FOLHA DE SP - 03\11
O núcleo político de Fernando Haddad avalia a conveniência de bancar um candidato do PT à presidência da Câmara Municipal. O voo solo seria uma maneira de driblar a pressão do recém-formado bloco de Gilberto Kassab, de um lado, e do "centrão", de outro. Sinalizaria, ainda, a mudança de conduta na Casa. Aliados de Haddad dizem que têm como viabilizar a eleição de um petista, mas avaliam que a composição com um dos dois grupos tornaria o início do mandato mais suave.
Batendo chapa
Cinco nomes da sigla se credenciam para o posto: Além de Antonio Donato e José Américo, também cotados para o secretariado, são mencionados Arselino Tatto, Paulo Fiorilo e Nabil Bonduki.
Mais do mesmo
Pelo "centrão", o candidato, por ora, é Antonio Carlos Rodrigues (PR), que, voltando à Câmara, cederia sua vaga no Senado para o petista Paulo Frateschi. As negociações passam pela direção nacional petista. Já a ala liderada por Kassab trabalha para reeleger José Police Neto (PSD).
Lugar ao sol
Embora o QG petista guarde a sete chaves o destino do prefeito eleito no descanso pós-eleitoral, turistas relatam que causou frisson a presença da família Haddad no litoral de Alagoas.
Terceiro...
Ala do PT paulistano fez circular no comando da transição de Haddad lista de inconvenientes para a possível acomodação do PC do B na Secretaria de Esportes da prefeitura.
... tempo
Petistas elencam problemas enfrentados pela sigla aliada no Ministério do Esporte, sobretudo em convênios com ONGs. O ex-ministro Orlando Silva é justamente o primeiro que o PC do B quer ver contemplado.
Fatura 1
O prefeito Gilberto Kassab deve se encontrar na próxima semana com Dilma Rousseff para discutir de que forma se dará o ingresso de seu PSD oficialmente na base aliada e no governo.
Fatura 2
Kassab deve apresentar dois nomes para a Secretaria de Aviação Civil, posto cobiçado pelo neoaliado petista na Esplanada: o de Paulo Simão, presidente do PSD de Minas, e o do deputado Guilherme Campos (SP), líder do partido na Câmara.
Barrado...
A Espanha "desconvidou" o Paraguai para a Cúpula Ibero-Americana, que acontece em Cádiz nos dias 16 e 17.
... no baile
O convite havia desagradado os presidentes do Mercosul, que teriam de cumprir extensa agenda que inclui jantar de gala, almoços e passeios a pontos turísticos com Federico Franco após o vizinho ter sido suspenso do bloco graças à deposição de Fernando Lugo.
Cara limpa 1
Em campanha pela presidência da OAB-SP, Ricardo Sayeg conseguiu que o deputado Dr. Grilo (PSL-MG) apresentasse projeto de lei complementar incluindo entre as causas de inelegibilidade o candidato a qualquer cargo ser usuário ou dependente de drogas.
Cara limpa 2
A política sobre drogas virou tema central da campanha na subseção paulista da OAB depois que Alberto Toron, adversário de Sayeg na disputa, defendeu em debate não só a descriminalização quanto o uso recreativo de drogas.
PT...
Geraldo Accioly, coordenador de projetos especiais da Prefeitura de Fortaleza, afirma que a transição com a equipe do prefeito eleito Roberto Cláudio (PSB) deve começar na quarta-feira.
... saudações
O assessor diz que, após passar o feriado no Rio, a prefeita Luizianne Lins (PT) vai a Brasília na segunda-feira para a reunião do Diretório Nacional do PT.
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
"Como a oposição pode dizer que não investigamos a Delta se tudo o que se sabe até agora sobre a construtora é fruto da CPI?"
DO DEPUTADO ODAIR CUNHA (PT-MG), relator da CPI do Cachoeira, sobre as críticas à articulação para tentar blindar a empreiteira no relatório final.
contraponto
Comissão do gerúndio
Presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Delcídio Amaral (PT-MS) se mostrou irritado com os constantes atrasos dos senadores para as reuniões da comissão, que são às terças de manhã, quando os parlamentares ainda estão voando para Brasília.
Na semana passada, ao ser obrigado a adiar a votação de um projeto relatado pelo correligionário Walter Pinheiro (BA), que telefonou para dizer que já estava chegando à comissão, o petista desabafou:
-É o Senado do gerúndio. Ele está chegando, estamos analisando, estamos estudando...
sábado, novembro 03, 2012
Mensalão e República - RICARDO VÉLEZ RODRÍGUEZ
O Estado de S.Paulo - 03\11
Tive uma grata surpresa com o julgamento da Ação Penal 470 pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A nossa democracia parece ter reencontrado a vitalidade, que parecia fenecida por causa da crise em que o Poder Executivo, sobranceiro à lei, tentou comprar definitivamente o apoio do Poder Legislativo mediante a prática de corrupção sistemática, ao ensejo do episódio que o denunciante do esquema, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), denominou como "mensalão".
