sexta-feira, junho 04, 2010

JOÃO MELLÃO NETO

Pra frente, Brasil!
João Mellão Neto 
O Estado de S.Paulo - 04/06/10

Minha juventude transcorreu nos anos 70, durante a dita "ditadura militar". Curiosamente, muita coisa na época era, de modo preocupante, semelhante ao que se vê hoje.

Estaríamos vivendo, agora, numa nova era autoritária? Creio que sim. E em plena vigência da democracia.

Vale ressaltar que a grande maioria dos regimes autoritários ? para poderem durar ? tem de ser, forçosamente, "popular". O povo tem de ter simpatia pelo governo. E naquele tempo era isso o que ocorria.

Os "apelos nacionalistas" ? ou "nacionalisteiros" ? eram, em muito, parecidos com os que vemos hoje. E o "autoritarismo" implícito neles era o mesmo. O governo da época chegou a divulgar o slogan "Brasil, ame-o ou deixe-o". E o povo, com uma autoconfiança exacerbada, tratava de propagá-lo ao mundo. A mensagem era mais ou menos a seguinte: nós, por aqui, estamos satisfeitos, que não nos apareça nenhum derrotista com o intuito de nos estragar a festa!

Não existe mesmo nada de novo sob o céu. Tudo acaba se repetindo. Não foram os ditos governos militares que inventaram, no Brasil, o apelo fácil do nacionalismo triunfalista. Getúlio Vargas, no período de sua ditadura, usou e abusou dessa fórmula. A ideia-força é, mais ou menos, a seguinte: tudo vai indo bem no Brasil. Isso vale tanto para a economia como para a sociedade e, também, para a nossa imagem, no exterior.

Nos tempos da ditadura varguista dizia-se que o Brasil despertava inveja nas grandes nações porque aqui havia paz social. Enquanto aquelas enfrentavam uma guerra mundial, nós, por aqui, vivíamos em rara harmonia. Para que mudar? O nosso chefe estava "firme no timão" (expressão da época) e sabia como nos conduzir. O resto do mundo não podia dizer o mesmo. Até os Estados Unidos acabaram por ser levados a se envolver no conflito. O nosso país, não! Só entrou na guerra no final e, mesmo assim, sem grande entusiasmo.

O Brasil, segundo afirmava o governo de então, era uma ilha de paz e prosperidade cercada por nações que estavam constantemente sendo visitadas pelos quatro cavaleiros do Apocalipse: Fome, Guerra, Peste e Morte.

Nos tempos da ditadura militar os apelos não eram muito diferentes. Não havia uma guerra generalizada afligindo os povos, mas as evocações ao nosso patriotismo e à propalada soberania nacional eram constantes e de grande intensidade.

Soberania nacional, aliás, era um conceito que, como atualmente, valia para tudo. Tanto para justificar a necessidade de um "Estado forte" e onipresente (nos tempos de Vargas também era assim...) como para explicar as atitudes firmes e enérgicas dos nossos governantes. E também para decifrar, para o povo, a suposta independência de nossa política externa.

Nesse campo, cabe lembrar que tanto a ditadura de Vargas se proclamava livre como também os governos militares se diziam imunes às tendências políticas de então. Chegamos até a romper o acordo de auxílio militar que tínhamos com os Estados Unidos. E agora estamos praticando uma política diplomática que afirma ser independente.

Vale recordar, a propósito, que durante o "regime militar" o Brasil proclamou que o nosso mar territorial se estenderia por nada menos que 200 milhas marítimas. Até então, como nos demais países do mundo, os nossos limites no oceano eram de 12 milhas.

Para simbolizar a nossa afirmação de soberania nacional foi erguido, na época, um gigantesco mastro no centro da Praça dos Três Poderes, em Brasília. Permanece lá até hoje. E o gritante contraste entre ele e as obras arquitetônicas originais que o circundam é evidente. De tempos em tempos, cada um dos Estados da Federação arca com os custos de providenciar uma nova Bandeira Nacional para nele ser hasteada.

Mas, passadas quase quatro décadas, ninguém mais ousa discutir a importância daquele "monumento". Sua arquitetura, dizia-se então, é de gosto duvidoso. E quem ainda se recorda sabe que ele está lá como estandarte das "nossas 200 milhas marítimas".

Um dos principais argumentos de nossos atuais governantes se refere ao fato de que "nunca antes" a nossa economia se mostrou tão pujante e cresceu tanto. Errado. Mesmo na gestão de José Sarney como presidente da República foram registrados crescimentos anuais do produto interno bruto (PIB) superiores a 6%. Nos governos do "regime militar", então, já é covardia. De 1968 a 1973, o crescimento anual do PIB brasileiro superou até as atuais taxas chinesas: mais de 10%.

A ideia de que o Brasil se está destacando como "potência emergente" no mundo, infelizmente, também não é nova. Os governos do período militar eram muito ciosos desse conceito. Prestei, em meados da década de 70, um vestibular cujo tema de redação era: "Os desafios do Brasil potência." Nenhuma novidade, portanto...

É muito arriscado afirmar que estamos no limiar de uma ditadura. Mas dá para fazer a assertiva de que estamos entrando numa era autoritária. Os prenúncios são claros. Só não enxerga quem não quiser.

Uma das candidaturas à Presidência da República nas próximas eleições se regozija em reiterar que a sua titular "pegou em armas" e lutou bravamente contra a ditadura militar. Por acaso isso quer dizer que a ideia predominante, então, era a de "restaurar o regime democrático"?

Antes fosse. O que se desejava à época, na verdade, era descartar a ditadura militar e substituí-la por outra, a "ditadura do proletariado".

O Brasil está próximo de entrar, como muitos dos nossos vizinhos, num regime "populista". E, cabe reafirmar, todos os "populismos" são autoritários.

E tudo em nome do povo...

