quinta-feira, abril 09, 2020

O privilégio de estar aqui e agora - CORA RÓNAI

O GLOBO - 09/04

O ano de 2020 será lembrado para sempre, assim como nós nos lembramos até hoje de 1348, o ano em que a peste negra chegou à Europa


A vida mudou de endereço. Não acontece mais na rua; “lá fora” é um lugar pouco frequentado, exótico, cheio de riscos. Moro numa avenida movimentada e nem preciso ir à janela para saber a quantas anda a quarentena; o barulho ou o silêncio me informa. Há poucos carros. Já houve menos. Num primeiro momento, tudo o que se ouvia eram as motos dos entregadores. No último fim de semana o trânsito aumentou, e ficou equivalente ao do intervalo de um jogo decisivo da Copa, apressado e escasso — mas ainda assim intenso demais para uma população que deveria ficar em casa.

O ar melhorou muito. Antigamente, quando as janelas ficavam abertas, minha sala era vítima de uma poeira preta e pegajosa. Limpava-se, e horas depois, já estava tudo sujo de novo.

(“Antigamente”, hoje, é advérbio que se aplica ao mês passado.)

A poeira sumiu.

Ando descalça e, ao fim do dia, as solas dos meus pés continuam bastante limpas. Eu já nem me lembrava que isso pode acontecer onde não há poluição; aqui nesse apartamento, onde moro há tanto tempo, nunca aconteceu.

Ouço os passarinhos lá do outro lado.

A natureza agradece a pandemia; o planeta respira aliviado sem a nossa presença. Se continuar viva, vou ter saudades desse ar puro, dessa falta de poeira e dos dias claros. Vou ter saudades também da esperança que insiste em achar que vamos sair disso melhores, mais humanos, menos egoístas; não vamos.

O mundo já passou por toda a espécie de calamidade, e nem por isso a humanidade aprendeu os princípios essenciais da empatia e da compaixão.

Mas nesse momento, isolada há mais de três semanas, consumindo toda informação que posso, acompanhando estatísticas lúgubres e gestos de grandeza, vendo fotos de cidades vazias e de hospitais cheios, não consigo deixar de imaginar que, de agora em diante, vamos repensar as nossas prioridades e prestar mais atenção à nossa volta.

Também não consigo deixar de pensar que é uma espécie de privilégio existencial estar aqui, agora. O ano de 2020 será lembrado para sempre, assim como nós nos lembramos até hoje de 1348, o ano em que a peste negra chegou à Europa.

— As grandes cidades do mundo pararam em 2020 — dirão os netos dos netos dos nossos netos.

Que diferença faz isso se, em algumas décadas, mesmo os mais jovens e saudáveis dentre nós já não estarão mais aqui? A longo prazo, nenhuma. Mas o que se leva dessa vida é um conjunto de experiências e de vivências, e nós estamos passando pela experiência mais extraordinária do século, talvez do milênio.

Nós estamos experimentando em primeira mão o espanto diante das imagens de metrópoles desertas que, amanhã, serão as ilustrações batidas dos livros de História.

(Sim, eu acredito na sobrevivência dos livros.)

Nós somos a primeira geração que ainda não sabe como isso vai acabar. É lógico que, podendo escolher, nenhum de nós escolheria passar por isso; mas essa não é uma escolha.

Então pelo menos vamos observar bem, e vamos tentar ser as melhores testemunhas que pudermos ser.

É o que nos resta, e não é pouca coisa


Velhofobia - MIRIAM GOLDENBERG

FOLHA DE SP - 09/04

A face mais perversa da pandemia ficou evidente


A calamidade que estamos enfrentando evidenciou a face mais perversa de alguns políticos e empresários: a velhofobia.

Estamos assistindo horrorizados a discursos sórdidos, recheados de estigmas, preconceitos e violências contra os mais velhos:

"Vamos todos nos contaminar para criar imunidade e esta epidemia acabar logo. Só irão morrer alguns velhinhos doentes". "Deixem os jovens trabalharem. Não vamos parar a economia para salvar a vida de velhinhos". "Só velhinhos irão morrer, eles iriam morrer mesmo, mais cedo ou mais tarde".

Este tipo de discurso revela uma situação dramática que já existia antes da pandemia: os velhos são considerados inúteis, desnecessários e invisíveis. Homens e mulheres mais velhos, que já experimentam uma espécie de morte simbólica, ficam desesperados ao constatar que são considerados um peso para a sociedade.

No entanto, a forte reação contra esses sociopatas prova que os mais velhos são muito valiosos e importantes para os brasileiros. Faremos tudo o que for necessário para demonstrar que os nossos velhos não são um peso, muito pelo contrário. São eles que estão nos ajudando a encontrar força e coragem para sobreviver física e mentalmente. São eles que estão nos ensinando a ser pessoas mais amorosas e generosas. São eles que estão cuidando de nós, como fizeram durante toda a vida.

Muitos dos que disseminam o discurso de ódio e de extermínio dos mais velhos já passaram dos 60 anos. É urgente que eles aprendam uma lição importante:

A única categoria social que une todo mundo é ser velho. A criança e o jovem de hoje serão os velhos de amanhã. Os velhofóbicos estão construindo o seu próprio destino como velhos, e também o destino dos seus filhos e netos: os velhos de amanhã.

Será que estes genocidas serão tão amados e protegidos como são os nossos velhos ou serão tratados como "velhinhos descartáveis"?

Mirian Goldenberg
Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio, é autora de "A Bela Velhice".

Uma poção milagrosa de bolsonarismo na veia - MARIA CRISTINA FERNANDES

Valor Econômico - 09/04

Com a pregação pela hidroxicloroquina, presidente parece ter uma saída ao alcance das mãos, mas é apenas o atalho para o fim da quarentena e o caos social



A escalada da covid-19, que deve levar o país a encerrar a semana com mais de 1.000 mortes ofereceu ao presidente o pano de fundo de sua reação, esboçada no pronunciamento em rede nacional. Depois de insistir no relaxamento da quarentena, pressionando Exército, governadores e ministro da Saúde, Jair Bolsonaro se agarrou à hidroxicloroquina como panaceia.

A partir de agora, o discurso presidencial se pautará pela ideia de que não é o isolamento mas o remédio milagroso que salvará a nação. Aqueles que negarem a poção mágica à população o farão por elitismo e não por seguirem as recomendações da Organização Mundial de Saúde que ainda aguarda estudos conclusivos para recomendá-la.

A citação a Roberto Kalil, que admitiu ter feito uso do remédio, além de antibióticos e corticóides, é uma evidência da nova frente de batalha presidencial. O desafio lançado pelo ministro Augusto Heleno, para que outro médico estrelado, o atual gestor do centro de gerenciamento da epidemia em São Paulo, David Uip, também infectado, revele seu tratamento é outro petardo.

É uma dose do mais puro bolsonarismo na veia. Descrê que a população possa entender que os resultados obtidos com a hidroxicloroquina, além de inconclusivos, ainda levantam dúvidas sobre dosagem e efeitos colaterais. Desconsidera que o mais prudente é evitar o contágio e fazer testes em massa da população. E aposta, por fim, que a saída está ao alcance da mão e só não é usada porque demófobos são os outros.

O ministro Luiz Henrique Mandetta acusou o golpe da reação presidencial, primeiro recomendando o uso da hidroxicloroquina para os casos mais graves, depois para todos os infectados. Não que esteja convencido dos efeitos. Mantém a ubiquidade, mas parece ter se convencido dos danos do discurso bolsonarista na divisão do país e em sua reputação.

A ofensiva presidencial se dá num momento em que já se registram Estados com ocupação de leitos de praticamente 100% e hospitais públicos com mortalidade de 8% pela covid-19. Como ainda não há uma previsão segura de quando o país atingirá o pico da doença, é um cenário, no melhor das hipóteses, de caos social que faz a pressão do presidente surtir efeito.

Depois de incursões no palco bolsonarista por excelência como a fala ao vivo num show caseiro de uma dupla sertaneja com 5 milhões de visualizações, Mandetta fez Bolsonaro acordar na segunda-feira disposto a testar se o ministro era tudo aquilo que parecia. Era. A ameaça da demissão de Mandetta o levou ao topo das citações mundiais do Twitter, esfera pública da predileção bolsonarista.

Correu a narrativa de que os ministros palacianos seguraram Mandetta, mas seus correligionários acreditam que tudo não passou de uma aposta do presidente que deu errado. O ministro, na avaliação do DEM, já teria batido no teto de avaliação positiva, condição que será difícil manter quando a contaminação chegar ao pico, especialmente com o afrouxamento do isolamento social.

Depois de citar o mito das cavernas, com o qual Platão ilustrou o embate entre a ignorância e o conhecimento, Mandetta buscou um abrigo à meia luz. Contrariou seus correligionários e ficou. Não poderia deixar a trincheira que tem hoje para reagir à ofensiva que vem de cima, nem que precise compor com quem o ataca. Terá que se ver com o Ministério Público, que deu prazo de 48 horas para explicar o relaxamento da quarentena.

O ponto de partida para a reação bolsonarista é o terço do eleitorado que aprova a conduta presidencial na crise do coronavírus. Ao se referir aos efeitos da quarentena sobre os mais pobres na TV, o presidente parece confiante de que será capaz de ampliar essa base.

A ofensiva assustou os governadores que temem ficar a reboque da mistificação presidencial. Os de São Paulo, Ceará, Piauí e Pará foram os primeiros a anunciar protocolos para o uso da poção.

A ofensiva bolsonarista também realinhou os fardados do governo. Ontem vice-presidente Hamilton Mourão resolveu se alinhar ao chefe num tuíte: “Aos aventureiros de muitos costados que nesta hora de dificuldades pretendem inviabilizar o governo, lembro que sou o vice do presidente Jair Bolsonaro e que os paraquedistas andam sempre no mesmo passo”.

O sinal de que o jogo no Palácio virara veio com a reação do ministro da secretaria de governo, Luiz Eduardo Ramos que, sem citar Mourão, revelou a disputa de lealdades: “Só lembrando também que existem mais paraquedistas ao lado do nosso presidente Bolsonaro: ministro Heleno, ministro Fernando [Azevedo e Silva], general Floriano Peixoto e ministro Ramos”.

Ramos se deu conta de que havia deixado o ministro-chefe da Casa Civil de fora e tuitou nova mensagem em que aparecem abraçados: “Nessas horas difíceis, os paraquedistas contam com a audácia e larga experiência dos Guerreiros da Selva, como o ministro Braga Netto!”.

Se àquela altura alguém ainda cultivava a ilusão de que o presidente é um tutelado pelos militares, já mudara de ideia. Não o é pelos da caserna nem pelos da ativa. O estudo do Centro de Estudos Estratégicos do Exército não se limita a convergir com Mandetta e com a OMS. Em suas 25 páginas, o apanhado sobre as estratégias de “transição para a normalidade” não cita uma única vez a hidroxicloroquina. Não surpreende que tenha sido retirado do ar.

O único pedágio pago pelo presidente foi à lealdade das Forças Armadas à Constituição. No pronunciamento, disse que pretendia passar um país melhor ao sucessor, numa tentativa de convencer de que não atentará contra a ordem democrática.

O capitão deixou o Congresso por último. O formato final da emenda constitucional que delegou poderes extraordinários ao Executivo foi determinado pela percepção dos parlamentares de que se não o fizessem, pagariam a conta funerária da covid-19. Não apenas se retiraram do comitê da crise, como desistiram da condição de chanceladores do “interesse público” das medidas.

O próximo enfrentamento se dará no decreto com o qual o presidente pretende impor o relaxamento da quarentena na Federação. A ver o que terá restado de uma República, enfeitiçada pela poção mágica, para esboçar uma reação.

Seremos os últimos a sair da recessão? - SOLANGE SROUR

FOLHA DE SP - 09/04

Brasil está sem liderança para lidar com o maior problema econômico de sua história



A cada dia que passa, fica mais claro que o colapso na produção e a recessão global que se aproximam superarão em muito a catástrofe econômica de 2008. O Brasil foi atingido pela pandemia com um crescimento anêmico e com um enorme ceticismo quanto ao seu futuro.

