domingo, agosto 07, 2011

PAU MOLE

FERNANDO DE BARROS E SILVA - A farsa do lixo

A farsa do lixo
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 07/08/11
SÃO PAULO - Um ministro do PMDB foi demitido e isso não ocorreu por suspeita de corrupção. É uma notícia. A saída desastrada de Nelson Jobim, o homem que falava demais, na quinta, tirou de foco a volta ao Senado não menos estridente de seu ex-colega Alfredo Nascimento (PR-AM), dois dias antes.
Investido daquela indignação burlesca, o ex dos Transportes foi à tribuna para dizer que o seu PR "não é lixo para ser varrido da administração pública". Fez a sua mise-en-scène e insinuou, no meio de uma longa fala, que a farra com contratos, gastos e aditivos na sua pasta teria beneficiado também a campanha presidencial de Dilma.
Ou seja: Nascimento deu o recado, seguindo o script habitual dessa turma quando se vê contrariada. Na prática, o lixo varrido voltou ao centro do palco na forma de lixo reciclado. Foi esse o sentido da intervenção "republicana" do senador: Dilma, você não pode nos jogar fora, somos o adubo do seu jardim, sem o qual não há como manter vivas as flores da República.
O PR foi enquadrado, mas manteve o controle do ministério. E Alfredo Nascimento segue indicando seus afilhados, a começar por cargos no Dnit, o famigerado.
A reciclagem do lixo é muito evidente neste caso. Mas a imagem serve também para o conjunto do sistema político. O que é Fernando Collor, o neoaliado do PT?
O que representam Sarney (o senhor Arena), Renan Calheiros (o collorido), Michel Temer (o tucano falsificado) e tantos outros elementos reaproveitados, que se servem do governo petista a serviço da governabilidade? O próprio PT não é um lixo reciclado de si mesmo?
É possível imaginar uma peça disso tudo: "Não Somos Lixo: o PR como Metáfora". Seria, evidentemente, uma comédia. Não combina muito com o temperamento sisudo da presidente, que gostaria de manter dessa trama um distanciamento brechtiano. Difícil é delinear e situar o personagem de Dilma no meio dessa farsa brasileira.

MERVAL PEREIRA - Dependência econômica


Dependência econômica
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 07/08/11

No momento em que o governo Dilma reconhece o perigo da desindustrialização e lança um programa de incentivo à indústria nacional, com medidas protecionistas que, em alguns casos, repetem erros do passado, criando reservas de mercado que podem gerar uma indústria sem competitividade, o economista Reinaldo Gonçalves, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publica um trabalho em que pretende demonstrar que, ao contrário do que seus seguidores defendem, o projeto econômico do governo Lula se caracteriza pelo que o economista chama de "Nacional Desenvolvimentismo às Avessas".
Ele classifica seu trabalho como uma crítica "aos analistas que identificam três traços distintivos do Governo Lula: a realização de grandes transformações; a reversão de tendências estruturais; e a predominância da visão desenvolvimentista nas políticas a partir de 2005".
Para Gonçalves, o que se constata claramente é: desindustrialização, aumento das importações (que chama de "desubstituição de importações"); reprimarização das exportações; maior dependência tecnológica; maior desnacionalização quando se desconta a expansão das três maiores empresas do país ligadas à exploração de recursos naturais (Petrobras, BR Distribuidora e Vale); crescente vulnerabilidade externa estrutural em função do aumento do passivo externo; e crescente dominação financeira, expressa na subordinação da política de desenvolvimento à política monetária focada no controle da inflação.

Ele dividiu o estudo em seis partes:
Estrutura produtiva: Desindustrialização e desubstituição de importações
A participação da indústria de transformação no PIB reduz-se de 18% em 2002 para 16% em 2010. Neste período, a taxa de crescimento real do valor adicionado da mineração é de 5,5%; da agropecuária, 3,2%, e da indústria de transformação, 2,7%. "Os diferenciais entre estas taxas de crescimento informam um processo de desindustrialização da economia brasileira no Governo Lula", afirma.
O processo de desindustrialização é acompanhado pela desubstituição de importações. Segundo o estudo, o coeficiente de penetração das importações aumenta, de forma praticamente contínua, de 11,9% em 2002 a 18,2% em 2008.

Padrão de comércio: Reprimarização das exportações
No Nacional Desenvolvimentismo, a mudança do padrão de comércio significa menor dependência em relação às exportações de commodities. Ao contrário, mostra o estudo de Gonçalves, no Brasil de Lula a participação dos produtos manufaturados no valor das exportações mostra clara e forte tendência de queda (56,8% em 2002 para 45,6% em 2010), enquanto há tendência igualmente clara e forte de aumento da participação dos produtos básicos (25,5% em 2002 para 38,5% em 2010).

Progresso técnico: Dependência tecnológica
No Governo Lula, verifica-se também o processo de maior dependência tecnológica. O indicador usado é a relação entre as despesas com importações de bens e serviços intensivos em tecnologia, e os gastos de ciência e tecnologia, que aumenta de 208% em 2002 para 416% em 2010. "Ou seja, há duplicação do grau de dependência tecnológica".
O chamado "déficit tecnológico", a diferença entre o valor das importações de bens altamente intensivos em tecnologia e maior valor agregado e dos serviços tecnológicos e o valor das exportações destes bens e serviços, aumentou significativamente, de US$15,4 bilhões em 2002 para US$84,9 bilhões em 2010.

Estrutura de propriedade: Desnacionalização
No Nacional Desenvolvimentismo, há preferência revelada pelo capital nacional, público ou privado, com o objetivo de reduzir a vulnerabilidade externa. No Governo Lula, se descontada a grande influência das três maiores empresas (Petrobras, BR Distribuidora e Vale), teremos uma boa idéia do grau de desnacionalização da economia brasileira, segundo Gonçalves.
O trabalho mostra que houve aumento da participação das empresas estrangeiras no valor das 497 maiores empresas no país: 47,8% em 2002 e 48,5% em 2010.
O autor admite, no entanto, que são mudanças "pouco expressivas" quando se considera o período de oito anos do Governo Lula.

Vulnerabilidade externa estrutural: Passivo externo crescente
No Governo Lula há aumento significativo do passivo externo total do país, que passa de US$343 bilhões no final de 2002 para US$1,294 trilhão no final de 2010.
O passivo externo aumenta de US$260 bilhões em 2002 para US$916 bilhões em 2010. Considerando as reservas internacionais de US$300 bilhões, "verifica-se que o passivo externo financeiro do país é 3 vezes o valor das reservas no final de 2010".
O saldo da conta de transações correntes em relação ao PIB mostra nítida tendência de queda a partir de 2005, e torna-se negativo a partir de 2008. As projeções do FMI apontam que o Brasil deverá experimentar recorrentes déficits de transações correntes do balanço de pagamentos - de 3,0% a 3,5% -, que crescerão de US$60 bilhões em 2011 para US$120 bilhões em 2016.

Política econômica: Dominação financeira
No Governo Lula a taxa média de rentabilidade dos 50 maiores bancos é sempre superior à das 500 maiores empresas.
De 2003 a 2010, a taxa média de rentabilidade das maiores empresas é de 11% e a taxa dos bancos é 17,5%.
"Além do abuso do poder econômico, os bancos se beneficiam da política monetária restritiva caracterizada por elevadas taxas de juro", analisa Reinaldo Gonçalves.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Novo empreendedor avança nos shoppings em construção
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 07/08/11

Assim como novos shoppings surgem cada vez mais no interior dos Estados, o perfil dos empreendedores dos centros de compras em construção também muda.
Até o final de 2012, serão inaugurados 50 shopping centers em todo o país, 13 deles ainda neste ano e 37 no ano que vem, segundo a Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers).
Os empreendimentos movimentarão investimentos de aproximadamente R$ 15 bilhões nos próximos 16 meses.
Dos 50 projetos novos, apenas cerca de um terço está sendo tocado por grandes grupos do setor, como Multiplan e BR Malls, observa Claudio Sallum, sócio da Lumine, que projeta e administra shoppings.
Um segundo terço seria composto de empresários que já estrearam no setor.
"O restante é de 'players' desconhecidos, pouco capitalizados e sem expertise, que entram pensando em fazer dinheiro rápido", diz ele.
Começam a surgir alguns exageros, segundo Sallum. "Há cidades menores, que já estão indo para o terceiro shopping. Pode ser bom para daqui a cinco anos, mas hoje, três de uma vez, é um pouco de irresponsabilidade."
Há 15 anos, apenas 15% dos shoppings estavam fora das capitais. Hoje, são 45%, segundo a Abrasce.
"As prefeituras nos procuram em busca de investidores para abrir shoppings. Eles valorizam a região, geram aumento da arrecadação. É muito mais difícil burlar o fisco neles do que na rua", afirma Luiz Fernando Veiga, presidente da Abrasce.
A associação mantém a previsão, feita no início deste ano, de crescimento de 12% do faturamento do setor para 2011. No ano passado, o aumento havia sido de 17%, para R$ 87 bilhões.

"Nunca vi tanta euforia. Há uma certa irresponsabilidade"
CLAUDIO SALLUM
sócio da Lumine

OBRA FEMININA
A presença de mão de obra feminina começa a aparecer nas obras de Angra 3, que está com cerca de 20% do volume de concreto estrutural executado, de acordo com a estatal responsável, Eletrobras Eletronuclear. A Andrade Gutierrez tinha 2.908 empregados até 31 de julho, dos quais 157 são mulheres. A Confab, que fornecerá o envoltório de contenção do edifício do reator, tem 151 funcionários trabalhando nas atividades de montagem da esfera metálica. Destes, cerca de 10% são mulheres.

