domingo, janeiro 23, 2011

SERGIO AMARAL

O desafio da China
Sergio Amaral 
O Estado de S.Paulo - 23/01/11

A emergência econômica da China é uma realidade e o sinal mais forte de que caminhamos para um mundo novo, que muitos já chamam pós-ocidental. A emergência da Índia, ainda incipiente, mas igualmente relevante, reforçará o deslocamento do centro dinâmico da economia mundial para a Ásia.

Para nós a China é, ao mesmo tempo, uma oportunidade e uma ameaça. Em 2010, esse país foi o principal mercado para as exportações brasileiras e o principal investidor no Brasil. As exportações atingiram US$ 30 bilhões, enquanto as importações subiram para US$ 26 bilhões.

Mas a qualidade do intercâmbio deixa a desejar. Em 2009, os produtos básicos representaram 77% das exportações. Do lado chinês, ao contrário, mais de 95% das exportações foram de bens industrializados, que incorporam mais valor, geram mais empregos e melhores salários. A responsabilidade é, em boa medida, nossa. É o chamado "custo Brasil". Como é possível concorrer com o produto chinês, se a taxa de juros aqui é a mais alta do mundo, enquanto a da China é negativa? Quando, entre nós, a carga tributária chega perto de 40% do produto interno bruto (PIB), enquanto a deles está abaixo de 20%? Se a nossa infraestrutura é deficiente e a da China, supermoderna? Enfim, quando o real está apreciado, enquanto o yuan está desvalorizado?

Mas existem outras razões para a redução relativa das exportações industriais. Em certos setores, a China pratica a escalada tarifária, como em relação à soja. Outras vezes estabelece restrições sanitárias injustificadas, como é o caso do frango. E cada vez mais os produtos industriais brasileiros terão de enfrentar a integração das cadeias produtivas na Ásia, em decorrência das dezenas de acordos de comércio e investimentos entre a China e seus parceiros na região.

Do lado das importações, o déficit de competitividade explica em parte o deslocamento de significativos setores da economia brasileira diante de um volume crescente de mercadorias chinesas. Mas, aqui também, outros fatores precisam ser levados em conta: a aceleração das exportações da China, o seu crescente volume e, por vezes, a concorrência desleal, em consequência dos benefícios concedidos às empresas chinesas.

No ano passado a China foi também o principal investidor no Brasil, com mais de US$ 10 bilhões, o que é positivo. Mas o investimento está mudando. Não se trata mais apenas de capitais direcionados para o suprimento de commodities. Hoje a pauta dos investimentos, assim como a das exportações, se diversifica e inclui, cada vez mais, setores de alta tecnologia, como telecomunicações (Huawei) ou transmissão de energia (State Grid).

Os investimentos chineses por vezes não distinguem com clareza o público do privado. Mesmo quando a empresa é privada, a participação do governo no processo decisório e no financiamento pode ser dominante e deixa em aberto a indagação se o objetivo e o modo de operar da empresa refletem objetivos estratégicos do país ou práticas de mercado. Independentemente dessa distinção, o simples efeito dimensão do investimento suscita questões justificadas, que precisam ser avaliadas e, se for o caso, normatizadas, de modo a evitar que a decisão caso a caso gere incerteza para o investidor.

Também do lado dos investimentos brasileiros na China seria preciso maior previsibilidade. A Embraer não recebeu ainda a licença para produzir um avião de maior porte na China. Outras empresas, como a BR Foods, que abriu um escritório em Xangai, poderão perguntar-se se obterão a necessária autorização quando resolverem agregar mais valor às suas exportações ou produzir na China produtos de mais alto teor de processamento.

O desafio da China, assim, não está apenas na peculiaridade e no vulto de seus investimentos ou no volume crescente de produtos importados a um preço substancialmente mais baixo que o do similar nacional. Está em saber lidar, tanto ao nível da empresa quanto do governo, com uma realidade que é nova, diferente e se apresenta como as duas faces de uma mesma moeda: uma promissora, a outra inquietante. Esta realidade não pode ser tratada como business as usual.

Os desafios novos da parceria com a China suscitam algumas reflexões e iniciativas:

Coordenação. A condução do intercâmbio foi corretamente colocada num nível elevado, vice-presidente da República e seu equivalente na China. No plano operacional, no entanto, visões legitimamente diferenciadas entre Ministérios e órgãos de governo tornam mais difícil a convergência de posições, um acompanhamento abrangente dos negócios e a fixação de prioridades para a ação.

Articulação. Também no setor empresarial se manifestam diferenças naturais entre os que priorizam as oportunidades e os que temem as ameaças. É preciso conciliar essas duas perspectivas, inclusive de modo a levar ao governo uma visão convergente, que contribua para uma ação concertada.

A parceria das empresas com o Itamaraty e a Apex tem ensejado ações importantes de promoção comercial. Mas se o objetivo é, como deveria ser, a agregação de valor às exportações, outros órgãos do governo - como o BNDES - teriam uma contribuição a aportar.

Uso adequado dos mecanismos de defesa comercial.

Maior clareza sobre os procedimentos e normas relativos ao comércio e ao investimento, de modo a assegurar maior previsibilidade aos agentes econômicos.

Ampliação do intercâmbio cultural e educativo, de modo a suprir a lacuna de conhecimento recíproco.

A visita da presidente Dilma Rousseff à China, no correr do ano, será uma oportunidade valiosa para entendimentos entre os dois governos que venham a facilitar e impulsionar o intercâmbio econômico, em conformidade com os objetivos fixados no Plano de Ação Conjunta de 2010.