Partindo dessa condição inicial, algumas questões precisam ser debatidas urgentemente: quão profunda será nossa recessão, quanto tempo durará e de que forma afetará o potencial de crescimento.

Até que saibamos com que rapidez e profundidade o desafio da saúde pública será enfrentado, é praticamente impossível prever qual o tamanho da perda de PIB. As projeções sobre o término do isolamento social e do chamado “lockdown” são instáveis. Mas, mesmo se soubéssemos uma data precisa, as dúvidas acima colocadas continuariam enormes.

A saída do Brasil desta crise dependerá muito mais dos efeitos de médio e longo prazo das decisões que estão sendo adotadas neste momento do que do fim da contaminação viral.

A peculiaridade da crise é que estamos enfrentando não só um choque de demanda mas uma disruptura total da oferta.

Gastos fiscais como complemento da renda aos desassistidos e apoio financeiro às empresas podem contribuir para achatar a curva de contágio, tornando menos custoso às pessoas ficar em casa, e às empresas, ficar fechadas. No entanto, há um limite para o quanto isso pode ser útil a médio prazo. Tudo vai depender do ambiente econômico, político e institucional que se desenhará no país pós-medidas emergenciais.

No campo econômico, muito tem sido dito da importância de termos gastos temporários que não se tornem permanentes. O Brasil vai sair de um déficit primário inicial de 0,8% do PIB para 8% ao fim deste ano, com a dívida/PIB subindo de 76% para 90%. São poucas as esperanças de que colocaremos os gastos públicos em trajetória de queda novamente.

Como a retomada da economia dificilmente será rápida, o aumento da pobreza e do desemprego deve elevar os gastos assistenciais por muito anos.

Há uma lista enorme de medidas, dissociadas da crise conjuntural, que estão sendo gestadas no Congresso com impactos estruturais, como a reposição da perda de ICMS pelo governo federal, a quitação dos débitos referente à Lei Kandir e a flexibilização do socorro aos estados via Plano Mansueto. A depender da negociação desse último ponto, a dívida/PIB pode chegar a 100%. O teto de gastos estará com seus dias contados assim que sairmos do estado de calamidade.

Muito antes do coronavírus, a completa desorganização política já impedia o avanço da agenda de reformas e tornava o país suscetível às chamadas pautas-bomba. Perdemos um precioso tempo discutindo reformas que não saíram do campo das ideias: tributária, administrativa e as privatizações.

Mesmo as medidas chamadas “emergenciais” que serviriam para completar o ajuste fiscal estavam esquecidas, enquanto o Senado aprovava um gasto fiscal permanente da ordem de 10% da economia da reforma da Previdência, com as mudanças nas regras de acesso ao BPC.

A briga pelo protagonismo entre Executivo e Legislativo foi exacerbada na implementação de medidas como o “coronavoucher”. Para piorar o quadro político, o governo federal se colocou totalmente contrário às posições dos governadores no combate à pandemia, as quais seguiam as orientações da OMS e do próprio Ministério da Saúde.

A antecipação da corrida presidencial nos custará caro. Mesmo que o Congresso e alguns governadores aparentem estar comprometidos com a agenda de reformas, é difícil imaginar que medidas que impulsionem a economia e a popularidade do presidente sairão do papel.

Por fim, mas não menos importante, o coronavírus trouxe de volta o questionamento sobre a robustez do nosso marco institucional. Os congressistas discutem quebra de contratos nos mais diversos setores, confisco dos lucros das empresas, implementação de tributos altamente ineficientes e suspensão do pagamento de precatórios.

Passaremos por um período desafiador com uma onda de pedidos de reequilíbrio financeiro dos contratos das concessões públicas que deve se estender por anos em instâncias como o TCU. Já o Supremo aumenta a insegurança jurídica ao questionar a necessidade de negociações individuais serem referendadas pelos sindicatos.

O Brasil é hoje um país sem liderança e sem estratégia para lidar com o maior problema econômico de sua história. Sem oferecer políticas específicas eficazes de curto prazo, colocamos em risco o longo prazo.

Vai ser difícil recuperar o PIB perdido. Iremos muito provavelmente passar por uma prolongada crise financeira e social que poderiam ser minimizadas.

Solange Srour
Economista-chefe da gestora ARX Investimentos. É mestre em economia pela PUC-Rio.

Brasil é pressionado pela Opep a reduzir produção de petróleo - MANOEL VENTURA

O GLOBO - 09/04

Países exportadores tentam costurar acordo de corte de até 10 milhões de barris por dia, o que viabilizaria a recuperação de preço do produto


BRASÍLIA - O governo brasileiro está sendo pressionado a participar de um acordo costurado pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) para cortar a produção global de petróleo, de maneira a fazer subir o preço do produto em todo o mundo. As conversas se intensificaram nos últimos dias, mas ainda não há decisão tomada por parte do Brasil, segundo fontes que acompanham as negociações.

O ministro de Minas e Energia do Brasil, Bento Albuquerque, teve uma longa reunião na terça-feira com o secretário de Energia dos Estados Unidos, Dan Brouillette, para discutir o assunto. O aumento dos preços também pode interessar aos EUA por causa da forma como o petróleo é extraído naquele país.

Um patamar muito baixo, segundo especialistas, dificulta a produção do petróleo de xisto. Fraturas e perfurações hidráulicas em campos de xisto converteram os Estados Unidos em um poderoso exportador da commodity.

Os países membros da Opep se reúnem hoje para discutir um corte coletivo na produção, que pode chegar a dez milhões de barris por dia — o maior da história — como forma de combater os efeitos do coronavírus, que tem prejudicado muito a demanda. Com menos petróleo disponível, o preço sobe.

Contribuição esperada
Uma outra reunião está marcada para sexta-feira, dessa vez no âmbito do G-20, também para discutir o choque dos preços. O ministro de Minas e Energia confirmou sua presença na reunião com representantes dos países do G-20 e tem mantido contato com autoridades da Arábia Saudita e dos Estados Unidos.

Dessa reunião pode sair o anúncio de um esforço coordenado entre as potências petrolíferas para, de forma pontual, enxugar a sobreoferta global.

Integrantes do cartel internacional do petróleo fizeram chegar às autoridades brasileiras que qualquer acordo final sobre quanto a Opep e seus aliados (um grupo chamado de Opep+) cortará vai depender substancialmente do quanto Brasil, Estados Unidos e Canadá estão dispostos a contribuir.

O ministro brasileiro conversou no domingo com o seu homólogo da Arábia Saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman Al Saud. Segundo o ministério informou, o príncipe perguntou se o Brasil “se inclinaria a integrar o esforço de coordenação internacional na busca de mecanismos que contribuam para a estabilização do mercado internacional de petróleo”.

Impacto para estados
A tendência é que uma decisão final só seja tomada na reunião de sexta-feira, do G-20. O objetivo no corte de produção é aumentar o preço do barril de petróleo, que está em níveis historicamente baixos por conta da falta de demanda causada pelo coronavírus, na casa dos US$ 30.

O Brasil se tornou um player importante nas negociações porque hoje o país é um dos dez maiores exportadores de petróleo do mundo. Um corte na produção, porém, pode impactar diretamente as contas de estados e municípios produtores, além do próprio governo federal.

Há dúvidas, porém, de como o Brasil poderia cortar sua produção, caso seja essa a decisão. A Petrobras, estatal, é a principal empresa do setor, mas o país tem um ambiente de negócios marcado por pluralidade de companhias privadas.

Ao fim da pandemia, pouco restará da agenda de Paulo Guedes - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 09/04
O que sobrará da ideia inicial

Ao fim desta pandemia, pouca coisa vai sobrar da agenda com a qual o ministro Paulo Guedes chegou ao governo. As reformas foram engavetadas, o plano Mansueto foi deixado de lado por outro que socorre os estados na emergência, a empresa que está para ser privatizada ajudou a fazer o caminho para o pagamento do auxílio emergencial, a proposta de zerar o déficit público se transformará no maior déficit da nossa história.

Ontem, o governo, de um lado, a Câmara e os governadores, de outro, brigavam em torno de quanto transferir aos estados e municípios neste momento. O chamado Plano Mansueto era uma excelente ideia para um outro mundo, e certamente voltará a ser. Ele induz os estados e municípios a se ajustarem e buscarem notas de crédito melhores e os incentiva com recursos e avais conforme a nota alcançada. Mas como falar em ajuste num momento em que despencam as arrecadações de ICMS e ISS? Agora, a Câmara decidiu aprovar projeto que facilita as transferências para a sustentação da receita dos estados e municípios e suspende a cobrança das dívidas com o Tesouro.

O deputado Rodrigo Maia explicou ontem que, se deixasse o Plano Mansueto, ele seria desvirtuado, porque estavam sendo incluídas emendas com propostas de gastos de longo prazo:

– O Plano Mansueto é correto, vai ter que ser enfrentado, mas neste momento todos os estados vivem a mesma angústia, que é a necessidade de receitas para enfrentar a crise.

A pandemia mudou completamente tudo no mundo, mas o fato é que o projeto do governo já não ia bem. O que houve de privatização foi a venda de participações ou blocos de ações feita por algumas empresas e bancos públicos. A abertura da economia também teve pouco avanço. O projeto liberal patinou no primeiro ano de governo. Agora, devido às circunstâncias, ele tem que ser deixado de lado, e economistas preparados para fazer um programa têm que fazer o inverso.

A versão do governo, dita em várias entrevistas, é que o país estava decolando quando foi abatido pela crise. Não é verdade. O primeiro trimestre já não vinha dando bons sinais de recuperação da economia. O comércio caiu 1,4% em janeiro e subiu menos em fevereiro, 1,2%. O setor de serviços vinha de duas quedas no final do ano passado, subiu apenas 0,4% em janeiro e voltou a cair 1% em fevereiro. Na indústria, as duas altas dos meses de janeiro e fevereiro não recuperaram as perdas de novembro e dezembro. Olhando apenas para fevereiro, último mês antes da pandemia, o Ibre/FGV projetou alta de apenas 0,1% no seu Índice de Atividade Econômica (IAE).

Na entrevista concedida ontem pela área econômica foi dito que eles estavam se preparando desde dezembro para esta crise. Isso está bem distante dos fatos. A verdade é que até o começo de março o governo continuava defendendo apenas a aprovação das reformas. Perguntei a um integrante graduado da equipe econômica, no dia 5 de março, que resposta seria dada à crise do coronavírus e ouvi que havia apenas três infectados e que o Brasil era uma economia fechada que seria menos impactada. Naquele mesmo dia, o número subiria para oito. E ontem já havia 800 mortos.

Ontem, em entrevista coletiva, o secretário Adolfo Sachida sustentava que o Brasil fora o mais rápido a responder, do ponto de vista da economia, e o secretário Waldery afirmou que é o segundo emergente que mais está gastando, atrás apenas do Chile. Isso não é um campeonato de despesa. O que é preciso é fazer o dinheiro realmente chegar. Nesta quinta-feira é que começará de fato a acontecer o pagamento da primeira parte do auxílio emergencial. Anunciar medidas não é o mesmo que realizá-las. É preciso reduzir o tempo dedicado à reescrever a história para se empenhar mais em garantir a execução das medidas.

O banco BNP Paribas estima que o deficit primário este ano poderá chegar a 7,3% do PIB, com uma combinação de aumento de gastos e queda de arrecadação. Ao final desta crise, a dívida bruta poderá alcançar um patamar recorde, de 90% do PIB. Já o UBS tem números menos piores. O deficit este ano pode ir a 7%, com endividamento de 86% no ano que vem. Mas ele acredita que até em 2021 o governo teria um forte deficit primário, de 4% do PIB.

A conta será salgada. O mais importante agora é implantar o que vem sendo anunciado. E no momento seguinte preparar o plano da reconstrução da economia e dos parâmetros fiscais, para o dia em que este pesadelo passar.

