O GLOBO - 25/06
Há quinze dias, um dos principais estudiosos dos movimentos sociais na era da internet, o sociólogo espanhol Manuel Castells, realizou palestra na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e afirmou que o atual modelo democrático está esgotado. Em sua opinião, as manifestações por meio das redes sociais surgem de reações indignadas a fatos considerados injustos. Articulam-se de forma virtual, mas em seguida ocupam as ruas.
A tese explica como no Brasil transbordou a insatisfação popular que acuou políticos, partidos e governos. Embora alguns digam que aos participantes falta uma “causa”, sobram razões para o descontentamento.
Na web as manifestações já eram abundantes, embora desprezadas por aqueles que deveriam respeitá-las. A petição virtual para impedir a posse de Renan Calheiros como presidente do Senado obteve 1,6 milhão de assinaturas, mas foi ignorada pela enorme maioria dos senadores. As escolhas do deputado Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e de dois mensaleiros condenados para integrarem a Comissão de Constituição e Justiça beiraram o acinte, tal a quantidade de e-mails contrários. No Facebook, ao qual 74 milhões de brasileiros estão conectados, circulam milhares de mensagens diárias pelo arquivamento da PEC 37 — que proíbe as investigações do Ministério Público — e das propostas que reduzem os efeitos da Lei da Ficha Limpa. Somam-se ao desagrado virtual a inflação em alta, os 39 ministros, os gastos públicos exorbitantes para o Mundial e a corrupção nossa de cada dia. A previsão do ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, de que o julgamento do mensalão ainda poderá demorar dois anos, colocou mais gasolina na fogueira. Nesse cenário de crise entre representantes surdos e representados revoltados, vaiar Dilma foi a catarse.
Assim, prefeitos e governadores, de diferentes legendas, apressaram-se em baixar as calças e as tarifas para frear o levante. O presidente da Câmara adiou a votação da PEC 37. A presidente da República, desta vez vestida de amarelo, fez pronunciamento repleto de obviedades e meias verdades.
Em relação à construção dos estádios da Copa, por exemplo, Dilma afirmou que “jamais permitiria que esses recursos saíssem do orçamento público federal, prejudicando setores prioritários como a saúde e a educação”. De fato, nos R$ 7,1 bilhões previstos não há recursos do “orçamento federal”. Mas, além dos R$ 3,8 bilhões financiados pelo BNDES (em condições especiais de prazos e juros), existem recursos próprios de governos estaduais (R$ 1,5 bilhão), municipais (R$ 14 milhões) e do Distrito Federal (R$ 1 bilhão). De outras fontes provêm R$ 820 milhões. Como as unidades da Federação não fabricam dinheiro, verbas públicas estão custeando arenas em detrimento de áreas prioritárias, o que justifica a indignação da sociedade. Afinal, com esses recursos seria possível construir oito mil escolas, adquirir 39 mil ônibus escolares, construir 2.842 km de rodovias ou erguer 128 mil casas populares.
Em relação ao “pacto nacional pela mobilidade urbana”, é mais do mesmo. Em janeiro de 2010, o ex-presidente Lula, tendo a ex-ministra da Casa Civil ao lado, lançou o “PAC da Mobilidade Urbana da Copa”, com 47 projetos que iriam melhorar o trânsito nas 12 cidades-sede. Paralelamente, desde 2002 existe no Orçamento Geral da União o programa “Mobilidade Urbana”. Em onze anos foram autorizados R$ 8,4 bilhões e aplicados somente R$ 1,6 bilhão (19%). Será que agora vai?
A presidente também cobrou dos outros Poderes, estados e municípios a efetiva implantação da Lei de Acesso à Informação. Paradoxalmente, passaram a ser classificados como sigilosos os gastos de suas viagens ao exterior. Além disso, o orçamento da União está a cada dia mais opaco.
Assim, urge ouvir atentamente o que reclamam mais de 1 milhão de pessoas, além do Movimento Passe Livre. O discurso conservador e o diálogo habitual com as entidades chapas-brancas — há muito cooptadas pelo Poder com cargos e verbas — já não surtem o efeito de outrora. A democracia hipócrita faliu.
No mundo, tal como diz Castells, os partidos políticos tradicionais, tanto à direita quanto à esquerda, estão perdendo a legitimidade. Na Itália, o Movimento 5 Estrelas, partido organizado pelas redes e com discurso contrário à política convencional, é hoje uma das principais forças eleitorais no país. Os novos tempos demandam novas formas de participação dos cidadãos nos processos de decisão do Estado. No Brasil não será diferente.
terça-feira, junho 25, 2013
E as questões de fundo? - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 25/06
Tanto o governo federal como os estaduais apressam-se a atender a algumas das reivindicações apresentadas nas manifestações que acontecem há três semanas pelo Brasil. O risco é de que se limitem a resolver apenas os problemas imediatos e não os de fundo, que são as distorções da economia, como os gastos públicos desordenados e a inflação.
Na semana passada, em ação coordenada pelo governo federal, governadores e prefeitos trataram de cancelar os reajustes da condução. Em São Paulo, por exemplo, o aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus e metrô foi sumariamente cancelado e não apenas adiado, como já tinha sido. E, ontem, o governador Geraldo Alckmin antecipou-se às manifestações e tratou de cancelar novo reajuste do pedágio.
Além disso, a presidente Dilma, governadores e prefeitos se dispuseram a dialogar com as lideranças dos movimentos para terem melhores condições de atender às reivindicações. Paralelamente a essas iniciativas, aumenta a pressão para resolver as principais questões políticas mostradas pela rua, como a falta de representação dos jovens e das novas classes médias nos fóruns de decisão política e econômica. Daí as inúmeras declarações de que deva ser necessário apressar a reforma política, pleito com que ainda no período Lula o governo já se havia comprometido, mas ao qual não deu seguimento.
São providências necessárias e, até certo ponto, inadiáveis. Portanto, têm de ser levadas adiante. No entanto, infelizmente, não se vê a mesma disposição das autoridades em atender às mais importantes questões econômicas de fundo, que são as causas do descontentamento.
No discurso de sexta-feira em cadeia de rádio e TV, a presidente Dilma não se referiu a nenhuma das questões econômicas que permeiam a falta de confiança e a insatisfação da sociedade.
É óbvio que os reajustes das tarifas de condução não são o problema principal. Ele está na inflação que impôs os reajustes. A inflação, por sua vez, voltou a disparar em consequência de outros desajustes, sobre os quais até mesmo o Banco Central tem se manifestado reiteradamente e que permanecem sem resposta.
No pronunciamento de sexta-feira, a presidente Dilma não fez nenhuma referência, nem explícita nem implícita, às causas econômicas dos atuais distúrbios políticos e sociais. Isso não significa que as ignore. Mas, à falta desse foco, a sociedade corre o risco de que as doenças subjacentes permaneçam sem tratamento.
A simples eliminação dos reajustes da condução e do pedágio, por exemplo, tende a aprofundar os atuais desequilíbrios orçamentários. As receitas serão mais baixas e as subvenções tendem a aumentar. Como o impacto sobre a atividade econômica tende a ser ainda mais acentuado pelo crescimento mais baixo, as receitas públicas sofrerão ainda mais. E, se a tudo isso se juntar a crescente deterioração da confiança no governo, então estamos diante de um quadro que exige bem mais atenção das autoridades do que a que vem sendo dispensada. Ontem, a presidente Dilma anunciou a amarração de um Pacto de Estabilidade Fiscal. Pode ser um bom recomeço, embora não se saiba ainda o que isso significa.
Tanto o governo federal como os estaduais apressam-se a atender a algumas das reivindicações apresentadas nas manifestações que acontecem há três semanas pelo Brasil. O risco é de que se limitem a resolver apenas os problemas imediatos e não os de fundo, que são as distorções da economia, como os gastos públicos desordenados e a inflação.
Na semana passada, em ação coordenada pelo governo federal, governadores e prefeitos trataram de cancelar os reajustes da condução. Em São Paulo, por exemplo, o aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus e metrô foi sumariamente cancelado e não apenas adiado, como já tinha sido. E, ontem, o governador Geraldo Alckmin antecipou-se às manifestações e tratou de cancelar novo reajuste do pedágio.
Além disso, a presidente Dilma, governadores e prefeitos se dispuseram a dialogar com as lideranças dos movimentos para terem melhores condições de atender às reivindicações. Paralelamente a essas iniciativas, aumenta a pressão para resolver as principais questões políticas mostradas pela rua, como a falta de representação dos jovens e das novas classes médias nos fóruns de decisão política e econômica. Daí as inúmeras declarações de que deva ser necessário apressar a reforma política, pleito com que ainda no período Lula o governo já se havia comprometido, mas ao qual não deu seguimento.
São providências necessárias e, até certo ponto, inadiáveis. Portanto, têm de ser levadas adiante. No entanto, infelizmente, não se vê a mesma disposição das autoridades em atender às mais importantes questões econômicas de fundo, que são as causas do descontentamento.
No discurso de sexta-feira em cadeia de rádio e TV, a presidente Dilma não se referiu a nenhuma das questões econômicas que permeiam a falta de confiança e a insatisfação da sociedade.
É óbvio que os reajustes das tarifas de condução não são o problema principal. Ele está na inflação que impôs os reajustes. A inflação, por sua vez, voltou a disparar em consequência de outros desajustes, sobre os quais até mesmo o Banco Central tem se manifestado reiteradamente e que permanecem sem resposta.
No pronunciamento de sexta-feira, a presidente Dilma não fez nenhuma referência, nem explícita nem implícita, às causas econômicas dos atuais distúrbios políticos e sociais. Isso não significa que as ignore. Mas, à falta desse foco, a sociedade corre o risco de que as doenças subjacentes permaneçam sem tratamento.
A simples eliminação dos reajustes da condução e do pedágio, por exemplo, tende a aprofundar os atuais desequilíbrios orçamentários. As receitas serão mais baixas e as subvenções tendem a aumentar. Como o impacto sobre a atividade econômica tende a ser ainda mais acentuado pelo crescimento mais baixo, as receitas públicas sofrerão ainda mais. E, se a tudo isso se juntar a crescente deterioração da confiança no governo, então estamos diante de um quadro que exige bem mais atenção das autoridades do que a que vem sendo dispensada. Ontem, a presidente Dilma anunciou a amarração de um Pacto de Estabilidade Fiscal. Pode ser um bom recomeço, embora não se saiba ainda o que isso significa.
Dilma tenta dirigir o trânsito - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 25/06
Presidente adota ideia tanto esperta como arriscada de sugerir mudança constitucional do país
DILMA ROUSSEFF apareceu ontem com algumas desconversas e uma ideia de risco, mas a princípio esperta, para baixar o fogo da chapa que pode fritar o resto do seu governo.
A principal sugestão da presidente parece ser um plebiscito que decidiria a convocação de uma Assembleia Constituinte com a tarefa específica de votar uma reforma política. "Parece ser", pois a ideia toda é constitucionalmente confusa.
A presidente talvez estivesse propondo uma lei de iniciativa popular, mais modesta, até porque é duvidoso se: 1) Pode ser convocado um plebiscito para revogar a Constituição, total ou parcialmente; 2) Se uma Assembleia Constituinte, caso possível, pode ser limitada por poderes externos a ela.
Pelo menos dois ministros do Supremo ouvidos por esta coluna acham a ideia constitucionalmente inaceitável (um terceiro nem quis discutir o assunto, chamando a coisa toda de "populismo constitucional").
Essa discussão parece tecnicismo. Mas trata-se de um problema de política bem imediata, pois:
1) Essa foi a principal ideia que o governo teve para, por um lado, dar um sentido ao protesto por ora informe. Se a ideia render um conflito intrapolíticos ou um rolo constitucional, não progride;
2) A proposta transfere parte do problema (a fúria das ruas contra "políticos") para o Congresso e até para a oposição. A presidente tenta de certo modo se unir a parte dos manifestantes no grito pela "sanitização" do sistema político (novas estruturas e lei de "crimes hediondos" para a corruptos). Os parlamentares, oposição inclusa, que agora se virem.
A esperteza da ideia está, ressalte-se, no fato de Dilma Rousseff tentar dar sentido ao protesto. Ou tentar organizar e talvez até liderar, em parte, as "manifestações difusas", como diz o novo clichê: toda massa ou reunião enorme de cidadãos é difusa até que se lhe dê um sentido, organização ou decisão por voto.
Os riscos podem ser vários.
O primeiro deles é a reação dos parlamentares, que não vão aceitar sem mais a batata quente que Dilma lhes jogou no colo.
Reformas, em si mesmo ou popularmente satisfatórias, obrigariam o Congresso a fazer o que não fez até agora ou ir na direção contrária de suas atitudes habituais (reforço de corporativismos e poderes de partidos que já fazem parte da ordem).
Os parlamentares podem simplesmente recusar a ideia, matando-a no berço, ou podem tentar vingar-se de Dilma, devolvendo a batata quente.
O segundo risco é de a ideia morrer devido a inviabilidades, constitucionais, por exemplo, ou práticas (sua realização demoraria demais, quando há clamor, razoável ou não, por atitudes imediatas).
Enfim, a ideia de inventar uma Assembleia Constituinte composta de "políticos transitórios" (gente que não se candidataria nos próximos anos) pode tanto morrer na praia (os parlamentares dificultosamente se sujeitariam a uma assembleia "amadora") ou pode acirrar o conflito. Os parlamentares poderiam ficar mais irados, subindo o tom da vingança. Ou o povo das ruas poderia aderir decididamente à ideia, querendo atropelar a "casta política" e talvez até o Supremo, com o que o caldo entornaria para mares raramente navegados.
Presidente adota ideia tanto esperta como arriscada de sugerir mudança constitucional do país
DILMA ROUSSEFF apareceu ontem com algumas desconversas e uma ideia de risco, mas a princípio esperta, para baixar o fogo da chapa que pode fritar o resto do seu governo.
A principal sugestão da presidente parece ser um plebiscito que decidiria a convocação de uma Assembleia Constituinte com a tarefa específica de votar uma reforma política. "Parece ser", pois a ideia toda é constitucionalmente confusa.
A presidente talvez estivesse propondo uma lei de iniciativa popular, mais modesta, até porque é duvidoso se: 1) Pode ser convocado um plebiscito para revogar a Constituição, total ou parcialmente; 2) Se uma Assembleia Constituinte, caso possível, pode ser limitada por poderes externos a ela.
Pelo menos dois ministros do Supremo ouvidos por esta coluna acham a ideia constitucionalmente inaceitável (um terceiro nem quis discutir o assunto, chamando a coisa toda de "populismo constitucional").
Essa discussão parece tecnicismo. Mas trata-se de um problema de política bem imediata, pois:
1) Essa foi a principal ideia que o governo teve para, por um lado, dar um sentido ao protesto por ora informe. Se a ideia render um conflito intrapolíticos ou um rolo constitucional, não progride;
2) A proposta transfere parte do problema (a fúria das ruas contra "políticos") para o Congresso e até para a oposição. A presidente tenta de certo modo se unir a parte dos manifestantes no grito pela "sanitização" do sistema político (novas estruturas e lei de "crimes hediondos" para a corruptos). Os parlamentares, oposição inclusa, que agora se virem.
A esperteza da ideia está, ressalte-se, no fato de Dilma Rousseff tentar dar sentido ao protesto. Ou tentar organizar e talvez até liderar, em parte, as "manifestações difusas", como diz o novo clichê: toda massa ou reunião enorme de cidadãos é difusa até que se lhe dê um sentido, organização ou decisão por voto.
Os riscos podem ser vários.
O primeiro deles é a reação dos parlamentares, que não vão aceitar sem mais a batata quente que Dilma lhes jogou no colo.
Reformas, em si mesmo ou popularmente satisfatórias, obrigariam o Congresso a fazer o que não fez até agora ou ir na direção contrária de suas atitudes habituais (reforço de corporativismos e poderes de partidos que já fazem parte da ordem).
Os parlamentares podem simplesmente recusar a ideia, matando-a no berço, ou podem tentar vingar-se de Dilma, devolvendo a batata quente.
O segundo risco é de a ideia morrer devido a inviabilidades, constitucionais, por exemplo, ou práticas (sua realização demoraria demais, quando há clamor, razoável ou não, por atitudes imediatas).
Enfim, a ideia de inventar uma Assembleia Constituinte composta de "políticos transitórios" (gente que não se candidataria nos próximos anos) pode tanto morrer na praia (os parlamentares dificultosamente se sujeitariam a uma assembleia "amadora") ou pode acirrar o conflito. Os parlamentares poderiam ficar mais irados, subindo o tom da vingança. Ou o povo das ruas poderia aderir decididamente à ideia, querendo atropelar a "casta política" e talvez até o Supremo, com o que o caldo entornaria para mares raramente navegados.
Aquém do possível - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 25/06
Reforma política, como a reforma tributária, é aquilo que todo mundo é a favor, mas cada pessoa tem uma proposta diferente. Um plebiscito para decidir se deve haver uma constituinte exclusiva para isso pode ser uma boa ideia. O que não é bom é chamar os governadores para dizer que "antes o país era governado apenas para um terço dos brasileiros". Isso ofende a oposição e os fatos.
A presidente herdou do seu antecessor a convicção equivocada de que o Brasil começou em 2003. Houve avanços importantes na inclusão de brasileiros nos governos petistas. Mas qualquer pessoa que acompanhou os fatos recentes sabe que o processo de inclusão no mercado de consumo foi iniciado, e se tornou possível, a partir da estabilização da economia em 1994/1995. Pacto se faz costurando coincidências de pensamentos e propostas comuns, e não lembrando mais uma vez o que separa. Isso é que dá submeter todos os pronunciamentos que faz ao marqueteiro. Este não é momento de campanha.
A população está nas ruas num momento difícil da economia. Não por culpa das manifestações. A economia está complicada por fatores externos e os erros cometidos na condução da política econômica. O dólar ontem caiu pelo segundo dia seguido, mas ainda acumula um ganho de 10% em um mês.
A bolsa continuou caindo ontem e fechou com -2,3%, na casa dos 45 mil pontos. O nível mais baixo desde abril de 2009. A desaceleração da China atinge a Vale que, como exportadora, poderia até se beneficiar da alta do dólar; a disparada da moeda americana atinge todas as empresas endividadas em dólar, mas mais ainda a Petrobras, que tem o ônus de pagar pela gasolina importada um preço cada vez maior.
O dólar subiu diante da maioria das moedas. Subiu mais no Brasil por dificuldades econômicas, como o déficit em conta corrente de 3,2% do PIB. A presidente Dilma falou em pacto pela estabilidade fiscal. Primeiro, será necessário desmontar a alquimia que faz com que números não correspondam aos fatos. Os indicadores de dívida pública e superávit primário perderam consistência. A estabilidade fiscal precisa, antes de tudo, de números compreensíveis e verificáveis.
Tornar a corrupção dolosa um crime hediondo é um gesto forte, mas o combate a esse mal tem que ser diário, e a maior arma contra ele sempre será a transparência. Nesse ponto, a pauta das ruas coincide com o programa de governo, se ele for implementado. Ninguém sabe ao certo como são calculadas as tarifas públicas. Elas são uma caixa preta deliberada ou se tornaram tão complexas que é difícil entender os valores arbitrados pelo poder concedente. Portanto, essa é uma tarefa de todas as instâncias governamentais, porque há serviços concedidos pelo governo federal e pelos estados e municípios.
