domingo, outubro 02, 2011

CLÓVIS ROSSI - O Brasil visto como não gosta


O Brasil visto como não gosta
CLÓVIS ROSSI 
FOLHA DE SP - 02/10/11

O suposto ou verdadeiro "imperialismo" brasileiro ressurge na estrada que gerou uma crise na Bolívia


Um tosco cartaz de papelão colocou o Brasil no coração da crise que sacode a Bolívia e jogou a popularidade do presidente Evo Morales a 36%, o nível mais baixo em seus seis anos de governo.
Dizia o cartaz: "Evo, fascista, servente dos empresários brasileiros". Era levado por um dos manifestantes convocados pela COB (Central Operária Boliviana) para protestar, na quarta-feira, contra a repressão a outra marcha, a dos indígenas contra a construção de uma estrada que cortará ao meio o Tipnis (Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure), na Amazônia.
Ao usar a palavra "fascista", o cartaz denuncia que é uma manifestação de esquerda (só ela usa esse rótulo para designar os adversários). Se a esquerda chegou a tanto e se tanto a COB como parte dos indígenas se manifestam contra Evo, é óbvio que o presidente, ele próprio de origem indígena e sindical (dos "cocaleros") está perdendo sua base de apoio.
Ao citar "empresários brasileiros", refere-se à OAS, a empreiteira que constrói a estrada contestada, com financiamento do BNDES.
Mas o cartaz seria mais justo se dissesse que os governos brasileiros, e não Evo Morales, estão servindo a interesses empresariais.
Não custa lembrar que esta Folha já divulgou documentos mostrando que o Itamaraty tentou interferir em licitações internacionais para ajudar empreiteiras brasileiras a conseguirem contratos de obras públicas.
Foi nos anos 90, época em que a esquerda toda, PT incluído, batizava a OAS de "Obras Arranjadas pelo Sogro", em alusão ao fato de que um de seus diretores era genro do então todo-poderoso Antônio Carlos Magalhães.
No governo, no entanto, o lulo-petismo aderiu com gosto à prática e o fez publicamente. Lula cansou-se de dizer que era um "mascate" a vender o Brasil no exterior.
O problema de Evo e do Brasil não está nesse tipo de atitude, cada vez mais comum em todos os governos. Está em não lidar adequadamente com o dilema entre o desenvolvimento e a sustentabilidade ambiental.
No caso do presidente boliviano, é especialmente grave, como aponta Pablo Solón, ativista ambiental e que foi embaixador da Bolívia de Evo na ONU até três meses atrás: "Deve haver coerência entre o que dizemos e o que fazemos.
Não se pode falar de defesa da 'Pachamama' (a Mãe Terra) e, ao mesmo tempo, promover a construção de uma estrada que fere a Mãe Terra, não respeita os direitos indígenas e viola de maneira imperdoável os direitos humanos".
Ajuda-memória: Evo Morales conseguiu aprovar uma Constituição que transformou a Bolívia em Estado Plurinacional, em que as 36 etnias indígenas ganham status de nações, com direito à autonomia, ao autogoverno e à consolidação de seus territórios.
O Estado se obriga a consultar tais nações quando toma decisões que afetem seus territórios. Evo descumpriu, pois, a Constituição que promoveu.
No caso do Brasil, o dilema desenvolvimento/respeito ao ambiente rendeu choques entre a ambientalista Marina Silva e a desenvolvimentista Dilma Rousseff.
Como diria Elio Gaspari, o Brasil deu-se ao luxo de atravessar a calçada (no caso a fronteira) para escorregar numa casca de banana feita na Bolívia.

DANUZA LEÃO - A verdade de cada um


A verdade de cada um
 DANUZA LEÃO 
FOLHA DE SP - 02/10/11

Uma pessoa não sabe o que se passa na cabeça de quem dorme com ela na mesma cama há 20 anos

Ninguém sabe o que o outro pensa, o que acha, o que quer, o que pretende fazer; sobretudo, o que é capaz de fazer. Uma pessoa não sabe o que se passa na cabeça de quem dorme com ela na mesma cama há 20 anos -e talvez seja melhor assim. E quem pode afirmar saber quem é seu pai, quem é sua mãe, quem são seus filhos?

Aconselho a quem estiver lendo a não responder a essa pergunta, para não dizer bobagem.

Existem homens que, depois de um longo casamento, saem de casa para comprar cigarros e nunca mais voltam. Segundo seus familiares, eles nunca tinham dado uma pista de que a vida não estava boa; que poderiam, de repente, tentar um outro rumo. Sempre tive

curiosidade de saber para onde vão esses homens que somem e nunca mais são encontrados.

Será que planejaram o que iam fazer, ou foi um impulso da hora? E em sua nova vida, terá mudado de cidade, de profissão, de nome?

José Dirceu mudou até de cara, mas tratando-se de pessoas normais, nunca se vai ter essa resposta, pois os que fazem isso desaparecem, e para sempre. São muito estranhas, as pessoas.
Esses pensamentos me perturbam desde que li sobre o caso do menino de dez anos que atirou na professora e depois se matou.

A polícia está investigando, interrogando os colegas, e os pais -pobres pais- não vão escapar de ter que responder a perguntas qcruéis; existe também a suspeita de ele ter sofrido bullying, o que, para alguns, seria uma explicação. Aliás, para esses alguns, o bullying, tão na moda, pode explicar tudo.

Mas por mais que todos -a polícia, os colegas, as professoras, a família, os psicólogos- se esforcem, esse caso não será, jamais, esclarecido. Ninguém nunca soube, e nunca saberá, o que se passou na cabeça desse pobre menino. As hipóteses podem ser muitas, e o que todos procuram é a verdade, essa coisa abstrata que pode ser várias, dependendo de cada um.

Como o pensamento é livre, tenho uma opinião: o menino levou o revólver para a escola talvez para mostrar aos colegas, de pura traquinagem infantil; apontou a arma, ela disparou, e o tiro acertou a professora.

Tratando-se de um garoto tranquilo, bom aluno, sem nenhum indício de ser violento, ele teria se desesperado ao ver o que aconteceu, daí o suicídio.

Posso estar totalmente errada, mas como cada um tem o direito de imaginar qualquer coisa, foi o que me ocorreu.

Alguns coleguinhas estão contando que ouviram do menino que ele estaria falando em matar a professora. Mas crianças, além de terem uma imaginação fértil, também mentem muito; talvez por não saberem das consequências de suas palavras, talvez por se sentirem importantes e adultas, por estarem sendo ouvidas por policiais, a verdade é que não se pode confiar muito no que elas dizem.

E nem sempre as coisas têm uma lógica. Será que pessoas perfeitamente normais podem ter um momento de loucura, e nesse momento fazer coisas em que nunca tinham pensado?

Será que um revólver na mão dá uma sensação tão grande de poder que leva alguém a cometer um ato de total desvario? Pode ser que não, mas também pode ser que sim. Já lemos muito sobre isso.

Mas o caso do menino que atirou na professora e que depois se matou -disso eu tenho certeza- está condenado a não ser, jamais, esclarecido.

ELIANE CANTANHÊDE - O petróleo é de quem mesmo?


O petróleo é de quem mesmo?
 ELIANE CANTANHÊDE
Folha de sp - 02/09/11

BRASÍLIA - Os Estados produtores e não produtores vivem uma guerra pelos royalties do petróleo que o Planalto cansou de mediar e que deverá ser decidida no Senado nesta semana. Mas e o povo com isso?

Tudo indica que a guerra é pela quantidade, não pela qualidade dos recursos, não exatamente pelo bem-estar que podem levar às populações mais pobres de uns e de outros.

Senão, vejamos o que a consultoria Macroplan apurou num passeio pelos dados e pelas ruas de cidades que foram beneficiadas diretamente com o petróleo jorrando em forma de reais e dólares.

Macaé, conhecida como a capital do petróleo brasileiro, de fato cresceu e apareceu, com um pulo populacional de 65 mil para 200 mil habitantes desde os anos 1970 até agora e com um PIB per capita de R$ 42 mil, em valores de 2008, que corresponde ao dobro da média do Estado do Rio e o triplo da nacional. Mas só 17% dos domicílios têm saneamento básico, os índices de educação são baixos e os de homicídios, muito altos.

Presidente Kennedy (ES) também recebe grande volume de royalties, com o segundo maior PIB per capita do Estado e uma das maiores taxas de crescimento do país. Mas... tem resultados do Ideb muito inferiores à média estadual, 17% de analfabetos e só 38% dos domicílios com saneamento básico.

Está na 62ª posição entre 78 municípios pelo Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal e no 2.688º lugar no ranking nacional.

A conclusão é que royalties são bons e todo mundo gosta -especialmente governadores e prefeitos, sobretudo em ano eleitoral-, mas não garantem em si distribuição de renda, educação, saúde, saneamento, bem-estar e segurança.

Logo, a guerra "de cima" para atrair os recursos deveria ser acompanhada de uma outra guerra, "de baixo", para garantir a aplicação devida e a distribuição necessária. Do contrário, o petróleo é nosso, mas não chega a quem mais precisa.

O PuTeiro


CARLOS HEITOR CONY - Retrato 3x4


Retrato 3x4
 CARLOS HEITOR CONY
FOLHA DE SP - 02/09/11

RIO DE JANEIRO - Um instituto de pesquisa, não me lembro se britânico ou americano, divulgou na semana passada um ranking de países cuja imagem, para efeito cultural e turístico, interessa ao homem comum de todas as partes do mundo.

Não pesquisou a economia nem o comércio, apenas as condições que possam atrair o interesse daqueles que desejam conhecer melhor este mundo, antes de partirem para conhecer o outro.

Desde os oito anos do governo Lula e nove meses do atual, as autoridades brasileiras vêm arrotando ser uma das maiores economias mundiais. Reconheço que as coisas mudaram, subimos de patamar, mas não tanto.

Ativando o consumo e executando programas assistenciais (como o Bolsa Família), milhões de brasileiros ascenderam a uma classe superior, mas não o bastante.

A imagem do país melhorou lá fora em termos de investimentos, mas não em condições de vida. Na pesquisa divulgada ficamos em 62º lugar.

Ainda há gente que acredita piamente que as cobras passeiam pela avenida Rio Branco, que em São Paulo os trombadinhas matam os turistas, que a madeira da Amazônia só serve para fabricar palitos, que aos 13 anos as meninas se prostituem, que o policiamento das ruas é feito por traficantes.

