domingo, dezembro 26, 2010
GAUDÊNCIO TORQUATO
O ciclo Lula dá adeus
GAUDÊNCIO TORQUATO
O Estado de S.Paulo 26/12/10
Daqui a seis dias, no final da tarde de sábado, Luiz Inácio Lula da Silva descerá a rampa do Palácio do Planalto, deixando a condição de mandatário-mor do País. Nesse momento, as cortinas descerão sobre um palco aberto em 1.º de janeiro de 2003, onde peças sempre bem aplaudidas exibiram a performance do mais prestigiado líder do Brasil contemporâneo, um dos raros a combinar dois celebrados conceitos de Maquiavel: a virtú e a fortuna. Ao maximizar seu prestígio junto às massas, reforçado por um perfil carismático, Lula administrou, de maneira exemplar, as circunstâncias de um tempo pleno de aspirações, atingindo, por consequência, o grau de maior provedor das necessidades do povo que governou. A sorte que bafejou o governante, soprada por ventos que revigoraram o ambiente econômico, foi usada por ele de maneira eficaz para estreitar as distâncias entre as classes sociais. Ajudou-o nessa tarefa a alma intuitiva de um brasileiro que saiu do andar mais baixo do edifício nacional. Alma plasmada pelas carências das populações mais sofridas. Esse tempero fez a diferença de estilo.
Afinal, o que foi o ciclo Lula? Foi, sobretudo, a era de intensa dinâmica social, que propiciou a inserção de apreciável contingente ao mercado de consumo. A pirâmide das classes teve seu meio alargado com afunilamento da base, ou seja, tornou-se menos triangular e mais retangular. Esse constitui o maior feito do governo comandado pelo ex-metalúrgico. Além de 30 milhões de brasileiros que ascenderam à classe média (baixa), outro núcleo se movimentou da margem extrema da base para um degrau acima, ou, nos termos da estratificação social, subiram da classe E para a D. Abre-se, aqui, um parêntesis. A ascensão social foi, é e sempre será meta prioritária das esquerdas. Por consequência, o PT procurou validar o seu passaporte esquerdista - até para estabelecer um diferencial sobre outros partidos - a partir da política de inserção social da era Lula. Mas é arrematado exagero dizer que uma guinada esquerdizante passou por aqui. Há tentativas naquela direção - como criação de controles na área de comunicação e abordagens polêmicas na política de direitos humanos -, mas um sistema de freios tem segurado as intenções. Ademais, vale lembrar que o ciclo Lula caracteriza-se também por sediar uma teia de siglas insossas, inodoras e incolores. E mais: o sucesso do programa de distribuição de renda e acesso ao crédito teve uma semente plantada no passado.
Sob essa leitura se esvanece a tese de que o grid de largada do Brasil na pista internacional é coisa exclusiva do governo Lula. Na verdade, a montagem da corrida se deu lá atrás, quando o ciclo Itamar/FHC abria os tempos estáveis do Plano Real. Por isso, parcela ponderável da expressão cívico/ufanista do período que se encerra faz parte do enredo de autoglorificação. O verbo solto que se emprega para exalar os feitos contemporâneos chega a lembrar o ciclo militar, quando a harmonia social, flagrada nas imagens de crianças brincando em jardins, se fundia com o verde-amarelo da bandeira, enquanto um hino cívico enaltecia o Brasil Potência. Nem por isso se pode diminuir a inequívoca virtú do presidente Lula, exercida nos palanques populares e nos salões nobres e irradiando influência. Exemplo é a imagem externa do Brasil. Ficou mais forte, apesar de rompantes da diplomacia, ao cortejar países de inequívoca tradição repressiva, como o Irã. Não se imagina evento de magnitude no plano internacional sem a voz do Brasil.
Os êxitos do lulismo, como se aduz, se devem sobretudo ao gerenciamento da economia. Ali se desenvolveu uma política conservadora. Controle de câmbio e juros elevados. A habilidade do dirigente em aproximar os frutos econômicos do estômago das massas - entendendo-se que as camadas atendidas incluíram fortes estratos das classes médias - ganhou realce nos palanques da redundância, que deram ampliação aos fatos e versões. Portanto, na esfera da propaganda, o refrão "nunca antes na história deste país" pode ser considerado verdadeiro. Errado é usá-lo para comparações em alguns campos, eis que há cinco, seis ou sete décadas não havia parâmetros para medir programas governamentais. Ademais, não se pode comparar um país de 195 milhões de habitantes, num mundo globalizado, com um território de 50, 60 ou 70 milhões num espaço cheio de fronteiras.
Já na seara política, a situação não avançou. Pode-se até concluir que Luiz Inácio usou com mais astúcia do que seus antecessores os meios de cooptação para formar sólida base de apoio ao governo. Passou perto dele o trem do mensalão, mesmo que defenda ter sido o fenômeno uma invenção da mídia. Ora, a Justiça provou que o processo ocorreu. A mesma sensação de que a coisa não andou ocorre nos campos da saúde, segurança, Previdência, tributos e trabalho. Viu-se, em compensação, um Judiciário mais solto e aberto, descendo de um altar inacessível para ficar mais próximo da sociedade. E tomou às mãos pautas da mais alta relevância. Cassou mandatos. E contou com o esforço de um batalhão de defensores da sociedade, arregimentados no Ministério Público. A corrupção não acabou, porém ficou mais exposta a controles.
Por último, a dúvida: com a descida da rampa, o ciclo Lula se encerra? Sem dúvida. A explicação para a resposta leva em consideração o fato de que os ciclos governamentais não se repetem, mesmo que antigos dirigentes sejam reconduzidos ao posto de comando. Relembramos a velha lição do filósofo: "Um rio nunca corre duas vezes pelo mesmo lugar." Lula, como ele próprio já piscou, pode até voltar em 2014. Mas o ambiente deverá ser diferente. Outros movimentos aparecerão no cenário. A dinâmica social continuará em evolução, enquanto núcleos organizados energizarão a sociedade. É possível prever a migração do voto do bolso para o voto da cabeça. Bom sinal. O rio correrá por outros lugares.
JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP E CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO
RUTH DE AQUINO
10 razões para se indignar
RUTH DE AQUINO
REVISTA ÉPOCA
Uma pessoa indignada não é necessariamente raivosa. Indignar-se com a injustiça é estar alerta
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br
Um pequeno livro, quase um panfleto, de 30 páginas, tornou-se a sensação literária na França neste Natal. O nome do autor, Stéphane Hessel, não explica o sucesso. Sua idade, 93 anos, muito menos. São dois os motivos para o livro sumir das prateleiras. O preço baixo, de € 3 (R$ 7). E o título provocativo, Indignez-vous (Fique indignado) . Por incitar os jovens ao não conformismo pacífico, Hessel virou uma celebridade pop. Lembra o candidato do PSOL à Presidência, Plínio de Arruda Sampaio, de 80 anos.
