domingo, julho 04, 2010

O ESGOTO DO BRASIL

ANCELMO GÓIS

Lições para 14
ANCELMO GÓIS

O GLOBO - 04/07/10

Marceu Vieira, nosso craque que bateu um bolão na Copa, lista uma seleção de erros e acertos que o Brasil deve aprender com a África do Sul.

1. O sistema de transporte deles é horroroso. Não há metrô, trem, ônibus, não há nem táxis perto dos estádios.

2. Os estádios são excelentes, modernos, melhores que qualquer um no Brasil. Mas é preciso programar, desde já, o que será feito deles depois. O gigante Soccer City, por exemplo, com 94 mil lugares, tem custo mensal de US$ 400 mil e está condenado a elefante branco. Seu dono, o First National Bank, já disse que fechará as portas do campão até que apareça um interessado em arrendá-lo.

3. A segurança dos estádios precisa ser planejada já.

A deles fracassou.

4. Se há uma hora para começar a consertar nossas estradas é agora. Em quatro anos, dá tempo. Eles fizeram bonito.

5. A mobilização do povo pelo governo Jacob Zuma f o i 1 0 0 % b e m s u c e d i d a .

Eles vibram com a Copa.

São hospitaleiros.

6. A internet deles funcionou como em nenhum evento público no Brasil. Mas os centros de mídia foram improvisados em tendas mal-ajambradas, sem lugares suficientes para a babel de jornalistas. O piso, um tablado de madeira sobre o chão de terra, balança — e os banheiros parecem os da Sapucaí.

7. A limpeza das cidades-sedes precisa ser copiada. O povo atendeu à campanha oficial, e o espaço urbano ficou um brinco.

Mas é preciso começar já.

No mais

Neymar e Ganso fizeram falta.

Brás Cubas

Presença da literatura brasileira na Bulgária. “Memórias póstumas de Brás Cubas”, do grande Machado de Assis, será editado lá.

Em 2009, foi lançado “O púcaro búlgaro”, do mineiro Campos de Carvalho.

Jânio fez escola

Outro dia, a cúpula do PMDB se reuniu para discutir a “traição” do diretório de Santa Catarina.

Foi quando Michel Temer, presidente do partido, acusou o comando catarinense de agir “à socapa... à sorrelfa”.

Foi o que bastou para a reunião ser interrompida para Temer explicar os dois palavrões

Houaiss explica

As duas palavras têm, mais ou menos, o mesmo significado.

Trata-se de dissimulação silenciosa para enganar ou iludir.

Diz-se de pessoa matreira, manhosa, dissimulada; sorrelfo também se diz de pessoa mesquinha, avarenta.

Ah, bom!

Rumo ao hepta

Aliás, a derrota do Brasil na Copa da África poupa o sacrifício de todos de, na Copa de 14, terem de pronunciar um palavrão: hepta.

Fica para a Copa de... 18.

J. R. GUZZO

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LYA LUFT

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MÍRIAM LEITÃO

Vale tudo
MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 04/07/10
Alguém precisa avisar ao presidente Lula, ao Congresso, à oposição que o mundo não acaba em 2010. As decisões tomadas, os projetos apresentados têm um alto poder corrosivo do que se conquistou nas últimas décadas. O presidente Lula quebra regras eleitorais com desenvoltura, o Congresso apresenta propostas que comprometem a estabilidade fiscal. Tudo pelas eleições.

O país recomeçará no ano que vem tendo que lidar com as sequelas do ano de 2010. O presidente Lula, pelo visto, concluiu que sua estratégia de afrontar as regras eleitorais é um mal necessário.

Até aqui, pode até dizer que o mal feito compensa, porque sua candidata deu um salto nas pesquisas, e ele tem “apenas” seis multas que certamente ficarão para as calendas. Lula deve pensar: o que são seis multas se o importante é garantir a eleição da sua candidata, pela qual ele já disse a diversos interlocutores que está disposto a fazer “tudo”? O “tudo” do presidente Lula ameaça a democracia.

