quarta-feira, agosto 17, 2011

GOSTOSA


CELSO MING - Eurogovernança


Eurogovernança
CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 17/08/11

A reação negativa mostra que o mercado financeiro ignorou a importância do encontro realizado ontem em Paris entre a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, os mais importantes chefes de Estado da área do euro.

Foi uma dupla reação, a um fato e a um não fato - ambos negativos. O fato negativo foi o baixíssimo desempenho da economia da Alemanha no segundo trimestre do ano. O PIB da locomotiva da Europa cresceu apenas 0,1% sobre o trimestre anterior, bem abaixo do esperado (0,4%). O da Espanha, não muito diferente, avançou só 0,2%. E se sabia há dias que a França, a segunda força da área do euro, mostra crescimento zero. Essa é a foto de uma Europa paralisada pela crise.

Já o não fato foi a recusa de Merkel e Sarkozy de defender a criação do eurobônus, título de dívida comum à área do euro, que substituiria os títulos nacionais. Essa rejeição havia sido previamente anunciada.

A instituição do eurobônus empurraria o bloco para a integração fiscal. A partir do momento em que dívida e corresponsabilidade fossem comuns, seria dado o primeiro passo rumo a diretrizes orçamentárias unificadas. E, como isso exigiria certo controle central, uma dívida comum forçaria a unidade política.

Ou seja, a criação de um título da zona do euro seria um instrumento destinado a encaminhar uma solução para a principal deficiência da moeda comum: a falta de unidade fiscal e política.

Mas a constituição de uma dívida comum foi rejeitada. Tanto Merkel como Sarkozy não quiseram empurrar para o contribuinte alemão e francês a maior parte das responsabilidades pelo pagamento da conta da crise. O argumento usado por ambos para justificar a recusa é falacioso: o eurobônus só funcionaria quando já houvesse plena integração, disseram ambos. Essa justificativa também poderia ser estendida ao próprio euro, que só subsistiria com prévia união fiscal e política. No entanto, a decisão em 1992 (Tratado de Maastricht) foi colocar o carro à frente dos bois para, primeiro, eles faltarem e, só depois, atrelá-los ao carro.

Mas mesmo sem concordar com a criação do eurobônus, a dupla Merkel e Sarkozy deu passos importantes em direção à construção da unidade fiscal e política. Sugeriu a criação de um Conselho Econômico da Área do Euro, conduzido por um presidente eleito com mandato de dois anos e meio. Teria certas atribuições políticas sobre os governos dos países-membros, como coordenar a aprovação de orçamentos equilibrados. Trata-se, portanto, de providência destinada a melhorar a governança da área.

Também para uniformizar os sistemas tributários e evitar um princípio de guerra fiscal entre os 17 países do bloco, foi proposta a convergência da carga tributária incidente sobre as empresas.

Outra decisão foi sugerir a criação, já em setembro, de novo tributo, o Imposto sobre Transferências Financeiras. Nada mais é do que a nossa Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Destina-se a elevar a arrecadação e a obter recursos para capitalizar os bancos. Nessas condições, tentará neutralizar um dos maiores problemas da zona do euro, a insuficiência de receitas.

Merkel e Sarkozy poderão ser atacados pelo que propuseram e serem ignorados. Mas a salvação da área do euro passa por providências que vão na direção do que acaba de ser encaminhado.

CONFIRA

Mercado aquecido

Embora a criação de empregos tenha se moderado, as indicações são de que o mercado de trabalho continua aquecido no Brasil. Esse é o fator que favorece as reivindicações por aumentos reais de salário, num momento em que se intensificam as negociações trabalhistas de algumas das mais importantes categorias profissionais, como metalúrgicos, bancários, petroleiros e petroquímicos.

ELIO GASPARI - Simon propôs a patrulha da Viúva


Simon propôs a patrulha da Viúva
ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 17/08/11

O senador conhece o Congresso e sabe que estão montando emboscadas contra a faxina de Dilma

Há muito tempo não acontecia coisa tão boa no Congresso. O senador Pedro Simon (PMDB-RS) propôs a criação de uma frente interpartidária de apoio a Dilma Rousseff para conter a chantagem que se arma contra o governo por conta de sua disposição de combater a ladroeira.
Durante o governo de Itamar Franco, foi ele quem obteve o afastamento temporário do chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, acusado de corrupção. (Hargreaves deixou o cargo, as acusações mostraram-se infundadas e ele retornou ao Planalto, de cabeça erguida.)
Aos 81 anos, com 53 de vida parlamentar, Simon já foi líder do governo, ministro e governador do Rio Grande do Sul. Simples e direto, jamais se incomodou com a fama de "maluco beleza" que o acompanha. Simon já viu de tudo, peixe em árvore e elefante voando. Por isso sua proposta, além de essencialmente boa, poderá ser revolucionária.
O fisiologismo não vai acabar, até porque sua principal fonte alimentadora é o governo. Também não vão acabar as maracutaias. O que Pedro Simon oferece é uma coligação destinada a impedir que o Congresso seja transformando num instrumento de chantagem. A banda podre da base do governo quer se rebelar em defesa da impunidade, mas não pretende botar a cara na vitrine. Planejam emboscar o governo em procedimentos rotineiros, votações surpreendentes ou ainda com alianças oportunistas. Não se trata de enfrentar o Planalto, como faz o Tea Party americano, que defende uma plataforma. A proposta do senador, se resultar em ações práticas. permitirá a exposição da hipocrisia. Basta mostrar onde está o alçapão, pois sempre haverá deputados ou senadores dispostos a colocar cascas de banana no caminho das lideranças parlamentares ineptas do governo. Para combatê-los, a luz do sol será o melhor desinfetante. Mostrará a infiltração da turma dos convênios e das licitações fraudulentas na bancada do governo, inclusive na do PT. De quebra, inibirá a adesão do PSDB e do DEM a maiorias oportunistas.
Infelizmente, até mesmo na proposta de Simon existe um ingrediente tóxico: "Ela tem que dialogar mais". Conversar, todo mundo precisa, inclusive Mano Menezes. Pode-se conversar com os deputados Valdemar Costa Neto, Eduardo Cunha ou com o cardeal Eugenio Sales. Há diálogos e diálogos. (Por falar nisso, seja qual for a ocasião, seja qual for a pessoa que governa o país, deveria conversar com d. Eugenio.) Os parlamentares se fazem ouvir das tribunas do Congresso. Se ninguém dá atenção ao que dizem, o problema foi criado por eles.
O deslocamento do eixo das negociações do Legislativo com o Planalto para a discussão de verbas e nomeações criou uma situação na qual o Congresso perde quase sempre, e a Viúva, sempre. Esses assuntos são secundários. Quem tem o quê para discutir no Planalto a respeito de educação, saúde ou segurança? Em oito meses de governo de Dilma Rousseff pouco se ouviu de relevante. A bem da verdade, noves fora as marquetagens, em relação a esses temas o Executivo disse pouco e fez menos. Por exemplo: durante a campanha eleitoral, a doutora Dilma prometeu "tomar iniciativas logo no início do mandato para regulamentar a Emenda Constitucional 29", definindo a destinação de recursos para a saúde. Cadê?

MARCIA PELTIER - Natureza viva


Natureza viva
MARCIA PELTIER
JORNAL DO COMMÉRCIO - 17/08/11 

Pela primeira vez o Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, irá sediar uma reunião do Itamaraty. De 25 a 27, ministros do Basic - grupo formado por Brasil, África do Sul, Índia e China para a discussão de temas relativos às mudanças climáticas globais - vão ter um encontro de trabalho onde também serão debatidas questões da Rio+20. Cercados pela belíssima natureza local do instituto, que possui um milhão de metros quadrados visitáveis, inspiração para preservar a ecologia é o que, certamente, não vai faltar.

Espécimes raras

Além do importante acervo de arte contemporânea, Inhotim vem conquistando prestígio por seu acervo botânico, que possui a maior coleção mundial de palmeiras, com cerca de 1.500 espécies, mais orquídeas, antúrios e copos de leite. Desde junho, o viveiro foi aberto ao público. Em dezembro passado floresceu por três dias a intrigante flor-cadáver.

Da hora

O público da terceira idade ganha seu primeiro evento no Brasil. O Fórum Internacional Maturis, em setembro, na capital paulista, trará ao país o especialista americano William Bill Thomas. Ele foi o criador da Green House, que substitui asilos por ambientes pequenos, semelhantes a lares, onde as pessoas podem viver de forma interativa. Thomas também liderou o desenvolvimento do primeiro departamento de emergência nos EUA concebido para adultos maduros. No Brasil, o número de pessoas com mais de 60 anos passou de 15 milhões, em 2000, para os atuais 22 milhões.

Reencontro

Ex-funcionários da TV Manchete se reúnem sábado, no Scala Rio. Após 15 anos na justiça trabalhista, muitos funcionários ainda não receberam a devida indenização. De lá, sairá uma carta à presidente Dilma pedindo providências.

Pendurado

Famoso e animado cantor que circula pelo high society, recém-separado, está prestes a ser desalojado de sua mansão na Barra. A construtora afirma que o artista já deve quatro mensalidades da compra.

Clã veloz

Wilson Fittipaldi, pai, com 91 anos, será homenageado na festa de 50 anos da Confederação de Automobilismo, hoje, no Copacabana Palace. Além de ter sido o fundador da CBA, ele será lembrado por sua carreira de radialista de automobilismo. O clã Fittipaldi irá comparecer em peso, aí incluídos o campeão Emerson e o irmão Wilson Fittipaldi Jr., além do presidente da FIA, Jean Todt.

Carro do ano

O evento mais prestigiado de carros de luxo do mundo, realizado pela revista Robb Report há 30 anos nos Estados Unidos, terá sua versão brasileira esta sexta e sábado, em Itu, interior de São Paulo. Oito jurados vão fazer um test drive de 15 modelos top de linha. Os convidados terão mordomias como cigarlounge, oficinas de tênis e golfe, simulador de F1, hípica e spa com massagens e aplicação de unhas em gel.