Exagero à parte, o fato é que em termos de infraestrutura merecemos o vergonhoso lugar no ranking mundial. Os três pontos fundamentais de uma sociedade adiantada -saúde, educação e segurança- não acompanharam o desenvolvimento industrial e comercial dos últimos anos. Doentes morrem nos corredores dos hospitais, a educação é precária e a segurança, hipotética.

Compreende-se a preocupação da Fifa e do Comitê Olímpico Internacional. A taxa de corrupção e o atraso nas obras necessárias para os dois eventos podem resultar num vexame nacional.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - O dever de atazanar


O dever de atazanar
 FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 02/09/11

SÃO PAULO - Fazemos, os jornalistas, uma espécie de rascunho instantâneo da história. Imersos no tumulto do mundo, submetidos às pressões do registro taquigráfico dos fatos, falta-nos a compreensão das coisas em perspectiva, o tempo necessário à reflexão.

Encarregados de informar, incorremos com frequência em erros, exageros, omissões. As colunas de opinião não estão imunes a esses riscos. Quem, além disso, entra na casa do leitor cinco vezes por semana nunca estará livre de dizer bobagens ou de cair em repetições.

Para um jornalista, no entanto, pior do que isso é não ter a capacidade de incomodar. Se ninguém reclama, há algo de errado.

Quando entrei na Folha, há mais de 23 anos, vivíamos os estertores do governo Sarney. O Brasil era uma espécie de chanchada. Hoje, é um país bem melhor. Mas não nos tornamos, nem de longe, uma sociedade decente.

Convivemos ainda com taxas intoleráveis de desigualdade, a saúde pública é desumana, as escolas públicas são muito ruins, a vida nas cidades é violenta e insegura. O patrimonialismo, tantas vezes reciclado, persiste como traço definidor da política em todos os níveis.

Seria tolo, ao mesmo tempo, não reconhecer que os governos de FHC e Lula -o professor e o líder operário- representaram, somados, um grande avanço histórico, ainda em curso.

Perceber isso não significa abrir mão da convicção de que o jornalismo só vale a pena se for exercido com disposição crítica e independência, que só se aproxima de seu melhor papel se interpelar os poderes, em qualquer circunstância, sem nunca deixar de questionar a si próprio. Tenho em Otavio Frias Filho o maior exemplo de que isso é possível.

Ao longo dos últimos dois anos, escrevi 484 vezes neste espaço. Foi, talvez, a experiência intelectual mais prazerosa da minha trajetória na Folha. Mas chegou o momento profissional de me despedir. A quem me acompanhou, muito obrigado.

MARCELO GLEISER - Einstein errou?


Einstein errou?
MARCELO GLEISER
FOLHA DE SP - 02/10/11

Muitos sonham em desmentir o genial físico alemão; por enquanto, porém, suas teorias, que inspiraram tecnologias como laser e GPS, resistem ao teste do tempo

Esta semana marcou o 106º aniversário da publicação do artigo de Einstein com a famosa fórmula E=mc2, talvez a mais famosa da física.
Aos 26 anos, Einstein redefiniu nossa compreensão da matéria, mostrando sua íntima relação com a energia. O elo da correspondência é a velocidade da luz, representada pelo "c", com um valor aproximado de 300 mil km/s.
Você pisca o olho e a luz dá sete voltas e meia em torno da Terra. Segundo a teoria da relatividade, nada na natureza pode viajar mais rápido do que a luz: qualquer objeto com massa, de um elétron a um cometa, necessariamente deve viajar com uma velocidade mais baixa do que "c".
Porém, vimos recentemente cientistas dos laboratórios europeus Cern, em Genebra, na Suíça, e Gran Sasso, na Itália, anunciando a detecção de partículas com velocidades maiores que a da luz.

FANTASMAGÓRICAS

As partículas são neutrinos, conhecidas como "partículas-fantasmas" devido à sua fraca interação com a matéria: neutrinos atravessam paredes, pessoas e planetas como se não existissem, apenas raramente colidindo com outras partículas.
Os experimentos começam criando neutrinos no Cern. Depois, eles viajam 730 quilômetros através da crosta terrestre até chegar aos detectores em Gran Sasso.
Embora o porta-voz da experiência tenha afirmado que o processo é simples, que basta dividir distância por tempo para obter a velocidade, na prática a coisa é bem mais complicada. De fato, a maioria absoluta dos físicos vê os resultados com muito ceticismo, duvidando que sobrevivam por muito tempo.
Ou, claro, pode ser que os neutrinos tenham viajado mesmo algumas dezenas de bilionésimos de segundo mais rápido do que as partículas da luz. Mas eu não apostaria nisso.
O que acho interessante é o burburinho que surge cada vez que um cientista crê demonstrar que Einstein errou.
Cientistas têm o dever de testar teorias. Dada a profundidade das teorias de Einstein, achar uma falha numa delas pode revolucionar a nossa compreensão do mundo natural. Esse tipo de ceticismo é vital para o funcionamento da ciência.

MATURAÇÃO LENTA

Muitas vezes, uma teoria demora a maturar. De volta a Einstein, esse foi o caso com a sua teoria da relatividade geral, a que relaciona a atração gravitacional com a curvatura do espaço.
A teoria foi desenvolvida aos poucos, entre 1907 e 1915, até Einstein chegar à sua versão final. Afirmar que Einstein deu passos "errados" no meio do caminho é ignorar o processo criativo dos cientistas; a ciência não anda numa linha reta entre dois pontos. Ela meandra aqui e ali até chegar ao seu objetivo.
Que eu saiba, os resultados principais de Einstein estão todos ainda conosco e continuam a inspirar novas pesquisas, sem falar nas tecnologias "einstenianas" do cotidiano.
Mesmo que, um dia, algumas das ideias de Einstein sejam suplantadas por novas teorias-e isso deve acontecer -, dizer que ele estava errado é no mínimo ingênuo.
Será que podemos dizer que Newton estava errado quando Einstein corrigiu suas teorias? Certamente não! Toda teoria deve ser aplicada dentro do seu limite de validade: julgá-la errada quando aplicada fora desses limites é não saber como usá-la.
O próprio Einstein considerou uma de suas ideias como o "maior dos seus erros", a adição da chamada constante cosmológica às equações descrevendo a geometria do Universo.
Em 1931, Einstein visitou o astrônomo Edwin Hubble no observatório do monte Wilson, na Califórnia, e teve a oportunidade de ver o desvio para o vermelho da luz emitida por galáxias distantes. A interpretação mais imediata desse desvio é a expansão do Universo, isto é, que as galáxias estão se afastando umas das outras a altas velocidades. Em 1917, Einstein havia escrito um artigo onde supõe que o Universo é estático, sem expansão alguma.
Para isso, teve de adicionar a constante cosmológica, que garante a solução estática que queria. O resultado de Hubble mostrou que sua suposição não era necessária.

REVIRAVOLTA

Ironicamente, em 1998, astrônomos descobriram que o Universo está em expansão acelerada, efeito que pode ser causado justamente pela constante cosmológica de Einstein. A natureza tem razões que a razão desconhece.
Outro "erro" de Einstein é sua posição com relação à mecânica quântica, que descreve as partículas da matéria. Ele nunca aceitou que, conforme dizia essa área da física, a realidade tivesse um forte componente aleatório.
Até hoje, nada de anormal foi encontrado com a mecânica quântica. Em defesa de Einstein, não houve aqui um erro, mas uma diferença filosófica na sua visão de mundo. É prematuro julgar se sua posição está certa ou errada.
A lição aqui me parece simples: é bom termos cuidado ao julgar teorias a partir de resultados recentes e com pouco escrutínio. Afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias.
Embora o questionamento constante seja vital para a ciência avance, as trombetas da revolução só devem ser soadas após a revolução ter mesmo começado.

GOSTOSA


JOSÉ SIMÃO - Shakira é gostosa até no telão!


Shakira é gostosa até no telão!
 JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 02/10/11

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

E o pensamento da semana: "se você acha a vida ruim, pense no cara que cuida do banheiro do Rock in Rio". Deve ser o mesmo que escolheu as bandas. Rarará!
E um leitor me mandou perguntar: "quem vai explodir primeiro, o shopping Center Norte ou o Ronaldo fenômeno?". O Ronaldo. Porque emite mais gases. E o Eramos6 revela que podemos escolher shopping como se escolhe água mineral: com gás ou sem gás! Rarará!
E esse fim de semana foi o Gostosas in Rio: Ivete e Shakira. Ivetão Coxão Gostosão e Shakirão! A Shakira é gostosa até no telão! Rebola mais que minhoca em anzol! Parece liquidificador batendo vitamina de banana! E eu não tenho inveja nem da voz, nem da fama e nem do dinheiro da Shakira. Eu tenho inveja da barriguinha da Shakira! Ela não precisa encolher a barriga na hora de transar! Essa é a maior inveja: não precisar encolher a barriga na hora de transar. Porque na primeira vez a gente ainda encolhe a barriga. Na segunda já vai com barriga e tudo. E eu tenho uma amiga que está tanto tempo sem transar que o apelido dela é mega sena acumulada. E na hora de transar ela nem lembrava mais: essa perna eu passo por onde mesmo? E esse braço vai aonde? Rarará!
E no Rock in Rio ainda tem o Guns n' Roses! O Brasil parece o cemitério dos elefantes. Todos os paquidermes vem morrer aqui! E essa semana tivemos outra bomba; o novelho partido do Kassab, o PSD! Partido Sem Direção. Diz que não é nem de esquerda nem de direita. Já sei, é da cintura pra baixo. Rarará! Esse partido do Kassab tem até morto filiado, Partido Social dos Defuntos. Rarará! Nunca vi tanto defunto em pé! E o Kassab tá parecendo o Seu Barriga do Chaves!
E adorei essa manchete do jornal Expresso lá de Natal: "Secretaria de Agricultura de Cerro Corá recebe Reto Escavadeira". Reto Escavadeira? Eles vão escavar o fiofó de quem lá em Natal? Rarará!
E essa semana também foi o Shana Tova, o Ano Novo dos Judeus. Aí ficou a semana inteira essa frase correndo na internet: "Amigos judeus, vocês que estão no ano de 5.772, me contem: o Corinthians já foi campeão da Libertadores?". O Itaquerão ficou pronto? Teve Copa no Brasil? O Sarney ainda tá vivo? Rarará! Nóis sofre mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

JOÃO UBALDO RIBEIRO - O totalitarismo científico


O totalitarismo científico
JOÃO UBALDO RIBEIRO
O GLOBO - 02/10/11

"Totalitarismo", que já teve sua grande voga, é uma palavra hoje pouco usada. Levado pela experiência, fico com receio de que o leitor mais jovem não saiba a que me estou referindo e então dou uma rápida explicação, só para o gasto. Há totalitarismo quando uma organização, geralmente um Estado ("Estado", no caso, são todos os países politicamente organizados), mas pode ser qualquer outra, como um partido político, pretende assumir controle sobre toda a vida do cidadão, não somente quanto a ideias e sentimentos, mas quanto a comportamento e observação de valores. O totalitarismo já mostrou sua carantonha algumas vezes na História e talvez se tenha pensado que, com a derrocada do nazifascismo e das ditaduras socialistas, ele tenha ido embora.