Hessel nasceu em Berlim, de pai judeu escritor e mãe pintora. Foi para Paris aos 7 anos de idade. Na Segunda Guerra Mundial, lutou na Resistência contra o nazismo. Ajudou a redigir a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948. Suas causas hoje são o Estado palestino, o meio ambiente, os direitos dos imigrantes, a liberdade de imprensa e a batalha contra o mercado financeiro. “Meu fim não está muito longe”, escreve. “Desejo, a cada um de vocês, que tenham um motivo para se indignar. Isso é precioso.”
Uma pessoa indignada não é necessariamente raivosa. Indignar-se com a injustiça é estar alerta. “Os governos, por definição, não têm consciência”, escreveu o romancista Albert Camus, em 1954. Felizes são os homens e as mulheres que não aceitam passivamente os malfeitos dos governos e dos indivíduos. A indiferença nos faz menos humanos. A resignação pode nos tornar cúmplices.
Uma pessoa indignada não é necessariamente raivosa. Indignar-se com a injustiça é estar alerta
Reduzir a lista abaixo depende da vontade política da presidente eleita e da atitude pessoal de cada um de nós. Eis 10 razões para se indignar no Brasil:
- o número de analfabetos funcionais na oitava economia do mundo. Uma contradição provocada pela contínua falta de prioridade na educação fundamental e na qualidade da instrução;
- os absurdos privilégios dos deputados e senadores, que aprovam aumentos para si mesmos e, além do salário, dispõem de uma verba extra irreal. Com R$ 26 mil mensais, deveriam abrir mão das mordomias;
- a influência excessiva da Igreja sobre o Estado laico brasileiro. Em assuntos como células-tronco, controle da natalidade ou descriminalização do aborto, por que a religião se sobrepõe a razões de saúde e ciência? Que se respeitem a fé e os ditames do Vaticano como opções individuais, mas não como condutores de políticas públicas;
- a impunidade de assassinos confessos, como o jornalista Pimenta Neves. Com recursos em cascata permitidos por lei, quem tem dinheiro, prestígio e diploma se safa da prisão, mesmo depois de confessar crime hediondo e ser condenado por júri popular;
- a agressividade no trânsito, que torna o Brasil recordista em mortes em acidentes. O antropólogo Roberto Da Matta acaba de escrever um livro sobre isso: “Dirigir com cautela no Brasil significa ser barbeiro, bobo e idiota”. Acelerar para assustar pedestres, fechar o outro veículo, entrar na vaga alheia, bloquear os cruzamentos, xingar. Não é assim no exterior;
- a falta de educação da elite brasileira. Boa parcela de ricos desenvolve falta de educação associada à arrogância e à crença na impunidade. Joga lixo nas praias e da janela de carros importados, dá festanças ignorando a lei do silêncio, viola a legislação ambiental e sempre quer levar vantagem;
- os impostos escorchantes, que não resultam em benefício para a população carente. Cartéis punem o consumidor e tornam produtos e passagens aéreas no Brasil muito mais caros;
- a falta de sistema de saúde pública que dê dignidade a quem precisa e aos mais velhos. Gente morrendo em fila de hospital ou por falta de leitos e médicos é inaceitável. Quantas CPMFs o governo exigirá?;
- a falta de política de habitação decente para os mais pobres, mesmo com tantos prédios públicos vazios;
- a inexistência de transporte de massas, num país que fez opção equivocada pelo carro. Metrôs e trens, ligados a uma rede de ônibus sem ranço de máfias, deveriam transportar todas as classes sociais.
Indigne-se, mas não seja chato. Contribua para a mudança. Melhor ser um indignado otimista que um resignado deprimido. Boas festas.
ILIMAR FRANCO
Privilégio
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 26/12/10
O Senado gastou neste ano, até a primeira quinzena de dezembro, R$752.394 com reembolso de despesas médicas e odontológicas de ex-senadores e seus familiares. Isso é só com atendimento fora da rede credenciada e refere-se a 59 pessoas, o que daria um gasto médio de R$1.062 por mês para cada beneficiado. O Senado fornece plano de saúde vitalício para seus senadores e familiares.
A conta de telefone
O Senado pagou neste ano, até a primeira quinzena de dezembro, R$44.695 referentes a ressarcimento da conta de telefone residencial de dez senadores. O campeão foi o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM), que foi reembolsado em R$9.148. Em segundo lugar ficou o líder do PMDB, senador Renan Calheiros (AL), com R$5.962, seguido de ADELMIR SANTANA (DEM-DF), com R$5.270. Apesar de o Congresso estar em recesso em janeiro, os pedidos de reembolso de gastos com telefone residencial não diminuíram nesse período de férias. Virgílio, por exemplo, teve ressarcimento de R$761 referente a janeiro de 2010.
Meu projeto no futuro é organizar o meu passado" - Celso Amorim, ministro de Relações Exteriores, que quer escrever um livro ao sair do governo
CURTINDO A VIDA ADOIDADO. Depois de ser derrotado na disputa para deputado estadual, na eleição deste ano, o senador José Nery (PSOL-PA), que é suplente, aproveitou o restinho de mandato para fazer quatro viagens ao exterior em missões oficiais bancadas pelo Senado. Recebeu dos cofres públicos R$12 mil em diárias, sem contar as passagens aéreas. Ele foi a China, França, México e Chile, em um total de 17 dias.
Jatinho
O Senado pagou R$36.250 ao senador Gilberto Goellner (DEM-MT), no dia 17 de maio, pela utilização de um jatinho para "transporte aeromédico" no trecho Cuiabá-São Paulo-Cuiabá. Ele é suplente do falecido senador Jonas Pinheiro.
Vocação
O ministro Luiz Paulo Barreto (Justiça) vai voltar para a Secretaria Executiva da pasta. Ele ocupou o cargo nas gestões de Márcio Thomaz Bastos e Tarso Genro. O titular do ministério agora será o petista José Eduardo Cardozo.
Boquinha
O suplente de senador João Faustino (PSDB-RN) assumiu o mandato por quatro meses neste ano, enquanto o titular Garibaldi Alves (PMDB-RN) se dedicava à campanha de reeleição. Foi o suficiente para Faustino pegar uma missão oficial para Nova York, de 12 a 19 de outubro, participando como "observador parlamentar" da Assembleia Geral das Nações Unidas. Faustino recebeu do Senado R$5.757,44 em diárias.
