeliz seria uma irresponsabilidade. Mas merece reflexão a acusação a William de Oliveira, feita pelo delegado Márcio Mendonça, da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (Derfa), de ter intermediado a venda de um fuzil AK-74 a Nem. Pode haver contradição mais cruel do que o ex-presidente de uma entidade intitulada União Pró-Melhoramentos e benemérito da campanha do desarmamento ser pilhado armando bandidos, para que estes possam executar cidadãos honestos? Trata-se de uma ironia que transcende a pura amargura, mas, infelizmente, não passa de um respingo de lama.
O vídeo de 18 minutos em mãos da polícia fluminense é mais uma evidência dos vasos de comunicação existentes entre crime e política, grupos armados que violam a lei e figurões republicanos que se engalfinham pelo poder no Estado. Nessa comunicação do "me engana que eu gosto" se utiliza o eufemismo politicamente correto como retórica oficial. Não sei se o distinto leitor já reparou, mas nos noticiários de televisão não se usa mais a palavra favela, com a qual antes se definiam conjuntos de habitação precária em que a miséria cerca nossos centros urbanos. O nome foi dado pelos sobreviventes da Guerra de Canudos que foram morar nos morros do Rio e tem origem na forma como é denominada uma planta do semiárido de origem. Hoje são "comunidades".
A prática de tentar suavizar uma brutalidade pela retórica caridosa se tem tornado corriqueira nesta era da comunicação de massas, em que a linguagem se sobrepõe ao ato e a versão prevalece sobre o fato. Chamar um negro de "afrodescendente" não elimina o preconceito racial, mas o mascara de forma conveniente para uma sociedade de faz de conta, na qual a incapacidade de acabar com conflitos usa a hipocrisia para mascará-los. Mesmo apanhado em flagrante delito, William da Rocinha foi qualificado como "líder comunitário". O eufemismo benevolente torna-o um benfeitor por vocação, ao mesmo tempo que fornece o álibi perfeito a todos os políticos que se aproveitaram de seu prestígio na "comunidade", desde sempre desamparada e desprezada pelo Estado e seus agentes, para angariar votos em campanha e boas imagens populistas para os shows de marketing político ao longo das administrações. Trata-se de uma prática antiga e disseminada. O ex-governador do Rio Leonel Brizola praticamente avalizou a tomada do território das "comunidades carentes" instaladas na periferia da capital fluminense ao declarar que sua polícia não subiria o morro para não constranger o morador dos bairros pobres. O poder real na Rocinha, representado (até a prisão) pelo traficante Nem, e o poder político da República - presidentes e governador no exercício de seus mandatos, o secretário de Segurança que ignora o óbvio e a vereadora tucana que o sustenta com nosso dinheirinho escasso - se curvaram ante o "representante do povo".
Mais irônico é que no dia em que foi noticiada a prisão de William da Rocinha também foi divulgada a de Marcos Valério Fernandes de Souza, o lobista acusado de operar uma prática lesiva ao interesse público inadequadamente apelidada de "mensalão". Como Al Capone, o gângster mais poderoso e violento da Chicago da Lei Seca, caiu nas malhas do fisco, o "careca" (agora com fios incipientes de cabelo no crânio), como ficou conhecido, na definição do delator da fraude, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), foi preso sob acusação de ter falsificado matrículas de imóveis em São Desidério (BA) para fraudar processos de execução de dívidas com instituições financeiras e empresas. Com a Operação Terra do Nunca, o Ministério Público e a Polícia Civil da Bahia, cujo governador, Jaques Wagner, é do PT, desmoralizaram por tabela todas as tentativas dos principais réus do processo - entre os quais José Dirceu, ex-chefe da Casa Civil no governo Lula - de negar a existência de um eventual esquema de compra de apoio de parlamentares de legendas menores da base governista em votações no Congresso de interesse do governo.
Na "terra do nunca" o crime sai bem na fita, já que o braço da lei só logra alcançar "bagrinhos" sem força, como William da Rocinha e Marcos Valério.
Antídoto à mesmice - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 07/12/11
No Brasil ninguém dá especial atenção à realização de consultas prévias dentro dos partidos para escolher candidatos a eleições. A tradição é a disputa em convenções ou, mais habitualmente, o acerto de cúpula em torno desse ou daquele nome.
As prévias são vistas mais como um sinal negativo de desorganização partidária do que propriamente como um medidor do grau de democracia interna. Produto talvez do modelo que celebra o conchavo e despreza o papel da sociedade na política brasileira.
O PT enquanto esteve na oposição foi tido como exceção, embora em diversas ocasiões em que se impunha a necessidade da mão pesada o partido não tenha hesitado em recorrer à intervenção "de cima".
Depois de conquistar o poder central - ou melhor, desde quando decidiram se empenhar para conquistá-lo -, os petistas deixaram de lado as veleidades democráticas e aderiram ao padrão vigente.
Ao ponto de a direção anunciar que para as eleições municipais de 2012 a regra é seguir o exemplo da candidatura imposta em São Paulo, arquivar as disputas e fechar questão em torno dos mandamentos da chefia.
Onde há liderança forte, o critério é a vontade do líder. É assim no PT com Luiz Inácio da Silva, foi assim com o antigo PFL em âmbito regional - com destaque para a Bahia de Antônio Carlos Magalhães -, deu certo no PSDB enquanto o partido dispôs de um grupo de referência: Franco Montoro, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Tasso Jereissati.
Uns perdiam outros ganhavam, mas era dele que saíam as decisões, embora nele também tenham nascido rachas incontornáveis que até hoje se expressam na divisão responsável por boa parte dos fracassos eleitorais colecionados pelo partido.
Nunca houve prévias no PSDB para escolher candidatos à Presidência. Nem daquelas consultas meramente formais realizadas no PT antes da homologação das sucessivas candidaturas de Lula.
Tampouco houve prévias na seara tucana para escolher candidatos a governador ou prefeito em São Paulo, seu principal reduto.
Na capital paulista, desde a fundação do partido, as escolhas se alternaram entre a entrada de José Serra em cena, em 1988, 1986 e 2004, a candidatura de Fábio Feldman em 1992 por causa da rejeição da cúpula ao postulante da época (Getúlio Hanashiro) e a teimosia de Geraldo Alckmin em 2008.
Mantidas as condições de hoje, ao que tudo indica os tucanos vão inaugurar a prática das prévias em São Paulo.
Não por iniciativa da cúpula, mas justamente a despeito da vontade da cúpula e em decorrência das circunstâncias: a ausência das referências de outrora e o enfraquecimento progressivo do partido que ao mesmo tempo perde identidade junto ao eleitorado e se perde nas mesquinharias internas.
As prévias aí podem representar uma saída para o PSDB. Não necessariamente para ganhar a eleição, mas como forma de arejar o partido, dar vez e voz à chamada base, quem sabe abrir espaço a novas lideranças para recomeçar.
Isso tudo partindo do princípio de que seja verdadeira a disposição de José Serra de não concorrer. Se entrar na disputa, fica o dito pelo não dito e adeus prévias.
De todo modo, o fato de haver já quatro pré-candidatos em andanças por diretórios discutindo política e administração em debates públicos dificulta embora não impossibilite um recuo de última hora.
Se bem-sucedida, a prévia paulistana até poderia servir como experiência para a escolha do candidato presidencial em 2014 em ambiente politicamente muito mais saudável que o império da mesmice ora em cartaz no latifúndio improdutivo também conhecido pelo nome de oposição.
Abaixo da média. A ministra Rosa Weber, indicada para o Supremo Tribunal Federal, não causou, digamos, a melhor das impressões na sabatina de ontem na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
Não fosse o colegiado homologatório e a recusa de uma indicação da Presidência da República para o STF, algo fora dos padrões da amena massa crítica do Parlamento, a ministra correria sério risco de reprovação.
Revolução de forma e conteúdo - FLAVIA GUERRA
O ESTADÃO - 07/12/11
Digitalização muda não só o modo de fazer, mas o de se consumir audiovisual
Não é clichê, mas fato que nos últimos anos a tecnologia digital causou revoluções no mercado de cultura e entretenimento mundial. A música deixou de depender do suporte para circular livremente por mp3 players pelo mundo. Os filmes agora também podem ser guardados, 'transportados e exibidos em formatos digitais. O digital democratizou a produção de filmes. Sem depender da película, cada vez mais curtas e longas são filmados, vão direto do cartão de memória para o HD, do HD para a edição, da montagem para o cinema.
Por falar em cinema, produções digitais deixarão de ser transferidas para a película e passarão a ser exibidas em formato digital. Ou seja, o audiovisual do 35 mm está próximo. Nos Estados Unidos, exibidores e distribuidores decretaram que 2013 é o ano do fim da circulação das cópias em película no mercado americano. Esta decisão terá impacto mundial. Os mercados terão de se adaptar para receber e exibir as produções digitais. Há estimativas de que até 2015 mais nenhum país no mundo vai exibir novas produções em película, já que, em menor escala, a produção se torna a cópia física mais cara.
Será o começo de uma nova forma de se consumir o audiovisual. A digitalização vai levar o mercado audiovisual para a era dos lançamentos de fato simultâneos. Com o barateamento do custo de exibição, salas em locais distantes não dependerão mais do transporte de película para mostrarem filmes. Muda também o uso que se faz do audiovisual. Em vez de só para se assistir a filmes, Os locais passam a ser usadas para transmissões ao vivo de peças, shows, óperas e até jogos de futebol. Em um país em que há demanda excedente para estádios de futebol, já houve várias sessões lotadas para se assistir a clássicos na grande tela.
Sem contar que cidades que não têm a chance de receber uma ópera ou uma balé podem ter acesso a transmissões de obras-primas como Fausto, que ganha sessão no sábado, diretamente do Metropolitan Opera de Nova York (o MET) em São Paulo, Paraná, Brasília, Rio, etc.
Então, com a revolução do digital, o Brasil só tem o que comemorar? "Não ainda. Estamos muito atrás. Pode parecer apocalíptico. E é. Se não corrermos e não equiparmos nossas salas com projetores digitais, muitos cinemas vão fechar porque não vão conseguir exibir filmes", responde Fabio Lima, da Mobz, lembrando que o País tem 2.349 salas de exibição e, destas, 240 são equipadas com projetores digitais (15%). "A transição não vai ser gradativa, Se não aprovarmos os VPF (leia abaixo) e aprovarmos a medida provisória que diminui o custo do processo, vai haver um colapso."
Fabio sabe do que fala. Criou a primeira rede de cinemas digitais do mundo, por meio da Rain network, de onde saiu há dois anos para se dedicar à MovieMobz, a 1.º empresa do mundo a distribuir filmes exclusivamente em digital e sob demanda para o cinema. Com a Mobz, espectadores podem assistir a qualquer filme em qualquer sala. Basta se mobilizar. E ter, claro, uma sala com projetor digital em sua cidade. "Se as salas não têm equipamento, de nada adianta a Mobz ter a demanda. Se não fizermos essa migração, não é só a Mobz que vai entrar em crise. É todo o sistema exibidor nacional", comentava ele no sábado, enquanto assistia com o Estado à exibição da ópera Rodelinda em um estúdio no Pacaembu.
Lá, o sinal emitido pelo MET era captado, a 'cópia' ganhava legendas em português e era retransmitida para várias salas do País. Se não havia a chance de ver ao vivo, ao menos os espectadores tinham a oportunidade de ver uma ópera em tempo real, com altíssima qualidade de som, luz e imagem. São experiências como esta que a digitalização pode proporcionar.