A defesa da presidente da Lei de Acesso à Informação é outra boa notícia. Pena que o BNDES não se submeta a ela. Com a alegação universal de que é detentor de sigilo bancário, o banco não presta nem ao Ministério Público as informações que deveriam estar oferecendo espontaneamente ao distinto público. Como o BNDES é uma máquina de usar dinheiro caro captado pelo Tesouro e oferecer dinheiro barato às empresas, ele é o centro da distribuição de renda para a elite do empresariado brasileiro. É ele que financia os gastos da Copa. É o banco que garante a construção das hidrelétricas, principalmente a mais polêmica delas, Belo Monte.
A constituinte exclusiva para a reforma política já foi defendida por outros, como o deputado Miro Teixeira. Ela tem chances de desatar o nó na qual se perdem todas as propostas de reformas. Melhor ainda se for precedida de uma consulta popular para ver se é ou não o caso de fazê-la. Na economia, no entanto, as propostas da presidente ficaram aquém do esperado e desejável.
Reforma política, como a reforma tributária, é aquilo que todo mundo é a favor, mas cada pessoa tem uma proposta diferente. Um plebiscito para decidir se deve haver uma constituinte exclusiva para isso pode ser uma boa ideia. O que não é bom é chamar os governadores para dizer que "antes o país era governado apenas para um terço dos brasileiros". Isso ofende a oposição e os fatos.
A presidente herdou do seu antecessor a convicção equivocada de que o Brasil começou em 2003. Houve avanços importantes na inclusão de brasileiros nos governos petistas. Mas qualquer pessoa que acompanhou os fatos recentes sabe que o processo de inclusão no mercado de consumo foi iniciado, e se tornou possível, a partir da estabilização da economia em 1994/1995. Pacto se faz costurando coincidências de pensamentos e propostas comuns, e não lembrando mais uma vez o que separa. Isso é que dá submeter todos os pronunciamentos que faz ao marqueteiro. Este não é momento de campanha.
A população está nas ruas num momento difícil da economia. Não por culpa das manifestações. A economia está complicada por fatores externos e os erros cometidos na condução da política econômica. O dólar ontem caiu pelo segundo dia seguido, mas ainda acumula um ganho de 10% em um mês.
A bolsa continuou caindo ontem e fechou com -2,3%, na casa dos 45 mil pontos. O nível mais baixo desde abril de 2009. A desaceleração da China atinge a Vale que, como exportadora, poderia até se beneficiar da alta do dólar; a disparada da moeda americana atinge todas as empresas endividadas em dólar, mas mais ainda a Petrobras, que tem o ônus de pagar pela gasolina importada um preço cada vez maior.
O dólar subiu diante da maioria das moedas. Subiu mais no Brasil por dificuldades econômicas, como o déficit em conta corrente de 3,2% do PIB. A presidente Dilma falou em pacto pela estabilidade fiscal. Primeiro, será necessário desmontar a alquimia que faz com que números não correspondam aos fatos. Os indicadores de dívida pública e superávit primário perderam consistência. A estabilidade fiscal precisa, antes de tudo, de números compreensíveis e verificáveis.
Tornar a corrupção dolosa um crime hediondo é um gesto forte, mas o combate a esse mal tem que ser diário, e a maior arma contra ele sempre será a transparência. Nesse ponto, a pauta das ruas coincide com o programa de governo, se ele for implementado. Ninguém sabe ao certo como são calculadas as tarifas públicas. Elas são uma caixa preta deliberada ou se tornaram tão complexas que é difícil entender os valores arbitrados pelo poder concedente. Portanto, essa é uma tarefa de todas as instâncias governamentais, porque há serviços concedidos pelo governo federal e pelos estados e municípios.
A defesa da presidente da Lei de Acesso à Informação é outra boa notícia. Pena que o BNDES não se submeta a ela. Com a alegação universal de que é detentor de sigilo bancário, o banco não presta nem ao Ministério Público as informações que deveriam estar oferecendo espontaneamente ao distinto público. Como o BNDES é uma máquina de usar dinheiro caro captado pelo Tesouro e oferecer dinheiro barato às empresas, ele é o centro da distribuição de renda para a elite do empresariado brasileiro. É ele que financia os gastos da Copa. É o banco que garante a construção das hidrelétricas, principalmente a mais polêmica delas, Belo Monte.
A constituinte exclusiva para a reforma política já foi defendida por outros, como o deputado Miro Teixeira. Ela tem chances de desatar o nó na qual se perdem todas as propostas de reformas. Melhor ainda se for precedida de uma consulta popular para ver se é ou não o caso de fazê-la. Na economia, no entanto, as propostas da presidente ficaram aquém do esperado e desejável.
Tripé de quatro pernas - JOSÉ PAULO KUPFER
O Estado de S.Paulo - 25/06
Complicou de vez o ambiente da economia brasileira, com as turbulências esperadas no mercado de câmbio e inesperadas dos protestos que ganharam as ruas do País. As margens de manobra da política econômica ficaram agora, com o desenrolar dos novos acontecimentos internos e externos, ainda mais apertadas.
A chamada "nova matriz" de política econômica já vinha fazendo água antes mesmo do advento dessas forças com potencial desestabilizador. A crença de que juros básicos mais baixos teriam o condão de destravar o investimento e, com isso, suportar expansão do consumo, sem pressões inflacionárias incontornáveis, não foi confirmada pela realidade.
Mesmo numa trajetória de baixo crescimento e de deterioração das contas externas, os juros voltaram a subir. Agora, com a reversão abrupta da tendência de valorização do real, terão de subir mais, para evitar estragos inflacionários ainda maiores. A forte volatilidade externa, decorrente da decisão americana de refrear a injeção de liquidez praticada nos últimos anos, foi a pá de cal da "nova matriz".
O diagnóstico crítico desse desenlace aponta para um excesso de medidas de fôlego curto e amplitude limitada que, em combinação com hesitações na abertura de concessões na área de infraestrutura, inibiu os investimentos e tirou potência da política econômica. Para completar o cenário negativo, isenções, desonerações e trucagens contábeis, em ambiente de encolhimento das receitas públicas, produziram uma expansão fiscal disfuncional que, aos poucos, com a persistência da inflação, foi perdendo a capacidade de manter o consumo aceso.
Natural que quadro tão adverso alimente nostalgias do tripé meta de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante - inaugurado com Fernando Henrique em 1999, mantido por Lula e pouco a pouco abandonado por Dilma. Pode ser que, na ausência de políticas alternativas, mais adequadas à nova realidade introduzida pela crise global, a restauração do tripé ainda seja uma saída possível do momento.
É preciso lembrar, contudo, que o modelo de ortodoxia cambial, fiscal e de contenção de preços não é uma panaceia. Na verdade, as evidências mostram que, salvo em condições especiais, o tripé é incapaz de evitar baixo crescimento, inflação alta e riscos de crises cambiais.
Sob a vigência do tripé em estado puro, no segundo mandato de FHC, por exemplo, a média anual de inflação ficou 8,8% e o crescimento médio anual não passou de 2,1%. Em 2001, com tripé e tudo, a economia só cresceu 1,3% e a inflação chegou a 7,67% (centro da meta de 4%, com banda de 2 pontos). Foi pior ainda no ano seguinte, na passagem para Lula, quando a inflação bateu em 12,53% (meta de 3,5% e banda de 2 pontos) e o crescimento resumiu-se a 2,6%, num período de disparada da cotação do dólar e de crise cambial - esta só acalmada com a negociação em bases extraordinárias de um acordo com o FMI.
Em sua relativamente curta história, o tripé só produziu resultados sem ressalvas em alguns anos dos governos de Lula. Mas, então, o tripé precisou de uma quarta perna para mostrar o seu valor - a do setor externo. O fato é que sem saldos comerciais positivos, que limitem os déficits em contas correntes, e sem ingressos de recursos externos, o tripé não faz milagres.
Lula contou com a boa sorte da alta na cotação das commodities básicas e um período de abundante liquidez global. Assim foi possível manter o câmbio valorizado sem risco de crise cambial. E assim o País cresceu, mesmo com juros altos, incorporou novos consumidores, sem pressionar a inflação, e ainda fez a festa dos rentistas. Lula, porém, não soube aproveitar a chance que se apresentou para livrar a economia da sina do baixo crescimento e da valorização da moeda, que ajuda a segurar a inflação, mas potencializa o risco de crises cambiais. Essa triste sina volta a nos assombrar.
Complicou de vez o ambiente da economia brasileira, com as turbulências esperadas no mercado de câmbio e inesperadas dos protestos que ganharam as ruas do País. As margens de manobra da política econômica ficaram agora, com o desenrolar dos novos acontecimentos internos e externos, ainda mais apertadas.
A chamada "nova matriz" de política econômica já vinha fazendo água antes mesmo do advento dessas forças com potencial desestabilizador. A crença de que juros básicos mais baixos teriam o condão de destravar o investimento e, com isso, suportar expansão do consumo, sem pressões inflacionárias incontornáveis, não foi confirmada pela realidade.
Mesmo numa trajetória de baixo crescimento e de deterioração das contas externas, os juros voltaram a subir. Agora, com a reversão abrupta da tendência de valorização do real, terão de subir mais, para evitar estragos inflacionários ainda maiores. A forte volatilidade externa, decorrente da decisão americana de refrear a injeção de liquidez praticada nos últimos anos, foi a pá de cal da "nova matriz".
O diagnóstico crítico desse desenlace aponta para um excesso de medidas de fôlego curto e amplitude limitada que, em combinação com hesitações na abertura de concessões na área de infraestrutura, inibiu os investimentos e tirou potência da política econômica. Para completar o cenário negativo, isenções, desonerações e trucagens contábeis, em ambiente de encolhimento das receitas públicas, produziram uma expansão fiscal disfuncional que, aos poucos, com a persistência da inflação, foi perdendo a capacidade de manter o consumo aceso.
Natural que quadro tão adverso alimente nostalgias do tripé meta de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante - inaugurado com Fernando Henrique em 1999, mantido por Lula e pouco a pouco abandonado por Dilma. Pode ser que, na ausência de políticas alternativas, mais adequadas à nova realidade introduzida pela crise global, a restauração do tripé ainda seja uma saída possível do momento.
É preciso lembrar, contudo, que o modelo de ortodoxia cambial, fiscal e de contenção de preços não é uma panaceia. Na verdade, as evidências mostram que, salvo em condições especiais, o tripé é incapaz de evitar baixo crescimento, inflação alta e riscos de crises cambiais.
Sob a vigência do tripé em estado puro, no segundo mandato de FHC, por exemplo, a média anual de inflação ficou 8,8% e o crescimento médio anual não passou de 2,1%. Em 2001, com tripé e tudo, a economia só cresceu 1,3% e a inflação chegou a 7,67% (centro da meta de 4%, com banda de 2 pontos). Foi pior ainda no ano seguinte, na passagem para Lula, quando a inflação bateu em 12,53% (meta de 3,5% e banda de 2 pontos) e o crescimento resumiu-se a 2,6%, num período de disparada da cotação do dólar e de crise cambial - esta só acalmada com a negociação em bases extraordinárias de um acordo com o FMI.
Em sua relativamente curta história, o tripé só produziu resultados sem ressalvas em alguns anos dos governos de Lula. Mas, então, o tripé precisou de uma quarta perna para mostrar o seu valor - a do setor externo. O fato é que sem saldos comerciais positivos, que limitem os déficits em contas correntes, e sem ingressos de recursos externos, o tripé não faz milagres.
Lula contou com a boa sorte da alta na cotação das commodities básicas e um período de abundante liquidez global. Assim foi possível manter o câmbio valorizado sem risco de crise cambial. E assim o País cresceu, mesmo com juros altos, incorporou novos consumidores, sem pressionar a inflação, e ainda fez a festa dos rentistas. Lula, porém, não soube aproveitar a chance que se apresentou para livrar a economia da sina do baixo crescimento e da valorização da moeda, que ajuda a segurar a inflação, mas potencializa o risco de crises cambiais. Essa triste sina volta a nos assombrar.
Indicador antecedente - ANTÔNIO DELFIM NETO
VALOR ECONÔMICO - 25/06
A construção de bons indicadores antecedentes para informar o mercado e melhorar a qualidade da política econômica sempre foi um dos mais importantes objetivos das técnicas de mensuração que vem sendo incessantemente desenvolvidas por estatísticos, econometristas e economistas.
É uma espécie de esporte nacional de todos os bancos centrais. O nosso não escapa à regra. Vem aperfeiçoando a construção de um indicador mensal (o índice IBC-Br), que deverá mimetizar a taxa de crescimento do PIB, quando convenientemente acumulado, trimestral ou anualmente.
Ele exerce um fascínio sobre todos os que se interessam pelo assunto por motivos profissionais e tende a exercer alguma influência sobre o comportamento dos agentes econômicos. A crítica que lhe é feita refere-se a que o Banco Central não tem dado suficiente transparência à metodologia de sua construção. De certa forma isso é compreensível, dadas às incertezas que cercam o exercício e o fato que se trata de um indicador ainda incipiente e sujeito a chuvas e trovoadas.
As estimativas de crescimento do PIB, que permitem comparar o IBC-Br com as estimativas do IBGE, do crescimento de cada trimestre sobre o imediatamente anterior, têm apresentado diferenças significativas (ver tabela abaixo). Quando se amplia o horizonte de observação e se compara os vários trimestres de cada ano com o seu anterior, o IBC-Br parece flutuar em torno das estimativas do IBGE, mas os erros pontuais continuam grandes.
No segundo trimestre de 2013, há algumas indicações de que o nível de atividade tenha melhorado. O IBC-Br de abril-março cresceu 0,84%, estimulado pela forte recuperação do setor industrial, que provavelmente não se repetirá em maio-abril. Parece, entretanto, confirmarem-se as expectativas do Banco Central (e de alguns analistas de mercado), segundo as quais a expansão no segundo trimestre com relação ao primeiro será um pouco maior do que 0,6%. Isso sugere para 2013:
1) a possibilidade de crescimento do PIB próximo de 3% (com um aumento médio dos últimos três trimestres parecido com 0,75%); 2) uma taxa de inflação desconfortável, mas sob controle, em torno de 6%; e 3) um incômodo déficit em conta corrente de US$ 75 bilhões.
Há pouca coisa a fazer com relação a esses números, a não ser reconhecer que o aumento dos gastos do governo que apenas estimulam o consumo tem - por necessidade aritmética produzida pelas identidades da contabilidade nacional - que acabar em mais inflação. Se o Banco Central recusar firmemente a "dominação fiscal", como agora dá sinais de que vai fazer, terá de ajustar a taxa de juros real com graves efeitos colaterais.
Não se sugere, obviamente, reduzir ou sacrificar os programas de inclusão social que civilizaram o nosso desenvolvimento. Foram eles que propiciaram o sentimento de bem-estar social revelado em todas as pesquisas de opinião (internas, como a de nossos institutos, e externas, como a da PewResearch). Trata-se de assumir o compromisso de colocar o ritmo de crescimento de todas as despesas apenas ligeiramente abaixo do crescimento do PIB, uma vez que as receitas do governo crescem mais do que ele.
Quando o crescimento é lento, não por falta de demanda global, mas porque não há fatores de produção disponíveis na proporção adequada (como é hoje o caso da mão de obra), as despesas do governo financiadas por um aumento da dívida pública são feitas à custa da redução das despesas do setor privado, com dois inconvenientes: 1) em geral o cidadão que compra o papel está sendo educado para ser "rentista". Em outras palavras, estamos ensinando que "bom é o rendimento sem risco"; e 2) isso aumenta a dívida pública e pressiona os juros, o que desestimula o investimento privado com risco, que é a essência do desenvolvimento!
É preciso insistir sobre três fatos: 1) só pode ser distribuído o que já foi produzido, ou o que tomamos emprestado do exterior através do déficit em conta corrente, que é financiado pela paciência dos investidores externos, mas ela é finita; 2) o governo não produz nada. É mero transferidor de recursos produzidos pelo setor privado. Na transferência, consome um alto pedágio para sustentar-se; e 3) o papel do governo não é o de produtor, mas o de regulador. Sem garantia jurídica e adequada regulação, a economia de mercado não funciona. Talvez produza alguma eficiência produtiva, mas é incapaz de controlar sua tendência a produzir desigualdades pessoais indesejáveis e flutuações insuportáveis no nível de emprego, que estressam os trabalhadores.
O governo tem tomado medidas que, apesar de produzirem ruídos no curto prazo, vão na direção de aumentar a produtividade total da economia no prazo médio, o que significa que estamos nos preparando fisicamente para acelerar, no futuro, a taxa de crescimento.
A construção de bons indicadores antecedentes para informar o mercado e melhorar a qualidade da política econômica sempre foi um dos mais importantes objetivos das técnicas de mensuração que vem sendo incessantemente desenvolvidas por estatísticos, econometristas e economistas.
É uma espécie de esporte nacional de todos os bancos centrais. O nosso não escapa à regra. Vem aperfeiçoando a construção de um indicador mensal (o índice IBC-Br), que deverá mimetizar a taxa de crescimento do PIB, quando convenientemente acumulado, trimestral ou anualmente.
Ele exerce um fascínio sobre todos os que se interessam pelo assunto por motivos profissionais e tende a exercer alguma influência sobre o comportamento dos agentes econômicos. A crítica que lhe é feita refere-se a que o Banco Central não tem dado suficiente transparência à metodologia de sua construção. De certa forma isso é compreensível, dadas às incertezas que cercam o exercício e o fato que se trata de um indicador ainda incipiente e sujeito a chuvas e trovoadas.
As estimativas de crescimento do PIB, que permitem comparar o IBC-Br com as estimativas do IBGE, do crescimento de cada trimestre sobre o imediatamente anterior, têm apresentado diferenças significativas (ver tabela abaixo). Quando se amplia o horizonte de observação e se compara os vários trimestres de cada ano com o seu anterior, o IBC-Br parece flutuar em torno das estimativas do IBGE, mas os erros pontuais continuam grandes.
No segundo trimestre de 2013, há algumas indicações de que o nível de atividade tenha melhorado. O IBC-Br de abril-março cresceu 0,84%, estimulado pela forte recuperação do setor industrial, que provavelmente não se repetirá em maio-abril. Parece, entretanto, confirmarem-se as expectativas do Banco Central (e de alguns analistas de mercado), segundo as quais a expansão no segundo trimestre com relação ao primeiro será um pouco maior do que 0,6%. Isso sugere para 2013:
1) a possibilidade de crescimento do PIB próximo de 3% (com um aumento médio dos últimos três trimestres parecido com 0,75%); 2) uma taxa de inflação desconfortável, mas sob controle, em torno de 6%; e 3) um incômodo déficit em conta corrente de US$ 75 bilhões.
Há pouca coisa a fazer com relação a esses números, a não ser reconhecer que o aumento dos gastos do governo que apenas estimulam o consumo tem - por necessidade aritmética produzida pelas identidades da contabilidade nacional - que acabar em mais inflação. Se o Banco Central recusar firmemente a "dominação fiscal", como agora dá sinais de que vai fazer, terá de ajustar a taxa de juros real com graves efeitos colaterais.
Não se sugere, obviamente, reduzir ou sacrificar os programas de inclusão social que civilizaram o nosso desenvolvimento. Foram eles que propiciaram o sentimento de bem-estar social revelado em todas as pesquisas de opinião (internas, como a de nossos institutos, e externas, como a da PewResearch). Trata-se de assumir o compromisso de colocar o ritmo de crescimento de todas as despesas apenas ligeiramente abaixo do crescimento do PIB, uma vez que as receitas do governo crescem mais do que ele.
