sexta-feira, junho 29, 2012

Eles não querem ser julgados - MARCELO ITAGIBA


O GLOBO - 29/06

Não deve haver nada pior para uma pessoa de bem do que ser acusada injustamente de um crime que não cometeu.

Se ela fosse equivocadamente denunciada por algum dos graves crimes atribuídos pelo Ministério Público Federal (MPF) aos réus do mensalão, certamente a sua indignação a levaria a lutar para que o processo fosse rápido, a sua inocência logo reconhecida e os danos à sua honra prontamente reparados.

O que temos visto são mensaleiros investirem na tentativa de protelar o julgamento dos crimes de formação de quadrilha, peculato, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva, evasão de divisas e gestão fraudulenta de instituição financeira pelos quais foram denunciados pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Entendeu o STF que havia suficientes evidências de que essas pessoas deveriam ser processadas por se apoderar da máquina pública para fins de enriquecimento pessoal e projetos político-eleitorais que visavam somente à permanência no poder para a consecução de seus objetivos patrimonialistas. Os mensalei-ros eram, em sua maioria, agentes públicos, nomeados ou eleitos, muitos dos quais ocupando cargos no primeiro escalão do governo ou posições expressivas em suas agremiações partidárias.

Em razão do chamado foro privilegiado garantido por lei a alguns dos integrantes da quadrilha, nenhum deles será julgado por um juiz de primeira instância, como todo e qualquer cidadão comum.

Todos eles serão submetidos ao crivo do STF. São 11 ministros de elevado saber jurídico e reputação ilibada, conforme o exigido pela Constituição Federal.

Os membros do Supremo são inquestionavelmente independentes para promover o julgamento técnico das robustas provas reunidas nos autos, a despeito de a quase totalidade dos ministros da mais alta corte do país ter sido nomeada pelo presidente da República de cujo governo alguns réus eram integrantes.

Todas as pessoas têm direito ao devido processo legal, com a previsão do contraditório, da ampla defesa e dos recursos inerentes. A todas também são assegurados a razoável duração do processo e os meios destinados à celeridade da tramitação dos atos processuais.

Os réus do mensalão, porém, ao que parece, não querem ser julgados. Eles parecem fugir do veredicto como o diabo da cruz. Sonham com a prescrição de suas ações delituosas.

Defendidos pelos mais notórios advogados criminalistas do país, buscam, através do decurso de tempo, a impunidade dos seus crimes descobertos há sete anos. Mas a sociedade brasileira quer ver o processo efetivamente julgado.

O que se quer é justiça.

Profissão de risco - ROQUE MESQUITA


FOLHA DE SP - 29/06

O projeto de lei que amplia a segurança a juízes ameaçados de morte não é um privilégio. São 150 nessa situação. Não podemos ter novos funerais

Ser magistrado no Brasil se tornou uma profissão de risco. De agosto a novembro de 2011, segundo o Conselho Nacional de Justiça, o número de juízes ameaçados de morte subiu de cem para 150 magistrados -em 2012, já são mais de 150.

Diante da população do Brasil ou das ações contra a vida que acontecem nas cidades, o que são 150 brasileiros ameaçados de morte? Parece um dado insignificante. Não é.

Toda vida é importante, nem que seja para quem corre o risco de perdê-la. Isso sem contar pais, mães, maridos, esposas, filhos e filhas que sentem em uma única perda o suficiente para tornar suas vidas um inferno. Não podemos jamais deixar nossa perspectiva dos fatos e da vida ficar amortecida pelos números.

Em maio, o Senado aprovou projeto de lei que amplia a segurança dos juízes ameaçados de morte. Uma boa medida, sem dúvida. Trabalhar e viver são direitos inalienáveis de todos os brasileiros garantidos na Constituição e não podem ser tratados como privilégios.

Posso afirmar, com meus quase 40 anos de serviços prestados ao Poder Judiciário na qualidade de magistrado, que a maior parte dos meus colegas, se pudesse, dispensaria tal privilégio. A razão para isso se chama cidadania.

O Poder Judiciário não está alheio às transformações da sociedade nos últimos anos. Uma das mais significativas é o crescimento do sentimento de cidadania. O regime democrático é o grande responsável por isso, e os reflexos se verificam em toda a sociedade.

Sentir-se cidadão, pleno de seus direitos -e cumpridor de seus deveres- faz com que cada um de nós se torne mais participante da sociedade. Portanto, exigir que as instituições funcionem e que nossas leis sejam cumpridas é direito de todos para o bem da coletividade.

Nenhum magistrado quer o privilégio da segurança pessoal, mas não podemos abrir mão dele. Dizer que a insegurança pode atrapalhar o julgamento dos magistrados não é exagero. Por mais preparados que estejam, são seres humanos. As ameaças à vida conseguem interferir de forma diferenciada sobre cada um.

O medo é uma das piores sensações que existem. Para sorte de nossa sociedade, há muita gente corajosa disposta a correr risco pela coletividade -e, posso afirmar com segurança, há muitos bons exemplos na magistratura.

A coragem é o primeiro tijolo do arcabouço moral que mantém em atividade os magistrados jurados de morte.Outros tijolos são formação moral, caráter e desejo de fazer prevalecer a Justiça sempre.

Nos tempos modernos em que vivemos, ontem já é passado distante. Mas a memória existe para que os fatos sejam lembrados. Faz quase um ano que a juíza Patrícia Acioli foi assassinada a tiros. Foi uma perda irreparável para sua família.

O presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros, desembargador Nelson Calandra, comentou entre revoltado e entristecido que, na época do enterro de Patrícia, ele já havia comparecido a outros quatro funerais como aquele.

Torno a lembrar o que disse no início desse artigo: mais de 150 magistrados trabalham para fazer cumprir a lei com um alvo costurado às suas costas. Será que assistiremos a mais algum funeral? Chega de mártires. A lei do mais forte não se imporá.

O sangramento do Tribunal de Justiça - ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR


O ESTADÃO - 29/06


É preocupante verificar que o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP), o maior do País, continua a sangrar por força do comportamento inadequado e censurável de um grupo de desembargadores que se prevaleceram da posição em que se encontravam para obter privilégios de recebimentos e, assim, tornar-se desiguais em relação aos demais.

A rigor, dos aproximadamente 360 desembargadores paulistas, cerca de 10% passaram na frente dos colegas, num comportamento lamentável, e receberam por antecipação valores correspondentes a direitos trabalhistas que haviam sido reconhecidos a todos.

O ponto lamentável e condenável dessa conduta está em eles se haverem prevalecido de suas respectivas posições no momento de avançar sobre os valores que deveriam ser creditados igualitariamente a todos os juízes, ativos e inativos, em pequenos pagamentos mensais. O juiz que está segregado, lá nas beiras do Rio Paraná, não teria nunca a chance de fazer o mesmo.

As explicações dadas individualmente levam sempre à conclusão de que não foi um comportamento justo, o que se mostra trágico, porque envolve juízes. É possível que esses desembargadores ainda não tenham consciência do estrago que impuseram à imagem do Poder Judiciário no Brasil e, em especial, no Estado de São Paulo. O pior é que, na tentativa de justificar os recebimentos equivocados desses valores, passaram a acusar uns aos outros, alimentando os órgãos de divulgação com notícias que gradativamente fazem aumentar o descrédito em torno deles.

Por motivos muitos menos relevantes e menos graves, foram frequentes no Tribunal de Justiça, ao longo de décadas, pedidos de aposentadoria formulados por desembargadores que configuraram conduta não criminosa, porém eticamente inadequada. Diante do chamamento aos deveres formulado pelo presidente do tribunal, esses desembargadores tomaram a decisão mais conveniente de se afastar.

Essa linha comportamental se alia à necessidade de que os jurisdicionados precisam ter sempre a segurança de que serão julgados por pessoas dotadas de credibilidade e respeito. Sim, porque ao jurisdicionado é fundamental que o juiz ao qual está submetido não esteja de forma nenhuma envolvido por uma sombra de suspeição.

O direito que nos rodeia, impalpável, abstrato, somente tem sua existência reconhecida pelo cidadão no momento em que é violado. Nessa hora, o cidadão se dá conta de que o direito violado terá de ser exposto e pleiteado perante um juiz. E como deve ser esse juiz? O requisito essencial, além da competência necessária para o exercício do cargo, é que sobre ele não pese nenhuma suspeita.

Não é conveniente que um juiz atingido por dúvida comportamental ou que seja réu em processo administrativo de tamanha relevância continue a julgar, nem se pode esperar que os seus julgamentos sejam recebidos com a necessária credibilidade. O ideal, nessas circunstâncias, talvez seja a opção pelo afastamento voluntário, importante para impedir que a imagem pessoal de cada um, desgastada e vulnerada, alcance e contamine cada vez mais o Tribunal de Justiça, já bastante abalado pelo ocorrido.

Seria um gesto de grandeza dessas pessoas deixar de fazer por meio da imprensa afirmações que explicam, mas não justificam, a conduta assumida. Poderiam, também, por respeito humano, pensar um pouco mais nos demais juízes e desembargadores que continuarão na ativa e que também estão sofrendo com esse desgaste, para o qual não concorreram.

A Lei Orgânica da Magistratura, norma complementar à Constituição federal, dispõe com toda clareza, em seu artigo 35, inciso VIII, que os juízes de direito têm o dever de "manter conduta irrepreensível na vida pública e particular". Para contrabalançar e dar equilíbrio às prerrogativas que lhes são privativas, como vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de vencimentos, o legislador impôs aos juízes o dever da conduta irrepreensível.

O descumprimento dessa regra obriga o presidente do tribunal a agir em sua defesa quando, individualmente - como no caso presente -, ocorrem violações e, principalmente, quando elas acabam se tornando públicas. Isso está ocorrendo de forma desastrosa, porque acabou aguçando as emoções, levando a uma lamentável "troca de chumbo" entre altos figurões da magistratura.

Num patamar bem abaixo deste palco onde ocorrem as disputas e os xingamentos estão mais de 2 mil juízes paulistas, cada um em sua comarca, cada um em sua vara, porém todos abalados e abismados com o atual espetáculo. Esses juízes nada têm que ver com os deslizes éticos de seus superiores, mas estão pagando um preço muito alto por eles: com muita frequência, são vistos como suspeitos pelos jurisdicionados.

Inicialmente, com boas razões, a ministra Eliana Calmon investiu furiosamente contra a conduta errada de juízes brasileiros. A forma com que ela fez isso lhe conferiu incrível notoriedade e levou a resultados surpreendentes no trabalho de "abrir a barriga" do Poder Judiciário. No Tribunal de Justiça de São Paulo, sobretudo, viu-se que o comportamento eticamente condenável desses desembargadores iniciou um processo de sangria que parece não ter fim.

