quinta-feira, julho 14, 2011

DORA KRAMER - Tristeza não tem fim

Tristeza não tem fim
DORA KRAMER
O ESTADÃO - 14/07/11

Se a presidente Dilma Rousseff fica “triste” com muita coisa que acontece em seu governo, como disse em recente entrevista de rádio, que dirá o público que assiste a elas sem entender da missa a metade e muitas vezes incorporando como verdadeiras versões que douram a pílula, mas não traduzem a realidade?

Governantes não são eleitos para compartilhar emoções pessoais, embora existam momentos em que seja necessário fazê-lo. Não é o caso de situações em que o governo se vê face a face com desvios de conduta de seus integrantes.

Nessas ocasiões, o que interessa não são os adjetivos com os quais a autoridade se define perante os fatos, mas a sua capacidade de tratá-los com ações substantivas. E é isso que Dilma não tem feito, a despeito de ser conceituada como pessoa implacável, enérgica, resoluta. O que se viu até agora é que, pelo menos no exercício da Presidência, ela pode até ser veemente, impetuosa, mas está a léguas de distância de fazer jus à fama que construiu no quesito poder de decisão.

Errou na administração atabalhoada da derrota da posição que defendia o governo na votação do Código Florestal na Câmara, quando pretendeu enfrentar no grito o PMDB mandando seu então chefe da Casa Civil ameaçar o vice-presidente com a demissão dos ministros do partido.

Errou na avaliação de que o tempo resolveria a óbvia impossibilidade de Antonio Palocci explicar seu súbito enriquecimento, e levou na cabeça uma crise de 23 dias. Erra muito mais agora na condução atabalhoada da demissão do primeiro escalão do Ministério dos Transportes.

A aparência inicial foi de que teria aprendido parte da lição resolvendo afastar suspeitos de corrupção tão logo a revista “Veja” publicou que dias antes passara uma reprimenda em regra nos subordinados. Ocorre que só tomou uma atitude depois que o fato veio a público.

Se havia convicção sobre a má conduta dos servidores, à presidente cumpriria demiti-los por isso e não porque o assunto foi divulgado. Esperou também que a imprensa publicasse novas denúncias sobre o ministro dos Transportes para demiti-lo depois de tê-lo preservado e, dois dias antes, manifestado “confiança” nele, em surpreendente nota oficial.

Convidou para substituir Alfredo Nascimento um senador (Blairo Maggi) cuja empresa tem negócios com o governo, deixando a ele a prerrogativa de um julgamento que deveria ser dela. Efetivou como substituto o secretário executivo que, por mais correto que seja, esteve durante todo tempo no ambiente que a presidente tratou como um antro que estaria prestes a desestabilizar o seu governo, e por meses foi ministro quando o titular se afastou para disputar o Senado.

Nos dois últimos dias, Dilma Rousseff vê em comissões do Congresso o diretor por ela demitido declarar-se em férias, receber homenagens de todos os partidos aliados e ainda afirmar que a presidente esteve sempre a par “de tudo” o que se passou no Ministério dos Transportes. É de entristecer, sem dúvida. O público, não a presidente a quem caberia agir. Com firmeza, mas, sobretudo, coerência.

Aparências
A retirada do BNDES do negócio pretendido por Abílio Diniz com a fusão do grupo Pão de Açúcar ao Carrefour contrasta com a defesa veemente que os ministros Gleisi Hoffmann e Fernando Pimentel fizeram da fusão. Não foi, portanto, uma decisão pautada na inconveniência da transação, mas um recuo em função da má repercussão.

Artifício
Coisinha mais bisonha essa festa com bolo e bonecos de Dilma e Temer ao molde de um casal, feita pelo PMDB e pelo PT para celebrar harmonia onde grassa a discórdia. O assunto – a tensão entre os principais partidos do governo – é sério e de interesse público. Petistas e pemedebistas infantilizam o ato justamente para que o público não se interesse por ele. Um pingo de seriedade no trato da questão não faria mal a suas excelências.

EUGÊNIO BUCCI - A globalização da ética de imprensa


A globalização da ética de imprensa
EUGÊNIO BUCCI
O Estado de S.Paulo 14/07/11

O fechamento do tabloide inglês The News of the World, que vendia 2,6 milhões de exemplares, deu a largada para a principal discussão sobre ética de imprensa no mundo globalizado. A partir de agora está claríssimo: a conduta dos órgãos encarregados de informar a sociedade é uma pauta supranacional. Não é apenas o capital que viaja em segundos de um continente para outro. Não são apenas as massas trabalhadoras que migram clandestinamente para disputar empregos em terras estrangeiras. Não é apenas a indústria da diversão que alcança simultaneamente os olhares de povos distantes entre si. Agora ficou evidente: a credibilidade dos órgãos jornalísticos não é meramente um assunto doméstico, ela floresce e sucumbe na arena global.

Já veremos por quê. Antes façamos uma recapitulação sumária do que se passou.

Esse jornal, The News of the World, tinha 168 anos de idade. Desde 1969 pertencia à News Corporation, o megaconglomerado internacional, com faturamento na casa dos US$ 33 bilhões ao ano, controlado pelo australiano Rupert Murdoch. Vivia de bisbilhotagem, luxúria e algum sangue. Vivia muito bem, apesar do lento declínio em circulação, que vinha de décadas. Sua fórmula editorial ia dos aposentos da família real em Londres às estripulias transoceânicas dos astros do show business, passando por bestialidades a granel.

Há poucos anos, seus métodos "jornalísticos" passaram a ser contestados. No site da Press Complaints Commission - instituição encarregada da autorregulamentação da imprensa britânica - há queixas de escutas clandestinas contra ele. Na esfera policial também houve investigações. Um jornalista do News of the World, Clive Goodman, chegou a ser preso em 2007.

Tudo isso não é novo, portanto. Mas até então se acreditava que os crimes registrados eram desvios individuais, casos isolados, como se diz. Agora se viu que não. Os crimes são mais sérios e muito mais numerosos. Segundo apontam as investigações, seriam mais de 4 mil os telefones grampeados pelo jornal. Estamos falando, portanto, da industrialização do grampo. Gerenciar milhares de escutas clandestinas é uma operação de monta: requer equipes treinadas, orçamentos bem planejados, estruturas próprias. Os inquéritos vão dando conta de que o News não era uma redação jornalística - era uma agência de arapongas assalariados.

Descobriu-se mais. Além de grampear celebridades - o que já constitui uma ilegalidade inaceitável, que se situa fora do campo do jornalismo -, o jornal teria invadido celulares de pessoas comuns, que não dependem do estrelato para inflar seus cachês. Grampeou parentes de soldados mortos. Grampeou até a adolescente Milly Dowler. A garota estava desaparecida - soube-se depois que já tinha sido assassinada - quando detetives contratados pelo News apagaram mensagens de seu celular, o que causou nos familiares a impressão de que ela ainda estava viva. Com isso o caso ganhou uma sobrevida - e, em consequência, a cobertura do caso, liderada pelo News of the World, também ganhou sobrevida. Lucrativa.