Novos poderes podem ajudar BC a reduzir pânico dos juros do coronavírus - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 09/04

Senado entende mal medida que pode ajudar BC a reduzir juros que governo paga


Em tempos de epidemia e fome, discutir os novos poderes que o Congresso pode dar ao Banco Central parece indiferença. Mas:
Trata-se de oferecer novos meios para o BC agir em tempos de calamidade sanitária e econômica;
É possível que, assim, o BC possa reduzir o custo da dívida do governo (baixar taxas de juros);
Talvez o BC possa tirar do caminho algum entulho que trava a oferta de empréstimos;
O BC teria instrumentos para evitar algum acidente maior no sistema financeiro, coisa que torna qualquer crise econômica ainda mais dramática.

Do que se trata? Uma emenda constitucional, já aprovada na Câmara, permite que o BC compre títulos do governo de médio e longo prazos, além de títulos de dívida privada. Falta a aprovação do Senado, onde certos parlamentares têm feito críticas disparatadas ao projeto. A emenda é de fato uma reviravolta grande nas finanças públicas brasileiras, coisa de tempos de guerra e colapso, portanto apropriadas (em teoria).

Para começar pelo menos enrolado, em princípio: o BC poderá adquirir títulos do Tesouro de prazo mais longo. Quando há mais gente mais interessada em emprestar para o governo, mais títulos se compram: o preço dos títulos sobe, a taxa de juros cai (é a mesma coisa). Quando mais gente refuga os títulos, os juros sobem.

Talvez o BC venha a comprar títulos públicos apenas a fim de conter a disparada recente das taxas de juros mais longas, uma ação emergencial, um sedativo.

Mas, talvez, o BC possa reduzir as taxas de qualquer prazo de vencimento, por bem mais tempo.

A taxa de curto prazo (a Selic, prima do DI) deve baixar mais. Quem sabe desça a perto de zero, pois estamos sob risco de depressão e de inflação na prática nula. A fim de evitar a alta de juros de longo prazo, seria necessária ação extraordinária do BC: compra de títulos de prazo mais longo (dois, sete, dez anos, digamos), que não pagariam taxas muito maiores do que a de curto prazo (do que a Selic).

O governo, pois, acabaria se financiando com empréstimos de curto prazo, com juros bem menores. No entanto, mesmo entre doutos entendidos há dúvidas sobre os planos do BC: agir para atenuar pânicos, paliativo passageiro, ou “achatar a curva” por mais tempo (como se escrevia nesta coluna no domingo)?

Recentemente, as taxas de juros dos títulos com vencimento mais longo subiram de modo selvagem. Neste ano, a diferença entre a taxa de um ano e a de sete anos andava pela casa de pouco mais de dois pontos percentuais até o início de março. Na semana final do mês, a diferença chegou a ir além de cinco pontos.

No atacadão do mercado de dinheiro, é uma diferença brutal, sinal de grande pânico. As taxas de um ano caíram, as mais longas subiram (mais gente preferiu comprar títulos de curto prazo, mais gente preferiu vender os de longo prazo).

Em resumo simples, muita gente está com medo do futuro, embora outros percalços expliquem parte do movimento. Assim, todas as taxas mais longas da praça financeira, do mercado de dinheiro aos bancos, ficam mais altas (isto quando existe negócio).

A ação do Banco Central pode, no final das contas, baratear os empréstimos para o Tesouro (se “achatar a curva” por mais tempo). Na prática e indiretamente, o BC em parte financiaria o governo nestes tempos de calamidade. A despesa com juros cairia. A dívida pública aumentaria um pouco menos (vai aumentar muito, de qualquer modo, dados o aumento de gasto e a queda medonha da receita).​

Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

Faltam informações - ZEINA LATIF

O ESTADÃO - 09/04

A taxa de incidência da doença é muito heterogênea entre Estados brasileiros


A extensão territorial do Brasil e seus muitos contrates regionais criam um quadro heterogêneo de incidência da epidemia do novo coronavírus. Os problemas para a definição de estratégias, no entanto, não param aí. O Ministério da Saúde (MS) tem optado por não decretar o isolamento social em todos os Estados. Por ora, cada um segue suas regras, adaptando as sugestões feitas pelo governo federal.

Não tem sido diferente nos EUA, onde o presidente Trump reluta em decretar o isolamento no país todo. Os 50 Estados da federação declararam situação de emergência, mas cada um adota suas medidas para lidar com a epidemia. Apenas 13 Estados decretaram quarentena total; a maioria a limitou a algumas cidades.

É precipitado afirmar que a descentralização de decisões é equivocada, pois o objetivo não é evitar a disseminação da doença, mas sim, como sabemos, suavizar sua curva de infecção.

O problema é a falta de uma coordenação entre as ações dos entes da federação, sendo inevitável a leitura de que disputas políticas atrapalham. Como resultado, reduz-se a eficácia das medidas sanitárias. Afinal, o vírus não respeita as fronteiras das cidades e dos Estados.

Uma medida recente, a ser implementada a partir do dia 13 de abril, foi definir critérios para regiões com baixa incidência da doença relaxarem o distanciamento social, mas levando em conta sua capacidade de suprir as demandas da área da saúde – como leitos, respiradores, testes laboratoriais e equipes de saúde

Considerando que as curvas de novos infectados segue ascendente – diferentemente do que ocorre em outros países, inclusive da América Latina – , talvez a decisão se mostre precipitada.

A complexidade do Brasil se releva em números. A taxa de incidência da doença é muito heterogênea entre Estados. Aqueles com maior fluxo de viajantes e fronteiras mais permeáveis sofrem mais.

De acordo com o MS, no dia 6 de abril, o Distrito Federal tinha a maior taxa de incidência (15,5 casos para cada 100.000 habitantes), o que faz sentido. Na sequência, Amazonas (12,6) e Ceará (11,0) também sofrem bastante, talvez por serem, reconhecidamente, importantes rotas do trafico de drogas. Ambos exibiram taxas acima de São Paulo (10,5), o quarto colocado.

Alguns dados parecem incoerentes, com Estados mais parecidos exibindo taxas de incidência bastante diferentes. Enquanto na Bahia a taxa estava em 2,9 para cada 100.000 – acima de Minas Gerais (2,5) –, no vizinho Sergipe estava em 1,4. Há também divergências relevantes entre as taxas do Maranhão (1,9), Pará (1,2) e Piauí (0,7), que, por sua vez, destoam imensamente do Ceará, em que pesem as peculiaridades deste Estado.

Seria importante o MS coletar e divulgar dados relativos ao número de exames realizados, como fazem outros países. Nos EUA, por exemplo, a cifra atingiu 1,92 milhões de testes no dia 7 de abril, o que equivale a 5,6 testes para cada 1.000 pessoas.

Essas incoerências nos dados reforçam a avaliação de que há um problema sério de subnotificação de doentes, por conta da insuficiência de testes. Especialistas apontam para a baixa confiabilidade dos dados no Brasil, pois testamos basicamente (e parcialmente) os casos sérios. Há também o problema de falsos negativos nos testes que visam identificar se o indivíduo já adquiriu anticorpos.

Isso significa que a curva de evolução de infectados não é muito confiável. Assim, fica mais arriscado e difícil estabelecer estratégias para o confinamento – sua duração e abrangência.

Da mesma forma compromete-se a avaliação do impacto da pandemia na economia.

Vale lembrar que o relaxamento que foi iniciado na China e as discussões crescentes em países europeus só têm sido possíveis por conta da inflexão da curva de novos casos.

O quadro é de muita incerteza. Sem dados robustos e confiáveis da autoridade de saúde, não conseguiremos responder de forma segura se o próximo passo deverá ser de endurecimento ou de relaxamento do isolamento.

CONSULTORA E DOUTORA EM ECONOMIA PELA USP

A crise nos pede para 'olhar para dentro' e escolher o melhor que podemos ser - FERNANDO SCHÜLER

FOLHA DE SP - 09/04

Pandemia parece não ter funcionado para desarmar espíritos e produzir alguma coesão


David Brooks escreveu algo curioso, dias atrás, sobre o impacto da crise na sociedade americana. “O que antes surgia como uma sociedade amarga e dividida, agora se parece com uma nação de gente encontrando maneiras criativas de aproximarem uns dos outros.”

O Brasil também vem se comportando como uma sociedade amarga e dividida e a pergunta a fazer é se a crise traz alguma mudança semelhante.

Ainda é cedo, mas não tenho dúvidas que há sinais positivos. E eles vêm do universo da vida privada. Famílias que se reaproximam, redes invisíveis de solidariedade e pequenos gestos, infinitos grupos que dialogam via aplicativos que sequer conhecíamos.


Cada um terá sua história para contar. Alguns terão perdido pessoas que amavam, outros terão passado por um isolamento difícil.

Há notícias incríveis, ainda aos pedaços, sobre o florescimento da filantropia. A Associação Brasileira de Captadores de Recursos registrava na terça-feira (7) mais de R$ 1 bilhão em doações, e isto irá crescer.

Há uma explosão no uso das plataformas de crowdfunding, novas experiências de matching, como a duplicação do recurso da alimentação escolar que chega aos alunos mais pobres de São Paulo, feita por empresários e pessoas que se reúnem na busca coletiva de recursos.

O ponto é que há um divórcio entre o que se desenha no universo privado e o que corre solto na esfera pública. Nesse âmbito, parecemos ter regredido. A pandemia e seu drama parecem não ter funcionado para desarmar espíritos e produzir alguma coesão.

Nestes dias voltei a ler sobre as grandes pestes. Me deparei com as histórias de terror no relato de Defoe sobre a peste de 1665, e logo a imagem de Carlo Ginzburg em seu “História Noturna”: “O trauma da peste faz crescer a busca do bode expiatório no qual atiramos nossos medos e ódios”.

O vaticínio de Ginzburg parece descrever com precisão o que se passa no debate público. Exemplos disso são a “conspiração chinesa” e a celeuma em torno do uso da cloroquina. Sobre esta última, é fácil perceber que há uma divisão da área médica.

Há resultados promissores, colhidos “em meio à guerra”, como bem observou o dr. Paulo Zanotto, há pessoas morrendo e não dispomos de protocolos conclusivos a respeito. O que fazer? Ir atrás da informação, ter boa vontade em relação ao debate ainda desencontrado, escutar os médicos, verificar sobre os resultados que vêm, quase em tempo real, de quem está na frente de combate?

É o que de fato fazemos, no universo pessoal. No mundo público soltamos nossas bruxas. Pedimos o banimento das redes sociais de quem pensa diferente, quem sabe na falta de fogueiras a nossa disposição. Que os cidadãos façam essas coisas, opinando sem nenhuma responsabilidade, no mundo digital, é mais do que previsível. O que surpreende é nossa liderança política, em um momento difícil como este, seguir o mesmo compasso.

Tudo isso em um quadro no qual sequer sabemos o tamanho do drama humano que temos à frente. Pesquisa recente feita em Nova Déli mostrou que, mesmo com medidas de distanciamento social, moradores de favelas são 44% mais vulneráveis à contaminação pela influenza. É só um indicativo, no qual devemos prestar atenção. E agir rápido.

No mais, volto à provocação de Brooks. Ele conta sobre o grande silêncio americano ao fim da gripe espanhola. “Talvez porque as pessoas não gostaram de ver no que haviam se transformado”, naqueles momentos duros.

A crise é assim. Mostra o nosso pior e o nosso melhor. A vantagem, por aqui, é que cada um ainda tem tempo de fazer as suas escolhas.

Fernando Schüler
Professor do Insper e curador do projeto Fronteiras do Pensamento. Foi diretor da Fundação Iberê Camargo.

O petróleo e a implosão de uma geopolítica - CELSO MING

ESTADÃO - 09/04

O alastramento do novo coronavírus desmonta o megajogo das nações pelo produto, altamente estratégico


A Opep+ (esse + é a Rússia) tem nesta quinta-feira em Viena uma reunião extraordinária para fechar (ou não) novo acordo para reduzir a oferta de petróleo pelos países do grupo. O objetivo é buscar certa recuperação nos preços, que desabaram dos US$ 50 por barril para a altura dos US$ 35 a partir do dia 9 de março, quando a Rússia não apenas se recusou a cortar suas exportações, mas avisou que exportaria mais. Seu principal objetivo nessa negativa foi tirar do mercado as produtoras de óleo de xisto dos Estados Unidos.

