sábado, junho 23, 2012

Laranjal mineiro - VERA MAGALHÃES


FOLHA DE SP - 23/06


Além da atuação em Goiás, Distrito Federal e Rio, a Brava Construções e Terraplanagem, laranja da Delta, foi contratada por prefeituras do interior de Minas Gerais para tocar projetos do Minha Casa, Minha Vida em 2009. Dados da quebra de sigilo da Brava que chegaram à CPI do Cachoeira mostram que a empresa recebeu R$ 52 mil do município de Natalândia, governado pelo PP, e R$ 40 mil de Bonfinópolis, administrado pelo PT, para construir 200 casas populares.

Outro lado 1 O prefeito de Natalândia, Sargento Uadir, afirma que a empresa venceu uma licitação e nunca ouvira falar de Carlinhos Cachoeira. "Conheci o Cachoeira pela CPI.'' Ele encaminhou a documentação dos contratos para o Ministério Público.

Outro lado 2 Já o prefeito de Bonfinópolis, Luiz Araújo, diz que ficou surpreso ao ver a Brava envolvida no Cachoeiragate e que quem o procurou foi João Miranda, sócio da empresa apontado como laranja do contraventor.

Eu sou você... O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, uma das instâncias que devem acompanhar os desdobramentos do impeachment de Fernando Lugo no Paraguai, é Fernando Collor (PTB-AL), que sofreu processo de impedimento há 20 anos.

A conferir Assessores do ex-presidente Lula diziam ontem que a tendência era que ele deixasse para Dilma as manifestações sobre a crise no Paraguai. Além de ser um assunto de Estado, afirmavam, Lula ainda está em tratamento de saúde.

Arraiá eleitoral Sem a tradicional Festa Junina na Granja do Torto, extinta no governo Dilma Rousseff, Gilberto Carvalho (Secretaria Geral da Presidência) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil) participam hoje de festa de aniversário de Márcia Lopes, irmã do ministro. Amanhã, o PT homologa sua candidatura à Prefeitura de Londrina.

Tricolor A convenção que formalizará a candidatura de José Serra, amanhã, terá três cores predominantes: além dos tradicionais azul e amarelo, do PSDB, o verde fará parte da programação visual por exigência do PSD.

Nota de corte Após remover, anteontem, o principal entrave para a ampla coligação proporcional desejada por Serra, o PSDB convocou sua executiva na capital para reunião hoje. À ocasião, anunciarão os pré-candidatos a vereador excluídos.

Ensaio geral A CUT ajudará Fernando Haddad (PT), que incorporou a expressão "apagão nos transportes" ao glossário eleitoral. A central levará militantes às ruas na sexta-feira em "ato pela mobilidade urbana", que terminará na Secretaria de Transportes Metropolitanos.

Photoshop Com vice do PSD, Manuela D'Ávila tirou a foice e o martelo, símbolos do PC do B, do material de publicidade que anuncia o lançamento de sua candidatura em Porto Alegre (RS).

Esquerda light A sigla de Gilberto Kassab negocia também a indicação do companheiro de chapa do ex-presidente do Ipea Márcio Pochmann (PT), em Campinas.

#prontofalei Enquanto o governo paulista se esforçava para negar ação do PCC contra PMs, o ex-comandante da corporação Álvaro Camilo escreveu em seu Twitter: "Policiais militares, fiquem atentos, cuidem do cidadão e da sua segurança pessoal principalmente de folga".

Visita à Folha Otavio Leite, deputado federal e candidato do PSDB à Prefeitura do Rio de Janeiro, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Kleber Santos, assessor de comunicação.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio

"Essa PEC é uma vergonha para o parlamento. Só aprofunda o já enorme fosso que separa o parlamentar daqueles a quem representa."
DO DEPUTADO FEDERAL JOSÉ ANTONIO REGUFFE (PDT-DF), sobre a proposta que acaba com o teto salarial de servidores, aprovada em comissão da Câmara.

Contraponto

Deixa comigo

Durante reunião em que o PSDB paulistano aprovou a ampla coligação proporcional para a Câmara, anteontem, o vice-presidente da sigla, João Câmara, ferrenho opositor do "chapão", entregou carta de renúncia ao posto. O presidente, Julio Semeghini, respondeu:
-João, vou ler e analisar sua carta, mas digo de antemão que não aceito. Se você sair, saio também.
O vereador Tião Farias, terceiro na lista sucessória tucana na capital, levantou-se e disse, arrancando gargalhadas na plateia:
-Olha, estamos aí, hein? Eu não renuncio!

Corpos despedaçados - SÉRGIO TELLES


O Estado de S.Paulo - 23/06


O assassinato do herdeiro do grupo Yoki Marcos Matsunaga por sua mulher Elize tem vários elementos que ressoam no imaginário coletivo. Em primeiro lugar, o fato de ter sido ela uma prostituta "salva" pelo cliente que com ela se casou. Esse é um forte estereótipo fantasmático da vida amorosa, a ponto de Freud ter-lhe dedicado um trabalho escrito em 1910 e ainda perfeitamente atual, pois as verdades do psiquismo não caducam. Em Um Tipo Especial de Escolha de Objeto Feita pelos Homens, Freud mostra como as imagens da prostituta e da mãe podem fundir-se em função das vicissitudes do Complexo de Édipo. Mas o mais impactante no caso é o esquartejamento que Elize praticou depois de matar o marido. Para muitos, um ato mais violento do que o próprio assassinato, pois evidencia a presença de um ódio desmesurado que não se contenta em tirar a vida do desafeto e precisa ir mais além, destruindo-lhe o corpo.

O comportamento individual de Elize dá continuidade a uma prática social comandada pela nobreza medieval europeia, que de forma semelhante punia os crimes de "alta traição", aqueles que afrontavam o rei e os símbolos de sua majestade. O criminoso era então condenado à pena de enforcamento, evisceração e esquartejamento, nisso se acrescentando muitas vezes a trituração de ossos, a castração e a decapitação. Em algumas ocasiões, o enforcamento podia ser interrompido antes da morte do condenado para que ele, ainda vivo, sofresse as dores da evisceração e castração. Seu coração e as vísceras eram imediatamente queimados numa fogueira preparada para esse fim, pois se acreditava que ali residiam sua corrupção e maldade. A castração o privava dos símbolos de poder e da procriação. Ao decapitá-lo, expressamente puniam-se suas loucas ideias de enfrentar o rei. Os pedaços do corpo eram expostos em locais de grande afluência. Com essa execução espetacular, de máxima visibilidade pública, o poder reafirmava de forma exemplar sua força e admoestava para o risco de a ele se contrapor.

A carga simbólica maior decorria da crença religiosa. Com mais convicção do que hoje, acreditava-se que no Juízo Final a alma voltaria a habitar os corpos que então ressuscitariam. Daí a importância da integridade do corpo. Ao destruí-lo, o poder eliminava física e espiritualmente o condenado, ou seja, neste e no outro mundo, impossibilitava seu ingresso na vida eterna e era essa a maior punição imaginável.

Em Portugal, o suplício judiciário foi usado também na Inquisição e aplicado a nosso herói da Inconfidência Mineira, o Tiradentes.

Não tão remotamente, procedimento semelhante foi aplicado aqui, no Brasil, com os corpos de Lampião e seu bando, cujas cabeças decapitadas ficaram expostas no Museu Nina Ribeiro de Salvador até 1969.

Algo semelhante continua ocorrendo atualmente no México, em função da guerra entre os cartéis do narcotráfico, na disputa pelo mercado da droga. Em Ciudad Juarez - onde se digladiam o grupo La Línea, que tradicionalmente controlava o tráfico na região, e o cartel de Sinaloa, chefiado por Joaquín Guzmán ("El Chapo") -, frequentemente são encontrados corpos esquartejados, desmembrados, decapitados, desfigurados pelo ácido. Exatamente como faziam os reis europeus e com os mesmos objetivos, os barões da droga querem com isso intimidar os inimigos, proclamando um poder ilimitado e inquestionável, capaz de eliminar qualquer um que ouse desafiá-lo. A única diferença é que antigamente essas execuções ritualísticas eram acontecimentos únicos, excepcionais, realizados com muita pompa em grandes encenações. No México de hoje, são acontecimentos rotineiros, banalizados, frente aos quais a população se anestesia para conseguir sobreviver.

Jonathan Littell é autor de As Benevolentes (Objetiva /Alfaguara), livro lançado em 2006 e vencedor dos Prêmios da Academia Francesa e Goncourt. O título remete ao mito grego das Erínias ou Fúrias, que perseguiam Orestes por ter ele assassinato sua mãe Clitemnestra, e o livro trata do nazismo através de seu personagem principal, um aristocrático oficial da SS. Littell publicou agora na London Review of Books (7/6/2012) o texto Lost in the Void, um assustador relato sobre a situação caótica de Ciudad Juarez, totalmente controlada pelo narcotráfico. Ao falar dos assassinatos sistemáticos, diz que a forma pela qual os corpos sofreram mutilações revela uma semiologia conhecida por todos. Se o corpo vem sem sapatos, é porque o falecido foi expulso do cartel. Se vem com as mãos decepadas e colocadas no bolso, é indício de que foi punido por ter roubado o cartel. Se tem um dedo cortado e enfiado na boca ou no ânus, é por ter denunciado alguém à polícia. Se aparece com a pele do rosto arrancada ("como casca de banana", diz ele), é sinal que foi considerado traidor do grupo.

O que ligaria a ex-garota de programa paranaense, os reis medievais da Europa e os atuais barões da droga na fronteira mexicana é o exercício do ódio, a destruição do corpo do objeto execrado. Compartilham uma vingança onipotente contra uma insuportável ofensa ao narcisismo, esteja este amparado institucionalmente ou não. A exibição do corpo esquartejado, desmembrado, dissolvido no ácido é uma demonstração intimidadora do poder absoluto, esteja ele dentro ou fora da lei. Mas Elize, ao contrário dos reis e dos narcotraficantes, não quer exibir o corpo esquartejado, quer escondê-lo. De fato, aí aparece uma diferença entre as três situações, relacionada com o exercício efetivo do poder. Ao sofrer a ofensa narcísica (a rejeição do marido), Elize onipotentemente se vinga, matando-o e desconstruindo seu corpo. Mas ela não perdeu o contato com a realidade, sabe que, se descoberta, sofrerá as consequências de seu ato. Daí precisar esconder o corpo, ao contrário dos outros dois exemplos, que, por terem grande poder (legítimo ou não) e até mesmo para reafirmá-lo, podem exibir abertamente a vingança.