Essas revelações estarreceram a Inglaterra. O tabloide era um serial killer da privacidade de gente comum. Anunciantes caíram fora. Os protestos se generalizaram. Murdoch fechou o semanário, na tentativa de estancar a sangria de reputação e de salvar um objetivo maior: ele queria comprar a totalidade da BSkyB, um poderoso grupo de canais a cabo do qual já é sócio. A tentativa não deu certo. O quadro só se complicou. Andy Coulson, ex-diretor do News of the World e porta-voz de David Cameron, o primeiro-ministro britânico, até janeiro de 2011, foi preso na sexta-feira passada. Só foi liberado sob fiança. O ex-primeiro ministro Gordon Brown diz que também foi grampeado. A crise do tabloide virou uma crise no Parlamento. Políticos de correntes várias passaram a contestar em público as pretensões do dono da News Corp., a tal ponto que, ontem mesmo, Murdoch anunciou que desistiu da compra da BSkyB. Ele está acuado. Na Inglaterra e no mundo.

Aí é que entram as razões da internacionalização desse debate. O escândalo dos grampos virou notícia no mundo todo porque o conglomerado de Murdoch está no mundo todo - e se ele faz por aí o que parece ter feito em Londres, isso diz respeito a todos nós. Ontem pela manhã a Rádio CBN noticiou em primeira mão no Brasil que o senador democrata Jay Rockefeller pretende investigar o grupo de Murdoch nos Estados Unidos. Um dos jornais que mais se destacaram na cobertura dos bueiros da News Corp. - depois do diário inglês The Guardian - é o americano The New York Times, que vem sofrendo uma concorrência frontal do Wall Street Journal, comprado, em 2007, por ninguém menos que Murdoch. Na Newsweek desta semana, o jornalista Carl Bernstein - autor, ao lado de Bob Woodward, da série de reportagens sobre o escândalo de Watergate, publicadas no Washington Post, que levaram a renúncia de Richard Nixon, em 1974 - lança a pergunta que só ele pode fazer: será que esse escândalo não é o Watergate de Murdoch?

O sentimento geral foi bem sintetizado pela revista The Economist de quinta passada: "Se ficar provado que os diretores da News Corporation agiram contra a lei, eles não deveriam mais comandar nenhum jornal ou estação de TV. Deveriam estar na cadeia". Isso vale para qualquer país. No mundo de hoje, as práticas dos tabloides ingleses viraram tema do interesse público internacional.

Sim, isso mesmo. Existe um interesse público internacional, ainda que difuso, rarefeito, pouco institucionalizado. Não são apenas o capitalismo selvagem e a especulação financeira que rasgam fronteiras. As preocupações humanitárias em geral e a ética jornalística em particular também se globalizam como valores universais. É a isso que Murdoch terá de prestar contas. E com isso ele talvez não contasse.

JOSÉ SERRA´- Um trem alucinado


Um trem alucinado
JOSÉ SERRA
O Estado de S.Paulo - 14/07/11

O projeto do Trem de Alta Velocidade (TAV) entre São Paulo e Rio de Janeiro, o trem-bala, poderia ser usado em cursos de administração pública como exemplo do que não se deve fazer. Foram cometidos vários erros básicos nos estudos preliminares - parecem deliberados, de tão óbvios.

Em primeiro lugar, foi superestimada a demanda de passageiros - e, portanto, a receita futura da operação da linha - em pelo menos 30%.

O TAV tampouco custaria R$ 33 bilhões, como dizem, e sim mais de R$ 60 bilhões. Isso porque não incluíram reservas de contingência, não levaram em conta os subsídios fiscais e subestimaram os custos das obras, como os 100 km de túneis, cujo custo foi equiparado aos urbanos. Esqueceram que os túneis para os TAVs são bem mais complexos, dada a velocidade de 340 km por hora dos trens; além disso, longe das cidades, não contam com a infraestrutura necessária, como a rede elétrica, por exemplo.

Foram ignoradas também as intervenções necessárias para o acesso às estações do trem, caríssimas e não incluídas naqueles R$ 60 bilhões. Imagine-se o preço das obras viárias para o acesso dos passageiros que fossem das zonas sul, leste e oeste de São Paulo até o Campo de Marte!

O último leilão do TAV fracassou não porque os empresários privados não gostem de receber subsídios ou o governo do PT seja refratário a concedê-los. Ao contrário! Até os Correios e os fundos de pensão de estatais podem ser jogados na aventura. Acontece que o projeto é tão ruim que o ponto de convergência se tornou móvel: afasta-se a cada vez que parece estar próximo.

Apesar de tudo, o governo vai insistir, anunciando agora duas licitações: uma para quem vai pôr o material rodante, operar a linha e fazer o projeto executivo da segunda licitação, na qual, por sua vez, se escolheria o construtor da infraestrutura. Este seria remunerado pelo aluguel da obra concluída, cujo inquilino seria a empresa operadora, bem como pelo rendimento da outorga que essa empresa pagou para vencer a primeira licitação. Entenderam? Não se preocupem. Trata-se de uma abstrusa mistificação para, de duas, uma: encobrir o pagamento de toda a aventura pelos contribuintes ou fazer espuma para que o governo tire o time sem dizer que desistiu.

A alucinação que cerca o projeto do TAV fica mais evidente quando se pensa a questão da prioridade. Imaginemos que pudessem ser mobilizados recursos da ordem de R$ 60 bilhões para investimentos ferroviários no Brasil.

Que coisas poderiam ser feitas com esse dinheiro? Na área de transportes de passageiros, R$ 25 bilhões de novos investimentos em metrô e trens urbanos, beneficiando mais de 3 milhões de pessoas por dia útil em todo o País: Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Rio, Goiânia, Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza... Sabem quantas o trem-bala transportaria por dia? Cerca de 125 mil, numa hipótese, digamos, eufórica.

Na área de transportes ferroviários de carga, os novos investimentos atingiriam R$ 35 bilhões, atendendo à demanda interna e ao comércio exterior, conectando os maiores portos do País aos fluxos de produção, aumentando o emprego e diminuindo o custo Brasil. Entre outras linhas novas, que já contam com projetos, poderiam ser construídas a Conexão Transnordestina (Aguiarnópolis-Eliseu Martins); a Ferrovia Oeste-Leste (Figueirópolis-Ilhéus); a Centro-Oeste (Vilhena-Uruaçu); o trecho da Norte-Sul de Açailândia a Barcarena, Porto Murtinho a Estrela d"Oeste; o Ferroanel de São Paulo; o corredor bioceânico ligando Maracaju a Cascavel; Chapecó-Itajaí, etc. Tudo para transporte de soja, farelo de soja, milho, minério de ferro, gesso, fertilizantes, combustíveis, álcool, etc. É bom esclarecer: o trem-bala não transporta carga.

Além de ter sido vendido na campanha eleitoral como algo "avançado", o TAV foi apresentado como se o dinheiro e os riscos fossem de responsabilidade privada. Alguém acredita nisso hoje?

Inicialmente, segundo o governo, os recursos privados diretos não cobririam mais de 20% da execução do projeto. E isso naquela hipótese ilusória de R$ 33 bilhões de custo. Outros 10% sairiam do Tesouro Nacional e 70%, do BNDES, que emprestaria ao setor privado, na forma do conhecido subsídio: o Tesouro pega dinheiro a mais de 12% anuais, empresta ao BNDES a 6% e a diferença é paga pelos contribuintes. Com estouro de prazos e custos, sem demanda suficiente de passageiros, quem vocês acham que ficaria com o mico da dívida e dos subsídios à tarifa? Nosso povo, evidentemente, por meio do Tesouro, que perdoaria o BNDES e bancaria o custeio do trem.

