sexta-feira, dezembro 02, 2011

GOSTOSA


Os meios justificam os fins - NELSON MOTTA


O ESTADÃO - 02/12/11

Ao contrário da política, em que os fins justificam os meios, na arte são os meios que possibilitam os fins. Sem o microfone, o mundo jamais teria ouvido a música suave e refinada de João Gilberto e Chet Baker. A amplificação elétrica liberou os cantores da força bruta do volume e permitiu que usassem seu talento no que mais importa musicalmente: timbre e afinação, ritmo e harmonia, estilo e sentimento.

Da mesma forma, não poderia existir rock and roll sem a guitarra elétrica. Inventada nos anos 30, a guitarra se adaptou bem ao jazz e ao blues, que nasceram e se desenvolveram acústicos, e fez história nas mãos de Django Reinhart e B.B.King. No rock, não, o som e a fúria das guitarras, os altos volumes como um dado estético, são a sua base rítmica, harmônica e ideológica, a sua energia vital, a sua razão de ser. Ironicamente, décadas depois, velhos roqueiros gravariam versões acústicas de seus sucessos elétricos.

Assim como não haveria rock and roll sem o som estridente das cordas de aço da guitarra, não existiria bossa nova sem o som macio das cordas de violão de nylon, criadas nos anos 50, e tocadas pela magia de João Gilberto. No samba tradicional o som metálico do violão não era empecilho para os ritmos, acordes e dedilhados dos seus mestres, mas, para a bossa nova cool, minimalista e moderna, só a suavidade do nylon daria os timbres macios que a batida e o canto de João requeriam.

O Hip-hop e a eletrônica são os novos formatos musicais do século 21 e só puderam existir no mundo digital, com as infinitas possibilidades de combinar timbres, ritmos e acordes, que permitem a um músico tocar uma orquestra inteira sozinho. Bastam talento e uma tomada.

A fotografia mudou a história da pintura, oferecendo novos meios de expressão visual. Mas um século depois, com recursos digitais ilimitados, os grandes fotógrafos ainda se baseiam na arte dos mestres da pintura.

O audiobook, com atores lendo e interpretando romances, também abriu novas possibilidades criativas. Logo haverá uma voz para cada personagem, ruídos de cena, música de fundo… e será reinventado o radioteatro.


Com Fernando Sabino em Sete Lagoas - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO


O Estado de S.Paulo - 02/12/11


A funcionária da escola voltou-se para a mãe, intrigada:

- A senhora encheu a ficha de um de seus dois filhos botando a mesma data de nascimento do outro. São gêmeos?

- Gêmeos de pai.

- Gêmeos de pai? Que história é essa?

- São filhos do meu marido - explicou a mãe. Um é meu e um é da outra. Nasceram no mesmo dia, logo, são gêmeos de pai.

2.

Chegando ao hotel, pedi um quarto de solteiro, depois de me certificar do preço. Subi, me acomodei e só então percebi que havia algum engano: o quarto era imenso, com uma cama de casado e duas de solteiro - provavelmente muito mais caro do que eu pretendia. Não tive dúvidas, voltei à recepção.

- Houve algum engano, pedi um quarto simples e o senhor me deu um com três camas.

O homem refletiu um instante e aconselhou-me polidamente:

- Não precisa usar as três: use uma e ignore as outras.

3.

Essas duas minicrônicas não são minhas, são de Fernando Sabino e estão no seu Livro Aberto, páginas que ele reuniu em um volume no fim da vida. Foi a última coisa que publicou, antes de morrer em 2004. Esse era o Sabino observador das mínimas coisas de nosso cotidiano. O cronista que lemos, invejamos e gostaríamos de ser. Conto essas duas historinhas para dizer que elas foram relembradas semana passada em Sete Lagoas, Minas Gerais, durante o Literata 2, um festival inteiro dedicado a ele. Foi minha última viagem literária deste ano, a de número 44, e fiquei contente por ter ido falar de Sabino. Olhem que foi um time considerável que baixou naquela cidade mineira, que se espreguiça em torno de um lago central (disseram-me que dos sete só restam seis) parecido com a Pampulha de Belo Horizonte. Ali se fabricam os caminhões Iveco e foi a empresa que patrocinou o Literata, bela forma de se debruçar sobre cultura.

Num dia, partiam Ivan Angelo e Fabrício Carpinejar e chegava José Eduardo Agualusa. No outro subiu ao palco o Humberto Werneck e no dia seguinte ali estavam João Paulo Cuenca e Paulo Roberto Pires. Depois se debateu com Fernando Paixão e Luciana Villas Boas. E ainda se ouviu cantar Verônica, filha de Sabino, e o jazz de Luis Fernando Verissimo, que também falou, ele que não é disso. Desde o primeiro dia, na primeira fila esteve Bernardo, filho de Fernando, grande como o pai, emotivo, batalhando pela conservação da memória daquele que foi dos nossos cronistas maiores.

4.

Foi graças ao Humberto Werneck, companheiro de crônica, aqui, no Estadão, imperdível aos domingos, que tive esse breve reencontro com Fernando Sabino, semana passada. Falar nisso, deu gosto participar de uma mesa em que Werneck foi mediador, entre Mauro Ventura, jornalista de O Globo e autor de O Mais Triste Espetáculo da Terra, sobre o incêndio de um circo em Niterói, em 1961, tragédia que terminou com 503 mortos, algo inconcebível. Werneck é calmo, não exibido, seguro, repleto de informações, fala, deixa falar, coloca a pessoa à vontade, joga o assunto, tira quando acha necessário, levanta outras bolas. Muitos não sabem, mas existe mediador que não para de falar, dá o show dele no palco, interrompe respostas; e há aquele que fica ouvindo, gostosamente, como se as falas fossem para ele se divertir ou chorar. Pegar um desses é pior, a gente fica perdida, o mediador é o maestro que nos conduz.

5.

Companheiros de viagem foram Ivan Angelo e Werneck. Sente-se no meio de dois mineiros e os casos desfilam. O que eles sabem de histórias, de bastidores, de curiosidades. Bom humor, acima de tudo. Ironias com todo mundo, inclusive para com eles mesmos. Das origens do Jornal da Tarde, o maior refúgio de mineiros que já existiu, até o governo do Aécio. Discordaram um pouco quando o carro, indo de Confins para Sete Lagoas, passou por dentro de Belo Horizonte e cada um achava que a rua era uma, e era outra. De qualquer modo, como cicerones, me contavam sobre este bairro, este restaurante, esta galinha de cabidela, me colocando à vontade. Terei de levá-los a Araraquara para retribuir.

6.

Falar de Sabino foi um reencontro comigo mesmo, com as manhãs de domingo nos anos 50, quando a Manchete chegava à banca do Nelson Rossi em Araraquara e era preciso correr antes que a revista se esgotasse. Era linda a Manchete, colorida, bom papel (diferente daquele papel marrom de O Cruzeiro, esquisito), boas fotos, belas mulheres. Se O Cruzeiro tinha Rachel de Queiroz, a Manchete tinha Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino. Leituras que o Jurandyr Gonçalves Ferreira, professor de português, modernamente recomendava. Inclusive, ele levava a crônica de Sabino para a aula e comentava, analisava.

O choque que foi O Encontro Marcado em 1956! Todo meu grupo leu, estarrecido, aquela era a nossa história, da nossa geração, nossa revolta contra a família, a religião, a pasmaceira, o provincianismo, a mesmice. Aqueles mineiros eram os mesmos vitelloni de Fellini (Os Boas-Vidas) e os desesperados de Araraquara.

7.

Durante duas horas, ali em Sete Lagoas, nós três contamos nossos encontros com Sabino, as histórias que vivemos com ele ou ouvimos contar sobre. Conheci Fernando Sabino nos anos 70, fizemos algumas viagens juntos por este Brasil. Alto, expansivo, cheio de casos, apaixonadíssimo pelo que fazia, divertido, ainda que tenha morrido na depressão por motivos vários, um deles aquela maldita Zélia, que infernizou a vida de todos nós. Uma vez, perto de Ponta Grossa, Fernando mandou parar o carro diante de um boteco. Entramos, ele perguntou ao dono de que dia eram aqueles pasteis. De hoje, fritei agorinha mesmo, respondeu o homem ansioso para vender. Pena, respondeu Sabino. Se fossem de ontem... O sujeito não podia saber que ele só gostava de pastel amanhecido.

Outra vez, fui encontrá-lo em Curitiba, num hotel, dali partiríamos para o interior. Ao chegar, ele me apresentou um homem magro, de óculos, um tanto soturno, porém simpático. Ao sairmos, Sabino apertou meu braço, disse ao meu ouvido: "Oi, Ignácio, segurei o Dalton Trevisan o tempo inteiro, ele queria muito te conhecer". Mauro Ventura, que já tinha ouvido histórias semelhantes, comentou comigo: "Sabino era um cavalheiro, um diplomata, ajeitava tudo, mineiramente. Quem garante que ele não segurou o Dalton dizendo: Vem vindo aí um escritor louco para te conhecer?"

UM DIA TRISTE NA CASA DA MINISTRA - MÔNICA BERGAMO



FOLHA DE SP - 02/12/11
Entre janeiro e março de 2009, já pré-candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff fez 18 viagens pelo país, foi aos Estados Unidos, participou de 77 reuniões, audiências e inaugurações. Até que, em 20 de março, num check-up de rotina, os médicos descobriram um caroço abaixo de sua axila esquerda.

A ministra achava que era um pelo encravado. Uma sequela de depilação. Um mês depois, o diagnóstico: ela estava com câncer. No livro "A Vida Quer É Coragem", sobre a vida da presidente, que será lançado no dia 15, o jornalista Ricardo Amaral, veterano que já passou por algumas das principais publicações do país e que trabalhou na assessoria da campanha de Dilma, no ano passado, relata como ela reagiu à notícia e enfrentou a doença.

Num primeiro momento, Dilma pediu aos médicos que não contassem nada a ninguém, revela Amaral. Nem mesmo ao presidente Lula. A coluna apurou que ela chegou a entrar escondida no hospital Sírio-Libanês para as primeiras sessões de quimioterapia. E que só mudou de ideia depois de constatar que a notícia tinha vazado para a Folha.

Em 24 de abril, ela contou a Lula e convocou uma entrevista coletiva para o dia seguinte. No dia 25, a Folha revelou que Dilma passava por tratamento de saúde, antes de ela dar a informação completa aos demais jornalistas.