Lobby natureba
Cerca de 50 instituições da área de saúde pública estão se mobilizando para pressionar o governo federal a regular a publicidade de alimentos processados para o público infantil. No último dia 17, foi criada a Frente pela Regulação da Publicidade de Alimentos. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, 19% dos casos da doença no Brasil poderiam ser evitados com o controle do peso. De acordo com o IBGE, uma em cada três crianças de 5 a 9 anos e um em cada cinco adolescentes estão acima do peso.
O SENADOR eleito Walter Pinheiro (PT-BA) rodou a baiana e ficará com o gabinete de Cesar Borges (PR-BA), que estava prometido para Ivo Cassol (PP-RO).
ENTUSIASTAS da volta da CPMF apostam suas fichas no perfil mais político do novo ministro Alexandre Padilha (Saúde) para aprovar a volta do imposto.
EX-PRESIDENTE da Comissão de Educação, o deputado Gastão Vieira (PMDB-MA) reivindica a presidência da comissão especial do Plano Nacional de Educação.
JANIO DE FREITAS
O melhor destino
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 26/12/10
Lula não consegue nem sequer controlar sua perturbação com a saída da Presidência
DEIXAR A Presidência quando desfruta da aprovação de 80 e tal por cento da opinião pública não pode ser fácil para Lula, nem o seria para presidente algum. Por muito menos, Juscelino já saiu do palácio, rumo ao aeroporto, com os primeiros passos de sua candidatura ao retorno.
Lula, porém, não consegue nem sequer controlar sua perturbação. Obcecado, cedo ainda, com a saída inevitável, veio em um crescendo a essas referências que o levaram pelo patético a dentro. Chegou ao despropósito de fazer sua despedida pública antes mesmo do Natal, a oito dias de deixar a Presidência.
Se algum sinal se pode intuir daí para o futuro, não é tranquilizador.
Futuro, quanto a Lula, em que já cabem muitas coisas dissociadas, desde ser apenas um homem que volta à rua, ou um dedicado aos problemas da África. Ou um viajante permanente para pregações pelo Brasil afora, ou idem nas extensões internacionais, e, sobretudo, "um exemplo de ex-presidente" em relação ao novo Poder. Não é o que a dificuldade do desapego umbilical sugere.
Nem a lembrança a que remete. Lá de trás, dos primórdios da ideia fixa: "Vou dizer o que achar errado e vou dar meus palpites". Esta é a ideia de futuro mais próxima do Lula que se vê agora. Seria a transferência de emoções pessoais perturbadoras para perturbação governamental.
Qualquer que seja o grau da crítica e do palpite não pedidos, o que seria apenas palpite e crítica anódina à Presidência -como as de Fernando Henrique a Lula- no caso de Dilma Rousseff, a criatura, assumem as dimensões e os sentidos originários do criador. Perturbação na certa, pessoal, governamental e político-partidária.
Ora os assessores de Lula informam que passará um mês em descanso no exterior, ora que ficará por uma semana em praia brasileira, ou que apenas volta a seu apartamento paulista, agora dignificado pela duplicação.
Não faz diferença. Pode até instalar-se em Brasília, onde não é hábito se ocupar a sério com governo. É o futuro necessário e o que Lula tem a fazer de melhor.
SUJAS TAMBÉM
Só por acaso a miudeza de atos reprováveis é captada, por parte de indicados à composição do governo, em tempo de não os incluir nas relações de escolhidos.
É o que se dá com as revelações de abusos nos gastos da "verba indenizatória", esta excrescência da vida parlamentar brasileira.
Nem por ser uma dentre tantas, de valores individuais em geral baixos, deixa de ser muito comprometedora.
Se a percepção em tempo útil é incomum, a reação não precisa sê-lo.
O "vou devolver o gas- to", próprio de todos os flagrados, não anula a improbidade.
E a improbidade deve anular, por dever dos futuros ou vigentes governantes, as nomeações dos indicados de contas sujas, pequenas fichas sujas.
Na relação de indicados ao novo ministério há meia dúzia deles (por ora) que testam Dilma Rousseff. Testam para nós outros.
EM VÃO
A culminância política de Orestes Quércia foi, como está lembrada por tantos, sua eleição ao Senado em 1974, quando a oposição deu um grande susto na ditadura, em quase todo o país. Foi o momento nacional de Quércia.
Mas a verdade é que, no Senado, deu-se a reversão. Quércia sumiu no silêncio e na omissão. Deliberados, com toda clareza.
Passado o aturdimento inicial pela inutilidade da vitória exuberante em São Paulo, oposicionistas davam-se uma explicação sobre o Quércia inesperado: o SNI tinha feito mais uma. Qual, ou se fez, não ficou provado.
MÍRIAM LEITÃO
Vermelho e verde
Miriam leitão
O GLOBO - 26/12/10
O governo Dilma deve evitar o erro de considerar que a queda do desmatamento nos últimos anos torna o assunto resolvido. Como se sabe, a área ambiental nunca foi o forte da presidente. Mesmo com a queda na taxa anual de perda de florestas, os riscos continuam e ficam cada vez mais complexos. Algumas obras do PAC são indutoras de desmatamento, por isso o problema pode voltar a crescer.
Uma impressionante reportagem de Marta Salomon, no Estado de S.Paulo, domingo passado, mostra como é complexa a questão do desmatamento no Brasil. Ela conta que um proprietário que respeitou a lei na Amazônia de Mato Grosso e manteve os 80% de floresta vai ser desapropriado pelo Incra porque a terra foi considerada ´improdutiva`. Acampados por perto, já à espera do desfecho da briga, os sem-terra já se preparam, inclusive com serrarias no local.
A fazenda Mandaguari foi classificada como ´grande propriedade improdutiva`, apesar de ter pecuária, apenas porque o proprietário não desmatou 50%, que teria direito adquirido de desmatar, na estranha opinião do superintendente do Incra em Mato Grosso. Uma velha lei permitia a derrubada de 50% da floresta. Esta lei foi mudada pelo ex-presidente Fernando Henrique, elevando a proteção para 80%. O fazendeiro obedece a lei em vigor, mas não deveria, pelo visto. O líder do acampamento dos sem-terra avisou que, se puder, terá uma serraria, e as madeireiras locais já fazem as contas de quanto há de mogno, cedro, ipê e angelim, entre outras madeiras nobres, na terra que será desapropriada. Tomara que agora que está confirmada no cargo, a ministra Izabella Teixeira queira impedir esse crime ambiental, porque hoje assentamentos e desmatamentos em áreas pequenas são uma parte substancial da perda de florestas no país.
