terça-feira, março 17, 2009
PAINEL
Queima de arquivo
| Folha de S. Paulo - 17/03/2009 |
Quatro dias antes da eleição de José Sarney (PMDB-AP) à presidência, a Comissão Permanente de Avaliação de Documentos do Senado fez uma faxina nos arquivos, eliminando 965 caixas de papéis referentes ao período 1965-2003. Com a anuência da primeira-secretaria, então chefiada por Efraim Morais (DEM-PB), foram para o lixo quilos de notas fiscais, processos, sindicâncias, inquéritos e comprovantes de despesas que vão de compras de materiais a internações de senadores. A destruição dos documentos ocorreu em 29 de janeiro após autorização do responsável pelo Arquivo da Casa, Francisco Maurício da Paz. Mas a decisão só foi publicada em 3 de março. Seleção Do vereador JOÃO ANTONIO , líder do PT na Câmara, sobre o contingenciamento de recursos para obras de transportes na capital paulista, incluindo o metrô, como medida "cautelar" diante da crise. Um grupo de militantes do PSOL fazia manifestação na Barra da Tijuca, no final de semana, quando um curioso se aproximou do deputado Chico Alencar: |
ILIMAR FRANCO
Emprego melhora
| Panorama Político |
| O Globo - 17/03/2009 |
Os dados do Caged (emprego com carteira assinada) que o governo anuncia amanhã virão com um saldo de cerca de 20 mil novos postos de trabalho. É pouco expressivo. Mas, para o governo, já é alguma coisa, diante dos números negativos de dezembro, quando foram fechadas 650 mil vagas e janeiro, com menos 101 mil. "Mudou a curva do emprego. Somos o primeiro país a reverter a crise", afirma o ministro Carlos Lupi (Trabalho). |
NAS ENTRELINHAS
As culpas do “boi de piranha”
| Correio Braziliense - 17/03/2009 |
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DORA KRAMER
Serra finca pé contra a maré
O Estado de São Paulo - 17/03/09
Andar na contramão é algo que o governador de São Paulo faz com relativa frequência – um traço de personalidade –, embora não o faça com estardalhaço, por uma questão de cálculo. Foi um crítico contumaz da condução da política econômica no governo Fernando Henrique Cardoso e continua na mesma posição em relação às escolhas do governo Luiz Inácio da Silva na área. Marca posição aqui e ali, mas não confronta quando não lhe interessa comprar uma briga do ponto de vista político.
A menos que, medidos os riscos, valha a pena. É o caso agora, quando sofre pesada pressão dos aliados para assumir a candidatura a presidente da República em 2010 e rechaça todas elas com veemência. “Não posso evitar que uns me ataquem, outros me provoquem, outros me estimulem como se eu fosse candidato. Entendo os que atacam, tento ignorar os que provocam e agradeço aos que estimulam. Sei conviver bem com essa espécie de diversidade, fico onde estou e não assumo candidatura antes da hora.”
Empenhado em não arrumar confusão com o eleitorado – para seu projeto de se eleger presidente bem mais importante que as reclamações de correligionários ou provocações do adversário –, Serra acha a antecipação da campanha, antes de tudo, contraproducente.
“Primeiro, porque dificulta o combate à crise econômica. O governante, em vez de enfrentar, tende a negar a crise; substitui a eficiência pela afobação, entra em confronto com as forças políticas no momento em que há muito mais necessidade de cooperação e tende a governar menos e a fazer mais espetáculo”, analisa e dá como exemplo o governo federal, cujas energias se desviam para a campanha eleitoral, mais que antecipada, permanente.
“Isso favoreceu a paralisia do governo durante seis meses em relação à política monetária, na contracorrente de todo o mundo, o que permitiu o aprofundamento da crise internamente, devido ao sumiço do crédito.” Na opinião dele, o ambiente eleitoral estimulou “o espetacular aumento de gastos de custeio no governo federal, presente e futuro, prejudicando a elevação de investimentos e dificultando, agora, a correção do problema.”
Em segundo lugar, Serra acha que a campanha antes da hora só serve para irritar o eleitorado. Principalmente no caso de candidatos governantes. “Fui eleito em primeiro turno, tenho responsabilidade de governar um estado difícil onde a crise tem seu maior impacto. O cidadão comum não está pensando em eleição nesta altura. Imagine se começo a fazer discurso de candidato. Qual seria a leitura? A de que estou pouco ligando para os problemas objetivos, preocupado apenas com tititi eleitoral. No dia seguinte seria massacrado pela imprensa e condenado pela população.”