Há mais de 120 anos, o petróleo vinha sendo considerado produto altamente estratégico. Como tal, determinou sua própria geopolítica. Para se livrar da dependência de suprimento do Oriente Médio – e, de quebra, prejudicar certos financiamentos a grupos islâmicos radicais –, os Estados Unidos favoreceram a exploração de óleo de xisto em seu território, atividade que há dois anos os tornou exportadores. A Rússia vem usando petróleo e gás para aumentar sua influência sobre a Europa. E esta passou a adotar políticas de redução de consumo, para viabilizar as metas de redução do efeito estufa e para reduzir sua dependência de combustíveis fósseis. Os Estados Unidos vinham pressionando seus aliados europeus a desistir da construção do gasoduto russo Nord Stream 2.

O alastramento do novo coronavírus começa a desmontar esse megajogo. O consumo de energia despencou com a brutal redução da atividade econômica. O mundo está encharcado de petróleo. A maior parte dos produtores dos campos de xisto dos Estados Unidos ficou inviabilizada. Quase todos os países da Opep passaram a enfrentar grandes rombos fiscais em consequência da quebra das receitas com royalties e exportações.

Como observa Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), especialista em petróleo e gás, o jogo conjunto entre a Arábia Saudita e a Rússia foi por água abaixo com a crise econômica produzida pelo coronavírus: “É inédito o que acontece agora no mercado de óleo. Nunca houve tanta oferta, com preços em queda e tão pouca demanda. Não fosse a crise do coronavírus, a estratégia teria sido bem-sucedida”.

Para ele, as novas condições do mercado produziram importante ganhador: a China. Grande compradora mundial, a segunda maior economia do mundo pode agora tirar proveito das novas condições de preços. Seu governo está cuidando para garantir grandes estoques a preços ínfimos. Assim, poderá impulsionar a retomada da atividade econômica a custos bem mais baixos, após meses de sufoco.

Walter Franco, professor de Economia do Ibmec São Paulo, observa que o principal objetivo da Europa vem sendo reduzir sua dependência por combustíveis fósseis. É o que sustenta a transição energética pela qual os europeus vêm passando, o que força os investimentos em matrizes limpas e renováveis. “Toda estratégia da Opep falha quando o setor produtivo global depende menos de combustíveis fósseis. O mercado mundial está rechaçando a manipulação dos preços.”

Do encontro formal da Opep+ desta quinta-feira não participará um terceiro e importante player do mercado: os Estados Unidos. Mas qualquer decisão terá de levá-lo em conta. Donald Trump não pode determinar a redução da oferta de óleo dos Estados Unidos porque estaria interferindo num setor altamente regulado pelas leis antitruste. Mas poderá aumentar ou diminuir a ajuda financeira às empresas que agora estão em perigo e, assim, garantir sua sobrevivência.

De todo modo, para que tenha relevância, uma redução da oferta nesta reunião da Opep teria de ser superior a 5 milhões de barris diários, algo em torno de 5% menor do consumo antes da crise.

É improvável que a outra reunião agendada para sexta-feira, a de ministros de Energia e Petróleo do grupo das 20 maiores economias, com objetivo de examinar o mesmo assunto, possa obter grande avanços sobre o que decidir a Opep+. / COM GUILHERME GUERRA

Quando fechar, quando abrir - WILLIAM WAACK

ESTADÃO - 09/04

Bolsonaro não é o único chefe de Estado que não sabe como sair do dilema


A realidade se encarregou de lembrar Jair Bolsonaro de que ele pode trocar de ministro quanto quiser, mas não pode trocar quanto quiser de política de saúde. Os limites aplicados às vontades do presidente – não importam méritos ou motivações – foram antes de mais nada institucionais. Em princípio, não é mau sinal.

Entrou como freio uma estrutura federativa que, no caso do combate ao coronavírus, concede aos operadores do SUS uma grande margem de ação. E os operadores são, em primeira linha, governadores e prefeitos. Além da eterna crise fiscal, eles se ressentem hoje sobretudo de falta de coordenação política, e estão assustadíssimos com a nada remota probabilidade de colapso de partes do sistema de saúde. Clamam por liderança.

É outro problema que veio junto de Bolsonaro e que a crise do coronavírus apenas escancarou. O presidente acha que seu poder vem da caneta, que ele diz não ter pavor nenhum de usar (mas não pode). Na verdade, o poder presidencial no Brasil vem de algo que o atual ocupante do Planalto renunciou a aplicar ou o faz de forma inconsistente, errática e subordinada exclusivamente ao curtíssimo prazo de redes sociais: ditar a agenda política.

Sob o avanço da doença, a postura de Bolsonaro consiste o tempo todo em “salvar” seu governo, que ele enxerga exclusivamente pelo prisma de uma ameaça de crise social urdida por adversários reais ou imaginários mancomunados para destruir a economia e criar o caos. As manobras que faz para neutralizar inimigos (governadores, por exemplo) e afastar obstáculos ao que considera necessário realizar (o ministro da Saúde e o isolamento social, por exemplo) são perfeitamente racionais dentro desse quadro mental que beira a paranoia.

O problema é muito maior e, mesmo em seu jeito tosco (Bolsonaro sobre Bolsonaro), o presidente fala diariamente de um dilema para o qual os principais chefes de governo nas democracias liberais ainda não encontraram saída. Em termos bastante brutais, trata-se de saber até quando precisa durar o fechamento de economias antes que a devastação delas se torne irrecuperável. Na outra ponta, reabrindo as economias, trata-se de saber qual é o limite tolerável do número de mortos, a partir do qual a falência de qualquer carreira política é irrecuperável.

Projeções e análises de curvas estatísticas sobre economia e saúde pública permitem no máximo contornos de cenários nebulosos, sem horizonte de tempo e qualquer “certeza”. Em outras palavras, dirigentes políticos ao redor do mundo democrático liberal estão sendo obrigados a “sentir” o dia a dia de temperaturas políticas e situações de degradação econômica e social que parecem ser, neste momento, muito mais abrangentes e que aparentemente estão reagindo timidamente ao inédito volume de medidas de estímulo e combate à recessão.

Para os que se sentem fascinados por entender qual papel exercem personalidades na História, a atual crise e sua imprevisibilidade oferecem alguns contrastes eloquentes. Donald Trump, por exemplo, ziguezagueia exibindo seu narcisismo (ele se proclamou um “gênio muito estável”). Angela Merkel, na outra ponta, demonstra uma postura próxima ao estoicismo (filha de um teólogo protestante em país comunista). E Jair Bolsonaro?

Chegou ao Palácio do Planalto na crista de uma onda política e social que ele apenas em parte entendeu e controlou, onda que vai ficar parecendo apenas uma marola diante das proporções da crise de saúde e economia que começamos a enfrentar agora. Nela, Bolsonaro não aprendeu a nadar, e está se afogando.

Malditas redes - ASCÂNIO SELEME

O GLOBO - 09/04

Avalanche de mentiras é tão grande que elas acabaram desmoralizadas


Além de facilitar de maneira extraordinária as comunicações planetárias, as redes sociais deram voz a quem não as tinha, ou que não conseguiam expandi-la de maneira a alcançar mais do que seu círculo íntimo. Foi uma extraordinária revolução que mudou a forma das pessoas pensarem e agirem e transformou a indústria. Mais diretamente as indústrias das comunicações e das telecomunicações, mas todas as outras sofreram consequências, muitas de maneira positiva. No Brasil, apesar de reveses por abusos contra a livre concorrência e pela disseminação de mentiras, tudo ia relativamente bem, até chegarem Jair Bolsonaro, seus filhos e o gabinete do ódio.

A onda global de fake news que causa forte impacto sobre as redes, sobretudo na Europa, produzindo um enorme dano às suas imagens, não pode ser comparada ao que se viu no Brasil destes últimos dias. Em todo o mundo as pessoas passaram a buscar informações sobre o coronavírus em fontes confiáveis, nos veículos profissionais de notícia, com medo de se contaminarem pelas fakes disseminadas. Aqui, a avalanche de mentiras é tão grande e contínua que as redes acabaram sendo desmoralizadas. O efeito dessa onda é de tal maneira devastador que até mesmo um post do presidente da República foi retirado do ar pelo Facebook por ser mentiroso, mas apenas depois de causar enorme estrago.

Membros de grupos de WhatsApp raramente recebem alguma coisa de primeira mão. Quando não é uma mensagem pessoal, quase tudo chega por redirecionamento. Fora as piadas, as orações e as sacanagens, o que mais se vê hoje em dia são campanhas contra o confinamento. Mesmo não se conseguindo identificar o autor material da obra, sabe-se perfeitamente quem teve a ideia e a quem ela serve. Os objetos da sua ira são quase sempre os mesmos, com destaque para a mídia. Geralmente são ataques rasos e burros, mas ainda assim há militantes cegos que os distribuem.

Além da imprensa e de partidos de oposição a Bolsonaro, esse ódio alcança também os poderes Legislativo e Judiciário. A mais nova peça distribuída é a que indaga por que deputados e senadores não abrem mão de seus salários e suas vantagens por exercício de função e redirecionam esse dinheiro para o combate ao vírus. É ridículo, mas tem gente que acredita, sem fazer os devidos cálculos, que o volume de recursos (de alguns milhões de reais) que seria alcançado com a medida exótica poderia resolver a guerra (de muitos bilhões de reais) contra o flagelo.

Mais uma vez, não precisa ser gênio para saber quem produziu essa pérola e quais os instrumentos usados para a sua distribuição. São os de sempre, os que culpam Congresso, Supremo e imprensa pelo fracasso extraordinário de um dos piores e mais absurdos presidentes da História do Brasil. Como todo o material é distribuído por uma rede eficientíssima de robôs, mais cedo ou mais tarde essas barbaridades vão acabar em seu celular, encaminhados por membro desatento de um de seus grupos.

É verdade que de um lado as redes têm altíssimo valor nessa pandemia, sendo usadas pelos entes oficiais da saúde para se comunicar e por empresas para se conectar e atender aos seus clientes. Por outro lado, elas têm sido instrumento para difundir contrainformações que podem resultar até em mortes. O fato é que por isso as pessoas começam a se desligar. Pode ser difícil, para alguns será como mergulhar no mar numa noite escura. Mas um pouco mais de cuidado com o que se lê e com o que se compartilha não fará mal a ninguém. Em alguns casos, é melhor cair fora mesmo.

Talvez não explique por que os Estados Unidos são líderes de casos e mortes por coronavírus, mas uma visita a qualquer aplicativo de voos em tempo real, como o “Aviões ao Vivo”, pode dar uma boa pista. No Brasil, ontem, às 12h34m, havia 18 aviões voando. Na Índia, quatro aviões ocupavam o espaço aéreo. Na Itália, havia dois, na França, sete. E nove sobrevoavam a Inglaterra. Nos Estados Unidos, era impossível contar, porque somavam centenas.

Presidente vende a ilusão da cloroquina - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 09/04

Vendedor de ilusões



A retomada da retórica moderada do presidente Bolsonaro no seu pronunciamento de ontem à noite não é uma garantia de que o bom senso permanecerá prevalecendo, mas dá um fôlego para o verdadeiro objetivo, que é o combate ao Covid-19 dentro de nossas possibilidades de país emergente e em grave situação financeira.

Ainda mais que o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta dá sinais públicos de querer, de sua parte, não melindrar seu chefe, garantindo que é “Jair Messias Bolsonaro quem comanda esse time”. Além dos aspectos emocionais dessa disputa anacrônica, no entanto, há questões de fundo importantes, como o debate sobre o uso de cloroquina.

A prova de que a retórica moderada nem sempre reflete posições sensatas, ao levar para um pronunciamento oficial à Nação a ideia de que a cloroquina pode salvar milhares de vida, o presidente Bolsonaro mais uma vez interfere na condução da politica de saúde pública ditada pelos organismos internacionais, seguida pelo ministério da Saúde.

O importante no momento é não politizar o Covid-19, como disse o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) Tedrosn Ghebreyesus sobre a ameaça do presidente dos Estados Unidos Donaldo Trump de parar de contribuir financeiramente com a OMS, pois o organismo teria se tornado sinocêntrico, dando mais importância às informações vindas da China.