Sejam quais forem as motivações e justificativas conscientes para realizar o esquartejamento do corpo do morto (razões de Estado, intimidações por parte de mafiosos, eliminação de provas incriminadoras), penso que deve sempre existir um substrato inconsciente muito primitivo, algo próximo do canibalismo, sobre o qual falamos aqui recentemente. No canibalismo predomina a ambivalência, o ódio faz matar o objeto e destruir seu corpo, o amor quer preservá-lo e com esse objetivo o ingere. Nas execuções e nos assassinatos como o realizado por Elize, predomina o ódio. O objeto é morto, o corpo é destruído e abandonado como detrito despojado de toda humanidade, mera evidência do poder daquele que o destruiu.

***

Sabe-se lá que grossas estripulias estará fazendo o leitão Dondinho ("3 anos, 48 quilos") nos paradisíacos chiqueiros celestiais. Afinal, Ivan Lessa, seu criador, nunca foi de lhe impor muitos limites.

Rio+20, sucesso ou fracasso? - KÁTIA ABREU

FOLHA DE SP - 23/06

Num mundo mais aberto e mais democrático, são mais complexos os processos de tomada de decisão

AS CONFERÊNCIAS internacionais não têm a intensidade dramática capaz de satisfazer a nossa fome de espetáculo. No entanto, elas não ocorrem em vão e dispersam sementes para além das aparências.

No caso das questões do ambiente, foi assim com a Rio-92, com Kyoto e certamente será assim também com a Rio+20.

O modo de funcionamento dessas conferências reflete a realidade de um mundo mais multipolarizado, em que se multiplica sem cessar o número de atores relevantes. Não é mais possível, felizmente, que dois ou três países se reúnam e decidam o destino da humanidade.

Os próprios governos, por sua vez, ao falar e decidir por seus países, devem respeitar a vontade livre de suas sociedades. O mundo tornou-se claramente mais aberto e muito mais democrático.

E nesse mundo, mais opiniões estão sendo levadas em conta, tornando mais complexos os processos de tomada de decisão.

A partir dessas duas premissas, pode-se fazer um julgamento mais equilibrado e mais justo da nossa conferência. É verdade que ela não foi ambiciosa e que renunciou depressa demais a seus objetivos?

Não é uma tarefa simples conseguir que 190 governantes, representando 7 bilhões de pessoas, se ponham de acordo sobre mudanças nos modos de produção, nos estilos de vida e nas expectativas de crescimento econômico para as próximas décadas.

Os próprios termos do problema dificilmente são matéria consensual, mesmo entre profissionais e ativistas. Há importantes setores dos movimentos ambientalistas que contestam duramente a "economia verde" que não passa, segundo eles, de mais um disfarce ou uma variante do desenvolvimento capitalista.

E os objetivos de uma economia sustentável não devem ser impostos por meio de ordens de governos centralizadores e sim por meio da administração de incentivos que, num ambiente de liberdade, alterem os comportamentos de produtores e de consumidores. Afinal, em que sociedade queremos viver?

Como bem disse o negociador-chefe do Brasil, embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, a objetivos ambiciosos devem corresponder recursos também ambiciosos. Uma coisa sem a outra é, no mínimo, incoerência, disse ele.

Eu diria que chega mesmo a ser hipocrisia. Os países ricos desenvolveram-se sem as regras e limites que hoje pesam sobre os países de desenvolvimento tardio e sem incorrer nos custos em que essas restrições implicam.

Por isso, se a União Europeia e os Estados Unidos desejam estabelecer objetivos concretos, devem antecipar-se e oferecer uma parte grande dos recursos necessários.

O papel da política é agir conforme a circunstância, avançando ou recuando conforme as condições reais. Nesse sentido, foi prudente recuar em relação aos recursos e aos financiamentos.

Mas, pela mesma razão, foi necessário não avançar em compromissos que custarão muito, principalmente para os países em desenvolvimento, que ainda enfrentam situações de extrema pobreza.

A preservação dos recursos naturais, para que eles possam ser aproveitados de modo duradouro pelas futuras gerações, é uma tarefa importante e que deve obrigar a todos nós. Mas ao olhar para a natureza e para os homens de amanhã, não podemos fechar os olhos para os homens de hoje; para as centenas de milhões de pobres na África, na Ásia e na América Latina, especialmente mulheres e crianças.

Para eles é preciso haver mais crescimento econômico e mais produção de alimentos. E não vamos conseguir isso retrocedendo a formas primitivas de organização da produção, abolindo o uso de novas tecnologias no campo, renunciando à engenharia genética e amaldiçoando o desenvolvimento.

A Rio+20 é o espelho do Mundo Novo, mais aberto e mais democrático, sem protagonismos excessivos. O governo brasileiro mostrou-se um ator apropriado desses tempos novos, exercendo um tipo de liderança serena, lúcida e democrática.

Estou convicta de que o Brasil, em todos os aspectos, cumpriu bem o seu papel como anfitrião de uma das conferências mais importantes deste século.

Retrocesso no Mercosul isola Brasil - EDITORIAL O GLOBO


O GLOBO - 23/06


Por conta da crise financeira internacional, as tentativas de se chegar a um acordo multilateral de liberalização do comércio exterior estancaram. O protecionismo até voltou a florescer em alguns países, o que significou um retrocesso em relação aos passos que haviam sido dados nas negociações globais em prol da liberalização. Mas, enquanto a Rodada Doha permanece "congelada", em âmbito regional é possível se observar o surgimento de novos blocos.

Esse parece ser o caso do acordo que vem sendo costurado por países da América Latina, como o Chile, a Colômbia, o Peru e o México. A chamada Aliança do Pacífico poderá ter a adesão do Panamá e da Costa Rica e promete ser mais que um tratado de livre comércio, chegando a ter características semelhantes à União Europeia, pois envolverá integração financeira, ajustes de legislação, intercâmbio dos sistemas de ensino, livre circulação de capitais e pessoas. O acordo vem caminhando com rapidez e contrasta com o que tem acontecido no Mercosul.

Devido a questões internas na Argentina, a união aduaneira no Cone Sul vem se deteriorando. Licenças prévias para importação de mercadorias brasileiras são exigidas, sem que haja um prazo definido pra a liberação. O resultado é que cresce o volume de mercadorias aguardando na fronteira ou na alfândega autorização para chegar ao destino. Os critérios para essa liberação se mostram subjetivos e sem racionalidade econômica, pois mesmo peças e componentes destinados a integrar equipamentos que serão exportados pela Argentina caem na lista de espera. Isso dá a medida da crise cambial no país vizinho.

Em resposta a essa burocracia, o Brasil tem ensaiado algum tipo de retaliação comercial, evidenciando ainda mais o retrocesso em relação às proposições originais do Mercosul.

Embora sejam os maiores mercados da América do Sul, a falta de entendimento entre Brasil e Argentina - causada por erros crassos de política econômica dos argentinos - afasta outros naturais pretendentes à participação no bloco. O Chile é um membro associado, e só não se torna integrante pleno porque, para se ajustar ao Mercosul, teria de dar passos atrás, elevando tarifas de importação. As nações que estão formando a Aliança do Pacífico precisariam fazer o mesmo.

Constituída a Aliança, o Mercosul é que precisaria se ajustar, e não o contrário, para que uma integração entre os dois blocos fosse possível.

Os termos da atual união aduaneira impedem que o Brasil negocie isoladamente novos acordos de livre comércio com outros países. Essa negociação só evolui se tiver anuência do bloco.

Enquanto isso, os vizinhos estão se mexendo e buscando alternativas, quando o natural seria uma aproximação com o Brasil, maior mercado do continente. Infelizmente, o Brasil foi contaminado pelas mazelas argentinas

Depois de tudo que se fez não faria sentido o Brasil abandonar o Mercosul. Mas também não é admissível que a união aduaneira, emperrada na burocracia e nas decisões políticas, se torne um obstáculo nas relações bilaterais do Brasil com os demais vizinhos.

Maconha estatal - HÉLIO SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 23/06

É interessante a proposta do governo uruguaio de não só legalizar a maconha como também estatizar sua distribuição. Se o projeto de lei for, de fato, aprovado, como tudo indica que será, teremos um grande laboratório para testar hipóteses sobre o impacto da legalização no consumo e no tráfico de drogas que hoje estão restritas ao campo da especulação.
A primeira dúvida é se a legalização da Cannabis apenas, e não de todas as drogas ilícitas, bastará para reduzir o poder de fogo do crime organizado. Eu não saberia dizer qual é o "share" de mercado no Uruguai, mas a medida só representará um golpe contra o tráfico se conseguir reduzir substancialmente seus lucros. Caso contrário, o "statu quo" fica mais ou menos inalterado.
Também é complicada a ideia de registrar todos os compradores de maconha e controlar a quantidade que consomem para, eventualmente, encaminhá-los para tratamento. É razoável supor que os usuários não gostem de ter o governo monitorando seus hábitos e isso poderia levá-los a continuar adquirindo a droga no mercado ilegal, que dificilmente desaparecerá. Vale lembrar que, no Uruguai, consumir drogas, pela legislação atual, já não é crime.
Outro ponto controverso é imaginar que a iniciativa ajudará os uruguaios a reduzir a demanda por crack. Há indícios científicos de que a dependência é um processo mais específico do que se imaginava. De acordo com seu tipo de personalidade, o indivíduo teria propensão para viciar-se numa ou noutra droga. De fato, se o mecanismo fosse totalmente genérico, o "dependente racional" escolheria sempre o álcool, que é abundante, barato e não tende a gerar problemas com a lei.
De todo modo, é alentador constatar que já existem países dispostos a questionar e propor alternativas ao paradigma proibicionista que, após décadas e décadas de vigência, já mostrou que funciona muito mal.

Preste Atenção! - SILVIANO SANTIAGO


O ESTADÃO - 23/06


Autor ainda não traduzido ao português, Jonathan Crary é o iconoclasta de plantão nas pesquisas e análises recentes sobre o "observador" (palavra que prefere a espectador). Em seu primeiro livro, Techniques of the Observer: On Vision and Modernity in the Nineteenth Century (MIT, 1990), Crary questiona pela raiz o modelo humano de visualização posto em vigor nos primórdios do século 19, que se apoiava na técnica da câmera obscura, difundida pela máquina fotográfica. Segundo Crary, o modelo falhava ao estabelecer diferença exemplar entre o sujeito e o objeto, dissociando-os pela instantaneidade, ao mesmo tempo em que empobrecia o observador por zerar a interação da imagem exterior com sua experiência.

O modelo humano de percepção fundado pela câmera obscura é, pois, metafórico. Visa a explicar a percepção humana por uma câmera vedada à luz, a não ser por orifício munido de lente que serve para focar uma imagem instantânea do mundo exterior, com a finalidade de transportá-la para o interior da mente. Crary substitui o modelo espacial posto em vigor pela metáfora, por outro, fisiológico – o de um olho humano sensível à luz e sujeito tanto às pulsações mutáveis do exterior quanto aos estímulos interiores da retina. Crary troca o espaço estável do dualismo sujeito/objeto pelo desenrolar duma cena temporal instável em que observador e objeto observado entram em constante interação física e psicológica.

