domingo, outubro 11, 2009
ELIO GASPARI
Protejam o Enem-2010 do educateca inepto
FOLHA DE SÃO PAULO - 11/10/09
O exame de 2009 fez água, mas se o MEC começar a trabalhar, o do ano que vem poderá ser um sucesso
EDUCATECA é o sujeito que toma decisões relacionadas com a vida dos estudantes, manda alguém cuidar do assunto e vai para casa jantar. Por exemplo: um educateca achou que devia mudar o nome da velha e boa prova de português e inventou que ela se chamaria "teste de linguagens, códigos e suas tecnologias". Assim se chamava a prova mostrada à repórter Renata Cafardo. Em geral, o educateca acumula o justo orgulho por seus títulos e um sacrossanto horror a dar aula.
Os delinquentes prestaram um serviço ao MEC. A prova vazou a tempo de permitir o cancelamento do exame. Se tivesse vazado depois, o desastre seria maior. Estudado com atenção, o processo de remessa das provas aos locais dos exames tinha outras vulnerabilidades. Os educatecas tiveram uma ideia grandiosa, terceirizaram o serviço e foram jantar.
O primeiro sinal de que se caminhava para uma armadilha acendeu-se quando a burocracia do Inep sustentou que, por falta de tempo, não poderia oferecer dois exames aos estudantes. Esse mimo ficaria para 2010. Quando se tratou de apressar o projeto desprezando o interesse da garotada, exerceram seus superpoderes. Quando se tratou de rolar na lama para garantir a segurança da prova, prevaleceu o ócio. Para a garotada, sobrou a redução das opções de curso de 5 para 3.
Se os educatecas não atrapalharem, o exame do próximo ano poderá ser feito on-line, como as melhores provas do gênero pelo mundo afora.
O Enem poderá ser aplicado em vários dias, com questões estocadas num banco de perguntas, transmitidas aos candidatos de acordo com um processo de seleção aleatória. A prova do sábado será uma, a do domingo, outra.
Esse sistema permite que o MEC ofereça dois ou três exames por ano, dando ao estudante a oportunidade de mandar a melhor nota às universidades.
Fica uma pergunta: haverá terminais para todos os candidatos? Como o exame pode se estender por dez dias esse problema é menor do que parece. Sua solução exige um tipo de trabalho que não pode ser passado adiante.
QUEBRA-QUEBRAS
Diante de três dias de protestos, do incêndio de um vagão de trem de subúrbio e da depredação em quatro estações da SuperVia, a palavra vai para o leitor Paulo Saturnino, do Rio de Janeiro: "É lamentável que ocorra um tumulto deste porte para que o lado bem vivido do Rio perceba que a Cidade Maravilhosa precisa de reparos enormes do lado pobre. Enfim, em vez de metrô para a Barra vindo de Ipanema, precisamos criar um sistema de transporte decente para o subúrbio carioca. Moro em Copacabana e vejo a pressão dos moradores da zona sul por metrô para a Barra próxima do imoral".
Desde 2004, os moradores de São Paulo têm o bilhete único, criado pela prefeita Marta Suplicy para os ônibus. A rede paulista expandiu-se, chegando ao metrô e aos trens e hoje é a segunda maior do mundo, perdendo só para Hong Kong. Todas as outras capitais brasileiras têm essa modalidade de tarifa, menos o Rio.
Em janeiro de 2007, o governador Sérgio Cabral prometeu implantar o bilhete único até o final de 2008. Nada. Quando ia ao subúrbio pedir votos, o prefeito Eduardo Paes defendia essa ideia. Em matéria de transporte, o governo do Rio é uma fábrica de fantasias. Há poucas semanas, no Dia Mundial Sem Carro, Paes pedalou dez quilômetros da Gávea Pequena (285 metros de altitude) a Botafogo (nível do mar). Não há registro de que, na volta para casa, tenha encarado a subida.
SERRA 2010
O governo encharcou o Enem, quer ressuscitar a CPMF e decidiu reter a devolução do Imposto de Renda para fazer caixa. Deve ser coisa de um comitê secreto da campanha Serra 2010.
OABANZÉ
A Ordem dos Advogados do Brasil gosta de dar palpite sobre tudo. Há pouco tempo, propôs a renúncia coletiva do Senado. (O Conselho de Ética de sua filial paulista absolveu sete advogados acusados de dupla militância com a bandidagem do PCC.) Na semana passada os doutores tomaram um tiro na linha d'água, vindo do Supremo Tribunal Federal. A Segunda Turma do STF devolveu a lista sêxtupla enviada pela Ordem para o preenchimento de uma vaga no Superior Tribunal de Justiça. Na votação, um episódio burlesco: a cada escrutínio aumentava o número de votos em branco. De duas uma: a Ordem não sabe fazer listas ou não sabe litigar.
REAL COBIÇA
Depois de amanhã, o Conselho da Fundação Real Grandeza escolherá o presidente e o diretor financeiro do fundo. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, revelou que está neutro, esclarecendo que o PMDB quer as cadeira$. O PMDB do Rio, é bom lembrar.
IDH DO B
Um curioso reprocessou os números dos países listados pelo Índice de Desenvolvimento Humano da ONU e achou duas situações interessantes. 1) Entre as 12 nações com população superior a 100 milhões de habitantes, o Brasil está na sexta posição. Dos quatro Brics, só a Rússia está em posição melhor. 2) Das 74 nações que estão acima do Brasil, 21 têm menos de 2,5 milhões de habitantes. Se 12 delas fossem empacotadas sob uma só bandeira, formariam um país com população inferior à de Brasília. Liechtenstein (36 mil habitantes) e as ilhas de Saint Kitts e Nevis (52 mil) cabem na Rocinha.
O SAPO DA PRIVATARIA VIROU PRÍNCIPE
Ao tempo da privataria tucana, duas distribuidoras de energia encarnaram o choque do progresso com o atraso.
De um lado, em nome da modernidade, estava a Light do Rio de Janeiro. O tucanato leiloou-a em 1996. Como faltavam interessados, bombaram o edital, aceitaram papéis podres e conseguiram R$ 2,2 bilhões de um consórcio liderado pela estatal francesa EDF. Em apenas três anos, a Light da EDF pagou R$ 722,5 milhões aos seus acionistas.
Do outro lado, pelo atraso, estava a Centrais Elétricas de Minas Gerais, a Cemig. Como faltou clima para privatizá-la, o governo mineiro vendeu 33% da empresa a um consórcio liderado pela companhia americana AES, por R$ 1,1 bilhão. Aos novos sócios foi concedido um poder de veto leonino nas operações da companhia.