As reformas de Dilma - CRISTIANO ROMERO
VALOR ECONÔMICO - 07/12/11
A presidente Dilma Rousseff está conduzindo duas reformas estruturais: a regulamentação da emenda constitucional que iguala os regimes de aposentadoria de trabalhadores dos setores público e privado, e a concessão de aeroportos à iniciativa privada. A primeira reforma, além de enfrentar o problema do déficit da previdência a longo prazo, estimulará a formação de poupança doméstica, um passo importante para o país depender menos de recursos externos para financiar seu crescimento. A segunda ajudará a aumentar a eficiência da economia.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou sua gestão, em 2003, com surpreendente ímpeto reformista. Quis mudar os regimes previdenciário e tributário, além da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). No fim, desistiu das reformas tributária e trabalhista, mas aprovou, com dificuldade, a da previdência do setor público, desagradando ao funcionalismo público,uma das bases sociais do PT.
Lula considerou tão elevado o custo político daquela reforma que desistiu de regulamentá-la. Depois do escândalo do mensalão, abandonou de vez o projeto. Para se sustentar no cargo, reaproximou-se do movimento sindical, com quem firmou pacto para não privatizar nem fazer concessões ao setor privado no segundo mandato, e manteve-se longe de toda e qualquer medida considerada "impopular".
É por essa razão que o projeto de lei 1.992, de 2007, adormeceu nos escaninhos do Congresso por absoluta falta de interesse do governo e de sua base de apoio em colocá-lo para votação. O projeto cria a Fundação de Previdência Complementar do Servidor Público Federal (Funpresp), o fundo de pensão do funcionalismo. Sem a aprovação dessa lei, a reforma da previdência de 2003 não entra em vigor.
Além de tirar o projeto de lei do limbo, a presidente Dilma determinou que ele fosse analisado em regime de urgência constitucional (a votação tem que ocorrer no prazo de 45 dias em cada Casa do Congresso, do contrário, tranca a pauta de votação). A decisão marca a retomada das reformas estruturais, iniciadas pelos governos pós-ditadura militar, aceleradas pela gestão Fernando Henrique Cardoso e interrompidas por Lula.
As mudanças na previdência vão reduzir de forma significativa, no longo prazo, o risco atuarial da previdência social. No curto prazo, como bem lembra a equipe de economistas do banco Credit Suisse, o déficit previdenciário, hoje em torno de R$ 120 bilhões se levados em conta todos os regimes (geral e próprios do serviço público), aumentará porque o Tesouro Nacional será obrigado a fazer aportes ao fundo (ou fundos, caso cada poder da República tenha o seu) de previdência complementar dos funcionários públicos.
Com a criação dos fundos de pensão, o economista Marcelo Abi-Ramia Caetano, do Ipea, calcula que a despesa previdenciária da União aumentará, nas três primeiras décadas, um pouco acima de 0,10% do Produto Interno Bruto (PIB) em alguns anos. Depois disso, haverá redução do gasto anual em até 0,2% do PIB.
As novas regras só valem para aqueles que ingressarem no serviço público após a criação do fundo de pensão. Não alteram, portanto, o status quo dos atuais funcionários públicos, o que torna incompreensível a reação dos mesmos à mudança. Eles continuarão a gozar do benefício à aposentadoria quase integral. Além disso, os futuros servidores não têm o que temer. No novo regime, como todo empregado do setor privado, eles estarão submetidos ao teto pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), hoje fixado em R$ 3.691,74, mas terão o direito de receber complementação de aposentadoria, benefício que, infelizmente, a maioria dos trabalhadores não tem.
A unificação das regras de aposentadoria é, além de uma medida econômica relevante, uma questão de justiça social. Enquanto, na média, um trabalhador do setor privado contribui anualmente com R$ 5.621 para o INSS, um servidor público recolhe R$ 7.768 aos regimes próprios do setor público. O problema é que, enquanto o benefício mensal médio recebido pelo funcionário é de R$ 1.733, o do aposentado ou pensionista é de R$ 780
Luzes amarelas - FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 07/12/11
BRASÍLIA - Em política ou na vida, não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe. O PT está no poder há nove anos. Lula fez um governo próspero. Dilma teve um ano bom, criou para si a imagem de disciplinadora. Ganhou parte considerável da classe média.
Para 2012, há sinais de que alguns ajustes serão necessários nos dois pilares vitais de qualquer governo, a política e a economia. O anúncio de que o PIB do terceiro trimestre não cresceu já era até esperado, mas não há segurança a respeito do que poderá haver de inesperado ainda nas finanças internacionais.
Em 2009, a crise externa jogou o PIB do Brasil no chão. Em 2010, ano eleitoral, Lula abriu o cofre. É doce viver em autoengano. Agora os problemas vieram à tona para valer.
É impossível prever com precisão o estado da economia em 2012, embora os indicadores mostrem um ceticismo além do observado há seis meses. O clima mudou.
Essa incerteza sobre o crescimento do país é uma das duas luzes amarelas acesas à frente de Dilma. A outra é na política. Ninguém perde sete ministros impunemente. Há cicatrizes espalhadas na Esplanada. Sem contar as novas feridas abertas quase a cada semana.
O caso de Fernando Pimentel, titular do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior é emblemático. Único entre todos os ministros bancado 100% por Dilma, ele pena para se livrar do papel de "Palocci 2", acusado de tráfico de influência.
As nuvens cinzas podem se dissipar. Claro. Não é um absurdo a economia brasileira se recuperar, apesar das dificuldades externas. Pimentel pode se explicar e convencer a todos sobre a lisura de seus negócios. Dilma então fará um governo mais azeitado, com ministros indicados por ela a partir de 2012. No momento, entretanto, as luzes amarelas impedem qualquer um de fazer vaticínios tão otimistas para a administração federal do PT.
BRASÍLIA - Em política ou na vida, não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe. O PT está no poder há nove anos. Lula fez um governo próspero. Dilma teve um ano bom, criou para si a imagem de disciplinadora. Ganhou parte considerável da classe média.
Para 2012, há sinais de que alguns ajustes serão necessários nos dois pilares vitais de qualquer governo, a política e a economia. O anúncio de que o PIB do terceiro trimestre não cresceu já era até esperado, mas não há segurança a respeito do que poderá haver de inesperado ainda nas finanças internacionais.
Em 2009, a crise externa jogou o PIB do Brasil no chão. Em 2010, ano eleitoral, Lula abriu o cofre. É doce viver em autoengano. Agora os problemas vieram à tona para valer.
É impossível prever com precisão o estado da economia em 2012, embora os indicadores mostrem um ceticismo além do observado há seis meses. O clima mudou.
Essa incerteza sobre o crescimento do país é uma das duas luzes amarelas acesas à frente de Dilma. A outra é na política. Ninguém perde sete ministros impunemente. Há cicatrizes espalhadas na Esplanada. Sem contar as novas feridas abertas quase a cada semana.
O caso de Fernando Pimentel, titular do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior é emblemático. Único entre todos os ministros bancado 100% por Dilma, ele pena para se livrar do papel de "Palocci 2", acusado de tráfico de influência.
As nuvens cinzas podem se dissipar. Claro. Não é um absurdo a economia brasileira se recuperar, apesar das dificuldades externas. Pimentel pode se explicar e convencer a todos sobre a lisura de seus negócios. Dilma então fará um governo mais azeitado, com ministros indicados por ela a partir de 2012. No momento, entretanto, as luzes amarelas impedem qualquer um de fazer vaticínios tão otimistas para a administração federal do PT.
Eurolândia - ANTONIO DELFIM NETTO
FOLHA DE SP - 07/12/11
O problema da Eurolândia deve ser visto de uma perspectiva histórica. Evoluiu de uma zona de livre comércio nos anos 50 para a construção de uma federação inconclusa.
Os resultados das primeiras quatro décadas foram de bastante sucesso. Envolveram uma liberalização crescente das transações de bens e serviços, com sucessiva eliminação das barreiras entre países, e uma intensa movimentação de pessoas e de ideias, o que aumentou o bem-estar de todos.
A partir dos anos 80, o processo começou a aprofundar-se com um formidável passo adiante, que exigia a progressiva redução da soberania das nações participantes e a construção de algumas instituições supranacionais.
Em fevereiro de 1992, foi assinado o Tratado de Maastricht, que impunha uma certa ordem monetária (com o Banco Central Europeu) e disciplina fiscal, com compromisso de todos os participantes terem deficit fiscal menor que 3% do PIB. E de não permitirem que sua relação dívida/PIB fosse maior que 60%.
Tratava-se de resolver um problema político: criar as condições para eliminar as disputas arbitradas militarmente num continente com mil anos de guerra. Certamente, os custos seriam altos em termos de redução das soberanias nacionais e da centralização das decisões políticas e econômicas, além da uniformização das políticas sociais.
Os economistas foram, em geral, críticos da viabilidade dessa construção porque viam dificuldades (não apenas econômicas, mas no final, políticas) para levar à conclusão da projetada federação, como agora estamos assistindo.
Do ponto de vista civilizatório, entretanto, parece claro que, qualquer que seja aquele custo, ele será muito menor do que a destruição de vidas e de trabalho humano (acumulado em bens físicos), produzida na guerra de 1870 entre a França e a Alemanha e do que a devastação de 1914-1918 e da selvageria de 1939-1945.
Alguns países que aderiram à Eurolândia têm a experiência de três quartos de século de submissão a regimes autoritários. E, em alguns deles, a possibilidade de uma centralização tecnocrática causa muita apreensão. Como disse lady Thatcher, "a Inglaterra não tem disposição de entregar-se a 16 mil burocratas de Bruxelas..."
A situação na Eurolândia é muito complicada. Ela tem, na verdade, quatro problemas:
1º) Construir um mecanismo de controle fiscal que possibilite a transferência de renda entre os membros;
2º) Um desalinhamento das moedas dentro do Euro que causa resultados assimétricos nos balanços de pagamentos;
3º) Falta-lhe um Banco Central autônomo que possa ser, de fato, o emprestador de última instância e
4º) Isso torna possível o início de uma crise que pode levar a uma recessão catastrófica.
O problema da Eurolândia deve ser visto de uma perspectiva histórica. Evoluiu de uma zona de livre comércio nos anos 50 para a construção de uma federação inconclusa.
Os resultados das primeiras quatro décadas foram de bastante sucesso. Envolveram uma liberalização crescente das transações de bens e serviços, com sucessiva eliminação das barreiras entre países, e uma intensa movimentação de pessoas e de ideias, o que aumentou o bem-estar de todos.
A partir dos anos 80, o processo começou a aprofundar-se com um formidável passo adiante, que exigia a progressiva redução da soberania das nações participantes e a construção de algumas instituições supranacionais.
Em fevereiro de 1992, foi assinado o Tratado de Maastricht, que impunha uma certa ordem monetária (com o Banco Central Europeu) e disciplina fiscal, com compromisso de todos os participantes terem deficit fiscal menor que 3% do PIB. E de não permitirem que sua relação dívida/PIB fosse maior que 60%.
Tratava-se de resolver um problema político: criar as condições para eliminar as disputas arbitradas militarmente num continente com mil anos de guerra. Certamente, os custos seriam altos em termos de redução das soberanias nacionais e da centralização das decisões políticas e econômicas, além da uniformização das políticas sociais.
Os economistas foram, em geral, críticos da viabilidade dessa construção porque viam dificuldades (não apenas econômicas, mas no final, políticas) para levar à conclusão da projetada federação, como agora estamos assistindo.
Do ponto de vista civilizatório, entretanto, parece claro que, qualquer que seja aquele custo, ele será muito menor do que a destruição de vidas e de trabalho humano (acumulado em bens físicos), produzida na guerra de 1870 entre a França e a Alemanha e do que a devastação de 1914-1918 e da selvageria de 1939-1945.
Alguns países que aderiram à Eurolândia têm a experiência de três quartos de século de submissão a regimes autoritários. E, em alguns deles, a possibilidade de uma centralização tecnocrática causa muita apreensão. Como disse lady Thatcher, "a Inglaterra não tem disposição de entregar-se a 16 mil burocratas de Bruxelas..."