Quando o crescimento é lento, não por falta de demanda global, mas porque não há fatores de produção disponíveis na proporção adequada (como é hoje o caso da mão de obra), as despesas do governo financiadas por um aumento da dívida pública são feitas à custa da redução das despesas do setor privado, com dois inconvenientes: 1) em geral o cidadão que compra o papel está sendo educado para ser "rentista". Em outras palavras, estamos ensinando que "bom é o rendimento sem risco"; e 2) isso aumenta a dívida pública e pressiona os juros, o que desestimula o investimento privado com risco, que é a essência do desenvolvimento!
É preciso insistir sobre três fatos: 1) só pode ser distribuído o que já foi produzido, ou o que tomamos emprestado do exterior através do déficit em conta corrente, que é financiado pela paciência dos investidores externos, mas ela é finita; 2) o governo não produz nada. É mero transferidor de recursos produzidos pelo setor privado. Na transferência, consome um alto pedágio para sustentar-se; e 3) o papel do governo não é o de produtor, mas o de regulador. Sem garantia jurídica e adequada regulação, a economia de mercado não funciona. Talvez produza alguma eficiência produtiva, mas é incapaz de controlar sua tendência a produzir desigualdades pessoais indesejáveis e flutuações insuportáveis no nível de emprego, que estressam os trabalhadores.
O governo tem tomado medidas que, apesar de produzirem ruídos no curto prazo, vão na direção de aumentar a produtividade total da economia no prazo médio, o que significa que estamos nos preparando fisicamente para acelerar, no futuro, a taxa de crescimento.
Perigosa perplexidade - LUIZ GARCIA
O GLOBO - 25/06
O Brasil vive obviamente uma crise social e política, como não se via há muito tempo – se me permitem afirmar o óbvio. Seria perigosa ingenuidade limitar as suas origens à questão das passagens de ônibus urbanos. Ela foi o ponto de partida — um modesto estopim, pode-se dizer — para uma explosão urbana como não se via há muito tempo. E que, pelo visto, estava esperando um pretexto para acontecer.
O movimento sobre o passe livre nos ônibus urbanos deixou de ter razão de ser. A tal ponto que os seus líderes desde quinta-feira deixaram as ruas: tiveram o bom senso de não se confundirem com os radicais que tomaram o seu lugar. Não se fala mais em passagens de ônibus. Nem seria possível, desde que as tarifas foram sensatamente reduzidas.
Quanto ao estopim da bomba que explodiu na mesma quinta-feira, não há explicação conhecida. Sociólogos e políticos de todos os partidos dividem-se entre o silêncio e a confissão de perplexidade. Ninguém, no governo e nas cátedras, esperava a onda de violência que caiu sobre 80 cidades.
Em Brasília, os manifestantes tentaram invadir e incendiar o Itamaraty — curiosamente, um órgão do governo que não tem a mais remota responsabilidade com passagens de ônibus. No Rio, uma caminhada pacífica foi tumultuada por radicais que tentaram invadir a sede da prefeitura, entre outros atos de violência gratuita contra prédios públicos.
Os defensores do passe livre não têm nada com isso e fizeram questão de se dissociar da onda de violência. O governo, pelo visto, não tem pistas nem explicações. Os partidos políticos mostram a mesma perplexidade. Cientistas políticos, idem. Sabe-se apenas que os baderneiros são tão numerosos quanto ferozes.
Falta às autoridades — e a todo o mundo — um dado precioso: ninguém sabe se a baderna nacional é organizada ou se ocorre simplesmente por imitação. O que é lamentável: atrapalha bastante o planejamento das autoridades para a repressão de novas manifestações terroristas — que assim devem ser definidas.
Por enquanto sabemos apenas que não há líderes conhecidos na baderna. Pior: também ignoramos onde eles querem chegar.
Só uma coisa é certa: tanto o governo quanto a classe política em geral — com as necessárias exceções de praxe, que não são muitas, lamentavelmente — vivem um momento de perigosa perplexidade.
O Brasil vive obviamente uma crise social e política, como não se via há muito tempo – se me permitem afirmar o óbvio. Seria perigosa ingenuidade limitar as suas origens à questão das passagens de ônibus urbanos. Ela foi o ponto de partida — um modesto estopim, pode-se dizer — para uma explosão urbana como não se via há muito tempo. E que, pelo visto, estava esperando um pretexto para acontecer.
O movimento sobre o passe livre nos ônibus urbanos deixou de ter razão de ser. A tal ponto que os seus líderes desde quinta-feira deixaram as ruas: tiveram o bom senso de não se confundirem com os radicais que tomaram o seu lugar. Não se fala mais em passagens de ônibus. Nem seria possível, desde que as tarifas foram sensatamente reduzidas.
Quanto ao estopim da bomba que explodiu na mesma quinta-feira, não há explicação conhecida. Sociólogos e políticos de todos os partidos dividem-se entre o silêncio e a confissão de perplexidade. Ninguém, no governo e nas cátedras, esperava a onda de violência que caiu sobre 80 cidades.
Em Brasília, os manifestantes tentaram invadir e incendiar o Itamaraty — curiosamente, um órgão do governo que não tem a mais remota responsabilidade com passagens de ônibus. No Rio, uma caminhada pacífica foi tumultuada por radicais que tentaram invadir a sede da prefeitura, entre outros atos de violência gratuita contra prédios públicos.
Os defensores do passe livre não têm nada com isso e fizeram questão de se dissociar da onda de violência. O governo, pelo visto, não tem pistas nem explicações. Os partidos políticos mostram a mesma perplexidade. Cientistas políticos, idem. Sabe-se apenas que os baderneiros são tão numerosos quanto ferozes.
Falta às autoridades — e a todo o mundo — um dado precioso: ninguém sabe se a baderna nacional é organizada ou se ocorre simplesmente por imitação. O que é lamentável: atrapalha bastante o planejamento das autoridades para a repressão de novas manifestações terroristas — que assim devem ser definidas.
Por enquanto sabemos apenas que não há líderes conhecidos na baderna. Pior: também ignoramos onde eles querem chegar.
Só uma coisa é certa: tanto o governo quanto a classe política em geral — com as necessárias exceções de praxe, que não são muitas, lamentavelmente — vivem um momento de perigosa perplexidade.
Vozes contra vozes - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 25/06
As manifestações começam a criar o risco de reversão, facilitado pela impressão de que sempre geram saques
Se os bloqueios de estradas e, em cidades, as paralisações desordenadas mantiverem a intensidade ontem verificada em vários Estados, como prometido para toda a semana, pode-se esperar que logo uma parte da população esteja pedindo providências contra a outra. As próprias manifestações começam a criar o seu risco de reversão, facilitado pela crescente impressão de que, nas atuais circunstâncias, não é possível passeata que não degenere em saques e outras violências.
Os jovens que convocaram a manifestação contra as passagens de ônibus paulistanos estão, hoje, na situação do japonês que repetia atônito, depois da bomba atômica em Hiroshima: "Eu só puxei a descarga da privada". Buscaram um objetivo, estão em meio a um turbilhão, do qual não podem se desligar. E sobre o qual não têm controle algum, mas são chamados a representá-lo como se tivessem.
A balbúrdia das reivindicações seria de difícil controle mesmo que o movimento partisse de uma liderança definida e forte. Mas as dificuldades que acarretam vêm, sobretudo, de outra característica do momento: as reivindicações manifestadas referem-se na maioria a problemas de responsabilidade estadual e municipal. No entanto, os governadores e prefeitos fingem-se de mortos. Fugiram da cena desde o primeiro crescimento das manifestações. Com exceção só de Geraldo Alckmin e Fernando Haddad.
Preço e eficiência do transporte urbano (agora é bacaninha dizer mobilidade urbana, como se os transeuntes das cidades também precisassem de reforma), contenção da criminalidade, escolas, hospitais e saúde em geral --assim é o grosso das reivindicações levantadas nas ruas, assuntos, todos, de governadores e prefeitos.
Melhor para eles se Dilma Rousseff chamou a si, no que talvez seja um erro político, a responsabilidade por todos os problemas e soluções em questão. Mas não adianta pretender ações em grande escala, seja em número ou em dimensão, como seu discurso sugeriu. Daí só viria mais frustração, porque cada uma delas será, sempre, batalha política e outra batalha com forças econômicas. Tudo o que é reivindicado requer dinheiro, dinheiro em grande quantidade requer impostos a mais --e os economistas adotados pelos meios de comunicação dirão o restante.
O necessário e factível é selecionar prioridades, poucas e uníssonas, no rol dos defeitos nacionais. E atacá-las com todo o vigor, sem condicionamentos eleitorais ou partidários. Se é para mudar alguma coisa, em consonância com a voz das ruas, a falta de apoio na Câmara e no Senado não pode ser motivo de barganhas partidárias: deve ser denunciada ao país, para dele receber resposta. O barganhismo de apoios partidários, desde que Fernando Henrique o adotou para montar seu dispositivo eleitoral unindo PSDB a PFL e PMDB, e com a continuação que lhe deram Lula e Dilma, é um dos entraves mais funestos da política e da administração no Brasil.
Escrevo antes de conhecer o resultado da reunião de Dilma Rousseff com governadores e demais convocados. Dali só poderiam sair propostas e medidas administrativas. A necessidade decisiva do Brasil é, porém, a de mudanças institucionais --sistema partidário, sistema eleitoral, atividade da Câmara e do Senado, adoção do sistema federativo que está em seu nome e não na realidade. Mas isto é de outro capítulo. E o do momento é das vozes que se encontram e podem se desencontrar nas ruas.
As manifestações começam a criar o risco de reversão, facilitado pela impressão de que sempre geram saques
Se os bloqueios de estradas e, em cidades, as paralisações desordenadas mantiverem a intensidade ontem verificada em vários Estados, como prometido para toda a semana, pode-se esperar que logo uma parte da população esteja pedindo providências contra a outra. As próprias manifestações começam a criar o seu risco de reversão, facilitado pela crescente impressão de que, nas atuais circunstâncias, não é possível passeata que não degenere em saques e outras violências.
Os jovens que convocaram a manifestação contra as passagens de ônibus paulistanos estão, hoje, na situação do japonês que repetia atônito, depois da bomba atômica em Hiroshima: "Eu só puxei a descarga da privada". Buscaram um objetivo, estão em meio a um turbilhão, do qual não podem se desligar. E sobre o qual não têm controle algum, mas são chamados a representá-lo como se tivessem.
A balbúrdia das reivindicações seria de difícil controle mesmo que o movimento partisse de uma liderança definida e forte. Mas as dificuldades que acarretam vêm, sobretudo, de outra característica do momento: as reivindicações manifestadas referem-se na maioria a problemas de responsabilidade estadual e municipal. No entanto, os governadores e prefeitos fingem-se de mortos. Fugiram da cena desde o primeiro crescimento das manifestações. Com exceção só de Geraldo Alckmin e Fernando Haddad.
Preço e eficiência do transporte urbano (agora é bacaninha dizer mobilidade urbana, como se os transeuntes das cidades também precisassem de reforma), contenção da criminalidade, escolas, hospitais e saúde em geral --assim é o grosso das reivindicações levantadas nas ruas, assuntos, todos, de governadores e prefeitos.
Melhor para eles se Dilma Rousseff chamou a si, no que talvez seja um erro político, a responsabilidade por todos os problemas e soluções em questão. Mas não adianta pretender ações em grande escala, seja em número ou em dimensão, como seu discurso sugeriu. Daí só viria mais frustração, porque cada uma delas será, sempre, batalha política e outra batalha com forças econômicas. Tudo o que é reivindicado requer dinheiro, dinheiro em grande quantidade requer impostos a mais --e os economistas adotados pelos meios de comunicação dirão o restante.
O necessário e factível é selecionar prioridades, poucas e uníssonas, no rol dos defeitos nacionais. E atacá-las com todo o vigor, sem condicionamentos eleitorais ou partidários. Se é para mudar alguma coisa, em consonância com a voz das ruas, a falta de apoio na Câmara e no Senado não pode ser motivo de barganhas partidárias: deve ser denunciada ao país, para dele receber resposta. O barganhismo de apoios partidários, desde que Fernando Henrique o adotou para montar seu dispositivo eleitoral unindo PSDB a PFL e PMDB, e com a continuação que lhe deram Lula e Dilma, é um dos entraves mais funestos da política e da administração no Brasil.
Escrevo antes de conhecer o resultado da reunião de Dilma Rousseff com governadores e demais convocados. Dali só poderiam sair propostas e medidas administrativas. A necessidade decisiva do Brasil é, porém, a de mudanças institucionais --sistema partidário, sistema eleitoral, atividade da Câmara e do Senado, adoção do sistema federativo que está em seu nome e não na realidade. Mas isto é de outro capítulo. E o do momento é das vozes que se encontram e podem se desencontrar nas ruas.
Serviços e política de desenvolvimento - RICARDO SENNES
O ESTADÃO - 25/06
No debate atual sobre crescimento, ganho de competitividade e balança comercial do País, visões pessimistas prevalecem e ouvem-se poucas propostas alternativas sobre o modelo de desenvolvimento brasileiro. Mas chama atenção a ausência de um tema estratégico nesse assunto: o setor de serviços. Talvez aí resida uma parte importante das opções mais atraentes de políticas para geração de renda, emprego e inovação da economia brasileira. A literatura sobre desenvolvimento indica ser esse setor o mais dinâmico e mais diretamente relacionado à terceira revolução industrial
No Brasil o setor de serviços responde por 67% do PIB e cerca de 75% do emprego. Ou seja, mais de dois terços da economia do País. O mesmo se aplica a países de renda alta, onde a participação do setor é ainda mais expressiva, pois existe uma forte correlação entre nível de desenvolvimento econômico e tamanho do setor de serviços.
Características bastante específicas do setor tomam a análise econômica tradicional mais difícil. Por exemplo, por ser essencialmente intangível, tanto sua mensuração como o desenho de políticas de fomento são bem mais complicados do que as direcionadas para os setores industrial e agrícola, Além disso, a informalidade tende a ser mais ampla. A própria rapidez com que o setor de serviços inova e se adapta a novos contextos toma a tarefa regulatória muito mais difícil. O setor de serviços financeiros e os serviços relacionados à internet são os casos mais notáveis dessa dificuldade.
No Brasil, o lançamento da PITCE em 2003 marcou a primeira política industrial ampla que incorporou o setor de serviços entre suas prioridades, ao incluir TI entre elas. Mas as demais versões de políticas industriais que se seguiram diluíram o setor a ponto de a última versão praticamente desconhecer sua relevância econômica.
O Brasil tem um setor de serviços bastante dinâmico e vários de seus segmentos são particularmente sofisticados. Um sinal disso é que nossas exportações de serviços na última década passaram de US$,10 bilhões para US$ 40 bilhões, apresentando ritmo de crescimento superior às exportações de bens do País. O item mais superavitário das exportações brasileiras nesse campo é o de serviços profissionais, com receita de mais de US$ 22 bilhões. Estão aí incluídos serviços de consultoria, advocacia, engenharia e outros. O Brasil também tem superávits em outros serviços de alto valor agregado, como serviços financeiros, comunicação e construção. Para se ter uma comparação, o complexo da soja exportou em 2012 US$ 26 bilhões, e o setor automobilístico US$ 24 bilhões, e foram, respectivamente, o 3º e o 4º principais segmentos exportadores do Brasil,
Diante desses segmentos, o setor de serviços ainda apresenta algumas vantagens como alta empregabilidade, forte ligação com inovação, baixa demanda por energia, baixíssimo impacto ambiental, baixa necessidade de infraestrutura e logística e baixa demanda por combustíveis fósseis, entre outros.
Vários segmentos do setor de serviços no Brasil passam por revoluções tecnológicas e organizacionais, já nascem e se desenvolvem com forte interação internacional e mostram enorme potencial de se tomarem grupos empresariais modernos e vigorosos. Vale notar que em muitos casos é o setor de serviços que puxa o avanço dos segmentos industriais e agrícolas. E o caso da logística para a mineração, o marketing para bens de consumo, a inovação para o setor eletrônico ou as finanças para o setor de infraestrutura. Mas estão ausentes na agenda da estratégia de desenvolvimento nacional.
É certa a hipótese de vários economistas de que o Brasil não pode prescindir de sua indústria e de seu agronegócio. Obviamente que não. Mas não faz nenhum sentido econômico o País não incluir o setor de serviços, em particular os segmentos de alto valor agregado e diretamente vinculados à economia do conhecimento e à inovação, como prioridades do seu modelo de desenvolvimento.
Indignai-vos nas urnas! - RODRIGO CONSTANTINO
O GLOBO - 25/06
Motivo para revolta é o que não falta. Aquele cenário maravilhoso que o governo pintava não existe. Nossos pilares são de areia, e o inverno está chegando. O descaso com a população por parte das autoridades é enorme, as prioridades são todas desvirtuadas, e o rumo precisa mudar radicalmente.
Mas confesso não compartilhar da euforia que tomou as ruas das principais capitais do país. Há uma insatisfação generalizada e difusa, sem foco. Não adianta ser contra “tudo que está aí”. É preciso compreender melhor o que nos trouxe a esse quadro, e como mudá-lo. Temos que gerar mais luz e menos calor.
Além da grande cacofonia nas ruas, cada um com uma demanda diferente, há grupos radicais de esquerda tentando se apropriar dos protestos. Afinal, isso é o que eles sempre fizeram: incitar as massas e criar baderna. Separar o joio do trigo é crucial. Vândalos devem ser contidos, saques e agressões aos policiais devem ser reprimidos com todo o rigor da lei. Manter a ordem é fundamental.
O clima anárquico só interessa aos golpistas de plantão. Uma turba descontrolada é um convite a uma intervenção estatal rigorosa. A Revolução Francesa sofreu desse mal, levando ao Terror de Robespierre, e depois à ditadura de Napoleão. Maio de 68 foi outro exemplo de caos produzido pela juventude entorpecida por utopias revolucionárias.
Consigo entender perfeitamente o desespero de muitos, cansados de nossa política podre, da ausência de alternativas sérias, da impunidade, do transporte caótico, a saúde pública em frangalhos. Tudo isso é totalmente legítimo. Mas precisamos canalizar essa energia toda para forças construtivas, e não destrutivas.
Sou bastante crítico a este governo. Meu julgamento da era petista é o pior possível. Nunca antes na história deste país se viu tantas trapalhadas conjuntas, tanta incompetência, tanta mediocridade e safadeza. O PT segregou o país, comprou votos com esmolas estatais, aparelhou a máquina do Estado e demonstra forte viés autoritário.
Estamos pagando um alto preço por essa inoperância, agora que os ventos externos pararam de soprar na nossa direção. Dilma não fez uma única reforma estrutural importante, exagerou no populismo e permitiu inclusive a volta da alta inflação. Meu veredicto é o mais duro possível contra a presidente e sua equipe.
Dito isso, não consigo mergulhar com muito otimismo nas manifestações das ruas, até porque tenho sérias dúvidas se este é também o diagnóstico dessas pessoas. Muita gente acaba demandando mais intervencionismo estatal como solução. Querem mais do veneno! Bandeiras demagógicas, como “passe livre”, também abundam. Esse, definitivamente, não é o caminho.
O que fazer então? Sei que a nossa democracia é muito falha. Quem pode ficar feliz com esse Congresso? Mas não acredito muito em revoluções populares, que costumam sair do controle. Prefiro apostar na evolução de nossas instituições, hoje capengas e ameaçadas. Precisamos lutar dentro da própria democracia, com as armas da legalidade, respeitando o império das leis.