DE CASA PARA O ESCRITÓRIO
A Kitchens, empresa de mobiliários planejados de alto padrão para residências, vai entrar no mercado corporativo, com móveis para escritórios e hotéis.
A empresa vai criar uma marca específica para atuar nesse segmento.
"A demanda por projetos comerciais está muito forte, principalmente no Norte e no Nordeste, onde há carência desse tipo de produto", diz o sócio Marcos Silva.
A empresa, que tem hoje 20 lojas próprias no país, investe R$ 10 milhões em ampliações e reinaugurações de unidades em Salvador, Campinas, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo.
"O nosso foco são os grandes centros, onde está o poder aquisitivo maior. Por isso, para nós, é melhor investir onde já temos o nosso mercado", diz Silva.
A projeção de faturamento para este ano é de R$ 200 milhões, 15% acima do resultado do ano passado.

O QUE ESTOU LENDO
Nizan Guanaes, presidente do Grupo ABC

"Churchill: An Unruly Life", de Norman Rose, é a atual leitura do publicitário Nizan Guanaes. "Churchill é um homem cuja história precisa ser conhecida e bem contada. Rose derruba a ideia de que a mãe americana do primeiro-ministro britânico era uma péssima mãe", diz Nizan, que também é colunista da Folha. "Ela foi ausente ao pequeno Churchill, mas fabulosa ao Churchill jornalista e soldado, ao abrir todas as portas que podia com sua imensa teia de relacionamentos."

AVANÇO DOS EMERGENTES
Os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) serão responsáveis por 39,7% do crescimento do PIB mundial ao longo de 2011 e 2012, de acordo com novo relatório de projeções da consultoria PwC.
No ano passado, essa participação foi de 17%.
As economias que fazem parte do G7, por sua vez, vão contribuir menos para o crescimento do PIB mundial neste e no próximo ano.
Em 2010, a participação desses países (França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido, EUA e Canadá) era de 51% e deverá cair para 33,6%.
A economia global vai desacelerar neste ano, com crescimento de 3,2%, ante 4% em 2010, prevê a PwC.
Para o ano que vem, a consultoria estima leve recuperação, com expansão de 3,6%.
com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION

MÍRIAM LEITÃO - O maior perigo


O maior perigo 
MÍRIAM LEITÃO
O  GLOBO - 07/08/11

Vários riscos rondam os Estados Unidos: dívida rebaixada, desemprego alto, recessão. O maior perigo, no entanto, são os fantasmas que o Tea Party está trazendo de volta à vida e ao debate político. A facção do Partido Republicano é um aleijão conservador capaz de defender teses como a de que as famílias dos negros eram mais estáveis na época da escravidão do que na era Obama.
Dois pré-candidatos da ala radical do Partido Republicano às eleições presidenciais do ano que vem - Michelle Bachmann e Rick Santorum - endossaram documento em defesa do casamento que sustenta a aberração acima: "uma criança nascida na escravidão, em 1860, tinha maior probabilidade de ser criada por seu pai e mãe do que uma criança afro-americana nascida depois da eleição do primeiro presidente afro-americano." Com a má repercussão, os dois fizeram um adendo para amenizar, mas nada salva uma coisa assim.
É um pensamento inqualificável, mas revelador. Num artigo no jornal americano "New York Times", a professora de História da universidade de Princeton Tera Hunter disse que o documento revela ignorância sobre a História americana. As crianças nascidas em cativeiro não pertenciam aos seus pais, mas aos seus donos. O casamento era considerado um direito civil permitido apenas às pessoas livres. A deputada Bachmann e o ex-deputado Santorum poderiam ler um livro de fácil acesso. Estou lendo no iPad: "Incidents in the life of a slave girl" ("Incidentes na vida de uma menina escrava", em tradução livre), escrito pela escrava Harriet Jacobs e publicado em 1861. Doloroso relato de longos anos na escravidão. Ela publicou quando fugiu para o Norte.
O que de vez em quando vem à tona nos Estados Unidos não é o sempre presente pensamento conservador republicano, mas o absurdo radicalismo que levou os Estados Unidos a fraturas e violências raciais. Isso foi o mais assustador da polarização vista nos últimos dias nas discussões sobre votar ou não a elevação do teto da dívida.
A direita irracional torceu pelo quanto pior, melhor. Por mais concessões que fizesse o presidente Barack Obama, eles exigiam mais. Defendiam não uma tese, mas a humilhação do presidente. Para alguns dos seus partidários, ele se humilhou e se rendeu. Por isso o Partido Democrata rachou numa votação que foi aflita até o minuto final.
No momento seguinte à aprovação, o Tea Party já estava na Fox News vociferando contra o acordo, dizendo que era preciso cortar muito mais, desde, claro, que não se aumentasse os impostos sobre a indústria do petróleo, os muito ricos, nem se cortasse na máquina de guerra. O canal é de Rupert Murdoch, o dono de meios de comunicação que cometem crimes na Inglaterra e da Fox News, que incentiva a extrema direita nos Estados Unidos.
Os perigos civilizatórios exibidos na crise política americana são maiores do que o desequilíbrio fiscal. Pode-se argumentar que eles são uma minoria. Mas quando surgiram poucos anos atrás eram meia dúzia de figuras exóticas que gostavam de se exibir com armas matando animais em extinção. Hoje, têm 25% da representação republicana, constrangem os mais moderados do partido e sequestram o debate político.
Os liberais, no sentido americano da palavra, perdem os bons argumentos ao propor que o governo não deveria cortar gastos. Uma economia naquelas circunstâncias não está em condições de propor uma política fiscal expansionista. Tem que saber onde cortar. Os democratas têm razão em apontar os gastos da Defesa como o local onde as despesas devem ser diminuídas; deveriam dizer de forma mais alta que a explosão do déficit e da dívida foi obra republicana, mas propor expansão de gastos para ativar a economia, num país com 11% de déficit, é uma maluquice completa. Os liberais argumentam que o presidente Barack Obama se rendeu ao Partido Republicano. De fato, ele abriu mão do mais brilhante no seu argumento, que era a suspensão das deduções de impostos em favor dos muito ricos e da indústria do petróleo, que foram feitas no governo de George Bush. Os democratas deveriam se assustar mais com o aparecimento dos resquícios da pior direita americana.
Os autores do texto vieram a público garantir que são contra a escravidão. Bom, só faltava eles dizerem o contrário. Mas a construção do seu raciocínio tem sinais evidentes de que um grupo político americano está soprando as brasas da mesma direita que fez a guerra civil, armou grupos de extermínio de negros, manteve a segregação e montou o tribunal do Macartismo. O pior lado americano não morreu. É possível vislumbrar seu fantasma no fortalecimento do Tea Party.
Com a sociedade ficando aflita pela falta de emprego, o crescimento claudicante, a desvalorização da sua moeda, a crise imobiliária, até que ponto os ouvidos do americano médio estarão dispostos a ouvir os disparates da direita radical?
O mais relevante não é saber quem vai governar os Estados Unidos a partir de 2013, depois do atual mandato de Barack Obama. Mas quantos corações americanos serão capturados por esse pensamento da extrema direita, que hoje tem voz, voto, meios de comunicação, representação política e capacidade de constranger o centro do país.

GOSTOSA

JANIO DE FREITAS - A rima e a interrogação


A rima e a interrogação
 JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 07/08/11