O conflito de visão entre o Incra e o Ibama se arrasta há anos. O caso mostrado pela reportagem é emblemático, mas não é o único. Numa visita que fiz a Amazônia, fui apresentada pelo Ibama do Pará a documentos autuando o Incra por queima de castanheira, uma árvore protegida.
A confusão dodesmatamento no Brasil é que a fronteira entre mocinhos e bandidos nunca foi clara. Há assentamentos de sem-terra em conluio com grandes proprietários para que a terra seja desapropriada e os donos embolsem grandes indenizações. O financiamento público a atividades que desmatam nunca foi interrompido. O próprio governo que tenta coibir é o que incentiva financeiramente a atividade predatória. Cada bioma tem a sua complexidade e todos têm fragilidades. Até a Mata Atlântica tem perdido cobertura apesar de só restarem fragmentos. Se não entender tudo isso, e ficar dormindo sobre os números de queda, o novo governo pode enfrentar um aumento do ritmo de desmatamento.
Até porque, os números revelam sinais de riscos crescentes. O Imazon mostrou que o desmatamento na Amazônia Legal, em novembro, foi de 65 km2, 13% menor do que o de novembro de 2009. Porém, no mesmo período, o aumento da degradação - que é normalmente uma prévia do desmatamento - foi de 256% e atinge 2.805 km2. A maior taxa de perda de florestas ocorre exatamente em Mato Grosso.
O cientista florestal Paulo Barreto, do Imazon, conta que, apesar das restrições aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional ao financiamento de atividades que desmatam, o nível de crédito rural não foi afetado.
- Em 2008, o ano que começaram a valer as restrições ao crédito, o valor total dos financiamentos a atividades agropecuárias na Amazônia caiu apenas 1% em relação a 2007. Em 2009, o crédito rural na região subiu 11%. Parte desta subida se deu porque o governo aumentou os limites para o crédito para amenizar os efeitos da crise financeira. É importante notar que as restrições do CMN focaram principalmente nos imóveis acima de quatro módulos (entre 200 e 400 hectares). Os imóveis menores continuam tendo acesso ao crédito, diz Barreto.
Outras reportagens têm mostrado que o BNDES é grande financiador de frigoríficos que ainda não conseguiram fazer a sua parte no pacto contra o desmatamento, feito com supermercados e ONGs: não conseguem provar que compram apenas de quem não desmatou recentemente.
Paulo Barreto, do Imazon, acha que a maior derrota para a Amazônia é o governo insistir em certos projetos:
- Alguns são desastrosos, como o asfaltamento da BR-319, que liga Porto Velho a Manaus, outros são duvidosos, como Belo Monte. Isso mostra que o governo não teve e não tem um projeto coerente e inovador para a região. Responde a emergências, de um lado, atende a demandas pontuais de aliados, de outro, e investe no modelo antigo.
O ministro dos Transportes do novo governo é o mesmo Alfredo Nascimento que tentou fazer da BR-319 uma plataforma para a sua eleição ao governo do Amazonas. Derrotado, voltará ao cargo. A área energética continua com aliados de José Sarney. As vitórias que produziram queda no desmatamento são em grande parte derivadas de medidas iniciadas na gestão Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente e, depois, com Carlos Minc. Mas a ambiguidade do governo Lula continuará no governo Dilma.
O aumento da degradação, mostrado pelo Imazon, é um indicador antecedente de desmatamento. As obras mais ameaçadoras foram colocadas na agenda nacional por pressão direta da própria presidente Dilma, quando chefe da Casa Civil. O conflito entre agências do governo, com o Incra e o Ibama, produzem fatos absurdos como o mostrado na reportagem sobre a Fazenda Mandaguari, punida por respeitar a lei do país.
VINICIUS TORRES FREIRE
O mundo do dinheiro em 2011
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SÃO PAULO - 26/12/10
Bancão vê baixo risco de colapso chinês, reclama da inflação no Brasil e está otimista com "emergentes"
OS PROBLEMAS da economia do Brasil não são, no curto prazo, lá muito dramáticos. A impressão geral vem das avaliações de investimentos e mercados do Goldman Sachs, o bancão de investimento mais bem-sucedido no mundo. O mais interessante nesses relatórios, dirigidos a clientes, é que o nível de hipocrisia é quase nenhum. Seus redatores não estão interessados em pregação ideológica e não dão a mínima para o bem-estar ou para o futuro do país. Ou melhor, tal perspectiva importa apenas quando se trata de analisar quais são os riscos e as oportunidades de investimento.
Como se trata de estudos de estratégia global de investimento, não há consideração sistemática sobre o caso de país algum, com exceção da China. A preocupação maior é avaliar o risco de bolhas, de crises financeiras e de mudanças dramáticas em políticas econômicas e preços de ativos. O pessoal está otimista.
A economia mundial estaria saindo da lama, "não emergentes" incluídos. O risco de colapso chinês seria baixo. Até o alardeado excesso no mercado imobiliário chinês não é levado muito a sério -na conta do pessoal do Goldman Sachs, os preços médios e relativos dos imóveis chineses estão num patamar aceitável. A inflação chinesa continua a acelerar, para mais de 6%, mas é administrável.
Uma reviravolta negativa nos mercados financeiros, ações em particular, não deve acontecer antes de 2012, afora a hipótese de alguma catástrofe. O mercado deve piorar com o fim do relaxamento monetário no mundo rico, com a alta de juros nos Estados Unidos e/ou com a baixa relevante do desemprego americano. As catástrofes por ora improváveis seriam uma crise da dívida europeia (agora detonada pela Espanha) ou de "pouso forçado" na China (com inflação explodindo).
No geral, o bancão continua a sugerir investimentos além da média em "emergentes", como o faz há uma década. Segundo economistas do banco, o "mercado" começaria a antecipar a hipótese de fim do crescimento dos "emergentes" apenas quando tais países passassem a ter grandes deficit em conta-corrente e sua dívida externa voltasse a aparecer, "o que está muito longe de acontecer".
Além do mais, continuam firmes os vetores do crescimento emergente: crescimento acelerado da produtividade, baixo endividamento do setor privado e público e moedas desvalorizadas. No Brasil, porém, o crescimento da produtividade é relativamente menor. Ainda mais discrepante, a moeda brasileira é a mais supervalorizada do mundo emergente em relação ao dólar, entre 30% e 40% mais cara do que seu "valor justo", na conta do banco.
O que parece incomodar mais o bancão é a economia crescendo além do "potencial", que, segundo o banco, é de 4%, e a inflação decorrente já atingiu um nível "problemático" (maior que 5% ao ano). De 19 "mercados emergentes" avaliados, Brasil, Argentina e Índia levam bandeira vermelha.