Hoje, ameaças à democracia não são mais ações dos quartéis. Esse é um tempo superado. Agora, o risco é de se avacalharem regras com o desrespeito continuado.

Que ninguém se engane com o bom comportamento dos últimos dias. A estratégia do presidente é ele ficar quieto no período de Copa do Mundo e voltar à carga nos próximos meses.

Tudo está sendo usado: as cerimônias governamentais, as estatais, as datas comemorativas. Pessoas de diversos escalões estão sendo instadas a se manifestarem a favor de Dilma. O governo só faz campanha. O presidente nestes três meses finais está disposto a ignorar os limites impostos pela lei eleitoral, como o fez nos meses anteriores ao início oficial da campanha.

Quem vive no Rio acompanhou uma atitude assim nos governos Garotinho. O GLOBO fez um trabalho sério e determinado para mostrar o que hoje a Justiça Eleitoral reconhece como “abuso de poder” dos que estavam no governo.

O que Lula tem feito não tem outro nome. A única dúvida é se em algum momento a Justiça terá força para mostrar isso.

No Congresso, o que se faz é uma distribuição irresponsável de benesses que custarão caro aos cofres públicos caso sejam aprovadas. Como o “Estado de S. Paulo” publicou esta semana, os parlamentares estão tentando duas linhas de ataques aos cofres públicos: primeiro, restabelecer a aposentadoria integral de juízes, procuradores, defensores públicos e talvez de delegados; segundo, cancelar 55 mil aposentadorias incentivadas do setor público e recontratar 40 mil que saíram das estatais.

As mudanças nas regras de aposentadoria do setor público foram alteradas no começo do governo Lula.

Então quem as ataca agora é o PSDB. Ataca como se os tucanos não tivessem governado o país e constatado que as projeções das contas da Previdência no regime geral, e da pública, ameaçam o Tesouro.

O Brasil ainda não encontrou a fórmula para conviver com os cada vez mais explosivos números da Previdência. No caso dessa proposta, é uma concessão a um grupo que já está numa posição muito alta em termos de valores de aposentadoria, como alertou o economista do Ipea Marcelo Caetano.

Os senadores tucanos Eduardo Azeredo, autor da proposta, e Marconi Perillo, relator na Comissão de Constituição e Justiça da Proposta de Emenda Constitucional, deveriam conversar com ex-ministros da Previdência do governo Fernando Henrique para saber se tem cabimento uma proposta dessas. A Previdência tem sido fonte de reprodução de desigualdades, tem um inescapável desafio de lidar com uma população envelhecendo. O assunto exige mais responsabilidade dos parlamentares, mas está sendo usado como arma eleitoreira.

Como as demissões incentivadas no governo e nas estatais ocorreram no período Fernando Henrique, neste caso quem as ataca é a base do governo atual. Dois projetos da base governista querem cancelar demissões feitas dentro de regras, com a concordância de quem saiu e com grandes compensações financeiras, no único esforço já feito para diminuir o inchaço do setor público. O governo Lula inchou de novo a máquina e agora sua base no Congresso quer pôr de volta nas empresas e no governo mais de 100 mil pessoas quem saíram há 14 anos.

Os dois projetos, o dos tucanos atacando uma reforma do governo Lula e o dos governistas atacando um ajuste feito no governo Fernando Henrique, criam despesas permanentes e dão vantagens pontuais a grupos que já as têm. São retrocessos perigosos e caros. Tramitam no Congresso tendo a boa vontade de políticos que em período eleitoral querem fazer agrados mesmo que isso contribua no futuro para ameaçar a solvência das contas públicas. O curioso é que todos os candidatos à presidente prometem reduzir a carga tributária enquanto suas bases encomendam mais gastos que serão cobertos, se aprovados, pelos bolsos dos brasileiros.

Nas últimas duas décadas e meia, o Brasil consolidou a democracia e a estabilidade econômica. Nesta eleição, os políticos que nos governam ameaçam as duas conquistas.