Em 1999, o ex-presidente Itamar Franco assumiu o governo de Minas, disse que só privatizaria a Cemig diante da força militar de uma intervenção federal e denunciou os poderes concedidos aos novos sócios. Dinossauro atrasado, foi acusado de abalar a credibilidade externa do Brasil. Ele dizia assim: "Sou nacionalista, burro e mais o que quiserem, mas não vendo quilowatt existente". Itamar prevaleceu e a AES, metida num calote em São Paulo, saiu da Cemig, vendendo sua participação a um consórcio brasileiro.
Enquanto isso, no Rio, a EDF perdeu dinheiro com o câmbio, meteu os pés pelas mãos na gerência e, depois de receber boa ajuda do BNDES, caiu fora da Light em 2006.
A suprema vingança está em curso. O sapo atrasado do tempo da privataria (a Cemig) está na reta final das negociações para se tornar principal acionista da Light, a princesinha da modernidade.
JOÃO UBALDO RIBEIRO
O ideal olímpico
A questão do espírito olímpico também ocasionou mal-entendidos, como aconteceu com meu saudoso amigo Luiz Cuiuba, a cuja figura de filósofo, autor da máxima "pior seria, se pior fosse", já tive oportunidade de me referir inúmeras vezes. Depois de assistir a diversos eventos atléticos e ouvir os narradores falando no ideal olímpico, ele me confessou que não podia aceitar esse ideal. Como é que um burro de uma mulher daquele tamanho, que ele vira arremessando peso, mais fortezinha do que a zaga do Bahia toda junta, ia ser o ideal de alguém? "Pode ser o ideal olímpico, lá deles", me disse ele. “O meu é que nunca vai ser, o diabo é que queria chegar da rua com uma elefanta dessas esperando para tirar pergunta, Deus é mais.” Tentei esclarecer esse ponto, mas receio não ter tido muito êxito, porque acho que ele morreu desconfiado do ideal olímpico.
Os tempos são outros e a ilha também. No bar de Espanha, a escolha da cidade-sede dos jogos olímpicos foi acompanhada com grande interesse e o resultado final devidamente brindado e comemorado. Mas o primeiro dever do jornalista é para com a verdade, e a verdade é que o aplauso, embora amplamente majoritário, não contou com a adesão dos setores da opinião pública que seguem de perto as opiniões de Zecamunista. Mas que é isso, Zeca, você está contra o Rio de Janeiro?
– Não botem más palavras na minha boca! – bradou ele, levantando-se indignado. – Não façam o jogo sórdido dos manipuladores! A capital da minha República Socialista Brasileira vai ser o Rio de Janeiro! O Rio de Janeiro está no meu coração! O Rio de Janeiro é o maior símbolo do Brasil, depois aqui da ilha!
Sim, como não, continuou ele, podia mesmo considerar-se um carioca honorário, mais carioca do que muitos que no Rio nasceram e não sabem amá-lo, carioca desde os bons tempos do Cassino da Urca e da inigualável boate Bolero e seus lindos amores fugazes. Carioca do Maracanã, carioca do samba, mangueirense fanático, era isso o que ele era.
- Sim, meus caros senhores, brasileiro que sou, meu coração também bate forte no peito, quando o nome da grande cidade do Rio de Janeiro é evocado! E é por isso que comunico em primeira mão que estou inaugurando, assim que ultimar os preparativos, o Movimento Morda Aqui, com sede no Rio de Janeiro, na minha querida Lapa, que sempre será a Lapa!
- Como é mesmo o nome do movimento?
- Morda Aqui! O nome completo é Morda Aqui para Ver se Sai Leite, mas, para fins de mobilização, abrevia-se para Morda Aqui somente. Eles acham que o carioca é otário, mas o carioca não é otário, nem o da gema, nem o honorário.
- Mas o carioca não está sendo otário.
- Pode não estar, mas eles acham que está. Aliás, não somente os cariocas, mas todos os brasileiros que vão morrer na grana que rolará.
- Não sei por que, os jogos só vão trazer benefícios.
- Para os mesmos! Os mesmos! Nos jogos pan-americanos, não iam fazer tanta coisa? Não iam até despoluir a Baía da Guanabara? O que é que os jogos pan-americanos renderam? Vá perguntar no Tribunal de Contas! Se a cidade precisava disso tudo que eles dizem que vão fazer agora, por que não fizeram antes? Tem que haver pretexto? Dinheiro tinha, tanto assim que dizem que já está à disposição. Então não faziam, vamos dizer, por esquecimento, não é? Não tem nada a ver com as eleições de 2010, tem?
- Que é isso, o governo fez um grande esforço para trazer as olimpíadas.
- Fez, fez, e dizem que gastou somente algumas milhas, saiu barato, embora eu ache que não deu Chicago por causa de Atlanta, não deu Madri porque 2012 já vai ser na Europa e não deu Tóquio porque teve Ásia em 2008.
- De qualquer forma, houve um esforço, você não pode negar.
- Claro que houve e vai compensar! No pan-americano, eles disseram que iam gastar quatrocentos milhões, não foi? Gastaram quase quatro bilhões, dez vezes mais! Em quê? Pergunte de repente a qualquer carioca, assim para ele dizer na tampa: em quê? O que é que ele está vendo, que consumiu esses quatro bilhões?
- Tudo bem, mas agora vai ser diferente.
- Vai, sim, vai. Agora a previsão é de uns quarenta bilhões, não é uma beleza? E daqui pra lá deve aumentar bastante, são muitas boquinhas a alimentar e ainda tem que sobrar um restinho da grana, para fazer algumas obras.
- Assim também não é possível, Zeca, é preciso acreditar.
- Mas eu acredito. E acredito também em Papai Noel. Morda aqui.
ARI CUNHA
O governo do presidente Lula vai adotar medidas diferentes para entregar decisões ao Ibama e ao Ministério do Meio Ambiente. Sugere o presidente, com apoio da ministra Dilma Rousseff, que autoridades dos tribunais devem encontrar meios para processos de concessões das licenças. O novo ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, diz que esses projetos devem ter regras próprias para licitações. A ideia inclui todas as obras, inclusive as do PAC e as vinculadas ao esporte, que serão construídas no Brasil. Se a burocracia emperra, a liberdade de ação se deteriora. Com leis as coisas não andam bem. Se for dada liberdade de ação, estarão na linha da lei de Deus, que proclama o livre arbítrio. Se for necessário adotar medidas, ainda que contra a vontade de alguém, o assunto se torna mais difícil, a menos que liberdade e retidão sejam regras para quem administra.