Trump, em tuíte, insinuou que a OMS, ao desaconselhar fechar o país à China no início da crise, quando ainda não havia sido declarada uma pandemia, teria segundas intenções. Da mesma maneira, a politização do combate ao novo coronavírus permitiu que o próprio Trump, coadjuvado pelo presidente brasileiro, fizesse durante muito tempo propaganda da cloroquina como um remédio milagroso, sendo que Bolsonaro chegou a levar para uma conferência virtual do G-20 caixas do remédio, quando ainda não há comprovação oficial da eficácia do medicamento.

Já há um consenso de que o uso em casos graves nos hospitais é permitido, mesmo sem confirmação científica. Como todos estão usando a cloroquina, fica difícil saber o alcance de sua eficiência, pois pode ser acompanhada de vários outros medicamentos, e em diversas dosagens. O importante é que não é possível ainda anunciar a cloroquina como o caminho para a cura, e torna-se irresponsável essa tentativa de levar à opinião pública uma solução que não existe, como Bolsonaro fez ontem em seu pronunciamento.

O desafio feito aos médicos David Uip e Roberto Kalil Filho pelo próprio presidente através do WhatsApp é exemplar do que não deve ser feito, uma disputa política com o governador de São Paulo João Doria que não leva a lugar nenhum. David Uip, coordenador da equipe de combate ao coronavírus em São Paulo, recusou-se a confirmar se foi usada a cloroquina em seu tratamento, enquanto Kalil Filho admitiu.

Este último, inadvertida ou propositalmente, ao cair na armadilha de Bolsonaro, foi usado pelo presidente em seu pronunciamento como avalista do uso da cloroquina em todos os estágios da doença. A politização dessa situação inusitada, que a ninguém dá, até o momento, o direito de ter certezas absolutas, só faz agravar o quadro geral.

Parece não haver clareza para o presidente do que nos espera pela frente, se compararmos nosso quadro atual com o dos países que já passaram, aparentemente, pelo pico da crise. Ainda estamos em meio à subida dos gráficos, e já temos cidades como Manaus, em região afastada dos grandes centros do sudeste mais afetados até o momento, com seu esquema de saúde colapsado pela amplitude da crise.

Bolsonaro, ao falar na televisão, que a cloroquina pode salvar milhares de vidas, está jogando um lance perigoso. Vendendo ilusões, pretende aparecer como o salvador da pátria. E pobre do país que precisa de salvadores da pátria, parafraseando Brecht. Favorável ao uso do medicamento nos momentos iniciais da doença, como alguns, de maneira minoritária, defendem, Bolsonaro atropelou a política oficial e deu falsas esperanças a milhares de brasileiros que ainda o levam a sério.

Tentativa e erro - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 09/04

Sem estudos, países tateiam na intensidade das restrições contra o coronavírus

Ainda não se dispõe de resposta auspiciosa para os que perguntam quando o pesadelo da pandemia do coronavírus estará superado e a vida voltará ao normal.

Países que pareciam estar lidando bem com a crise, mantendo a curva epidemiológica sob relativo controle sem sacrificar demais a circulação de pessoas e a economia, como Singapura, Japão e Suécia, já se preocupam com as estatísticas mais recentes e anunciam medidas de restrição mais drásticas.

A própria China, que começa a relaxar o cerco sobre as áreas mais atingidas, age com extrema cautela. O receio é que o vírus volte a ter transmissão sustentada, dando início a um segundo surto epidêmico.

Os europeus Áustria, Dinamarca, Noruega, República Tcheca e Bélgica previram retomadas graduais de atividades após a Páscoa, e a Eslováquia reabriu parte do comércio. Mesmo nessas nações, cujos sistemas de saúde não ficaram sobrecarregados, a cautela predomina.

Não é simples conter uma pandemia. A melhor forma de fazê-lo consiste em desenvolver uma vacina, e alguns dos melhores cientistas do mundo trabalham nisso. Não há garantia, porém, de que conseguirão achá-la rapidamente e produzi-la em escala comercial.

Sem isso, epidemias de grande porte tendem a só acabar depois que determinada parcela da população já tiver sido infectada e desenvolvido imunidade contra o patógeno. À medida que a proporção de imunes aumenta, diminui a probabilidade de uma pessoa infectada encontrar uma suscetível para transmitir-lhe a doença.

A certa altura, chega-se à chamada imunidade de rebanho. Não sabemos, porém, quando a teremos.

Faltam bons estudos epidemiológicos sobre o Sars-CoV-2. A quantidade de pessoas que um doente típico infecta —a informação mais importante a ser obtida— foi inicialmente estimada em algo entre 1,4 e 3,9, mas trabalhos mais recentes sugerem números mais elevados.

Também se desconhece a proporção de pacientes assintomáticos para cada infectado que identificamos. Se elevada, como sugeriu um modelo de pesquisadores da Universidade Oxford, a distância para a imunidade de rebanho cai.

A boa notícia é que estão em curso trabalhos que prometem oferecer algumas dessas respostas, indispensáveis para um bom planejamento tanto das necessidades hospitalares como de um eventual relaxamento das restrições.

Alguns desses estudos, como o conduzido em Heinsberg, na Alemanha, devem trazer resultados preliminares já nos próximos dias.

Até o devido conhecimento, resta aos governos de todo o mundo guiarem-se por prudência e flexibilidade para rever orientações a partir da experiência acumulada.

O Brasil contra o mundo - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 09/04

País não pode cometer erros da natureza daqueles cometidos pela ala lunática do governo


O exercício da diplomacia também está sendo bastante prejudicado em razão da epidemia de covid-19, que já levou ao cancelamento de diversos encontros multilaterais. Tal restrição ocorre no instante em que as relações internacionais já não estavam numa boa fase, particularmente em razão da emergência do nacionalismo radical capitaneado pelos EUA de Donald Trump.

Assim, a covid-19, antes de ser causa do distanciamento diplomático, começa a servir como “desculpa muito conveniente” para um esfriamento que já era desejado, como notou o ex-embaixador norte-americano Ronald Neumann, presidente da Academia Americana de Diplomacia, ao jornal Japan Times.

Ou seja, no momento em que a cooperação é imprescindível, muitos países se insularam ainda mais, na base do cada um por si, pondo em risco mesmo blocos consolidados, como a União Europeia, ou então a relação histórica entre EUA e alguns de seus aliados tradicionais.

Mas a emergência causada pela pandemia vem obrigando mesmo os EUA a abandonar momentaneamente sua atitude agressiva pelo menos em relação à China. Depois de ter chamado o novo coronavírus de “vírus chinês”, Trump, diante do avanço da covid-19 em seu país, teve de telefonar para o presidente da China, Xi Jinping, para estabelecer “estreita colaboração” – palavras do presidente norte-americano – no combate à epidemia. Não à toa: a China é o principal fabricante mundial de equipamentos e materiais hospitalares necessários para enfrentar o vírus, e os EUA, por sua vez, são hoje o principal foco da epidemia.

Se mesmo a maior economia do mundo entendeu ser necessário adotar o pragmatismo para lidar com a pandemia de covid-19, nada explica que o Brasil, cuja economia é apenas uma fração da norte-americana, se permita provocar os chineses numa hora dessas.

Primeiro, o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, disse que “a culpa” pela epidemia “é da China”. Depois, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, numa publicação de teor preconceituoso nas redes sociais, sugeriu que a China se beneficia com a crise. Tudo isso em meio à dificuldade para obter equipamentos médicos chineses para combater a epidemia e diante da necessidade óbvia de manter aberto o mercado chinês para os produtos brasileiros, essencial para a recuperação do País.

Para sorte do Brasil, contudo, o governo Bolsonaro não se limita à ala lunática representada pelos filhos do presidente e pelos ministros “ideológicos”, quando não pelo próprio Bolsonaro. Há uma parte que faz o exato oposto, procurando reforçar as pontes com o exterior, em particular com a China, como lembrou, em entrevista ao Estado, o embaixador Sérgio Amaral.

“De um lado, o governo constrói, com a ministra Tereza Cristina (da Agricultura), o lado do agronegócio. Na área de infraestrutura, o ministro Tarcísio de Freitas desenvolveu projetos grandes que podem aumentar a produtividade”, comentou o embaixador. O problema, diz Sérgio Amaral, é que, “se de um lado o governo constrói, do outro destrói” – e isso num momento de grave retração do comércio mundial, que já vinha ocorrendo antes da epidemia e que agora tende a se acentuar.

Países como o Brasil não podem cometer erros dessa natureza. Até Bolsonaro, a diplomacia brasileira se pautava por nutrir boas relações com todo o mundo, justamente por não ter a força das grandes potências nem poder se permitir fechar portas. Hoje, o alinhamento incondicional aos EUA limita o horizonte comercial brasileiro e ameaça nossa posição até mesmo em mercados já conquistados.

Nesse sentido, o Itamaraty, como enfatizou Sérgio Amaral, está sendo incapaz de coordenar os interesses dos Ministérios na área externa, exatamente porque também está imerso na ideologia deletéria que move Bolsonaro e seus assessores aloprados. Por isso, quando acabar a epidemia, vaticina o diplomata, “o Brasil sairá enfraquecido”, carente de reformas e com um governo movido a complexo de perseguição: “O mundo não está contra o Brasil, nós é que estamos contra o mundo”.

O ministro, o chefe do ministro e a pandemia de ‘fake news’ - EUGÊNIO BUCCI

ESTADÃO - 09/04

Sem fontes confiáveis e um sistema organizado de comunicação não há governança para a crise

Na terça-feira o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, deu mais uma de suas coletivas diárias. Mostrou-se olímpico, seguro de seu papel e de seu cargo. Mandetta tem hoje mais estabilidade do que Jair Bolsonaro. O presidente pode demiti-lo – os generais não deixam.

A impotência presidencial tem um quê de conto de bruxas. O presidente vai fazer a barba de manhã e pergunta ao reflexo de si mesmo: “Espelho, espelho meu, existe algum ministro mais querido do que eu?”. O espelho responde, dá o nome e o endereço, mas Bolsonaro, corroído de ciúme, não tem poder para expulsá-lo da pasta. Está reduzido ao papel de presidente-café-com-leite-muito-embora-bravateiro. Sai enfezado do Palácio da Alvorada e se põe a berrar sobre a crueldade ministricida de sua caneta, uma senhora canetona, que é maior do que a caneta dos outros (ele e sua obsessão com símbolos fálicos).

Palavras ao vento. Contra Mandetta a caneta do narcisista que desconhece a beleza vale menos do que uma aspirina. O sereno ministro da Saúde sabe disso e, por saber, tripudia. Na terça-feira, em sua coletiva, disparou recados ácidos – ainda que elegantes – contra o chefe que não o chefia. Entre outros venenos, amaldiçoou as fake news (gênero narrativo adorado pelo café-com-leite) e as redes sociais (o ambiente predileto do estadista avesso à máquina estatal).

“As fake news, esse final de semana, fizeram um gráfico igual àqueles gráficos da epidemia”, diagnosticou o ministro. “Fake news foi o que mais subiu, subiu bem mais que o número de casos (de covid-19).”

Mandetta aproveitou para denunciar que circulam perfis falsos como se fossem dele e avisou com total explicitude: “Não sou de mídia social, não gosto; gosto do mundo real. Vou trabalhar essa epidemia no mundo real. O que eu tiver que falar, não acreditem em nada que não seja falado aqui (nas coletivas diárias, diante das câmeras de TV). (...) Eu não posto nada, eu não comento nada, eu não faço nada nesse mundo virtual”.

O que ele está dizendo, em suma, é que adota o estilo oposto ao do chefe que não é chefe. Este, abduzido pelas fantasmagorias imaginárias do seu conto de bruxas, acha que governa pelo Twitter, pelas lives e pelo histrionismo de suas milícias virtuais. Em sua fantasia de filme de terror, alimenta-se da bajulação dos seus fiéis fascistinhas de WhatsApp, que sabotam o isolamento e insultam os chineses com ofensas racistas. Bolsonaro substitui a burocracia governamental pelos urros virtuais dos seguidores e acredita que assim deixa para trás a “velha política”.

