quarta-feira, janeiro 21, 2009

EDITORIAL

Decadente aos 25

Folha de S. Paulo - 21/01/2009
 

O MOVIMENTO dos Trabalhadores Rurais Sem Terra completa 25 anos de existência, mas não amadurece. Ameaça, agora, "invadir" cidades, ou seja, intensificar sua atuação nos centros urbanos. É um modo insensato de render-se à realidade, que já lhe ameaça a sobrevivência e a identidade.
Um sintoma de desnorteio são as turras com seu padrinho, o governo Lula. Patrocinador e patrocinado não se entendem sobre cifras de assentados.
Guilherme Cassel, ministro do Desenvolvimento Agrário, computa 520 mil famílias assentadas desde 2003. O MST considera os dados espúrios e reconhece só 163 mil famílias contempladas. Acusa Lula de não ter cumprido nem 30% da meta do Plano Nacional de Reforma Agrária.
A chegada do PT ao poder federal coincide com o esvaziamento do MST. O total de famílias invasoras baixou de 65.552, em 2003, para 49.158, em 2007. O número de novas famílias acampadas em torno da bandeira vermelha caiu de 59.082 para 6.299 no mesmo período, decréscimo de 89%.
Três foram as frentes abertas pelo governo aliado que contribuíram para desidratar o MST. Primeiro, a cooptação de vários quadros próximos para a burocracia estatal. Ela criou uma aparência de interlocução que esvaziou em parte o radicalismo retórico de suas lideranças.
Houve, ademais, a expansão do Bolsa Família, que principiou com 3,5 milhões de agraciados em 2003 e atingiu 11 milhões em 2008. Esse mínimo colchão de renda ajudou a solapar a base de adesão ao MST. Ela se apoiava na insegurança econômica e foi reduzida, também, pela recuperação do emprego até os meses finais do ano passado.
Por fim, Lula fez minguar o fluxo de recursos para organizações-satélite que sugavam verba estatal em nome do MST. No primeiro mandato, fluíram cerca de R$ 10 milhões por ano para as burras de ONGs que lhe faziam as vezes de testas-de-ferro. Em 2008, pingou R$ 1,4 milhão.
Encurralado pela própria decadência, o MST reage a seu modo. Desta vez, sua vanguarda de ativistas recebe a ordem de avançar sobre as cidades, protagonizando mais ações estapafúrdias e desconexas. Enfrentará, além de mais processos judiciais, apenas a indiferença e a desconfiança da maioria da população.

DORA KRAMER

Refazer a América


O Estado de S. Paulo - 21/01/2009


Vinte minutos e nenhuma mistificação. Barack Hussein Obama foi ao ponto e disse apenas o necessário num discurso de posse sem enfeites.

Realista no traço do perfil da crise, duro com as ameaças à segurança de seu país, generoso na referência aos mais pobres, conciliador na proposta de estender a mão a quem se propuser a “abrir o pulso”, entusiasmado e otimista ante a tarefa de conduzir a nação ao reencontro dos valores que fizeram dos Estados Unidos a maior, mais perene e poderosa democracia do mundo.

Obama não falou de si, não exaltou suas qualidades, não vestiu o figurino de salvador, não vendeu facilidades nem se mostrou intimidado ante a imensidão das dificuldades.

Falou de tolerância, de honestidade, de patriotismo, de coragem, de lealdade, de trabalho. Exibiu-se ao planeta como o homem certo na hora exata.

Se será um excelente ou um medíocre presidente é uma dúvida a ser tirada ao longo dos próximos quatro anos. Agora, Obama cumpre o papel concernente ao momento de poço fundo. Tem a medida necessária ao tamanho do rombo.

Para um problema imenso, só uma solução radical como a eleição de um presidente negro por fora, multirracial por dentro, algo alternativo nas maneiras, neófito na política para o tamanho das trajetórias habitualmente cumpridas antes da chegada ao topo, jovem e ao mesmo tempo tradicionalista.

Cioso da missão de representar o início de uma era de recuperação da economia, da credibilidade interna e externa, da capacidade de indignação perdida diante de tantos e tão escabrosos desastres ocorridos sob a administração George W. Bush.

Frank Rich, colunista do New York Times, fala a respeito num artigo em que compara a comoção provocada pela divulgação dos papéis do Pentágono sobre a guerra do Vietnã, em 1971, e a apatia dos americanos frente aos descalabros em série do governo Bush: as mentiras sobre as armas de destruição do Iraque, as torturas nas prisões de Guantánamo e Abu Ghraib, os bilhões gastos nas guerras e na reconstrução do Iraque, a crise econômica, a corrupção, o clientelismo, a incompetência.

“Após oito anos sendo surrada pelo governo Bush, a nação ficou semicatatônica”, escreve Rich a propósito da absorção de tais acontecimentos ao cotidiano de um país que já não se espantava com mais nada.

Um país que obrigou um presidente da República recém-reeleito a renunciar porque se descobriu que a campanha dele, com a ciência de Richard Nixon, o presidente em questão, espionara a sede do Partido Democrata. 

Na avaliação do analista, Barack Obama terá mais chance de defender uma “política nova e incisiva” quanto mais se empenhar em revelar aos americanos tudo sobre “as malfeitorias de Bush”. Frank Rich, no entanto, na véspera da posse duvidava dessa possibilidade por causa de declarações de Obama defendendo a necessidade de “olharmos para a frente, e não para trás”. 

Obama nada disse que faça supor a abertura de investigações, mas tampouco deixou de levar em conta o que se passou e proclamar a mudança genuína, “o fim dos sentimentos mesquinhos e das falsas promessas, das recriminações e dos dogmas desgastados que por tanto tempo estrangularam a nossa política”. 


Tipo exportação

Bob Woodward, célebre repórter do caso Watergate, escritor, editor do Washington Post, lista “dez lições para o presidente Barack Obama aprender com o governo Bush”, que merecem ser lidas e absorvidas por governantes em geral. 

1. É o presidente que dá o tom. Não seja passivo ou tolere divisões virulentas.

Quer dizer, o papel de árbitro é essencial e indivisível.

2. O presidente precisa fazer com que todos se coloquem, mesmo - ou especialmente - quando há divergências.

As posições e opiniões dos auxiliares precisam ser de conhecimento do chefe.

3. Um presidente precisa fazer o dever de casa para elaborar e respaldar suas políticas.

Não pode, nem deve, atuar “de ouvido”.

4. Presidentes precisam ser francos e se certificar de que más notícias cheguem ao Salão Oval (o gabinete presidencial).

O isolamento é nefasto e contraproducente.

5. Presidentes precisam fomentar a cultura do ceticismo e da dúvida.

Certezas inabaláveis são um atalho para o equívoco.