PRESIDENTE DO CONSELHO EMPRESARIAL BRASIL-CHINA, É COORDENADOR DOS CONSELHOS SUPERIORES DA FIESP

GOSTOSA

ALON FEUERWERKER

Sem espírito de patota
Alon Feuerwerker
CORREIO BRAZILIENSE - 23/01/11


A revolução educacional brasileira pede foco absoluto no aluno e no aprendizado deste, que deve subordinar as demais variáveis. Inclusive as sindicais
Talvez o último grande salto adiante na educação brasileira tenha acontecido com o ministro Paulo Renato, no governo Fernando Henrique. Ali universalizou-se o ensino fundamental. Restou, entretanto, o desafio da qualidade. Nossas crianças estão nas escolas, mas as públicas ainda não são boas. Para ser elegante.

O governo do PT promoveu avanços importantes. Vitaminou o antigo Fundef, que melhorava a renda dos professores, mas por não querer dividir o mérito com quem tinha trabalhado antes mudou o nome para Fundeb. Coisas da pequena política.

O PT também carrega o mérito de ter criado o Prouni, mecanismo compensatório para o jovem de origem popular não suficientemente competitivo para conseguir vaga no ensino superior público. Seria injusto concluir que o PT se preocupa de menos com a qualidade do ensino público fundamental e médio, esse nó górdio à espera de ser decepado. Mais provável é que o petismo ainda não tenha reunido as necessárias condições políticas para o upgrade.

E por uma razão simples. A revolução educacional brasileira pede foco absoluto no aluno e no aprendizado deste, que deve subordinar as demais variáveis. Inclusive as sindicais.

Uma reportagem de Luciano Máximo no Valor Econômico deste fim de semana aponta o crescimento do número de estados brasileiros propensos a adotar políticas de remuneração variável. Ganha mais o professor ou funcionário da escola onde as crianças e jovens demonstram que aprenderam mais. Simples.

O assunto andou frequentando a última campanha presidencial, por causa da oposição cerrada do sindicalismo paulista de professores a um plano com essas características implementado pelo governador de São Paulo, José Serra, do
PSDB. O PT, naturalmente, tratou de pegar uma carona.

A mesma ideia foi implantada em Pernambuco, mas como ali o governador Eduardo Campos (PSB) está aliado ao PT, o sindicalismo ficou sem suporte político, ficou a ver navios. Ninguém de peso no petismo se compadeceu.

Em Pernambuco, por sinal, os pais podem hoje em dia controlar pela internet se os professores de seus filhos foram dar aula e como deram aula. Um belo "controle externo" da atividade didática.

Recorde-se que o reeleito Eduardo Campos foi o candidato a governador proporcionalmente mais votado no ano passado.

A coragem de enfrentar os lobbies corporativos quando está em jogo o interesse público costuma dar dividendos, mesmo se o resultado imediato parece ser desgaste.

A trajetória de vida do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é bom exemplo de que uma origem pobre não necessariamente significa a condenação social. Cabe às políticas públicas dar uma mãozinha às estatísticas.

A proporção de recém-nascidos inteligentes e capazes não é diferente nos ricos e nos pobres. A diferença está nas oportunidades oferecidas às crianças.

Mesmo os distintos patamares de estímulo intelectual no ambiente familiar podem ser razoavelmente equalizados por uma escola excelente, ainda mais com a disseminação maciça da internet.

É útil haver sistemas de avaliação cada vez mais sofisticados, mas eles não são um fim em si. Comparando, seria como se numa epidemia de malária as autoridades estivessem concentradas em aumentar a fabricação de termômetros para medir a febre dos pacientes, em vez de colocar todas as energias na cura dos doentes.

A educação pública para nossas crianças e jovens antes da universidade ressente-se também de outro detalhe. Os herdeiros da elite estão na escola particular. A regra aplica-se aos filhos e netos de presidentes, governadores, ministros, secretários de educação, parlamentares, empresários, fazendeiros, juízes, promotores e - por que não? - jornalistas. Inclusive os especializados.

É como nas tragédias de origem natural (ou de origem na ação do homem sobre a natureza). Quando só os pobres morrem, ou perdem a casa e a família, a repercussão é uma. Quando morre também gente "da alta", ou famosa, é outra. Bem maior.
Ajudam aqui as cicatrizes que carregamos de quatro séculos de escravidão. Se não houvesse a alternativa da escola particular, se os filhos e netos da elite só tivessem a opção da escola pública, certamente as políticas educacionais não estariam atoladas no blá-blá-blá, no corporativismo e no espírito de patota dos especialistas.

CELSO MING

É um rio de dólares
Celso Ming 
O Estado de S.Paulo - 23/01/11

Apenas nas três primeiras semanas do ano, as empresas brasileiras captaram no exterior US$ 10,3 bilhões. E mais operações desse tipo estão sendo engatilhadas.

O Ministério da Fazenda enfia um IOF de 6% e outras trancas para evitar a entrada de US$ 2 bilhões ou US$ 3 bilhões mensais de capitais interessados em morder a diferença de juros e, no entanto, até aplaude a entrada de capitais 3 a 5 vezes mais caudalosos que também produzem estragos no câmbio.

Isso é retirar um cisco do olho e deixar lá um cavaco inteiro. O ministro Mantega reconhece que a instituição do IOF não está sendo suficiente para segurar o dólar. Mas argumenta de forma duvidosa: se não fosse o IOF de 6% sobre a entrada de capitais destinados à renda fixa, diz ele, a cotação do dólar teria desabado ainda mais. Vá saber...

Pode-se argumentar o contrário. Se é especulativo, esse capital entra, tira proveito do que tem de tirar e logo vai embora. Nessa trajetória, o tanto de valorização do real que produz na entrada, desfaz logo depois, na saída. Enfim, não serão intervenções casuístas que evitarão a indesejada valorização do real.

Também não se pode impedir que as empresas brasileiras se abasteçam no mercado internacional de crédito. A hora é de aproveitar a enorme liquidez existente lá fora e a boa percepção que o credor tem sobre a economia do Brasil. A Petrobrás não acaba de puxar para dentro US$ 20 bilhões obtidos com a subscrição de ações novas? Pois isso é uma canequinha comparada com os US$ 220 bilhões de que necessitará até 2014 para desenvolver os projetos do pré-sal. De muito mais precisarão para tocar seus investimentos e reforçar seu capital de giro não só a Petrobrás, mas grande parte das 100 maiores empresas brasileiras.

