terça-feira, junho 23, 2009

ARNALDO JABOR

O amor entre as santas e as loucas

O GLOBO - 23/06/09

Como já contei nos artigos e no filme que estou fazendo, tudo era pecado nos anos 50. Eu tinha uns doze anos e ouvia duas correntes de teoria sexual: a do Bené,- o pipoqueiro e seu fiel assistente Alfredinho, o aleijado, que me ensinavam coisas como "toda mulher dá, menos as mal cantadas" ou então a teoria dos jesuítas sobre a pureza das santas virgens.

Assim, dividi as mulheres em dois grupos : as "inatingíveis" e as "sem -vergonha". De longe, eu era um fauno e, de perto, um romântico melancólico. Vivia de binóculo na casa de meu avô, olhando mulher nua nas janelas ou no cinema vendo Maria Antonieta Pons, a rumbeira de coxas inefáveis, la no balcão do cine Alaska, em sôfregos pecados.

Por outro lado, as meninas que eu amava não "existiam" - elas flutuavam diante de mim como "dulcineias" impossíveis.

Simone era morena, linda, tinha um queixo com covinha e se recusava a dançar; Norma fez cara de nojo, quando eu falei "I love you" e saiu contando para todo mundo; Miss Baby era uma mulher de 40 anos que dançara no cassino da Urca e ria de meu tremor; Ciomara deu para me chamar de "pirralho"; Terezinha se fantasiava de odalisca e cantava (não para mim): "E" com esse que eu vou, dançar até cair no chão...".

Essas eu amava, com clara vocação para "pierrot apaixonado" , para desgosto de Bené e Alfredinho que já me olhavam desconfiados, correndo eu o risco de sair da categoria de "babaca" para a terrivel legião dos "veados", já que eu nunca pegava nos peitinhos de nenhuma, contrariamente a meu amigo e rival Cabeção que, veridicamente ou não, se gabava até de sodomias perpetradas em alunas do colégio Jacobina. Amor, sonho e lagrimas eram para as meninas impossíveis. Sexo, vícios solitários eram dedicados à grande Angelita Martinez que dançava na TV Tupi ou à Virginia Lane na "Revista do Radio".

Meu pai era da Aeronáutica e, nessa época, a grande crise politica pela morte do major Rubens Vaz estava no auge. "Mar de lama", "mar de lama" era o que se ouvia no radio, na voz do Carlos Lacerda, na briga da UDN contra o governo de Getúlio. "Mar de lama" me soava como o Mangue, parecia com os pecados que me atraíam, como as historias de Alfredinho, que contava da freira que ele teria comido, no hospital de sua paralisia infantil.

Foi ai que apareceu a Daisy, que não era nem piranha nem santa.

Até mesmo o experiente Bené não soube como classificá-la, quando ela chegou na carrocinha de sapato alto, muito pintada, pedindo pipoca doce e cantando para si mesma o baião "Kalu", sucesso da famosa Dalva de Oliveira. Ela era pálida e tremula, tinha os olhos muito negros e separados, por cima de uma grande boca onde tremia um esgar de deboche, um riso contido, como se ela conversasse com alguem dentro de si mesma. Meus mestres de sexo ficaram embaraçados. Daisy morava sozinha com o pai, um medico triste e vermelho, apertado num terno negro, com "pince-nez" pendente do bolso. Era viuvo, espirita e tratava de doentes, ali na própria casa onde tinha consultório.

Daisy me siderou. Fiquei absolutamente apaixonado em segundos, a ponto de Bené me olhar com preocupação. Daisy tinha uma inquietude que eu nunca vira em ninguém. Seu jeito etéreo, seu flutuar de louca davam-lhe uma magia que virava a vida em reles cotidiano rasteiro, inferior ao mundo fabuloso que ela parecia habitar. Era mais velha do que eu e me dizia frases enigmáticas que ela lia de um diário de capa roxa cheio de desenhos, enquanto eu ficava afogado em seus olhos. "Este vestido é francês; era da minha mãe, etiqueta Jacques Fath, este leque era da minha avó que foi amante do senador...".

Um belo dia, ela me levou para sua casa escura onde o pai atendia doentes. Entrei por um corredor cheio de retratos de uma mesma mulher, sua mãe morta, que o pai ampliara, desconsolado na viuvez de luto fechado. A esses retratos, seguiam-se outros, de pessoas fora de foco, com nuvens brancas saindo de suas bocas, pairando em volta de suas cabeças, como algodão. "E" o ectoplasma, a matéria da alma", me dizia Daisy, "o espirito delas, fotografado por papai".

Daisy, muito agitada e encostando-se em mim, perguntou se eu já vira "espíritos" e disse que, se eu esperasse do lado de fora do consultório, eu teria uma "revelação do além", mas que eu só poderia entrar quando ouvisse musica lá dentro. Fiquei no corredor escuro, olhado pelos retratos da mãe de Daisy, em muitas poses, ou triste ou sorrindo e (lembro-me) ao lado do pai, de "tailleur" e chapéu no Pão de Açúcar.

De repente, começou uma musica dentro do consultório creio que era Francisco Alves: "...na caricia de um beijo". Entro de coração disparado. Na sala escura, Daisy estava deitada na mesa de consulta do pai, com quatro velas acesas em volta, com o vestido da mãe aberto ate a cintura e e os seios nus, dourados pela luz das velas. Com os olhos fechados, ela fingia não respirar. Eu, em pânico, sussurrava: "Daisy...acorda! Vem gente!...".