GOSTOSA

MERVAL PEREIRA

Antirrepublicano
Merval Pereira
O GLOBO - 04/03/10

A campanha mal começou, e já há um clima de tensão no ar, com troca de acusações e ameaças de dossiês sendo brandidas. Além de revelar um hábito político recorrente nas campanhas, o que revela também um espírito autoritário, o ressurgimento desse submundo da política é o efeito colateral do clima de vale-tudo que a postura do presidente da República suscita.

Lula se coloca à frente de seu pelotão dando a orientação da estratégia desde o início do processo, que ele antecipou em anos para poder viabilizar uma candidata literalmente inventada por ele, que vem sendo reconstruída pelo caminho com bons resultados, digase de passagem.

Ora, se o comandante declara que a prioridade de seu governo é eleger a sucessora, sem o que não considerará sua tarefa bem cumprida, e para alcançar esse objetivo não se incomoda de infringir a lei, não há limites para a atuação dos subalternos.

O empenho em fazer a sucessão parece excessivo, e o ministro do Supremo Ayres Britto, em voto favorável à punição de Lula por propaganda antecipada, classificou de “antirrepublicano” um projeto de poder que inclui eleger o sucessor: “Quem se empenha em fazer o seu sucessor, de ordinário, pensa em se tornar ele mesmo o sucessor de seu sucessor”.

Uma coisa é considerar obsoleta, ou até mesmo hipócrita, a legislação eleitoral, outra muito diferente é desrespeitá-la.

Outra mais diferente ainda é abusar do poder político para influir no resultado da eleição a favor de sua candidata.

É ridículo ser obrigado a fingir que os candidatos não são candidatos, chamálos de pré-candidatos, até que se realizem as convenções partidárias que vão oficializar o que já está decidido.

O mais lógico seria que a desincompatibilização dos cargos públicos se desse no final de junho, depois das convenções partidárias, ou que elas se realizassem no início do ano, logo depois da data fatal para que os candidatos deixassem seus cargos públicos.

Assim como o normal seria permitir que os partidos políticos usassem seu horário gratuito da maneira que fosse mais interessante para os interesses partidários.

Se um partido está apoiando um candidato, nada mais importante que anuncie a seus eleitores a escolha, e utilize o programa gratuito para defender a decisão.

Como todos têm o mesmo tempo nesses programas e inserções fora da campanha eleitoral, não haverá desequilíbrio.

Ou melhor, o desequilíbrio fica por conta do excesso de generosidade da legislação, que permite a partidos literalmente inexistentes exibir suas inexistentes plataformas eleitorais, dando-lhes um poder que não merecem.

Na chamada propaganda eleitoral gratuita, que só é gratuita para os partidos políticos, o tempo proporcional de cada legenda, equivalente à bancada na Câmara, dá poderes de barganha a siglas que não têm relevância política, transformandoas em objeto de desejo dos partidos que realmente contam.

Nossa política partidária fica assim dependente de chantagens e negociações por baixo dos panos, sem que se leve em conta minimamente afinidades programáticas.

Seria preciso disciplinar o acesso ao horário gratuito durante a campanha eleitoral, para reduzir o número de usuários e evitar que partidos-fantasmas surjam nas eleições para literalmente vender seu espaço.

E impedir que o programa gratuito, que nasceu com o objetivo de equilibrar a disputa eleitoral, se transforme em fator de desequilíbrio pelo enorme gasto que exige, com a presença de marqueteiros e seus efeitos especiais cada vez mais intensos.

O ideal seria que a legislação reduzisse o tempo dos programas e limitasse a utilização dos recursos de tecnologia, para estimular o debate de ideias entre os candidatos.

O que a legislação não pode deixar de coibir é o abuso do poder político ou econômico, especialmente por parte dos políticos que buscam a reeleição no exercício dos mandatos, mas também dos prefeitos, governadores e presidente da República que, impedidos de se recandidatarem, procuram eleger seus sucessores.

Usar inaugurações para alavancar o prestígio de seu candidato, com discursos onde fica implícita a ameaça de descontinuidade administrativa se seu candidato não for eleito, é fazer chantagem com o eleitor.

No caso do presidente da República então, o problema é maior, já que se espera dele o exemplo de cumprimento da lei.

É claro que a opinião de um presidente popular e bem avaliado pelos cidadãos terá efeito na hora da decisão do eleitor, e, se a maioria escolhe aquele candidato que o presidente popular está apontando como o melhor, é porque quer a continuidade de seu governo, ou pelo menos acredita que esse será o melhor caminho para a continuidade.

Um presidente mal visto pelos cidadãos terá uma influência negativa se quiser apoiar um candidato, e geralmente nesse caso fica a uma distância prudente da disputa para não contaminar negativamente seu preferido.

Isso não quer dizer, no entanto, que as leis em vigor possam ser desrespeitadas, na presunção de que um presidente popular tem a procuração automática dos cidadãos para fazer o que bem entender.

Ou que as pesquisas de opinião que lhe dão 70% ou 80% de boas avaliações lhe dão também a condição de estar acima do bem e do mal.

O dom da infalibilidade não está certamente entre os atributos que a popularidade dá a um presidente, e é preciso que os poderes democráticos estejam em funcionamento para conter qualquer surto de onipotência que porventura ocorra.

ANCELMO GÓIS

Copa estatal 
Ancelmo Góis 

O Globo - 04/06/2010

O que se diz nas arquibancadas é que o pessoal que toca o projeto de reforma do Morumbi, orçado em R$ 630 milhões, vai tentar pendurar uns R$ 300 milhões na conta do governo.
Segue...
Ao contrário do que previa Ricardo Teixeira, a Copa de 14 está sendo feita com muito dinheiro público.

Pelo visto, até mesmo num estado como São Paulo, que é rico de marré deci.
Paz na Copa
Quem reparou foi Marceu Vieira, nosso catador de notinhas em Johannesburgo. A relação entre as duas Coreias é, como se sabe, azeda.

Mas o time da Coreia do Norte, nosso primeiro adversário, usa, como as outras seleções, ônibus da Hyundai escoltados por seguranças em carros Kia, duas marcas da Coreia do Sul.
Economia da Copa
Johannesburgo, como já se disse, dorme muito cedo. Depois de 20h, não se vê quase ninguém nas ruas. As lojas dos shoppings fecham às 18h. Mas...