A pletora de capitais demandada pelo setor produtivo brasileiro é impressionante. Há o pré-sal já mencionado e tudo o que vem com ele, em produção de sondas, navios, oleodutos, etc. Tem os projetos da Copa do Mundo, da Olimpíada, o trem-bala, as hidrelétricas, o resto do PAC. O afluxo de capitais tende a ser gigantesco. Não dá para conter a avalanche com rodo e pano de chão do ministro Mantega.

A enorme diferença entre os juros internos e externos é mesmo um problema. Não só pela forte entrada de capitais que proporciona, mas também pela enormidade que segura no País. Está claro que é preciso derrubar corajosamente os juros. Mas, para isso, é preciso que o ministro leve a sério o roteiro que ele mesmo traçou no início de janeiro: "É garantir austeridade nas contas públicas para abrir espaço para a queda dos juros". Por enquanto, além da retórica, nada aconteceu.

Apenas a derrubada dos juros não será suficiente para conter o afluxo de moeda estrangeira, especialmente se o governo está dividido entre estimular sua entrada e, ao mesmo tempo, restringi-la. O Brasil vai escalar as tabelas de classificação de risco e, à medida que crescer no mundo a percepção de que é uma economia com enormes perspectivas, mais capitais afluirão para cá.

Para assegurar competitividade para o produto brasileiro numa paisagem nítida de valorização do real, sobra para o governo Dilma ação vigorosa destinada a baixar o custo Brasil. O roteiro é conhecido: além da derrubada dos juros, vai ser preciso reduzir a carga tributária, construir uma infraestrutura confiável, dar eficiência ao Judiciário e fazer as reformas que há anos estão paradas.

Cadê a oposição?
Até agora ninguém conseguiu ouvir contestação às políticas praticadas pelo governo. A oposição não atua e não tem discurso, provavelmente também porque não tem opinião formada sobre nada. As únicas cascas de banana que aparecem no caminho de Dilma estão sendo atiradas pela sua própria base política.

VELHA E ATUAL

CLÓVIS ROSSI

O resgate da elite
CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/01/11


ESTRASBURGO- O leitor Heli Roberto da Silva escreve para descrever a reação de sua filha de 18 anos quando Fátima Bernardes anunciou, no "Jornal Nacional" do dia 14, que "os alunos que moram nas cidades do Estado do Rio afetadas pela enchentes poderão se inscrever no Sisu acessando em lan house, de graça".
A reação da filha: "pai, esse povo [o do governo] tá brincando. Acessar internet em lan house como, se em algumas cidades a energia elétrica nem foi totalmente restabelecida, os telefones funcionam precariamente e a pessoas de lá têm, no momento, outras prioridades?".
Comentário do pai, técnico em contabilidade de 46, morador de Formiga (MG): "Noto com preocupação o descrédito das autoridades políticas. A sociedade não acredita mais na mediação política entre ela e os meios de solução dos problemas que a afligem. Há uma tendência crescente e, quem sabe, até majoritária de que sozinhos resolveremos nossas mazelas e carências".
Heli lembra "o protagonismo assumido pelos voluntários nos trabalhos de socorro, resgate e assistências às vítimas da catástrofe da região serrana do Rio", o que, acha ele, "é o exemplo acabado e eloquente de que o Estado brasileiro, se é que um dia existiu, está falido, despreparado, mal gerido, incapaz de reagir rapidamente a uma situação extrema".
O leitor passa a resgatar o sentido de "elite" e lamenta que "a esquerda tenha amaldiçoado e deturpado o vocábulo, a ponto de transformá-lo em anátema. Pergunta Heli: "Se elite é o melhor que uma sociedade ou um grupo é capaz de produzir, onde está nossa elite? Por que os melhores não se sentem atraídos para o serviço público? É ela quem deve nos representar, nos conduzir, apontar caminhos e discutir soluções, liderar o debate, os grandes temas. Está faltando política".
Tem razão, Heli. Está faltando política e está sobrando politicalha. O mundo político, quintessência da elite, está a serviço dele próprio.

VINICIUS TORRES FREIRE

Mágicas e milagres de Dilma
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/01/11
Será difícil para governo poupar o que propôs em 2011; plano fiscal de médio prazo é o mais importante