6. Presidentes recebem dados contraditórios, e precisam classificá-los de forma rigorosa.

Não abrir mão, portanto, do discernimento pessoal.

7. Presidentes devem dizer a mais dura verdade ao povo, mesmo que isso signifique dar notícias muito ruins.

Otimismo tem hora.

8. Motivos nobres não são garantia de uma política eficiente.

Os fins não necessariamente justificam os meios.

9. Presidentes devem insistir num pensamento estratégico.

Visão de longo prazo é indispensável.

10. O presidente deve adotar a transparência. Alguma versão do que aconteceu na Casa Branca (ou no Palácio do Planalto) sempre vai se tornar pública

ÉLIO GASPARI

Não eram sapatos gastos, eram História


O Globo - 21/01/2009
 

Naquela esplanada onde já houve um mercado de escravos, o movimento de quem chegava para a festa da posse de Barack Obama começou quando ainda era noite e a temperatura estava a sete graus negativos, suficiente para congelar a água das garrafinhas. Nada havia para fazer senão esperar várias horas. Mas aquela gente esperou séculos. 

Desta vez, no chão, a festa era deles, extensiva a quem fosse capaz de gritar "Obama" com um sorriso no rosto. Para Rodrick Moore, funcionário da Universidade da Carolina do Sul, foram oito horas de volante. Para Eivind Petersen, diplomata norueguês, enrolado num cobertor azul, foram oito horas de vôo. Fernando Souza, de Salvador, enrolado na bandeira brasileira, esperava o fim da cerimônia para voar de volta. 

Tanya Moore, estudante de ciências do laboratório no Ohio, tinha outra conta. Às oito da manhã, quando o sol já aparecera, ela informou: 

"Faltam quatro horas para George Bush ir embora." Repetiria o lance, com absoluta felicidade: "Faltam 45 minutos." Não havia lugar melhor para a contagem regressiva de Bush. 

Empossado na Presidência, Barack Obama fechou gloriosamente um ciclo da história americana que começou bem antes do nascimento do companheiro, quando uma vendedora chamada Rosa Parks entrou num ônibus, sentou no assento destinado aos brancos e não quis se levantar. Não há apenas um negro na Casa Branca, até porque o pastor Thomas Robb, diretor da Ku Klux Klan, já informou que ele "é só metade preto". 

Os negros americanos liquidaram a fatura. O presidente é negro. O procurador-geral também, bem como a embaixadora nas Nações Unidas. O trisavô de Michelle Obama foi escravo numa plantação de arroz. Os netos da geração que marchou (ou não) nos anos 60 tornaram-se parte da elite americana. Susan Rice, a embaixadora na ONU, é sobrinha-neta de Vernon Jordan, que em 1961 era um jovem advogado e escoltou a primeira estudante negra admitida por ordem judicial na Universidade da Geórgia. 

A meia hora de caminhada da escadaria onde Obama tomou posse, está guardado um par de mocassins com os saltos tipo anabella quase completamente comidos. Durante dez anos, aqueles sapatos ficaram em algum canto da casa de uma professorinha negra de 25 anos, mulher de um militante que tomara 125 cadeias por conta das encrencas de Martin Luther King. Eram a um só tempo coisa velha e memorável. Um dia veio-lhe a ideia de oferecer os mocassins ao Museu de História Americana. E lá estão eles, com a informação: estes foram os sapatos que Juanita Williams usou na Marcha de Selma. 

Em março de 1965, Barack Obama ainda não completara quatro anos, viviam em Selma (Alabama) 15 mil negros, mas só 156 deles podiam votar. Uma primeira marcha andou seis quarteirões e acabou-se a cacetadas. Não adiantou. Duas semanas depois os negros marcharam por 80 quilômetros, durante cinco dias e quatro noites. Eram 300 na partida e foram 25 mil na chegada, na capital do estado. 

Os sapatos de Juanita eram um pedaço da História dos Estados Unidos e ela percebeu. Depois de Selma o presidente Lyndon Johnson pôs fim às chicanas eleitorais contra os negros e desafiou uma audiência usando o título de uma canção de protesto: "We shall overcame" ("Nós triunfaremos".) 

Estranho. Nas festas da posse de Obama evitava-se essa canção. Não precisava, pareceria provocação. Afinal: triunfamos.

PATRÍCIA KOGUT

NOTA 10
Para a estreia de "Caminho das Índias", anteontem, na TV Globo. A direção e as equipes de produção, figurino e caracterização deram um show na novela de Glória Perez
NOTA 0
Para o "A tarde é sua", da Rede TV!, que, em época de "Big Brother Brasil", só fala do reality show. São horas de discussão sobre o mesmo tema, com direito a "especialistas" convidados







Duas fases em ‘Caras e bocas’

“Caras e bocas”, nova novela das 19h, terá duas fases: a primeira se passará em 1993. A segunda será nos dias atuais. Vilã da trama, Deborah Evelyn no início usará um cabelo curto “para dar uma remoçada” e, depois, aparecerá com um “corte moderno”.

 

E mais... 
Deborah embarcará no dia 10 de março para a África do Sul onde gravará cenas da trama de Walcyr Carrasco. Ela, que não conhece aquele país, ficará hospedada num luxuoso resort. Afinal, Judith é diretora de uma empresa de mineração, em São Paulo.

LOUISE CARDOSO (Filomena) visita o shopping cenográfico de “Malhação”, o Gran Plaza. Na novela, sua personagem será dona de uma loja de cosméticos. E sua sobrinha, Yasmin (Mariana Rios), vai ajudá-la a cuidar do negócio. O shopping ficará ao lado do Múltipla Escolha

Batente 
O elenco de “A grande família” ainda está de férias, mas os redatores já voltaram ao batente. Eles se reuniram no início desta semana para começar a discutir o programa e as novidades que vêm por aí. As gravações recomeçarão em março.

De volta 
Miguel Falabella voltará à Marquês de Sapucaí no carnaval deste ano. O autor de “Negócio da China” já tirou suas medidas para fazer o terninho que usará na ala da diretoria da Grande Rio.

Números 
“Caminho das Índias”, novela de Glória Perez, que estreou anteontem na TV Globo, marcou média de 39 pontos no Ibope, com 61% de share. Sua antecessora, “A favorita”, de João Emanuel Carneiro, começou com média de 35 pontos. Já o “Big Brother Brasil” de anteontem, véspera de dia de eliminação, registrou média de 32 pontos.

DANTON MELLO e Carol Oliveira na festa de estreia de “Caminho das Índias”

Francesa 
Mayana Neiva, que fez parte do elenco da minissérie “Queridos amigos”, começa a filmar esta semana “Os normais 2”. No longa, sua personagem será uma francesa.

Alô 
O público não deixa passar nada. O celular de Lara (Mariana Ximenes), em “A favorita”, aparece na lista da Central de Atendimento ao Telespectador (CAT) de dezembro.