A frase que não foi pronunciada
“Se o espelho te olhar de cara feia, dê um supersorriso.”
Clodovil, de onde estiver, mostrando que viver feliz é bom.
Pacatuba
O município cearense, cujo nome tem origem no tupi-guarani, que significa abundância de pacas, comemora 140 anos. Os primeiros colonizadores chegaram em 1683, aproveitando a excelência do clima para produção agrícola. Tornou-se município ao ser desmembrado de Maranguape em 8 de outubro de 1869.
Resgate
A professora Herotildes Honório, da Unifor, resgata a história da radiodifusão no Ceará. Lembra Eduardo Campos, Wilson Machado, Afrânio Peixoto e Paulo Cabral. Entre os que vivem, aparecem Narcélio Lima Verde, Nazareno Albuquerque e Edilmar Norões, além de Wilson Ibiapina, que, mesmo dirigindo a sucursal do Diário do Nordeste em Brasília, jamais deixou o microfone, e recebe a homenagem.
Comunicação
Proposta do senador Aloizio Mercadante pode ser um empurrão para que os parlamentares trabalhem juntos não só a imagem do Senado, mas a solução de problemas. Trata-se de criar um colegiado de líderes para deliberar sobre assuntos que seguem para o plenário, Mesa e comissões, encaminhados pelo presidente da Casa.
Ventos
Tudo muda no tapete do Congresso. Quase passa a emenda dos cartórios, que permitia a contratação sem concurso. Enquanto isso, ainda está emperrada a CPI do MST.
Contra
Ronaldo Caiado, José Aníbal e até o líder do governo na Câmara, Vacarezza, deram um banho de água fria no lobby do cartório. A proposta não será aprovada. Seria um acinte para a opinião pública a Câmara compactuar com o contrato sem concurso.
MST
Por seu lado, panos quentes eram acomodados sobre a CPI do MST. Houve esforço concentrado para evitar a devassa. Até um infeliz dos sem-terra ter a ideia de derrubar o laranjal, enquanto alguém passava por cima na hora certa e registrou tudo.
Desamparo
De um lado, a deputada Maria do Rosário, que sempre apoiou o MST, começou a atinar que acende vela para defunto ruim. De outro, a senadora Kátia Abreu bradava sobre a hipocrisia do governo dizendo que o ministro Cassel e o presidente do Incra são os responsáveis pelo que aconteceu. E arrematou que estamos desamparados pelo Estado.
Lúdico
No tabuleiro do PT não merece posto de honra quem defende o partido. O senador Suplicy oferece seu nome para o governo de São Paulo. Marta, ex-Suplicy, e o ministro Haddad estão no jogo. Vamos acompanhar.
Transporte
Na Câmara dos Deputados foi aprovado projeto que isenta o serviço de transporte coletivo urbano e metropolitano de tributos federais. Ainda deve passar pelo Senado. Por falar em transporte, aumenta a preocupação do secretário Fraga com as vans camicases que rodaram graças à ineficiência dos ônibus de passageiros de Brasília. Elas vão voltar.
História de Brasília
O primeiro bilhete de ontem do presidente Jânio Quadros foi endereçado a esta coluna, nos seguintes termos: ”Prezado Sr. Ari. Saudações. Li a notícia do erro que eu teria cometido. Muito bem o condicional, porque jamais o cometi... Asseguro-o. Releve, ainda, o autor material da cópia, eis que tudo foi feito às carreiras, e sem qualquer revisão de doutos. Quanto ao mais, obrigado, inclusive pelo ‘purista’. Quem sabe, essa a razão de não me entenderem, muitas vezes... Do J. Quadros. 10-2-61” (Publicado em 11/2/1961)
CLÓVIS ROSSI
Socorro, começou a campanha
FOLHA DE SÃO PAULO - 11/10/09
SÃO PAULO - Promete, ah como promete, a campanha eleitoral de 2010. A julgar pelo que estão dizendo os principais potenciais concorrentes, será de primeira classe.
De um lado temos Ciro Gomes, com sua habitual boca mole, dizendo que José Serra é mais feio na alma do que no rosto. Tem até alguma graça, mas com esforço, muito esforço, Ciro será capaz de dizer alguma coisa inteligente sobre os problemas da pátria, que, obviamente, não serão resolvidos com uma plástica n'alma de Serra.
Do outro lado, temos o PSDB dizendo que Ciro é "nanico de Dilma". Também é engraçado, mas, se Ciro crescer, o país fica melhor?
Aliás, não me parece que o tamanho de Ciro ou de Dilma, ou de quem quer que seja, esteja na lista dos problemas que puxaram o Brasil para o vexatório 75º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas.
Até porque, enquanto esteve no governo, o PSDB fez muito pouco para melhorar a classificação do pobre país tropical.
No meio desse tiroteio verbal de grande lucidez, coragem e inteligência, vem Dilma Rousseff, outra potencial candidata, para propor mais um PAC, desta vez para a Copa e para a Olimpíada. Beleza: o PAC original não conseguiu gastar nem a metade da verba prometida e à sua "mãe" não lhe ocorre mais do que mais do mesmo?
Não tem obra ou tem pouca obra?
Não importa. Chama um bom marqueteiro e tome PAC para cá, PAC para lá.
E olhe que nem apareceram, ainda, os nanicos de verdade, se é que é justo com eles chamá-los depreciativamente quando os "grandes" parecem tão pequenos.
Todos os envolvidos nesses episódios têm formação universitária.
Vai ver que é por isso que o país supostamente de primeira classe não consegue colocar uma só universidade, umazinha só, no ranking das 200 melhores do mundo.