Porém, do ponto de vista do investidor global, o problema brasileiro estaria longe de ser crítico, como observado acima: o superaquecimento se torna um risco mais assustador depois de anos de elevados deficit em conta-corrente e da volta da dívida externa.
A perspectiva de tal coisa ocorrer no Brasil é remota, por ora.
CLÁUDIO HUMBERTO
Banda familiar de Chico Buarque
A coluna não é vidente, mas acertou: o cantor e compositor Chico Buarque de Holanda terá um feliz 2011: à parte o indiscutível talento, o eleitor declarado de Dilma terá a irmã Ana de Hollanda no ministério da Cultura - já anunciada pela presidenta eleita - e um festival de homenagens bancadas pela Caixa por R$ 12, 5 milhões, sem licitação, para comemorar os 150 anos do banco estatal, criado em 1861.
"Não é assim, sim ou não, dá ou desce"
Luiza Bairros, futura ministra da Igualdade Racial, sobre a imposição de cotas raciais
Festa antecipada
O feliz 2011 de Chico começou antes, com seu terceiro (e polêmico) prêmio Jabuti de "melhor ficção" por "Leite derramado".
Escafandro
A nova ministra da Cultura, Ana de Holanda, tuitou: "O desafio é enorme, mas nada que seja impossível para quem respira cultura."
Muda o disco
O ministério da Cultura, que já teve Gilberto Gil, pode ter melhorado do ministro, no caso ministra, mas piorou muito de música...
Toma lá, dá cá
Os irmãos Cid e Ciro Gomes indicaram o prefeito Leônidas Cristino para a secretaria dos Portos e o PT herdou a prefeitura de Sobral.
Mega-contrato nos Correios
Os Correios estão dando máxima urgência, em fim de governo, a uma licitação por pregão eletrônico para escolher a empresa aérea que vai tocar a chamada Rede Postal Noturna. O contrato terá valor de R$ 2 bilhões e duração de cinco anos. A pressa tem sido interpretada como espécie de Baile da lha Fiscal da era Erenice Guerra, aquela ex-ministra da Casa Civil que indicou amigos para a direção dos Correios.
Apelo dramático...
Os irmão Tião Viana e Jorge Viana, governador e senador eleitos no Acre, têm feito apelos dramáticos para serem recebidos por Dilma.
...de investigados
Alem de Dilma ter ficado em terceiro lugar no primeiro turno, no Acre, o que está pegando contra os irmãos Viana é a investigação da PF e MP.
Te cuida, ministro
A turma de Marta Suplicy indicou Rodrigo Zerbone, hoje no Cade, para cargo "importante" no Ministério das Comunicações. Qualquer cargo.
Ruralistas com Aldo
A bancada ruralista na Câmara dos Deputados pode apoiar, quem diria, Aldo Rebelo (PCdoB-SP) para a presidência da Casa contra o petista Marco Maia (PT-RS). Com quase 200 deputados, o grupo tem poder e pode mexer com a sucessão, colocando o PT contra a parede.
Lula não vai sair
O presidente desistiu de criar um Instituto Lula, nos moldes do iFHC. Depois que passar a faixa para Dilma Rousseff, Lula sairá em longas férias e deve retomar seu antigo Instituto Cidadania.
Só para constar
Dilma anotou em seu temido caderno, para não esquecer, que a idéia de indicar o futuro ministro do Turismo, Pedro Novais, aquele da farra no motel por nossa conta, foi do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
BNB é nosso
A bancada de 25 deputados nordestinos do PT, com apoio dos governadores Marcelo Deda (SE) e Jaques Wagner (BA), insistem na indicação o presidente do Banco do Nordeste.
Drible socialista
O deputado Fernando (Coelho) Filho, do PSB-PE, deu um drible no democrático sorteio de gabinetes, na Câmara. Reeleito, ele trocou sua acanhada sala 272 no Anexo 3 pelo gabinete do senador eleito Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) no Anexo 4, antes que o sorteio fosse realizado.
O homem certo
Secretário do governo do Rio, Carlos Minc, militante de passeatas em defesa da maconha, deveria ser destacado como negociador em futuras incursões da polícia nas favelas controladas por traficantes.
Literatura de ouvido
Lula, que enxerga longe, tem "azia" com livros. Mas os deficientes visuais querem muito ouvir literatura. A Audioteca Sal e Luz (www. audioteca.org.br/catalogo.htm) tem 2,7 mil áudios à disposição, grátis.
Máfia russa chegou
A Polícia Federal investiga a presença de membros da máfia russa em praias do litoral do Rio Grande do Norte e do Ceará. Estariam "lavando" dinheiro sujo na compra de imóveis. Pagam sempre em espécie.
"Não é assim, sim ou não, dá ou desce"
Luiza Bairros, futura ministra da Igualdade Racial, sobre a imposição de cotas raciais
Festa antecipada
O feliz 2011 de Chico começou antes, com seu terceiro (e polêmico) prêmio Jabuti de "melhor ficção" por "Leite derramado".
Escafandro
A nova ministra da Cultura, Ana de Holanda, tuitou: "O desafio é enorme, mas nada que seja impossível para quem respira cultura."
Muda o disco
O ministério da Cultura, que já teve Gilberto Gil, pode ter melhorado do ministro, no caso ministra, mas piorou muito de música...
Toma lá, dá cá
Os irmãos Cid e Ciro Gomes indicaram o prefeito Leônidas Cristino para a secretaria dos Portos e o PT herdou a prefeitura de Sobral.
Mega-contrato nos Correios
Os Correios estão dando máxima urgência, em fim de governo, a uma licitação por pregão eletrônico para escolher a empresa aérea que vai tocar a chamada Rede Postal Noturna. O contrato terá valor de R$ 2 bilhões e duração de cinco anos. A pressa tem sido interpretada como espécie de Baile da lha Fiscal da era Erenice Guerra, aquela ex-ministra da Casa Civil que indicou amigos para a direção dos Correios.
Apelo dramático...
Os irmão Tião Viana e Jorge Viana, governador e senador eleitos no Acre, têm feito apelos dramáticos para serem recebidos por Dilma.
...de investigados
Alem de Dilma ter ficado em terceiro lugar no primeiro turno, no Acre, o que está pegando contra os irmãos Viana é a investigação da PF e MP.
Te cuida, ministro
A turma de Marta Suplicy indicou Rodrigo Zerbone, hoje no Cade, para cargo "importante" no Ministério das Comunicações. Qualquer cargo.