O governador acha essa antecipação “espantosa” e lembra que nunca foi essa a prática. “Em março de 1988, de 1993 ou de 2001, ninguém estava falando nas eleições presidenciais dos anos seguintes, não havia nenhuma definição.”
E por que há agora? Serra prefere deixar a resposta para gente despida de compromisso partidário. “Como um dos possíveis, e não mais do que possíveis, candidatos no ano que vem, minhas hipóteses poderiam soar, digamos, eleitorais.”
Não seria a hora nem o caso de dizer, por exemplo, que isso acontece porque o presidente Lula gosta mesmo é de um palanque. Fazendo campanha, dá a impressão de governar sem precisar governar de fato, no estrito senso do ato.
O tempo de Lula é o tempo de Lula, avalia Serra, que não considera, por isso, que a oposição deva atuar no mesmo tempo Nem para fazer frente à campanha do adversário, hoje correndo sozinho com Dilma Rousseff?
Na visão de Serra, a oposição só teria a perder pelas razões já expostas (seus dois candidatos são governadores) e não teria nada a ganhar. “Ela é a candidata que o PT poderia apresentar, não há outro nome. Isso vale para agora e vale também para o ano que vem.”
Para torná-la conhecida o governo federal não precisaria de mais que os seis meses do prazo legal de desincompatibilização, a partir de abril de 2010, e sem correr o risco de contestações na Justiça Eleitoral. Serra invoca, a título de comprovação, o exemplo do prefeito Gilberto Kassab, em São Paulo. Correr, agora, não adianta nada, na opinião dele. “Dilma crescerá de qualquer maneira, chegará aos 30% só pela força do governo e pelo patamar tradicional de votos no PT.”
Somados os fatores em jogo – crescimento inexorável da principal adversária, condenação da atitude do governante por parte do eleitorado e desvio do foco do enfrentamento da crise com todos os riscos decorrentes –, Serra finca o pé: “Não vou assumir nenhuma candidatura este ano.”
Logo, assume-se desde já o candidato em 2010, correto? “Não digo isso. Quem apostar numa quebra do PSDB por conflitos entre mim e o Aécio (Neves, governador de Minas Gerais) vai perder. Até porque quando um não quer dois não brigam e quando dois não querem aí é que não brigam mesmo.”
ELIANE CANTANHÊDE
BRASÍLIA - Enquanto Lula defendia com Obama uma maior aproximação dos EUA com os países da região, os "hermanos" agiam em sentido exatamente oposto.
Na Bolívia, Evo Morales mandou retirar os soldados que há anos e anos faziam a segurança da embaixada americana, agora entregue à própria sorte num país em que o presidente vive de impropérios contra os EUA e expulsando diplomatas norte-americanos.
Na Venezuela, Hugo Chávez não perdeu tempo depois de conquistar o direito de mandatos consecutivos, "ad eternum", e se comporta como se estivesse em guerra, ou à beira de uma guerra. Ocupou militarmente os principais portos do país, em regiões comandadas pela oposição, e já assumiu o controle da polícia metropolitana de Caracas, de hospitais, escolas e uma TV.
Ou seja: Obama quer abrir; Chávez e Morales, fechar. Assim fica difícil para Lula se arvorar em líder regional no bom momento da troca de Bush para Obama e de republicanos para democratas.
Se algo mudou, é a disposição de Washington de realmente dialogar e ouvir mais. Obama privilegiou os vizinhos (quem desconhece o valor de uma boa vizinhança?), repetindo a tradição de fazer a primeira viagem ao Canadá e receber em seguida o presidente do México, Felipe Calderón. Depois, abriu a Casa Branca para prestigiar o principal aliado em três continentes.
Pela ordem: os primeiros-ministros Taro Aso (Japão), pela Ásia, e Gordon Brown (Reino Unido), pela Europa, e Lula, pela América Latina. Por lógica, o próximo visitante deve ser da África do Sul. Para bons entendedores, meia palavra basta. Para a diplomacia, gestos bastam.
Chávez e Morales, porém, não estão avalizando a posição de Lula na região nem dando um voto de confiança para Obama, sua biografia e suas manifestações de intenção. Não estão ajudando. E deveriam, porque, nessa crise, eles é que mais precisam ser ajudados.