Não sei se ela me puxou ou se eu mesmo mergulhei entre seus seios, beijando-os e deslizando meu rosto por seu corpo até o ventre, numa fortíssima excitação que faria inveja a Bené e Alfredinho. E foi assim que fui surpreendido pela imensa gritaria das empregadas no corredor, invadindo a sala, aos gritos de "Dr. Getulio se matou!!" Os rádios davam em edição extraordinária o suicídio do homem, com um tiro no peito ensanguentado.

"O presidente morreu!", gritavam. A cozinheira soluçava no avental. Fugi correndo sob a voz trágica do repórter Esso.

No dia seguinte, com o mar de povo envolvendo o caixão de Getulio, eu só via o corpo branco de Daisy, flutuando sobre as multidões.

VAMOS COMPRAR UM FORD?


DORA KRAMER

Um pontapé no rapapé

O ESTADO DE SÃO PAULO - 23/06/09

O senador Arthur Virgílio tem um jeito que às vezes parece um tanto desatinado. Diz coisas meio fora do esquadro, não raro ameniza ou radicaliza quando a situação pediria exatamente o contrário, não se inibe de mudar de posição levando, como líder, a bancada do PSDB no Senado ao rumo oposto do esperado.

Erra, mas quando acerta o faz na mosca. Acertou em 2007, quando conduziu os tucanos ao campo que selou o fim da CPMF e acertou de novo no início deste ano, quando se opôs à candidatura de José Sarney por um motivo preciso: a necessidade de pôr fim à “era Agaciel Maia”, inaugurada quando Sarney presidiu o Senado em 1995.

Ontem, o senador Arthur Virgílio acertou mais uma vez, quando foi à tribuna falar dos “bandidos”, dos “meliantes”, da “camarilha” que montou uma rede de ilicitudes no Senado, “certamente” tendo por trás deles senadores, “cujos nomes precisam ser averiguados, divulgados e enviados ao Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar”.

Arthur Virgílio denunciou movimentos de chantagem por parte dos citados “meliantes” – Agaciel Maia e João Carlos Zoghbi – com o intuito de intimidar senadores. Virando-se diretamente para José Sarney, sentado na cadeira da presidência, pôs o dedo na ferida: “Se vossa excelência romper com essa camarilha, me terá ao seu lado na tarefa de reerguer o Senado, mas, se não romper, vossa excelência perderá a condição de continuar a presidir esta Casa”.

Momentos antes, uma frase no meio do discurso soou particularmente desafiadora: “Para mim, o clima é de abafa”. Não foi polido, não foi edificante, mas foi indispensável. Um rompimento com o pacto de mesuras e a introdução do fator conflito no Senado a fim de que a instituição não fique eternamente refém da crise por impossibilidade de dar combate às suas origens.

Virgílio chegou a ser rude ao chamar de “desculpa tola, aparvalhada e retardada” a negativa da existência dos atos secretos. O presidente do Senado, ali presente, havia sido o autor, dias antes, da desculpa tola, aparvalhada e retardada, naquele mesmo plenário.

O líder do PSDB mandou às favas os salamaleques e, diferentemente do ocorrido na semana passada, não houve silêncio nem reverência em relação a Sarney. Nos apartes, os senadores acompanharam o tom. Atitudes peremptórias não são comuns naquele ambiente em que se transgride no escuro, mas, em público, a regra é a da cortesia, da amenidade, da fidalguia antiquada.

É verdade que o Senado já foi frequentado por cavalheiros (naquele tempo eram só homens) de mentes e modos mais refinados, mas, a despeito da queda no padrão de qualidade, conservou-se ali o hábito da polidez arcaica.

Saudável em tempos normais, para o enfrentamento de uma crise de origens profundas acaba sendo pernicioso. A lógica da contemporização permanente favorece o compadrio, leva à tolerância dos vícios e impede que a instituição confronte e seja confrontada “por dentro” com suas mazelas.

Nada se aprofunda, as coisas não ultrapassam um determinado limite a partir do qual reina a regra do pano quente, a invocação da preservação do Parlamento, o respeito a biografias alegadamente intocáveis, a acomodação de conveniências e, a fim de contornar temidas rupturas, tudo acaba se ajeitando.

Na crise seguinte, a história é retomada de um patamar mais baixo. Queira o bom senso que tanto o líder do PSDB quanto os senadores que o acompanharam na indignação de plenário façam dessas manifestações uma sistemática de procedimentos.

Tomara não seja algo direcionado só à pessoa de José Sarney (eleito, aliás, pela maioria cinco meses atrás) ou um ato motivado apenas pelo receio de comprometimento em relação ao conteúdo os atos secretos, cuja divulgação é prevista para hoje.

Se não, é como disse o senador Pedro Simon: “Ou o Senado faz as mudanças ou será atropelado por elas”. De nada adiantará se, mais uma vez, a maioria resolver contemporizar como fez – com a anuência dos que agora finalmente percebem o equívoco – quando concordou em salvar o mandato de um então presidente explicitamente transgressor e depois concordou em entregar a ele, por intermédio de Sarney, o poder das urdiduras de bastidor.

A “operação mãos sujas” que ontem se procurou desmontar no plenário obedece à mesma padronagem das tentativas de constrangimentos difamações contra senadores à época do processo por quebra de decoro contra Renan Calheiros.

O nome de Renan Calheiros não se pronuncia. E aí reside uma estranheza, pois se confere a ele a gentileza da exclusão do ataque frontal, não obstante a ciência de que é ele hoje o arquiteto principal da derrocada final.

Obra que começou a construir na presidência – emprestando ao cargo um caráter explícito de indignidade – e continua a comandar como eminência das trevas, sob o olhar complacente dos valentes e a admiração aprendiz dos coniventes.