Por causa da Copa, as lojas, gulosas dos dólares dos turistas, passaram a fechar às 21h30m.
Fumaça branca
Outro dia Marcelo Crivella defendia no Senado, em alguns casos, o voto secreto “usado até em eleição de Papa”.

Foi aí que o senador Demóstenes Torres ironizou: — Vossa Excelência recomenda eleição para Papa? Crivella é da família que controla a Igreja Universal.
Gigante nervosa
Veja por que a Telefónica insiste, com uma nova oferta de 6,5 bi de euros, em comprar os 50% da Vivo da Portugal Telecom e assim ficar com 100% da empresa de celular.

Em um ano, a espanhola caiu do primeiro para o terceiro lugar no tráfego de longa distância (LDN) no Brasil.
É que...
A Telefónica, que é líder no mercado de telefonia fixa paulista, sabe que precisa cada vez mais oferecer aos seus clientes um pacote de serviços, que inclua fixo, celular e internet, e não um produto isolado.

Facilitaria as coisas se a Vivo fosse só sua.
Já...
O pessoal da Portugal Telecom, que também sabe fazer contas, endurece o jogo.
Hotel Ouro Verde
Quem deve fechar as portas semana que vem é o tradicional Hotel Ouro Verde, cujo restaurante no passado servia um picadinho que fazia a alegria de fregueses como Mario Henrique Simonsen.

O prédio foi alugado, com a ajuda da Sergio Castro Imóveis, para o grupo Atlântico (dono de um hotel de luxo em Búzios), que pretende fincar no futuro sua bandeira em Copacabana.
Estrela da Lapa
Um dos templos da boa música carioca, o Estrela da Lapa, vai fechar as portas no final de julho.

Até lá haverá shows com artistas que ajudaram a fazer a história da casa, como Edu Krieger, Nelson Sargento e outros.
Livre, mas nem tanto
Pelo Banco Mundial, a Prefeitura do Rio receberia o empréstimo de US$ 1,2 bilhão livre para gastar.

Mas não é fácil. Há quem ache que o Rio não pode fazer esta operação financeira porque estaria descumprindo a lei que obriga a Prefeitura a desembolsar 25% dos impostos em educação.
Só que...
Eduardo Paes, desde o começo desta negociação, pensa em usar a grana para pagar 20% da dívida com o governo federal, desafogando o caixa da cidade para investimentos.
Nem um tostão
Dudu Nobre fez um show no Canecão dia 6 de novembro.

Reclama que até agora não recebeu o seu cachê.

MÍRIAM LEITÃO

E nós com isso? 
Miriam Leitão 
O Globo - 04/06/2010

O Brasil está numa situação bem diferente da Europa, mas foi só eles entrarem em crise que o Ibovespa teve em maio queda de 6,6%, pior taxa desde outubro de 2008; R$ 1,5 bilhão de capital externo deixou a bolsa; o Investimento Estrangeiro Direto ficou abaixo do esperado. O real perdeu 4,7%; o custo para rolagem de nossa dívida subiu 135 pontos; empresas adiaram projetos de aberturas de capital.

O impacto da crise europeia sobre o Brasil é diferente do impacto da quebra do Lehman Brothers. Porque em 2008 o que se temia era o colapso do sistema financeiro internacional e tudo foi agravado porque no Brasil algumas grandes empresas estavam expostas a risco cambial.

Não se espera aquele nível de tensão, mas evidentemente haverá reflexos.

A crise da Europa não tem solução à vista. O Banco Central Europeu estima que o sistema bancário da região terá que contabilizar prejuízos de US$ 240 bilhões em crédito podre até 2011. O desemprego na Zona do Euro passou de 10% em abril e o custo para a rolagem da dívida da Espanha atingiu o maior patamar histórico esta semana. A exemplo do que aconteceu na América Latina nos anos 80, a Europa tem pela frente alguns anos de baixo crescimento.

Os europeus representam mais de um quinto do PIB mundial. Têm um PIB maior que o americano e quase duas vezes o da China. Cerca de 20% de nossas exportações têm como destino os europeus. Em 2008, foram US$ 46 bilhões exportados; em 2009, US$ 34 bi; e nos quatro primeiros meses do ano, US$ 12 bilhões. O crescimento menor resultará numa queda das importações europeias, e numa queda dos investimentos europeus em todo o mundo, inclusive aqui.

A crise já afetou o índice de preços das commodities, o que poderá reduzir o valor das exportações brasileiras.

Depois de se recuperar 83% em 2009, o Ibovespa vem patinando este ano, com queda de 8%, fazendo com que o índice voltasse a rodar na casa dos 50 mil pontos na semana passada. Um efeito da volatilidade do índice é que a capitalização da Petrobras, que já estava emperrada no Congresso, agora enfrenta o mau humor e a insegurança de investidores internacionais. No ano, a queda das ações da empresa chega a quase 20%. Até mesmo a Vale, com todos os reajustes no preço do minério de ferro, tem uma valorização modesta: 2,5% em 2010.

— O PIB da Europa é o maior do planeta. Então se ela crescer menos, o mundo também pode crescer menos. Isso terá reflexos nas commodities.

O impacto no Brasil pode ser atenuado porque vendemos muito alimento para os europeus e esses preços são mais resistentes a crises — explicou o economista Joseph Tutundjain.

Mesmo sendo alimento, a União Brasileira de Avicultura registrou queda de 15% no volume de frango exportado para a Europa no primeiro quadrimestre. No ano, esperase queda de 10%, segundo o presidente da entidade, Francisco Turra. O impacto só não aparece no faturamento, que cresceu 1,9%, por efeitos de câmbio e preço.

— A Europa é muito importante para nós e estamos tendo que ir atrás de outros mercados, como o africano e o asiático, para compensar a queda no volume. Em janeiro, estivemos por lá e já sabíamos que seria um ano difícil de exportar para a Europa. Há menos linhas de crédito, os bancos estão reticentes, o consumo em queda e há dificuldade de importação por parte deles — disse Turra.