O Congresso, com propostas que criam gastos permanentes; o presidente Lula e as autoridades do Executivo, com o uso abusivo da máquina pública em campanha eleitoral. O uso do governo desequilibra a disputa, favorece um dos candidatos em eventos em que há recursos públicos, abusa do poder conferido aos governantes. A democracia se fortalece com o respeito às regras. O desrespeito a ameaça.

GOSTOSA

PAINEL DA FOLHA

Última instância
RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 04/07/10

As duas decisões do Supremo liberando as candidaturas do senador Heráclito Fortes (DEM-PI) e de uma deputada estadual de Goiás, ambos enrolados com a Lei da Ficha Limpa, disseminaram na base governista o discurso de que a regra terá aplicação bem mais reduzida do que se imaginava nas eleições. A avaliação é amparada nas palavras do ministro José Antonio Dias Toffoli, segundo quem a lei ‘apresenta elementos jurídicos passíveis de questionamentos’.  Além disso, especula-se que, caso a ministra Cármen Lúcia dê parecer favorável a uma reclamação do ex-deputado Carlos Gratz (PSL-ES), para quem a lei é inconstitucional, as proibições cairiam em cascata.    Borracha Se a suspensão dos efeitos da Lei da Ficha Limpa no STF tiver sequência, a avaliação dos governistas é que poderá abafar a principal bandeira do vice de José Serra, o deputado Indio da Costa (DEM-RJ).

Régua - A direção do PSDB fará uma reunião nesta semana com todos os presidentes dos diretórios estaduais para mapear conflitos que persistem na aliança com DEM e PPS. Além de eventual ‘enquadramento’ nos casos mais complexos, o partido cobrará mobilização de candidatos a deputado para as visitas de José Serra.   

Na raiz - A coordenação da campanha de Serra usa um dado do último Datafolha para sustentar que a campanha adversária tem mais mobilização nas bases: 43% acham que Dilma ganhará a eleição, contra 33% de Serra, apesar do empate técnico.   

Bolso - Um dirigente tucano adverte: ‘É bom que fique claro que se faltar apoio nas bases, como ocorreu em 2006, vai faltar dinheiro para muita gente também’.   Santinhos Um governista fez a conta: dado o maior número de partidos na aliança, Dilma terá mais candidatos espalhando seu nome nos Estados. A matemática dos petistas prevê volume 40% superior ao de Serra.

Sem panetone - Apesar de Serra ter cedido a vaga de vice ao DEM, lideranças do PT afirmam que o partido não pretende explorar o episódio do mensalão de José Roberto Arruda no Distrito Federal. Motivos: os petistas temem que a ideia suscitaria o troco de ‘demos’ e tucanos, lembrando o escândalo de 2005, e implodiria o discurso de campanha ‘paz e amor’ de Dilma.   

Roteiro 1 - Desde que saiu da Casa Civil para disputar as eleições, Dilma não foi nenhuma vez ao Paraná e só visitou uma única cidade em Santa Catarina. Isso deve mudar, numa tentativa dos petistas de quebrar o favoritismo de Serra na região.   

Roteiro 2 - Estado em que Dilma fez a carreira política, o Rio Grande do Sul recebeu quatro visitas da petista até agora. A proporção será mantida para tentar alavancar votos nas ‘origens’ e arrebanhar a militância de Tarso Genro (PT), candidato ao governo gaúcho. 

Shopping 1 - Antes de se acertar com Duda Mendonça, Marta Suplicy (PT) procurou os serviços de João Santana, que fez sua campanha de 2008 à prefeitura paulistana. O marqueteiro explicou que neste ano ficará concentrado na candidatura de Dilma Rousseff à Presidência.   

Shopping 2 - A parceria firmada entre Marta, que concorrerá ao Senado, e Duda, que fará também a campanha de um adversário de Aloizio Mercadante ao governo (Paulo Skaf, do PSB), ainda não foi digerida por muita gente no PT de São Paulo, mas teve um padrinho de peso: José Dirceu.    