PAINEL DA FOLHA
| Arrastão RENATA LO PRETE FOLHA DE SÃO PAULO - 11/10/09 A semana terminou marcada pela maior contraofensiva da candidatura de Dilma Rousseff (PT) desde que a última rodada de pesquisas encheu a bola de Ciro Gomes (PSB), o outro governista nas considerações para 2010. No intervalo de poucos dias, a ministra da Casa Civil viu o PMDB se definir por uma pré-aliança em torno de seu nome, arrancou palavras de adesão do PDT - que vinha se oferecendo para dar um vice a Ciro - e participou de um convescote do PC do B no qual o mais antigo aliado petista deixou claríssimo que estará a bordo em 2010. Por pequeno que seja o PC do B, seu movimento, somado ao do PDT, indica que Ciro, a permanecer na cédula nacional, corre o risco de disputar com um tempo de TV quase nanico. Se virando - Numa semana em que tudo deu certo para Dilma, Ciro conseguiu manter alto grau de visibilidade dando combate a José Serra (PSDB) em São Paulo. O céu é o limite - O mundo pode achar que o PMDB já tem muito, mas o PMDB não acha. ‘Hoje somos periféricos’, diz um dos caciques que participaram do jantar para definir o pré-compromisso com o PT. ‘Num governo da Dilma nós vamos realmente participar.’ Jorge Amado - O esforço para se dividir entre os candidatos Jaques Wagner (PT) e Geddel Vieira Lima (PMDB), durante visita a Salvador na sexta-feira, rendeu à ministra o apelido de ‘Dona Dilma e Seus Dois Maridos’. Gigantes... - Para o eleitor de SP, o embate de 2010 já chegou ao horário nobre. Por vezes um em seguida do outro, estão no ar comerciais do PSDB e do PT vendendo realizações dos governos estadual e federal, respectivamente. ...do ringue - Na sexta-feira, uma emissora exibiu inserção em que o PT batia bumbo para recursos injetados por Lula no metrô. Colada veio uma peça do PSDB com Serra, in loco, dizendo que as obras ‘estão sendo feitas com dinheiro só de São Paulo’. Apertado 1 - A votação que mais preocupa o governo no Senado hoje é a da autorização para o ingresso da Venezuela no Mercosul. Mapeamentos em poder de líderes e ministros não permitem assegurar que a proposta vai passar. Sua eventual rejeição criaria saia justa sem precedentes com Hugo Chávez. Apertado 2 - O problema é que fiéis governistas, como José Sarney (PMDB-AP) e Fernando Collor (PTB-AL), jogam pelo ‘não’. Lula pretende bater um papo com ambos para pedir que, em nome das boas relações no continente, relevem suas reservas a Chávez e votem a favor. Na estrada - Dilma será a estrela de um encontro do PT com movimentos sociais, nos próximos dias 24 e 25 em SP. Irá com vários ministros. Lei... A queda de braço entre ruralistas, em sua maioria ‘demos’, e o governo em torno da criação da CPI do MST esticou outra corda: a disputa pelo comando e pela relatoria da comissão especial que trata da mudança do Código Florestal. O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), foi chamado para tentar colocar panos quentes. ...da selva - Caberá à comissão especial analisar um catatau de mais de 300 projetos sobre legislação ambiental parados na Câmara. Ruralistas têm pressa em votar as alterações porque expira em 11 de dezembro o prazo imposto pelo governo para a regularização de propriedades. Muvuca - Líderes partidários foram a Temer reclamar do excesso de manifestantes, que fazem um verdadeiro corredor polonês entre as salas das comissões e o plenário da Câmara. Pedem que o presidente coloque em pauta de uma vez todos os projetos ‘populares’ na esperança de esvaziar a Casa depois. Contraponto Meritocracia Cerca de 50 pessoas almoçavam na semana passada nos apartamentos contíguos dos deputados Paulo Maluf (PP-SP) e Fábio Ramalho (PT-MG), refeição que acabou se transformando numa espécie de evento de boas-vindas para o novo ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha. As eleições dominavam a conversa. - Olha que você vai acabar votando na Dilma.. - dizia José Genoino (PT-SP) para Maluf. - Ela é a melhor candidata, sem dúvida - completou entusiasmado João Paulo Cunha (PT-SP). Maluf não se fez de rogado: - Bom, se o critério for esse, o melhor candidato sou eu! Tiroteio Lula estava controlando o jogo. Só que faltando um segundo o Obama fez uma cesta de três pontos do meio da quadra e ganhou. Do deputado EDUARDO GOMES (PSDB-TO), sobre o Nobel da Paz dado ao presidente dos EUA uma semana depois do anúncio do Rio como sede da Olimpíada de 2016. |
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
Em 1957, para espanto de todos e embaraço dos Estados Unidos, a União Soviética pulou na frente na corrida espacial, lançando o primeiro satélite artificial da Terra, o Sputnik. Os americanos responderam acelerando o seu próprio programa espacial, que acabou colocando um homem na Lua, mas durante algum tempo tiveram que conviver com aquela prova da superioridade científica dos russos girando sobre suas cabeças. Mesmo se, como diziam os cínicos, a única vantagem dos russos sobre os americanos era que tinham ficado com melhores cientistas alemães no fim da Segunda Guerra Mundial, para todos os efeitos de propaganda e autoestima a competição era entre dois sistemas, e o comunista estava ganhando. Mas se sentiam-se ameaçados pela coisa, os americanos adoraram o seu nome. Em pouco tempo o sufixo “nik” passou a ser usado para tudo nos Estados Unidos. Membros da geração “beat” ficaram conhecidos como “beatniks”, embora em nada lembrassem uma bola dando voltas na Terra e fazendo “bip, bip”. Ou talvez, às vezes, lembrassem. No caso do Sputnik, também ganhou a banalidade.
BAI BAI
Vou tirar férias. Volto no dia 15 de novembro. Comportem-se.
DORA KRAMER
Fora do foco e de propósito
O ESTADO DE SÃO PAULO - 11/10/09
A imagem da derrubada do laranjal da Cutrale no interior de São Pau lo conseguiu tirar da toca o presidente Luiz Inácio da Silva, que, loquaz para questões que o interessam, sabe ser discreto quando o assunto não lhe convém. Invasões e toda sorte de transgressões cometidas pelo dito movimento social dos sem-terra, por exemplo.
“Todo mundo sabe que sou defensor das lutas sociais e de que o povo se manifeste. Agora, entre uma manifestação para reivindicar alguma coisa e aquela cena de vandalismo feita na televisão. Obviamente que não posso concordar com aquilo, porque não tem explicação para a sociedade você derrubar tantos pés de laranja apenas para mostrar que você está reivindicando”, disse o presidente.
Como se vê, a imagem não foi suficiente para que o presidente abordasse o problema em sua real dimensão: a da opção pela transgressão à lei feita pelo MST, de forma premeditada desde o momento em que optou atuar sem ter configuração jurídica.
Lula, assim como seus ministros – à exceção do titular da pasta da Agricultura, Reinhold Stephanes –, continua fazendo de conta que não estamos diante de um problema de criminalidade. Para o presidente, o problema reside na forma, não no conteúdo. Enquanto o MST invadiu, depredou, feriu, houve casos em que matou, tudo certo. No momento em foi flagrada uma imagem que – como reza o lu gar-comum – fala por mil palavras, a coisa passou do limite. Ou seja, o problema não é o MST desrespeitar a lei, mas fazê-lo de maneira acintosa, taticamente incompetente. E mais grave: em pleno Jornal Nacional.