Com um déficit em transações correntes projetado para US$ 50 bilhões este ano e US$ 60 bilhões no ano que vem, a redução do Investimento Estrangeiro Direto (IED) preocupa porque é ele que vai cobrir o rombo. A projeção do Banco Central é de que o IED fique em US$ 45 bilhões este ano, mas de janeiro a abril o resultado ficou abaixo das expectativas: US$ 7,8 bilhões, volume menor do que o registrado no mesmo período do ano passado, US$ 8,7 bilhões, quando o mundo estava em recessão.

Pelas estimativas do Itaú Unibanco, em 2009, 50% do IED teve origem europeia. As empresas da Europa no Brasil estão reduzindo investimento, congelando projetos de contratação e aumentando remessas de lucros e dividendos.

Isso afeta o Brasil de diversas maneiras.

Ao mesmo tempo em que precisaremos de mais poupança externa, a Europa estará mergulhada no enfrentamento de seus problemas fiscais. O economista Antônio Corrêa Lacerda, da PUC-SP, acredita que o déficit em conta corrente poderá ser coberto por investimentos em renda fixa. Mas isso ainda não se vê na Bovespa e também significa piora na qualidade do financiamento. Enquanto o investimento direto tem compromissos de longo prazo, o investimento de renda fixa é volátil, com os investidores pensando em embolsar lucros no curto prazo: — A Europa é grande investidor no Brasil e devemos ter redução no fluxo de ingresso de capitais. A projeção para este ano pode ser reduzida para algo em torno de US$ 25 bilhões. A vantagem atual é que temos US$ 240 bilhões de reservas internacionais e o BC tem munição para combater uma desvalorização mais forte do real.

Essa crise nos afetará de forma bem diferente, mas não estamos imunes aos seus efeitos.

A repercussão da coluna “Barrados na porta” foi grande.

A Atlas Schindler explica que a empresa não possui vagas em aberto e tem parceria com o Senai para suprir vagas de nível técnico.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Ele sofre de ‘pesquisite aguda’'
JOSÉ EDUARDO DUTRA, PRESIDENTE DO PT, SOBRE O CANDIDATO TUCANO A PRESIDENTE, JOSÉ SERRA

NA FARRA DO SENADO HÁ TAMBÉM OS “ABSTÊMIOS”
Em meio à farra generalizada com os recursos públicos no Senado, uma boa surpresa: em 2010, desde janeiro, um pequeno grupo de senadores nem sequer tocou nos R$ 15 mil mensais a que cada um tem direito, por mês, a título de “verba indenizatória”. Pouparam o bolso do contribuinte Marco Maciel (DEM-PE), Pedro Simon (PMDB-RS), Álvaro Dias (PSDB-PR), Leomar Quintanilha (PMDB-TO) e Romeu Tuma (PTB-SP).

ECONOMIZADORES 
Outros senadores gastaram pouco, com verba indenizatória, em maio: Kátia Abreu, R$ 35, João Tenório, R$ 43, e Mozarildo Cavalcanti, R$ 374.

EM COMPENSAÇÃO...
O senador João Ribeiro (DEM-TO) torrou em março o dobro da verba indenizatória mensal: R$ 31 mil. Em maio foram mais de R$ 27 mil.

ENFORCA 
A Justiça Federal e o Ministério Público Federal em São Paulo não trabalham nesta sexta. Assim como o ministro Nelson Jobim (Defesa).

DUAS VEZES ZERO
Lula decidiu economizar uns milhares de trocados: a embaixada em Male, nas Maldivas, vai funcionar com a de Colombo, no Sri Lanka.

COMEÇA PROVA DE “GRAMPOS” EM PRESÍDIO FEDERAL 
Pode sobrar para diretores, juízes federais e procuradores de Mato Grosso do Sul a apuração do Tribunal Regional Federal da 3ª Região de supostas gravações clandestinas de visitas íntimas no presídio federal de Campo Grande. A denúncia da ONG Brasil Verdade, divulgada nesta coluna em abril, foi encampada pela Ordem dos Advogados do Brasil. Os depoimentos devem terminar esta semana. A direção do presídio nega. 

ZORRA TOTAL
A denúncia de agentes penitenciários, em 2008, envolvia entrada de drogas, venda de DVDs piratas e roubo de água mineral. 

CADEIA PORNÔ 
A OAB e o Conselho Nacional do Ministério Público acharam câmeras e microfones. Até a lua de mel de Fernandinho Beira-Mar estaria nas fitas. 

PERDEU, PAGOU
A Infraero pagou 107 advogados na defesa de ex-diretores contra uma multa de R$15 mil do Tribunal de Contas da União. Entramos pelo cano.

GRAMPOLÂNDIA EM DEBATE
É mesmo oportuno o seminário “Garantias Penais”, promovido pela OAB-DF, que começa dia 7. O ministro Nilson Naves, do STJ, fará exposição sobre “Interceptações Telefônicas”, esporte preferido em Brasília, e o jurista alagoano Nabor Bulhões sobre “Provas ilícitas”. Tudo a ver.

DUNGA, O POLÍTICO 
Esse Dunga ainda vai acabar candidato a alguma coisa. Após cumprimentar friamente o presidente Lula, em visita ao Alvorada,em Brasília, negou-se a 
visitar o ditador do Zimbawe, Robert Mugabe.

FOGO MUI AMIGO
O ministro Nelson Jobim (Defesa) diz que o Ipea mente, quando afirma que os aeroportos estão defasados. O Ipea é ligado ao Ministério do Planejamento e houve um tempo em que era reconhecido pela seriedade.

HOMOLOGAÇÃO
A convenção nacional do PRTB, que vai homologar a candidatura de Levy Fidelix à Presidência da República, será na quinta-feira (10), antes do tucano José 
Serra (12) e da petista Dilma Rousseff (13) .