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Em Nova York, Lula confirma que vai mexer na poupança
- Estadão: Juro baixo deve forçar novo acordo das dívidas estaduais
- JB: Governo qur mudar cálculo da poupança
- Correio: Senado faz a fortuna dos terceirizados
- Valor: Lula afirma que país supera a crise
- Gazeta Mercantil: Obama tenta impedir bônus milionário a executivos da AIG
- Jornal do Commercio: Tragédia em família
segunda-feira, março 16, 2009
EDITORIAL
A rigor, é o que parecem achar os muitos milhões de brasileiros que endeusam o presidente, porque o seu carisma e talento incomum para a comunicação os levaram a crer que a ele devem tudo o que melhorou nas suas vidas nos últimos anos. Vá-se explicar àqueles novos membros da classe média que os correspondentes estrangeiros vivem entrevistando para ilustrar as mudanças no País que o seu ídolo, como ele próprio já se permitiu admitir, teve a sorte de estar no lugar certo no período de maior bonança da economia mundial, cujos principais beneficiados foram as nações chamadas emergentes, como o Brasil. Enquanto durou a idade de ouro, a Lula praticamente bastava o palanque; o dinamismo da economia global, na qual estamos inseridos, se incumbia do resto. Agora que, da noite para o dia, as coisas mudaram dramaticamente de figura, quando a ação governamental se torna crucial, o que se vê é mais do mesmo: tapumes de palavras escondendo a inaptidão em levar as mãos à obra.
Tome-se o programa de construção de 1 milhão de moradias até 2010, imaginado como a iniciativa por excelência do Estado para ativar a economia, criar empregos e reduzir o déficit de habitações para a população de baixa renda, fazendo girar ao todo cerca R$ 70 bilhões. O formato do programa deveria ter sido apresentado em 20 de janeiro. Depois de sucessivos adiamentos, fala-se agora na última semana de março, "se todas as pendências forem resolvidas", algo altamente improvável, segundo especialistas familiarizados com a profusão de questões ainda em aberto. Mas desde quando isso é problema para o governo contar vantagem? Em uma das três palestras de cunho eleitoral que promoveu na quarta-feira - esta para políticos do Nordeste -, a ministra Dilma Rousseff prometeu que as novas casas - pelas quais os mais pobres entre os futuros proprietários pagarão apenas uma prestação simbólica - serão entregues em 11 meses, em vez dos habituais 33, a contar da compra do terreno. Faltou explicar como se chegará a essa proeza.
O Planalto comemora por antecipação, mas, como diria Garrincha, ainda não combinou "com os russos" - construtoras, Estados e municípios, instituições como a Caixa Econômica e o BNDES. E as dúvidas decorrentes dessa decisão de abreviar para 11 meses o prazo de construção são mais numerosas e complexas do que os "detalhes técnicos" a que as fontes do governo querem reduzi-las. Nem sequer está claro o nível de renda, medido em salários mínimos, até o qual as famílias beneficiadas farão jus aos robustos subsídios de mais de R$ 20 bilhões no total, de que fala a ministra. Além disso, a intenção é tolerar inadimplência de até 36 prestações, mas não se decidiu a origem dos recursos do fundo garantidor do crédito que cobrirá os pagamentos não efetuados. Permanecem também nebulosas questões como a do seguro dos financiamentos e a da linha especial de crédito para a infraestrutura das áreas onde serão erguidas as casas.
A menção das dificuldades a superar não pretende sugerir que o programa seja necessariamente fantasioso ou inexequível. O ponto, que o retrospecto da era Lula obriga a ressaltar, é a desenvolta, irresponsável ligeireza com que os seus integrantes "inauguram" obras cuja concretização depende de um insumo notoriamente escasso nesse governo: competência.