O resultado prático de seu delírio é muito simples e palpável: em cada um de seus atos acentua a dissolução dos regramentos da administração pública em favor da dinâmica dos “engajamentos”, das “curtidas” e do irracionalismo das redes. Para ele, os algoritmos opacos dos conglomerados globais que monopolizaram as comunicações na era digital são a mais perfeita tradução da vontade do povo. Sim, é uma sandice, mas é nessa sandice que ele acredita. O triunfo de sua crença acarretará a derrocada do Estado, da República, da política e da democracia. Bolsonaro gosta de fake news porque vê o Estado, o governo, a República, a política e a democracia como um embuste a ser destruído. Ele e as fake news nasceram um para o outro. Nasceram um do outro.

Razoável, o ministro da Saúde rejeita as doideiras do presidente e veste o colete do SUS para apostar no caminho inverso. Com razão, parece entender que as fake news concentram uma ameaça tão ou mais grave do que a pandemia. O poder público fica anulado se não puder contar com informações baseadas na ciência e se essas informações não servirem de base para o debate público e para a orientação das pessoas e da sociedade. Sem fontes confiáveis e um sistema organizado de comunicação, não há governança para a crise.

A indústria das fake news – que hoje no Brasil está a serviço do bolsonarismo – opera para minar a confiança do público nas autoridades, na política, na universidade, na ciência e na imprensa. No longo prazo, essa indústria fabrica fanatismo e clamor por uma tirania de extrema direita no Brasil. No curtíssimo prazo, amplifica o número das mortes que virão com o coronavírus e agrava a recessão econômica que virá depois. Isso mesmo. Em sua narrativa perversa, as fake news do bolsonarismo dizem defender a economia e os empregos, mas, ao patrocinarem a explosão do número de casos e o colapso do sistema de saúde, produzirão a desagregação social, com violência e criminalidade ainda mais generalizadas, e isso tornará mais improvável qualquer recuperação econômica.

Será difícil enfrentar essa indústria, que conta com o apoio esgoelado do presidente-café-com-leite. Ele tem pouco poder (não consegue nem falar grosso com o ministro da Saúde), mas a indústria em que ele joga suas fichas tem uma capacidade gigantesca de produzir estragos. E, por enquanto, não há vacina contra a usina de fraudes desinformativas com que o presidente e suas falanges robóticas vêm infestando a sociedade brasileira.

JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

quarta-feira, abril 08, 2020

Emergência e democracia - PAULO DELGADO

O Estado de S.Paulo - 08/04

Berrar instruções para a morte é querer companhia para plano de extinção pessoal



Um mal-assombrado uso do poder nos dilacera: isolamento voluntário de todos ou solução final para a velhice. A esse delírio absurdo e não cristão soma-se a perda de contexto da missão fiscal na economia, deixando a cartilha liberal sem norte para fazer o que precisa.

Uma parada global sincronizada, um governo incapaz de estabilizar suas ações. A confusão alucinatória do presidente, fustigando sem pudor seu ministro da Saúde, estressa mais ainda o cenário e pode levar o Brasil a ser o maior perdedor entre os emergentes. Enquanto o palácio boicota a Nação, o povo ainda encontra temperança, seguro de que nenhum princípio humano ou ético é violado pelo Ministério da Saúde ou pelos governadores.

Itamar, maduro e experiente, custou-lhe tanto a acreditar no Real que o ministro da Fazenda virou o autor do plano, salvando o País da inflação. Jair, o verde, despreza tanto a doença que o ministro da Saúde é que vai salvar o País da infecção. Mandetta, a URV do coronavírus, é mais do que governo. Virou ministro da República.

Lançando sombras sobre o País, parte do governo parece mais agarrada à bolsa do que à vida, convicto de que saúde pública atrapalha a economia. Viúvas do mundo velho, não conseguem realizar o luto pela morte que o vírus impôs ao estilo de vida moderno. Stop. A vida parou, ou foi o presidente? Antifuturista, martirizado pela desinformação, finge governar.

A democracia é forte, mas não é um regime de força. Confunde quem trabalha com expectativa falsa e não consegue agir certo diante de dificuldades. Que governante se mantém à tona sugerindo que o bombeiro salve os móveis e deixe a família se queimar? Acreditar nele é como segurar água na mão. Com atrevimento diz sem pensar o que pensa. Está virando o nome do desastre. Schettino, Schettino, não abandone o navio na hora do naufrágio!

Não é difícil manter a democracia em situações de emergência. Mas que trauma leva o presidente a se identificar tanto com esse vírus a ponto de ter necessidade sádica de ridicularizá-lo, insultá-lo, desafiá-lo? Quem sabe o Centro de Inteligência do Exército de Agulhas Negras o alerte para o que dizem os modelos estratégicos de enfrentamento de populações abandonadas e em pânico. Não é em todas as situações que o homem escolhe sua saída.

Não é fácil conciliar democracia e emergência quando a situação exige mais cérebro e sentimento do que desejo e força. O método de convencimento democrático, pelo isolamento voluntário a pedido da autoridade sanitária, é o melhor para conter a doença. Ajuda, ainda, na preservação do tempo de esperança e solidariedade capaz de soerguer a sociedade depois da desgraça.
Para isso é preciso abandonar qualquer fraude no comportamento. O que houve no mundo foi mais do que uma parada repentina tirando a liquidez dos mercados. Diante da inadimplência geral, e vendo a riqueza sem movimento, a autoridade que não considera o PIB um conceito de fluxo, e não gosta do papel do Estado, sente-se catatônica.

A espiral negativa quando atinge o capital e o trabalho tem de ser amenizada prontamente pelo Estado, recalibrando sua relação com a base fiscal e monetária. O ultraliberal, não podendo ser dogmático, sente-se um insincero titular do poder. Não é burocracia, é a filosofia a razão da demora em estancar a infecção na economia.

É hora da união, de os estadistas de todos os setores afirmarem que é desaconselhável romper o isolamento e obrigatório o Tesouro impulsionar a salvação do País. Por que na emergência a economia se desmancha? Que país é esse que supõe que a vida humana vale menos do que dois meses de produção econômica? Se não há uma base existencial mínima de entendimento, fiquemos com a principal: se somos uma democracia, não precisamos usar a força.

Não é preciso abrir o embrulho para ver o que contém. O universo paralelo do presidente se desfez com a pandemia. Eleito pelo modelo mental virtual, por onde não passa nenhuma privação, ele se virava com retórica, sem ligar para autoridade. Agora o cálculo estratégico que opera, ao jogar com o vírus imaginando não quebrar a cara, parte da ideia de que o Brasil sofre, mas não morre. O ponto de equilíbrio surgirá quando as instituições democráticas o convencerem de que não há necessidade de o País todo sofrer, talvez ele, mantida sua prerrogativa de falar pelos cotovelos.

Há atletas a quem a camisa pesa. Outros, cansativos, acionam uma necessidade de atenção maior do que a que podemos dar. Imaginem estado de calamidade, tendo de suportar coexistência e hierarquia com um governo que se esfrangalha ali onde a fantasia se choca com a realidade.

O mundo intrapsíquico de quem vê a política como jogo trapaça-charlatão-sabichão não prevê desmoralização. Mas se diante do nada até a incompetência costuma ser aceita, quando há necessidade de comando e controle profissional não adianta falar mais alto. Concepções vagas de como governar no temporal podem não corroer os ossos da raiva. Mas berrar instruções para a morte é querer companhia para um plano de extinção pessoal.

Sociólogo.

Fuga de Flávio Bolsonaro rói o benefício da dúvida - JOSIAS DE SOUZA

UOL - 08/04


Justiça boa para Flávio Bolsonaro é aquela que tarda, mas não chega. Acusado de morder um pedaço dos contracheques dos assessores quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, o primogênito do presidente da República ainda não foi capaz de exibir uma defesa. Mas tornou-se um ás da protelação. Já recorreu uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove vezes.

O penúltimo recurso corre no Superior Tribunal de Justiça, o STJ. Nele, a defesa de Flávio alega novamente que o Coaf quebrou seus sigilos bancário e fiscal, repassando dados para o Ministério Público do Rio sem autorização judicial. Conversa fiada, contestam os promotores que cuidam do caso. Segundo eles, faltam lógica e fundamentação jurídica ao recurso do Zero Um.

Ao julgar recurso anterior de Flávio, em novembro do ano passado, o Supremo Tribunal Federal decidiu que a comunicação entre Coaf e órgãos de controle dispensa autorização judicial. Os dados sobre as operações suspeitas foram compartilhados pelos canais legais. "Não houve qualquer solicitação de informações ao Coaf por e-mail", sustenta o Ministério Público.

Por uma trapaça da sorte, o recurso de Flávio foi à mesa do ministro Félix Fischer, um dos mais implacáveis magistrados do STJ. Não há prazo para a apreciação do pedido de interrupção da investigação. Pivô do caso, o faz-tudo da família Bolsonaro, Fabrício Queiroz, continua vivendo em regime de auto-quarentena. Esse é o único isolamento social que conta com a aprovação de Jair Bolsonaro.

A tenacidade com que Flávio foge de um veredicto vai roendo o benefício da dúvida. O filho mais velho do presidente é presumido culpado até que prove algum interesse em se defender.

Davi Uip, a cloroquina e a sordidez. A propósito: general Heleno tomou? - REINALDO AZEVEDO

UOL - 08/04


David Uip, coordenador do programa de combate à Covid-19 de São Paulo. Médico faz bem em se negar a dizer se tomou ou não cloroquina. Não existe boa resposta para pergunta errada



O infectologista Davi Uip, que chefia o Centro de Contingência contra a COVID-19 em São Paulo, contraiu a doença. Está curado. Espalhou-se o boato de que teria recorrido à cloroquina. E o bolsonarismo — incluindo o general Augusto Heleno, chefe do GSI (Gabinete da Segurança Institucional) — passou a cobrar que ele viesse a público para dizer se tomou ou não o remédio. Uip preferiu não se manifestar. E fez bem.

Sabem por que fez bem? Porque não se trata de uma questão pessoal. Ele é um médico. É um especialista. Seu testemunho, nessa perspectiva, não tem importância. Se diz que não tomou, parece que se opõe a pesquisas que estão em curso. Digamos, no entanto, que tivesse tomado. Pergunto: e daí?

É um indivíduo. Mais: é um indivíduo médico. Tem o direito, se quiser, de usar o seu próprio corpo — conhecendo os efeitos colaterais do remédio — para testar uma possibilidade. O eventual uso, no entanto, não reproduz as condições necessárias para uma pesquisa de caráter científico.

Imaginem as consequências se um dos maiores infectologistas do país, chefe de um programa de combate à Covid-19, viesse a público para dizer que tomou, sim, a cloroquina. Isso corresponderia a um convite tresloucado para que o remédio passasse a ser usado a torto e a direito, sem maiores cuidados. Pior: estimularia de maneira irresponsável a automedicação. A cloroquina é uma substância perigosa sem o devido controle médico.

"Ora, Reinaldo, mas, se ele não tomou, basta negar." Errado! A pergunta já nasce de um debate distorcido, do qual um médico responsável deve ficar longe. Há pesquisadores trabalhando dia e noite no Brasil e no mundo, testando essa e outras substâncias. A patrulha é, por si, um despropósito porque sugere que ele poderia usar a sua sólida reputação profissional para esconder a efetividade de uma substância para salvar vidas. É um bate-boca indecente, travado na lama e na sordidez.

A propósito: o avião que trouxe Bolsonaro de Miami despejou 22 contaminados em solo pátrio. Há, entre eles, quem tenha tomado a cloroquina? Ora, que deem, então, seu testemunho. E arquem com as consequências. Ou ninguém, naquele grupo, ousou seguir as recomendações do chefe?

A propósito: o senhor tomou cloroquina, general Heleno?