A situação na Eurolândia é muito complicada. Ela tem, na verdade, quatro problemas:
1º) Construir um mecanismo de controle fiscal que possibilite a transferência de renda entre os membros;
2º) Um desalinhamento das moedas dentro do Euro que causa resultados assimétricos nos balanços de pagamentos;
3º) Falta-lhe um Banco Central autônomo que possa ser, de fato, o emprestador de última instância e
4º) Isso torna possível o início de uma crise que pode levar a uma recessão catastrófica.
O PT vence o PMDB, sempre - ROSÂNGELA BITTAR
VALOR ECONÔMICO - 07/12/11
Dará com os burros n"água quem procurar agora uma justificativa, um conjunto de critérios, uma filosofia para nela morar sobre a reforma ministerial que se avizinha no governo Dilma Rousseff. Não é o que se pretende fazer aqui, pois os interlocutores mais frequentes da presidente informam que ela não está dando pistas do que pretende fazer, qual governo procura desenhar para depois definir com quem levá-lo a termo e fazer os convites.
O que transparece é que novas trocas de ministros ocorrerão, além das que ela foi obrigada a fazer ao longo do primeiro ano de mandato, por circunstâncias adversas, teoricamente para dar eficiência à administração. Fala-se de eficiência, teoricamente, porque essa seria uma boa razão para mudanças em qualquer governo, mas ela mesma, nem a seus amigos, disse que setores considera deficientes no seu governo ou se é mesmo a excelência na gestão que vai procurar.
De qualquer forma, ao se perscrutar aqui e ali, chega-se a algumas questões, poucas, que parecem definidas. A primeira é que as mudanças ocorrerão a partir dos primeiros dez dias de janeiro, não antes disso. Tudo começará depois que Dilma voltar das férias que deverá passar em uma das casas de veraneio do governo, administradas pelas forças armadas, em praias da Bahia, do Rio ou de São Paulo.
Outra informação que se colhe antecipadamente é que a expectativa do PMDB de se sair melhor da reforma do que se encontra hoje no governo não tem respaldo na realidade. A presidente Dilma Rousseff aprecia a argumentação de que o PMDB já tem o cargo de vice-presidente da República, não precisa muito mais que isso. E ainda domina dois ministérios que ela considera fortes - os de Minas e Energia e agricultura - e conta com dezenas de outros postos em ministérios e estatais espalhados.
Até as paredes sabem, mais ainda a presidente, que o PMDB é um inconformado por ter perdido os ministérios das Comunicações e da Saúde. Os dois foram deslocados para a cota do PT e não há hipótese de voltarem aos donos originais, quem os dominava no governo Lula.
O PT, porém, vai se sair muito bem dessa reforma, a julgar pelas conversas preliminares entre escalões do partido e do governo em torno do assunto. Não só pelo que vai ganhar a mais, bem como pelo que não vai perder. Considera-se, por exemplo, peça de ficção o que se tem dito sobre fusões e eliminações de secretarias hoje loteadas no petismo e títulos de ministro com os quais foram contempladas algumas minorias da sociedade.
O PT considera a Secretaria de Políticas para as Mulheres e a Secretaria da Igualdade Racial, ambas espaço de poder de facções partidárias diferentes, "uma conquista".
Qualquer reforma que as atinja será uma perda para o partido e um retrocesso do governo Dilma com relação ao governo Lula.
O mesmo não se dá com a Secretaria da Pesca, que também abriga um ministro titular e que foi criada por Lula para, segundo se justificou à época, dar espaço nobre à atividade, mas na verdade tratou-se da construção de um instrumento de poder a ser manejado por facção liderada pelo petista paranaense José Fritsch. Esta secretaria poderá ser reanexada ao Ministério da agricultura, sem maiores reações.
O mesmo não se dará, porém, com a ideia que vem sendo insinuada de acabar com o Ministério do Trabalho, juntando-o ao da Previdência para adensar o butim do PMDB. Ainda não peremptoriamente afastada, essa hipótese levaria o PT a ter o ônus e acabar com o Ministério do Trabalho, uma heresia no programa partidário, bem como perder, para o PMDB, um loteamento tão emblemático que almejava reconquistar, tomando-o do PDT, mais especificamente, da Força Sindical que, em detrimento da CUT, domina a área hoje.
Ainda no capítulo do que vai mesmo acontecer há as substituições dos que sairão para concorrer às eleições municipais, entre os quais o mais notório é o ministro da Educação, Fernando Haddad. Na semana passada, Haddad levou consigo para uma reunião com a presidente Dilma o secretário executivo do ministério, homem do ex-ministro e atual governador Tarso Genro que saiu do MEC mas ali deixou seus lotes bem distribuídos. O secretário, José Henrique Paim Fernandes, esteve presente nos dois encontros de Haddad com Dilma na mesma semana, o que gerou especulação de que já está escolhido seu sucessor. Embora não se cogite tirar a Educação do PT, nem como hipótese, e não sendo Paim o futuro ministro, como quer o grupo de Tarso Genro, existe a possibilidade de remoção do ministro Aloizio Mercadante do Ministério da Ciência e Tecnologia para o da Educação.
Assim, o MCT poderia voltar para o PSB de Eduardo Campos, que já o dirigiu pessoalmente no governo Lula, abrindo vaga que o partido ocupa nas Secretarias da Integração Nacional e dos Portos.
As informações sobre as circunstanciais conversas que precedem as reflexões da presidente durante seu veraneio revelam, ainda, que Dilma não quer romper, nem mesmo desagradar, o governador pernambucano, o que poderá levá-la a deixar seu espaço preservado como ele quiser. No governo, a movimentação de Eduardo Campos, tanto ao lado de Gilberto Kassab, do PSD, quanto do PSDB nos Estados onde participa de aliança nas prefeituras, ou mesmo insinuações de pretensão à carreira solo precipitada para 2014, ainda não causam, aparentemente, maior comoção.
Argumenta-se que Campos jamais tomaria um rumo em confronto com Lula. Embora seu passo doble com Kassab desperte ainda alguma perplexidade, principalmente pela proximidade do prefeito paulistano com o ex-governador e adversário do PT, José Serra (PSDB).
São muitos PMDBs, como são muitos PTs, têm argumentado autoridades do governo diante da perspectiva de a reforma ministerial desagradar a uns ou a outros. O PMDB de José Sarney e de Renan Calheiros, por certo, não ficará insatisfeito no futuro, como não ficou no passado e no presente. Mas no PT, não é só um grupo que vai se dar bem. Toda a legenda será atendida na reforma futura, como o foi no passado e no presente.
Dará com os burros n"água quem procurar agora uma justificativa, um conjunto de critérios, uma filosofia para nela morar sobre a reforma ministerial que se avizinha no governo Dilma Rousseff. Não é o que se pretende fazer aqui, pois os interlocutores mais frequentes da presidente informam que ela não está dando pistas do que pretende fazer, qual governo procura desenhar para depois definir com quem levá-lo a termo e fazer os convites.
O que transparece é que novas trocas de ministros ocorrerão, além das que ela foi obrigada a fazer ao longo do primeiro ano de mandato, por circunstâncias adversas, teoricamente para dar eficiência à administração. Fala-se de eficiência, teoricamente, porque essa seria uma boa razão para mudanças em qualquer governo, mas ela mesma, nem a seus amigos, disse que setores considera deficientes no seu governo ou se é mesmo a excelência na gestão que vai procurar.
De qualquer forma, ao se perscrutar aqui e ali, chega-se a algumas questões, poucas, que parecem definidas. A primeira é que as mudanças ocorrerão a partir dos primeiros dez dias de janeiro, não antes disso. Tudo começará depois que Dilma voltar das férias que deverá passar em uma das casas de veraneio do governo, administradas pelas forças armadas, em praias da Bahia, do Rio ou de São Paulo.
Outra informação que se colhe antecipadamente é que a expectativa do PMDB de se sair melhor da reforma do que se encontra hoje no governo não tem respaldo na realidade. A presidente Dilma Rousseff aprecia a argumentação de que o PMDB já tem o cargo de vice-presidente da República, não precisa muito mais que isso. E ainda domina dois ministérios que ela considera fortes - os de Minas e Energia e agricultura - e conta com dezenas de outros postos em ministérios e estatais espalhados.
Até as paredes sabem, mais ainda a presidente, que o PMDB é um inconformado por ter perdido os ministérios das Comunicações e da Saúde. Os dois foram deslocados para a cota do PT e não há hipótese de voltarem aos donos originais, quem os dominava no governo Lula.
O PT, porém, vai se sair muito bem dessa reforma, a julgar pelas conversas preliminares entre escalões do partido e do governo em torno do assunto. Não só pelo que vai ganhar a mais, bem como pelo que não vai perder. Considera-se, por exemplo, peça de ficção o que se tem dito sobre fusões e eliminações de secretarias hoje loteadas no petismo e títulos de ministro com os quais foram contempladas algumas minorias da sociedade.
O PT considera a Secretaria de Políticas para as Mulheres e a Secretaria da Igualdade Racial, ambas espaço de poder de facções partidárias diferentes, "uma conquista".
Qualquer reforma que as atinja será uma perda para o partido e um retrocesso do governo Dilma com relação ao governo Lula.
O mesmo não se dá com a Secretaria da Pesca, que também abriga um ministro titular e que foi criada por Lula para, segundo se justificou à época, dar espaço nobre à atividade, mas na verdade tratou-se da construção de um instrumento de poder a ser manejado por facção liderada pelo petista paranaense José Fritsch. Esta secretaria poderá ser reanexada ao Ministério da agricultura, sem maiores reações.
O mesmo não se dará, porém, com a ideia que vem sendo insinuada de acabar com o Ministério do Trabalho, juntando-o ao da Previdência para adensar o butim do PMDB. Ainda não peremptoriamente afastada, essa hipótese levaria o PT a ter o ônus e acabar com o Ministério do Trabalho, uma heresia no programa partidário, bem como perder, para o PMDB, um loteamento tão emblemático que almejava reconquistar, tomando-o do PDT, mais especificamente, da Força Sindical que, em detrimento da CUT, domina a área hoje.
Ainda no capítulo do que vai mesmo acontecer há as substituições dos que sairão para concorrer às eleições municipais, entre os quais o mais notório é o ministro da Educação, Fernando Haddad. Na semana passada, Haddad levou consigo para uma reunião com a presidente Dilma o secretário executivo do ministério, homem do ex-ministro e atual governador Tarso Genro que saiu do MEC mas ali deixou seus lotes bem distribuídos. O secretário, José Henrique Paim Fernandes, esteve presente nos dois encontros de Haddad com Dilma na mesma semana, o que gerou especulação de que já está escolhido seu sucessor. Embora não se cogite tirar a Educação do PT, nem como hipótese, e não sendo Paim o futuro ministro, como quer o grupo de Tarso Genro, existe a possibilidade de remoção do ministro Aloizio Mercadante do Ministério da Ciência e Tecnologia para o da Educação.
Assim, o MCT poderia voltar para o PSB de Eduardo Campos, que já o dirigiu pessoalmente no governo Lula, abrindo vaga que o partido ocupa nas Secretarias da Integração Nacional e dos Portos.
As informações sobre as circunstanciais conversas que precedem as reflexões da presidente durante seu veraneio revelam, ainda, que Dilma não quer romper, nem mesmo desagradar, o governador pernambucano, o que poderá levá-la a deixar seu espaço preservado como ele quiser. No governo, a movimentação de Eduardo Campos, tanto ao lado de Gilberto Kassab, do PSD, quanto do PSDB nos Estados onde participa de aliança nas prefeituras, ou mesmo insinuações de pretensão à carreira solo precipitada para 2014, ainda não causam, aparentemente, maior comoção.
Argumenta-se que Campos jamais tomaria um rumo em confronto com Lula. Embora seu passo doble com Kassab desperte ainda alguma perplexidade, principalmente pela proximidade do prefeito paulistano com o ex-governador e adversário do PT, José Serra (PSDB).