Democracia virtual

A deputada Manoela D’Ávila vai inaugurar, hoje, em seminário que realiza sobre juventude e direitos humanos, uma ferramenta oficial da Câmara que vai permitir a participação de qualquer cidadão dos debates, em tempo real, através do endereço www.edemocracia.gov.br, a partir das 14h.

Sarau moderninho

Rodrigo Penna, idealizador do Bailinho, abre hoje um novo evento, o Ambiente, com sua assinatura. No restaurante Prado, no Jockey, vai reunir uma turma, hoje à noite, em clima de lounge, “para inventar de falar umas palavras bonitas”. Convidados vão se levantar e declamar poesias ou dizer o que lhes vêm à cabeça. A sambista Teresa Cristina e o produtor cultural J.R. Tolstoi confirmaram presença.

Em comum

Primeiro presidente da Biblioteca Nacional, Affonso Romano de Sant’Anna estará, hoje, na instituição para lançar o livro Ler o Mundo, com um capítulo dedicado à sua experiência na casa, entre 1990 e 1996. Sant’Anna também participa do projeto Quarta às Quatro, em que vai debater com o público as crônicas de Rubem Braga. Amigos e vizinhos, eles se falavam frequentemente e, inclusive, se observavam mutuamente através das respectivas coberturas em Ipanema.

Ele topa

O staff de Sir Elton John mandou avisar que o cantor achou simpática a ideia de assistir à abertura do Rock in Rio e a apresentação das bandas nacionais no setor privé do camarote do festival. O artista inglês fará o encerramento da primeira noite do evento, dia 23 de setembro.

Livre Acesso

Várias atividades para comemorar os 150 anos da Unificação Italiana estão sendo preparadas pela Câmara Ítalo-Brasileira de Indústria e Comércio do Rio, a começar por um jantar dia 12 de setembro, no Copacabana Palace. Haverá show do tenor italiano Francesco Malapena e do cantor Alberto Laurenti e sua banda, além de um desfile de jóias do ourives Gerardo Sacco. Sergio Cabral será homenageado durante o jantar comandado pelo chef Francesco Carli, do Cipriani.

A Procter & Gamble Brasil está com inscrições abertas para dez mil universitários e recém-formados de todo o país que queiram participar do programa de desenvolvimento virtual Carreira, e a sua?. A plataforma foi idealizada em conjunto com a Cia de Talentos.

O consagrado chef Miguel Díaz Ramos, do Gastromium, que ostenta três estrelas no Guia Michelin, participa hoje, em Brasília, do Cozinha Show, feira que acontece paralelamente ao 23° Congresso Nacional da Abrasel. O espanhol ensinará ao público técnicas e deliciosas receitas combase na mistura de chocolate com café.

Cynthia Howlett media papo com o designer Fred Gelli, amanhã, no Talk Show Barteliê.

Os gêmeos catalães Sergio e Javier Torres lançam menu de embutidos ibéricos no eñe, de 23 a 28. No menu, iguarias como jamón ibérico premium e trufas de verão espanholas. O restaurante é o único no Rio com chefs agraciados com uma estrela pelo Guia Michelin.

A Alumni Coppead vai debater, hoje, A Economia Brasileira: Principais Desafios do Novo Governo. A associação dos ex-alunos do instituto de pós-graduação e pesquisa em administração da UFRJ coloca em pauta a impossibilidade de conciliar desvalorização cambial com baixa inflação.

Com Marcia Bahia, Cristiane Rodrigues, Marcia Arbache e Gabriela Brito

ANA AMÉLIA LEMOS - Moralidade na política, eficiência na gestão


 Moralidade na política, eficiência na gestão
ANA AMÉLIA LEMOS
FOLHA DE SP - 17/08/11


Alio-me a esse movimento suprapartidário de apoio à chefe do Executivo para que Dilma não seja refém de forças que não querem moralidade

A presidenta Dilma vem promovendo uma série de ações de combate à corrupção na Esplanada dos Ministérios, coração do poder. Espero que esse processo continue e produza resultados. Não é possível erradicar de vez a corrupção, mas, com certeza, é possível mitigá-la consideravelmente.
No presidencialismo de coalizão, os partidos compartilham o poder com o presidente da República ocupando cargos em ministérios, e os servidores afastados por suspeita de corrupção são ligados aos partidos da base aliada ao governo no Congresso. Desde que iniciou essa "faxina", o Palácio do Planalto vem recebendo sinais desses partidos, que, descontentes com a atuação da presidenta, ameaçam fazer oposição ao governo nas votações na Câmara e no Senado.
Uma oposição fisiológica, desprovida de programas, que pretende emparedar o governo fazendo-o refém de sua agenda de interesses.
Diante desse cenário, os senadores Cristovam Buarque (PDT-DF) e Pedro Simon (PMDB-RS) iniciaram um movimento suprapartidário de apoio político à chefe do Poder Executivo, visando conceder à presidenta as condições de governabilidade necessárias para que dê continuidade às ações moralizadoras e de austeridade na gestão.
Aliei-me a esse movimento, prestando minha solidariedade política à presidenta. Não é um alinhamento automático às ações do governo Dilma Rousseff. É, pontualmente, um apoio político para que ela não fique refém de outras forças que não queiram o que estamos pretendendo aqui: austeridade, moralidade, gestão, qualidade e profissionalização do serviço público.
Durante séculos, encaramos a corrupção como uma questão intrínseca à política brasileira. Está na hora de quebrarmos esse paradigma. Está na hora de revermos os critérios para o preenchimento de mais de 20 mil cargos de livre nomeação à disposição da presidenta.
Esses cargos são preenchidos com critérios políticos, pelos partidos, em nome da "governabilidade".
É preciso preencher esses cargos com critérios técnicos, e não políticos, de preferência com a realização de concurso público. Partidos e políticos que desejarem se aliar ao governo devem fazer isso orientados por questões programáticas, e não apenas pelo fisiologismo.
Continuo acreditando que as CPIs são um instrumento democrático de exercício de uma das principais funções do Poder Legislativo: fiscalizar os atos do Executivo. Serei signatária da abertura de quantas CPIs se fizerem necessárias.
Acredito, ainda, que o comparecimento de ministros para arguições no Congresso deveria ser rotina. Essa agenda interessa ao governo, que ganharia com o aumento da transparência de seus atos.
O Congresso já foi palco de inúmeras e produtivas CPIs em sua história recente. O argumento de que a instalação de CPIs paralisa os trabalhos do governo e o desenvolvimento do país não se sustenta.
Em 2005, a CPI dos Correios investigou quase um décimo da Câmara, membros do Senado e também do governo. Nem por isso o Brasil deixou de viver um período de crescimento econômico, e o presidente Lula atingiu altos índices de popularidade, inclusive conquistando a reeleição em 2006.
A denúncia do Ministério Público Federal confirmou o trabalho da CPI. A sociedade espera do Supremo Tribunal Federal um julgamento compatível ao peso dessa investigação, para que a impunidade não prospere nesse rumoroso episódio conhecido como "mensalão".
É preciso vigilância social para evitar o cerceamento de instituições como o Ministério Público, a Polícia Federal ou a mídia, que precisam desenvolver suas atividades com independência, sem intervenções políticas. Eventuais equívocos dessas instituições devem ser averiguados pelas suas respectivas corregedorias, que têm, para isso, competência e responsabilidade.

ANA AMÉLIA LEMOS é senadora (PP-RS).

APOSENTADO COM O PAU MOLE


FERNANDO DE BARROS E SILVA - A solidão de Dilma


A solidão de Dilma 
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 17/08/11

SÃO PAULO - Os gestos de Dilma Rousseff para inibir e controlar um pouco a corrupção não encontram eco no meio político em geral, o que é sabido, mas tampouco têm o respaldo do PT, o que é menos falado.
Quem, no partido da presidente, abraçou em público, se não a causa, ao menos o discurso da faxina? Talvez Eduardo Suplicy, o eterno Rousseau do PT, levante a mão, solitário e sorridente. A solidão que chama a atenção, porém, é a da própria Dilma, desamparada pelo partido, que -diga-se- nem dela é.
O PT não se deixa mobilizar pela moralização da política, em primeiro lugar, porque é sócio majoritário do sistema que aí está, do qual Lula foi (ou ainda é) o grande fiador.
Desde que chegou ao poder, em 2002, o partido encontrou basicamente duas maneiras para ser aceito como "um dos nossos" pelo establishment: distribuiu dinheiro para banqueiros e tolerou vícios fisiológicos e esquemas de corrupção enraizados no sistema político, muitas vezes participando deles.
Além disso, depois do mensalão, o PT percebeu que a "agenda ética" tem impacto residual na base da sociedade. E soube tirar dividendos da máxima brechtiana: primeiro vem o estômago, depois a moral.
Diante de evidências de corrupção à sua volta, Lula tratava de atacar a "mídia burguesa" para sair em defesa de seus corruptos. Buscava deslegitimar a acusação para proteger os ladrões aliados, como se tudo não passasse de mais uma reedição do golpismo udenista contra o pai dos pobres -Getúlio ou ele. Dilma não age assim. Não é de espantar, também por isso, que o PT se sinta mais confortável com Lula.
O apoio suprapartidário na cruzada pela ética que a presidente recebeu anteontem de nove senadores tem algo de quixotesco. A causa é nobre, mas encampada pela turma de Pedro Simon e Cristovam Buarque assume ares românticos e sonhadores, de quem parece meio descolado da realidade. Os neoamigos de Dilma são o reflexo involuntário da sua solidão na Petelândia.

FERNANDO RODRIGUES - Método na política

Método na política
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 17/08/11 

Dilma Rousseff aos poucos começou a receber políticos no Palácio do Planalto. Ontem foi a vez dos caciques de PCdoB, PDT e PSB. Anteontem estiveram com a presidente os dirigentes do PT e do PMDB. Esses encontros têm sido raríssimos desde a posse. O novo costume segue uma inusual lógica cartesiana para contatos políticos. Dilma Rousseff é metódica.

