sexta-feira, junho 03, 2011
LUIZ GARCIA - Prestar contas
Prestar contas
LUIZ GARCIA
O Globo - 03/06/2011
Uma palavra entrou em moda no vocabulário político de Brasília nestes últimos dias: blindagem. Em seu sentido genérico, refere-se à proteção de alguma coisa contra o risco de destruição, sendo implícito que, sem uma defesa especial, reforçada, a dita coisa vai para o beleléu.
É curioso e sugestivo que a expressão esteja sendo usada em relação à reputação do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci. A tropa política do governo está mobilizada para impedir que ele tenha de explicar pessoalmente à Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados o aumento - considerado substancial - de seu patrimônio pessoal nos últimos quatro anos.
Como ele dedicou boa parte desse tempo a servir ao seu partido e ao governo Lula, com os vencimentos modestos que a República reserva para os seus mais destacados servidores, pode-se deduzir que os deputados que desejam ouvi-lo desconfiam de enriquecimento ilícito. Essa expressão não está sendo usada por qualquer um deles, mas não há ingênuos em Brasília. Oficialmente, o ministro será ouvido pela Comissão de Agricultura porque nos últimos anos deu consultoria na área do agronegócio.
Num dado importante, Palocci talvez não escape ao depoimento simplesmente porque deputados da oposição dormiram no ponto. Tinham número suficiente na comissão para impedir a convocação, mas não o fizeram. Acordaram logo depois e agora dependem de um recurso ao presidente da Câmara, o petista Marco Maia. Ele anunciará na semana que vem se mantém ou não a convocação.
Seja qual for a decisão, o prejuízo político para o governo de Dilma Rousseff está evidente. Mesmo que o ministro se livre da sabatina na Câmara, deu-se à oposição e a uma considerável fatia da opinião pública o direito a uma pergunta: por que é tão importante para o governo impedir que Palocci seja sabatinado por deputados? Se ele pode provar que enriqueceu legitimamente, deveria estar contente com a possibilidade de deixar isso claro para o Congresso e a opinião pública. Se não pode, azar o seu.
De qualquer maneira, ficará na memória da opinião pública o desespero das forças governistas ante a possibilidade de que um dos mais importantes ministros seja levado a explicar abertamente os meios e modos de seu enriquecimento pessoal nestes anos em que seu partido tem estado no poder. Ou que só venha a escapar da prestação de contas porque a blindagem funcionou.
MÔNICA BERGAMO
GOVERNO EM CRISE
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/11
A polêmica que envolve Antônio Palocci e que tem feito o governo de Dilma Rousseff sofrer derrotas sucessivas no Congresso atinge mais uma vez o MEC (Ministério da Educação). Depois do kit contra a homofobia, a pasta já se debruçava ontem sobre nova crise: o problema de 26 mil funcionários contratados em hospitais universitários de maneira considerada irregular pelo TCU (Tribunal de Contas da União). Com a derrubada da MP, no Senado, que criou a empresa pela qual eles seriam contratados, os servidores entraram num limbo jurídico. Até ontem, o MEC não sabia como resolver a questão.
ESTADO DE ESPÍRITO
Palocci não queria ir para o governo e foi praticamente forçado a aceitar o comando da Casa Civil por Lula. Ele queria ficar afastado e continuar ganhando dinheiro com sua consultoria sem ser importunado. Agora, paga o preço por ter aceito a "missão". Essa é a versão que um dos interlocutores mais próximos do ministro tem propalado em Brasília.
FALA, PALOCCI!
Mais um petista quer que Palocci abra a boca sobre seus negócios: "Há um sentimento na bancada de deputados do PT de que o ministro deveria falar. Depois de dar explicações à Comissão de Ética e à Procuradoria Geral, ele precisa tratar do tema político posto na sociedade", diz o líder do partido na Câmara, Paulo Teixeira.
TANTO BATE
André Vargas, secretário de comunicação do PT, vai além, e insinua que o silêncio do ministro pode levar à sua queda. "Água parece leve, mas, se vai batendo e não dá vazão, derruba até um edifício", diz. "Vazão é ele se explicar e virar a página."
LONGA ESPERA
E as nomeações de segundo escalão, especialmente as do PMDB, continuam paradas. Um mês depois de ter sido indicado pelo vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), para a presidência da Embratur, Mario Beni ainda aguarda a oficialização do convite. "Tem 180 atos [nomeações] parados. Fico aflito, porque gostaria de já estar arregaçando as mangas. Mas, se não acontecer, ótimo também. Já cumpri minha função na academia", diz ele, professor de turismo aposentado da USP.
WALT DISNEY TROPICAL
Mauricio de Sousa afirma que vai assinar nesta semana a compra do terreno em Santo Amaro onde será construído o novo Parque da Mônica, que promete para 2014.
NOVO TOM
A Osesp teve de fazer substituição às pressas para as apresentações de "A Criação", de Haydn, até amanhã na Sala São Paulo. Saiu o tenor inglês James Gilchrist, com laringite, e entrou o brasileiro André Vidal.