PAINEL
Classificados Infraero
| Folha de S. Paulo - 16/03/2009 |
Superavitária pela primeira vez em anos e dona de generosos recursos para reformar aeroportos, a Infraero entrou na mira do PMDB. A presidência ficará vaga em julho, quando o brigadeiro Cleonilson Nicácio voltará para a FAB -movimento obrigatório para que ele fique em condição de suceder o comandante Juniti Saito em 2010. Alhos e .... Congressistas do DEM e do PSDB chegaram a Brasília empolgados, na terça, depois de assistirem em São Paulo a uma palestra do neurocientista norte-americano Drew Westen, autor do best-seller "O Cérebro Político" e um dos consultores de Barack Obama na campanha. |
CARLOS ALBERTO SARDENBERG
É a política, estúpido!
| O Estado de S. Paulo - 16/03/2009 |
Na primeira eleição de Bill Clinton, em 1994, quando perguntavam ao seu principal assessor, James Carville, qual o mote da campanha, ele repetia: "É a economia, estúpido!". |
SEGUNDA NOS JORNAIS
- Globo: Presidência gasta 405% mais com cartões
- Folha: Chávez manda Exército ocupar portos da oposição
- Estadão: Após corte de juro, BC força baixa no spread bancário
- JB: Zona Norte mais verde
- Correio: Brasiliense já enfrenta 60km de engarrafamento diariamente
- Valor: Governo prepara pacote de ajuda aos frigoríficos
- Gazeta Mercantil: Petróleo deixa o Brasil mais próximo dos EUA
domingo, março 15, 2009
ÉLIO GASPARI
Lula plantou sua crise em maio de 2008
Folha de São Paulo - 15/03/09
Lula tomou a decisão que potencializou os efeitos da crise financeira mundial sobre a economia brasileira no dia 1º de maio do ano passado, antes mesmo que o céu começasse a desabar em Nova Iorque. Ele recebeu a notícia de que o Brasil obtivera o “investment grade” da agência Standard & Poor e desistiu de trocar o presidente do Banco Central.
Uma semana antes, havia convidado o economista Luiz Gonzaga Belluzzo para o lugar de Henrique Meirelles. Nos dias seguintes, confessara-se aliviado por ter resolvido um problema. Faltava apenas chamar o presidente do BC ao Planalto para o ritual da despedida. Com a boa notícia vinda de Wall Street (numa época em que ela ainda produzia boas notícias), a troca foi arquivada e, em janeiro, para felicidade da torcida, Belluzzo assumiu a presidência do Palmeiras.
Não se pode dizer o que Belluzzo faria no Banco Central, mas pode-se garantir que derrubaria a taxa de juros. Dias antes do convite de Lula ao professor, o Copom elevara a Selic de 11,25% para 11,75%. Depois de altas sucessivas, em setembro ela chegou a 13,75%. Em outubro, depois da quebra da casa bancária Lehman e da propagação da crise pelo mundo, os sábios do Copom mantiveram a taxa e assim contribuíram para o desastre da contração de 3,6% do PIB no último trimestre do ano. Feito o estrago, a Selic voltou aos 11,25% e continua sendo a mais alta do mundo.
Lula não sabe, mas sua decisão de manter Meirelles e a turma do Copom seguiu o padrão dos erros políticos cometidos no Brasil ao longo dos últimos 50 anos. Ele se explica pela “teoria da goteira”, exposta há tempos pelo economista americano Irving Fisher. O sujeito tem uma telha quebrada que pinga chuva na sala. Sempre que o sofá molha, pensa em fazer o conserto, mas a chuva passa e ele deixa para depois. É o erro do não fazer. Diferente de outro, que resulta da vontade de fazer. Por exemplo: a decisão dos comandantes militares japoneses e do imperador Hirohito para que se levasse adiante o plano de ataque à base americana de Pearl Harbor.
Fernando Henrique Cardoso criou a crise cambial de 1999 um ano antes, quando desistiu de tirar o economista Gustavo Franco da presidência do Banco Central, perseverando na sobrevalorização do real. O Plano Cruzado explodiu no fim de 1986 porque José Sarney não mexeu nos preços congelados antes da eleição. A bancarrota de 1982, na qual o Brasil perdeu a capacidade de honrar seus compromissos externos, começou em 1978, quando Ernesto Geisel persistiu na política de captação de empréstimos externos atrelados à taxa de juros bancários americanos. Eles foram dos 6,8% do tempo das vacas gordas para 19% em 1981. No ano seguinte começou a “Década Perdida”, que durou pelo menos 12 anos.
