FOLHA DE SP - 18/04
O investimento requerido pela opção pré-sal é muito superior ao calculado para produzir etanol que substitua 10% da gasolina do mundo
O ex-presidente da Petrobras, dr. Sérgio Gabrielli, em veemente defesa da opção pelo pré-sal, anunciou nesta Folha, em 3 de abril último, que a produção do pré-sal havia atingido 300 mil barris por dia em apenas sete anos. Uau! Por que será que este anúncio não foi feito pela atual presidente da empresa?
Acontece que, em sintonia com essa declaração, vasta propaganda da Petrobras anunciou, inicialmente, 200 mil barris/dia, para ser imediatamente corrigida para os 300 mil barris/dia do dr. Gabrielli.
Tudo bem: que sejam 300 mil. Então, se a tecnologia já permite esse nível de produção, por que essa suposta imensa atividade em pesquisa que envolveria 120 universidades e institutos de Pesquisas, como diz o ex-presidente? Uau! Eu não sabia que o Brasil já possui 120 Institutos e Universidades de Pesquisas.
Essa iniciativa parece, pois, mais um programa de cooptação de apoio político. Há, contudo, males que vêm para o bem. Palmas para a Petrobras.
Outra dúvida: se a produção total nacional não aumentou, será que aquelas contribuições devidas a águas profundas e continente decaíram em tão pouco tempo esses 300 mil barris/dia?
Todavia o que não se explica é como pode a OGX, empresa criada para explorar o pré-sal e que teve o privilégio da escolha das melhores áreas, pois contratou da própria Petrobras equipe especializada, estar hoje em situação tão difícil, tendo seu valor de mercado decaído a 13% de seu valor inicial, ou seja, uma queda de 87%.
Como é possível que áreas adjacentes sejam uma o sucesso triunfante que o dr. Gabrielli alardeia e outra, o retumbante fracasso representado pelo reconhecidamente experto empresário Eike Batista?
Mas tudo bem, pois concomitantemente anuncia a Petrobras que dinheiro não falta e que pretende investir cerca de US$ 237 bilhões para viabilizar os 30 bilhões de barris que seu ex-presidente e agora porta-voz anuncia.
Aliás, a última declaração da presidente Dilma Rousseff, de cuja credibilidade ninguém duvida, sobre o assunto foi que a reserva do pré-sal seria a metade daquela revelada hoje pelo ex-presidente da Petrobras.
Mas teria a opção pré-sal sido inteligente? Esse valor de US$ 237 bilhões é muito superior àquele calculado para os investimentos necessários para uma produção de etanol suficiente para substituir 10% da gasolina do mundo. ("Can Brazil Replace 10% of the 2025 Gasoline World Demand with Ethanol?" Energy, V.34, p. 655-661, 2009, Rogério Cezar de Cerqueira leite et. al.).
A produção de combustíveis líquidos seria, nesse caso, entre duas e três vezes maior que a esperada do pré-sal, de 1,5 a 2 milhões de barris/dia --com a diferença de que o petróleo do pré-sal duraria 50 anos, enquanto o etanol é renovável, ou seja, eterno. E isso se de fato as reservas do pré-sal forem de 30 bilhões de barris, como diz o "insuspeito" porta-voz.
Além do mais, os cálculos realizados para o etanol incluem a logística (inclusive alcooldutos) e se restringem à primeira geração, excluindo ainda cogeração, tecnologias, que hoje já estão desenvolvidas e que, se incluídas, aumentariam expressivamente a produtividade do etanol.
Para tal produção bastariam 10 a 15% da área hoje utilizada para pastagem, ou outra equivalente. Se, entretanto, acreditarmos na presidente Dilma, a produção média em 50 anos de petróleo do pré-sal seria apenas a metade da mencionada acima, ou seja, entre 750 milhões e 1 bilhão de barris.
Talvez seja por essas e outras que a presidente da Petrobras, quebrando uma longa tradição, deixou de se comprometer, delegando a um porta-voz a notícia espalhafatosa.
quinta-feira, abril 18, 2013
O entusiasmo entrega - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 18/04
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) comentava ontem com muita propriedade um velho ensinamento de que política é feita mais de gestos do que de palavras. E quem tem se dedicado a observar como se comportam os jogadores dessa quadra verá que os últimos dias foram fartos nesse aspecto. Nada mais emblemático do que a vibração do vice-presidente da Câmara, André Vargas (PT-PR), o líder da bancada petista, José Guimarães (CE), e do deputado José Genoíno (PT-SP) quando o plenário da Casa aprovou a urgência para o projeto que tira de novos partidos tempo de tevê e fundo partidário.
O entusiasmo, só comparado ao dos torcedores de grandes times de futebol vencedores de campeonatos importantes, é sinal de que nem tudo está bem na base governista. Sendo assim, o PT precisa, e muito, segurar todos os parlamentares onde estão de forma a não abrir mais o leque a outros projetos - leia-se Marina Silva e a Rede; Paulo Pereira da Silva, com o Solidariedade; e o Mobilização Democrática (MD), resultante da fusão PPS-PMN, que deve ter seu estatuto aprovado logo, em tempo de se livrar desse cerco.
Marina Silva é outra história. Detentora de 18% dos votos na eleição passada, fundamentais para que o pleito fosse decidido em segundo turno entre José Serra e Dilma Rousseff, Marina corre contra o tempo para formar a sua Rede até setembro, de forma a ter ainda um período até a primeira semana de outubro para as filiações partidárias. Afinal quem deseja participar de eleição deve se filiar a um partido um ano antes. Esse é seu maior desafio. Se conseguir - e tiver tempo de tevê -, pode atrapalhar o governo. Como o governo, aparentemente, não tem como furar a rede nos tribunais eleitorais, trabalha para evitar que a Rede tenha tempo de tevê e acesso ao fundo partidário.
A comemoração de Guimarães, Vargas e Genoíno não seria tão grande se esses projetos alternativos em gestação não fossem prejudiciais ao Partido dos Trabalhadores. Se tudo estivesse maravilhoso para o PT na política, como está a popularidade de Dilma nas pesquisas, o entusiasmo com essa proposta de tirar tempo de tevê dos novos partidos não seria tão genuíno.
Os petistas já perceberam que a base não é mais tão dócil quanto em tempos passados. E as conversas de bastidor no plenário falam por si. Ontem, por exemplo, o deputado Aníbal Gomes (PMDB-CE) procurou o deputado Júlio Delgado (PSB-MG). Estava interessado em ir a Pernambuco, conversar com o governador Eduardo Campos, pré-candidato a presidente da República pelo PSB. Minutos antes, o senador Aécio Neves, o nome do PSDB para concorrer contra Dilma, havia cruzado os salões da Câmara. Entre uma entrevista e outra, foi abordado por vários deputados governistas interessados em um tête-à-tête com ele, caso, por exemplo, do mineiro Leonardo Quintão, também do PMDB.
Ok, alguns podem apenas se mover no sentido de ver se recebem algum carinho do Planalto. Mas, se gostarem da conversa dos pré-candidatos que despontam por aí, acabam ficando na margem oposta do rio. E, a um ano e meio da eleição, diante das incertezas econômicas, esses gestos de criar pontes para todos os lados é natural. Afinal, conforme alguns economistas têm dito a políticos que os procuram, o Brasil deixou de ser a bola da vez dos investidores, até porque as idas e vindas dos marcos regulatórios de diversos setores os espantam, e essa turma prefere trabalhar com regras claras e sólidas.
Para completar, têm a subida dos juros em 0,25 ponto percentual, que ajuda a segurar a inflação - o mais perverso dos males para as classes mais carentes -, mas frustra aqueles que estão endividados, leia-se a nova classe média. O cenário se completa com o gasto público nas alturas, a criação de estatais em série e a presidente dizendo que não irá fazer sacrifícios em detrimento da população. Isso funciona até um certo tempo, mas não para sempre. Daqui a pouco, caso o dinheiro não dê para cobrir todas as ações governamentais - e não está cobrindo há tempos -, as contas vão estourar e as cobranças recairão sobre Dilma, que por mais seriedade que demonstre em suas ações, não consegue fazer mágica.
Nem fazer vibrar a política.
Enquanto isso, na fonte da saudade...
Com as nuvens carregadas sobre a economia, existe, dentro e fora do Poder Executivo, quem esteja com um certo ar nostálgico ao citar o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci. Há quem diga que, nos tempos dele como comandante da política econômica, havia no ar a sensação de maior controle. Agora, os comentários são de que, embora o governo esteja empenhado nesse controle, os gestos dos ministros e a ampliação do gasto público não deixam isso muito claro.
O entusiasmo, só comparado ao dos torcedores de grandes times de futebol vencedores de campeonatos importantes, é sinal de que nem tudo está bem na base governista. Sendo assim, o PT precisa, e muito, segurar todos os parlamentares onde estão de forma a não abrir mais o leque a outros projetos - leia-se Marina Silva e a Rede; Paulo Pereira da Silva, com o Solidariedade; e o Mobilização Democrática (MD), resultante da fusão PPS-PMN, que deve ter seu estatuto aprovado logo, em tempo de se livrar desse cerco.
Marina Silva é outra história. Detentora de 18% dos votos na eleição passada, fundamentais para que o pleito fosse decidido em segundo turno entre José Serra e Dilma Rousseff, Marina corre contra o tempo para formar a sua Rede até setembro, de forma a ter ainda um período até a primeira semana de outubro para as filiações partidárias. Afinal quem deseja participar de eleição deve se filiar a um partido um ano antes. Esse é seu maior desafio. Se conseguir - e tiver tempo de tevê -, pode atrapalhar o governo. Como o governo, aparentemente, não tem como furar a rede nos tribunais eleitorais, trabalha para evitar que a Rede tenha tempo de tevê e acesso ao fundo partidário.
A comemoração de Guimarães, Vargas e Genoíno não seria tão grande se esses projetos alternativos em gestação não fossem prejudiciais ao Partido dos Trabalhadores. Se tudo estivesse maravilhoso para o PT na política, como está a popularidade de Dilma nas pesquisas, o entusiasmo com essa proposta de tirar tempo de tevê dos novos partidos não seria tão genuíno.
Os petistas já perceberam que a base não é mais tão dócil quanto em tempos passados. E as conversas de bastidor no plenário falam por si. Ontem, por exemplo, o deputado Aníbal Gomes (PMDB-CE) procurou o deputado Júlio Delgado (PSB-MG). Estava interessado em ir a Pernambuco, conversar com o governador Eduardo Campos, pré-candidato a presidente da República pelo PSB. Minutos antes, o senador Aécio Neves, o nome do PSDB para concorrer contra Dilma, havia cruzado os salões da Câmara. Entre uma entrevista e outra, foi abordado por vários deputados governistas interessados em um tête-à-tête com ele, caso, por exemplo, do mineiro Leonardo Quintão, também do PMDB.
Ok, alguns podem apenas se mover no sentido de ver se recebem algum carinho do Planalto. Mas, se gostarem da conversa dos pré-candidatos que despontam por aí, acabam ficando na margem oposta do rio. E, a um ano e meio da eleição, diante das incertezas econômicas, esses gestos de criar pontes para todos os lados é natural. Afinal, conforme alguns economistas têm dito a políticos que os procuram, o Brasil deixou de ser a bola da vez dos investidores, até porque as idas e vindas dos marcos regulatórios de diversos setores os espantam, e essa turma prefere trabalhar com regras claras e sólidas.
Para completar, têm a subida dos juros em 0,25 ponto percentual, que ajuda a segurar a inflação - o mais perverso dos males para as classes mais carentes -, mas frustra aqueles que estão endividados, leia-se a nova classe média. O cenário se completa com o gasto público nas alturas, a criação de estatais em série e a presidente dizendo que não irá fazer sacrifícios em detrimento da população. Isso funciona até um certo tempo, mas não para sempre. Daqui a pouco, caso o dinheiro não dê para cobrir todas as ações governamentais - e não está cobrindo há tempos -, as contas vão estourar e as cobranças recairão sobre Dilma, que por mais seriedade que demonstre em suas ações, não consegue fazer mágica.
Nem fazer vibrar a política.
Enquanto isso, na fonte da saudade...
Com as nuvens carregadas sobre a economia, existe, dentro e fora do Poder Executivo, quem esteja com um certo ar nostálgico ao citar o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci. Há quem diga que, nos tempos dele como comandante da política econômica, havia no ar a sensação de maior controle. Agora, os comentários são de que, embora o governo esteja empenhado nesse controle, os gestos dos ministros e a ampliação do gasto público não deixam isso muito claro.
Vozes da divergência - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 18/04
Revela-se, no Supremo, a preocupação sobre a apropriação excessiva do poder por um ministro
A aparente serenidade no Supremo Tribunal Federal dilui-se e, em seu lugar, apareceram as divergências e os sinais da tensão que antecede a nova etapa da ação 470, ou julgamento do mensalão.
O surgimento simultâneo ontem, em diferentes publicações, de revelações de três ministros do STF sobre sua discordância com o ministro Joaquim Barbosa estava longe de ser apenas coincidência. Indicava, isso sim, a percepção conjunta da necessidade dessas atitudes públicas. A concessão, por oito a um, do dobro do prazo para apresentação dos últimos recursos pelas defesas explica parte das divergências expostas. Mas ainda há o complemento, com o tratamento a ser dado aos recursos finais.
Na afirmação, feita pelos três ministros, de que a Joaquim Barbosa não cabe decidir sozinho um agravo interposto contra ele próprio, revelava-se a preocupação instalada no STF: a apropriação excessiva do poder por um ministro, a ponto de até decidir em causa própria um agravo contra ele, além de relegar atribuições do plenário, implicaria, provavelmente, em restrição ao pleno direito de defesa. Ninguém esperava que Joaquim Barbosa concedesse o prazo pedido pelas defesas, como não concedeu ontem, com seu voto negativo.
Os ministros Marco Aurélio Mello, Ricardo Lewandowski e um terceiro, que pediu a omissão do nome, não foram os únicos a externar tal preocupação. O ministro Celso de Mello os precedera, com opinião similar. Mas é certo que a divergência já incluía ao menos outras duas vozes do tribunal.
As divergências e a tensão agora constatáveis explicam, por exemplo, a ansiedade do ministro Gilmar Mendes pela conclusão rápida da ação 470, com o argumento sem sentido de que "o Brasil não pode continuar refém desse julgamento". E ainda, como a Folha noticiou ontem, com sua declaração de que "é no mínimo naífico [ingênuo]" crer que os recursos das defesas possam mudar decisões do Supremo.
Se não há tal possibilidade, de que serviria o direito constitucional aos recursos? Pelo visto, só para mostrar que o juiz Gilmar Mendes já prejulgou as novas defesas. Caso o ilustre ministro admita esclarecer a plebe a respeito, não precisa fazer cerimônia no uso do seu patético pedantismo vocabular. A plebe também sabe ir ao dicionário.
PRÓ-ABUSO
De Marcos Mendonça, em campanha estilo Fux para substituir João Sayad na presidência da Fundação Padre Anchieta, que administra a TV Cultura de São Paulo: "O governo do Estado é o principal financiador e tem que ser um grande aliado".
É tudo o que a TV Cultura e o governo não devem ser. Ela é do Estado, não do governo. Financiada pelo povo do Estado, não pelo governo. Não pode haver proposta de administração menos ética do que a "aliança" da TV com o governo: é uso de dinheiro público em benefício de políticos e de partido.
DITO E FEITO
As manifestações contrárias a Margaret Thatcher em sua morte, admiráveis pela sinceridade contra a hipocrisia, lembra a atitude única do jornalista Hélio Fernandes na morte do general e ex-ditador Castello Branco, em 1967. Em minucioso artigo na primeira página da sua "Tribuna da Imprensa", Hélio acusou todas as violações de hierarquia, da Constituição que o militar jurara respeitar, a conspiração, o descumprimento dos compromissos assumidos mesmo já no poder. Hélio não dispensou nada ao repassar a vida pública de Castello Branco.
Hélio Fernandes sabia o que o aguardava. E recebeu. Foi preso e mandado para Fernando de Noronha. Hoje, sem a edição impressa da "Tribuna", tem um blog. Com a mesma gana.
Revela-se, no Supremo, a preocupação sobre a apropriação excessiva do poder por um ministro
A aparente serenidade no Supremo Tribunal Federal dilui-se e, em seu lugar, apareceram as divergências e os sinais da tensão que antecede a nova etapa da ação 470, ou julgamento do mensalão.
O surgimento simultâneo ontem, em diferentes publicações, de revelações de três ministros do STF sobre sua discordância com o ministro Joaquim Barbosa estava longe de ser apenas coincidência. Indicava, isso sim, a percepção conjunta da necessidade dessas atitudes públicas. A concessão, por oito a um, do dobro do prazo para apresentação dos últimos recursos pelas defesas explica parte das divergências expostas. Mas ainda há o complemento, com o tratamento a ser dado aos recursos finais.
Na afirmação, feita pelos três ministros, de que a Joaquim Barbosa não cabe decidir sozinho um agravo interposto contra ele próprio, revelava-se a preocupação instalada no STF: a apropriação excessiva do poder por um ministro, a ponto de até decidir em causa própria um agravo contra ele, além de relegar atribuições do plenário, implicaria, provavelmente, em restrição ao pleno direito de defesa. Ninguém esperava que Joaquim Barbosa concedesse o prazo pedido pelas defesas, como não concedeu ontem, com seu voto negativo.
Os ministros Marco Aurélio Mello, Ricardo Lewandowski e um terceiro, que pediu a omissão do nome, não foram os únicos a externar tal preocupação. O ministro Celso de Mello os precedera, com opinião similar. Mas é certo que a divergência já incluía ao menos outras duas vozes do tribunal.
As divergências e a tensão agora constatáveis explicam, por exemplo, a ansiedade do ministro Gilmar Mendes pela conclusão rápida da ação 470, com o argumento sem sentido de que "o Brasil não pode continuar refém desse julgamento". E ainda, como a Folha noticiou ontem, com sua declaração de que "é no mínimo naífico [ingênuo]" crer que os recursos das defesas possam mudar decisões do Supremo.
Se não há tal possibilidade, de que serviria o direito constitucional aos recursos? Pelo visto, só para mostrar que o juiz Gilmar Mendes já prejulgou as novas defesas. Caso o ilustre ministro admita esclarecer a plebe a respeito, não precisa fazer cerimônia no uso do seu patético pedantismo vocabular. A plebe também sabe ir ao dicionário.
PRÓ-ABUSO
De Marcos Mendonça, em campanha estilo Fux para substituir João Sayad na presidência da Fundação Padre Anchieta, que administra a TV Cultura de São Paulo: "O governo do Estado é o principal financiador e tem que ser um grande aliado".
É tudo o que a TV Cultura e o governo não devem ser. Ela é do Estado, não do governo. Financiada pelo povo do Estado, não pelo governo. Não pode haver proposta de administração menos ética do que a "aliança" da TV com o governo: é uso de dinheiro público em benefício de políticos e de partido.
DITO E FEITO
As manifestações contrárias a Margaret Thatcher em sua morte, admiráveis pela sinceridade contra a hipocrisia, lembra a atitude única do jornalista Hélio Fernandes na morte do general e ex-ditador Castello Branco, em 1967. Em minucioso artigo na primeira página da sua "Tribuna da Imprensa", Hélio acusou todas as violações de hierarquia, da Constituição que o militar jurara respeitar, a conspiração, o descumprimento dos compromissos assumidos mesmo já no poder. Hélio não dispensou nada ao repassar a vida pública de Castello Branco.
Hélio Fernandes sabia o que o aguardava. E recebeu. Foi preso e mandado para Fernando de Noronha. Hoje, sem a edição impressa da "Tribuna", tem um blog. Com a mesma gana.
Cyberanonimato - EUGÊNIO BUCCI
O ESTADO DE S. PAULO - 18/04
No Brasil o anonimato é proibido em todas as formas de publicações. Está na letra da lei, no inciso IV do artigo 5.o da Constituição federal, em palavras muito claras e muito simples: "É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato". Com o advento da internet, porém, o quadro deixou de ser tão claro e tão simples. Na realidade digital, a letra da lei talvez seja letra morta.
As tecnologias digitais abriram muitas portas para manifestações de autores que se escondem, se esquivam, escapam a qualquer forma de identificação. Não por acaso, um dos movimentos mais ativos na rede mundial de computadores responde justamente pelo nome de Anonymous congregando ativistas que adotaram por símbolo uma curiosa máscara branca, onde vai estampado um risonho rosto masculino, de moustache, em evocação a um personagem qualquer dos quadrinhos. Em certos círculos digitais, o anonimato, mais que a exceção, é a regra. Há ferramentas para isso. O navegador Google Chrome concede ao seu usuário a abertura de uma "janela anônima". Trata-se, como se vê, de um serviço ao alcance de qualquer um do público.
Isso é mau? Difícil dizer. Antes de ser uma conduta necessariamente pérfida ou dolosa, o expediente de quem oculta o próprio nome pode ser uma estratégia legítima e, às vezes, uma estratégia de sobrevivência. Na história da democracia não foram poucas as ocasiões em que a ocultação do nome do autor contribuiu para a expansão das liberdades. O filósofo inglês John Locke (1632-1704) vivia exilado na Holanda sob nome falso quando publicou anonimamente sua Carta,sobre a tolerância, em 1689. Hoje sua obra é reverenciada como um alicerce da noção essencial de que a fé religiosa de cada um é assunto pessoal, privado, não podendo ser determinada pelo poder estatal. Graças ao anonimato, não nos esqueçamos. Não fosse o recurso de sonegar aos leitores seu nome verdadeiro, é possível que Locke nunca tivesse conseguido publicar sua Carta sobre a tolerância.