O livro relata que Dilma não queria fazer exames detalhados quando o nódulo foi descoberto. "Eu não tenho nada, eu conheço muito bem o meu corpo, conheço muito bem." Cedeu. Dias depois, quando exames confirmaram o diagnóstico, o médico Roberto Kalil Filho disse a ela, "para quebrar o clima": "Você não conhece o seu corpo tão bem assim...".

No primeiro dia de hospital, Dilma sofreu, relata Amaral. Suas veias não são boas para injeções e ela teve que instalar um tubo de plástico no braço para receber a medicação. Fez uma punção na espinha dorsal. Teve náuseas, dores, mal-estar. "Mais uma vez, ela pediu ao cardiologista [Kalil] que não contasse a ninguém."

Os primeiros a saber da notícia foram sua filha, Paula, e seu ex-marido, Carlos Araújo. A eles, segundo o livro, ela disse que falaria com Lula. Amaral relata que Dilma ligou para o então presidente: "Eu tenho uma coisinha importante para contar". E pediu a Kalil que desse as primeiras informações ao presidente. No dia 24, ao se encontrarem, Lula teria dito: "Tranquila, Dilminha, tranquila. Você é forte, vai conseguir".

Entre esse momento e a entrevista coletiva, uma tarefa difícil: impedir que a mãe, Dilma Jane, soubesse de tudo pela TV. Dilma pediu a uma amiga íntima: "Corre lá pra casa, fica com a Dona Dilma e não deixa ela nem passar perto da televisão hoje". No dia seguinte, um domingo, a então ministra contou tudo pessoalmente à mãe.

Duas semanas depois da primeira sessão de químio, "Dilma percebeu, durante o banho, que seus cabelos começavam a cair". Chamou a cabeleireira e disse: "Raspa tudo de uma vez". Segundo o livro, "foi um dia triste, muito triste, na casa da ministra".

TUDO ERRADO

Uma auditoria interna em 51 convênios do Ministério do Turismo com ONGs revelou que todos eles -todos- apresentam irregularidades como superfaturamento de preços e projetos que só existem no papel. O prejuízo, só nessa amostragem, pode passar de R$ 50 milhões.

SUSTO

O levantamento foi feito a pedido do ministro Gastão Vieira, depois que decreto da presidente Dilma Rousseff determinou que os ministérios passassem um

pente-fino nos acordos com ONGs. O percentual de problemas, de 100%, surpreendeu a equipe de Vieira. Os convênios, todos de projetos para a Copa de 2014, já haviam sido suspensos.

VEM MAIS

E na próxima semana a CGU (Controladoria-Geral da União) deve publicar relatório apontando problemas em centenas de outros processos da pasta do Turismo.

QUEM DÁ MAIS

Josué Gomes, da Coteminas, filho do ex-vice-presidente José Alencar, comunicou ao governo que entrará na licitação para administrar um terminal de grãos no porto de São Luís, no Maranhão. Em audiência com o ministro Edison Lobão, de Minas e Energia, disse estar seguro de que tem condições de ganhar a concorrência.

CONTA CORRENTE


O apresentador Jorge Kajuru foi condenado a pagar R$ 50 mil de indenização ao governador Marconi Perillo (PSDB), de Goiás. Em 2004, ele acusou o tucano de ter mandado violentar e agredir sua mulher, o que teria provocado a sua saída do Estado. Os advogados que representam Kajuru no caso não quiseram comentar.

MUSEU TIRIRICA

O deputado Tiririca (PR-SP) deve fazer uma campanha do Ministério da Cultura para a popularização dos museus. Retomando um dos slogans de sua eleição, ele gravará comerciais dizendo algo como: "Você sabe o que é um museu? Eu também não, mas vamos descobrir". A ideia foi dada pelo presidente do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), José do Nascimento Junior, em um encontro com o parlamentar, anteontem.

MUSEU TIRIRICA 2

Tiririca foi ao Ibram discutir a criação do Museu Nacional do Circo, ideia sua encampada pelo órgão. O espaço será itinerante: uma tenda percorrerá o país incorporando elementos da memória circense ao seu acervo.

NA ARENA

Fernando Henrique Cardoso será o próximo entrevistado do programa "Roda Viva". Na segunda-feira.

EM CHAMA

O rapper Criolo mandou prensar mil vinis brancos de seu último álbum, "Nó na Orelha", na República Tcheca. Mas recebeu a notícia de que a fábrica que faria os LPs pegou fogo e o material foi todo destruído.

PARA LEA


A top transexual Lea T., filha de Toninho Cerezo, ganhou festa da "Elle" em sua homenagem. Ela é capa da edição deste mês da revista. As modelos Ana Claudia Michels e Luiza Moraes circularam pelo evento, anteontem, no bar Número, nos Jardins.

CURTO-CIRCUITO

O governador de SP, Geraldo Alckmin, recebe hoje a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, no Palácio dos Bandeirantes.

A festa 
Talco Bells recebe hoje, a partir das 23h30, o DJ Tony Hits, no Estúdio Emme. 18 anos.

O diretor Brian Stirner dá workshop baseado na obra de Shakespeare nos dias 10 e 11, no Espaço Baepi, em Atibaia (SP).

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

A mansidão da leoa - DORA KRAMER



O ESTADÃO - 02/12/11

"Senta que o leão é manso", pede o dono do circo à plateia, numa recomendação que, mal comparando, serviria também ao público que assiste ao espetáculo em cartaz na Esplanada dos Ministérios, Praça dos Três Poderes e adjacências.

No caso, a mansidão é da presidente da República que pede muita calma nessa hora em que a Comissão de Ética Pública aconselha a demissão do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, cujo currículo revelado em capítulos conta a história de uma vida dedicada à transgressão.

Da mentira à improbidade, há de tudo um pouco.

Nessa altura o ministro pode até ser ex-ministro. Pode vir a deixar de sê-lo amanhã, depois, na semana que vem, em janeiro, quando o carnaval chegar ou no dia de são nunca.

Não importa. A presidente Dilma Rousseff, de qualquer modo, outra vez perdeu o timing da demissão, deixando a coisa chegar ao patamar da impossibilidade completa de Lupi dirigir um carrinho de mão que seja na administração pública. O que dirá ministério.

Se de pretexto a Presidência ainda precisasse, a Comissão de Ética deu o melhor deles. Tão bom que por um momento o movimento até pareceu coordenado.

A decisão dos conselheiros saiu na véspera da divulgação de mais uma transgressão: a Folha de S. Paulo de ontem contou que Lupi ocupou simultaneamente os cargos de assessor na Câmara dos Deputados e na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, entre os anos de 2000 e 2005.

A primeira reação da presidente foi convocar uma reunião para discutir os efeitos políticos da decisão da comissão e depois cobrar dos conselheiros encarregados de zelar pela observância da ética no primeiro escalão da administração federal uma explicação pormenorizada sobre o motivo pelo qual sugeriram a demissão do ministro do Trabalho.

Dilma não faz jus à fama. Ou talvez seja só boato essa história de que com a presidente não tem conversa mole: escreveu não leu, é bronca, é insulto, é tapa da mesa, é irritação, é cobrança de correção.

Ou, quem sabe, a presidente só compre brigas "para baixo" e na hora de enfrentar as feras da base prefira ouvir os conselhos de seu mentor, vestir uma casca grossa e fazer de conta que não é com ela.

Não é bem a Comissão de Ética quem deve explicações. Nessa altura, nem mais o ministro Lupi as deve. Deu todas as que podia dar e não convenceu.

Os motivos da sugestão de demissão são claros: ocorrências de extorsão, cobrança de propina e aparelhamento no ministério do Trabalho, mentiras, declarações de baixíssima categoria.

A decisão dos conselheiros saiu na véspera da divulgação de mais uma transgressão: a Folha de S. Paulo de ontem contou que Lupi ocupou simultaneamente os cargos de assessor na Câmara dos Deputados e na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, entre os anos de 2000 e 2005.

A primeira reação da presidente foi convocar uma reunião para discutir os efeitos políticos da decisão da comissão e depois cobrar dos conselheiros encarregados de zelar pela observância da ética no primeiro escalão da administração federal uma explicação pormenorizada sobre o motivo pelo qual sugeriram a demissão do ministro do Trabalho.

Dilma não faz jus à fama. Ou talvez seja só boato essa história de que com a presidente não tem conversa mole: escreveu não leu, é bronca, é insulto, é tapa da mesa, é irritação, é cobrança de correção.

Ou, quem sabe, a presidente só compre brigas "para baixo" e na hora de enfrentar as feras da base prefira ouvir os conselhos de seu mentor, vestir uma casca grossa e fazer de conta que não é com ela.

Não é bem a Comissão de Ética quem deve explicações. Nessa altura, nem mais o ministro Lupi as deve. Deu todas as que podia dar e não convenceu.

Os motivos da sugestão de demissão são claros: ocorrências de extorsão, cobrança de propina e aparelhamento no ministério do Trabalho, mentiras, declarações de baixíssima categoria.

Mal passada. Quem usa o termo nem se dá conta, mas falar em "rodízio" para qualificar o conceito da reforma ministerial em vista remete ao sistema de churrascaria.

A depender do critério que venha a ser usado, porém, pode acabar sendo o termo mais adequado.

GOSTOSA


O PT e os seus bons advogados - JOÃO MELLÃO NETO


O Estado de S.Paulo - 02/12/11


Tem sido uma preocupação do PT o tal do controle "social" da mídia. Principalmente da ala do partido ligada a José Dirceu. Isso lembra um pouco o início da revolução comunista na Rússia. Todo o pessoal que fez a Revolução de Outubro de 1917 estava convicto de que a convivência do comunismo com a liberdade de opinião seria impossível. Embora tanto o ideólogo - Karl Marx - como os ativistas - Lenin e Trotsky - se tenham valido dos jornais para divulgar as suas ideias, não confiavam neles.

"A imprensa serve aos interesses burgueses", argumentaria Antonio Gramsci alguns anos depois. Ela serve aos interesses de seus proprietários e cuidará sempre de passar ao povo, como notícias, aquilo que nada mais é do que a versão que importa aos patrões. As massas serão sempre retratadas como volúveis e perigosas turbas. As vozes burguesas serão sempre sensatas e ponderadas, enquanto as revolucionárias serão apresentadas como radicais e irresponsáveis. Daí a concluir que, a bem da revolução, a imprensa deve ser controlada é apenas um passo.