QUASE TODO mundo versado em aritmética dá de barato que o governo federal não deve cumprir a meta de poupança de despesas em 2011, o chamado superavit fiscal primário (receitas menos despesas, excluídas despesas com juros). Ainda assim, não é grande a descrença de que haverá contenção grande de gastos, o que pelo menos vai reduzir a contribuição do governo a uma demanda já por demais aquecida. Além do mais, a dívida pública, considerada em relação ao PIB, deve continuar a cair, embora devagarzinho.
Então, qual é o problema?
Antes de mais nada, note-se que não é bom ter de fazer apertos num ano apenas. O governo vai ter de fazer mágicas e milagres para conter as despesas de modo a atingir até um superavit de 2,5% do PIB, abaixo da meta de 3% do PIB -a estimativa de dificuldades para atingir os 2,5% é do economista Mauricio Oreng, do Itaú, em estudo detalhado a respeito dos problemas fiscais de 2011. Quando há mágicas e milagres, a qualidade do gasto cai. Programas e investimentos por vezes são interrompidos ou atrasados.
Por que vai ser difícil atingir a meta de superavit? Segundo Oreng:
1) a arrecadação do governo federal não vai subir tanto em relação ao PIB quanto o estimado no Orçamento (será menor a "elasticidade-PIB" da arrecadação). Segundo os economistas do Itaú, para cada aumento de 1 do PIB, a receita deve crescer 1,4, e não 1,9, como o estimado no Orçamento. No ano passado, por exemplo, o PIB deve ter crescido 7,6%; a receita cresceu 9,85% (a elasticidade foi de 1,3). Essa deve ser a tendência nos próximos anos;
2) a economia deve crescer menos (4,3%) do que o previsto no Orçamento (5,5%) -é uma estimativa mais incerta, mas em termos de Orçamento é melhor ser conservador;
3) as receitas não tributárias não devem ser tão altas. Etc.
O aumento do gasto previsto pelo Congresso é muito alto: 11,6%, maior mesmo que o da liberalidade de 2009 e de 2010 (9,5%), de política fiscal (gastos públicos) "anticíclica" (com o fim de evitar recessão, que, aliás, acabou em 2009).
Dados esses pressupostos, Oreng estima que o governo precise evitar gastos de R$ 83 bilhões (contigenciando gastos previstos no mais uma vez fictício Orçamento; transferindo despesas para 2011. Em suma, não gastando quase nada a mais que em 2010). É um "corte" de 2% do PIB, o equivalente a 38% de todas as despesas "livres" (discricionárias) do governo. Entre 2003 e 2010, a média do "congelamento" de gastos foi de 15%. No duro ano de 2003, o de estreia de Lula e de crise feia, a contenção foi de 21%. Há outros empecilhos, mas o grosso do problema está aí.
Oreng diz que o governo dá sinais de se esforçar para dar conta do recado, esforço, porém, infrutífero (considerada a meta oficial). Mas a questão maior não é essa. Como diz o estudo, "...o problema provavelmente não deve ser resolvido em apenas um ano". O crescimento da receita de impostos deve aos poucos convergir para o crescimento do PIB (não será possível mais fazer "ajustes" com receitas extras); faz tempo não é mais conveniente aumentar impostos, já altos demais. Ou seja, mais do que acertar os décimos da meta deste ano, o problema mesmo é conceber um plano de médio prazo que faça o Estado caber eficientemente no tamanho da economia.

GOSTOSA

ELIO GASPARI

Livro ensina como Mark virou Zuckerberg
ELIO GASPARI

O GLOBO - 23/01/11

Sem o charme do filme "A Rede Social", "Efeito Facebook" é aula de administração de negócio


DENTRO DE POUCAS semanas chegará às livrarias brasileiras "O Efeito Facebook", do jornalista David Kirkpatrick. É a história do fenômeno criado por Mark Zuckerberg. Para quem viu "A Rede Social" ou leu "Bilionários por Acaso", explica o que fez daquele garoto avoado e mal vestido um dos homens mais ricos do mundo.
Em sete anos, sua rede, nascida num dormitório de Harvard, juntou 500 milhões de usuários ativos, emprega 1.400 pessoas e vale US$ 50 bilhões. É uma aula.
"Efeito Facebook" evitou os adornos folclóricos (ainda que reais) do filme e não centralizou a narrativa na briga com os gêmeos Winklevoss, que acusam Zuckerberg de lhes ter roubado a ideia, nem na disputa com o brasileiro Eduardo Saverin, que foi afastado da gerência comercial do empreendimento, com US$ 2,5 bilhões no bolso. Kirkpatrick, ex-editor da revista "Fortune", entrevistou Zuckerberg, mas não falou com os gêmeos nem com Saverin.
Seu livro ajuda a buscar resposta para uma pergunta: o que é que transformou Mark Zuckerberg em Mark Zuckerberg?
Hipótese: como Bill Gates, Sergey Brin e Larry Page (a dupla do Google), ele inventou uma novidade genial, e o resto veio junto.
Falso, tanto no caso dele como no dos outros três. Todos tiveram boas ideias, mas não inventaram nada. O sucesso do Facebook, como o da Microsoft e o do Google, é produto de alguma sorte, uma ideia simples obsessivamente aperfeiçoada, e muito trabalho.
Zuckerberg ralou. Quando foi aceito em Harvard, tinha um currículo de aluno excepcional.
Em 2003, aos 19 anos, fazia um bico no David Rockefeller Center for Latin American Studies, programando o acesso on-line de candidatos às bolsas de Jorge Paulo Lemann e conectando impressoras encrencadas.
No ano seguinte, criou uma rede social exclusiva para estudantes, professores e funcionários de Harvard, um dos maiores símbolos da elite americana. Em três semanas, juntou 6.000 usuários.
Depois, expandiu-se para outras escolas, todas selecionadas pela fama. Nascera um produto da elite, para a elite e pela elite. Coco Chanel fez o mesmo com o seu "nº 5", nos anos 20.
Essa é a parte saborosa da história, mas Zuckerberg virou Zuckerberg por decisões muito mais relevantes. Cinco delas:
1) Quando o negócio mal começara, botou a sociedade no papel e ficou com 65% da empresa. Até hoje ele controla a companhia, dominando o Conselho de Administração. (Steve Jobs não fez o mesmo na Apple e foi defenestrado em 1985, retornando 11 anos depois.)
2) Diante do sucesso, percebeu que devia cuidar de Sua Excelência, o Usuário. Até bem pouco tempo, todo o dinheiro que conseguiu foi investido no aluguel de servidores para a rede, impedindo que o sucesso a congestionasse.
3) Ele calibrou a expansão do negócio e obrigou os anunciantes a se adaptar aos seus critérios de sociabilidade. Com isso, está revolucionando o mercado.
4) Quando poderia acreditar que o Facebook estava pronto, foi adiante. Cruzou as informações dos usuários, abriu o site para fotos e hospedou aplicativos. Seguiu a escrita segundo a qual, na internet, tudo o que é aberto, grátis (ou barato), prospera. Quem quer abarcar o mundo fica para trás. (Por exemplo, a Microsoft e, quem sabe, a Apple daqui a muitos anos.)
5) Zuckerberger teve fé no próprio taco. Recusou US$ 10 milhões quando o site não completara um ano e, mais tarde, não o vendeu por US$ 800 milhões para o Yahoo!, nem por US$ 1,5 bilhão para a Viacom. Mais: afastou-se dos executivos que preferiam vender a empresa.
"Efeito Facebook" não ensina como virar Zuckerberg, mas mostra como o segredo está mais no trabalho e na firmeza do que na genialidade. No entanto, que o moço é esquisito, não há dúvida. Quando sua namorada reclamou da sua falta de atenção, contratou que passariam cem minutos semanais a sós, e teriam ao menos um encontro fora da empresa ou da casa dele.