Bem sabemos que na internet ninguém é John Locke. As formas de estelionato de opinião proliferam em variações tão criativas quanto malignas. A cada eleição, pipocam blogs e sites apócrifos dedicados exclusivamente a enxovalhar a honra alheia, sob o patrocínio cínico de candidatos graúdos, que fingem que não é nada com eles. Isso não quer dizer que não existam os bons anônimos. Eles existem. Usam em segredo as redes sociais para denunciar desmandos em regimes autoritários - e também em regimes ditos democráticos. Mesmo sem ser John Locke, ajudam a civilização.
O que fazer? Como resolver o problema do anonimato na rede? Seria possível - e seria desejável - regulá-lo? Em tempo: será que isso é de fato um problema? O assunto tende a ganhar mais e mais projeção nas discussões públicas. Hoje mesmo, em Brasília, um novo seminário, desta vez organizado pela Associação Brasileira de Internet (Abranet), reunirá juristas, parlamentares, gente do Poder Executivo e gente da planície para debater a rede e, dentro dela, a livre expressão dos cidadãos. Entre tantos temas cruciais, alguns urgentes, a pergunta sobre o anonimato permanece e permanecerá em aberto, por um bom tempo. Este artigo tem o propósito de completar e aprofundar um pouco mais essa pergunta em aberto.
Voltemos a ela: o que fazer com o cyberanonimato? Essa interrogação já assombrou as melhores redações do País. Os jornais e as revistas mais tradicionais, ou seja, as marcas mais vistosas da chamada "Velha mídia", apanharam e ainda apanham bastante das mensagens apócrifas que recebem no ambiente virtual. Em papel, um diário sério só admite publicar mensagens de leitores que se identifiquem devidamente, com o nome, o endereço e até mesmo o RG. Mas como exigir as mesmas credenciais na esfera digital? Há e-mails com nomes falsos, há todo tipo de dissimulação eletrônica - ficou impossível conferir as credenciais de todos. No início eram tantos os empecilhos técnicos para separar os que mandavam e-mails com nomes autênticos dos que usavam assinaturas fajutas que mesmo os jornais mais vetustos se renderam à avalanche indiscriminada de impropérios (alguns com palavrões) e baboseiras. Publicavam tudo. Mais recentemente, começaram a exigir que os leitores se cadastrassem antes de postar suas mensagens - e pediram a seus blogueiros que recusassem mensagens com teor ofensivo. Um filtro mínimo passou a funcionar, tanto que, hoje, não é mais qualquer barbaridade que encontra abrigo nos portais mais ciosos.
Censura? Na opinião de alguns, sim. Na opinião dos editores, não: apenas um cuidado com base no bom gosto e na responsabilidade, em sinal de respeito aos leitores. Fora isso, a legislação proíbe o anonimato. Portanto, carta anônima não sai.
Fora das redações mais bem estruturadas, contudo, o vale-tudo continua. Qualquer um publica o que bem entender a qualquer hora. Mensagens "de ninguém" ainda conseguem ditar o tom de uma ou outra discussão mais quente. Estamos longe de resolver o assunto, e isso não é necessariamente ruim. Estamos amadurecendo a questão, por assim dizer. Em boa medida, a internet tem sido um ambiente livre. Algum grau de manifestações anônimas integra e complementa a liberdade. Em poucas palavras, não haveria liberdade sem pelo menos um pouco de anonimato.
Até mesmo a legislação brasileira sabe disso. O mesmo artigo 5.o da Constituição, que veda expressamente o anonimato, assegura o sigilo da fonte ao jornalista. Eis o que diz o inciso XIV: "É assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional". Em outras palavras, o jornalista tem o direito de não revelar a ninguém o nome de sua fonte, que restará, para o público e para as autoridades, anônima. Sem isso a democracia seria impensável.
E quanto ao anonimato na internet em geral? A pergunta segue aberta.
As tecnologias digitais abriram muitas portas para manifestações de autores que se escondem, se esquivam, escapam a qualquer forma de identificação. Não por acaso, um dos movimentos mais ativos na rede mundial de computadores responde justamente pelo nome de Anonymous congregando ativistas que adotaram por símbolo uma curiosa máscara branca, onde vai estampado um risonho rosto masculino, de moustache, em evocação a um personagem qualquer dos quadrinhos. Em certos círculos digitais, o anonimato, mais que a exceção, é a regra. Há ferramentas para isso. O navegador Google Chrome concede ao seu usuário a abertura de uma "janela anônima". Trata-se, como se vê, de um serviço ao alcance de qualquer um do público.
Isso é mau? Difícil dizer. Antes de ser uma conduta necessariamente pérfida ou dolosa, o expediente de quem oculta o próprio nome pode ser uma estratégia legítima e, às vezes, uma estratégia de sobrevivência. Na história da democracia não foram poucas as ocasiões em que a ocultação do nome do autor contribuiu para a expansão das liberdades. O filósofo inglês John Locke (1632-1704) vivia exilado na Holanda sob nome falso quando publicou anonimamente sua Carta,sobre a tolerância, em 1689. Hoje sua obra é reverenciada como um alicerce da noção essencial de que a fé religiosa de cada um é assunto pessoal, privado, não podendo ser determinada pelo poder estatal. Graças ao anonimato, não nos esqueçamos. Não fosse o recurso de sonegar aos leitores seu nome verdadeiro, é possível que Locke nunca tivesse conseguido publicar sua Carta sobre a tolerância.
Bem sabemos que na internet ninguém é John Locke. As formas de estelionato de opinião proliferam em variações tão criativas quanto malignas. A cada eleição, pipocam blogs e sites apócrifos dedicados exclusivamente a enxovalhar a honra alheia, sob o patrocínio cínico de candidatos graúdos, que fingem que não é nada com eles. Isso não quer dizer que não existam os bons anônimos. Eles existem. Usam em segredo as redes sociais para denunciar desmandos em regimes autoritários - e também em regimes ditos democráticos. Mesmo sem ser John Locke, ajudam a civilização.
O que fazer? Como resolver o problema do anonimato na rede? Seria possível - e seria desejável - regulá-lo? Em tempo: será que isso é de fato um problema? O assunto tende a ganhar mais e mais projeção nas discussões públicas. Hoje mesmo, em Brasília, um novo seminário, desta vez organizado pela Associação Brasileira de Internet (Abranet), reunirá juristas, parlamentares, gente do Poder Executivo e gente da planície para debater a rede e, dentro dela, a livre expressão dos cidadãos. Entre tantos temas cruciais, alguns urgentes, a pergunta sobre o anonimato permanece e permanecerá em aberto, por um bom tempo. Este artigo tem o propósito de completar e aprofundar um pouco mais essa pergunta em aberto.
Voltemos a ela: o que fazer com o cyberanonimato? Essa interrogação já assombrou as melhores redações do País. Os jornais e as revistas mais tradicionais, ou seja, as marcas mais vistosas da chamada "Velha mídia", apanharam e ainda apanham bastante das mensagens apócrifas que recebem no ambiente virtual. Em papel, um diário sério só admite publicar mensagens de leitores que se identifiquem devidamente, com o nome, o endereço e até mesmo o RG. Mas como exigir as mesmas credenciais na esfera digital? Há e-mails com nomes falsos, há todo tipo de dissimulação eletrônica - ficou impossível conferir as credenciais de todos. No início eram tantos os empecilhos técnicos para separar os que mandavam e-mails com nomes autênticos dos que usavam assinaturas fajutas que mesmo os jornais mais vetustos se renderam à avalanche indiscriminada de impropérios (alguns com palavrões) e baboseiras. Publicavam tudo. Mais recentemente, começaram a exigir que os leitores se cadastrassem antes de postar suas mensagens - e pediram a seus blogueiros que recusassem mensagens com teor ofensivo. Um filtro mínimo passou a funcionar, tanto que, hoje, não é mais qualquer barbaridade que encontra abrigo nos portais mais ciosos.
Censura? Na opinião de alguns, sim. Na opinião dos editores, não: apenas um cuidado com base no bom gosto e na responsabilidade, em sinal de respeito aos leitores. Fora isso, a legislação proíbe o anonimato. Portanto, carta anônima não sai.
Fora das redações mais bem estruturadas, contudo, o vale-tudo continua. Qualquer um publica o que bem entender a qualquer hora. Mensagens "de ninguém" ainda conseguem ditar o tom de uma ou outra discussão mais quente. Estamos longe de resolver o assunto, e isso não é necessariamente ruim. Estamos amadurecendo a questão, por assim dizer. Em boa medida, a internet tem sido um ambiente livre. Algum grau de manifestações anônimas integra e complementa a liberdade. Em poucas palavras, não haveria liberdade sem pelo menos um pouco de anonimato.
Até mesmo a legislação brasileira sabe disso. O mesmo artigo 5.o da Constituição, que veda expressamente o anonimato, assegura o sigilo da fonte ao jornalista. Eis o que diz o inciso XIV: "É assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional". Em outras palavras, o jornalista tem o direito de não revelar a ninguém o nome de sua fonte, que restará, para o público e para as autoridades, anônima. Sem isso a democracia seria impensável.
E quanto ao anonimato na internet em geral? A pergunta segue aberta.
Sobre a distorção da verdade - CAMPOS MACHADO
FOLHA DE SP - 18/04
A não aprovação da PEC 1/2013 será um estímulo ao arbítrio e à perseguição que alguns membros da Promotoria vêm fazendo
Há muito aprendi que nunca se pode pautar a conduta alheia pela própria. E, dos meus avós, nunca esqueci a lição caseira que diz que uma mentira, se bem repetida, ou vira verdade ou dela se aproxima.
Pensando nisso, e numa linguagem simples, desprovida de citações filosóficas próprias de quem busca a sombra da distorção, resolvi abordar um tema que causa arrepios a alguns membros de uma instituição séria e respeitada como o Ministério Público de São Paulo. Estes, julgando-se dotados de superpoderes, adentraram, perigosamente, o terreno do arbítrio, das contendas políticas e do desprezo à honra.
O artigo "Mandonismo à paulista", publicado nesta Folha, em 27/3, além de exibir sintomas de arrogância, deu-me a certeza de que a Proposta de Emenda Constitucional 1/2013, por mim encabeçada, pela qual caberia exclusivamente ao Procurador-Geral de Justiça a competência para propor as ações necessárias contra agentes políticos nelas elencados, é acertada.
Ao contrário do que dizem os autores do artigo, não se pretende proibir as investigações feitas pelo Ministério Público. Mas, na linha de distorção, alegam que o MP vai ser impedido de investigar crimes. Nada mais inverídico e, desculpe-me pelo excesso, nada mais ridículo.
O que se pretende, unicamente, é não mais permitir que alguns promotores públicos, sedentos de holofotes e sem alicerces, continuem enxovalhando honras alheias com picuinhas, perseguições baratas e oportunistas, quase todas levadas pelo sentimento de superioridade de que se acham detentores.
Em quase todas as cidades do Estado (pergunte aos intimidados prefeitos se é verdade), já ocorreram excessos de autoritarismo, de abusos e de perseguições, todas elas de cunho pessoal e político. Parcelas do MP querem administrar as cidades sem terem sido eleitas para tal.
Diga-se ainda que, ao "investigar" fatos que consideram relevantes, primeiro comunicam a imprensa para depois apurar a veracidade dos mesmos. E a honra das pessoas, como fica, após exposta, sem comprovação, à opinião pública?
A nossa proposta é que o procurador-geral --com experiência de anos e sem se sujeitar à influência de opiniões, vaidade ou posição política--, sugira as investigações que achar necessárias. É ofensivo à figura do chefe-geral do MP insinuar que crimes e irregularidades não serão investigados pela instituição, pois o procurador-geral poderá nomear e indicar quantos promotores julgar necessários para apuração de crimes e outras irregularidades.
Os adversários da proposta, entre eles os autores do supracitado artigo, ainda se atrevem a dizer o que pode e o que não pode ser apreciado e votado pela Assembleia Legislativa de São Paulo. Não cheira isso a presunção e a arrogância?
Para ilustrar o drama de prefeitos sob a fúria incontrolável de alguns promotores públicos, um deles, de uma cidade do Vale do Ribeira, impossibilitado pela enxurrada de solicitações sem sentido por parte de um douto e inexperiente promotor público, foi ao seu gabinete e lhe disse: "Doutor, eis as chaves da prefeitura. Pode assumir o meu lugar, pois não aguento mais".
A não aprovação da PEC 1/2013 será um estímulo ao arbítrio, à vaidade, à prepotência e à perseguição que alguns membros da Promotoria do Estado vêm fazendo, desde a aprovação da Constituição de 1988. Aos meus colegas da Assembleia, um apelo: a coragem e a dignidade são irmãs gêmeas.
A não aprovação da PEC 1/2013 será um estímulo ao arbítrio e à perseguição que alguns membros da Promotoria vêm fazendo
Há muito aprendi que nunca se pode pautar a conduta alheia pela própria. E, dos meus avós, nunca esqueci a lição caseira que diz que uma mentira, se bem repetida, ou vira verdade ou dela se aproxima.
Pensando nisso, e numa linguagem simples, desprovida de citações filosóficas próprias de quem busca a sombra da distorção, resolvi abordar um tema que causa arrepios a alguns membros de uma instituição séria e respeitada como o Ministério Público de São Paulo. Estes, julgando-se dotados de superpoderes, adentraram, perigosamente, o terreno do arbítrio, das contendas políticas e do desprezo à honra.
O artigo "Mandonismo à paulista", publicado nesta Folha, em 27/3, além de exibir sintomas de arrogância, deu-me a certeza de que a Proposta de Emenda Constitucional 1/2013, por mim encabeçada, pela qual caberia exclusivamente ao Procurador-Geral de Justiça a competência para propor as ações necessárias contra agentes políticos nelas elencados, é acertada.
Ao contrário do que dizem os autores do artigo, não se pretende proibir as investigações feitas pelo Ministério Público. Mas, na linha de distorção, alegam que o MP vai ser impedido de investigar crimes. Nada mais inverídico e, desculpe-me pelo excesso, nada mais ridículo.
O que se pretende, unicamente, é não mais permitir que alguns promotores públicos, sedentos de holofotes e sem alicerces, continuem enxovalhando honras alheias com picuinhas, perseguições baratas e oportunistas, quase todas levadas pelo sentimento de superioridade de que se acham detentores.
Em quase todas as cidades do Estado (pergunte aos intimidados prefeitos se é verdade), já ocorreram excessos de autoritarismo, de abusos e de perseguições, todas elas de cunho pessoal e político. Parcelas do MP querem administrar as cidades sem terem sido eleitas para tal.
Diga-se ainda que, ao "investigar" fatos que consideram relevantes, primeiro comunicam a imprensa para depois apurar a veracidade dos mesmos. E a honra das pessoas, como fica, após exposta, sem comprovação, à opinião pública?
A nossa proposta é que o procurador-geral --com experiência de anos e sem se sujeitar à influência de opiniões, vaidade ou posição política--, sugira as investigações que achar necessárias. É ofensivo à figura do chefe-geral do MP insinuar que crimes e irregularidades não serão investigados pela instituição, pois o procurador-geral poderá nomear e indicar quantos promotores julgar necessários para apuração de crimes e outras irregularidades.
Os adversários da proposta, entre eles os autores do supracitado artigo, ainda se atrevem a dizer o que pode e o que não pode ser apreciado e votado pela Assembleia Legislativa de São Paulo. Não cheira isso a presunção e a arrogância?
Para ilustrar o drama de prefeitos sob a fúria incontrolável de alguns promotores públicos, um deles, de uma cidade do Vale do Ribeira, impossibilitado pela enxurrada de solicitações sem sentido por parte de um douto e inexperiente promotor público, foi ao seu gabinete e lhe disse: "Doutor, eis as chaves da prefeitura. Pode assumir o meu lugar, pois não aguento mais".
A não aprovação da PEC 1/2013 será um estímulo ao arbítrio, à vaidade, à prepotência e à perseguição que alguns membros da Promotoria do Estado vêm fazendo, desde a aprovação da Constituição de 1988. Aos meus colegas da Assembleia, um apelo: a coragem e a dignidade são irmãs gêmeas.
Um espaço democrático - RONALDO LEMOS
O GLOBO - 18/04
Da mesma forma que a Constituição diz que todos são iguais perante a lei, o princípio da neutralidade da rede diz que todos os usuários e conteúdosdevem ser iguais perante a rede. Essa ideia, longe de ser um tecnicismo de pouca importância, é o pilar da internet. Ela mantém a rede aberta à inovação, à competitividade e à livre iniciativa, à liberdade de expressão e a melhores serviços para o usuário.
Sem neutralidade, a internet fica parecida com a TV a cabo. Os provedores de conexão passariam a oferecer diferentes "pacotes" de serviço. O básico daria acesso apenas a e-mails e mensagens instantâneas. Já o "premium" permitiria acessar música e redes sociais. O "superpremium" permitiria então acesso a vídeos e download de arquivos. Essa situação, hoje impensável, surge no horizonte quando a rede deixa de ser neutra. Em vez de uma, aparecem várias internets restritas, sem os serviços que caracterizam a experiência completa da rede.
Mais grave, os provedores ganhariam o poder de bloquear ou dificultar conteúdos e serviços. Por exemplo, poderiam bloquear o Skype, evitando a competição com a telefonia. Ou ainda reduzir a velocidade de carregamento de vídeos, evitando a competição com serviços de "triple play".
A neutralidade da rede assegura que todos os conteúdos, do e-mail a um vídeo, sejam tratados de forma não discriminatória. Assegura também que todos os usuários, pequenos ou grandes, receberão tratamento equivalente. De outro modo, os provedores poderão cobrar "pedágio" para que um site carregue mais rapidamente. O resultado é trágico para a competitividade. Os grandes sites pagarão para seus conteúdos carregarem rapidamente. Já os pequenos ficarão condenados a uma velocidade de segunda classe, perdendo público.
Ou seja, em vez de expandir a rede e aumentar o número de usuários para gerar mais receitas, os provedores, sem neutralidade, podem simplesmente extrair mais receitas da mesma rede, discriminando serviços. Isso prejudica os incentivos para ampliação da rede e aumento da inclusão digital.
Por todas estas razões, o Marco Civil da Internet - Projeto de Lei em tramitação no Congresso - elegeu a neutralidade como elemento fundamental. Não está sozinho. Os EUA, a França e até mesmo o Chile estão tomando medidas robustas para proteger a neutralidade. Entendem que sem ela a rede perde o papel de alavancar o desenvolvimento e a inovação. Vale lembrar que o Marco Civil não é só mais um Projeto de Lei. Ele foi redigido após um inédito, amplo e aberto processo de consulta pública conduzida por mais de dois anos pelo Ministério da Justiça. Por todas estas razões, é chamado de "a Constituição da internet".
Faz sentido. Afinal, a neutralidade relaciona-se diretamente à liberdade de expressão. Com ela, todos falam em iguais condições na internet, evitando controles ou bloqueios. Sem ela, quem tiver mais dinheiro pode privilegiar seus conteúdos e, assim, prejudicar os demais.
Proteger a neutralidade da rede garante que a internet continue aberta, democrática e inovadora em nosso país. Para isso, aprovar o Marco Civil e os direitos por ele assegurados é o primeiro passo.
Sem neutralidade, a internet fica parecida com a TV a cabo. Os provedores de conexão passariam a oferecer diferentes "pacotes" de serviço. O básico daria acesso apenas a e-mails e mensagens instantâneas. Já o "premium" permitiria acessar música e redes sociais. O "superpremium" permitiria então acesso a vídeos e download de arquivos. Essa situação, hoje impensável, surge no horizonte quando a rede deixa de ser neutra. Em vez de uma, aparecem várias internets restritas, sem os serviços que caracterizam a experiência completa da rede.
Mais grave, os provedores ganhariam o poder de bloquear ou dificultar conteúdos e serviços. Por exemplo, poderiam bloquear o Skype, evitando a competição com a telefonia. Ou ainda reduzir a velocidade de carregamento de vídeos, evitando a competição com serviços de "triple play".
A neutralidade da rede assegura que todos os conteúdos, do e-mail a um vídeo, sejam tratados de forma não discriminatória. Assegura também que todos os usuários, pequenos ou grandes, receberão tratamento equivalente. De outro modo, os provedores poderão cobrar "pedágio" para que um site carregue mais rapidamente. O resultado é trágico para a competitividade. Os grandes sites pagarão para seus conteúdos carregarem rapidamente. Já os pequenos ficarão condenados a uma velocidade de segunda classe, perdendo público.
Ou seja, em vez de expandir a rede e aumentar o número de usuários para gerar mais receitas, os provedores, sem neutralidade, podem simplesmente extrair mais receitas da mesma rede, discriminando serviços. Isso prejudica os incentivos para ampliação da rede e aumento da inclusão digital.
Por todas estas razões, o Marco Civil da Internet - Projeto de Lei em tramitação no Congresso - elegeu a neutralidade como elemento fundamental. Não está sozinho. Os EUA, a França e até mesmo o Chile estão tomando medidas robustas para proteger a neutralidade. Entendem que sem ela a rede perde o papel de alavancar o desenvolvimento e a inovação. Vale lembrar que o Marco Civil não é só mais um Projeto de Lei. Ele foi redigido após um inédito, amplo e aberto processo de consulta pública conduzida por mais de dois anos pelo Ministério da Justiça. Por todas estas razões, é chamado de "a Constituição da internet".
