sexta-feira, fevereiro 27, 2009

O IDIOTA E OBAMA

LULA E OBAMA

Circula pela internet uma deliciosa ficção: a suposta conversa entre o presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, e o nosso Luiz Inácio Lula da Silva, que conversaram, é fato, por 25 minutos, conforme divulgou po Palácio do Planalto. A conversa, segundo a assessoria do presidente Lula, girou em torno de biocombustíveis e Rodada de Doha.

Como Lula não fala inglês e Obama não fala português, a coisa deve ter sido bastante complicada. Mais ou menos assim:

Obama - Hello, this is the president of the United States, Barack Obama. I would like to talk to president Lula, please.

Lula - Puta merda, fudeu. Chama aquele barbudinho que parece um periquito.

Franklin Martins - O Celso Amorim?

Lula - Acho que é, são tantos ministros, puxa sacos... Deve ser esse mesmo. Chama o periquito porque tem alguém falando ingrês no telefone, porra. Eu só falo brasileiro.

Obama - Lula, is that you?

Lula - Me Lula, sim. Posso te chamar de Barack? You, Barack? Me, Lula?

Obama - I beg your pardon?

Lula - Beque pardal? (para Franklin) Bota uma música de espera, porra, enquanto o periquito não vem. Você não seqüestrou um embaixador americano? Você não fala inglês, não, seu merda?

Franklin Martins - Não me dou com os imperialistas, mas eu mesmo posso fazer a música. Sou comunicador (coloca a boca no telefone): "caminhando e cantando e..."

Lula - Canta outra, merda, você só sabe essa. Toda vez é a mesma, isso tá ficando um porre.

Franklin Martins - Mas o senhor gosta de porre, presidente!

Obama (para assessores) - I think I hear some voices... Lula?

Franklin Martins - (cantando) "apesar de você amanhã há de ...". (alguém entra) O Celso Amorim chegou, presidente. Ufa.

Lula - Porra, seu inútil, vem logo traduzir esta merda de conversa. Já passou um tempão. Uns 10 minutos. Onde você tava, caralho?

Celso Amorim - Desculpa, presidente. É que eu nunca sei quando a tarefa é minha ou do Marco Aurélio.

Lula - Marco Aurélio... hum, é o ministro da Fazenda?

Celso Amorim - Não, da Fazenda é o Mantega. Marco Aurélio é aquele do top, top (faz o gesto). Tá lembrado, presidente?

Lula - Claro. Foi engraçado pra caralho. (começa a fazer o gesto top top). Hahaha. Se não fossem esses sanguesungas da imprensa...

Obama - My God. I have a million things to solve and they don’t answer me. Hillary, can you help me here?

Lula - Começa a traduzir aí, periquito. Pergunta se ele quer conhecer a nossa caninha 51.

Celso Amorim - Presidente, não acho que esta seria uma boa...

Lula - Pergunta, porra. Eu tô mandando.

Celso Amorim - Good morning, president Obama. President Lula would like to ask if you want to come and visit us to learn about our little sugarcane fifty one.

Obama - What?

Celso Amorim - Ele disse que adoraria.

Lula - Eu sabia! Esse negão não me engana! Pergunta quantas rodadas de caninha ele agüenta.

Celso Amorim - Rodada?

Lula - É, seu puxa saco. Vira-vira de cachaça, cada hora um. Rodada de caninha!

Celso Amorim - How many rounds of little sugarcane fifty one can you drink, Mr. President Obama?

Obama - Rounds of what? The only round I know is the Doha Round.

Celso Amorim - Ele disse que agüenta (cara de desespero)... o dobro de V. Exa.! Isso! Doha, dobro, é tudo a mesma coisa, presidente Lula.

Lula - Eu disse! Esse é o cara, mas ele não me ganha, não. (alguém abre a porta) Ô Marta Suplicy, vem aqui pra eu te apresentar o Obama!

Franklin Martins - (falando ao pé do ouvido do presidente) É a Marisa Letícia, sua esposa, presidente.

Lula - Caralho, toda hora eu faço essa confusão. Qualquer dia eu vou me sifu...

Obama (para Hillary Clinton) - Hillary, it was the craziest conversation since I was elected. Being president is harder than I thought!

Obama desliga o telefone.

Lula (para Franklin Martins) - Divulga uma nota aí,
dessas pra jornalista comprado, contando da minha
conversa com o Obama, porra. É tarde, vou dormir... 

Franklin Martins - E o que dizemos para a imprensa? 

Lula - Inventa qualquer coisa, caceta, ou deixa cada uma inventar o que quiser. O que importa, porra, é saberem que o Obama me ligou.

FERNANDO GABEIRA

O bloco da quinta-feira

Folha de S. Paulo - 27/02/2009
 

Muitos blocos saem na Quarta-Feira de Cinzas. Um deles estava preparado para 48 horas depois. Era o bloco mascarado do PMDB do Rio.
Na quinta, preparava a mudança na diretoria do fundo de pensão Real Grandeza, dos funcionários de Furnas. Houve gritaria, o bloco recuou. Mas está sempre na tocaia, pronto para o bote.
Furnas foi entregue ao PMDB do Rio. A empresa já havia sido estrela de escândalos no tempo de um diretor chamado Dimas Toledo. Dizia-se dele que controlava 33 deputados e dois governadores. Mas não resistiu ao impacto do mensalão.
Passou algum tempo e Furnas cai nas mãos de um novo dirigente talvez mais voraz que o outro. Seu objetivo não é apenas conduzir a empresa, mas também os milhões da aposentadoria dos funcionários. Por que um partido quebraria tantas lanças para ocupar um fundo de pensão?
O domínio fisiológico será sempre assim. Se há gritaria, recuam. Quando todos se distraem, atacam de novo. É a lógica que empregam no Congresso. Quando houve o movimento contra os sanguessugas, recuaram e permitiram que se aprovasse o voto aberto, em primeiro turno. A pressão foi atenuada e jamais se votou o segundo turno.
A eleição do corregedor do castelo foi outro exemplo. Ele recuou com a grita. Concederam mais transparência, divulgando notas da verba indenizatória. Esperam agora o refluxo da onda.
É uma pena o Brasil seguir assim. Não pelas lutas e denúncias, pois isso faz parte de qualquer processo, inclusive o norte-americano. Aqui, a dupla Sarney-Renan é fixada no Ministério de Energia. Nosso ministro é o Lobão. O dos EUA é um Prêmio Nobel de Física, Stephen Chu. Energia é tão importante lá como aqui. Diferente é o modo de governar. Lobão e Chu são um bom tema para meditar na Quaresma.

PAINEL

Telhado de vidro


Folha de S. Paulo - 27/02/2009
 

O grupo que dá os retoques finais no pacote habitacional a ser anunciado por Lula avisou o Palácio do Planalto: a meta de construir 1 milhão de casas até dezembro de 2010, esboçada em declarações extraoficiais, é ambiciosa demais para ser atingida. Segundo a equipe, a indústria de construção civil não tem "condições logísticas" de atingir tal ritmo.
Diante desse diagnóstico, assessores de Lula estudam duas possibilidades: a) prometer fazer as casas num período "em torno de dois anos", o que incluiria o mandato do próximo presidente; b) simplesmente não mencionar prazo quando do anúncio das medidas. O pacote ainda não tem data para ser lançado.


Afinidades 1
Na mira da CUT, que quer rachar o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, a Conlutas pediu ajuda à Força Sindical uma vez anunciadas as 4.200 demissões na Embraer. A ação na Justiça contra os cortes é o primeiro resultado da parceria Força-Conlutas. 

Afinidades 2
Para lembrar: a CUT é PT; a Conlutas, PSTU; a Força Sindical domina o PDT, partido do ministro do Trabalho, Carlos Lupi. 

Pouso forçado
Lançada no ano passado, a mais recente edição da revista em inglês da Embraer prevê expansão ininterrupta do mercado de aviões até 2027: "A Embraer acredita que a demanda por tráfego aéreo mundial vai crescer 4,9% ao ano". 

Súmula
O silêncio de ministérios e órgãos federais ligados à reforma agrária a respeito das declarações do presidente do Supremo, Gilmar Mendes, segundo quem o governo é leniente com as ilegalidades cometidas pelo MST, foi uma decisão gestada na Presidência da República. 

Tô voltando
As invasões no Pontal do Paranapanema (SP) e a morte de seguranças por sem-terra em Pernambuco levaram o presidente do Incra, Rolf Hackbart, a antecipar o retorno das férias. 

Timing
Segundo técnicos do Incra, José Rainha Jr. (MST) ouviu, pouco antes do Carnaval, que o governo de José Serra (PSDB-SP) prepara um grande pacote de regularização fundiária a ser implementado até o fim de 2010. 

De fora
O presidente do TCU, Ubiratan Aguiar, diz que discursou na abertura do encontro dos prefeitos "como convidado". O evento motivou ação da oposição no TSE.

Muralha
Um veterano de disputas na base aliada de Lula observa a dificuldade do PMDB para instalar seus prepostos na diretoria do Real Grandeza e conclui: "Nos fundos de pensão o PT não deixa ninguém mais pôr a mão". 

Linha direta
Elga Lopes, nomeada por José Sarney (PMDB-AP) para ocupar a diretoria de comunicação do Senado, com responsabilidade sobre a rádio e a TV da instituição, trabalhou nas campanhas de Roseana Sarney no Maranhão em 1998 e 2002. Mais recentemente, comandava o serviço 0800 da Casa. 

Personagem
Na esteira das novas denúncias contra o governo de Yeda Crusius (PSDB-RS), resultado de fitas que o PSOL diz ter colocado nas mãos da Justiça, um nome passou a ser repetido nos corredores da Assembleia: Walna Vilarins Menezes, braço direito da tucana. 

Caderneta
Segundo aliados da governadora, é Menezes quem controla as fichas de "A a Z" dos ocupantes de cargos públicos. Ela também fazia o elo com a representação gaúcha em Brasília, que foi chefiada por Marcelo Cavalcante, encontrado morto na semana passada em circunstâncias ainda obscuras. 