Pegar o telefone, ligar para um deputado e jogar conversa fora? Nem pensar. Mas a presidente soube que os políticos se ressentem do pouco contato com ela. Sem problemas. Ordenou marcar reuniões regulares, formais e dentro do ambiente de trabalho, no Planalto.

Churrascos no Palácio da Alvorada? Jantares intermináveis com uma turma quase desconhecida? Fora de cogitação. Com seus interlúdios noturnos para receber grupos organizados de partidos, Dilma imprime um novo estilo de governar. Quer fazer política com método. É uma aposta e tanto na terra da cordialidade, das dissimulações e do “passe lá em casa”.

Não que seja ruim ou bom esse novo sistema implantado pela primeira mulher a ocupar a Presidência da República. É por enquanto uma novidade. O país nunca experimentou um presidente, do mais fraco ao mais forte, que não tivesse alguns deputados e senadores “seus”, aliados em quem pudessem confiar de olhos fechados.

Exceto os seus líderes formalmente (é claro) nomeados, não se tem notícia de alguém para quem Dilma possa telefonar com total liberdade no plenário da Câmara ou do Senado. FHC e Lula tiveram seus pontas de lança por ali. Política não é uma ciência exata. A presidente é disciplinada. Costuma ler extensos relatórios do Banco Central ou do Planejamento.

É um bom hábito, embora consuma muito do seu tempo. Para resolver seu problema de administração política terá de modular sua agenda e encontrar o ponto de equilíbrio entre leitura e conversas.

CLÁUDIO HUMBERTO

“O ministro da controladoria não controla coisa nenhuma”
SENADOR ALOYSIO NUNES (PSDB-SP) SOBRE JORGE HAGE, DA CONTROLADORIA-GERAL DA UNIÃO.

AMERICANO TEVE ENCONTRO SECRETO COM AMORIM 
O almirante-de-esquadra Gary Roughead, chefe de Operações Navais da Marinha dos Estados Unidos, fez o ministro Celso Amorim (Defesa) pegar um jatinho para se reunir com ele a portas fechadas, na sede da Marinha, Centro do Rio. Para quem detesta americanos, Amorim foi muito solícito: a reunião durou 40 minutos. Ninguém diz o que o militar veio fazer no Brasil no dia 10, dois após a posse do ministro da Defesa.

ESTRATÉGIA 
Os americanos buscam aproximação estratégica com o Brasil, fazendo contraponto ao semiditador venezuelano Hugo Chávez, hostil aos EUA.

QUARTA FROTA 
O Ministério da Defesa não confirmou se na reunião foi discutida a reativação da 4ª Frota Naval americana, a que o Brasil se opôs.

OBVIEDADE 
A visita do chefe da Marinha americana ocorreu entre os dias 10 e 12. Segundo a Marinha brasileira, foram tratados “assuntos comuns”. Anrã.

NOVILÍNGUA 
Roubalheira no Dnit virou “expansão extraordinária de aditivos” para o ministro Paulo Sergio Passos (Transportes), ontem, no Senado. 

ÁRABES QUEREM DINHEIRO PÚBLICO EM PORTO ILEGAL 
Empresa controlada pela Dubai Ports World, dos Emirados Árabes, a Embraport quer financiamento da Caixa (R$ 633 milhões) e do BNDES para conseguir no Brasil R$ 1,5 bilhão para seu empreendimento no porto de Santos. A Embraport, da qual a empreiteira Odebrecht é sócia também, quer dinheiro de bancos públicos para financiar uma atividade ilegal: operar porto privado como se fosse público, e sem licitação.

BARRADA NOS EUA 
A Dubai Ports provocou comoção nos Estados Unidos, ao tentar comprar sete terminais de contêineres. Foi barrada pelo Congresso.

ALÔ, MINISTÉRIO PÚBLICO 
O lobby pela pretendida “privatização branca” dos portos conta com a leniência da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).

DISQUE-PIADA 
O rolo dos Transportes tem Masella, Caixeta, Pagot e Fatureto. O do Turismo agora tem um Furtado. O bispo sem dízimo para a fiança.

OBRA DO INCA NO RIO... 
A “cumpanheirada” não teme beijar cobra na boca: o PT paulista tenta interferir na licitação desta sexta (19) para a obra de R$ 496 milhões do prédio do Instituto Nacional do Câncer (Inca), do Ministério da Saúde. 

... VENCEDOR DE VÉSPERA 
O ministro Alexandre Padilha (Saúde) quer concorrência limpa, mas petistas ilustres pressionam em favor da empreiteira paulista Schain. No mercado, a própria construtora paulista já se considera vencedora.

ASAS DA LIBERDADE 
O jornalista e empresário Humberto Silva Gomes, acusado de fraudar licitações no ministério do Turismo com a ONG Ibrasi, deve voltar ao Brasil hoje (17), e livre de algemas: obteve habeas corpus.

POR ATACADO 
O escritório de advocacia Brito & Santos foi o responsável pela obtenção de habeas corpus de toda turma que acabou em cana na Operação Voucher, da PF, em Macapá e Brasília. Poderoso.

MARÉ BRAVA 
Nova bordoada no governo Sérgio Cabral: a Anistia Internacional condenou ontem o assassinato da juíza Patrícia Acioli, questionando o resultado da CPI das Milícias da Assembleia Legislativa. 

EXIBIÇÃO DE BÍCEPS 
O Exército repetiria ontem, às 5 horas, o absurdo de sábado, quando tomou as ruas de Brasília com 950 homens armados de fuzil procurando uma camionete velha furtada. Alguém achou uma pistola, também furtada, chamou a polícia e poupou o contribuinte de mais esse desperdício. 

POLO DE CRESCIMENTO 
De janeiro a junho, o polo de Manaus faturou US$ 19,7 bilhões, 23,8% a mais que no primeiro semestre de 2010, gerando 118.700 empregos. Isso representou um crescimento de 16% em relação ao ano passado.

ASSIM É FÁCIL 
A Concremat, que vistoria os bueiros-bomba no contrato “emergencial” de R$ 4 milhões com a prefeitura do Rio, foi fundada pelo avô do secretário de Turismo, Antônio Pedro Viegas Figueira de Mello. 

PENSANDO BEM... 
... O problema da corrupção não é só o “jeitinho”, mas também o jatinho. 

PODER SEM PUDOR
DISQUE MÁRCIO FORTES 
Acostumado a tratar pessoalmente assuntos do trabalho sem rodeios e diretamente tanto com políticos quanto com populares, o então ministro das Cidades no governo Lula, Marcio Fortes, se empolgou durante entrevista a um jornal carioca e autorizou a publicação do seu celular para qualquer dúvida de interesse público. O jornal publicou o número com destaque. Dias depois, durante reunião em Brasília, o ministro recebeu uma ligação a cobrar de uma senhora esbaforida, que se identificou como moradora de Duque de Caxias (RJ).
– Ministro, pelo amor de Deus, estou passando mal aqui na rua, me chame uma ambulância porque ninguém me ajuda.
Marcio Fortes interrompeu a reunião e ligou para o Samu da cidade, que socorreu a velhinha.

QUARTA NOS JORNAIS

O Globo: Ministro da Agricultura considera normal usar jato de agroempresa

Folha de S. Paulo: Tele estrangeira poderá controlar televisão a cabo

O Estado de S. Paulo: Justiça condena 4 dos 5 acusados pelo vazamento do Enem

Correio Braziliense: Ministro fere a ética pública e acha pouco

Valor Econômico: Governo decide acabar com fator previdenciário

Estado de Minas: Ministro infringiu Código de Ética

Jornal do Commercio: Mutirão vai proteger os caixas eletrônicos

Zero Hora: Deserção do PR deixa Dilma refém do PMDB



terça-feira, agosto 16, 2011

PAULO SANT’ANA - Acredito em Deus (II)

Acredito em Deus (II) 
PAULO SANT’ANA
ZERO HORA - 16/08/11

Voltando às causas de por que acredito em Deus.

Acredito em Deus porque me tratam com cruel impiedade e eu nunca tive coragem para ser impiedoso com ninguém.

O último que me foi violentamente impiedoso veio se chegando de mansinho, o que ele queria em verdade era romper comigo e me deixar estraçalhado.

Foi falsamente gentil, conversou normalmente comigo e armou-me na conversa uma arapuca. Aí eu me descuidei e ele deu o bote: rompeu comigo, desligou-me o telefone na cara.

Deixou no seu rastro a minha tristeza e desilusão.

Mas eu acredito em Deus porque, apesar do dano imenso e irreparável que me causou, não lhe tenho ódio nem raiva, estava escrito que tinha de acontecer, meu agressor foi somente objeto do meu destino, que consiste unicamente em estar sempre em litígio com as pessoas que amo.

Acredito em Deus porque ele me permitiu o câncer mas logo me provocou a esperança.

Acredito em Deus porque todos os dias ele me renova a sensação cálida de que muita gente gosta de mim, me admira e torce para que eu volte a ser feliz.

Acredito em Deus porque, em meio a tanta maldade, existe muita gente boa e generosa, que só veio ao mundo para entender os outros e amá-los.

Acredito em Deus porque em meio a tanta inveja existem alguns pontos de extrema e sincera dedicação, que me tocam com sua solidariedade.

Acredito em Deus porque, apesar de tanta fome no mundo, são milhões os exemplos de escolas, creches, hospitais, asilos, onde o amor se espalha por seus frequentadores e fá-los animarem-se até o regozijo.

Acredito em Deus porque, se a vida me tira hoje o entusiasmo, amanhã permitirá que eu seja dominado pelo arrebatamento.

Acredito em Deus porque, no final das contas, vivi. E me emocionei, me deixei tocar pela dor dos outros e tanta gente percebeu a minha dor e teve compaixão por ela.