NAVEGANDO 
A ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, e o ministro da Justiça, Paulo Barreto, vão ganhar a Ordem do Mérito Naval. O prefeito paulistano Gilberto Kassab também. Talvez porque entenda de enchentes.

SEM PAPO
O ministro João Santana (Integração) não recebeu os diretores dos consórcios que queriam discutir “graves problemas no orçamento” da transposição do Velho Chico em Pernambuco e na Paraíba. 

DE FESTA 
A “Copa” começa dia 15 para Eletrobras, Andrade Gutierrez, OAS, Engevix, Odebrecht e a peruana Gtz, quando será firmado em Manaus (AM) o acordo para contruir cinco hidrelétricas na Amazônia peruana, por R$ 25 bilhões, grana proporcionada integralmente pelo nosso BNDES.

VERSALHES
O Senado gasta R$ 2 milhões por mês com 190 copeiros, 14 copeiros especiais e 436 contínuos, entre outros serviçais. Os concursados devem ter subido na vida: passaram a quebrar pratos em restaurantes gregos. 

MEIA DE LÁ 
Lula ameaça ir à final da Copa do Mundo se o Brasil chegar lá. O rival torcerá pela visita. 

PODER SEM PUDOR
ÓTIMO REGIME
Poucos dias após a posse do marechal Castelo Branco, o deputado mineiro José Maria de Alkimin desembarcou em Brasília. No saguão do aeroporto, ele notou que um repórter se aproximava e apertou o passo, tentando chegar a um táxi. Mas foi alcançado pelo jornalista:
– Deputado, o que o senhor está achando do novo regime?
– Ótimo – respondeu Alkimin, levando a mão à barriga – Já perdi dois quilos.
Entrou no táxi e foi embora, deixando o repórter boquiaberto.

RATOS

SEXTA NOS JORNAIS

- Globo: Governo privilegia aliados na liberação de emendas

- Folha: PT interpela Serra na Justiça

- Estadão: Governo estuda zerar taxa para importar aço

- JB: Israel: recuo estratégico

- Correio: Condomínios voltam a ser regularizados

- Valor: BNDES chancela a política industrial com mais crédito

- Estado de Minas: Filhos têm de bancar plano de saúde dos pais

- Jornal do Commercio: Mais nove mortes nas estradas do Sertão

quinta-feira, junho 03, 2010

AUGUSTO NUNES

O gerente da fábrica de mentiras

AUGUSTO NUNES
VEJA - ON-LINE - 03/06/10

O presidente Lula aproveitou a visita à fábrica da Volkswagen no ABC paulista para ampliar a fábrica de mentiras montada em sociedade com o amigo Mahmoud Ahmadinejad. “Todo mundo falava mal do Irã, mas ninguém tinha sentado no tête-à-tête”, reincidiu o campeão da gabolice. “Aquilo que os americanos não estavam conseguindo em 31 anos de negociações com o Irã o Brasil conseguiu em 18 horas de conversa”.
O Brasil não conseguiu coisa nenhuma. O presidente só conseguiu o de sempre: o papel de otário megalomitômano no espetáculo do cinismo. Lula nem imagina o que é fundamentalismo xiita, nunca ouviu falar do aiatolá Khomeini e talvez ignore que o regime instituído em 1979 fez a opção preferencial pelas cavernas em 1979. Mas sabe que o Irã não quer conversa com interlocutores sérios. Ele baixou em Teerã não como negociador, mas como cúmplice.
A discurseira na Volkswagen reafirma uma constatação e conduz a uma descoberta. Lula constatou que a política externa influencia, sim, o comportamento do eleitorado. E o Brasil que pensa descobriu que o presidente se faz de ingênuo por vigarice. Capricha na pose de mediador esforçado, iludido em sua boa fé pelos americanos, para apresentar Ahmadinejad como o bom moço enganado por vilões e, simultaneamente, apresentar-se como vítima da inveja de Barack Obama. De volta aos palanques, tenta agora transformar em vitória um fiasco e convencer plateias grávidas de credulidade de que só não foi promovido a pacificador do planeta por culpa de Hillary Clinton.
“Quanto mais mentiras nossos adversários disserem sobre nós, mais verdades diremos sobre eles”, prometeu José Serra no primeiro discurso como candidato à presidência. É hora de riscar esse restritivo “sobre nós” e rechaçar sem reverências nem eufemismos qualquer tipo de mentira. No caso do Irã, por exemplo, Lula finge lidar com uma democracia como tantas, injustamente impedida pelo imperialismo ianque de recorrer à energia nuclear para melhorar a vida dos cidadãos.
É preciso destruir sem demora a fábrica de mentiras. Cumpre à oposição mostrar aos brasileiros o que o regime iraniano efetivamente é: uma ditadura singularmente brutal, que estupra os direitos humanos, frauda eleições, odeia a liberdade de expressão, prende, tortura e mata quem não capitula, sonha com a eliminação física de todos os inimigos, envergonha o mundo civilizado e afronta todo o tempo a consciência universal.
Regimes assim não negociam. Tramam. Não têm interlocutores. Têm comparsas.

JOSÉ SIMÃO



Uau! Maradona com bolas de fora!
JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/06/10

Maradona en bolas: se o Dunga deixou o Pato e o Ganso de fora, por que eu não posso deixar o pinto?