Leitores de Freud detectam que o novo modelo se alimenta da noção de "atenção flutuante", configurada pelo mestre em 1912. A noção visa a questionar as motivações que, na escuta da fala do analisando, "dirigem a atenção" do analista. Graças a ela, o analista (o observador) passa a conservar na memória uma multidão de elementos aparentemente insignificantes cujas correlações semânticas são ressaltadas a posteriori. Graças ainda a ela, a atitude objetiva do sujeito (do observador) se adequa a objeto mutável, essencialmente deformado. A atenção flutuante permite a conversa entre inconscientes.

Em seu livro posterior, Suspensions of Perception: Attention, Spectacle and Modern Culture (MIT, 2001), Crary retorna à metáfora oitocentista da câmera obscura a fim de datar o momento em que ela se responsabilizou por nossa postura de "prestar atenção" (to pay attention). A atenção passava, então, a dirigir o nosso modo cognitivo. Ao olhar o quadro-negro, dirigir um carro, consultar a tela do computador, o indivíduo "presta atenção", e se desengaja de amplo campo de atração, tanto visual quanto auditivo. Ele foca (para usar o verbo da moda) um número reduzidíssimo de estímulos. A experiência moderna do observador requer, pois, que ele exclua da consciência muito do ambiente circundante. A vida se compõe à semelhança da colcha de retalhos. Nos últimos 150 anos, a fragmentação do sujeito não é uma condição "natural"; é antes o denso e poderoso refazer da subjetividade humana pelo prestar atenção.

A "atenção dirigida" ganha tal poder nos séculos 19 e 20 que, às vésperas do novo milênio, psicólogos alertam para o seu avesso – a síndrome do déficit de atenção (TDAH). A atividade motora excessiva é resultado do alcance limitado da atenção e da mudança contínua de objetivos a que a criança é submetida. O "transtorno psiquiátrico" (apud OMS) a desqualifica na escola, no playground e em casa.

Em termos do observador em arte, Walter Benjamin foi o primeiro a compreender "a recepção em estado de distração", opondo esta ao – em termos dele – "recolhimento". São as pulsações mutáveis de um novo objeto – no caso o filme cinematográfico – que levam Benjamin a propor a "distração" como modo de percepção do observador. Segundo ele, "a câmera cinematográfica nos abre a experiência do inconsciente ótico, do mesmo modo que a psicanálise nos abre a experiência do inconsciente pulsional". Benjamin privilegia a estética dadaísta porque suas obras produzem, "através da pintura (ou da literatura), os efeitos que o público procura hoje no cinema". E continua: "As manifestações dadaístas asseguravam uma distração intensa, transformando a obra de arte no centro de um escândalo" (v. "Dadaísmo", em A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica).

Crary não abandona a atenção para encontrar abrigo teórico na distração benjaminiana. Também não insufla – ao contrário de Benjamin – uma crítica normativa à pintura (a que convida o espectador ao recolhimento) pela oposição ao cinema (onde o espectador se abandona às associações). Crary opta por opor a atenção dirigida à atenção flutuante e por dissertar a favor de "uma intersecção paradoxal" entre as duas, cuja rentabilidade teórica e analítica passa a examinar a partir da leitura de quadros de Manet (Dans la Serre), Seurat (La Parade du Cirque) e Cézanne (Pins et Rochers).

Para entrar na "dialética da atenção e da distração", Crary vale-se da ambiguidade da prática da hipnose, dispositivo a que recorreram Charcot, Freud e William James. A hipnose abre um lugar entre, já que é fenômeno que envolve e implica dois estados mentais. Leva o hipnotizado a oscilar entre a intensa concentração focal e a relativa suspensão do conhecimento periférico. Representada pelas telas mencionadas, a arte impressionista se dá a ler na oscilação entre dois estados mentais adversos. Inaugura a possibilidade de se opor a uma poderosa atenção focada e normativa a distração que a desfoca de forma irresistível. O observador está diante de exemplos de "irredutíveis modalidades mistas de percepção".

O olhar do observador flutua entre "uma tela métrica e homogênea, sinônimo aparente do espaço clássico, e um regime perceptivo descentrado e desestabilizado"; mantém-se "entre uma operação funcional da visão e as ondulações atemporais do devaneio".

TOQUE FRANCÊS - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 23/06

Melissa Vettore e Leopoldo Pacheco, protagonistas de "Camille e Rodin", apresentaram o espetáculo anteontem na pré-estreia para convidados no Grande Auditório do Masp. Entre os amigos que foram conferir a peça, que tem direção de Elias Andreato, estavam os atores Marcelo Médici e Martha Mellinger.
SERRA PELADA
Uma das maiores produções cinematográficas brasileiras programadas para este ano acaba de ser adiada: "Serra Pelada", dirigido por Heitor Dhalia e coproduzido e estrelado por Wagner Moura, não será filmado em julho, como estava previsto.

EM ALTA
O diretor confirma. E diz que um dos motivos da paralisação seriam os custos da filmagem no Pará, onde fica o garimpo. Eles seriam "20% a 30% maiores" do que em SP, diz Dhalia. "Só para chegar lá é necessário pegar dois aviões. O Pará é quase um país. A gente não quis mais arriscar." O filme está orçado em R$ 10 milhões.

FOLHINHA
Cerca de 30 pessoas já trabalhavam no Pará e a maior parte será dispensada. Outro problema é a agenda: Wagner Moura, por exemplo, está comprometido com outros trabalhos em setembro. A maior probabilidade é que "Serra Pelada" seja então filmado entre outubro e novembro -em Mogi das Cruzes, em SP. "Queria tentar levar o filme pra Cannes em 2013, mas talvez não dê mais. Vamos ver", diz Dhalia.

POLTRONA
A paralisação chega num momento de dificuldade para o cinema brasileiro. Em 2012, nenhuma produção bateu ainda a marca de 1 milhão de espectadores, comum em anos recentes.

FALA, MALUF!
Desde que apareceu numa foto com Lula, Paulo Maluf vê seu celular tocando sem parar. "Recebi mais de 50 ligações num só dia, mas não atendo porque não sei de quem se trata." O ex-prefeito resistia, até ontem, a se manifestar sobre a polêmica imagem. "Há hora de falar e há hora de calar."

DUAS CANOAS
Já o PT festeja a possibilidade de o PTB manter a candidatura de Luiz Flavio Borges D'Urso a prefeito de SP. Quanto mais candidatos no páreo, menor a possibilidade de José Serra (PSDB-SP) vencer no primeiro turno. Dirigente do partido diz que Campos Machado, presidente petebista ligado ao governador Geraldo Alckmin, "está fazendo o que pode" para ajudar o PT, apesar de pressionado também pelo PSDB.

ME DÁ LICENÇA
O Tribunal de Justiça de SP determinou que o terreno ocupado pelo Clube de Regatas Tietê seja imediatamente devolvido ao município -que havia cedido o espaço em 1905. "Desde já, autorizo o uso de força policial e ordem de arrombamento para cumprimento da ordem de reintegração para que, se necessários, sejam utilizados com a máxima cautela", diz despacho da juíza Alexandra Fuchs de Araújo.

ME DÁ LICENÇA 2
Gestores do clube questionam a prefeitura por tê-los excluído de um projeto de lei que garante a oito agremiações (de Corinthians a Juventus) o direito de ocupar terrenos municipais por até mais 70 anos. Com dívida de R$ 35 milhões, o Tietê teve sua concessão expirada há três anos. A reintegração de posse foi pedida pela Secretaria de Esportes, que quer usar os equipamentos da entidade.

MÃOS NAS BATUTAS
O DJ Marky será maestro no Cine Joia em agosto, no evento Red Bull Technostalgia. Vai reger duas bandas que tocarão clássicos das pistas das últimas décadas. Em vez de vinil, CD, computador ou outra mídia, o DJ vai "mixar" a performance das bandas ao vivo.

BARRIGUINHA
Sarah Oliveira, 33, apresentadora do "Viva Voz" (GNT), já começa a repensar seu figurino na atual temporada da atração, que tem gravação até o fim de julho.

"A barriguinha já está aparecendo", diz ela, grávida de três meses do primeiro filho, com Thiago Lopes, administrador de empresas. "Estamos muito felizes", afirma.
VERDADE AQUI
Marisa Monte estreou em SP sua nova turnê, "Verdade uma Ilusão", anteontem, no HSBC Brasil. Foram ver o show a apresentadora Marília Gabriela, o estilista Marcelo Sommer e as modelos Talytha Pugliesi e Luciana Curtis.

CURTO-CIRCUITO
A galeria Mendes Wood inaugura hoje, às 14h, mostras de Steve Locke e Francesca Woodman.
Ricardo de Castro abre a mostra "Transformer", hoje, na Casa Triângulo.
O lounge One JK Iguatemi promove happy hour na segunda, às 18h.
O Oi Futuro e a Progetti lançam vídeo-catálogo da mostra "Máximo Silêncio em Paris", na Art Rio.
O ciclo de palestras do TEDx sobre alimentação no futuro acontece hoje no Grande Hotel Campos do Jordão, às 14h.

O início de uma nova estação para o mundo civilizado - LÚCIA GUIMARÃES


O Estado de S.Paulo - 23/06


A ideia de que uma só obra pode mudar a história começou a preocupar, ainda jovem, o hoje consagrado crítico literário, historiador e professor da Universidade de Harvard Stephen Greenblatt. Ele é um expoente do new historicism (novo historicismo) e vai à próxima Flip debater Shakespeare (leia texto abaixo). Greenblatt procurava leituras para as férias de verão no sebo da Universidade de Yale e se sentiu atraído pelo erotismo da capa de um volume de poesia com o preço desejável de US$ 0.10. O verão que passou mergulhado em Da Natureza, o longo poema escrito 2 mil anos antes pelo romano Lucrécio, inspirou A Virada - O Nascimento do Mundo Moderno, o livro de Greenblatt contemplado com o último Prêmio Pulitzer e o National Book Award de 2011, lançado agora no Brasil.

A Virada narra a redescoberta, em 1417, do poema de Lucrécio dado como perdido por mil anos. O livro é um tratado visionário sobre a natureza de tudo e foi encontrado num monastério alemão pelo italiano Poggio Bracciolini, então recém-demitido como secretário de um papa corrupto e deposto. Bracciolini, erudito à caça de obras perdidas da era clássica, no estilo dos humanistas da época, salvou Da Natureza do esquecimento, mandando seu copista reproduzir o livro, que logo se espalhou pela Europa. O efeito dessa decisão tomada antes mesmo de Bracciolini compreender a importância do que tinha nas mãos, se fez sentir, narra Greenblatt, muito além da escuridão do monastério, através da Renascença - e apontou para a modernidade.