CLÁUDIO HUMBERTO


CAIXA CRIA EMPREGO PARA PETISTA NA VENEZUELA
A Caixa vai abrir em Caracas (Venezuela) sua primeira filial no exterior, para financiar obras e programas do semiditador Hugo Chávez e transferir tecnologia em informática, muito embora tenha um dos sistemas mais atrasados da rede bancária brasileira. O cabide da Caixa será chefiado pelo gaúcho Álvaro Hall, petista radical ligado ao ministro Tarso Genro (Justiça), que nem fala a língua local, diz fonte da Caixa.
ENVERGONHADOS
Prometida por Lula a Chávez no recente encontro de Salvador, a filial em Caracas tem tratamento “sigiloso” na Caixa. Deve ser por vergonha.
COMO DOIS E DOIS
Como na Bolívia, que surrupiou a refinaria da Petrobras, e Equador, que dá beiço no BNDES, o prejuízo da Caixa na Venezuela é garantido.
ZÉ NO FORRÓ
O ex-ministro José Dirceu foi a atração do São João de Caruaru (PE), ontem, como convidado do deputado Wolney Queiroz (PDT-PE).
SHAZAN!
A palavra mágica no Senado agora é “reforma política” para salvar a “imagem” da Casa. E o dinheiro surrupiado do contribuinte, ó...
DESERTOR DAS FARC QUER AJUDA PARA SAIR DO BRASIL
Ex-membro das narcoterroristas “Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia” (Farc), Guillermo Carodozo Horta está em Brasília à espera que o governo federal pague sua viagem para o Canadá, onde pretende viver. Ele diz ter sido sequestrado aos 14 anos e forçado a trabalhar pelas Farc, mas desertou e teme ser executado pelos bandidos. Ele fugiu da Colômbia, onde vivia escondido, e está no Brasil desde fevereiro.
BOCA DE ESPERA
Acolhido na comunidade religiosa “Vale do Amanhecer”, Guillermo Horta vive hoje com um casal de evangélicos em Céu Azul, a 50km de Brasília.
BRASIL, NÃO
O governo ofereceu “refúgio” ao ex-narcoterrorista das Farc, como o fez a outros 551 colombianos, mas Guillermo recusou. Ele quer ir embora.
É COISA NOSSA
Festa de São João é levada a sério no Ministério Público de Pernambuco: fechou as portas ontem e só reabre na quarta-feira.
DEVAGAR, QUASE PARANDO
O ministro Geddel Vieira Lima perde o aliado, jamais a piada. Sobre a comparação que fazem dele com o falecido ACM, alfinetou: “É mania das pessoas. Tem gente que compara Pelé a Maradona ou o [governador Jaques] Wagner ao Waldir Pires”, ex-governador manemolente da Bahia.
AGACIEL, O ‘INCANSÁVEL’
Ao lançar o livro Tempo de Transformação em 2007, o ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia ganhou prefácio do
ministro Nelson Jobim, então no Supremo Tribunal Federal, que destacou “o trabalho incansável em aumentar os laços que unem o Senado à sociedade”.
PAPALETRAS Incansável na verborragia para driblar com panos quentes a crise dos “atos secretos”, o senador tucano Papaléo Paes (PSDB-AP) é forte candidato ao troféu “Rolando Lero” de 2009.
SOCORRO, POLÍCIA
O Banco do Nordeste contratou uma empresa de segurança em Salvador para transportar malotes de sua agência na Praça Senhor do Bomfim para o Banco do Brasil, na mesma praça. A vinte metros de distância.
TÃO LONGE, TÃO PERTO
A presidente das Filipinas, Gloria Arroyo, recebida ontem pelo presidente do Senado, José Sarney, enfrentará no Senado em Manila uma investigação dos gastos com a viagem, e de outra, ao Japão.
TERRA SEM LEI
De uma lista com 17 pessoas marcadas para morrer no Pará, doze já foram assassinadas. A vítima mais recente foi o sindicalista Luiz Lopes Barros, no último dia 12. Todos mortos com tiros à queima-roupa.
FILHO GRATO
A cidade histórica de Mariana (MG) terá a Casa de Cultura Fernando Morais, com centro de jornalismo investigativo. O escritor vai transferir para a terra natal sua biblioteca de 3 mil volumes e o acervo de trabalho.
BOLA MURCHA
Nova bola fora da “Mãe Dinah” do Planalto: Lula, o da “marolinha”, foi desmentido pelo conselho dos aiatolás do Irã, que reconheceu mais votos que eleitores na vitória do porralouca Ahmadinejad.
PENSANDO BEM...
o Senado já tem um culpado para a crise: o mordomo de Roseana Sarney.

PODER SEM PUDOR
O LOCAL ADEQUADO
Governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima (PSDB) foi procurado por um deputado da oposição louco para aderir. Mas impôs uma condição:
– Precisamos conversar num local onde ninguém nos veja.
Cunha Lima respondeu, na lata:
– Só se for no Instituto de Cegos...

BONS COMPANHEIROS

TERÇA NOS JORNAIS

- Globo: Senadores denunciam chantagem de ex-diretor


- Folha: Ato secreto elevou verba de senadores


- Estadão: Atos secretos envolvem 35 senadores


- JB: Fogo no Senado


- Correio: A ofensiva evangélica no DF


- Valor: CEF atinge limite e busca aquisições


- Jornal do Commercio: A noite mais esperada pelos nordestinos

domingo, junho 21, 2009

JOÃO UBALDO RIBEIRO

Sangue novo na imprensa


O GLOBO - 21/06/09


Sou do tempo em que se falava na "imprensa escrita, falada e televisionada" e, para ser sincero, implico com a palavra "mídia", embora saiba que não adianta.