TURMA DO MAURICIO
O cartunista Mauricio de Sousa ganhou jantar comemorando sua nova empresa, que fará programa de TV do personagem Penadinho. Foram à casa de Raul Doria, nos Jardins, anteontem o ex-presidente colombiano Andrés Pastrana e Mônica Sousa, que inspirou o personagem do gibi.
TODOS JUNTOS
O filme "Estamos Juntos", de Toni Venturi, teve pré-estreia no shopping Higienópolis, anteontem. Foram ao cinema as atrizes Érica Ribeiro e Leandra Leal, o empresário Alexandre Youssef e o diretor Kiko Goifman.
PRATO DO DIA
Roberto Frizzo, dono do restaurante Frevo, na rua Oscar Freire, diz que fará de tudo para entrar em acordo com o grupo estrangeiro que comprou o imóvel onde ele está instalado há 54 anos. Ele inclusive resolveu acelerar o lançamento do livro "Frevo", com depoimentos de clientes e fotos da história do restaurante. Mas está difícil. "Toda vez que vou revisar, começo a chorar e paro tudo", conta.
BEIRUTAÇO
Leo Coutinho, assíduo frequentador do Frevo, já marcou um "beirutaço" de resistência para daqui a 15 dias. Diz que levará até a bandinha que costuma passear pela Oscar Freire, a Chupisco.
AOS PARES
A advogada iraniana Shirin Ebadi, ativista dos diretos humanos e Prêmio Nobel da Paz em 2003, fará palestra na OAB-SP neste mês. Ela vem ao Brasil a convite do projeto Fronteiras do Pensamento.
CURTO-CIRCUITO
Ana Busch, Caio Vilela e Joanna Mora lançam no domingo às 16h o livro "No Dia em que Você Nasceu". Na Livraria da Vila da rua Fradique Coutinho.
Bruce Gilden faz palestra no dia 9 no Alumni Image Festival. Na Fundação Ema Klabin, às 20h.
Manu Gavassi faz show e Federico Ezequiel faz sessão de autógrafos para crianças de 8 a 13 anos hoje no shopping Cidade Jardim. Às 17h, para convidados.
A Freixenet celebra 150 anos com jantar no Dinner in the Sky, a estrutura que eleva os convidados a 50 metros de altura. Às 20h de hoje.
A banda 5 a Seco grava DVD no Auditório Ibirapuera hoje às 21h, com participação de Lenine. Livre.
Jean Raquin e Nina Bastos abrem a temporada anual de fondue hoje no restaurante Le Tire Bouchon, em Higienópolis, Sâo Paulo.
com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI
SONIA RACY - DIRETO DA FONTE
No fogão
SONIA RACY
O ESTADÃO - 03/06/11
Serra se reuniu, anteontem, com seu grupo mais próximo para pensar na criação de um novo instituto de formação política. Seria um centro para elaborar propostas de políticas públicas, com a ajuda de acadêmicos. Falou-se sobre inovação tecnológica, novas ideias para velhos problemas e "em ver o que tem por aí no mundo".
Sai antes do fim do ano?
Tracking Brasília
Pesquisa fresquinha feita com 218 deputados, terça e quarta-feira, sobre o caso Palocci, mostra incoerência.
A maioria dos parlamentares da situação querem a permanência de Palocci, mas desaprovam serviços de consultoria. E os da oposição, defendem saída do ministro-chefe da Casa Civil e aprovam esse tipo de serviço prestado por políticos na ativa.
Vai entender.
Redonda
Cada vez mais politizada, a Fifa indicou Ali Bin Al Hussein, príncipe da Jordânia, para integrar o comitê executivo da federação.
Mal sabe o que é uma bola.
Mulher de peso
Shirin Ebadi - Nobel da Paz e primeira mulher a ocupar cargo de juíza no Irã- acaba de solicitar um encontro com Dilma.
Ela palestra dia14, na Sala SP, parte do Fronteiras do Pensamento.
Novíssimo testamento
E R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, resolveu inovar. Fez acordo com Bradesco, Itaú e BB e agora recebe "ofertas" via débito automático.
Missionários
A pedido do Hotel Fasano, serão desafiados a remodelar prédios tombados pelo patrimônio público, os arquitetos Isay Weinfeld e Marcio Kogan. O primeiro, contratado para fazer o new-Fasano de Salvador. O segundo, incumbido do hotel em BH.
Talento é o que não faltará.
"Saxsozinho"
Passou a noite inteira "estacionado" na entrada do bar Baretto, anteontem à noite, um saxofone de primeira qualidade.
À disposição de quem acabou não aparecendo: Bill Clinton.
De folha em folha
Começa hoje em São Paulo a conferência Ano Internacional das Florestas. Representantes da ONU e do setor privado se reúnem na Hebraica para discutir preservação e uso sustentável das reservas verdes. Neste contexto, Jan McAlpine, da divisão-florestas da Nações Unidas, falou à coluna.