Há outras duas justificativas para a alucinação ferroviária: os ganhos tecnológicos e ambientais! A história da tecnologia é tão absurda que lembra os camponeses do escritor inglês Charles Lamb (num conto sobre as origens do churrasco), que aprenderam a pôr fogo na casa para assar o leitão. Gastar dezenas de bilhões num projeto ruim só para aprender a implantar e a fazer funcionar um trem-bala desatinado? Quanto vale isso? Por que não aprender mais tecnologia de metrô e trens de carga? Quanto ao ganho ambiental, onde é que já se viu? Como lembrou Alberto Goldman, a saturação de CO2 se dá nas regiões metropolitanas, que precisam de menos ônibus e caminhões e de mais trens, não no trajeto Rio-São Paulo.

O projeto do trem-bala é o pior da nossa História, dada a relação custo-benefício. Como é possível que tenha sido concebido e seja defendido pela principal autoridade responsável pela condução do País? Eis aí um tema fascinante para a sociologia e a psicologia do conhecimento.

P. S. - A região do projeto do trem-bala onde há potencial maior de passageiros é a de Campinas e Vale do Paraíba, que poderia perfeitamente receber uma moderna linha de trem expresso, com custo várias vezes menor e justificativa econômica bem maior, especialmente se for feita a necessária expansão do Aeroporto de Viracopos.

GOSTOSA

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Governo de SP cria programa com 30 mil vagas
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 14/07/11

O governo do Estado de São Paulo anuncia hoje a implantação do programa Via Rápida para o Emprego, que prevê cursos de qualificação profissional de até três meses de duração.
Neste ano, serão oferecidas 30 mil vagas, disponíveis a partir do mês que vem.
"Desenvolvemos o programa porque temos hoje um cenário no Brasil, e em São Paulo, de vagas não preenchidas por falta de qualificação das pessoas", diz o secretário de Desenvolvimento Econômico, Paulo Barbosa.
Somente no sistema estadual que faz intermediação entre empregadores e empregados, 120 mil postos estão sem candidatos aptos.
A meta do novo programa é atender 400 mil pessoas até 2014. Estarão disponíveis mais de 130 cursos, que formarão profissionais como pedreiros, eletricistas, cozinheiros, pizzaiolos e operadores de telemarketing.
Pelo programa, os participantes receberão bolsa mensal de R$ 330. Caso haja mais interessados do que vagas, prevalecerão os candidatos que possuírem menor escolaridade e maior idade e necessidades familiares.
Cerca de mil vagas serão reservadas para pessoas participantes de programas estaduais de transferência de renda.
Formandos no ensino médio estadual terão aproximadamente 2.000 vagas reservadas. Outras mil serão para os que cumprem pena em regime semiaberto.

Brasil perderia sem acordo de dívida nos EUA, diz economista

O impasse em que o presidente dos EUA, Barack Obama, se envolveu, na tentativa de elevar o teto da dívida do país, poderia afetar muito a economia brasileira.
"O tema merece atenção aqui pois o Brasil é dos grandes detentores de títulos americanos. Mais de US$ 290 bilhões é o valor das reservas que estão alocadas em títulos", diz Vitoria Saddi, professora do Insper e sócia da SM Gestão de Ativos. As reservas cairiam de valor pois os títulos americanos perderiam preço.
O Brasil fica vulnerável a um valor muito alto em um momento de fragilidade na política americana, em que há um jogo de "gato e rato" entre republicanos e a Casa Branca, segundo a professora. "Se não houver acordo logo, ouviremos notícias de venda de títulos", diz Saddi, que estima uma solução do impasse.
Apesar de ameaçadora, a questão é de "importância menor", segundo Tiago Berriel, da escola de pós-graduação e economia da FGV. "É uma briga política que deve ser contornada pois o custo de um não acordo seria maior. A questão europeia tem impactos piores", diz.

DE MOLA
Após a entrada de um "private equity" espanhol no também espanhol Grupo Flex, sua subsidiária Flex do Brasil, que fabrica colchões e outros produtos, vai começar a construir uma nova fábrica em Limeira, interior de São Paulo.
Com investimentos de cerca de R$ 50 milhões, o empreendimento terá capacidade para produzir 40 mil colchões de mola por mês.
A primeira fase deve começar a operar no início de 2013, segundo Edmilson Santoro, diretor-geral da Flex do Brasil.
A linha de produção atual, que fabrica aproximadamente 13 mil colchões de mola por mês e está no limite de sua capacidade, será desativada.
"A entrada desse novo capital fortalece o balanço da companhia e facilita tanto a questão do financiamento quanto o aporte da matriz, necessários para a concretização dos planos da fábrica", afirma Santoro.
Com o acordo, a Artá Capital passa a ter 26% das ações do Grupo Flex.

FATURAMENTO NO VERMELHO
As medidas macroprudenciais de restrição ao crédito adotadas pelo governo tiveram forte impacto no faturamento do comércio varejista em maio, de acordo com levantamento da Fecomercio, que será divulgado hoje.
O faturamento dos varejistas caiu 3,8% em maio na Região Metropolitana de São Paulo na comparação com o mesmo mês do ano anterior.
Essa é a terceira queda seguida. Em abril, havia sido de 2,2% e, em março, de 7,3%.
Pela primeira vez em 22 meses, o faturamento do setor ficou no vermelho no acumulado do ano (-0,4%), segundo a Fecomercio.
A retração nas vendas em maio foi puxada, principalmente, pelo desempenho negativo das lojas de material de construção (-29,4%), de eletrodomésticos e eletroeletrônicos (-22,6%) e de móveis e decorações (-19,3%).
A Fecomercio, entretanto, destaca que deve ser considerada a elevada base comparativa de maio de 2010, cuja venda foi alavancada pela procura de eletroeletrônicos devido à Copa do Mundo.

POTÁVEL
O produto que registrou o maior aumento nas vendas no segundo bimestre deste ano, ante o mesmo período de 2010, foi a água mineral.
A bebida teve alta de 32,7% nos dois primeiros meses do ano, de acordo com levantamento da empresa Nielsen.
O segundo maior crescimento de vendas no período foi o de vinho, com 29,1%.
A comercialização de sabão em barra, por sua vez, foi responsável pela principal queda, de 12,8%.
A empresa analisou 134 categorias de produtos, que movimentaram um volume de dinheiro 2,3% maior no primeiro bimestre de 2011.
No mesmo período do ano passado, o crescimento ante 2009 havia sido de 7,5%.
Na média, o preço dos produtos não sofreu alteração entre abril de 2010 e o mesmo mês deste ano.

Bala e...
A Dori Alimentos, indústria nacional de doces, vai implementar o seu primeiro centro de distribuição no Nordeste. Localizado em Maceió, no Estado de Alagoas, a unidade abastecerá também os Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe.

...pirulito 

A estratégia da empresa, que já atua fortemente no atacado, é ampliar a presença no varejo. Com inauguração prevista para outubro, o empreendimento deve aumentar a receita em R$ 36 milhões, prevê a companhia. O centro de distribuição ocupará uma área de 1.200 m2 e movimentará 600 toneladas por mês.

Indústria... 

A OSX, empresa de construção naval do Grupo EBX, do empresário Eike Batista, começará neste semestre a capacitação de 3.100 profissionais para o início da construção de seu estaleiro. O empreendimento vai gerar 10 mil empregos diretos.