Mas é que essa palavra entrou em meu vocabulário através do inglês, onde ela ainda é como em latim: singular "medium", plural "media". Entre nós, ganhou um acento e virou coletivo.

Não tenho nenhum argumento realmente defensável contra esse fato, é a velha rabugice mesmo, acho que com a idade ela vai piorando.

Mas deve haver algum dispositivo no Estatuto do Idoso que me dê direito a isto, de forma que apenas aviso que, quando escrevo sobre imprensa, penso na escrita, na falada e na televisionada.

A semana que passou trouxe novidades para a imprensa. Não me refiro à extinção da exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista, até porque acho que nada vai mudar muito. A imprensa certamente procurará contratar profissionais de áreas diversas da comunicação para atender a algumas necessidades, notadamente de jornalismo analítico e especializado, mas deverá continuar a dar preferência genérica a profissionais formalmente habilitados, e um diploma de jornalista ainda pesará no currículo.

Grande novidade mesmo foi o anúncio de que o presidente terá uma coluna nos jornais. Ainda não sei direito como é que vai ser, mas fico maravilhado mais uma vez.

Aqui acontece de tudo, até mesmo um jornalista militante que, segundo ele mesmo, nunca leu um jornal e sabe apenas que é um papel dobrado, que solta tinta e estaria melhor embrulhando peixe ou reciclado como papel higiênico. Eu ia mencionando também a necessidade de saber escrever, mas me lembrei de um ou dois coleguinhas no passado e manda a honestidade reconhecer que, em certos casos, saber escrever não tem a menor importância.

Além disso, os presidentes costumam contar com auxiliares que escrevem para eles, é uma prática universal.

Está certo, mas fico pensando como, se a notícia sobre a coluna for verdadeira, estamos mais uma vez conseguindo feitos sem precedentes.

Leremos nos jornais a coluna de alguém que não sabe redigir e que nunca lerá o que escreveram por ele. Que é que é para fazer — fingir que é ele quem escreve e que ele sabe do que se trata? Deve ser.

Por outro lado, considerando a inescapável função crítica da boa imprensa, ele vai criticar quem? Assim como a imprensa costuma vigiar e criticar os governantes, talvez ele critique os governados, quem sabe. Talvez a coluna pegue um nome como "Pito à Nação", ou coisa assim. Creio que estamos até precisando, embora talvez não do teor que ele pensa.

Como daqui a pouco não haverá mais países para ele visitar e assim evitar trabalhar onde devia, imagino que apenas a coluna e o programa de rádio que ele já tem não serão suficientes para distraí-lo. Claro, resta a televisão e não há por que rejeitar a idéia de um Domingão do Lulão apresentado por ele, com quadros como "Topa Tudo por um Cargo", "Você Leva e Eu não Vejo", "Se Faça sem Força", "A Maracutaia da Semana" e outros, em que serão sorteadas bolsas, cestas básicas, sinecuras na Petrobras e similares.

O novo colega, também se comenta muito, virá junto com um pretendido enfraquecimento da imprensa, através principalmente da manipulação da distribuição de notícias e respostas a perguntas de repórteres ou noticiaristas. De novo, não sei bem o que se pretende, mas, já que a imprensa é responsável por tudo o que de mau acontece, da ladroagem geral ao tratamento imoral da coisa pública, calase a imprensa e os problemas nacionais acabam.

Bem, isso tudo seria engraçado e poderia gerar piadinhas infinitamente, mas o fato é que não é engraçado e não se pode tratar o cerceamento da liberdade de imprensa com leviandade. Hoje, num país em crise ética e moral sem precedentes, onde a sensação que se tem, diante do aluvião avassalador de escândalos e ladroagem impunes, é que isto aqui virou um carnaval ensandecido de larápios, vigaristas e aproveitadores por tudo quanto é canto, a imprensa, com todos os seus defeitos, permanece o único "poder" realmente democrático, em contraste com a situação a que chegaram os poderes oficialmente constituídos. Ao contrário deles, a imprensa está sujeita à permanente fiscalização e ao julgamento, frequentemente severo, de seu público. Deve — e presta — satisfação a seus leitores, ouvintes e espectadores. Não pode se lixar para a opinião de seu público e, se um órgão de imprensa trai seu público, a sanção, em forma de queda talvez fatal na circulação ou credibilidade, é pesada e inevitável, novamente ao contrário do que ocorre na esfera oficial.

E esse tiro, que talvez pareça fácil, mas não é, pode sair pela culatra, mesmo que de início bem-sucedido. Vai ver, os interessados acham que a imprensa é parecida com eles. Não é. O que vai acontecer com a imprensa, se privada das fontes oficiais, é que ela irá buscar a informação onde quer que esta puder ser obtida. Multiplicar-seão, inevitavelmente, vazamentos de informação, e as consequências, para quem queria estancar as denúncias, poderão ser opostas, ou seja uma chuva de escândalos ainda mais estonteante.

O problema, naturalmente, não é nem nunca foi a imprensa, nem existe o tal denuncismo de que o presidente falou. O que existe é safadeza mesmo em todos os setores do governo e do Estado e aqueles que sabem um pouquinho do que se passa em torno não aguentam mais ter sua inteligência e seus valores insultados, geralmente de forma grosseira e cínica. Mas talvez o novo coleguinha resolva o problema.

Antigamente se ensinava que a notícia bem feita diz na abertura o quê, quem, quando e como. Ele bem que podia fazer isso na primeira coluna dele, ia ficar com assunto para muito tempo.

