domingo, junho 27, 2010

JAPA GOSTOSA

MÍRIAM LEITÃO

Atropelo e risco
Miriam Leitão
0 GLOBO - 27/06/10

O que a Petrobras não queria aconteceu: a capitalização será a um mês das eleições. Essa foi uma das várias confusões desse tumultuado processo. Quando a Petrobras anunciou, em abril, que ela mesma contrataria uma consultoria para avaliar o valor do barril do pré-sal, um senador do PT informou que, pela lei, isso teria que ser feito pela Agência Nacional do Petróleo.

A ANP, para dar o valor do petróleo que será cedido à empresa, vai contratar uma consultoria sem licitação, por falta de tempo. Tudo nesse processo é assim atropelado e, desde o começo, salta aos olhos a influência política sobre as decisões da Petrobras.

Na segunda-feira, ela anunciou um plano gigante de investimento até 2014 de US$ 244 bilhões, maior do que seu valor de mercado. O fato de o governo ter dado à empresa a responsabilidade de ser a única operadora aumentou o peso sobre a Petrobras, já enrolada para cumprir um plano de investimentos que ainda nem inclui a exploração das áreas não licitadas. Com o novo adiamento da capitalização, a companhia agora corre o risco de perder o grau de investimento.

Com uma dívida total de R$ 100 bilhões, a Petrobras está próxima do seu limite máximo de endividamento. A relação entre dívida líquida e patrimônio líquido chegou a 32% em março, perto do teto de 35% das agências de risco para empresas com grau de investimento. O adiamento deve aumentar esse percentual porque, pelo novo plano de negócios, US$ 58 bilhões terão que ser financiados no mercado via captações ou novas dívidas.

— O cronograma de investimentos tem um aumento forte de 28%. Se a capitalização não sair, a Petrobras poderá ter que adiar investimentos — explicou o analista de petróleo da Modal Asset, Eduardo Roche.

No mercado, a decisão de investir mais de US$ 35 bilhões em refino foi considerada política — com refinarias construídas em estados de políticos aliados e distante de centros consumidores.

A capitalização é confusa desde o começo. O presidente da companhia foi à Casa Civil pedir apoio à capitalização, que deu, contrariando o Ministério da Fazenda.

A engenharia financeira para o aporte envolve endividamento, com a emissão de títulos públicos e depois a cessão de 5 mil barris de petróleo que estão a 7 mil metros no fundo do mar. Para saber o valor desse petróleo é que se contrata a avaliação, mas só foi possível após a aprovação no Congresso, que demorou. Roche disse que a exploração do pré-sal seria mais fácil se o governo não mudasse o modelo de exploração de petróleo: — O atual programa de investimentos já é pesado, sem contar o que precisará ser feito no regime de partilha.

O modelo atual seria melhor porque divide investimentos com o mercado como um todo. Desse jeito, há esforço fora de propósito de uma companhia só — disse.

A ANP foi a reboque de tudo. A Petrobras chegou a comunicar ao mercado, em abril, que levaria adiante a operação apenas com a consultoria que ela própria havia contratado. Foi alertada de que o texto da lei é claro e estabelece a ANP como responsável pela precificação.

Na última semana, a empresa voltou atrás e comunicou o novo adiamento na operação, para setembro. Mas há quem duvide: — A meu ver, não acontece em setembro, e não sei se sai até o final do ano.

Existe um trâmite burocrático, setembro é um mês difícil porque está perto de eleições — disse a economista Ana Paula Scarpa, da corretora H.Commcor.

Para o analista Victor de Figueiredo, da Planner, ainda há 90% de incertezas: — Se a operação fosse numa empresa privada, já teria saído; como é pública, levou todo esse trâmite. É muito gente falando ao mesmo tempo e o mercado sem saber o que fazer com os papéis — afirmou.

Quem mais sofre com as incertezas é o minoritário, que apostou suas economias na empresa. Hoje, se não quiser ser diluído, terá que acompanhar o aumento de capital em que o controlador porá um petróleo que está no fundo do mar, de valor incerto, e difícil desafio de exploração.