São muitos PMDBs, como são muitos PTs, têm argumentado autoridades do governo diante da perspectiva de a reforma ministerial desagradar a uns ou a outros. O PMDB de José Sarney e de Renan Calheiros, por certo, não ficará insatisfeito no futuro, como não ficou no passado e no presente. Mas no PT, não é só um grupo que vai se dar bem. Toda a legenda será atendida na reforma futura, como o foi no passado e no presente.
Aposta no futuro - ALEXANDRE ALVES SCHNEIDER
FOLHA DE SP - 07/12/11
Os próximos prefeitos de São Paulo não precisarão lançar mão de artifícios utilizados por outras gestões, como escolas e salas de lata e o terceiro turno
Proteger a infância, garantir a cidadania, resguardar direitos. Um processo histórico do qual muitos de nós participamos ao longo das últimas décadas. A Constituição de 1988 assegurou o direito à educação de crianças de zero a seis anos.
Posteriormente, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei de Diretrizes e Bases consolidaram essa diretriz. Ao poder público cabe prestar contas sobre suas ações para concretizar o direito à educação de qualidade nessa faixa etária.
Na cidade de São Paulo, a educação infantil é prioridade absoluta desde 2005. A estruturação se deu em duas frentes. Organizamos as faixas etárias. Havia crianças de diversas idades em uma mesma sala.
Hoje, do nascimento aos seis anos, cada aluno está em uma turma, com atendimento adequado. Ao mesmo tempo, passamos da era dos "caderninhos" para o cadastro único. Até 2005, as mães peregrinavam registrando seus filhos em todas as creches possíveis.
Eram poucas as vagas: 59,9 mil matrículas em 2004. Com os registros múltiplos, feitos em cadernos, ficava difícil saber quantas crianças aguardavam por uma vaga e era impossível planejar a expansão da rede. Aprimoramos o cadastro, que foi disponibilizado na internet, e hoje é possível que uma mãe saiba em que posição seu filho está na fila. Não há jeitinho nem favores.
Cresceu o número de vagas, com a construção de creches e novos convênios. Saímos das 59,9 mil para 124,2 mil no fim de 2010, uma elevação de 107%. Em 2011, a prefeitura passou a atender crianças de até três anos e 11 meses nas creches.
Com isso, 81 mil crianças que teriam atendimento em quatro ou seis horas passaram a ter atendimento em dez horas. Isso equivale a até 1.200 horas a mais ao ano.
São Paulo atende hoje 48% da população de zero a quatro anos. No Brasil, esse atendimento não passa de 23%, segundo o Censo de 2010. Em 2001, 28,84% das crianças atendidas na educação infantil tinham até quatro anos. Hoje, são 50,64%, o que indica a prioridade dada a essa faixa etária.
No ano passado, demos um novo passo, com a reorganização da educação infantil. É nosso objetivo universalizar o atendimento nas Escolas Municipais de Educação Infantil (Emeis) até o ano que vem.
Já começaremos 2012 sem crianças de quatro e cinco anos esperando por uma vaga em dez das 13 Diretorias Regionais de Ensino. A meta do governo federal é que essa universalização ocorra só em 2016.
Além da universalização, estamos aumentando o tempo de permanência. Hoje, 98% das Emeis, ou 497 delas, têm seis horas de aula, ou 400 horas a mais ao ano. Em 2004, eram apenas 41 unidades. Com todas essas crianças atendidas, os próximos prefeitos da cidade não terão de lançar mão de artifícios já utilizados em outras gestões, como o terceiro turno e as escolas e salas de lata.
Até o fim de 2012, construiremos 165 novas unidades de educação infantil. Sempre com o objetivo de ampliar o número de matriculas e garantir os direitos das crianças paulistanas, com qualidade.
ALEXANDRE ALVES SCHNEIDER é secretário municipal de Educação de São Paulo.
Os próximos prefeitos de São Paulo não precisarão lançar mão de artifícios utilizados por outras gestões, como escolas e salas de lata e o terceiro turno
Proteger a infância, garantir a cidadania, resguardar direitos. Um processo histórico do qual muitos de nós participamos ao longo das últimas décadas. A Constituição de 1988 assegurou o direito à educação de crianças de zero a seis anos.
Posteriormente, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei de Diretrizes e Bases consolidaram essa diretriz. Ao poder público cabe prestar contas sobre suas ações para concretizar o direito à educação de qualidade nessa faixa etária.
Na cidade de São Paulo, a educação infantil é prioridade absoluta desde 2005. A estruturação se deu em duas frentes. Organizamos as faixas etárias. Havia crianças de diversas idades em uma mesma sala.
Hoje, do nascimento aos seis anos, cada aluno está em uma turma, com atendimento adequado. Ao mesmo tempo, passamos da era dos "caderninhos" para o cadastro único. Até 2005, as mães peregrinavam registrando seus filhos em todas as creches possíveis.
Eram poucas as vagas: 59,9 mil matrículas em 2004. Com os registros múltiplos, feitos em cadernos, ficava difícil saber quantas crianças aguardavam por uma vaga e era impossível planejar a expansão da rede. Aprimoramos o cadastro, que foi disponibilizado na internet, e hoje é possível que uma mãe saiba em que posição seu filho está na fila. Não há jeitinho nem favores.
Cresceu o número de vagas, com a construção de creches e novos convênios. Saímos das 59,9 mil para 124,2 mil no fim de 2010, uma elevação de 107%. Em 2011, a prefeitura passou a atender crianças de até três anos e 11 meses nas creches.
Com isso, 81 mil crianças que teriam atendimento em quatro ou seis horas passaram a ter atendimento em dez horas. Isso equivale a até 1.200 horas a mais ao ano.
São Paulo atende hoje 48% da população de zero a quatro anos. No Brasil, esse atendimento não passa de 23%, segundo o Censo de 2010. Em 2001, 28,84% das crianças atendidas na educação infantil tinham até quatro anos. Hoje, são 50,64%, o que indica a prioridade dada a essa faixa etária.
No ano passado, demos um novo passo, com a reorganização da educação infantil. É nosso objetivo universalizar o atendimento nas Escolas Municipais de Educação Infantil (Emeis) até o ano que vem.
Já começaremos 2012 sem crianças de quatro e cinco anos esperando por uma vaga em dez das 13 Diretorias Regionais de Ensino. A meta do governo federal é que essa universalização ocorra só em 2016.
Além da universalização, estamos aumentando o tempo de permanência. Hoje, 98% das Emeis, ou 497 delas, têm seis horas de aula, ou 400 horas a mais ao ano. Em 2004, eram apenas 41 unidades. Com todas essas crianças atendidas, os próximos prefeitos da cidade não terão de lançar mão de artifícios já utilizados em outras gestões, como o terceiro turno e as escolas e salas de lata.
Até o fim de 2012, construiremos 165 novas unidades de educação infantil. Sempre com o objetivo de ampliar o número de matriculas e garantir os direitos das crianças paulistanas, com qualidade.
ALEXANDRE ALVES SCHNEIDER é secretário municipal de Educação de São Paulo.
Promessa nuclear - ANTÔNIO MÜLLER
O GLOBO - 07/12/11
Estudo da Energy Information Administration (EIA), órgão de estatística energética ligado ao governo americano, revela que o consumo mundial de energia deverá registrar um crescimento acumulado de 53% entre 2008 e 2035. O Brasil também deverá quase dobrar sua demanda por energia, saindo dos atuais 456,5 mil GWh para 730 mil GWh em 2020, segundo levantamento da Empresa de Pesquisa Energética. Apesar do crescimento das fontes renováveis, o estudo da EIA aponta que os combustíveis fósseis deverão permanecer como principal fonte de energia mundial, previsão alarmante para uma sociedade que luta para combater o aquecimento global. Não poderemos prescindir de uma matriz energética diversificada, com uso de todos os tipos de opções.
No entanto, há grandes problemas no desenvolvimento da geração de energias mais limpas. Por um lado, fontes alternativas, como eólica e solar, pecam pela pouca eficiência, com geração limitada. Hoje, o Brasil gera 1.436 MW de eólica - e poderia chegar a 6.041 MW em 2020 -, mas isso representaria apenas 3,59% do total de energia de que o país precisará naquele ano. Por outro lado, as hidrelétricas, apesar de limpas e eficientes, enfrentam forte oposição. Essa pressão tem levado o Brasil a optar por projetos a fio d'água, que reduzem o tamanho dos reservatórios e o impacto socioambiental, mas diminuem também a capacidade de geração das usinas. O melhor exemplo é a Hidrelétrica Belo Monte, que, apesar de ter capacidade instalada superior a 11 mil MW, vai gerar em média 4.500 MW, exatamente por apresentar reservatório reduzido, em atendimento à política ambiental.
Neste cenário, a geração nuclear desponta como uma das mais promissoras, tanto pela eficiência quanto pela baixíssima emissão de gases causadores do efeito estufa. Estudos têm revelado que asUsinas nucleares são também viáveis economicamente, estando lado a lado com hidrelétricas e eólicas em termo de custos. E as nucleares ainda apresentam a vantagem da confiabilidade na geração, não dependendo de aspectos climáticos como chuva, sol ou ventos.
O acidente de Fukushima, no Japão, em março deste ano, ressuscitou velhos fantasmas, afetando o ritmo de expansão da geração nuclear. Mas, com exceção da Alemanha e da Bélgica, que mesmo antes do acidente já haviam anunciado a interrupção de seus programas nucleares, nenhum país interrompeu planos para manutenção e construção de novas usinas. Isso ocorre porque os reatores estão cada vez mais seguros, e o risco de vazamentos nucleares nunca foi tão baixo. No caso da Alemanha, o país passou de exportador de energia elétrica a importador, beneficiando países vizinhos, como Polônia e Lituânia, que irão construir novas unidades nucleares para exportar eletricidade para a Alemanha.
Apesar das medidas de segurança que devem ser tomadas a partir daquele acidente, é importante ressaltar que, mesmo com a impressionante capacidade destrutiva do tsunami, não houve mortos ou contaminados pela radiação. As unidades nucleares resistiram, enquanto barragens, prédios e cidades inteiras foram destruídos. A usina de Fukushima foi afetada, mas o plano de emergência funcionou e a população foi protegida.
Esta experiência mostra que, apesar da seriedade dos cuidados que devem ser tomados, não há motivos para interromper programas nucleares. Por isso, é importante que a sociedade e os governos não tomem decisões precipitadas. Demandas por ações imediatas contra as usinas não são baseadas em critérios técnicos. O episódio recente nos ensinou lições importantes sobre segurança que serão aplicadas nos reatores já em atividade e naqueles que serão construídos. Mas o mundo não pode e não deve abrir mão desse potencial. Hoje, existem 433 usinas em operação em todo o mundo, e outras 65 em construção, com potência total de 62.592 MW - o que representa um acréscimo de 15% no número de unidades nos próximos anos.
O mesmo se aplica ao Brasil. O país conta com as mais seguras tecnologias tanto nas usinas em operação (Angra 1 e 2) como naquela em construção (Angra 3). No entanto, o medo e a desinformação podem impedir que usemos esta forma segura e limpa de produzir energia e garantir o desenvolvimento brasileiro. Uma nação com dimensões continentais como o Brasil não pode descartar nenhuma opção energética que se mostre eficiente, segura e viável economicamente.
ANTÔNIO MÜLLER é presidente da Associação Brasileira para Desenvolvimento das Atividades Nucleares (ABDAN).
O Pibinho e os "analistas" - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 07/12/11
Apesar da inflação ainda alta, observadores econômicos erraram muito sobre o ritmo da atividade
QUE DIFERENÇA faz um trimestre. No primeiro dia de setembro, a gente ouvia choro, ranger de dentes e insultos na praça do mercado, irritado pelo fato de o Banco Central ter cortado os juros. Ontem, a gente viu o Pibinho. Que dirá o "mercado"?
Entre os observadores mais prestantes e intelectualmente honestos, o ceticismo em relação à atitude do BC e ao declínio suficiente da inflação permanece.