Divergência total de estilos entre Amorim e Jobim tem peso grande no resultado da escolha de Dilma
DE JOBIM A Amorim, Dilma Rousseff buscou, com a rima paralela à do poeta Drummond, a solução que faltava para coadjuvar o Itamaraty nas novas concepções da relação do Brasil com o vasto mundo. Tudo o que se diga agora sobre o acerto, e portanto o resultado, dessa pretendida solução será chute no escuro.
Como tendência, a escolha é muito coerente com vários de seus objetivos mais importantes. O que só algum tempo dirá se será suficiente para dar a escolha como certa, mesmo considerando a escassez de alternativas no país em que falta competência até para bater pênalti.
A divergência total de estilos e de maneiras pessoais, entre Celso Amorim e Nelson Jobim, tem um peso grande para o resultado da escolha de Dilma Rousseff.
A comunhão militar na América do Sul é um item essencial na concepção brasileira de preparo desses países para o futuro a que estão expostos. O conceito externo de Amorim, com apoio de sua experiência inclusive no próprio projeto, é um instrumento valioso. Em contraste com a reserva suscitada pela arrogância imperativa de Jobim, que provocou sinais de ser interpretada como manifestação de planos dominadores do Brasil na vizinhança.
Em sentido mais amplo, Amorim foi fundamental, fazendo a voz de uma corrente brilhante do Itamaraty, para a inovadora política externa que projetou o Brasil como interlocutor do primeiro nível na política internacional.
Isso lhe confere uma qualificação especial, em vista do componente militar do alto jogo internacional, para dar aos militares brasileiros uma contribuição rica ao seu entendimento e definição técnica nas questões externas. Ainda não houve como saber se Jobim, com seu centralismo personalista, cumpriu alguma parte desse papel. Mesmo em caso positivo, não poderia chegar nem perto do potencial de contribuição de Amorim nesse quesito.
Um dos problemas que pegam de surpresa todo ministro é encontrar a medida conveniente de sua exposição, nem tão contido que pareça deslocado na pasta nem tão propenso a expor-se que se cerque de imagem e restrições onerosas.
Amorim não encontrou a medida apropriada quando ministro das Relações Exteriores. Ou, talvez mais correto, ultrapassou-a, e não pouco, na euforia do Brasil reconhecido como integrante ("player", dizem para aparentar-se entendidos) de mesas decisórias de questões mundiais.
A isso se deve a pronta divulgação de que a escolha de Amorim "repercutiu mal entre os militares". Essas notícias começaram a sair antes mesmo que houvesse tempo sequer para sondar um mínimo de repercussão, em número sem representatividade. Nessas coisas, aliás, o jornalismo brasileiro está muito afiado. Para aceitar como decentes informações e comentários sobre a real repercussão, há que esperar por fatos. E fatos não apenas provenientes dos militares que na aposentadoria se transformam em agitadores, os guerrilheiros do pijama.
Mas é certo que Jobim vai fazer falta. Nada do que anunciou com empáfia incomparável se efetivou, entre inovações no transporte aéreo (não conseguiu nem a tal poltrona de avião em que caiba) e a compra dos caças franceses Rafale, marcada por ele para datas que se superaram em vão, incontáveis, até Dilma Rousseff dizer "chega!".
O Jobim com capacete de bombeiro, com farda de soldado, com boina de ranger; o Jobim "descobrindo" para a Câmara o gravador dos improvados grampos no telefone de Gilmar Mendes, mas expondo apenas o que se constatou ser um anúncio na internet, de um aparelho incapaz das gravações; esse Jobim histriônico vai fazer falta, caso não encontre logo, como se espera, um lugar bem visível e bem audível.
Desprovido de autocrítica, Jobim andava ainda pela casa dos 50 quando achou que já justificava a produção de sua autobiografia. Não a editou, se a concluiu, dado o efeito da sua orgulhosa informação de que nela revelaria a introdução sigilosa, no original da futura Constituição quando o revisava, de uma parte de sua estrita autoria.
Ficou-se sem saber de outras revelações interessantes, mas é possível que a informação sobre a autobiografia explique seu apreço pela frase do xará Nelson Rodrigues, a respeito de "idiotas" e "modéstia". E o mesmo, ainda, quanto à também adotada e reproduzida frase de Borges, sobre os que "escrevem para o esquecimento".
A queda de Jobim não se deve, porém, às suas peculiaridades. Veio da forma como as expõe, e que melhor se definem por expressões algo antigas, de uso doméstico: "fulano é mal-educado, sicrano não tem educação", coisas assim. Hoje grosseiras, deve-se substituí-las. Por exemplo: "em se tratando de modos educados, Jobim é muito fraquinho".

CARLOS HEITOR CONY - A crise da crise

A crise da crise
CARLOS HEITOR CONY
FOLHA DE SP - 07/08/11
RIO DE JANEIRO - Poucas vezes na história republicana do Brasil tivemos uma sucessão presidencial que tinha tudo para ser tranquila.
Tirante o período das sucessões da ditadura, sempre havia problemas, alguns sérios, outros seríssimos, na acomodação da máquina política e administrativa da nação.
A transição de Lula para Dilma tinha tudo para ser um mar de rosas, uma idade de ouro digna de ser cantada por um Ovídio disponível. Não tem sido assim, apesar do pouco tempo para uma avaliação mais conscienciosa.
No entanto os movimentos de acomodação no terreno, não se sabe ainda bem por culpa de quem, estão subindo na escala Richter dos terremotos.
Até agora, felizmente, nada de irreparável na condução de uma política que vinha apresentando ótimos resultados na era Lula. Esperava-se a continuação, mas alguma coisa não está funcionando.
Basta lembrar as recentes substituições de ministros e administradores importantes, escândalos possíveis ou prováveis, dando a impressão de que a equipe formada por Dilma sob a supervisão ou autorização de Lula é um saco de gatos.
Causa pasmo que Nelson Jobim, com seu passado de membro do Supremo Tribunal Federal, saindo-se bem na difícil pasta da Defesa, conseguindo administrar até agora os problemas latentes ou inesperados entre as Forças Armadas, por desnecessária incontinência verbal, tenha criado uma situação, mais pessoal do que política, para esse início de governo.
No fundo, nada de sério, de substancial, mas revelador de que as manobras internas do atual governo, com tantos e tamanhos desafios a enfrentar, estejam se desgastando por suspeita de que outros casos poderão vir -e mais graves.
Cedo demais para uma crise sem gravidade, contudo perfeitamente dispensável.

O DONO DO PAPEL

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Rosa de vergonha
SONIA RACY
O ESTADÃO - 07/08/11

Sem constrangimento, Cristina Kirchner inaugurou a embaixada da Argentina em Brasília na semana passada.

O prédio foi construído pela MTD Engenharia, que ficou no prejuízo. No total, a dívida é de R$ 223.019,94 - dos quais R$ 114.697,93 foram protestados. "Até agora nada", diz um executivo da empresa.

Advogados da MTD em Buenos Aires tentam negociar o pagamento integral.

Sujou, limpou!

Fabricantes de pilhas, pneus, entre outros produtos de grande impacto ambiental, terão de se adaptar. Resolução de Bruno Covas, publicada no Diário Oficial do Estado, determina que eles apresentem plano de reaproveitamento e destinação correta de seu lixo.

O prazo: 60 dias. Depois, advertência, multa e interdição.

Girl rules

Operação Xeque, minissérie espanhola sobre o sequestro de Ingrid Betancourt, terá equipe quase 100% feminina. A direção é de Silvia Quer; o roteiro, de Helena Medina. Sabem o que fazem: as duas têm no currículo uma série sobre a última tentativa de golpe de Estado na Espanha, assistida por 7 milhões de pessoas.

Pasta e cerveja

A macarronada vai invadir... a Sapucaí. A União da Ilha homenageará a Itália em 2012.

Cadarços

A loucura das mulheres por sapatos virou documentário. God Save My Shoes estreia na semana de moda de Paris, em setembro. Traz entrevistas de Christian Louboutin, Manolo Blahnik e Pierre Hardy.

Responsabilidade social


O AC Camargo comemora: angariou R$ 482 mil, desde setembro do ano passado, graças a sua campanha de doação de notas fiscais paulistas. O dinheiro está sendo destinado à pesquisa de tumores de mama, próstata, cabeça, pele e intestino.
Que Google Maps que nada! A Fundação Telefônica e a Vivo lançam, quarta-feira, o projeto Wikimapa em 16 comunidades do Rio, incluindo o Complexo do Alemão. Objetivo? Criar um mapa virtual na internet de ruas e vielas que funcione como ferramenta de localização e utilidade pública.
A ONG Lua Nova, que acolhe mães em situação de risco, recebeu doação da prefeitura de Votorantim. Um terreno onde construirá sua nova sede. O projeto é de Marcelo Rosenbaum.
É terça-feira o jantar de 40 anos do Voluntariado da APAE de SP. No Buffet França.
Enquanto ainda reconstrói São Luiz do Paraitinga, a população recebe, desde quinta-feira, dose extra de autoestima: a ESPM Social iniciou projeto de valorização dos profissionais que trabalham no município.
Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da Educação de Portugal, é uma das experts do terceiro setor que palestrarão no Encontro Paulista de Fundações. Dia 25, no Novotel Jaraguá, em Sampa.
O braço paulista do Instituto Brasileiro de Direito da Família discutirá união estável homoafetiva e separação de bens no casamento, cuja legislação é diferente depois dos 70 anos. No Teatro Frei Caneca, dia 18.

Detalhes nem tão pequenos...


1. O rinoceronte vestiu roupa nova, com direito a ondas no cabelo. Tudo para sua festa de 60 anos.

2. Este amor verdadeiro jamais escapará pelos dedos das mãos.

3. No QG de José Victor Oliva, os monstros do lixo enchem a pança.
4. Fecundidade, renovação, vida. O jantar ecumênico para comemorar o ramadã estava repleto de simbolismos.

5. Isso, sim, é o que se pode chamar de brilho nos olhos.
E para os olhos...

6.Pipoca na estreia do filme de Carvana? "Não se preocupe, tudo deu certo."

ELIO GASPARI - Barraco na secretaria do Moreira


Barraco na secretaria do Moreira
ELIO GASPARI
O GLOBO - 07/08/11

O comissário transformou a organização de uma reunião num incidente e o subsecretário foi-se embora

A SECRETARIA de Assuntos Estratégicos do ministro Moreira Franco está com dificuldades táticas. Num clima de beligerância burocrática, seu secretário-executivo, Roger Leal, provocou um barraco com a simples convocação de uma reunião de trabalho.
No dia 27 de julho, às 16h20min, ele convocou cinco funcionários da Subsecretaria de Desenvolvimento Sustentável para uma reunião, por meio de uma mensagem copiada para o titular do serviço, Eustáquio Reis. Mensagem esquisita. Não dizia dia, hora nem agenda. Esquisita porque a reunião seria no dia seguinte, às 15h. (Um dos cinco nem na SAE trabalhava, pois deixara-a havia pouco tempo.)
Com 36 anos de serviço público na escola de rigor funcional do Ipea, o economista Eustáquio Reis nunca vira convocação de subordinados sem algum tipo de discussão com a chefia. Como não era a primeira vez, negou autorização para que dois dos subordinados imediatos fossem à reunião.
Ele já havia se queixado com Moreira Franco desse tipo de conduta. No dia seguinte, às 12h48min, escreveu ao secretário Roger Leal que havia ali questão de hierarquia e conteúdo técnico, colocando-se à disposição para tratar do caso. Nada. No dia 31, Leal escreveu a Moreira Franco, acusando de "indisciplina e desobediência" e agressão ao Código de Ética dos Agentes Públicos.
Em qualquer loja de eletrodomésticos, um conflito do subgerente com um chefe de seção seria resolvido com uma conversa. Se eles não se entendessem, o gerente entraria, pacificando os ânimos ou mandando embora quem estivesse encrencando. Adotou-se o modelo do comissariado, onde misturam-se acusações e silêncios que terminam com alguém, desmoralizado, indo para o canil.
Eustáquio esperou uma semana por uma resposta de Moreira Franco. Nada. Na sexta-feira, escreveu a Leal desafiando-o a denunciá-lo por má conduta, acusou Moreira de "omissão e negligência", mandou-lhe uma carta de demissão e foi-se embora.