CARLOS HEITOR CONY

A mosca


FOLHA DE SÃO PAULO - 21/06/09


Rio de Janeiro – Um pedreiro anônimo teve mais do que os seus 15 minutos de glória. Teve 16. Trabalhando no cemitério junto a uma igreja de São João Del Rei (MG), emocionou a nação e comoveu a cúpula do Estado que lá estava para sepultar Tancredo Neves – ato final de um drama que abalou todo o país. Ficou no ar em rede nacional, via satélite, nem por isso se afobou, cumpriu o ofício como se estivesse sozinho, caprichou com sua pá humilde, dando à cerimônia um momento de reflexão: assim passa a glória do mundo.

Não tenho certeza, mas apareceu no Fantástico, nos programas do Jô e do Faustão, mereceu charge do Chico, artigo do Elio Gaspari. Tanta e tal façanha foi agora superada em escala mundial por uma mosca que saiu não se sabe de onde, de alguma lixeira de Washington (DC) e, ludibriando o esquema de segurança mais ostensivo da história, penetrou no sagrado espaço oval do salão também oval da Casa Branca, importunando o homem mais poderoso do mundo.

O Houaiss explica (ou complica) o que seja uma mosca: designação comum aos insetos dípteros esquizófonos da subordem dos ciclórrafos que se dividem em caliptrados e acaliptrados. É coisa antiga no Universo. Tibério, em Capri, passava o tempo matando moscas para se distrair do tédio de governar o maior império do mundo.

Mais ou menos com o mesmo poder e já com algum tédio, Barack Obama trucidou com certeiro golpe e destra mão um exemplar da espécie, que teve também seu momento de glória. Não precisou usar seu assombroso arsenal militar, seus porta-aviões que sozinhos são capazes de dominar a Terra, suas ogivas nucleares, os serviços do FBI e da CIA.

Com um peteleco e uma expressão de quem é hábil em matar moscas, deu um único golpe e matou a mosca e a questão.

GOSTOSAS DO TEMPO ANTIGO


TOSTÃO

Professor Dunga continua bem


JORNAL DO BRASIL - 21/06/09


Contra os EUA, o Brasil melhorou na defesa, no meio de campo e no ataque. Melhorou porque trocou mais passes, Gilberto Silva e Felipe Melo jogaram mais na frente, o contra-ataque ficou ainda mais rápido com Ramires, e Maicon e André Santos são superiores a Daniel Alves e Kléber. Maicon marca melhor e avança mais pela lateral. Daniel Alves é mais um armador pela direita.

Independentemente do que vai acontecer hoje e nos próximos jogos, Dunga vai bem. Isso não é porque ele tem inovado e surpreendido ou porque a seleção tem uma ótima porcentagem de vitórias. Dunga vai bem porque, mesmo sem nunca ter sido um treinador, tem mostrado que é capaz de fazer o que outros bons e experientes treinadores fariam.

Isso é mais uma evidência de que os técnicos não têm a enorme importância que eles e a maior parte da imprensa acham que têm. Outro bom treinador teria, na seleção, mais ou menos a mesma média de bons resultados.

Os técnicos são importantes, mas nem tanto. Luxemburgo é apenas um excelente treinador, como outros. Mesmo se fosse capaz de ganhar as partidas, seria absurdo um clube brasileiro pagar ao técnico o que ele ganha. O presidente do Palmeiras, Belluzzo, como um grande economista, deveria saber disso.

Volto à seleção. Em 2005, o Brasil ganhou a Copa das Confederações com brilhantes atuações contra Alemanha e Argentina. Na Copa de 2006, foi um fracasso. Isso não quer dizer que, se o Brasil ganhar o atual torneio, vai fracassar na Copa. Nem o contrário.

O que não se pode é achar que está tudo ótimo nas vitórias e péssimo nas derrotas. Galvão Bueno, porta-voz da TV Globo, que exerce grande influência na imprensa e no público, tem sempre um discurso pronto para a vitória e outro para a derrota, de acordo com a audiência. Seus conceitos mudam em poucos minutos.

A festa em Weggis, local de treinos da seleção antes da Copa de 2006, considerada um dos fatores para o fracasso brasileiro, não foi só festa da seleção. A maior parte da imprensa presente na Suíça estava deslumbrada com a equipe. As entrevistas de Parreira eram mais para elogiar que para perguntar. A turma do oba-oba estava eufórica. Parecia uma seleção perfeita. Não poderia dar certo.

Deformados conceitos

Contra o Inter, Mano Menezes não foi atrás da deformada onda de que um time em casa não pode levar gol. Claro que isso é importante. Porém, muito mais importante é, em casa, arriscar e fazer gols. O técnico escalou um armador ofensivo no lugar de André Santos, adiantou a equipe, fez um gol e foi atrás de outro, mesmo correndo o risco de sofrer um. Se terminasse 0 a 0, as chances do Corinthians seriam mínimas em Porto Alegre.

Pelo fato de o São Paulo ter vencido o Cruzeiro pelo Brasileiro, Muricy manteve Eduardo Costa no lugar de Hernanes. Mesmo fora de forma, não dá para ver Hernanes na reserva do brucutu Eduardo Costa, que já merecia ter sido expulso no Mineirão. Repetir sempre a formação por causa de uma vitória é outro deformado conceito. “A bola pune”, como já disse Muricy.

DORA KRAMER

Tanto vale quanto pesa


O ESTADO DE SÃO PAULO - 21/06/09


Desde a famosa entrevista do senador Jarbas Vasconcelos à revista Veja, em fevereiro, dizendo que o PMDB “não tem bandeiras” e, em sua maioria, só se interessa por corrupção e fisiologismo, dirigentes do partido passaram a se preocupar com uma possível queda no valor de suas ações no mercado eleitoral.