A relação entre a matemática e a erradicação de doenças - MARCELO VIANA

FOLHA DE SP - 08/04

Modelo matemático apontou perspectiva positiva em inocular pessoas saudáveis com fluidos de indivíduos contaminados com varíola

A matemática é uma ferramenta inestimável no estudo e controle de epidemias. Permite realizar de modo virtual, no computador, experimentos para testar diferentes técnicas de contenção da doença, o que seria inviável e até antiético fazer na vida real, colocando pessoas em risco.

Uma das primeiras grandes contribuições da matemática à epidemiologia foi feita no século 18 por Daniel Bernoulli (1700 - 1782). Os Bernoulli são a família mais extraordinária da história da ciência, tendo produzido nada menos que oito matemáticos de primeira linha. Eram suíços, mas Daniel nasceu na Holanda e viveu em vários países europeus. O pai, Johann, era professor de matemática, mas queria uma carreira mais rentável para o filho: obrigou-o a estudar negócios e medicina. Daniel aceitou, com a condição de que o pai lhe desse aulas particulares de matemática. Ficou muitíssimo bem equipado para contribuir para a erradicação da varíola da Europa.

Não se conhece a origem da doença, mas é muito antiga: há marcas de varíola em múmias egípcias do século 3 a.C. Acredita-se que entrou na Europa no início do século 16 e rapidamente se tornou endêmica. A taxa de letalidade era de 30% e muitos sobreviventes ficavam com sequelas graves. No início do século 18 matava 400 mil pessoas por ano na Europa e um terço dos sobreviventes ficava cego.

Nas primeiras décadas do século 18, médicos ingleses começaram a experimentar uma técnica, chamada variolação, que consiste em inocular pessoas saudáveis com fluidos de indivíduos contaminados, para provocar a produção de anticorpos. Ela já era praticada na China há séculos, mas o uso era polêmico. Embora reduza a letalidade para apenas 1% dos infectados, em alguns poucos casos pode provocar a doença na pessoa saudável no lugar de impedi-la.

Daniel Bernoulli desenvolveu um modelo matemático da doença, um tipo de equação diferencial, para avaliar se seria vantajoso inocular todos os recém-nascidos dessa forma, visando prevenir o desenvolvimento posterior da doença. Utilizando os melhores dados disponíveis na época, ele concluiu que o ganho em vidas resultante da imunização proporcionada pela variolação generalizada seria muito superior às eventuais perdas causadas.

Em meados do século, a Inglaterra começou a aplicar a variolação de modo amplo. A partir de 1796, quando o médico Edward Jenner demonstrou a eficácia da primeira vacina, a inoculação tornou-se obrigatória para todas as crianças. Como resultado, a varíola foi extinta no país ainda no século 19.

Na sequência de uma campanha global de vacinação coordenada pela OMS, ao final dos anos 1970 a varíola tornou-se a primeira doença contagiosa a ser erradicada no mundo.

Marcelo Viana
Diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, ganhador do Prêmio Louis D., do Institut de France.

A hora da escalada - VERA MAGALHÃES

ESTADÃO - 08/04

Semanas de pico da pandemia não permitirão mais os erros cometidos até aqui


Vai começar a subida da montanha, metáfora que vem sendo usada pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, para designar a fase, que há muito se sabe que chegaria, de escalada rumo ao pico de contaminação pela covid-19 no Brasil.

Até aqui, alguns fatores ajudaram e outros atrapalharam sobremaneira a preparação do País para essa escalada inexorável, pela qual todas as demais nações do globo passaram ou estão passando.

As nossas vantagens comparativas vêm sobretudo do timing. A contaminação começou na China e se espalhou pela Europa e pelos Estados Unidos antes de chegar aqui de maneira sustentada, o que nos deu tempo para aprender com acertos e erros de outros povos e outros governos.

Foi positivo, por exemplo, para que os governos estaduais e mesmo o governo federal decretassem situações de emergência, calamidade ou quarentena, a depender da designação, e com isso pudessem restringir a atividade econômica e a circulação de pessoas e preparar a retaguarda do sistema de saúde, que já está sendo pressionado e deve enfrentar uma situação próxima ao colapso, quando não de colapso efetivo, nos próximos dias.

Mas não soubemos aproveitar plenamente o que os especialistas chamam de “vantagem temporal” que o vírus nos deu. E isso graças a imperdoáveis erros e omissões políticos, que podem cobrar um preço enorme em termos de vidas perdidas e situação social e econômica agravada.

Nenhum desses erros tem a ver com a decisão de distanciamento social, como quer fazer crer a narrativa bolsonarista que campeia irresponsavelmente em gabinetes de Brasília e nas redes sociais, atormentando uma sociedade já assustada e que precisa de diretrizes inequívocas das autoridades para se guiar numa tempestade inédita.

Eles decorreram justamente do oposto: o boicote inexplicável do presidente da República e de seu entorno a tudo que envolve o protocolo de combate à pandemia, do distanciamento em si à liderança do ministro da Saúde. Birra.

Enquanto desautorizava Mandetta, divulgava medicamento e fazia traquinagem furando o distanciamento, Bolsonaro deixou de tomar providências urgentes e relevantes que ajudariam a preparar as mochilas de escalada dos brasileiros.

A começar pelas providências da área econômica. Essas, sim, deveriam ter sido alvo da obstinação teimosa do presidente. Por que não exigiu e cobrou a execução de um cronograma enxuto para o pagamento da ajuda emergencial de R$ 600 (que pode chegar a R$ 1.200) aos mais vulneráveis, que só começará a ser paga, se tudo der certo, amanhã?

Qual a razão para o presidente não ter impedido que qualquer auxiliar seu, a começar pelo filho e chegando ao ministro da Educação, que nada tem a ver com o peixe, criasse encrenca com a China no momento em que o Brasil vai precisar do país para retomar suas exportações e para importar insumos de emergência para o combate à própria pandemia?

Essas, sim, são tarefas eminentes ao uso da autoridade presidencial, essa que Bolsonaro adora afetar, ameaçando infantilmente usar a caneta para depois recuar, o que acaba apenas por desmoralizá-lo mais perante auxiliares, eleitores e o resto do mundo.

O presidente tirou uma “folga” ontem, depois de pintar o sete na segunda-feira e deixar o País com o fôlego preso diante da possibilidade de demitir o titular da Saúde em plena crise. O recuo não pode ser considerado definitivo, e a trégua de um dia estranhamente tranquilo pode ser aquela calmaria que antecede o caos.

Mas foi um bom teste. Se o presidente mantiver o foco em não atrapalhar a escalada, pode ser que cheguemos ao doloroso cume e comecemos a descer de volta menos machucados que nossos vizinhos desenvolvidos.

Controle de danos - ROSÂNGELA BITTAR

O Estado de S.Paulo - 08/04


Política entrou em ação para dissuadir Bolsonaro de demitir o ministro da Saúde


Jair Bolsonaro insiste em fazer da Presidência da República uma roleta-russa para os brasileiros. Sua família se acha dona do País e comanda o governo com baixos instintos: soberba, inveja, paranoia, ciúme, obsessão. Vieram para matar ou morrer. Sua última e tresloucada experiência de apertar o gatilho ao sabor do azar deu xabu, mas poderia ter resultado na dispensa do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em plena administração de uma pandemia letal.

Sabem todos o que se passou, passa e passará com a família governante. E do lado do bom senso, o que se passa? Não há ninguém parado. Pelo contrário, nunca a política e os políticos estiveram com tanto apetite e, ao mesmo tempo, tão prudentes. Não é hora de aparecer. No meio de uma guerra, sem conhecer a lista dos sobreviventes, movimentos radicais são exercícios perigosos.

O que se pode identificar é que há dois consensos atraindo a praça política, um deles consolidado e o segundo em construção discreta. Em pleno vigor, o primeiro tem sido denominado de “controle de danos”. Consiste em deixar Jair Bolsonaro falando sozinho, aplicando suas ideias como quiser, sem contestações, enquanto a Câmara, o Senado, o Supremo, a Economia, os ministérios, os órgãos de controle seguem governando. Tocam suas agendas ao mesmo tempo em que tentam consertar os absurdos que as instituições não conseguirem absorver.

Os militares são importantes nas tarefas de contenção. Já constataram que Bolsonaro é incompetente para exercer liderança num momento como este e já demonstraram que não o querem como seu ditador. Não temem a volta à planície até porque qualquer reviravolta, se houver, deixará seguro seu processo de resgate para a política, pois o vice é um dos seus. Mas tentam, por todos os meios, equilibrar o presidente e reduzir as consequências de seus atos.

Os mais influentes, todos ministros próximos ao presidente, são fortes e formam o chamado eixo Leste: Fernando Azevedo, ex-comandante do Leste (Rio); Luiz Eduardo Ramos, ex-comandante do Sudeste (São Paulo); Braga Netto, ex-comandante do Leste e ex-chefe do Estado-Maior do Exército, aquele que organiza tudo, do atual comandante Edson Pujol.

O eixo Leste é um eixo de poder que se contrapõe ao general Augusto Heleno, nos últimos tempos mais afeito ao pelotão dos incendiários.

Os governadores, também neste consenso, perceberam logo que o presidente da República está em campanha eleitoral e quer mesmo é desestabilizá-los. Tendo o enfrentamento da pandemia sob sua responsabilidade, apegaram-se aos ministros que funcionam para seguir seu caminho sem ter de dar satisfação a Bolsonaro.

Foi exatamente esta política de “controle de danos” que entrou em ação, na segunda-feira, para dissuadir o presidente de demitir o ministro da Saúde. Com sucesso, até terça, 7. Bolsonaro é imprevisível na sua marcha de dois passos para a frente e dois para trás.

O segundo consenso, também invisível, que a política está à procura e do qual são conhecidos apenas alguns sinais, é encontrar a forma de afastar Bolsonaro. Seja criando condições para a renúncia, seja pelo impeachment. Não são soluções imediatas. Prioridade, agora, é a vida, por um fio no Brasil e no mundo.

Entre os sinais emitidos, foi grave o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), dizer com toda a clareza que o presidente não tem coragem de demitir um ministro, deixando a Bolsonaro a opção de se complicar, se demitir, ou parecer covarde, se não demitir.

Outro, igualmente grave, foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) dizer que, se Bolsonaro perder as condições de governar, “o que se vai fazer, muda”. O DEM e o PSDB sabem como se faz, estiveram à frente dos dois impeachments presidenciais havidos no Brasil nas duas últimas décadas.

Um governo de amadores - RUY CASTRO

Folha de S. Paulo - 08/04

Um dia, seus poucos membros profissionais se envergonharão de ter participado dele



Jair Bolsonaro foi educado em quartéis. Como não se conhecem trabalhos de sua autoria sobre história do Brasil, matemática e balística, disciplinas de interesse dos militares, o mais perto que desempenhou de uma atividade científica pode ter sido esfregar cavalos. Isso não o impediu de, como presidente da República, dar palpite sobre o coronavírus, minimizando-o ("Uma gripezinha! Um resfriadinho!"), estimulando as pessoas a correr o risco de contraí-lo e jogando com a saúde da população.

A audácia de Bolsonaro ao desafiar a comunidade científica mundial, ofender os já milhares de mortos e tentar esvaziar o seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta —que ele só não demitiu na segunda-feira porque foi peitado por gente ainda sã no governo— não tem equivalente nos anais.

Para piorar, seu estilo de governar, arrogante, despótico e indiferente às consequências, tem sido replicado por vários de seus auxiliares, não por coincidência também autorizados a pontificar sobre assuntos além das respectivas solas.

Com sua vocação para a chanchada, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, por exemplo, criou um problema internacional com uma piada em que comparou os chineses ao Cebolinha. A secretária de Cultura, Regina Duarte, postou um vídeo falso em que o ministro da Saúde parecia autorizar o uso da cloroquina como um elixir mágico contra o vírus —o que Regina Duarte tem a ver com saúde? Em que ciência se basearam tantos ministros para pregar que só os maiores de 60 anos devem se confinar? E, nesse caso, quem autorizou o general Augusto Heleno, macróbio e portador do vírus, a desafiar as autoridades sanitárias e quebrar a quarentena que milhões de brasileiros prudentes estão cumprindo?

É um governo basicamente de amadores. Por isso essas pessoas foram escolhidas para integrá-lo. As exceções um dia se envergonharão de ter participado dele.