‘Menina veneno’ 
Em fevereiro, o cantor Ritchie vai regravar clássicos de sua carreira, em estúdio. O revival, que será lançado em DVD, vai ser exibido no Canal Brasil.

CAROLINA DIECKMANN e Giovanna Antonelli no show de Raoni Carneiro, ator de “Negócio da China”

COLUNA PAINEL

Inconfidência


Folha de S. Paulo - 21/01/2009
 

Um dia depois de ser anunciado secretário do governo José Serra (PSDB-SP), Geraldo Alckmin telefonou ontem para Aécio Neves (PSDB-MG). O diálogo foi de uma elegância ímpar, mas o governador mineiro manifestou a aliados a avaliação de que Alckmin "se apequenou" ao aceitar o convite.
Já pela manhã, Aécio decidiu que faria circular na imprensa uma graça: a de que agora está finalmente "contemplado" no governo Serra, como se tivesse "emplacado" Alckmin no secretariado paulista. De fato, horas depois surgiram declarações em que ele se diz "pessoalmente prestigiado" com a nomeação. Aécio disputa com Serra a candidatura tucana à Presidência, em 2010, e até anteontem tinha em Alckmin um conveniente personagem a atazanar o adversário.

Bombeiro
Aécio, aliás, recebe hoje a visita do presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), que vai tomar o pulso do mineiro. Amanhã repetirá a dose em São Paulo, em encontro com Serra -dias depois, seguirá para Cuba. 

Bis
Nos bastidores, líderes do PSDB já negociam a reeleição de Sérgio Guerra à presidência da sigla por mais dois anos -o mandato expira em novembro. A avaliação é que sua permanência manteria o comando nacional do partido fora do eixo São Paulo-Minas em 2010, sendo que Guerra tem trânsito nas duas alas. 

Na geral
Diante do veto da diplomacia dos EUA a assento especial para congressistas de outros países, o deputado Maurício Rands (PT-PE) foi a Washington por conta própria. Um dos pontos altos de sua participação na posse de Barack Obama foi fotografar a população malhando um boneco de George Bush. 

Pela TV
Ontem, o embaixador dos EUA no Brasil, Clifford Sobel, passou o dia em Recife, ao lado do governador Eduardo Campos (PSB-PE). Embaixadores não foram convidados para a posse. 

Garganta 1
Os ruralistas, até aqui quietos, vão se somar ao coro dos descontentes após o péssimo resultado do emprego em dezembro, que registrou 134 mil vagas a menos no campo. A CNA (Confederação Nacional da Agricultura) fará reunião no dia 10 de fevereiro para decidir a pauta que será levada a Lula. 

Garganta 2
Serão três demandas principais: leilões emergenciais de alimentos para evitar queda dos preços, desoneração da cadeia agrícola e, como sempre, o alongamento das dívidas do campo com os bancos oficiais.

Inflação
Um dia antes de o Ministério do Trabalho anunciar números de desemprego recorde para o mês de dezembro, o presidente Lula assegurou no domingo, em artigo no jornal uruguaio "El País", que seu governo incorporou mais de 10 milhões de brasileiros ao mercado de trabalho -2,3 milhões de vagas a mais do que os números oficiais do ministério, que apontam a criação de 7,7 milhões de postos formais desde 2003. 

Traço
A TV Câmara tirou do sério o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), candidato a presidir a Casa. A grade da emissora tem exibido com frequência animações e filmes infantis. "Depois dizem que não tem espaço para entrevistas sobre a eleição", reclama o peemedebista. 

Linha
O PT da Câmara chamou reunião para 30 de janeiro. Um dos assuntos será reforçar o apoio a Michel Temer (PMDB), apesar da divisão entre PT e PMDB no Senado. Vozes dissonantes já começam a aparecer. "O PT tem que reabrir o debate, porque é muito ruim um partido só ficar com as duas Casas", diz o deputado Dr. Rosinha (PR). 

De volta
O advogado Cláudio Vieira, ex-secretário de Fernando Collor e mentor da Operação Uruguai, está na corrida por vaga no Tribunal de Justiça de Alagoas. Ele integra a lista sêxtupla encaminhada ontem pela OAB-AL. 

Tiroteio


"Em vez de criticar férias de ministros, o Paulinho deveria agradecer a Deus e a alguns deputados por não engrossar a estatística do desemprego." 

Do deputado 
ANDRÉ VARGAS (PT-PR), em resposta a Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), absolvido pela Câmara da acusação de desvio de recursos do BNDES, que havia reclamado das férias dos ministros Paulo Bernardo (Planejamento) e Guido Mantega (Fazenda).

Contraponto

Segundas intenções

Uma semana após ter dado adeus à eleição municipal sem sequer ter passado ao segundo turno da disputa, o ex-governador e agora secretário de Desenvolvimento do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB), recebeu a visita do ex-deputado Cunha Bueno, que lhe presenteou com o livro "Dicionário das Famílias Brasileiras", de sua autoria, em parceria com Carlos Barata. Ao agradecer, o tucano brincou, diante dos seus assessores:
-Quando me elegi governador, você foi me visitar no Palácio e não pediu nada. Agora que perdi a eleição, me traz um presente. Se a primeira visita eu já achei incomum, agora é que não entendo mais nada...

FERNANDO RODRIGUES

Areia movediça no Congresso


Folha de S. Paulo - 21/01/2009
 

Poucos assuntos interessam menos ao conjunto dos brasileiros do que a sucessão para a presidência da Câmara e a do Senado. No universo paralelo da micropolítica, a história é bem outra. 
Ontem, enquanto Barack Obama tomava posse em Washington, caciques partidários maquinavam freneticamente apoios e traições para a disputa do dia 2 de fevereiro. 
Em política não se deve fazer previsões. "O problema do vaticínio é que depende do futuro" é o lema em Brasília. Não há, portanto, como saber o desfecho das eleições no Congresso. Mas há indicações de que o PMDB sairá um pouco mais rachado, mesmo essa sendo quase uma impossibilidade física para uma sigla já tão fragmentada. 
De um lado, o grupo de senadores do PMDB comandados por Renan Calheiros e José Sarney. Do outro, os deputados peemedebistas sob a liderança de Michel Temer e de Geddel Vieira Lima. 
Em teoria, Sarney e Temer são os favoritos para ganhar as presidências do Senado e da Câmara, respectivamente. A vitória de ambos restabeleceria uma tradição no Congresso, com o partido dono das maiores bancadas ficando com o comando. Na prática, o quadro se torna muito mais complexo. 
A entrada de Sarney na disputa parece ter acomodado as forças no Senado. Mas atrapalhou a empreitada de Michel Temer. Na Câmara prevalece uma certa aversão a respeito de dar o comando inteiro do Congresso para o PMDB. 
Não que deputados nutram um sentimento elevado pela divisão de poder ou pela democracia. O problema é uma eventual vitória conjunta do PMDB na Câmara e no Senado reduzir a um só o guichê da fisiologia. Essa é a gênese do ambiente pantanoso na disputa atual. 
Tudo somado, dada a esperteza geral, é real a chance de alguém ser engolido pela areia movediça do processo. Sarney ou Temer.