Até então, o PMDB era visto como o mais cortejado, o mais poderoso, mais espetacular e fundamental aliado das eleições de 2010, disputado por candidatos de governo e de oposição.

Saíra das eleições municipais valorizado por importantes e abundantes vitórias, acabara de eleger os presidentes da Câmara e do Senado, em suma, um troféu intensamente cobiçado. Naquele momento ninguém falava dos seus decantados defeitos, só se celebravam suas qualidades de legenda mais bem organizada e presente em todo o país. Era a glória.

Mas aí veio Jarbas Vasconcelos e lembrou de detalhes explícitos na metodologia pela qual o PMDB galgara degraus em direção ao topo. Na ocasião, houve mesmo quem interpretasse a manifestação como um ato deliberado do senador, um assumido aliado da candidatura José Serra no PSDB, para afastar o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que, segundo a direção do PMDB, naquela altura retomava conversas sobre a possibilidade de se filiar ao partido para se candidatar à Presidência.

Aécio, na época, negou não só a intenção de abandonar a seara tucana, como também a existência de qualquer conversa nesse sentido com o PMDB. O tempo tanto confirmou a versão de Aécio, quanto corroborou as preocupações dos dirigentes do PMDB.

As desventuras desabaram em série sobre o partido: denúncia de corrupção na Funasa, na voz do ministro da Saúde; repúdio dos funcionários de Furnas às investidas peemedebistas sobre o fundo de pensão da empresa; reclamações do PT contra a ambição do companheiro de aliança; e, para completar a fase infernal, a crise no Congresso.

Os escândalos sem fim pegaram o PMDB no comando das duas casas. Não havia, portanto, como empurrar a conta para o vizinho. Na Câmara, o presidente licenciado do partido, Michel Temer, ficou à frente das cobranças sobre a farra das passagens aéreas. E, no Senado, José Sarney, viu seu sonho de coroar a carreira em figurino de majestade, virar um pesadelo de infortúnios.

Os concorrentes de 2010 continuam a cobiçar o PMDB. O partido segue sendo um parceiro valioso. A questão que se impõe internamente, no entanto, é a seguinte: até que ponto seu cacife foi desvalorizado?

Há valor na conquista do PMDB. Mas, tirando o tempo de televisão proporcional ao tamanho de suas grandes bancadas no Congresso, o que tem o partido a oferecer?

Será ainda uma boa companhia de palanque ou já terá se tornado um parceiro pesado, dono de má fama difícil de carregar? Depende do uso pretendido. Para as funções de cozinha, o horário gratuito, vale muito. Mas, para apresentar às visitas (o eleitorado), há fortíssima controvérsia.

Sinuca

A solução para o caso dos atos secretos, reconheça-se, não é fácil. Requer firmeza e certa dose de ousadia. Pelo seguinte: os atos existem, as assinaturas dos executores estão expostas, mas ainda falta apontar os mandantes. Senadores, obviamente.

Como há parlamentares que realmente os desconheciam, não faz sentido responsabilizar o colegiado que, no entanto, está levando a fama. Isso tende a aumentar a tensão interna e a pressão pela identificação dos culpados.

Tempo que ruge

Depois de decidir à revelia do partido que Dilma Rousseff seria a candidata presidencial do PT, Lula invocou o direito de resolver, em nome do PMDB, que o candidato a vice na chapa, deve ser Michel Temer. Como já absorveu também a tarefa de escolher os estados onde o PT terá, ou não, candidato a governador, não seria surpreendente se o presidente pretendesse também interferir nas candidaturas estaduais do PMDB.

Lula centraliza a armação do jogo de 2010, a fim de evitar que os partidos envolvidos percam tempo e energia em processos de discussão e até disputa internas. Teria, com isso, uma vantagem em relação à oposição, cuja decisão – pelo menos em tese – ainda depende da composição de forças no PSDB.

Do ponto de vista estritamente pragmático, o sistema pode ser eficaz. Mas, sob a ótica da autonomia e, portanto, do fortalecimento dos partidos, o modelo autocrático resulta em retrocesso. De todo modo, Lula luta contra o tempo, pois uma coisa é a docilidade dos partidos aliados agora, a 15 meses da eleição. Em anos anteriores, nessa altura não havia candidatos dados como certos.

Outra situação bem diferente é aquela pauta pela conta de conveniência feita à medida que esse prazo encurta na proporção direta da redução do tempo de permanência no poder do governante em fim de mandato. Daí a pressa.

VAMOS CALCULAR?


LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

“My way” do meu jeito

O GLOBO - 21/06/09

Agora que o fim está perto
E se aproxima a última cortina,
Meus amigos, sei que estou certo:
Minha vida não foi rotina.
Vivi uma vida cheia,
Viajei pra não botar defeito.
E mais, mais do que isto,
Fiz do meu jeito.
Remorsos, tive alguns,
Mas, pensando bem, nem foram tantos.
Fiz o que tinha que fazer
Mesmo que aos trancos e barrancos.
Planejei cada passo tomado,
Em cada estrada ou caminho estreito,
Mas mais, mais do que isto,
Fiz do meu jeito.
Sim, sei que há quem diga
Que o olho foi maior que a barriga.
Mas em nenhum momento hesitei,
Engoli tudo e não regurgitei,
Enfrentei tudo
E não fiquei mudo.
E fiz do meu jeito.
Amei, ri e chorei.
Tive a minha cota de desengano,
Mas agora, que as lágrimas secaram
Tudo me parece tão mexicano...
Pensar que fiz tudo isso
E, posso dizer, não sem muito peito.
Não mesmo, não este aqui:
Fiz do meu jeito.
Pois afinal um homem o que é
Se não sabe ficar de pé
E dizer o que realmente acredita
Sem temer a desdita?
Os autos estão aí
Pra mostrar que não fugi.
E fiz do meu jeito.
(Mas com a última cortina pendendo
Eis o mote para um psiquiatra.
Trocaria o meu jeito correndo
Pelo jeito do Frank Sinatra).