As divergências entre os desembargadores alcançados pelas acusações de conduta inadequada já se tornaram pessoais e são a toda hora repetidas. Parece faltar, sem nenhuma dúvida, um pouco de grandeza a esses desembargadores, para que se deem conta de algo que parecem haver esquecido: eles são juízes e têm o dever de cumprir aquilo que está exposto na Lei Orgânica da Magistratura, ou seja, sua obrigação é "manter conduta irrepreensível na vida pública e particular".

PT x PT - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 29/06

Em descompasso com os planos do Planalto, o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), protagonizou anteontem um bate-boca com o ministro Alexandre Padilha (Saúde) por conta da proposta que reduz a jornada de trabalho dos enfermeiros para 30 horas. Chinaglia fez coro com o presidente da Casa, Marco Maia (PT-RS), que colocou o projeto polêmico na pauta. O ministro descartou "entrar no jogo'' do líder e bateu o pé para que o projeto fosse retirado da pauta.

Bola nas costas Para os parlamentares, o episódio mostra a falta de interlocução do governo com o Congresso, que leva o Planalto a ter de "desarmar bombas" às vésperas das votações.

Rixa O mal estar entre Padilha e Chinaglia não é episódico. O líder do governo chegou a se movimentar para ser ministro da Saúde no início do governo Dilma Rousseff.

Combo A base aliada na CPI do Cachoeira planeja aprovar na semana que vem, de uma só vez, a convocação do ex-diretor do Dnit Luiz Pagot, do dono da Delta, Fernando Cavendish, e do ex-diretor da Dersa Paulo Vieira da Silva, o Paulo Preto.

Foco A estratégia governista é transferir os holofotes da CPI para São Paulo, onde José Serra lidera as pesquisas. Paulo Preto foi personagem na campanha de 2010, quando se queixou de ter sido abandonado pelo PSDB após acusações de ter feito caixa 2 para os tucanos.

Troca Com a candidatura de vice na chapa de Luciano Ducci (PSB) em Curitiba, o deputado federal Rubenos Bueno (PPS-PR) deixará a CPI. O seu suplente é o deputado Sarney Filho (PV), filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

Suspense O ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos ainda não entregou o memorial de defesa de seu cliente no mensalão, o ex-diretor do Banco Rural José Roberto Salgado. Enviará a peça aos gabinetes dos ministros do STF no recesso.

Novela Em conversa com Dilma Rousseff o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), ouviu que o presidente da Transpetro, Sergio Machado, seu afilhado político, será mantido no cargo.

Na geral Enquanto aumenta o suspense sobre o vice de José Serra, o aliado Gilberto Kassab, que reivindica o posto para seu PSD, brincou ontem: "Fiquei muito chateado, mas o Serra já escolheu o vice, à minha revelia: será o Corinthians". Em tempo: o prefeito é são-paulino e o tucano, palmeirense.

Relâmpago Secretário de Juventude do PSDB nacional, Wesley Goggi é a primeira baixa na campanha de Serra. Menos de um mês após assumir a ala jovem do QG tucano, ele se desentendeu com dirigentes do partido e retornou ao Espírito Santo.

Baixo astral Retirado da corrida pela prefeitura paulistana, Netinho de Paula faltou ao evento em que Nádia Campeão foi oficializada como vice de Fernando Haddad. O PC do B quer motivá-lo em agendas com Lula. "Ele levar áo candidato ao povo do gueto", diz um comunista.

Mudança... Ausente da campanha de Haddad, Marta Suplicy direcionará energias para cobrar do governo paulista vigor no combate à violência contra a mulher. Um dos nomes do PT para a disputa em 2014, a senadora apresentará hoje diagnóstico do tema hoje na Assembleia.

... de foco "Os dados são estarrecedores. As mulheres do interior estão mais abandonadas", diz Marta, que mapeou as estatísticas. Dos 55 mil casos de lesão corporal registrados em nove meses, 34 mil são de fora da capital.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio

"Para completar sua política higienista só falta agora a prefeitura proibir a circulação de moradores de rua. E fazer isso por decreto."

DO DEPUTADO ESTADUAL JOÃO ANTONIO (PT), sobre a proposta de restringir a distribuição de sopa a moradores de rua em São Paulo, feita por Gilberto Kassab.

contraponto

Trolagem ao vivo

Após encontro de candidatos à prefeitura paulistana promovido ontem pela ONG Nossa São Paulo, Fernando Haddad (PT), que criticou o fato de Gilberto Kassab não ter cumprido as metas de seu mandato, pediu à rival Soninha Francine (PPS) na saída do palco:

-Vê se não bate muito em mim...

A candidata, que havia ironizado a declaração do petista no Twitter, respondeu:

-É mais forte do que eu! Já bati em tempo real. Você falar em meta parcialmente cumprida? E o PAC?

Haddad não quis estender a polêmica e se despediu.

A regra é clara: cartão vermelho - NELSON MOTTA


O Estado de S.Paulo - 29/06


Certos jogos de futebol são tão ruins que parecem intermináveis, quando os comentaristas dizem que os dois times poderiam continuar jogando a noite inteira que não sairiam do 0 a 0. A metáfora de sabor alulado é perfeita para expressar a destituição de Fernando Lugo da Presidência do Paraguai, mas não pela legalidade ou velocidade com que foi goleado por 76 a 1 no Congresso e depois no Tribunal Eleitoral e na Suprema Corte: na Constituição deles a regra é clara.

Mas caso os paraguaios resolvessem instaurar uma comissão de impeachment, cumprindo todos os ritos e formalidades do barroco latino-americano, como exigem os democratas Chávez, Cristina e Correa, até os paralelepípedos das ruas de Ypacaraí sabem que eles poderiam ficar num diálogo de surdos meses a fio, como num jogo ruim de futebol, que o resultado final não seria diferente.

Então, por que perder tempo e dinheiro e parar o país? Para ouvir estrangeiros dando pitaco nos problemas dos paraguaios, alguns até dispostos a dar dinheiro e armas para os "movimentos sociais" defenderem Lugo numa guerra civil? Em time que está perdendo não se mexe?

Até seus parcos partidários sabem que Lugo se embananou, tanto que entubou resignado a sua destituição ao vivo, diante de todo o país. Além da gestão desastrosa, Lugo decepcionou seu eleitorado popular desenvolvendo uma paixão por hotéis cinco estrelas e restaurantes de luxo em suas frequentes viagens ao exterior, no mínimo uma por mês, sempre com festivas comitivas, para agendas duvidosas. Descontente com o desconforto da primeira classe nos voos comerciais, tentou que a Itaipu Binacional lhe comprasse um Aerolugo da Embraer, mas a diretoria cortou suas asas. Negociava um Challenger usado de um cartola do futebol quando foi defenestrado.

O que a nossa diplomacia companheira vai fazer agora, além de estender o tapetão para a entrada da Venezuela no Mercosul? Vão obrigar o Paraguai a desrespeitar ou a mudar a sua Constituição? Vão dar ao novo governo direito de defesa na Unasul? Ou vão dar um chapelão a Lugo e abrigá-lo na Embaixada do Brasil em Assunção?

O socialismo de Obama - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE S.PAULO - 29/06


SÃO PAULO - Por 5 votos a 4 e com recurso a todo tipo de sutilezas hermenêuticas, a Suprema Corte dos EUA considerou válidas as linhas mestras da lei de planos de saúde do presidente Barack Obama.
Os EUA vivem a paradoxal situação de ter a melhor medicina do planeta e o pior sistema de saúde do mundo desenvolvido. E a razão para isso, perdoem-me os ultraliberais, é que existem setores em que a regulação estatal é imprescindível. A saúde é um deles. Nela, os desequilíbrios e imperfeições são tantos que deixar as forças de mercado atuarem livremente resulta em perdas para a maioria.
Cerca de 25 milhões de americanos ou não têm seguro ou contam com planos que não cobrem seus gastos. Mas, por lei, os hospitais estão obrigados a atender qualquer pessoa durante emergências. Assim, esse grande contingente de subsegurados "se trata" correndo para os prontos-socorros em situações de crise.
É exatamente o contrário do que preconiza a boa medicina e ainda faz com que as despesas fiquem muito maiores do que seria possível, caso o paciente recebesse atendimento precoce e contínuo. Os hospitais, é claro, repassam esse custo para as seguradoras, que empurram a batata para os consumidores. No fim das contas, estes pagam muito caro para estarem no sistema, e quem não está recebe um tratamento indigente.
A lei de Obama faz o óbvio. Obriga todos a ter plano de saúde (ou pagar uma taxa especial) e oferece subsídios para quem não pode arcar com um. A oposição não gostou. Chamou Obama de socialista (palavrão no dialeto republicanês) e disse que a iniciativa era uma interferência indevida do Estado na vida do cidadão.
É uma reação muito mais ideológica do que lógica. O princípio da contribuição compulsória e da divisão de custos, afinal, paira sobre todas as instituições financiadas por impostos. Entre elas estão alguns xodós dos republicanos, como a polícia, os bombeiros e o Exército.

No sapatinho - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 29/06

Os líderes do PT e dos aliados estão insatisfeitos com agestão do governo Dilma. Reclamam que os ministérios estão amarrados e que os investimentos não saem do papel. Dizem que há problemas administrativos e que o Planalto não dialoga com o Congresso. Dirigentes petistas reclamam da centralização das decisões imposta pela presidente Dilma. A eleição municipal, que pavimenta as campanhas pela reeleição dos parlamentares em 2014, deixa todos com os nervos à flor da pele.

Unanimidade e a reviravolta de Ayres

A Adin contra o direito do PSD à propaganda na televisão foi rejeitada pelos 10 ministros que votaram ontem no STF. O fato mais eloquente da decisão foi a mudança do seu presidente, o ministro Ay-res Britto. Ao dizer sim ao direito do PSD à TV, ele reviu posição anterior, quando, ao julgar mandado de segurança,negou o direito do PSD de indicar parlamentares para comissões do Congresso. Com a vitória, o partido vai brigar para integrar comissões na Câmara e no Senado. E acredita que o TSE lhe destinará recursos do Fundo Partidário. O DEM, o que mais perde dinheiro e tempo na televisão, foi o grande derrotado.