Quando comunicou a capitalização, em agosto passado, os papeis da Petrobras sofreram a maior queda diária em seis meses. De lá para cá, eles acumulam recuo de 12%, enquanto a bolsa brasileira tem alta de 12,3%. Veja o desempenho no gráfico.

A espera pela capitalização trava o lançamento de novas ações. Como a operação é prevista para ser a maior do mundo, estima-se em US$ 25 bilhões de recursos privados, empresas têm medo de ir a mercado e não conseguir captar.

Fundos de investimentos internacionais, por exemplo, têm limite para aplicação em países emergentes. Por razões políticas, o modelo de petróleo foi mudado; com interferência política foram decididas questões estratégicas e o formato de capitalização.

Agora se prepara, num ambiente de incertezas, o ato final da operação para quando faltar um mês para as eleições gerais do país.

ANCELMO GÓIS

Romário argentino
ANCELMO GÓIS 
O GLOBO - 27/07/10

Sonho de consumo de um carioca gaiato, fã da irreverência de Maradona: — Eu queria mesmo era ver Maradona ganhar e a Argentina perder.
O técnico é, de longe, a maior celebridade desta Copa.

A volta da Varig 
No Centro de Manutenção em Confins (MG), a Gol está pintando um avião com as cores da Varig, o que não fazia há anos.
Outros três Boeings ganharão o mesmo banho de tinta da marca que pousou definitivamente no coração dos brasileiros.

Segue...
Sem muito alarde, a Gol retoma a marca em voos internacionais.
Em outubro de 2009, a Varig só voava para Colômbia, Argentina e Venezuela.
Hoje, sua estrela aparece também em Aruba, Barbados, República Dominicana e Antilhas Holandesas.

Névoa na Copa de 14 
Este mês, nevoeiros e mau tempo, comuns nesta época, fecharam dois dos nossos principais aeroportos, o Santos Dumont e o paulista Guarulhos, por quase oito horas.Embora a Copa de 14 se realize neste período do ano, a Infraero dá sua palavra de honra de que não haverá interrupções.

É que...
A estatal vai comprar um ILS (instrumento de auxílio à navegação aérea) III, que vai permitir operações em Guarulhos com tempo ruim.
O Galeão e o Aeroporto Afonso Pena, de Curitiba, terão equipamento semelhante.
A conferir.

Mando de campo 
O empresário Carlos Jereissati tem dito a amigos que é contra a entrada dos controladores da Portugal Telecom na Oi.
Não quer dividir ainda mais poder na empresa, hoje já compartilhado com Sérgio Andrade.

Apartheid na Copa 
O que está dando o que falar em Johannesburgo é uma ação movida por uma sul-africana negra que exige, acredite, indenização de 150 bilhões de randes (uns R$ 37,5 bi!) de um hotelzão cinco estrelas.
Gcinani Mtoba, 39 anos, moradora de Sandton, espécie de Leblon da cidade, acusa o hotel de racismo.

Segue...
A mulher denunciou à polícia que, ao entrar no hotel, a convite de amigos, para ver um jogo com a filha, foi abordada “de forma truculenta por seguranças”.
Gcinani diz que elas foram expulsas sob a alegação de não estarem consumindo nada.

Vida dura 
Não só em Paris e outros postos do “Circuito Elizabeth Arden” vivem os diplomatas. O Brasil abrirá as portas de nova embaixada em Cabul, capital do Afeganistão, um país em guerra.
Outro dia um embaixador foi lá e descobriu que o hotel em que se hospedara da última vez tinha ido pelos ares a toque de bombas.

ZONA FRANCA 
O escritório Montaury, Pimenta Machado e Vieira de Mello Advogados ganhou causa da CBF contra o Ponto Frio.
Hoje tem Cine Stesia, na Editora Multifoco.
Tania Miranda abre inscrições para o curso de decoração de interiores.
A Revista “Nosso Caminho”, de Oscar Niemeyer, inaugura novo site: www.revistanossocaminho.com.br.
O professor Paulo Cesar Colonna Rosmann faz palestra terça, no Espaço Cultural Maria José Fernandes, em Cabo Frio.