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Gasolina barata
Os sábios da Petrobras e do Planalto fabricaram um pesadelo. A política de preços altos da estatal fez com que o barril da gasolina ou do diesel importados chegue ao Brasil custando 30% menos. (Nessa conta entram todas as despesas, inclusive frete e impostos.)Se os comissários não fizerem nada, as importações aumentarão e a Petrobras venderá menos. Se decidirem baixar o preço dos combustíveis, o PAC y otros amigos más perderão sua principal fonte de financiamento. Se fecharem a importação, serão acusados de forçar a patuléia a consumir um produto mais caro.
El deportador
Discutindo a deportação dos boxeadores Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux, o comissário Tarso Genro disse o seguinte: “Como é que nós íamos manter aqui dois jovens cubanos que queriam sair?”. Ele não gosta de ouvir que eles foram deportados. Pena, porque sua Polícia Federal os fez assinar um termo de deportação. O comissário já fez muitas viagens e sempre voltou ao Brasil porque quis. Em nenhum país fizeram-no assinar um termo de deportação.
O ato foi justificado pelo delegado federal Felício Laterça, chefe da PF de Niterói, com as seguintes palavras: “Eles estão sem documentos. Essa já é causa suficiente para serem deportados”. Ou, nas palavras do agente Alessandre Reis: “Foram considerados ilegais. Nessa condição, a deportação é compulsória”. Se o doutor não gosta do verbo deportar, deve tratar do assunto com seus subordinados. (Isso tudo fazendo-se de conta que o comissário não soube que os dois jovens já fugiram de Cuba, onde haviam virado párias.)
O festim romano dos sonegadores
No fim da tarde de quarta-feira, o deputado Tadeu Filipelli (PMDB-DF) estava na tribuna da Câmara e lia seu parecer sobre a Medida Provisória 449, que alivia os débitos tributários inferiores a R$ 10 mil. Mal começara e foi interrompido pelo presidente da sessão, Inocêncio de Oliveira, informando-o de que o debate prosseguiria às 19 horas, quando seria iniciada uma sessão extraordinária. Essa sessão não houve e o assunto ficou para esta semana.
Quem acompanhou o episódio de longe dificilmente terá percebido o que estava em jogo. Entre a chegada da MP 449 e a elaboração de um novo texto pelos deputados, armou-se uma monstruosidade tributária, festim romano de sonegadores e assalto à Bolsa da Viúva. Aquilo que era um mecanismo de reescalonamento de pequenos débitos e de perdão para os pequenos contribuintes que deviam R$ 10 mil transformou-se numa xepa para todos os caloteiros, de quaisquer quantias. Pela nova redação, quem deve R$ 100 milhões à Receita poderá aderir ao novo sistema e terá todas as multas reduzidas numa escala que vai de 30% a 100%. O sonegador poderá fechar a conta em 15 anos. Tem mais: o governo queria que o saldo devedor pagasse juros da Selic (11,25%). Na nova versão, pretende-se aplicar a TJLP (6,25%). É o moto-perpétuo financeiro. O sujeito sonega, aplica o dinheiro na Selic, paga pela TJLP e ainda sobra algum.
O alívio para quem deve até R$ 10 mil e o parcelamento de pequenos débitos renderiam alguma economia para a Viúva, pois deixaria de gastar com a burocracia da cobrança. Com o festim dos deputados, pode-se estimar que, neste ano, a pancada fique em uns R$ 10 bilhões. Isso sem se levar em conta a avacalhação que o socorro aos sonegadores impõe à máquina da arrecadação federal.
Nestes dias, quando os cidadãos cumprem o dever de apresentar suas declarações de Imposto de Renda à Receita, a Câmara dos Deputados, impulsionada pelos perseguidores da diligência do PMDB, mostra que pagar imposto é programa de otário. O melhor negócio é dever, ir para a praia e esperar o próximo festival.
Proposta: amanhã a liderança do governo vai ao microfone e informa que não vota o substitutivo relatado pelo deputado Filipelli. Que vá ao voto o texto original da MP.
DORA KRAMER
A cúpula do DEM se reuniu quinta-feira em São Paulo, anunciou que tanto pode apoiar o governador José Serra como pode ficar com o governador Aécio Neves na disputa pela candidatura a presidente em 2010 e foi jantar no Palácio dos Bandeirantes avisando que jantará em breve no Palácio das Mangabeiras.
Deu a impressão de que decidiu primeiro e foi jantar depois para comunicar a resolução.
Como o encontro com Serra estava marcado havia pelo menos sete dias, o mais provável é que o jantar no Bandeirantes não tenha sido fruto de uma decisão partidária unilateral, mas produto de uma estratégia conjunta.