Voto pela improcedência total da ação. Não posso deixar de externar aqui: essa ação direta foge completamente à vocação das ações constitucionais” —Joaquim Barbosa, ministro do STF, ao rejeitar a ação direta de inconstitucionalidade contra o PSD

PROMESSA QUEBRADA. Os enfermeiros não estão irados à toa com o governo por este ter retirado, da pauta de votação da Câmara, o projeto que reduz a jornada de trabalho da categoria para 30 horas semanais. Apoiá-lofoi umcompromisso assumido pela presidente Dilma nas eleições. Acima, trecho de documento encaminhado aos sindicatos com a assinatura do ministro Alexandre Padilha (Saúde), que na época era coordenador nacional da coligação Para o Brasil Seguir Mudando.

Troco

O deputado Fernando Fran-cischini (PSDB-PR) lutou para ser o vice do prefeito de Curitiba, Luciano Ducci (PSB). Mas seu partido fechou com o deputado Rubens Bueno (PPS). Irritado, decidiu ingressar num novo partido, o PEN.

Ligado
O governador Marconi Peril-lo pediu à CPI cópia integral do material bruto das escutas das operações Vegas e Monte Carlo, e todos os documentos provenientes de seus sigilos bancário, fiscal e telefônico, que já estão em poder da CPI.

Requião: entre dois amores
A representação brasileira no Parlasul, liderada pelo senador Roberto Requião (PMDB-PR), decidiu não suspender a bancada paraguaia da reunião do organismo, na terça-feira, em Montevidéu, no Uruguai. “Nós decidimos que a posição brasileira será a de dar voz aos paraguaios”, disse Requião. Depois de criticar o golpe, o senador emendou: “Eu sou amigo do presidente Fernando Lu-go, mas sou muito amigo também de um dos supostos líderes do golpe, o general Lino Oviedo”.

A fotografia
O PSB estava exultante ontem com foto, publicada no site do PT, na qual aparecem sorridentes o governador Eduardo Campos (PE) e o ex-presidente Lula. O pe-tista teria dito que não fará da eleição no Recife um cavalo de batalha.

O fatoUm dos mais duros na CPI do Caso Cachoeira, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) surpreendeu no depoimento do ex-chefe de gabinete do governo de Brasília Cláudio Monteiro, dizendo que este podia sair de cabeça erguida da CPI.

VALE. Na audiência com a presidente Dilma, anteontem, o presidente da Vale, Murilo Ferreira, informou que, na nova mina de ferro de Carajás, o minério será retirado por uma esteira rolante. A Vale vai produzir mais com menos empregados.

O PSB está procurando aliados no Sudeste. O partido avalia que, sem força nessa região, nenhuma candidatura à Presidência da República é viável.

ON-LINE. O senador Blairo Maggi (PR-MS) fez uma cirurgia cardíaca ontem. De imediato postou fotos no Twitter, no Facebook e no seu site.

Volta ao mundo com Martin Wolf - MOISÉS NAÍM

FOLHA DE S.PAULO - 29/06


Para colunista econômico do 'Financial Times', jornalistas cometeram erros de omissão na crise

A crise deu a alguns comentaristas econômicos fama mundial. Um deles é Martin Wolf, do "Financial Times". Conversei com ele dias atrás em Istambul. "Que aspectos da crise o surpreenderam?", perguntei.
Martin Wolf: O pouco capital próprio dos bancos para os riscos que assumiam. Eu tinha voltado toda a minha atenção à macroeconomia e não vi o que acontecia com a microeconomia. É o maior erro da minha carreira. Outro erro foi não ter me dado conta de quão fracos eram os controles dos bancos.
Pergunta: Que responsabilidade têm os jornalistas nesta crise?
MW: Cometeram muitos erros de omissão. Deveriam ter sido muito mais agressivos e rigorosos na fiscalização dos bancos. O problema é que, em geral, os jornalistas sabem pouco de economia e finanças.
P: Mas os economistas mais renomados também não previram a crise nem entraram em acordo sobre como geri-la. Quais as exceções?
MW: Nouriel Roubini alertou sobre as bolhas nos preços de ativos financeiros e sua relação com o endividamento e viu que a mistura era explosiva. Robert Shiller analisou melhor que ninguém o setor imobiliário. E Raghuram Rajan soou o alarme sobre a fragilidade do setor financeiro e sua ameaça à estabilidade global. Mas houve muitos outros. E a verdade é que a economia ortodoxa mostrou não ter utilidade para explicar o que acontece.
P: Como qualifica a gestão da crise por George W. Bush, Barack Obama, Wen Jiabao e Angela Merkel?
MW: Bush, reprovado. Obama e Wen Jiabao, aprovados. Merkel, aprovada como líder da Alemanha e reprovada como líder europeia.
P: Obama é ferozmente criticado.
MW: De fato. Para seus críticos, a recessão dos EUA deveria ter sido mais curta e a recuperação, mais vigorosa. Mas, com base na experiência histórica, a crise que Obama herdou deveria ter causado uma recessão ainda mais profunda. Ele evitou essa catástrofe e, até agora, a economia americana é a que mais se recuperou, em comparação com as dos cinco países mais avançados.
P: Nesta crise, os chefes dos BCs se transformaram em atores fundamentais. Quem são os melhores banqueiros centrais do mundo?
MW: Ben Bernanke, o diretor do Federal Reserve dos EUA.
P: Dentro de dez anos, que país crescerá mais, Espanha ou Itália?
MW: Espanha.
P: E entre China e Índia?
MW: Índia.
P: Estados Unidos ou Alemanha?
MW: Estados Unidos.
P: E a Europa?
MW: Vejo três cenários. O primeiro é uma Europa mais federal, o segundo é a das contínuas cúpulas de líderes em que não se decide nada de "grande" e o terceiro supõe que os países acordem reformas parciais que permitam ir resolvendo os problemas mais graves. Este é o cenário mais provável.

FALA, GRAÇA - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 29/06

A presidente da Petrobras, Graça Foster, deve convocar a imprensa para explicar melhor suas declarações sobre cortes e revisão de investimentos da empresa. "Ela está viajando e assim que voltar vai esclarecer algumas coisas", diz o ministro Edison Lobão, de Minas e Energia. Ele passou os últimos dias apagando incêndio por causa do anúncio de adiamento de grandes obras, como refinarias no Nordeste. As ações da empresa também caíram.

FALA, LOBÃO

O ministro afirma que as "revisões" anunciadas por Graça Foster são "de rotina" e que nenhum calendário será alterado de forma significativa. "Uma refinaria, a do Ceará, por exemplo, está programada para 2016, pode ficar para 2017, no máximo." Mas, diz, vai sair do papel.

INTENSIVO

O ministro Luiz Fux, do STF (Supremo Tribunal Federal), diz que resolveu gravar as conversas que tem com os advogados dos réus do mensalão porque recebeu todos num único dia, numa espécie de esforço concentrado. "Foram 15 conversas, todas longas, porque eles fazem verdadeiras sustentações orais", diz ele. "São informações detalhadas que não podemos correr o risco de esquecer."

FESTA CARIOCA

Maior galeria de arte do mundo, a Gagosian, que representa Andy Warhol e Damien Hirst, entre outros, confirmou sua presença numa feira de arte brasileira pela primeira vez. Eles ocupam em setembro um estande de 120 m² na ArtRio.

DA FIRMA

Sonia Braga desembarca em SP na quarta. Ela acaba de rodar ao lado de José Wilker o curta "Kreoko", de Beto Brant e Cisco Vasques, e participará da festa de confraternização da equipe.

HUMORES DE FÁTIMA
Fátima Bernardes é a capa da revista "Claudia" que chega às bancas na terça. "Jamais fui vista como uma pessoa engraçada, mas tenho bom humor", diz a apresentadora. Ela descarta a "imagem da mulher que está a todo momento maquiada, bonita e arrumada. Para conseguir isso, tenho que correr igual a uma louca".

CHÁ DAS QUATRO

O estilista Marcelo Quadros apresentou sua coleção para a Daslu Couture, na loja do shopping Cidade Jardim, anteontem. Entre os convidados estavam a DJ Lara Gerin, Nadia Setubal e as empresárias Luciana Tranchesi e Mariana Penteado.

DÉJÀ-VU

O novo programa de Pedro Bial, "Na Moral", rendeu uma acusação de plágio contra a Globo. Desde 2003, o curitibano Leandro Karam apresenta no Paraná atração com o mesmo nome -que já passou pela Band local e hoje vai ao ar pelo canal da Net, por volta das 23h (pouco antes da faixa horária reservada ao global).

DÉJÀ-VU 2

Na internet, acha-se fácil uma reportagem do "Fantástico" feita com imagens cedidas pelo "Na Moral" curitibano -de uma briga entre Zezé di Camargo e Luciano registrada durante show na cidade em outubro. "Era impossível a Globo não saber que a gente existia", diz Karam.

DÉJÀ-VU 3

A Globo diz que não houve plágio, já que a marca "Na Moral" pertence a uma produtora carioca -a mesma de Pitty e Marcelo D2- com quem a emissora negocia o uso do nome. No Instituto Nacional de Propriedade Intelectual, que cuida de marcas e patentes, o registro está em nome dessa produtora.

CURTA TEMPORADA

Drica Moraes e Mariana Lima apresentarão "A Primeira Vista", com direção de Enrique Diaz, da Cia dos Atores, pela primeira vez em SP. O espetáculo, que terá temporada na cidade em 2013, será encenado de 13 a 15 de julho no Teatro Alfredo Mesquita.

Diaz apresentará nos finais de semana seguintes outras peças de Daniel McIvor: "In on It" e "Monster".

CURTO-CIRCUITO

Laura Neiva fotografa amanhã no Rio nova campanha da Corello, com Michelangelo di Battista.

José do Nascimento Junior, presidente do Ibram, participa do seminário "A Antropologia Como Arte de Ver o Mundo", hoje, no auditório do Masp, às 20h.

Rodrigo Scarpa, do Pânico, inaugura hoje a boate Caribbean. 18 anos.

A Vitrine Filmes e a Mobz lançam no iTunes o filme "2012 - Tempo de Mudança", de João Amorim.

com ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, LÍGIA MESQUITA e OLÍVIA FLORÊNCIA; colaborou SILAS MARTÍ

Mercosul e autoritarismo - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 29/06


O Mercosul será um bloco muito menos comprometido com a democracia se os presidentes do Brasil, da Argentina e do Uruguai decidirem afastar o Paraguai, temporária ou definitivamente, e abrirem caminho para o ingresso da Venezuela, país comandado pelo mais autoritário dos governantes sul-americanos, o presidente Hugo Chávez. Mesmo sem esse resultado, qualquer punição imposta ao Paraguai será uma aberração. Será preciso imputar ao Legislativo e ao Judiciário paraguaios a violação de uma regra jamais escrita ou mesmo consagrada informalmente pelos quatro países-membros da união aduaneira.