Os atrasos de Serra 
O pessoal que trabalha com José Serra, que costuma se atrasar, passou a distribuir a relação de compromissos do tucano com termos como “agenda prevista” ou “deve chegar”.
Faz sentido.

Rumo à Espanha 
Alexandre Pato, o atacante do Milan que se separou recentemente de Stephany Brito, deve se mudar para a Espanha.

Estação Tijuca 
A Multiplan (leia Barra Shopping) tem projeto de construção de um shopping na Tijuca, no Rio.

Cidade partida 
A próxima fase de “Malhação”, da TV Globo, deve mostrar a cara da pobreza no Brasil.
Além do colégio, terá outros dois cenários: um hospital público e uma delegacia de polícia. A ideia é mostrar “a cidade partida”, como explica o roteirista Emanoel Jacobina.

Cena carioca 
Semana passada, policiais da UPP da Babilônia, no Rio, debaixo do sol forte, abriram botões da farda. Foi aí que crianças no pé do morro, ao avistarem o carro da PM que controla o policiamento, começaram a gritar: — Tio, fecha a farda. A supervisão vem aí!

No mais 
Houve um tempo em que as crianças alertavam os traficantes nas incursões da polícia.
De lá para cá, pelo menos nessas comunidades, a situação mudou. Para melhor.
Tomara que continue assim.

MARCEU NA COPA

O tamanho da vuvuzela do sul-africano

Com o Brasil garantido nas oitavas de final, as anotações de viagem prosseguem no país de Mandela.

País sem cachorro: A África do Sul é rica em diamantes e ouro, mas pobre de marré-deci em... cachorros. É sério. Não se vê totó nas ruas, abanando o rabo, como no Brasil. Mesmo nas favelas. Nem cãozinho de madame, nem vira-lata.

País sem bicicleta: Em Johannesburgo, também não se vê bicicleta.
Na Cidade do Cabo, há até um evento anual, o Argus Cycle Tour, para incentivar o uso de duas rodas. Mas o país adora mesmo um motor. A produção anual de carros é de quase 1 milhão (o Brasil, com população quase cinco vezes maior, fabrica cerca de 3 milhões).
Há 146 carros para cada 1.000 habitantes (no Brasil, são 133). As vendas de automóveis crescem 15% ao ano. Todos os principais fabricantes do mundo estão no país. O governo Zuma dá subsídios em troca de preços baixos para o povão.

País dos Pitangas: O sul-africano carrega a fama de ter, digamos, vuvuzela grande. Já o japonês... Com todo o respeito. Quinta, no Ellis Park Stadium, no fim de Eslováquia 3 x 2 Itália, dois jornalistas brasileiros faziam pipi quando parou no mictório ao lado deles um coleguinha oriental. "Fulano, confere agora o tamanho do bilau de japonês", provocou um, para a risada do outro.
No que (há testemunhas) o oriental, meio irritado, meio de gozação, respondeu num português que tentava imitar o sotaque carioca: "Qué olá, memão? Qué olá? Pode olá!" Era um jornalista sul-coreano que contou ter vivido cinco anos no Rio.

Calma, Dunga: Pelo menos até aqui (toc, toc, toc), caiu por terra o mito de país mais violento do mundo. Houve um registro ou outro de furtos em hotéis, mas nada diferente de cidades como Rio ou São Paulo. Nos estádios, e em seus entornos, tem reinado a paz.
Tirando o sequestro do brasileiro Osmar Pereira por uma quadrilha de nigerianos, que não teve nada a ver com a Copa, violência só a de Dunga nas coletivas da seleção.

Reage, Nigéria: Os nigerianos são, até agora, os lobos maus da Copa. A seleção de Kanu e Obinna (o deles, não o nosso) era uma das maiores esperanças do continente no Mundial, mas decepcionou.
E, além do sequestro do brasileiro, há nigerianos envolvidos em quase todos os pequenos delitos registrados. A atitude de uns gera preconceitos contra todos eles no país de Mandela. É pena.