Contraponto

Mercado futuro   

O líder do DEM na Câmara, Paulo Bornhausen (SC), telefonou na semana passada para Antonio Palocci (PT-SP) para tratar de um projeto de relatoria do petista. Lá pelas tantas, brincou:  _Estou de olho no seu movimento para tentar implementar o parlamentarismo no Brasil!  Palocci, um dos principais colaboradores da campanha de Dilma Rousseff, logo se esquivou:  _ Que história é esta? Eu, imagina...  Ao que Bornhausen emendou:  _Falo sobre o desejo de virar primeiro-ministro.

Tiroteio

Lula está acostumado a entrar em disputas “nadando de braçada’. Agora quero ver desta vez, em que o jogo está zero a zero.  DO DEPUTADO ACM NETO (DEM-BA), sobre o resultado da pesquisa Datafolha que mostra Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) tecnicamente empatados.

CARLOS MELO

As urnas e o jogo paulista

Carlos Melo 
O Estado de S.Paulo - 04/07/10


Não apenas porque São Paulo é o maior colégio eleitoral e mais rico Estado da Federação, mas também porque a polarização PT X PSDB se repete, as eleições estadual e nacional aqui se relacionam e se confundem. Se há no Planalto o favoritismo de um governo amplamente aprovado; com sinal partidário contrário, do Bandeirantes se pode dizer o mesmo; se há na esfera federal uma oposição claudicante, de projeto indefinido e alianças em crise, aqui também há. Igualmente, os candidatos não se distinguem pelo carisma e até o quiproquó dos vices é assemelhado. A eleição presidencial passa pelas urnas paulistas e vice-versa.
Diferem-se emoção e personalidade, é verdade. Mercadante não é Serra, e nem Alckmin é Lula, o real protagonista da disputa nacional; o calor estadual é menor que a temperatura nacional. Mas, ainda assim, há ingredientes que farão da eleição paulista uma disputa quente. Para tucanos, além da manutenção do poder - em continuidade aos 16 anos de governo -, a meta é ganhar de lavada, fazendo aqui a diferença de votos que tendem a faltar para José Serra na maioria dos estados. Para petistas, o maior desafio é pôr fim à hegemonia tucana, mas já bastaria perder de pouco, reduzindo as chances nacionais do adversário.
A escolha do candidato tucano, longe de ser natural, foi apenas a mais segura diante desses objetivos. Após os fiascos de 2006 e de 2008, Geraldo Alckmin perdeu poder e consenso. Mas, possui recall e uma boa imagem pela interlândia; é muito competitivo nos grandes centros. No mais, abrir uma ferida interna em São Paulo não seria razoável para José Serra, pois somente a paz pode trazer resultados expressivos em seu território. Assim, a despeito de não ser o predileto, Alckmin tornou-se o favorito e se fez candidato. Do ponto de vista de José Serra, a aliança que fechou com seu adversário íntimo não foi apenas inevitável, mas fundamental.
O ocaso do malufismo deixou em aberto um setor já ocupado por gente como Adhemar de Barros e Jânio Quadros. Não é a cara dos tucanos, mas hoje é Geraldo Alckmin com sua aura conservadora, religiosa e cordata - e não José Serra - quem ocupa esse espaço (na capital, dividido com Gilberto Kassab). É um grande contingente de eleitores, que há tempos o PT anda de olho, mas é o PSDB quem o aglutina em torno de seus candidatos "de centro". Abarca do antigo populismo paulista à centro-esquerda, cuja figura mais representativa é o próprio Serra. A grandeza de Mário Covas consistia em ser os dois e nenhum ao mesmo tempo.
Enfim, um amplo leque de poder que dirige uma economia pujante e moderna, uma estrutura social menos desigual do que no restante do país e serviços públicos e infraestrutura, em geral, mais eficientes. Trata-se de um condomínio político que tem sabido explorar o conservadorismo natural dos paulistas, sobretudo do interior do Estado, e sua reincidente resistência ao PT que, à parte a candidatura de José Genoino, embalada pela eleição de Lula em 2002, tem dificuldades de ultrapassar a barreira do primeiro turno.
Para Aloizio Mercadante, o desafio é grande: confinado à esquerda, às corporações de servidores e às periferias e bairros pobres dos grandes centros, eventualmente, favorecidos pelo Bolsa-Família - mas também por políticas sociais do governo do Estado -, o senador precisa diminuir resistências, dissociar sua imagem de movimentos grevistas que desnorteiam o cotidiano e aguçam, pela proximidade e identidade, as críticas ao PT. Sem romper com aliados antigos, terá que fugir do gueto, abrir fendas no muro tucano, atrair massas populares, já que as classes médias são-lhe naturalmente relutantes: não é por outra razão que tem flertado com lideranças pentecostais e cogitado oficiais PM para a vice. Tem lógica.
É CIENTISTA POLÍTICO, DOUTOR PELA PUC-SP, PROFESSOR DO INSPER - INSTITUTO DE ENSINO E PESQUISA. AUTOR DE "COLLOR: O ATOR E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS"