Serviço: Para quem compra e-books, a edição americana de "The Facebook Effect" está na internet por US$ 12,99.

CARTÃO SUS
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, espantou um urubu que havia pousado no projeto do Cartão SUS. Os governos tucano e petista já queimaram R$ 400 milhões nessa iniciativa, para nada.
Uma minuta de portaria preparada por sábios do ministério ao apagar das luzes da administração passada definiu critérios para as especificações da alma da iniciativa, o software que gerenciará os dados do cartão.
Era apenas uma minuta, mas carregava um truque e um perigo. No truque, permitia que a discussão do assunto passasse ao largo do Conselho Nacional de Saúde. O perigo estava na possibilidade de se decidir a compra do software sem licitação pública.
Padilha informa que o assunto irá ao conselho, bem como a audiência pública, e nada será contratado sem licitação pública.

ARAGUAIA
O ministro Nelson Jobim pode ter prestado uma grande ajuda para a descoberta do que sucedeu a alguns desaparecidos da Guerrilha do Araguaia. Ele pediu que se investigue se cinco deles estão vivos.
Quem não está vivo, morto está e, para provar isso, só uma investigação da Polícia Federal. Tome-se o caso de Aurea Elisa Valadão, ex-estudante de física da UFRJ.
Conhece-se um depoimento segundo o qual ela foi presa pelo mateiro Adalberto Virgulino: "O orocóptero baixou e levou ela". Cinco pessoas viram-na presa. Dois eram soldados. Tinha 24 anos.
É só puxar o fio da meada. Na outra ponta, estará o mecanismo do extermínio.

CAVERNA DE BATMAN
A doutora Dilma precisa mandar alguém cuidar da iluminação da sala em que faz as reuniões do seu comissariado.
Do jeito que está, parece o conselho de ministros da falecida Alemanha Oriental.

PROPOSTA
Um curioso garante que tem uma fórmula para acabar com os desastres provocados pelas chuvas, a custo zero.
Bastaria uma emenda constitucional que transferisse todas as eleições municipais e estaduais, majoritárias e proporcionais, para o dia 2 de abril, com o verão terminado e o período das chuvas deixado para trás.
Com o maçarico na nuca, governadores e prefeitos tomariam jeito.

JULIO VERNE
Paira sobre o ministro da Tecnologia, Aloizio Mercadante, o espírito de Julio Verne, genial mestre da ficção científica.
Ainda não completou um mês no cargo e já propôs:
1) Um laboratório de pesquisas oceânicas em alto mar.
2) Um banco de fomento para a pesquisa científica.
3) A montagem de uma rede de pluviômetros, radares meteorológicos e unidades de captação de dados transmitidos por satélites.
No mundo dos fatos, o ministro reconheceu que o decreto de 2005, que criou um sistema de alerta e prevenção de desastres, ficou no papel.
A Prefeitura do Rio comprará um radar que custará US$ 2 milhões, mais R$ 400 mil para a instalação e R$ 25 mil mensais para a manutenção.
Pelo que os governos federal e estaduais anunciam, vêm aí encomendas de centenas de milhões de dólares para se descobrir que em janeiro chove.
As chuvas de Friburgo, onde morreram 361 pessoas, começaram em novembro. No primeiro dia da tragédia, o radar informou que a tempestade estava a caminho. Fizeram o quê?
Como disse Luiz Antônio Barreto de Castro, que até outro dia ocupou a Secretaria de Políticas e Programas do ministério onde está Mercadante: "Falamos muito e não fizemos nada".

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Rápido no gatilho
RANIER BRAGON - interino
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/01/11

Nos primeiros 21 dias de governo, o ministro Alfredo Nascimento (Transportes) repassou ao seu reduto eleitoral, o Amazonas, 74% de tudo o que foi pago pela pasta, via convênios, no período. Candidato derrotado ao governo nas eleições de 2010, Nascimento liberou R$ 37,5 milhões para a construção de terminais hidroviários e de estradas.
Além do Amazonas, apenas Mato Grosso e Mato Grosso do Sul receberam verbas de convênios em 2011. Procurado, o ministério disse que os dados são uma mera coincidência e que cada Estado recebe os recursos conforme o ritmo em que executa a obra.

Memória 
No governo Lula, Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) privilegiou a Bahia com dinheiro para prevenção de enchentes, o que rendeu polêmica.

O retorno
 
Mangabeira Unger, ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, voltará a ter funções na pasta: aceitou convite de Moreira Franco e trabalhará na conclusão da elaboração de programa sustentável para Amazônia, Nordeste e Centro-Oeste. A tarefa não será remunerada, dizem eles.

Sobras... 
Após ficar em sétimo na disputa presidencial, o nanico Levy Fidelix (PRTB) desapareceu do holofote que a lei eleitoral lhe conferia, mas sua assessoria continua ativa. O último comunicado traz declaração dele assegurando que as legendas nanicas darão a Marco Maia (PT-RS) os votos "decisivos" na eleição à presidência da Câmara.

...de campanha 
Só que o petista caminha para ser candidato único, com apoio de todos os grandes partidos.

Cintilante 
Em nota anterior, a assessoria de Fidelix conta que ele se encontrou com Fernando Pimentel (Desenvolvimento) e lhe sugeriu a criação do "Ministério da Emergência e Calamidade". O ministro, diz o texto, teria achado a ideia "brilhante".

Biodiversidade 
Tarso Genro acaba de criar um conselhão para orientar seu governo no Rio Grande do Sul, com 80 membros. O da Presidência tem 86. Entre os convidados estão a ginasta Daiane dos Santos, o ator Werner Schünemann e o empresário André Gerdau Johannpeter.