Bandejão
A Casa Civil abrirá na semana que vem os envelopes para anunciar a empresa que ganhou a licitação para fornecer gás às cozinhas do restaurante do Palácio do Planalto e das residências oficiais da Presidência. O valor fixado é de R$ 8.627, em contrato que vai até dezembro. Em seguida, será a vez do pregão para comprar cartuchos de impressora, com gasto estimado em R$ 3 milhões.

Tiroteio 

"Grana preocupado com o desemprego é novidade. Há anos que ele só se preocupa com a "logística" das campanhas do PT. " 

Do deputado federal 
VANDERLEI MACRIS (PSDB-SP) sobre Carlos Alberto Grana, presidente da Confederação dos Metalúrgicos da CUT, que apontou falta de ação do governo de José Serra para aliviar a perda de postos de trabalho em São Paulo. 

Contraponto 

Faísca e Espoleta

A base do governo na Câmara travava um embate interno em sessão para discutir mudanças na legislação das medidas provisórias. Convencido de que a discussão rumava para lugar nenhum, Miro Teixeira (PDT-RJ) protestou:
-Não vamos sair desse "conversê"...
No plenário, Ciro Gomes (PSB-CE) concordou com o colega de "bloquinho", que então emendou:
-Com uma viola na mão, você e eu podemos formar uma dupla sertaneja: Ciro e Miro!

PARA....HIHIHIHI

NA PRAIA

...era uma vez um cara que era cotoco dos braços e das pernas só tinha os toquinhos.
uma vez os amigos dele o chamaram pra ir a praia, muito feliz ele questionou os amigos:
- mais eu não tenho os braços nem as pernas como eu vou??
eles responderam:
- nóis leva você no colo!!!

e então ele foi com os amigos.
ele tava la na praia muito feliz por poder ver o mar novamente, os amigos dele falou
_avisaram que iriam até uma barraquinha comprar cerveja e ja voltavam
e ele ficou la sózinho...
e a maré foi subindo estava anoitecendo cada vez mais
ele pedia a Deus que colocasse uma pessoa ali pra leva-lo pra casa.
Depois de muita oração chega um bêbado próximo dele e o vendo ali falou: bebado
_- seu moço me leva pra casa, por favor!!!!!
o bebado pegou ele no colo e foi levando ele pro mar colocou-o gentilmente na água e disse:
- vai lá tartaruguinha, volta pra tua casa....

IDIOTAS E PALHAÇOS



ELIANE CANTANHÊDE

Além dos escândalos


Folha de S. Paulo - 27/02/2009
 

Ao longo de 2008, as 20 comissões permanentes da Câmara dos Deputados, as especiais e as CPIs ouviram 2.505 depoimentos sobre os mais variados assuntos, teoricamente, de interesse nacional. Pesquisadores, médicos, professores, economistas, empresários, policiais e líderes sindicais, de diferentes igrejas e de movimentos de mulheres, gays, negros. 
É de comissões, debates e personagens assim que surgem novas leis como as do transplante, do airbag, da CNTBio (a comissão técnica de biossegurança), de arte, de cultura, de educação, de esportes. Muito pouca gente, porém, vê, ouve, comenta ou participa desses debates, soterrados pelos escândalos. 
Dizia-se que o Congresso funcionava como uma cidade, com seus 513 deputados e 81 senadores, milhares de funcionários, centenas de jornalistas, dezenas de visitantes por dia e uma profusão de lobbies e pressões, às vezes legítimas, em outras nem tanto. A "caixa de ressonância da sociedade". Mas, na prática, o Congresso não se respeita mais nem é mais respeitado. Em vez de leis inclusivas, oferece castelos tão mais concretos quão menos declarados no IR. Bons funcionários são tragados, os "peixes" nadam de costas, e renovação política não há. São sempre os mesmos nos mesmos postos, com as mesmas promessas vazias e os mesmos interesses, que se estendem pelo Executivo. O exemplo do momento, entre tantos, é o milionário fundo de pensões de Furnas, disputado a tapa. 
Os líderes da resistência e os guerreiros das comissões têm de sair da toca e gritar, como o deputado Fernando Gabeira, agora meu colega de página às sextas-feiras. Você pode não acreditar, mas eles existem, como existem bons temas, bons debates e boas leis em gestação. O problema é que eles (e os temas, os debates e as boas leis) cada vez são menos e têm menos visibilidade. Estão perdendo a guerra. Junto com eles, perde o país, perdemos todos nós.

DORA KRAMER

Real baixeza


O Estado de S. Paulo - 27/02/2009
 
A retirada da proposta de substituição de diretores da Fundação Real Grandeza abafa, mas não resolve esse obscuro caso do fundo de pensão dos funcionários de Furnas.

Por um triz não se deflagra uma greve inusitada e potencialmente explosiva para o governo Luiz Inácio da Silva: de um lado, os sindicalistas, a base social; de outro, o fisiologismo da base política.

O presidente interferiu em cima do laço. Como sempre, ao sentir o desagradável aroma do desgaste a rondar sua excelsa pessoa.

Mas, lamentavelmente, para o objetivo de transformar o dito em não dito, Lula não agiu a tempo de evitar que o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, abrisse a O Globo o coração.

"Isso é uma bandidagem completa! Esse pessoal está revoltado porque não quer perder a boca. O que eles querem é fazer uma grande safadeza", disse ele ao jornal em defesa das mudanças na diretoria do fundo de pensão preconizadas pela direção de Furnas, empresa integrante do robusto patrimônio federal do PMDB. 

Com aqueles argumentos, o ministro pretendia esclarecer que os funcionários de Furnas estavam equivocados ao enxergar motivações político/fisiológicas na pressão "de cima" para a troca de diretores.

A mudança vinha sendo tentada desde o fim de 2007, já provocara a renúncia de seis conselheiros da fundação, mas nunca tivera maior repercussão nem merecera atenção especial do Palácio do Planalto.

Tanto que, quando os funcionários marcaram protestos e paralisações para ontem, dia da decisão sobre as alterações, Lula chamou o ministro a fim de "entender melhor a situação".

Pela decisão do presidente de suspender a reunião do conselho, Edison Lobão não conseguiu convencê-lo de que se armava "uma grande safadeza".

O próprio Lobão ao sair do encontro com Lula já falava na necessidade de cotejar razões de parte a parte para "encaminhar a solução com tranquilidade".

Mas o presidente Lula preferiu a celeridade das decisões políticas e mandou informar os funcionários sobre a retirada da proposta ontem mesmo, antes da reunião do conselho deliberativo.

Suspenderam os protestos, o ministro calou-se, mas sobraram as acusações lançadas à ação do ventilador. Continuam lá, paradas no ar.

Da parte do ministro, a afirmação peremptória sobre a urdidura de uma "bandidagem completa". Da parte da Associação dos Funcionários de Furnas, a convocação, por escrito, dos protestos contra "atos inescrupulosos que ameaçam o patrimônio da fundação em nome de interesses políticos para a campanha eleitoral de 2010".

Resumo do embate: o maior partido da coalizão governista, cogitado para compor a chapa da sucessão, é acusado de tentar tomar de assalto o fundo de pensão de Furnas para alimentar caixa 2 da campanha e, no revide, chama os controladores do fundo de safados defensores das respectivas sinecuras.

A interferência do presidente teve o poder de conter uma guerra de extermínio, mas não teve o condão de absolver autores de "atos inescrupulosos", não erradicou o foco da "bandidagem" nem fez os contendores se sentirem na obrigação de se retratar.

Ficou tudo como estava. Naquela nada santa obscuridade que até hoje deixa o respeitável, e pagante, público sem explicação sobre o que queria dizer exatamente o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, ao apontar "ineficiência" e "corrupção" na Fundação Nacional de Saúde, também sob a gerência do PMDB.

O mesmo terreno sombrio por onde transitou o partido para obter a presidência de Furnas retardando nas mãos do deputado Eduardo Cunha o relatório da CPMF na comissão especial da Câmara, em 2007.

Pântano tão caudaloso quanto o descortinado pelo senador Jarbas Vasconcelos sob os pés do partido, atolado em suas contradições e, ainda assim, silencioso, temeroso, indefensável, mas protegido, cerimoniosamente reverenciado e, portanto, devidamente autorizado.

Essa maneira de resolver problemas imediatos varrendo as coisas para debaixo do tapete a médio e longo prazos vai banalizando as denúncias e firmando a convicção de que a "maracutaia" outrora condenada agora compensa.

Carta da mesa

Em março do ano passado, o então primeiro-secretário da Câmara, Osmar Serraglio, distribuiu aos companheiros de bancada do PMDB uma carta denunciando as ações dos deputados Eduardo Cunha e Leonardo Picciani, ambos da seção do Rio de Janeiro, na Comissão de Constituição e Justiça.

Segundo o relato feito por ele, Picciani e Cunha montaram um "balcão de negócios" a partir do comando da CCJ, onde se revezavam para "manipular relatórios de projetos de interesse do governo em troca de cargos no Executivo e de posições importantes do Legislativo".

Ninguém deu bola: nem partido, nem governo, nem direção da Casa, nem o governador Sérgio Cabral Filho nem parlamentares de outros partidos - notadamente do PT - que viviam reclamando da dupla pelos cantos.

EDITORIAL

Alguém leu a Lei

O Estado de S. Paulo - 27/02/2009
 
Enfim apareceu alguém, nos Poderes da República, que reproduziu para a sociedade brasileira, de forma simples, direta - e, justamente por isso, de maneira absolutamente inédita -, o que diz a Lei sobre as invasões e ocupações realizadas pelos sem-terra e a total complacência vigente, em relação a tal ilegalidade, que culmina com a concessão de dinheiro público a organizações clandestinas e criminosas, como o Movimento dos Sem-Terra (MST). O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, afirmou claramente que é ilegal o repasse de recursos públicos para movimentos sociais que ocupam terras. "O financiamento público de movimentos que cometem ilícito é ilegal, é ilegítimo", disse o ministro, enfatizando a verdade jurídica elementar, mas tão esquecida por autoridades do País: "No Estado de Direito, todos estão submetidos à lei." 