Ruy Castro, jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

Hamburgo, 1892 - ELIO GASPARI

O GLOBO/FOLHA DE SP - 08/04

O andar de cima sabia mais, e assim a cólera matou dez mil pessoas na última epidemia do bacilo na Europa


Há os conservadores e há os atrasados, mas os comerciantes e banqueiros de Hamburgo achavam que eram conservadores iluminados, mas eram também atrasados. Em agosto de 1892, a cidade era administrada pela plutocracia local. Tinha o maior porto da Alemanha e macaqueava os ingleses. Morreu gente nos bairros pobres, mas não podia ser cólera, pois essa peste já teria sido controlada na Europa. A cidade tinha lindos prédios, mas não havia começado a obra para tratar sua água. Em 1871 seus notáveis haviam recusado a obrigatoriedade da vacina contra a varíola, porque ofenderia o direito das pessoas. (33 anos depois, Rui Barbosa usou o mesmo argumento, estimulando a rebelião de alguns militares e a maior revolta popular do Rio de Janeiro.) Tudo em nome dos princípios do liberalismo político e econômico que administrava a cidade.

Os plutocratas de Hamburgo acreditavam que a cólera disseminava-se por miasmas do ambiente, mais perigosos nos bairros de gente pobre e suja. Nove anos antes, o médico Robert Koch havia demonstrado que a cólera era transmitida por um bacilo e circulava com a água. Como eles acreditavam nos vapores, recusaram-se até a endossar a obrigatoriedade de fervê-la. (Em 1904, quando Oswaldo Cruz fumegava as casas do Rio para matar o mosquito da febre amarela, vários médicos ilustres insistiam na teoria do miasma.)

Até o verão de 1892 os plutocratas de Hamburgo entendiam que tudo dependia da higiene individual. O negacionismo dos notáveis durou pouco, até que começou a morrer gente no andar de cima. A imprensa havia evitado o assunto e a imediata instituição de uma quarentena foi descartada, pois prejudicaria os negócios. Quando as ruas estavam tomadas por cadáveres, o governo de Berlim mandou Robert Koch a Hamburgo e ele contou: “Senhores, eu esqueci que estava na Europa”. Oito anos antes, Nápoles, velha cidade insalubre com seu porto, havia derrubado a cólera com uma quarentena.

Uma médica americana que estava em Hamburgo escreveria: “Treze epidemias leves não haviam conseguido mostrar aos governantes da cidade que deveriam botar a casa em ordem.”

A história dessa epidemia, com dez mil mortos, foi contada pelo historiador inglês Richard Evans (“Death in Hamburg: Society and Politics in the Cholera Years, 1830–1910.” De 1988, infelizmente só existe em papel.)

Sir Richard evitou atribuir o desastre a um mero interesse econômico. Ele foi mais fundo, mostrando que as opiniões dos médicos não são autônomas, mas têm raízes e funções sociais. Os donos das teorias do miasma eram médicos, como o doutor Osmar Terra.

Aos 72 anos, numa entrevista ao repórter Isaac Chotiner, Evans rebarbou a teoria segundo a qual ditaduras e democracias lidam com epidemias de maneiras diferentes.

“[Epidemias] exigem grandes intervenções dos governos. Seja qual for a sua forma, seja qual for o tipo do Estado ou o partido que está no poder. De certa maneira, é a epidemia quem dá as cartas.”

Hoje, na praça em frente à Bolsa e à prefeitura de Hamburgo, um monumento lembra os mortos da epidemia de cólera. Ele foi esculpido em 1896. Oito anos depois, no Brasil, ainda se falava em miasma. O presidente Rodrigues Alves e o médico Oswaldo Cruz tiveram que enfrentar uma revolta contra a vacina obrigatória. Grande presidente, esse Rodrigues Alves.


Choque com Mandetta revela insegurança do presidente - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 08/04


O livro “A cadeira da águia”, do escritor mexicano Carlos Fuentes, tem uma ótima citação de Stálin que serve como uma luva na disputa em curso entre o presidente Bolsonaro e seu ministro da Saúde Mandetta. Digo “em curso” porque não acredito que o presidente Bolsonaro se recolha diante da impossibilidade de impor sua vontade. Tentará novamente.

Na década de 30 do século passado, relata Carlos Fuentes, um assessor do líder soviético gritou ao ser elogiado por seu trabalho: “Por favor, não me elogiem! Não me mandem para a Sibéria”. A insegurança de líderes autoritários, sejam de esquerda ou de direita, é recorrente na história da civilização, e estamos vendo uma repetição dessa eterna disputa de poder, real ou imaginária.

Muitos ministros de Bolsonaro se incomodam com os elogios, pois sabem que podem ter problemas com o capitão. Para compensar, alguns começam a elogiar Bolsonaro e a concordar com ele pelas redes sociais, que é onde o registro vale de verdade para o presidente e seus acólitos.

Esse temperamento inseguro do presidente tem rendido comentários e memes nas mesmas redes sociais, tão valorizadas pelo próprio presidente, que revelam a percepção das angústias de Bolsonaro. O que mais esteve presente nas redes durante essa crise foram brincadeiras sobre os ministros mais criticados de seu governo, como o da Educação Abraham Weintraub, o chanceler Ernesto Araújo ou o do Meio Ambiente Ricardo Salles.

“Se começarmos a elogiar o Weintraub, será que ele cai?”, é um exemplo do humor cáustico das redes sobre o comportamento nada errático do presidente, que protege os que são “perseguidos” pelos “jornalistas esquerdistas”, e coloca na sua mira os ministros que são elogiados. Se seus “inimigos” gostam deles, é porque não são confiáveis.

O caso do ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antonio é o mais enigmático de todos os que Bolsonaro protege. Acusado de crime eleitoral como coordenador de um esquema de candidaturas “laranjas”, ele jamais foi incomodado por Bolsonaro, que se jacta de não aceitar corrupção em seu governo. O fato de a acusação se referir à período anterior ao seu mandato presidencial não explica essa leniência, pois quando escolhido o ministro já respondia a esses questionamentos.

O fato é que o presidente Bolsonaro lida diariamente com essas angústias que lhe comem as entranhas, situação exacerbada depois que levou a facada durante a campanha eleitoral. Na ocasião, seu filho Carlos já tuitara dizendo que havia gente no entorno de seu pai que queria sua morte com objetivos políticos, referindo-se claramente ao vice Hamilton Mourão.

Essa paranóia alimentada pela mente tumultuada de Carlos e seus dois irmãos persegue o presidente, e é impossível imaginar que possa ser tutelável. O general Vilas Boas, que uma vez me disse que o candidato Bolsonaro era “incontrolável”, recentemente foi mais cerimonioso numa entrevista e disse que “ninguém tutela o presidente”.

De fato, não é bom um presidente tutelado por militares. Mas também não é bom ter um presidente que coloca em risco a população que governa com decisões sem bases legais ou jurídicas. Não se elege um ditador, mas um chefe de Estado que aceita as regras do jogo democrático. Nela, os poderes se contrapõem e se controlam mutuamente.

Não aceitar essa premissa, e tentar mudar as regras do jogo que o colocaram no poder através de manipulação da opinião pública, coloca o presidente eleito em uma rota de ilegalidade que em algum momento vai cobrar consequências.

Um artigo importante, assinado por um grupo de juristas no Globo Online de ontem, define bem os limites presidenciais numa democracia: “Um presidente da República está limitado pela ciência — porque está limitado pela realidade. Não pode decretar que o sol nasça no poente e se ponha no nascente. Não pode negar evidências científicas seguras, tampouco orientar que sua administração assim o faça”.

Isso quer dizer que o presidente Bolsonaro não pode nem decretar que a terra é plana, embora possa acreditar nisso, nem dar fim à quarentena sem apoio de bases cientificas. Uma frase atribuída ao chefe do gabinete Civil do governo Geisel, Golbery do Couto e Silva, define bem a situação: “Há três tipos de poder, o que você acha que tem, o que os outros acham que você tem, e o que realmente você tem.”

Os incendiários e os bombeiros - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 08/04

A tarefa dos militares lotados no governo, como o general Braga Netto, tem sido a de proteger o presidente Bolsonaro de si mesmo e do tal “gabinete do ódio”

O presidente Jair Bolsonaro esteve a ponto de demitir seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, segundo informações de bastidores que circularam em Brasília ao longo de toda a segunda-feira. Não o fez, mas isso não significa que não venha a fazê-lo no futuro próximo, a julgar pelo clima de crispação criado pelo próprio Bolsonaro, empenhado nos últimos dias em desmoralizar publicamente o ministro Mandetta mesmo diante da brutal crise sanitária causada pela epidemia de covid-19.

O motivo do recuo de Bolsonaro não ficou muito claro, assim como já não eram muito claros os motivos pelos quais o presidente estava investindo contra um de seus ministros – e não um qualquer, mas sim, justamente, aquele sobre cujos ombros está a responsabilidade de organizar os esforços do governo federal para enfrentar a epidemia. Sob a Presidência de Bolsonaro, a rigor, nada parece fazer muito sentido, a não ser para a chamada ala “ideológica” que assessora o presidente, e para a qual tudo se resume à luta pelo poder contra os “comunistas” – nome genérico de todos os que essa turma considera como inimigos.

Seja como for, o recuo de Bolsonaro em sua escalada contra o ministro Mandetta, ainda que provavelmente seja apenas momentâneo, é um indicativo de que o presidente se viu limitado pelas circunstâncias. Ou seja, teve que se conformar com as coisas como elas são, e não como os bolsonaristas radicais que o cercam gostariam que fossem.

A julgar pelo que tem sido o comportamento de Bolsonaro até aqui, no entanto, é difícil acreditar que o presidente tenha se dado conta sozinho de que não é prudente brigar tanto com a realidade, especialmente no momento em que o País mais precisa de paz para enfrentar a calamidade sanitária e econômica causada pela epidemia. No caso específico da quase demissão do ministro Mandetta, Bolsonaro voltou atrás depois de ser convencido pelo seu ministro da Casa Civil, general Walter Braga Netto, segundo revelou reportagem do Estado.

Essa informação confirma o papel de “gerente” do governo assumido pelo ministro Braga Netto, formalmente escalado para comandar o comitê de crise que coordena as ações do governo durante a epidemia. A Casa Civil tem entre suas funções primárias justamente a de coordenar a ação do Ministério, mas atualmente, em razão das características caóticas da governança de Bolsonaro, seu titular também está tendo de fazer entrar em forma a própria Presidência.

Assim, o ministro Braga Netto, general que se destacou ao liderar a intervenção federal no Rio de Janeiro em 2018, parece trabalhar ao mesmo tempo como uma espécie de moderador no Palácio do Planalto em face do avanço da ala “ideológica” dentro do governo – a ponto de um de seus principais expoentes, o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente e líder do chamado “gabinete do ódio”, ter ganhado uma sala ao lado do gabinete do pai. Não à toa, partem de Carlos Bolsonaro alguns dos piores ataques nas redes sociais aos militares que estão no governo e que, como Braga Netto, tratam de temperar os ímpetos voluntaristas do presidente.

A tarefa dos militares hoje lotados no governo, portanto, tem sido a de proteger o presidente Bolsonaro de si mesmo e do tal “gabinete do ódio”, dirigido a distância por um ex-astrólogo que mora nos Estados Unidos. Essa figura extravagante, ao exigir a demissão de Luiz Henrique Mandetta, escreveu nas redes sociais que o ministro da Saúde “é o exemplo típico do que acontece quando um governo escolhe seus altos funcionários por puros ‘critérios técnicos’, sem levar em conta a sua fidelidade ideológica”.

Ao desestimular a demissão do ministro Mandetta, o general Braga Netto e outros que nisso se empenharam provavelmente atuaram pela lógica segundo a qual essa atitude intempestiva minaria o governo a ponto de ameaçar sua própria continuidade. É justamente esse clima de confronto e até de ruptura que interessa muito aos fanáticos do “gabinete do ódio”, que apostam no caos, mas não interessa nada ao País, que precisa desesperadamente de tranquilidade política para atravessar a tormenta.