FUNCIONÁRIO PÚBLICO

ROBERTO ROMANO

A razão nanica de Estado


ROBERTO ROMANO
O ESTADO DE SÃO PAULO - 27/07/10
O governo brasileiro assumiu uma prática antiga na ordem internacional. Trata-se da razão de Estado. Na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos da América é muito clara essa forma de pensar e agir. O Brasil, por sua vez, viveu sob a razão de Estado como súdito de Portugal, depois num Império conservador e duas ditaduras. Sem potência militar ou econômica para atingir os seus interesses, o País seguiu regras alheias e alvos idem. Agora o Itamaraty executa planos heterodoxos, sobretudo no campo dos direitos humanos. Prisioneira de regimes como os de Cuba, Irã, Zimbábue, Coreia do Norte e de outros países que violam estatutos civis, a Realpolitik brasileira se justifica pela suposta eficácia geopolítica ou econômica. Em Honduras, quando quebrou normas diplomáticas, interferindo nos assuntos internos do país, e no episódio iraniano, ao apoiar um dirigente antissemita, perdeu o Brasil. O recuo no acordo com a ditadura do Irã mostra a imprudência de nossa Chancelaria. Tais desastres mostram uma razão de Estado bisonha, mas, como as suas primas sérias, afeita à dissimulação.
A razão de Estado surgiu no Renascimento e significa o recurso da força e da astúcia a serviço do poder político. O seu ápice se encontra no absolutismo. Neste último, o governante foi posto acima das instituições. Contra tal arbítrio surge a democracia moderna na Inglaterra (século 17), nos Estados Unidos e na França (século 18). Os governos e os legisladores, mesmo os juízes, passam a integrar o corpo cidadão e jamais devem colocar-se fora dele. Assim, é exigido de todos os que operam no espaço público o compromisso com a verdade (daí o livre exame e a imprensa sem peias), a dita "accountability".
Fé pública e verdade garantem, nas democracias, os deveres, as leis, os contratos. As sociedades livres não podem existir sem a verdade. Nelas o segredo e a dissimulação devem ser atenuados. A mentira e similares ameaçam o coletivo, pois corrompem o juízo e as condutas. Nada é garantido no campo democrático, que, segundo Norbert Lenoir, "é menos um regime que duraria por suas próprias forças, em virtude de seus princípios constitucionais, do que uma dinâmica: dinâmica de uma extensão dos direitos e generalização dos direitos fundamentais, resistência à concentração do poder que pode favorecer uma oligarquia reinante em nome do povo" (Democracia e Espaço Público). Quando partidos ou líderes são postos acima ou fora da ordem constitucional, surge a tutela arbitrária exercida contra o povo, impera a razão de Estado. Esta é sinônimo de segredo e de espionagem. O pensamento democrático é oposto ao segredo. A publicidade é "a lei mais apropriada para garantir a confiança pública, sendo a causa de seu avanço constante rumo ao fim de sua instituição". Ademais, o segredo "é instrumento de conspiração; ele não deve, portanto, ser o sistema de um governo normal" (Bentham, Of Publicity). Segundo Georg Simmel, "toda democracia considera a publicidade como intrinsecamente desejável, seguindo a premissa fundamental de que todas as pessoas deveriam conhecer os eventos e circunstâncias que lhes interessam, visto que esta é a condição sem a qual elas não podem contribuir nas decisões sobre elas mesmas". Procedimentos secretos são corrigidos pela publicidade, ou seja, pela imprensa.
O governo atual é inimigo da livre expressão do pensamento. Para salvar as aparências na ordem externa, aumentando o número de votos em plano interno, seus adjuntos e aliados pregam o "controle social da imprensa". Tal prática, sob o disfarce da vontade coletiva, herda a pior razão de Estado moderna, a fascista.
No tema, basta citar Carl Schmitt - acarinhado pela esquerda, depois de ser oráculo da direita mundial - e seu pensamento sobre o controle político. O jurista alemão afirma que, no mister de formar a opinião pública, a imprensa estaria prestes a ser destronada pelo audiovisual. A mídia ameaçaria o Estado na tarefa de moldar o pensamento coletivo. Assim, pensa Schmitt, o Estado deve ter controle direto ou indireto daquelas técnicas, usando-as para propaganda. "Não existe ainda", acrescenta Schmitt, "um Estado tão liberal que não tenha reivindicado em seu proveito pelo menos uma censura intensiva e um controle sobre filmes e imagens, e sobre o rádio. Nenhum Estado pode permitir deixar a um adversário os novos meios técnicos de dominação das massas, sugestão das massas e formação da opinião pública." O Estado total, segundo Schmitt, controla a comunicação. Assim, "os novos meios técnicos pertencem exclusivamente ao Estado e servem para o aumento de sua potência". O Estado novo "não deixa surgir em seu interior forças inimigas que o obstruam ou desagreguem. Ele não deixa que seus inimigos disponham de meios técnicos, sapando sua potência por um slogan qualquer como Estado de Direito, liberalismo ou um nome outro. Ele sabe distinguir entre amigo e inimigo. (...) Sempre foi assim e a novidade reside apenas nos meios técnicos, cuja importância política deve ser levada em conta" (citado por Olivier Beaud: Les derniers jours de Weimar. Carl Schmitt face à l"avènement du nazisme).
A razão nanica de Estado espiona cidadãos e censura a imprensa. É o "controle social"... Daí o costume de armar denúncias, os supostos dossiês, a quebra ilegal dos sigilos bancários. Recordemos o ataque covarde de agentes públicos a Francenildo Santos Costa, o dossiê dos aloprados, o dossiê contra Ruth Cardoso e, agora, os papéis contra Eduardo Jorge. Certa parcela da ordem política brasileira recorda a bonequinha matrioshka: um crime dentro de um crime, dentro de um crime, dentro de um crime... E todos os crimes são impunes porque praticados em nome da razão nanica de Estado. Quem arma dossiês aproveita a penumbra, o silêncio, o segredo que infecta as entranhas do poder político. Saibamos reagir a tempo, porque depois, sob uma ditadura, restam apenas as receitas de bolos, sob a censura e a espionagem.
PROFESSOR TITULAR DA UNICAMP