O fato de a transgressão ser sustentada com dinheiro público tampouco entra no rol de preocupações de Lula e seus ministros. Ao contrário, esse aspecto é liminarmente condenado. Na teoria, o governo critica o recurso ao vandalismo. Na prática, po rém, protege os vândalos quan do mobiliza os partidos governistas no Congresso para impedir a instalação de uma CPI para in vestigar os repasses de verbas públicas ao MST.
Entidades como o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União falam em transferências de milhões, mas ninguém sabe ao certo o que se passa nessa relação entre os cofres do Estado e o MST. Antes da divulgação das imagens que provocaram as de clarações de Lula, a “base” foi mo bilizada para enterrar a CPI Depois disso, a oposição voltou a coletar assinaturas, mas o governo não mudou de posição.
O líder na Câmara, Henrique Fontana avisa que continua contra, o ministro da Reforma Agrária, Guilherme Cassel, tergiversa: “Se quiserem uma CPI geral sobre a agricultura, in cluin do os repasses à CNA, tudo bem. Mas, uma CPI contra um movimento social, acho perseguição.”
Não sendo ignorância, é má-fé. Contra o Estado de Direito.
Fino trato
O presidente licenciado do PMDB informa: não briga com Orestes Quércia, muito menos cogita de intervenção no diretório paulista por causa do apoio do ex-governador à candidatura presidencial do PSDB.
Não porque não desejasse um enfrentamento que pudesse levar São Paulo para o lado dos defensores da aliança com o PT. O problema é falta de condições objetivas para tal.
Antes de vencido o prazo de filiações partidárias, Temer até tentou convencer o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, a se candidatar a governador pelo PMDB e enfrentar o grupo de Quércia na convenção.
Skaf medrou, foi para o PSB e a chance passou. Agora, Temer reafirma o acordo fechado há dias com Quércia: cada um cuida do respectivo rebanho e, lá na frente, voltam a conversar sob a luz das circunstâncias. Segundo a direção do PMDB, os apostadores do conflito ou não pertencem ao partido ou estão sendo mais realistas que o rei.
200%
O presidente do PT, Ricardo Ber zoini, avisa que Dilma Rousseff deve deixar o governo em fevereiro para se dedicar “100%” à campanha presidencial. Não informou quem, atualmente, se dedica 100% aos afazeres da Casa Civil enquanto Dilma roda o país em campanha.
Em cena
Avaliação do cineasta Fernando Meirelles de que o presidente Lula é o “maior ator do Brasil” não significa necessariamente um elogio.
Emblema
A propósito da leniência do poder público com as invasões o MST, o leitor S.P. conta a seguinte história: “Sete anos atrás, pedi à prefeitura de São Paulo que cortasse um ‘ficus’, que eu mesmo plantei e que destruía minha calçada, meu muro e parte da rua.
Passaram-se três anos e ninguém apareceu. “Resolvi acabar com o problema, pois a árvore crescia. Cortei a árvore e 15 dias depois recebi da prefeitura uma multa de R$ 289.
“Quanto ao MST, nem Ministério Público nem os defensores do meio ambiente nem ninguém causa dano algum.”
CLÁUDIO HUMBERTO
PRÉ-CANDIDATO À PRESIDÊNCIA, CIRO GOMES (PSB), SOBRE O GOVERNO E A ELEIÇÃO DE 2010
CADA LEI “CUSTA” R$ 34 MILHÕES NO SENADO
O plenário do Senado votou e aprovou apenas 81 projetos até agora, em 2009. Além disso, também foram enviados à sanção do presidente Lula 25 projetos aprovados por decisões terminativas de comissões, sem que precisem passar pelo plenário da Casa. Ou seja, cada senador, que custa mais de R$ 34,1 milhões ao Erário por ano, como revela a ONG Transparência Brasil, criou em média apenas 1,3 leis este ano.
ENCABULADOS
A Câmara dos Deputados se recusou a fornecer o número de matérias votadas em 2009. Talvez seja a vergonha...
DIFERENÇAS EM CASA
A maior parte das leis aprovadas pelo Senado em 2009 é de iniciativa de deputados. São 30 projetos de deputados e apenas 15 de senadores.
UMA CHANCE...
O Tribunal de Justiça da Bahia é o primeiro a empregar presos em regime aberto e semiaberto.
...REMUNERADA
Os presos vão trabalhar durante oito horas no TJ-BA em serviços gerais, por 75% do mínimo, alimentação, transporte, etc.
REVISTA EM PRESÍDIO DEIXA MENORES NUS
O presídio federal de Campo Grande (MS) determinou que maiores de 12 anos devem ser revistados na visita a parentes. Segundo a ONG Brasil Verdade, do delegado Paulo Magalhães, devem se agachar diante do espelho para verificação íntima, com revista do ânus e vagina. Tudo aprovado pela Justiça Federal e o Ministério Público, para evitar a entrada de drogas e armas no presídio de segurança máxima.
UM MODELO
A revista de menores já vale para o Dia da Criança, neste domingo, na penitenciária considerada “modelo” na América Latina.
UM TRAUMA
Paulo Magalhães lembra que as 300 câmeras, detectores de metais, raios X, etc, dispensariam o “vergonhoso trauma” em crianças.
QUEM PAGA?
O deputado estadual Sargento Soares (PDT-SC) quer ônibus de graça para PMs e bombeiros fardados. No Rio de Janeiro, virariam “alvo”.
TAREFEIRO
Ao elogiar o governador Aécio Neves como “o candidato mais forte” do PSDB em 2010, Ciro Gomes (PSB) cumpre a missão de cutucar o tucano paulista José Serra, este sim, o mais forte. E o menos provável.
TIRA QUEM PODE
O senador gaúcho Pedro Simon (PMDB) lembra que o governo não reteria a restituição do imposto de renda, se a Câmara tivesse votado seu projeto de lei determinando prazo para a devolução do imposto.
NOSSA GRANA EM GANA
Falta no IR, sobra em Gana, onde o Brasil vai entrar com US$ 250 milhões para construir hidrelétrica: US$ 50 milhões são do país africano. Odebrecht e Andrade Gutierrez (surpresa!) farão a obra.
FOGUEIRA DAS VAIDADES
O acordo para o deputado pedófilo cassado Wallace Souza (PP) se entregar virou palco iluminado em Manaus (AM): no Estado, a cúpula de Segurança se digladia com juízes e promotores por uma fala na TV.