Acredito em Deus porque ainda distingo as cores, ainda vejo as paisagens e ainda escuto os discursos.

Acredito em Deus porque ainda discirno o aroma das flores e das frutas. E acredito em Deus porque ainda pelo tato percebo o que está me esperando em mais esta esquina da vida, se espumas ou espinhos.

Acredito em Deus porque um filho de amigo meu, com 16 anos de idade, encerrou-me em seu quarto anteontem e tocou duas músicas preciosas para mim, acompanhando-se magistralmente ao piano do lado de sua alcova.

Acredito em Deus. E noto esparsos sinais de que Deus acredita em mim.

VLADIMIR SAFATLE - Colapso moral

Colapso moral
VLADIMIR SAFATLE
FOLHA DE SP - 16/08/11 

Aqueles que se veem como excluídos da sociedade não têm razão alguma para obedecer às suas normas.
Eis uma colocação trivial que qualquer habitante de metrópoles brasileiras aceitaria. Conhecemos bem tal situação social onde a exclusão e a falta de perspectiva gera a descrença (no melhor cenário) ou a violência (no pior) contra o império das normas sociais.
Muitos gostariam de chamar isso de "sociologismo vulgar", como se fosse questão de afirmar que onde há pauperização sempre haverá crime.
Talvez seja o caso de simplesmente dizer que a pauperização e o sentimento de ter sido deixado de lado pelo Estado gera, de maneira forte, a desagregação do laço social.
Quando não há nada que sirva de contrapeso a tal processo, é fácil começar a ver carros queimados, lojas quebradas e outros atos de vandalismo.
Nesse sentido, há algo de profundamente cômico em ouvir o premiê britânico, David Cameron, afirmar que a Inglaterra está vivendo um "colapso moral" e que devemos colocar os confrontos em Londres e em outras cidades na conta da ausência de valores como "espírito de equipe, decência, dever e disciplina".
Sim, as escolas e as famílias não ensinam mais esses grandes valores, mas, segundo o primeiro-ministro, em seu papel de último esteio moral da ilha, "desencorajam o trabalho" e fornecem "direitos sem responsabilidade". Por muito pouco, não fomos brindados com a ideia inovadora de que as altas taxas de desemprego eram fruto da "preguiça".
Alguém deveria ter dito a Cameron que ele não é exatamente um bom enunciador contra o colapso moral britânico, ainda mais depois de um de seus principais assessores ser pego envolvido no escândalo que expôs as relações incestuosas entre a política britânica e o magnata da mídia Rupert Murdoch.
Da mesma forma, quando seu governo destrói todo o resto de sistema público de educação e de assistência social após ter pago (com o beneplácito de seu partido) a conta de bancos responsáveis pela crise de 2008, há de se perguntar se o colapso moral vem da City ou de Tottenham.
Pelo menos Cameron mostrou o que o pensamento conservador pode nos oferecer hoje: ladainhas morais em vez de ações enérgicas contra os verdadeiros arruaceiros, ou seja, esses que operam no sistema financeiro internacional.
Enquanto isso não ocorrer, jovens roubando lojas de iPads e tênis continuarão dizendo: não aceitaremos estar fora do universo de consumo e sucesso individual que vocês mesmos inventaram. Nós entraremos nele, nem que seja saqueando.
Por isso, antes de cobrar responsabilidades de setores desfavorecidos da população, Cameron deve parar de tentar escapar de suas próprias.

CAROLINA BAHIA - Aposentados x Dilma


Aposentados x Dilma
CAROLINA BAHIA 
ZERO HORA - 16/08/11

O clima entre o Congresso e o Planalto azedou de vez. Os vetos da presidente Dilma Rousseff à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2012 têm como justificativa a preocupação com a crise econômica internacional. Ontem, porém, até aliados do mais novo grupo de apoio à presidente desciam da tribuna para reclamar nos bastidores. Eles não gostaram das limitações das emendas individuais e do veto que atinge diretamente os aposentados. Medida mais popular da LDO, esse item previa verba no orçamento para o aumento acima da inflação a quem ganha acima de um salário mínimo. Uma batalha antiga, que será retomada pelas lideranças de aposentados indignados. Medidas duras, de controle de orçamento, serão necessárias em caso de recessão mundial. O problema de Dilma é que ela está fragilizada politicamente para comprar brigas deste tamanho.

Harmonia
Na ausência do presidente do Senado, José Sarney, quem presidiu a sessão de apoio a Dilma Rousseff foi o gaúcho Paulo Paim (PT, foto). Em sete meses de atividade do Congresso, foi a segunda vez que a bancada gaúcha no Senado conseguiu afinar o discurso.

Fator
Para completar o pacote da Previdência, o governo ainda estuda estabelecer o aumento do tempo de contribuição.

Intimou
Responsável pelo movimento contra corrupção, o Senador Pedro Simon (PMDB) recepcionou o líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), logo na entrada do plenário:
" Líder é líder. Contamos com o seu apoio!
Jucá, que chegou quase ao final da sessão, deu um sorriso amarelo.

RECORTE E COBRE
Na marra - Já está decidido: se o Congresso não votar o projeto de lei do ensino técnico (Pronatec) até o final deste mês, o Planalto vai colocar as ações em prática com a edição de uma medida provisória. No Estado, um projeto piloto, com 30 alunos, já está pronto para sair do papel na escola da Restinga.

BENJAMIN STEINBRUCH - Não perder o afã

Não perder o afã
BENJAMIN STEINBRUCH 
FOLHA DE SP - 16/08/11

Algumas turbulências chegarão ao Brasil; sejam marolinhas ou marolonas, teremos de surfá-las


QUEM VIU o filme "Inside Job", documentário sobre a crise de 2008, certamente se lembra de uma declaração marcante de Andrew Sheng, diretor da China Banking Regulatory Commission, a respeito de uma das distorções do mercado financeiro naquele momento.
"Por que os engenheiros financeiros devem receber de quatro a cem vezes mais que os engenheiros convencionais?", pergunta Sheng.
"Engenheiros convencionais constroem pontes, engenheiros financeiros constroem sonhos. E, quando esses sonhos viram pesadelos, os outros é que pagam a conta por eles."
Excessos das instituições financeiras no fornecimento de crédito nos Estados Unidos, e também na remuneração milionária de seus "criativos" funcionários, explicam grande parte da crise de 2008. Mas não explicam a atual.
Desta vez, os bancos e as demais instituições financeiras, que pagam regiamente seus executivos, estão mais ou menos sólidos, pelo menos até agora. A origem da maior crise é a fragilidade dos fundamentos dos governos do mundo desenvolvido e sua duvidosa capacidade de arcar com o pagamento de suas dívidas.
Para o Brasil, que, felizmente, mais uma vez, está fora do epicentro da crise, não faz muita diferença a origem dela. Importa é que, nos dois casos, a ameaça principal é de desaceleração ou mesmo de recessão na economia mundial, o que obviamente atinge o país. O Brasil pode ser muito prejudicado pela queda dos preços das commodities, dada a sua condição de grande produtor dessas matérias-primas.
Nossas respostas à crise, portanto, não podem ser muito diferentes das de 2008. Em primeiro lugar, antes que seja tarde, o BC deve reduzir de imediato os juros. Nada justifica que a taxa estratosférica de 12,5% ao ano seja mantida na situação atual. É bom lembrar que, em 2008, o BC foi pego no contrapé ingenuamente elevando os juros de 13% para 13,75% cinco dias antes da quebra do Lehman Brothers. Depois disso, demorou meses para iniciar o movimento de redução.
Não há razões objetivas para pânico no país, desde que seja feita a lição de casa. O Brasil está hoje tão forte para reagir à crise quanto estava em 2008. Em alguns critérios, está até melhor. Tem reservas cambiais de US$ 350 bilhões -US$ 150 bilhões a mais-, e o deficit fiscal está sob vigilância. Nada impede, portanto, que, após a redução dos juros, se necessário, sejam reprisadas medidas de apoio ao consumo que tão bem funcionaram em 2008, com corte de impostos em setores estratégicos e oferecimento de crédito.
Nessa área do financiamento, a situação também é mais confortável, tanto interna como externamente. Lá fora, não há o travamento do crédito às exportações. Aqui dentro, o sistema financeiro privado continua a fornecer recursos, ao contrário do que ocorreu na crise anterior, quando houve o fenômeno conhecido como "empoçamento de liquidez" e o governo foi obrigado a lançar mão das instituições financeiras estatais para irrigar o mercado.
A inflação interna também está em queda e o endividamento público, de 56% do PIB, ainda não preocupa. A equipe econômica do atual governo já mostrou ser sensível à questão do crescimento econômico.
Felizmente, pertence ao passado o comportamento focado unicamente no controle monetário, sem nenhuma responsabilidade sobre os estragos que essa política tivesse sobre a atividade econômica, o consumo e os empregos.
Ao empresário, neste momento, cabe manter a crença no país, em seu enorme mercado interno com quase 100 milhões de consumidores de renda média e na possibilidade de superação das dificuldades. Investimentos não devem ser adiados, até porque em momentos como este fica melhor para investir.
Lá fora, a crise é de confiança nas lideranças dos países avançados. Aqui, não há por que reproduzir essa suspeita.
Ao cidadão cabe consumir com responsabilidade, mas sem receios. Foi o destemor dos consumidores que tirou o Brasil da crise de 2008/9 e deu início a um período de forte crescimento econômico. Não podemos perder esse afã. Algumas turbulências certamente chegarão ao país. Sejam elas marolinhas ou marolonas, teremos de surfá-las.

TUTTY VASQUES - Enganatur, prevaricatur...


Enganatur, prevaricatur...
TUTTY VASQUES
O ESTADÃO - 16/08/11

A coisa é tão descarada nos esquemas de desvio de dinheiro público que, se a faxina do governo der uma busca na razão social de empresas e ONGs relacionadas com os Ministérios dos Transportes, da Agricultura e do Turismo, capaz de encontrar contratos firmados com a Transporfora, a Agrotrambique e a Corrupatur, respectivamente.