GAUDÊNCIO TORQUATO

Ficha limpa, teoria e prática
GAUDÊNCIO TORQUATO 
O Estado de S.Paulo - 27/06/10

Nunca foi tão evidente na esfera eleitoral a diferença entre teoria e prática. Em teoria, uma batelada de brasileiros não poderá pleitear mandatos na eleição de outubro próximo em razão da recente decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de que candidatos com ficha suja, tanto os condenados por um colegiado antes da sanção da Lei da Ficha Limpa quanto os que vierem a ser condenados depois, estarão impedidos de buscar o voto. Na prática, muitos tentarão driblar a disposição legal, dentre eles os quase 5 mil agentes públicos que o Tribunal de Contas da União (TCU) tornou inelegíveis. Na teoria, o sonho acalentado por brasileiros de todas as classes está prestes a se realizar com a aplicação rigorosa da importante lei encaminhada ao Congresso Nacional com o endosso de 1,6 milhão de assinaturas. Na prática, o sonho poderá não resistir às peripécias de uma turma que, inconformada, dará plantão nos sinuosos corredores da Justiça. A teoria segue a pista fornecida pelo presidente do TSE, ministro Ricardo Lewandowski, cuja expressão é firme: "Não temo enxurrada de recursos no STF porque a lei é bastante clara. Dificilmente algum recurso chegará ao Supremo, notadamente agora, em função da chamada repercussão geral." A prática segue a baliza de outro experiente ministro, ex-presidente do TSE, Marco Aurélio Mello, que garante: "Essa matéria vai bater no Supremo."