Até a deposição do presidente Fernando Lugo, a Constituição de seu país foi considerada compatível com os valores democráticos. Segundo toda informação disponível até agora, nenhum item dessa Constituição foi violado no rapidíssimo processo de impeachment concluído na sexta-feira passada. Diante disso, nem mesmo o governo brasileiro, em geral afinado com a orientação dos vizinhos mais autoritários, qualificou como golpe a destituição de Lugo. Se não foi um golpe, como caracterizar a ação antidemocrática?

Ataques aos valores democráticos ocorrem com frequência tanto na Venezuela quanto em outros países sul-americanos, mas sempre, ou quase sempre, sem uma palavra de censura das autoridades brasileiras. Ao contrário: a partir de 2003, a ação diplomática de Brasília tem sido geralmente favorável aos governos da vizinhança, quando atacam a imprensa, quando se valem de grupos civis para praticar violências e outros tipos de pressão contra os oposicionistas e quando trabalham para destroçar as instituições e moldá-las segundo seus objetivos autoritários.

Não é preciso lembrar detalhes da ação do presidente Chávez para mostrar como seu governo se enquadra nessa descrição - embora na Venezuela, segundo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, haja excesso de democracia. Mas o chefão bolivariano é apenas um entre vários dirigentes sul-americanos com vocação autoritária.

A presidente Cristina Kirchner é um exemplo especialmente notável. Como presidente pro tempore do Mercosul, condenou prontamente a destituição do presidente Lugo e se dispôs a excluir o governo paraguaio da reunião de cúpula marcada para esta sexta-feira. Mas os compromissos da presidente argentina com a democracia são notoriamente frágeis. Não há nada surpreendente nesse fato, porque é muito difícil a convivência do populismo com os valores democráticos. A incessante campanha do Executivo argentino contra a imprensa é apenas uma das manifestações da vocação autoritária dos Kirchners e, de modo geral, dos líderes peronistas.

Essa campanha foi levada pelo chanceler argentino, Héctor Timerman, a Mendoza, onde ministros de Relações Exteriores se reuniram para preparar o encontro presidencial.

Já na quarta-feira à noite o ministro argentino falou sobre tentativas da "direita golpista" de enquadrar os governos da região e atacou o jornal ABC, de Assunção, acusando-o de haver incitado os políticos a depor o presidente Lugo. Atacou também os diários La Nación e Clarín, de Buenos Aires, por haverem, segundo ele, justificado o impeachment do presidente paraguaio. "Vemos diariamente", acrescentou, "a ideia de enquadrar presidentes como Cristina Kirchner, Dilma Rousseff e José Mujica."

Não por acaso o ministro de Relações Exteriores da Venezuela, Nicolás Maduro, saudou com entusiasmo os colegas argentino e brasileiro, ontem de manhã, no hotel onde os chanceleres começariam a discutir as sanções ao Paraguai. O Senado paraguaio tem sido o último obstáculo à inclusão da Venezuela entre os membros do Mercosul. Os Parlamentos do Brasil, da Argentina e do Uruguai já aprovaram.

Suspenso ou afastado o Paraguai, o obstáculo será removido e o Mercosul será governado pelo eixo Buenos Aires-Caracas. Quaisquer compromissos com a democracia serão abandonados de fato e as esperanças de uma gestão racional do bloco serão enterradas. Para precipitar esse desastre bastará o governo brasileiro acrescentar mais um erro diplomático à enorme série acumulada a partir de 2003.

Retrocessos - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 29/06



A "judicialização" da política produziu ontem duas decisões que terão influência importante na nossa vida partidária, e não necessariamente para o seu aperfeiçoamento. Por quatro votos a três, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) liberou o registro de candidaturas para os políticos com as contas sujas, num recuo provocado pela pressão dos partidos.

Em março último, o TSE decidira que não poderiam ser candidatos políticos que tivessem contas de campanhas reprovadas .

Por sua vez, decisão de ontem do Supremo Tribunal Federal (STF), que na prática concedeu ao PSD o tempo de propaganda eleitoral no rádio e na TV proporcional à sua bancada na Câmara, tem um efeito perverso que vai além do fortalecimento imediato da nova sigla criada pelo prefeito paulistano, Gilberto Kassab.

O novo PSD ganhará um reforço nas negociações políticas para alianças ainda nesta eleição municipal, sem dúvida, e o partido mais diretamente afetado será o DEM, de onde veio a grande maioria de seus fundadores e atuais membros.

O tempo de propaganda migrará do DEM para o PSD, enfraquecendo um e fortalecendo o outro. Mas, além do resultado imediato, a interpretação do STF traz com ela um efeito deletério para a já desgastada organização partidária do país.

Não foi à toa que o ministro Joaquim Barbosa propôs que a ação não fosse nem julgada, já que o tema deveria ser tratado "em abstrato", mas na realidade o centro da discussão era o PSD, mesmo que a sigla não fosse citada diretamente, o que, para ele, gerará uma consequência que "não será boa" para o quadro partidário.

Já os ministros Cezar Peluso e Marco Aurélio Mello, antevendo os perigos para a democracia que a decisão pode gerar, foram além e votaram pelo fim da regra de divisão do tempo de rádio e televisão com base no número de deputados federais filiados.

Como a Constituição garante aos partidos o direito de igualdade na disputa eleitoral, o tempo da propaganda deveria ser dividido igualmente entre todos os partidos com candidatos.

Os votos do ministro Marco Aurélio Mello são exemplares da confusão que está sendo instalada no quadro partidário.

Ele votou no Tribunal Superior Eleitoral contra a formação do PSD, pois considerou que a legislação não foi observada integralmente, mas, diante da aprovação da sigla, viu-se na obrigação de votar a favor do direito do novo partido de receber sua parcela proporcional do Fundo Partidário.

Para não se comprometer com o erro, o ministro Marco Aurélio Mello votou ontem no Supremo pelo fim da distribuição do tempo de acordo com as bancadas da Câmara, pois considera que esse sistema de divisão provoca a formação de partidos de aluguel que vivem de seus tempos de propaganda eleitoral.

A questão incomodava tanto aos partidos que a ação no TSE foi feita pelo DEM e por mais 20 outros partidos políticos, que foram todos derrotados pela maioria do Supremo, para onde a ação acabou sendo encaminhada antes do final do julgamento no TSE, para que a questão fosse decidida "em abstrato", a fim de valer para qualquer partido que tenha sido ou venha a ser criado depois da eleição de 2010, até que a próxima eleição, em 2014, possa definir a bancada partidária das novas legendas.

Os ministros que concordaram com a tese de que os partidos formados dentro da legislação da fidelidade partidária, que permite a mudança de legenda para a formação de um novo partido, têm o direito ao tempo de seus membros basearam-se na realidade criada pela legislação.

Mesmo que jamais tenha disputado uma eleição, esse partido teria que ter meios de subsistir até a próxima eleição e tempo de propaganda eleitoral correspondente à bancada que formou - no caso do PSD, uma das maiores da Câmara, com 52 deputados.

Na verdade, a decisão do Supremo, além de estar em contradição com uma decisão anterior do Tribunal Superior Eleitoral que definiu que a votação recebida por um parlamentar pertence ao partido, e não ao candidato, pode significar a institucionalização da venda do tempo de televisão.

A mais recente realização nesse campo foi a aliança entre Lula e Maluf para dar mais um minuto e 30 segundos para a campanha eleitoral do candidato petista Fernando Haddad em São Paulo.

Esse mercado eleitoral, que já é fartamente conhecido de todos, ganhará agora novas variantes de chantagem. Se de repente um grupo de deputados está em dificuldades políticas em um partido, pode ameaçar sair para criar outro, levando consigo o tempo de televisão.

Ou um grupo pode derrubar o tempo de um candidato às vésperas da eleição. Alguns políticos consideraram que o Supremo está mudando a regra das eleições depois de os partidos já terem escolhido seus candidatos, provocando uma insegurança jurídica brutal às vésperas da eleição.

É improvável, no entanto, que a decisão de ontem mude radicalmente as alianças políticas já firmadas, mas, do ponto de vista dos partidos, é um fato gravíssimo, que pode ameaçar a oposição em pleitos futuros.

Pontualmente, terá influência em algumas alianças. O DEM, por exemplo, perdeu o único argumento político forte que tinha contra o PSD, e, embora o presidente do partido, senador Agripino Maia, tenha garantido ontem que todas as alianças feitas pelo partido estão mantidas, é evidente que pode haver repercussões nos próximos dias, até a formalização oficial dos acordos e da escolha dos candidatos, prazo que termina no início de julho.

O duro golpe que o PSD recebera quando o procurador-geral eleitoral, Roberto Gurgel, votara contra suas pretensões em relação ao tempo de televisão, agora foi sentido pelo DEM, que contava com o revés do adversário para se fortalecer e até mesmo receber de volta muitos dos que haviam abandonado a legenda para criar o PSD. Agora, é possível que novas defecções aconteçam.

Mais energia para o PIB - PAULO PEDROSA


O Estado de S.Paulo - 29/06


Os números do Produto Interno Bruto (PIB) apresentados recentemente mostraram mais uma vez de forma irrefutável o peso do setor industrial no andamento da economia. Um recuo da atividade da indústria nos últimos meses do ano freou fortemente o crescimento geral do País e acendeu a luz amarela nos gabinetes de governo. Mais do que uma redução do PIB em si, os dados do IBGE mostram uma perda de qualidade e aumento da vulnerabilidade da economia brasileira, cada vez mais voltada para serviços e consumo.

As abordagens tradicionais de incentivo, que recaem sobre desonerações ou subsídios específicos para determinados setores e redução de juros, são medidas que podem trazer algum resultado. Mas não passam de paliativos e mascaram a necessidade de uma política industrial que recupere a competitividade da indústria nacional no longo prazo. Essa política precisa, necessariamente, contemplar a redução das distorções que oneram a produção nacional, como o alto custo da energia, seja a elétrica ou o gás natural. Estudos recentes da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace) comprovam a importância de atacar esses temas: cada R$ 1 a menos pago pela energia se refletiria em R$ 8,6 a mais no PIB brasileiro.

A Agência Internacional de Energia diz que estamos no início da idade de ouro do gás natural, que trará consigo uma mudança no mapa da economia e da geopolítica global. Isso significa que as reservas brasileiras do insumo, associado ou não ao petróleo, podem potencializar uma nova fase do desenvolvimento nacional. Se demorarmos a perceber essa realidade, corre-se o risco de perder a oportunidade de fortalecer a economia e gerar empregos.