O PT, que nasceu de uma insólita aliança entre padres progressistas, sindicalistas exacerbados e intelectuais de esquerda, apesar de se preocupar, hoje em dia, apenas com a manutenção do imenso poder que amealhou, de quando em quando ainda se dá ao trabalho de dar uma satisfação ao pessoal antigo - aquele que ainda leva ideologia a sério. A luta a ser empreendida, agora, é contra os excessos que vêm sendo cometidos pela grande mídia.

Tática antiga, eles evitam bater de frente com o sagrado direito à informação, algo que até o mais ferrenho dos petistas respeita. O que é pedido à militância e à opinião pública em geral é que se proceda a uma análise desapaixonada da questão.

Será que, aqui, no Brasil, com essa imprensa que temos, o povo está sendo bem informado? Segundo eles, tudo é controlado por não mais que meia dúzia de organizações de comunicação: a Rede Globo de Televisão, a revista Veja, jornais conservadores como O Estado de S. Paulo e a Folha de S.Paulo e alguns mais são chamados pelos blogs petistas de "PIG", o Partido da Imprensa Golpista.

Golpista por quê? Por acaso algum desses órgãos de imprensa ousou tramar um golpe de Estado contra o legítimo e democrático governo do PT? Segundo os petistas, a resposta é sim. Todos eles, em comum acordo, passaram ao povo, em 2005, a falsa impressão de que teria existido um esquema de pagamento mensal, em dinheiro, aos parlamentares que se dispusessem a votar favoravelmente aos interesses do governo. Esse fato, caso comprovado, subverteria de vez todo e qualquer vestígio de respeito às regras do jogo democrático. Lula, o metalúrgico, seria capaz de tamanha sordidez? O ex-presidente jura que não. Mas seu então todo-poderoso chefe da Casa Civil, José Dirceu, leva todo o jeito de que sim: ele, sim, se disporia a fazer esse tipo de trabalho.

Dirceu, em função da malvada campanha que a "grande mídia" empreendeu contra ele, foi obrigado a renunciar ao cargo no Executivo. No momento seguinte, foi a própria Câmara dos Deputados que lhe cassou o mandato parlamentar e o condenou a oito longos anos sem direitos políticos. Como é que ele faz, agora, para viver? Simples: tornou-se um bem-sucedido consultor de empresas, às quais vende as suas evidentes qualificações, adquiridas nas suas experiências no centro do poder. Administra também um blog, no qual apresenta as características de um guerrilheiro, que nunca foi, e de um "injustiçado", que parece nunca ter sido.

Se houve ou não o tal do "mensalão", a decisão, agora, está nas mãos do Supremo Tribunal Federal (STF), no qual estão enredados o próprio Dirceu e mais 39 supostos membros do esquema. Os acontecimentos, por enquanto, têm sido desfavoráveis ao romântico "bandoleiro". O STF acolheu a denúncia contra o esquema e o procurador-geral da República já apresentou o seu parecer, no qual pede a condenação dos réus e põe Dirceu na condição de "chefe da quadrilha". O julgamento está para ocorrer no ano que vem.

O "mensalão" nunca existiu? Essa é a linha de defesa apresentada pelo PT à opinião pública. Não poderia ser de outra forma. Admitir a existência do esquema e, ao mesmo tempo, isentar figurões do partido é tarefa impossível. Por essa razão o melhor a fazer é dizer que tudo não passou de uma grande armação da grande imprensa. A qual deve ser submetida a algum tipo de "controle social", para que não venha, no futuro, a cometer semelhantes barbaridades.

Mas se o esquema nunca existiu, por que havia tantos políticos na folha de pagamento do "carequinha" Marcos Valério? Ora, alegam os petistas, tudo não passou de um ajuste de contas entre os parlamentares, para o qual foram utilizados "recursos não contabilizados" de campanha. Isso parece mais uma bela história criada por advogados do que uma tradução fiel da realidade.

Já tivemos oportunidade de tratar desse tema em artigo anterior - Manual da picaretagem intelectual (9/9). Para quem não o leu, trata-se de um ensaio baseado em obra postumamente publicada do filósofo Arthur Schopenhauer, a qual recebeu o sugestivo título Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão. Uma de nossas advertências era a seguinte: não acredite em histórias perfeitas, daquelas que têm explicação para tudo. A realidade não produz enredos perfeitos. Os que existem não passam de elaborações humanas.

Os advogados são pagos para isso. Para produzir bons enredos que expliquem o inexplicável. Os causídicos eficientes são aqueles que não se impressionam com o fato de Cristo ter ressuscitado os mortos. Afinal, quando querem, eles também conseguem fazer isso. O que eles não entendem, mesmo, é por que o Altíssimo nunca mandou a conta.

Dez anos de Brics - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS


FOLHA DE SP - 02/12/11
Nos próximos dez anos, o PIB dos Brics continuará crescendo em relação ao de países desenvolvidos 

Estamos completando dez anos da criação, pelo economista da Goldman Sachs Jim O'Neill, da expressão Bric para definir o grupo de quatro países que ele via como o centro de um novo mundo nas décadas seguintes.
Brasil, Rússia, Índia e China, principalmente pela incorporação de centenas de milhões de novos consumidores em seus mercados, ultrapassariam em poucas décadas os países desenvolvidos. A data mais provável em que esse fenômeno ocorreria seria, ainda segundo ele, na passagem da segunda para a terceira década do novo século.
Tomei conhecimento do fenômeno Bric no início de 2005, quando participava de apresentação sobre a economia brasileira em São Paulo. Paulo Miguel, meu sócio, e eu ficamos espantados com a projeção feita pelos economistas do Credit Suisse na qual, naquele ano, o saldo da balança comercial do Brasil chegaria a US$ 45 bilhões.
De volta à sede da Quest, usamos as premissas do Credit Suisse e projetamos o saldo comercial e outras variáveis econômicas externas do Brasil até o final da década.
Para nossa surpresa, nos deparamos, já em 2009, com um Brasil novo, no qual o saldo das reservas cambiais seria superior ao seu endividamento externo total (setor privado e público). Em outras palavras, depois de várias décadas, o Brasil passava a ser um país credor nas suas relações com o mundo exterior.
Imediatamente chegamos à conclusão de que o real deixaria o grupo de moedas fracas, e sujeitas a crises recorrentes, e seria incorporado ao de moedas emergentes confiáveis e estáveis. E isso mudaria a economia brasileira. O principal fator por trás dessa mudança era o aumento dos preços dos principais produtos primários nos mercados internacionais, fortalecendo os termos de troca da economia brasileira. Pela primeira vez, os preços desses produtos subiam mais do que os dos bens industriais, principalmente devido ao aumento da demanda dos países emergentes.
A partir daí, passei a entender o que O'Neill queria dizer com sua aposta nos Brics. Faz mais de cinco anos que venho sempre manifestando minha crença em uma nova economia no Brasil derivada da nova dinâmica criada pelos Brics.
Quando olhamos com mais cuidado para os dados econômicos desses países entre 2002 e agora, podemos ver de maneira clara o acerto da hipótese de O'Neill.
O quadro à esquerda mostra o que aconteceu na relação entre o PIB (Produto Interno Bruto) dos Brics e o de um grupo de nações desenvolvidas.
A informação mais interessante é a de que o PIB dos Brics, em relação ao dos países desenvolvidos, cresceu a uma velocidade duas vezes maior, tanto no agregado do grupo como individualmente. Ou seja, existe uma homogeneidade de dinâmica econômica entre eles maior do que a grande maioria dos analistas consegue perceber.
Afinal, perguntam-se os mais incrédulos, o que une esses países tão diferentes entre si?
A resposta está clara: o que os une é a dinâmica de crescimento econômico comum, o que faz com que cresçam constantemente acima do mundo desenvolvido.
Olhando para os próximos dez anos, é razoável esperar que esse comportamento dos Brics continue, embora com intensidade menor.
Se o Brasil crescer à taxa média de 3,5% ao ano na próxima década -projeção da equipe de economistas da Quest- e a Alemanha crescer a 2%, a relação entre seus PIBs deve passar dos 65% atuais para algo próximo a 80%.
No caso do PIB conjunto dos Brics e o de Alemanha, Estados Unidos, Japão e França, a relação deve passar dos atuais 46% para algo próximo de 60%. Ou será que vamos novamente nos surpreender com esses números? 

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 69, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo FHC)

Fátima Bernardes! Nããão se vá! - JOSÉ SIMÃO


FOLHA DE SP - 02/12/11

Fátima não podia tomar essa atitude sem consultar a nação. Plebiscito! Ela não tem direitos individuais


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Fátima Bernardes, não se vá! A Fátima Bernardes saiu do Jornal Nacional. Largou o marido na bancada! Mais uma dupla sertaneja desfeita. Rarará!
Agora é "breaking news" sem chapinha! Já tô com saudades. Síndrome de abstinência de chapinha!
E eu chamo o Jornal Nacional de Jogral Nacional. Cada um fala uma palavra. Bonner: "Arrastão". Fátima: "No". "Tú". "Nel". "Rebouças". "Agora". "No". Jor". "Nal". "Nacional". Vi-Va a Ro-Ci-Nha!
E eu lancei a enquete no Twitter: "Quem devia ficar no lugar da Fátima Bernardes?".
Enxurrada de respostas: Geisy Arruda, Datena, Tiririca, Luciana Gimenez, Daniela Albuquerque com o ET da Perna Fina, qualquer uma que saiba ler.
Minha mãe, ela é surda, tem artrite e acha o Bonner bonitão! As bailarinas do Faustão! EU! Rarará!
Ou então a Mãe Loura do Funk, que bate no marido? Já ia chegar na bancada dando porrada no Bonner e na mesa: "Esse porra do Lupi sai ou não sai, caralho?!". Rarará!
E a Fátima Bernardes não podia tomar essa atitude sem consultar a nação. Tem que ter plebiscito! Ela não tem direitos individuais! E as grandes polêmicas nacionais sempre foram os penteados da Fátima!
Ela já apareceu com todo tipo de penteado: Playmobil, chapinha, pinto molhado, a vaca lambeu!
E aquela chapinha, fritava o cabelo na grelha da churrasqueira! E não podia tomar chuva. Senão a chapinha virava macarrão parafuso. Rarará!
E as caras indignadas? Cara de derruba ministro! Aí ela vira girafa: estica a cara e o pescoço. Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou como dizia aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
O Brasil é lúdico! Olha a placa num restaurante: "Venha-se provar a nossa costela de bafo". Adoro essa colocação de pronomes.
Placa ao lado da balsa de Porto Seguro: "Aluga-se Bicicleta-se". E essa placa numa estrada em Santa Catarina: "Vendo Frango-se". Rarará. Sensacional.
E mais um predestinado. Direto de Porto Alegre: técnico da Desentupidora Cometa, Jorge BUEIRA! Pra desentupir as parentes. Rarará.
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

DILMA UMA FAXINEIRA SEM CARÁTER !