Goste-se ou não da trincheira teórica, política ou empresarial de onde falam tais observadores, eles têm bons argumentos. Mas se trata aqui de outra história, de um surto de comportamentos estereotipados e enviesados, com ares técnicos.
Ninguém sabe muito bem que bicho a inflação vai virar lá por março, quando de fato vai ser testada a hipótese do BC sobre o comportamento dos preços. Mas a histeria vista até quase outubro ia muito além da avaliação econômica.
O pessoal do BC acredita que a combinação de arrocho econômico doméstico do primeiro semestre com o tumulto extra da economia europeia na segunda metade do ano reduziria a atividade econômica de modo a levar o IPCA para bem perto da meta de 4,5% em 2012.
Os economistas do governo, de resto, acreditavam que o barrigão inflacionário do início de 2011 havia sido causado por alguns choques passageiros de preços.
Em setembro, porém, muita gente na praça acreditava que:
1) "Haveria uma espiral de preços e salários, com descontrole inflacionário." Sindicatos mais organizados obteriam aumentos fortes de salários e influenciariam reajustes em outras categorias. A economia ficaria mais aquecida, os preços seriam mais contaminados.
Aumentos grandes houve. Mas não se sabe quantos trabalhadores ainda estarão empregados para recebê-los. Empresas maiores não estão conseguindo repassar tal custo para os preços. A inflação cedeu um pouquinho, e muito aumento vem do desorganizado (também em termos sindicais) setor de serviços. Enfim, o mercado de trabalho está apertado, mas por influências que, no curto prazo, seriam dissipadas apenas com altas brutais de juros.
2) "A economia estava aquecida demais, cresceria mais de 4%." As ações do governo não seriam capazes de esfriá-la. Isto é, a contenção de gastos, a alta de juros e outros arrochos de crédito da primeira metade do ano não eram relevantes.
Mas a economia parou de crescer no terceiro trimestre. O gasto federal cresceu um terço do registrado em 2011 (foi um ajuste ruim, pois cortou investimento. Mas foi).
3) "A crise europeia não seria tão ruim." Ou não afetaria o Brasil.
Mais perdoável: a Europa é um tumulto. Mas um observador profissional de economia deveria perceber que, não importa qual solução se adotasse na eurozona (ou nenhuma delas), a bagunça por lá tenderia a durar até 2012, pelo menos.
4) "O BC fez uma "aposta" na piora mundial." Tomou a decisão apressada de baixar juros quando deveria ser o guardião prudente.
O BC poderia de fato ter esperado outra reunião do Copom, mais um mês e meio -não faria muita diferença. Poderia ter apostado também na direção inversa, como já se fez tanta vez no Brasil, desperdiçando produto. Qual o risco melhor?
Os "analistas" deram um vexame ainda mais feio neste ano.
Apesar da inflação ainda alta, observadores econômicos erraram muito sobre o ritmo da atividade
QUE DIFERENÇA faz um trimestre. No primeiro dia de setembro, a gente ouvia choro, ranger de dentes e insultos na praça do mercado, irritado pelo fato de o Banco Central ter cortado os juros. Ontem, a gente viu o Pibinho. Que dirá o "mercado"?
Entre os observadores mais prestantes e intelectualmente honestos, o ceticismo em relação à atitude do BC e ao declínio suficiente da inflação permanece.
Goste-se ou não da trincheira teórica, política ou empresarial de onde falam tais observadores, eles têm bons argumentos. Mas se trata aqui de outra história, de um surto de comportamentos estereotipados e enviesados, com ares técnicos.
Ninguém sabe muito bem que bicho a inflação vai virar lá por março, quando de fato vai ser testada a hipótese do BC sobre o comportamento dos preços. Mas a histeria vista até quase outubro ia muito além da avaliação econômica.
O pessoal do BC acredita que a combinação de arrocho econômico doméstico do primeiro semestre com o tumulto extra da economia europeia na segunda metade do ano reduziria a atividade econômica de modo a levar o IPCA para bem perto da meta de 4,5% em 2012.
Os economistas do governo, de resto, acreditavam que o barrigão inflacionário do início de 2011 havia sido causado por alguns choques passageiros de preços.
Em setembro, porém, muita gente na praça acreditava que:
1) "Haveria uma espiral de preços e salários, com descontrole inflacionário." Sindicatos mais organizados obteriam aumentos fortes de salários e influenciariam reajustes em outras categorias. A economia ficaria mais aquecida, os preços seriam mais contaminados.
Aumentos grandes houve. Mas não se sabe quantos trabalhadores ainda estarão empregados para recebê-los. Empresas maiores não estão conseguindo repassar tal custo para os preços. A inflação cedeu um pouquinho, e muito aumento vem do desorganizado (também em termos sindicais) setor de serviços. Enfim, o mercado de trabalho está apertado, mas por influências que, no curto prazo, seriam dissipadas apenas com altas brutais de juros.
2) "A economia estava aquecida demais, cresceria mais de 4%." As ações do governo não seriam capazes de esfriá-la. Isto é, a contenção de gastos, a alta de juros e outros arrochos de crédito da primeira metade do ano não eram relevantes.
Mas a economia parou de crescer no terceiro trimestre. O gasto federal cresceu um terço do registrado em 2011 (foi um ajuste ruim, pois cortou investimento. Mas foi).
3) "A crise europeia não seria tão ruim." Ou não afetaria o Brasil.
Mais perdoável: a Europa é um tumulto. Mas um observador profissional de economia deveria perceber que, não importa qual solução se adotasse na eurozona (ou nenhuma delas), a bagunça por lá tenderia a durar até 2012, pelo menos.
4) "O BC fez uma "aposta" na piora mundial." Tomou a decisão apressada de baixar juros quando deveria ser o guardião prudente.
O BC poderia de fato ter esperado outra reunião do Copom, mais um mês e meio -não faria muita diferença. Poderia ter apostado também na direção inversa, como já se fez tanta vez no Brasil, desperdiçando produto. Qual o risco melhor?
Os "analistas" deram um vexame ainda mais feio neste ano.
Crescimento zero - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 07/12/11
Não surpreendeu a informação, divulgada ontem pelo IBGE, de que o PIB brasileiro se manteve estagnado no terceiro trimestre deste ano em comparação com o período anterior.
Desde abril de 2010, a produção da indústria vem perdendo vigor -e em meados deste ano também as vendas do varejo começaram a desacelerar de forma clara. Para completar, várias sondagens indicavam que os estoques industriais se acumulavam acima do nível desejado pelas empresas, levando-as a reduzir sua produção.
Essa combinação de fatores alimentou a expectativa, ora confirmada, de que o crescimento do país no período de julho a setembro seria bastante baixo -ou até mesmo negativo.
A desaceleração pode ser creditada, em boa parte, às medidas de política econômica adotadas desde fins do ano passado com vistas a arrefecer o ímpeto da demanda interna e, por essa via, conter o aumento da inflação.
A diminuição do volume de recursos à disposição dos bancos para fazer empréstimos, a partir de dezembro de 2010, e as seguidas elevações da taxa de juros básica contribuíram para que as operações de crédito apresentassem custo mais alto, prazos mais curtos e expansão mais lenta.
A contenção de gastos públicos, em grande medida concentrada em investimentos, e o reajuste mais baixo, naquele momento, concedido ao salário mínimo completaram a receita interna da desaceleração.
Na frente externa, o ritmo da economia foi afetado pelo agravamento da crise em países desenvolvidos, em especial na zona do euro. O aumento das incertezas no cenário mundial, ao que tudo indica, reforçou o efeito das decisões tomadas anteriormente, aumentando a cautela de empresas e consumidores.
As turbulências internacionais se prolongam pelo quarto trimestre -e, ao que tudo indica, não irão se dissipar tão cedo. No Brasil, a política econômica já mudou de prioridade: a taxa Selic cai desde o final de agosto e novas medidas de estímulo à demanda interna foram anunciadas.
Embora não seja possível antecipar com precisão o resultado dessas duas influências contraditórias -desaceleração global e estímulos internos- sobre a atividade econômica no Brasil, os números aventados pelas autoridades são bastante discutíveis.
Para fechar 2011 com alta de 3,2%, o PIB teria de crescer 1,5% no quarto trimestre, um ritmo forte, correspondente a pouco mais de 6% ao ano. Em 2012, para crescer 5%, como anuncia o ministro da Fazenda, o PIB teria de atravessar o ano a um ritmo quase chinês. Compreende-se a tentativa do governo de injetar otimismo no ambiente econômico -mas suas previsões são, sem dúvida, irrealistas.
CLAUDIO HUMBERTO
“A atuação do Judiciário não substitui a política”
Rosa Maria Weber, futura ministra do Supremo, durante sua sabatina no Senado.
FRANÇA QUER EMPURRAR RAFALES COM PORTA-AVIÕES
L’espoir é a última que morre: o Brasil poderia construir com expertise da França um porta-aviões Catobar, de última geração que só EUA e França têm, diz a revista Le Point. Substituiria o combalido São Paulo, ex-Foch, conhecido pelo frequente fumacê. Os franceses, parceiros no futuro submarino nuclear brasileiro, acreditam que assim, sai a venda dos caças Rafale na versão “embarcável”. O sueco Gripen não tem.
FATO CONSUMADO
A definição sobre a compra dos aviões de combate foi congelada pela presidente Dilma, mas a França dá como certa a venda dos Rafale.
‘ENCOSTO’
O prefeitável Gustavo Fruet (PDT-PR) deve estar se benzendo a toda hora: o ex-ministro Carlos Lupi ameaça entrar na sua campanha.
CALDO DE GALINHA
Dilma pediu “cautela” com a crise dos outros. Agora, os jornais da zona do euro riem da nossa desgraça: a economia brasileira estagnou.
SUPERBONDER
Nova sigla para o PDT, que vira, mexe e fede, mas continua no governo: Partido Difícil de Tirar.
ONG PREMIOU ‘LÍDER’ DA ROCINHA PRESO NO RIO
O “líder comunitário” William Oliveira, preso por vender arma a um traficante, recebeu, em 2004, de Denis Mizne, presidente da ONG Sou da Paz, um prêmio por seu “empenho pelo desarmamento da Rocinha”. William foi flagrado em vídeo negociando um fuzil AK-47 com o bandido “Nem”. Não é a primeira vez. Em 2005, ele foi preso por associação ao tráfico, quando recebeu apoio enfático de outra ONG, a “Viva Rio”.
NO SAL
O ministro Fernando Bezerra (Integração Nacional) não moverá palha para manter Elias Fernandes na direção-geral do Dnocs.
BRILHO NA CÂMARA
Impressiona-se com o luxo quem visita o gabinete 529 do deputado Werton Rocha (PDT-MA), ex-assessor-problema de Carlos Lupi.
ESTAMOS AÍ
Hoje na vice-presidência da Câmara, Rose de Freitas (ES) está em campanha para suceder Henrique Alves (RN) na liderança do PMDB.
A BRIGA CONTINUA
Em campanha para derrubar Romero Jucá (PMDB-RR) da liderança do governo no Senado, o PT elaborou um dossiê, que se revelou alentado, sobre todos os cargos no governo preenchidos por sua indicação.
TURISTA ACIDENTAL
O jornal Perú 21 descobriu que o petista “Luis Favre” fez com visto de turista a campanha presidencial e a polêmica assessoria do presidente Olanta Humalla. Pediu visto de trabalho em novembro e escafedeu.
DEVO, NÃO PAGO
Quase 300 mil pessoas, na maioria idosos, esperam pagamento dos precatórios do governo paulista. A médica Jandira do Amaral, que produziu a primeira vacina BCG, morreu na fila, aos 105 anos.
TROMBADA COM A VALE
Após ser atropelado pela presidente Dilma, seu maior cliente estatal,
o hábil empresário Marcelo trombou com a Vale, maior cliente privado. O presidente da Vale, Murilo Ferreira, não o suporta. Resultado: a empreiteira perdeu duas obas, uma na Argentina outra na África.