MÓNICA BERGAMO

O CANDIDATO E O COICE


Folha de S. Paulo - 21/01/2009
 

De um cacique do DEM, acreditando que a nomeação de Geraldo Alckmin (PSDB-SP) para o secretariado de José Serra não significa que ele, Alckmin, conseguirá ser candidato ao governo de SP em 2010: "A única certeza que temos é que o Serra é candidato [à Presidência] e que, por isso, como diria o caboclo, encostou no coice da mula para ela não chutar".

BALANÇA 
O DEM ainda apostava, ontem, que o candidato de Serra continua sendo o secretário Aloysio Nunes Ferreira, da Casa Civil -que terá menos visibilidade que Alckmin, mas gozará de liberdade maior para "fazer política".

VENDAVAL 
O governo brasileiro deve baixar a exigência de uso de equipamentos nacionais para que empresas participem do primeiro leilão de energia eólica do país-que deve ocorrer até o fim do trimestre e já atraiu o interesse de grupos portugueses e espanhóis. "A exigência hoje, em torno de 70%, é intransponível", diz o ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente. "Vamos diminuir num primeiro momento para garantir o sucesso do leilão."

VENDAVAL 2 
E Minc já negocia com o ministro Guido Mantega, da Fazenda, a diminuição de impostos para incentivar a fabricação de equipamentos de energia eólica no Brasil.

ILIMAR FRANCO

Sarney atropela

Panorama Político 
O Globo - 21/01/2009
 

O senador José Sarney (PMDB-AP) chega à reta final das eleições para a presidência do Senado como favorito. Depois de ter dito três vezes não ao presidente Lula, na segunda-feira ele se justificou: "O partido está pressionando, a bancada exige a candidatura". O presidente aceitou, mas alertou-o de que não tinha como tirar o petista Tião Viana (AC) da disputa. Sarney, que preferia ser ungido, retrucou decidido: "Tudo bem, vamos ter eleições". 

Turma do Aécio vê operação abafa 

A cooptação do ex-governador Geraldo Alckmin pelo governador José Serra (SP) caiu como uma bomba na ala que defende a candidatura presidencial do governador Aécio Neves (MG). "Estamos com medo que se tente criar um fato consumado. Nosso sentimento é que a cúpula não quer patrocinar uma disputa transparente e leal", criticou o deputado Nárcio Rodrigues (PSDB-MG). Considerado um porta-voz de Aécio no Congresso, Nárcio cobrou ontem que o partido decida as regras para a realização de prévias e adverte: "Se ficarmos desconfortáveis, se nos tirarem do jogo, seremos obrigados a buscar outros caminhos". 

O senador Sarney na presidência do Senado é equilíbrio, respeitabilidade e uma relação afável com a oposição" - José Agripino, líder do DEM no Senado (RN) 

MAPA DO EMPREGO. O estado do Rio perdeu 19.342 postos de trabalho em dezembro, um declínio de 0,65%. Em números absolutos, o setor de serviços foi o que mais demitiu no mês passado e o comércio, o que mais contratou. Entre os municípios com mais de 30 mil habitantes, Rio das Ostras foi o que teve maior crescimento relativo do emprego formal em 2008 e São Francisco de Itabapoana, o pior resultado. 

Selo verde 

O presidente da Abiec, Roberto Gianetti da Fonseca, e o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) negociam um pacto que pretende coibir o abate clandestino de gado. Hoje são comercializadas 15 milhões de cabeças ilegalmente.

Olé! 

O senador Gim Argello (DF) é o novo líder do PTB. Antes que Romeu Tuma (SP) se articulasse, Argello obteve a assinatura de cinco dos sete integrantes da bancada. O ex-líder Epitácio Cafeteira (MA) ocupará um cargo na Mesa. 

Curto e grosso 

Na reunião de anteontem, o presidente Lula pediu aos presidentes da CUT, Artur Henrique, e da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, que parem de brigar, argumentando que esse não é o momento para isso. Atualmente, a maior divergência é em torno da proposta de redução da jornada de trabalho e dos salários. Uma repórter perguntou a Paulinho, inocentemente, se eles brigam muito. "Nós brigamos pra &*#@!", respondeu. 

Costuras paulistas 

Depois de atrair DEM, PMDB, PPS, PV e compor com Geraldo Alckmin, José Serra assedia agora o PSB. Os socialistas paulistas dizem que os partidos de esquerda têm simpatia pelo chefe da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), o preferido do governador para sua sucessão. O PSB está preocupado em ficar isolado em 2010 devido à aliança nacional PT-PMDB e está ressentido com o governo federal por ter pressionado o PDT a sair do Bloco de Esquerda. 

O PDT anuncia hoje seu desembarque do Bloco de Esquerda e apoio à candidatura de Michel Temer (PMDB-SP) à presidência da Câmara. 

DEBATE. O candidato do PMDB à presidência da Câmara, Michel Temer (SP), não aceitou participar de um debate na TV Câmara contra seus três adversários. 

SE A ELEIÇÃO para a presidência do Senado fosse hoje, o senador Tião Viana (PT-AC) teria 25 votos e o senador José Sarney (PMDB-AP), 56.

DE MERDA


QUARTA NOS JORNAIS

- Globo: Obama anuncia reconstrução dos EUA e promete era de paz

- Folha: Obama toma posse com promessa de reconstruir os EUA e liderar o mundo

- Estadão: Obama promete nova era de responsabilidade nos EUA

- JB: O presidente da esperança

- Correio: O que ele quer mudar

- Valor: Obama prevê tempos difíceis

- Gazeta Mercantil: Obama promete ação e audácia

- Estadão: Em busca do orgulho perdido

- Jornal do Commercio: Tolerância, esperança e paz

terça-feira, janeiro 20, 2009

COLUNA PAINEL

Entressafra


Folha de S. Paulo - 20/01/2009
 

O número de trabalhadores com carteira assinada em todo o Brasil recuou 2,1% em dezembro, na comparação com novembro, mas há cidades em que esse índice alcançou espantosos 50%. Os dados detalhados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), divulgados ontem, apontam que das 30 cidades que registraram os maiores percentuais de derretimento do emprego formal, 29 são de São Paulo.
Em geral, são municípios que giram em torno da agropecuária, setor que sofreu o maior recuo nos números do governo. Pontal (oeste do Estado), por exemplo, teve 6.067 demissões em dezembro, um tombo de 47% em relação ao número de trabalhadores que tinham carteira assinada um mês antes.