Há 2 mil anos, Lucrécio descreveu em Da Natureza um mundo formado por um número infinito de átomos, um mundo sem Deus, onde a busca do prazer deve se dar na Terra pelo homem. Era uma tentativa de nos liberar do medo da morte, interpretou, desde o início, o estudante Greenblatt. Mas Lucrécio abre o poema com um belíssimo hino a uma deusa, Vênus:

Ó mãe dos Enéadas, prazer dos homens e dos deuses, ó Vênus criadora,

que por sob os astros errantes povoas o navegado mar e as terras férteis em searas, por teu intermédio se concebe todo o gênero de seres vivos e, nascendo, contempla a luz do sol: por isso de ti fogem os ventos, ó deusa

Greenblatt não vê incongruência nesses versos. "Lucrécio queria se apegar ao poder da imaginação como força erótica", diz ele.

Por que decidiu mergulhar na história da perda e recuperação do poema Da Natureza?

Não conhecia a história quando encontrei o livro por acaso, com 18 ou 19 anos. Mas, como passei minha vida profissional estudando a Renascença, me tornei interessado no que chamo de mobilidade cultural. O que acontece quando as coisas são deslocadas e precisam interagir com novo ambiente? Esse é tema recorrente da Renascença e ótimo exemplo é História de Uma Viagem Feita na Terra do Brasil, do Jean de Léry, em 1578. É um livro maravilhoso sobre um encontro em que uma cultura é forçada a interagir com outra, totalmente estrangeira. Temos exemplos dessa mobilidade em Shakespeare, que quase nunca criava uma trama do nada, adaptava narrativas clássicas. A recuperação de Lucrécio é emblemática desse tema, da obra fazendo uma reentrada em nova cultura.

O senhor nota que a primeira versão do poema que encontrou tinha uma tradução apenas correta e acredita que mesmo as obras mal traduzidas retêm seu impacto, quando descobertas em outro contexto.

Sim, acredito nisso. Uma antiga fonte de frustração para mim é não poder ler originais em línguas que não domino, especialmente o grego clássico. Mas isso não me impede de sentir a força da Ilíada e da Odisseia. Muito depois de ler a primeira tradução de Da Natureza, consegui ler o original em latim e aí o poder do poema cresceu para mim. Eu tive de ler Os Lusíadas em inglês, sei que não senti o mesmo como se dominasse o português, mas fui tocado pelo poema de Camões e entendo sua importância. Afinal, a tradução repousa sobre a convicção de que algo vai ser transmitido.

A virada do título se refere, na verdade, a múltiplas viradas e começa com a noção epicurista de clinamen, exposta por Lucrécio.

Sim, e você tem em português a palavra declinar, que usa a raiz latina para a virada. Eu destacaria pelo menos três viradas. Para Lucrécio, o Universo é um mundo material, onde não há deuses ou causas misteriosas. O que existe é o acaso e a incerteza com o fato de que os átomos se movimentam a qualquer momento e é impossível localizá-los. Só a física quântica do século 20 retornou a essa questão, que era considerada uma ideia ridícula, tanto quando Lucrécio escreveu, quanto depois, na Renascença. A segunda virada acontece com os acontecimentos inesperados que levam à redescoberta do livro por Poggio Bracciolini. E a virada maior se dá na mudança lenta do mundo medieval para a modernidade. O conteúdo do livro, que era estrangeiro e até bizarro na Renascença, foi instrumental na evolução para a modernidade.

E como o senhor distingue a progressão dessa mudança, entre a Renascença e o mundo moderno?

Para mim, há o distúrbio fundamental da Renascença, nesse dia do inverno alemão, há 600 anos, quando alguém encontra um manuscrito do tempo de Cícero e Júlio Cesar. Aquela era se define em parte pela redescoberta dos clássicos. Essa foi a tarefa a que se dedicou Poggio Bracciolini, um homem que servia à corte de um papa corrupto, e sua empreitada é a quintessência do Renascimento. Todo o ser nasce. A natureza experimenta incessantemente. Se uma criatura é capaz de se reproduzir e encontrar alimento, pode estender a vida de sua espécie. E será extinta quando o ambiente se tornar hostil. Lucrécio entendia a extinção das espécies há 2 mil anos, algo viria a violar os preceitos do cristianismo. Esta era uma noção radicalmente moderna, e não podia ser aceita na Renascença.

Por falar em espécies, não acha estranho ler um poema de 2 mil anos, ligar a TV, no século 21, e ouvir um conservador como Rick Santorum, que foi candidato sério a presidente, falando do assunto?

(Risos) É verdade, os Estados Unidos são de uma piedade incomum no mundo contemporâneo. Acredito que haja vários motivos pelos quais os americanos se agarram tanto ao fundamentalismo e me pergunto se um deles não tem a ver com uma reação a deslocamentos provocados pela tecnologia. Uma pesquisa de opinião recente mostrou que 75% dos pastores protestantes acreditam que Adão e Eva são personagens literais. Como você pode acreditar nisso e ao mesmo tempo acreditar nos últimos 200 anos da ciência? A alternativa da imaginação oferecida por Lucrécio continua encontrando grande resistência no nosso tempo. E veja que ele não estava reagindo ao cristianismo, reagia ao culto de Diana e Apolo. Nossos atletas, quando marcam um gol, olham para os céus, como se alguém lá em cima tivesse chutado. Esse tipo de pensamento mágico traz conforto.

Foi frustrante não encontrar mais fatos sobre a vida de Lucrécio, já que nada emergiu após a recuperação do manuscrito, no século 15?

Não havia informação confiável. O relato de seu tormento erótico após tomar uma "poção do amor" e o suposto suicídio aos 44 anos, feito por São Jerônimo, em 94 a.C., veio de um polemista interessado em lançar luz negativa sobre um filósofo pagão. Sabemos mais sobre Cícero e Ovídio. Compensei essa lacuna mergulhando sobre a vida de Bracciolini, sobre quem conhecemos bastante.

O senhor escreve que Shakespeare foi só uma faceta espetacular de um movimento cultural mais amplo, que incluiu Rafael, Montaigne, Cervantes, dezenas de artistas e escritores. Mas lembra que Da Natureza se reflete na arte primeiro.

É o que é mais interessante, na minha perspectiva. O poema volta ao mundo em 1417, num momento em que suas proposições eram profundamente inaceitáveis. E por quê? O poema poderia ter desaparecido, mas como sobreviveu? Porque foi abraçado por intelectuais, cientistas, mas, acima de tudo, inicialmente por artistas. Ele aparece na Primavera de Botticelli. Nas obras do excepcionalmente estranho Piero di Cosimo, de Florença. Foi acolhido nos Ensaios de Montaigne, que cita diretamente Da Natureza em mais de cem passagens, ainda que discorde de Lucrécio. É fascinante notar essa aceitação estética do poema, que não depende da tolerância a suas ideias. É uma apreensão de significado que precede em muito o momento, no século 17, quando Galileu se volta para os átomos ou outros cientistas cujo trabalho depois vai desaguar em Isaac Newton.

E isso mostra como a arte tem o poder de antecipar a nossa compreensão do mundo?

Sim, esquecemos como a arte faz avançar ideias que o presente ainda não pode aceitar. Os artistas que compreenderam Lucrécio sabiam que a arte não se opõe à ciência. Lucrécio produziu um dos grandes textos visionários sobre esse encontro. Hoje, podemos olhar para ele e pensar como devemos curar essa divisão entre o artista e o cientista.

Libertadores! Boca x Meia Boca! - JOSÉ SIMÃO


FOLHA DE SP - 23/06

Os corintianos adoraram que deu o Boca, porque pela Universidad eles não iam conseguir passar mesmo!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Pensamento do dia: "Pior não é ficar velho. Pior é ficar velho e parecido com o Lula". Rarará! E o grego novo ministro das Finanças: Vassilis RAPANOS! Rarará!

E o site Futirinhas revela a nova música do Neymar: "Eu quis um tchu! Levei um tchau!". Tchu! Tchau! Tchu Tchau, Neymar!

E atenção! Confirmado! Boca x Corinthians! Boca x Meia Boca! Os corintianos adoraram que deu o Boca, porque pela Universidad eles não iam conseguir passar mesmo! Rarará!

Se o Timão ganhar, a gente fica com as Malvinas. Dizem que é um excelente lugar. Pra morrer de tédio! E como disse o corintiano: "Agora é só calar a Boca da raça que nasceu pra secar o Coringão". Rarará!

E o primeiro jogo vai ser no La Bombonera. E o segundo no Pacaembu, no La Pipoquera. Se fosse no Morumbi, seria o La Bambinera. E na Copa 2014, La Robalhera! Rarará! E todos os argentinos vão gritar "Boca! Boca!" Menos o Maradona, que vai gritar: "Nariz! Nariz!". O Maradona vai torcer pelo nariz!

E cadê o Galvão? Tomou Doril? Sumiu! Por isso que se chama Libertadores: ficamos livres do Galvão! Rarará! Mas eu tenho saudades do Galvão. A gente cria apego! Com aquela voz de foca da Disney!

E a Rio+20! Rio Mais 20 Pedaços de Pizza. Demoraram 20 dias pra conseguir terminar o rascunho final. Olha a charge do Amorim: "Rascunho final às futuras gerações: cês estão é lascados! Ass: Rio+20".

Eles deviam fazer o remake daquele filme do Tom Cruise: "Gases Indomáveis". Avisa pra Cópula dos Povos que segurar gases é uma emissão impossível. E tenho que confessar um crime hediondo: eu deixo a torneira aberta enquanto faço a barba! Rarará! Mas, em compensação, no chuveiro eu só lavo o que for usar hoje. Cartaz no box: "Economize água: só lave o que for usar hoje!".

E a Hilária Clinton? "Hillary diz que energia limpa é um dos pilares da política externa americana". E bomba é energia limpa? Rarará!

E um amigo acha que deviam cimentar a Amazônia e virar estacionamento. O povo quer estacionar. O povo não quer respirar, quer estacionar. Ou então faz 18 buracos e vira campo de golfe! Se bobear é isso que vai acontecer: a Amazônia vira um resort! Rarará!

Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Acabou em carnaval - ZUENIR VENTURA


O GLOBO - 23/06
Escrevo antes do encerramento da Rio+20, mas, pelo que tenho lido, dificilmente o documento final atenderá ao que dele se esperava ou se desejava. Com exceção da presidente Dilma, aparentemente satisfeita ("é um grande avanço e uma vitória para o Brasil"), quase todo mundo - dos cientistas aos ambientalistas, passando por empresários e economistas - repudia o texto considerado "tímido" e "frouxo". Na quarta-feira, o libanês Hamidan, da Rede de Ação Climática, já anunciava que mais de mil instituições da sociedade civil, entre ONGs e órgãos de pesquisa, estavam retirando suas assinaturas. O caso mais curioso foi o do secretário da ONU, Ban Ki-moon, que primeiro acusou o relatório de não ter ambição - "não podemos mais nos dar o luxo de adiar decisões" - e no dia seguinte, com a mesma cara, classificou o documento de "grande sucesso" e "excelente".
De consenso mesmo só o fato de que os países mais ricos e poderosos estão dispostos a salvar o planeta, desde que não tenham que enfiar a mão no bolso. Por isso, o momento mais significativo foi o do discurso da jovem neozelandesa de 17 anos Brittany Trilford, puxando a orelha dos chefes de estado, ao cobrar ação e mudanças urgentes: "Vocês têm 72 horas para decidir o destino de nossas crianças, dos meus filhos, dos filhos dos meus filhos." Parece que não lhe deram ouvidos.

Mas, enquanto lá dentro do Riocentro era aquele chove não molha, em outras partes da cidade, principalmente no Centro, o que se via era uma grande e divertida efervescência, lembrando os desfiles de blocos carnavalescos. Nunca houve tantas e tão variadas manifestações de protesto em tão pouco tempo. Passeatas, marcha global, marcha da maconha. Rapazes com nariz de palhaço e bocas tapadas com fita adesiva protestavam contra os rumos da conferência. Índios com tacape, arcos e flechas deixavam a polícia sem saber o que fazer, já que podiam representar ameaça. Na Cinelândia, o senador Eduardo Suplicy, com chapéu de Robin Hood, cantava Bob Dylan para propor a criação de um imposto financeiro. Uma bonita moça com os seios à mostra, como se representasse as femens da Ucrânia, a Riquezinha, tocava tambor em defesa das lésbicas, das negras e da liberdade feminina. Um frequentador do aterro que num dia viu os lindos seios nus da jovem e no outro esbarrou com as bundas nuas dos participantes do movimento Ocupa Rio, disse que aquilo parecia ser não a Cúpula, mas a "Cópula dos povos".

A Rio+20 pode ter sido um fracasso, mas os movimentos sociais fizeram o seu carnaval.

Descobri que, de todas as novas tecnologias da comunicação, o Skype é a mais avançada, a mais revolucionária, a mais útil, a que prefiro. Afinal, é o que está permitindo que diariamente eu veja, ouça e fale com Alice, que está longe, viajando.

Arcaicas, ideias de Safatle deveriam estar num museu - JOÃO PEREIRA COUTINHO


FOLHA DE SP - 23/06

Vladimir Safatle deveria estar num museu. Digo isso com todo o respeito.

Lendo "A Esquerda que Não Teme Dizer Seu Nome", lembrei de imediato a peça "O Percevejo", de Maiakóvski, história de um antigo bolchevique, Prissípkin, que, depois de um acidente, acorda para o mundo futuro vindo diretamente de um passado irreconhecível.

Safatle é uma espécie de Prissípkin intelectual: o século 20 pode ter sido o grande cemitério de cada uma das suas ideias coletivistas. Mas Safatle, como o anti-herói de Maiakóvski, esteve mergulhado numa tina de água gelada em hibernação ideológica. Não viu nada, não aprendeu nada. E não esqueceu nada.

Ser de esquerda é, para Safatle, estar com aqueles que mais sofrem. É o primeiro clichê. Mas depois vêm outros: a defesa radical do igualitarismo é um valor inegociável para os camaradas.

Infelizmente, ele não explica em que consiste esse igualitarismo, para além das piedades habituais sobre a importância de redistribuir riqueza. Nenhuma palavra sobre a necessidade de a criar.

Criar? Para Safatle, o mundo divide-se em ricos e pobres; os ricos roubam os pobres; a função do Estado é roubar os ricos. "The end".

Igualitarismo é parte da história. Mas a esquerda que não teme dizer seu nome também é, para Vladimir Safatle, "indiferente às diferenças". Não sei se isso significa que o autor, com apreciável coragem intelectual, se opõe às cotas raciais instituídas por universidades brasileiras.

Sei apenas que, para Safatle, cultivar as diferenças (e, por arrastamento, demonizar o outro) é vício judaico-cristão, praticado pela Europa branca e xenófoba.

Curiosamente, não passa pela cabeça do filósofo que esse "culto da diferença" é também prerrogativa de comunidades imigrantes, leia-se "muçulmanas", que habitam a Europa, mas repudiam os seus valores multiculturais e resistem a integrar-se.

SOBERANIA POPULAR

De resto, as melhores páginas deste curto ensaio estão na apaixonada defesa do conceito arcaico de "soberania popular".

Na minha inocência, eu julgava que esta herança rousseauniana, uma metáfora para a total rendição do indivíduo aos ditames da comunidade, tinha ficado enterrada com as "democracias populares" do século 20.

Ilusão minha: as utopias revolucionárias da última centúria foram apenas uma ideia que não deu certo, diz Vladimir Safatle.

E acrescenta: "quantas vezes uma ideia precisa fracassar para poder se realizar?".

Não é fácil ler a pergunta e imaginar os 100 milhões de seres humanos (estimativa conservadora) que o comunismo destruiu nas suas "experiências" de criação do "homem novo".

E volto a Maiakósvki, porque são dele as palavras que abrem o livro de Safatle: "Melhor morrer de vodca que de tédio". Admito que sim.

Mas alguém deveria informar Safatle de que não foi a vodca (nem o tédio) que matou o seu herói. Ironicamente, foi o clima de repressão e intolerância do regime soviético que o conduziu à aniquilação pessoal.

O que há depois do além? - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

O Estado de S.Paulo - 23/06

Museu de Paris exibe o mítico rolo em que Jack Kerouac escreveu On The Road, o ícone beat que acenava para um horizonte a ser descoberto; filme de Walter Salles sobre o livro já estreou lá



Um livro inteiro escrito em um rolo de papel. Foi espantoso saber disso. Jack Kerouac sentou-se entre 2 e 22 de abril de 1951, e datilografou sem parar e sem precisar tirar o papel da máquina em nenhum momento. Mais de 60 anos atrás, aquele jovem de 29 anos não sabia que tinha inventado o formulário contínuo que só entraria em cena mais de 40 anos depois. Como seria esse rolo? Estávamos acostumados a usar o papel sulfite A-4, cuja largura era a mesma do rolo das máquinas de escrever comuns. Escrevia-se cerca de 20 a 30 linhas, em espaço duplo e acabava a lauda, era preciso trocá-la. O gesto se repetia em casa, nas redações, escritórios, faculdades, escolas, por toda a parte. Puxada a lauda, colocava-se outra, girava-se o rolo e recomeçava. Nunca imaginei que precisasse explicar este processo banal, a fim de que as novas gerações crescidas com o computador, entendessem a questão. Por esta razão, ter escrito de uma vez só, em um rolo de papel, se tornou um fato mítico, único na literatura. Vinha em seguida o que o livro significou, o impacto que provocou, o espanto que ocasionou.

As notícias, naqueles anos 1950, diziam que o livro On The Road, que abalaria o mundo, teria sido escrito em um rolo de papel para teletipo, o que também poucos das novas gerações sabem o que é. Um aparelho existente em redações, escritórios, bolsas de valores, que recebia informações, notícias, cotações, vivia ligado 24 horas, parecia funcionar sozinho, uma vez que era acionado a distância. De uma cidade para outra, de um Estado, de um país. Funcionava o tempo todo, portanto necessitava ser alimentado por um rolo de papel que devia durar horas.

Em seguida, divulgou-se que On The Road não tinha sido datilografado em rolo de teletipo. Como seria então? Passaram anos até vermos a primeira foto de Jack Kerouac, o escritor, segurando o rolo na mão. Eu vi pela primeira vez na contracapa da edição integral de On The Road publicada pela L&PM, em 2008. Mas que rolo seria esse?

A batida do jazz em uma narrativa. No entanto, fosse apenas isso, um livro escrito em um rolo de papel, tudo não passaria de mera curiosidade, uma bossa criada por um autor, nada mais. Quando On The Road foi publicado em 1957 - exatamente o ano em que cheguei a São Paulo, foi como se um tsunami tivesse acontecido na literatura. Normas caíam por terra, regras eram desobedecidas, uma nova maneira de narrar estava em curso, a palavra beat, que vinha tanto de beatitude quanto da batida do jazz, entrou em circulação. Era o grito (usou-se muito essa palavra) da geração que fumava maconha, usava benzedrina, cocaína, peyote, álcool, e não colocava limites para o sexo.

Acreditávamos que era a revolta de uma geração contra o establishment americano e ficávamos confusos. Onde brasileiros e americanos se igualavam? Contra o que eles brigavam exatamente? De que modo poderíamos seguir on the road? Teria sentido? Descobriríamos com os anos a nossa estrada. Mas o início estava ali na linguagem, na soltura, na liberdade.

Roberto Muggiati em seu artigo Kerouac, os beats e o bop (C2+Música, aqui no Estado, no último dia 9 ), diz que a expressão "on the road" já era usada nos anos 1930 no jargão dos músicos de bandas que "viviam na estrada". O que era novo para nós? A linguagem que, no dizer de Kerouac (sempre citado por Muggiati), era "o fluxo mental tranquilo, de ideias e palavras pessoais secretas... pausas marcadas que são a essência de nossa fala... satisfazer primeiro a si mesmo e o leitor também receberá o choque telepático e o significado-excitação pelas mesmas leis que operam na sua mente". Era um novo formato de narrativa, anticonvencional.

À minha frente, o lendário scroll. Descobri a realidade do rolo no dia 31 de maio deste ano, em Paris. Cheguei tarde, deitei, no dia seguinte, pulei da cama, tomei café da manhã e voei pelo Boulevard Saint-Germain em busca do Musée des Lettres et Manuscrits. O rolo do On The Road estava lá. Corria ao encontro de Jack Kerouac e de mim mesmo no número 222. Atravessei a "cour", empurrei uma porta modesta e penetrei no museu. Estava em meio a tudo o que gerou On The Road, o mais emblemático romance de uma época, que bateu de frente contra tudo o que era estabelecido, careta, quadrado, square, burguês (palavras hoje deterioradas). Quem queria escrever, naquele tempo, queria escrever o On The Road de seu país.

O mundo transfigurou. Em um segundo, me vi em São Paulo na Alameda Santos, 93, nos meus 23 anos. Era a pensão da Nina. Mais do que pensão, aquela casa foi o ponto de partida de um grupo pertencente à mesma geração. Ali nos reuníamos, conversávamos, discutíamos Sartre, Simone, Camus, Marx, Stanislavski, Grotowski, Carson Mccullers, Henry Miller. Ali bebíamos, brigávamos, escrevíamos, tocávamos violão e cantávamos. Havia ainda tantos mundos a serem percorridos ao longe.