Qual seja a de começar a arrumar o ambiente para a escolha pacífica do candidato da aliança PSDB-DEM e quem mais se disponha a se engajar na campanha presidencial de 2010 no terreno da oposição.
A fim de que o espírito da coisa ficasse patente mesmo, na sexta-feira o presidente do DEM, Rodrigo Maia, tratou de informar que havia se "equivocado" quando manifestou anteriormente preferência pelo nome de Serra.
Providência semelhante tomou o prefeito Gilberto Kassab, anfitrião da reunião de cúpula, cuja predileção pelo mentor de sua eleição ficou reduzida a mera "posição pessoal".
Não é. O DEM continua comprometido com a candidatura de José Serra. Assim como a direção do PSDB, aí incluídos Fernando Henrique Cardoso, Tasso Jereissati e o presidente do partido, Sérgio Guerra.
De novidade, o que aconteceu foi a necessidade de acelerar o início do jogo para valer. Uma, por causa do agravamento da crise econômica, que vai exigir um posicionamento da oposição. Outra, porque a campanha do governo corre solta e sozinha.
Ninguém faz campanha sem organização e não se organiza nada com movimentos isolados e erráticos. Um equívoco, dentro dessa nova percepção da realidade, é tomar o favoritismo do governador Serra como fato consumado.
Reconheceu-se, na seara oposicionista, que o governador de Minas Gerais não pode ser tratado como um dissidente. Não pode deixar de ter reconhecido o seu direito de querer ser candidato, lutar por espaço político e dar uma satisfação ao eleitorado de seu Estado que gostaria de tê-lo como candidato e detestaria vê-lo sendo apresentado pelo próprio partido como mero coadjuvante de um jogo já decidido.
O ex-presidente da República e presidente de honra do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, considera a oposição franca favorita em 2010, mas põe um senão no raciocínio: "Se não fizer grandes besteiras."
Aí é que está, anda fazendo várias, de acordo com avaliações internas. A principal, ausência de unidade e uma atitude compassiva ante os atritos entre aliados de Serra e Aécio.
Ninguém acredita na possibilidade de o governador mineiro sair do PSDB nem na hipótese de ele incentivar conflitos regionais. Mas, se a Aécio não interessa comprar briga com o primeiro colégio eleitoral do País, a Serra não apetece atrair a ira do segundo maior eleitorado. É forte com São Paulo, mas fica fraco sem Minas.
Na interpretação dos oposicionistas, o grande trunfo seria juntar os dois na mesma chapa.
Ideia, aliás, propagada antes da hora, o que pôs Aécio Neves em segundo plano e o desgostou (para dizer de modo ameno) profundamente.
Acionado o freio de arrumação, o roteiro começa do zero com o trabalho de composição entre os pretendentes. O primeiro ponto é elevar o status de Aécio não apenas dentro do partido, mas em todos os atos para fora dele.
Daí o passo inicial ter sido dado pelo DEM, com o recuo tático do apoio explícito a Serra.
Posto em cena o equilíbrio de forças, parte-se para a definição sobre o que fazer: pôr logo os dois blocos na rua ou esperar mais um pouco, antecipar as prévias ou apostar numa escolha sem disputa.
A escolha por meio de eleição prévia não é um desejo genuíno de nenhuma parte. Mas, caso seja a melhor solução - inclusive para Aécio apaziguar seu grupo político -, há disposição de fazer. Se fossem realizadas hoje, seu mais ardoroso defensor perderia a disputa nos diretórios regionais.
Aécio carrega a bandeira porque é a única disponível para quem quer destaque sem abrir guerra contra o governo agora. Além disso, há sempre a expectativa de que um processo de debate interno possa mudar o quadro e a ação do imponderável que o obriga a estar preparado.
Serra aceitou formalmente a proposta para não criar um atrito insolúvel. Aécio disse "eu quero", Serra respondeu "façamos" e a coisa ficou parada por aí.
Até o gesto do DEM na última quinta-feira, aparentemente inspirado no entendimento de Fernando Henrique de que caberia a Serra o passo seguinte. Mas só depois de tudo combinado entre os interessados, Aécio Neves da Cunha incluído.
Mapa
A oposição joga tudo em Minas e São Paulo porque acha que Lula leva no Nordeste e, no Rio, só vê chance se Fernando Gabeira for candidato a governador.