...naval 
Com investimentos de R$ 13 milhões, a empresa desenvolve, em parceria com a coreana Hyundai Heavy Industries, o Instituto Tecnológico Naval, um projeto de qualificação e capacitação, que terá cursos gratuitos em 23 especialidades. A primeira unidade flutuante de produção da OSX deve começar a operar no país em outubro.

Andaime 
O grupo Baram, de construção de andaimes, abriu sua primeira unidade no Nordeste, em Salvador. A companhia, que exporta para Paraguai, Venezuela, Chile e Uruguai, estima faturar R$ 110 milhões em 2011.

Encontro jurídico 
O Siqueira Castro Advogados sediará a partir de amanhã a reunião anual da Advoc Latin America, rede de escritórios independentes. É a primeira vez que o evento será realizado no Brasil.

com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK, VITOR SION e FÁBIO TAKAHASHI

JANIO DE FREITAS - Um lado só

Um lado só
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 14/07/11

Parece lógico que, se um ministro cai, por indícios de corrupção, há um corruptor; mas a lógica é outra


AINDA UMA vez, indícios de corrupção em obras públicas levam a um acesso de agitação noticiosa e política. Derrubam um ministro bem enraizado. Dão alguma aparência de vida à oposição. Forçam depoimentos e investigações de servidores. E sobre os que corromperam, nada.
A corrupção nas obras públicas brasileiras tem geração espontânea. É assim aos olhos dos congressistas inquiridores, das polícias, do Ministério Público, do Judiciário e do noticiário.
De certa vez, respondi em inquérito da Polícia Federal, com a presença inquiridora também de um procurador da República, a longa e insistente série de perguntas. A razão foi a fraude em uma grande concorrência de obra pública, anulada porque o resultado foi aqui publicado, sob disfarce, com antecipação. Eram 18 grandes empreiteiras que dividiam a concorrência e os bilhões por intermédio da fraude.
Pois não me foi feita nem uma só pergunta sobre qualquer das empreiteiras ou dos seus dirigentes.
Aquela foi a primeira concorrência de obra pública anulada por revelação de fraude. Foi tudo arquivado pela Procuradoria-Geral da República. Mas, bem-sucedida, a receita praticada então pelas instituições e pessoas responsáveis por moralidade administrativa e aplicação das leis ficou para as sucessivas fraudes e atos corruptores do serviço público.
Parece lógico que, se um ministro e assessores graduados caem, por indícios de corrupção, há o lado corruptor. Parece. Mas a lógica a reger tais situações é outra.
Provém, por extensão quando as circunstâncias o exigem, daquela, mais que secular, de aplicação dos ônus a um só lado: nos incidentes comuns, a punição aos humildes; nos casos graúdos, o ônus para os menos influentes ou menos afortunados. E os empreiteiros, se você ainda não notou, com que o ganham no uso dos seus métodos estão ficando donos do Brasil: telefonia, rodovias, ferrovias, petróleo, TV, hidrelétricas, mineração, siderurgia, não tem fim.
O Brasil também está ficando de um lado só.

BEM NA FITA
O escândalo dos grampos telefônicos usados pelo jornal "News of the World" tem inúmeros precedentes na imprensa inglesa. De igual e até de maior gravidade, inclusive com a decorrência de suicídio.
A cada episódio, discutiram-se a função e a ética da imprensa, códigos de conduta pessoal, mais comissões de orientação.
Tudo com o efeito apenas de proporcionar e tornar mais enganoso o intervalo até o seguinte escândalo de ordinarice jornalística. A existência de jornalismo decente e brilhante não nega que o sensacionalismo repugnante é da natureza da imprensa feita na Inglaterra. E seu grande êxito empresarial.
Não há razão alguma, portanto, para supor que o atual escândalo resulte em alguma inovação saudável por lá. A mecânica será diferente, mas o escândalo futuro da imprensa suja não faltará. Lá.
Aqui, como você pode comprovar graças ao escândalo inglês, a qualidade jornalística é inferior à da imprensa inglesa decente, mas não o padrão ético. A imprensa de sarjeta não chega, aqui, a alterar a média ética da imprensa de que você tanto se queixa. E nós, jornalistas, quase todos também.

JOE LEAHY - Modelo de gestão de Lula já mostra sinais de exaustão

 Modelo de gestão de Lula já mostra sinais de exaustão
JOE LEAHY DO "FINANCIAL TIMES"
FOLHA DE SP - 14/07/11
Brasil precisa de reformas para ampliar investimentos antes que ciclo de alta das commodities chegue ao fim

Em um retrato, a imagem de Lula sorri das paredes da modesta Prefeitura de Lauro de Freitas. Próximo a Salvador, o município tem muito a agradecer ao homem que em 2010 concluiu seu segundo mandato na Presidência.
Ali quase 40% dos domicílios recebem o Bolsa Família. A sensação de prosperidade é evidente na proliferação de lojas que vendem eletrodomésticos a crédito: "Lula teve mais visão que qualquer economista, qualquer sociólogo, qualquer analista", louva a prefeita Moema Gramacho.
Lauro de Freitas é um dos exemplos mais bem sucedidos do "lulismo", a combinação entre benefícios da Previdência, generosos aumentos de salário, acesso fácil ao crédito e estabilidade econômica. É um modelo que recebe crédito por ter tirado 33 milhões de pessoas da pobreza em oito anos de governo.
Mas mesmo que o lulismo seja elogiado na América Latina como possível solução para a desigualdade e o subdesenvolvimento, há preocupação de que esteja atingindo seu limite: o país já exibe sinais de superaquecimento.
"Quanto mais o crescimento continuar nesse ritmo, maior será o ajuste quando chegar a hora", diz Neil Shearing, da Capital Economics: "Estamos no momento de decidir entre aterrissagem suave e aterrissagem dura".
Apesar de se beneficiar de um dos mais fortes ciclos de preços de commodities, o país gasta mais do que ganha e investe pouco. A inflação cresce e o real subiu 46% em 30 meses. "O modelo de Lula é incompleto", diz Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central: "Não investimos o bastante para crescer rápido e por isso estamos enfrentando alguns solavancos".
Ninguém contesta o êxito de Lula. Ao deixar o cargo, o país crescia em ritmo asiático: 7,5% ao ano. "Ele realmente mudou a trajetória do Brasil", diz Susan Segal, da Sociedade das Américas.
Mas também entregou uma economia cheia de desequilíbrios. O boom das commodities propiciou melhora de 30% nos termos do comércio internacional brasileiro. Mas em vez de usar esse ganho para reduzir dívidas e estimular a poupança, o país gasta em importações.
Isso trouxe um deficit em conta corrente de 2,3% do PIB. A brecha é financiada por investidores externos, o que fortalece o real e reduz a competitividade da indústria. "O modelo de Lula depende da alta constante nos preços das exportações", diz Tony Volpon, da Nomura: "Ele funciona desde que haja um boom de commodities".
O país agora precisa elevar investimentos em infraestrutura e educação para eliminar gargalos logísticos. O melhor modo de financiar investimento é melhorar a eficiência do setor público, que cresceu sob Lula até responder por 40% do PIB. Embora Dilma tenha tentado conter custos, reformas mais ambiciosas parecem improváveis, pois enfrenta problemas com uma base de 10 partidos.
"O governo cresceu de forma inexorável, o que o torna menos flexível caso o Brasil volte a enfrentar uma crise e precise apertar os cintos", diz Ken Rogoff, professor da Universidade Harvard: "Essa é a fraqueza desse modelo".
Tradução de PAULO MIGLIACCI