Dada essa visão dicotômica, nuvens espessas cobrem o horizonte das alianças eleitorais. A predominar a interpretação do presidente do TSE, deverá haver reviravoltas em algumas campanhas. Ao contrário, se os condenados baterem à porta do Supremo Tribunal Federal(STF), mesmo que este, mais adiante, acolha a interpretação da Justiça Eleitoral, a tendência é de que os fichas-sujas entrem no pleito, arriscando-se à perda do mandato. O cerne da discussão, como se recorda, esbarra na visão do relator no TSE, Hamilton Carvalhido, de que não há necessidade de se observar o princípio da anualidade - na aplicação da lei -, eis que as intervenções não alteram o processo eleitoral. O direito à presunção de inocência, segundo seu argumento, não pode estar acima da relevância de ações criminais contra políticos que pretendem se candidatar. O ministro Marco Aurélio, porém, calejado na arte de descobrir as curvas do caminho, pinça o artigo 16 da Constituição, que não permite à lei retroagir. O imbróglio está posto. Qual é a situação, por exemplo, de governadores que foram cassados por lei de iniciativa popular anterior, cuja punição para compra de votos e abuso do poder econômico é a perda de mandato e a condição de inelegível por três anos? Se já cumpriram a pena, devem se submeter a uma lei aprovada posteriormente e que prevê, para as mesmas situações, a inelegibilidade por oito anos? É o caso dos ex-governadores Jackson Lago (PDT-MA), Marcelo Miranda (PMDB-TO) e Cássio Cunha Lima (PSDB-PB).

Elevar a pena de inelegibilidade de três para oito anos para quem já foi condenado e por decisão já transitada em julgado parece, na visão de juristas, um despropósito. Enquanto persiste a dúvida, brande-se o argumento de que a norma constitucional vale para medidas que poderão alterar o resultado do pleito, enquanto a exclusão de fichas-sujas não viria a contribuir para mudar o panorama eleitoral, sendo apenas medida profilática de caráter regulatório. Como se pode aduzir, alguns deverão apelar ao Supremo caso sejam impedidos de entrar no processo. Há ainda uma parcela que renunciou ao mandato para não ser cassada, garantindo, assim, a condição de elegibilidade no pleito seguinte. Ora, a Lei da Ficha Limpa estende também a essa clientela a punição de oito anos de inelegibilidade. Entre estes casos estão o ex-senador Joaquim Roriz, que pleiteia o cargo de governador do Distrito Federal, e alguns do grupo do mensalão no entorno do ex-governador José Roberto Arruda, todos se preparando para enfrentar as eleições de outubro. Ainda nessa roda está o ex-governador Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro, condenado por abuso de poder econômico à inelegibilidade por três anos, desde 2008. O TSE aguarda decisão de recurso que está sendo analisado no Tribunal Regional Eleitoral do Rio. Os nomes deverão ser homologados em convenção até 30 de junho. Eis aí pequena amostra do contencioso.

As perguntas se estendem ao jogo partidário nos Estados. Como se sabe, com o fim da verticalização, as coligações estaduais, tornando-se autônomas, passaram a jogar suas pedras no tabuleiro regional, independentemente do jogo nacional. Por esse prisma, os protagonistas locais alcançaram o direito de fazer coligações diferentes da coligação formada por seu partido em âmbito nacional. Assim, dissidentes do PMDB, aliados ao PSDB, argumentam que podem inserir José Serra em sua propaganda política nos Estados. Mesmo assim, dúvidas permanecem: como se enquadra o caso de dois palanques nos Estados para um mesmo candidato a presidente da República? Dilma Rousseff poderá pedir votos na Bahia tanto para Jaques Wagner (PT) quanto para Geddel Vieira Lima (PMDB)? Lembre-se que nesse Estado os partidos não se coligaram. Em outros Estados, a salada mista é a mesma. O pano de fundo é: o mandato, na visão do TSE, pertence ao partido, e não ao candidato; se assim é, pode um candidato se rebelar contra a decisão de seu partido, em nível nacional, e se colocar a favor de outros partidos e candidatos?

Ao lado de políticos tradicionais, entram no buraco negro da inelegibilidade os 4.922 agentes públicos com contas julgadas irregulares nos últimos oito anos. A relação, preparada pelo TCU e encaminhada à Justiça Eleitoral, inaugura um novo capítulo na história da moralização política no País. O que sobrará da camada suja que chegará aos tribunais para um banho de purificação? Neste novo ciclo da vida política, a sociedade fixa os olhos na toga dos juízes. Para saber se pode continuar a sonhar no futuro ou voltará a ter os pesadelos do passado.