Os EUA já vivem uma nova ordem econômica em razão da abundância do gás não convencional (principalmente o gás de xisto, ou shale gas), que fez os preços caírem drasticamente e está incentivando a produção local. Os americanos pagam hoje pouco mais de US$ 3 por milhão de BTU (unidade que mede o gás). No Brasil esse valor chega a ultrapassar US$ 16. Os efeitos começam a ser percebidos: enquanto a indústria química americana se recupera e a de alumínio é ressuscitada, as empresas brasileiras desses segmentos interromperam investimentos em expansão e algumas penam para não fechar as portas, levando consigo cadeias produtivas inteiras.

Obviamente, a situação dos EUA é um extremo neste momento, pois o gás de xisto já está sendo explorado. Mas, mesmo se comparado aos demais Brics, o Brasil é hoje quem paga mais para consumir gás. Além disso, há grande incerteza em relação aos desembolsos nos próximos anos, pois a maioria dos consumidores ainda não tem informações sobre a renovação dos contratos firmados entre as distribuidoras e a Petrobrás, que se encerram até o fim de 2012.

Também não existem expectativas reais quanto ao funcionamento do mercado livre de gás, já antecipado pela legislação setorial. Com relação a esse ponto, aliás, vale observar que, mesmo em energia elétrica, que é um setor mais maduro, não atingimos o patamar de eficiência e sustentabilidade necessário.

Há de se reconhecer que diversas esferas do governo federal começam a perceber que a energia é muito mais do que uma cadeia que se fecha em si, em torno de geração ou exploração, transmissão ou transporte e distribuição. O Ministério de Minas e Energia, por exemplo, estuda, com os Ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, alternativas para restabelecer a competitividade da indústria de alumínio.

No cenário global de crise, o Brasil tem condições únicas para continuar galgando postos entre os maiores PIBs do mundo. O compromisso com a melhoria da governança da administração pública, apoiado por grandes lideranças empresariais, certamente coloca o País no rumo certo para o salto no desenvolvimento com qualidade. Mas é importante que a energia seja incorporada nessa agenda como alternativa capaz de produzir resultados num prazo curto. A simples redução de distorções posicionaria melhor o País no parâmetro global de competitividade.

Aventuras fiscais - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 29/06

Congresso ameaça contribuir para desequilíbrio das contas públicas num momento em que a crise recomenda cautela e responsabilidade


Mais uma vez populismo, demagogia e chantagem política dão os braços no Legislativo para maquinar propostas que, sob a aparência de soluções generosas para os males do país, constituem gritante irresponsabilidade financeira.

Trata-se agora de uma série de projetos em discussão no Congresso cuja aprovação terá impacto danoso nas contas públicas. E isso justamente no momento em que a crise econômica internacional recomenda redobrada cautela.

Como disse a presidente Dilma Rousseff, não é hora nem de promover "aventuras fiscais" nem de "brincar à beira do precipício".

O alerta, aliás, vale para o próprio Executivo, com seus seguidos pacotes emergenciais de isenção fiscal, que já põem em risco a meta de superavit primário (a economia de gastos para ajudar a pagar juros da dívida pública federal).

Entre as ameaças em cena estão a extinção do fator previdenciário, o piso salarial para agentes de saúde, a redução da jornada de enfermeiros, a autonomia para Judiciário e Legislativo aumentarem seus salários e a reserva compulsória de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) para a educação.

Esta última medida, exemplar em seus contornos temerários, já foi aprovada pela comissão da Câmara que analisa o Plano Nacional de Educação 2011-2020 (PNE). O texto, que fixa diretrizes para o setor, foi encaminhado à Câmara pelo Executivo com a proposta de uma progressiva elevação das despesas até atingir 7% do PIB.

A escalada rumo aos 10% começou com o relator Angelo Vanhoni (PT-PR), que acenou com um aumento para 8%. A seguir, pressões da oposição e de entidades ligadas ao ensino acrescentaram dois pontos percentuais à meta.

Em quase dez anos de governo petista os gastos públicos com educação passaram de cerca de 4% do PIB para os atuais 5,1% -um percentual compatível com os padrões internacionais.

Em números absolutos, o cumprimento da proposta representaria um desembolso suplementar de R$ 230 bilhões ao ano. A cifra equivale a dez vezes as despesas com o Bolsa Família.

De onde sairiam os recursos? A comissão não se deu ao trabalho de identificar nenhuma fonte sustentável. Limitou-se a lançar o número, como se a verba brotasse espontaneamente, na mesma vazão da falta de seriedade com que tantas vezes se encaram as despesas públicas no Legislativo.

A consequência óbvia seria aumentar tributos -o que representaria mais um despautério.

O Brasil viveu, nos últimos anos, um ciclo virtuoso de crescimento do PIB e elevação da renda das famílias. Enfrenta, agora, as dificuldades impostas pela crise mundial e pelas restrições do modelo de expansão do crédito e do consumo. Um Congresso mais sério daria sua contribuição para melhorar, e não deteriorar, o quadro econômico.

Será que os ilhéus querem mesmo 'autonomia'? - GILLES LAPOUGE


O ESTADÃO - 29/06


A Ilha de Jersey revoltou-se. Ela ameaça a Grã-Bretanha. Se David Cameron e seus ministros continuarem a aborrecê-la, Jersey proclamará sua independência. Ela soltará as amarras que a prendem à Grã-Bretanha desde 1204.

A Ilha de Jersey não é grande coisa. Com uma superfície de 119,49 quilômetros quadrados e 97.857 habitantes, é um país microscópico mesmo se lhe adicionarmos os dois recifes - de Ecrébon e Minquiers - que controla. No entanto, sua cólera impressiona Londres ainda que a rainha Elizabeth II, que continua sendo a soberana de Jersey (com um título bizarro e cheirando a Idade Média, de "duquesa da Normandia"), ainda não tenha ameaçado enviar até ela a Marinha Real, como fez com as Malvinas.

Qual a razão de todo esse estardalhaço? O peso histórico, primeiro.

Todos os cônjuges sabem: não se interrompe uma relação de um milênio sem um aperto no coração. E isso não é tudo. Jersey é magnífica. Os turistas a adoram. As pessoas veem-se cercadas pela violência do mar. E o clima permite instalar ali aqueles jardins extraordinários que os britânicos tanto apreciam.

De mais a mais, Jersey tem bancos. Muitos bancos. Bancos sutis, já que Jersey, de longa data um paraíso fiscal, também emprega seus talentos para facilitar a vida daqueles pobres milionários que o fisco britânico gosta de depenar.

O que deixou David Cameron com a pulga atrás da orelha é o caso de um astro britânico da comédia, Jimmy Carr. Esse Jimmy, que ganha somas monumentais, havia montado um lindo circuitozinho: ele colocava seu dinheiro em Jersey num "trust", uma estrutura jurídica opaca, e o recuperava sob a forma de empréstimos. Desse jeito, ele só pagava 1% de impostos sobre sua fortuna. Foi isso que levou Cameron a se debruçar sobre os meandros fiscais e financeiros de Jersey.

O ministro-chefe e senador de Jersey, Philip Bailhache, esperneou.

Os habitantes de Jersey, que são chamados ora de jersianos, ora de (não se sabe bem por que) "sapos", vingam-se lembrando que o pai de David Cameron fez fortuna precisamente nos paraísos fiscais e era o presidente de um fundo de investimentos (o Close International Asset Management) com base em... Jersey.

Eis por que Jersey ameaça declarar sua independência. "A ilha precisa se preparar para se defender", martelou Phlip Bailhache. Mas a batalha de Jersey é mais uma batalha "pela honra", pois a ofensiva contra Jersey é conduzida, de fato, não por Londres, mas por Bruxelas, pela União Europeia. É por isso, aliás, que a Ilha de Jersey, cuja diplomacia é assegurada pela Secretaria de Relações Exteriores (Foreign Office) de Londres, abriu no ano passado uma embaixada em Bruxelas e, neste ano, vai abrir uma segunda embaixada... em Londres.

Os habitantes da ilha estão furiosos, mas não muito. Eles estão inquietos, mas não muito. Sabem que sua ilha continuará sendo um pedaço do Império Britânico, como é desde 1204. Eles se unem pela ironia. Lembram-se que Jersey, em 1066, pertencia a um Ducado da Normandia na França, cujas tropas transpuseram o Canal da Mancha e tomaram o poder na Inglaterra.

Ora, entre os soldados do duque francês da Normandia, naquele tempo, havia alguns soldados de Jersey. Daí que os "sapos" também têm o hábito de dizer, à noite, contemplando seu belo litoral, a impetuosidade do mar e, ao longe, a direção de Londres: "Afinal, fomos nós que conquistamos a Inglaterra, em 1066, com o duque da Normandia. Portanto, a Inglaterra pertence a Jersey, e não o inverso." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

O exagero do crédito pessoal - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

FOLHA DE SP - 29/06


O maior endividamento de muitos brasileiros levou a inadimplência mais grave do que previam os analistas


Tenho chamado a atenção do leitor da Folha sobre as mudanças estruturais que vêm ocorrendo no Brasil nos últimos seis anos. São alterações importantes no metabolismo de nossa economia de mercado, criadas por um longo período de estabilidade e de crescimento.

Reportei também os efeitos positivos que ocorrem em países emergentes quando a gestão macroeconômica correta por vários anos acaba afetando as expectativas dos consumidores e de empresas produtoras de bens e de serviços.

Em outras palavras, quando o futuro passa a ser previsível e confiável, o chamado "espírito animal" do homem é liberado e entra-se em um período econômico virtuoso. Vivemos no Brasil esse cenário, principalmente no segundo mandato de Lula.

Mas, como o grande Keynes nos ensinou há muito tempo, o "espírito animal" leva também a exageros e a desequilíbrios negativos que passam a ocorrer devido aos riscos excessivos assumidos pelos agentes econômicos. Vivemos nestes dois primeiros anos do mandato da presidenta Dilma Rousseff, no caso do consumidor, um exemplo clássico dessa situação.

O crescimento vertiginoso do crédito ao consumo fez com que, em curto período de tempo, o endividamento do brasileiro com o sistema bancário passasse de 6% do PIB para mais de 16%. Esse aumento do endividamento de parcela importante dos brasileiros, tanto na chamada nova classe média como nos segmentos de renda mais baixa, criou uma situação de inadimplência mais grave do que previram os analistas mais atentos às questões microeconômicas.