Essa via leva mais tempo, tem solavancos, exige concessões, demanda paciência, aquela que está prestes a se esgotar. Mas ela é mais sólida, mais sustentável, mais pacífica. O principal valor da democracia representativa não está em suas “fantásticas” escolhas (Lula?), mas em sua capacidade de eliminar grandes erros de forma pacífica.
Conquistamos a duras penas o regime democrático, e criamos algumas instituições republicanas importantes, como a liberdade de imprensa e a independência dos poderes. Não foi no ritmo que desejávamos, tampouco da qualidade que almejamos. Mas precisamos preservá-las. Hoje mais do que nunca, justamente porque elas estão em xeque, sob constante ataque de minorias organizadas e barulhentas.
Nenhum partido atual representa minha visão liberal de país. São todos eles intervencionistas, depositando no Estado um papel demasiado de controle sobre nossas vidas e recursos. Mas nem por isso penso que a solução é uma espécie de “revolução apartidária”. Em política não há vácuo; ele logo é preenchido por alguém. Que não seja um aventureiro, um “messias” salvador da Pátria. Ou salvadora.
Eis minha sugestão aos brasileiros cansados dessa situação: indignai-vos, mas nas urnas! Não será a escolha ideal, mas o ideal existe somente em nossas ilusões. E elas são perigosas quando passamos a acreditar que são viáveis. Façamos aquilo que for possível, mantendo nossa frágil, porém necessária democracia. De nada adianta rugir feito um leão nas ruas, e depois votar como um burro nas urnas.
Motivo para revolta é o que não falta. Aquele cenário maravilhoso que o governo pintava não existe. Nossos pilares são de areia, e o inverno está chegando. O descaso com a população por parte das autoridades é enorme, as prioridades são todas desvirtuadas, e o rumo precisa mudar radicalmente.
Mas confesso não compartilhar da euforia que tomou as ruas das principais capitais do país. Há uma insatisfação generalizada e difusa, sem foco. Não adianta ser contra “tudo que está aí”. É preciso compreender melhor o que nos trouxe a esse quadro, e como mudá-lo. Temos que gerar mais luz e menos calor.
Além da grande cacofonia nas ruas, cada um com uma demanda diferente, há grupos radicais de esquerda tentando se apropriar dos protestos. Afinal, isso é o que eles sempre fizeram: incitar as massas e criar baderna. Separar o joio do trigo é crucial. Vândalos devem ser contidos, saques e agressões aos policiais devem ser reprimidos com todo o rigor da lei. Manter a ordem é fundamental.
O clima anárquico só interessa aos golpistas de plantão. Uma turba descontrolada é um convite a uma intervenção estatal rigorosa. A Revolução Francesa sofreu desse mal, levando ao Terror de Robespierre, e depois à ditadura de Napoleão. Maio de 68 foi outro exemplo de caos produzido pela juventude entorpecida por utopias revolucionárias.
Consigo entender perfeitamente o desespero de muitos, cansados de nossa política podre, da ausência de alternativas sérias, da impunidade, do transporte caótico, a saúde pública em frangalhos. Tudo isso é totalmente legítimo. Mas precisamos canalizar essa energia toda para forças construtivas, e não destrutivas.
Sou bastante crítico a este governo. Meu julgamento da era petista é o pior possível. Nunca antes na história deste país se viu tantas trapalhadas conjuntas, tanta incompetência, tanta mediocridade e safadeza. O PT segregou o país, comprou votos com esmolas estatais, aparelhou a máquina do Estado e demonstra forte viés autoritário.
Estamos pagando um alto preço por essa inoperância, agora que os ventos externos pararam de soprar na nossa direção. Dilma não fez uma única reforma estrutural importante, exagerou no populismo e permitiu inclusive a volta da alta inflação. Meu veredicto é o mais duro possível contra a presidente e sua equipe.
Dito isso, não consigo mergulhar com muito otimismo nas manifestações das ruas, até porque tenho sérias dúvidas se este é também o diagnóstico dessas pessoas. Muita gente acaba demandando mais intervencionismo estatal como solução. Querem mais do veneno! Bandeiras demagógicas, como “passe livre”, também abundam. Esse, definitivamente, não é o caminho.
O que fazer então? Sei que a nossa democracia é muito falha. Quem pode ficar feliz com esse Congresso? Mas não acredito muito em revoluções populares, que costumam sair do controle. Prefiro apostar na evolução de nossas instituições, hoje capengas e ameaçadas. Precisamos lutar dentro da própria democracia, com as armas da legalidade, respeitando o império das leis.
Essa via leva mais tempo, tem solavancos, exige concessões, demanda paciência, aquela que está prestes a se esgotar. Mas ela é mais sólida, mais sustentável, mais pacífica. O principal valor da democracia representativa não está em suas “fantásticas” escolhas (Lula?), mas em sua capacidade de eliminar grandes erros de forma pacífica.
Conquistamos a duras penas o regime democrático, e criamos algumas instituições republicanas importantes, como a liberdade de imprensa e a independência dos poderes. Não foi no ritmo que desejávamos, tampouco da qualidade que almejamos. Mas precisamos preservá-las. Hoje mais do que nunca, justamente porque elas estão em xeque, sob constante ataque de minorias organizadas e barulhentas.
Nenhum partido atual representa minha visão liberal de país. São todos eles intervencionistas, depositando no Estado um papel demasiado de controle sobre nossas vidas e recursos. Mas nem por isso penso que a solução é uma espécie de “revolução apartidária”. Em política não há vácuo; ele logo é preenchido por alguém. Que não seja um aventureiro, um “messias” salvador da Pátria. Ou salvadora.
Eis minha sugestão aos brasileiros cansados dessa situação: indignai-vos, mas nas urnas! Não será a escolha ideal, mas o ideal existe somente em nossas ilusões. E elas são perigosas quando passamos a acreditar que são viáveis. Façamos aquilo que for possível, mantendo nossa frágil, porém necessária democracia. De nada adianta rugir feito um leão nas ruas, e depois votar como um burro nas urnas.
Os parasitas - JOSÉ PADILHA
FOLHA DE SP - 25/06
Não surpreende que os protestos tenham um lado violento. O que acontece em hospitais, presídios e gabinetes mata muita gente
Existe um campo da biologia, chamado de relações ecológicas, que estuda os diferentes tipos de interação entre organismos vivos. Uma das mais interessantes é entre parasitas e hospedeiros. Os parasitas evoluem para sugar a energia vital dos hospedeiros e a usam em proveito próprio. Já os hospedeiros evoluem no sentido contrário, buscando resistir aos parasitas. É uma guerra evolutiva.
Os protestos no Brasil podem ser vistos sobre essa ótica. A população brasileira sustenta vários parasitas, que vão de uma classe política corrupta a uma polícia brutal. Quase toda a estrutura do Estado opera de forma parasitária, usurpando dos brasileiros parte significativa de seu trabalho e energia, na forma de corrupção e de impostos em excesso.
Não deixa de ser revelador o fato de os protestos terem começado como uma manifestação contra um aumento nas tarifas de ônibus. Afinal, todo brasileiro bem informado sabe que, embutido no preço do ônibus, quase sempre há a caixa de campanha, o por fora que é acertado com as empresas de ônibus --a parcela dos parasitas.
Não me surpreende que os protestos tenham um lado violento. A relação parasita-hospedeiro é sempre desse tipo. O que acontece em nossos hospitais, presídios, delegacias e gabinetes de políticos é também uma violência, mata muita gente. O que, evidentemente, não justifica a violência dos hospedeiros, mas certamente explica em parte de onde ela vem.
Outra relação ecológica interessante, e também importante para se entender o Brasil, é a da simbiose. Ela ocorre quando dois ou mais organismos interagem de forma a se beneficiar mutuamente.
No Brasil, a classe política dominante e os grandes grupos econômicos que fornecem bens e serviços ao Estado tendem a se relacionar dessa forma. Políticos criam demanda por grandes obras, montam licitações de forma a viabilizar estouros orçamentários. Grandes empreiteiros falsificam concorrências e emplacam orçamentos absurdos. Os hospedeiros pagam a conta.
Essa é a essência da nossa ecologia: somos hospedeiros, constantemente predados por grupos econômicos e partidos políticos que descobriram uma estratégia simbiótica de se retroalimentar às nossas custas.
O que vai acontecer agora? Se formos buscar inspiração na biologia, quando o hospedeiro reage, o parasita tem que se adaptar para sobreviver. A primeira tentativa nesse sentido foi a da camuflagem, com a presidente Dilma dando a deixa para a classe política: vamos elogiar os manifestantes, como se não fizéssemos parte dos processos parasitários contra os quais eles se insurgem.
Outros parasitas se fingem de mortos, para ver se os hospedeiros os esquecem, apostando que as manifestações não terão real influência na estrutura de poder do país. Finalmente, há os parasitas cínicos, que vão tentar se juntar aos hospedeiros e surfar na onda das manifestações, apresentando-se como alternativa.
Todas as estratégias têm boa chance de sucesso, dado que as manifestações não são propositivas. Mesmo assim, elas nos dão alguma esperança, porque mostram que, quando os hospedeiros se manifestam, conseguem o que querem. Foi assim com Collor e está sendo assim com a tarifa dos ônibus. Resta saber se existem forças na sociedade capazes de fornecer aos hospedeiros alguma estratégia de mudança em que possam se apoiar.
Não surpreende que os protestos tenham um lado violento. O que acontece em hospitais, presídios e gabinetes mata muita gente
Existe um campo da biologia, chamado de relações ecológicas, que estuda os diferentes tipos de interação entre organismos vivos. Uma das mais interessantes é entre parasitas e hospedeiros. Os parasitas evoluem para sugar a energia vital dos hospedeiros e a usam em proveito próprio. Já os hospedeiros evoluem no sentido contrário, buscando resistir aos parasitas. É uma guerra evolutiva.
Os protestos no Brasil podem ser vistos sobre essa ótica. A população brasileira sustenta vários parasitas, que vão de uma classe política corrupta a uma polícia brutal. Quase toda a estrutura do Estado opera de forma parasitária, usurpando dos brasileiros parte significativa de seu trabalho e energia, na forma de corrupção e de impostos em excesso.
Não deixa de ser revelador o fato de os protestos terem começado como uma manifestação contra um aumento nas tarifas de ônibus. Afinal, todo brasileiro bem informado sabe que, embutido no preço do ônibus, quase sempre há a caixa de campanha, o por fora que é acertado com as empresas de ônibus --a parcela dos parasitas.
Não me surpreende que os protestos tenham um lado violento. A relação parasita-hospedeiro é sempre desse tipo. O que acontece em nossos hospitais, presídios, delegacias e gabinetes de políticos é também uma violência, mata muita gente. O que, evidentemente, não justifica a violência dos hospedeiros, mas certamente explica em parte de onde ela vem.
Outra relação ecológica interessante, e também importante para se entender o Brasil, é a da simbiose. Ela ocorre quando dois ou mais organismos interagem de forma a se beneficiar mutuamente.
No Brasil, a classe política dominante e os grandes grupos econômicos que fornecem bens e serviços ao Estado tendem a se relacionar dessa forma. Políticos criam demanda por grandes obras, montam licitações de forma a viabilizar estouros orçamentários. Grandes empreiteiros falsificam concorrências e emplacam orçamentos absurdos. Os hospedeiros pagam a conta.
Essa é a essência da nossa ecologia: somos hospedeiros, constantemente predados por grupos econômicos e partidos políticos que descobriram uma estratégia simbiótica de se retroalimentar às nossas custas.
O que vai acontecer agora? Se formos buscar inspiração na biologia, quando o hospedeiro reage, o parasita tem que se adaptar para sobreviver. A primeira tentativa nesse sentido foi a da camuflagem, com a presidente Dilma dando a deixa para a classe política: vamos elogiar os manifestantes, como se não fizéssemos parte dos processos parasitários contra os quais eles se insurgem.
Outros parasitas se fingem de mortos, para ver se os hospedeiros os esquecem, apostando que as manifestações não terão real influência na estrutura de poder do país. Finalmente, há os parasitas cínicos, que vão tentar se juntar aos hospedeiros e surfar na onda das manifestações, apresentando-se como alternativa.
Todas as estratégias têm boa chance de sucesso, dado que as manifestações não são propositivas. Mesmo assim, elas nos dão alguma esperança, porque mostram que, quando os hospedeiros se manifestam, conseguem o que querem. Foi assim com Collor e está sendo assim com a tarifa dos ônibus. Resta saber se existem forças na sociedade capazes de fornecer aos hospedeiros alguma estratégia de mudança em que possam se apoiar.
À moda antiga - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 25/06
A presidente Dilma Rousseff convocou uma grande reunião com governadores e prefeitos e propôs a discussão de "cinco pactos" que poderiam ser vistos como itens de uma boa carta de intenções caso as soluções não estivessem nas mãos de um grupo que há dez anos ocupa o poder.
O que se viu foi a tentativa de tratar um problema novo à moda antiga, com a enferrujada ferramenta do gesto de impacto.
A presidente voltou a condenar a violência e prometeu mudanças. Teria dito o óbvio não fosse a esquisitice de ignorar que a preservação da responsabilidade fiscal e o controle da inflação são tarefas das quais seu governo se descuidou.
Governo este que teria de ter cumprido a tarefa de conduzir um esforço nacional pela garantia de serviços decentes na saúde, educação e transportes coletivos. No lugar disso, o discurso antes de falarem as ruas era o de que estava tudo uma maravilha no País cujo sucesso o autorizava a dar lições de gestão mundo afora.
Quanto à reforma política, foi a presidente Dilma Rousseff em pessoa quem avisou logo no início de seu mandato que deixaria de lado toda e qualquer reforma. Agora propõe um plebiscito que por ora tem jeito de factoide: assume o papel de protagonista do debate com vistas a deixar as questões de gestão governamental em segundo plano.
Dilma suscitou mais dúvidas que ofereceu respostas. Muito provavelmente porque não houvesse mesmo nada de diferente a dizer, dado o susto que assolou a nação em geral e talvez de modo especial a presidente, que uma semana antes reagia a vaias com jeito de poucos amigos e atribuía as críticas à intolerância vazia dos militantes do mau agouro.
O buraco, como se viu, é mais profundo e requer algo além de oratória veemente e atos que no passado impressionavam, mas hoje perderam a credibilidade.
Notadamente devido à discrepância entre os fatos e suas versões. Tome-se como exemplo o PAC, a salvação da lavoura a respeito da qual não se tem boas notícias.
O governo queimou capital de confiabilidade fiando-se na sustentação dos índices de popularidade. Agora vai precisar produzir resultados para recuperar o patrimônio.
Dilma dá ênfase ao combate à corrupção, promete mais investimentos e eficiência. Não explicou como vai conjugar essa boa intenção com a companhia de figuras emblemáticas no quesito descompostura nem com o gigantismo da máquina, com a existência de 39 ministérios, muitos deles meras sinecuras para sustentar um modelo esfarrapado de coalizão.
Pregar transparência tendo recentemente ordenado que os gastos com viagens presidenciais fossem considerados sigilosos não ajuda a tecer uma rede de confiabilidade na palavra presidencial.
Na semana passada soou desafinada também a alegação de que não há dinheiro público nos estádios de futebol depois de o governo passar seis anos faturando politicamente a paternidade da Copa do Mundo.
A inconsistência ronda a proposta dos pactos para melhoria dos serviços públicos. Quais os termos do "contrato", quem abrirá mão do quê? O governo federal quer repartir os danos com governadores e prefeitos, pretendendo receber deles apoio político. Já os chefes de executivos estaduais e municipais querem da União mais dinheiro.
Mas, se o Planalto avisa que não tem margem para repartir receitas, fica difícil vislumbrar condições objetivas em torno das quais seria construído um entendimento para atender a gama de demandas.
Como não se enfrenta isso com passes de mágica e o palavrório cansou, convém aguardar para ver se o plano visa a aplacar os protestos ou se ficou bem entendido que as pessoas exigem que o poder público dê soluções concretas aos problemas.
A presidente Dilma Rousseff convocou uma grande reunião com governadores e prefeitos e propôs a discussão de "cinco pactos" que poderiam ser vistos como itens de uma boa carta de intenções caso as soluções não estivessem nas mãos de um grupo que há dez anos ocupa o poder.
O que se viu foi a tentativa de tratar um problema novo à moda antiga, com a enferrujada ferramenta do gesto de impacto.
A presidente voltou a condenar a violência e prometeu mudanças. Teria dito o óbvio não fosse a esquisitice de ignorar que a preservação da responsabilidade fiscal e o controle da inflação são tarefas das quais seu governo se descuidou.
Governo este que teria de ter cumprido a tarefa de conduzir um esforço nacional pela garantia de serviços decentes na saúde, educação e transportes coletivos. No lugar disso, o discurso antes de falarem as ruas era o de que estava tudo uma maravilha no País cujo sucesso o autorizava a dar lições de gestão mundo afora.
Quanto à reforma política, foi a presidente Dilma Rousseff em pessoa quem avisou logo no início de seu mandato que deixaria de lado toda e qualquer reforma. Agora propõe um plebiscito que por ora tem jeito de factoide: assume o papel de protagonista do debate com vistas a deixar as questões de gestão governamental em segundo plano.
Dilma suscitou mais dúvidas que ofereceu respostas. Muito provavelmente porque não houvesse mesmo nada de diferente a dizer, dado o susto que assolou a nação em geral e talvez de modo especial a presidente, que uma semana antes reagia a vaias com jeito de poucos amigos e atribuía as críticas à intolerância vazia dos militantes do mau agouro.
O buraco, como se viu, é mais profundo e requer algo além de oratória veemente e atos que no passado impressionavam, mas hoje perderam a credibilidade.
Notadamente devido à discrepância entre os fatos e suas versões. Tome-se como exemplo o PAC, a salvação da lavoura a respeito da qual não se tem boas notícias.
O governo queimou capital de confiabilidade fiando-se na sustentação dos índices de popularidade. Agora vai precisar produzir resultados para recuperar o patrimônio.
Dilma dá ênfase ao combate à corrupção, promete mais investimentos e eficiência. Não explicou como vai conjugar essa boa intenção com a companhia de figuras emblemáticas no quesito descompostura nem com o gigantismo da máquina, com a existência de 39 ministérios, muitos deles meras sinecuras para sustentar um modelo esfarrapado de coalizão.
Pregar transparência tendo recentemente ordenado que os gastos com viagens presidenciais fossem considerados sigilosos não ajuda a tecer uma rede de confiabilidade na palavra presidencial.
Na semana passada soou desafinada também a alegação de que não há dinheiro público nos estádios de futebol depois de o governo passar seis anos faturando politicamente a paternidade da Copa do Mundo.
A inconsistência ronda a proposta dos pactos para melhoria dos serviços públicos. Quais os termos do "contrato", quem abrirá mão do quê? O governo federal quer repartir os danos com governadores e prefeitos, pretendendo receber deles apoio político. Já os chefes de executivos estaduais e municipais querem da União mais dinheiro.
Mas, se o Planalto avisa que não tem margem para repartir receitas, fica difícil vislumbrar condições objetivas em torno das quais seria construído um entendimento para atender a gama de demandas.
Como não se enfrenta isso com passes de mágica e o palavrório cansou, convém aguardar para ver se o plano visa a aplacar os protestos ou se ficou bem entendido que as pessoas exigem que o poder público dê soluções concretas aos problemas.