Essas palavras do presidente da mais alta Corte de Justiça do País vieram a propósito do "Carnaval Vermelho", comandado pelo líder dissidente do MST José Rainha Junior, que durante o carnaval produziu 20 invasões, com cerca de 2 mil militantes, no Pontal do Paranapanema - o que comentamos no editorial Onde a Justiça pouco vale, publicado na edição de ontem. Nesse editorial também comentávamos, a propósito, o massacre dos quatro seguranças da Fazenda Consulta, em São Joaquim do Monte (no agreste pernambucano), cometido por quatro militantes do MST - e justificado pelo líder Jaime Amorim com o argumento de que "não mataram pessoas comuns". O brutal cinismo dessa explicação só poderia derivar da sensação de absoluta impunidade que essa organização tem desfrutado há muito tempo.

Gilmar Mendes cobrou uma participação mais efetiva do Ministério Público, tanto em relação às invasões quanto ao repasse de dinheiro público a movimentos fora da lei. E, para deixar ainda mais clara a interpretação da lei fixada pelo Supremo, lembrou que em 2001 o STF analisou a legalidade do Estatuto da Terra, que proíbe o repasse em caso de invasões. Na época, os ministros rejeitaram liminar para que partes da lei fossem derrogadas, pelo que Mendes reiterou que "o tribunal rechaçou a inconstitucionalidade". 

Depois de condenar o massacre dos quatro em Pernambuco e referir-se ao tipo de violência "que começa com características de protesto", disse o presidente do Supremo: "Eu tenho a impressão de que a sociedade tolerou excessivamente esse tipo de ação, por razões diversas, talvez um certo paternalismo, uma certa compreensão, mas isso não é compatível com a Constituição, não é compatível com o Estado de Direito." De nossa parte - e não é de hoje que nesta página tratamos do MST e assemelhados - não cremos que a sociedade brasileira tenha um espírito de tolerância paternalista em relação a esses movimentos que, sistematicamente, praticam crimes contra as pessoas e desrespeitam (ou destroem) bens privados ou públicos. O que a sociedade tem sentido é impotência no combate a tais práticas, uma vez que o Poder Público não faz cumprir a lei ou não pune os que a desrespeitam. E quando proprietários de fazendas - às vezes as mais produtivas - tentam reagir a invasões, contratando seguranças para protegê-las, pois sozinho ou só com a própria família não terá como enfrentar centenas de pessoas, logo chegam as forças policiais para impedir que "perturbem a ordem"...

Aos invadidos restam as tentativas - às vezes tão insistentes quanto inócuas - de defender suas propriedades com pedidos judiciais de reintegração de posse, que ganham, mas não levam, visto que os invasores retornam, impunemente. Até podem haver iniciativas como a da União Democrática Ruralista (UDR), que pediu judicialmente a prisão do líder sem-terra José Rainha Júnior, por seu Carnaval Vermelho - até por ser este cidadão um recordista em processos judiciais, inclusive envolvendo crime de morte, dos quais sempre consegue escapar, mesmo depois de condenado, como está, a 10 anos de prisão. Há também fazendeiros que cogitam em processar o Estado e pedir indenizações pelo prejuízo sofrido em razão da leniência do Poder Público em relação ao MST e assemelhados. Para todos os que se sentem abandonados pela Justiça a declaração do presidente da Suprema Corte é uma mensagem de alento e de esperança.

GOSTOSA


CHUPANDO A UVA

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ILIMAR FRANCO

Ponto final

Panorama Político 
O Globo - 27/02/2009
 

Em meio a uma disputa no governo sobre a abrangência da Lei da Anistia, o presidente Lula disse ontem que ela foi aprovada pelo Congresso e precisa ser respeitada. A declaração foi gravada por Jorge Oliveira, diretor de documentário sobre o operário Manoel Fiel Filho, morto pela ditadura militar. Lula encerra assim a polêmica sobre a punição de torturadores levantada por Tarso Genro (Justiça) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos). 

Pacote de bondades 
Relator da medida provisória que cria um fundo garantidor para empreendimentos do setor elétrico, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) vai incluir no texto autorização para que a União também seja avalista de parcerias público-privadas para a construção ou a reforma de estádios para a Copa do Mundo de 2014. A emenda foi apresentada pelo deputado Zezéu Ribeiro (PT-BA) e abrangia somente as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, mas o relator incluirá todos os estados. "Isso facilita a obtenção de financiamentos, ajuda a viabilizar as obras, ainda mais na crise. E a emenda é apenas autorizativa", disse Cunha. 

O Aécio é o Suplicy do Serra" - Arnaldo Madeira, deputado federal (PSDB-SP), sobre a insistência do mineiro em disputar prévias com o governador de São Paulo 

MUDANÇA
Mais identificado com a Zona Sul, o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) tenta mudar essa imagem, de olho em 2010, quando deve disputar para senador ou governador. No mês passado, ele foi ao Norte do estado acompanhar o trabalho da Defesa Civil no socorro aos atingidos pelas chuvas. Na Câmara, está empenhado na elaboração de uma política nacional de adaptação do país às mudanças climáticas. 

Fila 
Senadores presentes na cerimônia de assinatura das concessões das linhas de transmissão das usinas do Madeira, ontem, saíram dizendo que Edison Lobão (Minas e Energia) fez discurso de candidato a vice de Dilma Rousseff.

Instrumento 
A CGU aproveitou portaria publicada ontem no Diário Oficial para fazer propaganda do PAC. Diz o texto que o programa "se traduz em um instrumento de universalização dos benefícios econômicos e sociais para todas as regiões do Brasil". 

A queda do microcrédito 
As operações do Banco Popular, braço do Banco do Brasil, para microcrédito caíram de R$149 milhões em 2006 para R$44,6 milhões em 2008. Baseado nisso, o deputado Otávio Leite (PSDB-RJ) apresentou emenda à medida provisória que capitalizou o BNDES em mais R$100 bilhões para aumentar a oferta de crédito a grandes e médias empresas. Leite quer destinar 3% desse montante a micro e pequenas empresas. 

Princípio de incêndio 
O PMDB do Paraná aproveitou declaração feita pelo presidente Lula a um jornal local, admitindo que o senador Osmar Dias (PDT) pode ser o candidato a governador da base aliada, para precipitar conversas com o PSDB, com vistas a 2010. A ideia é lançar o prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB), para o governo do estado e o governador Roberto Requião (PMDB) para o Senado.
O ministro Paulo Bernardo (Planejamento) está tentando apagar o incêndio. 

O PRESIDENTE Lula, com Dilma Rousseff a tiracolo, irá à Fiesp segunda-feira, em evento de comércio exterior, com o primeiro-ministro da Holanda, Jan Peter Balkenende. 

ATENDENDO a pedidos, o presidente Lula vai abrir sua agenda, a partir da segunda semana de março, para receber os partidos da base aliada. 

O SENADOR Eduardo Suplicy (PT-SP) lia ontem, na tribuna, carta de Cesare Battisti, até ser interrompido por Mão Santa (PMDB-PI), que presidia a sessão. Suplicy pediu mais 20 minutos. "Vai demorar o tempo do julgamento de Nuremberg", suspirou Mão Santa.

CLÓVIS ROSSI

Maçanetas e dignidade

Folha de São Paulo - 27/02/09

SÃO PAULO - Volto a uma história contada pelo velho sábio que habitava esta Folha. Uma vez, ele perguntou a um governador biônico, seu amigo, porque gostava tanto de ser governador.
Resposta: "Ah, meu caro, você não sabe como é bom passar quatro anos sem precisar nem sequer pôr a mão na maçaneta da porta" (não havia reeleição naquela época; imagine a delícia agora que o cidadão passa oito anos tendo sempre um "aspone" para cuidar da delicada tarefa de abrir portas).
Na verdade, não são apenas governadores (ou prefeitos ou presidentes) que gozam das benesses de ter casa, comida e roupa lavada enquanto exercem o cargo. Deputados e senadores também, embora em menor escala. É natural, por isso, que políticos em geral tenham uma ideia apenas virtual de como é abrir uma porta, para não mencionar verdadeiras dificuldades.
Essa distância só é quebrada, infelizmente, em caso de tragédia, como a que acaba de ocorrer com David Cameron, líder do Partido Conservador britânico, que, se a eleição fosse hoje, seria o substituto de Gordon Brown como primeiro-ministro, dizem as pesquisas. Cameron perdeu o filho Ivan, de seis anos, vítima de um tipo raro de epilepsia. Humanizou-se em consequência, tanto no trato que lhe dedicou a mídia local como o mundo político.
A questão é saber se a humanização irá adiante ou, como escreve o jornal "The Times", se "seu partido, informado pela experiência do que é depender tão pesadamente do Serviço Nacional de Saúde [público], mudará a Grã-Bretanha?".
Posto de outra forma: os políticos, de direita ou de esquerda, entenderão que a grande maioria da população, no Reino Unido como no Brasil, é obrigada a pôr a mão na maçaneta da saúde pública e que, por isso, ela deveria abrir a porta para a dignidade?