Os pagamentos de dívidas chegaram a superar 40% da renda de muitos brasileiros, levando a uma parada súbita no ritmo do consumo, principalmente de bens de consumo.

O impacto sobre o crescimento foi imediato. Neste primeiro semestre, o PIB praticamente não cresceu, o que provocou revisão generalizada das previsões para o ano. Antes dessa freada do consumidor -agravada pelo recuo dos bancos na oferta de crédito-, as previsões apontavam para crescimento entre 3% e 3,5%. Hoje, os números mais realistas estão no intervalo entre 1,5% e 2% para o ano inteiro.

Mas é preciso olhar para a frente com cuidado. A massa total de salários está crescendo no Brasil há alguns meses a taxas reais próximas de 12% ao ano, o que vai facilitar os ajustes dos devedores mais ousados.

No segundo semestre, a inadimplência do consumidor vai se reduzir e, na virada para 2013, os gastos vão voltar a crescer. Apenas uma situação de colapso na Europa -cenário no qual não acredito- pode mudar esse curso das coisas. Os economistas da Quest projetam crescimento do PIB da ordem de 4,5% a 5% entre o quarto trimestre deste ano e o primeiro de 2013, o que deve acalmar os mercados e fazer com que os empresários normalizem seus planos de investimento.

Na volta do consumidor às compras, a queda dos juros, que vem ocorrendo há alguns meses, vai servir como estímulo adicional, reforçando esse cenário de recuperação. Por outro lado, os juros reais, da ordem de 3% ao ano nas aplicações financeiras, devem alterar o equilíbrio entre poupança e consumo nas classes de renda mais elevada. Mas só o tempo pode nos levar a essa situação mais favorável.

Nessas condições, aconselho a equipe econômica a ter paciência e a evitar sinais de desespero que aparecem com os chamados "pacotes de estímulos" em cascata. A economia brasileira é hoje muito maior do que o valor desses estímulos, e apenas setores específicos podem reagir a eles. Mas, no agregado e com capacidade de mudar o crescimento do PIB, apenas mudanças estruturais no gasto e no investimento podem ter alguma influência.

Redução do risco sistêmico com a Europa, normalização do crescimento chinês depois de um longo período de ajustes e estabilização da vida financeira dos consumidores são eventos que não dependem do ativismo do governo brasileiro. E sem eles as ações do governo serão sempre de pouco efeito sobre a economia.

O Mercosul sob influência chavista - EDITORIAL O GLOBO


O GLOBO - 29/06
A reunião de cúpula do Mercosul, em Mendoza, teria, em condições normais, ampla agenda para discutir, pois ocorre no momento em que o eixo do bloco comercial, Brasil-Argentina, enfrenta graves problemas, devido ao protecionismo crescente dos argentinos. Mas terminou dominada pela questão político-diplomática do destino do Paraguai no acordo comercial, pauta imposta pelos interesses chavistas representados no grupo.
Não é por acaso que, segundo consta, Dilma Rousseff foi alertada pela presidente argentina, Cristina Kichner, na Rio+20, sobre o processo de impeachment em curso contra o paraguaio Fernando Lugo. Cristina K. há tempos assume ares bolivarianos, e se mostra bem mais próxima do caudilho venezuelano, do qual o ex-bispo Lugo também é aliado.

O governo brasileiro reagiu num impulso - erro primário em política e diplomacia -, ao entrar no coro de denúncia do "golpe parlamentar" supostamente desfechado contra Fernando Lugo. Horas depois, Brasília reduziu os decibéis das declarações e, em alguma medida, atenuou o tom. Mas, na essência, manteve o sentido punitivo contra um dos fundadores do Mercosul, um país com o qual tem laços estreitos de interdependência, mais que a Argentina.

O chavismo não perdoa o Congresso paraguaio por ele ter sido o único obstáculo a que a Venezuela chavista entre no Mercosul, um passo temerário, diante do conhecido poder desagregador do caudilho e do seu isolamento crescente no mundo.

Afastar o aliado Lugo, num processo de impeachment muito rápido, contra um dos requisitos da democracia que é o amplo direito de defesa - mas sem ferir qualquer dispositivo da Constituição do país -, colocou o Congresso de vez na linha de tiro dos interesses de Chávez no continente.

Alertada Dilma por Cristina K., o Brasil aceitou ser terceirizado no contra-ataque ao Paraguai. Sério equívoco diplomático. Espera-se que haja em Brasília alguém preocupado com alternativas para reduzir danos futuros decorrentes desta terceirização deplorável.

O maior dos danos é o óbvio: problemas no fornecimento de energia de Itaipu, pouco mais de 15% do consumo nacional, incluindo a parte não utilizada pelos paraguaios e comprada pelo Brasil. É uma parcela significativa. São risíveis as tentativas de autoridades brasilienses de minimizar esta dependência, com o argumento do atual desaquecimento econômico. Ora, teria de haver uma depressão para o Brasil poder abrir mão de Itaipu.

Segundo o ministro de Relações Exteriores brasileiro, Antonio Patriota, há o consenso de não se impor sanções ao Paraguai, por suposta afronta à "cláusula democrática" do Mercosul. Mas o país continuaria suspenso do bloco, até as eleições do ano que vem. Pode não atender aos espíritos mais radicais existentes em Buenos Aires, Brasília e Montevidéu, mas abre uma janela para Chávez, enfim, entrar no acordo comercial, com todo seu poder de desagregação. E quando o Paraguai voltar ao grupo?

Um erro, como se vê, costuma produzir outros erros, em sucessão. O Mercosul sai menor de todo este episódio.

Custo Lula _ CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 28/06



Há menos de três anos, em 17 de setembro de 2009, o então presidente Lula apresentou-se triunfante em uma entrevista ao jornal Valor Econômico. Entre outras coisas, contou, sem meias palavras, que a Petrobrás não queria construir refinarias e ainda apresentara um plano pífio de investimentos em 2008. “Convoquei o conselho” da empresa, contou Lula. Resultado: não uma, mas quatro refinarias no plano de investimentos, além de previsões fantásticas para a produção de óleo.
Em 25 de junho último, a Petrobrás informa oficialmente aos investidores que, das quatro, apenas uma refinaria, Abreu e Lima, de Pernambuco, continua no plano com data para terminar. E ainda assim, com atraso, aumento de custo e sem o dinheiro e óleo da PDVSA de Chávez. Todas as metas de produção foram reduzidas. As anteriores eras “irrealistas”, disse a presidente da companhia, Graça Foster, acrescentando que faria uma revisão de processos e métodos. Entre outros equívocos, revelou que equipamentos eram comprados antes dos projetos estarem prontos e aprovados.
Nada se disse ainda sobre os custos disso tudo para a Petrobrás. Graça Foster informou que a refinaria de Pernambuco começará a funcionar em novembro de 2014, com 14 meses de atraso em relação à meta anterior, e custará US$ 17 bilhões, três bi a mais. Na verdade, as metas agora revistas já haviam sido alteradas. O equívoco é muito maior.
Quando anunciada por Lula, a refinaria custaria US$ 4 bilhões e ficaria pronta antes de 2010. Como uma empresa como a Petrobrás pode cometer um erro de planejamento desse tamanho? A resposta é simples: a estatal não tinha projeto algum para isso, Lula decidiu, mandou fazer e a diretoria da estatal improvisou umas plantas. Anunciaram e os presidentes fizeram várias inaugurações.
O nome disso é populismo. E custo Lula. Sim, porque o resultado é um prejuízo para os acionistas da Petrobrás, do governo e do setor privado, de responsabilidade do ex-presidente e da diretoria que topou a montagem.
Tem mais na conta. Na mesma entrevista, Lula disse que mandou o Banco do Brasil comprar o Votorantim, porque este tinha uma boa carteira de financiamento de carros usados e era preciso incentivar esse setor. O BB comprou, salvou o Votorantim e engoliu prejuízo de mais de bilhão de reais, pois a inadimplência ultrapassou todos os padrões. Ou seja, um péssimo negócio, conforme muita gente alertava. Mas como o próprio Lula explicou: “Quando fui comprar 50% do Votorantim, tive que me lixar para a especulação”.
Quem escapou de prejuízo maior foi a Vale. Na mesma entrevista, Lula confirmou que estava, digamos, convencendo a Vale a investir em siderúrgicas e fábricas de latas de alumínio. Quando os jornalistas comentam que a empresa talvez não topasse esses investimentos por causa do custo, Lula argumentou que a empresa privada tem seu primeiro compromisso com o nacionalismo.
A Vale topou muita coisa vinda de Lula, inclusive a troca do presidente da companhia, mas se tivesse feito as siderúrgicas estaria quebrada ou perto disso. Idem para o alumínio, cuja produção exige muita energia elétrica, que continua a mais cara do mundo.
Ou seja, não era momento, nem havia condições de fazer refinarias e siderúrgicas. Os técnicos estavam certos. Lula estava errado. As empresas privadas foram se virando, mas as estatais se curvaram.
Ressalva: o BNDES, apesar das pressões de Brasília, não emprestou dinheiro para a PDVSA colocar na refinaria de Pernambuco. Ponto para seu corpo técnico.
Quantos outros projetos e metas do governo Lula são equivocados? As obras de transposição do rio São Francisco estão igualmente atrasadas e muito mais caras. O projeto do trem bala começou custando R$ 10 bilhões e já passa dos 35 bi.
Assim como se fez a revisão dos planos da Petrobrás, é urgente uma análise de todas as demais grandes obras.
Mas há um outro ponto, político. A presidente Dilma estava no governo Lula, em posições de mando na área da Petrobrás. Graça Foster era diretoria da estatal. Não é possível imaginar que Graça Foster tenha feito essa incrível autocrítica sem autorização de Dilma.
Ora, será que as duas só tomaram consciência dos problemas agora? Ou sabiam perfeitamente dos erros então cometidos, mas tiveram que calar diante da força e do autoritarismo de Lula?
De todo modo, o custo Lula está aparecendo mais cedo do que se imaginava. Inclusive na política.

PIB minguante - CELSO MING


O ESTADÃO - 29/06

Nesta quinta-feira, o Banco Central anunciou no seu Relatório de Inflação que refez suas projeções de crescimento do PIB para este ano. Não será mais de 3,5%, como avaliara no início do ano, mas de 2,5%.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deve estar aborrecido com o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, porque esses números há meses não se afinam com os do Ministério da Fazenda.

Quando, em março, o Banco Central avisou que esperava um avanço do PIB neste ano de somente 3,5%, Mantega apostava todas as suas fichas em alguma coisa entre 4,5% e 5,0%. A título de explicação para essas diferenças, afirmou que sabia projetar esses números bem melhor do que o Banco Central.