Como um ano dedicado à floresta contribui? Desde o Eco 92, o foco internacional se limitava quase que exclusivamente ao meio ambiente. Preocupação genuína, claro, mas não levava em conta, por exemplo, a floresta como meio de subsistência de 1,6 bilhão de pessoas. E provedora de quase metade dos medicamentos usados no mundo.
Então a conferência é importante? É uma forma de alertar o mundo sobre ações concretas e mudanças reais para a gestão sustentável das florestas.
Como se pode participar do Ano da Floresta? Um exemplo? Por meio de programas de plantio de árvores, caminhadas pela floresta para discutir o tema. Sugerimos também o nosso site www.un.org/forests. Queremos criar uma cultura de consciência, introduzir a questão na mente das pessoas. Assim, a conservação e a gestão sustentável se seguirão naturalmente.
Na frente
Rubens Barbosa foi o que mais recebeu atenção de Bill Clinton no jantar da Hebraica, anteontem. Conversaram por cerca de cinco minutos.
Lucinha Araújo lança o livro O Tempo Não Para, Viva Cazuza, no dia 7. Em prol da Sociedade Viva Cazuza. Na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
Hoje tem coquetel para convidados do novo Porto Rubaiyat. Com Carlos Iglesias homenageando o chef Jesús Ramiro, importado da Espanha para liderar a cozinha do restaurante.
Suely Caldas, colunista do Estadão, recebe medalha da Câmara Municipal carioca, dia 8. Por iniciativa da vereadora Andrea Gouvêa Vieira.
A Fundação Conrado Wessel distribui seus prêmios deste ano no dia 13. Em seguida, Moisés Cunha, violinista, e Ney Fialkow, pianista, vão tocar para os convidados. Tudo na Sala São Paulo.
Renata Cruz é a responsável pelo novo restaurante Amici no Itaim Bibi.
Pelo menos 50 homens integraram o esquema de segurança de Clinton no jantar da comunidade judaica. Nossa!
FERNANDO DE BARROS E SILVA - Esperando o PMDB
Esperando o PMDB
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/11
SÃO PAULO - O ministro Antonio Palocci se tornou um morto-vivo, uma espécie de zumbi no cargo que ainda ocupa mas já não exerce. Em menos de 20 dias, o superministro virou um espectro dentro do Planalto. Sua presença calada é um estorvo para todos. Trata-se do silêncio mais intrigante (e mais óbvio) da República em muitos anos.Circulava ontem, entre petistas, que Palocci decidiu, enfim, falar. Estamos todos curiosos para ouvir o Godot de Ribeirão Preto. Mas talvez suas palavras cheguem tarde demais. A não ser que o artista surpreenda a plateia. A ponto de explicar, inclusive, porque demorou tanto para apresentar provas tão cabais de que não é apenas um exímio consultor, mas um homem público de conduta irrepreensível.
O contraste e a simetria com o escândalo do caseiro dão o que pensar. Lá, num impulso delinquente, a máquina do Estado foi mobilizada para violar o sigilo do mais fraco. Agora, numa atitude deliberada, trata-se de evitar que o sigilo dos negócios do futuro ministro com os mais fortes venha à luz. Nos dois episódios, sacrifica-se o interesse público em nome do benefício pessoal ou dos ganhos privados.
Em termos políticos, a pergunta, hoje, talvez não seja mais "quem ainda quer segurar Palocci no poder?", mas, antes, "que diferença isso faz?". O empresariado parece já ter assimilado os custos do que se afigura como inevitável. E o PT, embora tenha receio do avanço do PMDB sobre Dilma, não faz qualquer ação orgânica em defesa do ministro. Pelo contrário, mais e mais petistas enchem a boca para dizer: "Palocci deve explicações".
O PMDB nem precisou esperar a queda do ministro. As ações da governabilidade subiram no mercado parlamentar e o partido dos negócios as oferece preferencialmente à presidente. Dilma não tem muito espaço para recusar o comércio e vai assumindo o papel de que tentava escapar desde o início. Na definição do filósofo Marcos Nobre: a de "síndica do peemedebismo".
CELSO MING - Um xerife para a Europa
Um xerife para a Europa
CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 03/06/11
O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, guardião da saúde do euro, propôs ontem a criação de um Ministério da Economia e das Finanças para a área dos 17 países do euro. É uma ideia que desafia as novas tendências divisionistas da União Europeia. Se for aceita, mudará muita coisa no bloco.
Esse ministro da Economia e das Finanças teria mandato de xerife da integração fiscal, mas não viria para se meter na elaboração e na execução orçamentária dos países-membros do grupo. Teria três funções mais importantes: (1) monitorar o cumprimento dos tratados de Maastricht na área fiscal, ou seja, verificar o cumprimento da obrigação de não ultrapassar o limite do déficit de 3% do PIB; (2) terá competência na administração do sistema bancário da zona do euro, em níveis ainda não inteiramente claros; e (3) representar a União Monetária nos fóruns internacionais de economia e finanças.