SOBRECARGA
Os R$ 13 milhões em dinheiro vivo apreendidos nas casas de cinco auditores da Receita derrotaram a Polícia Federal: a máquina de contar notas da PF não aguentou o serviço e quebrou.
A Corregedoria da Receita espera pegar mais gente.

CONTA DA FESTA
Da linha de partida à de chegada, os oito dias de Jogos Mundiais Militares custaram à Viúva R$ 1,8 bilhão.
O investimento do governo federal para formação de alunos do ensino profissionalizante, incluindo transporte e alimentação, será de R$ 2 bilhões.

POBREZA AMERICANA
O Supremo Tribunal Federal quer que os salários de seus 11 ministros sejam fixados em R$ 30.600 mensais (US$ 248 mil anuais).
A Corte Suprema dos Estados Unidos paga US$ 213.900 a oito dos seus juízes e US$ 223.500 ao presidente da casa.
Em Pindorama, os ministros têm carro com motorista. Em Washington, só o presidente.
O juiz Harry Blackmun (1908-1999) ia para o serviço no seu Fusca azul. David Souter dirigia um Golf com o assento quebrado.

MADAME NATASHA
Madame Natasha tem horror a palavras estrangeiras, mas reconhece que em alguns casos elas enriquecem os vocabulários alheios. Isso acontece com "saudade", que só existe em português.
Vendo a maneira como se trata a crise americana, Natasha aprendeu uma sopa de letras alemã: Schadenfreude (pronuncia-se chádenfróide).
Ela também não existe em outros idiomas e designa a sensação de felicidade que às vezes as pessoas sentem diante da desgraça alheia.
Natasha sabe outra palavra em alemão: Volkswagen.

O EGO DE JOBIM
O surto de egolatria juvenil de Nelson Jobim, exposto pela repórter Consuelo Dieguez, levou a taxa de mortalidade dos ministros da doutora Dilma para 12,5% em apenas oito meses. Essa é a taxa anual de mortalidade infantil do Mali.
Com a ida de Celso Amorim para a Defesa, o embaixador americano não mandará mais a Washington telegramas como aqueles em que Clifford Sobel contava suas conversas com Jobim.
Noutro aspecto, o chanceler Antonio Patriota corre o risco de reassumir a secretaria-geral do Itamaraty.

BOA NOTÍCIA
Em novembro, o "New York Times" terá um novo correspondente no Brasil. Será o repórter Simon Romero, que atualmente cobre (muito bem) a região andina. Ele já esteve baseado em São Paulo e passou um ano no curso de história da USP.

A BOLSA DOS VARGAS
Está nas livrarias "Darcy, a outra face de Vargas", da jornalista Ana Arruda Callado. Conta a vida de "Dona Dárci" (era assim que a chamavam), presença discreta e solidária durante os 15 anos de poder do marido.
Para os hierarcas de hoje, uma lição: em 1933, quando o casal voltava de Petrópolis, um pedregulho rolou sobre o carro em que viajavam. Um oficial da Marinha morreu esmagado, Getúlio e a mulher tiveram fraturas nas pernas.
A dele, leve, a dela, exposta, agravou-se com uma infecção que se transformou em gangrena, com o risco de amputação.
Ela ficou com dois centímetros a menos na perna atingida. Darcy foi salva pelo médico Pedro Ernesto, que anos depois foi colocado na cadeia pela repressão política do marido.
As despesas médicas correram por conta da caixa dos Vargas. Era uma época em que os governantes não metiam a mão na bolsa da Viúva para despesas desse gênero.
A DIPLOMACIA DE DILMA TERIA FRITADO "WANDA"

Em março de 1970, Dilma Rousseff estava presa em São Paulo. A "Wanda" da VAR-Palmares fora capturada em janeiro, e ainda vivia no DOI-Codi. Conforme ela mesma narrou, "a pior coisa que tem na tortura é esperar, esperar para apanhar".
O jornal "Washington Post" publicou um editorial condenando as violências do governo brasileiro, e o embaixador americano foi chamado ao Itamaraty.
Ouviu uma queixa e a ameaça de que gestos desse tipo comprometiam as boas relações entre os dois países. Estava implícita a sugestão de que o Departamento de Estado fizesse uma gestão no jornal.
O embaixador (Charles Elbrick, que havia sido sequestrado meses antes) narrou ao Departamento de Estado um dos argumentos que ouviu: "Os terroristas recorrem a violência, sequestros e ataques a pessoas e instituições, coisa que o governo não pode tolerar".
Passaram-se 41 anos, Dilma está na Presidência da República, e o Itamaraty é acusado pelo Human Rights Watch de exigir uma condenação de "todas" as formas de violência que vêm sendo praticadas na Síria. Lá, a ditadura de Bashar Assad já matou cerca de 2.000 pessoas e ocorreram assassinatos de algo como uma dezena de agentes do governo.
Nem Madame Sosostris, uma grande vidente, teria sido capaz de prever que, um dia, a diplomacia de Dilma exigiria que a denúncia das torturas que "Wanda" sofria, ou o assassinato de seus companheiros, fossem equiparados aos atentados que a VAR-Palmares cometia.

ELIANE CANTANHÊDE - Na defesa, não no ataque


Na defesa, não no ataque 
ELIANE CANTANHÊDE 
FOLHA DE SP - 07/08/11

BRASÍLIA - Militares e diplomatas são carreiras de Estado, com uma cultura de ordem, hierarquia, promoções por mérito e grupos que se movem em torno de um líder.
As coincidências param por aí. Na caserna convém falar alto, mas acatando ordens e batendo continência. No Itamaraty, é bom falar baixo, mas articular muito e, em caso de necessidade, solapar.
Há preconceito de parte a parte. Para diplomatas, militares são uns grosseirões. Para militares, diplomatas são escorregadios, intelectuais com trejeitos afeminados.
Nelson Jobim se encaixava melhor no feitio militar e até nas fardas de campanha com que se embrenhava com seu mais de 1,90 m por selvas e descampados. Celso Amorim, porém, pode surpreender.
Diplomata "três em um", pois passou com louvor pelas áreas de política, de cultura e de comércio, ele não tem nada de escorregadio nem usa punhos de renda.
Tal como Jobim, Amorim é ousado, afirmativo, falante e estratégico -pensa longe. E também é acusado, vez ou outra, de arrogância e autossuficiência. Não fala grosso, mas é estridente. Não tem 1,90 m, mas sabe bem ocupar espaços.
Oficiais dizem que "diplomata não gosta de guerra", mas quem, sem ser fanático, gosta? Os limites entre diplomacia e defesa estão cada vez mais curtos. Jobim vivia invadindo a seara de Amorim.
O problema da Defesa não era nem vai ser de falta de comando, mas sim de condições objetivas: sobram projetos, faltam verbas. A não ser que Dilma abra os cofres para suavizar o pouso do novo ministro.
No mais, Amorim dificilmente vai mexer nos acordos para a Comissão da Verdade, bem costurados por Jobim na dupla condição de ministro da Defesa e ex-presidente do Supremo.
O que deve preocupar Dilma não é a Defesa, mas o descontrole e a traição latente no Congresso. Mais do que militares e diplomatas, quem a ameaça são os políticos.

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - Uma saída

Uma saída
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
o globo - 07/08/11

Fora os falsários, só americanos podem imprimir dólar. E o dólar, apesar de combalido, ainda é a moeda padrão do mundo. É por isso que letras do tesouro americano são os títulos preferidos de investidores internacionais. E é por isso que os mais nervosos com a possibilidade dos Estados Unidos darem um balão na praça, inclusive não honrando suas letras do tesouro, não eram os americanos. Eram os chineses, seus maiores credores.
Pode-se até imaginar uma reunião de emergência do comitê central do partido comunista chinês para discutir a crise americana.
– Mas que capitalismo de araque é esse?
(Nota: a palavra usada não foi “araque”)
– Em que mundo vivemos, se não se pode mais confiar nem no tesouro americano?!
– Foi para isso que fizemos a Longa Marcha com Mão, sacrificamos milhões de chineses, industrializamos o país na marra, invadimos as lojas 1,90 do mundo com os nossos produtos? Para botar nosso dinheiro na mão de irresponsáveis?
– Há uma real possibilidade de nos darem um calote, se não se entenderem. Será nossa ruína. Onde estão a ética nos negócios e a moral cristã quando precisamos dela?
– Temos que nos defender.
– Há uma saída.
– Qual?
– Executamos a dívida. Eles não têm como pagar, portanto não têm como recusar nossa oferta.
– Você quer dizer...
– Sim. Compramos os Estados Unidos.
– Hmm. Pode dar certo.
– Substituímos o moreno por um presidente permanente e um comitê central. Acabamos com essa frescura de dois partidos, responsáveis pela lambança atual, e instalamos um partido único com plenos poderes. E damos um jeito na economia deles. Não somos o maior exemplo de economia de mercado bem-sucedida no mundo, hoje? Vamos mostrar a esses americanos como se faz capitalismo de verdade.
– Grande. E teremos outra vantagem, comprando os Estados Unidos.
– Sei o que você vai dizer.
A Julia Roberts será nossa.
– Melhor do que isso.
– O quê?
– Vamos poder imprimir
dólar! 