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
Frase do dia da Cópula do Mundo: os argentinos podem fazer sexo na concentração, só não podem levar mulheres! Rarará!
E esse amistoso com o Zimbábue? E por que o Galvão não tá narrando? A ONU impediu. Diz que o povo do Zimbábue já sofre demais. Eu tenho certeza de que o regente que tocou o Hino Nacional no Zimbábue foi a Vanusa! E o Hino Nacional é tão comprido que o Robinho ficou contando piada pro Kaká no meio!
E jogar com o Zimbábue tem dois problemas. Ganhar é covardia. E perder é humilhação! E os jogadores do Zimbábue não são fãs dos brasileiros. São fanáticos. Acho que correm em campo pra pedir autógrafo!
E o Maradona prometendo ficar pelado? Pelado, não. Em espanhol se diz en bolas. Se o Dunga deixou o Pato e o Ganso de fora, por que não posso deixar o pinto?
E já disse que prefiro o Maradona pelado do que o Dunga sorrindo! E, se a Coreia do Norte ganhar a Copa, a Hillary se mata. Sanciona África, Oriente Médio, China, Cochinchina e Abissínia! E esses amistosos que o Brasil escolheu? Tanzânia e Zimbábue. Foi por ordem alfabética?!
E hoje começa Feriadão de Corpus Christi. Ops, CORPUS ALEGRES! Metade vai pra praia e metade vai pra Parada Gay! Ops, Disparada Gay. Porque gay não consegue ficar parado nem pra tirar foto 3 x 4!
E as seleções dos leitores? Continuam chegando sugestões de seleções melhores que a do Dunga. Ou seja, qualquer uma. Fala pra levar o Perebas Futebol Clube de BH: Briôco, Alan Bique, Fez na Calça, Pastel de Vento, Filho do Padre, Cabeção, ET sem Antena, Ceguinho Caolho, Fimose e Torresmo Cabeludo!
Ou então leva aquele craque do Gameleira Esporte Clube: Bosta de Urso. Ou então o goleiro do Time do Lixão: Mão de Maionese! Ou então o time do Veludo Cotelê, aquele inferninho de Osasco: Suely Legging Lee, Marina Peitos, Sheila Popozuda, Grayce Chupeta, Bia Sandalinha e Natasha Sádica! Hexa Garantido! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Acossado": companheiro com pulga na cueca. Rarará.
O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

GOSTOSA

EDITORIAL - O GLOBO

Pesquisa mostra danos das cotas raciais
EDITORIAL
O GLOBO - 03/06/10
Quanto mais se usam dados objetivos e referências históricas em debates contaminados por emoção, partidarismo, política e ideologia, menor o risco de se cometer graves equívocos na hora de tomar decisões. No caso da proposta de instituição de cotas raciais visando à criação de uma reserva de vagas para negros no ensino superior, este cuidado é imprescindível, pois estão em jogo questõeschave: da qualificação de profissionais, imprescindível para o país poder competir no mundo globalizado, à preservação de características saudáveis na formação de uma sociedade miscigenada, como a brasileira, sem as tensões raciais verificadas, por exemplo, nos Estados Unidos.

Esta proposta, importada ainda na Era FH dentro das chamadas ações afirmativas, ganhou mais força na gestão Lula, porque, nela, a militância racialista aumentou a presença no Executivo em Brasília. Com articulações no Congresso, o lobby conseguiu fazer tramitar entre deputados e senadores uma lei específica de criação dessas cotas e um projeto de estatuto, o qual estende a reserva de mercado em função da cor da pele à publicidade, à concessão de emprego no setor público, entre outras aberrações.

Na discussão que se trava de maneira mais acesa desde o início do atual governo, já existe um rico acervo de argumentos fundamentados contra as cotas raciais, mecanismo, inclusive, já revisto pela Justiça dos Estados Unidos, onde elas surgiram e se firmaram.

Pesquisa feita pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), primeiro estabelecimento de ensino superior do país a aderir ao sistema de cotas raciais, contribui para este acervo. Realizado a partir dos dados do vestibular feito pela universidade em 2009, o levantamento comprova uma das mais cortantes críticas às cotas: criadas para supostamente corrigir injustiças, as cotas impedem a entrada no ensino superior de pessoas mais bem preparadas. É a confirmação do perigoso abandono do princípio do mérito.

Das 2.396 vagas abertas naquele vestibular para cotistas, apenas 1.384 foram preenchidas, pois os candidatos não conseguiram obter a nota mínima: 2.

Mesmo que a relação entre candidatos cotistas e vagas fosse quase um para um, enquanto entre os não cotistas 11 disputaram cada vaga. Entenda-se: se não são exigidas maiores qualificações aos cotistas, muitos merecedores de entrar na universidade ficaram de fora. Ainda com base na mesma pesquisa, a Uerj tenta justificar as cotas afirmando que o índice de reprovação é maior entre os não cotistas. A constatação, no entanto, tem importância relativa, pois o dano maior, o de impedir o desenvolvimento de talentos apenas porque eles não são negros, já foi causado no vestibular.

Também não surpreende que, em várias disciplinas, cotistas tenham notas inferiores às dos demais estudantes. Até o reitor da Uerj, Ricardo Vieiralves de Castro, em entrevista ao “Jornal Nacional”, admitiu que ficam de fora estudantes mais bem preparados. Mas ele continua a defender as cotas, mesmo que haja tantas evidências de que, ao reduzir a importância do princípio do mérito em nome da “raça”, o Brasil não terá profissionais qualificados como a realidade requer e, como inadmissível subproduto, já começa a inocular o racismo no convívio cotidiano da juventude.

Que esta pesquisa ajude o Congresso e o STF, onde o tema tramita, a refletir.

Pesquisa da Uerj comprova a diminuição de importância do mérito escolar

EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO

Sindicalismo de Estado
EDITORIAL
O Estado de S.Paulo 03/06/10

No que foi, para todos os efeitos, o maior comício até aqui da campanha que oficialmente ainda não começou para fazer da ex-ministra Dilma Rousseff a sucessora do presidente Lula, 5 das 6 centrais sindicais reconhecidas pelo Ministério do Trabalho reuniram terça-feira, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, perto de 15 mil pessoas, metade do esperado, por sinal. O pretexto para o evento - a assembleia da Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat) - era aprovar uma agenda de 290 propostas a ser entregue aos presidenciáveis.

Na realidade, foi uma escancarada mobilização eleitoral pela "continuidade" do governo lulista, para "impedir o retrocesso". Os nomes Dilma Rousseff e José Serra não foram pronunciados, nem seria preciso, embora um espectador menos avisado, e havia muitos entre os homens e mulheres trazidos pelas centrais com as despesas pagas e mais algum, pudesse achar que estava sendo convocado a votar em Lula. O disfarce era roto. "Para não ser tachado de fazer campanha", entoou o presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva, do PDT paulista, "quero cantar o Hino à Bandeira."