Trichet vem denunciando a falta de um mínimo de coesão fiscal (e política) dentro do bloco para que o euro possa subsistir. A proposta vai na direção certa do ponto de vista técnico. Seu obstáculo mais relevante é político.
O momento não é de coesão, o princípio que prevaleceu na área desde os anos 50. Ao contrário, esta é uma crise de rachaduras no universo do euro.
Começou em 2005, quando a Constituição Europeia foi rejeitada. Agora, com o grande aumento da imigração, França e Itália estão pedindo a revisão do Tratado de Schengen, que garante a livre circulação entre os países signatários. Se isso acontecer, voltarão a funcionar as alfândegas e as políticas de fronteira. Por toda parte há manifestações contra as imposições de Bruxelas, a capital da União Europeia. As ideologias de fundo nacionalista estão ganhando corpo e, aparentemente, os políticos xenófobos estão mais fortes. Qualquer ruptura definitiva na área do euro tende a criar problemas ainda mais graves do que os que estão aí, especialmente para aqueles que se dispuserem a pular do barco sem colete salva-vidas. Em todo caso, a situação é de "ou vai ou racha".
Ainda não estão claras as funções desse superministro da Economia e das Finanças sugerido por Trichet. E qualquer um pode argumentar que não basta monitorar o comportamento de cada país-membro da área do euro em relação à disciplina fiscal. Nessa matéria, a questão mais importante é aquilo que os ingleses chamam de enforcement: até que ponto uma autoridade supranacional pode impor a cada governo soberano a observância dos tratados. E em que medida o bloco pode determinar punições aos descumprimentos. Nesse momento, por exemplo, nem mesmo os governos legitimamente constituídos vêm conseguindo convencer a população a aceitar sacrifícios.
Em todo o caso, essa Europa velha de guerra foi construída aos trancos. A união foi sendo costurada a partir das crises quase terminais. E foi somente quando tudo parecia se deteriorar inexoravelmente que as soluções foram sendo encontradas.
Ontem, por exemplo, foi anunciado um novo pacote de socorro para a Grécia. Não é a salvação final, mas é um desses passos que podem ajudar a encontrar uma saída. (Veja ainda o Confira).
CONFIRA
Não empolgou
A julgar pelo silêncio dos seus dirigentes, a proposta de Trichet (veja o texto ao lado) foi recebida com baixo nível de entusiasmo pela Alemanha e pela França, os dois membros mais importantes da área do euro.
Testamento
A proposta da criação de um Ministério da Economia e das Finanças da área do euro é uma espécie de testamento de Trichet. Em 31 de outubro ele terá de repassar seu mandato para o novo presidente do BCE.
Cadê o "Plano"?
Há 22 dias, o "Plano de Negócios 2011-2015" da Petrobrás foi rejeitado pelo seu Conselho de Administração. Uma semana depois, a Petrobrás avisou que não havia tempo hábil para refazer o programa de investimentos. E, de lá para cá, ninguém voltou ao assunto. Por quê?
Por enquanto, é isso aí
Em tempo: ontem, o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, declarou que, para 2011, serão mantidos investimentos de R$ 92 bilhões.
RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA
A era da incerteza
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/05/11
Entre petistas e principalmente aliados, dissemina-se a impressão de que a eventual saída de Antonio Palocci não será suficiente para pacificar a situação no Congresso, onde o governo, a despeito de sua folgada maioria teórica, segue tomando sustos.
Embora reconheçam que a situação do ministro da Casa Civil é crítica, deputados e senadores alegam que só haverá luz no fim do túnel se for abandonada a política de autossuficiência e confronto -da qual, lembram, Palocci era apenas o executor, obedecendo às ordens da presidente. "A crise é de gênero. O nome da crise não é Palocci", diz um expoente do PMDB.
Wally
Senadores estranharam a ausência do líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), durante a confusa sessão que terminou somente na madrugada de ontem e na qual a oposição conseguiu derrubar a votação de duas MPs. Segundo relatos, ele estava no gabinete assistindo à classificação do Santos para a final da Libertadores.
Para avaliar
Das três MPs, só uma foi aprovada -a de interesse do principal ministro indicado pelo PMDB do Senado, Edison Lobão (Minas e Energia). Entre vários outros itens, a medida renova por mais 25 anos encargo da conta de luz.
Vírus do silêncio
Em audiência pública na Câmara, Chico Alencar (PSOL-RJ) se desculpou por sua rouquidão: "Peguei a gripe Palocci, aquela que tira a voz".
Conveniências
Ontem, a Executiva do PT deixou para discutir o caso Palocci na iminência do encerramento da reunião. E se valeu da escanteada ala mais à esquerda do partido para sepultar a divulgação de uma nota pró-ministro. Integrantes desse grupo, como Renato Simões, pediram a saída de Palocci.