Cascalho
Cidades brasileiras que abrigam grandes mineradoras estão entre as que mais demitiram. Em Itabirito (MG) e Itabira (MG), dominadas pela Vale -cujo presidente já defendeu a flexibilização da lei trabalhista-, o nível de emprego caiu 10,22% e 6,10%, respectivamente. Em Mariana (MG), onde opera a Samarco, a queda foi de 5,35%. 

Marcha a ré
Embora o setor automotivo tenha dado uma respirada, algumas cidades que giram em torno dele tiveram um dezembro ruim. Betim, sede da Fiat, teve 3.041 demitidos no mês, queda de 3,3% no nível de emprego. 

Bu!
Depois de receber vários telefonemas com relatos de ameaças de demissão, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Miguel Torres, colocou como toque do seu celular a trilha do filme "A Hora do Espanto". 

No embalo
Marchinha da Força Sindical para protestar amanhã na porta do Banco Central: "Ei, você aí, faz o juro cair/ Até o Meirelles cair..." 

De novo
O Conare, órgão do Ministério da Justiça que analisa pedidos de refúgio, rejeitou a concessão do benefício a 38 estrangeiros, a maioria de países como Eritreia, Somália, Etiópia e Colômbia. A decisão, publicada ontem no "Diário Oficial" da União, vai para a mesa do ministro Tarso Genro, que na semana passada passou por cima do órgão e concedeu refúgio ao italiano Cesare Battisti.

Prévias 1
Avaliação de integrantes da direção nacional do PSDB sustenta que o convite para que Geraldo Alckmin integre o secretariado de José Serra neutralizou o discurso favorito do mineiro Aécio Neves, de que tem perfil mais "conciliador" para unir o PSDB em 2010 do que o governador paulista. 

Prévias 2
Segundo os tucanos, Aécio teria consultado aliados de Alckmin, no final do ano, sobre a possibilidade de o ex-governador acompanhá-lo no tour que programou pelo interior do país. 

Timing
Frase de Geraldo Alckmin, uma semana depois de ser derrotado no primeiro turno da eleição municipal: "Falar de política? Agora só lá em 2010, né?" 

Precursores
Na entrevista ao cineasta dos EUA Oliver Stone, na Venezuela, Lula disse que antes de se encontrar com Barack Obama pretende enviar o chanceler Celso Amorim e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, para conversar com seus correspondentes norte-americanos, Hillary Clinton e Robert Gates. 
Força
José Serra (PSDB) telefonou para Tião Viana (PT) na sexta-feira estimulando-o a não desistir da candidatura a presidente do Senado. O tucano é um antigo incentivador da campanha do petista. 

Sem ajuda
Ao sancionar há alguns dias o projeto que estabelece tarifa única para os produtos oriundos do Paraguai, Lula vetou artigos aprovados pelo Congresso que permitiam a criação de um fundo para recuperação econômica de Foz do Iguaçu. O argumento é que isso afrontaria o princípio da isonomia".

Tiroteio

"Alckmin, que se apresentou como gerente na campanha presidencial de 2006, agora se contenta com a condição de sub. Se continuar assim, a qual cargo ele se candidatará em 2010?"

Do deputado estadual ENIO TATTO (PT), sobre a nomeação do ex-governador Geraldo Alckmin para a Secretaria de Desenvolvimento do Estado após perder duas eleições consecutivas.

Contraponto

Anos incríveis

A CPI da Câmara Municipal de São Paulo que investigou o funcionamento de bingos ouvia em 2002 o depoimento de Airton Fonseca, do "Bingo Sampa", que falava sobre a contabilidade da sua empresa.
-Faço tudo no papel, mensalmente. Diariamente não tem condições-, disse o interrogado.
Ao que o presidente da comissão, Antonio Goulart (PMDB), interrompeu, um tanto nostálgico:
-Isso me faz recordar da época dos bailes de Carnaval do Corinthians... O pessoal recolhia o dinheiro do caixa e levava para conferir em casa. Nunca a entrada de pessoas conferia com o valor arrecadado!

ELIANE CANTANHÊDE

Obama, trégua e desconfiança


Folha de S. Paulo - 20/01/2009
 

Um dos traços marcantes dos judeus, mundo afora, é o brilhantismo em campos variados, de arte a economia, de joalheria a agricultura. Isso se traduziu num "produto de exportação" de Israel: as áreas militar e de inteligência.
Até aqui, na Colômbia, o Exército e os serviços de informação, que surpreenderam o mundo com a libertação de Ingrid Betancourt "sem uma gota de sangue", tiveram treinamento israelense, assim como norte-americano.
Pois bem. Dia sim, dia não, Israel atingiu escolas da ONU, caminhão da ONU, depósito de doações da ONU e civis sob proteção da ONU na atual guerra, todos identificados.
Das duas, uma: ou a competência virou pó (de fósforo?!), ou foi ordem superior para dizimar não apenas o inimigo Hamas, mas os palestinos da faixa de Gaza.
O Hamas ameaça da boca para fora "varrer Israel do mapa". E o governo de Israel, que deveria acolher o apoio internacional enquanto vítima, parecia agir para efetivamente tirar toda aquela área e toda aquela gente do mapa. Coisa para tribunais internacionais.
A guerra não acabou, e o cessar-fogo mais parece uma trégua para a posse de hoje de Barack Obama. O Brasil soma esforços e se integra a um movimento tácito mundial para reduzir a importância devastadora e a influência dos EUA sobre todo o resto, na economia, na política e no Oriente Médio. Mas, queiram ou não, quem tem poder e quase US$ 14 trilhões de PIB são os EUA.
Que Obama use esse poder com bom senso e parcimônia. Pelas preces brasileiras, inclusive de Lula, para deixar de contaminar o mundo com a crise e irradiar recuperação; impor o fim do bloqueio a Cuba para se aproximar da América Latina e ser agente, não de guerras, mas de um acordo de paz que permita dois Estados: o de Israel, seguro, e o Palestino, viável. Obama, porém, é um símbolo atolado em interrogações.
Tem muito a enfrentar, antes de convencer.

O IDIOTA


ILIMAR FRANCO

Cai a receita

Panorama Político 
O Globo - 20/01/2009
 

Os efeitos da crise econômica também chegaram às prefeituras. A estimativa para janeiro é de uma queda real no repasse do Fundo de Participação dos Municípios de sete pontos percentuais. Esse é o primeiro efeito do pacote fiscal beneficiando a indústria automobilística. Estima-se que esse repasse tenha nova redução em fevereiro, devido à alteração na tabela do Imposto de Renda.