Entidades fantasmas de turismo do Amapá - taí a Conectur que não me deixa mentir - conservam em letreiro o sufixo característico da atividade (Embratur, Riotur...). Sem qualquer outro cuidado com a fachada do negócio fictício, a cara de pau na execução das fraudes é tamanha que algumas dessas picaretagens podem estar explícitas no próprio nome da contratada pelos órgãos públicos federais. Precisa ver se não tem nenhuma Enganatur, Fantasmatur ou Prevaricatur na relação de credores do governo.

Sério! A desfaçatez com a roubalheira é tal que nem seria nada tão absurdo encontrar no Dnit concorrências vencidas pela Picaretransport S.A. ou, sei lá, pela não governamental Transpropina.

No Ministério da Agricultura, fica mais complicado separar o trigo do joio pelo nome no prestador de serviço. "Laranja" em logomarca, no caso, pode ser só uma referência à fruta.

Em forma
Erasmo Carlos tem comentado nas entrevistas de lançamento do CD Sexo a dificuldade de abordar o tema na língua portuguesa sem usar palavrões na descrição do ato. Isso quer dizer o seguinte: o
Tremendão tá no cio!

Mais essa!
Pippa Middleton, a fabulosa primeira-cunhada real do príncipe William, está namorando um jogador de críquete. É o tipo de coisa que revolta os excluídos no Reino Unido!

Deus é pai!

Com a falta de pontaria dos bombardeios da Otan, francamente, só nos resta orar para que os deputados Protógenes Queiroz e Brizola Neto voltem sãos e salvos da viagem à Líbia patrocinada por Muamar Kadafi. Vai dar tudo certo!

Tudo psicológico

Como sempre acontece em época de crise aguda, os consultórios de psicanálise estão botando executivos pelo ladrão. É gente com medo do "carry", do "hedge", do "circuit break" e, last but not least, do "default".

Velha austeridade

É grande a expectativa no balneário de Massachusetts onde a família Obama inicia na quinta-feira novo período de férias. Corre por lá o boato de que o presidente aproveitará a ocasião para cortar despesas com a estada da sogra.

Procura-se

Cadê o Daniel Dantas, caramba? O banqueiro conseguiu o que há alguns anos parecia impossível para um cara do tamanho dele: sumiu do mapa! Do jeito que o Brasil é um país sem memória, daqui a pouco vão dizer que Daniel Dantas foi um volante habilidoso do Esporte Clube Bahia!

Sai de baixo

Oposição planeja jogar "n.º 2" do Ministério do Turismo no ventilador.

JOSÉ SIMÃO - UEBA! Algema só de sex shop!

UEBA! Algema só de sex shop!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 16/08/11 

E a novela "Insensato Coração"? Insensato não é o coração. Insensato é o autor. Rarará!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Prenderam mais algum ministério hoje? Olha a Federal! Olha a Federal! E sai tudo mundo correndo! Pra Miami! Por que é que todo mundo foge pra Miami, hein? Miami é o Morumbi de Cuba!
E o Sensacionalista: "Fim da polêmica: PF não usará mais algemas para evitar escassez dos produtos". E a polêmica agora é esta: a Polícia Federal deve ou não usar algemas. Acho que deve. Mas algema de sex shop. Aquela acolchoada. De pelúcia! Prisão-fetiche! A polícia tem que usar só algema de sex shop e melhorar aquela quentinha porque no Brasil ainda não tem pena de morte!
E frase no Ministério do Turismo: "Aeromoça, a quentinha tá fria". E teve um preso que exigiu Minâncora. Tá certo, preso já é uma desgraça, ainda mais com espinha. Rarará! E sinceramente, detesto ver gente sendo presa. Mesmo quando merece. Me sinto mal! E esta: "PMDB se rebela". Vão botar fogo no colchão! Rarará!
E "Insensato Coração"? Insensato não é o coração. Insensato é o autor. Rarará! E aquele casal Marina e Pedro, que dá chulé em pé de mesa?! Existe coisa mais chata que aquele casal? Por que todo chato gosta de outro chato? Ele tem cara de pão Pullman, pão de forma.
E ela é mais sem graça que água de salsicha! Loira água de salsicha! Carisma de canja de hospital! E o Eriberto Leão tem duas expressões: olho aberto e olho fechado. Meu cachorro trabalha melhor que ele. Pelo menos franze a testa! Rarará! Eu já sei o que vou fazer: entrar em cena e apertar o saco dele. Pra ver se ele esboça alguma reação. Aperta o saco do Eriberto!
Um amigo meu foi assistir a "Assalto ao Banco Central". E disse que o Eriberto tem a mesma cara pra bandido e pra mocinho! E eu já disse que adoro a Natalie, o Douglas, a Bibi e a biba que grita "Sugar!".
E eu vi a Glória Pires no Projac e ela tem uma coisa chamada majestade!
E mais uma série de Os Predestinados! Direto de Coimbra, Portugal: o proctologista Carlos RABAÇA! E este gerente da Caixa Econômica em São Paulo: Daniel BARGANHÃO! E em Curitiba tem uma técnica de enfermagem chamada Sara Pinto. Ainda bem que o meu já é sarado. Pinto de academia. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

MÃO GRANDE


ANCELMO GÓIS - CHUTE INFELIZ


CHUTE INFELIZ
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 16/08/11
 
A Arquidiocese do Rio apura a ida de Loco Abreu ao Cristo Redentor, quinta. O jogador do Botafogo chutou três bolas na direção da estátua.
Caso seja confirmado que o uruguaio gravava um comercial da Pluna, a empresa e ele serão processados.
Segue... O jogador não pediu autorização à Arquidiocese.

DATA VÊNIA 
Gente graduada da Justiça achou uma pisada bola do Conselho Nacional de Justiça a divulgação de nomes de magistrados sob escolta de segurança. Por esta versão, o que se diz nos tribunais é que só falta agora dar o endereço dos juízes e o nome do colégio das crianças.

INOVAR É MODA 
O ministro Mercadante resolveu mudar o nome do Ministério da Ciência e Tecnologia. Vai se chamar Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

O VELHO E OS MOÇOS 
Celso Amorim lança segunda, no Rio, e terça, em Brasília, o livro Conversas com jovens diplomatas, escrito antes de receber o convite de Dilma para voltar ao governo.

JABOR NOS EUA 
Arnaldo Jabor, que voltou a filmar depois de 15 anos, será homenageado pelo Festival de Miami, em setembro, com uma retrospectiva de seus filmes.
O último será seu longa recente, A suprema felicidade, que depois deve estrear nos EUA.

CENSURA BURRA 
Cacá Diegues desconfia que o filme A serbian film, produção sérvia que não fez sucesso em lugar nenhum, passaria aqui em brancas nuvens “se não fosse o ato de violência de proibi-lo”.
A censura despertou a cobiça de distribuidores, e os amantes de cinema, sobretudo os mais jovens, estão ansiosos para vê-lo.

ALIÁS... 
O filme, que é fraquinho, está proibido de mentirinha. Há como baixá-lo internet afora. Com legendas, inclusive.

LÉLIA, 100 ANOS 
O centenário da saudosa atriz Lélia Abramo será celebrado hoje, em Brasília, no CCBB, dentro do projeto Mitos do Teatro Brasileiro.
Será lido um texto de Lula sobre a atriz, uma das fundadoras do PT.

VOZ DO CÁRCERE 
Um grupo de presidiários e ex-detentos vai fazer uma palestra hoje na unidade da Universidade Estácio de Sá em Madureira, no Rio. A iniciativa é da juíza Thelma Fraga, que condenou a maioria deles. Vão falar para estudantes de Direito e psicologia.

LADRÃO VOADOR 
Um passageiro teve a mochila furtada durante o vôo JJ3027, Brasília-Santos Dumont, da TAM, domingo, quando voltava para o Rio com sua filha de 6 anos de um passeio de Dia dos Pais.
Perdeu notebook, celular, senhas e documentos. A companhia disse que não pode se responsabilizar. O caso foi registrado na 5 DP, na Lapa.

DE OLHO NA COPA 
Um jantar vai marcar hoje a associação de José Vitor Oliva e David Zylbersztajn em torno da Rio360, empresa de marketing.

HÉTEROS EM BAIXA
Pelo visto, o comércio de nheco-nheco entre homem e mulher anda em baixa.
Foi reaberta a Termas Aeroporto, no Rio. Mas agora voltada para o público gay.

ILIMAR FRANCO - Duas táticas


Duas táticas
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 16/08/11

Os senadores da ala independente deram ontem, no plenário do Senado, seu recado ao governo: apoiam a ação da presidente Dilma contra a corrupção, mas querem que ela se livre do fisiologismo. Eles querem que a presidente rompa com parcela de sua base, inclusive
com o que chamam de “a herança maldita” do governo anterior. A coordenação do governo, também ontem, adotou suas diretrizes: fortalecer a aliança orgânica PTPMDB e com os demais partidos governistas.

Dilma chama PT e PMDB para conversar
Os principais líderes do PT e do PMDB reuniram-se, ontem à noite, com a presidente Dilma no Palácio do Planalto. O encontro é resultado do diagnóstico feito pelos dirigentes do PMDB e do PT, para as ministras Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil), de que a presidente precisa dialogar com os partidos governistas. Dilma ouviu, reafirmou a importância da aliança que é a espinha dorsal de seu governo e pediu o apoio nas ações de combate à corrupção e de enfrentamento à crise econômica. Nos próximos dias, a
presidente terá conversas semelhantes com os demais partidos governistas.

"Meus cumprimentos por seu pronunciamento dando apoio à presidente Dilma” — Paulo Paim, senador (PT-RS), que presidia a sessão de ontem no Senado, ao fim de cada discurso dos senadores da ala dos independentes

PISTA LIVRE. 
Assessor do Ministério da Defesa, José Genoino procurou o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), na foto, para retomar as conversas sobre a criação da Comissão da Verdade, interrompidas com a queda de Nelson Jobim. Ouviu que os tucanos não serão problema. Agora o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça), que passou a centralizar o assunto, vai procurar o líder do DEM, deputado ACM Neto (BA).