JÂNIO DE FREITAS

A bandidagem

Folha de São Paulo - 27/02/09


AO MENOS por ora, Lula sustou um escândalo explosivo que teria como palco o grande cofre do fundo de pensão Real Grandeza, mas ficou só no passo inicial. Com isso, o comprometimento indireto do seu governo e dele próprio com as causas do escândalo, por nomeações "políticas" que têm fins além da política, torna-se direto, claro e acima dos demais. A menos que não se limite a desautorizar o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, e o afaste por ser o operador confesso, no governo, da entrega dos R$ 6,5 bilhões do fundo à manipulação de um grupo do PMDB, digamos por delicadeza, fisiológico.
O ponto de partida para a compreensão básica do episódio é o conhecimento de que os grandes fundos de pensão, como o Real Grandeza dos funcionários e pensionistas de Furnas Centrais Elétricas, rendem fortunas aos grupos que os dirijam sem escrúpulos. Há bancos e corretoras sempre prontos a grandes recompensas aos que lhes destinem boas fatias dos bilhões de um fundo, na movimentação diária que faz em aplicações de Bolsa e participações acionárias.
Nomeado presidente de Furnas por indicação do PMDB, para substituir dirigentes do Real Grandeza por também indicados do PMDB, o ex-prefeito carioca Luiz Paulo Conde foi derrotado em duas tentativas (2007 e 2008) de substituí-los. Venceu-o o movimento de resistência dos funcionários da estatal. Conde poderia ter encerrado com mais compostura a sua vida pública, afastado dela e da presidência de Furnas pela força de um câncer. Por indicação do mesmo PMDB e com o mesmo objetivo, substituiu-o Carlos Nadalutti Filho, que montou a operação a ser afinal consumada ontem, em reunião do conselho deliberativo de Furnas. Mas suspensa por Lula, já à última hora, sob intenso movimento público de resistência dos filiados ao Real Grandeza e forte noticiário de parte da imprensa.
Antes, porém, Carlos Nadalutti Filho até prestara um serviço como presidente de Furnas. Com o chão esquentando sob seus pés nos últimos dias, não fez cerimônia para afirmar que tudo, o que incluía substituições aberrantes no conselho deliberativo para a reunião, era feito "por orientação do ministro Edison Lobão". Mais explícito, impossível.
Pouco antes da intervenção de Lula, que lhe coube divulgar e justificar, Lobão tratou de lançar acusações aos dirigentes do Real Grandeza que esperava ver logo afastados, declarações que se prestavam a confundir e aplacar as prováveis reações da imprensa. Atribuiu-lhes uma alteração de estatuto para permanecerem na direção, quererem fazer "uma grande safadeza" e constituírem "uma completa bandidagem". Não seria o caso, em se tratando de sua área, de pôr-lhe a palavra em dúvida.
Mas a modificação de estatuto não foi feita sob a diretoria atual, foi da antecessora. Apesar da crise, como Elvira Lobato mostrou na Folha, em 2008 o Real Grandeza obteve lucro, quando a média do setor foi de 0,7% negativo. As contas deixadas pela diretoria anterior registravam perdas enormes, e foram recompostas.
Lula tergiversou por dois meses e afinal cedeu à nomeação absurda do arquiteto Luiz Paulo Conde; cedeu à nomeação de Carlos Nadalutti Filho, e não opôs iniciativa alguma contra as duas tentativas anteriores de golpe no Real Grandeza. Em último caso diante das circunstâncias, agora tomou a meia medida de sustar a substituição. Para assumir a responsabilidade presidencial, e afastar o ministro comprometido com uma articulação que o próprio presidente precisou sustar, Lula teria que contrariar a banda ultrafisiológica do PMDB. A qual integra a "base governista", ou seja, é sua aliada e companheira. Não faz o seu gênero, apesar da bandidagem.

O IDIOTA E A CRISE


SEXTA NOS JORNAIS

Globo: Obama leva déficit a US$ 1,7 tri e pede mais verba para guerras

 

Folha: Obama amplia déficit e prioriza social

 

Estadão: EUA projetam déficit de US$1,75 tri

 

JB: Cortes nos EUA beneficiam Brasil

 

Correio: Hora de regularizar

 

Valor: Concessões de energia serão renovadas com tarifa menor

 

Gazeta Mercantil: Dresdner é vendido ao fundador do Garantia

 

Estado de Minas: Pacote anticrise chega a US$ 15 tri

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

PAINEL

Questão de lado


Folha de S. Paulo - 26/02/2009
 

As demissões na Embraer, que levaram Lula a se encontrar ontem com a direção da empresa, desencadearam um tiroteio no mundo sindical. Presidente da Conlutas, à qual é filiado o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, José Maria de Almeida acusa o presidente da CUT, Artur Henrique, de ter dormido sobre a notícia dos 4.200 cortes. "Ele estava na reunião em que Lula foi informado, quatro dias antes do anúncio, e não nos avisou", diz Almeida. "Foi mais leal ao governo do que aos trabalhadores."
Procurado, Artur Henrique não se manifestou. A CUT luta na Justiça para rachar a base dos metalúrgicos em São José, criando uma nova entidade exclusiva para os trabalhadores do setor aéreo.

Uma nota só
Sem prejuízo do desabafo de Almeida, muita gente além da CUT critica o sindicato de São José dos Campos por ter tratado a ameaça de demissões na Embraer, durante meses, de maneira "exclusivamente ideológica", sem jamais apresentar um pacote de opções ao massacre que se aproximava. 

Mundo da lua
Boletim do sindicato imediatamente anterior às demissões dedicou-se a convocar os filiados para um bloco de Carnaval. 

Aritmética
Na conversa com Lula, os diretores da Embraer alegaram que, nos últimos seis anos, a empresa contratou 10 mil funcionários, e que, mesmo com as demissões anunciadas, resta um "saldo" de quase 6.000. 

Canseira
Enquanto Lula encontrava a cúpula da Embraer, diretores do sindicato dos metalúrgicos tentavam, sem sucesso, marcar audiência com o presidente -já haviam fracassado ao aparecer de surpresa na sexta-feira. Pretendem esperar até amanhã por uma resposta. 

Capítulo 2
Vencida a etapa de "conhecer melhor" o PT, Dilma Rousseff (Casa Civil) iniciará em breve uma nova fase em sua pré-campanha, buscando aproximar-se da imprensa. Deve passar a dar entrevistas "mais políticas" e a conversar informalmente com jornalistas. Num terceiro estágio, vai se dedicar a contatos com empresários, movimentos sociais e ONGs. 

A conferir
Edmar Moreira, o deputado do castelo, terá na semana que vem a última chance de aparecer na Câmara e ser notificado da investigação sobre notas fiscais de sua verba indenizatória. Se continuar sumido, a Mesa promete processá-lo à revelia.

Convergência
Um cardeal peemedebista acredita ter descoberto o que Lula e José Serra têm em comum: "Os dois querem o PMDB. Fraco o suficiente para ter que aderir. Jamais forte o bastante para poder escolher". 

Usina
Uma ala do PMDB desencava munição contra o correligionário Jarbas Vasconcelos, segundo quem "boa parte" do partido "quer mesmo é corrupção". Um dos casos a ser resgatado é a CPI da Queiroz Galvão, que nos anos 90 investigou doações a Jarbas quando prefeito de Recife. 

Cansei
O governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ), que durante muito tempo amortizou as queixas da bancada de seu partido em relação a José Gomes Temporão, não é mais um entusiasta do desempenho do ministro da Saúde. 

Sucatão
Em recente desabafo privado, Yeda Crusius (PSDB) manifestou inconformismo com as críticas recebidas por ter comprado um avião novo. Segundo a governadora gaúcha, no antigo não havia "nem banheiro". Ela teria chegado a perder enterros no interior do Estado devido à precariedade do aparelho. 

Platinada
A TV Brasil contratou o designer austríaco Rudolf Böhm para prestar consultoria gráfica à emissora. Ele foi parceiro de Hans Donner na concepção de vinhetas para a Rede Globo. 

Tiroteio

"O pior do desemprego já passou, graças às medidas anunciadas pelo governo Lula. Só está faltando o governo de São Paulo ajudar." 
De 
CARLOS ALBERTO GRANA , presidente da Confederação dos Metalúrgicos da CUT, apontando falta de ação do tucano José Serra para aliviar a perda de postos de trabalho.

Contraponto 

Natureba por um dia

Em 1982, José Richa (1934-2003) e Maurício Fruet (1939-1998) corriam o Paraná em campanha -o primeiro a governador, o segundo a deputado, ambos pelo PMDB. Certo dia, a agenda incluía almoço preparado por uma renomada cozinheira. Ao perceber a animação de Richa, comilão inveterado, Fruet resolveu pregar-lhe uma peça e procurou a mulher horas antes do evento:
-A senhora poderia maneirar na gordura para o Richa? É recomendação médica...
Solícita, ela levou à mesa picanha, costela e linguiça para todos, exceto o "enfermo":
-Para o senhor eu fiz uma deliciosa sopa de verdura!
Richa ficou dias sem dirigir palavra ao correligionário.

O IDIOTA


FERNANDA KRAKOVICS

É Temer

Panorama Político O Globo - 26/02/2009

O PT nacional quer que o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), seja o vice de Dilma Rousseff na chapa para presidente da República. Além de ser do maior colégio eleitoral do país, os petistas dizem que isso racharia o PMDB de São Paulo, que está com José Serra. Sobre o ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional), também cotado, afirmam que o presidente Lula se encarregaria de garantir os votos do Nordeste.

Lula pelo mundo
O presidente Lula terá uma movimentada agenda internacional em março. Além das viagens, ele receberá autoridades estrangeiras, com destaque para o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown. No dia 26, Brown passará por Brasília a caminho de Santiago do Chile e se reunirá com Lula. Eles vão discutir medidas para atenuar os efeitos da crise internacional e a Rodada de Doha, numa preparação para a reunião do G-20, no início de abril, em Londres. Lula tem ainda encontros, em território brasileiro, com os colegas Tabaré Vasquez (Uruguai) e Cristina Kirchner (Argentina). O príncipe Charles também virá ao Brasil.

Hoje eu sou muito mais um equilibrista do que um defensor da tese do tudo ou nada" - Presidente Luiz Inácio Lula da Silva

QUARTA-FEIRA DE CINZAS.
O Senado anda tão devagar que até o painel eletrônico do plenário estava atrasado ontem em um ano. Marcava a data de 25 de fevereiro de 2008. Desde a abertura do ano legislativo, em 2 de fevereiro, o Senado não votou nada nem fez nenhum debate relevante. Tudo por causa da briga pela distribuição das presidências das comissões temáticas. Ontem, a sessão de discurso foi aberta às 14h22m e encerrada 15h22m.