Como sair do nada e ver lá na frente?. Aqueles quartos de pensão, minúsculos, com três ou quatro, às vezes mais, jovens empoleirados, eram tão sufocantes quanto nossa cidade natal tinha sido, quanto São Paulo era, e o Brasil também. Em que país estreito vivíamos? Como sair disso? Líamos demais, víamos filmes e teatro demais, roubávamos revistas e jornais estrangeiros das bancas e livrarias (não tínhamos como pagá-las, eram caras) e tínhamos uma certeza, o mundo ia além daquilo. Queríamos saber o que havia para a frente, queríamos buscar lugares distantes, pessoas longínquas, línguas estranhas, não queríamos repetir a mesmice e não sabíamos o que sonhávamos criar.

Os sábados eram particularmente excitantes quando o caderno de variedades do Jornal do Brasil chegava com artigos do Nelson Coelho, então o especialista em literatura americana. Não se passava semana sem uma notícia sobre a beat generation. Correspondente do Jornal do Brasil em Nova York, Nelson estava no olho do furacão. E o JB era dos mais importantes e lidos do Brasil.

Eu era o primeiro que acordava, trabalhava das 10 ao meio-dia. Corria à Praça Osvaldo Cruz e comprava dois JB. Na praça, tomava o café da manhã, média de café com leite e um misto. Lia ali no balcão, sonhando com as mesas dos cafés que víamos nos filmes e nas fotos de Paris, de Nova York, das "cidades" civilizadas. Na volta, o caderno de variedades corria de mão em mão, depois era guardado no quarto do Zé Celso Martinez que enchia os artigos de frases sublinhadas.

Um dia, essa loucura será publicada integral. Havia uma febre para ler On The Road, de maneira que a primeira edição legível que nos chegou (era difícil comprar livros americanos por aqui) foi a da editora argentina Sudamericana: Por La Carretera, um título que nos soava horrível, mas sabíamos que seria complicado ler Kerouac no original. Linguagem coloquial, gírias, expressões do jazz, havia de tudo. Também em espanhol não foi fácil, perdíamos o ritmo. Somente duas décadas depois leríamos On The Road em português, com o título Pé na Estrada, editado na Brasiliense por um Caio Graco inquieto, ousado, mente aberta. Foi em 1984. A Brasiliense tinha Luiz Schwarcz, que ali começou. On The Road teria a sua mãozinha?

Sabe-se que a primeira edição americana, na qual se basearam, por décadas, todas as traduções, sofreu cortes e interferências do editor Malcolm Cowley. Informam as legendas da exposição que Kerouac, pressionado, edulcorou o texto, fez cortes, cedeu, estava cansado de batalhar e ser derrotado. Em uma carta, exibida no museu, Allen Ginsberg, outro ícone da beat generation, previa: "Um dia, On The Road será publicado integralmente, em toda sua loucura." Foi. Em 2007, finalmente a Viking Press lançou o texto original, no Brasil lançado em 2008 pela L&PM, em tradução de Eduardo Bueno e Lúcia Brito. Na contracapa, Jack Kerouac segura o célebre rolo.

O manuscrito que é uma "estrada" também. Já se sabe tudo o que o livro é, foi, será. O que estava ainda em minha cabeça - e na de muitos - era a questão do rolo. Como se fosse um papiro sagrado, uma Torá. Assim entrei no Musée des Lettres et Manuscrits, paguei e desci correndo, tinha avistado a vitrine onde repousava o rolo. Naquela hora da manhã, não havia ninguém no museu. A vitrine tem nove metros de extensão e o rolo de 36, 5 metros repousa (estará ali até agosto) sobre um tecido macio para não ser machucado. Ao olhar, entendi. Não era papel de teletipo e sim papel vegetal, de desenho, que Kerouac montou página a página, colando com durex. Uns dizem que Kerouac comprou o papel, outros que foi um amigo dele, desenhista, Bill Cannastra, que lhe deu de presente.

Para caber na máquina de escrever, uma Underwood (exposta no museu), Kerouac acertou as margens. Pode-se ver ainda o picotado da tesoura em certos pontos. Para economizar, o espaçamento entre as linhas é o mínimo possível, acho que o 1, de modo que as frases praticamente se amontoam, apertadas. Imaginei o editor com aquele rolo na mão, tentando ler. Legendas explicam que o final do rolo inexiste. Segundo o autor, ele foi comido pelo seu cachorro Potchky. Cada detalhe alimenta uma lenda. Há uma imagem usada pelos que viram o rolo na vitrine: ele simboliza a estrada, the road. Datilografado a toda velocidade, sem parágrafos, 6 mil palavras por dia (12 mil no primeiro dia, tal a febre, e 15 mil no último, tal a ânsia de terminar), Kerouac confessou que foi alimentado a café. Como Balzac fazia?

Imenso banner num canto do museu traz as edições pelo mundo. Línguas estranhas, indefiníveis para mim naquele momento e que prefiro deixar assim, como um mistério: Kelije - Op weg - Na Gestei - Vejene - Naputu - Pe Drum - B Dopoze - Uton - Kepyak - Aopote - Á Vegum Út. Sabe-se que o livro foi traduzido para 95 línguas. Não vi a capa de nenhuma das edições brasileiras.

Numa das vitrines estão as cadernetinhas de capa preta envernizada que Kerouac usava para suas anotações. Centenas delas, todas iguais. Emocionei-me ao ver como ele trabalhava, anotando sem parar. Organizado, comprava sempre as mesmas cadernetas. Em Na Estrada, filme de Walter Salles, o personagem usa um bloco semelhante. Produziram para a filmagem ou tais cadernetas ainda existem nos Estados Unidos? Essa permanência das coisas me fascina

Cinco anos de trabalho para um longa-metragem. O filme está em cartaz em Paris simultaneamente. Fui ver em uma de minha salas prediletas, o cinema Pagode, na Rue Babylone. Foi um templo chinês decorado com dourados, e brocados, cheio de charme em sua decadência. Ali está sendo a exibida a versão original com legendas em francês. Quando o livro saiu, em 1957, Kerouac escreveu a Marlon Brando, tido como um ator da contestação, oferecendo a adaptação e o papel, Brando jamais respondeu. Os direitos foram comprados por Francis Ford Coppola em 1968. Godard recusou, depois também Gus Van Saint. Finalmente, Walter Salles entrou na estrada. Foram cinco anos de versões e revisões, de viagens e busca de locações. Walter Salles imprimiu o ritmo duplo que domina o livro: movimento, velocidade, e momentos de introspecção e contemplação. Pausas e acelerações. Num entrevista, o cineasta fez uma declaração que me emocionou: "A modernidade de Kerouac estava em seu desejo de explorar tudo, de viver, de sentir tudo à flor da pele. De não recusar o momento." Um dia, Walter e Lawrence Ferlinghetti, 93 anos, ícone majestoso da época beat (a sua livraria e editora City Lights era o ponto de convergência dos beatniks), circulando por São Francisco, pararam na ponte de Berkeley, imobilizada pelo congestionamento. Nesse momento, o poeta exclamou:

- You see, there's no more away!

Algo como: veja só, não há mais nada depois do além. E o cineasta comenta: "Naquela época do On The Road ainda havia um mundo a ser descoberto, cartografado. Borges dizia que o grande prazer da literatura era nomear o que ainda não havia sido nomeado. Hoje, temos a impressão de que tudo está visto, fotografado, documentado, repertoriado... On The Road é um antídoto contra o imobilismo e isto é que me fascinou no livro." Ou seja, não há mais nada a se procurar. Mais de 50 anos depois, Ferlinghetti e Walter Salles respondiam àquela inquietação que tivemos aos 20 anos

Kerouac, que morreu aos 47 anos, faria neste ano 90. Os expoentes da beat morreram: Allen Ginsberg, Gregory Corso e William Burroughs. Resta Ferlinghetti, hoje com 93 anos. Estranha foi a morte de Kerouac, vivendo ao lado da mãe, mergulhado em programas estúpidos de televisão, reacionário, alcoólatra, inchado, deprimido, desiludido com tudo, negando ter provocado uma revolução na literatura. Enquanto hoje desesperadamente procura-se a mídia e a exposição, a imensa visibilidade funcionou ao contrário para Jack. Levou-o ao inferno.

Os demais que se lixem - WALTER CENEVIVA


FOLHA DE SP - 23/06

Na Doutrina Bush, decisões de relações internacionais eram guiadas apenas pelos interesses estadunidenses

O BRASIL tem mantido -ao menos em sua Constituição- constante preocupação internacionalista, para mais além de suas definições constitucionais. A realização da reunião mundial, no certame Rio+20, embora com resultado modesto, atualizou o posicionamento brasileiro na coletividade internacional.

Os parágrafos 2° e 3° do art. 5º de nossa Carta Magna foram acrescidos, em 2004, pela Emenda Constitucional nº 45. Os internacionalistas do Congresso afirmaram que direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros, decorrentes dos tratados internacionais, em que o Brasil seja parte (parágrafo 2°). Foram além: o parágrafo 3º passou a dizer que tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos aprovados em cada Casa do Congresso, em dois turnos, por três quintos dos votos, equivalerão às emendas constitucionais, ou seja: tratados e convenções aplicados e lidos como se inscritos na Carta.

As mudanças de 2004, com a emenda 45, poderão interferir nos direitos e garantias do brasileiro, conforme a interpretação que se der a tais tratados e convenções. O termo "tratado", clássico no direito internacional público, define o vínculo jurídico entre duas ou mais nações para realizarem objetivos comuns. Tem interpretações diversas nos países do mundo, do muito poderoso ao muito fraco e vice-versa. Para complicar a avaliação do conteúdo desses documentos, nas nações de língua inglesa se constata que palavras definidoras de tratado, convenção, pacto, ato, declaração e protocolo compreendem série ampla de documentos, firmados entre países livres. A interpretação dessas espécies é variável, conforme a posição do país considerado, o que torna mais preocupante a amplitude da mudança introduzida na Constituição brasileira.

Lembro o exemplo da Declaração do Rio, de 1992. Não foi acolhida como um tratado, mas como texto que selecionava, naquele momento, princípios preponderantes, quando aceitos pelos países interessados. A Rio+20 fez retornar a preocupação, tendo em conta a emenda 45 ao destacar a diversidade das posições entre as nações.

A presidente Dilma Rousseff afirmou, em seu discurso final, a necessidade de ampliar a visão internacional para o atendimento de todos, sem que cada nação cuide exclusivamente de seus próprios interesses. Em certames como o do Rio+20 foi e é difícil montar texto definidor de objetivos e limites aceito por todos os participantes. É usual só acolherem o pronunciamento quando a amplitude elástica e vaga das expressões utilizadas é tão extensa que o enunciado final, ainda que bom, se distancia dos objetivos mais sérios.