Faz sentido. Afinal, a neutralidade relaciona-se diretamente à liberdade de expressão. Com ela, todos falam em iguais condições na internet, evitando controles ou bloqueios. Sem ela, quem tiver mais dinheiro pode privilegiar seus conteúdos e, assim, prejudicar os demais.
Proteger a neutralidade da rede garante que a internet continue aberta, democrática e inovadora em nosso país. Para isso, aprovar o Marco Civil e os direitos por ele assegurados é o primeiro passo.
Inimigos ocultos - PAULA CESARINO COSTA
FOLHA DE SP - 18/04
RIO DE JANEIRO - O inimigo externo era, até agora, uma das últimas preocupações dos organizadores de Copa e Olimpíada no Brasil, em razão da inexistência de histórico de episódios relevantes no país. O atentado em Boston mostra o quanto é difícil cuidar da segurança de eventos esportivos desse porte.
"Foi horrível", disse uma brasileira que estava lá. E completou: "Ainda bem que não temos isso no Brasil". Essa sensação de alívio, comum a nós brasileiros, vem do fato de nem sabermos o que é viver sob ameaça terrorista. Como o Brasil, e o Rio em particular, vai reagir e se preparar?
Envolvendo diferentes órgãos --Exército, Polícia Federal, Polícia Militar e Abin (agência de inteligência), além dos ministérios da Defesa e da Justiça--, o planejamento de segurança entrou em estado de alerta após as explosões na maratona.
Preocupados com o próximo evento importante --a Copa das Confederações, em junho--, as atenções brasileiras estão voltadas para as investigações nos EUA. Dependendo de quem for responsável pelo atentado lá, o planejamento pode mudar.
O primeiro maior desafio é a Jornada Mundial da Juventude, no final de julho. A visita do novo papa, Francisco, levará milhões de católicos às ruas do Rio. Não pode haver falhas.
A característica de país pacífico, aberto e democrático não pode se transformar em defeito. Sem cultura de prevenção, sem ter o risco no imaginário, qualquer plano de segurança mais ostensiva terá de ser feito com cuidado e, claro, inteligência.
RIO DE JANEIRO - O inimigo externo era, até agora, uma das últimas preocupações dos organizadores de Copa e Olimpíada no Brasil, em razão da inexistência de histórico de episódios relevantes no país. O atentado em Boston mostra o quanto é difícil cuidar da segurança de eventos esportivos desse porte.
"Foi horrível", disse uma brasileira que estava lá. E completou: "Ainda bem que não temos isso no Brasil". Essa sensação de alívio, comum a nós brasileiros, vem do fato de nem sabermos o que é viver sob ameaça terrorista. Como o Brasil, e o Rio em particular, vai reagir e se preparar?
Envolvendo diferentes órgãos --Exército, Polícia Federal, Polícia Militar e Abin (agência de inteligência), além dos ministérios da Defesa e da Justiça--, o planejamento de segurança entrou em estado de alerta após as explosões na maratona.
Preocupados com o próximo evento importante --a Copa das Confederações, em junho--, as atenções brasileiras estão voltadas para as investigações nos EUA. Dependendo de quem for responsável pelo atentado lá, o planejamento pode mudar.
O primeiro maior desafio é a Jornada Mundial da Juventude, no final de julho. A visita do novo papa, Francisco, levará milhões de católicos às ruas do Rio. Não pode haver falhas.
A característica de país pacífico, aberto e democrático não pode se transformar em defeito. Sem cultura de prevenção, sem ter o risco no imaginário, qualquer plano de segurança mais ostensiva terá de ser feito com cuidado e, claro, inteligência.
Com ou sem histórico de atentados, os visitantes devem ficar sempre atentos. Se não a pacotes que podem conter bombas, com certeza a ônibus que voam por viadutos, tombam em estradas, invadem calçadas e lojas, e atropelam pessoas.
Os inimigos mortais podem vir de onde menos se espera.
Os inimigos mortais podem vir de onde menos se espera.
Irmão siamês - ROGÉRIO GENTILE
FOLHA DE SP - 18/04
SÃO PAULO - A melhor definição sobre José Maria Marin, atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol, foi dada muitos anos atrás pelo insuspeito Paulo Maluf. Segundo o ex-prefeito de São Paulo, Marin é seu "irmão siamês".
Ao longo de sua vida pública, na qual ocupou diversos cargos (vereador, deputado, vice-governador e governador de SP), o dirigente envolveu-se, assim como sua alma gêmea, em diversas histórias polêmicas.
Dirce Tutu Quadros, filha de Jânio, declarou em 1989, por exemplo, que Marin era uma inspiração para o capitalismo vigente no Brasil. "Nasceu pobre, mas tornou-se uma das maiores fortunas de São Paulo." Tutu o acusava, então, de ter desviado dinheiro da campanha do seu pai a prefeito quatro anos antes. "Ele é um batedor de carteiras", afirmou Tutu em uma entrevista, sem apresentar provas.
Em outra ocasião, Marin chegou a ser condenado pelo Tribunal de Contas de São Paulo por despesas irregulares com festas durante sua passagem de dez meses pelo governo paulista. Nas vésperas da Copa do Mundo de 1982, em apenas sete dias, Marin teria realizado 13 eventos, entre coquetéis, almoços e jantares para ao menos 1.380 pessoas.
A última polêmica foi revelada terça-feira em reportagem da Folha segundo a qual Marin pagou R$ 70 milhões por uma nova sede para a CBF, no Rio de Janeiro, que poderia ter custado R$ 39 milhões.
O dirigente anunciou o negócio no dia 27 de junho de 2012, mas só formalizou a compra do prédio em 31 de agosto, depois que intermediários inexplicavelmente foram incluídos na transação.
Pois esse político das antigas, irmão siamês de Maluf, que chora teatralmente para se defender e já foi flagrado pela televisão colocando no próprio bolso uma medalha destinada a um atleta, será o principal anfitrião da Copa do Mundo do Brasil, no ano que vem. Alguém duvida de que ele vai conseguir atingir seus objetivos na empreitada?
SÃO PAULO - A melhor definição sobre José Maria Marin, atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol, foi dada muitos anos atrás pelo insuspeito Paulo Maluf. Segundo o ex-prefeito de São Paulo, Marin é seu "irmão siamês".
Ao longo de sua vida pública, na qual ocupou diversos cargos (vereador, deputado, vice-governador e governador de SP), o dirigente envolveu-se, assim como sua alma gêmea, em diversas histórias polêmicas.
Dirce Tutu Quadros, filha de Jânio, declarou em 1989, por exemplo, que Marin era uma inspiração para o capitalismo vigente no Brasil. "Nasceu pobre, mas tornou-se uma das maiores fortunas de São Paulo." Tutu o acusava, então, de ter desviado dinheiro da campanha do seu pai a prefeito quatro anos antes. "Ele é um batedor de carteiras", afirmou Tutu em uma entrevista, sem apresentar provas.
Em outra ocasião, Marin chegou a ser condenado pelo Tribunal de Contas de São Paulo por despesas irregulares com festas durante sua passagem de dez meses pelo governo paulista. Nas vésperas da Copa do Mundo de 1982, em apenas sete dias, Marin teria realizado 13 eventos, entre coquetéis, almoços e jantares para ao menos 1.380 pessoas.
A última polêmica foi revelada terça-feira em reportagem da Folha segundo a qual Marin pagou R$ 70 milhões por uma nova sede para a CBF, no Rio de Janeiro, que poderia ter custado R$ 39 milhões.
O dirigente anunciou o negócio no dia 27 de junho de 2012, mas só formalizou a compra do prédio em 31 de agosto, depois que intermediários inexplicavelmente foram incluídos na transação.
Pois esse político das antigas, irmão siamês de Maluf, que chora teatralmente para se defender e já foi flagrado pela televisão colocando no próprio bolso uma medalha destinada a um atleta, será o principal anfitrião da Copa do Mundo do Brasil, no ano que vem. Alguém duvida de que ele vai conseguir atingir seus objetivos na empreitada?
O ovo da serpente - YVONNE MAGGIE
O GLOBO - 18/04
Atualizando meu Currículo Lattes - que leva o nome de um dos nossos mais importantes cientistas, César Lattes - fui surpreendida com a seguinte notificação: "O campo ´Cor ou Raça´ é de preenchimento obrigatório para a publicação do Currículo Lattes. Essa informação é solicitada para atender a Lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010."
Em seu artigo 1º, a lei "institui o Estatuto da Igualdade Racial, destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica". O Estatuto determina a instituição de ações afirmativas para que seja garantida à população negra a efetiva igualdade de oportunidades.
Essas políticas, segundo entendimento mais corrente, deveriam basear-se nos censos demográficos nacionais e outros levantamentos estatísticos do IBGE que arrolam a população por "cor/raça", mas a identidade do respondente é mantida no anonimato. Li e reli a lei e não encontrei nada obrigando as instituições a exigirem a definição racial das pessoas.
O Currículo Lattes é de consulta pública. Daí ter ficado chocada ao ser obrigada a me definir por "cor" ou "raça", pois neste ato me autocravaria uma identidade "racial" imutável. Gostaria de ter escrito "raça humana", como fez o antropólogo Darcy Ribeiro, quando viajou para os EUA, na década de 1950, e foi obrigado a responder a esta mesma pergunta, mas no CV Lattes essa é uma opção inválida. Hoje, nos EUA, por determinação da Suprema Corte, fazer essa pergunta para fins curriculares acadêmicos e laborais é crime.
A pergunta determina a autoclassificação do indivíduo em uma das seguintes categorias: branco, preto, pardo, amarelo e indígena. Ainda bem que existe a opção "não desejo responder à pergunta".
Como essa informação será utilizada? Será sigilosa? Ou aparecerá, junto às outras identificações, a "raça" declarada ou a recusa a declará-la?
Sempre disse que o Estatuto da Igualdade Racial produziria uma sociedade de pessoas separadas legalmente por "cor/raça". Agora fica evidente que o que se pretende é isso mesmo. O ovo da serpente se transformou em inúmeras serpentes que deslizam em todos os setores da vida social, obrigando os brasileiros a se definirem por "raça".
Embora na Lei nº 12.288 não haja nenhuma exigência de declaração racial, o Aviso Circular Conjunto nº 01/Gabinete da Casa Civil/PR/MP/Seppir informa a obrigatoriedade de preenchimento do campo "cor ou raça", mediante autodeclaração, em todos os registros administrativos, cadastros, formulários e base de dados que contenham informações pessoais, inclusive de público externo. Foi obedecendo a esse aviso que o CNPq resolveu instituir o quesito "cor/raça".
Sinceramente, espero que a História não tenha razão e que os inúmeros exemplos de dor e sofrimento produzidos por políticas desse tipo no mundo não se reproduzam aqui no Brasil.
Em seu artigo 1º, a lei "institui o Estatuto da Igualdade Racial, destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica". O Estatuto determina a instituição de ações afirmativas para que seja garantida à população negra a efetiva igualdade de oportunidades.
Essas políticas, segundo entendimento mais corrente, deveriam basear-se nos censos demográficos nacionais e outros levantamentos estatísticos do IBGE que arrolam a população por "cor/raça", mas a identidade do respondente é mantida no anonimato. Li e reli a lei e não encontrei nada obrigando as instituições a exigirem a definição racial das pessoas.
O Currículo Lattes é de consulta pública. Daí ter ficado chocada ao ser obrigada a me definir por "cor" ou "raça", pois neste ato me autocravaria uma identidade "racial" imutável. Gostaria de ter escrito "raça humana", como fez o antropólogo Darcy Ribeiro, quando viajou para os EUA, na década de 1950, e foi obrigado a responder a esta mesma pergunta, mas no CV Lattes essa é uma opção inválida. Hoje, nos EUA, por determinação da Suprema Corte, fazer essa pergunta para fins curriculares acadêmicos e laborais é crime.
A pergunta determina a autoclassificação do indivíduo em uma das seguintes categorias: branco, preto, pardo, amarelo e indígena. Ainda bem que existe a opção "não desejo responder à pergunta".
Como essa informação será utilizada? Será sigilosa? Ou aparecerá, junto às outras identificações, a "raça" declarada ou a recusa a declará-la?
Sempre disse que o Estatuto da Igualdade Racial produziria uma sociedade de pessoas separadas legalmente por "cor/raça". Agora fica evidente que o que se pretende é isso mesmo. O ovo da serpente se transformou em inúmeras serpentes que deslizam em todos os setores da vida social, obrigando os brasileiros a se definirem por "raça".
Embora na Lei nº 12.288 não haja nenhuma exigência de declaração racial, o Aviso Circular Conjunto nº 01/Gabinete da Casa Civil/PR/MP/Seppir informa a obrigatoriedade de preenchimento do campo "cor ou raça", mediante autodeclaração, em todos os registros administrativos, cadastros, formulários e base de dados que contenham informações pessoais, inclusive de público externo. Foi obedecendo a esse aviso que o CNPq resolveu instituir o quesito "cor/raça".
Sinceramente, espero que a História não tenha razão e que os inúmeros exemplos de dor e sofrimento produzidos por políticas desse tipo no mundo não se reproduzam aqui no Brasil.
Oficina de remendos - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 18/04
Essa discussão sobre a ofensiva governista no Congresso para dificultar a vida de novos partidos a rigor nem deveria existir. Só existe porque se criou um festival de casuísmos em que um erro passou a justificar o outro, a ponto de o Poder Judiciário aderir à lógica de que há leis que pegam e outras que não pegam.
O caso da vez é a ideia de vedar aos novos partidos o acesso aos recursos do Fundo Partidário e ao horário eleitoral no rádio e na televisão. A tese enuncia a necessidade de impedir a criação de mais legendas de aluguel e, assim, moralizar o processo.
Seus porta-vozes fazem papel de santos em ambiente de devassidão; apresentam-se para organizar uma bagunça da qual são sócios proprietários.
O objetivo imediato de um lado é dificultar apoios a prováveis oponentes da presidente Dilma Rousseff em 2014 e preservar uma fatia do mercado. De outro, entrar no rateio do Fundo Partidário (R$ 294 milhões em 2013) e do tempo de propaganda.
Um casuísmo? Escandaloso: no ano passado gente que está hoje contra o projeto era a favor, e vice-versa. Na hora de ajudar o então prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o PSB que hoje se sente prejudicado estava junto com outros aliados na sustentação dos pilares sobre os quais foi erguido o PSD.
O PMDB que agora apoia a barreira aos novatos, no ano passado estava junto com o DEM, o PSDB, o PPS e outros signatários da ação no Supremo questionando o direito do PSD ao Fundo Partidário e ao tempo e televisão na proporção do tamanho da bancada, àquela altura com cerca de 50 deputados. Nenhum eleito pela legenda criada em 2011.
Casuísmo explícito, mas não o único nessa série de remendos em série decorrentes, ao que tudo indica, de um pecado de origem: o desleixo em relação à lei vigente.
Duas delas dizem expressa e claramente que os partidos terão direito à distribuição dos recursos e ao tempo no horário eleitoral "proporcionalmente à representação na Câmara dos Deputados". E como se faz esse cálculo? Segundo as leis, "de acordo com os votos obtidos na eleição anterior".
Segundo a lei eleitoral, uma terça parte do horário em rádio e TV é distribuída entre todas as legendas com registro e dois terços repartidos pelo critério do tamanho das bancadas. A lei que rege os partidos reserva 5% do fundo para todos e manda que 95% sejam repartidos conforme a representação resultante da eleição antecedente.
Pois bem, o PSD tinha um ano de vida, não havia passado por nenhuma eleição e, portanto, não atendia ao critério. Ainda assim, obteve do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal o benefício que a lei negava.
E por que isso aconteceu? Resultou da interpretação de uma questão anterior, da fidelidade partidária, examinada em 2008 pelo TSE e o STF. Ficou determinado que os mandatos pertenciam aos partidos; perderiam os mandatos os eleitos que trocassem de legenda. Exceção aberta aos migrantes para novas legendas ou quando o político fosse vítima de perseguição em sua agremiação.
Para as siglas resultantes de fusão a norma é diferente: não perde o mandato quem sai, mas perde quem entra porque a justiça não entende como novo o partido produto de união com outro.
De qualquer forma, brecha aberta, a maioria entendeu nos tribunais que "a realidade" se sobrepunha à letra fria da regra e que não teria cabimento impedir que um partido já com bancada expressiva não recebesse recursos e tempo proporcionais à representação. Por menos que não tivesse passado por uma eleição, como legalmente exigido.
E assim, de exceção em exceção, nenhuma regra se consolida e, à falta de disposição para reforma digna do nome, a política se transforma numa oficina de remendos. Mal feitos.
Essa discussão sobre a ofensiva governista no Congresso para dificultar a vida de novos partidos a rigor nem deveria existir. Só existe porque se criou um festival de casuísmos em que um erro passou a justificar o outro, a ponto de o Poder Judiciário aderir à lógica de que há leis que pegam e outras que não pegam.
O caso da vez é a ideia de vedar aos novos partidos o acesso aos recursos do Fundo Partidário e ao horário eleitoral no rádio e na televisão. A tese enuncia a necessidade de impedir a criação de mais legendas de aluguel e, assim, moralizar o processo.
Seus porta-vozes fazem papel de santos em ambiente de devassidão; apresentam-se para organizar uma bagunça da qual são sócios proprietários.
O objetivo imediato de um lado é dificultar apoios a prováveis oponentes da presidente Dilma Rousseff em 2014 e preservar uma fatia do mercado. De outro, entrar no rateio do Fundo Partidário (R$ 294 milhões em 2013) e do tempo de propaganda.
Um casuísmo? Escandaloso: no ano passado gente que está hoje contra o projeto era a favor, e vice-versa. Na hora de ajudar o então prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o PSB que hoje se sente prejudicado estava junto com outros aliados na sustentação dos pilares sobre os quais foi erguido o PSD.
O PMDB que agora apoia a barreira aos novatos, no ano passado estava junto com o DEM, o PSDB, o PPS e outros signatários da ação no Supremo questionando o direito do PSD ao Fundo Partidário e ao tempo e televisão na proporção do tamanho da bancada, àquela altura com cerca de 50 deputados. Nenhum eleito pela legenda criada em 2011.
Casuísmo explícito, mas não o único nessa série de remendos em série decorrentes, ao que tudo indica, de um pecado de origem: o desleixo em relação à lei vigente.
Duas delas dizem expressa e claramente que os partidos terão direito à distribuição dos recursos e ao tempo no horário eleitoral "proporcionalmente à representação na Câmara dos Deputados". E como se faz esse cálculo? Segundo as leis, "de acordo com os votos obtidos na eleição anterior".
Segundo a lei eleitoral, uma terça parte do horário em rádio e TV é distribuída entre todas as legendas com registro e dois terços repartidos pelo critério do tamanho das bancadas. A lei que rege os partidos reserva 5% do fundo para todos e manda que 95% sejam repartidos conforme a representação resultante da eleição antecedente.
Pois bem, o PSD tinha um ano de vida, não havia passado por nenhuma eleição e, portanto, não atendia ao critério. Ainda assim, obteve do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal o benefício que a lei negava.
E por que isso aconteceu? Resultou da interpretação de uma questão anterior, da fidelidade partidária, examinada em 2008 pelo TSE e o STF. Ficou determinado que os mandatos pertenciam aos partidos; perderiam os mandatos os eleitos que trocassem de legenda. Exceção aberta aos migrantes para novas legendas ou quando o político fosse vítima de perseguição em sua agremiação.
Para as siglas resultantes de fusão a norma é diferente: não perde o mandato quem sai, mas perde quem entra porque a justiça não entende como novo o partido produto de união com outro.
De qualquer forma, brecha aberta, a maioria entendeu nos tribunais que "a realidade" se sobrepunha à letra fria da regra e que não teria cabimento impedir que um partido já com bancada expressiva não recebesse recursos e tempo proporcionais à representação. Por menos que não tivesse passado por uma eleição, como legalmente exigido.
E assim, de exceção em exceção, nenhuma regra se consolida e, à falta de disposição para reforma digna do nome, a política se transforma numa oficina de remendos. Mal feitos.
3 versus 30 - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 18/04
BRASÍLIA - Com a Comissão de Direitos Humanos da Câmara fechada e 93% dos paulistanos defendendo a redução da idade penal, 29 moradores de rua e mais um viciado são mortos em Goiânia, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Com razão, o planeta está em choque com a morte de três pessoas na maratona nos EUA. E quem está em choque com a morte de 30 infelizes sem amor-próprio e sem proteção do Estado brasileiro?
Ontem, houve uma debandada de deputados da Comissão de Direitos Humanos e dezenas de pessoas continuaram gritando para afugentar o deputado e pastor Marco Feliciano. Nem a portas fechadas a comissão consegue funcionar.
Do outro lado, 40 evangélicos decidiram dar um troco e invadiram a Comissão de Constituição e Justiça para exigir a saída dos deputados José Genoino e João Paulo Cunha, condenados pelo mensalão.
Ao que se saiba, nem os deputados, nem os evangélicos, nem os manifestantes contra Feliciano estão discutindo o que realmente interessa nem a questão mais urgente de direitos humanos: um possível grupo de extermínio na capital de Goiás.
A única estridência partiu da ministra Maria do Rosário, pedindo à Procuradoria-Geral da República que a Polícia Federal entre em ação. A ministra é do PT, e o governador Marconi Perillo, do PSDB, mas a questão não é partidária nem apenas local.
Com tantas mortes há oito meses, não é absurdo supor que a polícia estadual esteja, no mínimo, lavando as mãos; no máximo, envolvida.