Gesto
Criticada pela classe política, Dilma fez questão, ontem, de citar nominalmente grande parte dos presentes ao lançamento do Brasil Sem Miséria.
Reservado
No jantar de anteontem no Alvorada, Dilma e Ellen Gracie, que em breve pedirá aposentadoria do STF, travaram bate-papo a sós por um bom tempo.
Pasta rosa 1
Em depoimento que integra a investigação do escândalo de corrupção em Campinas, Marcelo Wegner Teixeira, segurança de um dos acusados de participação no esquema, diz que nas eleições de 2008 foram distribuídos dossiês a adversários do prefeito Dr. Hélio (PDT). Os papéis, com relatos da situação agora revelada, teriam sido enviados a Carlos Sampaio (PSDB) e Jonas Donizette (PSB).
Pasta rosa 2
Os dois negam ter recebido a encomenda. "Nunca vi isso. E, se tivesse tomado conhecimento, teria encaminhado imediatamente ao Ministério Público", diz Sampaio.
Subterrâneos
Em um dos diálogos flagrados nas escutas telefônicas, o coordenador de Comunicação da prefeitura, Francisco de Lagos, diz para a primeira-dama, Rosely Nassim -acusada de ser a coordenadora do esquema-, que recebeu a notícia dos bastidores da polícia de que havia "alguma coisa escondida no poço" da chácara dela.
Calculadora
O governo paulista sustenta que a repactuação das taxas de retorno das concessionárias de rodovias não resultará, necessariamente, em redução nos preços dos pedágios. Apesar das dificuldades operacionais detectadas para a implantação da medida, a cobrança por km rodado é uma alternativa em estudo para as estradas sob concessão.
com LETÍCIA SANDER e RANIER BRAGON
tiroteio
"Dilma bem que poderia escalar o Palocci como consultor do programa Brasil sem Miséria. Seria certeza de sucesso."
DO PRESIDENTE DO PSDB, SÉRGIO GUERRA, comentando o lançamento das iniciativas do governo para combater a pobreza extrema em meio à crise provocada pela revelação do rápido enriquecimento do ministro da Casa Civil.
contraponto
Garfo e facaEm almoço anteontem com Dilma Rousseff, os caciques do PMDB evitaram falar de cargos e de verbas federais, dois assuntos relacionados à imagem fisiológica da qual o partido procura se dissociar.
Na fila do bufê, o senador Renan Calheiros reparou na frugalidade do prato de José Sarney:
-O senhor veio até aqui para comer só isso?
Sarney pensou um pouco, e Renan emendou, rindo:
-Se eu fosse o senhor, colocava mais. Ninguém vai acreditar que o senhor saiu daqui com tão pouco...
FADI HAKURA - Secularismo no resgate da primavera árabe
Secularismo no resgate da primavera árabe
FADI HAKURA
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/11
Os governos locais não devem privilegiar uma religião em relação a outras, nem derivar seus planos de ação política de fonte religiosa em particular
A primavera chegou cedo este ano no mundo árabe. A mudança climática despertou o Oriente Médio, antes comatoso, do torpor de lideranças singulares. Uma nova aurora de democracia e liberdade está surgindo, do Marrocos a Omã. Ou, pelo menos, é isso que nos é dito.
Fazer previsões meteorológicas é um negócio arriscado. Projeções futuras podem ser tremendamente imprecisas. A despeito dos modelos sofisticados e das imagens obtidas por satélites, o deciframento de padrões meteorológicos é uma ciência inexata. Adivinhar o futuro no Oriente Médio é uma miragem não menos ilusória no calor sufocante do deserto arábico.
O pluralismo democrático nunca é uma conclusão dada de antemão.
Contestações da velha ordem não podem garantir resultados lineares. Embora Mubarak tenha virado passado no Egito, o mesmo certamente não se deu com o aparato de Estado que ele construiu. O tribalismo iemenita e líbio não vai desaparecer com uma mudança de regime.
O sectarismo sunita-xiita continuará a ser uma característica que define o Bahrein, o Iraque e o Líbano. Minorias religiosas continuarão a se ressentir da governança de partidos islâmicos, moderados ou não.
O facciosismo vai continuar a dividir a unidade palestina.
A história nos ensina que eleições livres e justas não vão, por si sós, curar as divisões acirradas presentes nas sociedades árabes. Na realidade, é provável que as exacerbem. Destituídos de sentimentos de solidariedade nacional, os interesses sectários estreitos poderão ditar padrões de voto. Está faltando uma peça crucial do quebra-cabeça.
Sem ela, os países árabes possuirão a estrutura externa da democracia, mas não instituições representativas genuínas. Essa peça crucial que falta é o secularismo, um princípio que cinge as democracias mais vibrantes -a crença na ideia de que o Estado deve existir separadamente da religião ou das crenças religiosas.