PEIDANDO NA CARA DO POVO

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Corrida do milhão
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 14/07/11

Vinte e quatro dias depois de Gilberto Kassab anunciar a coleta de 1,2 milhão de assinaturas de apoio à criação do seu PSD, até ontem somente 238 mil teriam sido certificadas pelos cartórios do país.
O número representa menos da metade das 490 mil exigidas pela lei. Se não conseguir aval do TSE até 7 de outubro, o novo partido fica de fora das eleições de 2012. O ex-deputado Saulo Queiroz afirma, contudo, que a expectativa é atingir o piso mínimo de assinaturas válidas no dia 22. Com isso, espera obter o registro até 10 de setembro. Junte-se aos entraves cartoriais a "guerra jurídica" -por ora restrita ao campo das ameaças- prometida pelos adversários, DEM à frente, para tentar melar os planos do prefeito paulistano.
Bússola Seguindo a definição de não ser "de direita, esquerda ou centro", a bancada do PSD na Câmara vai liberar o voto de seus 45 componentes. "Não faz sentido todos numa só direção", diz o recém-indicado líder Guilherme Campos (SP).

On the road 
reunião ontem do Brasil sem Miséria, Dilma Rousseff pediu que os ministérios do Desenvolvimento Social e do Planejamento ajudem os Estados a agilizar versões locais do plano. Ela quer percorrer o país em lançamentos regionais, a partir deste mês ou de agosto. Rio, Espírito Santo, Distrito Federal e Rio Grande do Sul anunciaram programas.

Replay 
Foi de tal forma previsível a fala de Luiz Antonio Pagot ontem na Câmara que o líder do DEM, Antonio Carlos Magalhães Neto (BA), conduziu sua bancada para outra tarefa: derrubar o projeto que retira o nome do tio Luís Eduardo Magalhães do aeroporto de Salvador.

Para entender 
A sensação de aliados no Congresso é que Dilma se precipitou ao anunciar a saída de Pagot do Dnit. Não esperavam tanta disposição de ele vir a público se defender. No Planalto, o principal defensor da manutenção do diretor é Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), mas a presidente indica não topar esse desfecho.

Concentração 

O coquetel de Dilma a congressistas e ministros terminou antes do jogo da seleção. Em sua fala, ela elogiou a votação do salário mínimo no valor defendido pelo governo e disse que, sem o Congresso, não teria controlado a inflação.

Extras 
Com parecer favorável de Lindberg Farias (PT-RJ), está pronto para votação o projeto que acaba com o 14º e o 15º salários dos congressistas, de autoria da hoje ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil).

Jorrou 
Barrado neste ano na porta do Palácio do Planalto, o ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti, que em em 2005 exigiu para o PP a diretoria da Petrobras que "fura poço", esteve ontem no Senado. Prefeito de João Alfredo (PE), continua sem acesso ao Palácio. "Mas tenho conseguido o que quero", emendou, referindo-se a verbas para sua cidade.

Choque 1 
Em pé de guerra com a Eletropaulo, o governo paulista voltou a punir a concessionária -impôs multa de R$ 26,7 milhões por irregularidades detectadas entre 2009 e 2010.

Choque 2 
Técnicos de três distribuidoras de energia de SP discutem hoje com a Infraero um plano antiapagão nos aeroportos de Congonhas, Cumbica e Viracopos para a Copa-2014.

Conjuntura 
José Serra teve longo encontro ontem na Fiesp com Paulo Skaf, adversário não-declarado de Gabriel Chalita na disputa pela candidatura do PMDB à prefeitura paulistana.
com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"A saída do Fruet do PSDB significa aquela velha tática de mudar para ficar como está."
DO DEPUTADO DR. ROSINHA (PT-PR), dizendo que a possível candidatura de Gustavo Fruet à Prefeitura de Curitiba, em 2012, não representa novidade em relação à aliança com a qual o ex-tucano anunciou rompimento ontem, composta pelo governador Beto Richa (PSDB) e o prefeito Luciano Ducci (PSB).

contraponto

Dieta de engorda

Depois do café da manhã oferecido por Geraldo Alckmin aos deputados da bancada paulista, segunda, um grupo de congressistas seguiu para a prefeitura para almoço com Gilberto Kassab. Ainda sob efeito do desjejum matinal do Bandeirantes, comentou-se:
-Hoje ninguém vai passar fome...
O petista Devanir Ribeiro emendou:
-Só falta agora o Lula convidar a gente para comer uma polenta no Demarchi [restaurante preferido do ex-presidente em São Bernardo do Campo]...

ADRIANA ANCONA DE FARIA - Falta índice consistente ao exame da OAB

Falta índice consistente ao exame da OAB
ADRIANA ANCONA DE FARIA
FOLHA DE SP - 14/07/11

Os índices veiculados devem ser vistos com cuidado, pois a lista das instituições de ensino, com percentuais de aprovação, compara situações diversas

Os índices de aprovação e reprovação nos exames da OAB que vêm sendo apresentados não permitem uma análise comparativa adequada entre os cursos jurídicos do país.
São apresentadas informações alarmantes acerca do índice de reprovação no exame da OAB, o que aquece o debate sobre o excesso de cursos de direito existentes, os desafios sobre processos regulatórios e avaliativos e a demanda sobre a necessária qualificação da formação jurídica ofertada.
A seriedade do debate proposto, entretanto, exige que as informações produzidas em relação ao desempenho acadêmico de um curso, à sua capacidade de profissionalização ou à qualidade de seus egressos decorram da análise de dados consistentes e comparáveis.
Todavia, os índices e ranking veiculados devem ser olhados com cuidado, uma vez que a lista das instituições de ensino, com seus respectivos percentuais de aprovação, compara situações muito diversas. Por exemplo, é possível identificar um índice de aprovação de 100%, ou 0%, que conte com a participação de apenas um aluno inscrito em determinado curso.
Seria relevante pensar na construção de um índice consistente, que de fato pudesse comparar situações equivalentes. Se os índices fossem feitos levando em consideração os formandos de cada ano, as universidades, o mercado, o MEC e a própria OAB poderiam ter uma informação real para fazer eventuais ajustes de forma mais efetiva.
É preciso destacar que, a partir do edital de exame da OAB de junho de 2010, os alunos do último ano de direito podem prestar exames muito antes de se formarem, com a simples comprovação de matrícula no quinto ano do curso.
O destaque para esse fato é que essa situação agrega novas possibilidades de comparações indevidas quando se fala de índice de aprovação no exame da Ordem: é possível que um exame conte exclusivamente com candidatos que ainda são alunos e que outro conte com candidatos já formados.
No último exame da OAB, por exemplo, a Direito GV contava apenas com seis alunos formados em 2010, pois os demais já tinham sido aprovados em exames anteriores, e a grande maioria era de alunos que acabavam de se matricular no quinto ano. Da turma que se formou em 2010, o índice de aprovação da Direito GV é de 95%.
Quantos alunos formados ou em curso compunham o quadro de inscritos das demais faculdades? Os índices que nos foram apresentados não fazem essa distinção.
Pensando na construção de um índice consistente e equivalente, seria interessante que fosse construído um índice de percentual de aprovação que levasse em conta exclusivamente os prováveis formandos de cada ano.
Tal índice consideraria os alunos inscritos/aprovados na soma dos exames feitos a partir do início do quinto ano de curso até o primeiro exame após a formatura da turma.
Evidentemente, a comparação de índices teria que trabalhar por faixas de inscritos.
Afinal, uma instituição que teve mais de 70% da turma de formandos inscrita nos exames autorizados não pode ser comparada com uma que teve um ou poucos alunos inscritos nessa condição.
Essa proposta permitiria o conhecimento do percentual de alunos de cada universidade aprovados no exame da OAB imediatamente após sua formatura.
Ou seja, escolas, mercado, sociedade civil, Ministério da Educação e OAB poderiam saber a cada turma de formandos qual o efetivo percentual de aprovação em cada ano.
A partir dessa nova informação construída seria possível falar na elaboração de uma análise comparativa em relação aos cursos de direito do país, o que não pode ser aceito hoje, diante da forma como a informação é compilada.