CLÁUDIO HUMBERTO

“É absolutamente provável”
MINISTRO TARSO GENRO (JUSTIÇA) SOBRE SUA CANDIDATURA AO GOVERNO GAÚCHO, EM 2010

TASSO PROMETEU À FAMÍLIA ABANDONAR A POLÍTICA
O coronel e senador tucano Tasso Jereissati (CE) confirmou à família, em tom de promessa solene, que vai mesmo abandonar a política. Ele já havia feito isso antes, em novembro de 2007, conforme esta coluna revelou. No início deste mês, em conversa com empresários cearenses, ele admitiu: “No ano que vem eu faço 62 anos e estou nessa vida desde os 36 anos. É cansativo, é desgastante”. A gente tem que ver isso.”
SEM ESPAÇO
A chance de reeleição de Tasso diminuiu com o apoio do governador Cid Gomes (PSB) ao candidato ao Senado Eunício Oliveira (PMDB).
SEM SAÍDA
Tasso sabe que se Dilma Rousseff (PT) for eleita presidente, ele não vai liderar a oposição; se der José Serra (PSDB), não será líder do governo.
A CONTA É NOSSA
O Ministério da Agricultura contratou uma empresa para construir seu próprio site de notícias. Mas não é que vamos pagar: R$ 1,7 milhão.
EDMAR SE SALVA
Dificilmente o deputado Edmar Moreira (MG), o do castelo, será punido com a cassação. Até seus críticos na Câmara apostam em “advertência”.
PORTAL DÁ ASSISTÊNCIA A MULHERES AGREDIDAS
A Associação de Mulheres Empreendedoras, do Distrito Federal, criou um portal na Internet para atender mulheres vitimas de agressão física e mental. Liderada pela ex-presidente da OAB-DF Estefânia Viveiros; Auristela Constantino, herdeira da Gol; e Cristina Boner, presidente da TBA, a AME tem o apoio da própria Maria da Penha, que batizou a Lei que protege as mulheres da violência doméstica.
AJUDA ONLINE
No portal “Maria da Penha”, mulheres agredidas terão assistência legal e psicológica, e podem até encaminhar denúncias à polícia ou à Justiça.
RANKING DA COVARDIA
A AME atestou que o Distrito Federal é a unidade da Federação que tem mais ações de mulheres que recorrem à Lei Maria da Penha.
ILUSTRES
A própria Maria da Penha e a ministra de Políticas Especiais para as Mulheres, Nilcéia Freire, estarão presentes na inauguração do portal.
O CÉU É O LIMITE
O deputado Silvio Costa (PMN-PE) chama de “Janela para o Céu” o prazo que permitirá os parlamentares “pular a cerca” da fidelidade partidária. Ele preside a comissão que examina o mérito da proposta.
ESQUECERAM DE MIM
O deputado Jackson Barreto (PMDB-SE) anda reclamando do fim dos seus quinze minutos de fama, como autor da emenda do terceiro mandato. “Só se fala agora no parecer do José Genoíno”, choraminga.
NATIMORTA
O presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, Tadeu Filippelli (PMDB-DF), colocará em votação na próxima semana o parecer do deputado José Genoino (PT) contra a emenda do 3º mandato.
VIAGEM
Após fazer apologia da maconha (para alegria de traficantes) na marcha no Rio com 1,5 mil viciados, o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) não para de viajar: acha que ficou “grande demais” e quer disputar o Senado.
AVAL DE LÍDER
O deputado Henrique Alves (RN), líder do PMDB na Câmara, aposta que Danilo Forte ficará na presidência da Funasa, mesmo após a recente operação da PF no órgão. Forte chegou ao cargo por indicação dele.
ALÉM DA LEI
O governo do Acre ignora a lei e a recomendação do Ministério Público para retirar nomes de vivos de prédios públicos. A Biblioteca da Floresta Marina Silva é um deles. O ministro Carlos Minc vai querer também.
NO PALANQUE
Achando-se em alta por conta das supostas melhorias nos serviços do INSS, o ministro petista José Pimentel (Previdência) ainda não decidiu se disputará o Senado pelo Ceará ou o quinto mandato de deputado federal.
DINHEIRO A RODO
A Câmara dos Deputados acha pouco e paga R$ 150 mil a dois juristas – Clóvis de Barros e Manoel Gonçalves Ferreira Filho para que elaborem parecer sobre limites para o uso de passagens aéreas pelos deputados.
PLANTÃO MÉDICO
José Sarney goza de boa saúde, mas preside um Senado que sofre de mal recorrente nos políticos: o TON – transtorno obsessivo do nepotismo.

PODER SEM PUDOR
O VEREADOR E O BARBEIRO
O vereador Inaldo Jr, de Guarabira (PB), tentava, em vão, convencer o barbeiro da cidade a votar no deputado Zenóbio Toscano, em 2002:
– Voto em Beto Meireles, que sempre corta cabelo e faz barba aqui...
Beto era aliado de Roberto Paulino (PMDB), que disputava o governo da Paraíba contra Cássio Cunha Lima (PSDB), aliado de Zenóbio.
No segundo turno, o vereador pediu o voto do barbeiro para Cássio, mas o homem já havia definido seu voto em Paulino. O vereador insistiu:
– Mas ele nunca cortou o cabelo na sua barbearia...
– E seu Cássio também nunca veio a Guarabira fazer a barba comigo...