Democracia direta - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 25/06
A presidente Dilma está tentando aproveitar-se de momento delicado das relações partidárias com a opinião pública para passar por cima do Congresso, tão desprezado pelas vozes das ruas, e assumir uma proposta de Constituinte exclusiva para reforma política que não é nova e, sendo lançada pelo Executivo, cria um clima de suspeição.
A ideia já chegou a ser lançada tempos atrás pelo próprio PT, através do então presidente Lula, e com o apoio da OAB, e fracassou por falta de apoio. Sempre pareceu a muitos - a mim inclusive - ser uma saída para a efetivação de uma reforma que, de outra forma, jamais sairá de um Congresso em que o consenso é impossível para atender a todos os interesses instalados.
O deputado Miro Teixeira defende de há muito a tese de que a Constituinte poderia, além da reforma política, tratar de dois assuntos polêmicos: pacto federativo e reforma tributária. Há diferenças básicas, no entanto, pois, além de ser uma proposta de um deputado, a de Miro não foi feita em tempos de crise como o atual e era um instrumento para evitar a crise, que acabou chegando pelas ruas.
A convocação de uma Constituinte restrita, ou um Congresso revisor restrito, para tratar da reforma política, segundo Miro, daria oportunidade de tratar de forma mais aprofundada esses temas, com discussões estruturais que se interligariam, com a redistribuição das atribuições e verbas entre os entes federativos, temas que, aliás, estão na ordem do dia com a disputa pela distribuição dos royalties do petróleo.
A convocação dessa Constituinte, porém, ficaria dependendo da aprovação da população através de um plebiscito, o que torna a tarefa muito difícil de ser concluída: uma proposta de emenda constitucional (PEC) nesse sentido, além das dificuldades inerentes ao quorum qualificado nas duas Casas do Congresso, precisaria também ter o aval do povo para valer e, mesmo assim, certamente seria acusada de inconstitucional, indo parar no Supremo Tribunal Federal (STF), onde há uma opinião predominante de que Constituinte exclusiva é inconstitucional.
Mas toda essa teoria fica anulada pelas experiências na América Latina, onde vários governos autoritários utilizaram a Constituinte para aumentar o poder do Executivo, como ocorreu na Venezuela de Chávez, na Bolívia de Evo Morales, no Equador de Correa.
Tem sido politicamente inviável tentar levar adiante a proposta devido ao uso distorcido das Constituintes em países da região, que acabaram transformadas em instrumentos para aumentar o poder dos governantes de países como Bolívia ou Equador, seguindo os passos da "revolução bolivariana" de Chávez.
A base teórica da manipulação dos referendos e do próprio instrumento da Constituinte para dar mais poderes aos presidentes da ocasião, como já foi dito aqui, é o livro "Poder Constituinte - Ensaio sobre as alternativas da modernidade", do cientista social e filósofo italiano Antonio (Toni) Negri.
O filósofo italiano diz que "o medo despertado pela multidão" faz com que o poder constituído queira impedir sua manifestação através da Constituinte: "A fera deve ser dominada, domesticada ou destruída, superada ou sublimada." Negri considera que o "poder constituído" procura tolher o "poder constituinte", limitando-o no tempo e no espaço, enquanto o dilui através das "representações" dos poderes do Estado.
Em uma definição mais popular, Evo Morales diz que se trata de uma nova maneira de governar através do povo. Defende, na prática, a "democracia direta", o fim das intermediações do Congresso, próprias dos sistemas democráticos. Esse é o tipo de ação basicamente antidemocrática, pois uma coisa é criticar a atuação do Congresso e exigir mudanças na sua ação política para aproximar-se de seus representados, o povo. Outra coisa muito diferente é querer ultrapassar o Poder Legislativo, fazendo uma ligação direta com o eleitorado através de um governo plebiscitário, que leva ao populismo e ao autoritarismo.
O cientista político Bolívar Lamounier considera que a possibilidade de manipulação é inerente ao instrumento do plebiscito, "pois a autoridade incumbida de propor os quesitos pode ficar muito aquém da neutralidade".
A ideia já chegou a ser lançada tempos atrás pelo próprio PT, através do então presidente Lula, e com o apoio da OAB, e fracassou por falta de apoio. Sempre pareceu a muitos - a mim inclusive - ser uma saída para a efetivação de uma reforma que, de outra forma, jamais sairá de um Congresso em que o consenso é impossível para atender a todos os interesses instalados.
O deputado Miro Teixeira defende de há muito a tese de que a Constituinte poderia, além da reforma política, tratar de dois assuntos polêmicos: pacto federativo e reforma tributária. Há diferenças básicas, no entanto, pois, além de ser uma proposta de um deputado, a de Miro não foi feita em tempos de crise como o atual e era um instrumento para evitar a crise, que acabou chegando pelas ruas.
A convocação de uma Constituinte restrita, ou um Congresso revisor restrito, para tratar da reforma política, segundo Miro, daria oportunidade de tratar de forma mais aprofundada esses temas, com discussões estruturais que se interligariam, com a redistribuição das atribuições e verbas entre os entes federativos, temas que, aliás, estão na ordem do dia com a disputa pela distribuição dos royalties do petróleo.
A convocação dessa Constituinte, porém, ficaria dependendo da aprovação da população através de um plebiscito, o que torna a tarefa muito difícil de ser concluída: uma proposta de emenda constitucional (PEC) nesse sentido, além das dificuldades inerentes ao quorum qualificado nas duas Casas do Congresso, precisaria também ter o aval do povo para valer e, mesmo assim, certamente seria acusada de inconstitucional, indo parar no Supremo Tribunal Federal (STF), onde há uma opinião predominante de que Constituinte exclusiva é inconstitucional.
Mas toda essa teoria fica anulada pelas experiências na América Latina, onde vários governos autoritários utilizaram a Constituinte para aumentar o poder do Executivo, como ocorreu na Venezuela de Chávez, na Bolívia de Evo Morales, no Equador de Correa.
Tem sido politicamente inviável tentar levar adiante a proposta devido ao uso distorcido das Constituintes em países da região, que acabaram transformadas em instrumentos para aumentar o poder dos governantes de países como Bolívia ou Equador, seguindo os passos da "revolução bolivariana" de Chávez.
A base teórica da manipulação dos referendos e do próprio instrumento da Constituinte para dar mais poderes aos presidentes da ocasião, como já foi dito aqui, é o livro "Poder Constituinte - Ensaio sobre as alternativas da modernidade", do cientista social e filósofo italiano Antonio (Toni) Negri.
O filósofo italiano diz que "o medo despertado pela multidão" faz com que o poder constituído queira impedir sua manifestação através da Constituinte: "A fera deve ser dominada, domesticada ou destruída, superada ou sublimada." Negri considera que o "poder constituído" procura tolher o "poder constituinte", limitando-o no tempo e no espaço, enquanto o dilui através das "representações" dos poderes do Estado.
Em uma definição mais popular, Evo Morales diz que se trata de uma nova maneira de governar através do povo. Defende, na prática, a "democracia direta", o fim das intermediações do Congresso, próprias dos sistemas democráticos. Esse é o tipo de ação basicamente antidemocrática, pois uma coisa é criticar a atuação do Congresso e exigir mudanças na sua ação política para aproximar-se de seus representados, o povo. Outra coisa muito diferente é querer ultrapassar o Poder Legislativo, fazendo uma ligação direta com o eleitorado através de um governo plebiscitário, que leva ao populismo e ao autoritarismo.
O cientista político Bolívar Lamounier considera que a possibilidade de manipulação é inerente ao instrumento do plebiscito, "pois a autoridade incumbida de propor os quesitos pode ficar muito aquém da neutralidade".
Sem partido - VLADIMIR SAFATLE
FOLHA DE SP - 25/06
Há de se admirar a ironia. Passamos décadas esperando por uma grande mobilização popular e, quando ela ocorre, alguns querem desqualificá-la por ver risco de guinada conservadora ou profusão de pautas genéricas.
Em vez de explorar as potencialidades das manifestações, alguns parecem mais preocupados em construir, o mais rápido possível, uma explicação para o fracasso que pretensamente virá. Mas política popular sempre foi conflito e embate em torno de significantes que circulam em gritos e gestos de recusa.
Há um exemplo ilustrativo nesse sentido. Um dos tópicos mais presentes nas manifestações é a rejeição aos partidos. Já faz anos que ouvimos manifestantes, em todas as partes do mundo, recusarem as mediações dos partidos em prol da invenção de mecanismos de democracia direta. São pessoas que adquiriram a consciência de sua força política e que não veem razão para transferir tal força para partidos profundamente hierárquicos e guiados pelo raciocínio tático. Elas têm razão.
Vimos, no entanto, uma profusão de análises insistindo em não haver democracia sem partidos e instituições fortes, que a recusa a partidos é necessariamente conservadora. Tais análises são simplesmente equivocadas.
Quem acredita nelas deve estar acometido de um "fetichismo da representação" que nos fixa na ideia da necessidade insuperável da representação política, isso em uma época na qual a participação popular pode ser fei- ta, cada vez mais, por meio da pulverização de mecanismos de decisão.
De fato, democracia pede modelos de organização, mas nada exige que tais organizações políticas sejam necessariamente partidos.
Mesmo se aceitarmos a necessidade da estrutura parlamentar, por que, por exemplo, um eleitor não poderia votar em um candidato independente ou em candidatos de movimentos sociais? De onde saiu a ideia de que partidos de- vem ter o monopólio da representação política? Nesse sentido, a rejeição aos partidos pode ser a base da reinven- ção de uma política muito mais democrática.
Partidos tiveram sua importância em vários momentos da história brasileira e mundial. Por meio deles, demandas sociais ganharam força e pressão junto ao Estado. Esse tempo, porém, passou e não voltará mais.
O problema não é com a decadência dos principais par- tidos brasileiros e mundiais, mas com a forma-partido enquanto tal, que perde muito facilmente sua função de caixa de ressonância das in-satisfações populares e de espaço de criatividade política. Se abandonarmos nossos medos, outras formas de organização virão.
Há de se admirar a ironia. Passamos décadas esperando por uma grande mobilização popular e, quando ela ocorre, alguns querem desqualificá-la por ver risco de guinada conservadora ou profusão de pautas genéricas.
Em vez de explorar as potencialidades das manifestações, alguns parecem mais preocupados em construir, o mais rápido possível, uma explicação para o fracasso que pretensamente virá. Mas política popular sempre foi conflito e embate em torno de significantes que circulam em gritos e gestos de recusa.
Há um exemplo ilustrativo nesse sentido. Um dos tópicos mais presentes nas manifestações é a rejeição aos partidos. Já faz anos que ouvimos manifestantes, em todas as partes do mundo, recusarem as mediações dos partidos em prol da invenção de mecanismos de democracia direta. São pessoas que adquiriram a consciência de sua força política e que não veem razão para transferir tal força para partidos profundamente hierárquicos e guiados pelo raciocínio tático. Elas têm razão.
Vimos, no entanto, uma profusão de análises insistindo em não haver democracia sem partidos e instituições fortes, que a recusa a partidos é necessariamente conservadora. Tais análises são simplesmente equivocadas.
Quem acredita nelas deve estar acometido de um "fetichismo da representação" que nos fixa na ideia da necessidade insuperável da representação política, isso em uma época na qual a participação popular pode ser fei- ta, cada vez mais, por meio da pulverização de mecanismos de decisão.
De fato, democracia pede modelos de organização, mas nada exige que tais organizações políticas sejam necessariamente partidos.
Mesmo se aceitarmos a necessidade da estrutura parlamentar, por que, por exemplo, um eleitor não poderia votar em um candidato independente ou em candidatos de movimentos sociais? De onde saiu a ideia de que partidos de- vem ter o monopólio da representação política? Nesse sentido, a rejeição aos partidos pode ser a base da reinven- ção de uma política muito mais democrática.
Partidos tiveram sua importância em vários momentos da história brasileira e mundial. Por meio deles, demandas sociais ganharam força e pressão junto ao Estado. Esse tempo, porém, passou e não voltará mais.
O problema não é com a decadência dos principais par- tidos brasileiros e mundiais, mas com a forma-partido enquanto tal, que perde muito facilmente sua função de caixa de ressonância das in-satisfações populares e de espaço de criatividade política. Se abandonarmos nossos medos, outras formas de organização virão.
O bode na sala - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 25/06
Do pacote apresentado por Dilma, faltou a redistribuição de recursos e tarefas entre os entes federados. Mais uma vez, a urgente reforma do Estado ficará para depois, enquanto o Congresso se ocupará do plebiscito para a encantada reforma política
Mal a presidente Dilma Rousseff terminou o pronunciamento na reunião de governadores e prefeitos, algumas excelências tarimbadas da política nacional tinham um diagnóstico claro da situação: ela saiu da letargia colocando um bode na sala do Congresso Nacional e outro no colo dos governadores, mas esqueceu o principal. A construção de uma agenda conjunta, dentro de um novo pacto federativo.
Para muitos, Dilma não mudou o estilo dos pacotes prontos a serem deglutidos pela base aliada. Abriu a reunião ditando uma pauta. Não ficou claro sequer se os R$ 50 bilhões da mobilidade são novos recursos ou estão dentro dos R$ 89 bilhões que compõem o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) desse setor.
Parte dos temas está no colo do Legislativo: cabe aos congressistas, por exemplo, convocar o plebiscito da reforma política, no qual será debatida a proposta apresentada ontem pela OAB e pela CNBB, e também destinar os royalties do petróleo para a educação - isso se a proposta sair do Supremo Tribunal Federal, onde está em fase de debates.
Politicamente, marcou um ponto pelo gesto de reunir tantos personagens de uma única vez para pensar na resposta às manifestações. Mas, entre aqueles que torcem pela presidente - leia-se e registre-se de que não me refiro aqui a vozes da oposição -, ficou aquele gostinho de que poderia ter sido melhor.
A sensação de muitos é a de que a convocação de um plebiscito para a realização de uma constituinte exclusiva para a reforma política vem como uma luva no sentido de ocupar o parlamento. Mas, ainda nesse quesito, ficou aquela sensação de ausência da reforma tributária, para uma população que trabalha quase metade do ano para pagar impostos, a maioria incidente sobre o consumo.
Por falar em tributos...
A sensação de muitos é a de que a reforma política foi colocada na sala para que, com o Congresso ocupado nesse debate, Dilma tenha alguma relativa tranquilidade para encontrar uma saída para a perspectiva de crise econômica, que, ao lado da carência de serviços públicos de qualidade, tem alimentado as passeatas (a criação de empregos, embora continue crescendo, perdeu força em relação ao ano passado; a inflação, ainda que se mostre em curva descendente no longo prazo, é sentida em alguns setores).
Nesse campo, os ministros de Dilma têm dito que é questão de tempo para que as medidas adotadas ao longo dos últimos meses deem algum resultado. E, certamente, avaliam muitos dos presentes à reunião de ontem, é desse sentimento de economia em alta que Dilma precisa para garantir novo fôlego e gerar um clima capaz de fazer refluir as manifestações.
Enquanto isso, no PMDB...
Hoje, tem reunião da Comissão Executiva Nacional do partido. A pauta da convocação passou de palanques estaduais para a conjuntura, em função das manifestações. Afinal, os peemedebistas têm claro que quem mais perde com os movimentos de rua é quem está no poder. Portanto, se a confusão continuar, a aliança com o PT é bem capaz de balançar. O mesmo PMDB que, no passado, pulou do barco dos tucanos para o dos petistas, é bem capaz de fazer o caminho inverso. O momento é de todos com as barbas de molho.
E o Sarney, hein?
Ontem, o editor de Política do Correio, Leonardo Cavalcanti, lembrou, na reunião de pauta, uma entrevista feita em 2011 - por ele, Ana Dubeux e eu - com o então presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Abrimos a entrevista com uma frase de Sarney: “A democracia representativa está em xeque. Os partidos estão enfraquecidos e não representam mais o povo. Os partidos eram fortes quando eram ideológicos, mas eles passaram a ser pragmáticos”. Sarney mencionou que a internet estava mudando o exercício da cidadania e da política e vislumbrou ainda uma época em que o cidadão, de seu computador, faria as escolhas que hoje deixa a cargo do parlamento. Esse tempo, dizia, ainda demoraria. Talvez esteja mais perto do que ele pensa, basta ver o movimento pela Lei da Ficha Limpa, as manifestações e o deflagrado ontem pela reforma política, dentro da OAB e da CNBB.
Do pacote apresentado por Dilma, faltou a redistribuição de recursos e tarefas entre os entes federados. Mais uma vez, a urgente reforma do Estado ficará para depois, enquanto o Congresso se ocupará do plebiscito para a encantada reforma política
Mal a presidente Dilma Rousseff terminou o pronunciamento na reunião de governadores e prefeitos, algumas excelências tarimbadas da política nacional tinham um diagnóstico claro da situação: ela saiu da letargia colocando um bode na sala do Congresso Nacional e outro no colo dos governadores, mas esqueceu o principal. A construção de uma agenda conjunta, dentro de um novo pacto federativo.
Para muitos, Dilma não mudou o estilo dos pacotes prontos a serem deglutidos pela base aliada. Abriu a reunião ditando uma pauta. Não ficou claro sequer se os R$ 50 bilhões da mobilidade são novos recursos ou estão dentro dos R$ 89 bilhões que compõem o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) desse setor.
Parte dos temas está no colo do Legislativo: cabe aos congressistas, por exemplo, convocar o plebiscito da reforma política, no qual será debatida a proposta apresentada ontem pela OAB e pela CNBB, e também destinar os royalties do petróleo para a educação - isso se a proposta sair do Supremo Tribunal Federal, onde está em fase de debates.
Politicamente, marcou um ponto pelo gesto de reunir tantos personagens de uma única vez para pensar na resposta às manifestações. Mas, entre aqueles que torcem pela presidente - leia-se e registre-se de que não me refiro aqui a vozes da oposição -, ficou aquele gostinho de que poderia ter sido melhor.
A sensação de muitos é a de que a convocação de um plebiscito para a realização de uma constituinte exclusiva para a reforma política vem como uma luva no sentido de ocupar o parlamento. Mas, ainda nesse quesito, ficou aquela sensação de ausência da reforma tributária, para uma população que trabalha quase metade do ano para pagar impostos, a maioria incidente sobre o consumo.
Por falar em tributos...
A sensação de muitos é a de que a reforma política foi colocada na sala para que, com o Congresso ocupado nesse debate, Dilma tenha alguma relativa tranquilidade para encontrar uma saída para a perspectiva de crise econômica, que, ao lado da carência de serviços públicos de qualidade, tem alimentado as passeatas (a criação de empregos, embora continue crescendo, perdeu força em relação ao ano passado; a inflação, ainda que se mostre em curva descendente no longo prazo, é sentida em alguns setores).
Nesse campo, os ministros de Dilma têm dito que é questão de tempo para que as medidas adotadas ao longo dos últimos meses deem algum resultado. E, certamente, avaliam muitos dos presentes à reunião de ontem, é desse sentimento de economia em alta que Dilma precisa para garantir novo fôlego e gerar um clima capaz de fazer refluir as manifestações.
Enquanto isso, no PMDB...