Nova linha
Os tucanos abandonaram a “Bolsa Esmola”. Na quinta-feira, no Palácio Bandeirantes, a presidente Dilma e os governadores
Geraldo Alckmin (SP) e Antonio Anastasia (MG) anunciam programas complementares ao Brasil sem Miséria.

Enfim
Em até 15 dias serão trocados os diretores financeiro, de engenharia e de construção de Furnas. Os substitutos serão técnicos. Sairão ainda as nomeações para as diretorias do DNPM. As mudanças estão para acontecer desde fevereiro.

Marcha das Margaridas
O governo federal vai publicar uma portaria estabelecendo a escrituração conjunta para o casal, visando garantir a igualdade de direitos de posse e uso da terra a partir dos documentos oficiais do Crédito Fundiário. E o Ministério do Desenvolvimento Agrário vai anunciar a expansão do programa de documentação para atender trabalhadoras rurais em locais de difícil acesso. A meta é beneficiar 480 mil mulheres até 2015.

Excessos
Representante da Câmara dos Deputados no Conselho Nacional do Ministério Público, Luiz Moreira entrou com representação contra a divulgação de fotos de presos na Operação Voucher e de interceptações telefônicas.

Ficha médica
A Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho fez pesquisa com 706 juízes (20% do total). Resultado: 41,5% têm depressão;
17,5% usam remédios para depressão ou ansiedade; 54% dormem mal; e 51% são vítimas de insônia.

 A PRESIDENTE Dilma bate o bumbo hoje para o ministro Fernando Haddad (Educação). Ele é o candidato de Lula para a prefeitura de São Paulo.
 O IPEA aproveitará a Marcha das Margaridas, em Brasília, para aplicar questionário sobre as condições de vida, saúde e trabalho das trabalhadoras rurais.
● A FUNDAÇÃO Ulysses Guimarães, do PMDB, presidida por Eliseu Padilha, lança amanhã a coletânea “Pensamento político brasileiro”. Os primeiros volumes tratam de Tancredo Neves, Castro Alves, Euclides da Cunha, Milton Santos, Mauá e José Bonifácio.

JAPA GOSTOSA


LUIZ ZANIN - Times que precisam de um psicanalista


Times que precisam de um psicanalista
LUIZ ZANIN
O Estado de S.Paulo - 16/08/11

Os muito objetivos que me desculpem, mas, no futebol, emoção é fundamental. Não estou falando nessa emoção que deveria ser o ingrediente normal de todos os jogos, mas no fator psicológico de cada clube e suas repercussões no desempenho do time, maior, a meu ver, que esquemas táticos e outros bichos.

Volto ao assunto, inesgotável, estimulado pelas declarações de Felipão que, como vocês sabem, usou de sua autoridade e abriu a caixa de Pandora. Lavou a roupa suja em público e afirmou que o time teria de reencontrar a paz, perdida depois do assédio do Flamengo ao Kleber. Pode ser só a ponta do iceberg, com licença desse lugar-comum. As divergências, especula-se, envolveriam também a ciumeira pelos salários do Gladiador, e o mais que se pode imaginar. O Palmeiras parece, mais uma vez, um clube partido, com tendências internas conflitantes. Isso atinge o rendimento em campo. O time parou. Este é o fato. O Palestra sofre da alma.

O mesmo pode ser dito em relação ao Santos, cuja ineficiência beira as raias do incompreensível. Outro dia dediquei uma coluna ao Paulo Henrique Ganso, mas ele não é o único que está devendo futebol na Vila. O time todo, com uma ou outra exceção, demonstra inapetência que quem acabou de comer uma feijoada. Não digo que tenham de disputar o título, o que já parece uma quimera dada a distância para os primeiros colocados, mas, pelo menos, deveria se livrar da posição indigna na tabela. Humilhante, claro, levando-se em conta que o time da Vila é o atual campeão paulista e da América. Não faz sentido.

Ou, por outra, talvez faça, desde que a gente analise os tais aspectos emocionais ou psicológicos. Palmeiras e Santos se encontram em posições antagônicas nesse aspecto. O que, paradoxalmente, leve ambos à paralisia.

O Palmeiras parece vítima da ausência prolongada de títulos - o que causa muita pressão num time de grande tradição e torcida. Gera uma ansiedade que, às vezes, põe tudo a perder. Outro dia, em entrevista ao Estado, feita pelos companheiros Bruno Lousada e Silvio Barsetti, Luxemburgo disse que o time estava preparado para ser campeão brasileiro em 2009, mas foi atropelado pela ansiedade do então presidente Luiz Gonzaga Belluzzo e acabou perdendo o título. "O Belluzzo mostrou inabilidade muito grande, jogou um Brasileiro fora por vaidade", disse. Vamos dar um desconto ao ego do Luxa (foi demitido) e reter apenas isso: muitas vezes um clube tem tudo para ganhar e perde para si mesmo. Quer dizer, perde para o seu emocional, para a sua cabeça mal resolvida. Se o Palestra fosse um indivíduo, recomendaríamos que deitasse no divã de um profissional experimentado e botasse os demônios para fora. Talvez assim deixasse de lutar contra si mesmo. Mas como psicanalisar um time?

Outro que mereceria o divã seria o Santos. Se o Palmeiras vive na ansiedade, o Santos tropeça no fastio. Tem todo o ar de quem já fez o seu dever de casa e sente que merece descanso. Se pudesse pedir moratória do Campeonato Brasileiro, acho que o faria sem hesitar. Brasileirão, só em 2012. Como não pode, e tem de cumprir suas obrigações, entra em campo com uma preguiça digna de Macunaíma. É a síndrome da barriga cheia, de quem já tem tudo e só pede sombra e água fresca. Cá entre nós, também acho que é assim, que depois do trabalho vem o repouso e não se deve viver na ansiedade constante da disputa. Acontece que futebol é desse jeito: é jogo, é competição, é pau puro. Acomodou, dançou.

Assim, o nosso hipotético psicanalista de futebol teria de resolver no Palmeiras a ansiedade por desempenho (síndrome que acaba criando situações constrangedoras em outros domínios) e deveria devolver o apetite perdido ao Santos. Não é fácil, deve-se reconhecer.

JOSÉ PAULO KUPFER - Abrir janelas


Abrir janelas
JOSÉ PAULO KUPFER
O Estado de S.Paulo - 16/08/11

Não há, para os próximos dias, previsão de eventos capazes de deflagrar movimentos excepcionais nos mercados mundo afora. Isso não quer dizer que não existam potenciais gatilhos para novas montanhas-russas nas cotações. Nem muito menos que a crise aguda tenha sido desarmada. A calma aparente não se confunde com qualquer hipótese de solução dos problemas.

Os horizontes continuam nublados nos dois lados do Atlântico. Quando se enxerga além da névoa, o cenário cada vez mais nítido nas economias maduras é o do baixo crescimento por um período longo.

Nos Estados Unidos, as famílias se concentram em reduzir dívidas, o que significa cortar consumo e, na esteira, desestimular o investimento das empresas. É de se perguntar, portanto, que poder teriam para reverter um quadro de aversão ao consumo e ao investimento, políticas fiscais e monetárias expansionistas, mesmo esquecendo que, nas duas pontas, a corda já esticou até o limite.

Na Europa, a situação ainda é mais complicada. Além dos problemas das dívidas e dos déficits dos governos, limitadores de políticas macroeconômicas expansionistas, há outras barreiras, como a do sistema de câmbio fixo, exigido pela moeda comum. Esse impasse, amplificado pela situação instável do sistema bancário e uma tensão social crescente, não permite nenhum tipo de otimismo.

A convergência no rumo do consenso de que haverá desaceleração de longo percurso nas economias maduras abre espaço ao debate das estratégias que o Brasil deveria adotar para evitar ser alcançado pela crise global. Resumindo a discussão numa única indagação: até que ponto a crise está abrindo uma oportunidade para que o País adote desde já um programa permanentemente adiado de redução dos juros?

É alvissareiro observar que a relutância a uma resposta positiva vem perdendo força à medida que se amplia a compreensão da inevitabilidade de uma retração prolongada, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos - e até na China. Mesmo no caso da economia chinesa, um enigma ainda não decifrado, dissemina-se a impressão de que também por lá, diferentemente do que ocorreu no primeiro capítulo da grande crise atual, a tendência é de desaceleração.

As divergências, no caso da China, giram agora mais em torno do tamanho do esfriamento da economia. As previsões, na média, apontam para um crescimento entre 6% e 8%, nos próximos anos, o que já seria uma desaceleração e tanto, para quem tem avançado por um longo período acima de 10% ao ano, com picos de 15%. Mas já existem avaliações de que, se for cumprir o objetivo de elevar o consumo interno de 35% do PIB para 50%, a China terá que se contentar com um ciclo de expansão de apenas 3% e 4% ao ano.

Não surpreende, por tudo isso, que menções a uma possível "década perdida" venham ganhando desembaraço. E que tais menções possam ser cada vez mais facilmente encontradas nas análises disponíveis. Não custa lembrar que uma década perdida significa, entre outras coisas, taxas referenciais de juros muito baixas por longo período. Nos Estados Unidos, aliás, será assim, com a prorrogação de taxas de juros perto de zero, pelo menos até meados de 2013, como o Fed determinou por escrito, depois da última reunião do seu comitê de mercado aberto.

Do ponto de vista brasileiro, sem entrar em outras considerações, só esse fato indicaria ter chegado a hora de estreitar o diferencial de taxas - no mínimo restabelecendo relações anteriores à crise. Mesmo quem defendia altas mais fortes de juros há tão pouco tempo está agora aceitando a perspectiva de manutenção das taxas - e até mesmo de um corte, embora com cautela. Janelas, enfim, estão se abrindo. Atacar o diferencial entre as taxas internas e externas pode apresentar uma série de vantagens. Em primeiro lugar, ajudaria no combate aos déficits externos, um dos principais canais de possível contágio da crise global para a economia brasileira, pela menor pressão de valorização do real.