Mas não foi e está botando as manguinhas de fora cada vez mais. Cada vez mais se tenta regular a conduta do cidadão, mesmo em áreas imemorialmente reservadas a arbítrio e atos da sua exclusiva alçada. E é "científico" porque costuma apoiar-se nas fugazes verdades supostamente inatacáveis da ciência, que, como sabemos, mudam praticamente todo dia. Subitamente, há um afã por proteger-nos de nós mesmos e, muito pior, impor-nos "verdades" científicas que na realidade estão no terreno dos valores e permitem a convicção em outras "verdades", por motivos culturais, psíquicos, religiosos ou o que lá seja. Isso se deu, por exemplo, com a lei da palmada, que, aliás, parece que não colou, considerada descabida por muitos pais.

O fumo é um bom caso. Não estou a soldo da execrada indústria do tabaco, sou a favor de que não se fume (contanto que se faça esta escolha livremente), mas ninguém que tenha um pensamento consequente pode aceitar o que já se começa a fazer (ainda mais que está na moda nos Estados Unidos e o nosso ideal é ser americano). É possível agora - e parece que alguns poucos já fizeram isso - que um condomínio residencial, por decisão de maioria simples, resolva abolir o fumo em suas dependências e aplicar pesadas multas aos moradores que fumarem - atenção -, mesmo trancados em seus próprios apartamentos ou casas. Fala-se na instalação, que já ocorre nos Estados Unidos, de detectores de fumaça nos apartamentos. Não sei o que acontecerá com quem queime incenso em casa, mas provavelmente acionará uma sirene e convocará uma brigada do Comando de Caça ao Tabagista. Cada casa vai virar banheiro de avião e qualquer fumacinha que seu dono fizer será denunciada e implacavelmente castigada.

Que é isso? Aonde chegamos? O infeliz compra uma casa, faz dela seu lar supostamente inviolável e não tem liberdade em seu próprio território, sem prejudicar ninguém, a não ser ele mesmo? O condômino que for voto vencido vai ter de parar de fumar, pitar ao relento ou vender o apartamento e se mudar? Vive-se em cidades poluídas como Rio e São Paulo, mas o cigarro do vizinho, trancado em seu escritório, é o que prejudica o condomínio? E se fumaça e cheiro começarem a ultrapassar os limites do cigarro e do charuto? Deverão em breve manifestar-se os que se sentem incomodados com cheiro de carne assada - e assim poderão ser banidos os churrascos na cobertura. Talvez várias plantas também venham a ser proscritas, pois há muitos alérgicos a pólen que padecem com flores. Caprichando, dá para proibir tudo.

Já previ aqui, e continuo acreditando que vai acontecer, que, no futuro, para proteger nossa saúde, seremos obrigados a seguir restrições alimentares baixadas pelo Ministério da Saúde e, em certos casos, o supermercado só nos poderá vender alimentos de uma lista carimbada por uma nutricionista oficial. Como essas coisas mudam a cada instante, todo mês sairia uma lista revista do que é cientificamente aconselhável comer e, portanto, devia ser obrigatório e, mais dia menos dia, pelo visto, será.

Se haverá detectores de fumaça, não sobra muita razão para não se instalarem câmeras de tevê, a fim de monitorar pelo menos certos casos, como na área da educação. Os pais estabeleceriam os horários em que ajudariam os filhos com os deveres de casa e aí um funcionário do Ministério da Educação acompanharia os acontecimentos em tempo real, para ver se o pai se interessa mesmo pela educação do filho, se segue a metodologia traçada pelo Ministério e se não faz observações politicamente incorretas, levando-se também em conta que linguagem chula está fora de cogitação. E, na hora em que os pais dessem um livro para os filhos lerem, a leitura só poderia ser realizada depois que os pais ouvissem do governo a contextualização do livro e como ele deverá ser corretamente entendido e explicado.

Talvez não seja simples atuar em outras áreas, mais delicadas, como a da conduta sexual do cidadão (sim, claro, e da cidadã, da cidadã também; eu esqueço que agora o certo é escrever assim). Sabe-se que, dentro de uma gama razoável de ação, muitas práticas sexuais pouco ortodoxas são aceitas, desde que mutuamente consentidas. Mas o problema está aí. Serão mesmo mutuamente consentidas, ou um dos cônjuges é na verdade violentado? Para ter certeza, só monitorando tudo com câmeras, o que poderá ser feito a pedido de qualquer um dos cônjuges, ou causado por uma denúncia feita junto ao Ministério Público. Aliás, deverá ser possível que a d. Marta, do sexto andar, suspeite da trilha sonora que, certas horas da noite, se esgueira da alcova de seus vizinhos do sétimo e recorra ao Disque Denúncia para que a escabrosa situação seja monitorada. Sei que muitos de vocês talvez pensem que deliro. Mas não deliro, já está acontecendo e a tecnologia facilita o controle sobre qualquer indivíduo. É daqui para pior e - nunca se sabe - dentro em breve estará em graves apuros quem der um punzinho na sala.

MERVAL PEREIRA - Linha dura no PSDB


 Linha dura no PSDB
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 02/10/11

A Comissão Executiva Nacional do PSDB resolveu interferir diretamente na escolha dos pré-candidatos a prefeito nas eleições municipais do próximo ano, reservando para si a última palavra nos municípios com mais de 200 mil eleitores.

Ainda na próxima semana deverá ser divulgada resolução informando que, "conforme o caso", poderá "orientar e intervir na escolha de pré-candidatos", resguardando-se o direito de até mesmo "proibir" o pré-lançamento de candidaturas nos municípios.

A ideia central da decisão é que as discussões sejam ampliadas para que se possa buscar novas alianças, estabelecendo que não prevaleça apenas o controle local do diretório.

Na nota, a Comissão Nacional informará que vai avaliar a viabilidade política e eleitoral dos pré-candidatos, levando em conta a capacidade de fazer alianças novas, agregar apoio da sociedade.

Para que não reste dúvida sobre a disposição da direção do partido de ter um papel ativo e decisivo na escolha dos candidatos, a nota explicitará que, em caso de desobediência, poderá intervir ou até mesmo dissolver os órgãos municipais.

Essa decisão e outras mais, como a de centralizar todas as campanhas partidárias na figura do senador e ex-governador de Minas Aécio Neves, transformando-o no virtual candidato da legenda para 2014, têm a ver com as constantes pesquisas que estão sendo realizadas para basearem um reposicionamento do partido.

Na nota sobre as candidaturas municipais, haverá inclusive uma orientação para que, nos municípios onde haja propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, os pré-candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereador difundam as diretrizes programáticas do partido.

O que o sociólogo Antonio Lavareda fez foi o que classifica de "auditoria de marketing", que, mais que uma pesquisa, é um diagnóstico pós-eleitoral com o objetivo de fornecer subsídios para a reestruturação do organograma partidário de um modo geral e, em especial, da parte de marketing e comunicação.

Esse estudo mostra que há grande relação entre as eleições para prefeitos e vereadores e as das bancadas de deputados estaduais e federais subsequentes, por isso a decisão de unificar a linguagem política e de marketing, para colher os frutos dessa unidade mais adiante.

Nos governos estaduais há claro perfil ascensional do partido, mas para deputados estadual e federal tem havido declínio, assim como nas eleições para vereadores e prefeitos, o que se constitui na grande preocupação do partido, sendo necessário grande esforço para reverter o quadro já nas eleições 2012.

Num balanço das eleições 2008, o PSDB vem em segundo lugar, com 784 prefeitos eleitos. Em comparação com o primeiro turno de 2004, o PSDB perdeu 77 prefeituras.

Em 2000, ainda no segundo mandato do governo de Fernando Henrique Cardoso, o PSDB elegeu 992 prefeitos. A situação mudou em 2004, já com Lula no Palácio do Planalto, com o PSDB iniciando sua trajetória de declínio, elegendo 870 prefeituras. Hoje o PMDB é o partido que tem mais prefeitos, com 1.177 em seus quadros, contra 788 do PSDB, o 2º colocado.

Quanto aos deputados federais, a bancada do PSDB é a terceira do Congresso, com 53 deputados. Desde a reeleição presidencial de Fernando Henrique, em 1998, o número de deputados federais eleitos pelo PSDB foi de 99 parlamentares para os 53 da última eleição, e pode passar a ser a quarta bancada, pois o novato PSD, que já surgiu com 50 deputados federais, está ainda aceitando adesões.

A direção nacional do PSDB considera que, embora cada estado seja uma realidade diferente, naqueles em que há um governador do partido, as negociações são mais autônomas, enquanto em estados como o Rio de Janeiro há uma preocupação devido à fraqueza institucional do partido e à importância que a política local tem no cenário nacional.

A aposta do partido era o atual prefeito carioca, Eduardo Paes, que chegou a ser secretário-geral nacional do PSDB até se transferir para o PMDB, com o apoio do governador Sérgio Cabral.

A direção nacional já interveio no diretório estadual para levantar uma ação local que pretendia punir os remanescentes da família do prefeito de Caxias, Zito, que deixou o partido.

Mas sua filha Andreia Zito e sua ex-mulher são deputadas bem votadas do partido e estavam sendo perseguidas pela direção local.

Há também a disputa pela candidatura à prefeitura do Rio, com a direção local querendo impor o nome do deputado federal Otavio Leite, e a vereadora Andrea Gouveia Vieira, sentindo-se alijada do processo, ameaçando sair do partido para o PV de Fernando Gabeira.

Em dois estados em que há governadores seus, as questões regionais também estão dificultando a unidade do partido. No Paraná, o ex-deputado federal Gustavo Fruet, que era um dos novos líderes da legenda, tendo se destacado na CPI dos Correios sobre o mensalão, acabou deixando o PSDB porque o governador Beto Richa não o apoiou para a prefeitura.