CLÁUDIO HUMBERTO

“Eu batizaria a presidente de Mulher-Coragem”
JAQUES WAGNER, GOVERNADOR DA BAHIA, SOBRE OS RECENTES ATOS DA CHEFE DA NAÇÃO.

DILMA LÊ JORNAIS E ISSO A DIFERENCIA DE LULA 
Apesar de afirmar que não toma decisões “midiáticas”, a presidenta Dilma na verdade tem sido pautada pela imprensa porque é uma leitora compulsiva, inclusive de jornais, revistas e da internet, segundo seus assessores mais próximos. Bem ao contrário do ex-presidente Lula, que se esforça para ignorar o noticiário. Dilma mantém o hábito de “consumir” notícias desde os tempos em que, filiada ao PDT, exercia a função de “analista de mídia” para o ex-governador Leonel Brizola.

PAREDE VIRTUAL 
Quando não em leitura, nos momentos de distração a presidente abre o laptop e passeia pela pinacoteca virtual que coleciona. É fã de pinturas.

ESTÁ DIFÍCIL 
O deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) procura candidato à prefeitura carioca para emplacar a filha, a deputada Clarissa, como vice.

LETRAS APAGADAS 
O Ministério Público no Maranhão, terra do “imortal” senador José Sarney, apurou que 80% das escolas estaduais não têm bibliotecas. 

NO-SHOW 
Os organizadores do 1º Seminário Internacional sobre concessões de aeroportos, em São Paulo, excluíram a Infraero da lista de convidados. 

RJ: EMPRESA QUE FISCALIZARÁ BUEIROS ATRASA PAC 
Contratada sem licitação pela prefeitura do Rio por R$ 4 milhões, para vencer a batalha “emergencial” dos bueiros explosivos, a Concremat tem outro problema: entregar o Arco Metropolitano do Rio, obra gigantesca com R$ 700 milhões do PAC. Prometida para 2010, talvez saia este ano. A empresa também levou R$ 10,7 milhões da prefeitura para desapropriar 348 casas em área de risco no Rio. 

EM SERVIÇO 
Num comício de Sérgio Cabral com a candidata Dilma, uma Kombi da Concretmat, “a serviço da prefeitura”, tinha material de campanha. 

MEU GAROTO 
A Concremat foi patrocinadora do torneio hípico, há três anos, em que competia o filho do governador, João Pedro Neves Cabral. 

VERSO QUEBRADO 
Dilma, confessa leitor de Drummond, confundiu o verso do poeta conterrâneo ao trocar Jobim por Amorim: “É rima, mas não solução”.

JOELHO NO QUEIXO 
Nelson Jobim foi convidado pelo governador Sergio Cabral para um jantar em homenagem a Lula, terça, no Rio. Sem jatinho oficial e sem cumprir a promessa de fazer as empresas aéreas ampliar o espaço entre poltronas, o grandalhão viajará espremido em voo de carreira.

VAI DOER 
Se depender do quadril do ministro Joaquim Barbosa, em recuperação até o fim do mês, o processo do mensalão não ficará “mancando” no Supremo. Planeja julgá-lo logo, se livrar do “abacaxi” e se aposentar. 

NEM TE LIGO 
Chama a atenção dos governistas, no Congresso, a relação fria, quase hostil, entre a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP). Mal se cumprimentam.

ESPORTE PALACIANO 
Dilma é a presidenta dos vazamentos. Não dá um espirro sem que no dia seguinte esteja nos jornais onde, quando, como e por que espirrou. Suas explosões de fúria são publicadas literalmente, entre aspas.

ASSIM É CAMARADAGEM 
Segundo portaria do Dnit, gestor só pode receber empresário com um funcionário de testemunha. Em Brasília já se sabe que no Piauí o superintendente Sebastião Ribeiro (“Tião Sorriso”) recebe no fim do expediente o cunhado Humberto Castro, dono da construtora Jurema. 

O TURISTA 
Presidente da Comissão de Relações Exteriores, o deputado Leréia (PSDB-GO) disse no Cafezinho que voltou de Praga encantado com o passeio, os preços dos presentes e as belas louras de dois metros.

ESTAMOS FERRADOS 1 
A empresa aérea GOL não parece satisfeita com os maus-tratos a passageiros no ar e agora tenta alcançá-los em terra: vai entrar para valer no negócio de gestão de aeroportos brasileiros. Valha-nos, Deus.

ESTAMOS FERRADOS 2 
Destacando para voos internacionais pilotos que não falam inglês, com dificuldade para entender as torres de controle mundo afora, a TAM já pode se comparar às empresas aéreas da Somália, Etiópia e Eritreia.

PENSADO BEM... 
... deram o cargo errado para Nelson Jobim. Ele era ministro do ataque. 

PODER SEM PUDOR 
SUPLICY E A CORDA 
Certa vez o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) foi conhecer o Círio de Nazaré, em Belém (PA). Com pose de atleta, ele se meteu a puxar a corda, ao lado de milhares de fiéis, e se deu mal, muito mal. O deputado Babá (PSOL-PA) relata com graça a cena a que assistiu:
– Suplicy foi ejetado em quinze minutos. A força na corda é descomunal.
Não por acaso, quando soube que a colega Heloísa Helena iria ao Círio, Suplicy advertiu: “Cuidado com a corda...”.

DOMINGO NOS JORNAIS


- Globo: Bancos separam R$ 64 bi contra a onda de calotes

- Folha: Ministério vira cabide de emprego familiar do PMDB

- Estadão: Líderes temem rebaixamento em cadeia das notas na Europa

- Correio: Cresce o medo da recessão global

- Zero Hora: 77 cidades do RS ainda estão à espera de asfalto

- Jornal do Commercio: A guerra por uma UTI

sábado, agosto 06, 2011

WALCYR CARRASCO - Trabalhar em casa


Trabalhar em casa
WALCYR CARRASCO
Revista Veja - SP

Sempre me considerei privilegiado. Há anos trabalho em casa. Escrevo minhas crônicas, novelas e meus livros de pijama. Muitas vezes sem fazer a barba e de cabelos espetados, porque sou do tipo que odeia um pente. Levanto para tomar cafezinho, fofoco no telefone e depois varo a madrugada para recuperar o tempo perdido. Adoro. É muito mais confortável do que quando tinha emprego formal, onde era obrigado a comparecer todos os dias, cumprir horários e aguentar chefes mal-humorados. Sinto falta, sim, de fazer amigos no dia a dia. É mais solitário, mas sou louco pelo meu cantinho. Sou capaz de ficar dois, três dias sem pôr o pé na rua. Agora, com os filmes saindo em DVD tão depressa e com tantas lojas virtuais, saio cada vez menos.

Meu modo de vida está se tornando normal para muita gente. Não só nos empregos “artísticos”. Minha sobrinha Andrea trabalha numa grande empresa multinacional, de ponta em seu setor. Tem um cargo executivo e a opção de trabalhar em casa quando quer. Cercada de computadores de última geração e internet wi-fi, Andrea administra sua área de casa. Discute as linhas de ação constantemente com o big boss do setor, que passa a maior parte do tempo nos Estados Unidos, mas também convive com seu filho pequeno e administra a vida doméstica. Faz questão de ir à sede regularmente, por opção.

Recentemente, vi um lançamento imobiliário que vendia o apartamento com o escritório acoplado, com entrada independente! Ou seja, as construtoras estão antenadas na tendência. Já conheci terapeutas que transformaram um cômodo do apartamento em consultório. O pai de um amigo meu fechou sua agência de turismo em Alphaville, sólida, para montar seu escritório no mezanino da sala. Está felicíssimo. Não tem mais a estrutura de antes. Não perdeu renda e diverte-se mais. Como vou com frequência ao Rio de Janeiro, procurei um personal trainer por lá. Tomaz montou uma miniacademia na sala de seu apartamento! Tem todos os aparelhos básicos. E aproveita para ficar com a filha bebê nos intervalos.

— Foi a melhor coisa que fiz! — alegra-se.

Trabalhar em casa torna a vida mais confortável. Não é preciso pegar trânsito nem perder horas na ida e na volta do serviço. Gasta-se menos com refeições, roupas... O tempo rende mais. Há uma desvantagem, é claro. Os resultados não são medidos por horas, mas por tarefas. No meu caso, por exemplo, tenho de escrever a crônica, depois o capítulo... e assim vai. É preciso ter muita disciplina, porque não há ninguém cobrando. Muitas vezes, torna-se necessário dedicar-se mais tempo do que num expediente comum. Mas o que é melhor? Trabalhar descalço e de moletom ou de paletó e gravata?

Uma amiga manteve um escritório comercial de representações em casa durante mais de dez anos. Fazia tudo pelo telefone e pela internet. Seu telefone fixo conectava-se diretamente com o celular. Certa vez fomos à praia juntos. Estávamos deitados na areia, tomando sol como lagartos. Tocou o celular. E ela, de biquíni, agiu como se estivesse em um escritório tradicional. Negociou, discutiu, fez novas ligações, levantou preços. E vendeu! Depois de despachar alguns caminhões de produtos químicos, suspirou fundo, passou mais bronzeador e voltou a tomar sol. Eu, pasmo:

— Como você consegue?

— É só ter tudo bem organizado! — declarou.