Na semana passada, o Credit Suisse avisou seus clientes que seus cálculos não apontavam um crescimento em 2012 superior a 1,5%. Mantega declarou que esse número não passava de "uma piada".

Há dez dias, o mercado indicava pela Pesquisa Focus, do Banco Central, que já trabalhava com um crescimento do PIB de 2,30%. Provavelmente, a edição desse boletim na próxima segunda-feira acusará projeção ainda mais baixa. Nesta quinta-feira, a Fiesp divulgou suas novas projeções, entre as quais a de um aumento do PIB de apenas 1,8%. Ou seja, estão todos bem mais próximos da piada do Credit Suisse do que dos números mágicos do ministro.

Mas a questão mais importante não são as eventuais diferenças nas projeções. É examinar por que o setor produtivo avança devagar-quase-parando enquanto o consumo cresce entre 5,0% e 6,0%.

Como esta Coluna já apontou na edição de quarta-feira, o governo agora tende a descarregar o resultado insatisfatório do PIB sobre a crise externa: o empresário está com medo e vai desacelerando, argumenta o governo. Não dá para negar esse efeito. A perda de confiança é trava a levar em conta. Outro fator, também já apontado aqui, é a política excessivamente intervencionista do governo: o empresário não aciona seu espírito animal porque fica esperando mais favores do governo.

Mas há um terceiro fator, mais profundo e de ação mais duradoura. Esta crise mostrou ao industrial que, por mais brilhante que seja, a empresa dele não é competitiva. Se pisar no acelerador e aumentar os investimentos, corre sério risco de perder dinheiro.

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, vem explicando que até mesmo a indústria mais moderna do mundo instalada no Brasil não tem mais como competir com o setor produtivo de outras partes do mundo, porque enfrenta custos insuportáveis do portão da fábrica para fora.

Nesta quinta-feira, em palestra no Congresso Brasileiro do Aço, realizado em São Paulo, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca argumentava que o investimento siderúrgico no Brasil não sai por menos de US$ 1,8 mil por tonelada de capacidade. Enquanto isso, na Índia sai por US$ 1 mil e na China, por US$ 550. Nessas condições, quem é o maluco que vai pôr dinheiro na produção de aço no Brasil?

O governo Dilma entendia que bastaria derrubar os juros, puxar as cotações do dólar e espremer os bancos para que baixassem os juros para que o PIB disparasse. Não é o que está acontecendo. A maior parte dos estímulos foi concedida ao consumo: os salários foram esticados e o crédito foi encorajado. No entanto, o setor produtivo vai afundando nos custos - no custo Brasil. O pessoal da Fiesp chama a isso de desindustrialização.

Água e óleo - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 29/06
Agora é oficial, o crescimento do PIB este ano está por volta de 2,5%, o que é menos do que no ano passado e encerra biênio de PIB muito fraco. Para sair do marasmo, o governo precisaria fazer o que não tem feito. Os sucessivos pacotes repetem a mesma fórmula de distribuir vantagens a alguns, mas não melhoram a eficiência de todos. A lógica do governo está expressa na decisão de tirar imposto da gasolina e aumentar o imposto da água mineral.
A água mineral está, como dissemos aqui ontem, entre os produtos que terão mais impostos nos próximos anos. A indústria de bebidas - água, refrigerantes e cervejas - é que pagará parte da conta dos benefícios concedidos a outros setores, como automóveis, em pacotes recentes.

Desde segunda-feira, gasolina e diesel deixaram de recolher a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), que até a semana passada recolhia R$ 420 milhões por mês, e que em 2002 chegou a arrecadar R$ 1 bilhão por mês.

Esta é uma das curiosidades da política econômica atual: não se sabe nada sobre qual a sua direção. A presidente Dilma Rousseff disse que não daria novas vantagens tributárias porque não é hora de "brincar à beira do abismo". Isso dias depois de abrir mão de quase R$ 6 bilhões por ano, só para não aborrecer os donos de carros na hora de abastecer seus tanques. E fez esse incentivo ao uso do combustível fóssil apesar do custo que isso tem para a indústria do etanol.

Na quarta-feira ficou decidido também aumentar o subsídio aos empréstimos do BNDES. Eles agora pagarão TJLP de 5,5%, retroativo a quem já contratou empréstimo. Quase todas as grandes empresas brasileiras têm empréstimos no BNDES e receberam esse bônus.

Ao mesmo tempo, o governo coleciona frustração de receita. Tem recolhido menos impostos do que tinha previsto. A entrada menor de recursos é uma prova de que a atividade econômica está ficando cada vez mais fraca. Somando tudo: o governo abre mão de receita de uma forma equivocada num momento de frustração de receita.

No Relatório de Inflação, divulgado ontem, o Banco Central fez uma lista das mazelas externas que nos atingem: na Europa a crise está maior, mais longa e mais funda do que o previsto; a retomada do crescimento americano está mais incerta do que o imaginado; a China está reduzindo o ritmo de crescimento em percentual surpreendente.

Tudo isso é verdade. O problema não é apenas o mundo. É a qualidade da nossa resposta. Ela tem sido fraca e sem nexo. O governo tem reagido aos pedidos dos lobbies por redução de tributos ou custos de financiamento do BNDES, mas não fez ainda uma lista de ações para avançar de fato na modernização do país, que sustentem o crescimento.

As vantagens concedidas não têm contrapartida. Nenhuma empresa ou setor que recebe o mimo de um imposto mais baixo e um empréstimo mais barato se compromete com qualquer coisa, seja aumento da eficiência energética, vigilância sobre práticas das suas cadeias produtivas, redução do impacto ambiental, investimento em inovação. O governo, no pacote desta semana, avisou que vai comprar antecipadamente e pagar até 25% mais caro de empresa que produzir no Brasil. É um incentivo à acomodação e à elevação de preços através das compras governamentais.

Na apresentação feita ontem do Relatório de Inflação, o Banco Central disse que a inflação está convergindo para a meta de 4,5% este ano e terá pequena alta no ano que vem. Nada que assuste. Isso porque está importando "desinflação" do mundo. O crescimento menor dos países está provocando uma redução do preço de matérias-primas, o que diminui o ritmo inflacionário no Brasil. Mas é claro também que os preços estão em queda pela elevação dos juros no começo de 2011, que ajudou a reverter um quadro de forte aquecimento da atividade.

Segundo a avaliação do Banco Central está havendo um "crescimento moderado do crédito, em torno de 15%". Primeiro, esse ritmo não é moderado para um crescimento anual; segundo, o crédito vem crescendo a taxas acima dessa há vários anos, como mostramos em gráfico esta semana; terceiro, a inadimplência está aumentando muito. Incentivar o endividamento desordenado das famílias é sim brincar à beira do abismo. São muitos os países que tiveram problemas recentes por excesso de dívida privada.

O Banco Central também avalia que "a atividade econômica está em aceleração". Isso não está amparado nos fatos. O ritmo de atividade pode aumentar ao longo dos próximos meses, mas ainda não há sinais de que isso já esteja acontecendo.

O BC foi surpreendido pela queda maior do nível de atividade. A redução do ritmo foi mais forte do que o imaginado. Para reverter o quadro, aceitou até fazer uma apressada liberação de compulsório apenas para os bancos aumentarem a oferta de empréstimos para a compra de carro.

O Relatório de Inflação sempre traz um amplo diagnóstico da economia brasileira. Os pacotes sucessivos revelam a forma como o governo está pensando em reverter os problemas na conjuntura econômica. Os pacotes e o relatório juntos contam o quanto o governo tem errado na avaliação desta crise.

CLAUDIO HUMBERTO

“Não acho apropriado para um ser humano”
FHC, ironizando a promessa que Lula fez de “morder a canela” dos adversários

PMDB RECORRE A JEFFERSON PARA ATRAIR O PTB EM SP

Na corrida contra petistas e tucanos, pelo apoio do PTB ao candidato a prefeito Gabriel Chalita, em São Paulo, o vice-presidente da República Michel Temer e o presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RR), conversaram, na terça-feira, com o presidente do PTB, Roberto Jefferson. Eles sabem que Jefferson é brigado com o tucano José Serra desde 2010 e também tem desavenças sérias com o PT – sequelas do mensalão.

MAIS TEMPO DE TV

O PMDB oferece vaga de vice a Luiz D’Urso (PTB). Em troca, ganha 49 segundos em cada um dos dois blocos da propaganda eleitoral de televisão.

ALIANÇA TRADICIONAL

Temer e Raupp tentarão convencer o presidente do PTB de São Paulo, Campos Machado, que parece preferir aliança com o PSDB.

OUTRA VIA

O PMDB também considera a alternativa de Paulinho da Força (PDT) para vice de Gabriel Chalita, que conta hoje só com PSC, PTC e PSL.

GUERRILHA

O PT prepara uma brigada de “militantes virtuais” nas redes sociais da internet para defender os “seus”, durante o julgamento do mensalão.

PF PRENDE E SOLTA HUMORISTA MUÇÃO EM FORTALEZA

O conhecido humorista e radialista Rodrigo Vieira, o “Mução”, muito querido sobretudo no Nordeste, foi preso pela Policia Federal em Fortaleza (CE) na Operação DirtyNet, contra suspeitos de pedofilia e pornografia na internet. Mas, ops!, foi solto logo em seguida por “falta de provas”, segundo parentes. Ele é filho da ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira, demitida após “trombar” com a presidente Dilma.

PEDALA, RECEITA

Lina Vieira revelou encontro com a então ministra Dilma, que lhe teria ordenado “pressa” nas investigações contra um filho de José Sarney.

OPERAÇÃO “ABAFA”

Dilma negou o encontro, confirmado no Senado por Lina, que entendeu ter sido “pressão” para abafar o caso, hoje em segredo de Justiça.

SENADOR POTTER

O senador Magno Malta (PR-ES) adora provocar o atuante senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), chamando-o de “Harry Potter”.

ATÉ MAIS TARDE

Lula reiterou, ontem, ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), que o compromisso deles é para a eleição de 2014. Mas em 2012, no Recife, o candidato dele, do PT e de Dilma é Humberto Costa.

PASSA A VEZ

O ministro Garibaldi Alves (Previdência) confidenciou a amigos que gostaria de disputar a presidência do Senado, mas sua prioridade, hoje, é o primo Henrique Alves (PMDB-RN), próximo presidente da Câmara.

MARCO PARA MAIA

Para o senador Paulo Paim (PT-RS), a votação do fator previdenciário será “um marco” para o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), também um ex-sindicalista: “O governo não gosta, mas engole a ideia”.