Além disso, cortes cautelosos dos juros dariam um imediato sinal de alento ao mercado interno, permitindo talvez dispensar estímulos fiscais se surgirem dúvidas e quebra de confiança numa evolução razoável do nível de atividades - mesmo quando se sabe que os efeitos concretos da política monetária ocorrem com alguns meses de defasagem. Por último, mas não menos importante, contribuiriam para a desejável contenção dos gastos do governo, pela redução direta do serviço da dívida pública.

CELSO MING - Chicote neles


Chicote neles
CELSO MING
 O Estado de S.Paulo - 16/08/11

No século 5.º antes de Cristo, Xerxes, rei da Pérsia, ordenou que fosse construída uma ponte no Helesponto (atual Estreito de Dardanelos) para que seus exércitos pudessem passar da Ásia para a Europa. Ondas violentas demais atrapalharam os trabalhos. Furioso, Xerxes mandou açoitar o mar com 300 chicotadas. É o que nos conta Heródoto, em sua História.

É mais ou menos o que estão fazendo as autoridades da Europa e do Brasil. Na semana passada, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, irritado com ataques às cotações do banco francês Société Générale, proibiu vendas de ações a descoberto (sem posse prévia). E nisso foi acompanhado por Espanha, Itália e Bélgica. Hoje, em encontro com a chanceler alemã, Angela Merkel, Sarkozy pretende institucionalizar a proibição em toda a área do euro.

Duas semanas antes, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, instituiu um IOF de até 25% sobre operações líquidas vendidas em moeda estrangeira no mercado de derivativos, por acreditar que os especuladores são os grandes responsáveis pelo mergulho do dólar no câmbio interno.

Na última semana, as bolsas reagiram e Sarkozy mostrou satisfação pela eficácia da decisão tomada "contra os especuladores". Na verdade, as bolsas reagiram porque o Banco Central Europeu (BCE) fez o que não queria: recomprou cerca de 30 bilhões de euros em títulos da Itália e da Espanha e avisou que, na hipótese de rejeição dos títulos, o BCE voltaria a ser comprador de última instância.

Mantega, por sua vez, pareceu convencido de que suas 300 chicotadas no mercado de derivativos de câmbio inverteram a tendência do câmbio. E, no entanto, nos dias seguintes, a cotação do dólar subiu no câmbio interno em consequência do agravamento da crise global, não por ter coibido as ações dos especuladores. A valorização do real (de 1,43%), acontecida num mercado financeiro bem mais calmo como o de ontem, mostra que as causas são outras. Mas tanto Sarkozy como Mantega e Xerxes ficaram convencidos de que castigar o culpado aparente funciona.

A especulação existe e conta nos mercados. E é também capaz de radicalizar uma tendência. No entanto, a especulação apenas tira proveito de um desequilíbrio preexistente. As causas da atual instabilidade estão no forte endividamento dos países ricos, não na especulação com seus títulos de dívida. Combatê-la é agir contra o inimigo errado.

Os grandes bancos centrais são hoje a única fonte de liquidez. Mas vêm agindo à beira da irresponsabilidade, por terem passado a recomprar, com emissão de moeda, títulos de dívida sob forte descrédito, como se fossem tão bons como títulos emitidos pelo tesouro da Alemanha.

Isso foi feito pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) com dois programas, de US$ 900 bilhões, e começou a ser feito pelo BCE, que já emitiu perto de 100 bilhões de euros para recomprar bônus da Grécia, de Portugal, da Irlanda e, de uns dias para cá, também da Itália e da Espanha.

Enquanto a inflação não mostrar a cara, esse jogo dos bancos centrais pode continuar impunemente - embora não colabore para reduzir o endividamento público dos seus países. Mas, tão logo reapareça, terão de voltar à sua função primordial e, então, se o problema principal (grande endividamento dos tesouros) não estiver sanado, não haverá tomador de títulos públicos em última instância - e de nada adiantará açoitar os especuladores.

CONFIRA

"Não esperem nada"

Steffen Seibert, porta-voz da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, advertiu ontem que não sairá nada de espetacular no encontro a ser realizado hoje, em Paris, entre a alemã e o presidente da França, Nicolas Sarkozy. Talvez por ter sido previamente esvaziado e ninguém esperar demais, alguma novidade pode sair.

Não sai

O mercado financeiro gostaria de saber que a Alemanha finalmente concordou com a instituição de um título emitido pela área do euro. Mas esse assunto está fora da agenda, avisou Seibert. Uma emissão dessas exigiria uma espécie de tesouro comum que, por sua vez, obrigaria certa coordenação de orçamentos. E, para haver coordenação unificada, seria preciso um mínimo de unidade política, ou seja, capacidade de exigir que os sócios da área do euro cumpram o combinado.

Retificação

Em 2010, o Brasil importou 505,1 milhões de litros de etanol - e não 505,1 bilhões de litros, como saiu na Coluna de sábado.

MÔNICA BERGAMO - NOVA PAULISTA


NOVA PAULISTA
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 16/08/11

A cantora Marina Lima, que trocou o Rio de Janeiro por São Paulo há um ano, apresentou o show de seu novo CD, "Clímax", no Citibank Hall, no sábado. Na plateia estavam a atriz Marisa Orth e seu namorado, o músico Dalua, e o arquiteto Isay Weinfeld, responsável pela cenografia da turnê.

JARDIM DE CASA

Depois de ser assaltado no trânsito de São Paulo, o vice-presidente Michel Temer volta a ficar próximo da violência da cidade. Neste fim de semana, vizinhos dele no Alto de Pinheiros foram assaltados. Uma das casas da praça em que ele mora foi arrombada. Os ladrões levaram computadores e outros bens do imóvel.

TUDO CALMO
Temer passou o fim de semana em sua casa, em São Paulo. Mas não percebeu a ocorrência.

TUDO CALMO 2
Recentemente, vizinhos do vice-presidente reclamaram porque a PM deixava sempre uma viatura rondando a praça. Desta vez, não havia policiais por perto.

CARTILHA
O governo federal prepara campanha para defender a regulamentação de um teto para a aposentadoria dos funcionários públicos. Hoje ele chega a R$ 26.700. Pela proposta, será igualado ao do INSS (R$ 3.691,74). Se quiserem ganhar mais, os servidores terão que aderir a uma previdência complementar em que o governo contribuiria com até 7,5% do salário.

TABUADA
Nas projeções da Previdência, um servidor com 60 anos, 35 de contribuição e salário inicial de R$ 10 mil poderia se aposentar com benefício de R$ 11.276,00 caso aderisse ao plano oficial.

NA JUSTIÇA
Reynaldo Gianecchini recebeu uma boa notícia sobre a briga contra seu ex-empresário, Daniel Mattos, para quem doou uma cobertura no Rio. O ator diz que deu a ele o apartamento apenas para que fosse comercializado. Mattos afirma que foi um presente. O STJ (Superior Tribunal de Justiça) permitiu que nos documentos do imóvel conste certidão em que Giane questiona a doação.

NA JUSTIÇA 2
Gianecchini pretende, com isso, dificultar a venda.

Fátima Mader, advogada de Daniel Mattos, afirma que a certidão não impede a venda do imóvel. "Até porque o apartamento já foi comercializado", diz ela.

OS CRAQUES, A SELEÇÃO E AS "BONITONAS"

Um cartaz da Adidas com uma foto publicitária e a inscrição "Parabéns, Lucas!" anuncia o aniversário de 19 anos do meia do São Paulo e da seleção, na noite de domingo, no clube Royal. Ele ganhou uma festa da agência 9ine, que cuida de sua imagem. A brincadeira na porta é que Neymar, prestes a ser pai, daria uma caixa de camisinhas ao aniversariante, que chega às 23h, com três seguranças. "Tenho que tomar cuidado. Quero ser pai só mais para a frente. Ter dois, três filhos, quantos Deus mandar", diz.

Ele comenta a má fase da seleção, derrotada pela Alemanha. "Claro que fica um clima chato. Leva tempo até o Mano [Menezes] colocar a cara dele no time." Fala também sobre a possibilidade de o treinador dar lugar a Luiz Felipe Scolari ou Vanderlei Luxemburgo no fim do ano. "Temos que fazer nosso trabalho, independente do treinador que escolherem. Deixa isso para a diretoria."

O corintiano Ralf, titular contra a Alemanha, diz que "nem Deus agradou a todo mundo" e que "o Mano é gabaritado. O que for melhor para a gente vai ser feito". Um amigo de Ralf "resolveu vir de última hora" e não estava na lista - 450 convidados, 300 de Lucas. "Sempre tem amigos dos amigos dos amigos", diz o são-paulino.

Júnior Pedroso, do estafe de Lucas, sai para socorrer uma amiga, que "está na lista do Neymar", mas não no computador da hostess. "Não pode entrar qualquer bonitona", reclama a assessora da festa. "Ela não é bonitona, é convidada."

Outras "bonitonas" desafiam o frio e a garoa com vestidos curtos e justos. Quatro delas procuram o "Léo", que, segundo funcionários da casa, é "um empresário que apresenta amigas para jogadores". Só uma, Noelle Andressa, está na lista. À coluna, ela se identifica como Lais Fernanda, 21, modelo, e diz que "esqueceram de colocar nossos nomes". Impedidas pelos seguranças de esperar na porta, as quatro vão embora. Felipe Andreoli, do "CQC", brinca com Neymar: "Está cheio de mãe de juiz lá dentro da festa".

CONSCIÊNCIA
A procura por testes rápidos de HIV aumentou 36% no primeiro semestre, no Centro de Referência em DST/Aids do Estado de São Paulo. Foram 3.407 exames. O índice de descoberta da doença foi de 4,8%.