Lupi fica e ética sai - EDITORIAL O GLOBO



O Globo - 02/12/2011

A presidente Dilma não demorou a agir diante de evidências de "malfeitos" e tratou de se desfazer de quatro ministros - sem incluir Palocci, caso de autoimolação. Foi assim que Alfredo Nascimento (PR), Pedro Novais (PMDB), Wagner Rossi (PMDB) e Orlando Silva (PCdoB) saíram das pastas de Transportes, Turismo, Agricultura e Esporte, numa reforma ministerial antecipada. Surgiu, de forma quase instantânea, a imagem da "faxineira ética". A presidente começou a crescer em popularidade nas classes médias do Sul e Sudeste, trincheira da oposição, e a faceta de intolerância com a corrupção chegou à imprensa estrangeira.

Mas surgiu Carlos Lupi (PDT), ministro do Trabalho, para colocar sob suspeição as convicções presidenciais. Não bastasse a demora em afastar um ministro que mentira a ela e ao Congresso, no caso da utilização indevida de um avião de empresário com interesses no ministério, e ainda ser ele alvo de várias denúncias consistentes sob investigação de órgãos públicos, a presidente decidiu manter Lupi e desconsiderar a indicação da Comissão de Ética Pública da Presidência para a demissão dele.

Dilma, antes de embarcar ontem para visita à Venezuela, pediu mais informações à comissão. Porém, o mal à imagem do governo já estava feito. Mesmo que, ao voltar de Caracas, a presidente afaste Lupi, ficará registrado o momento em que Dilma aceitou manter um ministro em decomposição e desautorizar a Comissão de Ética. Deu razão ao comentário de Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), da Força Sindical, muito próximo de Lupi na administração clientelista do ministério: "Não sei para que existe esta Comissão de Ética." Faz sentido.

Se tudo continuar da mesma maneira, será a segunda vitória de Lupi sobre a comissão, que, a julgar pela primeira reação de Dilma, deveria ser extinta. Ao assumir em 2007, Lupi quis acumular o cargo com a presidência do PDT. Para a comissão, postos inconciliáveis, conclusão indiscutível. Lupi resistiu. Lula se omitiu e, assim, apoiou o aliado. Só muito depois, o ministro saiu da presidência do partido, mas apenas pro forma, pois continuou a dirigi-lo do gabinete ministerial.

Depois, começaram a surgir histórias de ONGs usadas para transferir dinheiro público para filiados do PDT, o mesmo modelo de falcatrua adotado nos ministérios do Turismo e do Esporte, sob o comando do PMDB e do PCdoB, antes da intervenção de Dilma. Investigação da Controladoria-Geral da União (CGU) identificou evidências de fraudes em 26 ONGs beneficiadas por Lupi.

A comissão lhe encaminhou perguntas sobre convênios suspeitos feitos pelo ministério com ONGs. A resposta de Lupi foi "inconveniente e insatisfatória", e por isso a comissão recomendou a exoneração do ministro.

Casos desabonadores em torno de Lupi vão além. Há de acusações de cobrança de propina por funcionários do ministério para interessados em fundar sindicatos - negócio promissor na banda podre da vida sindical - a denúncias não desmentidas de acumulação ilegal de cargo de assessor na Câmara e na Assembleia Legislativa fluminense.

A presidente pode achar demasiada a sucessão de afastamentos de ministros, preocupada com a base parlamentar. Se for isso, parou a "faxina" na pessoa errada. O ônus superará o bônus. Pode, ainda, ter sido convencida que a "mídia" quer induzi-la a demissões. Engano. A não ser que tudo o que tem sido publicado seja uma farsa. E, por óbvio, não é.

Volta ao passado - EDITORIAL FOLHA DE SP


FOLHA DE SP - 02/12/11

Retorna, por iniciativa do Senado, um debate capaz de suscitar estranheza em qualquer país onde estejam arraigados os princípios da liberdade de expressão.

Trata-se, novamente, da obrigatoriedade de diploma específico para o exercício da profissão de jornalista. O assunto -esperava-se-havia sido definitivamente encerrado por decisão do Supremo Tribunal Federal, em junho de 2009, quando se considerou inconstitucional a exigência.

O mecanismo foi introduzido pela ditadura militar e persistiu, ao longo de décadas, devido a uma dupla distorção ideológica.

A primeira, à qual o mundo político adere de bom grado, é a ideia de que faltam dispositivos para "disciplinar", "regular" ou "organizar" o jornalismo no país.

Tais verbos nada mais são do que eufemismos para o desejo de censura. Nenhum governante ou parlamentar se sente à vontade enquanto vigora, por parte da imprensa apartidária e crítica, um ímpeto genuíno de fiscalização.

A segunda distorção tem origem no corporativismo enquistado em órgãos sindicais, em organizações de estudantes e na burocracia das faculdades de jornalismo.

Mais do que nunca, os jornais necessitam orientar-se para a produção de textos analíticos e aprofundados, que sejam, ao mesmo tempo, de formato ágil e acessível para o leitor contemporâneo.

Bacharéis em direito, pessoas com formação em medicina, especialistas em finanças, geografia ou relações internacionais tornam-se particularmente necessários nesse contexto.

Dispondo de facilidade para a comunicação escrita, nada impede que, mesmo sem o diploma, possam ser contratados pelas empresas de comunicação. E, certamente, capacidade crítica, espírito de contestação e independência não são privilégios dos formados em jornalismo.

A obrigatoriedade do documento serve apenas como reserva de mercado para os egressos das faculdades, restringindo a concorrência no mercado de trabalho -o que resulta, em última análise, em desserviço ao leitor.

Aprovando, por 65 votos a 7, uma emenda constitucional para reviver o velho dispositivo, o Senado Federal certamente sabia o que estava fazendo: atender à pressão corporativista dos burocratas da área e entravar ao máximo a atividade de uma imprensa crítica.

Uma conversa com Piñera - MOISÉS NAÍM


FOLHA DE SP - 02/12/11


'Compreendo as motivações dos estudantes que estão protestando', disse-me o presidente chilenoPor que, em um dos países mais bem-sucedidos do mundo, as pessoas estão tão insatisfeitas? Os chilenos deveriam estar festejando, não protestando: a pobreza caiu de 45% em 1990 para 14% hoje.
Duas décadas de crescimento econômico, mais empregos e melhores salários contribuíram para o progresso social. A inflação, que sempre afeta mais os mais pobres, caiu de 27% ao ano em 1990 para 3%.
Em quase qualquer ranking de países, o Chile se situa entre os primeiros lugares (e em quase todas as listas é o número um da América Latina): pouca corrupção, bom desenvolvimento humano, competitividade internacional, liberdade econômica, conectividade e muitos outros fatores. No entanto, já faz meses que acontecem protestos nas ruas.
Na semana passada fiz uma visita ao Chile e tive a oportunidade de conversar com o presidente Sebastián Piñera sobre o paradoxo do êxito econômico e mal-estar social.
"Compreendo as motivações dos estudantes que protestam", disse-me o presidente. "O Chile se concentrou em aumentar rapidamente o acesso à educação, e nos descuidamos da qualidade. Também há um problema com os custos da educação e em que proporção devem ser cobertos pelo Estado."
Piñera elevou o orçamento para a educação e está tentando reformar o sistema, mas me disse: "Entendo que o mal-estar dos chilenos vai mais além da educação". De acordo com o Latinobarómetro, o Chile é o país latino-americano em que a percepção do progresso sofreu a maior redução.
Também é o país onde mais diminuiu a satisfação com a maneira como a democracia vem funcionando, e há forte redução do apoio ao modelo econômico. Por quê?
A história, a política e a cultura obviamente moldam a situação. Mas existem dois fatores que me parecem evidentes: o crescimento da classe média e a desigualdade econômica. A expansão da classe média gera exigências às quais poucos governos conseguem responder com a rapidez e agilidade necessárias.
A conversa que tive com um estudante chileno que participa dos protestos foi muito reveladora: "Minha família sempre foi pobre e agora somos classe média. Mas o governo já não faz nada por nós: se concentra em ajudar os mais pobres ou os mais ricos. Nada para nós, os do meio."
E isto também está relacionado à desigualdade. Como o Brasil, o Chile tem um índice altíssimo de desigualdade econômica. E esse tema apareceu em todas as conversas que tive durante minha visita. É óbvio que no Chile e em outras partes do mundo a convivência pacífica com a desigualdade acabou.
Hoje, reduzir a desigualdade mais rapidamente é uma prioridade que os estudantes chilenos trouxeram para a conversa nacional. O país está em dívida com eles por isso.
Resta ver se o governo, os estudantes e o resto da sociedade chilena conseguirão fazer mudanças que ataquem a desigualdade econômica sem afetar as outras conquistas do país. O Brasil -e outros países- têm essa mesma meta. É possível que, também nisso, venham do Chile algumas lições úteis para o resto do mundo.
Tradução de CLARA ALLAIN

Sem bangue-bangue - RUY CASTRO


FOLHA DE SP - 02/12/11


RIO DE JANEIRO - Assisti pela TV, em Viena, às cenas da tomada da Rocinha, do Vidigal e da Chácara do Céu. Habituados ao pau que às vezes quebra em seus quintais, os noticiários europeus se encantaram com a ocupação pacífica dos morros que, para eles, atendem coletivamente por Rocinha. Para os gringos -que, como ativistas de ONGs, turistas da pobreza ou clientes dos traficantes, sempre tiveram fascínio pelas nossas favelas-, foi uma grande notícia.De volta ao Brasil e lendo os jornais atrasados, vejo que analistas mais severos se queixaram justamente do que cativou os estrangeiros: o fato de o tráfico ter se escafedido de véspera, deixando o caminho livre para a lei, sem um tiro. Nessa retirada estratégica, ele estaria apenas levando seus estoques, armas e homens para outros lugares, dos quais um dia sairá para retomar suas posições. Enfim, é como se, sem bangue-bangue, a devolução de enormes territórios à jurisdição da cidade não tivesse valido.
Descontado o espírito de porquice, tais críticos traem um desconhecimento básico do modo de operar das quadrilhas. Elas só se impõem quando implantadas a fundo num território. O que se dá pela posse de pontos estratégicos, como lajes, ruas sem saída e rotas de fuga, e a arregimentação permanente, via intimidação, assistencialismo ou bons salários, de apoio e mão de obra local.
Quando um bando é corrido de uma favela, isso o afasta de seus clientes fixos, funcionários leais e policiais que o protegiam, obrigando-o a se mudar para longe e disputar pontos já ocupados ou em território hostil. Quanto mais morros recuperados, menor a sua chance de reativar-se. É como desorganizar um formigueiro.
E por que fogem sem reagir? Porque nunca foram tão fortes quanto a banda podre da própria polícia nos fazia acreditar.