ESQUECE
Nem Papai Noel acreditou: caiu no vazio a proposta do PT de levar à comissão de ética da Câmara o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que há 15 dias questionou em plenário se Dilma “era homossexual”.
O PACIENTE BRASILEIRO
O Ministério da Saúde vai monitorar o atendimento do SUS com os Correios: a partir de janeiro, o paciente dos hospitais públicos enviará de graça ao governo as cinco respostas sobre o atendimento. O ministério garante que auditará queixas e ninguém ficará sem resposta.
É REFRESCO
A notícia é da agência do governo, claro: a comunidade síria no Brasil repudiou as sanções da Liga Árabe contra o governo troglodita de Bashar al-Assad, que já matou pelo menos 4 mil nos protestos.
SAI DA FRENTE!
Combate dentro e fora do governo: a Presidência da República reservou R$ 368,4 mil para comprar mais 500 coletes balísticos masculinos e femininos, resistentes a tiros de 9 mm e Magnun 357.
A GRANDE SECA
Lula está arrasado porque mal consegue beber água com a quimioterapia. Se até passarinho não bebe...
PODER SEM PUDOR
CALÚNIAS VERDADEIRAS
Nos anos 50, governador gaúcho Ildo Meneghetti demitiu o representante do Partido Libertador em seu governo. O presidente do PL, Décio Martins da Costa, pediu uma audiência a Meneghetti para saber os motivos e depois convocou uma reunião de emergência da executiva. Explicou:
– O governador me mostrou um dossiê com denúncias e calúnias...
Fez uma pausa e concluiu:
...e o pior é que todas as calúnias são verdadeiras.
Rosa Maria Weber, futura ministra do Supremo, durante sua sabatina no Senado.
FRANÇA QUER EMPURRAR RAFALES COM PORTA-AVIÕES
L’espoir é a última que morre: o Brasil poderia construir com expertise da França um porta-aviões Catobar, de última geração que só EUA e França têm, diz a revista Le Point. Substituiria o combalido São Paulo, ex-Foch, conhecido pelo frequente fumacê. Os franceses, parceiros no futuro submarino nuclear brasileiro, acreditam que assim, sai a venda dos caças Rafale na versão “embarcável”. O sueco Gripen não tem.
FATO CONSUMADO
A definição sobre a compra dos aviões de combate foi congelada pela presidente Dilma, mas a França dá como certa a venda dos Rafale.
‘ENCOSTO’
O prefeitável Gustavo Fruet (PDT-PR) deve estar se benzendo a toda hora: o ex-ministro Carlos Lupi ameaça entrar na sua campanha.
CALDO DE GALINHA
Dilma pediu “cautela” com a crise dos outros. Agora, os jornais da zona do euro riem da nossa desgraça: a economia brasileira estagnou.
SUPERBONDER
Nova sigla para o PDT, que vira, mexe e fede, mas continua no governo: Partido Difícil de Tirar.
ONG PREMIOU ‘LÍDER’ DA ROCINHA PRESO NO RIO
O “líder comunitário” William Oliveira, preso por vender arma a um traficante, recebeu, em 2004, de Denis Mizne, presidente da ONG Sou da Paz, um prêmio por seu “empenho pelo desarmamento da Rocinha”. William foi flagrado em vídeo negociando um fuzil AK-47 com o bandido “Nem”. Não é a primeira vez. Em 2005, ele foi preso por associação ao tráfico, quando recebeu apoio enfático de outra ONG, a “Viva Rio”.
NO SAL
O ministro Fernando Bezerra (Integração Nacional) não moverá palha para manter Elias Fernandes na direção-geral do Dnocs.
BRILHO NA CÂMARA
Impressiona-se com o luxo quem visita o gabinete 529 do deputado Werton Rocha (PDT-MA), ex-assessor-problema de Carlos Lupi.
ESTAMOS AÍ
Hoje na vice-presidência da Câmara, Rose de Freitas (ES) está em campanha para suceder Henrique Alves (RN) na liderança do PMDB.
A BRIGA CONTINUA
Em campanha para derrubar Romero Jucá (PMDB-RR) da liderança do governo no Senado, o PT elaborou um dossiê, que se revelou alentado, sobre todos os cargos no governo preenchidos por sua indicação.
TURISTA ACIDENTAL
O jornal Perú 21 descobriu que o petista “Luis Favre” fez com visto de turista a campanha presidencial e a polêmica assessoria do presidente Olanta Humalla. Pediu visto de trabalho em novembro e escafedeu.
DEVO, NÃO PAGO
Quase 300 mil pessoas, na maioria idosos, esperam pagamento dos precatórios do governo paulista. A médica Jandira do Amaral, que produziu a primeira vacina BCG, morreu na fila, aos 105 anos.
TROMBADA COM A VALE
Após ser atropelado pela presidente Dilma, seu maior cliente estatal,
o hábil empresário Marcelo trombou com a Vale, maior cliente privado. O presidente da Vale, Murilo Ferreira, não o suporta. Resultado: a empreiteira perdeu duas obas, uma na Argentina outra na África.
ESQUECE
Nem Papai Noel acreditou: caiu no vazio a proposta do PT de levar à comissão de ética da Câmara o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que há 15 dias questionou em plenário se Dilma “era homossexual”.
O PACIENTE BRASILEIRO
O Ministério da Saúde vai monitorar o atendimento do SUS com os Correios: a partir de janeiro, o paciente dos hospitais públicos enviará de graça ao governo as cinco respostas sobre o atendimento. O ministério garante que auditará queixas e ninguém ficará sem resposta.
É REFRESCO
A notícia é da agência do governo, claro: a comunidade síria no Brasil repudiou as sanções da Liga Árabe contra o governo troglodita de Bashar al-Assad, que já matou pelo menos 4 mil nos protestos.
SAI DA FRENTE!
Combate dentro e fora do governo: a Presidência da República reservou R$ 368,4 mil para comprar mais 500 coletes balísticos masculinos e femininos, resistentes a tiros de 9 mm e Magnun 357.
A GRANDE SECA
Lula está arrasado porque mal consegue beber água com a quimioterapia. Se até passarinho não bebe...
PODER SEM PUDOR
CALÚNIAS VERDADEIRAS
Nos anos 50, governador gaúcho Ildo Meneghetti demitiu o representante do Partido Libertador em seu governo. O presidente do PL, Décio Martins da Costa, pediu uma audiência a Meneghetti para saber os motivos e depois convocou uma reunião de emergência da executiva. Explicou:
– O governador me mostrou um dossiê com denúncias e calúnias...
Fez uma pausa e concluiu:
...e o pior é que todas as calúnias são verdadeiras.
QUARTA NOS JORNAIS
- Globo: PIB estagnado - Consumo de famílias cai e economia para de crescer
- Folha: Brasil para de crescer
- Estadão: PIB estaciona e mercado prevê expansão inferior a 3% no ano
- Correio: Brasil cresce menos que Europa em crise
- Valor: Queda geral da demanda surpreende
- Estado de Minas: Sobrou para o Papai Noel
- Jornal do Commercio: País tem crescimento zero
- Zero Hora: Código Florestal passa pelo Senado
terça-feira, dezembro 06, 2011
Excesso de livros ou escassez de leitores? - JOSÉ PASTORE
O ESTADÃO - 06/12/11
Em 2010 as editoras brasileiras publicaram quase 500 milhões de livros, um aumento de 23% em relação a 2009 - muito expressivo. O número de exemplares vendidos no mercado (livrarias, internet, porta em porta, etc.) cresceu 8,3%. Se incluirmos as vendas ao governo, o aumento foi de 13% (Censo do Livro, Fipe/CBL/Snel, 2011).
Ao mesmo tempo, fala-se que o brasileiro lê 1,8 livro não acadêmico por ano. Nos países desenvolvidos essa média é de 10 obras lidas. Na França são 25 livros por ano! Num estudo da Unesco realizado em 52 países, o Brasil ocupou a 47.ª posição.
Afinal, o que está havendo? Excesso de livros ou escassez de leitores?
Decifrar esse paradoxo é um desafio. Não se pode negar que, para a maioria dos brasileiros, o livro no Brasil ainda é caro, apesar de ter barateado ultimamente. Isso explica por que 66% dos livros publicados estão nas mãos de 20% da população. Além disso, o País tem apenas 2.500 livrarias - um número minúsculo perto das 110 mil lan houses. Para muitos, a informação digital está chegando antes do que a impressa. O número de bibliotecas é irrisório e as bem equipadas são raras. O mais grave, porém, é que cerca de 14 milhões de brasileiros com idade superior a 15 anos não sabem ler (dados do Censo de 2010). E, ainda por cima, o analfabetismo funcional atinge 40 milhões de pessoas.
Não surpreende que, para essa enorme parcela da população, falta o hábito de leitura. Pesquisas recentes mostram que crianças que testemunham seus pais lendo tendem a ler bastante na vida adulta. As outras leem pouco. Ou seja, o hábito de leitura é transmissível de geração para geração (Anna L. Mancini e outros, On intergenerational transmission of reading habits in Italy, Boon: Institute for the Study of Labor, 2011).
Quem tem o hábito da leitura lê em qualquer circunstância: na escola, em casa, no transporte, no livro de papel ou na tela do computador, enfim, em todo lugar. Muitos se tornam compulsivos. E a adolescência é a fase em que as pessoas mais leem. Passado esse tempo, é muito difícil transformar um não leitor em leitor. Por isso, é bem provável que a baixa média de leitura no Brasil esteja sendo puxada para baixo pelos vários milhões de adultos que nunca chegaram a formar um bom hábito de leitura.
Essa é a opinião de Ignácio de Loyola Brandão. Ele, que viaja o ano inteiro pelo interior do Brasil, está impressionado com o grande interesse que os jovens demonstram pela leitura. Nas comunidades mais longínquas e nas mais baixas faixas de renda eles encontram uma maneira de conseguir os livros emprestados, "devorando-os" em pouco tempo. Em sua opinião, os estudantes brasileiros estão mantendo grande familiaridade com os livros. A média de leitura desse grupo deve estar muito acima da marca de 1,8 livro por ano.
Estaria, assim, o paradoxo decifrado? É provável. O avanço da produção editorial e a ampliação das matrículas escolares, ao lado das ações de governo para baratear e divulgar os livros, devem ser sentidos nos próximos anos. Quem está lá na ponta, conversando com os adolescentes, como faz o meu amigo Ignácio, já percebe essa mudança. É uma boa notícia.
Mas nessa empreitada precisamos ir depressa, porque a corrida é em relação a um ponto móvel. Nos dados do Índice de Desenvolvimento Humano de 2011, o Brasil perdeu posições por causa da má qualidade da educação. Estamos atrás de Jamaica, Bósnia, Líbano, Chile, Uruguai, Argentina e outros. Até a Venezuela nos passou na frente. E, para melhorar a educação, ler é essencial. Na verdade, ler é educar-se.
O fim das Farc - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 06/12/11
Uma comissão internacional de alto nível deve ser montada para negociar o fim das Farc, na Colômbia.
A ex-presidente do Chile Michelle Bachelet é a mais cotada para presidi-la. Fariam parte o ex-presidente do governo espanhol Felipe González e o ex-presidente dos EUA Bill Clinton.
Mas...
É possível que Clinton seja substituído por Jimmy Carter, também ex-presidente dos EUA.
É que há restrições a seu nome em setores à esquerda.
Fátima e Patrícia
Os termos “Jornal Nacional”, “Patrícia Poeta” e “Fátima Bernardes” ficaram na lista dos dez mais citados no Twitter mundial, ontem à noite, durante o “JN” especial em que nossa Fátima passou o bastão para Patrícia, que a partir de hoje assume a bancada ao lado de William Bonner.
Retratos da vida
Acredite. A 16ª DP, na Barra, no Rio, está para enviar à Justiça um inquérito por violência doméstica em que um casal de idosos (ele com 75 anos, ela com 70) se agrediu com... abacaxis.