O nome pegou, para desespero do ex-presidente Lula da Silva, do ex-ministro José Dirceu et caterva. Foram julgados e condenados, se não todos, pelo menos alguns dos responsáveis mais representativos do sinistro esquema. A História encarregar-se-á de julgar os que escaparam, a começar pelo chefe, que, pelo teor das investigações e dos depoimentos, "sabia de tudo".
É de Oliveira Vianna a previsão de que a redenção das instituições republicanas, no Brasil, viria pela mão do Poder Judiciário. Vítima da "política alimentar" - nome dado pelo sociólogo fluminense ao esquema de clientelismo e corrupção que se apossou da vida pública desde tempos que remontam à derrubada do Império -, a República acordaria da catalepsia em que a privatização patrimonialista do poder pelas oligarquias a fez mergulhar. A independência do Poder Judiciário, segundo Oliveira Vianna, no livro Instituições Políticas Brasileiras (1949), garantiria as liberdades civis; asseguradas estas, o País poderia pensar na conquista das liberdades políticas.
Ora, os pareceres dos juízes do Supremo Tribunal puseram na pauta da política dois princípios fundamentais. Em primeiro lugar, todos devem respeitar, sem exceções, a lei e seu marco arquetípico, a Constituição. Em segundo lugar, os que governam não podem agir utilizando a máquina do Estado em benefício próprio. Dois princípios de ética pública que, meridianos, voltaram a presidir o espaço republicano, a partir dos pareceres dos magistrados da nossa Suprema Corte.
Que a sociedade respirou aliviada com a ação patriótica do STF o deixam claro as opiniões dos leitores na mídia eletrônica e impressa, bem como as espontâneas manifestações de aplauso dos cidadãos quando encontram um dos nossos magistrados, em que pese a cerrada política armada pela petralhada, de denuncismo de "golpe da magistratura e da imprensa".
No esquema do mensalão marcaram encontro dois vícios da política: o tradicional "complexo de clã" e a ausência de espírito público, bases do patrimonialismo. Esses dois vícios, entrelaçados como as caras da mesma moeda, fazem com que os atores políticos ajam única e exclusivamente em benefício próprio e das suas clientelas, privatizando as instituições. Nisso o Partido dos Trabalhadores (PT) e coligados se mostraram eficientes "como nunca antes na História deste país".
A esses dois vícios vieram juntar-se duas tendências da cultura política moderna. A primeira, o jacobinismo (inspirado na filosofia de Rousseau, no século 18), segundo o qual a organização da política, nos Estados, deve pautar-se pelo princípio da unanimidade ao redor da "vontade geral" (identificada com o legislador e imposta por seus seguidores, os "puros"), sendo excluída qualquer oposição. O segundo princípio negativo diz respeito ao "messianismo político" - pensado no início do século 19 por Henri-Claude de Saint-Simon e continuado por seu discípulo Augusto Comte.
Ora, na nossa organização republicana se juntaram, com o correr dos séculos, numa síntese perversa, esses dois princípios, bem como os vícios balizadores do patrimonialismo. O jacobinismo e o messianismo político reforçaram-se, dramaticamente, na contemporaneidade, com a tendência cientificista do marxismo (inspiradora dos ideólogos petistas), que passou a pensar a política em termos de hegemonia partidária, à maneira gramsciana.
Na História republicana terminou se consolidando, à sombra das variáveis mencionadas, um modelo identificado com a prática do despotismo. Castilhismo, getulismo, tecnocratismo autoritário, lulopetismo, eis os resultados desse amálgama nada republicano.
Como dizia Alexis de Tocqueville referindo-se à França de 1850, a face da República viu-se desfigurada pelas práticas despóticas. No Brasil, a res publica virou "coisa nossa", num esquema mafioso de minorias encarapitadas no poder, que fazem o que bem entendem, de costas para a Nação, mal representada num Poder Legislativo que se contempla a si próprio e zela quase que exclusivamente pela manutenção de seus próprios privilégios.
Com uma agravante, atualmente: se nos momentos anteriores havia autoritarismo, este se equilibrava com uma proposta tecnocrática bem-sucedida (como nos momentos getuliano e do ciclo militar) ou com um respeito quase sagrado pelo Tesouro público (como no castilhismo). Restou-nos o assalto desavergonhado aos cofres da Nação, em meio ao mais descarado compadrio sindical.
Ecoam ainda as graves palavras com que um dos ministros do Supremo Tribunal Federal caracterizou, dias atrás, o mal que tomou conta do Brasil. "Formou-se na cúpula do poder, à margem da lei e ao arrepio do Direito, um estranho e pernicioso sodalício, constituído por dirigentes unidos por um comum desígnio, um vínculo associativo estável que buscava eficácia ao objetivo espúrio por eles estabelecido: cometer crimes, qualquer tipo de crime, agindo nos subterrâneos do poder como conspiradores, para, assim, vulnerar, transgredir e lesionar a paz pública".