Ruralistas com Aldo
A bancada ruralista na Câmara dos Deputados pode apoiar, quem diria, Aldo Rebelo (PCdoB-SP) para a presidência da Casa contra o petista Marco Maia (PT-RS). Com quase 200 deputados, o grupo tem poder e pode mexer com a sucessão, colocando o PT contra a parede.
Lula não vai sair
O presidente desistiu de criar um Instituto Lula, nos moldes do iFHC. Depois que passar a faixa para Dilma Rousseff, Lula sairá em longas férias e deve retomar seu antigo Instituto Cidadania.
Só para constar
Dilma anotou em seu temido caderno, para não esquecer, que a idéia de indicar o futuro ministro do Turismo, Pedro Novais, aquele da farra no motel por nossa conta, foi do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
BNB é nosso
A bancada de 25 deputados nordestinos do PT, com apoio dos governadores Marcelo Deda (SE) e Jaques Wagner (BA), insistem na indicação o presidente do Banco do Nordeste.
Drible socialista
O deputado Fernando (Coelho) Filho, do PSB-PE, deu um drible no democrático sorteio de gabinetes, na Câmara. Reeleito, ele trocou sua acanhada sala 272 no Anexo 3 pelo gabinete do senador eleito Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) no Anexo 4, antes que o sorteio fosse realizado.
O homem certo
Secretário do governo do Rio, Carlos Minc, militante de passeatas em defesa da maconha, deveria ser destacado como negociador em futuras incursões da polícia nas favelas controladas por traficantes.
Literatura de ouvido
Lula, que enxerga longe, tem "azia" com livros. Mas os deficientes visuais querem muito ouvir literatura. A Audioteca Sal e Luz (www. audioteca.org.br/catalogo.htm) tem 2,7 mil áudios à disposição, grátis.
Máfia russa chegou
A Polícia Federal investiga a presença de membros da máfia russa em praias do litoral do Rio Grande do Norte e do Ceará. Estariam "lavando" dinheiro sujo na compra de imóveis. Pagam sempre em espécie.
Poder sem Pudor
Ameaça esquecida
Em 1990, eletricitários em greve ameaçavam promover um grande apagão no País. O governo designou uma comissão de negociação da qual fazia parte o ministro Antônio Rogério Magri, que presidiu o Sindicato dos Eletricitários de São Paulo. Um repórter de boa memória provocou:
- Quando era sindicalista, o senhor não ameaçou provocar um blecaute?...
- Foi só uma ameaçazinha... – respondeu Magri, ruborizado.
Em 1988, numa greve, ele ameaçou “apagar o País do Oiapoque ao Chuí”.
- Quando era sindicalista, o senhor não ameaçou provocar um blecaute?...
- Foi só uma ameaçazinha... – respondeu Magri, ruborizado.
Em 1988, numa greve, ele ameaçou “apagar o País do Oiapoque ao Chuí”.
ELIO GASPARI
O mau sinal do governo que nem começou
ELIO GASPARI
FOLHA DE SÃO PAULO - 26/12/10
A permanência do deputado Pedro Novais (PMDB-MA) no Ministério do Turismo, e da senadora Ideli Salvatti (PT-SC), no da Pesca são um mau presságio para um governo que nem começou. Revelam ligeireza com o dinheiro da Viúva, onipotência e descaso pela opinião pública.
Novais recebeu da Câmara R$ 2.156 por conta de uma nota fiscal do Motel Caribe, de São Luís, relacionada com despesas feitas no estabelecimento durante a noite de 28 de junho. A senadora, que recebe R$ 3.800 mensais para custear sua moradia na Capital, cobrou à Viúva R$ 4.606 referentes a diárias de hospedagens no hotel San Marco, de Brasília, entre janeiro e dezembro deste ano.
Descobertos, ambos atribuíram as cobranças e os "erros" praticados por assessores e informaram que devolveriam o dinheiro. Pedir desculpas à patuleia, identificando publicamente os responsáveis, nem pensar. Cobrança de parte da presidente eleita que acabara de indicá-los para o ministério, muito menos. Preservou-se o padrão de casa-grande dos maganos de Brasília. Ao pessoal da senzala restou o alívio da descoberta do avanço sobre seu dinheiro, feita pelos repórteres Leandro Colon, Matheus Leitão, Andreza Matais e José Ernesto Credencio.
O deputado Novais, um maranhense octogenário, que vive no Rio de Janeiro e chegou ao Ministério do Turismo por indicação do senador José Sarney, do Amapá, foi imediatamente defendido pelo líder de seu partido, Henrique Eduardo Alves: "Ele está esclarecendo de forma competente". Em seguida, pelo futuro ministro da Articulação Política, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ): "O Pedro Novais é um parlamentar experiente e, pela história dele, precisamos dar crédito à sua versão".
Num primeiro instante, a reação de Novais foi típica dos senhores de escravos: "Pare de encher o saco. Faça o que você quiser". Depois, apresentou uma explicação que tem muito de experiente e pouco de competente: "Indignei-me como parlamentar e homem público, mas, acima de tudo, como cidadão e marido. A acusação leviana tenta atingir minha moral e a firmeza de minha vida familiar. Sou casado há 35 anos. Na noite de 28 de junho, data da emissão da nota fiscal, pelo estabelecimento, estava em casa, ao lado de minha mulher. Não posso aceitar que essa falha seja usada para acusações irresponsáveis à minha pessoa".
Mesmo que na noite de 28 de junho o deputado estivesse na Igreja Evangélica Brasileira, que fica na Rua do Amor, nas cercanias do motel Caribe, isso não teria qualquer importância. Foi seu gabinete que apresentou à burocracia da Câmara a nota fiscal do motel. Ademais, uma funcionária do Caribe informou que houvera uma reserva em seu nome.
Admitindo-se que tudo não passou de um erro, Novais deveria ser grato ao repórter Leandro Colon, pois ele permitiu que expurgasse de sua longeva biografia e de seu firme matrimônio a sombra de uma despesa de R$ 2.156 num motel.
Em 2002, a nação petista sabia que o tesoureiro Delúbio Soares ia além de suas chinelas nas mágicas financeiras que fazia com o publicitário Marcos Valério. Acharam que dava para segurar. Em 2003, o poderoso José Dirceu sabia como operava seu assessor Waldomiro Diniz. Achou que dava para segurar. Depois que as acrobacias confluíram no mensalão, Nosso Guia deu-se conta de que deveria ter substituído Dirceu logo depois do caso de Waldomiro. Em todos os episódios, o governo comprou o risco da crise porque tolerou malfeitos que lhe pareciam toleráveis. Isso, supondo-se que Dilma Rousseff não fazia ideia das atividades da família Guerra quando patrocinou a ascensão da doutora Erenice à chefia da Casa Civil da Presidência.