TÁ DOMINADO. Ao ser nomeado para a Secretaria estadual do Desenvolvimento, o ex-governador Geraldo Alckmin se engajou no projeto José Serra 2010. O cargo era ocupado pelo vice-governador Alberto Goldman. Serra unificou as principais lideranças do PSDB paulista. Ele garante o comando de seu processo sucessório e fecha as portas para seu adversário interno na corrida para o Palácio do Planalto, o governador Aécio Neves. 

O governo faz bondade com o nosso chapéu (IPI e IR), porque não usou a Cofins" - Paulo Ziulkoski, presidente da Confederação Nacional dos Municípios 

Na outra vez, Gilmar perdeu de 9 a 1 

Na condição de presidente do STF, Gilmar Mendes quer repetir com Cesare Battisti seu entendimento no caso Olivério Medina. Relator do caso e voto vencido, Gilmar entendeu, na ocasião, que a concessão de refúgio pelo Executivo não suspenderia o processo de extradição. Para ele, o tribunal deveria analisar a natureza do crime e referendar ou não a decisão do Conare. Mas a jurisprudência é a de que a concessão de refúgio arquiva o processo de extradição. Gilmar volta a carga e quer que o STF analise o pedido de extradição, depois de concedido o refúgio, à luz da constitucionalidade da legislação sobre refugiados. 

Tratamento VIP 

As equipes do Itamaraty e de seguranças do presidente Lula viajaram em pé, no vôo de uma hora entre Caracas e Maracaibo, na quarta-feira, porque o governo venezuelano resolveu levar dois blindados no avião da Força Aérea Venezuelana.

Para o mundo 

Enquanto Belém sediará o Fórum Social Mundial, mais de 30 cidades ao redor do mundo realizarão atividades descentralizadas. Na França, haverá protesto contra a privatizações; e no Iraque, encontro de líderes tribais para a paz. 

A agricultura e a crise 

A execução do Plano Safra cresceu 23,1% no segundo semestre de 2008, comparado ao mesmo período de 2007, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Agrário. No investimento, o aumento foi de 38,2% e no custeio, de 18,6%. O crescimento foi maior nas regiões Sul e Sudeste. Nessa última, o crescimento foi de 63,8%, e no Sul, de 51,3%. Do total de contratos de investimento no país, 44% foram para aquisição de tratores. 

Um outro mundo é possível 

Foram fechados 654 mil postos de trabalho em dezembro, e as estimativas são de aumento do desemprego por causa dos efeitos da crise econômica. Mas na página do PSDB na internet há um alentado texto afirmando que Alagoas está imune à crise e que o governador Teotônio Vilela trabalha com a criação de 20 mil novos empregos em seu estado até 2010. O governo tucano diz que as oito obras de grande porte do PAC em Alagoas estão indo de vento em popa. 

FALA A LÍDER do PT no Senado, Ideli Salvatti (SC): "A candidatura do senador Tião Viana à presidência do Senado é irreversível. Vamos para o voto". 

O JORNALISTA de economia predileto da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) é o inglês Martin Wolf, colunista do "Financial Times". 

O MINISTRO Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos) fará um périplo pelo Nordeste nesta semana. Ele quer discutir um novo modelo de desenvolvimento para a região.

DORA KRAMER

Um homem cordial


O Estado de S. Paulo - 20/01/2009
 

 Reside nos detalhes - nem sempre sutis, é verdade - a dimensão do empenho do governador de São Paulo no projeto Presidência da República. José Serra nunca esteve tão disposto a remover obstáculos, a não deixar ponto sem nó, a aparar arestas presentes, passadas e futuras.


Cozinha em banho-maria a proposta de realização de prévias no PSDB, como diz querer o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, articula-se com o PT pelo fim da reeleição e agora acaba de matar um mal pela raiz ao deslocar um de seus principais operadores políticos da Secretaria de Desenvolvimento para dar lugar a Geraldo Alckmin. E companhia, obviamente.

José Serra trabalha em silêncio e não é de hoje. Paulista da Mooca, reza pela cartilha da mítica mineira. 

Na eleição municipal "amarrou" o apoio do PMDB de São Paulo à sua candidatura, antes disso havia feito do DEM um devedor eterno ao garantir ao minguante ex-PFL o comando da prefeitura mais importante do País e depois disso teve o cuidado de não celebrar as vitórias.

Frequentador das listas de "ganhadores" daquele certame fez o modesto. No curso do monumental charivari que tomou conta do PSDB paulista - com rebatimento em terras mineiras - fez o frio. O mundo tucano se desfazia em ferro e fogo, mas, no gabinete do governador, a temperatura era de inverso europeu. 

Do lado de fora, os administradores políticos da confusão - Aloísio Nunes Ferreira e Alberto Goldman - transitavam com os cabelos em pé e os colarinhos amarfanhados. Dentro, o governador - composto e indiferente - tratava o assunto Geraldo Alckmin com naturalidade acadêmica, estudada até a medula.

Nem parecia que o ex-governador, desafeto assumido nas internas e adversário contido para efeito externo, estava criando embaraços graves ao plano de deixar o caminho livre para a candidatura Gilberto Kassab ao encasquetar em disputar a prefeitura pelo PSDB.

Da boca do governador nenhuma crítica produzida na presença de estranhos, jornalistas incluídos. Impassível ante a qualquer provocação, Serra manteve a fleuma do começo ao fim. Oficialmente falando, claro.

Calabrês, disputou, e ganhou, no quesito impassibilidade, celebrado como a marca do anestesista, um homem pouco dado a entusiasmos e duro na queda. Ainda que profunda.

Longe de ser um tolo, muito menos um vocacionado para o conformismo, Alckmin não esquentou cadeira na derrota. Mal digerido o resultado da eliminação no primeiro turno, começou a se movimentar.

Primeiro, a bordo da versão de que deixaria o PSDB, talvez até para se candidatar a presidente. Depois, espalhou que estava pensando em se candidatar a governador em 2010 e disputar a legenda tucana com o indicado por Serra que poderia ser qualquer um, menos ele. 

Desta vez, com a imagem do Palácio do Planalto no horizonte, o governador José Serra não deixou ao tempo a solução dos problemas. Até porque a experiência lhe mostrou duas vezes que a omissão não é a melhor conselheira. 

Em 2006, Serra queria ser candidato, Alckmin também. Mas, agora se vê, não queria tanto assim. Ou imaginou que com a preferência nas pesquisas não precisasse fazer por onde.

Deixou as coisas correrem seu curso livremente e, na última hora, resolveu disputar o governo do Estado, argumentando que não poderia insistir na candidatura a presidente com Alckmin no comando da resistência em São Paulo.

Em 2008, não fez como muitos achavam que deveria ter feito. Não apelou a Alckmin pela desistência da disputa da prefeitura e apostou que ele tropeçaria nas próprias pernas como, de fato, tropeçou.