Hoje, tem reunião da Comissão Executiva Nacional do partido. A pauta da convocação passou de palanques estaduais para a conjuntura, em função das manifestações. Afinal, os peemedebistas têm claro que quem mais perde com os movimentos de rua é quem está no poder. Portanto, se a confusão continuar, a aliança com o PT é bem capaz de balançar. O mesmo PMDB que, no passado, pulou do barco dos tucanos para o dos petistas, é bem capaz de fazer o caminho inverso. O momento é de todos com as barbas de molho.
E o Sarney, hein?
Ontem, o editor de Política do Correio, Leonardo Cavalcanti, lembrou, na reunião de pauta, uma entrevista feita em 2011 - por ele, Ana Dubeux e eu - com o então presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Abrimos a entrevista com uma frase de Sarney: “A democracia representativa está em xeque. Os partidos estão enfraquecidos e não representam mais o povo. Os partidos eram fortes quando eram ideológicos, mas eles passaram a ser pragmáticos”. Sarney mencionou que a internet estava mudando o exercício da cidadania e da política e vislumbrou ainda uma época em que o cidadão, de seu computador, faria as escolhas que hoje deixa a cargo do parlamento. Esse tempo, dizia, ainda demoraria. Talvez esteja mais perto do que ele pensa, basta ver o movimento pela Lei da Ficha Limpa, as manifestações e o deflagrado ontem pela reforma política, dentro da OAB e da CNBB.
Caboclo ativista - XICO GRAZIANO
O ESTADÃO - 25/06
José Batistela, octogenário, personagem famoso em Araras (SP), minha terra natal, me escreveu dias atrás, logo após a primeira das manifestações de rua. Gente simples do interior, roceiro ainda por cima, o sitiante não conseguia entender direito a confusão existente na metrópole. "Contra o que, afinal, lutam esses jovens?"
Senti-me, de cara, impotente para explicar o porquê daqueles acontecimentos. Eu próprio, temperado há tempos na selva de pedra, mal compreendia o sentido daquilo que testemunhara no centro de São Paulo. As ruas pareciam demonstrar uma complexa mistura de rebeldia, ideologia, oportunismo, esperança e temor sobre o futuro. Não tive como responder, naquele momento, ao meu matuto conterrâneo.
Na sequência, conforme todos vimos, cresceram as passeatas, ganhando o apoio popular, espalhando-se pelo País. Surgida na reivindicação do transporte, aos poucos seu propósito mais amplo e difuso se delineou. As manifestações, embora contaminadas por grupelhos bandidos, carregavam uma forte negação do sistema político. Os jovens, ficou claro, gritam por uma sociedade decente. Acorda, Brasil.
Mais esclarecido sobre o rumo do movimento, tomei coragem para retornar ao seu Zé Batistela. Remeti a ele, em meu amparo, um apanhado de opiniões. Ignácio de Loyola Brandão, escritor dos melhores, disse que nos ônibus as pessoas viajam qual "gado amontoado", mas os protestos eram "contra a vida miserável, expressam o saco cheio". Fernando Henrique Cardoso argumentou que as razões se encontram "na carestia, na má qualidade dos serviços públicos, na corrupção, no desencanto da juventude frente ao futuro". Demétrio Magnoli, sociólogo da USP, concluiu que as pessoas estão "fartas do governo e da oposição, da corrupção e da impunidade, da soberba e do descaso". Opiniões abalizadas.
Traduzi assim essa gritaria que anda assustando a Nação. Na briga contra o valor da passagem dos ônibus, claramente se encontra a frustração da juventude acerca dos destinos políticos no Brasil, a insatisfação contra a podridão do poder. Os jovens parecem se sentir desdenhados, esquecidos e humilhados pela política degradante, corrupta e falsa, que abominam. No país do futebol, dos estádios que custam os olhos da cara, nunca sobra recurso para melhorar a vergonha da saúde, a tristeza do ensino fundamental, a tragédia da segurança pública.
Calejado no trato da terra desde quando os colonos italianos para cá vieram cuidar de cafezal, por mais que eu me esforçasse para explicar as coisas, seu Zé Batistela mostrava-se ainda ensimesmado. Compreensivelmente, me retrucou. Ele sente lá na roça o desencanto da sociedade brasileira com a política velhaca instalada na República, as promessas mentirosas, a lambança. Mas por que, de repente, a boiada estourou?
Não é fácil explicar a profunda transformação, global, que tem sofrido a democracia representativa na era da comunicação digital. À margem dos partidos, até mesmo contra eles, as redes sociais geram uma sociedade articulada, cheia de comunidades virtuais, mas, contraditoriamente, efêmera e anárquica. No passado, as massas revoltosas precisavam do discurso inflamado nas tribunas; agora, os sonhos da mudança se alimentam do computador. Ou no celular.
Reminiscências me tomaram a mente. Nos anos 70, estudantes de Agronomia em Piracicaba, nós enfrentamos a prepotência da polícia nas passeatas contra a ditadura militar. Jogamos bolinhas de gude para atrapalhar o passo dos cavalos, atiramos pedras nos escudos, nos esgoelamos pela democracia, todos unidos pelo utópico socialismo. Mais tarde, maduro na vida, acompanhei satisfeito a geração de meus filhos se pintar de verde e amarelo e exigir a derrubada de um mandatário desonroso.
A simpatia pelo protesto juvenil me desafia a convencer o conservador Zé Batistela a aceitar o processo de mudança delineado nas ruas. Mas ele permanece reticente. Quando, na televisão, viu os governantes, do Rio de Janeiro e de São Paulo, felizes anunciarem a redução do preço das passagens, me telefonou: decepcionado, queria agora saber de onde sairia o dinheiro para cobrir a diferença da passagem. Embora caipira, ele sabe que inexiste mágica na administração pública.
Governar se resume a estabelecer prioridades no gasto orçamentário. Por exemplo: apenas metade de um estádio Mané Garrincha evitaria que 500 mil cabeças de gado, um quarto do rebanho, morressem esqueléticas pela seca do Semiárido; com a outra metade se construiriam cisternas e açudes, se protegeriam inúmeras áreas fragilizadas pela desertificação e ampliaria a irrigação dos pequenos agricultores. A tragédia da seca nordestina, a maior dos últimos 50 anos, passou quase despercebida na sociedade urbana que se rebela nesses dias. Ninguém gritou, o campo ficou esquecido.
O dinheiro de uma reforma do Maracanã, se aplicado na construção de armazéns, no seguro de renda agrícola, na pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), na defesa agropecuária, ajudaria de forma duradoura, não apenas durante um campeonato, no desenvolvimento nacional. Um pedaço da grana consumida na Copa, se investida na estrutura da logística nacional, facilitaria o escoamento da safra, consertaria a buraqueira das rodovias, reduziria as perdas, diminuiria o frete. Sem roubalheira.
Moral da história para José Batistela: os caboclos, como ele, em vez de ficarem omissos, eternamente chorosos nos rincões, que abram os olhos, aprendam a se organizar, participar da sociedade de massas, defendendo suas demandas. Tornou-se o velho, em duas semanas, um aprendiz de ativista, com uma marca de origem: pacato como sempre foi, abomina atos de violência. Vandalismo, jamais.
José Batistela, octogenário, personagem famoso em Araras (SP), minha terra natal, me escreveu dias atrás, logo após a primeira das manifestações de rua. Gente simples do interior, roceiro ainda por cima, o sitiante não conseguia entender direito a confusão existente na metrópole. "Contra o que, afinal, lutam esses jovens?"
Senti-me, de cara, impotente para explicar o porquê daqueles acontecimentos. Eu próprio, temperado há tempos na selva de pedra, mal compreendia o sentido daquilo que testemunhara no centro de São Paulo. As ruas pareciam demonstrar uma complexa mistura de rebeldia, ideologia, oportunismo, esperança e temor sobre o futuro. Não tive como responder, naquele momento, ao meu matuto conterrâneo.
Na sequência, conforme todos vimos, cresceram as passeatas, ganhando o apoio popular, espalhando-se pelo País. Surgida na reivindicação do transporte, aos poucos seu propósito mais amplo e difuso se delineou. As manifestações, embora contaminadas por grupelhos bandidos, carregavam uma forte negação do sistema político. Os jovens, ficou claro, gritam por uma sociedade decente. Acorda, Brasil.
Mais esclarecido sobre o rumo do movimento, tomei coragem para retornar ao seu Zé Batistela. Remeti a ele, em meu amparo, um apanhado de opiniões. Ignácio de Loyola Brandão, escritor dos melhores, disse que nos ônibus as pessoas viajam qual "gado amontoado", mas os protestos eram "contra a vida miserável, expressam o saco cheio". Fernando Henrique Cardoso argumentou que as razões se encontram "na carestia, na má qualidade dos serviços públicos, na corrupção, no desencanto da juventude frente ao futuro". Demétrio Magnoli, sociólogo da USP, concluiu que as pessoas estão "fartas do governo e da oposição, da corrupção e da impunidade, da soberba e do descaso". Opiniões abalizadas.
Traduzi assim essa gritaria que anda assustando a Nação. Na briga contra o valor da passagem dos ônibus, claramente se encontra a frustração da juventude acerca dos destinos políticos no Brasil, a insatisfação contra a podridão do poder. Os jovens parecem se sentir desdenhados, esquecidos e humilhados pela política degradante, corrupta e falsa, que abominam. No país do futebol, dos estádios que custam os olhos da cara, nunca sobra recurso para melhorar a vergonha da saúde, a tristeza do ensino fundamental, a tragédia da segurança pública.
Calejado no trato da terra desde quando os colonos italianos para cá vieram cuidar de cafezal, por mais que eu me esforçasse para explicar as coisas, seu Zé Batistela mostrava-se ainda ensimesmado. Compreensivelmente, me retrucou. Ele sente lá na roça o desencanto da sociedade brasileira com a política velhaca instalada na República, as promessas mentirosas, a lambança. Mas por que, de repente, a boiada estourou?
Não é fácil explicar a profunda transformação, global, que tem sofrido a democracia representativa na era da comunicação digital. À margem dos partidos, até mesmo contra eles, as redes sociais geram uma sociedade articulada, cheia de comunidades virtuais, mas, contraditoriamente, efêmera e anárquica. No passado, as massas revoltosas precisavam do discurso inflamado nas tribunas; agora, os sonhos da mudança se alimentam do computador. Ou no celular.
Reminiscências me tomaram a mente. Nos anos 70, estudantes de Agronomia em Piracicaba, nós enfrentamos a prepotência da polícia nas passeatas contra a ditadura militar. Jogamos bolinhas de gude para atrapalhar o passo dos cavalos, atiramos pedras nos escudos, nos esgoelamos pela democracia, todos unidos pelo utópico socialismo. Mais tarde, maduro na vida, acompanhei satisfeito a geração de meus filhos se pintar de verde e amarelo e exigir a derrubada de um mandatário desonroso.
A simpatia pelo protesto juvenil me desafia a convencer o conservador Zé Batistela a aceitar o processo de mudança delineado nas ruas. Mas ele permanece reticente. Quando, na televisão, viu os governantes, do Rio de Janeiro e de São Paulo, felizes anunciarem a redução do preço das passagens, me telefonou: decepcionado, queria agora saber de onde sairia o dinheiro para cobrir a diferença da passagem. Embora caipira, ele sabe que inexiste mágica na administração pública.
Governar se resume a estabelecer prioridades no gasto orçamentário. Por exemplo: apenas metade de um estádio Mané Garrincha evitaria que 500 mil cabeças de gado, um quarto do rebanho, morressem esqueléticas pela seca do Semiárido; com a outra metade se construiriam cisternas e açudes, se protegeriam inúmeras áreas fragilizadas pela desertificação e ampliaria a irrigação dos pequenos agricultores. A tragédia da seca nordestina, a maior dos últimos 50 anos, passou quase despercebida na sociedade urbana que se rebela nesses dias. Ninguém gritou, o campo ficou esquecido.
O dinheiro de uma reforma do Maracanã, se aplicado na construção de armazéns, no seguro de renda agrícola, na pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), na defesa agropecuária, ajudaria de forma duradoura, não apenas durante um campeonato, no desenvolvimento nacional. Um pedaço da grana consumida na Copa, se investida na estrutura da logística nacional, facilitaria o escoamento da safra, consertaria a buraqueira das rodovias, reduziria as perdas, diminuiria o frete. Sem roubalheira.
Moral da história para José Batistela: os caboclos, como ele, em vez de ficarem omissos, eternamente chorosos nos rincões, que abram os olhos, aprendam a se organizar, participar da sociedade de massas, defendendo suas demandas. Tornou-se o velho, em duas semanas, um aprendiz de ativista, com uma marca de origem: pacato como sempre foi, abomina atos de violência. Vandalismo, jamais.
O poder se coça - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 25/06
BRASÍLIA - O recuo no preço das passagens foi só o aperitivo, porque as impressionantes manifestações que varrem o país estão produzindo muito mais: a presidente da República, ministros, governadores, prefeitos, deputados, senadores e entidades que dizem tanto à história brasileira estão se coçando.
Há uma sofreguidão generalizada para atender ao movimento que lavou a alma da maioria dos brasileiros aqui dentro e ganhou manchetes pelo mundo afora.
Se foi vaga no pronunciamento de sexta-feira, Dilma apresentou propostas objetivas ontem. A principal é um plebiscito para que uma constituinte exclusiva faça a reforma política --aliás, como há muito prega o atual governador Tarso Genro (RS). Outra é transformar a corrupção dolosa em crime hediondo.
A presidente se antecipou, mas as suas ideias são só ideias mesmo, pois dependem da disposição do Legislativo. Ela, de certa forma, tirou a bola do Congresso na reforma política, que ficaria a cargo de não parlamentares, e a jogou de novo no caso da mudança da lei sobre corrupção. Mesmo que não faça propriamente as leis hoje em dia, é o Congresso quem as vota, aprova e muda.
Assim, ontem foi a vez do Executivo se render à pressão e à força das ruas, enquanto CNBB, OAB e o movimento que criou a Ficha Limpa listavam suas próprias prioridades e a oposição tentava pegar o bonde.
Depois de baixar o preço de metrôs e trens, Alckmin agora suspende o reajuste dos pedágios. Sem cargo executivo, Aécio Neves lança um manifesto com DEM e PPS por um "país diferente" e joga no ar o balão de uma CPI para gastos da Copa.
Hoje, a comichão será no Congresso, onde Renan e Henrique Alves reúnem os líderes partidários para também correrem atrás do prejuízo com uma "agenda positiva". Mas... peraí? Renan não é aquele que assumiu a presidência do Senado e depois recebeu mais de um milhão de assinaturas pedindo o seu impeachment?!
BRASÍLIA - O recuo no preço das passagens foi só o aperitivo, porque as impressionantes manifestações que varrem o país estão produzindo muito mais: a presidente da República, ministros, governadores, prefeitos, deputados, senadores e entidades que dizem tanto à história brasileira estão se coçando.
Há uma sofreguidão generalizada para atender ao movimento que lavou a alma da maioria dos brasileiros aqui dentro e ganhou manchetes pelo mundo afora.
Se foi vaga no pronunciamento de sexta-feira, Dilma apresentou propostas objetivas ontem. A principal é um plebiscito para que uma constituinte exclusiva faça a reforma política --aliás, como há muito prega o atual governador Tarso Genro (RS). Outra é transformar a corrupção dolosa em crime hediondo.
A presidente se antecipou, mas as suas ideias são só ideias mesmo, pois dependem da disposição do Legislativo. Ela, de certa forma, tirou a bola do Congresso na reforma política, que ficaria a cargo de não parlamentares, e a jogou de novo no caso da mudança da lei sobre corrupção. Mesmo que não faça propriamente as leis hoje em dia, é o Congresso quem as vota, aprova e muda.
Assim, ontem foi a vez do Executivo se render à pressão e à força das ruas, enquanto CNBB, OAB e o movimento que criou a Ficha Limpa listavam suas próprias prioridades e a oposição tentava pegar o bonde.
Depois de baixar o preço de metrôs e trens, Alckmin agora suspende o reajuste dos pedágios. Sem cargo executivo, Aécio Neves lança um manifesto com DEM e PPS por um "país diferente" e joga no ar o balão de uma CPI para gastos da Copa.
Hoje, a comichão será no Congresso, onde Renan e Henrique Alves reúnem os líderes partidários para também correrem atrás do prejuízo com uma "agenda positiva". Mas... peraí? Renan não é aquele que assumiu a presidência do Senado e depois recebeu mais de um milhão de assinaturas pedindo o seu impeachment?!
O tamanho das mudanças - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 25/06
SÃO PAULO - A julgar pelo tom médio dos comentários que li no fim de semana, estamos em uma situação pré-revolucionária a partir da qual nada mais será o mesmo na política brasileira. Até gostaria que fosse verdade, mas receio que a realidade seja um pouco mais pesada.
O futuro é, por definição, contingente e quase tudo pode acontecer. Ainda assim, algumas coisas são mais prováveis do que outras. Os protestos não durarão para sempre. Como escrevi numa coluna da semana passada, manifestações dão trabalho, impõem um ônus às cidades e acabam enjoando. Se democracia direta fosse bom, assembleias de condomínio seriam um sucesso. Não são. E esse é um dos motivos por que inventamos a democracia representativa.
É claro que algo desse movimento permanecerá, mas é cedo para uma avaliação definitiva. Se o passado serve de guia para o futuro, o quadro não é dos mais promissores. Após o impeachment de Fernando Collor, em 1992, boa parte dos brasileiros acreditávamos que o país abraçara um novo --e melhor-- paradigma no que diz respeito à tolerância para com os desmandos da classe política. Ainda que isso tenha ocorrido em algum grau, não foi o suficiente para evitar os muitos escândalos que se sucederam. A política mudou, mas muito menos do que desejaríamos.
Não estou dizendo que as manifestações sejam inúteis ou inoportunas. Só acho que, para além do impacto concreto e passageiro sobre tarifas, seu efeito positivo é um pouco mais sutil e indireto. Protestos são um sintoma de que, pouco a pouco, se constitui no Brasil uma sociedade civil mais articulada, capaz de cobrar seus governantes e por eles ser ouvida, e isso é importante para azeitar as instituições democráticas.
No fim das contas, o que distingue países que dão certo de nações fracassadas é a existência de estruturas que assegurem que o poder político e econômico não será monopolizado pela casta dirigente.
SÃO PAULO - A julgar pelo tom médio dos comentários que li no fim de semana, estamos em uma situação pré-revolucionária a partir da qual nada mais será o mesmo na política brasileira. Até gostaria que fosse verdade, mas receio que a realidade seja um pouco mais pesada.
O futuro é, por definição, contingente e quase tudo pode acontecer. Ainda assim, algumas coisas são mais prováveis do que outras. Os protestos não durarão para sempre. Como escrevi numa coluna da semana passada, manifestações dão trabalho, impõem um ônus às cidades e acabam enjoando. Se democracia direta fosse bom, assembleias de condomínio seriam um sucesso. Não são. E esse é um dos motivos por que inventamos a democracia representativa.
É claro que algo desse movimento permanecerá, mas é cedo para uma avaliação definitiva. Se o passado serve de guia para o futuro, o quadro não é dos mais promissores. Após o impeachment de Fernando Collor, em 1992, boa parte dos brasileiros acreditávamos que o país abraçara um novo --e melhor-- paradigma no que diz respeito à tolerância para com os desmandos da classe política. Ainda que isso tenha ocorrido em algum grau, não foi o suficiente para evitar os muitos escândalos que se sucederam. A política mudou, mas muito menos do que desejaríamos.