A senadora Salvatti e o deputado Novais foram preliminarmente exonerados pela teoria do "erro", sempre praticado por assessores jamais identificados e nunca disciplinados. Repetindo: nem desculpas pediram. Passou-se adiante o pior dos sinais: "Vamos em frente, não tem problema".
AeroAlckmin
Durante a campanha eleitoral de 2006, o tucano Geraldo Alckmin anunciou que vendera o jato HS do governo do estado de São Paulo e, caso fosse eleito presidente da República, passaria adiante o AeroLula. Fez isso depois de ter usufruído a conveniência do brinquedo durante os cinco anos em que o teve à disposição. Alckmin perdeu a eleição, e seu sucessor recomprou o jato.
Na próxima semana o avião estará a sua espera.
Caso encerrado
Na quarta-feira, o Senado aprovou o crédito de R$ 10,1 milhões para o pagamento das indenizações e das bolsas de estudo para os familiares dos 18 militares mortos em janeiro, durante o terremoto do Haiti. Demorou, mas saiu.
Futuro de Cuba
A constatação de que a Coreia do Sul e a China discutem serenamente o futuro do regime de Pyongyang serviu para fortalecer a ala da diplomacia brasileira que defende o cultivo de uma relação amigável com Cuba.
Por mais que os Estados Unidos briguem com a Coreia do Norte, certamente estarão interessados em evitar que aquele principado das trevas se transforme num condomínio econômico compartilhado por Seul e Beijing. Como diria o rei Leopoldo da Bélgica no século XIX, "quero meu pedaço do bolo".
Não haveria motivo para o Brasil se afastar de Cuba para depois assistir a uma entrada dos Estados Unidos na economia da ilha.
No século passado, o Brasil ficou a reboque dos Estados Unidos, isolando a China, e em 1971 acordou com a notícia de que o presidente Richard Nixon fizera uma surpreendente aproximação com o Grande Timoneiro Mao Zedong.
Aerocracia
Uma previsão maledicente dizia que a primeira lombada do governo de Dilma Rousseff surgiria no caminho de suas relações com os aerocratas.
Ela pretendia criar o Ministério dos Aeroportos. Desistiu e achou melhor deixar as coisas como estavam. Nas mãos do ministro da Defesa, Nelson Jobim, o governo Lula termina com mais uma semana de caos nos aeroportos, explicado pela Anac como consequência do excesso de demanda. Como se fosse novidade o fato de a companheirada viajar no final do ano.
Talvez a doutora Dilma se lembre quando ela achou racional redistribuir os balcões das empresas quebradas e foi convencida a mudar de ideia.
São dois os tipos de interesses que rondam os palácios. Um é o bloco das escavadeiras, que disputam obras físicas. Para o bem ou para o mal, constrói alguma coisa. Outro é o dos teclados, que mexe apenas com papéis. Esse bloco fatura mercadejando normas. O caos aéreo nasce desse segundo tipo.
Jogo de segredos
Um dos jogos prediletos da diplomacia mundial de hoje é a especulação em torno do tempo que demorará até o aparecimento de um mega-arquivo de país emergente no site da WikiLeaks.
Ideia maluca
Apareceu uma ideia tão maluca que pode acabar dando samba. Acompanhado por um vice de algum peso, capaz de permitir-lhe uma saída honrosa em 2014, Lula pode sair candidato a prefeito de São Paulo em 2012, com o propósito exclusivo de iniciar o desmonte da influência tucana no estado.
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: Brancos e negros têm acesso desigual ao SUS
- Folha: Cresce diferença entre salário público e privado
- Estadão: No recesso da Câmara suplente custa até R$ 114 mil
- Correio: O destino nas mãos de Dilma
- Jornal do Commercio: Não espere o carnaval para procurar emprego
- Zero Hora: Natal em Família
sábado, dezembro 25, 2010
MORACIR S. DUARTE
Desafios rodoviários do novo governo
Moracir S. Duarte
O Estado de S. Paulo - 25/12/2010
A recente divulgação do levantamento efetuado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que o País continua carente de infraestrutura em todos os modais de transporte: rodoviário, ferroviário, hidroviário e dutoviário. No caso específico do primeiro, apesar dos investimentos realizados pelo poder público e pelas concessionárias de rodovias nos últimos anos, a infraestrutura existente não é compatível com a dimensão de nossa economia, muito menos com os planos de crescimento para a próxima década. Segundo o estudo da CNI, o Brasil tem a pior infraestrutura de transportes entre 14 países com características similares escolhidos para a comparação. E, no que se refere especificamente à qualidade das rodovias, ficamos em 12º lugar. O trabalho da CNI confirma estudos anteriores, como o do ex-presidente da Associação Nacional do Transporte de Carga (NTC), Geraldo Vianna, que mostrou o Brasil na pior colocação entre as 20 maiores economias mundiais no que se refere à infraestrutura rodoviária. E o prestigiado Economist Intelligence Unit (EIU), departamento de estudos e informações da revista The Economist, também chegou à mesma conclusão ao comparar as dez maiores economias do mundo, colocando o Brasil em 10º lugar na infraestrutura de transportes. Nas entrevistas feitas com executivos internacionais, o EIU mostrou que quase metade dos entrevistados (49%) afirma que "padrões de baixa qualidade ou custos elevados de infraestrutura" são os principais obstáculos operacionais no Brasil. Apesar de alguns avanços em logística, o transporte é caro e a malha rodoviária, insuficiente. Também existem poucas ferrovias e o potencial do transporte marítimo continua extremamente inexplorado, com portos e aeroportos que já estão congestionados. O grande problema do setor rodoviário, como acontece com os demais, tem sido a falta de investimentos, por causa da alocação de recursos tributários em outros setores, considerados prioritários, pois não existe o chamado "dinheiro carimbado" para rodovias, como ocorreu antes da Constituição de 1988, quando tivemos tributos com essa destinação predefinida, que possibilitaram construir a maior parte da atual malha rodoviária. É preciso destacar que não basta construir rodovias, mas mantê-las em boas condições e aprimorá-las continuamente, o que inclui a infraestrutura, a sinalização e a qualidade da operação, além de ter uma fiscalização constante sobre os veículos e seus condutores. Além dos investimentos, o País precisa de um bom programa voltado a reduzir o número dramático de 400 mil feridos anuais e os 34 mil mortos que o Brasil apresenta em seu sistema rodoviário. O problema de recursos para investir na ampliação e melhoria da malha rodoviária não é apenas deste país. O crescimento da frota de