Eu já estaria morando feliz em alguma pequena cidade do interior, onde conhecesse os vizinhos, fizesse tudo a pé e pudesse passear em rios e cachoeiras. Só não me mudei ainda por causa da violência presente no interior paulista. Atualmente, talvez só isso impeça um êxodo para as pequenas cidades. Trabalhar em casa é o futuro de muita gente.

Carlos Apolinário: "Vivemos uma ditadura gay"


Carlos Apolinário: "Vivemos uma ditadura gay"


Vereador do DEM fala sobre a aprovação do projeto do Dia do 

Orgulho Heterossexual pela Câmara Municipal de São Paulo

REVISTA VEJA - SP

undefined Foto 2-Cansei!: vereador diz que vai encerrar sua vida política

Após causar polêmica ao propor o Dia do Orgulho Heterossexual, o vereador Carlos Apolinário (DEM) volta ao palco da controvérsia com a aprovação do projeto pela Câmara Municipal de São Paulo, na última terça (2). A nova data, agora, só depende da sanção do prefeito Gilberto Kassab.

Em entrevista, Apolinário conta o que pensa sobre as reações contrárias à sua ideia.

VEJINHA.COM — Com a aprovação do Dia do Orgulho Heterossexual pela Câmara Municipal, o senhor está mais confiante na sanção do prefeito Gilberto Kassab?
Carlos Apolinário —
 Não faço uma avaliação da situação ou tento descobrir o que o prefeito irá ou não decidir. Eu poderia ligar para ele e tentar convencê-lo, mas não quero constrangê-lo. Essa é uma decisão que deve vir da consciência do prefeito. Principalmente depois da aprovação na Câmara, os gays intensificaram a campanha contra mim e o meu projeto. Poderia também organizar uma campanha na internet, tenho um enorme cadastro de pessoas que pensam como eu. Mas não quero contribuir para esse clima.

VEJINHA.COM — Acredita que o projeto pode ser vetado por conta das manifestações contrárias?
Carlos Apolinário —
 Acho que os gays e outras pessoas contrárias não entenderam o conceito do meu projeto. Eles estão agindo como se o Dia do Orgulho Heterossexual fosse proibir a homossexualidade, como se eu fosse contra outras opções sexuais. Não é nada disso! A ideia é criar um dia em que as pessoas reflitam sobre os privilégios para os homossexuais. Usar o dinheiro público para entregar camisinha e outras coisas durante a Parada Gay, por exemplo, é um excesso para mim. Ser gay é uma escolha, mas tem sido tratado como um privilégio e, se você vai contra isso, é atacado. Vivemos uma ditadura gay. Eu já recebi ameaças no meu gabinete e hoje [quinta] minha página na internet (http://www.carlosapolinario.com.br/) foi hackeada. Dá a impressão de que os gays não aceitam uma opinião contrária a deles.

VEJINHA.COM — Sancionar o projeto do Dia do Orgulho Heterossexual atrapalharia o trabalho de Gilberto Kassab na prefeitura de São Paulo?
Carlos Apolinário —
 Quando a Dilma suspendeu o “kit gay” das escolas, foi taxada de homofóbica e duramente criticada. Tudo para os gays é uma chantagem. Ou você faz do jeito que eles querem ou eles não votam mais em você, retiram o apoio eleitoral, enquanto deveriam ver a política como um todo. Eu, por exemplo, tenho outros projetos, mas todo mundo só me pergunta sobre esse do orgulho hétero. Não acredito que apoiar o projeto vai complicar a vida do prefeito porque os gays não elegem ninguém. Eles são bem ativos, mas não tão numerosos.

VEJINHA.COM — A instituição do Dia do Orgulho Hétero é uma estratégia eleitoral?
Carlos Apolinário —
 Não, porque não serei mais candidato a vereador. Estou fora! Cansei dessa vida política. Além disso, o projeto existe faz tempo, já passei com ele por três períodos eleitorais e isso não me ajudou ou atrapalhou. O projeto visa a reflexão quanto aos excessos e um respeito mútuo entre as diferentes opções sexuais. É até para os próprios gays pensarem que devemos respeitar as opções e opiniões de todos, mesmo dos héteros. Não sou Deus nem juiz da vida de ninguém. Se duas pessoas do mesmo sexo querem morar juntas, o problema é delas. Só não acho certo tratar o tempo todo os homossexuais como se fossem vítimas.

FERNANDA TORRES - Londinium


Londinium
FERNANDA TORRES
Revista Veja _ RIO

Passei uma semana em Londres. Na última vez em que estive lá, multiplicava-se o preço em libras por sete para saber quanto as coisas custavam em reais. Agora, pasmo, o caro é sobreviver aqui no Rio.

O verão londrino é tão frio quanto o outono/inverno carioca. Isso faz pensar na falta de sol que aquela ilha deve enfrentar de outubro a maio todos os anos. Saí de casa com pena de perder os dias frescos, mas bastaram algumas horas de espera no vergonhoso terminal do Aeroporto do Galeão para ser tomada pelo desejo incontrolável de ir embora.

Depois de deixar a polícia, o turista desavisado dispõe apenas de uma lanchonete encardida e um diminuto free shop para resolver as emergências. Não há farmácia e, detalhe impressionante, não há nem uma banca de jornal nos portões de embarque.

Qualquer rodoviária tem jornaleiro, será que a porta de saída do Rio de Janeiro é um negócio tão arriscado que não vale a pena montar nem uma desgraça de uma tenda de revistas no corredor de tapumes do Tom Jobim?

Deixei a prova do desmantelo fluminense para trás e cruzei o Atlântico.

Londinium é reconhecida como um centro de comércio e prosperidade desde os tempos do historiador romano Tacitus, 900 anos atrás. Durante séculos, aprimoraram-se, ali, as regras da convivência e o limite da liberdade pessoal.

Meu filho menor, em um movimento digno de uma tartaruga ninja, puxou a alavanca vermelha de emergência ao lado do assento do metrô. O alarme disparou dentro do túnel e continuou zumbindo até chegarmos à próxima estação. Ninguém brigou, não houve cara feia. O vagão riu com sobriedade e voltou para a sua rotina de sempre. Isso em plena era de ameaças terroristas. Um senhor me aconselhou a informar o funcionário da estação sobre o ocorrido, o que fiz prontamente.

Não houve bronca, mas também não senti bom-mocismo em ninguém. É através do pragmatismo cortês que o inglês espera que o resto da humanidade aprenda as regras de sua civilidade.

Um taxista leva quatro anos para tirar a carteira e dirige com a propriedade de quem possui curso superior. De 100 inscritos, apenas um ganha o direito de conduzir nas centenárias ruas. Sabem de cor as mais de 10 000 vielas e avenidas da capital e servem de guia quando preciso.

Com um distanciamento caloroso, eles devotam a mesma atenção aos bêbados, às senhoras idosas, aos bebês barulhentos e aos compatriotas cientes da etiqueta.

Tenho um casal de amigos que se mudou para Richmond, um subúrbio belíssimo distante trinta minutos de metrô do centro de Londres.

Conversando sobre a estranheza dos hábitos em além-mar, meu amigo observou que o inglês come pouco, virando o garfo para baixo para equilibrar uma porção reduzida de alimento sobre a curva enviesada do talher.

Mãe de suas duas filhas, minha amiga sentiu o disparate entre a nossa cultura e a deles na intimidade das festas infantis. Segundo ela, não se contratam decoradores nem animadores profissionais. Os adultos vêm comidos, não se bate palma no Parabéns e o bolo é cortado e colocado em uma bolsa que as crianças levam para comer em casa.

Eu gosto de bater palmas e acho que engolir o bolo sozinha não tem a mesma graça. Além disso, ficaria frustrada de não empurrar um caminhão de comida goela abaixo com o garfo devidamente virado para cima, mas o Brasil está desenvolvendo uma escravidão consumista para a qual deveríamos ficar atentos. A indústria das celebrações infantis é um exemplo enervante dessa tendência emergente.

“No Brasil, eu era madame, aqui, sou classe média”, disse minha amiga. “É muito bom ser classe média, é uma vida mais simples, libertadora de certa forma.”

A Inglaterra, apesar da rainha, do Parlamento, da libra, do luxo e do Rolls-Royce, é um país de classe média. A rua é um bem comum usufruído por todos e os parques são jardins dignos da realeza ocupados por plebeus educados.

Defendo a tese de que o inglês tem pena de quem não é inglês. O Homo sapiens sapiens é inglês. Os outros podem até ser chamados de Homo, alguns poucos de sapiens, mas só o bretão ostenta essa definição elevada à segunda potência.