Não estou dizendo que as manifestações sejam inúteis ou inoportunas. Só acho que, para além do impacto concreto e passageiro sobre tarifas, seu efeito positivo é um pouco mais sutil e indireto. Protestos são um sintoma de que, pouco a pouco, se constitui no Brasil uma sociedade civil mais articulada, capaz de cobrar seus governantes e por eles ser ouvida, e isso é importante para azeitar as instituições democráticas.
No fim das contas, o que distingue países que dão certo de nações fracassadas é a existência de estruturas que assegurem que o poder político e econômico não será monopolizado pela casta dirigente.
Para a rua ver - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO -25/06
A rua não só tem o direito de apontar o dedo para os governantes, como é bom que o faça: mil vezes melhor uma sociedade estridente do que uma sociedade apática - se essas forem as únicas alternativas. Mas a rua não tem a obrigação de oferecer aos poderes do Estado, mastigadas, as soluções para as mazelas que justificadamente denuncia. Quando essas se empilham e perduram, apesar das promessas que se ouvem a cada ciclo eleitoral e das reiteradas juras das autoridades de que se esfalfam para cumpri-las, é da ordem natural das coisas que a rua, esgotada a sua paciência e tendo redescoberto o seu poder de pressão, queira para já as mudanças que façam do Brasil, em síntese, um país sem corrupção e com serviços públicos equiparáveis em qualidade ao volume de impostos que se pagam por eles. Afinal, se duas semanas de manifestações levaram à anulação do aumento dos preços das passagens em dezenas de cidades e obrigaram a presidente Dilma Rousseff a legitimar a rua como interlocutora do governo - "eu estou ouvindo vocês", assegurou muitos hão de se sentir estimulados a adotar a palavra de ordem do Maio de 1968, na França: "Sejam realistas, exijam o impossível".
Só que o Estado não pode ser voluntarista - e quando assim se comporta proporciona um espetáculo de oportunismo, se não de hipocrisia, que não engana a ninguém.
Em seguida ao pronunciamento de Dilma, na sexta-feira, Executivo e Congresso deram início a uma sôfrega carreira para se mostrar, cada qual, mais pronto do que o outro para mostrar o serviço cobrado pelas multidões. Corrupção? Não seja por isso, retruca o Planalto, e de bate-pronto decide mobilizar o Legislativo para acelerar a tramitação de três projetos presumivelmente saneadores: o que estabelece punição de até 20% sobre o faturamento bruto de empresas corruptoras ou fraudadoras de licitações; o que prevê cadeia para funcionários que não consigam justificar a engorda de seu patrimônio; e o que regulamenta a atividade de lobby com a administração federal. Além disso, o governo vai tirar da gaveta dois projetos: o que estende para os ocupantes de cargos de confiança as regras aplicadas aos políticos pela Lei da Ficha Limpa e o que triplica para 12 meses o período de quarentena de ex-altos funcionários e restringe os seus negócios futuros.
Não consta, porém, que a presidente pretenda reaver do PR e do PDT . os cargos que lhes devolveu no Ministério depois da decantada faxina de 2011, para tê-los consigo na mega-aliança reeleitoral de 2014 - que não exclui nem o PTB de Roberto Jefferson, delator do mensalão e condenado a 7 anos no respectivo processo. De toda maneira, além das culpas que cabem aos governos pelos descalabros malhados na rua, mais graves são os problemas estruturais do Estado, o qual não deixa de refletir as insuficiências da organização social brasileira. Pior é a febre reformista que parece se alastrar no Parlamento, onde houve até quem, fazendo um desafinado coro com a rua, sugerisse a autodissolução dos partidos -como se os seus sucessores formassem uma federação de querubins. Compreende-se que uma parcela da brava gente das passeatas imite os argentinos que entraram em 2002, quando o país naufragava, gritando "que se vayan todos". Mas a execração da política tem tudo para se degradar, onde quer que seja, em populismo autoritário. (Na Argentina, a era Kirchner começou em 2003 e, no que depender da presidenta, continuará pelo menos até 2015.)
A rua também pode achar que a reforma política é a panaceia para a corrupção, e o desdém dos eleitos pelos eleitores, Não é. Pode tornar o sistema mais representativo ou mais produtivo e, no melhor dos mundos, mais atento à vontade geral, e não apenas aos seus patrocinadores, clientelas e grupos de pressão. No Congresso, os messiânicos da reforma parecem ignorar que, em última análise, não é mudando as regras do ofício que os políticos se tornarão automaticamente avessos à corrupção, abandonando práticas entranhadas. Os parlamentares redentores não se contentam com pouco: querem uma Constituinte exclusiva para fazer, além da reforma política, a tributária, a administrativa e a da Previdência - tudo em um ano.
Só que o Estado não pode ser voluntarista - e quando assim se comporta proporciona um espetáculo de oportunismo, se não de hipocrisia, que não engana a ninguém.
Em seguida ao pronunciamento de Dilma, na sexta-feira, Executivo e Congresso deram início a uma sôfrega carreira para se mostrar, cada qual, mais pronto do que o outro para mostrar o serviço cobrado pelas multidões. Corrupção? Não seja por isso, retruca o Planalto, e de bate-pronto decide mobilizar o Legislativo para acelerar a tramitação de três projetos presumivelmente saneadores: o que estabelece punição de até 20% sobre o faturamento bruto de empresas corruptoras ou fraudadoras de licitações; o que prevê cadeia para funcionários que não consigam justificar a engorda de seu patrimônio; e o que regulamenta a atividade de lobby com a administração federal. Além disso, o governo vai tirar da gaveta dois projetos: o que estende para os ocupantes de cargos de confiança as regras aplicadas aos políticos pela Lei da Ficha Limpa e o que triplica para 12 meses o período de quarentena de ex-altos funcionários e restringe os seus negócios futuros.
Não consta, porém, que a presidente pretenda reaver do PR e do PDT . os cargos que lhes devolveu no Ministério depois da decantada faxina de 2011, para tê-los consigo na mega-aliança reeleitoral de 2014 - que não exclui nem o PTB de Roberto Jefferson, delator do mensalão e condenado a 7 anos no respectivo processo. De toda maneira, além das culpas que cabem aos governos pelos descalabros malhados na rua, mais graves são os problemas estruturais do Estado, o qual não deixa de refletir as insuficiências da organização social brasileira. Pior é a febre reformista que parece se alastrar no Parlamento, onde houve até quem, fazendo um desafinado coro com a rua, sugerisse a autodissolução dos partidos -como se os seus sucessores formassem uma federação de querubins. Compreende-se que uma parcela da brava gente das passeatas imite os argentinos que entraram em 2002, quando o país naufragava, gritando "que se vayan todos". Mas a execração da política tem tudo para se degradar, onde quer que seja, em populismo autoritário. (Na Argentina, a era Kirchner começou em 2003 e, no que depender da presidenta, continuará pelo menos até 2015.)
A rua também pode achar que a reforma política é a panaceia para a corrupção, e o desdém dos eleitos pelos eleitores, Não é. Pode tornar o sistema mais representativo ou mais produtivo e, no melhor dos mundos, mais atento à vontade geral, e não apenas aos seus patrocinadores, clientelas e grupos de pressão. No Congresso, os messiânicos da reforma parecem ignorar que, em última análise, não é mudando as regras do ofício que os políticos se tornarão automaticamente avessos à corrupção, abandonando práticas entranhadas. Os parlamentares redentores não se contentam com pouco: querem uma Constituinte exclusiva para fazer, além da reforma política, a tributária, a administrativa e a da Previdência - tudo em um ano.
CPI dos ônibus - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 25/06
Câmara Municipal debate hoje abertura de investigação sobre transportes públicos em São Paulo; setores do PT já trabalham contra comissão
Os vereadores de São Paulo terão hoje excelente oportunidade para dar uma primeira resposta às marchas que paralisaram a cidade. Basta que ponham em votação, e aprovem, a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o setor de transportes públicos da capital paulista.
O pedido para instalar a comissão foi protocolado pelo vereador Ricardo Young (PPS). Hoje, os líderes partidários na Câmara Municipal decidirão se a proposta entrará em pauta antes das que estão na fila há mais tempo. A depender do acordo, o plenário já poderá criar a CPI.
A ideia se tornou prioritária. Embora as manifestações tenham adquirido caráter eclético, elas começaram como um protesto contra o aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus e metrô.
Seria decepcionante, porém, se no plano municipal os protestos dos últimos dias se esgotassem na reversão do aumento (segundo o Datafolha, 66% dos paulistanos querem que as manifestações prossigam). A questão tarifária é só a primeira das pendências relativas às concessões de ônibus na cidade de São Paulo.
Reportagem desta Folha mostrou que o Ministério Público investiga uma situação "sui generis": o balanço de empresas de ônibus que operam na cidade apresenta prejuízo, mas seus proprietários fazem movimentações milionárias, algumas das quais consideradas atípicas pelo Coaf, órgão federal que apura lavagem de dinheiro.
Suspeita-se que os donos das companhias estejam envolvidos em desvio de recursos, troca de veículos novos por velhos e até venda de linhas de ônibus que não poderiam ser comercializadas, pois são uma concessão da prefeitura.
Talvez não seja coincidência que o Consórcio Leste 4, foco da averiguação, atue na zona leste paulistana, justamente onde é pior a qualidade do transporte público (informação da própria SPTrans, que gerencia as mais de 1.300 linhas de transporte de São Paulo).
Há ainda questões técnicas a serem elucidadas. Segundo o jornal "Valor Econômico", de 2006 a abril deste ano a receita média das empresas por passageiro cresceu 15% acima da inflação. Ainda que esse aumento decorra de cláusulas contratuais, seria oportuno esclarecer se foram feitos os investimentos previstos como contrapartida.
A Prefeitura de São Paulo, não é demais lembrar, fará no próximo mês licitação para selecionar novas empresas pelos próximos 15 anos. Estima-se que o negócio gire em torno de R$ 45 bilhões. É quase um truísmo cobrar maior controle sobre esse montante.
Como seria de esperar, o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto (PT), investiu contra a CPI. Será lamentável se ele prevalecer, ou se, sob a influência de seu partido, a comissão entrar para o rol das que fazem muito barulho e nada esclarecem.
Câmara Municipal debate hoje abertura de investigação sobre transportes públicos em São Paulo; setores do PT já trabalham contra comissão
Os vereadores de São Paulo terão hoje excelente oportunidade para dar uma primeira resposta às marchas que paralisaram a cidade. Basta que ponham em votação, e aprovem, a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o setor de transportes públicos da capital paulista.
O pedido para instalar a comissão foi protocolado pelo vereador Ricardo Young (PPS). Hoje, os líderes partidários na Câmara Municipal decidirão se a proposta entrará em pauta antes das que estão na fila há mais tempo. A depender do acordo, o plenário já poderá criar a CPI.
A ideia se tornou prioritária. Embora as manifestações tenham adquirido caráter eclético, elas começaram como um protesto contra o aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus e metrô.
Seria decepcionante, porém, se no plano municipal os protestos dos últimos dias se esgotassem na reversão do aumento (segundo o Datafolha, 66% dos paulistanos querem que as manifestações prossigam). A questão tarifária é só a primeira das pendências relativas às concessões de ônibus na cidade de São Paulo.
Reportagem desta Folha mostrou que o Ministério Público investiga uma situação "sui generis": o balanço de empresas de ônibus que operam na cidade apresenta prejuízo, mas seus proprietários fazem movimentações milionárias, algumas das quais consideradas atípicas pelo Coaf, órgão federal que apura lavagem de dinheiro.
Suspeita-se que os donos das companhias estejam envolvidos em desvio de recursos, troca de veículos novos por velhos e até venda de linhas de ônibus que não poderiam ser comercializadas, pois são uma concessão da prefeitura.
Talvez não seja coincidência que o Consórcio Leste 4, foco da averiguação, atue na zona leste paulistana, justamente onde é pior a qualidade do transporte público (informação da própria SPTrans, que gerencia as mais de 1.300 linhas de transporte de São Paulo).
Há ainda questões técnicas a serem elucidadas. Segundo o jornal "Valor Econômico", de 2006 a abril deste ano a receita média das empresas por passageiro cresceu 15% acima da inflação. Ainda que esse aumento decorra de cláusulas contratuais, seria oportuno esclarecer se foram feitos os investimentos previstos como contrapartida.
A Prefeitura de São Paulo, não é demais lembrar, fará no próximo mês licitação para selecionar novas empresas pelos próximos 15 anos. Estima-se que o negócio gire em torno de R$ 45 bilhões. É quase um truísmo cobrar maior controle sobre esse montante.
Como seria de esperar, o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto (PT), investiu contra a CPI. Será lamentável se ele prevalecer, ou se, sob a influência de seu partido, a comissão entrar para o rol das que fazem muito barulho e nada esclarecem.
A polêmica agenda do governo Dilma - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 25/06
Presidente acerta ao defender a responsabilidade fiscal, mas entra em terreno perigoso por avalizar Constituinte para a reforma política
Na sequência do pronunciamento feito em rede nacional na sexta-feira, a presidente Dilma deu ontem outro passo no enfrentamento da crise, ao se reunir com governadores e prefeitos e propor “pactos” em resposta às ruas. Agiu no timing correto, a fim de não correr o risco de novamente o Planalto passar a ideia de um governo aturdido, nas cordas. Além disso, por ter, na sexta à noite, aberto corretamente espaço para o diálogo — símbolo da disposição de receber propostas da população foi conceder ontem mesmo audiência a representantes do MPL —, era natural esperar toda sorte de demandas vindas de governadores, prefeitos e políticos em geral.
Talvez por isso, e por precaução, o primeiro pacto proposto por Dilma foi o da responsabilidade fiscal. No fim de semana já surgiram demandas por mais gastos, indícios de que as manifestações começavam a ser usadas como gazua para abrir de vez os cofres públicos, sob pretexto de melhorar os transportes públicos. E, pior, num momento em que a inflação ultrapassa, mais uma vez, o limite superior da meta (6,5%). Seria aumentar ainda mais a temperatura inflacionária.
Em contrapartida, Dilma acolheu antigo projeto das alas mais à esquerda do PT e converteu em um dos pactos um plebiscito para a convocação de uma Constituinte exclusiva, apenas para tratar da reforma política. A ideia é de inspiração chavista, pois foi Hugo Chávez quem se utilizou da artimanha de aprovar uma Constituinte, eleger sua maioria e, assim, fazer as reformas que necessitava para instalar o “socialismo do século XXI”.
Em meados de 2006, em audiência, representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) levaram a proposta ao então presidente Lula, que a aceitou. Mas teve de recuar diante da enxurrada de críticas. Aproveitam-se, agora, os ataques a partidos e políticos feitos nas manifestações de rua, para se retirar da gaveta este projeto de alto risco.
O problema é que, ao se permitir, via Constituinte, que a legislação que rege a atuação dos políticos e dos partidos possa ser alterada por maioria simples, abre-se espaço para mudanças indevidas das regras do jogo democrático. Por exemplo, via aprovação de mecanismos de “democracia direta” que tornem o regime prisioneiro de grupos organizados da sociedade.
Sequer é certa a constitucionalidade da Constituinte exclusiva. Pois há juristas que consideram apenas ser possível alterar a Carta por meio do que estabelece o artigo 60 dela mesma: votações em dois turnos, em cada Casa, com aprovação por três quintos dos votos (60%). Afinal, Constituinte só se convoca em rupturas institucionais, para se formalizar um novo pacto político. Tem sido assim na História brasileira.
A presidente Dilma propõe, ainda, grande esforço conjunto para melhorar a mobilidade urbana. Acenou com R$ 50 bilhões para isso. Seria um grande avanço se anunciasse já a desistência do delirante projeto do trem-bala entre Rio e São Paulo, e desviasse as dezenas de bilhões previstos para o megalômano empreendimento a projetos de transporte sobre trilhos nas grandes regiões metropolitanas. Dispensa-se, ainda, a criação de um Conselho de Transporte Público, exemplo concreto da antiga mania nacional de, para cada problema, instituir-se uma comissão.
É louvável a preocupação da presidente em dar respostas às manifestações. Na Saúde e Educação, talvez não enfrente muitas resistências, a não ser da corporação dos médicos, contrários à vinda de profissionais do exterior. Mas, no combate à corrupção, enquadrar o crime no rol dos delitos hediondos, como deseja a presidente, não atacará o foco do problema, que é o fato de parte do ministério ter sido constituída na base do fisiológico toma lá da cá. Mas reconhece-se a dificuldade de ela enveredar por este caminho.
Presidente acerta ao defender a responsabilidade fiscal, mas entra em terreno perigoso por avalizar Constituinte para a reforma política
Na sequência do pronunciamento feito em rede nacional na sexta-feira, a presidente Dilma deu ontem outro passo no enfrentamento da crise, ao se reunir com governadores e prefeitos e propor “pactos” em resposta às ruas. Agiu no timing correto, a fim de não correr o risco de novamente o Planalto passar a ideia de um governo aturdido, nas cordas. Além disso, por ter, na sexta à noite, aberto corretamente espaço para o diálogo — símbolo da disposição de receber propostas da população foi conceder ontem mesmo audiência a representantes do MPL —, era natural esperar toda sorte de demandas vindas de governadores, prefeitos e políticos em geral.
Talvez por isso, e por precaução, o primeiro pacto proposto por Dilma foi o da responsabilidade fiscal. No fim de semana já surgiram demandas por mais gastos, indícios de que as manifestações começavam a ser usadas como gazua para abrir de vez os cofres públicos, sob pretexto de melhorar os transportes públicos. E, pior, num momento em que a inflação ultrapassa, mais uma vez, o limite superior da meta (6,5%). Seria aumentar ainda mais a temperatura inflacionária.
Em contrapartida, Dilma acolheu antigo projeto das alas mais à esquerda do PT e converteu em um dos pactos um plebiscito para a convocação de uma Constituinte exclusiva, apenas para tratar da reforma política. A ideia é de inspiração chavista, pois foi Hugo Chávez quem se utilizou da artimanha de aprovar uma Constituinte, eleger sua maioria e, assim, fazer as reformas que necessitava para instalar o “socialismo do século XXI”.
Em meados de 2006, em audiência, representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) levaram a proposta ao então presidente Lula, que a aceitou. Mas teve de recuar diante da enxurrada de críticas. Aproveitam-se, agora, os ataques a partidos e políticos feitos nas manifestações de rua, para se retirar da gaveta este projeto de alto risco.
O problema é que, ao se permitir, via Constituinte, que a legislação que rege a atuação dos políticos e dos partidos possa ser alterada por maioria simples, abre-se espaço para mudanças indevidas das regras do jogo democrático. Por exemplo, via aprovação de mecanismos de “democracia direta” que tornem o regime prisioneiro de grupos organizados da sociedade.
Sequer é certa a constitucionalidade da Constituinte exclusiva. Pois há juristas que consideram apenas ser possível alterar a Carta por meio do que estabelece o artigo 60 dela mesma: votações em dois turnos, em cada Casa, com aprovação por três quintos dos votos (60%). Afinal, Constituinte só se convoca em rupturas institucionais, para se formalizar um novo pacto político. Tem sido assim na História brasileira.
A presidente Dilma propõe, ainda, grande esforço conjunto para melhorar a mobilidade urbana. Acenou com R$ 50 bilhões para isso. Seria um grande avanço se anunciasse já a desistência do delirante projeto do trem-bala entre Rio e São Paulo, e desviasse as dezenas de bilhões previstos para o megalômano empreendimento a projetos de transporte sobre trilhos nas grandes regiões metropolitanas. Dispensa-se, ainda, a criação de um Conselho de Transporte Público, exemplo concreto da antiga mania nacional de, para cada problema, instituir-se uma comissão.