O PT, os outros e a democracia - ALBERTO CARLOS ALMEIDA


VALOR ECONÔMICO - 02/12/11

Há três informações extremamente relevantes para se compreender o cenário político brasileiro no que tange à disputa entre o PT e os demais partidos e, em particular, o embate PT versus PSDB. A primeira informação diz respeito ao mínimo de votos nacionais que a atual oposição pode obter na corrida presidencial. Nas três vezes que o PT derrotou o PSBD, a menor proporção de votos dos vitoriosos em primeiro turno foi em 2002, quando Lula obteve 46,4% dos votos. A maior votação em primeiro turno foi em 2006, quando Lula alcançou 48,6%. Na eleição de 2010, o presidente em exercício alcançou 80% na soma de ótimo e bom. O cenário era francamente desfavorável para a oposição. Mesmo assim, o PSDB obteve 37% dos votos no primeiro turno. Enganam-se os que acham que esse foi o pior resultado dos tucanos. De modo algum. Em 2002, o então candidato do governo ficou com somente 23,2% de votos no primeiro turno.

Moral dos números: mesmo nas condições mais adversas possíveis, o voto oposicionista no Brasil é capaz de mobilizar, no mínimo, 37% dos eleitores. Portanto, é razoável supor que em 2014 o carismático e agregador Aécio Neves poderá alcançar uma proporção de votos maior do que esta. O principal obstáculo de Aécio para atingir esse desempenho é a eventual candidatura de Marina Silva. Marina construiu "recall" nacional em 2010. Sempre que um candidato faz isso, entra na eleição seguinte com mais musculatura. Foi assim com Lula nas diversas vezes que disputou e também foi assim com Ciro Gomes. Aécio sabe disso e, não por acaso, Marina recebeu recentemente o título de cidadã mineira.

A sociedade brasileira, quando se trata de eleição presidencial, é dividida entre os votos certos do PT e os votos certos do PSDB ou as ideias que ambos representam. Os dois partidos têm, cada um, pelo menos 40% de votos válidos certos. Isso significa que a eleição presidencial brasileira é definida pelos 20% de eleitores centristas. Esses são os eleitores mais pragmáticos, aqueles que não têm nenhum tipo de predisposição para votar nos petistas ou nos tucanos. Simplesmente votam, mais do que os 80% do eleitorado que formam os votos certos, com o bolso e baseados quase que exclusivamente na avaliação que fazem do governo.

É importante dizer que o Lula dos 80% de avaliação como ótimo e bom não foi capaz de fazer esses 80% votarem em Dilma. Isso é absolutamente normal. Os primeiros 20% que avaliam Lula como ótimo e bom são petistas fanáticos. Praticamente qualquer coisa que o PT fizer no governo será avaliada positivamente. Os 20% seguintes são simpatizantes do PT e daí para a frente (com mais 20% se obtêm 60% e somando-se mais 20 têm-se os 80 de Lula no fim de 2010) qualquer eleitor adicional que avalie positivamente um governo do PT poderá vir a votar no PSDB. Não há nada de errado nisso. O eleitor reconhece o bom desempenho de um governo do PT, mas, mesmo assim, não gosta do PT e por isso tende a votar na oposição. O mesmo raciocínio vale para um eventual governo tucano.

A oposição pode ficar quatro anos sem fazer oposição ou até mesmo fazendo uma oposição tíbia, tímida, quase inexistente. Quando chegar o ano eleitoral, porém, seu eleitorado de 40% estará lá presente e pronto a dar-lhe os votos. O Brasil é um país eleitoralmente dividido entre o que PT e PSDB representam. Essa divisão está profundamente enraizada e tem a ver com nossas crenças mais fundamentais. É ela que assegura que o Brasil sempre terá alternância no poder. Basta que um governo tenha desempenho ruim, e a oposição será chamada a se tornar governo.

A segunda informação diz respeito àquilo em que acreditam os parlamentares do PT e dos demais partidos grandes no que tange à economia. Uma pesquisa feita regularmente junto a nossos representantes em Brasília atestou que os parlamentares petistas são bem mais a favor do controle público sobre a economia do que os representantes do PSDB, PMDB e DEM. A divisão é bastante clara: de um lado, o PT; de outro, os três maiores partidos. Deputados federais e senadores do PT defendem que a economia seja controlada mais pelo governo do que pelas empresas privadas. Por outro lado, os parlamentares tucanos são bem mais favoráveis à economia de mercado. Todos sabem que essa diferença não é novidade. O fato é que está comprovada e devidamente documentada por uma pesquisa acadêmica.

A terceira informação também é conhecida de todos e comprovada pelas pesquisas do Datafolha. A simpatia partidária pelo PT, nacionalmente, atinge a casa de 25% do eleitorado, enquanto o mesmo indicador para o PSDB é de 6%. Mais importante do que isso, considerando-se a série histórica de pesquisas, a simpatia pelo PT vem aumentando desde 1989. Naquele ano, essa simpatia era de 7%, passou dos 10% em 1994, atingiu 21% em 2002, caiu em 2006 por causa do escândalo do mensalão e voltou a crescer no ano passado, atingindo seu patamar mais elevado. No mesmo período, a simpatia partidária do PMDB só fez diminuir e a do PSDB saiu de 2% e atingiu o máximo de 6%.

A evolução da simpatia partidária reflete o esforço de cada partido para construir uma marca clara diante do eleitorado. O PT sempre fez questão de defender ideias mais estatizantes juntamente com um discurso geral em defesa de políticas públicas que favorecessem os mais pobres. O PT construiu perante o eleitorado uma imagem de centro-esquerda. É essa imagem que assegura a simpatia partidária nacional de 25%.

Os adversários do PT não fizeram isso. Quem foi mais longe na construção dessa identidade foi abatido por seus próprios erros e ficou eternamente demonizado. Trata-se de Fernando Collor. O caçador de marajás sabia que seu adversário era o PT, e exatamente por isso buscou um discurso popular e mobilizador daqueles por ele nomeados de "descamisados". Também por isso Collor colocava a sociedade contra funcionários públicos inescrupulosos que agiam em prejuízo da própria sociedade. Não podemos nos esquecer de que Collor escolheu um sindicalista para ministro do trabalho (Antônio Rogério Magri), justamente porque ele tinha total clareza de que o PT era seu principal adversário. O ideólogo de Collor foi o diplomata José Guilherme Merquior, que adaptou a ideologia de centro-direita ao Brasil por meio da ideia de "social-liberalismo". É eleitoralmente inviável ser exclusivamente liberal em um país tão pobre e desigual como o Brasil.

Não existe mágica na política. É possível, sim, construir uma identidade de centro-direita no Brasil. A terminologia mais adequada seria mesmo a da identidade social-liberal. O eleitorado desse discurso, dessa visão de mundo, que é o eleitorado que não vota no PT, já assegura 40% dos votos em primeiro turno para quem defender esse credo. Ele terá que ser defendido de maneira popular, de forma a conquistar o coração dos eleitores. O que não falta são propostas e motes que façam do credo liberal adaptado às condições tropicais algo tão popular quanto o seu oposto. Vamos a alguns exemplos.

Grande parte da população brasileira não tem acesso ao transporte aéreo por causa de excesso de regulamentação. A construção de aeroportos regionais e o funcionamento de pequenas empresas com aeronaves menores pode ser viabilizado por meio de mais mercado e menos governo. O mesmo diz respeito ao barateamento do preço dos automóveis por meio da redução dos impostos sobre o consumo. A lista é longa. É fundamental que ela venha unida a uma simbologia não-elitista, a uma simbologia popular. O adversário é o PT e o país é o desigual Brasil, assim a centro-direita não pode dar chances de ser chamada de elitista.

Portanto, não se pode cair, por exemplo, na armadilha ultradireitista de Reinaldo Azevedo. Se fosse na França, ele seria ideólogo do movimento de Le Pen. Toda vez que o PSDB, ou aqueles ligados ao partido, defendem pontos de vista elitistas, se afastam da realpolitik brasileira e dão argumentos para seus adversários jogarem-nos no corner elitista e direitista. Foi esse o caso, por exemplo, do episódio da estação de metrô de Higienópolis. Aécio não é bobo, não cai nessa armadilha.

A adoção de uma versão revisitada do social-liberalismo pode ser o caminho viável para a construção de uma identidade oposta à do PT. Em todos os países do mundo desenvolvido há duas identidades claras, uma à direita e outra à esquerda do centro político. O Brasil está desbalanceado, só tem à esquerda. Cedo ou tarde isso será construído à direita. Se a atual oposição acelerar esse processo, será bom para ela, para seu principal adversário e para a democracia.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" e "O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo".