E, em São Paulo, a solução deve ser uma prévia entre os diversos candidatos, para cerca de 20 mil filiados do partido, embora o governador Geraldo Alckmin prefira lançar o deputado estadual Bruno Covas, neto de Mario Covas, dentro da disputa de caras novas que já tem o ministro da Educação, Fernando Haddad, candidato que Lula está impondo ao PT, e o deputado federal do PMDB Gabriel Chalita.

Mas as disputas não param por aí. O senador Aloysio Nunes reclamou pelo Twitter que o PSDB paulista o ignorou na campanha política que está sendo veiculada pela TV, embora ele seja o primeiro senador do partido há quase uma década. E reclamou também que o ex-governador José Serra foi outro deixado fora da propaganda do partido. Como se vê, a direção nacional do PSDB terá muito trabalho para unificar o partido na preparação para tentar retornar ao poder em 2014.

Mas pelo menos, após muitos anos, continua sem unidade, mas tem uma estratégia.

MARTHA MEDEIROS - Carla bruni e o rock’n’roll


Carla bruni e o rock’n’roll
 MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 02/10/11

Carla Bruni, ex-top model, cantora, compositora e atual primeira dama da França, declarou em entrevista, dia desses, que seu casamento com o presidente Nicolas Sarkozy foi muito rocknroll, usando uma expressão pouco usual para definir um relacionamento. Geralmente, as relações amorosas estão mais para tango argentino.

A comparação com o rock veio do fato de ela, que sempre teve uma vida agitada, independente e fora dos padrões, ter se atrevido a um envolvimento formal com um chefe de Estado, cuja convivência exige o cumprimento de protocolos bem convencionais.

E a recíproca é verdadeira, pois não são muitos os mandatários de uma nação que se divorciam e depois se casam com uma artista que já é mãe e que tem no currículo namorados como Eric Clapton e Mick Jagger. Às favas com o bom-mocismo, o casal bancou o arranjo inusitado e parece levar muito bem sua relação.

O conceito “rock’n’roll”, ao menos da forma como foi utilizado por Carla Bruni, nada tem a ver com noitadas, bebedeiras e drogas. Diz ela que sua rotina com o marido é bastante tranquila e discreta, e o que a fez se apaixonar por Sarkozy foi a descoberta de que ele, um dos homens mais poderosos do mundo, era um dedicado amante da jardinagem. Como se explica esse bolero em lugar do heavy metal?

Por muito tempo, o rock sobreviveu de sua má fama. O músico Frank Zappa certa vez disse que um repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para pessoas que não sabem ler. Ajudou a colocar uma laje sobre qualquer sofisticação que o rock viesse a almejar – ainda bem que o rock nunca teve essa pretensão, mas teve outras e parece que as realizou.

O rock’n’roll deixou de ser apenas um gênero de música. Dizer que ele simboliza atitude virou um clichê intragável, mas foi o que Carla Bruni tentou exprimir com sua declaração, só que sob um enfoque ampliado.

A rebeldia do rock nada mais tem a ver com cortes de cabelo, modos de vestir ou hábitos ilícitos, e sim com o que lhe amparou os primeiros passos, lá atrás, nos tempos de Chuck Berry e Elvis Presley: a liberdade de fazer o que se quer, a despeito do que os outros vão pensar. Criar música não só para a alma, mas para o corpo. Provocar reações físicas, despertar os ânimos, desafiar o silêncio. Acordar.

Não é preciso guitarras para fazer barulho. As pessoas mais roqueiras que conheço são apreciadoras de jazz, bossa nova e música clássica. Um casamento rock’n’roll nada mais é do que um compromisso entre um homem e uma mulher com facilidade em aceitar mudanças, coragem para sair das zonas de conforto, capacidade de surpreender e autoconfiança para ser quem verdadeiramente são, estejam no palco em que estiverem.

É por isso que o rock, até então um substantivo que designava um estilo musical, expandiu-se. Analisado como postura de vida, foi promovido a adjetivo.

GOSTOSA


PAULO SANT’ANA - Loucos de todo gênero


Loucos de todo gênero
 PAULO SANT’ANA
ZERO HORA - 02/10/11 

Por iniciativa da Associação dos Cronistas Esportivos, fui entrevistado demoradamente por 15 jovens jornalistas que se preparam para exercitar sua profissão no setor de esportes.

Em determinado momento, um dos jovens profissionais me perguntou se eu julgava que ainda iria surgir algum jornalista melhor do que eu.

Minha resposta: “Creio que possa surgir ainda algum jornalista superior a mim. Mas nestes 40 anos em que trabalho, não surgiu”.

Ainda dentro da minha megalomania, fui ao psiquiatra para a primeira consulta. O psiquiatra me disse: “Vamos começar nossa relação pelo princípio. Dize-me tudo o que aconteceu, desde o princípio”.

E eu: “Bem, no princípio, eu criei o Céu e a Terra...”.

O Código Civil usa uma expressão: “Os loucos de todo gênero”.

Porque existem os loucos folclóricos, os loucos que riem, os loucos que falam alto, que têm gestos burlescos ou teatrais, esses loucos até divertem a periferia e o derredor.

Mas eu me preocupo com os loucos que causam danos aos outros e andam soltos.

Esses loucos não chegam a ser perigosos, mas são danosos. Eles convivem nas famílias, no trabalho e vivem agredindo os outros com palavras e com atitudes.

Existe até uma frase que diz que o hospício é o quartel-general dos loucos. Ou seja, no hospício se localizam os loucos de atar. Mas e os outros milhares de loucos que estão espalhados pela cidade? Que é feito deles, qual é a sua sorte?

Pois eles estão por aí infernizando a vida das outras pessoas.

Já pensou o que é estar casado com uma mulher louca? Ou estar casado com um marido louco?

Ou ser empregado de um patrão louco? Ou ser patrão de um empregado louco?

Porque esses loucos de que eu falo – e até por certa medida o Código Civil contempla – fazem parte de nossas vidas.

Eles estão aí, vivos e atuantes, produzindo males e atrapalhações para os outros.

Esses loucos, por vezes, se acalmam, mas muitas vezes são tomados por surtos de loucura devastadores.

Há uns que tornam a vida dos outros insuportável. Grudam nos seus familiares ou em quaisquer circunstantes e os infernizam.

E, no entanto, continuam transitando e impunes, seja pelas convenções, seja pelos cânones de tolerância social, seja até mesmo porque há uma certa dificuldade em diagnosticar a loucura e seus graus de incidência sobre as mentes transtornadas.

Nada contra o louco inofensivo, como já disse, nada contra o louco pitoresco.

Mas tudo contra o louco que se insinua no meio social e começa a distribuir agressões e maus humores entre os outros.

O louco parcialmente agressivo e mal-humorado é um foco de irradiação de infelicidade na convivência.

Um dia ainda haverá uma ordem social que consiga diagnosticar esse tipo de loucura secundária e destine recursos para seu tratamento.

Enquanto não há, todos somos vítimas dessa séria incomodação.

JOÃO BOSCO RABELLO - A exclusão de José Serra


A exclusão de José Serra
JOÃO BOSCO RABELLO 
O Estado de S.Paulo - 02/10/11

É claro que a exclusão do ex-governador José Serra da propaganda política do PSDB que foi ao ar nos últimos dias está vinculada à disputa interna pela candidatura do partido em 2014. E ocorre, não por acaso, no momento que o senador Aécio Neves (MG) torna mais ostensiva sua pretensão de ser ungido candidato dos tucanos.

Com sete anos de mandato pela frente, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) não fez a reclamação pública pela exclusão por incômodo pessoal. Canalizou um protesto do próprio Serra, ainda que este possa não tê-lo encomendado. Importa aqui a reafirmação de que Serra se mantém decidido a nova candidatura presidencial.

Se optasse pela prefeitura, como gostariam Geraldo Alckmin e o senador Aécio Neves, o ex-governador estaria fora da disputa em 2014. Nessa hipótese, seria difícil renunciar novamente a um cargo para o qual fora eleito e arriscar a presidência. Já seria um candidato sob tal suspeita.

Com as prévias do PSDB aprovadas, fica também mais difícil o caminho para Serra à prefeitura. Dos postulantes, estima-se que apenas Andrea Matarazzo abriria mão numa eventual e improvável revisão de planos do ex-governador.

O que se tem, portanto, é a tentativa da dobradinha Alckmin/Aécio de dar o xeque-mate em José Serra na disputa pelo comando do PSDB. Que tem outra face, mais histórica, por ora convenientemente congelada pelos dois líderes tucanos, que é a luta pela hegemonia do partido entre Minas e São Paulo, com origem na própria criação do PSDB.

A aliado réu tudo,

menos a caneta

De olho no tempo de televisão do PR para as eleições do ano que vem, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) arquivou temporariamente qualquer pudor ético e ofereceu o comando de uma secretaria para o deputado Valdemar Costa Neto (SP). Réu no processo do mensalão, Valdemar consultou-se com o deputado Paulo Maluf (PP-SP), também réu no STF, e igualmente contemplado com a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), a estatal de habitação paulista. Maluf desaconselhou Valdemar a fechar o acordo. Disse ao dirigente do PR que Alckmin só entrega "o cargo e o mobiliário", não deixa nomear ninguém.

Ilustre desconhecido

Pesquisas qualitativas do PMDB mostram o que já se sabia: o maior obstáculo do deputado Gabriel Chalita à prefeitura é o desconhecimento de seu nome pela população. Por isso, novamente será protagonista dos programas do partido em dezembro. Em família

A ex-ministra do Desenvolvimento Social/Bolsa Família Márcia Lopes vai concorrer à Prefeitura de Londrina (PR) pelo PT no ano que vem. O nome dela foi confirmado depois de intensiva campanha liderada pelo primeiro escalão do governo: o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, que é irmão dela, e o casal de ministros Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo.

Tudo passa...

Com a filiação ao PDT, o ex-deputado Gustavo Fruet (PR) garantiu a candidatura à Prefeitura de Curitiba, com um vice do PT, provavelmente o deputado federal Angelo Vanhoni. Como na política, a ocasião faz o perdão, segundo o deputado André Vargas, do diretório nacional do PT, é irrelevante Fruet ter sido um dos algozes do partido na CPI do mensalão: "Ele estava no papel dele", diz.