A Carta das Nações, depois do conflito de 1914/18, compôs disposições para a assegurar paz por todo o século 20. A paz durou só 21 anos. Outro exemplo foi dado pelo então presidente George W. Bush, dos Estados Unidos, sincero o suficiente ao lançar o que ficou conhecido com Doutrina Bush, pela qual decidiria, até de modo autônomo, suas relações internacionais, guiado apenas pelos interesses estadunidenses. Na tradução do idioma português seria dizer: cada um puxe a sardinha para sua brasa. Os demais que se lixem. Durou pouco. Não asseguraria a paz. A crise tem de ser resolvida pelo conjunto de todos os esforços.

As contradições - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 23/06
Nada mais emblemático do que encerrar a Rio+20 aumentando o subsídio à gasolina. Isso é coerente com tudo o que decepcionou na reunião. No mundo inteiro há pesados subsídios à indústria do petróleo. Um dos sonhos era usar a conferência do Rio para começar a pôr fim a essa prática irracional, cara e contraditória. Não só a proposta foi barrada no documento final, como o país sede terminou o encontro aumentando o subsídio.
A Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) foi zerada na gasolina para que o aumento do preço pela Petrobras, anunciado ontem, não seja repassado ao consumidor. Ao fim da maior conferência do mundo sobre desenvolvimento sustentável se soube que o Brasil aumentou a renúncia fiscal feita em favor do uso do combustível fóssil. O Tesouro pagará a conta com o dinheiro que, pelo menos na lei, deveria ser investido em transporte público.

O ministro Guido Mantega concedeu uma rápida entrevista no Riocentro para comemorar acordos com a China, em várias áreas, como exploração de petróleo e satélite. Garantiu que "o Brasil é o país do mundo que tem a melhor estratégia para a manutenção do desenvolvimento sustentável". A delegação brasileira repetiu durante toda a reunião que o Brasil é o país mais sustentável do mundo, um exemplo para o planeta.

Como prova, Mantega falou que 95% dos carros brasileiros serão flex este ano. Sim, serão flex, mas usarão gasolina porque a política de preços e de impostos do governo induz ao consumo do combustível fóssil.

Vejam no gráfico abaixo, preparado pelo CBIE, de Adriano Pires, como o imposto veio caindo desde 2002. Era 25,2% do preço, estava em 2,7%, e ontem foi zerado. Era R$ 0,541 do litro, estava em R$ 0,091 e agora não se cobrará mais nada. No começo do governo Lula, o Tesouro arrecadava R$ 1 bilhão por mês com a Cide na gasolina. Até ontem, arrecadava R$ 220 milhões por mês, e, pelo diesel, arrecada outros R$ 200 milhões. Isso deixará de entrar nos cofres públicos a partir de segunda-feira. Além disso, a Petrobras continuará importando gasolina por um preço e fornecendo às distribuidoras a um custo menor, porque a defasagem em relação ao preço internacional se mantém. Só este ano a diferença produziu um prejuízo de R$ 750 milhões à companhia.

Um argumento muito usado na Rio+20 pelo governo brasileiro é que a matriz energética é limpa porque é baseada em hidrelétricas. Isso é outro sofisma, dos tantos do atual governo na área ambiental. A energia de origem hídrica tem virtudes, mas não é emissão zero. Algumas hidrelétricas emitem menos, outras muito mais, pelo material orgânico nos seus lagos. Algumas representam um custo inaceitável, pelo impacto da construção. Algumas compensam, outras não. Todas usam, como se fosse da empresa, um bem que é público, pelo qual não pagam, e que se torna cada vez mais valioso: a água.

Na entrada do Parque dos Atletas, vi escrito Sítio Pimentel, num estande. Soube logo que era então de Belo Monte. Lembrei da forma como foi autorizado um desmatamento no Sítio Pimentel para o começo da instalação das máquinas e do alojamento dos trabalhadores. Ainda não havia licença ambiental, mas deram autorização para o desmatamento. No outro lado do estande, uma belíssima foto do Rio Xingu. Isso mesmo. A Norte Energia estava lá usando a beleza do Xingu como propaganda de Belo Monte, que vai reduzir a vazão do rio e acabar com a Grande Volta.

Esse é um caso extremo, mas não é o único. A palavra "sustentável" tem sido usada de forma abusiva por empresários e empresas que vivem da economia fóssil ou atacam o meio ambiente diretamente ou através da sua cadeia produtiva.

Tenho dito neste espaço que a questão ambiental atravessou a economia para sempre. Por isso, tenho feito esforço para ter no meu campo de visão de colunista de economia temas da vasta agenda ambiental e climática. O mais difícil é engolir o discurso de tantos empresários garantindo que suas empresas são verdes e sustentáveis. A afirmação da maioria não resiste aos fatos.

Foram dias intensos, de muito trabalho, e um final sem emoção. O governo brasileiro quis uma reunião sem risco e trabalhou para o encerramento muito antecipado do documento. Isso desidratou a conferência e seu resultado. O pior sinal foi essa forte impressão - às vezes expressa aos gritos, como fez a ministra Izabella Teixeira (veja vídeo no meu blog) - de que o Brasil é o mais sustentável dos países. Um governo tão convencido que é perfeito nada fará para avançar.

Arte da guerra, arte da política - LUIZ SÉRGIO HENRIQUES


O Estado de S.Paulo - 23/06


O episódio não é tão conhecido assim, aparece em duas ou três notas dos célebres Cadernos do cárcere e vale lembrá-lo a partir do comentário de um distante escritor italiano do século 16, Matteo Bandello. Narrado por Bandello, envolve um dos grandes teóricos da política moderna, Nicolau Maquiavel. Autor, entre outros, de uma clássica Arte da guerra, o secretário florentino teria tido diante de si, certa vez, uma multidão de soldados, a quem lhe caberia ordenar em formação de guerra mediante os instrumentos então dispostos para tal, como tambores e cornetas. Dispensável dizer que o grande teórico não conseguiu o intento, desorganizando mais do que organizando, tendo sido socorrido por Giovanni dalle Bande Nere, condottiero treinado - praticamente - na arte militar e capaz por isso mesmo de controlar rapidamente a massa de homens e armas em dispersão.

Pode-se interpretar essa pequena história como uma crítica à insuficiência da pura teoria, mesmo representada por um homem do quilate de Maquiavel, para gerar por si só efeitos práticos imediatos. E, de fato, não raro a teoria, desamparada de mediações, redunda em abstração distante da vida real, impotente diante da riqueza múltipla das suas determinações. O inverso, contudo, não raro também sucede: homens eminentemente práticos, com notável sagacidade e treino nas coisas humanas - em particular, na difícil arte da política, que alguns veem como contígua à própria guerra -, podem se atirar de corpo e alma ao mundo real, onde se cruzam incessantemente paixões e interesses, sem obter, contudo, o resultado almejado, revelando, antes, uma certa incapacidade de entender as mediações da política democrática. Esta última, pela sua própria natureza, impõe limites e controles, freios e contrapesos, a todos os atores e forças presentes na cena pública, o que só não ocorre em indesejadas situações extremas de concentração e personalização do poder.

Poderia ser interpretada assim a movimentação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de alguns dirigentes do seu partido na iminência do julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), dos acontecimentos que passaram à recente história política como mensalão. A começar pela convocação de uma CPMI "de governo" - como apontado por vários analistas - que, desenvolvendo-se ao revés das comissões parlamentares convencionais, se limitaria a dramatizar, como num psicodrama de enredo previamente definido e pródigo em imagens, investigações policiais já em curso ou próximas da conclusão.

E no roteiro aventuroso dessa CPMI, ao que parece, constava a colocação no banco dos réus de instituições essenciais da República, como, entre outras, o Ministério Público - para não falar da tentativa de condicionar os votos de ministros da própria Suprema Corte, segundo denúncia de um dos integrantes deste mesmo tribunal.

Mera ação de "maquiavéis de pensão", coadjuvada talvez por autoridades e ex-autoridades da República pouco ciosas do que já se chamou de "liturgia do cargo"? Mais um sinal dos tempos, em que o partido hegemônico da esquerda, sem ter (ainda) desenvolvido uma cultura política democrática e reformista, se sente refém de espasmos autoritários, de acordo com os quais, como sugeriu o sóbrio Antonio Fernando de Souza, ex-procurador-geral da República, poderia se arvorar como a única instância definidora do que é crime e o que não é crime?

É provável que haja um pouco de tudo isso, mas, antes de mais nada, a possibilidade mais forte é de que ainda estejamos a viver a tumultuada trajetória de adaptação de corações e mentes da esquerda (das suas várias vertentes) às instituições da democracia política, necessariamente plurais e contraditórias, expressão de uma sociedade civil relativamente livre de constrangimentos estatais, na qual se cruzam, à moda do "Ocidente" político, as mais variadas forças e inspirações ideais. O embate entre elas é legítimo e, a depender da inteligência dos atores progressistas, pode produzir equilíbrios socialmente avançados e culturalmente enriquecedores. Na verdade, é isso o que torna impermeável este "Ocidente" a projetos autoritários de mudança, fortemente dependentes de personalidades carismáticas e da arregimentação, de cima para baixo, das instituições da sociedade, projetos que ainda incendeiam a imaginação de parte não desprezível da nossa esquerda.

No "Ocidente" político, entre outras coisas, não deveria causar estranheza nem ser motivo de escândalo a existência de uma imprensa liberal-conservadora. Em outros países e em outros momentos, partidos da esquerda souberam criar jornais memoráveis, com impacto duradouro na política e na própria cultura nacional, como o L'Unità italiano e o L'Humanité francês, curiosamente um caminho nunca testado, desde a hora da fundação, pelo principal partido da esquerda do Brasil redemocratizado. No "Ocidente", instituições como a Suprema Corte não vivem no vácuo nem são uma instância neutra de poder, que decida, para citar o filósofo Ronald Dworkin, com independência das concepções de moralidade pública de cada juiz. Mas cabe esperar que suas decisões não sejam partidarizadas em sentido estrito e se revistam de um conteúdo pedagógico, ensinando-nos, como último recurso constitucional, o modo pelo qual se compõem as desavenças inelimináveis da vida política.

No fundo, respeitado o direito sagrado de defesa, a ser exercido em sua plenitude, boa parte das lições do julgamento de agosto vai depender do comportamento da própria esquerda, atingida na figura de alguns dos seus dirigentes mais evidentes. Deveria estar excluído desse comportamento tudo aquilo que, ao longo da História e em detrimento da grandeza de Maquiavel, tornou infames ou negativamente conotados os adjetivos derivados do seu nome.

Vai ou não vai? - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 23/06


O s quatro principais dirigentes da área do euro reuniram-se ontem em Roma para preparar o encontro de cúpula dos dias 27 e 28 que precisa ser decisivo para o futuro do euro.