MERCHANDISING NEGATIVO
A novela Viver a Vida, da Globo, tem bronca dos carros Audi. Após a cena da colisão frontal de um A3 dirigido pela atriz Aline Morais, sem que o air-bag abrisse, o belo Audi TT do ator Mateus Solano não pegou e ainda foi xingado (com a marca em close) de “carrinho imprestável”.
FICHA SUJA
O deputado estadual do Mato Grosso José Riva (PP) tem a ficha suja, logo, já pode disputar o Senado, como quer: foi condenado pela Justiça a ressarcir os cofres públicos em R$ 2,65 milhões por pagamento indevido a empresa fantasma, e teve os direitos políticos suspensos.
OLIMPÍADA DOS NEGÓCIOS
Todo cuidado é pouco. Dos R$ 29 bilhões previstos no orçamento da Rio 2016, R$ 23 bilhões virão da esfera pública. E onde tem verba pública, impera o superfaturamento.
DISPUTA NUCLEAR
Agora são três os Estados candidatos a receber a nova unidade das centrais nucleares no Nordeste. Além de Pernambuco e Alagoas, Sergipe entrou na disputa mais estúpida das últimas décadas.
PERGUNTAR NÃO ATRASA
Para que o governo do Rio de Janeiro quer trem-bala se já tem o trem-bala-de-borracha?
PODER SEM PUDOR
BAGUNÇA NO AR
A bordo de um voo da então TAM/Varig, em 2003, como quase toda a bancada federal do Rio, o deputado Fernando Gabeira (PT-RJ) ficou impressionado com a bagunça que levou a comissária a informar que estavam cancelados os lugares marcados:
– Por enquanto, a TAM e a Varig estão compartilhando os voos. Espero não estar aqui quando resolverem implantar assentos compartilhados.
Felizmente nunca aconteceu.
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: MPF investiga contratos do COB sem licitação
- Folha: Grampos revelam ação de filho de Sarney no governo
- Estadão: Eike Batista negocia fatia na Vale e critica Angelli
- JB: Vem aí maior rigor no trânsito
- Correio: Lavagem de dinheiro sob investigação
sábado, outubro 10, 2009
PARA....HIHIHIHI
Argentinos, brasileiros, o prefeito, a esposa, enfim...
O padre começa o sermão:
- Irmãos estamos hoje aqui reunidos para falar dos ''Fariseus. Aquele povo desgraçado como esses argentinos que estão aqui...
- Ohhhhhhh! - Coro generalizado na igreja e logo depois, o maior tumulto.
Os argentinos saíram xingando o padre, houve briga na porta da igreja, o prefeito ficou indignado e foi falar com o padre na sacristia:
- Padre, pega leve! Os argentinos vêm para cá, gastam nas lojas, nos restaurantes, trazem divisas para a cidade. Não faça mais isto, por favor.
Durante toda a semana a cidade não falou de outra coisa senão do padre e o sermão do domingo.
Aquele zum zum zum todo foi deixando as pessoas curiosas para saber como seria no domingo seguinte.
Cá pra nós, é bem verdade, que uma parte estava até satisfeita... Mas...
Finalmente, chega o domingo, o prefeito vai à sacristia e recomenda:
- Padre, o senhor lembra da nossa conversa, não? Por favor, não arrume nenhuma encrenca hoje, certo?
Começa a missa e o padre chega ao sermão:
- Irmãos, estamos aqui reunidos hoje, para falar de uma pessoa da Bíblia: Maria Madalena. Aquela mulher, a prostituta que tentou Jesus, como essas argentinas que estão aqui.
Mal acabou de falar e não deu outra: pancadaria na igreja, algumas internações no pronto-socorro local e o prefeito novamente foi ao encontro do padre:
- Padre, pelo amor de Deus! o senhor não me disse que ia pegar leve? Se o senhor não parar com isso, vou ter que falar com o bispo e pedir a sua retirada imediata da paróquia.
Naquela semana, o zum-zum-zum foi maior ainda.
As conversas na cidade giravam em torno do sermão e ninguém perderia a missa do próximo domingo, nem por decreto!
Na manhã do domingo, a Igreja parecia Fla X Flu em final de Campeonato Brasileiro no Maracanã: não tinha lugar para ninguém.
Neguinho que há anos não pisava na igreja, parecia que era o mais devoto dos católicos.
O prefeito entra na sacristia escoltado pela polícia e adverte:
- Padre, pega leve, senão te levo em cana!
Quando o padre aparece, tensão generalizada... Bochichos... Até que ele começa o sermão:
- Irmãos, estamos aqui reunidos hoje, para falar do momento mais importante da vida de Cristo: a Santa Ceia.
O prefeito então respirou aliviado.
- Jesus, naquele momento disse aos apóstolos: 'Esta noite, um de vocês me trairá.'
- João pergunta: 'Mestre, sou eu?', e Jesus respondeu: 'Não, João, não será você.'
- Pedro pergunta: 'Mestre, serei eu?' E Cristo respondeu: 'Não, Pedro, não será você.'
- E então Judas pergunta: 'Miestre, soy yo?'
MERVAL PEREIRA
Embora não tenha conseguido nesses nove meses de governo nenhuma vitória concreta que, na visão dos céticos, justificasse a premiação, são claras as demonstrações de que Obama continua fiel ao que prometeu em sua campanha.
No dia de sua vitória, escrevi aqui que ele tinha o entendimento de que no mundo moderno não é mais possível ser a primeira potência sem dar espaços para outras potências emergentes que têm papel importante em temas ou setores políticos e econômicos.
Nesse novo mundo diversificado e multipolar, será preciso dividir o poder e pensar políticas públicas que sejam boas para todos, e não apenas para um país.
Foi classificado de fraco quando anunciou o fim do escudo antimísseis projetado no governo Bush para proteger a Europa de eventuais ataques nucleares, especialmente do Irã.
A decisão da revisão desagradou Polônia e a República Checa, que viam a presença militar americana como um meio de proteção contra a Rússia, mas agradou Moscou, que considerava o plano de defesa americana uma ameaça direta, e abriu caminho para a inspeção nuclear no Irã.
Embora não tenha conseguido ainda uma aprovação do Congresso para um plano de redução de emissão de gases de efeito estufa que lidere o mundo na reunião de dezembro em Copenhague, a preocupação da administração Obama com a ecologia e com a utilização de combustíveis renováveis menos poluentes obedece a uma postura universalista, oposta ao egoísmo que prevalecia na política dos Estados Unidos, que levou o presidente Bush a não assinar o Tratado de Kioto, considerado prejudicial aos interesses das empresas americanas.