UGO GIORGETTI - A bola cruzada


A bola cruzada
UGO GIORGETTI 
O Estado de S.Paulo - 02/10/11

Tempos houve em que o escanteio não era tão perigoso assim. Havia grandes cabeceadores, claro. Sempre houve. Mas a maneira de neutralizá-los era mais eficaz. Além disso, não havia a verdadeira batalha campal que se estabelece hoje no interior da área com cotoveladas, encontrões, trombadas e deslocamentos, sob as vistas de todos os juízes, cuja passividade introduziu essa nova arma no futebol. Isso trouxe outro efeito colateral: o grande cabeceador ficou completamente desnecessário, porque quem faz gol nos escanteios é qualquer um. Literalmente qualquer um, inclusive os zagueiros que tentam defender. Falo escanteio para simplificar. Qualquer bola cruzada para a área hoje em dia é quase mortal.

Talvez as mudanças na própria bola estejam entre as causas da transformação. Parece que mudou em peso e consistência, permitindo uma precisão maior por parte de quem cruza. E nesse quesito, sim, houve mudança. Ou melhor, ela foi chegando sem que se notasse muito a sua presença: a habilidade em cruzar uma bola para dentro da área. Antes ela vinha em geral alta. A bola subia e caia quase verticalmente. Essa trajetória longa dava tempo para a defesa se colocar e para os zagueiros calcularem onde a bola ia cair.

Por isso os "centros'' eram chamados chuveirinho. Era uma jogada manjada e de enorme pobreza: quem jogava no chuveirinho tinha poucas chances de fazer gol. Hoje, a bola vem rasante, cheia de efeito e de curva, não na direção de alguém, como um Claudio que procurava um Baltazar, ou Ney que procurava Leivinha, mas na direção do bolo, da confusão na boca do gol. É impossível prever a trajetória e onde bate é perigo.

Para os goleiros essas bolas cruzadas devem ser um tormento. Não sabem se saem ou se ficam, não sabem onde a bola vai bater, frequentemente nem bate, apenas resvala sutilmente em alguém, o suficiente para tirá-los completamente da jogada. Os goleiros cansam de berrar para que se evitem as faltas, e, de fato, a maioria das faltas é mais perigosa do que o lance que um zagueiro menos inteligente resolveu interromper.

A defesa não é mais pega de frente para a bola em nenhuma circunstância, nem quando a falta é frontal. Batedores hábeis colocam sempre onde querem, forte, numa altura baixa suficiente para ser alcançada ou desviada. E os batedores ficaram sendo as verdadeiras estrelas. Não há um só time que dispense esse carrasco. Todas as equipes têm hoje os especialistas que permanecem em campo, depois dos treinamentos, batendo faltas e faltas. Não mais em direção do gol, como faziam antes, mas faltas colocadas no ponto fatal. Treinam para bater certo na bola, para fazer de qualquer falta uma jogada mortal.

Alguns treinadores usam essa arma há tempos, muito antes que os demais. Usaram e abusaram de centroavantes grandalhões e laterais talentosos no bater na bola. Amontoavam seus times na defesa e depois contavam com a perícia do batedor e os gigantes na frente. Assim foram construindo reputações e conquistando títulos. E há mérito nisso. Cada um luta com o que tem. Se o elenco só dá pra isso, vamos com isso.

Agora, a novidade ficou velhíssima. Acabaram aqueles bons tempos em que um time fazia um gol e depois podia se colocar na defesa, pois não teria mais problemas. Todos os times se tornaram perigosos. Nesse sentido quase todas as partidas de placar mais ou menos apertados ficaram emocionantes. É quase visível o desespero do time que está ganhando nos minutos finais, torcendo para ninguém fazer falta depois do meio do campo. A torcida já se acostumou com esses momentos difíceis.

Alguns times fazem mais uso disso que outros. Mas todos têm seus truques nas bolas paradas, mortais. Mesmo times como o S. Paulo, que tem no seu goleiro temível batedor de faltas direto para o gol, mostrou contra o Botafogo que ele também tem habilidade para meter a bola no meio do bolo e esperar pelo melhor. Nos minutos finais saiu a falta salvadora, mas Rogério não bateu para o gol. Em outros tempos talvez até tivesse tentado. Agora há outros recursos.

GOSTOSA


CELSO MING - Estratégia duvidosa


Estratégia duvidosa
CELSO MING 
O Estado de S.Paulo - 02/10/11

Parece cada vez mais remota a possibilidade de o Banco Central (BC), presidido por Alexandre Tombini, estar correto na sua estratégia de alcançar a convergência da inflação para a meta em 2012, de 4,5%.

É um objetivo que se baseia em dois pressupostos duvidosos: (1) a crise global provocará forte desinflação e, por vários canais, será transmitida para a economia brasileira; e (2) o governo Dilma promoverá robusto ajuste nas contas públicas, de modo a não deixar a tarefa do combate à inflação apenas para a política de juros.

Não há muito a discordar do agravamento do colapso externo e de alguns desdobramentos apontados pelo BC. As economias dos países ricos deverão, sim, enfrentar grande desaceleração. E os riscos de que mergulhem na recessão são ainda mais altos. Isso reduzirá o comércio mundial e a demanda por matérias-primas e energia.

Mas daí a concluir que a consequência inevitável será a desinflação global e, mais do que isso, que ela será automaticamente transferida para o Brasil é um passo maior que as pernas.

O aprofundamento do caos econômico e o provável efeito dominó dos calotes soberanos, que se seguirão à reestruturação da dívida da Grécia, tendem a provocar também a fuga global para o dólar. Caso isso aconteça, os preços dos produtos importados subirão por aqui e teremos mais inflação - e não o contrário, como aposta a equipe econômica do governo Dilma. É o que se viu em setembro (veja o gráfico no Confira). É verdade, o BC poderá vender dólares e neutralizar, ao menos em parte, eventual escalada de suas cotações. Mas essa política esbarraria em outro propósito perseguido: garantir mais competitividade ao produto industrial brasileiro.

Também não é tão certo que os problemas econômicos internacionais derrubarão tão acentuadamente as cotações das commodities, especialmente as de alimentos e do petróleo. Os grandes compradores são os asiáticos, sobretudo a China, economia que pode crescer menos neste ano, mas, certamente, acima de 7%. Ou seja, a demanda por commodities agrícolas e por energia deve avançar.

Além disso, se os grandes bancos centrais entenderem que necessitam emitir muito mais moeda para enfrentar seus obstáculos, a consequência inevitável desse aumento da liquidez mundial será a elevação dos preços das commodities, como o próprio BC reconheceu no último Relatório de Inflação.

Também não dá para jogar cacife tão alto nas promessas, feitas pelo governo Dilma, de reforço da disciplina fiscal. Em anos de eleições, como 2012, os governos têm mais dificuldades de resistir a pletoras por gastança. Fora isso, o próximo ano começa com um reajuste já contratado do salário mínimo, de nada menos que 14%. São mais despesas, pelo menos, com funcionários públicos e Previdência Social. No mais, o próprio BC reconheceu no Relatório de Inflação os graves riscos inflacionários da indexação (correção automática de contratos e tarifas) e da larga expansão dos serviços.

O BC, que acaba de admitir uma derrubada mais moderada dos juros, pode, a qualquer momento, interromper esse movimento. E, até por questões eleitorais, o governo Dilma talvez entenda que o combate à inflação deva voltar a merecer a prioridade que deixou de ter há algumas semanas. Mas isso exigiria a revisão da atual estratégia do BC.

ALBERTO TAMER - Só há notícia ruim lá fora


Só há notícia ruim lá fora
ALBERTO TAMER 
O Estado de S.Paulo - 02/10/11

A economia mundial voltou a dar novos sinais de desaceleração esta semana e o Brasil navega em águas turvas. Só notícias negativas nos últimos dias e tudo indica que mais está por vir. Nem a aprovação do novo fundo europeu de socorro à Grécia animou. Ainda tem a Itália, a Espanha que vão exigir muito mais do que os 440 bilhões que virão agora.

As bolsas tiveram forte queda na sexta-feira e fecharam o trimestre com o pior resultado desde a crise financeira de 2008. Uma queda de 17%. Foi uma semana "miserável", diz o Financial Times depois de ouvir os operadores que não acreditam em melhora nas próximas semanas.

EUA, crise nacional. Nos Estados Unidos, Ben Bernanke elevou o tom. "O desemprego é uma crise nacional." O governo e o Congresso precisam agir. Repetiu com mais ênfase que o Fed está pronto para agir, indicando que uma nova injeção de dólares no sistema pode vir mais rápido do que se espera, talvez até mesmo antes da próxima reunião do Comitê de Mercado Aberto. A revisão do crescimento do PIB americano no trimestre para 1,3% feita esta semana pelo Departamento do Comércio também não animou. Projeta um crescimento de apenas 1,6% até o fim do ano. É pouco, não reduz muito o desemprego de quase 10%, com cerca de 45% da população ativa à espera de trabalho há mais de seis meses, diz o presidente do Fed. "Isso nunca aconteceu antes no país", afirmou Bernanke, insistindo para uma ação urgente do governo e da Casa Branca. Ele está consciente das limitações dos bancos centrais na Europa e nos EUA para reanimar a economia. Com a única exceção da zona do euro, eles já reduziram os juros a quase zero, negativos se descontada a inflação, o que decididamente impediu o pior, a recessão, mas não convenceu as pessoas a voltarem a consumir. Isso não ocorre no Brasil onde há um mercado interno ainda vigoroso e grande margem para reduzir os juros.

Brasil navega. A desaceleração da economia mundial, já prevista pela equipe econômica, tem um duplo desdobramento no Brasil. Foi tema da última coluna que comentou o depoimento do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, no Congresso. O relatório do BC sobre a inflação, divulgado na quinta-feira, está confirmando a previsão de um quadro externo recessivo, mas existe na economia brasileira o que falta lá fora: possibilidade de maior redução da taxa de juros e estímulo a um mercado interno ainda vigoroso que vem sustentando o crescimento em meio às crises. É sempre oportuno lembrar que, enquanto os outros países afundavam por mais de um ano na recessão, o Brasil foi o último a entrar e o primeiro a sair. Com marolas ou sem marolas. O BC e o governo estão aplicando medidas para conter a crise financeira externa e manter o crescimento com inflação dentro da meta. Para o Banco Central e o Ministério da Fazenda, o mais importante não é a inflação atual, ainda dentro da meta ou um pouco acima dela, mas a tendência, que não é de forte alta. Se o índice passar da meta de 6,5% este ano, se aumentar 0,5%, não será nenhuma tragédia desde que não sinalize uma firme tendência de alta. E os dados do IBGE dizem que isso não existe no momento. Há sem dúvida o duplo efeito negativo do dólar valorizado sobre os preços dos produtos importados mas a cotação das commodities já registraram a maior queda desde a crise financeira internacional.