Os governos não devem privilegiar uma religião em relação a outras, nem derivar seus planos de ação política de nenhuma fonte religiosa em particular. Devem ser equidistantes de todas as religiões -ou seja, concretamente, devem ignorar as persuasões religiosas das pessoas.
Os árabes confundem secularismo com ateísmo e o interpretam como ausência de religião, em vez de liberdade religiosa. Mais danosa ainda é a vinculação do secularismo com regimes passados no Egito e na Tunísia, conhecidos por terem refreado movimentos islâmicos.
No momento em que estuda uma nova Constituição, o Egito está debatendo o papel da religião na sociedade. O artigo 2º da Constituição atual, de 1980, define o islã como a religião nacional e "fonte principal" das leis. Enquanto os cristãos coptas pedem que seja revogado, a opinião muçulmana, maioria avassaladora, é favorável a sua manutenção. Os coptas veem esse artigo como excludente e divisório.
O Centro Pew de Pesquisas oferece evidências fartas dos benefícios da separação entre religião e Estado. Em pesquisa de 2009, mostrou que as democracias seculares liberais exibem as menores restrições governamentais e hostilidade pública contra religiões minoritárias.
Quer o secularismo seja flexível, quer não, alimentá-lo no mundo árabe é um desafio difícil. A democracia secular requer transformação de culturas e mentalidades.
Não será fácil, nem mesmo nos melhores dos tempos. Mas é o único ideal que pode impedir a chegada de um inverno árabe inclemente.
VINÍCIUS TORRES FREIRE - Os "indignados" e o banqueiro
Os "indignados" e o banqueiro
VINÍCIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/11
Protesto dos "indignados" da Espanha se dispersa sem contagiar Europa, cujo futuro é decidido pela bancaALGUNS JOVENS "indignados" espanhóis fizeram manifestações simpáticas contra "tudo isso que está aí (lá)". Contra o desemprego de 40% das pessoas de até 24 anos. Contra a "corrupção". Contra a "política convencional" e os partidos dominantes: contra a opção entre os "seis" (a direita, o Partido Popular) e os "meia dúzia", os socialistas.
Os "indignados" pregavam o voto em ninguém na eleição havida faz uma dúzia de dias. Os espanhóis convencionais acabaram votando na direita, não porque o sejam, mas porque os socialistas eram o poder de turno na crise da vez.
Tal como jovens despolitizados do mundo todo gostam de alardear, o protesto "indignado" não tinha "lideranças" nem um "programa fechado". Tal como qualquer protesto sem liderança e programa (que não os tem ou não os cria), o camping dos "indignados" se dispersou como um protesto nuvem: virtual.
Domingo, há eleição em Portugal. O país viverá recessão neste ano, no próximo e talvez por muito tempo, pois quebrado e sob tutela europeia.
Não costuma haver protestos em Portugal. Espera-se abstenção grande. Um terço do eleitorado ainda não sabe se vota nos "meia dúzia" (os socialistas, que eram o poder de turno) ou nos social-democratas (a direita, os "seis"). Na falta de maioria clara e disposta a aprovar medidas que arranquem o couro da população, fala-se em "governo de união nacional".
Os governos europeus, da direita à esquerda moderadas, não têm o que dizer sobre política econômica faz quase 20 anos, e menos ainda o que fazer depois da união monetária, faz mais de uma década.
Mandam pouco nos ministros de Finanças e ainda menos no Banco Central Europeu (BCE). Temem também mexer no sistema de bem-estar social. Tal como os americanos, os europeus não sabem (ou não têm como) criar empregos, transferidos para o complexo China, problema piorado pelo engessamento das economias, de resto "competitivas" em setores de ponta, que empregam pouco e concentram renda.
Ao contrário dos "indignados" espanhóis e outros perdidos, a finança e a grande empresa europeia têm lideranças e programa. Ontem, o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, sugeriu a criação de um ministério de Finanças europeu. Isto é, um ministério para regular gastos e impostos dos governos nacionais.
Em tese e em parte, tal regulação já existe, com os limites ora estourados do Tratado de Maastricht. Mas a ideia básica agora é acabar de vez com os governos locais.
Claro, trata-se de coisa enrolada e polêmica. Na prática, os países menores já estão sob intervenção europeia, como Grécia e, em menor grau, Irlanda e Portugal. De resto, Trichet deixa o BCE em novembro. Mas seu provável sucessor, o italiano Mario Draghi, já faz salamaleques para os donos do dinheiro na Europa, a elite alemã, que tem horror de relaxamento monetário e fiscal e quer conduzir o seu quintal econômico sob rédea curta.
Os "indignados" das ruas da Espanha e os desanimados de Portugal com razão já se mostram indiferentes às trocas de governo, de "seis" por "meia dúzia". A crise, a reação da finança e da Alemanha e as propostas de unificação econômica final vão tornar a política partidária local ainda mais irrelevante, assim como o voto de seus eleitores.