Na véspera, o notório Paulinho da Força tinha sido mais autêntico. Fez pouco da
 Justiça Eleitoral ao dizer que não adiantaria processá-lo (pela quinta vez), pois "continuaria a falar". E investiu contra "esse sujeito", José Serra, que irá "tirar os direitos dos trabalhadores", caso se eleja. De uma forma ou de outra, os dirigentes da Força, da CUT e outras centrais alinhadas com os interesses do governo que as acolheu no seu bojo montaram uma linha de produção em série de ilícitos. Proibidas de fazê-lo, engajam-se ostensivamente em campanhas eleitorais, desrespeitando, além disso, as restrições legais que se aplicam ao chamado período de pré-campanha.

E tudo com dinheiro do imposto sindical instituído pelo Estado Novo de Getúlio Vargas ? o dia de salário que os trabalhadores, sindicalizados ou não, têm descontado uma vez por ano. A bolada vai para os sindicatos únicos (no Brasil, como se sabe, apenas uma entidade pode representar determinada categoria profissional em determinada base territorial) e daí para as centrais. Graças a esse arranjo perverso, as oligarquias sindicais têm meios de sobra para fazer política ? corajosamente a favor, como se diz, do governo com o qual vivem em mancebia, arquivados os antagonismos não raro ferozes entre elas.

Apenas no mês passado, por exemplo, a União repassou para as 5 centrais que promoveram o comício do Pacaembu um total de R$ 70,2 milhões. Perto disso, a conta do evento ? R$ 800 mil, entre aluguel do estádio, infraestrutura do espetáculo, custeio dos participantes e gastos com a coordenação do trânsito ? chega a parecer uns trocados. Há mais, muito mais, proporcionado por esse modelo contra o qual outrora Lula, o metalúrgico, se insurgia.

O imposto sindical é o que torna possível o novo pelegato, a cooptação dos controladores das máquinas sindicais pelo lulismo, fazendo lembrar a Era Vargas e o peronismo na Argentina. É o sindicalismo de Estado.

A eleição de Lula produziu na estrutura do setor público federal uma troca de guarda como não se via desde a Revolução de 1930. A nova elite do poder vem dos quadros do PT ? muitos de origem sindicalista ? e dos cristãos-novos do lulismo, entre os quais se destacam as corriolas do sindicalismo de resultados. "Uma vez que a Força Sindical e a CUT foram adversários históricos, a aproximação entre elas não tem nada de programático ou ideológico", observa o cientista político Leôncio Martins Rodrigues, professor titular aposentado da USP e da Unicamp, estudioso do sindicalismo.

A convergência oportunista não se limita, evidentemente, às duas maiores centrais. Também as outras, com exceção da pequena UGT, sob influência do PPS, entraram na roda. "É visível o esforço dos seus dirigentes para se legitimar perante o PT e serem bem aceitos pelos cutistas", aponta o especialista. Nessa geleia geral, não é descabida a sua hipótese da formação de "uma só entidade sindical gigante", que seria conduzida por ninguém menos do que o futuro ex-presidente Lula.

GOSTOSA

TUTTY VASQUES

Parada Gay Fashion Week

Tutty Vasques 
O Estado de S.Paulo - 03/06/10

O comando da campanha de José Serra mandou espalhar no comitê de Dilma Rousseff que o tucano vai à Parada Gay de domingo, na Avenida Paulista, vestindo espartilho, sapatilhas e uma tiara com antenas de coraçãozinho na ponta. A ideia é estimular a pré-candidata a superar o brilho e a ousadia do adversário na festa.
Pegadinha à parte, se for mesmo ao evento para o qual todos os pré-candidatos à Presidência foram convidados, Serra deverá optar pelo seu traje casual preferido: calça de tergal, camisa Volta ao Mundo, sapato preto bem engraxado, enfim, a roupinha básica que ele costuma usar quando anda de bicicleta ou vai à praia.
A saia-justa do guarda-roupa inadequado à vida civil é comum a Dilma Rousseff que, sem o tailleur de campanha, não fica nada a desejar à falta de estilo a que Serra se expõe quando tira o paletó e a gravata. À paisana, eles desconstroem a arte de se arrumar. Dá para imaginar a Marina Silva de bermuda e cabelo solto? Pois é!
Com que roupa eles vão à Paulista no domingo? Eis o que resta aos respectivos marqueteiros decidirem, num ano em que a presença dos candidatos no evento é praticamente obrigatória: espera-se 3 milhões de eleitores no coro "vote contra a homofobia". Quem não for, já viu, né?
A besta vem aí!
Se o Kaká continuar jogando desse jeito, não demora nada a torcida vai pedir ao Dunga pra botar o Júlio Baptista. E, claro, o técnico não vai nos atender!

Descomprometimento
"Não me comprometa!"
DUNGA, AO RECUSAR CONVITE PARA VISITAR O PALÁCIO DE ROBERT MUGABE EM HARARE.

Camisinha no lanche
A TAM vai distribuir preservativos entre seus passageiros durante a 
semana do Dia dos Namorados. Do jeito que os lanches de bordo andam encolhendo ultimamente, capaz de ter gente comendo sua camisinha durante o voo.
Golpe na ditadura
Robert Mugabe já mandou apurar por que a seleção do Zimbábue perdeu para a do Brasil. Disseram-lhe que, pela tabela da CBF, teria pago pela partida de ontem preço de 
amistoso com vitória do time da casa.
À la Vanusa
A banda do Zimbábue executou o Hino Nacional de forma inapelável. Ao que tudo indica, fizeram a partitura da música por lá mesmo com base naquela interpretação da Vanusa capturada no YouTube.
Sem fundo
Vocês viram aquela gigantesca cratera circular que a tempestade Agatha abriu na Cidade da Guatemala? Buraco assim, francamente, não deixa de ser uma nova modalidade de fim do mundo.
Fofo Fashion
O estilista Lucas Nascimento inspirou sua nova coleção "no documentário Koyaanisqatsi, na desarmonia e na confusão pós-moderna para obter um conjunto neutro". Tomara que seja melhor desenhando, né?
Ora belas!
Chega de falar mal da bola! Semana que vem tem São Paulo Fashion Week, tempo de falar mal das belas. 