JOÃO UBALDO RIBEIRO
— Cara, mas isso é nojento. Nojento mesmo.
— É, com certeza. Nojento é pouco.
— Está certo que o sujeito tenha vida pública e fique exposto, mas tudo tem limite. Esse cara passou muito dos limites.
— Que limites? — Os limites da legalidade e da decência! — Ah, sim, claro. Senador ou deputado? — Que senador, não estou falando de nenhum senador.
— De que é então que você está falando? Negócio de limites da legalidade e da decência normalmente é com deputado ou senador.
— Você não estava prestando atenção no que eu falei.
— É, desculpe, de fato me distraí um bocadinho, estou ficando assim com a idade.
— Que coisa, cara, tu até falou “nojento mesmo”, concordou comigo.
— Ah eu falei genericamente. É difícil hoje em dia o sujeito achar uma coisa que não seja nojenta, então eu vou logo concordando. Tudo aqui ficou nojento, concordar não tem perigo.
Mas desculpe, em qual nojentismo você estava falando? — Era nesse caso do delegado Protógenes.
— Um parêntese aqui, antes de você começar a me dizer o que há de nojento no caso dele. Você já notou como deram para aparecer uns nomes estranhíssimos, desde que o Lula assumiu? O sujeito chega a pensar que são extraterrestres.
Mas é tudo muito contraditório.
Esse mesmo não é nome de extraterrestre, tem o som do nome de um filósofo grego pouco manjado. Não sei por quê, agora imaginei um filósofo grego chamado Protógenes. Que é que você acha? Protógenes, o grande filósofo grego pré-socrático, autor da teoria da cacogênese, segundo a qual o ser humano se origina do cocô dos deuses. Taí, esse cara, se não existiu, devia ter existido. Vamos brincar de fazer a biografia dele? Num dos seus fragmentos mais conhecidos, Protógenes, que era ateniense, afirma que Zeus comeu mocotó e aí surgiram os espartanos. Quanto aos...
— Para de esculhambar, cara, ninguém aqui leva nada a sério. É por isso que...
— O que é pra levar a sério, os grampos que ele fez? Onde é que você mora, cara? Pega o jornal ali na banca, que a gente em duas horas, no máximo, grampeia o telefone de quem quiser.
Vê lá, tem um monte de detetives particulares. Todos eles grampeiam telefone numa boa, dizem que não, mas grampeiam. Portanto, é altamente democrático que os poderosos sejam também grampeados.
—Eu acho que não é com esses métodos que se faz justiça.
—Nisso você tem razão, não se faz mesmo. Você já viu alguma gravação levar alguém para a cadeia aqui? De cabeça assim não sei enumerar, mas já cansei de ouvir gravações e até filmagens de gente recebendo suborno em dinheiro vivo, gente transando droga pesada, acho que já vi e ouvi de tudo.
Só não vi acontecer nada a quem foi flagrado. Então qual é a diferença? —Ah, eu não penso assim. O direito à privacidade é sagrado.
—Deixa de ser bobo, cara, isso não existe. Pode ter existido, mas acabou há muito tempo. Cada dia acaba mais. Tem chip pra tudo, pra implantar, pra engolir, pra botar na roupa e assim por diante, você tendo conhecimento ou não. Não manjo muito telefone celular, mas com certeza já apareceram modelos que localizam o aparelho via satélite, ou qualquer coisa assim. Aí o cara atende o telefonema da mulher, diz que está na Avenida Rio Branco, mas ela vê que ele está num motel na Barra.
—Pois é, você já sentiu que estrago isso é? —Que estrago? Uma mão lava a outra, meu filho, no fim tudo se equilibra.
Ou você acha que interessa a todas as mulheres, ou mesmo à maioria, ter um celular assim? Quando o sujeito vai a um a motel, vai com uma mulher, mulher essa... Deixa de ser besta, cara, no fim tudo se equilibra. Na verdade, você me fez desenvolver um raciocínio que eu acho perfeito. O grampeamento geral é um avanço da democracia, todo mundo sabendo dos podres de todo mundo. Vai ser, inclusive, um alívio geral.