GOSTOSA

RICARDO MELO - Partido da Rapina

Partido da Rapina
RICARDO MELO
FOLHA DE SP- 14/07/11
SÃO PAULO - Tudo indica que os aplausos para o governo Dilma diante da crise nos Transportes foram precipitados. A série de depoimentos do diretor (ou ex-diretor, quem sabe?) do Dnit, Luiz Pagot, mostra que está em curso uma maquiagem, um recapeamento que todo governante gosta de esparramar pelas ruas numa inauguração de obra, apenas para disfarçar o asfalto antigo sem precisar trocá-lo.
O Planalto hesita, e é fácil entender os motivos. Desde que o escândalo explodiu, ficou claro que os interesses em jogo extravasavam os limites de um partido. Reportagem desta Folha revelou que, sem o voto de funcionários como o diretor Hideraldo Caron, seria impossível aprovar os aditivos de contratos que oficializam a roubalheira.
Caron é do PT, está na pasta desde 2003 e é citado em inúmeros processos do TCU. Seu nome também aparece na Operação Castelo de Areia, aquela que a empreitaria nacional tenta a todo custo bloquear na Justiça. Já Pagot é nome de confiança de Blairo Maggi, com quem Lula desfilava para cima e para baixo mais ou menos na mesma época em que o então presidente elegeu os usineiros como heróis nacionais.
Novo ministro, Paulo Passos é apresentado como um técnico capaz de pôr a casa em ordem. Sério, alguém acredita nisso? Em suas primeiras declarações, Passos fez questão de elogiar Pagot. Ex-número dois, Passos é velho de guerra no ministério. Não via nada do que acontecia? Se não via, era incompetente. Se via, era conivente. Não dá para escapar desse juízo, com todo o respeito pelo seu jeito bonachão.
Ao não rever TODOS os contratos e desinfetar um dos mais notórios centros da promiscuidade entre dinheiro público e bolsos privados, o governo Dilma perde uma chance de se distanciar do verdadeiro PR.
Não do autointitulado Partido da República, apenas uma entre tantas legendas de aluguel, mas do Partido da Rapina, que não escolhe sigla para acomodar seus militantes e, há décadas, parasita o Brasil.
Além de mestre, Clóvis Rossi sempre será insubstituível.

ELIANE CANTANHÊDE - Falta o ato final

Falta o ato final
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 14/06/11

A presidente Dilma Rousseff conseguiu mostrar, às vésperas do recesso do Congresso, que a nova equipe do Planalto está funcionando politicamente. A operação limpeza dos Transportes está sendo bem-sucedida. Até agora...

O desafio de Dilma, Gleisi e Idely era trocar o ministro Alfredo Nascimento e a cúpula do ministério sem trincar cristais. Os assessores caíram, Nascimento saiu de fininho, Dilma encenou um teatrinho com o PR e, ao final, deu no que ela queria: Paulo Sérgio Passos ministro.

Quem contracenou com Dilma foi Blairo Maggi, senador do PR e ricaço da soja e da área de navegação, que foi convidado para o ministério, mas alegou ter contratos no governo e óbvios “impedimentos éticos, senão legais” – como ele mesmo me disse no domingo. Então, o convite não era para valer, só para constar e acalmar o PR.

Como não havia outro nome no partido, Dilma ficou com o caminho livre para dar o passo seguinte – ou o Passos. Ela bem que tentou dar o ministério para o PR, não é verdade? Pena que não teve jeito...

Essa operação foi casada. Enquanto estudava um convite na verdade já recusado, Maggi toureava o afilhado Luiz Antonio Pagot, que chefiava o poderoso Dnit (o órgão das obras e verbas), foi um dos quatro demitidos (apesar de dizer que está “de férias”) e passou a soprar aos ouvidos da imprensa que iria ao Congresso jogar lama no ventilador contra o ministro Paulo Bernardo, marido de Gleisi.

Maggi venceu, e o leão virou um ratinho. Em vez de atacar, apenas se defendeu e voltou para a toca, onde espera a recompensa pelo silêncio. Volta ao Dnit? Esta é a pergunta que não quer calar, porque a resposta vai selar a vitória ou não de todo o movimento de Dilma. Ela fez o que quis, o PR faz o que pode: finge chateação, salva migalhas e certamente continua na base aliada. Por que, então, reconduzir Pagot ao Dnit? Só se ele realmente tinha – e tem – o que contar.

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - Chafurdando

Chafurdando
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
O GLOBO -14/07/11

Diziam que o maior exemplo de autoconfiança intelectual do mundo era fazer as palavras cruzadas do Times de Londres com caneta. O que, indiretamente, provava o alto conceito que o Times tinha dos seus leitores, a elite inteligente da Inglaterra. Isso no tempo em que o Times era o Times e, além de palavras cruzadas para suas melhores mentes, o império encontrava no jornal, numa linguagem sóbria e elegante, tudo o que precisava saber a seu próprio respeito e a respeito dos seus inferiores, o resto do mundo. Quer dizer, no tempo pré-Murdoch.
Lembrei das palavras cruzadas do Times porque li que não adiantaram os cuidados tomados para que não saísse nada de malcriado ou subversivo na última edição do jornal News of the World, fechado pelo Murdoch em meio ao escândalo dos grampos e da fofocagem, com a demissão de mais de duzentos jornalistas. O medo era que alguém na redação ou na oficina conseguisse inserir na edição histórica alguma crítica ou gozação a Murdoch ou à ex-editora do News, Rebekah Brooks. A censura prévia foi feita e o jornal saiu – mas esqueceram de checar as palavras cruzadas, onde os dois foram sutilmente espinafrados (no espaço para um sinônimo de “Bruxa”, imagino, a palavra certa era “Rebekah”), tornando o último número ainda mais histórico. O contraste entre os tabloides sensacionalistas e os jornais “respeitáveis” da
Inglaterra é uma evidência, pode-se dizer escandalosa, de uma divisão social como talvez só exista igual na Índia das castas milenares. A elite inglesa hierarquiza seus diferentes graus de importância para que nunca se confunda um nobre, mesmo arruinado, com um rico sem título, ou os dois com um “comum”. Essa demarcação rígida dá
uma certa liberdade aos excluídos para, por assim dizer, chafurdarem (grande palavra) na sua condição de casta inferior. Já que nunca ultrapassarão a barreira que os separa da elite, enfatizam o contraste e atacam o que a elite tem de mais seu, que é o bom gosto e a hipocrisia. Os tabloides são armas na mal disfarçada luta de classes que tem sido a história da Inglaterra desde os primeiros barões.