GOSTOSA

LUIS FERNANDO VERISSIMO

Em Durban
LUIS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 27/06/10


O Mario Quintana dizia que as guerras eram métodos práticos de se aprender geografia.
Lugares dos quais jamais se ouvira falar ficavam famosos, e entravam para a História, por serem os locais de batalhas decisivas. Nada de muito importante aconteceu em Waterloo antes ou depois da derrota do Napoleão, mas seu nome não só nunca será esquecido como faz parte da linguagem simbólica de todo o mundo. As seleções do Brasil e de Portugal disputando o primeiro e o segundo lugar na sua chave não decidirão os destinos da humanidade, mas Durban ficará na história das nossas participações na Copa e na nossa história pessoal para sempre, como aquele lugar em que... Em que o quê? Hoje saberemos. De qualquer jeito, aconteça o que acontecer em Durban, teremos tido uma lição de geografia sem guerra.
Durban fica a menos de uma hora de avião de Johannesburg, na costa oriental da África do Sul, no Oceano Índico. As águas do Índico são quentes, ao contrário das águas do Atlântico no outro lado do país, que são geladas. Por isso Durban, além de ter um porto importante, é um lugar de veraneio muito procurado. A sua Golden Mile, ou Milha Dourada, é um trecho à beira-mar cheio de hotéis e restaurantes, e entre a avenida e a praia da Golden Mile há vários parques de diversão lado a lado, com movimento e música constantes. O mais movimentado e musical parece ser o que fica exatamente na frente do nosso hotel, mas quem vem a uma Copa para dormir?
Durban tem uma grande população indiana (a maior fora da Ásia) e a maior mesquita do continente africano. Mas o que mais deve nos interessar na sua demografia e na sua história é a quantidade de portugueses e descendentes de portugueses que aqui vivem e o fato da cidade ter sido fundada por Vasco da Gama, com o nome de Porto Natal. Quer dizer: há um certo, digamos, pendor português no ar de Durban. No jogo de hoje a torcida dos portugueses será grande maioria. E não serão apenas portugueses. Serão portugueses com vuvuzelas. Que Deus nos proteja.
Ainda não se sabe o destino da Espanha mas se esta Copa significou alguma coisa, até aqui, foi o declínio do que o secretário de defesa americano Rumsfeld chamava, desdenhosamente, de A Velha Europa, para ele a Europa irrelevante. França e Itália se foram, a Alemanha passou para as oitavas ali-ali. Enquanto isso, a Eslováquia...

CLÁUDIO HUMBERTO

“Respeitar acordos e aliados é primordial na política”
DEPUTADO RONALDO CAIADO (DEM-GO) INSATISFEITO COM ÁLVARO DIAS COMO VICE DE SERRA.

AUMENTO SALARIAL NO SENADO CHEGARÁ
A 100% Não é de “25%”, como foi divulgado, mas de “no mínimo 40% e no máximo 100%”, o aumento dos servidores do Senado por meio da “gratificação de desempenho”. É o que prevê o artigo 9º do ato da mesa diretora do Senado. O valor da gratificação incide sobre o salário. Assim, copeiros, operadores de elevador, motoristas etc podem passar a receber até R$ 19.061,95 mensais, mais que juízes estaduais.

PARAÍSO
Analista do Senado em final de carreira, com R$ 4,8 mil de salário base, vai a R$ 33,4 mil graças a uma sequência de gratificações.

NOSSA CONTA
Com o reajuste concedido aos 6.630 funcionários, a folha de pagamento sofrerá um impacto de R$ 271 milhões. 

CASA MIA
Lula, que não quer extraditar o terrorista italiano Cesare Battisti, vai passar a decisão ao sucessor. Se for Dilma, aí é que Battisti não sai. 

FEIRA PARAGUAIA
O Brasil doou três aviões Tucano, antigos, à Força Aérea do Paraguai. Pelo menos, quem vai pagar o transporte é o “companheiro” Lugo. 