SEM CLIMA

O deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) está em “afastamento branco” da CPI do Cachoeira até o julgamento do seu caso no Conselho de Ética, dia 4: “Não tem clima para continuar lá”.

SIMPATIA É QUASE AMOR

Do deputado Silvio Costa (PTB-PE), elogiando a postura do vice-presidente da CPI do Cachoeira, Paulo Teixeira (PT-SP): “Vossa excelência tem a cara do genro que todo sogro gostaria de ter”.

BARATAS CINÉFILAS

O filme Sombras da Noite, na sala 8 do Cinemark Pier 21, de Brasília, foi interrompido quarta-feira à noite por muitas baratas. Clientes reclamaram nas redes sociais da empresa, mas as mensagens foram deletadas.

REVERÊNCIA RELIGIOSA

O deputado Cláudio Abrantes (PPS), que interpretou Jesus na Paixão de Cristo de Planaltina (DF), pediu a palavra na Câmara Legislativa, ontem, e o presidente cedeu: “Como negaria alguma coisa a Cristo?”.

CONFEA-TUR

O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) pagará mais de R$ 4 milhões a uma empresa de turismo. A agência Money prestará serviços a conselheiros e presidente que atuam de forma “voluntária”.

PENSANDO BEM...

...o PIB diminuiu tanto, mas tanto, que qualquer dia o ministro Guido Mantega estará sentado em cima dele.


PODER SEM PUDOR

DEFINIÇÃO DE GOVERNO

Dias antes do suicídio que o fez entrar para a História, Getúlio Vargas teve uma conversa com seu ministro da Viação, José Américo de Almeida:

– Impossível governar este País. Os homens de verdadeiro espírito público vão escasseando cada vez mais – desabafou Getúlio.

– E o que é que o senhor acha dos homens de seu governo? – perguntou José Américo.

O ex-ditador observou, desolado:

– A metade não é capaz de nada e a outra metade é capaz de tudo.

SEXTA NOS JORNAIS


- Globo: Rumo às urnas – TSE recua e libera contas sujas já nestas eleições
- Folha: Supremo assegura tempo de TV a partido de Kassab
- Estadão: Servidores ligados à CUT ameaçam greve geral
- Correio: Acesso a salários leva CUT à Justiça
- Valor: Cai investimento das empresas do Brasil no exterior
- Estado de Minas: Vai doer também no seu bolso
- Jornal do Commercio: PF ataca rede de pedofilia
- Zero Hora: Porto Alegre – Parque da Redenção terá cerca virtual para aumentar a segurança

quinta-feira, junho 28, 2012

O mito e os fatos - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 28/06

A mais recente pesquisa do Datafolha mostra que 62% dos eleitores paulistanos e 64% dos simpatizantes do PT acham que o partido agiu mal procurando acordo com Maluf para a prefeitura de São Paulo.

O candidato do bolso do colete de Lula, o ex-Ministro Fernando Haddad, continua sendo apenas isso, mais uma invenção do ex-presidente.

Caiu dois pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, o que não tem significado estatístico, pois está na margem de erro, mas tem peso político porque a pesquisa foi feita logo depois da famosa foto em que Lula aparece nos jardins da mansão de Maluf comemorando o acordo político.

Cair dois pontos percentuais quando se tem 30% de intenções de voto, como tem o candidato tucano José Serra, seria irrelevante - e ele cresceu -, mas os mesmos 2 pontos num total de 8% significam uma queda de 25%, o que por si só explicita a difícil situação em que se encontra o candidato de Lula.

Haddad, que parecia ter iniciado a ascensão após aparecer com Lula no programa do Ratinho e ter quase triplicado as intenções de voto, fato muito comemorado entre os simpatizantes do PT, não conseguiu manter a curva ascendente.

Esperavam os petistas que, depois do episódio Maluf, o candidato de Lula atingisse os dois dígitos nas pesquisas, evidenciando a correção da manobra política de seu mentor.

Lula reagiu aos críticos ao afirmar que não tinha arrependimento nenhum pela foto. E Maluf fez sua análise particular: Erundina deixara a chapa por ciúmes de seu protagonismo, e, diante de Lula no governo, ele, Maluf, considera-se "de esquerda".

O que parece divertir Maluf, e não é para menos, configura-se um problema político de envergadura para o PT paulistano.

A pesquisa Datafolha mostra que os eleitores estão ao lado de Erundina, pelo menos nesse primeiro momento. Nada menos que 67% dos eleitores consideram que Erundina fez muito bem em deixar a chapa de Haddad depois da divulgação da famosa foto.

Havia até em circulação uma curiosa interpretação na base do "falem mal, mas falem de mim". Lula seria tão genial articulador que colocara a imagem de Haddad nas primeiras páginas e nas televisões do país, fazendo com que viesse a ser conhecido pelo eleitorado.

O que para o comum dos mortais parecia erro estratégico, para o infalível líder tinha o dom de alcançar o objetivo de difundir a figura de seu escolhido.Vem a nova pesquisa Datafolha e joga por água abaixo a teoria montada a posteriori, que tentava transformar um erro político em grande lance estratégico.

O diretor do Datafolha, Mauro Paulino, considera que a rejeição ao apoio de Maluf ao PT pode ser determinante na eleição, o que indicaria que não se trata de um efeito passageiro.

Nesse caso, Erundina estaria certa quando comentou que 1min e 30s de propaganda eleitoral não justificam fazer uma aliança que renega uma vida inteira. Aparentemente, esse tempo extra que o PT obteve aderindo a Maluf não será suficiente para reduzir o desgaste provocado pelo acordo, considerado espúrio pela larga maioria do eleitorado paulistano e petista.

O tucano José Serra continua liderando a pesquisa, mas está parado desde o início com 31% das intenções, o que representa o eleitorado cativo do PSDB na capital. Na análise dos petistas, mostra que ele não tem condições de ampliá-lo.

O outro terço deve ficar, como tradicionalmente ocorre, com o candidato do PT, mas, se Haddad não demonstra ser competitivo para buscar no partido o apoio que seria automático, como ir além do eleitorado petista para buscar votos que podem lhe dar vitória?

A estratégia petista tinha um objetivo pragmático, traçado por Lula. Abriu-se mão de uma candidata forte como é a ex-prefeita Marta Suplicy na suposição de que ela não trazia novidade para a campanha que ampliasse seu eleitorado.

O "novo", que Haddad representaria, teria mais facilidade para avançar no eleitorado que, não sendo petista, pode votar no candidato do partido.

Mas, ao mesmo tempo, a candidatura ficou limitada no viés ideológico quando se juntou a Haddad, um comunista saudosista, a ex-prefeita Erundina, que assumiu anunciando que continuava defendendo o socialismo. Para ela, estar no Partido Socialista Brasileiro (PSB) não é retórica, é uma profissão de fé. Com sua saída, o PT foi buscar no PCdoB a companheira de chapa de Haddad, fechando novamente o foco ideológico da candidatura.

Os petistas alardeiam que o candidato tucano José Serra tem mais rejeição do que apoio (35% contra 31%), o que é uma situação realmente incômoda para o candidato. Mas, por essa conta, o candidato petista tem o dobro de rejeição do que de apoio (12% contra 6%).

Lula promete "morder o calcanhar" dos adversários, mas precisará fazer com que Haddad aprenda a morder também, sob o risco de seu candidato ficar exposto ao público como figurante sem expressão.

Além do mais, as pesquisas do Datafolha vêm registrando a queda da influência de Lula como cabo eleitoral na disputa paulistana, embora ele continue sendo o mais influente deles, mais ainda que a própria presidente Dilma, que tem 28% de influência na escolha do candidato, ou que o governador Geraldo Alckmin, que influencia 29% dos eleitores.

O índice de influência de Lula no eleitorado é de 38%, mas o problema para o PT é que em janeiro eram 49% os que diziam que o apoio de Lula os faria votar em determinado candidato.

Se juntarmos a redução da influência de Lula no eleitorado com a incapacidade demonstrada até agora por Fernando Haddad de ser um candidato minimamente competitivo, teremos uma eleição que sugere ser muito mais difícil para o PT do que parecia meses atrás.

Serra já disse que os fatos mostram que Lula não é infalível, pelo menos nas eleições paulistas. Mas Lula é Lula, advertem sempre os petistas, agarrando-se ao mito na esperança da vitória. Lula faz bem em querer trazer para si a disputa contra Serra, nacionalizando a eleição paulistana. Caberá a Serra escapar dessa armadilha, convencendo o eleitorado que está pensando apenas em São Paulo, e não no Brasil.

Moribunda, mas viva - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 28/06


BRASÍLIA - Carlinhos Cachoeira está preso desde fevereiro, a construtora Delta desmoronou, Demóstenes Torres deverá ser cassado no próximo dia 11 e o recesso parlamentar vem aí. Passado julho, começam para valer a eleição municipal e o julgamento do mensalão no STF. Quem é que vai querer saber de CPI?
A pergunta me foi feita anteontem por importante líder político que previa a morte da CPI sem choro nem vela. E foi respondida ontem na moribunda, mas não morta, CPI: o jornalista Luiz Carlos Bordoni fugiu da estratégia do silêncio autorizado pela Justiça e botou a língua nos dentes.
Contou como recebia pelo caixa dois durante a campanha em Goiás, acusou o tucano Marconi Perillo de mentiroso, disse que o governador sabia que sua assessora tinha contatos nada convencionais com o esquema do Cachoeira e jogou na fogueira a própria filha, em cuja conta parte do pagamento foi depositada.
Teatralmente, autorizou a quebra do seu sigilo fiscal, bancário e telefônico, assim como o da filha.
Suas Excelências, que estão cansadas de CPI e doidas para correr para a campanha nos seus municípios, perderam as estribeiras. O Fla-Flu, digo, o PT-PSDB país afora reproduziu-se mais uma vez no campo da CPI, gerando cenas ao vivo daquelas que justificam retirar as criancinhas da sala. Mas quem ganhou a partida ontem foram os petistas.
O tucano Carlos Sampaio trocou desaforos com o petista Paulo Teixeira, o também tucano Mário Couto ficou fora de si quando o jornalista acusou a CPI de não querer apurar nada e saiu berrando que tudo era uma "avacalhação". Bem, nisso nós não discordamos dele. Mas, afora os chiliques, o fato é que não havia como defender Perillo.
A CPI começou tortuosa, continuou tortuosa e tende a chegar a lugar nenhum, só servindo para que PT e PSDB troquem acusações mútuas. Pena que nenhum dos dois lados tenha realmente como se defender.