Geladeira
Diretor-executivo da Polícia Federal na gestão Paulo Lacerda, o delegado Zulmar Pimentel foi nomeado corregedor-geral do sistema penitenciário federal. Ele foi afastado depois de ser acusado de vazar informações da Operação Navalha.

Barulho
O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) reunirá um grupo de parlamentares terça-feira para montar uma frente anticorrupção. De concreto, brigarão pelo voto aberto em casos de cassação e fim do foro privilegiado para autoridades.

A briga continua
Os ministérios da Saúde e da Educação criaram uma subcomissão para aprimorar o processo de revalidação de diplomas expedidos por instituições de ensino estrangeiras. O foco é o curso de Medicina, mais especificamente o da Escola Latino-Americana de Medicina, em Cuba. O governo brasileiro quer a revalidação automática desses diplomas, mas o Conselho Federal de Medicina é contra.

PSDB rebate PT
O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), disse que o partido não tem medo da comparação entre a atuação dos governos Lula e FH nas crises internacionais. "O Fernando Henrique pegou o Brasil com a inflação na Lua e a dívida externa em moratória. Baixou e manteve a inflação sob controle. Saneou o sistema bancário com o Proer, o que Lula hoje reconhece. Fez acordo em 2002 com o FMI, com o aval do Lula. Entregou o país muito melhor", disse ele.
A COMISSÃO de Anistia estará no Rio amanhã e deve conceder indenização a Daniel Aarão Reis Filho, ao ex-deputado petista Gilney Viana e a Marijane Lisboa. POR SUGESTÃO de Nelson Sargento, o prefeito Eduardo Paes vai tornar permanente o Terreirão do Samba. A PRESIDÊNCIA da República abriu licitação para fornecimento de gás de cozinha para o Palácio da Alvorada, a Granja do Torto e o restaurante do Palácio do Planalto, ao custo de R$8.600.

CLÓVIS ROSSI

Também temos subprimes

FOLHA DE S. PAULO - 26/02/09

Demorou mas surgiram os nossos "subprimes", vítimas da incapacidade de pagarem seus automóveis.
É a diferença de escala entre a economia norte-americana e a brasileira: lá, o pessoal perde casas, um bem de muito maior valor.
Cessa aí, no entanto, a comparação. Os automóveis recuperados pelos bancos não têm, por trás, um rolo de ativos ditos tóxicos como os que caracterizaram a crise norte-americana das hipotecas "subprime" nem um volume tão formidável (pelo menos até agora).
Mas nem por isso o problema do crédito ou, mais exatamente, da falta dele e/ou de seu encarecimento deixa de ser sério, a julgar pelo que escreve Roberto Luis Troster para o mais recente boletim da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP: "Uma deterioração do crédito era esperada por conta da piora do quadro econômico, mas não na proporção que está acontecendo, especialmente para os microempresários e para as pessoas físicas de renda média e baixa. A cada mês que passa, as taxas dos financiamentos aumentam, sua composição deteriora-se e a inadimplência sobe."
O economista dá números que ajudam a entender a inadimplência e a consequente retomada dos automóveis: são os pequenos tomadores os mais afetados, conforme relatório do Banco Central que mostra que aumentou 5,1% o volume de operações acima de R$ 10 milhões, mas diminuiu 2,7% no caso das inferiores a R$ 5.000.
Ou, pondo no estilo Elio Gaspari: o andar de cima ainda se financia, mas o andar de baixo é cada vez mais "subprime".
PS - Cometi ontem um erro brutal. Escrevi: "[Os mercados] insistem em socializar o risco e privatizar o prejuízo". É óbvio que deveria ter escrito "...privatizar o lucro", como o fiz já várias vezes. Perdão.

ARI CUNHA

Movimento de Brasília

Correio Braziliense - 26/02/2009

Quando a cidade foi inaugurada, as tesourinhas não ligavam todas as superquadras do leste e oeste. Só as ímpares estavam construídas. O número de carros foi aumentando. Quatro anos depois de inauguradas estavam sendo usadas com grande movimento. Nos dias atuais já não suportam o volume de tráfego. Filas de carros esperam minutos para vencer um quilômetro. Sente-se que a coisa está piorando. A W3 chegava só até o Eixo Monumental. O trânsito apanhava a via direita e se dirigia para o Congresso. Havia retorno à esquerda para quem buscasse o caminho do Buriti. Foi aberta a passagem subterrânea ligando a W3 de sul a norte. Os caminhos eram livres. Os governos seguintes começaram a abrir novas direções. São as pernas que se criam no Plano Piloto. O mesmo tem acontecido em ligações para cidades satélites. A última ponte a ser inaugurada demorou um pouco. Foi alterado o projeto. Para ligar o Plano Piloto ao Lago Sul, exigências do meio ambiente. Para fazer os trevos, foram arrancadas árvores do cerrado. Novo sufoco. Brasília já merece viadutos de três ou quatro andares para distribuir o tráfego com eficiência. Sem isso, dentro de um ano estaremos com o tráfego pior do que o de São Paulo. É bom prevenir, já que as burras do governo estão cheias de dinheiro.

A frase que foi pronunciada
“Quem acha que carnaval do Brasil só dura uma semana é porque não conhece o país.”Dona Laurinda saindo no bloco do Bacalhau do Batata

Televisão
Walmor Bergesch pertence à história da televisão brasileira. Organizou equipe em Porto Alegre e outros estados. Faz entrevistas para o livro Os televisionários. Walmor também ouve gente da TV. O livro será o coração da televisão visto pelos dois lados. Não há tendências. São depoimentos às vezes conflitantes. Profissionais do ramo e observadores esfregam as mãos esperando nas livrarias.

Arquiteto
João de barro é o mais perfeito arquiteto da natureza. As casas são de perfeição inigualável. Jurandir Schmidt, na Folha do Meio Ambiente, faz estudo sobre esses pássaros que não gorjeiam. Cantam rindo, e de longe o outro responde. É interessante para quem gosta da natureza conhecer detalhes desses pássaros. A reportagem é ilustrada com casas em vários andares. Forma-se uma comunidade entre os fios de alta tensão.

Turismo
Para quem vai à Paraíba o bom é esticar até Cabedelo. Na praia você freta uma jangada, anda meia hora e chega a Areia Vermelha. É o cume do morro dentro do mar. Funciona com maré baixa. Visitantes e locais chegam, bebem, usam garrafas, copos e, ao saírem fica tudo na praia. Dia seguinte, a cabeça do morro está limpa. A sujeira fica no mar. Natureza não aguenta desaforo.

Embraer
Não foi ouvida pelos assessores a reclamação do presidente Lula contra a Embraer. Trata-se de empresa particular. É privilegiada pelo BNDES com verbas do governo e honra compromissos financeiros. É das maiores empresas do Brasil. No momento, luta para conseguir receber pedidos de aviões novos, que é a sustentação de sua economia. Quando obtém lucros nas negociações, o dinheiro é investido em progresso da empresa.

Novidade
Lula colunista. Essa é a ideia dos assessores para fazer chegar a opinião do presidente aos mais recôndidos lugares do país. As vezes em que o presidente discordar da mídia, terá um lugar próprio para colocar sua opinião. Tudo começou com as Reflexiones del comandante, de Fidel Castro, e Las líneas de Chávez. Agora é a vez de O presidente responde, com Lula.

Solução
Continua a todo vapor a campanha pela internet para concretizar a proposta do senador Cristovam Buarque. Vereadores, prefeitos, deputados, senadores, qualquer ocupante de cargo público deve ter os dependentes em idade escolar matriculados na rede pública de ensino. Agora vai.

História de Brasília
Faça-se, entretanto, justiça ao deputado signatário da carta, que foi um dos valorosos batalhadores pela moralização no Banco do Brasil, mas jamais caberia ao jornalista ser delator. Contrabando há, deputado contrabandista, também. Cabe à Mesa apurar e punir os culpados.(

QUINTA NOS JORNAIS

- Globo: Ministro fala em bandidagem no fundo de pensão de Furnas

- Folha: Faculdade privada perde aluno e quer auxílio do BNDES

- Estadão: Bancos reservam R$ 7 bi para se proteger de calotes

- JB: Salgueiro derruba Beija-Flor

- Correio: Folia com Lei Seca: recorde de multas

- Valor: Aumentam acordos para cortar jornada e salário

- Gazeta Mercantil: Sindicatos vão à Justiça contra a Embraer

- Jornal do Commercio: Bancos já tomaram 100 mil automóveis

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

GOSTOSA



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SUELY CALDAS

A sucessão de Meirelles no BC


O Estado de S. Paulo - ONTEM
 

 

Foi dada a partida para a substituição de Henrique Meirelles na presidência do Banco Central (BC). Nos últimos dias foi mais intensa a movimentação no governo, nomes de candidatos circulam e são trabalhados, o PT quer opinar, não ficar de fora. A troca de comando no BC em plena crise econômica seria politicamente delicada e arriscada se concretizada de forma súbita e inesperada. Mas não é o caso. Há tempos Meirelles avisou a Lula e ao mercado que sairia - vai retomar sua carreira política, interrompida em 2003 para assumir a presidência do BC, depois de eleito deputado pelo PSDB de Goiás. Na época renunciou ao mandato e ao partido. Sua substituição, portanto, não será traumática nem promete desencadear movimentos especulativos no mercado financeiro.

Até por se tratar de um mandato-tampão, não há muitos candidatos. As alternativas se estreitam porque a maioria dos ministros, a direção do PT e o próprio Lula têm preconceito contra nomes de fora, com experiência prática e não só teórica no mercado financeiro. Não estamos mais em 2002, quando o pânico-Lula quase levou o País à catástrofe e era fundamental colocar no BC alguém de mercado que afastasse o risco de moratória e de outras maluquices que o PT pregou no passado. Meirelles negociou condições e topou, depois de outros terem rejeitado por temer não ter autonomia para fazer o que precisava ser feito sem interferências de Lula e do PT.

A situação hoje é diferente. A inflação, que sempre apavorou Lula, está controlada e a queda na demanda decorrente da crise vai ajudar a mantê-la baixinha. O problema da economia agora é gerar empregos e crescimento econômico.