A vovó, xingada, jogou um abacaxi no vovô, que revidou com outro. Há até fotos das “armas do crime” no inquérito.
Lula e o Timão
O vascaíno Sérgio Cabral ligou ontem para o corintiano Lula e deu os parabéns pelo campeonato do Timão.
Lula, em tom debochado, disse que “o resultado não poderia ser melhor”: Corinthians campeão, com o Vasco, seu segundo time, de vice.
O ‘pai’ dos Bric
A Globo Livros comprou os direitos de “O mapa do crescimento, oportunidade nos Bric e além”, de Jim O’Neill, o inglês que criou o termo Bric para Brasil, Rússia, Índia e China.
Sai em 2012. O’Neill vem ao Brasil para o lançamento.
É DURA A VIDA da querida ministra Helena Chagas, da Secretaria de Comunicação da Presidência. Ontem, a coleguinha (veja a sequência feita pelo fotógrafo Gustavo Miranda) precisou correr no Planalto, equilibrando-se no salto alto, repare, para escapar de um jornalista que queria detalhes sobre a demissão do ex-ministro Lupi
Chevron na mira
A ANP já teria identificado pelo menos dez infrações da Chevron no Campo de Frade.
Há três processos administrativos em curso, um deles com oito infrações.
Festa no apê
Depois de dez anos de batalha judicial entre o cantor Latino e a Rede TV!, a juíza Graciella Falzman, da 1ª Vara Cível de Barueri, SP, condenou a emissora a indenizar o artista por “quebra contratual”. Coisa de R$1 milhão.
Seu programa “Funk Total” teria saído do ar antes do prazo.
Seis meses de dor
Parentes das vítimas mortas na queda do helicóptero PR-OMO, em junho, no Sul da Bahia, puseram na internet o vídeo “6 meses de silêncio” para cobrar respostas da Anac (assista em http://youtu.be/eFMfbdZzzCs).
Em seis dias, foi assistido por mais de 4 mil pessoas.
Segue...
Márcia Noleto, mãe de Mariana, a namorada do filho de Sérgio Cabral morta no acidente, diz que, desde agosto, não consegue contato com a Anac.
Ela considera a agência “corresponsável” pela tragédia, pois uma falha na fiscalização permitiu que Marcelo Mattoso pilotasse com habilitação vencida.
A cueca do xerife
José Beltrame, o xerife do Rio, diz na revista “Alfa” deste mês que é participativo nas atividades... domésticas.
— Dou mamadeira e arrumo cama. Estendo a toalha depois de tomar banho e lavo cueca no banheiro. Cueca não se bota pra lavar, se lava.
‘Cônsul’ na cadeia
O desembargador José Muiños Piñeiro Filho negou habeas corpus a Luiz Azenha e Demóstenes Cruz, os falsos diplomatas do Congo presos com Nem.
Cena carioca
Uma famosa psicanalista carioca, ao se submeter outro dia a uma sessão de depilação num salão vip do Rio, entendeu que a profissional perguntava se ela ia “fazer anos”. Resposta: “Não, já fiz aniversário.” A moça retrucou:
— Não! Perguntei se a senhora vai fazer o... ânus!
Uma comissão internacional de alto nível deve ser montada para negociar o fim das Farc, na Colômbia.
A ex-presidente do Chile Michelle Bachelet é a mais cotada para presidi-la. Fariam parte o ex-presidente do governo espanhol Felipe González e o ex-presidente dos EUA Bill Clinton.
Mas...
É possível que Clinton seja substituído por Jimmy Carter, também ex-presidente dos EUA.
É que há restrições a seu nome em setores à esquerda.
Fátima e Patrícia
Os termos “Jornal Nacional”, “Patrícia Poeta” e “Fátima Bernardes” ficaram na lista dos dez mais citados no Twitter mundial, ontem à noite, durante o “JN” especial em que nossa Fátima passou o bastão para Patrícia, que a partir de hoje assume a bancada ao lado de William Bonner.
Retratos da vida
Acredite. A 16ª DP, na Barra, no Rio, está para enviar à Justiça um inquérito por violência doméstica em que um casal de idosos (ele com 75 anos, ela com 70) se agrediu com... abacaxis.
A vovó, xingada, jogou um abacaxi no vovô, que revidou com outro. Há até fotos das “armas do crime” no inquérito.
Lula e o Timão
O vascaíno Sérgio Cabral ligou ontem para o corintiano Lula e deu os parabéns pelo campeonato do Timão.
Lula, em tom debochado, disse que “o resultado não poderia ser melhor”: Corinthians campeão, com o Vasco, seu segundo time, de vice.
O ‘pai’ dos Bric
A Globo Livros comprou os direitos de “O mapa do crescimento, oportunidade nos Bric e além”, de Jim O’Neill, o inglês que criou o termo Bric para Brasil, Rússia, Índia e China.
Sai em 2012. O’Neill vem ao Brasil para o lançamento.
É DURA A VIDA da querida ministra Helena Chagas, da Secretaria de Comunicação da Presidência. Ontem, a coleguinha (veja a sequência feita pelo fotógrafo Gustavo Miranda) precisou correr no Planalto, equilibrando-se no salto alto, repare, para escapar de um jornalista que queria detalhes sobre a demissão do ex-ministro Lupi
Chevron na mira
A ANP já teria identificado pelo menos dez infrações da Chevron no Campo de Frade.
Há três processos administrativos em curso, um deles com oito infrações.
Festa no apê
Depois de dez anos de batalha judicial entre o cantor Latino e a Rede TV!, a juíza Graciella Falzman, da 1ª Vara Cível de Barueri, SP, condenou a emissora a indenizar o artista por “quebra contratual”. Coisa de R$1 milhão.
Seu programa “Funk Total” teria saído do ar antes do prazo.
Seis meses de dor
Parentes das vítimas mortas na queda do helicóptero PR-OMO, em junho, no Sul da Bahia, puseram na internet o vídeo “6 meses de silêncio” para cobrar respostas da Anac (assista em http://youtu.be/eFMfbdZzzCs).
Em seis dias, foi assistido por mais de 4 mil pessoas.
Segue...
Márcia Noleto, mãe de Mariana, a namorada do filho de Sérgio Cabral morta no acidente, diz que, desde agosto, não consegue contato com a Anac.
Ela considera a agência “corresponsável” pela tragédia, pois uma falha na fiscalização permitiu que Marcelo Mattoso pilotasse com habilitação vencida.
A cueca do xerife
José Beltrame, o xerife do Rio, diz na revista “Alfa” deste mês que é participativo nas atividades... domésticas.
— Dou mamadeira e arrumo cama. Estendo a toalha depois de tomar banho e lavo cueca no banheiro. Cueca não se bota pra lavar, se lava.
‘Cônsul’ na cadeia
O desembargador José Muiños Piñeiro Filho negou habeas corpus a Luiz Azenha e Demóstenes Cruz, os falsos diplomatas do Congo presos com Nem.
Cena carioca
Uma famosa psicanalista carioca, ao se submeter outro dia a uma sessão de depilação num salão vip do Rio, entendeu que a profissional perguntava se ela ia “fazer anos”. Resposta: “Não, já fiz aniversário.” A moça retrucou:
— Não! Perguntei se a senhora vai fazer o... ânus!
Mulheres precisam querer mais - LUIZA NAGIB ELUF
O Estado de S. Paulo - 06/12/11
O último censo do IBGE mostrou que as mulheres têm, em média, mais dois anos de educação que os homens. Mas, em que pese esse diferencial positivo, os salários pagos às mulheres ainda são, em média, 30% menores que os dos homens, na mesma função. Outra constatação intrigante é a de que, quanto maior o nível educacional, maior a diferença entre os rendimentos masculinos e femininos.
Sabemos que o patriarcalismo se sustenta na pobreza da mulher. A ideia é que as mulheres não tenham dinheiro nem poder, precisem vender seu corpo para se sustentar, seja pela prostituição ou pelo casamento. Além disso, essa pesquisa mostrou que não basta ter mais educação formal para que a violência doméstica diminua. A correlação de forças entre os gêneros continua desigual e as mulheres permanecem sofrendo discriminações, tanto no espaço público quanto no privado.
O Brasil já tomou várias medidas para promover a igualdade de gênero. Começou pela Constituição federal, que estabelece direitos iguais, reconhece a união estável, cria a licença-paternidade, equipara os direitos dos filhos independentemente da situação dos pais. Vieram, também, as Delegacias de Defesa da Mulher, o crime de assédio sexual, a Lei Maria da Penha, as Varas de Violência Doméstica. Entendemos que a opressão feminina é milenar e não será banida do dia para a noite, mas com as possibilidades que temos hoje é de espantar que a maioria das mulheres ainda esteja em tamanha desvantagem. Em outras palavras, a marcha para uma vida melhor está devagar demais.
A dominação masculina transformou o mundo num lugar hostil às mulheres. Nos mínimos detalhes, as atividades profissionais remuneradas são organizadas para causar desconforto à mulher. Os ambientes são rígidos, os banheiros são sujos, o relacionamento com os outros é impessoal, os termos linguísticos são rudes, a nomenclatura dos cargos de comando está no masculino, as roupas são controladas e criticadas, isso tudo sem falar do assédio sexual ou moral, de forma que as mulheres sintam medo de ser mulheres. Assim, diante de tantas dificuldades, muitas desistem antes de tentar, outras alcançam uma posição razoável e se conformam; apenas algumas poucas ousam lutar para chegar o mais alto possível. É difícil resistir à tentação de se acomodar, de aceitar a subalternidade ou dedicar-se apenas ao marido e aos filhos.
Sim, gostamos de ser mães, de cuidar da casa e dos outros, mas isso não engloba todos os nossos anseios. Precisamos também de independência financeira, sexual e profissional, de respeito, de dignidade e de reconhecimento social. Para escapar da violência e mudar a correlação de forças temos de estar no poder. Mesmo que esse poder, instalado por homens para o bem dos homens, não seja o nosso ideal de vida. Ainda que pareça difícil suportar as contrariedades do ambiente hostil, não será possível evitar esta etapa evolutiva: ocupar os espaços para depois fazer as transformações. Enquanto as mulheres não tiverem a clareza de que é preciso querer mais, ambicionar o máximo e não se contentar com o mínimo, os bons níveis de escolaridade não serão suficientes para vencer a imposição de inferioridade.
Por outro lado, não podemos prescindir da colaboração dos homens nessa árdua jornada. E eles precisam começar modificando a forma como encaram as relações afetivas. Sobre esse tema, David Servan-Schreiber, médico francês que escreveu dois livros para contar sua luta contra o câncer, sintetizou o assunto na obra Podemos Dizer Adeus Duas Vezes. Depois de muita meditação e durante os momentos finais em que passou a rever sua vida, reconheceu que não soube amar as mulheres como gostaria de ter amado. Em suas palavras: "Quando eu era muito jovem, tinha a cabeça cheia de ideias imbecis sobre o assunto. Para mim, amor era coisa que o homem impunha à mulher, pois ela era por essência recalcitrante. O único modo de agir era subjugá-la. Uma história de amor era em primeiro lugar uma história de conquista, depois uma história de ocupação. Pura relação de força, na qual o homem tinha interesse em se manter na posição dominante. Nem pensar em deixar-se levar, mesmo depois de ela se render. Como a dominação era ilegítima, ele devia vigiar constantemente sua conquista, devia mantê-la sob sua influência, se quisesse evitar que ela se rebelasse. Impossível imaginar uma relação harmoniosa, uma relação baseada na troca ou numa igualdade qualquer dos parceiros. Ainda me pergunto de onde me vinham aquelas ideias idiotas que deterioraram minhas histórias de amor até por volta dos meus 30 anos. Eu me esforçava por me comportar como potência ocupante. Minha busca amorosa se resumia à procura de um território para conquistar. Resultado: eu amava, às vezes loucamente, mas não era amado. Ou mesmo quando o era, não me autorizava a me sentir amado. Porque, nesse caso, precisaria depor as armas. Que tristeza ter perdido tanto tempo e tantas oportunidades de felicidade! Por fim, acabei me desvencilhando daquelas ideias grotescas, dei um salto quântico que me projetou anos-luz, num universo encantado em que as mulheres são dotadas de inteligência e conseguem compartilhar comigo uma infinidade de interesses comuns. Finalmente, fui capaz de viver verdadeiras histórias de amor, com mulheres que eram iguais a mim, humana e intelectualmente. Consegui abandonar o frustrante papel de tutor. Aprendi que há muito mais prazer em dar e receber do que em dominar ou impor-se pela sedução".