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - As causas estruturais do real forte
As causas estruturais do real forte
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/11
Entrada maciça de capitais e valorização de produtos primários no exterior estão entre as causas do real forte
UMA DAS QUESTÕES mais relevantes no debate econômico atual tem sido a força do real nos mercados de câmbio. Apesar do esforço do governo, a moeda norte-americana está novamente sendo negociada abaixo de R$ 1,60.
As causas por trás do real valorizado continuam a ser as mesmas que prevalecem há vários anos: entrada maciça de capitais e valorização de produtos primários importantes nos mercados internacionais.
A diferença agora fica por conta de uma mudança na composição dos recursos que estão entrando no país: as aplicações em títulos de renda fixa estão sendo substituídas por investimentos diretos no capital de empresas brasileiras.
Muitos analistas dizem que esse fluxo de investimentos -que, nos últimos 12 meses, chegou a mais de US$ 60 bilhões- não se sustenta no médio prazo e que o real vai voltar a se desvalorizar. Para esses pessimistas, uma nova crise internacional pode ocorrer a qualquer momento e o Brasil enfrentará a fuga desses capitais. A causa mais citada para esse cenário negativo é a de crise na China, seja por questões econômicas, seja por questões políticas.
Mas outro cenário provável é que o crescimento chinês se sustente -como vem acontecendo há mais de 20 anos- e que o mundo emergente atravesse a próxima década crescendo de forma sustentada.
Nessas condições, o Brasil continuará a receber investimentos maciços, principalmente se o governo Dilma resolver trilhar o caminho das concessões de serviços públicos ao setor privado e de outras reformas.
Para um país com taxas muito baixas de poupança -privada e do governo-, a única forma de financiar os investimentos para garantir crescimento anual de 4% será a absorção de poupança externa.
Essa é uma verdade derivada da teoria econômica, e não apenas uma posição ideológica de liberais extremados. Por essa razão é que o real forte é um subproduto natural da onda de investimentos que varre nossa economia e que o governo -corretamente- quer preservar a todo custo. Ou seja, não há como fugir desse fato, a não ser reduzindo os investimentos e, mais à frente, o próprio crescimento econômico.
Outras forças externas estão agindo também na direção do real forte. A principal delas é a valorização das exportações de produtos primários e que têm garantido saldo comercial expressivo, apesar do aumento vigoroso das importações.
Outra fonte externa de demanda pelo real está relacionada com os juros baixos que devem prevalecer no mundo desenvolvido nos próximos anos. A fraqueza da recuperação econômica nos Estados Unidos e em outros países do Primeiro Mundo e o choque deflacionário que ainda virá quando tiverem de lidar com os níveis insustentáveis do endividamento público devem manter esse quadro de juros baixos por um tempo ainda bastante longo. Os mercados, aliás, especulam com um novo movimento do Federal Reserve -que se ria chamado de QE3- no sentido de manter os mercados inundados de dólares em 2012.
Nesse ambiente, os países emergentes vão continuar a receber investimentos internacionais por muitos anos, movimento que deve sustentar as cotações atuais de suas moedas. E o Brasil, que alia um grande potencial de crescimento a juros internos elevados, vai ser uma das economias de maior atração.
Finalmente, podemos observar já há algum tempo uma busca por moedas alternativas por parte dos bancos centrais de países com superavit em conta-corrente -principalmente na Ásia e os produtores de petróleo- e grandes investidores institucionais privados para compor suas reservas e carteiras de investimento de renda fixa.
A gestora de recursos Pimco, a maior do mundo, revelou recentemente que tem hoje um volume de títulos de países emergentes maior do que sua carteira de papéis do Tesouro norte-americano.
Por todas essas razões, acredito que teremos de conviver por muito tempo com o real valorizado e buscar, por outros meios, minorar seus efeitos negativos, entre eles a perda de competitividade da indústria brasileira.
WASHINGTON NOVAES - Energia nuclear agita o panorama
Energia nuclear agita o panorama
WASHINGTON NOVAES
O Estado de S.Paulo - 03/06/11
Uma informação publicada por este jornal no dia 27 de abril, num levantamento sobre energia nuclear assinado por Karina Ninni, começa a provocar fortes reações e manifestações públicas em Goiás. Já constava do levantamento que a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) estuda a possibilidade de depositar em Abadia de Goiás, a 27 quilômetros de Goiânia e a 200 de Brasília, "rejeitos radiativos de baixa e média intensidade, subprodutos de atividade radiativa" das usinas nucleares de Angra I e II. E em Abadia de Goiás já está o depósito de mais de 6 mil toneladas de resíduos contaminados pelo acidente com o césio 137 em 1987, que matou quatro pessoas e contaminou mais de mil, incluídos policiais, bombeiros (que trabalharam na remoção) e funcionários da área de saúde (que lidaram com possíveis vítimas).