Os moradores de rua vêm sendo atacados a tiros, a facadas e espancados até a morte, um atrás do outro, e nada acontece. Até ontem, quando alguns suspeitos foram presos, não havia gritaria, nem manifestações, nem a presença do Congresso e nem mesmo operações diligentes.
É como se as vítimas, já tão punidas pela vida, não fossem nada, apenas um fardo, um acidente. E os direitos humanos, onde ficam?
BRASÍLIA - Com a Comissão de Direitos Humanos da Câmara fechada e 93% dos paulistanos defendendo a redução da idade penal, 29 moradores de rua e mais um viciado são mortos em Goiânia, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Com razão, o planeta está em choque com a morte de três pessoas na maratona nos EUA. E quem está em choque com a morte de 30 infelizes sem amor-próprio e sem proteção do Estado brasileiro?
Ontem, houve uma debandada de deputados da Comissão de Direitos Humanos e dezenas de pessoas continuaram gritando para afugentar o deputado e pastor Marco Feliciano. Nem a portas fechadas a comissão consegue funcionar.
Do outro lado, 40 evangélicos decidiram dar um troco e invadiram a Comissão de Constituição e Justiça para exigir a saída dos deputados José Genoino e João Paulo Cunha, condenados pelo mensalão.
Ao que se saiba, nem os deputados, nem os evangélicos, nem os manifestantes contra Feliciano estão discutindo o que realmente interessa nem a questão mais urgente de direitos humanos: um possível grupo de extermínio na capital de Goiás.
A única estridência partiu da ministra Maria do Rosário, pedindo à Procuradoria-Geral da República que a Polícia Federal entre em ação. A ministra é do PT, e o governador Marconi Perillo, do PSDB, mas a questão não é partidária nem apenas local.
Com tantas mortes há oito meses, não é absurdo supor que a polícia estadual esteja, no mínimo, lavando as mãos; no máximo, envolvida.
Os moradores de rua vêm sendo atacados a tiros, a facadas e espancados até a morte, um atrás do outro, e nada acontece. Até ontem, quando alguns suspeitos foram presos, não havia gritaria, nem manifestações, nem a presença do Congresso e nem mesmo operações diligentes.
É como se as vítimas, já tão punidas pela vida, não fossem nada, apenas um fardo, um acidente. E os direitos humanos, onde ficam?
Não para em Brasília - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 18/04
A presidente Dilma Rousseff dorme e acorda pensando em reeleição. E passa dias fazendo campanha. Embora tenha um país a administrar, tem dedicado parte considerável de sua agenda dos últimos tempos a eventos eleitoreiros mal disfarçados de compromissos oficiais. Tendo como seu 40.º ministro o marqueteiro João Santana, a presidente não dá um passo com outro objetivo que não seja o de consolidar sua candidatura precoce-mente oficializada e avançar em redutos de seus possíveis adversários. Os problemas do Brasil - e de todos os brasileiros - que esperem.
A presidente Dilma Rousseff dorme e acorda pensando em reeleição. E passa dias fazendo campanha. Embora tenha um país a administrar, tem dedicado parte considerável de sua agenda dos últimos tempos a eventos eleitoreiros mal disfarçados de compromissos oficiais. Tendo como seu 40.º ministro o marqueteiro João Santana, a presidente não dá um passo com outro objetivo que não seja o de consolidar sua candidatura precoce-mente oficializada e avançar em redutos de seus possíveis adversários. Os problemas do Brasil - e de todos os brasileiros - que esperem.
Esta semana começou com campanha, Já na segunda-feira, a presidente, que tinha apenas despachos internos em sua programação naquele dia, deixou o Palácio da Alvorada às 10 horas em carro descaracterizado, isto é, sem identificação da Presidência. Foi a um estúdio a 10 quilômetros do Palácio do Planalto, onde ficou mais de uma hora gravando sua participação no programa partidário do PT, cuja íntegra vai ao ar no dia 9 de maio e cujas inserções diárias serão veiculadas a partir do próximo dia 27. Em seguida rumou para Belo Horizonte, onde passou o resto da tarde e o dia seguinte fazendo campanha de palanque, escoltada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Belo Horizonte é o reduto principal de Aécio Neves, pré-candidato tucano à Presidência. O evento era mais um seminário para celebrar os dez anos do PT no governo federal, mas seu objetivo escancarado era confrontar Aécio, que já acusou Dilma, mineira, de ser uma "estrangeira" em Minas. No dia seguinte, a presidente entregou unidades do programa Minha Casa, Minha Vida em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, discursando como se a eleição fosse amanhã.
Já é difícil de dizer onde termina a presidente e onde começa a candidata. Gomo as condições da economia podem ameaçar uma reeleição que parecia tranquila apesar da alta popularidade da presidente, Lula apressou-se a antecipar o calendário eleitoral e tirou Dilma do gabinete, colocando-a. no palanque. Obediente, a presidente vestiu o figurino populista e saiu a prometer mundos e fundos, inclusive ocupando para isso o horário nobre em cadeia nacional obrigatória de rádio e TV. Nesses pronunciamentos, que mais pareciam comícios, nos quais Dilma tratou de atacar "aqueles que são sempre do contra", a presidente anunciou medidas que tinham o objetivo de reduzir os preços da cesta básica e baratear as contas de luz. "Não descuido um só momento do controle da inflação", bradou a presidente, referindo-se às críticas provocadas pela escalada de preços.
Há já algum tempo que Dilma, carregando seu saco de bondades - que inclui a doação de retroescavadeiras e motoniveladoras para municípios com até 100 mil habitantes -, saiu em périplo por regiões do País onde possíveis candidatos oposicionistas são fortes o bastante para representar dificuldades à sua reeleição. Somente neste ano, mais da metade de suas viagens foi para o Nordeste, onde o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), desponta como estrela ascendente e incômoda.
Apesar de ser da coalizão de Dilma, Campos está construindo sua candidatura com base em críticas ao governo, dizendo que "é possível fazer mais". Além disso, embora o PT tenha avançado na região, seus candidatos foram derrotados em diversas capitais e em cidades importantes na eleição municipal de 2012. Então, tome promessas eleitoreiras: em meio a mais uma grande seca no Nordeste, Dilma anunciou um pacote de R$ 9 bilhões. Não importa que a maior parte desse dinheiro fosse "velha", isto é, que se tratasse de verbas já empenhadas e de benefícios já existentes. O que importa é o impacto do número vistoso, feito sob medida para a propaganda de João Santana.
No segundo semestre, o foco de Dilma deverá ser São Paulo, Estado que é uma obsessão de Lula. O Planalto torce para que, até lá, as medidas cosméticas para estimular a economia tenham surtido algum efeito, ao menos o suficiente para que possa ser convertido em capital eleitoral, graças à prestidigitação marqueteira de um governo que tem tomado suas decisões exclusivamente de olho nas urnas.
Belo Horizonte é o reduto principal de Aécio Neves, pré-candidato tucano à Presidência. O evento era mais um seminário para celebrar os dez anos do PT no governo federal, mas seu objetivo escancarado era confrontar Aécio, que já acusou Dilma, mineira, de ser uma "estrangeira" em Minas. No dia seguinte, a presidente entregou unidades do programa Minha Casa, Minha Vida em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, discursando como se a eleição fosse amanhã.
Já é difícil de dizer onde termina a presidente e onde começa a candidata. Gomo as condições da economia podem ameaçar uma reeleição que parecia tranquila apesar da alta popularidade da presidente, Lula apressou-se a antecipar o calendário eleitoral e tirou Dilma do gabinete, colocando-a. no palanque. Obediente, a presidente vestiu o figurino populista e saiu a prometer mundos e fundos, inclusive ocupando para isso o horário nobre em cadeia nacional obrigatória de rádio e TV. Nesses pronunciamentos, que mais pareciam comícios, nos quais Dilma tratou de atacar "aqueles que são sempre do contra", a presidente anunciou medidas que tinham o objetivo de reduzir os preços da cesta básica e baratear as contas de luz. "Não descuido um só momento do controle da inflação", bradou a presidente, referindo-se às críticas provocadas pela escalada de preços.
Há já algum tempo que Dilma, carregando seu saco de bondades - que inclui a doação de retroescavadeiras e motoniveladoras para municípios com até 100 mil habitantes -, saiu em périplo por regiões do País onde possíveis candidatos oposicionistas são fortes o bastante para representar dificuldades à sua reeleição. Somente neste ano, mais da metade de suas viagens foi para o Nordeste, onde o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), desponta como estrela ascendente e incômoda.
Apesar de ser da coalizão de Dilma, Campos está construindo sua candidatura com base em críticas ao governo, dizendo que "é possível fazer mais". Além disso, embora o PT tenha avançado na região, seus candidatos foram derrotados em diversas capitais e em cidades importantes na eleição municipal de 2012. Então, tome promessas eleitoreiras: em meio a mais uma grande seca no Nordeste, Dilma anunciou um pacote de R$ 9 bilhões. Não importa que a maior parte desse dinheiro fosse "velha", isto é, que se tratasse de verbas já empenhadas e de benefícios já existentes. O que importa é o impacto do número vistoso, feito sob medida para a propaganda de João Santana.
No segundo semestre, o foco de Dilma deverá ser São Paulo, Estado que é uma obsessão de Lula. O Planalto torce para que, até lá, as medidas cosméticas para estimular a economia tenham surtido algum efeito, ao menos o suficiente para que possa ser convertido em capital eleitoral, graças à prestidigitação marqueteira de um governo que tem tomado suas decisões exclusivamente de olho nas urnas.
Memória inflacionária - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 18/04
O risco a ser evitado neste momento é o de que a variação do custo final de produtos e serviços comece a se mostrar acima das expectativas por um período suficiente para estimular a volta de mecanismos perversos como a indexação.
A enfática garantia dada pela presidente da República, Dilma Rousseff, de que o governo "não negociará" com a inflação e não terá "o menor problema em atacá-la sistematicamente", às vésperas da reunião do Banco Central para se decidir sobre a taxa básica de juros, é um sinal promissor para os brasileiros que consomem e que produzem. Em princípio, uma elevação no custo do dinheiro só pode interessar ao setor financeiro. Ainda assim, é importante que governo e autoridade monetária se mostrem sempre afinados quanto à oportunidade de rever o percentual em momentos nos quais é preciso afastar os temores de ameaças sérias à estabilidade. A principal preocupação da equipe econômica neste momento deve ser a de evitar a volta da indexação, quando produtos e serviços passam a ser reajustados preventivamente, numa tentativa, quase sempre inócua, de manter as margens de ganhos acima da elevação do custo de vida. E esse é um risco acentuado neste momento.
Num fenômeno em que o tomate acabou eleito como uma espécie de símbolo, a inflação acumulada no período de 12 meses até março teve uma variação de 6,59%, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Pela segunda vez no atual governo, o percentual mostrou-se superior ao de 6,5% definido como o de tolerância para a meta de 4,5%, fixada oficialmente. Entre as razões da alta, estão os preços dos alimentos que, apesar de ações como a desoneração da cesta básica, teriam sido pressionados pelo excesso de chuva em algumas regiões do país e pelos efeitos da seca em outras. Mas há excessos sob todos os aspectos inexplicáveis, inclusive na área de serviços. Um exemplo é a tarifa de táxi na Capital, que será reajustada em 8,09%, portanto acima da inflação, a partir do final do mês.
O risco a ser evitado neste momento é o de que a variação do custo final de produtos e serviços comece a se mostrar acima das expectativas por um período suficiente para estimular a volta de mecanismos perversos como a indexação. Quando há incerteza sobre o comportamento dos principais indicadores econômicos, a começar pela variação do custo de vida, fornecedores se apressam em reajustar os preços, na tentativa de preservar ganhos, enquanto categorias mais influentes se mobilizam para negociar reajustes salariais mais generosos. A questão é que, nessa corrida, todos acabam perdendo, pois a inflação tende a entrar num processo contínuo de autoalimentação, disseminando prejuízos dos quais só tem mais facilidade para escapar quem aposta nos ganhos fáceis do mercado financeiro.
Por isso, não faz sentido a chefe da nação ser criticada por comentar o assunto. Seria hipócrita fingir que não é com ela. É, sim. A independência do Banco Central, todos sabem, é apenas relativa, pois a inflação acaba sendo assunto de governo e do país. Não importa se é antevéspera de campanha eleitoral. O povo brasileiro já sofreu demais com o descontrole inflacionário e todo cuidado é pouco.
O risco a ser evitado neste momento é o de que a variação do custo final de produtos e serviços comece a se mostrar acima das expectativas por um período suficiente para estimular a volta de mecanismos perversos como a indexação.
A enfática garantia dada pela presidente da República, Dilma Rousseff, de que o governo "não negociará" com a inflação e não terá "o menor problema em atacá-la sistematicamente", às vésperas da reunião do Banco Central para se decidir sobre a taxa básica de juros, é um sinal promissor para os brasileiros que consomem e que produzem. Em princípio, uma elevação no custo do dinheiro só pode interessar ao setor financeiro. Ainda assim, é importante que governo e autoridade monetária se mostrem sempre afinados quanto à oportunidade de rever o percentual em momentos nos quais é preciso afastar os temores de ameaças sérias à estabilidade. A principal preocupação da equipe econômica neste momento deve ser a de evitar a volta da indexação, quando produtos e serviços passam a ser reajustados preventivamente, numa tentativa, quase sempre inócua, de manter as margens de ganhos acima da elevação do custo de vida. E esse é um risco acentuado neste momento.
Num fenômeno em que o tomate acabou eleito como uma espécie de símbolo, a inflação acumulada no período de 12 meses até março teve uma variação de 6,59%, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Pela segunda vez no atual governo, o percentual mostrou-se superior ao de 6,5% definido como o de tolerância para a meta de 4,5%, fixada oficialmente. Entre as razões da alta, estão os preços dos alimentos que, apesar de ações como a desoneração da cesta básica, teriam sido pressionados pelo excesso de chuva em algumas regiões do país e pelos efeitos da seca em outras. Mas há excessos sob todos os aspectos inexplicáveis, inclusive na área de serviços. Um exemplo é a tarifa de táxi na Capital, que será reajustada em 8,09%, portanto acima da inflação, a partir do final do mês.
O risco a ser evitado neste momento é o de que a variação do custo final de produtos e serviços comece a se mostrar acima das expectativas por um período suficiente para estimular a volta de mecanismos perversos como a indexação. Quando há incerteza sobre o comportamento dos principais indicadores econômicos, a começar pela variação do custo de vida, fornecedores se apressam em reajustar os preços, na tentativa de preservar ganhos, enquanto categorias mais influentes se mobilizam para negociar reajustes salariais mais generosos. A questão é que, nessa corrida, todos acabam perdendo, pois a inflação tende a entrar num processo contínuo de autoalimentação, disseminando prejuízos dos quais só tem mais facilidade para escapar quem aposta nos ganhos fáceis do mercado financeiro.
Por isso, não faz sentido a chefe da nação ser criticada por comentar o assunto. Seria hipócrita fingir que não é com ela. É, sim. A independência do Banco Central, todos sabem, é apenas relativa, pois a inflação acaba sendo assunto de governo e do país. Não importa se é antevéspera de campanha eleitoral. O povo brasileiro já sofreu demais com o descontrole inflacionário e todo cuidado é pouco.
Que os bolivarianos do continente entendam - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 18/04
O relógio da História gira em velocidades desconcertantes. O tempo histórico pode dar a impressão de parar, e, de repente, acelerar em velocidade vertiginosa. A Venezuela parecia estagnada, sob o peso de um regime nacional-populista, assentado na autocracia fundada pelo coronel autointitulado “bolivariano” Hugo Chávez . E muita coisa mudou em poucas semanas.
Em 14 anos de poder, Chávez se beneficiou de centenas de bilhões de dólares — nos últimos dez anos, US$ 1 trilhão, segundo o “Financial Times” — amealhados nas exportações de petróleo tirado de uma das maiores reservas do mundo. E soube manejar este dinheiro, até quando pôde, para se manter no controle da Venezuela.
Ainda ganhou uma última eleição presidencial, em outubro, já em fase terminal do câncer, com 1,5 milhão de votos à frente do oposicionista Henrique Capriles. Morto o caudilho em 5 de março, o poderoso regime chavista põe-se em marcha para eleger o vice do coronel, o sindicalista Nicolás Maduro, ungido pelo próprio Chávez como sucessor.
O relógio da História, no entanto, girou e a vitória de Maduro, por apenas pouco mais de 200 mil votos, representa uma derrota para o chavismo. Apesar de toda a máquina, toda a pressão e manipulação — por vezes ridícula — da figura de Hugo Chávez morto, houve a migração para o mesmo Henrique Capriles de quase um milhão de votos.
Os seguidores do bolivarianismo chavista no continente, brasileiros incluídos, precisam entender o que se passa na Venezuela. Nada diferente do destino de qualquer regime autocrata, sempre abalado na morte do líder, carismático por definição. Esses militantes poderiam aprender algo.
Os conflitos de rua ocorridos terça-feira, com a morte de sete pessoas, derivam das tensões geradas num sistema em que o adversário é visto como o inimigo a ser eliminado.
Henrique Capriles, com novo e elevado status na política venezuelana, fez bem em recuar na ideia de uma marcha convocada para protestar contra alegadas fraudes na eleição e pressionar pela recontagem dos votos. Maduro subiu o tom, proibiu a manifestação e ameaçou “radicalizar a revolução” (a do “Socialismo do Século XXI”).
— Não caiam nas provocações do governo e tenham claro que nossa luta é democrática — alertou um sensato Capriles. Agora, é acompanhar como Maduro e a estrutura de poder chavista enfrentarão a tempestade econômica: inflação rumo aos 30%, desabastecimento e nenhuma perspectiva de o petróleo voltar a cotações que financiem os delírios do regime.
Resta provado que os sonhos dos governantes só podem ser realizados e perdurar se houver bases reais na economia para sustentá-los, e um regime com instituições e princípios que absorvam as tensões normais em qualquer jogo político. Um desses amortecedores é uma efetiva rotatividade no poder por meio do voto livre, com base em regras predefinidas e estáveis. Tudo o que não é o chavismo bolivariano.
O relógio da História gira em velocidades desconcertantes. O tempo histórico pode dar a impressão de parar, e, de repente, acelerar em velocidade vertiginosa. A Venezuela parecia estagnada, sob o peso de um regime nacional-populista, assentado na autocracia fundada pelo coronel autointitulado “bolivariano” Hugo Chávez . E muita coisa mudou em poucas semanas.
Em 14 anos de poder, Chávez se beneficiou de centenas de bilhões de dólares — nos últimos dez anos, US$ 1 trilhão, segundo o “Financial Times” — amealhados nas exportações de petróleo tirado de uma das maiores reservas do mundo. E soube manejar este dinheiro, até quando pôde, para se manter no controle da Venezuela.
Ainda ganhou uma última eleição presidencial, em outubro, já em fase terminal do câncer, com 1,5 milhão de votos à frente do oposicionista Henrique Capriles. Morto o caudilho em 5 de março, o poderoso regime chavista põe-se em marcha para eleger o vice do coronel, o sindicalista Nicolás Maduro, ungido pelo próprio Chávez como sucessor.
O relógio da História, no entanto, girou e a vitória de Maduro, por apenas pouco mais de 200 mil votos, representa uma derrota para o chavismo. Apesar de toda a máquina, toda a pressão e manipulação — por vezes ridícula — da figura de Hugo Chávez morto, houve a migração para o mesmo Henrique Capriles de quase um milhão de votos.
Os seguidores do bolivarianismo chavista no continente, brasileiros incluídos, precisam entender o que se passa na Venezuela. Nada diferente do destino de qualquer regime autocrata, sempre abalado na morte do líder, carismático por definição. Esses militantes poderiam aprender algo.
Os conflitos de rua ocorridos terça-feira, com a morte de sete pessoas, derivam das tensões geradas num sistema em que o adversário é visto como o inimigo a ser eliminado.
Henrique Capriles, com novo e elevado status na política venezuelana, fez bem em recuar na ideia de uma marcha convocada para protestar contra alegadas fraudes na eleição e pressionar pela recontagem dos votos. Maduro subiu o tom, proibiu a manifestação e ameaçou “radicalizar a revolução” (a do “Socialismo do Século XXI”).
— Não caiam nas provocações do governo e tenham claro que nossa luta é democrática — alertou um sensato Capriles. Agora, é acompanhar como Maduro e a estrutura de poder chavista enfrentarão a tempestade econômica: inflação rumo aos 30%, desabastecimento e nenhuma perspectiva de o petróleo voltar a cotações que financiem os delírios do regime.
Resta provado que os sonhos dos governantes só podem ser realizados e perdurar se houver bases reais na economia para sustentá-los, e um regime com instituições e princípios que absorvam as tensões normais em qualquer jogo político. Um desses amortecedores é uma efetiva rotatividade no poder por meio do voto livre, com base em regras predefinidas e estáveis. Tudo o que não é o chavismo bolivariano.
Pílulas para todas - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 18/04
A discussão moral sobre o aborto está entre as mais acaloradas das chamadas guerras culturais. E a veemência dos debates muitas vezes desvia a atenção para um fato importante: o número de interrupções voluntárias da gravidez no mundo já registrou uma baixa importante e pode cair ainda mais.
De acordo com um estudo do Instituto Guttmacher publicado no ano passado no periódico médico "The Lancet", entre 1995 e 2003, a taxa mundial de abortos reduziu-se de 35 para 29 por mil mulheres em idade fértil e, de 2003 a 2008, estabilizou-se nesse patamar.
O principal motivo para a queda foram avanços no campo do planejamento familiar. Como o espaço para esse gênero de iniciativa não está nem de longe esgotado, um esforço nessa área poderia diminuir significativamente a prevalência do polêmico procedimento.