CONFIANÇA
Chama atenção, no levantamento, o pequeno número de mulheres que procuraram o teste: 1.023, contra 2.384 homens. A Secretaria da Saúde atribui o resultado a uma confiança equivocada: as mulheres com parceiro fixo não se consideram vulneráveis ao HIV, segundo avaliação da pasta.

GALINHA PINTADINHA
A Galinha Pintadinha, sucesso infantil no site de vídeos YouTube, vai virar musical. Ernesto Piccolo dirige a adaptação de clipes de cantigas populares encenados por uma galinha azul para os palcos. Estreia em 2012 em São Paulo e no Rio de Janeiro, pela GEO Eventos.

CONECTADA
Gisele Bündchen será blogueira por cinco dias. A partir de quinta, a top dará dicas de moda no site www.comquelookeuvou.com.br. O autor da melhor mensagem enviada a ela ganhará R$ 100 para gastar em lojas da rede C&A.

CURTO-CIRCUITO

A mostra "Mary Carmen e a Poética dos Volumes" tem coquetel de abertura para convidados, amanhã, a partir das 19h30, no Espaço Cultural Citi, na avenida Paulista.

Marcia Barrozo do Amaral e a galeria Tramas participam do Salão de Artes.

Almir Sater faz show no dia 27, às 22h, no Credicard Hall. 12 anos.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

NÃO ACREDITO!


JANIO DE FREITAS - O crime na frente


O crime na frente
 JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 16/08/11

Não se veem debates sobre iniciativas ou propostas de melhor resguardo dos que vivem sob risco agudo


O ASSASSINATO DA JUÍZA Patrícia Acioli bateu como um choque generalizado, e indutor da atribuição de sua ocorrência à firmeza da vítima contra a criminalidade violenta. O abalo, à parte o componente de comoção pelas circunstâncias de ser uma juíza moça e colhida sem defesa, exprimiu a força da surpresa com a escalada da criminalidade até a vingança contra a Justiça.
"É um atentado à independência do Judiciário", "Os projéteis atingiram também a dignidade de todos os brasileiros", "A democracia foi atingida no que há de mais importante em segurança para a nação, o Judiciário" - as manifestações foram sempre claras em seu sentido de reação ao inesperado.
O surpreendente nesse crime, porém, não é a convicção de vindita como causa, embora a polícia investigue também a possibilidade passional em sua origem. Surpreendente nesse crime é que seja um ato isolado. Surpreendente é que não ocorram há muito tempo, em conformidade com o nível da violência criminal no Rio e em cidades de São Paulo, os atentados a juízes que não se curvam aos seus riscos. E a promotores e procuradores que também ousam estar à altura do seu compromisso com a sociedade.
São eles uma multidão de pessoas expostas à violência dos sentenciados e comparsas. A proteção, nos casos mínimos de sua adoção, é precária já por dificuldades técnicas, e mais ainda por falta de meios para provê-la com melhor eficácia. A desproporção entre as possibilidades para um atentado e a segurança de seu pretendido alvo são assustadoras.
Em medida imprecisa, mas inegável, os que se ocupam dos processos e julgamentos criminais são também responsáveis por aquela desigualdade excessiva de condições. Não se veem debates sobre iniciativas ou propostas de melhor resguardo dos que vivem sob risco agudo. Há alguns anos, esteve em discussão a prática da audiência sem a presença física do juiz, feita por meio de TV, talvez com o réu no presídio. Os prós e os contras esvaziaram-se sem deixar rastro algum. Haveria outros recursos para preservar a identidade do juiz, mas nem por alto foram considerados. Como se os julgados em varas criminais fossem todos pacíficos.
Não há dúvida de que a magistratura do Rio e de São Paulo deve um agradecimento à criminalidade pela falta, em relação ao Judiciário, do espírito vingativo exercido entre os bandos.
O mesmo não precisam fazer inúmeros juízes em outras regiões do país. A conduta do Judiciário do Pará em processos escandalosos como o da mortandade em Eldorado do Carajás e o do assassinato da freira Dorothy Stang, entre tantos outros, é eloquente sugestão do que compromete o Judiciário, e o põe sob condenação moral, por efeito da desproteção dos incumbidos de julgamento. Com o Judiciário, é a Justiça que se torna foragida.
Se o assassinato de Patrícia Acioli sinaliza nova etapa da criminalidade urbana, é o caso de reconhecer que está à frente do Judiciário.

MÍRIAM LEITÃO - Os erros argentinos


Os erros argentinos
MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 16/08/11

O que acontece na Argentina é impensável no Brasil. Um governante que elevasse a inflação a 27% e ainda manipulasse o índice, certamente, não se reelegeria. A presidente Cristina Kirchner está sendo favorecida pelo crescimento econômico, pela viuvez - a imagem do marido morto é usada como parte da propaganda - e pela fragmentação da oposição.

Oficialmente, a inflação ficou em 10,9% em 2010, mas todos sabem que é um número fabricado no Instituto Nacional de Estadística y Censos (Indec), que tem estado sob intervenção da Casa Rosada há cinco anos.

Lá, não há tradição de institutos privados com boa reputação, como temos aqui a FGV e a Fipe. Os bancos e consultorias fazem cálculos que estão em torno de 25%. A previsão do Itaú é de que este ano a inflação será de 27%, caminhando para 30% e 35% nos próximos dois anos. Isso, apesar da queda do dinamismo econômico. O país deve crescer 6% este ano, menos do que os 9% do ano passado, mas reduzirá o ritmo para 3,5% e 3% nos próximos dois anos.

Por enquanto, o crescimento forte está retirando um pouco do desconforto econômico que a inflação produz. As categorias mais fortes estão conseguindo reajustes salariais de 30%. O poder de consumo tem se mantido, mas os desequilíbrios estão aumentando. Os argentinos estão mostrando que são mais lenientes com a inflação. Brasileiros e argentinos sofreram diante do mesmo inimigo, mas os brasileiros aprenderam. Aqui, seria inimaginável uma intervenção no IBGE para manipular o índice; e governo, empresas e famílias estão preocupados com a taxa de inflação, que está em 6,7%.

O Kirchnerismo estava com baixa popularidade quando o ex-presidente Nestor Kirchner morreu. As dificuldades de relacionamento com a Confederación General del Trabajo (CGT), de Hugo Moyano, eram cada vez maiores. A partir da viuvez, no entanto, Cristina recuperou fortemente sua popularidade. Manteve luto fechado, cercou-se dos dois filhos que lideram o movimento da juventude peronista e manteve sob controle os conflitos com o velho sindicalismo peronista, usando, entre outras coisas, o controle que o governo tem sobre o Judiciário. Moyano é acusado em alguns processos.

As primárias deste fim de semana foram uma eleição de fato. A amostra reproduz o eleitorado. Em outubro, haverá uma confirmação do resultado, porque ficou claro que há enorme distância entre a presidente e a oposição. Na comemoração, Cristina disse que a vitória era "dele", e os eleitores responderam que "ele"estava ali.

Em 1973, Héctor Cámpora foi eleito presidente com o lema Cámpora al gobierno, Perón al poder. O voto em Cámpora representava um voto "nele". No caso, ele era o próprio Juan Domingo Perón, que, muito vivo, quis exercer diretamente o poder. O governo Cámpora, que mobilizou a juventude daquela época, a geração de Cristina, durou 60 dias. Cumpriu seu papel de ser apenas uma ponte para a volta de Perón. O fim de tudo foi trágico, como se sabe. Por mais que os argentinos explorem na política a mística dos mortos, os vivos é que governam. Perón criou uma corrente política, um partido, mas o kirchnerismo é apenas uma facção desse partido.

A partir da morte de Kirchner, o que começou, de fato, foi o governo Cristina Fernandez. Ela usa de forma indisfarçável a imagem do marido na política. Quando vivo, era fonte de atritos; morto, tem sido santificado. A presidente aprofundou algumas escolhas perigosas que haviam sido feitas pelo casal: aumento de gastos para manter o país crescendo em qualquer conjuntura, uso das reservas para pagamento de dívidas, estatização dos fundos de pensão, e também protecionismo para agradar à indústria.

Esse crescimento turbinado e inflacionado tem fôlego curto e os primeiros anos do próximo governo serão difíceis, como disse ontem aqui neste jornal o jornalista argentino Joaquim Morales Solá.

Uma das decisões mais perigosas foi a de usar os recursos dos fundos de pensão, tanto de empresas públicas, quanto de empresas privadas, como se fossem recursos do governo. É uma bomba de efeito retardado. A Argentina tem feito escolhas insensatas do ponto de vista econômico.

A oposição se fragmentou, facilitando a vida de Cristina. Como o processo eleitoral é do voto em lista, abrir mão agora de concorrer para apoiar outro candidato seria abrir mão das candidaturas para o Parlamento também.

Cristina Kirchner se preparou para ter maior poder, ao usar as listas em cada província. Os governadores foram chamados ao palácio de governo e lá receberam os nomes dos candidatos na ordem que ela queria. Os primeiros lugares na lista do vencedor são garantia de mandato, nesse sistema que fortalece os caciques partidários.

Cristina usou esse poder para pôr nas cabeças das listas provinciais jovens militantes do movimento "La Campora", comandado por seus filhos Máximo e Florencia. Isso dará a ela mais controle do Congresso, mas mais distanciamento das lideranças tradicionais do partido.

Outro fator que impulsiona o bom momento econômico, o Brasil conhece bem: é o boom das commodities.

A Argentina é a terceira maior exportadora de soja, grande exportadora de milho, trigo e carnes. A seca provocou uma quebra de 10% na safra de soja, mas isso foi compensado pela alta dos preços.

Enquanto o país cresce, o governo vai elidindo seus problemas fiscais ou com a inflação ou com decisões como a estatização dos fundos de pensão. Os ricos repetem o que fizeram em outros surtos inflacionários: poupam em dólar em contas no Uruguai ou nas Bahamas.