O laço matrimonial - HÉLIO SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 02/12/11

SÃO PAULO - Os piores temores do Vaticano se materializaram. Segundo as estatísticas de registro civil de 2010, divulgadas anteontem pelo IBGE, o índice de divórcios no Brasil nunca foi tão alto. No ano passado, foram concedidos 243.224 divórcios, o que representa uma taxa de 1,8 para cada mil pessoas com mais de 20 anos. O aumento em relação a 2009 foi de 37%. Decididamente, o que Deus uniu, o homem separa.
Mais do que a deterioração dos bons costumes, são alterações legais que explicam o crescimento. Em 2010, foi promulgada a emenda constitucional do divórcio direto, que simplificou o processo ao dispensar o período prévio de separação.
Antes disso, em 2007, a lei n° 11.441 já melhorara a situação dos ex-pombinhos apaixonados, ao permitir que separações e divórcios consensuais de casais sem filhos menores fossem feitos sem passar pelo Judiciário. Desde então, basta um registro público em cartório para consolidar a dissolução do matrimônio.
Quando indicadores demográficos respondem rapidamente a simplificações nos trâmites legais, é sinal de que a burocracia estava atravancando a vida do cidadão.
E é possível desburocratizar ainda mais retirando, por exemplo, a exigência de advogados nas separações consensuais (como, aliás, previa o projeto original da lei n° 11.441, até o lobby da OAB entrar em ação). Outra boa ideia é a de legisladores da Cidade do México, que pretendem criar o casamento com prazo de validade. Eles durariam, em princípio, dois anos, prorrogáveis eternamente. Quem quiser renovar os votos pode fazê-lo -caso contrário, basta que cada um vá para seu lado sem gastar um tostão e sem precisar acionar nenhuma burocracia.
Nessa história toda, subsiste um mistério: dado que a lei confere hoje às uniões estáveis praticamente os mesmos direitos e deveres inerentes ao matrimônio, por que as pessoas ainda insistem em se casar?

"Me inclua fora disso" - MARINA SILVA


FOLHA DE SP - 02/11/11

A transição vivida pelo Brasil -que, sendo uma economia emergente, caminha rumo à posição de país desenvolvido- não pode, em nome dos desejáveis e necessários ganhos, levar-nos a uma atitude de complacência. Ainda há muito chão a ser vencido.

Relatório recentemente divulgado pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) revela o que muitos ainda não querem ver. Intitulado "O direito de ser adolescente", o documento apresenta uma radiografia da situação dos adolescentes brasileiros, uma realidade chocante e desafiadora. São 21 milhões de cidadãos com idades entre 12 e 17 anos, e destes, 20% estão fora da escola.

Parece difícil acreditar, mas pelo menos um quinto de nossos adolescentes está longe do que há de mais importante nesse período da vida: educação. Fora da escola, eles estarão, em sua maioria, condenados ao subemprego e à baixa remuneração, impedidos de ascender socialmente e convidados a engrossar estatísticas que, durante muito tempo, têm envergonhado o país. Eles terão tudo para reproduzir as condições de pobreza em que estão inseridos.

Ao contrário do que se esperava, o percentual de adolescentes vivendo em famílias extremamente pobres cresceu entre 2004 e 2009, passando de 16,3% para os atuais 17,6%. Ou seja, a pobreza recua na população brasileira em geral, mas cresce entre eles.

Há algo em nossas políticas de combate à pobreza que precisa ser ajustado. Sem mais investimentos em educação, sem um bom ensino médio, sem uma escola eficiente e prazerosa, capaz de fazer parte de suas vidas, esses adolescentes ficarão do lado de fora daquele futuro tão esperado pelo povo brasileiro.

Talvez haja consenso de que o foco das políticas públicas deva ser dirigido às crianças e aos adolescentes, mas eles estão ficando de fora de onde deveriam estar: na escola.

Continuam muito vulneráveis à miséria e à violência. A cada dia, 11 adolescentes são assassinados no Brasil. Ainda segundo a pesquisa, dos 4,3 milhões de brasileiros com idades entre 5 e 17 anos que exercem algum tipo de atividade laboral, 77% (ou 3,3 milhões) têm entre 14 e 17 anos. Mais: com base em dados do IBGE, o número de lares chefiados por adolescentes mais do que dobrou em uma década: são 661 mil.

O relatório do Unicef acerta ao ir além das estatísticas, ouvindo adolescentes e buscando conhecer realidades muito específicas, como a de quilombolas e a de indígenas -que vivem em situação ainda mais dramática. Esses jovens deixam de ser número e ganham cara e voz. Assim, cada um deles pode repetir, em coro, bem perto de nós, em paradoxal jargão adolescente: "Me inclua fora disso".

CLAUDIO HUMBERTO

“Isso é uma das formas de peculato”

Roberto Gurgel procurador-geral, sobre o comportamento do ministro Carlos Lupi.

PMDB SAIRÁ DO GOVERNO SE JUCÁ PERDER LIDERANÇA

O PMDB decidiu reagir, numa tentativa de barrar os parlamentares do Partido dos Trabalhadores de tirar do senador Romero Jucá (RR) o cargo de Líder do Governo, espaço considerado precioso pelo partido. O senador Renan Calheiros (AL), líder do PMDB no Senado, foi taxativo a esta coluna: “Se o PT conseguir tirar o senador Romero Jucá da liderança, o partido estará fora do governo”.

ESCREVEU, NÃO LEU...

A briga PT x PMDB pela liderança do governo Dilma pode explicar a decisão do senador José Sarney de pôr a Emenda 29 para votar. 

DILEMA

O ministro Guido Mantega (Fazenda) balança na reforma política, em janeiro. Dilma quer mantê-lo, mas a mulher dele enfrenta grave doença.

DUAS NOTÍCIAS

Primeiro, a boa: o IBGE calculou a expectativa de vida do brasileiro em 73,5 anos. A má: ganhou mais 3 meses e 22 dias para pagar impostos. 

PENSANDO BEM...

O Brasil deve ser o único País em que o ministro do Trabalho não trabalhava nos dois empregos. 

DF: GOVERNO BARRA OBRA QUE IMPEDIRIA SUICÍDIOS

Vinte pessoas já se mataram pulando do alto do shopping Pátio Brasil, em Brasília, mas burocratas do governo, que certamente detestam a cidade, proíbem a instalação de esquadrias e vidros, que impediriam novas mortes, porque supõem que o shopping poderia se aproveitar para ampliar ilegalmente seu espaço comercial. A alegação do governo do DF é desmentida pelo projeto, pelo shopping e pela Justiça.

JÁ PULA TARDE

Para a Administração de Brasília e Agefis, a agência de fiscalização do DF, uma morte a mais ou a menos certamente não fará diferença.

DESMENTIDO

A administração do shopping, que já fez 70% da obra, nega a intenção ou mesmo a possibilidade de ampliar seu espaço comercial.

INTERVENÇÃO

O desembargador Roberval Belinati, do TJ-DF, que lidera as iniciativas para conter os suicídios, acha que o governador do DF precisa intervir. 

IRÃ CALA O BRASIL

O Brasil mais uma vez assumiu atitude de vergonhosa omissão diante de uma das mais graves agressões que podem ser cometidas entre países em tempo de paz: a invasão à embaixada da Grã-Bretanha em Teerã, estimulada pelo governo do porralouca Mahmud Ahmadinejad.

INEXORÁVEL

Dono de língua afiada, Silvio Costa (PTB-PE) cutucou um deputado no plenário, dia desses, apontou para Eduardo Cunha (PMDB-RJ), sempre aos cochichos, e brincou: “Mais três anos e ele quebra o Brasil...”

VARRIÇÃO

O ministro Aldo Rebelo (Esportes) demitiu Waldemar Souza, secretário-executivo que encontrou no cargo após a demissão de Orlando Silva, e nomeou em seu lugar Oceania Paula Dias Pini.

HUMOR COM PORRADA

O tempo esquentou de novo com o CQC: na quarta (30), o deputado Paulo Magalhães (PSD-BA) destruiu o microfone de Felipe Andreoli, por se sentir ofendido com pergunta sobre assinaturas falsas do partido. Paulo diz que “denegriram sua imagem”. Vai ao ar segunda.

PROPAGANDA ENGANOSA

O governador Sérgio Cabral (PMDB) foi condenado à revelia em ação popular no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro questionando gastos ilegais de publicidade no ano passado, ano eleitoral. As orelhas do procurador ardem. 

PAZ NO MAR

Presidente do Conselho Nacional de Pesca, Fernando Ferreira fez as pazes com o ministro Luiz Sérgio (Pesca), cuja cabeça chegou a pedir. Ele vai ao ministro Gilberto Carvalho defender a manutenção da Pasta.

EROS EM PARIS

Aposentado desde 2009, o ministro Eros Grau está muito distante das preocupações próprias do Supremo Tribunal Federal: vai lançar em Brasília, dia 6, seu livro “Paris, quartier Saint-Germain-des-Prés”, sobre a capital francesa. Será na livraria Cultura do shopping Iguatemi, 19h 

DINHEIRO É VENDAVAL

A Câmara dos Deputados abriu concorrência para elaboração de projetos complementares de ampliação do Anexo IV, onde fica a maioria dos gabinetes parlamentares. Um luxo só.

NO ESCURINHO

Dilma já escolheu o próximo filme que verá no Torto: Ratatouille. 


PODER SEM PUDOR

NA RETRANCA

Na campanha “Diretas já”, em 1983, celebridades aderiam à causa sem problemas. Exceto Pelé, que se manteve reticente até declarar apoio, de repente. Foi logo após o então presidente João Figueiredo convidar Xuxa, com quem Pelé brigara, para uma visita ao Planalto. Governador de Minas, Tancredo Neves tentava entender o comportamento retranqueiro do “rei”:

– Uai, o Pelé agora está jogando no gol?

SEXTA NOS JORNAIS


- Globo: Dilma não demite Lupi e cobra explicação da Comissão de Ética

- Folha: Crise faz governo acelerar pacote para ativar economia

- Estadão: Dilma desafia Comissão de Ética e Lupi é mantido

- Correio: Preços caem até 20% após pacote de Dilma

- Valor: Governo lança pacote de estímulo de baixo impacto

- Estado de Minas: Pacote pró-consumo já derruba os preços

- Jornal do Commercio: O Natal dos preços baixos

- Zero Hora: CEEE projeta verão com energia no limite

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Calma, gente - ANCELMO GOIS



O GLOBO - 01/12/11



Veja como certos políticos são rápidos no gatilho quando vislumbram um holofote. O simples anúncio na imprensa de que Ronaldo poderá integrar o Comitê da Copa bastou para o deputado Jonas Donizete, presidente da Comissão de Desporto da Câmara, convocar o ex-atleta para sentar na cadeira do dragão e dar explicações.

Dia D...

Ricardo Teixeira chega esta manhã de um giro por Zurique e Londres e se reúne com Ronaldo. Depois, darão entrevista. O craque será a “cara” do Comitê Local, mas não seu presidente. A diferença é... não sei.