O ABILOLADO E A MENTIROSA

EMÍLIO ODEBRECHT

O desafio de ser líder
EMÍLIO ODEBRECHT
FOLHA DE SÃO PAULO - 04/07/10

Tenho observado, de uns tempos para cá, o comportamento exacerbado e competitivo ao extremo de muitos jovens no ambiente de trabalho. 
Há quem argumente que esse modo de ser – ansioso, aflito, às vezes até agressivo – é fruto inevitável dos tempos atuais. Se isso é verdade, precisamos encontrar formas para contê-lo, evitando, assim, que o ambiente na empresa degenere em carreirismos e conflitos de egos. 
A melhor forma para se combater este fenômeno está no reforço à prática da parceria, na valorização do trabalho em equipe e na convergência de todos para servir ao cliente, pois é nele que está o poder e a hierarquia. As disputas internas não levam a nada porque os resultados estão sempre fora da empresa. 
Profissionais jovens e ambiciosos precisam demonstrar, antes, o amadurecimento necessário para que possam assumir posições de liderança no futuro. Muitos não se dão conta disso. O indivíduo demonstra ter maturidade, tanto pessoal quanto profissional, quando conjuga senso crítico e sabedoria – que são características de quem se predispõe a adquiri-las. 
Quem almeja a posição de líder só a terá se demonstrar as aptidões para isso ainda enquanto for um liderado. Como esta pessoa se comporta quando está nessa condição? É respondendo a tal questão que se descobre como ela agirá no momento em que assumir a liderança. 
A construção de um plano de vida e carreira passa pela coerência e pela consistência de atitudes que legitimam a aspiração do subordinado de chegar a dirigente. Pressa e atropelos na ânsia de galgar postos impedirão o indivíduo de extrair de cada função que exercer a soma de ensinamentos que esta pode lhe proporcionar. 
Empatia, enfoque na contribuição, discernimento e lealdade são condições para uma relação positiva entre o líder e seus liderados. Mas isto só dá certo quando estes últimos agem conforme deles se espera, e o líder, principalmente se recém-chegado a essa posição, é capaz de assumir com serenidade as responsabilidades que lhe cabem sem precisar provar o tempo todo do que é capaz, nem usar continuamente a autoridade que tem. Se age dessa maneira, é porque sua liderança já se esvaiu. 
A convivência nas empresas se dá sempre entre três gerações – jovens de talento, executivos maduros e os mais idosos e experientes, cujo papel primordial é educar. Para ser produtiva, essa convivência tem que ser harmoniosa e, para que haja harmonia, o diálogo entre elas precisa ser aberto, fluido e permanente, pautado pela humildade, disciplina, respeito e confiança. Quando isso acontece, todos ganham.