Regra 3 
A Mensagem ao Partido, tendência interna do PT que indicou José Eduardo Cardozo para a secretaria-geral da legenda, agora quer emplacar o gaúcho Henrique Fontana no cargo. Cardozo, por ter assumido o Ministério da Justiça, terá de deixar a vaga.

Highlander 
O site oficial da campanha de Dilma -dilma13.com.br- segue no ar, atualizado com notícias do início de governo.

Recuperação 
O foco inicial da consultoria de Vicente Falconi a Geraldo Alckmin será a educação. O guru do "choque de gestão" de Aécio Neves em Minas tratará da revisão da política de metas e das promoções por mérito na rede pública de SP.

Arquibancada 
Em outra inusitada frente para estimular o rendimento escolar, o governo paulista também quer levar os alunos que obtiverem notas altas na rede estadual para assistir a jogos de futebol dos clubes paulistas, com assento em área vip.

Veraneio 
Apesar de decretar ponto facultativo amanhã nas repartições estaduais por causa do feriado de aniversário da capital na terça, Alckmin frustrou os planos de folga prolongada de sua equipe. Convocou vários secretários para maratona de audiências no Bandeirantes.

com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

Tiroteio
"Se o Álvaro Dias continuar assim, a maior aposentadoria que receberá será das urnas."
DO DEPUTADO FEDERAL DOUTOR ROSINHA (PT-PR), sobre pedido do tucano para receber R$ 1,6 milhão referente a aposentadoria retroativa como governador do Paraná. Após a notícia vir à tona, Dias disse que fez o pedido com planos de doar o dinheiro à caridade.

Contraponto

Cá entre nós
Na biografia que escreveu de Rubem Braga (1913-1990), Marco Antonio de Carvalho relata viagem que o escritor fez em 1960 a Cuba, na comitiva do então candidato à Presidência Jânio Quadros (1917-1992). Na página 414 de "Um Cigano Fazendeiro do Ar (editora Globo), ele diz que na volta Quadros foi pedir apoio ao presidente venezuelano Rómulo Betancourt à ideia de intermediar um acordo entre Fidel Castro e John Kennedy. Betancourt teria reagido assim:
-Veja, Quadros, este Castro é um revolucionário. Não é um demagogo como você e eu!

O FUTURO DO BRAZIU

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Assange do Planalto
SONIA RACY
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/01/11

Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores, está trancafiado no Rio dedicando-se a livro sobre seus anos de governo Lula.
E tem dito a interlocutores que trará revelações tão ou mais bombásticas que as do site WikiLeaks.

Mamma mia
Lu Alckmin não pensa em outra coisa: Escola Dona Renata. De olho na Copa, o programa do Fundo de Solidariedade formará profissionais em hotelaria e gastronomia para atender a mega demanda do evento. Mas, quem é Renata? A sogra de Geraldo Alckmin.

Valise
José Sergio Gabrielli, da Petrobras, está de malas prontas para o Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça. Debate na sexta o papel das empresas que buscam competitividade e, ao mesmo tempo, melhoraram as condições das comunidades onde atuam.

Pamonha
Está todo mundo tentando aprender coreano em Piracicaba. Ecos da instalação da Hyundai na cidade. Restaurantes típicos e agências de viagens já atendem clientela no idioma. E, atento aos negócios que 6 mil imigrantes devem fomentar por lá, o escritório Demarest e Almeida Advogados também se movimenta para abrir filial.

ApetiteConsiderada a dona do melhor caviar do mundo, a francesa Petrossian abrirá um pequeno restaurante para degustações em SP em março. Dentro da loja que inaugurará no Shopping Cidade Jardim. Depois de tantos pedidos da clientela, Nórea de Vitto e seu sócio há 21 anos, Beto Galvez, resolveram criar linha exclusiva de objetos decorativos. A Butik reúne cartela que vai de abajures a espelhos. Tudo vendido desde o fim do ano passado na conceito: firmacasa, em SP. "Começamos a produzir por uma única razão: nem sempre encontrávamos no mercado absolutamente tudo que gostaríamos de usar", conta ela. E a designer aposta na mistura de materiais. Não descarta quase nada: latão, couro, pedras, couro, acrílico e peles.

Responsabilidade social
A Porto Seguro dá exemplo de solidariedade. Disponibilizou frota de guinchos para ajudar nos resgates da região serrana do Rio. A Defesa Civil agradece.

A Fiat também recolhe produtos de primeira necessidade junto a seus empregados. Enviará 5 mil cestas básicas para as regiões atingidas e ambulâncias Fiorino.

A Fundação ArcelorMittal Brasil e a Belgo Bekaert Arames fizeram as contas. Entregaram 222 óculos a estudantes da rede pública de Osasco em 2010.

Em comemoração ao aniversário da cidade, a Braskem entregou 500 lixeiras e floreiras para SP. Fabricadas a partir de resíduos plásticos recolhidos no GP de Fórmula 1.

Abre, terça-feira, a mostra Juneca - Um Nome que Virou Arte, sobre o ícone do grafite nos anos 80 Osvaldo Junior. A entrada será a doação de um quilo de alimento para as vítimas do Rio. No nBOX.

A Fundação Volkswagen decidiu. Estenderá este ano três projetos educacionais do Território Escola. Chegarão a 120 os municípios beneficiados com capacitação para professores do ensino infantil e fundamental da rede pública.

Valéria Baracat e Celyta Jackson fazem versão para o inglês da cartilha de prevenção ao câncer de mama do Instituto Arte de Viver Bem. A ideia é lançá-lo em NY.

Representantes do Instituto C&A, que este ano completa 20 anos, desembarcam hoje em Cingapura. Vão expor suas iniciativas de voluntariado empresarial em duas conferências do setor.