Alô, Paes!

Desabafo de Paulo César Caju, campeão do mundo em 1970 e carioca da Favela da Cocheira, ontem, na Soccerex, a superfeira de futebol que ocorre no Rio: — É absurdo um jogador premiado como eu nunca ter recebido homenagem da cidade.

‘My name is Cabral’

Cabral, com seu curso intensivo de inglês, já começa a mostrar desembaraço no idioma. Em Nova York para conversas com investidores, tem falado inglês pelos cotovelos. Mas ainda tropeça nos pronomes e no vocabulário. “I’m improving (estou melhorando)”, brinca.

Cena carioca

Ontem, um casal pegou um táxi no Santos Dumont e, no trajeto até a Zona Sul, o motorista foi falando no celular com um tal Fernando. À certa altura, veja só, o desaforado se virou e pediu: — Podem anotar um telefone para mim que estou dirigindo?

Mamãe idosa
Uma carioca de 61 anos, casada com um homem 23 mais novo, deu à luz ontem uma menina de 2,5kg, no Rio. É seu primeiro bebê. A mulher engravidou graças a um óvulo comprado. Mãe e filha passam bem.

O CEMITÉRIO DE
Ricardo de Albuquerque, no Rio, vai ganhar, dia 11 agora, um memorial em homenagem a 14 presos políticos assassinados pela ditadura militar entre 1970 e 1974. Foi sugestão do grupo Tortura Nunca Mais e do vice-prefeito carioca, Carlos Alberto Muniz. A RioUrbe, que toca o projeto, vai pôr totens (veja na foto) para lembrar as 14 vítimas, cujas ossadas estão guardadas no Hospital Geral de Bonsucesso, federal. Os restos serão levados para o cemitério em dezembro, onde ficarão num grande túmulo de granito. Que descansem em paz

Guerra societária
Deu no “La Repubblica” que o presidente da Pirelli, Marco Provera, foi interrogado semana passada por dois procuradores da Justiça de Milão. É acusado de dois crimes: um desfalque gerado após roubo de dados eletrônicos, e outro que envolve os 26 milhões de euros repassados ao brasileiro Naji Nahas, o qual, segundo o jornal italiano, “transita entre o mundo político e o dos negócios”.

Segue...

O caso remonta ao início dos anos 2000, quando Naji foi contratado por Provera, então chefão da Telecom Itália, para ajudá-lo a resolver a guerra societária na Brasil Telecom.

Música evangélica

A TV Globo segue investindo no segmento evangélico. Promoveu terça o Troféu Promessas, apresentado pelo ator Eriberto Leão, para novos talentos da música evangélica.

Sobrou para os EUA
Líderes comunitários da Baixada Fluminense e da Vila Kennedy, Zona Oeste do Rio, farão um ato contra o vazamento de óleo da Chevron na Bacia de Campos em frente ao consulado dos EUA, amanhã, às 10h30m. Levarão duas garças de gesso cobertas de piche para representar a tragédia.

O médico e o...

A 5a- Câmara Cível do Rio condenou o psiquiatra Marcelo de Oliveira a indenizar em R$ 3 mil a paciente Nilcéa Santos. É que, numa consulta, o doutor teria se alterado e a agredido verbalmente.

Corte e costura

O que se diz na sala de costura é que já foi mais feliz o casamento do grupo InBrands com a grife do badalado estilista Alexandre Herchovitch, com lojas em São Paulo, Rio e Tóquio. As partes negociariam um fim amigável da parceria.

Bispo de Niterói

O Papa Bento XVI aceitou a renúncia de Dom Alano Maria Pena, 76 anos, arcebispo de Niterói, e nomeou para o lugar Dom José Francisco Rezende Dias, 52, atual bispo de Caxias, RJ. O novo bispo nasceu em Brasópolis, MG, e é muito ligado ao influente Dom Walmor Oliveira, de Belo Horizonte. A posse está prevista para fevereiro.

Núbia é campeã

A ex-prefeita de Magé Núbia Cozzolino é, entre os políticos, a mais denunciada à Ouvidoria do MP do Rio. Mas a vidraça, terça, fez o papel de pedra. Apresentou três denúncias contra uma juíza.

BALANÇARAM O pé de moça formosa na gravação das vinhetas de carnaval da TV Globo: Antônia Fontenelle (Mocidade), Ellen Rocche (Porto da Pedra) e Raíssa Oliveira (Beija-Flor)

CAROLINDA, PERDÃO, Carolina Dieckmann e Maria Ribeiro, duas flores do orquidário de musas do nosso coleguinha Jorge Bastos Moreno, posam na estréia do filme “Domingos” (de Maria), no Estação Vivo, na Gávea

PONTO FINAL

Um gaiato espalha que Serginho Groisman, o apresentador, é a cara de Andrés Sanchez, o cartola do Corinthians. Mas Serginho (à esquerda) é gente boa. Já Andrés... há controvérsias.

Se não fossem os políticos... - CARLOS ALBERTO SARDENBERG


O Globo - 01/12/2011


Se não fossem os políticos, a economia americana e, pois, a mundial estariam em situação muito melhor. Sinais de recuperação reapareceram por lá. Os consumidores foram às compras no feriadão do Dia de Ação de Graças e têm se declarado mais confiantes. Não há mais destruição de empregos, e novas vagas começam a aparecer. As empresas estão com o caixa pronto para novos investimentos. Ontem, foi uma sequência de boas notícias: empresas privadas abriram mais de 200 mil vagas em outubro, o dobro do esperado; as vendas de casas subiram 10% em outubro, contra queda de 4% no mês anterior; e dois indicadores importantes mostraram atividade industrial em expansão.

Mas continua tudo emperrado do outro lado. Não se sabe como o governo pode apoiar (ou atrapalhar) a recuperação e como vai lidar com o enorme buraco das contas públicas. Com um presidente democrata, Obama, e uma Câmara de Deputados controlada pelos republicanos, há um empate político que impede a formulação de um programa econômico de médio prazo.

Em tempos normais, os moderados dos dois lados, a direita dos democratas e a esquerda dos republicanos, construiriam um plano de consenso. Não é mais assim. De um lado, o Partido Democrata deslizou um pouco para a esquerda com Obama. De outro, o Partido Republicano avançou demasiadamente para a direita, podendo ser considerado o culpado principal nesta história.

Há diferenças ideológicas históricas e, afinal, iguais às existentes em qualquer outro país. Os democratas, esquerda, favorecem o gasto social, financiado por impostos cobrados sobre os grupos de maior renda e sobre grandes empresas e bancos. Republicanos, direita, acham que gastos do governo funcionam mal, quaisquer que sejam, de maneira que a saída é criar condições para que o setor privado faça o serviço de gerar crescimento e emprego. Por isso, quanto menos impostos melhor, especialmente para os que têm capacidade de investir.

Na prática, porém, são mais inteligentes aqueles governantes que não se prendem ferreamente à ideologia e se acertam com as circunstâncias. Bill Clinton, democrata, fez um forte ajuste de contas públicas. Ronald Regan, republicano, aumentou impostos.

Além disso, estes não são tempos normais. Se Obama colocou uma montanha de dinheiro público para salvar bancos e grandes empresas, temendo que seu colapso arrastasse toda a economia, por que os republicanos não poderiam topar algum aumento de imposto para financiar déficits orçamentários que podem abortar a recuperação privada?

O presidente Obama fez genuínos esforços de composição. Isso, aliás, custa-lhe a oposição dos dois lados. No seu próprio partido, acusam-no de ser extremamente condescendente com os bancos e o big business. Do outro lado, consideram-no um perigoso esquerdista. No meio do espectro político, muitos consideram que ele não conseguiu unir o país. É preciso reconhecer que ele assumiu em circunstâncias particularmente difíceis, mas é para isso mesmo que se elegem os líderes, não é?

No terreno do bom-senso, economistas de diversas tendências concordam que os Estados Unidos precisam de uma combinação de estímulo público imediato e austeridade em médio e longo prazos. Ou seja, gastos públicos direcionados, agora, para as pessoas mais atingidas pela crise, os desempregados, e algum tipo de subsídio para setores econômicos com maior propensão de gerar empregos. Praticamente todo mundo concorda que não há como escapar de aumento de impostos para financiar essas despesas sem aumentar ainda mais o déficit público. E há diversas maneiras para se cobrar mais impostos dos mais ricos, sem aplicar nenhum confisco. Uma vez consolidada a recuperação do setor privado - o que se mede pela queda do desemprego - sairiam os estímulos e entraria o corte de despesas.

Parece sensato, mas há um obstáculo insuperável no lado republicano. Todos os seus principais líderes prometeram formalmente que não votariam nenhuma legislação que aumentasse impostos de qualquer tipo, para qualquer setor ou pessoa. É mais do que radical. É loucura. A revista "Economist", por exemplo, sugeriu que nem seria necessário elevar alíquotas de impostos.

Bastaria eliminar ou reduzir deduções que beneficiam as famílias de maior renda. Nem isso passa.

Além de ideologia, há aí um cálculo político dos republicanos. Como o presidente Obama tem baixo índice de aprovação e como a economia se recupera lentamente, eles acreditam ter grande chance de tirá-lo da Casa Branca em novembro próximo. Os democratas reagem - e pronto, lá se foram as possibilidades de programas bipartidários. O país está em plena campanha eleitoral, quando as posições normalmente radicalizam.

Assim, até final do próximo ano, não haverá programa econômico de médio prazo nos EUA. Os governantes, no Executivo e no Legislativo, vão empurrar com a barriga e reagir às emergências. Não são estúpidos a ponto de deixar que o país mergulhe no desastre.

O Federal Reserve, Fed, o banco central, tem espaço para manobras independentes, como fez ontem, e pode ajudar a evitar o pior. Mas a variável chave continua a ser o ajuste das contas públicas, que não depende do Fed, mas sim do desempate entre o presidente e o Congresso.

Não é só na Europa que faltam líderes de maior sabedoria.

PREVIDÊNCIA PÚBLICA

Funcionários públicos da Inglaterra fizeram greve, ontem, para protestar contra a reforma da previdência iniciada pelo governo conservador de David Cameron. Como toda reforma, em qualquer país, o objetivo é aumentar o tempo de contribuição, o valor da contribuição e, em certos casos, reduzir o valor da pensão. A idade mínima de aposentadoria, por exemplo, está sendo elevada de 65 para 67 anos, para homens e mulheres.