Os canais de contaminação. O relatório do BC mostra que o cenário externo negativo favorece na luta contra a inflação, na medida em que reduz as pressões inflacionárias que poderiam surgir via demanda e alta dos preços das commodities, mas afeta o crescimento que já vinha recuando. Pode mudar em 2012? A coluna acompanhou atentamente as avaliações feitas pelos economistas e analistas nos EUA e na Europa. Ninguém acredita que o quadro se altere pelo menos nos próximos dois trimestres. Todos os indicadores futuros são negativos. Reduziram os riscos mais sérios de recessão - não se fala mais em 50% -, mas há pouca chance de a economia mundial manter os 4% previsto pelo FMI. "Há uma crise geral de confiança e na melhor hipótese, o PIB vai crescer menos do que se previa", afirma o analista de mercado Adam Krajajcik, ao Wall Street Jornal, refletindo o clima do mercado. "Por que tudo isso?, pergunta outro analista, Joseph Mazzarela. " Porque 2008 ainda está na memória do povo e dos investidores, nada mudou nas últimas semanas. Ao contrário, se agravou."

Outro fato preocupante, que pesou na queda das bolsas nesta semana, foi a China ter dado sinais mais fortes de desaceleração. Confirmou que a produção industrial recuou novamente, pelo terceiro mês consecutivo. É consequência da retração do mercado mundial e das medias do governo que acabou com os incentivos, reduziu a liquidez e aumentou os juros por causa da inflação de 6,5%. Não se conte mais, portanto, com China para sustentar a economia mundial, como nos últimos anos. Só que não se pode contar também com os Estados Unidos e a União Europeia, e muito menos o Japão.

Vamos até bem. No Brasil, a equipe econômica acertou ao prever um cenário mundial recessivo, de menor demanda externa, e ao adotar medidas para fortalecer o mercado interno. Decidiu também não proteger, mas defender esse mercado que representa hoje pouco mais de 60% do PIB nacional. Pode-se acusar o governo de protecionismo quando o governo dá prioridade às compras de empresas instaladas no País e exige um grau de nacionalização nas novas indústrias estrangeiras que estão vindo para o Brasil em busca de um mercado que ainda cresce em torno de 10% ao ano. Mas não é exatamente isso que estão fazendo la fora?!

DORA KRAMER - Em outras palavras


Em outras palavras
DORA KRAMER 
O Estado de S.Paulo - 02/10/11

Em boa hora a presidente Dilma Rousseff corrigiu o que pareceu - em princípio - ter sido uma precipitação da ministra das Relações Institucionais, que explicitou com todos os efes e erres a intenção do governo de criar um novo imposto para financiar a ampliação dos recursos a serem aplicados na saúde pública.

Ideli Salvatti marcou até data para o governo enfrentar a questão no Congresso: 2012, em pleno ano eleitoral, segundo a concepção da ministra a época ideal para se falar em tirar mais algum do bolso do eleitor.

Dilma correu para tentar consertar o estrago. Aproveitou uma entrevista a um programa popular em emissora de TV aberta para recuperar o discurso do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, de que o governo fará primeiro a sua parte, melhorando o serviço, para só então falar em imposto novo.

Note-se, porém, que a presidente não desmentiu totalmente a ministra. Descontado o prazo, na verdade, confirmou com outras palavras a declaração de Salvatti. Dilma disse que "a própria população" vai aceitar colaborar para o aumento da arrecadação quando começar a notar as melhorias.

Quais sejam? Na visão da presidente, o aumento da oferta de médicos e a melhor distribuição dos profissionais pelo País afora.

Quando, como e mediante o atendimento de quais critérios de desempenho a população seria chamada a se manifestar a respeito da conveniência da criação de mais um imposto?

A presidente não esclarece, assim como não deixa claro se haveria metas a serem cumpridas, se há um prazo para o governo justificar a cobrança com fatos e dados muito bem objetivos.

Deixou no ar apenas a vaga ideia de que haverá um momento em que os cidadãos acabariam por compreender que precisam de "mais coisas" e que, para dá-las, o governo também precisa de mais dinheiro.

Dilma não disse se a população terá a prerrogativa de avaliar negativamente o desempenho e se, nesse caso, o governo recuaria. Não, só pediu que o brasileiro faça o favor de não aceitar "em hipótese alguma" a tese de que a saúde não precisa de mais dinheiro.

Ora, disso todos sabem. Da mesma forma como é sabido que o governo dispõe de instrumentos para, amanhã ou depois, inundar o País com propaganda tão milionária quanto enganosa para convencer a população de que é chegada a hora de fazer a sua parte.

É claramente o que se engendra do Planalto. Não só para arrecadar mais. A motivação de fundo é política: para que não restem dúvidas de que governo do PT não deixa derrota (a perda da CPMF em 2007) sem revanche.

Entre Poderes. A emenda constitucional do senador Demóstenes Torres, que assegura os poderes do Conselho Nacional de Justiça, hoje tramita no Senado em regime normal.

Caso o Supremo decida nesse meio tempo votar a ação da Associação Brasileira dos Magistrados propondo, na prática, a extinção do conselho ou firmar qualquer acordo que represente perda de prerrogativas, há disposição de que a tramitação ultrapasse a urgência e passe a ser em regime de "fulminância".

À moda antiga. A observância a alguns princípios anda meio fora de moda e por isso mesmo vale o registro da alegação do senador Aloysio Nunes Ferreira para não querer disputar a Prefeitura de São Paulo, mesmo sob o argumento dos correligionários tucanos de que não teria "nada a perder", pois tem sete anos de mandato no Senado pela frente.

A recusa baseou-se justamente no fato de que Aloysio teria a perder a confiança do eleitorado paulista que há menos de um ano o elegeu para representá-lo no Congresso. Por oito anos.

Fica o tema para reflexão de parlamentares que dão mais importância a postos (eletivos ou não) no Executivo e tratam a função legislativa como matéria de segunda, contribuindo para que a baixa qualidade da representação seja um caminho sem volta.

GOSTOSA


FERREIRA GULLAR - À toa na tarde


À toa na tarde
FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SP - 02/10/11

Os sábados e os domingos são os seus piores dias, a não ser quando alguém o convida para um almoço ou uma visita a algum museu.

Ele mesmo não toma nunca a iniciativa. Se não o convidam, fica só e deprimido. De ficar só, já se havia habituado, mas deprimido não; é novidade de uns tempos para cá.

Chegou a consultar um médico que, depois de ouvi-lo o aconselhou a não tomar remédio nenhum, pois no seu caso de nada adiantaria e deixaria sequelas.

Assim que, quando se depara com um sábado vazio, entra em depressão e tudo o que pode fazer é sair andando pela rua, a passos lentos, sem rumo.

Desta vez escolheu o calçadão da Avenida Atlântica, já que não fazia frio e tarde estava iluminada. Foi até o escritório, pegou as chaves, calçou os sapatos e vestiu o casaco azul, leve, que costumava usar.

Ao vesti-lo, hesitou um instante, talvez fosse sentir calor. Ainda assim, friorento como era, vestiu o casaco, pôs o chaveiro no bolso e se encaminhou para a saída. Mas, como o telefone soou na sala, voltou para atendê-lo, já tomado pela esperança de que alguém ia convidá-lo para ir a um bar talvez. Era engano.

E já que pensava num passeio demorado que preenchesse boa parte daquela tarde vazia, decidiu ir ao banheiro fazer xixi. Urinou, lavou as mãos na pia e finalmente tomou o rumo da rua.

Apenas, antes de sair, certificou-se de que as chaves do apartamento estavam no bolso. Bateu a porta, tomou o elevador e finalmente chegou à rua. Tomou a direção da praia.

Mal atravessou a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, começou a soprar um vento que se foi intensificando à medida que andava. Ao descortinar a paisagem da praia, sentiu-se animado. E fez uma reflexão, especialmente ao reparar nas nuvens leves e brancas sobre o céu azul. "É tolice pensar que o mundo pode acabar de repente".

Nos últimos meses, sem qualquer explicação, teme que uma catástrofe cósmica ponha fim a tudo. Então, se perguntava, que sentido tem a vida Mas agora, sorria reconciliado com a existência ao perceber aquele céu azul e aquelas nuvens leves eram eternos.

Foi, portanto, sorrindo, que cruzou as pistas da Avenida Atlântica e chegou ao calçadão, por onde iam e vinham banhistas de calção e biquínis, turistas de bermudas e bonés, idosos e idosas fazendo cooper.

O mar estava agitado e o vento era agora quase uma ventania, que fazia farfalhar os coqueiros, ali, junto ao calçadão. Abotoou o casaco para se proteger da ventania.

Na areia, grupos de rapazes jogavam futebol. Eram times, com técnico, torcida e camisa própria. Deteve-se um instante para apreciar o jogo, que foi interrompido por uma discussão. Parecia questão de vida e morte. Como não tinha nada a ver com aquilo, seguiu em frente, sem pressa nem ansiedade.

Daí a pouco estava à altura da Rua Prado Júnior, onde morou uma amiga, que costumava receber os amigos para jantar e bater papo. Como essa lembrança o entristeceu, tratou de livrar-se dela e voltou-se para o mar, cujas ondas furiosas avançavam sobre a areia, lá longe, sem barulho.

Logo chegou ao final do Leme e sentou-se num dos bancos da praça e descansar, antes de tomar o caminho de volta. Ali ficou por algum tempo, vendo as crianças que brincavam e os carros que passavam. Via-os e não pensava em nada.

No mesmo passo lento, fez o caminho de volta. O porteiro abriu-lhe a porta do prédio e ele tomou o elevador, mas, ao chegar à porta do apartamento, procurou o molho de chaves e não o encontrou.

E agora, como vou entrar em casa? Lembrou-se que mantinha escondida uma chave junto à entrada de serviço mas lembrou-se que a tirara de lá.

Voltou à portaria, o porteiro o aconselhou a ir até a esquina chamar o cara que faz cópias de chaves e conserta fechaduras. Ele correu até lá mas, sábado, o homem não trabalha. Teria então que arrombar a porta do apartamento. Mas como?

Foi aí que se perguntou onde teria perdido as chaves. No caminho não foi. Só pode ter sido quando sentara no banco da praça, o bolso do casaco era raso. Mas andar de novo até lá, isso nunca.

E se eu for em meu carro? Foi. Estacionou, caminhou até o banco e as chaves estavam lá, no chão de areia. Juntou-as, só faltou beijá-las.