Nesse contexto, são bem-vindas as medidas do Ministério da Saúde para facilitar o acesso das mulheres à pílula do dia seguinte. O medicamento (levonorgestrel), que pode evitar a gravidez até cinco dias após a relação sexual desprotegida, é adquirido por menos de R$ 10 em farmácias.
Causa espanto, desde logo, que esse meio contraceptivo de emergência não seja objeto de campanhas de divulgação mais ampla, a exemplo do que se faz com preservativos. Pior, embora a pílula já seja distribuída gratuitamente na rede pública de saúde, enfrenta barreiras burocráticas inaceitáveis.
O medicamento estava disponível apenas sob prescrição médica, o que, em condições ótimas, faria sentido. Mas o prazo para realizar uma consulta com ginecologista no SUS chega facilmente a dois meses, muito além do período de eficácia da pílula.
O governo federal distribuirá, agora, uma cartilha para profissionais da rede pública na qual esclarece que, se não houver médico disponível, a pílula pode ser fornecida por enfermeiros. Espera-se que essa orientação também facilite o acesso de menores ao levonorgestrel, já que alguns postos de saúde criam embaraços e exigem, por exemplo, a presença dos pais.
A oferta abundante de métodos de planejamento familiar e da contracepção de emergência não vai, é claro, zerar a ocorrência de abortos. Mas, considerando que há alternativa menos traumática para a mulher e menos controversa para a sociedade, seria um erro não massificá-la tanto quanto possível.
Avanços na prevenção da gravidez talvez não sejam suficientes para transformar o aborto numa relíquia, mas bastariam para evitar uma boa dose de sofrimento.
A discussão moral sobre o aborto está entre as mais acaloradas das chamadas guerras culturais. E a veemência dos debates muitas vezes desvia a atenção para um fato importante: o número de interrupções voluntárias da gravidez no mundo já registrou uma baixa importante e pode cair ainda mais.
De acordo com um estudo do Instituto Guttmacher publicado no ano passado no periódico médico "The Lancet", entre 1995 e 2003, a taxa mundial de abortos reduziu-se de 35 para 29 por mil mulheres em idade fértil e, de 2003 a 2008, estabilizou-se nesse patamar.
O principal motivo para a queda foram avanços no campo do planejamento familiar. Como o espaço para esse gênero de iniciativa não está nem de longe esgotado, um esforço nessa área poderia diminuir significativamente a prevalência do polêmico procedimento.
Nesse contexto, são bem-vindas as medidas do Ministério da Saúde para facilitar o acesso das mulheres à pílula do dia seguinte. O medicamento (levonorgestrel), que pode evitar a gravidez até cinco dias após a relação sexual desprotegida, é adquirido por menos de R$ 10 em farmácias.
Causa espanto, desde logo, que esse meio contraceptivo de emergência não seja objeto de campanhas de divulgação mais ampla, a exemplo do que se faz com preservativos. Pior, embora a pílula já seja distribuída gratuitamente na rede pública de saúde, enfrenta barreiras burocráticas inaceitáveis.
O medicamento estava disponível apenas sob prescrição médica, o que, em condições ótimas, faria sentido. Mas o prazo para realizar uma consulta com ginecologista no SUS chega facilmente a dois meses, muito além do período de eficácia da pílula.
O governo federal distribuirá, agora, uma cartilha para profissionais da rede pública na qual esclarece que, se não houver médico disponível, a pílula pode ser fornecida por enfermeiros. Espera-se que essa orientação também facilite o acesso de menores ao levonorgestrel, já que alguns postos de saúde criam embaraços e exigem, por exemplo, a presença dos pais.
A oferta abundante de métodos de planejamento familiar e da contracepção de emergência não vai, é claro, zerar a ocorrência de abortos. Mas, considerando que há alternativa menos traumática para a mulher e menos controversa para a sociedade, seria um erro não massificá-la tanto quanto possível.
Avanços na prevenção da gravidez talvez não sejam suficientes para transformar o aborto numa relíquia, mas bastariam para evitar uma boa dose de sofrimento.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Os aviões necessitam voar determinadas horas para sua correta manutenção”
Ministro Cardozo (Justiça), tentando justificar excesso de viagens do governo
EDUARDO CAMPOS SEDUZ ‘INDEPENDENTES’ DO PMDB
O governador Eduardo Campos (PSB-PE) tenta conquistar o apoio da ala independente do PMDB para seu projeto de disputar a Presidência em 2014, apesar de o peemedebista Michel Temer ser vice na gestão da petista Dilma Rousseff. Durante jantar com senadores na terça (16), Campos reclamou que o PT “não aceita contraditório e tem convivência difícil com a base aliada”, e reforçou discurso crítico sobre a economia.
EXPRESSIVO
Anfitrião do jantar, Jarbas Vasconcelos (PE) acha expressivo o número de peemedebistas presentes: “Aliança com PT não é unânime na sigla”.
DISSIDENTES
Do PMDB, participaram Ricardo Ferraço (ES), Pedro Simon (RS), Casildo Maldaner (SC), Luiz Henrique (SC) e Waldemir Moka (MS).
BASE INSATISFEITA
Senadores do PDT, PP, PTB e DEM que também foram ao jantar criticaram a centralização e a falta de diálogo do governo com aliados.
MOCHILEIRA DAS GALÁXIAS
O FBI identificou em 48h o suspeito das bombas terroristas em Boston. A “bomba” Rose, que aterroriza Lula há meses, a PF não desmonta.
ABIN CAÇA QUEM VAZOU ESPIONAGEM NO GOVERNO
O céu está desabando na Agência Brasileira de Inteligência após a bisbilhotagem de portuários de Suape, em Pernambuco, que encrencou o general José Elito, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência. O chefe de Segurança Orgânica, Maurício Nunes, caça “vazadores” e critica a “displicência” de Jefferson Mario, responsável pelo Departamento de Integração, no controle de documentos.
CODINOME
O caldo entorna desde e-mail do agente “Elito Trezza” à ONG Xingu Vivo sobre suposta espionagem de ONGs contrárias a Belo Monte.
RAINHA DA SUCATA
A Abin também monitora movimentos sociais. Pena que com canetas e relógios-espiões “made in Paraguai” ou da rua 25 de Março, em SP.
CAMINHO SUAVE
Será sem tropeços o caminho de Dilma: a Presidência da República vai gastar R$ 202 mil para aplicar novos carpetes e pisos flutuantes.
BOCA DE ESPERA
O secretário executivo da Casa Civil, Beto Vasconcelos, ainda trabalha para ser ministro da Advocacia-Geral da União. Mas só no caso de Luís Inácio Adams vir a ser indicado ministro do Supremo Tribunal Federal.
TAC, NEM PENSAR
O jurista Luiz Moreira dará uma dica aos prefeitos no II Encontro dos Municípios com o Desenvolvimento Sustentável, em Brasília, para evitar rolos na Justiça: “Não assinem Termos de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público. Isso restringe o mandato de vocês”.
PATINHO FEIO
Senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) critica foco do governo em rodovias, ferrovias e aeroportos em detrimento das hidrovias, que são bem mais baratas: “Dos 40 mil quilômetros de vias navegáveis, só usamos doze”.
HOLOFOTE
O deputado Amauri Teixeira (PT-BA) ganhou apelido de “guardanapo” na Câmara, porque não sai da mesa diretora. Ele chega mais cedo para presidir sessões e já conseguiu discursar três vezes num só dia.
MENINO DO RIO
Ex-queridinho dos investidores, Eike Batista “empobrece”, mas não perde a pose: garantiu que pode honrar compromissos, após a estatal de petróleo Petronas (Malásia) negar interesse na OGX, em Campos.
MOAMBA AFRICANA
Após o BNDES, entra o Banco do Brasil, que vai financiar a represa Moamba, em Moçambique, por US$ 500 milhões, para melhorar o abastecimento na capital, Maputo. O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, de novo, não “sabe de nada”.
DEU EM NADA
A Comissão de Ética do Planalto arquivou denúncia contra o coronel Cláudio Passos. Entre o primeiro e o segundo mandato de diretor da Anac, ele conseguiu um cargo de assessor. A acusação era que, assim, teria mantido prerrogativas que favoreceram sua recondução.
RUMO É OUTRO
O senador Cristovam Buarque (DF) diz já ter comunicado ao PDT que desistiu de disputar a Presidência em 2014 e também não tentará ser vice de Eduardo Campos (PSB-PE): “Ele precisa de alguém de São Paulo, Rio, Minas ou Rio Grande do Sul, e de preferência mulher”.
PERGUNTA NO PLENÁRIO
...já imaginou se fossem antropófagos os índios que invadiram o Congresso?
PODER SEM PUDOR
CONFUSÃO DE NOMES
Reza a lenda, na política do Rio Grande do Norte, que o deputado Antônio Bilu viajou certa vez ao Rio de Janeiro e, ao desembarcar, ordenou ao taxista que o levasse ao Hotel "Zero Quilômetro", referindo-se ao Hotel OK.
- Senador Dantas? - perguntou o motorista, para confirmar o endereço do hotel.
O passageiro respondeu na bucha:
- Não, deputado Antônio Bilu.
Ministro Cardozo (Justiça), tentando justificar excesso de viagens do governo
EDUARDO CAMPOS SEDUZ ‘INDEPENDENTES’ DO PMDB
O governador Eduardo Campos (PSB-PE) tenta conquistar o apoio da ala independente do PMDB para seu projeto de disputar a Presidência em 2014, apesar de o peemedebista Michel Temer ser vice na gestão da petista Dilma Rousseff. Durante jantar com senadores na terça (16), Campos reclamou que o PT “não aceita contraditório e tem convivência difícil com a base aliada”, e reforçou discurso crítico sobre a economia.
EXPRESSIVO
Anfitrião do jantar, Jarbas Vasconcelos (PE) acha expressivo o número de peemedebistas presentes: “Aliança com PT não é unânime na sigla”.
DISSIDENTES
Do PMDB, participaram Ricardo Ferraço (ES), Pedro Simon (RS), Casildo Maldaner (SC), Luiz Henrique (SC) e Waldemir Moka (MS).
BASE INSATISFEITA
Senadores do PDT, PP, PTB e DEM que também foram ao jantar criticaram a centralização e a falta de diálogo do governo com aliados.
MOCHILEIRA DAS GALÁXIAS
O FBI identificou em 48h o suspeito das bombas terroristas em Boston. A “bomba” Rose, que aterroriza Lula há meses, a PF não desmonta.
ABIN CAÇA QUEM VAZOU ESPIONAGEM NO GOVERNO
O céu está desabando na Agência Brasileira de Inteligência após a bisbilhotagem de portuários de Suape, em Pernambuco, que encrencou o general José Elito, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência. O chefe de Segurança Orgânica, Maurício Nunes, caça “vazadores” e critica a “displicência” de Jefferson Mario, responsável pelo Departamento de Integração, no controle de documentos.
CODINOME
O caldo entorna desde e-mail do agente “Elito Trezza” à ONG Xingu Vivo sobre suposta espionagem de ONGs contrárias a Belo Monte.
RAINHA DA SUCATA
A Abin também monitora movimentos sociais. Pena que com canetas e relógios-espiões “made in Paraguai” ou da rua 25 de Março, em SP.
CAMINHO SUAVE
Será sem tropeços o caminho de Dilma: a Presidência da República vai gastar R$ 202 mil para aplicar novos carpetes e pisos flutuantes.
BOCA DE ESPERA
O secretário executivo da Casa Civil, Beto Vasconcelos, ainda trabalha para ser ministro da Advocacia-Geral da União. Mas só no caso de Luís Inácio Adams vir a ser indicado ministro do Supremo Tribunal Federal.
TAC, NEM PENSAR
O jurista Luiz Moreira dará uma dica aos prefeitos no II Encontro dos Municípios com o Desenvolvimento Sustentável, em Brasília, para evitar rolos na Justiça: “Não assinem Termos de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público. Isso restringe o mandato de vocês”.
PATINHO FEIO
Senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) critica foco do governo em rodovias, ferrovias e aeroportos em detrimento das hidrovias, que são bem mais baratas: “Dos 40 mil quilômetros de vias navegáveis, só usamos doze”.
HOLOFOTE
O deputado Amauri Teixeira (PT-BA) ganhou apelido de “guardanapo” na Câmara, porque não sai da mesa diretora. Ele chega mais cedo para presidir sessões e já conseguiu discursar três vezes num só dia.
MENINO DO RIO
Ex-queridinho dos investidores, Eike Batista “empobrece”, mas não perde a pose: garantiu que pode honrar compromissos, após a estatal de petróleo Petronas (Malásia) negar interesse na OGX, em Campos.
MOAMBA AFRICANA
Após o BNDES, entra o Banco do Brasil, que vai financiar a represa Moamba, em Moçambique, por US$ 500 milhões, para melhorar o abastecimento na capital, Maputo. O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, de novo, não “sabe de nada”.
DEU EM NADA
A Comissão de Ética do Planalto arquivou denúncia contra o coronel Cláudio Passos. Entre o primeiro e o segundo mandato de diretor da Anac, ele conseguiu um cargo de assessor. A acusação era que, assim, teria mantido prerrogativas que favoreceram sua recondução.
RUMO É OUTRO
O senador Cristovam Buarque (DF) diz já ter comunicado ao PDT que desistiu de disputar a Presidência em 2014 e também não tentará ser vice de Eduardo Campos (PSB-PE): “Ele precisa de alguém de São Paulo, Rio, Minas ou Rio Grande do Sul, e de preferência mulher”.
PERGUNTA NO PLENÁRIO
...já imaginou se fossem antropófagos os índios que invadiram o Congresso?
PODER SEM PUDOR
CONFUSÃO DE NOMES
Reza a lenda, na política do Rio Grande do Norte, que o deputado Antônio Bilu viajou certa vez ao Rio de Janeiro e, ao desembarcar, ordenou ao taxista que o levasse ao Hotel "Zero Quilômetro", referindo-se ao Hotel OK.
- Senador Dantas? - perguntou o motorista, para confirmar o endereço do hotel.
O passageiro respondeu na bucha:
- Não, deputado Antônio Bilu.
QUINTA NOS JORNAIS
- Globo: Quase dois anos depois… Para conter inflação, BC volta a subir juros
- Folha: Com inflação em alta, BC eleva taxa de juros
- Estadão: Juro sobe 0,25 ponto e BC fala em ‘cautela’ no ajuste
- Correio: Ameaçado pela inflação, Brasil volta a subir juro
- Valor: BC inicia ciclo de aperto monetário com “cautela”
- Zero Hora: Dividido e pressionado, BC eleva juro para 7,5%
- Estado de Minas: Delegado passou por cima da lei
- Jornal do Commercio: Trânsito do Recife terá orientadores
- Brasil Econômico: Copom cede e eleva a taxa básica de juros para combater a inflação
quarta-feira, abril 17, 2013
Uma questão de tempo - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 17/04
Houve uma época em que negros, dentro de um ônibus, eram obrigados a ficar em pé, mesmo que houvesse assentos livres. Um dia, uma mulher negra, Rosa Parks, sentou-se e se recusou a levantar para dar lugar a um branco, e começou ali uma mudança de costumes gradual que custou muitas vidas, mas que, por fim, resultou nos dias de hoje, em que negros possuem os mesmos direitos que os brancos, ainda que o racismo não esteja combatido totalmente.
Houve um tempo em que mulher não votava, era discriminada caso se separasse do marido, e pegava muito mal se saía para jantar com as amigas sem que um homem as acompanhasse.
Hoje, os direitos civis são mais amplos, mas sempre haverá questões a evoluir, e elas nunca serão fáceis e rápidas, pois nada demora mais do que mudar uma mentalidade enraizada. É muito difícil deixar uma zona de conforto, um pensamento já fundamentado. Sentimo-nos desprotegidos diante de ideias novas e não raro julgamos que o mundo irá entrar em colapso caso as regras do jogo se alternem. Porém, já está provado que as regras mudam e o universo não colapsa – se adapta.
É no que penso quando vejo essa gritaria em torno do pastor e deputado Marco Feliciano. Ele próprio já sabe que é carta fora do baralho, porém está se agarrando como pode ao seu cargo e ao seu discurso, que será ultrapassado logo ali, na próxima curva. É uma questão de tempo, e esse tempo é necessário para a maturação de um novo mundo – a humanidade é feita de sucessivos “novos mundos”, que são inaugurados um após o outro, a despeito das forças contrárias.
Correndo em paralelo, a discussão em torno do casamento gay se dá no mesmo ritmo. Legalizado na Argentina, depois no Uruguai, é questão de tempo sua legalização aqui no Brasil, e chegará um dia em que nossos bisnetos olharão para trás e considerarão inacreditável que houvesse pessoas que não aceitassem que dois homens ou duas mulheres tivessem uma união estável reconhecida.
Ninguém precisa aderir, nem gostar, mas não se pode ignorar ou impedir: pessoas se sentem atraídas umas pelas outras, amam umas as outras, independentemente do gênero, e isso é mais forte do que qualquer preconceito. Assim como existiu quem achasse natural que um negro cedesse seu lugar a um branco no ônibus e que uma mulher não tivesse direito a votar nos políticos que a representariam, ainda há quem considere natural que um gay seja considerado menos cidadão do que um hétero.
Seja por razões étnicas, religiosas ou sociais, temos a tendência em querer manter as coisas como estão, pois ficamos aterrorizados diante do que não conhecemos. Porém, é só observar o curso da História para comprovar que a resistência, ainda que legítima, é ineficaz: nada se mantém o mesmo por muito tempo, nem a sociedade, nem cada um de nós, em nossas vidas particulares. Por mais tensas e aflitivas que sejam as adaptações, quando justas elas são feitas, e no final das contas, nem o mundo termina, nem o diabo dá as caras.
Houve uma época em que negros, dentro de um ônibus, eram obrigados a ficar em pé, mesmo que houvesse assentos livres. Um dia, uma mulher negra, Rosa Parks, sentou-se e se recusou a levantar para dar lugar a um branco, e começou ali uma mudança de costumes gradual que custou muitas vidas, mas que, por fim, resultou nos dias de hoje, em que negros possuem os mesmos direitos que os brancos, ainda que o racismo não esteja combatido totalmente.
Houve um tempo em que mulher não votava, era discriminada caso se separasse do marido, e pegava muito mal se saía para jantar com as amigas sem que um homem as acompanhasse.
Hoje, os direitos civis são mais amplos, mas sempre haverá questões a evoluir, e elas nunca serão fáceis e rápidas, pois nada demora mais do que mudar uma mentalidade enraizada. É muito difícil deixar uma zona de conforto, um pensamento já fundamentado. Sentimo-nos desprotegidos diante de ideias novas e não raro julgamos que o mundo irá entrar em colapso caso as regras do jogo se alternem. Porém, já está provado que as regras mudam e o universo não colapsa – se adapta.
É no que penso quando vejo essa gritaria em torno do pastor e deputado Marco Feliciano. Ele próprio já sabe que é carta fora do baralho, porém está se agarrando como pode ao seu cargo e ao seu discurso, que será ultrapassado logo ali, na próxima curva. É uma questão de tempo, e esse tempo é necessário para a maturação de um novo mundo – a humanidade é feita de sucessivos “novos mundos”, que são inaugurados um após o outro, a despeito das forças contrárias.
Correndo em paralelo, a discussão em torno do casamento gay se dá no mesmo ritmo. Legalizado na Argentina, depois no Uruguai, é questão de tempo sua legalização aqui no Brasil, e chegará um dia em que nossos bisnetos olharão para trás e considerarão inacreditável que houvesse pessoas que não aceitassem que dois homens ou duas mulheres tivessem uma união estável reconhecida.
Ninguém precisa aderir, nem gostar, mas não se pode ignorar ou impedir: pessoas se sentem atraídas umas pelas outras, amam umas as outras, independentemente do gênero, e isso é mais forte do que qualquer preconceito. Assim como existiu quem achasse natural que um negro cedesse seu lugar a um branco no ônibus e que uma mulher não tivesse direito a votar nos políticos que a representariam, ainda há quem considere natural que um gay seja considerado menos cidadão do que um hétero.
Seja por razões étnicas, religiosas ou sociais, temos a tendência em querer manter as coisas como estão, pois ficamos aterrorizados diante do que não conhecemos. Porém, é só observar o curso da História para comprovar que a resistência, ainda que legítima, é ineficaz: nada se mantém o mesmo por muito tempo, nem a sociedade, nem cada um de nós, em nossas vidas particulares. Por mais tensas e aflitivas que sejam as adaptações, quando justas elas são feitas, e no final das contas, nem o mundo termina, nem o diabo dá as caras.
Estado de graça - ANTONIO PRATA
FOLHA DE SP - 17/04
Devido ao torpor gestacional, uma inédita mudança ocorreu em minha amada: ela deu para me achar engraçado
Não sei se são os hormônios, a emoção ou as toxinas liberadas pelo bebê, mas é fato que durante a gravidez as mulheres padecem de um, digamos assim, "handicap" cognitivo. As queixas variam de gestante para gestante: há quem fique esquecida, quem funcione mais devagar; uma amiga relatou sérias dificuldades para acompanhar a trama de "Rei Leão", enquanto outra foi encontrar as chaves do carro "guardadas" no congelador --a forma de gelo, ela procura até hoje.
Para a glória e felicidade deste que vos escreve, minha mulher vem enfrentando, há sete meses e uma semana, semelhantes situações. Digo glória e felicidade não apenas pela paternidade que se aproxima, resgatando-me desta vil existência mortal e cadastrando-me na eternidade, mas porque, devido ao supracitado torpor gestacional, uma inédita mudança ocorreu no córtex cerebral de minha amada: ela deu para me achar engraçado.