BRAZIU: O PUTEIRO

CLÁUDIO HUMBERTO

“[Dilma] está institucionalizando o Brasil do improviso”
SENADOR AÉCIO NEVES (PSDB-MG) ENSAIANDO ATITUDE DE OPOSIÇÃO NO RETORNO AO SENADO

OPOSIÇÃO POUPA PETISTA DOS ‘90% DOS NEGÓCIOS’ 
O governo da presidente Dilma Rousseff está numa encruzilhada e a oposição, como sempre, evita tocar no fio desencapado Hideraldo Caron, diretor de Infraestrutura Rodoviária do Dnit. Segundo o diretor-geral do órgão, Luiz Antônio Pagot, o petista Caron é o responsável por “90% das obras no Dnit”. Apesar disso, ele não tem sido incomodado pelos políticos de oposição que se dizem indignados com o escândalo. 

GENÉTICA 
Ex-presidente da MT-Gás, José Carlos Pagot, irmão de Luiz, teve as contas reprovadas em 2007 pelo Tribunal de Contas de Mato Grosso.

IRREGULARIDADES 
Entre as irregularidades apontadas pelo TC-MT nas contas de José Carlos Pagot, estão R$ 1,5 milhão sonegados de INSS e Cofins.

VIDA DE GADO 
Dilma, expert em gado como Pagot em Biologia, foi sua convidada no Megaleilão da Estância Bahia, na campanha. Ele gastou R$ 307 mil.

PEGADINHA 
Apanhado em ato falho, ao falar em futuras obras à beira de demissão, Pagot disse que foi “entusiasmado pelo Dnit”. Bota entusiasmo nisso. 

ANTAQ DÁ VEXAME PARA DEFENDER EMPREITEIRA 
Ansioso para defender os interesses de empresas como a empreiteira Odebrecht, que forçam a “privatização branca” dos portos, o diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Fernando Fialho, deu vexame: era tão escrachado um ofício que ele enviou ao Tribunal de Contas da União, defendendo a ilegalidade, que dois dias depois o substituiu por outro. Empresa que tem porto pode movimentar cargas próprias, mas querem operar cargas de terceiros.

PEGOU MAL, FIALHO 
Fernando Fialho enviou ofício ao TCU à revelia da diretoria da Antaq. O texto mais parecia obra de advogado das empresas.

GOLPE DE MESTRE 
A Federação dos Portuários denunciou a Antaq ao TCU por sua recusa de fazer cumprir a lei, permitindo privatização dos portos sem licitação.

TENTÁCULOS 
Os tentáculos de empresas com terminais próprios, como Portonave, Itapoá e Embraport (Odebrecht) foram identificados até no TCU.

PRB DENUNCIA RICARDO TEIXEIRA 
O presidente nacional do PRB, Marcos Pereira, vai pedir hoje que a Procuradoria-Geral da República investigue a multiplicação da fortuna do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, a denúncia de recebimento de propinas de US$ 9,5 milhões, entre outras acusações.

TERNURINHA 
À moda Lula e Sarney, a mãe dos irmãos Pagot é nome de creche e conjunto residencial financiado pela Caixa, em Cuiabá (MT). As 482 casas populares, construídas pela Lotufo, custaram R$17,2 milhões. 

AL: MP INVESTIGA... 
O Ministério Público de Alagoas investiga denúncia do deputado Marcos Barbosa (PPS), de que uma imobiliária de Antonio Tarcísio, dono da Limpel, enrolada no escândalo do lixo de Maceió, “vendeu” um apartamento a uma filha da secretária municipal de Finanças. 

...NEGÓCIOS NO LIXO 
A procuradora Fernanda Moreira já interrogou Antonio Tarcísio sobre seus negócios imobiliários com a família da secretária de Finanças Marcilene Costa. Curiosamente, o apartamento adquirido em Maceió foi registrado em cartório de Mata Grande, a 270 km de distância.

DINHEIRO, TEM 
O Distrito Federal é o quinto Estado que mais recebe verbas do governo federal. Só em 2011, cerca de R$ 3,1 bilhões já foram transferidos aos cofres do DF, segundo o Portal da Transparência.

AMIGO FIEL 
O embaixador Marcus Pinta Gama, chefe de nossa representação junto a organismos internacionais, em Londres, é acusado de usar carro oficial e motorista para ir buscar um cão em Paris, driblando a quarentena que a lei local impõe. O Itamaraty diz que “não há registro” da presepada.

NÃO FOI COM ELE 
O presidente do TJ do Rio de Janeiro, Manoel Alberto, esclareceu que ao advertir quanto à proibição do uso de sirene com luzes piscando não se dirigiu ao desembargador Luiz Zveiter, cuja escolta – por orientação dos órgãos de segurança pública – é própria de presidente do TRE.

POLO VAI BEM 
De janeiro a maio, o Polo de Manaus faturou US$ 16,3 bilhões, valor 22,8% maior do que o acumulado nos cinco primeiros meses de 2010, US$ 13,2 bilhões. O número de empregos subiu para 114.805. 

PERGUNTA NO PASTO 
Grande criador de gado, por que Pagot não dá nome aos bois? 

PODER SEM PUDOR
CLIENTELISMO POLÍTICO 
Raposa política mineira, José Maria Alkimin foi também mestre do clientelismo, naqueles tempos em que ninguém levava a sério concurso para ingresso no serviço público. Certa vez, ele recebeu um rapaz que havia solicitado um emprego no Estado, desafiando-o com inteligência:
– Estou desanimado, dr. Alkimin. Acho que não vou conseguir...
– O que é isso, meu filho? Esqueceu que me tem como padrinho?
– É que são muitos candidatos, dr. Alkimin,...
– Mas eles não me têm como padrinho... – sentenciou o político, que conseguiria a nomeação uma semana depois.

QUINTA NOS JORNAIS

Globo: Gigante de alimentos - Cade aprova megafusão mas exige concorrência

Folha: Kassab falha em áreas essenciais, diz tribunal

Estadão: Ministro dos Transportes já pede volta de obras e licitações

Correio: A Esplanada vai virar garagem

Valor: Acordo salva fusão que criou BRF

Estado de Minas: Explodem os gastos via judicial com saúde

Jornal do Commercio: Três minutos, 16 mortos, dois heróis

Zero Hora: RS monta estratégia para retirar homicidas das ruas

quarta-feira, julho 13, 2011

ZUENIR VENTURA - Um pouco de udenismo


Um pouco de udenismo
ZUENIR VENTURA
O GLOBO - 13/07/11

Quando o radicalismo estava na moda nos maniqueístas anos 60, o dramaturgo Oduvaldo Viana Filho deu um conselho de moderação que ficou famoso: "um pouco de pessedismo não faz mal a ninguém" (o PSD era o partido da contemporização). Agora, nestes tempos de leniência moral, seria o caso de recomendar: "um pouco de udenismo não faz mal a ninguém" (a UDN era o partido do moralismo). Alega-se que a corrupção é endêmica, incurável, existe em qualquer país e teria sido trazida pelos portugueses, junto com as doenças venéreas. O problema é que foi se alastrando como metástase e hoje é uma cultura, com autonomia e lógica próprias, presente tanto nas licitações fraudulentas do Ministério dos Transportes como no desvio das verbas destinadas à Região Serrana, devastada pelas chuvas. Ou no guarda da esquina. E pouco tem sido feito contra o vírus.