Depois do que pareceu uma combinada operação destinada a espremer e arrancar concessões da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, os líderes saíram de lá com o anúncio de um pacote de 130 bilhões de euros para financiar a retomada do crescimento.

Não deixa de ser uma vitória do novo presidente da França, François Hollande, que vem martelando para a necessidade de mudança de estratégia: menos austeridade e mais crescimento. Em compensação, Merkel manteve o veto ao projeto de compartilhar dívidas soberanas por meio do lançamento de eurobônus e arrancou dos outros três dirigentes o compromisso de manter o pacto fiscal assinado em março.

Os tais 130 bilhões de euros estão longe de perfazer volume satisfatório para o objetivo pretendido. Correspondem a apenas 1% do PIB do bloco. Ademais, não ficou claro de onde sairá esse dinheiro. A ideia do presidente Hollande é criar um imposto sobre operações financeiras e usar certos fundos de reserva.

Ao final da reunião de ontem, o primeiro-ministro da Itália, Mário Monti, advertiu que, se desta vez não sair um acordo convincente ("crível"), ficará altamente provável que alguns países enfrentarão o desinteresse dos investidores em continuar financiando rombos orçamentários. Se isso se confirmar, os juros saltarão, dívidas importantes ficarão insustentáveis e o euro implodirá. Na prática, o que se espera é um avanço em direção da união bancária, fiscal e política, condições necessárias para alicerçar a moeda única, o euro.

A união bancária consiste em definir critérios de capitalização bancária para todo o bloco e, também, em criar um organismo supranacional capaz de supervisionar (fiscalizar e dar assistência de liquidez) a todo o sistema bancário. A Alemanha avisou que aceita, desde que essa tarefa seja executada pelo Banco Central Europeu. Hoje, os bancos do bloco são nacionais e cada país tem lá suas regras e seus organismos próprios de supervisão.

O que se espera de uma união fiscal é a coordenação dos orçamentos nacionais. Mas é preciso mais. É preciso unificar sistemas tributários, regras de transferência de recursos dentro e fora de cada país e provocar a convergência dos sistemas previdenciários. É claro que essa unificação fiscal não sai de um ano para o outro. Mas é preciso, ao menos, tomar a decisão. Se for tomada, já haverá um bom princípio de união política.

Nas últimas semanas, muito tem sido dito a respeito da necessidade de quebrar as relações incestuosas entre tesouros nacionais e sistemas bancários também nacionais. É uma situação em que, por motivos diversos, os governos gastam mais do que podem e os bancos são chamados depois para cobrir os rombos por meio da compra de títulos de dívida emitidos pelos Tesouros, quase sempre em troca da concessão implícita de que possam fazer mais ou menos o que bem entenderem, inclusive assoprar gigantescas bolhas imobiliárias. Depois, por várias razões, inclusive a do estouro dessas bolhas, o patrimônio dos bancos ameaça ruir e os tesouros são chamados a socorrê-los, outra vez com aumento de dívida.

Não está claro como esse esquema será desarmado. O que dá para dizer é que os líderes da região parecem mais determinados do que até agora a agir. A conferir.

Paraguai, o teste de Dilma - FERNANDO RODRIGUES


FOLHA DE SP - 23/06

RIO DE JANEIRO - Um pouco antes de o Senado do Paraguai avançar ontem com seu golpe chavista, dentro da lei (sic), e derrubar o presidente Fernando Lugo, aqui no Rio Dilma Rousseff ainda mantinha a compostura em público.

Havia uma esperança quase ingênua na presidente brasileira. Ela enxergava amadurecimento nos países latinos. "A América Latina evoluiu. Conseguimos agir por nós mesmos." Deu tudo errado.

Dilma comandou uma reunião de emergência durante a conferência Rio+20. Patrocinou a montagem de uma comissão de ministros de relações exteriores latino-americanos. Eles desembarcaram em Assunção anteontem à noite. Tarde demais.

Seria difícil dar certo. Eram os mesmos diplomatas incapazes de construir um documento progressista para o ambiente na Rio+20. Por que conseguiriam demover os congressistas populistas de cassar o presidente paraguaio?

Ontem à noite, Dilma estudava novas formas de reação, sem ser "imperialista". Estava disposta a manter todas as ações dentro dos organismos multilaterais, como Mercosul e Unasul. O caminho natural será expulsar o Paraguai desses fóruns.

A crise paraguaia é o primeiro grande teste para a atuação internacional de Dilma. Ela tem duas providências a tomar, uma interna e outra externa.

Primeiro, o Planalto precisa avaliar a gênese da incapacidade dos diplomatas brasileiros para identificar risco iminente de golpe num país contíguo. Tivesse o governo informações, Dilma teria como agir no campo diplomático antes de o Congresso do Paraguai dar início ao impeachment de Lugo.

A segunda providência é a atuação multilateral tão defendida pela presidente aqui na Rio+20.

Dilma terá de liderar uma pressão internacional para que o Paraguai volte a adotar regras democráticas. Fácil não será.

CLAUDIO HUMBERTO

“Nem multa de trânsito é julgada tão rápido”

Fernando Lugo sobre o impeachment que o destituiu da presidência do Paraguai

UNASUL FAZ PAPEL DE BOBA NA CRISE DO PARAGUAI

A União das Nações Sul-Americanas (Unasul), reunida com o Brasil em Assunção, vê “ruptura democrática” no pedido de impeachment do presidente Fernando Lugo, com a habitual arenga dos “companheiros” Hugo Chávez, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia, e ameaça “aplicar as cláusulas democráticas do Mercosul”, mas esqueceu que o Congresso paraguaio ainda não ratificou o protocolo de Ushuaia II.

EXÉRCITO DA SALVAÇÃO

O protocolo, assinado por Lugo, estabelece medidas drásticas, como fechamento de fronteiras, em caso de “ruptura democrática”.

CONGRESSO SOBERANO

Qualquer medida “contra o golpe” seria um golpe na democracia paraguaia: o pedido de impeachment foi aprovado por maioria na Casa.

DESFORRA

O fanfarrão Hugo Chávez também não engole o Congresso paraguaio, que barrou a entrada da Venezuela no Mercosul. O Brasil topou.

FILME VELHO

Breve, na Embaixada do Brasil em Assunção, Paraguai: “O asilo de Fernando Lugo”.

ALIANÇA LULA-MALUF PÕE SUPLICY EM SAIA JUSTA

Eduardo Suplicy enfrentou saia justa ao entrar no avião de Brasília para São Paulo, quinta. Na primeira fileira, Paulo Maluf exclamou: “Eduardo, estamos juntos!”. Mais atrás, o ex-deputado Flávio Bierrenbach, que foi ministro do Superior Tribunal Militar, levantou a voz: “Que vergonha, Suplicy! Os fins justificam os meios?”. Constrangido, o senador balbuciou curto e confuso discurso tentando justificar a aliança PP-PT.

INDIGESTO

Lula esquece o ditado “esperteza demais engole o dono”: tal qual os almoços, também não existe “Maluf grátis”.

CONVENÇÃO

Candidato em Natal, Hermano Moraes (PMDB) lançará candidatura dia 30 contra a prefeita Micarla Sousa (PV), que tem 82% de rejeição.

QUENTÃO

O ministro Ricardo Lewandovski deveria entregar o relatório do mensalão hoje, quando é grande o número de quadrilhas dançando.

LUGO, O MALA

Muitos dos que reclamam do impeachment do paraguaio Fernando Lugo jamais se importaram com suas vítimas de assédio sexual, inclusive menores, nas quais o então bispo fez incontáveis filhos.

A TRAGÉDIA DE DUAS VIDAS

O drama de Marco Archer Moreira, 50, que será fuzilado na Indonésia por tráfico de drogas, esconde outro: a morte há dois anos da mãe, d. Carolina, que ia muito a Jacarta. Certa vez ela disse, comovida, à coluna confiar que o Brasil conseguiria o perdão do presidente indonésio.

NEM AÍ PARA A RIO+20

Enquanto a Rio+20 discutia o sexo dos anjos, os grandes poluidores se divertiam: o presidente chinês Hu Jintao passeava nas Ilhas Canárias e a chanceler Angela Merkel assistia a Alemanha x Grécia, pela Eurocopa.

ÓLEO+20

Em plena Rio+20, o Ministério Público capixaba investiga suposto dano ambiental da Petrobras e da Transpetro no terminal em Linhares, área de proteção a tartarugas marinhas. As coitadas engolem óleo todo dia.

NÃO ENCAIXA

Como recompensa por suas denúncias contra o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, o delator Durval Barbosa obteve perdão judicial por comprar sua mansão com dinheiro público desviado. Curiosamente, o crime é de 2006, no governo de Joaquim Roriz, inimigo de Arruda.

NASCE UMA ESTRELA

A atuação do embaixador na Austrália, Rubem Barbosa, promovendo a aproximação dos dois governos como nunca houve, explica por que os brasileiros estão entre os diplomatas mais respeitados do mundo. Ele assessorou Dilma e Edison Lobão no Ministério de Minas e Energia.

RAQUETADA NO BOM SENSO

No Galeão, em nome da “segurança”, a estupidez perdeu o limite na Rio+20. Quem embarcava para um torneio de tênis na Bahia teve a raquete apreendida. A menos que fosse despachada como bagagem.

DÉCADA DE 70

O jornalista Antonio de Pádua Gurgel lança no dia 28, em Brasília, seu livro Jornal da Década de 70, resgatando o papel e a importância da imprensa alternativa na capital, entre 1968 e 1979, ano da anistia.

PENSANDO BEM...

... “Até Lugo, Fernando”.

PODER SEM PUDOR

TRILHA DO SUCESSO

Jovem ambicioso, Marcus Vinicius Pratini de Morais foi nomeado oficial de gabinete do presidente Arthur da Costa e Silva e logo seria designado a fazer companhia ao general, que era madrugador, em caminhadas matinais nos jardins do Palácio Alvorada. Contam seus colegas de governo, na época, que Pratini procurou o então prefeito de Brasília, Wadjô Gomide (na época não havia governador), informando que o nível do Lago Paranoá subira um pouco e invadira alguns centímetros da trilha da caminhada, o que poderia molhar o par de tênis do ditador. Gomide mandou abrir as comportas, a fim de que as águas recuassem, e comentaria com auxiliares: “Esse garoto vai longe”. Foi mesmo: acabaria ministro da Indústria do governo Médici, (1970), Minas e Energia de Collor (1992) e Agricultura de FHC (1999).

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Paraguai cassa presidente e pode ser expulso do Mercosul
Folha: Presidente paraguaio sofre impeachment em 30 horas
Estadão: Paraguai cassa presidente em processo de apenas 36 horas
Estado de Minas: “Não tenho qualquer sentimento. Nem ódio, nem vingança. Tampouco perdão”
Jornal do Commercio: Lugo sofre impeachment
Zero Hora: Senado depõe Lugo evice assume o poder