A prefeitura de Abadia de Goiás está indignada. Recebe menos de R$ 20 mil por mês da Comissão Nacional de Energia Nuclear por haver, na emergência, cedido o local para remover do centro de Goiânia os resíduos. Ali um depósito foi construído, acima do solo - porque o lençol freático praticamente à superfície não permitia aprofundá-lo. E de temporário passou a definitivo, porque nenhum lugar no Brasil o aceitava - a ponto de goianos serem apedrejados em outras cidades quando as placas de seus veículos eram identificadas. Agora, sobrevém o temor de que o novo depósito não só seja definitivo, como abrigue os resíduos mais perigosos de Angra I e II, que permanecerão ativos durante séculos (e hoje estão depositados em piscinas nas próprias usinas). E até os de Angra III, porque a licença para sua implantação estabeleceu como condicionante que haja um depósito definitivo - que não existe em lugar nenhum no mundo; mesmo os Estados Unidos, que já investiram mais de US$ 100 bilhões para instalar um depósito 300 metros abaixo do solo na Serra Nevada, não conseguem liberá-lo na Justiça, que considera insuficientes as garantias.
Que fará a CNEN, já que o seu projeto é de construir mais quatro usinas nucleares no Brasil, fora Angra III, mesmo enfrentando fortes resistências? A própria usina de Angra III já é vista com ressalvas claras pelo cientista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e um dos coordenadores da área do clima no País, que, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, afirmou que a sua localização deveria ser revista, uma vez que os cientistas apontam evidências claras de elevação do nível do mar no litoral fluminense.
Talvez se argumente que para o depósito projetado iriam apenas "filtros, resinas, água e equipamentos de proteção pessoal com contaminação de média intensidade", que serão transportados em caminhões (!). Mas há uma resolução do Conselho Estadual de Meio Ambiente goiano que, segundo o presidente da Agência Municipal de Goiânia, Clarismino Pereira Júnior, "impede a transformação do depósito de Abadia de Goiás em repositório nacional" (O Popular, 21/5). Outro temor é de que receba os resíduos mais perigosos de Angra, inclusive de Angra III - embora este projeto esteja com problemas, pois o financiamento para os equipamentos da usina parece ameaçado (O Globo, 6/5).
Essas pressões são parte de uma tendência mundial após o desastre de Fukushima, no Japão: 54% das pessoas ouvidas em muitos países pelo instituto Global WIN manifestaram-se contra a energia nuclear - 90% na Áustria, 89% na Grécia, 75% na Itália, 64% na Alemanha. E 54% no Brasil (Estado, 19/4). A conceituada revista New Scientist (26/3) afirma até que a energia nuclear "precisa cortar o cordão umbilical com a área militar", embora até 2015 mais 18 usinas devam entrar em atividade, somando-se às 437 já em atividade, 50% das quais na Europa Ocidental. Mas já em 2010, diz o WorldWatch Institute em seu relatório anual, as novas fontes de energia eólica, de biomassas, de resíduos e solar, juntas, suplantaram, com 381 gigawatts, os novos projetos de usinas nucleares (375 gigawatts). O investimento para isso foi de US$ 243 bilhões.
Em 22 anos 130 usinas nucleares fecharam as portas. A Alemanha já determinou a suspensão das atividades de todas as que tenham mais de 30 anos e até 2022 deixará de usar energia nuclear (Estado, 31/5). A Bélgica e a Suíça estudam "estratégias de saída", assim como o Chile. A China suspendeu novos projetos e os Estados Unidos descartaram dois novos reatores no Texas. "As consequências de Fukushima para a indústria nuclear serão devastadoras", diz o WorldWatch Institute. Ainda mais lembrando que em 80 anos deverão estar esgotadas as reservas mundiais de urânio.
Tudo pode complicar-se mais ainda com a revelação pela empresa Tepco, de Fukushima, de que, na verdade, três dos seis reatores se derreteram - não é possível sequer levar técnicos para as proximidades da usina, tal o nível de radiação (Fukushima, como Angra, mantém os resíduos reativos em piscinas). E também com as últimas informações sobre o agravamento da crise econômica japonesa, já que o desastre nuclear levou o PIB do primeiro trimestre a cair ali 3,7% em relação ao primeiro trimestre de 2010. E para completar, em abril o mundo relembrou, 25 anos depois, o desastre de Chernobyl, que matou 31 pessoas e atingiu mais de 1 milhão. Até hoje persistem problemas, porque a cobertura construída sobre o reator danificado precisa ser substituída. E a Ucrânia não tem recursos (Agência Estado, 27/4) - a ponto de vítimas que residem nas proximidades receberem apenas US$ 4 por mês.
Como têm observado, inclusive nesta página, vários especialistas, o Brasil tem várias alternativas em matéria de energia, algumas já mais baratas que a nuclear (como a eólica, por exemplo). E pode economizar muito do que consome. Não precisa continuar atado a uma forma de energia mais cara, muito mais perigosa e sem destinação para resíduos altamente perigosos, como a nuclear.
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