RUTH DE AQUINO


O goleiro, a namorada, o bebê e o Flamengo
RUTH DE AQUINO
REVISTA ÉPOCA
Revista Época
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br
O Flamengo tem mais de 33 milhões de torcedores no Brasil. Seu goleiro Bruno, de 1,91 metro, é ídolo e o capitão do time. Afastado pelo clube como suspeito do sumiço da namorada, Bruno “torce para que ela possa aparecer viva”. Todos nós torcemos para que Eliza não esteja morta. Que esteja sã e salva, especialmente pelo bem de Bruninho, de 4 meses, filho dela e talvez dele. Se Eliza tiver sumido para sempre, o que começou como romance clandestino pode ficar inscrito como mais uma violência inadmissível contra uma mulher, com base na certeza da impunidade.
Os risos de Bruno em treinos na semana passada me chocaram. Bruno está rindo de quê? Se o objetivo foi aparentar tranquilidade, a mim pareceu insensibilidade. Afinal, a ex-namorada saiu do Rio de Janeiro com o amigo pessoal de Bruno, o Macarrão, para ir a Minas Gerais ao encontro do goleiro rubro-negro. O bebê, até hoje não reconhecido por Bruno, foi entregue por Macarrão ao goleiro e a sua mulher oficial, Dayanne, no sítio mineiro. Ninguém registrou o sumiço de Eliza. O bebê ficou escondido, a mulher de Bruno mentiu para a polícia e tentou se livrar da criança, passando Bruninho para desconhecidos com a ajuda de amigos do marido. O caseiro afirmou que Bruno e Eliza estiveram juntos nos dias 8 e 9 de junho, desmentindo a versão do atleta de que o último encontro teria sido “há dois, três meses”.
É para rir?
Eu me pergunto qual deve ser a atitude do Flamengo, presidido por uma mulher, Patrícia Amorim. É bom para a imagem do clube permitir que Bruno use o campo de treinamento como palco para se defender? Mesmo acreditando na inocência dele?
O caso é obscuro, há muitas contradições. A reportagem que começa na página 82 mostra quem são os personagens e o que falta esclarecer. Não se pode culpar Bruno sem provas. Ele diz que a ex-namorada sumiu para resolver “questões pessoais” e está viva. Os fãs que o aplaudem no Maracanã estão na torcida.
Qualquer que seja o desfecho, algumas coisas ficam dolorosamente claras. É uma batalha quase perdida neste país confrontar o poder de quem tem dinheiro e prestígio – se quem protestar for uma anônima qualquer. O suspeito – ou réu – pode ser um senador, um diretor de jornal ou o goleiro do time mais popular do país, com salário mensal de R$ 300 mil e histórico de brigas e infrações por excesso de velocidade. Eles costumam estar acima do bem e do mal. Não são pessoas comuns.
Neste caso, um dos incidentes estarrecedores aconteceu no ano passado. Eliza, grávida de cinco meses, foi à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, no Rio, denunciar Bruno por agressão, ameaça de morte e tentativa de obrigá-la a abortar. Gravou um vídeo para o jornal carioca Extra: “Ele me deu dois bofetões... Enfiou uma arma na minha cabeça... E me disse: ‘Sou frio e calculista. Vou deixar a poeira baixar e vou atrás de você. Se eu te matar e te jogar em qualquer lugar, as pessoas nunca vão descobrir que fui eu’”. Eliza pode ter inventado tudo isso, não? Tudo não. Bofetões foram comprovados em exame de corpo de delito. E, segundo peritos, “substância abortiva” foi encontrada na urina da jovem.
O único Bruno sem dúvida inocente tem 4 meses. Sua mãe sumiu e ele é "filho de pai desconhecido"
Um laudo que normalmente sai em 72 horas demora mais de oito meses para ficar pronto? Eu queria saber de que adianta uma mulher ir a uma delegacia de proteção à mulher no Brasil.
O caso repercutiu na ONU. O Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) achou exagerado o número de “tramas cruéis” contra mulheres no Brasil. Além do sumiço de Eliza, citou o assassinato da advogada Mercia Nakashima, de 28 anos. Seu corpo foi encontrado no mês passado numa represa no interior de São Paulo e o principal suspeito é o ex-namorado. No Rio, na semana passada, uma psiquiatra concluiu que outro Bruno (Kligierman) estava “inteiramente capaz” quando estrangulou a estudante Bárbara Calazans, de 18 anos, no ano passado.
Não sabemos se o goleiro Bruno é inocente ou culpado. “Deixei nas mãos de Deus, Deus sabe o que faz”, disse ele. Nesse mistério, o único Bruno sem dúvida inocente tem 4 meses de idade. Sua certidão indica “pai desconhecido”. O jogador de futebol temente a Deus poderia concordar em fazer exame de paternidade. Não precisa esperar Eliza reaparecer.