PB: LIMINAR SEGURA PREFEITO CASSADO NO CARGO 
O prefeito de Campina Grande (PB), Veneziano Vital, não quis dançar quadrilha este ano. Ele se segura numa liminar para continuar no cargo até que o Tribunal Regional Eleitoral paraibano confirme a cassação de seu mandato, já decidida em primeira instância desde abril. Se o TRE confirmar a cassação, ele cai na malha da nova Lei da Ficha Limpa, dança do cargo imediatamente e ficará inelegível por oito anos. 

TÁ FEIA A COISA 
O próprio desembargador Manoel Monteiro, que concedeu a liminar ao prefeito de Campina Grande, acha robustas as provas contra ele.

BOCAS MALDITAS
Depois do “Abre a boca, Dilma”, para contrapor o sucesso do “Cala a boca, Galvão”, a coluna propõe o “Fala, Dunga!”, na internet. 

PALANQUE
Mais um problema para José Serra: em Rondônia, o governador João Cahulla, apesar de filiado ao PPS, decidiu apoiar Dilma Rousseff.

AGONIA NA ECT 
Chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho está entre os que cobram do ministro Artur Filardi (Comunicações) melhoria nos Correios, cuja decadência é atestada pelos serviços ruins e pelos próprios servidores.

O CORONEL EM SEU LABIRINTO
Agora inimigo dos “irmãos Gomes”, ou sejam, o governador Cid e o deputado Ciro, o coronel Tasso Jereissati (PSDB-CE) terá de subir no altar com os dois, na próxima sexta (2). É que, antes da briga, Tasso e Cid aceitaram ser os padrinhos de casamento de Lívia, filha de Ciro.

DOMINGÃO TUCANO 
Achando que a campanha desandou, José Serra e o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, com FHC no Skype, farão uma última tentativa de persuadir Aécio Neves a ser vice. Será perda de tempo e ainda farão outra trapalhada, deixando mal Álvaro Dias, o vice já convidado.

OLHO NO FUTURO
O governador do DF, Rogério Rosso, é candidatíssimo a um cargo de segundo escalão em eventual governo Dilma. Mas já sabe que terá de se entender com o presidente do PMDB-DF, deputado Tadeu Filippelli.

PORTAS FECHADAS APÓS... 
O líder do PDT na Câmara deputado Dagoberto Nogueira (MS), quer disputar o Senado, mas deve ser barrado pela Lei Ficha Limpa: foi duas vezes condenado por improbidade no Tribunal de Justiça do MS. 

...DUAS CONDENAÇÕES
Ex-secretário de Segurança de Zeca do PT, Dagoberto Nogueira foi sentenciado por “privatizar” o Detran-MS e por tirar proveito eleitoral de cartilhas sobre lei seca. Terá que devolver de R$ 1,1 milhão ao Estado.

UNB, 107
Já que decidirão na quarta a intervenção no DF, os ministros do STF poderiam aproveitar o embalo e intervir na esculhambação em que se transformou a UnB, há 107 dias em greve. O reitor, “Zé do MST”, aos poucos perde a legitimidade e o respeito de professores e funcionários.

A CÉU ABERTO
Em Lucas Rio Verde (MT), onde a colheita de grãos da safra começou há dois meses, produtores estão preocupados: com os silos da região lotados, a colheita é armazenada a céu aberto.

PAR DE MEIAS
A candidata Dilma ameaça ir à final da Copa na África do Sul, na cola do pé-frio-chefe Lula. Avisou que ia ao Nordeste, e o dilúvio desabou. 

PODER SEM PUDOR 
UM MENINO PLURAL
Em visita a Teófilo Otoni (MG), a velha raposa política José Maria Alkimin encontrou um cabo eleitoral:
– Como vai? E a diletíssima esposa, as crianças?
– Tudo bem, deputado. Mas, por enquanto, só temos um menino...
– E eu não sei que é um filho só? – Alkimin não perdeu o rebolado – É um menino, certo, mas que vale por muitos... Então, como vão os meninos?