Por seis anos, usei de todos os artifícios para fazê-la rir --embalde. Não que ela seja triste ou lhe falte humor, longe disso, é que se trata de uma pessoa mais refinada do que eu --ou, pelo menos, do que minhas piadas. Gosta de ir a balés, a exposições, adora filmes de países remotos, em que há mais diálogos do balido das cabras com o silvo do vento do que entre seres humanos. Não estou sendo irônico: admiro muito seu gosto e toda vez que, procurando algo em nosso iPod, tropeço num Tchaikovsky ou esbarro num Chopin, percebo o quanto ela me fez crescer, evoluir. Não fosse ela, eu ainda estaria por aí --de moletom, provavelmente-- dizendo coisas como: "É pavê ou pacomê?!".
Ter em casa tão implacável crítica fez de mim, modéstia à parte, um Stalone em "Rocky IV" treinando na neve, um Daniel San em "Karatê Kid" pintando muros: ensinou-me a ver na adversidade os halteres do espírito. Espírito que, hoje, fortalecido, evita, por exemplo, mesmo que sob fortíssima tentação, terminar o presente parágrafo com "Win Wenders e aprendendo".
Ou melhor, evitava, pois veio a gravidez e, num de seus muitos passes de mágica, mudou tudo. Se antes, em meus melhores momentos seinfeldianos, merecia no máximo um sorriso, hoje arranco aplausos com qualquer tirada de "Zorra Total". Os halteres enferrujam na área de serviço de minh'alma. Tô pior que tio bêbado em festa de família; é do pavê pra baixo --e só sucesso.
Que sábia a natureza: durante anos, todo mês, manda a TPM para a mulher, aguçando seu senso crítico, como se lhe sussurrasse: "Tem certeza de que é esse aí o cara ideal para propagar os seus genes?". Após a fecundação, contudo, sabendo da necessidade de um companheiro para trazer javalis abatidos, fraldas descartáveis e apoio moral, os hormônios baixam radicalmente os critérios, como se sugerissem à moça, em relação ao marido: "Se só tem tu, vai tu mesmo!". Ainda que "tu" seja esse cara aí no chuveiro, cantando "Mama Áustria", um velho clássico do "Casseta & Planeta", e, veja só, lucrando uma bela gargalhada.
Filhota, prometo fazer tudo o que estiver ao meu alcance para ser um bom pai. Uma coisa, contudo, garanto: serei um pai engraçado. Pergunte à sua mãe --de preferência, quando ela estiver grávida do próximo.
Devido ao torpor gestacional, uma inédita mudança ocorreu em minha amada: ela deu para me achar engraçado
Não sei se são os hormônios, a emoção ou as toxinas liberadas pelo bebê, mas é fato que durante a gravidez as mulheres padecem de um, digamos assim, "handicap" cognitivo. As queixas variam de gestante para gestante: há quem fique esquecida, quem funcione mais devagar; uma amiga relatou sérias dificuldades para acompanhar a trama de "Rei Leão", enquanto outra foi encontrar as chaves do carro "guardadas" no congelador --a forma de gelo, ela procura até hoje.
Para a glória e felicidade deste que vos escreve, minha mulher vem enfrentando, há sete meses e uma semana, semelhantes situações. Digo glória e felicidade não apenas pela paternidade que se aproxima, resgatando-me desta vil existência mortal e cadastrando-me na eternidade, mas porque, devido ao supracitado torpor gestacional, uma inédita mudança ocorreu no córtex cerebral de minha amada: ela deu para me achar engraçado.
Por seis anos, usei de todos os artifícios para fazê-la rir --embalde. Não que ela seja triste ou lhe falte humor, longe disso, é que se trata de uma pessoa mais refinada do que eu --ou, pelo menos, do que minhas piadas. Gosta de ir a balés, a exposições, adora filmes de países remotos, em que há mais diálogos do balido das cabras com o silvo do vento do que entre seres humanos. Não estou sendo irônico: admiro muito seu gosto e toda vez que, procurando algo em nosso iPod, tropeço num Tchaikovsky ou esbarro num Chopin, percebo o quanto ela me fez crescer, evoluir. Não fosse ela, eu ainda estaria por aí --de moletom, provavelmente-- dizendo coisas como: "É pavê ou pacomê?!".
Ter em casa tão implacável crítica fez de mim, modéstia à parte, um Stalone em "Rocky IV" treinando na neve, um Daniel San em "Karatê Kid" pintando muros: ensinou-me a ver na adversidade os halteres do espírito. Espírito que, hoje, fortalecido, evita, por exemplo, mesmo que sob fortíssima tentação, terminar o presente parágrafo com "Win Wenders e aprendendo".
Ou melhor, evitava, pois veio a gravidez e, num de seus muitos passes de mágica, mudou tudo. Se antes, em meus melhores momentos seinfeldianos, merecia no máximo um sorriso, hoje arranco aplausos com qualquer tirada de "Zorra Total". Os halteres enferrujam na área de serviço de minh'alma. Tô pior que tio bêbado em festa de família; é do pavê pra baixo --e só sucesso.
Que sábia a natureza: durante anos, todo mês, manda a TPM para a mulher, aguçando seu senso crítico, como se lhe sussurrasse: "Tem certeza de que é esse aí o cara ideal para propagar os seus genes?". Após a fecundação, contudo, sabendo da necessidade de um companheiro para trazer javalis abatidos, fraldas descartáveis e apoio moral, os hormônios baixam radicalmente os critérios, como se sugerissem à moça, em relação ao marido: "Se só tem tu, vai tu mesmo!". Ainda que "tu" seja esse cara aí no chuveiro, cantando "Mama Áustria", um velho clássico do "Casseta & Planeta", e, veja só, lucrando uma bela gargalhada.
Filhota, prometo fazer tudo o que estiver ao meu alcance para ser um bom pai. Uma coisa, contudo, garanto: serei um pai engraçado. Pergunte à sua mãe --de preferência, quando ela estiver grávida do próximo.
O Rio que se discute - ZUENIR VENTURA
O GLOBO - 17/04
É provável que nenhuma das 80/90 pessoas ali reunidas quisesse trocar o Rio por qualquer outro lugar do mundo para morar. Mas isso não impediu que sobrassem críticas à cidade no encontro de segunda-feira da série Mitos Cariocas, dentro do projeto OsteRio, que discute o nosso futuro como metrópole. O tema da noite era "Malandro ou criativo? O jeito carioca e sua influência". Junto com o publicitário Lula Vieira e o jornalista Gilberto Scofield, participei da mesa, coordenada pelo economista David Zilbersztajn. Como naquela plateia especial havia cabeças que sabem muito bem como pensar e/ou agir para melhorar o Rio, coube a nós a modesta tarefa de levantar questões e suscitar temas para discussão.
É difícil resumir o que foi tratado num debate descontraído, bem-humorado e não convencional. Além desse formato original, o que houve de mais interessante a meu ver foi a pluralidade das opiniões, em que a única unanimidade era a paixão pelo Rio. A uma crítica, surgia sempre uma defesa. O carioca adora falar mal do Rio, mas não suporta ouvir o outro falando. Só eu posso criticar.
Quando, por exemplo, Scofield usou sua experiência como correspondente em capitais como Washington e Pequim para concluir que os serviços daqui são os piores do mundo - "Não quero ser amigo de garçons simpáticos que dão tapinhas nas costas; quero que eles me atendam com eficiência" - alguém contra-argumentou fazendo graça: "Isso é porque você não conhece os serviços de Paris."
Entre as nossas mazelas e problemas urbanos a serem lamentados, foram citados a falta de educação e de higiene, o desrespeito ao outro, a violência no trânsito, enfim, a maneira pouco civilizada com que o carioca trata a sua cidade, sem falar na complacência com o ilegal confundido com o informal, na tolerância com o desvio que vira norma e na promiscuidade da polícia com o crime.
Nem tudo o que de bom é atribuído à velha malandragem é de se jogar fora, como um certo fair-play, um jeito otimista de enfrentar o infortúnio e driblar a adversidade (não por acaso, o nosso padroeiro é um santo zen, São Sebastião, que mesmo flechado mantém a serenidade). Mas o malandro típico, de terno branco e navalha, não existe mais; ou virou traficante ou foi parar no samba de Chico Buarque: "Malandro candidato a malandro federal/Malandro com retrato na coluna social;/Malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal."
Esse é encontrado aqui também, mas age mais em Brasília.
É difícil resumir o que foi tratado num debate descontraído, bem-humorado e não convencional. Além desse formato original, o que houve de mais interessante a meu ver foi a pluralidade das opiniões, em que a única unanimidade era a paixão pelo Rio. A uma crítica, surgia sempre uma defesa. O carioca adora falar mal do Rio, mas não suporta ouvir o outro falando. Só eu posso criticar.
Quando, por exemplo, Scofield usou sua experiência como correspondente em capitais como Washington e Pequim para concluir que os serviços daqui são os piores do mundo - "Não quero ser amigo de garçons simpáticos que dão tapinhas nas costas; quero que eles me atendam com eficiência" - alguém contra-argumentou fazendo graça: "Isso é porque você não conhece os serviços de Paris."
Entre as nossas mazelas e problemas urbanos a serem lamentados, foram citados a falta de educação e de higiene, o desrespeito ao outro, a violência no trânsito, enfim, a maneira pouco civilizada com que o carioca trata a sua cidade, sem falar na complacência com o ilegal confundido com o informal, na tolerância com o desvio que vira norma e na promiscuidade da polícia com o crime.
Nem tudo o que de bom é atribuído à velha malandragem é de se jogar fora, como um certo fair-play, um jeito otimista de enfrentar o infortúnio e driblar a adversidade (não por acaso, o nosso padroeiro é um santo zen, São Sebastião, que mesmo flechado mantém a serenidade). Mas o malandro típico, de terno branco e navalha, não existe mais; ou virou traficante ou foi parar no samba de Chico Buarque: "Malandro candidato a malandro federal/Malandro com retrato na coluna social;/Malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal."
Esse é encontrado aqui também, mas age mais em Brasília.
Os cozinheiros atores - NINA HORTA
FOLHA DE SP - 17/04
Vemos Jamie Oliver matar os perus do seu quintal, perus que ele nomeou e criou com suas crianças
Na semana passada, contei que fui entrevistada por uma repórter que trazia, além de lápis e papel, olhos azuis ou verdes, cabelos louros, nada chamuscados pelas lides da cozinha. É que ela atua em todos os setores, entrevista sobre o que lhe interessa, e a cozinha a estava deixando intrigada.
Quase todas as pautas eram sobre o assunto. Onde andariam outros heróis que não chefs, desde quando a malha colada do Super-Homem fora substituída pela calça xadrezinha do chef? Não pude responder a tudo e aqui vai o restante.
E os realities shows de chefs? Um mistério, porque neles não se aprende a cozinhar, mas concordo que se aprende a dizer "sim, chef", para não se tomar uma frigideira no ouvido. Então, ali, o programa não é de comida, é de competição.
E tenho uma hipótese sobre os programas que se repetem exatamente do mesmo jeito, como o do Gordon Ramsay, aquele que conserta restaurantes falidos.
O roteiro é exatamente o mesmo, o mesmo timing, ele chega à cidade, entra no restaurante, vê que num lugar onde há um mar gigantesco na porta o dono do restaurante só serve cabrito congelado e muda o menu para ostras e vermelhos e outro peixinho vadio que nade por ali.
O dono quase se mata com as modificações, o cozinheiro bate a porta e vai embora. Mas, quando dentro de três meses Ramsay volta, pode-se escutar hummm, hummm de gostosura na boca dos clientes. E o cofrinho do caixa está barrigudo, se arrebentando de euros.
E assistimos. Os cozinheiros atores são surpreendentemente bons, o Ramsay atua melhor do que cozinha, e o resto é a satisfação de nossa parte infantil, sabe quando a mãe pula uma linha do "Chapeuzinho Vermelho" e a criança quase dormindo sobressalta, chorando? Nós, os do sofá, somos assim também.
Imagine se um dia nos puséssemos a ver o programa e, quando os garçons trouxessem a comida da casa para o chef provar, ele achasse tudo uma delícia, comentando que não teria nada a fazer lá, que o problema deveria estar em outro lugar? Começaríamos a chorar como os bebês, com certeza.
No mais, assistimos a coisas que nos interessam. Quem não gosta de comer? Quem gosta de matar um peru e assar para o jantar? Então vemos o Jamie Oliver matar os perus do seu quintal, perus que ele nomeou e criou com suas crianças, e ficamos felizes por ter que ser ele a executar os bichos e não nós que compramos o peito enrolado em plástico no mercado.
E o momento é de muita reflexão sobre a cozinha e sobre todo o resto. A cozinha sofreu um bocado com sua medicalização e confundiu os assuntos. E ainda tem a nutrição com maiúscula.
Sugeri que a Luara lesse "Culture in a Liquid Modern World" (Zigmunt Baum), um livro pequenino e fácil. Vai achar que todos no mundo, não só os cozinheiros, estão nesse impasse de não ter "receitas", livres como pássaros na gaiola.
A ideia dele é que todas as normas que antes cultivávamos passaram por um poderoso liquidificador e tornaram-se massinha de jardim de infância em nossas mãos. Ainda estamos brincando com elas. Até aprender tudo de novo.
Vemos Jamie Oliver matar os perus do seu quintal, perus que ele nomeou e criou com suas crianças
Na semana passada, contei que fui entrevistada por uma repórter que trazia, além de lápis e papel, olhos azuis ou verdes, cabelos louros, nada chamuscados pelas lides da cozinha. É que ela atua em todos os setores, entrevista sobre o que lhe interessa, e a cozinha a estava deixando intrigada.
Quase todas as pautas eram sobre o assunto. Onde andariam outros heróis que não chefs, desde quando a malha colada do Super-Homem fora substituída pela calça xadrezinha do chef? Não pude responder a tudo e aqui vai o restante.
E os realities shows de chefs? Um mistério, porque neles não se aprende a cozinhar, mas concordo que se aprende a dizer "sim, chef", para não se tomar uma frigideira no ouvido. Então, ali, o programa não é de comida, é de competição.
E tenho uma hipótese sobre os programas que se repetem exatamente do mesmo jeito, como o do Gordon Ramsay, aquele que conserta restaurantes falidos.
O roteiro é exatamente o mesmo, o mesmo timing, ele chega à cidade, entra no restaurante, vê que num lugar onde há um mar gigantesco na porta o dono do restaurante só serve cabrito congelado e muda o menu para ostras e vermelhos e outro peixinho vadio que nade por ali.
O dono quase se mata com as modificações, o cozinheiro bate a porta e vai embora. Mas, quando dentro de três meses Ramsay volta, pode-se escutar hummm, hummm de gostosura na boca dos clientes. E o cofrinho do caixa está barrigudo, se arrebentando de euros.
E assistimos. Os cozinheiros atores são surpreendentemente bons, o Ramsay atua melhor do que cozinha, e o resto é a satisfação de nossa parte infantil, sabe quando a mãe pula uma linha do "Chapeuzinho Vermelho" e a criança quase dormindo sobressalta, chorando? Nós, os do sofá, somos assim também.
Imagine se um dia nos puséssemos a ver o programa e, quando os garçons trouxessem a comida da casa para o chef provar, ele achasse tudo uma delícia, comentando que não teria nada a fazer lá, que o problema deveria estar em outro lugar? Começaríamos a chorar como os bebês, com certeza.
No mais, assistimos a coisas que nos interessam. Quem não gosta de comer? Quem gosta de matar um peru e assar para o jantar? Então vemos o Jamie Oliver matar os perus do seu quintal, perus que ele nomeou e criou com suas crianças, e ficamos felizes por ter que ser ele a executar os bichos e não nós que compramos o peito enrolado em plástico no mercado.
E o momento é de muita reflexão sobre a cozinha e sobre todo o resto. A cozinha sofreu um bocado com sua medicalização e confundiu os assuntos. E ainda tem a nutrição com maiúscula.
Sugeri que a Luara lesse "Culture in a Liquid Modern World" (Zigmunt Baum), um livro pequenino e fácil. Vai achar que todos no mundo, não só os cozinheiros, estão nesse impasse de não ter "receitas", livres como pássaros na gaiola.
A ideia dele é que todas as normas que antes cultivávamos passaram por um poderoso liquidificador e tornaram-se massinha de jardim de infância em nossas mãos. Ainda estamos brincando com elas. Até aprender tudo de novo.
Show de raça - TOSTÃO
FOLHA DE SP - 17/04
Há tempos, no Brasil, na média das partidas, existe mais show de raça do que show de futebol
Quem assistiu, na íntegra, à vitória sobre o Libertad ficou impressionado com o ritmo alucinante do Palmeiras e com a relação apaixonada entre os 37 mil torcedores e os jogadores.
Por minha psicologia de botequim, houve uma catarse, uma explosão de sentimentos contidos, adormecidos no fundo da alma. Assim como ocorre nas tragédias, quando as pessoas ficam extremamente comovidas e solidárias com as vítimas, atletas e torcedores do Palmeiras querem levantar o time, abraçá-lo intensamente e colocá-lo em seu lugar. Isso já ocorreu com vários outros times, que passaram pela mesma situação.
O show de raça, como disse um repórter, é uma situação de emergência, adequada para o modesto time do Palmeiras. Pode funcionar em um jogo, dois e até durante todo um torneio curto, como na Copa do Brasil, na Libertadores e na Copa do Mundo. Não dá é para fazer disso uma rotina, pois, além de não ser possível tecnicamente, foge à normalidade e torna o futebol mais uma guerra do que um jogo de técnica e de talento.
Há anos, ocorre algo parecido no futebol brasileiro, sem a intensidade do que acontece hoje com o Palmeiras. Existe uma grande valorização da garra, do confronto físico, em detrimento do jogo bem jogado. Sempre que um time perde, dizem que faltou raça. Adoram expressões como "time guerreiro", "sangue na veia", "sangue nos olhos". Essa excessiva agressividade, próxima da violência, é um dos motivos da queda do futebol brasileiro. Há mais show de raça do que de futebol.
Jogar com vontade é tão essencial que nem deveria ser discutido. Nelson Rodrigues disse que quem ganha é a alma. Parafraseando Fernando Pessoa, penso que quem ganha é o talento, desde que a alma não seja pequena.
Hoje é dia de Libertadores. Espero que sejam jogos vibrantes e de boa qualidade. O São Paulo bobeou contra o Arsenal e, agora, está em uma situação difícil. Enfrenta o Atlético-MG, o melhor time da competição. Não bobeou porque faltou raça. Bobeou porque não tem mais Lucas, os laterais e os zagueiros são apenas razoáveis, Luis Fabiano vive suspenso, e o técnico não define se escala Jadson e Ganso ou se repete o esquema anterior. Hoje, não terá Jadson e Luis Fabiano, os melhores do time.
Grêmio e Fluminense correm riscos. O Grêmio, por tantos bons jogadores contratados, deveria estar melhor. O Fluminense não tem a mesma eficiência do ano passado.
O Corinthians, já classificado, descansa. Como muitos veteranos retornaram ao Brasil para ser destaques em suas equipes, esperava- -se que o jovem Pato, uma celebridade mundial, se tornasse o astro do time. O tempo passa, e Pato continua na reserva. Quando entra, joga bem, porém no nível dos outros. A expectativa era muito maior.
Há tempos, no Brasil, na média das partidas, existe mais show de raça do que show de futebol
Quem assistiu, na íntegra, à vitória sobre o Libertad ficou impressionado com o ritmo alucinante do Palmeiras e com a relação apaixonada entre os 37 mil torcedores e os jogadores.
Por minha psicologia de botequim, houve uma catarse, uma explosão de sentimentos contidos, adormecidos no fundo da alma. Assim como ocorre nas tragédias, quando as pessoas ficam extremamente comovidas e solidárias com as vítimas, atletas e torcedores do Palmeiras querem levantar o time, abraçá-lo intensamente e colocá-lo em seu lugar. Isso já ocorreu com vários outros times, que passaram pela mesma situação.
O show de raça, como disse um repórter, é uma situação de emergência, adequada para o modesto time do Palmeiras. Pode funcionar em um jogo, dois e até durante todo um torneio curto, como na Copa do Brasil, na Libertadores e na Copa do Mundo. Não dá é para fazer disso uma rotina, pois, além de não ser possível tecnicamente, foge à normalidade e torna o futebol mais uma guerra do que um jogo de técnica e de talento.
Há anos, ocorre algo parecido no futebol brasileiro, sem a intensidade do que acontece hoje com o Palmeiras. Existe uma grande valorização da garra, do confronto físico, em detrimento do jogo bem jogado. Sempre que um time perde, dizem que faltou raça. Adoram expressões como "time guerreiro", "sangue na veia", "sangue nos olhos". Essa excessiva agressividade, próxima da violência, é um dos motivos da queda do futebol brasileiro. Há mais show de raça do que de futebol.
Jogar com vontade é tão essencial que nem deveria ser discutido. Nelson Rodrigues disse que quem ganha é a alma. Parafraseando Fernando Pessoa, penso que quem ganha é o talento, desde que a alma não seja pequena.
Hoje é dia de Libertadores. Espero que sejam jogos vibrantes e de boa qualidade. O São Paulo bobeou contra o Arsenal e, agora, está em uma situação difícil. Enfrenta o Atlético-MG, o melhor time da competição. Não bobeou porque faltou raça. Bobeou porque não tem mais Lucas, os laterais e os zagueiros são apenas razoáveis, Luis Fabiano vive suspenso, e o técnico não define se escala Jadson e Ganso ou se repete o esquema anterior. Hoje, não terá Jadson e Luis Fabiano, os melhores do time.