Esse mesmo egoísmo da sociedade americana faz com que a ampliação do programa de saúde oficial seja recebida com desconfiança por boa parte da população, que teme perder o que já tem com a inclusão de cerca de 25 milhões de pessoas que hoje não têm cobertura de saúde de nenhuma espécie.
Assim como na política interna defende a solidariedade da sociedade, Obama está convencido de que, no plano externo, os interesses americanos só serão atendidos se o interesse da comunidade internacional for também respeitado.
Obama quer mostrar as vantagens da democracia através do exemplo e do respeito ao outro, e não impô-la a outros países através de guerras, como a administração Bush alegava fazer.
O presidente do comitê do Nobel, Thorbjoern Jagland, ressaltou que “como presidente, Obama criou um novo clima na política internacional.
A diplomacia multilateral voltou a ocupar uma posição central, com enfoque no papel que as Nações Unidas e outras instituições internacionais podem desempenhar”.
Num de seus primeiros atos depois de assumir, Obama confirmou o fechamento da prisão de Guantánamo e proibiu formalmente o uso de torturas nas prisões americanas, na certeza de que não é possível defender a democracia e manter esse tipo de prisão, mesmo sob o pretexto de combater o terrorismo.
Transformar os Estados Unidos em um país amado, e não temido, pelo resto do mundo, parece ser a busca de sua gestão, e, no plano interno, ele vem tentando aprovar os principais pontos com o apoio de republicanos, em busca de um governo suprapartidário anunciado em seu discurso da vitória em Chicago.
A “visão” e os “esforços” de Obama em busca de um mundo sem armas nucleares também foram ressaltados pelo Comitê do Nobel, reforçando a relevância política da recente declaração do presidente dos Estados Unidos na ONU.
Os adversários de Obama, especialmente a direita mais conservadora, viram no Prêmio Nobel uma aprovação da “visão socialista” que ele teria levado para o governo dos Estados Unidos.
A crítica mais frequente é de que os europeus, através do Nobel da Paz, querem estimular políticos americanos que tenham ideias que se aproximam da social-democracia europeia, uma acusação a Obama muito comum durante a campanha eleitoral e que agora está sendo revivida com a tentativa de aprovar no Congresso a ampliação do sistema de saúde no país.
Perguntado sobre se também almejaria receber o Prêmio Nobel da Paz, o presidente Lula primeiro respondeu: “Essa coisa não se almeja.” E depois brincou: “O dia em que eu almejar, eu me inscrevo, ou peço um abaixo-assinado”.
Mesmo sem ter pedido, e embora não se tenha dado muito destaque ao fato, o presidente Lula mais uma vez era um dos concorrentes ao Prêmio Nobel da Paz que Obama acabou levando.
O norueguês Stein Tonnesson, diretor do Instituto Internacional para a Investigação da Paz, fez a indicação, fato que foi festejado na ocasião como um indício de que Lula poderia mesmo ganhar.
Lula já esteve cotado para o prêmio por causa do Fome Zero, mas o escândalo do “mensalão” tirou-o do páreo. Este ano, ao receber um dos mais importantes prêmios mundiais para a preservação da paz, dado pela Unesco, ele voltou a ser cogitado.
Outras personalidades que receberam a mesma homenagem, como Nelson Mandela, Yitzhak Rabin, Yasser Arafat e Jimmy Carter foram agraciadas depois com o Prêmio Nobel da Paz.
Lula hoje é uma “persona” política perfeitamente possível de ganhar um Nobel da Paz. Mas não foi desta vez.
COISAS DA POLÍTICA
A candidata oficial puxa a fila
JORNAL DO BRASIL - 10/10/09
A QUEDA DE QUATRO pontos nas últimas pesquisas e a euforia com o fim do tratamento do câncer linfático, carimbado com os 90% pela equipe médica, cutucaram o temperamento de lutadora, sem papas na língua, da candidata oficial, a ministra Dilma Rousseff, lançada pelo presidente Lula e engolida pelo PT com arranhões no gogó que se lançou ao tudo ou nada, na arrancada que contorna os prazos legais no anunciado esquema da segunda fase da pré-campanha.
Com a docilidade de quem obedece a quem manda, o enquadrado comando do Partido dos Trabalhadores trocou a água salobra pelo vinho e passou a defender a conveniência da antecipação da saída do governo da candidata Dilma, em meados de fevereiro, para dedicação em tempo integral às visitas aos estados, comparecendo e discursando nos comícios apelidados de reuniões. Nada de muito diferente do que vem fazendo, a desculpa de acompanhar as obras nas diversas frentes, agora inflada com a escolha do Rio para sede dos Jogos Olímpicos de 2016.
O prazo legal para as campanhas no início de abril já foi antecipado, e nada impede que o truque continue a ser aplicado. O roteiro acompanhará as frentes de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Minha Casa Minha Vida para a construção de 1 milhão de residências populares em todos os municípios e capitais, a transposição das águas do Rio São Francisco para a irrigação das áreas secas do Nordeste.
É comovedora a adesão maciça do PT, sem uma voz discordante, ao esquema de campanha da ministra-candidata. O presidente do partido, Ricardo Berzoini (SP), com medo de chegar atrasado, comunicou aos repórteres que Dilma deixará o governo em fevereiro, 40 dias antes do prazo final para a desincompatibilização, para se dedicar à campanha, após o lançamento oficial da sua candidatura, no último dia do 4º Congresso Nacional do PT, em 21 de fevereiro.
O que o presidente do PT anuncia como novidade é exatamente o que a ministra Dilma já vem fazendo por conta própria, desde que os médicos que a trataram do linfoma anunciaram a cura. A peruca é uma das marcas da retomada da campanha. Com gana e urgência.
Nos jantares com a bancada do PMDB e depois com a do PDT, as alianças foram celebradas com o tilintar das taças de champanhe. Os peemedebistas foram atendidos na reivindicação da Vice-Presidência, previamente acertada em muitos meses de articulação. E o candidato, como se sabe desde sempre, é o presidente da Câmara e do partido, o elegante e melífluo deputado Michel Temer (SP).
A única veneranda novidade é a oficialização do sabido. Com o ajuste às mudanças no cenário. A explosão de orgulho nacional com a escolha do Rio para sede da Olimpíada-2016, daqui a sete anos, vai ser um tema dominante na campanha de 2014 e não tem gás para a de 2018.