Mas saiu daquela eleição com mais de 20% dos votos, o que, em termos de São Paulo, quer dizer mais de um milhão e meio de votos. Em matéria de PSDB, uma nova ofensiva de Alckmin no trabalho de construção de barreiras poderia significar bem mais. 

Ele capitaliza, como ocorreu nas ocasiões anteriores, a ação dos adversários de Serra dentro do partido e País afora. Qualquer um que converse com Alckmin dá margem à interpretação de que sobre a formação de um núcleo anti-Serra. É sempre um fator de perturbação. 

Durante a campanha municipal, Aécio Neves participou de atos públicos com Alckmin e a leitura que se fez foi de investida de Aécio contra Serra.

A lógica apontava para uma leitura menos drástica do ponto de vista eleitoral, pois não seria crível que algum paulista mudasse o voto por conta da presença do governador mineiro. 

Só que sob a ótica das aparências partidárias, ações semelhantes nesse período até o início da campanha presidencial, dão ideia de divisão e tudo o que Serra precisa é de construir a união.

Daí a opção por cooptar o grupo de Alckmin, não depreciar a força de nenhum adversário, remover montanhas, dirimir conflitos, comer o mingau pelas beiradas, agregar, como convém a quem cuida de cada lance com o cuidado de um jogo esperado a vida inteira.

TERÇA NOS JORNAIS

- Globo: Governo exigirá manutenção de emprego para cortar impostos

- Folha: Indústria concentra demissão recorde

- Estadão: Corte de vagas é o maior desde 92

- JB: Obama - Reforma começa pela economia

- Correio: Obama renova o sonho por um mundo melhor

- Valor: Aracruz fecha acordo para pagar dívida de US$ 2,6 bi

- Gazeta Mercantil: Demissões chegam a 654 mil em dezembro

- Estado de Minas: O sonho não acabou...

segunda-feira, janeiro 19, 2009

COLUNA PAINEL

Antena parabólica


Folha de S. Paulo - 19/01/2009
 

Tema de grande interesse de políticos, os pedidos de concessão de rádio e TV enviados pelo governo ao Congresso Nacional explodiram em 2008. Segundo a Câmara dos Deputados, foram 1.030, entre novas outorgas e renovações, contra 294 em 2007 -aumento de 250%. Em 2003, primeiro ano do governo Lula, apenas 14 pedidos foram enviados ao Legislativo.
Mesmo trabalhando em ritmo acelerado, a Câmara não deu conta de votar toda a demanda do Executivo. A Comissão de Constituição e Justiça aprovou 589 projetos de radiodifusão contra 430 no ano anterior. Após passar pela comissão, o projeto vai direto para o Senado, sem necessidade de votação pelo plenário.

Ágil
O Ministério das Comunicações afirma que a reestruturação da pasta nos últimos anos, com a expansão da equipe técnica, aumentou muito o ritmo de análise de concessões que havia anos estavam paradas. Diz ainda que emissoras comerciais são concedidas via licitação, para evitar favorecimento. 

Brecha
Segundo um deputado que acompanha o tema, vários dos pedidos são de rádios comunitárias -sem necessidade de licitação. 

Easy Rider
Ao chegar para entrevistar Lula para um documentário, na última sexta, o cineasta Oliver Stone surpreendeu o presidente pelo despojamento: estava na garupa de uma moto. 

Chofer
Hugo Chávez fez questão de dirigir o carro presidencial no trajeto de 90 minutos entre o projeto agrícola de El Dilúvio e Maracaibo, com Lula no banco do carona, na sexta-feira. O chanceler venezuelano, Nicolas Maduro, serviu cafezinhos à dupla. 

Sem dó
Na reunião com Lula hoje, a Força Sindical promete, além de criticar a taxa de juros do BC, bater duro nos spreads bancários (diferença entre o juro pago ao investidor e o cobrado do cliente) -inclusive o do BB. 

Aproveitando...
Já a CUT levará uma pauta extensa à reunião com Lula, que, além das tradicionais reivindicações, inclui até o fim da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Davi e Golias
Dados detalhados da balança comercial de 2008 mostram que os cinco Estados que mais venderam produtos para o exterior (SP, MG, RJ, RS e PR) foram responsáveis por 70% das exportações nacionais, que somaram US$ 197,9 bilhões. Os cinco Estados que menos negócios fizeram com outros países (AP, SE, PI, AC e RR) representaram apenas 0,2% das exportações. 

Sobe e desce
Em comparação com os números de 2007, o Estado que mais cresceu suas exportações, entre os dez com maior musculatura, foi Mato Grosso (50%). Apenas três unidades da federação tiveram vendas ao exterior menor do que as registradas um ano antes: Sergipe (-26%), Paraíba (-9%) e Rio Grande do Norte (-6%). 

Condomínio
Erenice Guerra, secretária-executiva da Casa Civil citada como responsável pelo dossiê contra a ex-primeira-dama Ruth Cardoso, ganhou espaçoso apartamento funcional na Asa Sul, em Brasília. O imóvel era ocupado por José Aparecido Nunes, ex-funcionário da Presidência da República acusado de vazar a documentação. 

Camaradas 1
O PT enviará sua direção nacional à China em março ou abril para estreitar relações com os dirigentes locais. Os petistas promoverão um seminário sobre realizações do governo Lula. 

Camaradas 2
Outra visita agendada do PT é à Colômbia, onde haverá a assinatura de um acordo de cooperação com o Polo Democrático Alternativo.Os petistas devem repudiar a tentativa do presidente Álvaro Uribe de tentar um terceiro mandato.

Tiroteio

"Aqueles que criticam a decisão sobre Cesare Battisti esquecem a tradição da política externa brasileira, que sempre concedeu asilo a pessoas de todas as orientações ideológicas."

De VALTER POMAR , secretário de Relações Internacionais do PT, em apoio à concessão de status de refugiado ao italiano Cesare Battisti.

Contraponto

Roda da fortuna

O Senado realizava sessão, em 2007, para a escolha do novo presidente da subcomissão permanente de Cinema, Teatro e Comunicação Social, cargo que estava vago desde que Sérgio Cabral (PMDB) fora eleito governador do Rio de Janeiro. Como a escolha fora acertada previamente, Demóstenes Torres (DEM-GO) obteve todos os votos.
No discurso, o senador "demo" não se conteve:
-Queira Deus que eu tenha o mesmo destino do querido Sérgio Cabral...
A plateia caiu na risada, ao que Demóstenes emendou:
-Aliás, queira Deus que eu me eleja governador do Rio, não é nem em Goiás!

domingo, janeiro 18, 2009

GOSTOSA


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AUGUSTO NUNES

Jornal do Brasil 18/01/09

Sete Dias

De volta ao século 19 – Comandantes dos acampamentos ameaçam recomeçar a Guerra do Paraguai

Já excitados com a chegada do MST aos 25 anos de vida, os comandantes das tropas dos sem-terra eriçaram-se de vez, na virada para 2009, com a coincidência tremenda: faz 145 anos que a Guerra do Paraguai começou. Duas efemérides tão admiráveis, somadas à recente chegada ao poder do companheiro Fernando Lugo, mereciam muito mais que festejos ortodoxos, como a depredação de fazendas produtivas ou o confisco de prédios federais. Assim nasceu a idéia de retomar o grande conflito encerrado em 1870. Só que agora com o MST a favor da potência vizinha e contra o Brasil.