E é desse diagnóstico que tem despontado com força o nome de Luciano Coutinho para substituir Meirelles. Economista com doutorado nos EUA e profícua experiência em economia industrial, Coutinho já deu mostra de que não aceita cargos no governo só para estar no poder. É preciso que a função tenha relação com sua especialização e lhe dê chance de aplicar o que estudou e aprendeu. Antes de assumir a presidência do BNDES foi sondado para ser ministro do Planejamento. Recusou. Não queria cuidar de controle orçamentário.

No governo, Luciano está mais para Dilma Rousseff, que admira sua competência, do que para Guido Mantega. E Lula costuma ouvir seus conselhos. Sua gestão é elogiada por empresários e reconhecida por economistas rivais. E ele próprio acha que está no lugar certo, onde pode dar o melhor de si. Sobretudo agora, embalado pelo megarreforço de R$ 100 bilhões no orçamento do banco e o desafio de comandar no governo a missão de superar a crise, gerar investimentos, crescimento e empregos. Tirá-lo do BNDES seria um erro que ele não pretende facilitar.

Há mais dois candidatos que há tempos estão no banco esperando Meirelles sair de campo. Se dependesse de Guido Mantega, o economista Luiz Gonzaga Beluzzo seria o novo presidente do BC. Mas o mercado financeiro vê a indicação com olhar atravessado e o próprio Beluzzo teria desistido. Além do entusiasmo pelo trabalho na presidência do Palmeiras, o mandato-tampão no BC não chega a dois anos, tempo curto demais para implementar uma linha própria de ação.

O outro é prata da casa. Funcionário de carreira do BC, doutor em Economia pela Universidade de Illinois (EUA) e com passagem pelo Fundo Monetário Internacional em Washington, o gaúcho Alexandre Antonio Tombini, 45 anos, trabalhou em diversas áreas no banco e hoje é diretor de Normas e Organização do Sistema Financeiro. Sua experiência foi testada e aprovada em reunião ministerial, convocada por Lula no final de setembro para uma avaliação da crise. Ele substituía Meirelles, que estava no exterior, e a análise que fez na reunião foi elogiada por Lula e demais ministros. Apesar dos conflitos entre Meirelles e Mantega, Tombini tem boas relações com os dois.

Há uma quarta alternativa pouco lembrada, mas que tem a vantagem de sair de dentro do PT. Trata-se do ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel. Economista e mestre em Ciência Política, Pimentel tem boa experiência em gestão pública na área econômica e seu nome foi defendido pelo ex-ministro Antonio Palocci para substituí-lo no Ministério da Fazenda. Como Palocci, é um petista politicamente arejado e com boa aceitação no mercado financeiro. Mas seu desejo é disputar o governo de Minas Gerais em 2010. Espera de Lula um cargo no governo que lhe dê visibilidade política até as eleições, não o BC, que vive aumentando juros.

BRASIL


REVISTA VEJA

Brasil

Basta de folia com 
o dinheiro público

A entrevista do senador Jarbas Vasconcelos, recebida com silêncio pelo PMDB, entrará para a história como um marco na luta contra a corrupção. E

le deu as coordenadas desse bom combate


Otávio Cabral e Diego Escosteguy

Cristiano Mariz


VEJA TAMBÉM
Nesta reportagem
• 
Quadro: O bilionário PIB do PMDB
• Quadro: O joio e o trigo

Da extensa list

a das peculiaridades brasileiras, três itens se destacam: o samba, a jabuticaba e o PMDB. México e Argentina, para ficar em alguns

 exemplos, já penaram sob partidos tão fortes quanto corruptos, mas a agremiação nacional, a maior do país, é um caso à parte. Seu amor 

pelo dinheiro público – o nosso dinheiro, para ser mais exato – é tão grande, tão magnético, tão irresistível que o PMDB abdicou de almejar a Presidência da Re

pública, a aspiração suprema de qualquer partido político, para vender seu apoio a outras siglas e, assim, continuar a fazer negócios nos ministérios e demai

s repartições federais. Seja no plano federal, estadual ou municipal, o objetivo principal do PMDB tornou-se o mesmo: cair na folia com o dinheiro público, como se ele cresces

se em jabuticabeiras.

Festa com dinheiro público não é uma novidade, tampouco é prerrogativa dos peemedebistas. O

 senador gaúcho Pedro Simon, do PMDB, um nome de respeito da agremiação, reagiu à entrevista de seu colega Jarbas Vasconcelos a VEJA com a explicação de que a corrupção

 transformou a política em uma "geleia geral" da qual pouquíssimos escapam, sejam eles de que partido forem. Do ponto de vista prático, a reação de Simon é conivente com o

s corruptos, pois em nada avança no seu combate. Mas ela é uma expressão da verdade. Nessa geleia, porém, o PMDB se destaca pela constância d

os métodos e pela durabilidade da delinquência. O partido é hoje para a corrupção na política o que a "inflação inercial" foi para a economia até o a

dvento do Plano Real – ou seja, a força motriz das malfeitorias de um regime ao seguinte, de um governante a seu sucessor, sejam quais forem suas cores ideológica

s. Nas palavras d

o senador pernambucano Jarbas Vasconcelos, "boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção" 

e "a maioria de seus quadros se move por manipulação de licitações e contratações dirigidas". Não se trata de percepção ou impressão, mas de uma constatação feita por um político com 

43 anos de vida pública, fundador da agremiação e conhecedor de suas entranhas. Diante da bomba, o que fez a cúpula do PMDB? Li

mitou-se a lançar uma nota em que diz que não daria maior atenção a Jarbas Vasconcelos "em razão da generalidade das alegações", para depois recolher-se e

m silêncio, na esperança de que a explosão perca força na Quarta-Feira de Cinzas. Ninguém ousou assinar o texto. Individualmente, houve alguns simulacros de protesto, na 

maioria enviesados com cobranças por nomes, fatos e provas da corrupção. Como se não coubesse ao próprio PMDB realizar uma investigação interna. Uma das poucas d

emonstrações de apoio a Jarbas Vasconcelos partiu do ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, seu colega de partido. Sim, você leu cer

to: Quércia. O senador pernambucano poderia ter aumentado a octanagem de sua denúncia se tivesse publicamente dispensado o apoio de Quércia. Dissiparia assim as ins


inuações maldosas de que agiu mais por motivação eleitoreira (Jarbas seria candidato a vice-presidente na chapa que seria encabeçada pelo governador paulista José Serra em 2010 e por isso teria interesse em poupar Quércia, de cujo apoio a dupla pode vir a precisar).

André Dusek/AE 

O que disse sobre as acusações de Jarbas Vasconcelos: Silêncio

Na entrevista, Jarbas Vasconcelos disse que o PMDB é "uma confederação de líderes regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de 90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos". Citou nominalmente o presidente do Congresso, senador José Sarney, e o novo líder do partido, senador Renan Calheiros. Para Vasconcelos, a moralização e a renovação do Congresso são incompatíveis com a figura de Sarney, que "vai transformar o Senado em um grande Maranhão". Sarney não respondeu ao ataque. Disse apenas que, na condição de presidente, "não pode diminuir o debate" e que o senador deveria apresentar os nomes dos corruptos. Renan Calheiros – que, segundo Vasconcelos, "não tem nenhuma condição moral ou política para ser senador, quanto mais líder do partido" – preferiu calar-se. Fora do PMDB, o governo optou por não comentar as críticas do senador, e a oposição, pensando nas alianças do futuro, fez de conta que nada tinha a ver com o debate. No domingo 15, após a publicação da entrevista, Sarney e Renan até se reuniram para discutir o que fazer diante das declarações de Jarbas Vasconcelos. Depois de xingarem e fazerem ofensas pesadas ao senador pernambucano, ambos avaliaram que rebater as acusações e cobrar uma punição para Jarbas seria uma atitude temerária. Muito barulho não convém ao negócio.

Dono de um prontuário nada invejável do ponto de vista de um trabalhador cumpridor de seus deveres, o senador Renan Calheiros não tem mesmo muito que dizer. Pobre na juventude, floresceu na política. Quando começou a militar no antigo partido comunista, Renan dirigia um Fusquinha velho. Hoje, o nobre senador acumula um patrimônio avaliado em 10 milhões de reais, entre fazendas, bois, mansões e apartamentos – isso apenas levando em consideração o que ele mesmo declarou à Justiça Eleitoral. Seus adversários calculam que sua fortuna é, no mínimo, duas vezes maior que isso. No PMDB há dezesseis anos, Renan é um dos ideólogos do partido. Renunciou em 2007 à presidência do Congresso depois que se descobriu que um lobista de empreiteira pagava suas despesas pessoais. É investigado no STF por falsidade ideológica e sonegação fiscal. O outro citado nominalmente por Jarbas Vasconcelos, o senador José Sarney, é personagem central da história política do Brasil há mais de meio século. Como Renan, ele e a família também fizeram fortuna, sempre em negócios envolvendo governos e empresas estatais. A vida política do senador começou em 1955, quando ele se elegeu deputado. Filho de um juiz, seu patrimônio se resumia a parte de uma casa em São Luís, recebida como herança.

Dida Sampaio/AE 

O que disse sobre as acusações de Jarbas Vasconcelos: Silêncio

A família do senador José Sarney tem emissoras de TV, rádio, jornal, fazendas e diversas empresas no Maranhão e no Amapá. Na declaração apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral, o ex-presidente informa que sua fortuna é de 4,6 milhões de reais. Esconder ou subavaliar patrimônio é uma estratégia muito comum no mundo político, principalmente entre aqueles que não têm como justificar a origem da riqueza. Sarney foi presidente da República em 1985 e, desde então, ele e seus familiares – cujo patrimônio real é estimado em cerca de 125 milhões de reais – têm sido alvo de diversas investigações criminais. No ano passado, uma investigação da Polícia Federal acusou um dos filhos do senador de chefiar uma "organização criminosa" responsável por crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas, fraude em licitações e corrupção. Em 2002, em plena campanha presidencial, a PF encontrou 1,3 milhão de reais em dinheiro escondido no escritório da então candidata e hoje senadora do PMDB Roseana Sarney, filha do senador. Roseana abandonou a campanha, mas a origem do dinheiro nunca foi explicada. Renan e Sarney não são exceções no mundo peemedebista. A tal confederação dos líderes regionais citada na entrevista de Jarbas Vasconcelos é, em sua maioria, composta de políticos com perfil idêntico: são todos ricos, poderosos e enrolados com a Justiça devido à histórica folia com o dinheiro dos contribuintes.