Dilma está fechando acertos para 2010. E aproveitando as hesitações da oposição, com outro tipo de embaraço. O candidato amplamente favorito para puxar a oposição, o governador paulista José Serra (PSDB), não deixará o cargo antes do prazo para a desincompatibilização. E até lá o presidente Lula tem muitos abacaxis para descascar. A gastança sem medida do governo, acelerada na pré-campanha eleitoral, cobra as contas que atazanam o ministro da Fazenda, Guido Mantega. E no corre-corre para garantir o quinhão no rateio do cofre da viúva não há limites à ganância. Os presidentes dos tribunais superiores, depois de garantirem o aumento de 9% em seus vencimentos, decidiram propor ao Congresso o aumento de 80% para os servidores do Judiciário. A proposta terá de ser aprovada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) antes de ser encaminhada ao Congresso.
Se aprovada na Câmara e no Senado, o festival terá o seu ponto alto na mudança do cálculo da Gratificação Judiciária (GAJ) para todos os servidores, no salto olímpico de 50% para 135% do salário-base. A classe média está avisada de que pagará a conta da desatinada expansão das contas do governo, apesar da queda na arrecadação, no delírio da campanha oficial para a eleição da ministra Dilma Rousseff.
É imprevisível o que virá por aí em 2010, na reta de chegada da eleição do sucessor ou sucessora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
BRASIL S/A
Protesto saudita em reunião sobre o clima indica riscos para o petróleo. E para o pré-sal também
A enxurrada de informações e indícios nas últimas semanas sobre o início da decadência do petróleo como o principal insumo da matriz energética mundial por razões geológicas, econômicas e climáticas reúne, desta vez, elementos de convicção para o Congresso atrasar a discussão sobre o marco regulatório do pré-sal. Começam a surgir questões novas que atropelam a conveniência eleitoral do governo.
Não é a primeira vez que se anuncia, prematuramente, o enterro da mais valiosa e cobiçada commodity global, por conta da qual muitos países foram à guerra, uma continua em curso, no Iraque, diversas outras menores estão ativas, governos foram e são derrubados, os EUA patrulham os mares com uma frota de porta-aviões e submarinos maior que a soma de todas as forças navais. Mas agora é diferente.
Se até a Arábia Saudita, maior produtor, exportador e detentor da maior reserva de petróleo do mundo, já escancara preocupação com o futuro de sua única riqueza, não se pode ignorar o debate sobre o tal do “peak oil”. Não devido ao risco de esgotamento, a hipótese central dessa tese polêmica. Outras considerações a motivam.
O que ganha momento é o avanço de energias rivais ao petróleo, a disposição de vários governos de conter as emissões resultantes da queima de materiais fósseis e o interesse da indústria automotiva de se reinventar para ocupar a imensa capacidade ociosa no setor. E o faz anunciando lançamentos em escala de motores híbridos, meio elétrico, meio a gasolina ou diesel, ou 100% elétricos para 2011.
Ao Brasil, empenhado na bem-sucedida matriz energética do álcool, portanto, na vanguarda do fórum das Nações Unidas que vai discutir em dezembro, em Copenhague, com 190 países, um novo tratado global sobre clima, os riscos para o negócio do petróleo são imensos.
A descoberta do pré-sal é solução ou problema, dependendo do rumo que as contingências que hoje assaltam a atividade no mundo vierem a tomar. O governo levou ao Congresso um novo modelo de exploração que projeta investimentos de US$ 117 bilhões apenas pela Petrobras até 2020, além de US$ 400 bilhões para capacitar a indústria local como fornecedora de embarcações e equipamentos. É dinheiro demais para um negócio sujeito a tantas incertezas.
Opep quer compensação
O maior risco depende de quanta seriedade se atribui ao propósito das negociações para reforçar, prorrogar ou substituir o Protocolo de Kyoto, sobre a redução das emissões de carbono, que expira em 2012. O chefe da delegação saudita à reunião realizada esta semana em Bangcoc, Tailândia, a penúltima antes da cúpula de Copenhague, Mohammad al Sabban, não deu sinal de que seu governo tem dúvidas.
Al Sabban condicionou o apoio da Arábia Saudita ao pacto global sobre o clima ao pagamento de um tipo de compensação aos países produtores pela provável redução do consumo de petróleo de 2012 a 2030 — o período de vigência do novo acordo. Não o faria se fosse fantasiosa a redução estimada do consumo de petróleo no mundo.
EUA começam a ceder
As discussões no âmbito da conferência organizada pela ONU tomam como ponto de partida a necessidade de evitar que a temperatura da Terra aumente dois graus Celsius nas próximas décadas. Isso exigiria o corte de 25% a 40% das emissões de carbono em dez anos sobre os níveis de 1990. Os países ricos propõem até 23%. Nos EUA, o único que não ratificou o protocolo de Kyoto, o Senado discute projeto, apoiado pelo presidente Barack Obama, que reduz os gases-estufa em 20% até 2020 e 80% até 2050. E a Câmara aprovou outra versão, que prevê o corte de 17% em relação aos níveis de 2005. O grosso dessa economia seria em cima da queima de petróleo e carvão mineral.
“Peak Oil” até 2030
Estudo revelado em Bangcoc pela Agência Internacional de Energia, IEA, na sigla em inglês, estima que a aprovação de novas metas de emissões implicará ao cartel da Opep ainda um adicional de US$ 23 trilhões de receitas entre 2008 e 2030 em relação a 1985-2007. O saudita Al Sabban contestou. O estudo da IEA, disse à agência Associated Press, seria “tendencioso”. Cálculos próprios da Opep dariam apenas à Arábia Saudita uma perda anual de US$ 19 bilhões a partir de 2012. “Nós estamos entre os países mais vulneráveis’, Al Sabban se queixou. “Isto é muito sério. Estamos num processo de diversificar nossa economia, mas levará tempo.” A questão é essa, e domingo voltaremos ao tema: se o maior produtor de petróleo do mundo investe para cortar até 2030 a sua dependência, seria o caso de o Brasil se jogar de cabeça no pré-sal? E com dinheiro público?
Lobby das petroleiras
Estranho é que o estudo da Agência Internacional de Energia sobre o impacto da redução das emissões de gases-estufa sobre a economia do petróleo e os protestos do chefe da delegação saudita à cúpula climática das Nações Unidas, marcada para 7 a 18 de dezembro, não tiveram repercussão. Nos EUA se entende: lá, é intenso o lobby das petroleiras para barrar no Congresso as iniciativas mais radicais, como uma tributação punitiva da gasolina para custear os programas de substituição do petróleo importado. Mas também foram mínimas as repercussões aqui. O Congresso deveria ir fundo nessa questão.