E passou o resto do sábado, feliz como se alguém o tivesse chamado para um almoço ou algum passeio.

GAUDÊNCIO TORQUATO - O dedo de Deus



O dedo de Deus
GAUDÊNCIO TORQUATO
Estado de S.Paulo - 02/10/11

O juiz, ensinava Francis Bacon, o filósofo inglês, deve preparar seu caminho para uma justa sentença, como Deus costuma abrir o seu caminho elevando os vales e abaixando as montanhas. Perguntinha do momento: será que há juiz abrindo vias judiciárias no Brasil sem olhar para o dedo de Deus? Pelo que se lê, há. É o que se deduz da ferina declaração da ministra Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça, ao anunciar que no Poder Judiciário há "bandidos de toga". Ela vai além com o rabisco pitoresco de que inspecionará o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, "refratário a qualquer ação do CNJ, no dia em que o sargento Garcia prender o Zorro".

Ora, quem conhece a historinha de TV que se passa em San Diego, no sul da Califórnia (EUA), não tem dúvidas quanto ao desfecho. A chance de o obeso sargento Garcia, fanfarrão e bebedor de vinho, prender o inimigo Zorro, defensor do povo, chega perto de zero. A intenção da corregedora é, tudo indica, denunciar a ação corporativa patrocinada pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), que objetiva reduzir o poder de investigação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Quem tem razão nessa pendenga? A questão avulta neste momento em que o País presencia agitada movimentação na esfera dos operadores do Direito. Procuradores e promotores, advogados e juízes dominam a cena, brandindo armas flamejantes na arena dos conflitos, cada qual desempenhando suas funções. São ações judiciais - processos criminais, ações civis públicas, ações diretas de inconstitucionalidade -, recursos em defesa de pessoas e grupos de interesse ou, no caso dos magistrados, decisões muito aguardadas, cujos efeitos se fazem sentir nas políticas públicas e na dinâmica das instituições.

É oportuno conferir o pano de fundo. O campo da política estreita, a cada dia, a distância que mantém da seara da Justiça. Fato registrado pelos dois termos que traduzem a imbricação de suas fronteiras: a judicialização da política e a politização da Justiça. O que se convencionou chamar de "ativismo judicial" se explica por um conjunto de fatores, entre os quais se destacam o despertar da sociedade, por meio de seus núcleos organizados; a emergência de novos polos de poder; a promoção da cidadania, na esteira das bandeiras dos direitos humanos e da igualdade, responsável por movimentos como os de defesa das mulheres, de etnias e dos homossexuais; e o vácuo proporcionado pela ausência de legislação infraconstitucional (muitos dispositivos da Constituição federal de 1988 não foram regulamentados).

Nesse ambiente de múltiplas interações, dentro do qual convivem instituições em processo de consolidação e uma cultura patrimonialista que subjuga a res publica ao crivo (e à ambição) do interesse privado, é difícil para o sistema judiciário tornar-se imune às pressões políticas. A partir de 1988, a Carta Magna abriu o leque das relações mais intensas. A composição das Cortes, por sua vez, tem proporcionado união mais estável entre Justiça e política.

Anote-se, por exemplo, o processo de seleção de nomes para compor as listas dos tribunais superiores, encaminhadas ao chefe do Executivo, a quem cabe a palavra final. No torneio de trancas e retrancas, pressões e contrapressões, há jogadores dos partidos, de arenas corporativas (associações de classe) e de grupos, particularmente os da esfera laboral.

Registre-se, ainda, que o território dos negócios adentrou muito os domínios do Estado. Portanto, a politização da Justiça, sob o prisma de indicação de nomes para as Cortes, incorpora também esse componente. Em nações desenvolvidas, como a França e a Alemanha, isso é natural. Parcela da Corte Constitucional passa pelo crivo do Parlamento. Há, ali, intenso atrelamento partidário. E nos Estados Unidos a nomeação de magistrados passa pela régua partidária, seja privilegiando democratas ou republicanos (liberais ou conservadores), dependendo do presidente do momento.

Exposto o cenário da interação Justiça-política, é comum ouvir nos corredores do Judiciário coisas do tipo: "O juiz fulano é ligado ao político beltrano". E vice-versa: "O mandatário tem afinidade com o juiz tal". Até aí, tudo bem. O desenho ganha matiz mais forte, porém, quando a aproximação causa suspeita, quando se escancara a influência de atores (políticos/empresariais) nas decisões de juízes. É até provável que a complexidade do sistema judicial brasileiro dê margem a desvios, levando ainda em conta a existência de 16.108 magistrados. Os descaminhos acabam batendo às portas da Corregedoria do CNJ.

E aqui entra em cena a corregedora nacional da Justiça com sua pregação: "Há bandidos de toga". Mas a entidade de classe dos magistrados quer nomes, repele a generalização. Como colocar a questão? Pincemos a célebre pergunta dos filósofos do Direito: quis custodiet custodes? Isto é, quem vigia o vigilante? Norberto Bobbio sugere a resposta ao pressupor que a indagação, por si só, aponta para um vigilante superior. Faz, porém, a ressalva: o processo deve ter limite, sob pena de descambar para o infinito.

O CNJ, nesse caso, seria o vigilante das Cortes estaduais. Sob tal entendimento, o cabo de guerra é puxado para o lado da ministra Eliana Calmon. O desembargador Nelson Calandra, presidente da AMB, refuta: "A magistratura não precisa de guardas para guardar os guardas". Mas se os "guardas" (alguns) não honram o múnus, o desabafo de Calandra, é forçoso reconhecer, perde força. Poderia a própria Corregedoria do tribunal "guardar" os quadros que o integram? Ora, essa é uma de suas funções. Mas os tribunais, é sabido, não fazem controles rígidos. O modus operandi é corporativo. Não se controla a permanência dos juízes em suas localidades e nos Fóruns. Crítica geral: as Corregedorias são omissas. Processos administrativo-disciplinares, ao chegarem ao plenário, são protelados com pedidos de vista, caindo na prescrição.

Querem um bom desfecho para a querela? Basta que os dois lados olhem para onde aponta o dedo de Deus.

RENATA LO PRETE - PAINEL


Tucanocídio, a missão
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 02/10/11

Adormecida desde a transição, a disputa entre os grupos de Geraldo Alckmin e José Serra ressurgiu com a proximidade das prévias para escolher o candidato à prefeitura paulistana. Antes circunscrito a divergências quanto à continuidade de programas de governo, o clima de confronto contaminou a base do PSDB. Alckmistas duvidam do empenho de Serra na campanha, a depender do nome escolhido. Serristas se queixam de isolamento progressivo. O recrudescimento das hostilidades preocupa o partido. Teme-se que o protagonismo da eleição na capital acabe dividido exclusivamente entre o PT e Gilberto Kassab.

Sobe-desce Ajuda a alimentar o quadro de tensão no PSDB o diagnóstico de que a semana dos pré-candidatos terminou com viés de alta para Guilherme Afif, agora seguro da legenda do PSD, e de baixa para o tucano Bruno Covas, que se atrapalhou no Assembleiagate.

Não entendi 1 Em resposta à queixa pública de Aloysio Nunes por ter sido excluído do programa de televisão tucano, o presidente do PSDB-SP, Pedro Tobias, diz: "É estranho que ele reclame do espaço dado a candidatos a prefeito que levaram a campanha dele ao Senado nas costas em 2010".

Não entendi 2 Tobias considera ainda que criaria constrangimentos caso permitisse a aparição de Aloysio, não-candidato declarado, no palanque eletrônico da capital. "E o que eu faria com os outros quatro que assumiram a candidatura?", indaga, referindo-se a Andrea Matarazzo, Bruno Covas, José Aníbal e Ricardo Trípoli.

O original De um cardeal petista, ao observar que a legenda de Eduardo Campos (PE) está em praticamente todas as máquinas estaduais, seja qual for a coloração partidária do governador: "Na verdade, é o PSB que não é nem de esquerda, nem de centro, nem de direita".

Agora não Entre outros motivos, Dilma torce para que a queda serial de ministros tenha de fato acabado para ter a liberdade de promover ampla reforma na Esplanada na virada do ano. Ela entende que, se alguém for nomeado a esta altura, dificilmente poderá ser removido em tão pouco tempo.

Carteirada 1 A lista de coisas que tiram Dilma Rousseff do sério é liderada atualmente pelo expediente de recorrer, diante da presidente ou de terceiros, a expressões como "eu falei com o Lula", "o Lula concorda" ou, pior, "o Lula se comprometeu".

Carteirada 2 Entre os que já deram esse mau passo estão o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli.

Ah, é? Recentemente, um interlocutor falava com Dilma sobre a Petrobras e a toda hora pronunciava um "mas o Gabrielli acha que...". Ela cortou: "Ele acha? Então que arrume 56 milhões de votos e sente na minha cadeira".

Presente Com Dilma na Europa em semana decisiva para a questão dos royalties, a pressão sobre a negociação cairá no colo do presidente em exercício, Michel Temer. Sobretudo porque a gritaria maior vem de seus correligionários do PMDB do Rio.

Ausente Governadores de Estados produtores, Sérgio Cabral (PMDB-RJ) à frente, bem que tentaram negociar diretamente com Dilma. A presidente, no entanto, manteve distância da encrenca. Temer dificilmente poderá fazer o mesmo.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

"Dilma está igual a Pôncio Pilatos: lavou aos mãos e entregou o Rio de Janeiro, que lhe deu expressiva votação, aos que querem crucificar o Estado."
DO DEPUTADO EDUARDO CUNHA (PMDB-RJ), criticando a atitude da presidente, em seu entender de indiferença, diante da queda de braço em torno da distribuição dos royalties do petróleo.

contraponto

Quem diria!


A cerimônia, realizada na quinta-feira passada no Palácio do Planalto, de assinatura da medida provisória que estabelece mecanismos de fomento à indústria de defesa, estava repleta de militares.
Acomodado em uma das primeiras fileiras da plateia, o petista Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento e companheiro de Dilma Rousseff na luta contra a ditadura, fez graça com o general Enzo Martins Peri, comandante do Exército:
-Este tanto de milico aqui e a gente não sai algemado!

GOSTOSA


FERNANDO HENRIQUE CARDOSO - Incertezas



Incertezas
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
O ESTADÃO - 02/10/11

Para quem já sofreu as consequências de várias crises financeiras internacionais, não chega a ser surpreendente o que ocorre nos países mais desenvolvidos da Europa, contagiados pela crise financeira que tem origem nos menos desenvolvidos da região.