Dos 27 presidentes regionais do PMDB, dezessete têm problemas com a Justiça. O deputado Jader Barbalho, por exemplo, é o mandachuva do partido no Pará e um dos chefões nacionais da legenda. O parlamentar foi preso em 2002, acusado de desviar 2 bilhões de reais dos cofres públicos. Dono de apenas um automóvel e uma casa no início da carreira, Jader também fez fortuna enquanto se revezava entre um cargo e outro da administração federal. Foi ministro da Previdência no governo Sarney, líder do PMDB e presidente do Senado no governo Fernando Henrique até 2001, quando renunciou ao cargo, acuado por denúncias de corrupção. Hoje, é um general sem estrelas, mas com poder intacto nos bastidores. Jader, Sarney e Renan formam o triunvirato do PMDB. Eles estabelecem as linhas mestras de ação do partido e controlam a indicação dos cargos que, como Jarbas vocalizou e até os mármores de Niemeyer sabem, são usados para "fazer negócios e ganhar comissões".

Orlando Brito 

O que disse sobre as acusações de Jarbas Vasconcelos: Silêncio

Fundado em 1965, o Movimento Democrático Brasileiro, o então MDB, sobreviveu como alternativa institucional de oposição ao regime militar por vinte anos. A partir da chegada de José Sarney à Presidência, em 1985, o partido perpetuou-se no poder, usando a máquina pública como principal financiador de seu projeto. O resultado não poderia ser outro. São raros os casos de corrupção nas últimas duas décadas que não tenham as digitais do PMDB. O partido foi governo com Sarney, esteve no governo de Fernando Collor, foi governo com Itamar Franco, esteve no governo de Fernando Henrique Cardoso e está no governo Lula. São quase 25 anos de um ciclo vicioso. O gigantismo do partido garante a governabilidade e a governabilidade garante o gigantismo do partido. Hoje, o PMDB ocupa seis ministérios, governa oito estados e tem dezenas de cargos em autarquias e estatais, principalmente nas diretorias financeiras. Somando as esferas federal, estadual e municipal, o PMDB controlará em 2009 um orçamento de cerca de 365 bilhões de reais. É mais do que o triplo do orçamento da Argentina, cuja previsão para 2009 é de 106 bilhões de reais. Nos estados, o PMDB está na base de sustentação de 22 dos 27 governadores, tomando parte na gestão realizada por partidos que vão de um extremo ao outro do espectro ideológico. "O PMDB faz aliança com Deus de um lado e com o diabo de outro, para conseguir governar, ao mesmo tempo, o céu e o inferno", compara o cientista político Gaudêncio Torquato, da Universidade de São Paulo.

Céu ou inferno, não existe tempo ruim para os peemedebistas mais apaixonados. Veja-se, por exemplo, o caso do ex-governador mineiro Newton Cardoso. Político esforçado, o Newtão. No mês passado, VEJA revelou detalhes do processo de separação conjugal do ex-governador e da deputada Maria Lúcia Cardoso. Na ação, ela alega que o marido possui nada menos do que 2,5 bilhões de reais de patrimônio. A reportagem fez Newtão perder as estribeiras. Convocou uma entrevista para dizer que, na verdade, sua fortuna é superior a 3 bilhões de reais. Só não explicou como conseguiu amealhá-la. Nem precisa, não é, Newtão? Fenômeno igual a ele, só mesmo em Brasília, onde o ex-senador Joaquim Roriz, que governou o Distrito Federal por quatro mandatos, conseguiu multiplicar seu patrimônio em 400 vezes.

Celso Junior/AE

O que disse sobre as acusações de Jarbas Vasconcelos: Silêncio

Comandantes de um orçamento bilionário e movidos por interesses escusos, os políticos do PMDB são os campeões em processos nos tribunais superiores. Oito dos vinte senadores do partido respondem a inquéritos e ações penais no Supremo Tribunal Federal por crimes como corrupção, formação de quadrilha, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, compra de votos e sonegação fiscal. Jarbas Vasconcelos, é bom ressaltar, não está na lista. Seus adversários, porém, capricham na folha corrida. Além do triunvirato, há outros figurões com o mesmo perfil. O senador Valdir Raupp, que entregou a liderança do PMDB a Renan, responde a quatro processos, um deles pela acusação de ter desviado 1 milhão de reais quando governava Rondônia. O senador Romero Jucá, líder do governo, é processado por desvio de recursos de obras federais em Roraima. O senador Leomar Quintanilha, presidente do Conselho de Ética – um cargo que deveria ser ocupado por alguém acima de qualquer suspeita –, é acusado pelo Ministério Público de já ter recebido propina de empreiteiras. Na Câmara dos Deputados, o cenário não é menos desolador. Dos 94 deputados do partido, dezoito respondem a processo no Supremo. E, entre os sete governadores que podem ser cassados pelo Tribunal Superior Eleitoral por crimes diversos, dois são do PMDB (veja reportagem).

Há um episódio que ilustra bem a engrenagem de corrupção denunciada pelo senador Jarbas Vasconcelos. Deflagrada pela Polícia Federal em 2007, a chamada Operação Navalha revelou que o empreiteiro Zuleido Veras, dono da construtora Gautama, conquistava obras públicas mediante o suborno de uma ampla rede de colaboradores no mundo político. VEJA teve acesso à íntegra das provas produzidas até agora pela PF, que continua investigando o esquema do empreiteiro. Esses documentos inéditos demonstram que, quando precisava de favores em Brasília, a turma de Zuleido recorria à bancada do PMDB no Senado. Uma troca comercial simples: o partido providenciava os serviços solicitados e Zuleido pagava por eles – especialmente por ocasião de campanhas eleitorais. As obras de ampliação do aeroporto de Macapá, no Amapá, constituem um bom exemplo dessa relação promíscua. A Infraero só licitou a obra, no fim de 2004, após pedido do senador Sarney ao presidente Lula. Até aí, nada mais natural – Macapá é reduto eleitoral do senador. A partir desse momento, contudo, começou a girar a roda da fortuna estabelecida pelo empreiteiro. Com "técnicos" instalados em postos-chave do governo, a Gautama conseguiu fraudar a licitação e assinar um contrato superfaturado em 50 milhões de reais.

Marcelo Sant'Anna/Estado de Minas 

O que disse sobre as acusações de Jarbas Vasconcelos: Silêncio

A PF conseguiu reunir provas – como comprovantes de depósitos bancários, diálogos telefônicos, planilhas de propina – que mostram como o dinheiro público roubado foi rateado: parte abasteceu campanhas eleitorais, parte foi parar diretamente no bolso dos envolvidos. Numa planilha apreendida na residência de Zuleido, constam 500 000 reais em contribuições de campanha no Amapá, por orientação de Sarney, chamado de "PR" (presidente). Segundo a Polícia Federal, a promiscuidade era tamanha que um dos lobistas da empreiteira, chamado de José Ricardo, despachava dentro do gabinete do senador Sarney. Há comprovantes de depósito para assessores dos senadores Renan Calheiros, Valdir Raupp e Roseana Sarney. Há anotações que sugerem repasses de propina ao senador Romero Jucá, cujo patrimônio declarado é de 512 000 reais – quase um pedinte dentro do padrão de seus pares. Um dos encarregados de cobrar os pagamentos era Ernane Sarney, irmão do presidente do Congresso, que recebeu de Zuleido um depósito de 30 000 reais. Num diálogo interceptado em abril de 2007, Ernane pede dinheiro ao tesoureiro da Gautama. "Vocês estão me enrolando. Já não estava tudo na mão? Eu tô com a corda no pescoço aqui, rapaz, o doutor também tá com a corda no pescoço", explica o irmão de Sarney. Diz o cientista político Rubens Figueiredo: "O PMDB sabe que o partido é exatamente isso que o senador Jarbas Vasconcelos falou. Essa reação de silêncio sinalizou à opinião pública que a carapuça serviu".

O PMDB é apenas o caso mais espetacular da corrupção que impregna o mundo político brasileiro. Nenhuma agremiação, absolutamente nenhuma, pode ser considerada uma vestal no trato com o dinheiro público. Se a situação chegou a esse ponto de degradação, isso se deve, principalmente, à secular impunidade que viceja no país. Dá para reverter esse quadro? Dá, mas é preciso dar os primeiros passos. VEJA gostaria de sugerir alguns deles:

• Priorizar a punição nas altas esferas
Existe um entendimento tácito entre juízes brasileiros de que cadeia é para criminosos que representam um risco para a sociedade. "Por esse motivo, crimes do colarinho-branco não são punidos com a mesma seriedade que um assalto a mão armada", diz Roberto Livianu, promotor de Justiça de São Paulo e autor do livro Corrupção e Direito Penal. O desvio de milhões de reais que deveriam ser usados para salvar vidas no sistema de saúde, por exemplo, também é uma forma de violência, diz ele. Livianu propõe uma maneira de criar um atalho para a punição rápida e exemplar de corruptos de alto gabarito. Trata-se de formar uma força-tarefa, composta principalmente de promotores e juízes, com amplos poderes para processar ocupantes de cargos públicos de destaque e empresários envolvidos em negócios ilícitos com o dinheiro do contribuinte. O modelo a ser imitado é o da Operação Mãos Limpas, na Itália, que levou à prisão três centenas de políticos e servidores no país. "Isso provocaria um choque pedagógico em toda a hierarquia do poder público", afirma.