BRASIL S/A

Faltou o principal
Antonio Machado

CORREIO BRAZILIENSE - 03/06/10

Lula justifica carga tributária elevada, mas não fala da qualidade do gasto, que é o que importa


A apologia da carga tributária parruda feita pelo presidente Lula em seminário sobre a América Latina, em Brasília, dá margem a duas interpretações, já que imposto, como a própria palavra o expressa, ninguém paga com prazer, e, no Brasil, está longe de ser razoável.

É possível que Lula tenha apenas revelado o que acha sobre o que se paga de impostos no Brasil, sem entrar no mérito se é muito ou se é pouco. A carga impositiva elevada, conforme a definiu, foi condição para que a discussão sobre o que vem primeiro, crescer ou distribuir renda, fosse superada em seu governo. “Nós fizemos os dois, concomitantemente, e o sucesso foi extraordinário”, disse.

É uma maneira de enxergar o tamanho da mordida tributária, embora parcial, já que nos países onde ela é muito alta, como na Europa, a qualidade dos serviços custeados pelo Estado compete em situação de igualdade com os privados, como educação e saúde. E a renda per capita é tão alta que, proporcionalmente, aqui se paga muito mais.

Lula também deve saber a diferença entre os regimes tributários no Brasil e nos países ricos, onde a renda é mais tributada que o consumo, mas exportação e investimento, em regra, são desonerados.

A menor dispersão da renda no mundo rico a torna passível de vir a receber a maior parte da tributação. No Brasil, a distribuição de renda é um processo em curso, acentuado no governo Lula, mas ainda muito concentrada. O receio é que tributar pesado o capital seja um desincentivo a investir no país. Nem Lula ousou fazê-lo.

Tal arrazoado torna mais compreensível o que declarou: “Tem muita gente que se orgulha de dizer: ‘Ó, no meu país a carga tributária é [de] apenas 9%. No meu país, a carga tributária é apenas 10%”. E foi em frente: “Quem tem carga tributária de 10% não tem Estado! O Estado não pode fazer absolutamente nada”.

Dada a expectativa de serviços públicos no mundo, Lula tem razão. Arrecadação de 10% como proporção do PIB mal daria para custear a educação e saúde. Discutível é que se tenha de entregar ao Estado 36% do PIB, o patamar da carga tributária no Brasil, que pode ir a 40%, incluindo receitas parafiscais, em troca do que é devolvido à sociedade. E pior fica quando se considera o investimento público.

Além de mirrado, na prática é privado, que o sustenta e assume o risco, ainda que financiado por um banco estatal. Não é tão óbvia a relação entre tamanho do Estado e desenvolvimento como Lula diz.

O juízo embaralhado
O presidente achou pertinente dar exemplos à sua explanação sobre a coerência da portentosa carga tributária no Brasil. “Os Estados que têm as melhores políticas sociais são os Estados que têm carga tributária mais elevada”, afirmou. “Vide EUA, vide Alemanha, vide França, vide Suécia, vide Dinamarca. Os que têm a carga tributária menor não têm condições de fazer absolutamente nada de política social. É só fazer um “recogido” na nossa querida América [Latina] para a gente ver o que acontece.” Lula embaralhou o raciocínio.

A carga é muito baixa na maioria dos países abaixo do Rio Grande, é muito alta na Europa e ocupa uma posição intermediária nos EUA. A brasileira é maior que a dos EUA, onde os serviços públicos têm menor cobertura que na Europa, mas são superiores aos do Brasil.

Imunizando o governo
É neste contexto da comparação internacional feita por Lula que se supõe que talvez ele também tenha tido a intenção, ao defender o nível elevado da carga tributária, de imunizar o seu governo de críticas contra os altos impostos. Elas existem, de fato, mas não bem da candidatura de José Serra, e sim de grupos de profissionais liberais e pequenos empresários. Para o PSDB, fazer essa crítica é embaraçoso, pois a arrecadação explodiu nos dois governos de FHC.

Lula manteve a tendência, mas mais pelo aumento da receita vinda do crescimento econômico e da formalização do trabalho e empresas, que da criação de impostos e majoração de alíquotas. Contra a sua vontade, aliás, o Congresso pôs fim até a um tributo, a CPMF.

O verdadeiro debate
A verdadeira discussão Lula não fez, nem a crítica conservadora a faz. Trata-se da qualidade da aplicação dos dinheiros arrecadados à sociedade e das prioridades quanto ao que se faz com eles. Não é o tamanho da tributação o que importa. Antes da crise, a Suécia, com a maior carga tributária do mundo, 50,1%, vinha de 20 anos de forte desempenho econômico, assim como os EUA, com nível fiscal de apenas 28,2% (ambos os dados de 2006, que se comparavam com 34,23% do PIB, no Brasil). E na China é ainda menor. É isso que importa.

Cadê a valentia?
O constituinte de 1987 tanto sabia aonde poderia levar a questão tributária que a Constituição instrui no parágrafo 5º do artigo 150 que “a lei determinará medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidem sobre mercadorias e serviços”. O projeto que regulamenta o dispositivo foi aprovado no Senado e empacou na Câmara. Os deputados são ligeiros ao aprovar despesas. Mas parecem temer que o brasileiro descubra que paga 45% de impostos sobre o preço de um humilde chinelo, 45,5% ao comprar uma caixa de sabão em pó, 7,9% no quilo de arroz, 65% na conta de luz, mais de 40% na de telefone, 20,4% para casar. Paga até quando morre. Sem que os tributos sejam apartados dos preços, como manda a Constituição, não há valentia em justificar a carga tributária.