MANOEL CARLOS - Outros tempos


Outros tempos
MANOEL CARLOS
Revista Veja - RIO

Nunca me interessei por adquirir antiguidades. Nem por colecionar qualquer coisa, como selos, moedas, caixas de fósforos, cinzeiros de hotéis, adesivos e cachimbos, para citar apenas alguns itens. Também nunca fui de frequentar clubes, ainda que seja sócio de alguns. Meu pai, em compensação, almoçava no clube, passava no clube para ver os amigos, prestigiava a programação cultural e esportiva. Esse clube, na época, era o Piratininga, no centro de São Paulo, onde também se praticava um cartea­do famoso na cidade. Ah, e frequentava o Jockey Club, atividade esportiva que nunca contou com a minha presença.
Meu pai não jogava. Pelo menos era o que ele dizia, sacando uma das frases preferidas de homens bem-comportados:
— O pior dos vícios é o jogo, pois, jogando, acaba-se por fumar, beber e… mentir!
E meu pai se dizia não contaminado pelo que ele denominava de os quatro flagelos da humanidade. E um tio rebatia, com cara maliciosa, o que parecia o resumo do seu comportamento:
— Não tenho vícios pequenos.
Até hoje penso se meu pai dizia a verdade ou se ocultava de nós, crianças e adolescentes, seu interesse pelo pano verde e pelos cavalinhos, para não nos transmitir o seu exemplo. E penso também em que possíveis vícios tio Alécio transitava, se não jogava, não fumava, não bebia e não mentia. Seriam drogas pesadas? Não, tenho certeza que não. Elas não estavam na moda e nem eram consumidas — até os anos 50 — por pessoas da classe média. Então, a frase devia ser apenas… uma frase, provavelmente para ser engraçado ou para colocar nas pessoas a curiosidade e o interesse.
Quanto a mim, jamais me interessei por nenhum tipo de jogo. Nem mesmo o futebol, paixão nacional, à exceção dos jogos da seleção e do Flamengo. Mas nem sempre foi assim.
Nos anos 60, na TV Excelsior (SP), fizemos um programa chamado Ultragol do Pelé, apresentado pelo nosso craque maior, até hoje insubstituível. Durante esse período, apogeu do jogador, já tendo participado de duas Copas (58 e 62), ele já era chamado de rei. E eu, então, um dos seus milhares de súditos, torci pelo Santos Futebol Clube. Nem era bem pelo Santos, para ser sincero, mas pelo Pelé, como quase todo mundo naquele período. Fui muitas vezes ao Pacaembu, vibrar com o jogo sincronizado e de alto nível do time da Vila Belmiro, e dei aos meus filhos, na época com 7 e 8 anos, camisas e bolas autografadas pelo rei.
O Ultragol era um programa simples: Pelé contava histórias do futebol e recebia jogadores e artistas, chegando mesmo a fazer dupla com alguns cantores. Para as entrevistas, o comando passava ao Pedro Luiz, um narrador esportivo como nunca vi igual no Brasil. Depois, para encerrar, Pelé autografava uma bola oficial, chutando-a para a plateia. Era de quem conseguisse pegar, em meio àquela algazarra, que por milagre nunca produziu um acidente. Fazíamos o programa no estúdio principal da Excelsior — que era o grande auditório do Teatro Cultura Artística, no centro de São Paulo, com mais de 1 000 lugares.
Quase sempre, depois do programa, saíamos para jantar num dos restaurantes da Praça Roosevelt e adjacências, como o Gigetto e a Baiuca. E, nesses fins de noite, sempre cercado de admiradores, Pelé nos contava outras histórias. Formá-vamos um grupo unidíssimo, formado, entre outros, por Álvaro de Moya, Jô Soares, Roberto Palmari, Cyro Del Nero, Jayme Barcelos, Orfeu Gregori e Flávio Rangel. Era uma época de ouro, com a TV Excelsior brilhando nem tanto em audiência — mas em espírito, em preocupação cultural. Uma emissora diferenciada, única, comandada com inteligência pelo Moya. E, para que vocês tenham uma ideia mais clara do que era o espírito da TV Excelsior, basta dizer que foi lá, naquele mesmo palco de onde Pelé chutava a bola para a plateia, que apresentamos entrevistas longas — ao vivo — com Ionesco, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Só craques. Como o Pelé.
Bons tempos!

Outros tempos!

AUGUSTO NUNES - Só no Brasil


Só no Brasil
AUGUSTO NUNES
VEJA ONLINE

A troca de Nelson Jobim por Celso Amorim informa que Luiz Inácio Lula da Silva continua no comando, mas agora conjuga os verbos nomear e demitir com diferentes identidades. Quando nomeia, é Lula. Na hora de demitir, disfarça-se de Dilma Rousseff. Antonio Palocci, Alfredo Nascimento e Nelson Jobim culpam a afilhada pela perda do emprego que ganharam do padrinho. Alguém precisa contar-lhes que a ascensão e a queda foram determinadas pela mesma pessoa.

Em 1° de janeiro, quando fingiu entregar o cargo, a versão carnavalesca de Hugo Chávez festejou, simultaneamente, a proclamação da República Bipresidencialista do Brasil, o começo do terceiro mandato e a invenção do presidente com codinome. Lula é o chefe supremo, que tudo decide. Dilma é a gerente, que executa qualquer serviço. Nas páginas dos jornais e na imaginação da oposição oficial, todo fim de crise anuncia o início do novo governo. No mundo real, faz oito anos e meio que está no poder a metamorfose ambulante.

Há menos de uma semana, Lula enxergava em Jobim um gênio da raça. “Não tem um brasileiro que possa fazer o trabalho com a competência que ele está fazendo”, garantiu em 31 de julho. “Ele conduz o Ministério da Defesa com muita grandeza, está fazendo um trabalho excepcional”. Nesta quinta-feira, depois de autorizar Dilma Rousseff a mexer no time, explicou que “até o Pelé, se estiver jogando mal, o técnico tira, pô”. Jobim saiu de campo por ter constatado que Ideli Salvatti é fraquinha e Gleisi Hoffmann nem conhece Brasília.

Os dois gols convenceram o dono do clube de que o craque insubstuível da semana anterior poderia ser substituído por qualquer palerma diplomado em sabujice e imune a surtos de sinceridade. E então nomeou Celso Amorim.

RUTH DE AQUINO - Uma epidemia que mata 100 por dia

Uma epidemia que mata 100 por dia
RUTH DE AQUINO
REVISTA ÉPOCA

Época
RUTH DE AQUINO é colunista de ÉPOCA
raquino@edglobo.com.br
A causa não é fome, guerra, vírus ou bactéria. Uma vida se perde a cada 15 minutos em acidentes de trânsito no Brasil. Olhe seu relógio e pense: “100 brasileiros morrem a cada 24 horas em ferragens, no asfalto e na calçada”. Por ano, são 36 mil – no cálculo mais conservador. Esses são os mortos. Sem contar os amputados e paraplégicos. Motoristas, passageiros, pedestres, ciclistas, motociclistas. Eu sei, você sabe. E quem dirige carros potentes, alcoolizado e a 150 quilômetros por hora também sabe.
Desastres recentes, no Estado de São Paulo, envolveram gente de muita grana e na idade mais perigosa segundo as estatísticas da violência sobre rodas: entre 20 e 30 anos.
A nutricionista Gabriella Guerrero Pereira, de 28 anos, perdeu o controle do Land Rover blindado e atropelou na calçada o administrador Vítor Gurman, de 24, na Rua Natingui, na Vila Madalena, bairro com bares e restaurantes lotados à noite. Gabriella deu entrevista, chorou, disse que assumiu a direção do carro “robusto mas instável” porque o namorado estava bêbado. “A rua é muito estreita para a proporção do carro. O acidente aconteceu”, disse ela. Gabriella não fez exame de bafômetro “porque o PM não pediu”. O PM desmentiu. Disse que ela se recusou. Vítor morreu dias depois do atropelamento.
O engenheiro Marcelo Malvio Alvez de Lima, de 36 anos, dirigia um Porsche na Rua Tabapuã, no bairro Itaim Bibi. Num cruzamento, chocou-se com o Tucson da advogada Carolina Menezes Cintra Santos, de 28 anos. Carolina tinha cometido um erro: ela passava o sinal vermelho lentamente, quando foi atingida pelo Porsche de Marcelo. O engenheiro foi acusado de estar a 150 quilômetros por hora, numa rua que permite velocidade máxima de 60 quilômetros por hora. Ele nega. “Não sou bandido”, disse, em entrevista. Tinha bebido, segundo ele, “não mais do que duas taças de vinho”. Não gostou de ficar conhecido como o “dono do Porsche”. Sobre o desastre, afirmou: “Aconteceu um acidente, ela faleceu, com certeza isso estava nos planos de Deus”. Marcelo pagou R$ 300 mil de fiança. Carolina morreu no instante da colisão.
O administrador João Luís Raiza Filho, de 30 anos, perdeu o controle de seu Chevrolet Camaro, subiu no canteiro de uma praça em São Bernardo do Campo, bateu em árvores e derrubou um muro. Como estava nu da cintura para baixo, um PM precisou emprestar a ele uma cueca para sair do carro. No banco ao lado do motorista, havia uma garrafa vazia de uísque. Raiza Filho já foi personagem de “Nossa Antena”. Em outubro de 2007, o playboy, então com 27 anos, destruiu sua Ferrari na véspera do GP de Fórmula 1 em São Paulo. Bateu sob um viaduto. Deu cabeçada na boca de um cinegrafista. Teve de pagar R$ 3 mil pela agressão. Há quatro anos, esta coluna dizia o seguinte: “Numa sociedade em que nossos atos têm consequência, esse rapaz seria condenado a prestar serviços à comunidade. Se seu castigo for apenas trocar uma Ferrari por um Mercedes, nada mudará em sua vida”. E não mudou mesmo. Errei na marca do novo carro.
Olhe seu relógio e pense: uma vida se perde a cada 15 minutos em acidentes de trânsito no Brasil
Raiza Filho não matou ninguém ainda. Mas é evidente que ele e milhões de motoristas são um perigo real para si e para a sociedade. Pilotam estimulados por álcool, deprimidos por drogas ou excitados pela sensação de onipotência. Ainda há os que simplesmente não sabem dirigir e não poderiam ter carteira de habilitação. Temos ao volante um exército de homicidas e suicidas em potencial. O trânsito brasileiro mata 2,5 vezes mais que nos Estados Unidos e 3,7 vezes mais que na Europa, segundo um estudo divulgado em dezembro de 2009.
“Não é possível que haja no Brasil muitos problemas mais graves do que 100 mortos em acidentes a cada dia.” A declaração é do diretor-geral de trânsito na Espanha, Pere Navarro Olivella, de 59 anos. A Espanha reduziu em 57% as mortes nas estradas. Não basta educar, é preciso vigiar e punir. As campanhas devem ser duras, segundo ele: “Ridicularizar infratores reincidentes, mostrar deficientes e crianças acidentadas na TV”. Acidente de trânsito “não é maldição divina e deve ser combatido como doença grave”, disse Olivella. Chega de culpar o destino e Deus.