MARCO TULIO ZANINI

Sem projeto, país vive apagão de talentos
MARCO TULIO ZANINI
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/01/11


Profissionais são despreparados para a nova empresa, que exige trabalhador que pense com liberdade e autonomia

Tarefa de capacitar gestores que saibam enfrentar os desafios impostos por novas formas de produção de valor deve ser uma ação de continuidade

Aparentemente, o fato de o governo buscar facilitar a entrada do capital intelectual estrangeiro para atender as demandas internas do país pode nos parecer que se trata somente de um sinal do vigor atual da nossa economia.
Isso procederia, não fosse pelo fato de essa necessidade sinalizar muito mais a falta histórica de um projeto de país que tenha considerado a educação como fator-chave para a formação de especialistas em várias áreas do conhecimento, que hoje são tão necessários.
Primeiramente, devemos nos questionar se, de fato, estamos capturando os melhores cérebros lá fora.
Economias mais competitivas promovem a caça dos cérebros mais brilhantes para alavancar a inovação. Sabemos que, geralmente, não é esse o processo que está acontecendo no Brasil.
Estamos precisando de pessoas com boa formação superior para trabalhar, muitas vezes, em indústrias de baixo valor agregado.
O que mais nos impressiona é que, tantos anos depois de Paulo Freire ter denunciado os ameaçadores defeitos do nosso modelo autoritário de educação, tenhamos feito tão pouco progresso em remover esses entraves.
Somada a nossa contemporânea complacência em relação a uma educação baseada em valores, temos formado profissionais com perfil bastante inadequado para as demandas das empresas contemporâneas.
Salvo honrosas exceções, temos formado legiões de alunos despreparados para o desafio daquilo que se convencionou chamar de Capitalismo do Conhecimento.
Mais do que conteúdos, a nova empresa precisa de profissionais capazes de pensar com liberdade e autonomia.
De se autogerenciar para entregar resultados complexos em cenários imprevisíveis.
A nossa experiência em consultoria nos permite dizer que vivemos algo semelhante a um apagão de talentos.
A falta de um projeto educacional atrelado a um projeto de país que contemple a educação como fator estratégico para o desenvolvimento sustentável da nação nos coloca em forte desvantagem ante outros países, especialmente os asiáticos como a China e a Índia, que estão sabendo colocar na educação o seu projeto de futuro.
Contribuem para essa desvantagem a ausência de valores de produtividade do trabalho e a falta de disseminação da ideia de que a escola precisa ser comunidade de excelência, em que cada indivíduo importa pela capacidade de contribuir com seu talento e fazer a diferença.
A tarefa de capacitar gestores que saibam enfrentar os desafios impostos por novas formas de produção de valor, por meio da aplicação intensiva do conhecimento e de engenheiros e demais profissionais de formação técnica aplicada, deve ser entendida como uma ação de continuidade.
Isso deve ser viabilizado via um projeto educacional que tem o seu início na escola primária, quando os valores que orientam os indivíduos estão sendo sedimentados.
MARCO TULIO ZANINI é consultor de empresas e coordenador do mestrado executivo em Gestão Empresarial da Ebape-FGV.

GOSTOSA

VERISSIMO

A doutrina do choque
VERISSIMO

O GLOBO - 23/01/11

A canadense Naomi Klein ficou conhecida com o livro No Logo, em que ela criticava a globalização e a rapinagem, pelo consumismo, do capitalismo sem fronteiras. No seu livro novo The Shock Doctrine, a doutrina do choque, ela sustenta que o capital internacional aproveita, quando não promove, o caos e a catástrofe para avançar políticas de mercado e o fundamentalismo neo-liberal. Seus exemplos mais recentes , entre outros, são a invasão do Iraque – cujas primeiras ações  foram batizadas pelo Pentágono de Operação Choque e Espanto – que abriu caminho para empresas americanas dominarem setores como o da segurança privada no país e as grandes petroleiras garantirem seus suprimentos; a “guerra” das Malvinas, que deu força e prestígio interno para a Margaret Thatcher completar sua revolução liberal na Inglaterra; o ataque ao World Trade Center, que justificou todos os excessos nas políticas interna e externa do Bush, inclusive a invasão do Iraque, e teve como benefício colateral o enriquecimento de empresas como a Halliburton, notoriamente ligada ao governo; as inundações causadas pelo furacão Katrina em Nova Orleans e pelos tsunamis na Ásia, nos dois casos, segundo Naomi, propiciando “novos começos” que favorecem mais interesses empresariais do que as populações atingidas. A autora também inclui o golpe contra Allende no Chile, a queda da União Soviética e o Massacre da Praça Tiananmem como exemplos de choques bem aproveitados pela doutrina, e não deixa de citar o Brasil – menos o golpe de 64 e mais a influência da escola de Chicago na sua economia, outro tipo de desastre.
O livro da moça foi chamado de exagerado e simplista, e não apenas pela direita. Mas mesmo críticos concordaram que a sua tese, se não é vera, é bem bolada. Como ela se aplicaria ao Brasil do caos no Rio e da catástrofe na serra? A intervenção militar e a “pacificação” dos morros do Rio só recebe elogios, merecidos, mas eles adiam um pensamento mais consequente sobre o que aconteceu. E o que aconteceu de historicamente mais importante foi a mobilização das forças armadas brasileiras para uma missão inédita, com a concordância e sob aplausos de todos, sem que se ouvisse um “peraí um pouquinho”. Ontem o inimigo foi o tráfico sublevado, amanhã de onde virá a ameaça de caos, e quem aproveitará sua supressão? O precedente está estabelecido. Quanto à tragédia nas cidades serranas, o “novo começo” pressupõe novo rigor nas licenças para construção e uma ocupação mais racional da terra. Quer dizer: nada que diga respeito ao pobre obrigado a erguer seu barraco num barranco deslizante por absoluta falta de alternativas. 