Diz o governo britânico que, sem as reformas, o déficit previdenciário pode chegar logo a "perigosos" 9 bilhões de libras, algo como R$25 bilhões. Sabem qual o déficit da previdência dos funcionários públicos federais no Brasil? R$50 bilhões neste ano, o dobro do que os ingleses consideraram temerário.

Não é difícil entender por que a presidente Dilma, que não é conservadora, está apressando a votação da sua reforma. Também é fácil verificar que esse déficit é mais um pedaço da herança maldita que recebeu de seu patrocinador.

O primeiro aviso - DENISE ROTHENBURG



CORREIO BRAZILIENSE 01/12/11




Embora a popularidade da presidente Dilma tenha permitido que ela leve o governo sem precisar dar atenção total ao Congresso, é chegada a hora de abrir os olhos. O parlamento funciona como o teatro. Antes de se abrirem as cortinas para o espetáculo, as luzes começam a piscar


Partiu do presidente do Senado, José Sarney, a primeira grande dor de cabeça no governo nesta reta final do ano. Ele colocou em pauta a regulamentação da Emenda 29, que amplia a aplicação de recursos na área de saúde e deixou o governo em pânico. O líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), correu e tirou o regime de urgência que fazia com que a emenda andasse mais rápido.

Muitos podem ver essa atitude de Sarney e a de Jucá como parte do dia a dia da Casa. Mas quem entende das coisas diz que nada ali acontece por acaso. No Congresso, ninguém tem dúvidas de que, embora a base aliada seja maior no Senado, é ali que o governo terá dificuldades.

Isso porque, na Câmara, todos os partidos avaliam que está tudo meio que paralisado. Ali, deputados reclamam que ministros não aparecem mais como nos velhos tempos — leia-se tempos de Lula. Integrantes do primeiro escalão frequentavam mais gabinetes de líderes, convidando um deputado para lhe acompanhar ao estado, tempo para a conversa política.

Agora, avaliam os deputados, isso acabou. Os ministros, com medo da reação da presidente Dilma Rousseff — pelo menos é essa a desculpa que eles passam aos líderes — só comparecem ao Congresso para as famosas audiências em que o tempo de conversa não existe. Nos ministérios, os mais festejados por receberem os parlamentares em seus gabinetes são o da Saúde, Alexandre Padilha, e o da Agricultura, Mendes Ribeiro, de volta à Esplanada depois de uma cirurgia no cérebro.

No Planalto, a maioria dos políticos se considera órfã. Ideli Salvatti, de Relações Institucionais, recebe, é considerada simpática, mas, considerando o número de deputados e senadores, 594, uma Ideli não basta. É pouco para atender a todos. A da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, atarefada com os projetos do governo, não tem muito tempo para essa tarefa de sentir o pulso do Congresso e ajudar a perceber o que acontece no parlamento.

Quem conhece a Casa avalia que é hora de prestar muita atenção em todos os movimentos. Embora a popularidade da presidente Dilma tenha permitido que ela leve o governo sem precisar dar atenção total ao Congresso, é chegada a hora de abrir os olhos. Afinal, o Parlamento funciona geralmente como o teatro. Antes de s abrirem as cortinas para o início do espetáculo, as luzes começam a piscar, de forma a avisar o público que procure logo seus lugares e encerre as conversas paralelas. Foi mais ou menos isso que Sarney fez ontem.

Por falar em paralelas...
O PMDB voltou a ficar meio desconfiado das conversas do PSB do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, com o PSD do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. O PMDB considera que Eduardo Campos se prepara para jogar a seguinte cartada: ou vira vice de Dilma Rousseff ou será candidato a presidente da República logo em 2014. Os peemedebistas estão convencidos de que os dois partidos, PSB e PSD, vão se unir para tirar de Michel Temer a candidatura a vice-presidência da República lá na frente. Pelo menos, é esse o discurso que o PMDB levará às suas bases para forçar o lançamento de candidaturas próprias por todo o país no que vem. A ordem no partido é: ou a legenda se fortalece em 2012 nas eleições municipais ou irá comer poeira na sucessão presidencial. É por aí que a banda peemedebista vai tocar depois do mês do Natal.

Dentro do PMDB, entretanto, há quem pretenda continuar ao lado do PT — e assim não deixar que Eduardo Campos e a aliança PSB-PSD lhe tome o lugar. Esse grupo do PMDB é formado em sua maioria pelos pragmáticos senadores. Para sorte deles, é no Senado onde os peemedebistas dão as cartas. Ali, nem PSD nem PSB têm chances de, juntos, compor uma bancada tão grande ao ponto de levar o governo a dispensar os serviços peemedebistas. Por isso, dentro do próprio governo, há quem diga que se houver mais duas piscadelas de luz no teatro do Senado, a presidente Dilma terá que novamente abrir as portas do Alvorada para receber senadores do partido do vice-presidente Michel Temer e avisar que é com ele o jogo do futuro. É isso o que o PMDB quer ouvir. O problema é que, quando essas piscadelas virão, é que ninguém sabe.

Sonho tunisiano - MERVAL PEREIRA





 O Globo - 01/12/11


Do momento em que um jovem vendedor ambulante de frutas e verduras se imolou em praça pública no interior da Tunísia, em protesto contra os desmandos das autoridades, até hoje, um ano depois, quando seu gesto continua desencadeando manifestações populares na região que já derrubaram nada menos que três ditadores, e levaram às urnas, pela primeira vez em eleições democráticas, vários países, houve uma “reinvenção da liberdade”, valor central da condição do homem moderno.

A definição é da escritora Hélé Béji, uma das principais intelectuais da Tunísia, fundadora do Colégio Internacional de Tunis, que participa a partir de hoje da conferência da Academia da Latinidade que vai debater justamente as consequências, para a região e para a democracia, da chamada Primavera Árabe.

Criada para discutir a questão do multiculturalismo num mundo dominado pela hegemonia dos EUA, mesmo antes dos atentados do 11 de Setembro, a Academia da Latinidade reúne intelectuais, na maioria de países de origem latina, e se propõe a intermediar as relações do Ocidente com o Oriente, tendo como base o fortalecimento da democracia.

Seu secretário-geral, o filósofo e sociólogo brasileiro Candido Mendes, diz que esta XXIV Conferência, intitulada “Os novos imaginários democráticos”, pretende discutir as muitas interrogações que estão postas sobre a afirmação da identidade coletiva dos que desencadearam a Primavera Árabe, em meio às tensões da guerra de religões, da queda de ditaduras e do fundamentalismo renovado na região mediterrânea.

O que se pretende debater, segundo Candido Mendes, é se a democracia tornou-se uma ideia universal possível, no encontro de um diálogo num mundo marcado pela indiferença, pelo mal-entendido entre a laicidade e o mundo islâmico, e se é possível a compreensão efetiva do pluralismo étnico ou do multiculturalismo nas construções nacionais que se seguirão às mudanças.

A escritora tunisiana parece não ter dúvidas. Para ela, “assistimos, pela primeira vez na História contemporânea, e com ressonância mundial e não somente regional”, à reinvenção da liberdade, e “a partir de agora não há mais fronteiras morais ou políticas” entre o mundo livre, que se identificava com o Ocidente, e os outros mundos.

Candido Mendes ressalta que, com o fim da antiga homogeneidade de um mundo dividido entre centros e periferias, será preciso enfrentar as novas contradições entre afirmação identitária, autodeterminação e prioridade democrática.

Já Hélé, entusiasmada com o momento, fala da “aceleração da História”, quando “a ação, o gesto, a rebelião, a palavra foram mais rápidos que o pensamento”. Ela considera que estamos diante de uma “ampliação infinita, mundial do que conhecíamos como mundo livre”. A partir de agora, para Hélé, os povos da Primavera Árabe são livres para imaginar a liberdade, e não apenas recebê-la dentro de um modelo predefinido pelo Ocidente.

Ela vê o momento atual como uma “segunda independência” para os países que haviam trocado a dominação exterior do colonialismo por uma dominação interior, das ditaduras. E compara os movimentos revolucionários que ocorrem nos países da Primavera Árabe à Renascença europeia dos séculos XV e XVI.

A revolução tunisiana, para Hélé, deu à palavra “democracia” uma acepção mais ampla que toca todas as esferas da existência social e humana nas sociedades afetadas, e não se limita apenas à ruptura de um sistema político arcaico ou a uma forma de governo.

Não se trata, diz ela, de somente construir um novo sistema político ou estabelecer regras honestas e justas de representação política, mas da possibilidade única de criar novos modos de relações humanas que não sejam baseadas em hierarquias antigas ou em comunidades envelhecidas ou ainda em medos ancestrais ou proteções patriarcais.

Será preciso, adverte, um trabalho individual de autorregulação, de autodisciplina, pois com o desaparecimento dos antigos sistemas coercitivos também desapareceram as referências históricas. Hélé pensa que, dentro do novo ambiente democrático, haverá necessidade de uma nova autoridade, que não pode ser religiosa.

“Nossas novas democracias estão à procura de sua própria autoridade, de seus próprios mitos, de seus próprios símbolos, de suas próprias tradições, seus próprios códigos, seu próprio discurso, seus próprios fundamentos ainda não formulados, em nome de uma nova cultura”, divaga Hélé.

As democracias modernas estão enfraquecidas pelo excesso de individualismo e pela ganância financeira, na visão de Hélé Béji, e estão longe de serem perfeitas, especialmente no campo da justiça social. Ela considera que a conferência da Academia da Latinidade pode explorar, nos diversos campos das ciências humanas, as consequências do que acredita ser um novo ciclo histórico da democracia, que, “através da extraordinária revolução do sul do Mediterrâneo, joga novas luzes sobre a crise das democracias ocidentais”.

A conferência se debruçará também, segundo Candido Mendes, sobre o impacto dessas mudanças nos caminhos clássicos do mundo europeu, envolto na crise da esquerda, do emprego e, sobretudo, das novas demandas por avanços nos direitos humanos e de cidadania, num espaço político novo e complexo.

Mais pragmático que sua colega Hélé, o secretário-geral da academia ressalta a importância, nos países subdesenvolvidos que fazem parte desse processo, das políticas públicas para reduzir a marginalidade social, distribuir melhor a renda e acelerar os resultados.