TUTTY VASQUES - Um ego por outro


Um ego por outro
TUTTY VASQUES
O ESTADÃO - 06/08/11

Tamanho não é documento! Vinte e tantos centímetros mais baixo que seu antecessor no Ministério da Defesa, Celso Amorim não fica nada a dever a Nelson Jobim em matéria de ego imensurável. Nesse aspecto, aliás, o ex-chanceler dará decerto continuidade à obra do ex-ministro que não cabe em si.

Jobim e Amorim são de uma cepa de ministros movidos a vaidade do cargo. Eles podiam estar roubando, mas se dão por satisfeitos com os holofotes, as primeiras páginas, a bajulação, a solenidade, a liturgia, enfim, do posto. O Márcio Thomaz Bastos - lembra dele? -, ex-ministro da Justiça de Lula, também jogava nesse time.

É gente que estudou, sabe falar, não chegou lá pelo sistema de cotas dos partidos. Entrou nessa roubada atraída pela luz do poder, precisa deste palco para se exibir intelectualmente.

Sabe Deus como foram os últimos meses na vida de Celso Amorim longe da cena pública! A julgar pela festa que a família fez ao saber que ele estava voltando para o governo, foram tempos difíceis para todos que dividiram a casa com o ego espaçoso do ex-chanceler. Imagina o sufoco dos parentes de Nelson Jobim agora que ele não tem nada pra fazer em Brasília!


Toda prosa

"FRAQUINHA É A GISELE BÜNDCHEN! EU ESTOU NO PESO CERTO!"

Ideli Salvatti, desdenhando Nelson Jobim


A propósito...

Que fim levou aquele ministro mais fraquinho que a Ideli Salvatti, o cara de bigode que a substituiu no Ministério da Pesca?


Fredisque-Denúncia

A exemplo do que aconteceu com o Disque-Dentuço, movimento da Raça Rubro-Negra que botou Ronaldinho Gaúcho na linha, a torcida organizada do Fluminense lançou o Fredisque-Denúncia, serviço aberto à deduragem de quem encontrar o centroavante tricolor nas noites cariocas. O jogador está, por ora, se sentindo perseguido, mas isso passa!

Forcinha

Se a ideia era botar fotos obscenas na internet, os três rapazes presos no Rio em pose de calça arriada diante de uma cabine da PM devem à polícia uma tremenda força na divulgação da palhaçada. Saiu até na televisão!

Pindaíba danada

Bo, o cão d"água português das filhas de Obama, espera que sua ração não entre nos cortes do governo. A sogra do presidente também não quer sobrar nas viagens internacionais da família. Enfim, está rolando um certo climão na Casa Branca!

Um para o outro

Foi comovente o reencontro de Adriano com a bola nos treinos do Corinthians. A pobrezinha não se emocionava tanto desde a despedida de Ronaldo Fenômeno.

Não pegou

Sempre à frente de seu tempo, o Rio é a primeira capital do Brasil a descumprir descaradamente a lei que veta o uso de celular em bancos. Em São Paulo, a proibição ainda depende de sanção do prefeito Gilberto Kassab.

MERVAL PEREIRA - Mudança de rumo?


Mudança de rumo?
MERVAL PEREIRA
O Globo - 06/08/11

Em termos de um governo petista, a nomeação de Celso Amorim foi uma demonstração da importância que a presidente Dilma dá ao Ministério da Defesa, mas esse seu gesto não foi suficiente para agradar aos militares, que entenderam a nomeação como uma espécie de desafio da esquerda. A nomeação teve o condão de esclarecer também o que realmente a presidente pensa sobre o trabalho de Amorim à frente do Ministério das Relações Exteriores.

A percepção generalizada era que a não permanência de Celso Amorim no Itamaraty, apesar de seu desejo e da tentativa de Lula de mantê-lo, significava uma discordância de Dilma com os rumos de nossa política externa.

A declaração da presidente contra o apedrejamento de mulheres no Irã e a favor dos direitos humanos foi compreendida como mais um passo no rumo contrário ao que se defendia na gestão anterior.

Pois hoje se sabe exatamente o que Dilma pensa de Amorim, que assume o Ministério da Defesa "porque ele já deu mostras de ser um brasileiro muito dedicado ao Brasil.".

Esse "brasileiro dedicado" terá questões delicadas para comandar, como as negociações políticas sobre a Comissão da Verdade, e o temor dos militares é que Amorim tenha uma visão esquerdista.

Jobim era visto pelos militares como o garantidor dos limites dessa comissão, que não promoveria a retaliação política nem colocaria a lei de anistia em xeque, mas apenas levantaria aspectos históricos dos embates nos tempos da ditadura.

Terá também de convencer os militares de que não os colocará em aventuras esquerdistas a nível regional, e que a imagem política internacional do Brasil, principalmente devido ao apoio dado ao programa nuclear do Irã, não trará prejuízos ao nosso programa nuclear.

O receio dos militares é que os organismos fiscalizadores internacionais, como a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), fiquem mais rigorosos com os projetos nucleares brasileiros com a indicação de Amorim para a Defesa.

Certas posições, defendidas pelo ex-ministro Nelson Jobim por se tratarem de questões de Estado, na boca de Celso Amorim podem ganhar novas conotações políticas. A posição brasileira de não assinar o protocolo adicional do TNP é uma delas. O governo brasileiro considera, com razão, as salvaguardas existentes suficientes para estabelecer se o urânio está ou não sendo usado para fins pacíficos.

Temos também dois regimes de salvaguardas, um com a Argentina e outro com a AIEA, e o país, além de ter assinado o TNP, incluiu na Constituição de 1988 a proibição de fabricação e uso de armas nucleares.

No governo Lula, houve um desentendimento entre as autoridades brasileiras e as da AIEA, que acabou contornado, em relação à inspeção da usina de Resende, com a tentativa dos inspetores de ver as centrífugas que processam o urânio por um método especial, tratado como segredo militar.

Houve também um quase incidente diplomático por causa de uma tese de doutorado de um aluno do Instituto Militar de Engenharia do Exército (IME), o físico Dalton Ellery Girão Barroso, que destrinchou com cálculos e equações informações consideradas sigilosas sobre uma ogiva nuclear americana.

A agência internacional sugeriu que esse estudo indicava que o país estaria fazendo pesquisas que levariam à bomba atômica, além de revelar segredos que poderiam ser usados por terroristas. O Ministério da Defesa teve que entrar no circuito diplomático para impedir que o livro fosse censurado.

Mas o novo ministro da Defesa tem seus trunfos, entre eles o perfil nacionalista, que para muitos marcou sua atuação no Itamaraty, e não o esquerdismo. É sabido, por exemplo, que há setores do governo que avaliam como um erro estratégico a assinatura pelo Brasil do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), em 1997, no primeiro governo de Fernando Henrique.

O que na ocasião foi considerado pelo Itamaraty um gesto de preservação de nossa liderança regional, ao não permitir que a desconfiança dos argentinos sobre nossas intenções nucleares gerasse um ambiente de tensão política, na gestão Lula-Amorim era entendido como uma capitulação diante do poder hegemônico dos EUA.

Embora a tese oficial da diplomacia brasileira seja que é preciso desarmar a todos, é pensamento comum entre as autoridades que, se alguns países podem ter bomba atômica, como Paquistão e Israel, outros deveriam ser acolhidos no clube nuclear. Ou que o verdadeiro problema do Oriente Médio é que Israel tem a bomba atômica, o que justificaria a decisão do Irã de também ir atrás do desenvolvimento de armas nucleares como fator de dissuasão.

Anos atrás, o então secretário de Política, Estratégia e Relações Internacionais do Ministério da Defesa, general-de-Exército José Benedito de Barros Moreira, defendeu em um programa de TV que o Brasil desenvolva a tecnologia necessária para a fabricação da bomba atômica: "Nós temos de ter no Brasil a possibilidade futura de, se o Estado assim entender, desenvolver artefato nuclear. Não podemos ficar alheios à realidade do mundo." O general não foi desautorizado.

Recentemente, outro tema voltou a acender uma luz de advertência em Washington: o ministro da Defesa Nelson Jobim apresentou aos Estados Unidos a discordância do governo brasileiro a qualquer interferência da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Atlântico Sul.

O governo brasileiro teme que os EUA possam promover ações multilaterais através da Otan, prescindindo da autorização do Conselho de Segurança da ONU. Por trás dessa posição brasileira está a intenção de proteger as reservas de petróleo brasileiras, especialmente as localizadas no pré-sal.

Como os EUA não ratificaram a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, de 1982, o governo brasileiro considera que, teoricamente, a Casa Branca não é obrigada a respeitar a plataforma continental de 350 milhas náuticas de distância e os 4.000 quilômetros quadrados de fundos marinhos do Brasil.

Como se vê, os assuntos da área de Defesa são de alta sensibilidade política, o que qualificaria o ministro Celso Amorim para a tarefa, do ponto de vista de um governo petista mais à esquerda.

Sua escolha por Dilma (ou Lula) seria uma indicação de que a presidente estaria se reaproximando do grupo político de que fazia parte no governo anterior, que levou o segundo governo Lula mais para a esquerda.