automóveis e caminhões e as novas tecnologias de controle e operação de rodovias, associados à exigência de recursos para setores sociais, como educação, saúde e aposentadoria, além de justiça e segurança, vêm limitando a possibilidade de ampliar os recursos para rodovias em todo o mundo. Por essa razão, a concessão tornou-se hoje uma política internacional e está presente em todos os continentes. Com a cobrança de pedágio nos principais eixos, que contam com tráfego intenso, é possível ter rodovias autossustentáveis com tarifas adequadas e, inclusive, modernizá-las e ampliá-las, como se tem feito no Estado de São Paulo. O processo tem, no entanto, uma limitação, pois só é possível ter rodovias autossustentáveis onde existe tráfego suficiente para estabelecer uma tarifa que possa ser absorvida pelos usuários, tanto particulares, a passeio ou trabalho, como por transportadores de carga. Nos demais casos, é possível repassar a gestão à iniciativa privada por meio das chamadas Parcerias Público-Privadas (PPPs), ou seja, a concessão patrocinada em que o poder concedente absorve parte dos investimentos ou dos custos operacionais e a tarifa cobre o restante. Existe ainda a alternativa da concessão administrativa, conhecida como "pedágio-sombra", processo usado no exterior em vários países em que não se cobra tarifa do usuário, mas o governo paga à concessionária um valor fixo ou definido pelo número de veículos que utilizam a rodovia. Neste caso a vantagem é garantir uma boa administração, com menores custos, e efetuar os investimentos de imediato, com eles sendo amortizados ao longo do tempo do contrato, juntamente com os custos operacionais. O número de concessões puras de rodovias federais - em que o usuário assume totalmente o encargo - no governo Lula foi o maior desde que o processo teve início, em 1993, na gestão de Itamar Franco. No geral, essas concessões tiveram como foco principal a recuperação, melhoria e manutenção das rodovias prexistentes e em poucos casos incluíram ampliações e construção de novos trechos. Por outro lado, embora apontadas como uma solução para os investimentos no setor, as PPPs não evoluíram; tivemos apenas duas nos últimos anos, ambas por iniciativa de governos estaduais, de Minas Gerais e de Pernambuco. Tivemos e temos ainda sérios problemas com a concessão de rodovias federais delegadas a Estados. É o caso do Paraná e do Rio Grande do Sul, que dificultaram o adequado desenvolvimento dos projetos. São três, portanto, os desafios do novo governo federal para atender à necessária expansão e melhoria do sistema rodoviário brasileiro sem prejuízo do necessário investimento nos outros modais: definir regras e desenvolver projetos para concessão pura e PPPs em rodovias federais, envolvendo não apenas sua recuperação e melhoria, mas também sua ampliação e modernização; redefinir o relacionamento com os governos estaduais em relação à delegação e concessão de rodovias federais, para que elas possam se adequar às necessidades do desenvolvimento brasileiro; manter e ampliar os investimentos públicos nas rodovias que não forem concedidas. Priorizados esses passos, vamos poder sair da vexaminosa posição de último colocado em infraestrutura rodoviária, reduzir o custo Brasil, preparar o País para o crescimento do turismo decorrente da Copa e da Olimpíada e criar condições para um crescimento econômico e um desenvolvimento social sustentados nos próximos anos. PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CONCESSIONÁRIAS DE RODOVIAS |
MÔNICA BERGAMO
MODELO ITALIANO
Mõnica Bergamo
FOLHA DE SÃO PAULO - 25/12/10
Brasília passará a ser uma das sedes internacionais da Triennale de Milão. A fundação italiana assinou uma carta de intenções com o Ministério da Cultura, para instalar na capital federal um espaço para o desenvolvimento de ações nas áreas de design, arquitetura e moda.
O SEXO E A CIDADE
Autor de "Triângulo no Ponto", romance com diversas passagens eróticas, o ex-ministro Eros Grau, aposentado do Supremo Tribunal Federal, está escrevendo um livro sobre a cidade de Paris.
SANTA EXPANSÃO
A TV Aparecida pretende estrear em até seis meses seu canal digital, o 41, na cidade de SP. A rede acaba de conseguir a outorga de uma retransmissora em Salvador e está participando de consultas públicas para chegar a Aracaju e Uberlândia.
PRA FRENTE
Depois de assistir ao show de Paul McCartney, em novembro, Tomie Ohtake, 97, vai estrear na plateia da São Paulo Fashion Week. A artista plástica assistirá ao desfile de Fernanda Yamamoto, namorada de seu neto Rodrigo.
PUNTA É LOGO ALI
O casal Chella e Moise Safra, do Banco Safra, passa o Réveillon em Punta del Este, no Uruguai. De lá, seguem para Nova York, para acompanhar o nascimento de mais um neto.
PUNTA É LOGO ALI 2
Quem também desembarca em Punta é Carolina Andraus Miranda e o marido, o ex-senador Gilberto Miranda. Eles passam o Réveillon no barco do casal, um veleiro dos anos 20.
MARIDO E MULHER
Domingos de Oliveira criou a trilha sonora da peça "Um Coração Fraco", dirigida por sua mulher, Priscilla Rozembaum, que estreia no dia 7, no Rio, com Caio Blat e Cadu Fávero no elenco.
PALCO PARA O MORRO
A apresentadora Fernanda Lima e o diretor Johayne Hildefonso apresentaram o prêmio Orilaxé, do AfroReggae, no Rio. José Junior, coordenador do grupo, recebeu os convidados, e Roberta Sá cantou no evento. A major da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) do morro Dona Marta, Priscilla de Oliveira, que recebeu o troféu de Inovação Social, interagiu com o grupo Linda Flor.
BOM MOTIVO
O empresário Bruno Setubal comemorou seu aniversário na casa de Silvana Bertolucci com a família e amigos. A ex-agente de Gisele Bündchen Mônica Monteiro e seu marido, o empresário Aluísio Ribeiro de Lima, aproveitaram a festa com outros convidados.
CURTO-CIRCUITO
A festa Babylon, na The Week São Paulo, terá, hoje, os DJs Guto Bumaruf, João Neto, Paulo Pacheco e outros. A partir das 23h59. Classificação etária: 18 anos.
A rede de restaurantes Bom Prato oferecerá, na quinta, em São Paulo, pratos de Ano-Novo por R$1,00.
Frequentadores do parque Ibirapuera poderão, a partir de quinta, pedalar nas 12 bicicletas fixadas no Melódromo. A quilometragem rodada por cada visitante vai se acumulando até se completar um "giro" simbólico pelo globo.
Os DJs Cedric Gervais e Vini Gomide tocam amanhã, às 14h, no Cafe de la Musique, em Florianópolis.
com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY
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