O BAR ZIL


DOMINGO NOS JORNAIS

- Globo: Cade antecipa linha dura na análise de megafusões


- Folha: Auditoria vê novas fraudes no Senado


- Estadão: Curió abre arquivo e revela que Exército executou 41 no Araguaia


- JB: Restaurantes de luxo fora da lei


- Correio: Chinatown candanga

sábado, junho 20, 2009

O VELHO SAFADO E A PUTA DA SUA FILHA


MORDOMO DE ROSEANA SARNEY É PAGO PELO SENADO:R$ 12.000,00

TÁ COM PENA? LEVE COM VOCÊ

J. R. GUZZO

REVISTA VEJA

J. R. Guzzo
Empregos secretos

"O que importa é saber se o Brasil precisa mesmo
de todos os funcionários que tem, se eles estão
nos lugares em que deveriam estar e se ganham
o que merecem pelo trabalho que fazem"

O Brasil atravessou silenciosamente, em 2007, uma fronteira que dá o que pensar: passou a marca dos 10 milhões de funcionários públicos. Tudo isso? É um número e tanto, assim à primeira vista. Qualquer coisa que chega aos 10 milhões parece grande – e no caso, quando se pensa no serviço que o público recebe em troca do que paga para sustentar essa gente toda, parece maior ainda. Seja como for, é por tais alturas que andamos. Segundo levantamento apresentado tempos atrás pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil fechou o ano de 2007 com 10 168 680 cidadãos nas folhas de pagamento da União, estados, municípios e empresas estatais, número que está crescendo a uma média de quase 1 000 novos funcionários por dia; no começo do atual governo o total era de 8,8 milhões. Nesse ritmo, pela aritmética comum, vamos chegar ao fim de 2009 nas vizinhanças dos 11 milhões de servidores.

Nenhum problema, segundo nos garante o Ipea, órgão federal que deveria servir ao público mas que ultimamente tem servido como uma espécie de braço estatístico do PT: a quantidade de gente hoje empregada pelo governo não chega a 11% da "população economicamente ativa", ou em condições de trabalhar. De acordo com os dados do mesmo levantamento, o Brasil tem menos funcionários, proporcionalmente, que a Austrália ou a Holanda, ou mesmo os Estados Unidos – onde, conforme nos esclarece a prosa utilizada pelo Ipea, a economia é "caracterizada por seu caráter privatista". A informação seria apenas uma tolice – e daí, se na Austrália é assim e na Holanda é assado? – se não fosse também uma tentativa de massagear algarismos para dar base numérica a uma ideia oficial: a de que o estado brasileiro não está inchado "por um suposto excesso de funcionários públicos".

A questão que interessa, naturalmente, não é saber se o estado brasileiro está inchado ou está murcho, em comparação com países que não têm nada a ver conosco; o que importa é saber se o Brasil precisa mesmo de todos os funcionários que tem, se eles estão nos lugares em que deveriam estar e se ganham o que merecem pelo trabalho que fazem. Não há, em relação a nenhum desses pontos, o menor sinal de resposta. O que existe, de sobra, são evidências de calamidade. Falta gente em serviços essenciais. Grande parte dos funcionários trabalha mais do que deve e ganha menos do que o seu trabalho vale. Suas chances de avançar na carreira pelo mérito são mínimas; servem a um patrão indiferente, que não recompensa quem trabalha melhor nem pune quem trabalha pior. Frequentemente, em obediência a regras ou leis que não foram escritas por eles, passam o tempo entregues a atividades inúteis, ilógicas ou prejudiciais aos cidadãos que produzem e pagam seus salários. Submetem-se a concursos em que há milhares de candidatos por vaga, enquanto veem, todos os dias, os políticos encherem o serviço público com gente que não prestou concurso nenhum – só na área federal, durante o atual governo, aumentou-se para perto de 80 000 o número de "cargos de confiança", nos quais quem manda no país pode empregar livremente amigos, parentes e associados de diversas naturezas.

Nada se compara, nesse ponto, ao espetáculo de empreguismo alucinado que o Senado Federal exibe ao público exatamente agora, dentro do processo de depravação generalizada no qual vem se afundando cada vez mais nos últimos meses. É um dos grandes momentos do pensamento oficial, sem dúvida, afirmar que o funcionalismo brasileiro está "enxuto" quando se descobre que o Senado mantinha há anos um sistema de "atos secretos" para esconder os empregos dados a parentes, contraparentes e agregados dos gigantes da vida pública nacional. A coisa fica ainda mais feia quando se constata que o desastre começa bem no topo, de onde deveria vir o bom exemplo – justo com o presidente da casa, senador José Sarney. (O ex-presidente da República é tido como um dos políticos mais bem informados do Brasil. Ao mesmo tempo, é um dos menos informados. Não sabia que um neto e a mãe do neto tinham empregos no mesmo local de trabalho frequentado por ele – além disso, tinha duas sobrinhas com cargos no Senado. Não sabia que a casa tinha 181 diretores. Não sabia que ganhava um "auxílio-moradia" de 3 800 reais por mês. Não sabia que um alto funcionário da casa, de cuja filha acaba de ser padrinho de casamento, tinha uma residência avaliada em 5 milhões de reais em Brasília. Na semana passada, fez um discurso indignado – contra a divulgação disso tudo na "mídia".)

Ainda bem que não há um "suposto excesso de funcionários" neste país.