No passado recente, Bancos Centrais e ministros de finanças dos primeiros procuravam mostrar que não havia como equiparar a situação de seu país com a tragédia que ocorrera noutro. As situações fiscais não seriam as mesmas, a proporção da dívida com relação ao PIB não era tão grande assim, num caso a dívida interna estava nas mãos de agentes financeiros internacionais e se denominavam em dólares, noutros, ao contrário, eram os poupadores nacionais que emprestavam aos governos locais em moeda do país, etc. Mas, quase sempre, havia uma variável crítica: o mutável estado de confiança dos agentes do mercado financeiro internacional. Quando se instalava a desconfiança quanto à solidez das contas fiscais e/ou externas de um determinado grupo de países de alguma maneira correlacionados, os argumentos sobre as diferenças perdiam força. E viravam pó, se surgisse o fantasma do default – da moratória, como se dizia.

Reclamávamos maior regulação internacional para conter a especulação contra as moedas nacionais, ou seja: a criação de fundos de socorro maiores e de mais fácil acesso, o fortalecimento da base financeira do FMI e o aperfeiçoamento de suas práticas. Era preciso maior rapidez no atendimento dos países com crise de liquidez e menos “condicionalidades”, ou seja, as imposições restritivas à política econômica e fiscal dos países devedores, pois se o ajuste fiscal passasse de certo ponto impediria a retomada de crescimento econômico. Para financiar os novos fundos, alguns de nós relançamos a ideia de uma Taxa Tobin, apesar dos reclamos contínuos dos especialistas quanto aos efeitos desse tipo de imposto.O receituário do FMI tampouco era atento às diferenças. Exigia sempre mais do mesmo, às vezes não sem alguma razão: ajuste fiscal, reforma patrimonial do Estado etc. Mas fazia ouvidos moucos à demanda por maior regulação do mercado financeiro internacional. Era o que pedíamos à comunidade internacional os que dirigimos os países naquela época de aflições.

Alguns países emergentes tiveram melhores condições para negociar com o FMI, como foi o caso do Brasil, que havia realizado o Plano Real por sua conta e risco, sem o aval do Fundo. Com o Plano Real modificamos drasticamente as bases da política fiscal, saneando as finanças da União e as dos estados, impusemos regras severas ao sistema financeiro, seguindo as recomendações de Basileia para controlar a “alavancagem”, isto é, os empréstimos sem uma base adequada de capital próprio nos bancos. Ao mesmo tempo não descuidamos de, ao privatizar, ampliar a concorrência e manter ativos os instrumentos públicos de crédito no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e no Banco do Brasil, tornando-os aptos a reestruturar empresas nacionais ou localizadas no país. Ao lado disso, desde 1994 até hoje, os diferentes governos sustentaram um aumento constante do salário mínimo real e, a partir de 2000, foi possível criar uma rede de proteção social, da qual as Bolsas Família, iniciadas com nomes diferentes, se tornaram símbolo de inclusão social, diminuindo a pobreza e reduzindo um pouco as desigualdades.

Pela primeira vez, os países mais desenvolvidos sentem as consequências da falta de regulação do sistema financeiro. Olhando agora o que ocorre na economia global deparamo-nos com uma situação incerta. A regulação financeira proposta nas reuniões do G-20 encontra dificuldades para se efetivar dada a diversidade de interesses nacionais. Cada banco central opera como melhor lhe parece. O Fed inunda os Estados Unidos e o mundo com dólares e faz operações típicas de bancos comerciais sem se preocupar com a ortodoxia. Os responsáveis pelos desmandos financeiros não são punidos, recebem bônus (ao contrário do que ocorreu com o programa brasileiro de saneamento do sistema financeiro, que puniu os banqueiros) e o desemprego não cede porque não há consumo nem investimento. O Banco Central Europeu e o FMI exigem dos países em bancarrota virtual sacrifícios fiscais que impossibilitam a retomada do crescimento e, portanto, a volta à normalidade. As taxas de juros se mantêm próximas de zero, sem previsão de mudança, e as economias não reagem. Na Europa cada país faz a política fiscal que deseja, não há mecanismos de unificação. O desemprego e o mal-estar político minam esses países, e a ameaça de default é seu parceiro constante.

Desse quadro escapam as economias emergentes, China à frente de todas. Até quando? É óbvio que uma recessão prolongada ou uma grande contração, como diz Kenneth Rogoff, transmitirá às economias emergentes seus maus fluídos pelo conduto do comércio internacional. É preciso, antes que isso ocorra e o desastre seja maior, que haja um entendimento global. Este deveria partir do reconhecimento de que as dívidas de alguns dos países europeus são impagáveis. Com o nome de reestruturação ou outro qualquer, à la Brady, é preciso aliviar já a situação da Grécia, de Portugal e eventualmente da Espanha e da Itália. Suas dívidas internas e externas e a penúria de seus bancos cheios de títulos de qualidade desconhecida não lhes dão alternativas de retomada do crescimento sem uma redução substancial dos valores de seus passivos.

Não haverá condições político-morais para proceder a tais reestruturações sem, ao mesmo tempo, distribuir melhor o custo da “socialização das perdas”. O grito de Warren Buffet, seguido por milionários de outros países, mostra o descalabro do Tea Party ao querer impor mais ônus aos mais pobres, com responsabilidade zero na crise. Por fim ou o euro se derrete pela falta de unificação fiscal, ou esta se faz, ou a União Europeia se encolhe, autorizando alguns de seus membros a desvalorizar e usar outra vez uma moeda nacional.

Nada disso pode ser feito sem lideranças políticas fortes, dispostas a redistribuir o poder global e reorganizar suas bases decisórias. Terão força para tanto? Eis o enigma.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO



Aluguel de máquina para construção registra queda
MARIA CRISTINA FRIAS 
FOLHA DE SP - 02/10/11

Os preços praticados pelas locadoras de equipamentos para construção, como empilhadeiras, andaimes e escavadeiras, registraram queda neste ano no Brasil.
"Houve uma redução dos preços em torno de 15% em valor real no mercado em geral", diz Eurimilson Daniel, da Sobratema (associação de tecnologia para equipamentos) e presidente da empresa de locação Escad.
À elevação no custo de crédito e manutenção das máquinas soma-se a entrada de asiáticos, que aumentou a oferta no país.
Além disso, o setor investiu muito na compra de máquinas nos últimos anos, de acordo com o presidente da Alec (Associação dos Locadores de Equipamentos para a Construção Civil), Durval Gasparetti.
Entre 2008 e 2010, o número de locadoras cresceu 30% no país. Hoje são cerca de 2.400. Além disso, as empresas que já existiam dobraram seus quadros de funcionários, afirma Gasparetti.
O setor de construção, porém, diminuiu o ritmo de expansão. Em 2010, o PIB do segmento cresceu 12%. Para este ano, a previsão é de 5%.
"Como resultado dos investimentos, atualmente temos máquinas ociosas. Quem tem uma posição favorável, pode fazer promoção e depois se recuperar", diz.
Gasparetti afirma que não tem como quantificar a queda de demanda, mas afirma que foi um declínio lento, que se iniciou em fevereiro e que foi até junho.
"Agora está estabilizado."

PRESSÃO NA MARGEM
A Eleva Brasil, locadora de equipamentos motorizados para construção civil, registrou queda de 15% a 20% nos preços que cobra de seus clientes.
"No terceiro trimestre, deu uma desacelerada. O mercado financeiro já prevê menores lucros para as construtoras, que são um dos setores que mais sofrem no mercado acionário em 2011", afirma Guilherme Bueno, sócio da Eleva, empresa do grupo Emit Brasil.
O empresário cita empilhadeiras e manipuladores telescópicos entre as máquinas que perderam preço.
As margens das vendas também foram pressionadas pela entrada de produtos de empresas chinesas e indianas, que passaram a vender diretamente para construtoras, o que atrapalha o mercado de locação.
A pressão foi sentida pela Emit Equipamentos, que importa e vende escoramentos metálicos e acessórios para andaimes.
"Com a subida do dólar, é provável que os preços se reajustem para cima, mas não por um aumento de margem, é meramente câmbio", afirma Murilo Santos, sócio da Emit.

INVASÃO DE CAPITAL
A participação de estrangeiros na carteira de ativos financeiros do mercado brasileiro dobrou nos últimos seis anos, de acordo com o Cemec (Centro de Estudos de Mercado de Capitais).
Desde 2005, o volume de investimento de pessoas de outros países no Brasil passou de 5,3% para 10,6%. "A isenção de Imposto de Renda para títulos públicos foi o principal motivo para esse aumento", diz o diretor do centro, Carlos Rocca.
Nos próximos anos, a tendência é que a participação dos investidores estrangeiros no mercado brasileiro cresça ainda mais, segundo a entidade. "Se o governo der continuidade ao processo de desoneração do Imposto de Renda também nos títulos de dívida privada, temos um potencial muito grande."
Em julho passado, a carteira de ativos financeiros atingiu R$ 5,4 trilhões no Brasil, sem contar os valores de companhias de capital fechado.
O Cemec, criado em 2008, mantém convênios com BM&FBovespa, Anbima, Cetip, Ibmec, entre outros.

O QUE ESTOU LENDO

Líbano Barroso, presidente da TAM

História e culinária chinesas são atualmente temas da leitura de Líbano Barroso.
"'O Último Chef Chinês', de Nicole Mones, [ed. Suma de Letras Brasi], é um romance que faz uma deliciosa narração sobre a culinária da China, desde o final do Império, passando pela Revolução Cultural, até os dias de hoje", afirma o presidente da TAM.
"O livro é uma mistura de história e ritual da comida daquele país, pois, para os chineses, comer é um evento e nunca apenas a nutrição."
Barroso lê também uma obra sobre gestão."'Não é Óbvio', de Eliyahu M.Goldratt, [ed. Nobel], é baseado na melhoria de processos do comércio varejista", diz.

ORÇAMENTOS EM XEQUE
A implementação de projetos costuma estourar em 66% o valor previsto no orçamento, na média mundial, segundo estudo da consultoria americana A.T. Kearney.
Entre as empresas de telecomunicação, os gastos chegam a ser o dobro do estimado inicialmente.
"É um setor que utiliza muito os novos recursos tecnológicos", afirma Dario Gaspar, sócio da consultoria que atua em mais de 30 países.
O valor dos orçamentos de obras de infraestrutura, por sua vez, é superado em 67%.
Na América do Sul, o montante desembolsado para viabilização de projetos é 67% superior ao orçado. Nos países da América do Norte, esse número é de 33%.
com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