Grêmio e Fluminense correm riscos. O Grêmio, por tantos bons jogadores contratados, deveria estar melhor. O Fluminense não tem a mesma eficiência do ano passado.
O Corinthians, já classificado, descansa. Como muitos veteranos retornaram ao Brasil para ser destaques em suas equipes, esperava- -se que o jovem Pato, uma celebridade mundial, se tornasse o astro do time. O tempo passa, e Pato continua na reserva. Quando entra, joga bem, porém no nível dos outros. A expectativa era muito maior.
Em defesa de Justin Bieber… - TUTTY VASQUES
O ESTADÃO - 17/04
Dá até para entender o desgosto de alguém que amava os Beatles e os Rolling Stones ao descobrir no diário da filha a paixão pelo ídolo teen canadense, mas podia ser pior: já pensou se ela andasse pela casa cantando “É nóis fazer parapapá” ou ‘‘Ah, lelek lek lek lek’.Tá certo que, ao final da visita que fez em Amsterdã à casa onde Anne Frank viveu escondida do nazismo, Justin Bieber não precisava escrever no livro do museu que a menina judia poderia ter sido uma “belieber” – como o cantor chama suas fãs –, mas isso também não é motivo para que pais de adolescentes de hoje em dia tranquem suas meninas no sótão tentando evitar contatos com o artista.
O que tem de porcaria surfando nas ondas do rádio, francamente, não é justo que só peguem no pé do pequeno príncipe da música pop. Até a Miss Canadá o chamou dia desses de “idiota” nas redes sociais.
Curiosamente, depois que ele comparou Anne Frank a uma “belieber” em potencial, só a direção do museu holandês saiu em sua defesa, exaltando a visita de um jovem de 19 anos, “que poderia ter feito outras coisas em Amsterdã”.
Pense nisso, antes de implicar com o ídolo de sua filha!
Companhias
“Resolvi surtar um pouco e fazer o que me dá prazer!”O cantor Fiuk não é mais aquele filhinho de papai depois que passou a andar com MC Sapão e Rappin Hood, parceiros de seu novo disco.Fábio Jr. tá sabendo de tudo!
Banguela aérea
A Gol pagará bônus salarial aos pilotos que reduzirem o consumo de combustível durante os voos da companhia, mas isso não quer dizer que vai ter avião descendo para o pouso em ponto morto para economizar querosene
Nos conformes
O pessoal do próprio STF fez uma vaquinha para encomendar o bolo e o aniversariante pede aos convidados que, em vez de presentes, levem alimentos não perecíveis para doação a um orfanato.A festa pelos 60 anos do ministro Luiz Fux foi remarcada para o final do mês num quiosque da Lagoa, no Rio.
Mal comparando
Pareciam colegas de classe!Quem foi ao Lincoln Center assistir ‘Bibi (Ferreira) in Concert’ teve a exata noção de como a diva brasileira está bem aos 90 anos quando Liza Minelli, 67 anos, subiu ao palco para cantarem juntas um trechinho de ‘New York, New York’!
Gente doida
Pode?Enquanto todo mundo normal vivia na segunda-feira a aflição com as bombas de Boston, os operadores das bolsas de Nova York não escondiam o nervosismo com as perdas no mercado de commodities.
Ceni expiatório
Com o goleiro em campo, o técnico terá alguma chance de não ser o único culpado em caso de eliminação do São Paulo na Libertadores.Nei Franco tem bons motivos para escalar Rogério Ceni – afastado desde a patada que tomou do Pato – na partida desta quarta-feira contra o Atlético Mineiro, no Morumbi.
Dá até para entender o desgosto de alguém que amava os Beatles e os Rolling Stones ao descobrir no diário da filha a paixão pelo ídolo teen canadense, mas podia ser pior: já pensou se ela andasse pela casa cantando “É nóis fazer parapapá” ou ‘‘Ah, lelek lek lek lek’.Tá certo que, ao final da visita que fez em Amsterdã à casa onde Anne Frank viveu escondida do nazismo, Justin Bieber não precisava escrever no livro do museu que a menina judia poderia ter sido uma “belieber” – como o cantor chama suas fãs –, mas isso também não é motivo para que pais de adolescentes de hoje em dia tranquem suas meninas no sótão tentando evitar contatos com o artista.
O que tem de porcaria surfando nas ondas do rádio, francamente, não é justo que só peguem no pé do pequeno príncipe da música pop. Até a Miss Canadá o chamou dia desses de “idiota” nas redes sociais.
Curiosamente, depois que ele comparou Anne Frank a uma “belieber” em potencial, só a direção do museu holandês saiu em sua defesa, exaltando a visita de um jovem de 19 anos, “que poderia ter feito outras coisas em Amsterdã”.
Pense nisso, antes de implicar com o ídolo de sua filha!
Companhias
“Resolvi surtar um pouco e fazer o que me dá prazer!”O cantor Fiuk não é mais aquele filhinho de papai depois que passou a andar com MC Sapão e Rappin Hood, parceiros de seu novo disco.Fábio Jr. tá sabendo de tudo!
Banguela aérea
A Gol pagará bônus salarial aos pilotos que reduzirem o consumo de combustível durante os voos da companhia, mas isso não quer dizer que vai ter avião descendo para o pouso em ponto morto para economizar querosene
Nos conformes
O pessoal do próprio STF fez uma vaquinha para encomendar o bolo e o aniversariante pede aos convidados que, em vez de presentes, levem alimentos não perecíveis para doação a um orfanato.A festa pelos 60 anos do ministro Luiz Fux foi remarcada para o final do mês num quiosque da Lagoa, no Rio.
Mal comparando
Pareciam colegas de classe!Quem foi ao Lincoln Center assistir ‘Bibi (Ferreira) in Concert’ teve a exata noção de como a diva brasileira está bem aos 90 anos quando Liza Minelli, 67 anos, subiu ao palco para cantarem juntas um trechinho de ‘New York, New York’!
Gente doida
Pode?Enquanto todo mundo normal vivia na segunda-feira a aflição com as bombas de Boston, os operadores das bolsas de Nova York não escondiam o nervosismo com as perdas no mercado de commodities.
Ceni expiatório
Com o goleiro em campo, o técnico terá alguma chance de não ser o único culpado em caso de eliminação do São Paulo na Libertadores.Nei Franco tem bons motivos para escalar Rogério Ceni – afastado desde a patada que tomou do Pato – na partida desta quarta-feira contra o Atlético Mineiro, no Morumbi.
No país das masmorras - MARCELO COELHO
FOLHA DE SP - 17/04
Debate sobre maioridade penal esconde outros desejos, como o de fuzilamento
"Ora, francamente", escreveu Marcos Augusto Gonçalves, nesta segunda-feira, sobre o tema da maioridade penal.
Ele tem razão: passamos todos os dias por crianças miseráveis e adolescentes drogados nas ruas de São Paulo, e quando um deles se torna assassino, surge a proposta de mudar a idade mínima para a responsabilização criminal.
Marcos Augusto pede desculpas pelo clichê: a saída está na educação. Novamente concordo, e concordo também com a impaciência do articulista quanto ao problema da idade penal em si.
Dezesseis ou 18 anos? Leio diversos artigos a respeito, e há argumentos que simplesmente não fazem sentido para mim. Comento um pouco. Diz-se, por exemplo, que o assunto não pode ser debatido num clima emocional.
Discordo disso. É natural que, quando um problema chama a atenção, discutam-se as soluções possíveis. Todo país tem dezenas, centenas de problemas. Depois de um incêndio, discutem-se as falhas de fiscalização da prefeitura. Seria melhor que o incêndio não ocorresse. Mas teríamos de esperar um clima de menor comoção para tratar do assunto?
Quem reclama da discussão "emocional" sabe que, nesses momentos, o problema é outro. A saber, o de que está em vantagem a tese do adversário.
Mas muitas teses simpáticas e liberais também entram em discussão em momentos de choque. Depois de acidentes em usinas nucleares, cresce o movimento pela energia alternativa. A tese do desarmamento, nos Estados Unidos, aproveita o mais recente massacre escolar.
O que haveria de errado nisso? De resto, todo mundo sabe que até determinada proposta se tornar lei, passa um tempo considerável. Confia pouco no "debate racional", de todo modo, quem acha que só pode travá-lo num estado de indiferença generalizada.
De resto, pelo que li, o debate tem sido rico e detalhado. Há argumentos e mais argumentos contra a diminuição do limite penal, e eu mesmo já mudei de ideia umas três vezes.
Passo a outro raciocínio, entretanto, que não me convence, e é dos mais repetidos. Vai nesta linha: "Vocês querem diminuir para 16? E quando aparecer um assassino de 15 anos e meio? Diminui para 14? Para 12?".
Obviamente esses limites são arbitrários. Mas eles se tornam mais realistas, ou mais absurdos, conforme uma realidade estatística. Se aumenta muito o número de criminosos com 16 anos, há argumentos para que essa idade passe a ser considerada para fins penais.
Não é o único argumento, claro. Pode-se dizer que aos 16 anos a personalidade de alguém não está plenamente constituída, e que seus atos não provêm de uma vontade tão autônoma, tão "responsável", quanto a de quem tem 18 ou mais.
Tenho minhas dúvidas sobre isso, mas não importa. Passo a outro argumento. Prender o adolescente, ainda que em dependências especiais, seria submetê-lo a uma autêntica "escola do crime" --pois sabemos que as instituições existentes servem para tudo, menos para recuperar o criminoso.
Escolas do crime, sim. Mas e a rua? E a favela? E a escola pública? O crime organizado ensina os seus candidatos em toda parte. O raciocínio se encadeia a outro.
Na verdade, dizem os criminalistas, pelas leis atuais o menor infrator pode terminar mais tempo preso (ou "apreendido", como estranhamente se diz) do que o marmanjo. De modo que diminuir o limite para 16 anos terminaria, em alguns casos, beneficiando o criminoso!
Ah, é? Mas quem defende a maioridade aos 16 anos também quer penas mais pesadas para os presos atuais. Não adianta dizer que o atual sistema é "bom", pelo fato de que depois de poucos anos o assassino com mais de 18 está fora da cadeia.
Chegamos ao núcleo da questão. No estado atual das prisões brasileiras, é tão bárbaro prender quem tem 16 anos quanto quem tem 18 ou mais. Todos sabemos disso. O país não tem moral para exigir respeito à lei quando não tem moral para dizer: isto é uma prisão, você perderá a liberdade e aprenderá um ofício; trate de se recuperar.
Quem pede leis mais rigorosas simplesmente usa um eufemismo: queria que todo criminoso fosse fuzilado. Quem é contra leis mais rigorosas sabe que, na verdade, as que existem são outro eufemismo. Falam em "instituição correcional", em "presídio", quando deveriam dizer "campo de concentração", "pocilga", ou "masmorra".
Antes, dizia-se "Carandiru".
Debate sobre maioridade penal esconde outros desejos, como o de fuzilamento
"Ora, francamente", escreveu Marcos Augusto Gonçalves, nesta segunda-feira, sobre o tema da maioridade penal.
Ele tem razão: passamos todos os dias por crianças miseráveis e adolescentes drogados nas ruas de São Paulo, e quando um deles se torna assassino, surge a proposta de mudar a idade mínima para a responsabilização criminal.
Marcos Augusto pede desculpas pelo clichê: a saída está na educação. Novamente concordo, e concordo também com a impaciência do articulista quanto ao problema da idade penal em si.
Dezesseis ou 18 anos? Leio diversos artigos a respeito, e há argumentos que simplesmente não fazem sentido para mim. Comento um pouco. Diz-se, por exemplo, que o assunto não pode ser debatido num clima emocional.
Discordo disso. É natural que, quando um problema chama a atenção, discutam-se as soluções possíveis. Todo país tem dezenas, centenas de problemas. Depois de um incêndio, discutem-se as falhas de fiscalização da prefeitura. Seria melhor que o incêndio não ocorresse. Mas teríamos de esperar um clima de menor comoção para tratar do assunto?
Quem reclama da discussão "emocional" sabe que, nesses momentos, o problema é outro. A saber, o de que está em vantagem a tese do adversário.
Mas muitas teses simpáticas e liberais também entram em discussão em momentos de choque. Depois de acidentes em usinas nucleares, cresce o movimento pela energia alternativa. A tese do desarmamento, nos Estados Unidos, aproveita o mais recente massacre escolar.
O que haveria de errado nisso? De resto, todo mundo sabe que até determinada proposta se tornar lei, passa um tempo considerável. Confia pouco no "debate racional", de todo modo, quem acha que só pode travá-lo num estado de indiferença generalizada.
De resto, pelo que li, o debate tem sido rico e detalhado. Há argumentos e mais argumentos contra a diminuição do limite penal, e eu mesmo já mudei de ideia umas três vezes.
Passo a outro raciocínio, entretanto, que não me convence, e é dos mais repetidos. Vai nesta linha: "Vocês querem diminuir para 16? E quando aparecer um assassino de 15 anos e meio? Diminui para 14? Para 12?".
Obviamente esses limites são arbitrários. Mas eles se tornam mais realistas, ou mais absurdos, conforme uma realidade estatística. Se aumenta muito o número de criminosos com 16 anos, há argumentos para que essa idade passe a ser considerada para fins penais.
Não é o único argumento, claro. Pode-se dizer que aos 16 anos a personalidade de alguém não está plenamente constituída, e que seus atos não provêm de uma vontade tão autônoma, tão "responsável", quanto a de quem tem 18 ou mais.
Tenho minhas dúvidas sobre isso, mas não importa. Passo a outro argumento. Prender o adolescente, ainda que em dependências especiais, seria submetê-lo a uma autêntica "escola do crime" --pois sabemos que as instituições existentes servem para tudo, menos para recuperar o criminoso.
Escolas do crime, sim. Mas e a rua? E a favela? E a escola pública? O crime organizado ensina os seus candidatos em toda parte. O raciocínio se encadeia a outro.
Na verdade, dizem os criminalistas, pelas leis atuais o menor infrator pode terminar mais tempo preso (ou "apreendido", como estranhamente se diz) do que o marmanjo. De modo que diminuir o limite para 16 anos terminaria, em alguns casos, beneficiando o criminoso!
Ah, é? Mas quem defende a maioridade aos 16 anos também quer penas mais pesadas para os presos atuais. Não adianta dizer que o atual sistema é "bom", pelo fato de que depois de poucos anos o assassino com mais de 18 está fora da cadeia.
Chegamos ao núcleo da questão. No estado atual das prisões brasileiras, é tão bárbaro prender quem tem 16 anos quanto quem tem 18 ou mais. Todos sabemos disso. O país não tem moral para exigir respeito à lei quando não tem moral para dizer: isto é uma prisão, você perderá a liberdade e aprenderá um ofício; trate de se recuperar.
Quem pede leis mais rigorosas simplesmente usa um eufemismo: queria que todo criminoso fosse fuzilado. Quem é contra leis mais rigorosas sabe que, na verdade, as que existem são outro eufemismo. Falam em "instituição correcional", em "presídio", quando deveriam dizer "campo de concentração", "pocilga", ou "masmorra".
Antes, dizia-se "Carandiru".
Reservatórios meio cheios e meio vazios - PAULO PEDROSA
O ESTADÃO - 17/04
Se não há dúvidas de que o setor elétrico do País vive um de seus momentos mais intensos, há total divergência nas análises sobre seu presente e futuro. Algumas, muito negativas, focam mais nos efeitos colaterais das recentes mudanças no setor, agravados pela situação dos reservatórios das hidrelétricas, do que em seus resultados permanentes. Outras análises, natural e inevitavelmente, têm a marca de pressões políticas e econômicas.
Nesse contexto, é importante olhar para a metade meio cheia do copo - ou, por analogia, dos reservatórios - e reconhecer o avanço histórico que tivemos em questões estruturais e conceituais. E, com isso, aperfeiçoar o que for necessário e perseverar na direção positiva apontada, como a desoneração da energia do custo de políticas públicas, o aperfeiçoamento de seu sinal de preço e o tratamento das concessões em favor dos consumidores.
Um caso particular que exemplifica o momento é a discussão sobre a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que é um pilar de sustentação da confiança de investidores, agentes e consumidores. Também aqui há os saudosistas de um passado que não viveram e os que, focados no copo meio vazio, não percebem um processo que tem, no somatório de seus passos, fortalecido a agência. Confirmando essa tendência estão as revisões tarifárias das distribuidoras de energia, que vêm promovendo ganhos estruturais e permanentes para os consumidores. Mas, ao mesmo tempo, esses processos reconhecem as condições de cada empresa e situações em que é preciso preservar o interesse das concessionárias - afastando teses de que poderia haver uma agenda oculta de redução das tarifas como um fim em si mesma.
Outro ponto especialmente emblemático foi uma recente decisão sobre alterar ou não a sazonalização de garantias físicas (direito de venda de cada gerador associado à capacidade de produção de energia), tema que passou quase despercebido da sociedade em geral em razão de sua monumental complexidade. Nesse caso, a Aneel decidiu pelo reconhecimento dos prazos impostos pela Lei n.º 12.783, de 2013. Ou seja, manteve a aplicação das regras e reafirmou sua independência, mesmo quando os resultados, olhados, talvez, de forma pontual, possam desgostar a alguns. Com isso, a agência se provou justamente naquilo que é a essência de sua atuação: promover a estabilidade das regras e proteger o setor da tentação de intervenções continuadas a partir de julgamentos subjetivos e raciocínios fáceis, mas sem respaldo regulatório.
Nos passos que levaram à decisão final, ficou evidente a importância dos processos decisórios da Aneel: públicos, com manifestações dos interessados, posicionamentos técnicos da procuradoria e superintendências do regulador e debate transparente de ideias com respeito às visões diferentes, em reuniões tão abertas que são transmitidas ao vivo pela internet.
Reconhecer os avanços da Aneel e perseverar no seu fortalecimento é um raro ponto de convergência de um setor marcado por destrutiva dispersão e desarticulação de interesses. E é prioridade, particularmente quando toda a sua diretoria pode ser integralmente substituída em pouco mais de um ano. É preciso preservar um quadro de diretores que reúna a diversidade de vivências, visões e conhecimentos necessários e assegurar-lhes que possam atuar com independência e condições atrativas de trabalho, inclusive remuneratórias.
O setor precisa reconhecer que a energia passou a ter como foco a competitividade do País, e não os problemas de sua cadeia produtiva. A convergência em torno do fortalecimento da agência deve ser a base da discussão dos aperfeiçoamentos necessários. Sob o ponto de vista da grande indústria, essa agenda precisa produzir resultados mais fortes que reflitam uma política de promoção da competitividade, o que inclui a continuidade do processo de desoneração e o acesso - hoje negado - dos grandes consumidores à energia das concessões que vencem e à expansão competitiva do parque gerador brasileiro.
Se não há dúvidas de que o setor elétrico do País vive um de seus momentos mais intensos, há total divergência nas análises sobre seu presente e futuro. Algumas, muito negativas, focam mais nos efeitos colaterais das recentes mudanças no setor, agravados pela situação dos reservatórios das hidrelétricas, do que em seus resultados permanentes. Outras análises, natural e inevitavelmente, têm a marca de pressões políticas e econômicas.
Nesse contexto, é importante olhar para a metade meio cheia do copo - ou, por analogia, dos reservatórios - e reconhecer o avanço histórico que tivemos em questões estruturais e conceituais. E, com isso, aperfeiçoar o que for necessário e perseverar na direção positiva apontada, como a desoneração da energia do custo de políticas públicas, o aperfeiçoamento de seu sinal de preço e o tratamento das concessões em favor dos consumidores.
Um caso particular que exemplifica o momento é a discussão sobre a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que é um pilar de sustentação da confiança de investidores, agentes e consumidores. Também aqui há os saudosistas de um passado que não viveram e os que, focados no copo meio vazio, não percebem um processo que tem, no somatório de seus passos, fortalecido a agência. Confirmando essa tendência estão as revisões tarifárias das distribuidoras de energia, que vêm promovendo ganhos estruturais e permanentes para os consumidores. Mas, ao mesmo tempo, esses processos reconhecem as condições de cada empresa e situações em que é preciso preservar o interesse das concessionárias - afastando teses de que poderia haver uma agenda oculta de redução das tarifas como um fim em si mesma.
Outro ponto especialmente emblemático foi uma recente decisão sobre alterar ou não a sazonalização de garantias físicas (direito de venda de cada gerador associado à capacidade de produção de energia), tema que passou quase despercebido da sociedade em geral em razão de sua monumental complexidade. Nesse caso, a Aneel decidiu pelo reconhecimento dos prazos impostos pela Lei n.º 12.783, de 2013. Ou seja, manteve a aplicação das regras e reafirmou sua independência, mesmo quando os resultados, olhados, talvez, de forma pontual, possam desgostar a alguns. Com isso, a agência se provou justamente naquilo que é a essência de sua atuação: promover a estabilidade das regras e proteger o setor da tentação de intervenções continuadas a partir de julgamentos subjetivos e raciocínios fáceis, mas sem respaldo regulatório.
Nos passos que levaram à decisão final, ficou evidente a importância dos processos decisórios da Aneel: públicos, com manifestações dos interessados, posicionamentos técnicos da procuradoria e superintendências do regulador e debate transparente de ideias com respeito às visões diferentes, em reuniões tão abertas que são transmitidas ao vivo pela internet.