O deputado terá certeza de que todo mundo é testemunha de que ele é um ladrão descarado e então não precisará se desgastar, alegando pureza e inocência. Ele simplesmente dirá “sou, mas quem não é?” e a maioria vai ter de botar o rabo entre as pernas e calar a boca. Não, não, meu amigo, eu acho que, se o Protógenes fez o que dizem mesmo, está prestando um grande serviço à nação, vamos finalmente nos ver como realmente somos, grande Protógenes, encontrou a chave para compreendermos nossa identidade.
—Tu tá é de porre, cara.
—Um brinde ao Protógenes! Aos dois Protógenes! Cara, depois falam que o boteco não é um manancial de cultura e sabedoria. Esse cara devia ser canonizado, livrou um país inteiro da necessidade de ser hipócrita, São Protógenes do Grampo, o Grande Equalizador. Vamos saber agora por que, com um povo tão honesto, só os políticos são desonestos.
— Tu tá é delirando, cara.
—O mesmo disseram de Colombo e Pasteur, eu sei de que estou falando, pode ficar com seu moralismo obsoleto aí. Me diz uma coisa, o que é que tu acha que Tupã comeu antes de os brasileiros aparecerem?
sábado, março 14, 2009
DIOGO MAINARDI
Diogo Mainardi
Sou o guru de Protógenes
"No documento, sou tratado como um preceptor.
Ele resume meus artigos e recomenda seguir
meus passos na denúncia da cumplicidade
entre Daniel Dantas e os mensaleiros"
Protógenes Queiroz é a Glória Perez da espionagem nacional. É o "Slum-dog Millionaire" da PF – e bota "Millionaire" nisso. Ele sempre dá um jeito de citar Mahatma Gandhi. Ele sempre dá um jeito de usar um termo hinduísta. Se é assim, minha coluna, neste cantinho de página, é seu retiro indiano, é seu ashram. E eu tenho de ser considerado o seu Sathya Sai Baba. O seu guru.
Na última semana, o conteúdo do computador de Protógenes Queiroz foi encaminhado à CPI dos Grampos. Nele, há um documento intitulado "Análise de dados de fontes abertas". Tem 43 páginas, seis das quais dedicadas a mim. Quantas linhas sobre meus relacionamentos amorosos? Zero. Quantas linhas sobre meu talento para os negócios? Zero. No documento de Protógenes Queiroz, sou tratado cerimoniosamente: como um guia, como um mestre, como um preceptor. De fato, ele resume detalhadamente meus artigos, reunidos no livro Lula É Minha Anta, e recomenda seguir meus passos na denúncia da cumplicidade entre Daniel Dantas e os mensaleiros.
Alguns dias atrás, durante um jantar em sua homenagem, Protógenes Queiroz declarou o seguinte: "O Brasil progrediria 100 anos se fizesse o impeachment de Lula". Cem anos é demais. É superestimar o papel de Lula na história nacional. Quem sabe 100 dias. Ou 100 horas. Mas Protógenes Queiroz acolheu meus ensinamentos e repete obedientemente meu antigo mantra – impeachment, impeachment, impeachment –, que já caiu em desuso. Sobramos apenas nós dois nessa Mumbai institucional: Protógenes Queiroz e eu.
A CPI dos Grampos recebeu outro documento do computador de Protógenes Queiroz. É aquele que escarafuncha a intimidade de Dilma Rousseff. Está armazenado na pasta "Zeca Diabo", o nome dado por ele a José Dirceu. Trata-se de um relatório clandestino, que parece reproduzir um diálogo entre um informante do delegado e alguém com acesso ao ambiente da ministra. Dilma Rousseff é associada a dois nomes. O primeiro nunca dependeu dela para fazer carreira, por isso tenho de calar o bico. O segundo – Valter Cardeal – é mais constrangedor. Em 2003, ele foi nomeado por Dilma Rousseff para a diretoria da Eletrobrás. No mesmo período, tornou-se presidente do conselho da CGTEE e da Eletronorte. Em 2006, ganhou o cargo de presidente da Eletrobrás. Sempre na esteira de Dilma Rousseff. No ano seguinte, foi acusado de envolvimento com o esquema de propinas da Gautama, depois de ser grampeado pela PF. Sim: ele foi grampeado. Sim: pela PF.
Protógenes Queiroz tem de responder a duas perguntas na CPI dos Grampos. Primeira: quem é o autor do relatório sobre Dilma Rousseff? Segunda: o que ele pretendia fazer com isso? Namastê.