GOSTOSA

LUIS FERNANDO VERISSIMO

Precisava o segundo tempo?
LUIS FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 04/07/10

Velho truque jornalístico. Para ganhar tempo, escrever duas crônicas antes do jogo: por que ganhamos e por que perdemos. Quando os dois times saíram para o intervalo na sexta-feira comecei a redigir mentalmente a minha por que ganhamos. Ia começar inventando um incidente nos bastidores, Robben chegando no vestiário holandês reclamando da marcação do Michel Bastos, que não o largava um minuto - e o Michel Bastos chegando atrás dele. Eu não tinha a menor dúvida de que venceríamos o jogo. Infelizmente, depois do intervalo houve o segundo tempo, que destruiu as pretensões do Brasil e a minha crônica. Uma das coisas que mudaram no segundo tempo foi que o Michel Bastos, constrangido por um cartão amarelo, teve que descolar do melhor jogador holandês para não ser expulso. Outra foi que não apareceu ninguém para ajudá-lo a conter o lado direito do ataque holandês, por onde os laranjas chegavam com mais perigo. Felipe Melo, a aposta do Dunga que menos deu certo, não só fez o gol de empate da Holanda como faltou constantemente ao trabalho, que era ajudar o Michel Bastos naquele lado. E ainda foi expulso e deixou seu time com dez. Quer dizer, nem o Felipe Melo nem nós precisávamos desse segundo tempo.
Um dos paradoxos do futebol moderno é que quanto mais o conjunto supera o indivíduo, mais ele depende da jogada individual. Com defesas compactas marcando em cima e rebatendo tudo cresce a importância do driblador, do cara que vai pra cima do adversário e abre defesas com seu atrevimento e brilho pessoal. Nesta seleção se esperava isso do Robinho, que jogou bem, fez gols e passes para gols, mas raras vezes foi o individuo diferente de que o conjunto precisava. Quase sempre suas tentativas de ser o Robinho conhecido, o que ia pra cima, falharam.
Contei. Só três dos 23 jogadores da nossa seleção jogam no Brasil, contra nove da seleção holandesa que jogam na Holanda. Era de se esperar que o Brasil levasse vantagem naquelas coisas que uma experiência internacional ensinaria, como manter a cabeça fria nas grandes decisões. Não foi o que se viu ontem. O Brasil não teve onde buscar nem a calma nem a sabedoria para mudar 
o resultado. Perdeu provincianamente.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Ficou sentado lá tentando entender o que tinha acontecido”
CHEFE DE GABINETE GILBERTO CARVALHO, SOBRE A REAÇÃO DE LULA AO FIASCO DO BRASIL

PP, QUE CONTROLA O DENATRAN, AGORA CRITICA LULA
A incompetência do diretor do Denatran, Alfredo Perez, de implantar a lei que criou o Sistema Nacional de Prevenção ao Roubo de Veículos e Cargas, gera prejuízos ao País e confusão entre aliados do governo. Em seminário sobre Transporte Rodoviário de Cargas, dia 9 de junho, o deputado Mário Negromonte (BA), um dos líderes do PP, partido que controla o Denatran, livrou a cara do protegido Perez e criticou Lula.

CONIVÊNCIA
Para alegria da indústria automobilística e dos que furtam 400 mil veículos no ano, o Denatran boicota a lei sancionada por Lula em 2006.

AMIGO PREFERENCIAL
O governo decidiu cobrar explicações do diretor Alfredo Perez também de suas relações com um Hissanobu Izu, figura influente no Denatran.

SABÃO EM PÓ 
Agora, além da lei que “não pega”, temos a ficha suja meio “encardidinha”. O candidato lava, está nova, e concorre. 