O escândalo na pasta dos transportes basta como ilustração do fenômeno. O que se passa ali desde 2003, quando o PR começou a controlar um dos maiores orçamentos do país, é hoje do conhecimento público: as irregularidades chegaram a tal ponto que a presidente Dilma foi obrigada a afastar quatro auxiliares do ministro Alfredo Nascimento, que em seguida também teve que deixar o cargo. Mesmo assim, o partido do mensaleiro Valdemar Costa Neto continuou se achando dono do ministério, até que a presidente, após convidar sem sucesso o senador Blairo Maggi para o lugar de Nascimento, impôs sua preferência, não a do partido, que se sentiu traído, fez beicinho, mas agasalhou o revés, a julgar pelo depoimento no Senado do diretor afastado do Dnit, Luiz Antônio Pagot, que evitou comprometer qualquer ministro ou superior.

Para se ver como funciona nos bastidores o mecanismo fisiológico de pressão e barganha de uma base de sustentação do governo, há duas cenas esclarecedoras tendo como protagonista o deputado Valdemar. Numa, ele revela com franqueza a uma rádio de Mogi das Cruzes sua forma de agir:

"O nosso ministro chegou na Dilma outro dia e falou: "Olha, o Valdemar tá com um problema com o bloco. Ele fez o bloco, acertou com o Palocci pra aumentar o espaço do partido no governo. Nós já temos muito espaço. Mas precisávamos aumentar o espaço, porque são 24 deputados a mais" (ele se refere aos partidos nanicos que com os 41 do PR compõem um forte grupo de apoio). Em seguida, fala que quer uma diretoria na Caixa Econômica Federal e no Banco do Brasil para facilitar seus pedidos de empréstimos: "Eu tendo um diretor, sai na hora."

Na outra cena, Valdemar e Nascimento aparecem num vídeo negociando com um deputado do PDT sua transferência para o PR em troca da liberação de uma verba de R$1,5 milhão para sua cidade no Maranhão. É, não é fácil a vida da presidente. Com aliados assim, ela não precisa de adversários.

ROBERTO DaMATTA - A questão dos limites

A questão dos limites
ROBERTO DaMATTA 
O ESTADÃO - 13/07/11

A palavra mais lida nos jornais é "corrupção". Explodem escândalos vergonhosos em todos os níveis do governo. Todos falam de roubalheiras que vêm de "cima" para "baixo", dos "governantes" que deveriam, pela nossa velha cartilha, dar o exemplo para a sociedade. Eles não são apenas a herança do populismo lulista — um populismo de extraordinários resultados coletivos e privados, mas revelações de um sistema administrativo construído sobre uma contradição. Pois se o republicanismo que vem lá da Revolução Francesa se funda na igualdade perante a lei, o estilo brasileiro de exercer o poder é aristocrático e hierárquico.

Quem está mais longe do poder é sujeito da lei e quem o controla multiplica seus bens assaltando os recursos da sociedade impunemente e com a proteção (ou "blindagem") governamental. É o descaso para com a igualdade republicana que está no fundo de todos esses escândalos claros ou velados, e são eles que colocam em xeque o governo e, muito mais que isso, a nossa capacidade de honrar a democracia.

Sobretudo agora que vamos bater novamente de frente com o "mensalão", essa vergonha de um partido que prometia transformar todos os costumes políticos nacionais, mas que demonstrou que o nosso problema é muito mais de atitude gerencial e de cuidado para com a coisa pública do que de mera figuração ideologia.

Nosso moinho satânico não é bem o capitalismo com suas mais-valias e seus monopólios, mas um Estado que troca o senso de limites pelas relações de amizade que se (con)fundem com os elos partidários. O tal governo de coalizão que sempre foi a marca da política nacional é hoje a carteira privilegiada de um clube onde se chega pelo individualismo e pela igualdade das disputas eleitorais, e tira vantagem através da desigualdade que caracteriza o exercício de uma administração centralizada num "estado" que só sabe pensar em si mesmo. A nossa interpretação do liberalismo foi no sentido de transformar o seu individualismo em privilégio pessoal porque nele só enxergamos o lado dos direitos e das vantagens, esquecendo sua dimensão de dever, de honra e de responsabilidade. Dos limites e fronteiras que chegam mais pelo bom-senso e pela boa-fé do que pela policia, pelos tribunais e pelas leis.

O que falta nessa mixórdia não é discutir leis e inventar mais instituições e códigos de conduta, mas de discussão dessas inocentes pontes "naturais" e "humanas" entre gerentes públicos (prefeitos, governadores, ministros, reitores, diretores, presidentes, etc...) e administradores privados — todos enriquecendo brutalmente que com o nosso dinheiro.

E o ponto central para realizar tal discussão é ter uma consciência cada vez mais clara de que quem produz os recursos e a riqueza é a sociedade. É o conjunto de pessoas que forma o tal "povo" que não é nem pobre ou rico, mas é comum no sentido de ser parte de um todo com interesses e valores coincidentes. Pertence a esse povo o dinheiro nacional, bem como a conduta dos seus gerentes, eleitos por tempo limitado. Eles não são os seus donos, mas os seus gerentes. Eles não têm o direito de fraudar esse povo em nome de sua libertação ou de sua miséria, mas a obrigação de honrá-lo com o gerenciamento eficiente e honesto dos seus recursos.

Só a consciência radical da igualdade perante a lei e da responsabilidade publica dela decorrente pode nos libertar desse embrulho ideológico mistificador no qual os governantes se apresentam como protetores, mães, pais e tios, primos e, no fundo, proxenetas do "povo". Esse povo propositalmente confundido de modo imoral e populista com os "pobres" que precisam de um Deus no céu e de nossa ação a seu favor na terra. É entre ele e os projetos governamentais que brotam as mestiçagens do público com o privado — essas misturas que multiplicam bens num grau que escandalizaria um imperador romano.

Precisamos urgentemente de uma consciência de limites — essa irmã do bom-senso. O bom-senso sobre o qual Tom Paine, em pleno século XVIII, exortando a separação entre pessoa e papel num mundo novo, marcado pelo individualismo e pelo ideal de liberdade e igualdade, discutia. Tal conta de chegar entre pessoa (com seus interesses particulares) e papel público (que demanda isenção, equilíbrio e altruísmo). Sabemos como isso é complexo num pais marcado pela desigualdade da escravidão, como bem viu Joaquim Nabuco. Mas, sem essa consciência do que é público e do que é particular, não vamos alcançar o mínimo da responsabilidade pública demandada numa democracia representativa, pois ela depende dessa discussão daquilo que é suficiente para cada um de nós num sistema onde, aparentemente, o céu pode ser o limite — como exemplificam os nossos representantes (???) na esfera pública, sobretudo os que nos governam.

Termino com uma parábola.

Conta-se que, numa reunião na mansão de um multimilionário americano, o escritor Kurt Vonnegut Jr. (autor, entre outros, do incrível "Matadouro 5") perguntou ao seu colega Joseph Heller (autor do não menos perturbador e brilhante "Ardil 22"): "Joe, você não fica chateado sabendo que esse cara ganha mais num dia do que você jamais ganhou com a venda de 'Ardil 22' no mundo todo?" Ao que Heller respondeu: "Não, porque eu tenho alguma coisa que esse cara não tem!" Vonnegut olhou firme para ele e disse: "E o que você acha que pode ter que esse sujeito não tenha?" Resposta do Heller: "Eu conheço o significado da palavra suficiente!".