• Aumentar o risco político e financeiro da corrupção
"No Brasil, lucra-se tanto com a corrupção, e a probabilidade de ser punido é tão pequena, que o risco compensa", diz Lizete Verillo, diretora da ONG Amarribo. Nada apavora mais um corrupto, seja qual for o lado do balcão das negociatas ocupado por ele, do que a perda do seu poder econômico – o que, inclusive, afeta diretamente sua capacidade de comprar favores e privilégios. Obrigar a devolução do montante desviado é pouco. Seria mais eficiente aperfeiçoar a lei para permitir o confisco do patrimônio integral do acusado. Assim, se o desvio de dinheiro público foi de 1 milhão de reais, mas o patrimônio do corrupto é de 50 milhões, a Justiça deveria ser capaz de bloquear tudo. Para que isso seja possível, é preciso também haver uma maior cooperação internacional entre a Justiça brasileira e a de outros países. Outra medida necessária é derrubar o foro privilegiado para políticos, no caso de crimes comuns. Eles se beneficiam dessa prerrogativa para responder a processos criminais apenas perante tribunais superiores. Com isso, conseguem reduzir as possibilidades de punição, pois os tribunais não têm estrutura para colher provas contra eles.

• Estreitar a boca do cofre
Simplesmente reduzir o gasto público não é garantia de menos roubalheira. Se assim fosse, seria possível concluir que a corrupção em obras de infraestrutura no Brasil diminuiu, já que o investimento atual do Ministério dos Transportes, por exemplo, é, em dados porcentuais, quase um décimo do registrado na década de 70. "Na verdade, quando o poder público reduz os investimentos, a disputa pelos contratos fica mais acirrada, o que inflaciona o valor das propinas", diz o economista Raul Velloso. Ele aponta outra maneira de estreitar a boca do cofre para reduzir as oportunidades de corrupção: sempre que possível, tirar o governo de atividades que envolvem empreiteiras e prestadores de serviços públicos. Um exemplo que funciona bem é o da concessão de rodovias. Uma vez definidos os preços e feito o contrato, o estado não precisa mais ficar às voltas com a gestão diária daquela atividade. Cabe a ele apenas o papel de fiscalizador.

• Profissionalizar a gestão pública
Na administração federal, há mais de duas dezenas de milhares de cargos de confiança, aqueles que são preenchidos por indicação. "Essa prerrogativa, garantida na nossa Constituição, leva ao loteamento do estado por critérios políticos e interesses pessoais", diz Claudio Weber Abramo, diretor-geral da ONG Transparência Brasil. Ele propõe uma reforma constitucional para limitar drasticamente a capacidade dos governantes de preencher cargos comissionados. O efeito seria o incentivo à contratação de funcionários por critérios profissionais, em que se leva em conta o mérito do candidato, e não sua filiação político-partidária. Ganha-se em duas frentes: na qualidade da administração pública e no fim do uso da máquina estatal em proveito próprio. Isso também pode ser incrementado por meio da criação de indicadores de desempenho, com o objetivo de avaliar os avanços em áreas específicas, como educação e saúde. "Quando há indicadores confiáveis, divulgados regularmente, fica mais fácil controlar a corrupção", diz o economista Marcos Fernandes, professor da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. A explicação é que o mau uso do dinheiro público afeta diretamente a qualidade dos indicadores, exigindo mais profissionalismo para recuperá-los. Fernandes dá o exemplo dos gastos com policiamento no estado de São Paulo, cuja eficiência melhorou muito depois que o governo começou a compilar e divulgar com mais frequência os índices de criminalidade.

• Incentivar a denúncia dos corruptores
Pela lei brasileira, quando alguém oferece uma comissão para ter acesso a alguma vantagem, está cometendo um crime de corrupção ativa. "No Brasil, são raros os processos por corrupção ativa, porque quase ninguém os denuncia", diz Roberto Livianu. Os casos que vêm a público em geral se referem ao crime de concussão, em que uma pessoa é pressionada a pagar a propina, mas se nega a fazê-lo e coloca a boca no trombone. Resultado: quem põe a mão no bolso para corromper não é punido. "Para mudar esse quadro, o Brasil deveria ter programas de delação premiada e de proteção à testemunha específicos para esse tipo de crime", diz a socióloga Rita de Cássia Biason, professora da Universidade Estadual Paulista, em Franca. Ela dá o exemplo do caseiro Francenildo Costa, autor de denúncias que derrubaram o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. Em vez de ser premiado por sua atitude, ele foi massacrado por ter contado o que sabia. Isso desestimula outros cidadãos a fazer o mesmo.

 

Com reportagem de Expedito Filho, Marana Borges e Raquel Salgado

 

A grande farra nos municípios

Como é alimentada a corrupção nas prefeituras

Fotos Priscila Foresti/Planeta News e Ana Araujo

CARO E INÚTIL
O painel de votação de Olímpia, comprado por 120 000 reais. Ao lado, o ex-deputado do PL Bispo Rodrigues, preso na Operação Sanguessuga

Como toda praga, a da corrupção tem a propriedade de vicejar em qualquer canto. Mas é nas prefeituras que ela encontra o seu terreno mais fértil. Nos últimos seis anos, a Controladoria-Geral da União (CGU) fiscalizou as contas de um quarto dos 5 564 municípios brasileiros. Encontrou irregularidades em praticamente todos – e casos flagrantes de corrupção em nada menos do que 20% deles. "O volume de irregularidades nos municípios é muito maior do que nas esferas federativas", afirma o ministro-chefe da CGU, Jorge Hage. Por que é mais fácil surrupiar dinheiro público nas prefeituras do que nos governos estadual e federal?

Em primeiro lugar, porque a fiscalização das contas municipais é mais precária. Sobretudo nas cidades pequenas, o compadrio e a força política dos prefeitos frequentemente acabam por comprometer a eficiência dos órgãos responsáveis pelo controle das contas: as Câmaras de Vereadores e os conselhos municipais (cujos integrantes são indicados pelo prefeito). Os tribunais de contas dos estados também atuam na checagem dos gastos dos municípios, mas, se ganham em independência em relação aos órgãos da cidade, perdem em capacidade de trabalho: são 27 tribunais para cuidar de mais de 5 000 municípios. Nos estados e na União, conselhos estaduais e federais fiscalizam os gastos, assim como assembleias estaduais, Câmara dos Deputados e Senado. Além disso, há os tribunais de contas dos estados e o Tribunal de Contas da União. "A diferença em relação aos municípios é que, nessas esferas, as instituições estão mais consolidadas, os políticos têm mais independência e os órgãos de controle não precisam lidar com informações tão pulverizadas como no caso dos milhares de prefeituras", diz o analista do TCU e presidente da ONG Instituto de Fiscalização e Controle, Henrique Ziller.

Tão ou mais determinante que a precariedade da fiscalização, o que impulsiona a corrupção nos municípios é o ciclo perverso que permite a sobrevivência de mais da metade deles no Brasil. Segundo o economista Rogério Boueri Miranda, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 3 065 municípios brasileiros tiveram, em 2007, mais de 50% do seu orçamento composto de verbas federais fixas. Ou seja, sem a ajuda do governo federal, dificilmente sobreviveriam. Como muitas cidades pouco produzem e quase nada arrecadam, para qualquer investimento dependem também da liberação de verbas do orçamento federal – obtidas por meio de emendas apresentadas por políticos. É onde mora o perigo. Os prefeitos precisam da intermediação de deputados e senadores para conseguir a liberação das verbas para suas obras. Os parlamentares, por sua vez, em troca da liberação do dinheiro, negociam com o governo federal o seu apoio à aprovação de leis de interesse do Executivo. Quando tudo dá certo, comparecem com o recurso junto aos municípios e recebem a gratidão dos prefeitos em forma de apoio político ou recompensas mais palpáveis. Desse papel de mediadores entre os governos regionais e o federal decorre o surgimento dos caciques, das oligarquias regionais – e também da corrupção. "Esses intermediários sabem que, para conseguir os disputados recursos federais, serão necessários instrumentos não ortodoxos e, muitas vezes, ilegais. A criação desses dutos, necessários para a transposição de recursos, é a grande fonte da corrupção", afirma o filósofo Roberto Romano, analista atento do panorama ético e político.

A Operação Sanguessuga, deflagrada em 2006 pela Polícia Federal, ilustra à perfeição como a dependência dos municípios em relação às verbas federais e a atuação dos intermediários que transportam recursos de uma esfera para a outra fomentam a corrupção. A operação desbaratou um esquema de superfaturamento na compra de ambulâncias que estava disseminado em dezenas de municípios. O valor surrupiado chegou a 110 milhões de reais: o dinheiro saía do caixa do Ministério da Saúde rumo aos cofres municipais via dutos construídos por deputados e senadores com trânsito nas duas pontas. A Sanguessuga foi resultado de uma ação da CGU, que há seis anos passou a fazer varreduras periódicas nas prefeituras. Com apenas 2.300 funcionários, no entanto, o órgão só consegue trabalhar por amostragem: em intervalos de poucos meses, sorteia sessenta municípios cujas contas examina com lupa. Diante da dificuldade de fiscalização, muitas prefeituras, quando não caem na lambança da corrupção, refestelam-se em desmandos. É o caso de Olímpia, no interior de São Paulo. No ano passado, a Câmara de Vereadores da cidade deu-se ao desfrute de adquirir, por meio de compra que até hoje vem sendo investigada, um portentoso painel eletrônico de votação ao custo de 120.000 reais. Detalhe ultrajante número 1: a cidade, de 48 000 habitantes, tem apenas dez vereadores – o que não faz da votação uma operação propriamente complexa. Detalhe ultrajante número 2: até hoje, o painel não pôde ser usado porque o regimento da Câmara não prevê votação eletrônica. À grita geral que se seguiu à compra do equipamento, o então presidente da Câmara de Olímpia, Francisco Roque Ruiz (PRP), deu de ombros. Declarou que os protestos eram fruto de inveja: "Olímpia sai na frente, e isso é que incomoda". Engano, vereador: o que incomoda é o que leva o Brasil para trás.

Laura Diniz