Reconhecer os avanços da Aneel e perseverar no seu fortalecimento é um raro ponto de convergência de um setor marcado por destrutiva dispersão e desarticulação de interesses. E é prioridade, particularmente quando toda a sua diretoria pode ser integralmente substituída em pouco mais de um ano. É preciso preservar um quadro de diretores que reúna a diversidade de vivências, visões e conhecimentos necessários e assegurar-lhes que possam atuar com independência e condições atrativas de trabalho, inclusive remuneratórias.
O setor precisa reconhecer que a energia passou a ter como foco a competitividade do País, e não os problemas de sua cadeia produtiva. A convergência em torno do fortalecimento da agência deve ser a base da discussão dos aperfeiçoamentos necessários. Sob o ponto de vista da grande indústria, essa agenda precisa produzir resultados mais fortes que reflitam uma política de promoção da competitividade, o que inclui a continuidade do processo de desoneração e o acesso - hoje negado - dos grandes consumidores à energia das concessões que vencem e à expansão competitiva do parque gerador brasileiro.
Por que o país não cresce? - PEDRO FERREIRA E RENATO FRAGELLI
Valor Econômico - 17/04
Grande parte da inspiração para as políticas econômicas atuais vêm de um livro publicado por Keynes, durante a grande depressão iniciada em 1929, intitulado "A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda". Diante da grande capacidade ociosa da economia, para aumentar o produto, Keynes preconizava estímulos à demanda via promoção do consumo e ou investimento. Com o setor privado relutante em elevar seus gastos, cabia ao governo fazê-lo. Um dos aspectos inovadores daquela teoria era a possibilidade de um aumento do investimento - privado ou público - gerar a própria poupança para financiá-lo. Afinal, a capacidade produtiva necessária para atender à maior demanda por investimento já existia, mas não estava mobilizada.
Esse fenômeno, entretanto, desaparece quando não há capacidade ociosa na economia, pois não se consegue aumentar a produção doméstica no curto prazo. Numa economia que ocupa plenamente sua capacidade produtiva, o aumento de demanda só poderá ser atendido por maiores importações - ou menores exportações - e, se não for possível atender no exterior o excesso de demanda doméstico, a inflação aumentará.
Neste momento, os sinais de que a economia brasileira atingiu seu limite de produção são nítidos: taxa de desemprego historicamente baixa, deterioração do saldo comercial e em transações correntes, pressão inflacionária com alta difusão e vendas no varejo 42% acima dos níveis de cinco anos atrás. Este último número é duas vezes e meia maior que a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) no mesmo período.
Não há insuficiência de demanda, mas sim de oferta. No que tange ao fator capital, são frequentes os congestionamentos nos portos, aeroportos, estradas e metrôs. A ameaça de falta de energia paira no horizonte. Quanto ao fator trabalho, à crônica escassez de mão de obra qualificada, começa a somar-se uma novidade: a escassez de mão de obra desqualificada, decorrente de mudanças demográficas que diminuíram sua oferta.
Apesar dos claros sintomas de que a resistência do PIB em avançar se deve à insuficiência de oferta, o governo insiste no diagnóstico keynesiano ativando demanda com juros baixos, gastos elevados e cortes de impostos sobre consumo. Diagnóstico errado leva a remédios errados. E o agravante aqui é que esses remédios acabam por prejudicar a eficiência da economia, comprometendo a recuperação do produto que visavam promover. Por exemplo, a fim de impedir que a demanda resvale para maiores importações, estas são restringidas, mas hoje há ampla evidência que esse tipo de política afeta negativamente a produtividade da indústria. A pressão inflacionária é combatida com controle de preço de combustível - que debilita a Petrobras - e redução de preços da energia - que compromete a capacidade de expansão do sistema gerador - e outras medidas ad hoc que afetam o índice de preços, mas não as pressões inflacionárias propriamente.
Ademais, o sistema de metas para a inflação foi debilitado. Em vez de convencer os formadores de preços de que a inflação se situará em torno de 4,5%, o Banco Central se limita a manter a inflação abaixo de 6,5%, contando com os cortes de impostos e controles de preços citados acima.
Nada disso é sustentável no longo prazo, o que deteriora as expectativas de potenciais investidores. A expansão da oferta exigiria mais investimentos que permanecem estagnados devido ao ambiente de negócios adverso. Quando o Estado não tem dinheiro nem capacidade gerencial para implantar os necessários investimentos em infraestrutura, deve transferir a tarefa para o setor privado. Mas tratando-se de empreendimentos com longos prazos de maturação e vida útil, a atração de investidores privados requer ambiente de negócios favorável, sem riscos regulatórios.
Desde a liberalização comercial dos anos 1990, o país vinha passando por reformas estruturais e institucionais que melhoraram muito o ambiente de negócios e os incentivos para se investir no país. O governo petista, durante a gestão do ministro Palocci, promoveu importantes reformas - como a nova lei de falências e a alienação fiduciária para o crédito imobiliário - que, juntamente com um marco regulatório favorável implantado na era FHC, criaram um ambiente propício aos investimentos privados. Ajudado por uma conjuntura externa favorável, colheu-se um período de crescimento vigoroso, com inflação controlada e equilíbrio no balanço em transações correntes.
Mas, a partir da crise do subprime em 2008, a avaliação equivocada de que o capitalismo havia desmoronado levou à ressurreição de antigas ideias intervencionistas, revertendo várias das reformas anteriores, cujo clímax foi a mudança do marco regulatório do petróleo, um setor que vinha funcionando muito bem. Desde então, à secular burocracia, somou-se enorme incerteza no marco regulatório em vários setores, com mudanças nos setores de energia elétrica, extração mineral, portos, para citar apenas alguns.
Tem-se, por um lado, uma aposta continuamente aumentada em políticas de expansão de demanda, o que não é mais o problema atual. Por outro, uma volta a políticas do passado que, não só não deram certo - vide a estagnação da economia dos anos 1980 -, como distorcem a economia e aumentam a incerteza. Não é surpresa que o investimento não se recupere, que o apoio público através de financiamentos subsidiados tenha se tornado quase uma condição necessária para projetos de longo prazo, e que as perspectivas de crescimento, mesmo nas previsões mais otimistas, sejam medíocres.
Grande parte da inspiração para as políticas econômicas atuais vêm de um livro publicado por Keynes, durante a grande depressão iniciada em 1929, intitulado "A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda". Diante da grande capacidade ociosa da economia, para aumentar o produto, Keynes preconizava estímulos à demanda via promoção do consumo e ou investimento. Com o setor privado relutante em elevar seus gastos, cabia ao governo fazê-lo. Um dos aspectos inovadores daquela teoria era a possibilidade de um aumento do investimento - privado ou público - gerar a própria poupança para financiá-lo. Afinal, a capacidade produtiva necessária para atender à maior demanda por investimento já existia, mas não estava mobilizada.
Esse fenômeno, entretanto, desaparece quando não há capacidade ociosa na economia, pois não se consegue aumentar a produção doméstica no curto prazo. Numa economia que ocupa plenamente sua capacidade produtiva, o aumento de demanda só poderá ser atendido por maiores importações - ou menores exportações - e, se não for possível atender no exterior o excesso de demanda doméstico, a inflação aumentará.
Neste momento, os sinais de que a economia brasileira atingiu seu limite de produção são nítidos: taxa de desemprego historicamente baixa, deterioração do saldo comercial e em transações correntes, pressão inflacionária com alta difusão e vendas no varejo 42% acima dos níveis de cinco anos atrás. Este último número é duas vezes e meia maior que a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) no mesmo período.
Não há insuficiência de demanda, mas sim de oferta. No que tange ao fator capital, são frequentes os congestionamentos nos portos, aeroportos, estradas e metrôs. A ameaça de falta de energia paira no horizonte. Quanto ao fator trabalho, à crônica escassez de mão de obra qualificada, começa a somar-se uma novidade: a escassez de mão de obra desqualificada, decorrente de mudanças demográficas que diminuíram sua oferta.
Apesar dos claros sintomas de que a resistência do PIB em avançar se deve à insuficiência de oferta, o governo insiste no diagnóstico keynesiano ativando demanda com juros baixos, gastos elevados e cortes de impostos sobre consumo. Diagnóstico errado leva a remédios errados. E o agravante aqui é que esses remédios acabam por prejudicar a eficiência da economia, comprometendo a recuperação do produto que visavam promover. Por exemplo, a fim de impedir que a demanda resvale para maiores importações, estas são restringidas, mas hoje há ampla evidência que esse tipo de política afeta negativamente a produtividade da indústria. A pressão inflacionária é combatida com controle de preço de combustível - que debilita a Petrobras - e redução de preços da energia - que compromete a capacidade de expansão do sistema gerador - e outras medidas ad hoc que afetam o índice de preços, mas não as pressões inflacionárias propriamente.
Ademais, o sistema de metas para a inflação foi debilitado. Em vez de convencer os formadores de preços de que a inflação se situará em torno de 4,5%, o Banco Central se limita a manter a inflação abaixo de 6,5%, contando com os cortes de impostos e controles de preços citados acima.
Nada disso é sustentável no longo prazo, o que deteriora as expectativas de potenciais investidores. A expansão da oferta exigiria mais investimentos que permanecem estagnados devido ao ambiente de negócios adverso. Quando o Estado não tem dinheiro nem capacidade gerencial para implantar os necessários investimentos em infraestrutura, deve transferir a tarefa para o setor privado. Mas tratando-se de empreendimentos com longos prazos de maturação e vida útil, a atração de investidores privados requer ambiente de negócios favorável, sem riscos regulatórios.
Desde a liberalização comercial dos anos 1990, o país vinha passando por reformas estruturais e institucionais que melhoraram muito o ambiente de negócios e os incentivos para se investir no país. O governo petista, durante a gestão do ministro Palocci, promoveu importantes reformas - como a nova lei de falências e a alienação fiduciária para o crédito imobiliário - que, juntamente com um marco regulatório favorável implantado na era FHC, criaram um ambiente propício aos investimentos privados. Ajudado por uma conjuntura externa favorável, colheu-se um período de crescimento vigoroso, com inflação controlada e equilíbrio no balanço em transações correntes.
Mas, a partir da crise do subprime em 2008, a avaliação equivocada de que o capitalismo havia desmoronado levou à ressurreição de antigas ideias intervencionistas, revertendo várias das reformas anteriores, cujo clímax foi a mudança do marco regulatório do petróleo, um setor que vinha funcionando muito bem. Desde então, à secular burocracia, somou-se enorme incerteza no marco regulatório em vários setores, com mudanças nos setores de energia elétrica, extração mineral, portos, para citar apenas alguns.
Tem-se, por um lado, uma aposta continuamente aumentada em políticas de expansão de demanda, o que não é mais o problema atual. Por outro, uma volta a políticas do passado que, não só não deram certo - vide a estagnação da economia dos anos 1980 -, como distorcem a economia e aumentam a incerteza. Não é surpresa que o investimento não se recupere, que o apoio público através de financiamentos subsidiados tenha se tornado quase uma condição necessária para projetos de longo prazo, e que as perspectivas de crescimento, mesmo nas previsões mais otimistas, sejam medíocres.
Riscos na desoneração da folha - CRISTIANO ROMERO
Valor Econômico - 17/04
A desoneração da folha de pessoal promovida pelo governo para reduzir custos de contratação de mão de obra pode produzir efeitos colaterais indesejados. A medida barateia um bem escasso na economia - o trabalho -, quebra a lógica do financiamento previdenciário e pode provocar distorções que limitem o investimento e o aumento da produtividade, justamente os dois objetivos centrais da política oficial.
A troca da contribuição sobre folha por um tributo sobre faturamento das empresas não é uma invenção do PT. Na verdade, vinha sendo debatida há bastante tempo, sempre enfrentou resistência do movimento sindical e acabou sendo adotada seletivamente pela gestão Dilma Rousseff, que desonerou 42 setores e incluirá mais 14 no próximo ano.
O economista Edward Amadeo, ex-ministro do Trabalho e hoje sócio da Gávea Investimentos, tem sérias restrições à medida. Suas advertências, de tão graves, deveriam ser debatidas, especialmente no Congresso, a quem cabe dar a última palavra sobre desonerações.
O fim da contribuição sobre folha rompe com a lógica clássica do financiamento de aposentadorias. Por esse princípio, a contribuição para a seguridade social deve incidir sobre folha porque cabe aos trabalhadores financiar suas aposentadorias.
"O principal vínculo entre a renda do trabalho e as aposentadorias advém do fato de essas serem calculadas com base nos salários ao longo da vida e na expectativa de vida. A população brasileira envelhecerá e a expectativa de vida aumentará. O lógico é que o financiamento desses gastos adicionais tenha como parâmetros a alíquota da contribuição sobre o salário, a idade de aposentadoria e a relação entre aposentadoria e salário", argumenta Amadeo.
Ocorre que, ao transferir o financiamento da seguridade para o faturamento das empresas, ficou mais difícil justificar, por exemplo, o aumento da idade mínima para aposentadoria ou da alíquota de contribuição. Sendo a previdência apenas mais um item do orçamento da União, suas demandas entrarão em conflito com outras rubricas, como educação e saúde. "É muito mais fácil, técnica e politicamente, proteger os demais gastos se houver um claro vínculo entre folha salarial e gastos da previdência", sustenta o economista.
"Devido à desoneração, dá-se um retrocesso nas instituições fiscais ao se tornar menos nítida a separação entre seguridade social e orçamento da União", acrescenta Amadeo.
O governo argumenta que o objetivo da desoneração de folha é reduzir custo de produção para aumentar a competitividade das empresas. O que realmente eleva a competitividade é a renúncia fiscal, isto é, a diminuição da carga tributária. Isso independe da base de incidência dos impostos. "Não precisava desonerar a folha. Bastava reduzir a alíquota de contribuição", diz o ex-ministro.
Para Amadeo, o governo confunde desoneração com subsídio. O efeito do subsídio é a redução do custo tributário. Já o efeito da mudança da base de incidência - de folha para faturamento - é a alteração dos incentivos das empresas para investir em diferentes tecnologias e setores.
"O efeito sobre o emprego, sim, depende da base de incidência da contribuição. Isso porque agora não só a renda do trabalho, mas os demais serviços empregados pela empresa passam a arcar com o imposto. Essa mudança equivale a tornar a contratação de trabalhadores mais barata que outros serviços, como aqueles de um equipamento. Evidentemente, ao reduzir a razão entre equipamentos e trabalhadores, a medida diminui a produtividade do trabalho", adverte ele.
O Brasil vive período de pleno emprego. Isso tem pressionado os salários e, portanto, os custos do trabalho. O governo, na visão de Amadeo, adotou medida que é o inverso do recomendado agora. "As restrições ao crescimento da renda são a falta de investimentos e a baixa produtividade do trabalho."
Amadeo também acredita que a desoneração distorce os incentivos das empresas quanto ao uso de tecnologias, "com impacto negativo sobre a adoção das mais modernas, usualmente embutidas nos novos equipamentos". Isso ocorre porque a tendência é que a companhia que empregue mais mão de obra seja mais lucrativa que aquela que invista em tecnologia (equipamentos e software).
A escolha de setores provoca distorções. Por exemplo: o transporte rodoviário foi desonerado, mas o de serviços hospitalares, não. É evidente que o governo fez isso para tentar conter aumentos de tarifa de ônibus nas principais capitais, um item relevante da inflação. A questão é: dadas as carências da população brasileira, é melhor que haja mais investimento em saúde ou em transporte?
Outro exemplo: segundo informou o Valor (08/04/2013), o setor metroferroviário terá redução de 78% na contribuição para a previdência, enquanto o ferroviário de carga, apenas 8,8%. Conclui-se que o primeiro ficou bem mais atraente que o segundo. Era essa a ideia? Ademais, a discricionariedade das autoridades fez com que o espaço para lobby dos insatisfeitos em Brasília crescesse de forma exponencial.
A desoneração distorce igualmente os incentivos das companhias em relação aos setores onde investir. Isso diminui a importância de outras políticas públicas, as vantagens acumuladas pelas empresas ao longo do tempo e as preferências individuais e sociais.
Amadeo chama a atenção, ainda, para o risco de o governo ter criado mais uma fonte de déficits fiscais, uma vez que os subsídios passam a ser percebidos como permanentes. Além disso, do ponto de vista técnico, não há justificativa que explique a contemplação de um setor em detrimento de outro. "É impossível ver alguma vantagem nesse programa de desoneração da folha", afirma o economista.
A desoneração da folha de pessoal promovida pelo governo para reduzir custos de contratação de mão de obra pode produzir efeitos colaterais indesejados. A medida barateia um bem escasso na economia - o trabalho -, quebra a lógica do financiamento previdenciário e pode provocar distorções que limitem o investimento e o aumento da produtividade, justamente os dois objetivos centrais da política oficial.
A troca da contribuição sobre folha por um tributo sobre faturamento das empresas não é uma invenção do PT. Na verdade, vinha sendo debatida há bastante tempo, sempre enfrentou resistência do movimento sindical e acabou sendo adotada seletivamente pela gestão Dilma Rousseff, que desonerou 42 setores e incluirá mais 14 no próximo ano.
O economista Edward Amadeo, ex-ministro do Trabalho e hoje sócio da Gávea Investimentos, tem sérias restrições à medida. Suas advertências, de tão graves, deveriam ser debatidas, especialmente no Congresso, a quem cabe dar a última palavra sobre desonerações.
O fim da contribuição sobre folha rompe com a lógica clássica do financiamento de aposentadorias. Por esse princípio, a contribuição para a seguridade social deve incidir sobre folha porque cabe aos trabalhadores financiar suas aposentadorias.
"O principal vínculo entre a renda do trabalho e as aposentadorias advém do fato de essas serem calculadas com base nos salários ao longo da vida e na expectativa de vida. A população brasileira envelhecerá e a expectativa de vida aumentará. O lógico é que o financiamento desses gastos adicionais tenha como parâmetros a alíquota da contribuição sobre o salário, a idade de aposentadoria e a relação entre aposentadoria e salário", argumenta Amadeo.
Ocorre que, ao transferir o financiamento da seguridade para o faturamento das empresas, ficou mais difícil justificar, por exemplo, o aumento da idade mínima para aposentadoria ou da alíquota de contribuição. Sendo a previdência apenas mais um item do orçamento da União, suas demandas entrarão em conflito com outras rubricas, como educação e saúde. "É muito mais fácil, técnica e politicamente, proteger os demais gastos se houver um claro vínculo entre folha salarial e gastos da previdência", sustenta o economista.
"Devido à desoneração, dá-se um retrocesso nas instituições fiscais ao se tornar menos nítida a separação entre seguridade social e orçamento da União", acrescenta Amadeo.
O governo argumenta que o objetivo da desoneração de folha é reduzir custo de produção para aumentar a competitividade das empresas. O que realmente eleva a competitividade é a renúncia fiscal, isto é, a diminuição da carga tributária. Isso independe da base de incidência dos impostos. "Não precisava desonerar a folha. Bastava reduzir a alíquota de contribuição", diz o ex-ministro.
Para Amadeo, o governo confunde desoneração com subsídio. O efeito do subsídio é a redução do custo tributário. Já o efeito da mudança da base de incidência - de folha para faturamento - é a alteração dos incentivos das empresas para investir em diferentes tecnologias e setores.
"O efeito sobre o emprego, sim, depende da base de incidência da contribuição. Isso porque agora não só a renda do trabalho, mas os demais serviços empregados pela empresa passam a arcar com o imposto. Essa mudança equivale a tornar a contratação de trabalhadores mais barata que outros serviços, como aqueles de um equipamento. Evidentemente, ao reduzir a razão entre equipamentos e trabalhadores, a medida diminui a produtividade do trabalho", adverte ele.
O Brasil vive período de pleno emprego. Isso tem pressionado os salários e, portanto, os custos do trabalho. O governo, na visão de Amadeo, adotou medida que é o inverso do recomendado agora. "As restrições ao crescimento da renda são a falta de investimentos e a baixa produtividade do trabalho."
Amadeo também acredita que a desoneração distorce os incentivos das empresas quanto ao uso de tecnologias, "com impacto negativo sobre a adoção das mais modernas, usualmente embutidas nos novos equipamentos". Isso ocorre porque a tendência é que a companhia que empregue mais mão de obra seja mais lucrativa que aquela que invista em tecnologia (equipamentos e software).
A escolha de setores provoca distorções. Por exemplo: o transporte rodoviário foi desonerado, mas o de serviços hospitalares, não. É evidente que o governo fez isso para tentar conter aumentos de tarifa de ônibus nas principais capitais, um item relevante da inflação. A questão é: dadas as carências da população brasileira, é melhor que haja mais investimento em saúde ou em transporte?
Outro exemplo: segundo informou o Valor (08/04/2013), o setor metroferroviário terá redução de 78% na contribuição para a previdência, enquanto o ferroviário de carga, apenas 8,8%. Conclui-se que o primeiro ficou bem mais atraente que o segundo. Era essa a ideia? Ademais, a discricionariedade das autoridades fez com que o espaço para lobby dos insatisfeitos em Brasília crescesse de forma exponencial.
A desoneração distorce igualmente os incentivos das companhias em relação aos setores onde investir. Isso diminui a importância de outras políticas públicas, as vantagens acumuladas pelas empresas ao longo do tempo e as preferências individuais e sociais.
Amadeo chama a atenção, ainda, para o risco de o governo ter criado mais uma fonte de déficits fiscais, uma vez que os subsídios passam a ser percebidos como permanentes. Além disso, do ponto de vista técnico, não há justificativa que explique a contemplação de um setor em detrimento de outro. "É impossível ver alguma vantagem nesse programa de desoneração da folha", afirma o economista.
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