Talvez seja isso que nossas escolas tenham de ensinar para que os níveis de instrução formal possam fazer alguma diferença.
Perfume de poder - DENISE ROTHENBURG
Correio Braziliense - 06/12/2011
A reforma ministerial é a melhor fragrância que Dilma poderia escolher para as festas de fim de ano. Enquanto a presidente exalar a força de detentora dos cargos, associada à avaliação positiva do governo, a base aliada permanecerá dócil
Nesta temporada de confraternizações e festas de fim de ano, a presidente Dilma Rousseff pode dispensar as fragrâncias das grifes francesas, italianas e americanas. Afinal, ela tem em mãos algo que faz a base render-se aos seus pés: a caneta para promover uma reforma ministerial e uma avaliação positiva perante o eleitorado. O exemplo mais visível dessa atração que Dilma exerce sobre os partidos é a decisão de ontem do PDT. Ao anunciar que permanece na base do governo depois da saída do ministro do Trabalho, Carlos Lupi — isolando aqueles que pregavam independência e distância dos cargos —, o comando pedetista dá o recado claro de que espera ser compensado em janeiro, quando a presidente fará a reformulação na Esplanada.
Não por acaso, a comissão responsável pela ponte entre o partido e o governo tem a participação do deputado Brizola Neto (PDT-RJ), que hoje não reza pela cartilha de Carlos Lupi. É uma tentativa de o PDT tentar demonstrar unidade interna e conseguir algum espaço.
Os demais partidos estão, guardadas as devidas proporções, na mesma batida. O PR, que jurou independência quando Alfredo Nascimento deixou o Ministério dos Transportes, hoje não resiste a um convite para se sentar à mesa com a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti. Depois de um pronunciamento ali, uma fala no salão verde da Câmara acolá, lá está o líder Lincoln Portela (MG), pronto para tomar um café com Ideli e reaproximar-se do Planalto.
O PMDB também. Há duas semanas, conforme registramos aqui, os peemedebistas foram os mais fiéis quando da votação da Desvinculação de Receitas da União (DRU) na Câmara. No Senado, ocorre aquilo que os palacianos chamam de "peripécias do presidente José Sarney" — uma delas foi colocar a regulamentação da emenda da saúde para votação. Ainda assim, não se pode dizer que o PMDB vá enfrentar o governo, até porque o líder, Renan Calheiros (PMDB-AL), tem dito que a bancada terá um comportamento de aliado nas votações importantes.
Diante dessas juras de amor e fidelidade à presidente Dilma Rousseff, o Planalto, por sua vez, também não pretende declarar guerra aos partidos — até porque, quem observar com cuidado a situação política de cada um, verá que as legendas aliadas ao Planalto já estão para lá de desgastadas. À exceção do PSB, que ainda não enfrentou um vendaval sobre seus ministros, todos passaram por dissabores com a queda em série de autoridades do primeiro escalão, a começar pelo próprio PT, que perdeu Antonio Palocci. Depois vieram PR, PMDB e PCdoB. O PP, apesar da permanência do ministro das Cidades, Mário Negromonte, não pode dizer que viveu um ano tranquilo.
A ideia da presidente é fazer uma reforma pontual e não sair mudando tudo. Ela já deixou de lado, por exemplo, a intenção de fundir pastas. Além de reduzir o número de espaços para abrigar as correntes do PT, ela passaria a impressão de que Lula gastou demais ao criar tantos ministérios, coisa que soaria mal. Para completar, são poucos os ministros candidatos a prefeito no ano que vem e, depois que sete tiveram a validade menor do que a de um creme para rugas, não sobrou muita coisa para mudar.
Reservadíssima quando o assunto é reforma ministerial, Dilma apenas fez chegar ao PDT a informação de que não pretende entregar o Ministério do Trabalho para a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Embora ache que deva ter liberdade para compor sua equipe, Dilma sabe da importância de não fazer com que as alterações pareçam uma provocação aos partidos. E, nesse caso, se a presidente tirasse o Ministério do Trabalho das mãos do PDT — e, por tabela, de pessoas que têm ligações com a Força Sindical — para entregar à CUT, seria o mesmo que dizer "Lupi, eu te odeio".
Enquanto isso, na sala do PMDB...
Se quiser, a presidente Dilma poderá testar o poder de seu perfume na quarta-feira, quando os peemedebistas planejam se reunir numa confraternização pré-natalina e, de quebra, comemorar o aniversário do líder Henrique Eduardo Alves, e o do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, que foi ontem. Aos dois, parabéns.
Saúde e doença - VLADIMIR SAFATLE
FOLHA DE SP - 06/12/11
Depois de anos no ostracismo, a obra de um dos mais originais filósofos do século 20 começa a ser publicada de maneira integral. Para além do circuito restrito de especialistas em filosofia da biologia e da medicina, poucos conhecem Georges Canguilhem (1904-95).
Mas a publicação de suas "Obras Completas" tem a força de revelar um pensador original capaz de renovar problemas clássicos da filosofia, como a relação entre natureza e liberdade, bem como questionar ideias clínicas e médicas que pareciam independentes de toda e qualquer filosofia.
Numa era como a nossa, noções como saúde, doença e sofrimento psíquico têm também uma dimensão política. Não apenas porque servem para justificar modelos de intervenção social, mas porque expõem o que entendemos por uma vida bem-sucedida, com seus valores.
Não sofremos só por termos algum tipo de deficit ou excesso em relação a variáveis fisiológicas. Sofremos por não conseguirmos realizar valores e normas sociais que compreendemos como necessárias para nossa autorrealização.
Nesse sentido, o pensamento de Canguilhem é profícuo por fornecer uma visão renovada sobre o que significa saúde e doença. Normalmente, acreditamos que um organismo doente é mal adaptado, incapaz de se relacionar com seu meio. Ou seja, a saúde aparece como um modo de adaptação às determinações normativas do ambiente. Versões de tal noção foram exaustivamente usadas por várias escolas de psicologia.
Canguilhem fornece uma ideia nova. Na verdade, um organismo doente é aquele completamente adaptado a seu meio. Por isso, ele não suporta nenhuma modificação, ele a vivencia necessariamente como catástrofe. Na defesa de sua rigidez e fixidez, erguem-se fronteiras e limites que não podem, em momento algum, ser transpostos.
Já uma vida saudável é aquela não completamente adaptada, por isso, mais flexível e capaz de relacionar-se às mudanças. Ela é capaz de acolher o que ainda desconhece, produzindo novas normas e valores que, mostrando-se mais produtivas do que as anteriores, indicarão caminhos inesperados para o desenvolvimento.
Durante toda a sua obra, Canguilhem mostrou como tais ideias dizem muito a respeito de como compreendemos a razão, a racionalidade e seus limites.
Ele nos abriu portas para uma reflexão diagnóstica sobre a vida social e seus desafios. Por isso, nada mais justo do que voltar a lê-lo e descobrir como o seu pensamento influenciou alguns dos maiores pensadores do século 20, como Foucault, Lacan, Deleuze, entre outros.
Notícias da Europa - JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SP - 06/12/11
A ideia de Angela Merkel é transformar cada capital da zona do euro em pequenos governos de Vichy
1. AMIGOS BRASILEIROS estão preocupados com a crise europeia. E alguns, mais à esquerda, estão preocupados com os efeitos da crise na social-democracia. Olham para a Europa e que veem eles?
Governos de esquerda a serem varridos do mapa com uma brutalidade feroz. Como explicar o fenômeno?
A culpa é da especulação dos mercados financeiros, dizem eles; ou, melhor ainda, da ideologia "neoliberal" que está a matar o Estado de bem-estar social. Por isso eles estão solidários com as populações revoltosas que protestam nas ruas contra as "políticas de austeridade".
Fico comovido com essas exibições de solidariedade brasileira. Como ficaria comovido com exibições de solidariedade chinesa ou indiana. Explico por quê: durante meio século, a Europa construiu o seu Estado de bem-estar social, não apenas porque crescia economicamente -mas porque o resto do mundo não crescia nem ameaçava a sua supremacia.
Hoje, o mundo descentrou-se; e o poder, a começar pelo poder econômico, tem abandonado o Ocidente (leia-se: a Europa e também os Estados Unidos), deslocando-se para outras paragens.
Quando a economia chinesa cresce, em média, 9% ao ano desde a década de 1970, ou quando a Índia promete crescer, no futuro próximo, uns aterradores 10%, dá para entender que não há dinheiro que chegue para sustentar o "modelo social" que a Europa inventou.
Exceto, claro, pela dívida: como escrevia recentemente o historiador português Vasco Pulido Valente, a esquerda europeia ainda tentou salvar o "modelo social" pelo endividamento. Azar: arruinou a Europa e arruinou-se com ela.
Quando os meus amigos se solidarizam com os europeus que protestam contra os cortes no 13º salário, eles estão a defender, implícita e inconscientemente, que o Brasil e os restantes "emergentes" deixem de emergir.
Estão a defender, no fundo, que o Brasil e os restantes "emergentes" regressem à pobreza do passado para que a Europa possa continuar a comer brioches.
Tanto amor comove.
2. O governo de Vichy, que existiu na França ocupada pelas tropas nazistas entre 1940 e 1944, não era totalmente destituído de poderes. Podia legislar em matérias "domésticas" desde que isso não pusesse em causa a autoridade do Terceiro Reich, que de fato governava o país.
Na próxima sexta-feira, em mais uma cúpula decisiva para salvar o euro e a União Europeia, Angela Merkel e o pequeno Sarkozy vão propor uma "união fiscal" que consagra, em tons mais moderados, esse velho arranjo de Vichy: os Estados membros podem tratar dos seus assuntos menores, com certeza; mas, em matéria fiscal e orçamental, Bruxelas e Berlim terão sempre a primeira e a última palavra.
A ideia de Merkel é transformar cada capital da zona do euro em pequenos Vichys.
Resta saber se os parlamentos nacionais dos Estados membros aceitam esse papel decorativo num hipotético Quarto Reich. Perspetivas otimistas. Na Europa de hoje, há muitos Pétains e poucos De Gaulles.
3. Mas nem tudo são más notícias. Hoje mesmo, leio na imprensa portuguesa que Viena se prepara para abrir o primeiro curso superior em Sexualidade Aplicada. O objetivo do curso é ensinar os alunos a serem melhores amantes, o que implica um detalhado programa de estudos teóricos e, sobretudo, práticos.
Na teoria, a diretora da International Sex School elenca algumas das disciplinas: posições sexuais, técnicas de acariciamento, características anatômicas.
Na prática, os alunos terão à disposição um dormitório onde, para além das atividades habituais, como dormir ou comer, poderão fazer as suas lições de casa, como dormir com, ou comer os, colegas.
Isso sempre aconteceu nos dormitórios universitários? Verdade. Mas não tinha caráter compulsório nem dava direito a diploma. Além disso, e para quem cursou Letras (é o meu caso), não vale a pena fazer comentários sobre a qualidade estética do material. A escola austríaca promete rigor na seleção dos candidatos.
Infelizmente, a diretora é omissa sobre os critérios de avaliação durante o curso. Haverá exames? Em caso afirmativo, serão exames escritos ou, suspeita minha, essencialmente orais?
Aguardemos por mais esclarecimentos.
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