PENSANDO BEM... 
o Brasil perdeu no que é bom mesmo. No resto, continua perdendo: Educação, Saúde, IDH, Infraestrutura, Ética...

TEMPOS MODERNOS, GASTOS PÓS-MODERNOS
Os técnicos de nível médio do Banco Central, Controladoria-Geral da União, Tesouro e outros órgãos de fiscalização e controle, não desistiram da “modernização” das carreiras, equiparando-os aos analistas de nível superior em funções e salário, sem concurso público. O projeto do lei foi vetado pelo governo, mas os sindicalistas vão insistir com o próximo, em nome do “ganho qualitativo”. 

POVO ESQUISITO
Hoje, 4 de julho, é dia de americanos hastearem a bandeira na porta de casa, em todo o país. E o time deles nem chegou às quartas de final. 

COMPLICOU
A reeleição do senador Heráclito Fortes (DEM) se complicou no Piauí, após a candidatura do atual deputado federal Ciro Nogueira (PP).

NÃO TEM PRA NINGUÉM
Muita gente fala isso do goleiro Rogério Ceni, do São Paulo, mas matador mesmo é Bruno, do Flamengo.

TSE BAGUNÇOU TUDO 
Permanece o clima de incerteza nas campanhas regionais, após a decisão do Tribunal Superior Eleitoral de limitar o uso de imagem e som dos presidenciáveis. O prazo para as convenções já acabou, mas as atas ainda podem mudar e ser entregues até segunda-feira.

PALANQUE INSTÁVEL
Entre os presidenciáveis, o tucano José Serra foi o mais prejudicado pela decisão do TSE de limitar o uso de imagem e som dos candidatos nas campanhas regionais. Pode ficar sem palanque no DF, RJ
e SP.

PENA PESADA 
Caso o Tribunal Superior Eleitoral mantenha a posição em agosto, o descumprimento da decisão poderá gerar multas, perda de tempo de publicidade no rádio e na TV e até prisão para o candidato infrator.

ANO DE EUFORIA
Em ano de eleição, o governo é uma mãe: analistas do Judiciário terão a partir deste ano aumento de 56%, em parcelas. Em alguns casos, podem ganhar mais que auditores da Receita e procuradores
federais.

PROGRAMA LEGAL 
Com tudo pago, a Secretaria de Direitos Humanos despacha amanhã (4) um cineasta para o projeto “O cotidiano dos direitos humanos na Copa do Mundo”. Vai ver os DH da final, porque só volta dia 16. 

LONGE DISSO! 
Ainda magoado por ter sua candidatura a presidente detonada pelo PT, o deputado Ciro Gomes (PSB) não vai se envolver na campanha presidencial da petista Dilma Roussef. Decidiu coordenar no Ceará a campanha de reeleição do irmão, governador Cid Gomes.

MUNDO DIGITAL
Executivos discutem o fim da versão impressa do Jornal do Brasil, um dos mais importantes do País. Pioneiro na internet, o JB seria também o primeiro do País a contar apenas com versão online, e
turbinada.

NOME É DESTINO 
O Tribunal de Contas da União condenou o ex-prefeito de Santa Cruz de Cabrália (BA) Geraldo Scaramussa a devolver R$ 1,9 milhão à União, em quinze dias. Era grana para recuperação ambiental. 

PERGUNTA TRIBAL
É preparativo para o Quarup a escolha de um Índio para vice de Serra? 

PODER SEM PUDOR
RITMO BRIZOLISTA 
Leonel Brizola impôs um ritmo alucinante no Palácio Piratini, ao governar o Rio Grande do Sul no vigor dos seus trinta e poucos anos. Dizia-se que o fogo da lareira do seu gabinete jamais se apagava. Brizola trabalhava frequentemente até as 3h da madrugada, lembra o jornalista Antônio Goulart, e, ao despedir-se dos auxiliares, recomendava sempre:
– Logo mais, todos aqui. Mas não precisam vir cedo. Às 7 e meia está bem...
E ai de quem não fosse pontual.