Na primeira semana de janeiro, o marechal João Pedro Stédile comunicou ao presidente Lugo que os soldados entrincheirados nas barracas de lona preta estão prontos para desencadear a revanche do século com a execução de duas missões. Primeira: invadir e ocupar as instalações da hidrelétrica de Itaipu, o que obrigaria o Planalto a reformular o tratado em vigor desde 1973. Segunda: expulsar do Paraguai agricultores brasileiros ali infiltrados há décadas.

"A Eletrobrás paga uma bagatela pela energia comprada do país vizinho", descobriu Roberto Baggio, da coordenação nacional do MST. Quem sai lucrando, segundo a figura batizada em homenagem ao atacante italiano que ganhou a Copa de 1994 para o Brasil, são "grandes grupos econômicos estrangeiros". Como a Eletrobrás.

Marco Aurélio Garcia, conselheiro presidencial para complicações cucarachas, não vê nada demais na declaração de guerra. "Vivemos em um país democrático", ensina o assessor de Lula. "Qualquer partido político ou qualquer movimento social pode defender suas posições à vontade. Considero legítimas todas essas manifestações".

Embora agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) andem monitorando os encontros entre autoridades paraguaias e dirigentes do MST, Baggio usa o salvo-conduto concedido pelo companheiro Garcia para provocar o governo de que faz parte o assessor Garcia em entrevistas ou nos textos beligerantes que publica no site do MST.

"Nada é mais nacionalista do que defender a soberania de um povo sobre os seus recursos naturais", argumenta o artilheiro sem-terra. "Defendemos a soberania de todos os países. Somos contra o imperialismo dos Estados Unidos sobre o Brasil e do Brasil sobre qualquer país da América do Sul". É isso aí, avaliza o comandante Stédile, no momento ocupado com os retoques finais no plano de abrir uma segunda frente na Bolívia, e botar para fora todos os brasileiros proprietários de terras ou empresas no reino de Evo Morales.

No século 19, o Exército imperial precisou aliar-se à Argentina e ao Uruguai, e lutar durante cinco anos, para derrotar um inimigo solitário. No início do terceiro milênio, o Paraguai tem o apoio de uma quinta coluna com a qual Solano Lopes sequer sonhou. Mas hoje as coisas parecem bem menos complicadas. Sucessor do Duque de Caxias, o general Nelson Jobim só precisa convencer o governo Lula a suspender a mesada e o rancho das tropas, além de enquadrar os recalcitrantes com pedagógicas temporadas na cadeia. Também para o ridículo há um limite.

 Essa crise é coisa para gente grande

No programa radiofônico semanal, o presidente Lula resumiu a receita que preparou para resolver de vez todos os problemas do Oriente Médio. "Nós precisamos detectar quem quer os conflitos e colocar essas pessoas numa mesa de negociação, junto com as forças políticas que têm influência, tanto na Autoridade Palestina, sobretudo no Hamas, e no povo de Israel, para que a gente possa começar uma conversação e encontrar uma fórmula, para que eles possam viver em paz e cada um desenvolver o seu país". Simples assim. Lula estudou a questão porque "gostaria que árabes e judeus vivessem em paz, no Oriente Médio, assim como convivem no Brasil". Foi por isso que despachou Celso Amorim para a zona conflagrada.

A rainha de Sabá tem mais chances que o chanceler brasileiro de participar do grupo de negociadores da paz improvável entre israelenses e palestinos. É coisa para representantes de países neutros, e o Brasil governado por Lula é hostil ao Estado judeu. É coisa para nações com relevância geopolítica, e o Brasil só influencia os destinos do planeta na cabeça dos mitômanos do Planalto e dos napoleões de hospício do Itamaraty. E é coisa para gente grande. A crise do Oriente Médio é séria demais para ser discutida por um ministro das Relações Exteriores que, antes da decolagem do avião, troca o terno pelo pijama e pede um copo de leite à comissária de bordo que oferece taças de champanhe aos passageiros da primeira classe.

Presidente do STF pisa no acelerador


No dia 9, o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, libertou três integrantes da quadrilha de extorsionários a que pertence o incansável Marcos Valério. No dia 14, soltou também o ex-tesoureiro do mensalão, que horas antes fora obrigado a continuar na cadeia por decisão do Tribunal Regional Federal de São Paulo. No dia 15, Gilmar Mendes aproveitou o embalo e autorizou a volta à Assembléia Legislativa de Alagoas de 10 parlamentares afastados dos cargos por corrupção.

Janeiro mal chegou à metade. O mais rápido sacador de habeas corpus do mundo já merece o título de "Homem sem Visão do Ano".

Soberania agora rima com cinismo

"O Brasil é um país generoso e tomou uma decisão soberana", recitou o presidente Lula para justificar a absolvição pelo ministro Tarso Genro do italiano Cesare Battisti, condenado em seu país à prisão perpétua por assassinato. Nenhuma palavra sobre os dois pugilistas cubanos capturados no Rio quando tentavam escapar para a Alemanha e devolvidos a Havana por exigência de Fidel Castro. "Eles pediram para voltar", mentiu Genro de novo. Um já conseguiu fugir da ilha. O outro continua por lá, proibido de lutar pela mais antiga ditadura do planeta. No governo Lula, soberania é apenas uma rima pobre para ideologia. E generosidade é o outro nome do cinismo.

Medalha de ouro em pilantragem

O Diário Oficial da União informou que o Ministério do Esporte e o Comitê Olímpico Brasileiro resolveram melhorar o visual dos sete cartolas escalados "para a realização de ação de relações públicas internacional por ocasião de entrega do Dossiê de candidatura em Lausanne, Suíça". Cada um recebeu US$ 2 mil só para "Aquisição de Vestuário". Como a turma continua implorando por um banho de loja, ou os cabos eleitorais do Rio pagaram demais por roupas de quinta (e, portanto, são imbecis) ou embolsaram o dinheiro (e, nesse caso, são gatunos).

Para pagar o tratamento de lesões que a afligem desde os Jogos de Pequim, a ginasta Jade Barbosa vende autógrafos.