CLÁUDIO HUMBERTO

“Não compartilho da visão que a pensão em si seja um erro”
TARSO GENRO (PT), GOVERNADOR DO RIO GRANDE DO SUL, EM DEFESA DA PENSÃO VITALÍCIA

FAMÍLIA LULA “ESQUECE” PASSAPORTE DIPLOMÁTICO 
Tudo indica que a “família real” continuará com seus passaportes diplomáticos. Os dois filhos e um neto de 14 anos do ex-presidente Lula ainda não devolveram os mimos concedidos pelo ex-chanceler adulador Celso Amorim. O enteado Marcos Cláudio, 39, bravateador como o pai, anunciou, furioso, que devolveria até o comum, porque “nunca usou”. E Lula prometeu explicar a encrenca “após as férias”. 

CATANDO MILHO 
O Ministério Público Federal pediu ao Itamaraty a lista dos sortudos, que inclui um pastor da Igreja Universal. Mas a lista também dormita. 

PENÚRIA 
Notícia que você não vai ler: parlamentares vão doar às vítimas das enchentes no Rio os três primeiros salários de R$ 26,7 mil. 

PASSADO 
A “bancada” de José Serra no PSDB se resume ao senador eleito Aloysio Nunes Ferreira e ao baiano Juthay Jr. 

NARIZ NOVO 
O deputado distrital Alírio Neto (PPS) adiou sua posse na Secretaria de Justiça do governo do Distrito Federal em razão de uma cirurgia plástica no nariz.

PREJUÍZO DE IVETE SANGALO CHEGA A R$ 60 MILHÕES 
Já são estimados em R$ 60 milhões os prejuízos acumulados pela empresa Caco de Telha, que cuida dos interesses da cantora e compositora baiana Ivete Sangalo, em Salvador. Ela quer auditores avaliando a extensão do “rombo”, provocado por investimentos malsucedidos na produção dos shows de Beyoncé e Black Eyed Peas no Brasil. Ivete inclusive já afastou o irmão Jesus da empresa.

GENEROSIDADE 
Generosa com familiares e amigos, a cantora Ivete Sangalo dá empregos a cerca de 70 pessoas, incluindo amigos, familiares e até
ex-namorados.

CORINGA 
O deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) não sabe, mas a presidente Dilma anda falando muito bem dele. Está no “banco” para virar ministro.

NAS NUVENS 
Em tempo de “corte de gastos”, a Presidência da República renovará 4,25 mil metros quadrados de carpete, vinis e laminado tipo flutuante. 

NO LIMITE 
Se a turma do MEC continuar pisando na bola, o ministro Fernando Haddad (Educação) será o primeiro da cota de Lula a deixar o governo. Dilma gosta dele, como Lula, mas já avisou: paciência tem limite.

ABRAMOVAY... TARDE 
As caras do governo Dilma começaram a mudar mais cedo que no governo Lula. Caiu na sexta o secretário nacional de Políticas sobre Drogas, Pedro Abramovay. Pensando bem, ele era mesmo uma droga. 

PMDB EM SEU LABIRINTO 
A situação do PMDB só piora: o deputado Eduardo Cunha (RJ), ligado ao líder do partido na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), defendeu Lula no twitter, sem autorização do ex-presidente, e insinuou que Dilma se afasta de sua herança. A presidente soube e não gostou.

ESTÁ FEIA A COISA 
A ex-governadora potiguar Wilma Faria e seu vice, Iberê Ferreira, andam com o cartaz sujo. A sucessora Rosalba Ciarlini já avisou que o Estado está quebrado. Deve meio bilhão de reais a fornecedores.

CHECK UP GERAL 
O senador tucano Tasso Jereissati faz exames em Houston (EUA), após passar mal e ficar dois dias hospitalizado em Fortaleza. Se estiver tudo bem, vai passear por vinte dias. Não quer mais saber de política.

Ó, COITADO 
O ministro Pedro Novais (Turismo) não tem mais tempo de ir ao motel: sua agenda na quinta (20), começou às 9h e acabou às 19h – mais extensa que a agenda oficial da presidente Dilma, na internet. 

MEU PIRÃO PRIMEIRO 
Está em boa companhia o ex-deputado Humberto Bosaipo, autor da lei autoconcedendo aposentadoria de R$ 15 mil por dez dias como governador do Mato Grosso: preso por 30 dias, durante o regime militar, o ex-presidente Lula tem aposentadoria de R$ 5 mil. 

ERA DO GELO 
Com a internet censurada, Cuba suspendeu o envio de cartas e malotes para os EUA, diz o jornal El Nuevo Herald. Seria protesto contra medidas de segurança postal adotadas pelos “imperialistas”. 

FILHO DO... 
De que nos livramos: já imaginou Lula recebendo a estatueta do Oscar e colocando sobre o isopor em São Bernardo, com direito a discurso? 

PODER SEM PUDOR
UMA CIDADE MUSICAL 
O ex-presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas, Celso Luiz, contou numa roda que, certa vez, o novo pároco de Mata Grande (AL), extasiado, procurou o velho padre Almeida, já aposentado:
– Nesta cidade não há pecadores! As pessoas apenas se penitenciam, no confessionário, por tocar instrumentos musicais, uma beleza!
Só então ele ficou sabendo que padre Almeida, santo homem, cansado de ouvir horrendos pecados, impôs o código no confessionário: transar virou “tocar trombone”, xingar “tocar violino”, trair era “tocar corneta” etc. Na missa seguinte, o jovem pároco, desolado, deu o recado:
– Depois, quero ter uma conversinha com a turma da banda de música...

BRASIU: O PUTEIRO

DOMINGO NOS JORNAIS

- Globo: PM ajuda ex-traficantes a buscar emprego formal
- Folha: Países ricos fazem oferta de mão de obra para o Brasil
- Estadão: Órgãos mais disputados por partidos desviaram R$ 1,3 bi
- Correio: A guerra diária na saúde no DF
- Estado de Minas: UFMG convoca mais 3.326 candidatos
- Jornal do Commercio: Vidas sob risco
- Zero Hora: Chuva mata em Santa Catarina