É louvável a preocupação da presidente em dar respostas às manifestações. Na Saúde e Educação, talvez não enfrente muitas resistências, a não ser da corporação dos médicos, contrários à vinda de profissionais do exterior. Mas, no combate à corrupção, enquadrar o crime no rol dos delitos hediondos, como deseja a presidente, não atacará o foco do problema, que é o fato de parte do ministério ter sido constituída na base do fisiológico toma lá da cá. Mas reconhece-se a dificuldade de ela enveredar por este caminho.
Assistência para quem “sabe pescar” - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 25/06
Os recursos do crédito rural estimulam o trabalho no campo e a oferta de alimentos em uma época de inflação crescente
A ampliação do crédito rural destinado à agricultura familiar traz à tona a discussão sobre formas eficazes de assistência social. O estímulo à produção de alimentos torna-se referência de medida acertada por não se resumir ao combate à pobreza ou à distribuição de renda mínima. Apesar de os valores acessíveis a cada família serem baixos (inferiores aos do Bolsa Família em boa parte dos casos), tornam-se indispensáveis para evitar inclusive o esvaziamento da zona rural e o agravamento de problemas urbanos.
A comparação do crédito à agricultura familiar com o Bolsa Família é inevitável para uma análise da dimensão das diferentes linhas de ação do governo brasileiro, a começar pelo volume de recursos disponíveis. O orçamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) subiu de R$ 18 bilhões para R$ 21 bilhões, a serem aplicados em 2013/14. O valor geral ofertado chega a R$ 39 bilhões com outras linhas de financiamento. Para o Programa Nacional de Aquisição de Alimentos (PAA) – um dos braços sociais mais importantes, pela garantia de renda ao pequeno produtor rural – está reservado R$ 1,2 bilhão. Já o orçamento do Bolsa Família para 2013 é de R$ 23,95 bilhões.
Os recursos do crédito rural estimulam o trabalho no campo e a oferta de alimentos em uma época de inflação crescente. Elevam a renda das famílias de pequenos produtores, que, conforme estimativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário, fornecem 70% dos artigos que chegam à mesa dos brasileiros, a começar pelas verduras e pelo trigo. A agricultura familiar tem 4,3 milhões de unidades produtivas, que representam 84% dos estabelecimentos rurais e comportam 74% dos postos de trabalho do campo. O segmento é maior que o da agricultura empresarial em número de pessoas e lidera a produção na Região Sul. Da renda desse grupo vivem mais de 10 milhões de pessoas em todo o país, multidão responsável por 33% do PIB agropecuário.
O anúncio de reajuste de 17% no crédito do Pronaf chega a surpreender, mas está acima da inflação para compensar décadas de falta de apoio. O crédito rural brasileiro começou a se estruturar há 60 anos, mas apenas três décadas atrás entrou em pauta a separação de uma parte das verbas para financiamentos direcionados a pequenos produtores. Nos últimos dez anos, o Pronaf comprovou que essa divisão é necessária para garantir um foco mais social aos programas direcionados aos produtores de alimentos, que dependem essencialmente do que tiram da terra.
Em uma década, R$ 97 bilhões foram destinados à agricultura familiar, segundo o governo federal. A parcela direcionada à compra de alimentos produzidos pelo setor somou R$ 4,5 milhões desde 2003, em intervenções que melhoraram a renda de 160 mil famílias. Essa iniciativa cresceu mais recentemente. Agora, com a força de uma política central de fomento ao pequeno produtor, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) distribuiu R$ 1,2 bilhão em 2012/13. Dez anos atrás, foram apenas R$ 164,6 milhões. Ou seja, o orçamento foi multiplicado por sete em uma década.
Os juros do Plano Safra da Agricultura Familiar são os menores do mercado e os limites de financiamento cresceram. Porém, esses financiamentos precisam ser pagos rigorosamente em dia; não equivalem a repasses diretos de recursos. E o valor que é usado pelo governo para compra de alimentos colhidos pelo setor ainda é baixo, pela própria dimensão da agricultura familiar. O limite de pagamento a cada produtor passou de R$ 4,5 mil para 5,5 mil, o equivalente a R$ 458 por mês. Se a família tem produtos agroecológicos, pode vender até R$ 8 mil ao ano – ou R$ 666,66 por mês, valor 2% abaixo do salário mínimo do país. Numa época de forte crise no mercado, essa passa a ser a renda familiar. Em comparação, o Bolsa Família chega a R$ 420 num arranjo familiar de seis pessoas, com a diferença que os recursos são doados.
Enquanto o Bolsa Família é apontado como essencial até para a sobrevivência de crianças e gestantes, parece não haver dúvida de que o Pronaf promove ascensão progressiva. Segundo os cálculos oficiais, o ganho real na renda da agricultura familiar foi de 52% nos últimos dez anos. A chave para o cidadão realizar plenamente suas potencialidades é o esforço individual (quando necessário, complementado pelo auxílio governamental), e é esse esforço que deve ser fomentado.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“E o Parlamento, o que está fazendo? Discurso”
Senador Jorge Viana (PT-SP) cobrando respostas objetivas às manifestações
PROVÁVEL REFORMA MINISTERIAL EXCITA OS ALIADOS
Mais do que as manifestações, movimentaram a cena política, ontem, excitando os aliados, os sinais de que a presidente Dilma Rousseff avalia uma reforma ministerial durante o recesso parlamentar de julho. Por enquanto, a mexida mais significativa seria a substituição – sugerida pelo ex-presidente Lula, há dias – do ministro Guido Mantega (Fazenda) pelo ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles.
OXIGENAÇÃO
A intenção de Dilma seria “oxigenar” seu ministério com nomes novos e técnicos, numa tentativa de recuperar pontos perdidos nas pesquisas.
PENSANDO BEM...
...Dilma criou ontem o “puxadinho de JK”: fazer em 12 meses o que o governos petistas não fizeram em 12 anos.
INCOMPETÊNCIA
Projeto na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro inclui ortopedistas nas UPPs (Unidades de Pronto Atendimento). O governo esqueceu de incluí-los.
RUAX!
Primeira providência de Eike Batista após perder US$ 30 bilhões em poucos meses: demitir o numerólogo que pôs um X nas empresas.
SETOR DE TRANSPORTES É FEUDO DO PT EM SÃO PAULO
Sai prefeito, entra prefeito e a Secretaria do Transporte da Prefeitura de São Paulo continua sob o controle dos barões das empresas de ônibus. A família do atual secretário, deputado Jilmar Tatto (PT-SP), tem sólidas ligações com empresários do setor. O esquema controla a área também em várias prefeituras petistas, a começar pelas duas maiores do Estado: a paulistana, de Fernando Haddad, e a de Guarulhos.
DINHEIRO NA VEIA
A prefeitura paulistana transfere dos cofres públicos para as empresas de ônibus mais de R$ 1 bilhão por ano, a titulo de “subsídio”.
BARRA PESADA
As relações do PT com o setor de transportes estariam na origem do assassinato do prefeito petista de Santo André, Celso Daniel, em 2002.
ENTRE AMIGOS
Onde estava o aspone top-top Marco Aurélio Garcia quando o bicho pegou? Na Venezuela bolivariana, claro.
CHILIQUES
O governador Sergio Cabral (PMDB) repete o mantra de que protestos são “direito democrático”, mas em particular aterroriza assessores com explosões de irritação, xingando a turma acampada na sua porta.
MEU PIRÃO
José Genoino (PT-SP) elogia no Twitter a “democracia representativa”, em que “o eleito com 1 milhão debate com o eleito com cinco mil”. Faltou dizer: debate até com deputado meliante condenado no STF.
MELHOR NÃO
Dilma cancelou sua ida ao festival de Parintins, no Amazonas, por óbvias razões. Iria na sexta-feira (28), para inaugurar o novo Bumbódromo. Achou melhor ficar em Brasília. Para não correr o risco de dançar.
PERDEU CONFIANÇA
Resta saber se serão realmente liberados os R$ 50 bilhões anunciados ontem pela presidente Dilma para investimentos em transporte público. Em 2012, só liberou 33% da verba que havia anunciado para o setor.
AGILIDADE CÍVICA
O presidente da OAB-DF, Ibaneis Rocha, foi o primeiro a anunciar pontos de coleta de assinaturas, em Brasília, para viabilizar o anteprojeto de reforma política, de iniciativa popular.
VOTEM NO (IM)PACTO!
Os marqueteiros de Dilma ouviram a “voz das ruas”, pegando carona no combate à corrupção para sugerir crime hediondo contra ela, como se Dilma iniciasse hoje seu mandato. Pactos têm forte apelo eleitoral e nenhum impacto na contenção de danos – foram vários desde Lula.
MANDOU BEM
Em meio aos dias difíceis dos protestos, Dilma tomou uma decisão muito elogiada: escolheu Paulo Bugarin para o cargo de Procurador-Geral do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União.
BABACAS
Face visível dos organizadores da “Marcha do Vinagre”, a jornalista voluntária Georgiana Calimeris passou a ser hostilizada por supostos manifestantes, no Facebook, por manter a imprensa informada.
POLÍCIA PARA QUEM PRECISA
Vândalos sempre houve, a novidade é que antes não havia passeata.
PODER SEM PUDOR
CORINTHIANS EM PRIMEIRO LUGAR
O deputado Maluly Netto, corintiano doente, ajudava o filho na campanha para a Prefeitura de Mirandópolis (SP), em 1992. Um eleitor o abordou:
- O sr. é conselheiro do Corinthians? Eu queria fazer um teste no time.
Maluly viu que o rapaz era baixinho, talvez uns 1,60m de altura:
- Você é ponta-esquerda? - perguntou.
- Não, sou goleiro.
- No meu time, não, meu camarada - despachou Maluly, dando as costas ao eleitor. E a seu voto.
Senador Jorge Viana (PT-SP) cobrando respostas objetivas às manifestações
PROVÁVEL REFORMA MINISTERIAL EXCITA OS ALIADOS
Mais do que as manifestações, movimentaram a cena política, ontem, excitando os aliados, os sinais de que a presidente Dilma Rousseff avalia uma reforma ministerial durante o recesso parlamentar de julho. Por enquanto, a mexida mais significativa seria a substituição – sugerida pelo ex-presidente Lula, há dias – do ministro Guido Mantega (Fazenda) pelo ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles.
OXIGENAÇÃO
A intenção de Dilma seria “oxigenar” seu ministério com nomes novos e técnicos, numa tentativa de recuperar pontos perdidos nas pesquisas.
PENSANDO BEM...
...Dilma criou ontem o “puxadinho de JK”: fazer em 12 meses o que o governos petistas não fizeram em 12 anos.
INCOMPETÊNCIA
Projeto na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro inclui ortopedistas nas UPPs (Unidades de Pronto Atendimento). O governo esqueceu de incluí-los.
RUAX!
Primeira providência de Eike Batista após perder US$ 30 bilhões em poucos meses: demitir o numerólogo que pôs um X nas empresas.
SETOR DE TRANSPORTES É FEUDO DO PT EM SÃO PAULO
Sai prefeito, entra prefeito e a Secretaria do Transporte da Prefeitura de São Paulo continua sob o controle dos barões das empresas de ônibus. A família do atual secretário, deputado Jilmar Tatto (PT-SP), tem sólidas ligações com empresários do setor. O esquema controla a área também em várias prefeituras petistas, a começar pelas duas maiores do Estado: a paulistana, de Fernando Haddad, e a de Guarulhos.
DINHEIRO NA VEIA
A prefeitura paulistana transfere dos cofres públicos para as empresas de ônibus mais de R$ 1 bilhão por ano, a titulo de “subsídio”.
BARRA PESADA
As relações do PT com o setor de transportes estariam na origem do assassinato do prefeito petista de Santo André, Celso Daniel, em 2002.
ENTRE AMIGOS
Onde estava o aspone top-top Marco Aurélio Garcia quando o bicho pegou? Na Venezuela bolivariana, claro.
CHILIQUES
O governador Sergio Cabral (PMDB) repete o mantra de que protestos são “direito democrático”, mas em particular aterroriza assessores com explosões de irritação, xingando a turma acampada na sua porta.
MEU PIRÃO
José Genoino (PT-SP) elogia no Twitter a “democracia representativa”, em que “o eleito com 1 milhão debate com o eleito com cinco mil”. Faltou dizer: debate até com deputado meliante condenado no STF.
MELHOR NÃO
Dilma cancelou sua ida ao festival de Parintins, no Amazonas, por óbvias razões. Iria na sexta-feira (28), para inaugurar o novo Bumbódromo. Achou melhor ficar em Brasília. Para não correr o risco de dançar.
PERDEU CONFIANÇA
Resta saber se serão realmente liberados os R$ 50 bilhões anunciados ontem pela presidente Dilma para investimentos em transporte público. Em 2012, só liberou 33% da verba que havia anunciado para o setor.
AGILIDADE CÍVICA
O presidente da OAB-DF, Ibaneis Rocha, foi o primeiro a anunciar pontos de coleta de assinaturas, em Brasília, para viabilizar o anteprojeto de reforma política, de iniciativa popular.
VOTEM NO (IM)PACTO!
Os marqueteiros de Dilma ouviram a “voz das ruas”, pegando carona no combate à corrupção para sugerir crime hediondo contra ela, como se Dilma iniciasse hoje seu mandato. Pactos têm forte apelo eleitoral e nenhum impacto na contenção de danos – foram vários desde Lula.
MANDOU BEM
Em meio aos dias difíceis dos protestos, Dilma tomou uma decisão muito elogiada: escolheu Paulo Bugarin para o cargo de Procurador-Geral do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União.
BABACAS
Face visível dos organizadores da “Marcha do Vinagre”, a jornalista voluntária Georgiana Calimeris passou a ser hostilizada por supostos manifestantes, no Facebook, por manter a imprensa informada.
POLÍCIA PARA QUEM PRECISA
Vândalos sempre houve, a novidade é que antes não havia passeata.
PODER SEM PUDOR
CORINTHIANS EM PRIMEIRO LUGAR
O deputado Maluly Netto, corintiano doente, ajudava o filho na campanha para a Prefeitura de Mirandópolis (SP), em 1992. Um eleitor o abordou:
- O sr. é conselheiro do Corinthians? Eu queria fazer um teste no time.
Maluly viu que o rapaz era baixinho, talvez uns 1,60m de altura:
- Você é ponta-esquerda? - perguntou.
- Não, sou goleiro.
- No meu time, não, meu camarada - despachou Maluly, dando as costas ao eleitor. E a seu voto.
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Dilma propõe Constituinte e cria polêmica com Congresso e STF
- Estadão: Dilma propõe plebiscito para reforma política; ação é atacada
- Folha: Dilma sugere plebiscito para reformar a política
- Valor: Dilma propõe cinco pactos para atender à voz das ruas
- Estado de Minas: Um plebiscito, quatro pactos
- Zero Hora: Um protesto em quatro atos
- Brasil Econômico: Dilma joga com as ruas
- Correio Braziliense: Plebiscito para reforma política é alvo de críticas
segunda-feira, junho 24, 2013
Revoltados e atrasados - GUILHERME FIUZA
REVISTA ÉPOCA
O melhor diagnóstico até agora sobre as manifestações de rua veio do ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência. Ele disse que as revoltas são estaduais e municipais. Não deixa de ser um alívio. Quem quiser ficar a salvo da confusão, já sabe: refugie-se no Brasil federal. Nada de ficar vagando pelo Brasil estadual e municipal, porque esse anda muito perigoso, cheio de gente insatisfeita e nervosa. No Brasil federal não, está tudo tranquilo.
Por sorte, Dilma Rousseff também está no Brasil federal, portanto a salvo do tumulto. Desse lugar calmo, sem culpa, ela disse que o que os manifestantes querem é o que o governo quer. São praticamente almas gêmeas. "Meu governo está ouvindo essas vozes pela mudança. Está empenhado e comprometido com a transformação social", informou Dilma. Disse que passeata é uma coisa normal, que ela mesma já fez muito. Parecia prestes a botar uma mochila nas costas e ir para a Avenida Paulista fazer a transformação social.
E mostrou sua visão de estadista: "Esta mensagem direta das ruas contempla o valor intrínseco da democracia".
Às vezes, Dilma exagera na erudição. Vai acabar deixando Luís de Camões encabulado. Ela já explicara que o combate à inflação é "um valor em si", demonstrando conhecimento profundo sobre as coisas da vida e seus valores intrínsecos.
"Esta mensagem direta das ruas é de repúdio à corrupção e ao uso indevido de dinheiro público", afirmou Dilma, praticamente uma porta-voz dos revoltosos contra tudo isso que aí está.
Olhando para o circo, só há uma conclusão possível: os revoltosos - os do passe livre, os dos 20 centavos, os do Ocupem Wall Street sucursal brasuca, os do turismo cívico e os do civismo vândalo - merecem Dilma. Repetindo: os revoltosos merecem Dilma. Mais que isso: são cúmplices dela, pois estavam sentadinhos em casa, enquanto a grande líder mulher brasileira perpetrava suas obras completas de explosão das finanças públicas - a céu aberto, para quem quisesse ver. Agora a inflação dói no bolso? Tarde demais, meus queridos justiceiros.
Essa "presidenta", que vive lá na calmaria do Brasil federal com seus 40 ministérios (contando o do marketing, de João Santana, o único essencial), presidiu, entre outras festas, a distribuição de dinheiro público para o milagre da multiplicação de estádios da Copa. Em São Paulo, numa jogada comandada por Lula e seus amigos empreiteiros (que ele representa no exterior), o histórico Morumbi foi mandado para escanteio. Em seu lugar, surgiu o Itaquerão, novinho em folha, presente do ex-presidente ao seu clube do coração. Um mimo de R$ 1 bilhão. Sabem de onde vem esse dinheiro, bravos manifestantes? Exato: dos vossos bolsos. E onde estavam vocês quando nos esgoelávamos, aqui da imprensa, sobre essa gastança populista, protegida por índices lunáticos de aprovação da "presidenta", e avisávamos que a conta chegaria? Vocês não leem jornal?
Onde estavam vocês, quando a CPI do Cachoeira - com revelações da imprensa - estourou o esquema da Delta, empreiteira campeã de obras superfaturadas do PAC? Vocês sabiam que mais esse ralo de dinheiro público do governo popular ficou impune porque a CPI foi asfixiada por Dilma e sua turma? Por que vocês não saíram às ruas para gritar contra esse golpe?
Onde estavam vocês quando a "faxineira" asfixiou a CPI do Dnit e a investigação do maior foco parasitário de um governo que - no seu primeiro ano! -teve de demitir sete ministros suspeitos? Vocês não desconfiaram de nada? Vocês não leram que o dinheiro de vocês escoava para ONGs de fachada em convênios fantasmas? Vocês não viram essa praga, espalhada por vários ministérios do governo popular, apesar de a imprensa esfregar o escândalo na cara do Brasil? Vocês não notaram que a tecnologia do mensalão, a privatização partidária do dinheiro público, nunca saiu de cena, de Dirceu a Rosemary?
Vocês chegaram tarde, meus caros revolucionários. Quando o bolso dói, é porque o estrago nas contas públicas já é grande. Bem, antes tarde do que nunca. Mas prestem atenção: entendam logo o que vocês estão fazendo nas ruas, senão suas passeatas em breve estarão no mesmo museu dos escândalos que vocês não viram.
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