Gravíssima situação que a nossa Suprema Corte encarou com patriotismo e coragem. Esperamos que essa benfazeja reação seja o início de um saneamento completo das instituições republicanas.
Incompleto e atrasado - FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 03\11
BRASÍLIA - Não foi uma tempestade Sandy, mas choveu muito em Brasília nesta semana. Por volta das 2h da madrugada de quinta-feira, acabou a luz em casa. Moro numa região central. Dez minutos de carro até a praça dos Três Poderes. A energia foi restabelecida somente às 17h. Ou seja, foram 15 horas de apagão. Nove eletrodo-mésticos queimados.
Meus problemas pessoais não têm importância. Mas o exemplo já experimentado por milhões de brasileiros tem. Revela um país que melhorou nas últimas décadas, porém que também é incompleto e atrasado.
Brasília tem perto de 500 mil pessoas vivendo em "condomínios", muitos de classe média alta.
"Condomínio" é o eufemismo local para ocupação irregular do solo. A cidade tem uma população total de 2,6 milhões.
Ceilândia é a história-síntese. Sempre achei que o nome fosse referência a um termo em grego ou latim. Errei. No fim da década de 60, houve invasões no centro da capital federal. Na ditadura militar, as coisas se resolviam à força. Em 1971, foram todos removidos para um lugar ermo, a 26 quilômetros de distância. Tudo coordenado pela Campanha de Erradicação das Invasões, a CEI.
Ceilândia tem hoje perto de meio milhão de habitantes. É um episó-dio triste de segregação social dentro da capital do país.
Menos mal que agora falte luz em todos os bairros de Brasília. Ricos e pobres enfrentam as mesmas vicissitudes produzidas pelo crescimento desordenado e por governos incapazes (na melhor hipótese) ou corruptos (muitas vezes).
Brasília está nas mãos do PT.
Agnelo Queiroz sempre argumenta que assumiu uma terra arrasada. Pode ser. Mas o serviço de informações da companhia de energia brasiliense nunca vai além de lamentar o ocorrido e pedir desculpas. É pouco para quem assumiu a cadeira há um ano e dez meses.
BRASÍLIA - Não foi uma tempestade Sandy, mas choveu muito em Brasília nesta semana. Por volta das 2h da madrugada de quinta-feira, acabou a luz em casa. Moro numa região central. Dez minutos de carro até a praça dos Três Poderes. A energia foi restabelecida somente às 17h. Ou seja, foram 15 horas de apagão. Nove eletrodo-mésticos queimados.
Meus problemas pessoais não têm importância. Mas o exemplo já experimentado por milhões de brasileiros tem. Revela um país que melhorou nas últimas décadas, porém que também é incompleto e atrasado.
Brasília tem perto de 500 mil pessoas vivendo em "condomínios", muitos de classe média alta.
"Condomínio" é o eufemismo local para ocupação irregular do solo. A cidade tem uma população total de 2,6 milhões.
Ceilândia é a história-síntese. Sempre achei que o nome fosse referência a um termo em grego ou latim. Errei. No fim da década de 60, houve invasões no centro da capital federal. Na ditadura militar, as coisas se resolviam à força. Em 1971, foram todos removidos para um lugar ermo, a 26 quilômetros de distância. Tudo coordenado pela Campanha de Erradicação das Invasões, a CEI.
Ceilândia tem hoje perto de meio milhão de habitantes. É um episó-dio triste de segregação social dentro da capital do país.
Menos mal que agora falte luz em todos os bairros de Brasília. Ricos e pobres enfrentam as mesmas vicissitudes produzidas pelo crescimento desordenado e por governos incapazes (na melhor hipótese) ou corruptos (muitas vezes).
Brasília está nas mãos do PT.
Agnelo Queiroz sempre argumenta que assumiu uma terra arrasada. Pode ser. Mas o serviço de informações da companhia de energia brasiliense nunca vai além de lamentar o ocorrido e pedir desculpas. É pouco para quem assumiu a cadeira há um ano e dez meses.
Sem medo de mistificar - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 03\11
É inacreditável a capacidade que o PT tem de mistificar quando a situação lhe é adversa, e de jogar abertamente com dois pesos e duas medidas quando se trata de defender seus próprios interesses. Nos últimos dias, os companheiros de Lula deram pelo menos dois magníficos exemplos de como não se encabulam de subestimar a inteligência do distinto público e fazer pouco do senso comum. O primeiro, ao avaliar o resultado das eleições municipais paulistanas. O segundo, ao afrontar mais uma vez a Suprema Corte a propósito do mensalão.
A executiva estadual do PT, reunida para fazer uma avaliação do pleito, emitiu nota oficial em que afirma: "A sociedade falou em alto e bom tom que o PT não está e nunca esteve no banco dos réus", porque o resultado das urnas "abafou as vozes daqueles que tentaram fazer do julgamento do Supremo Tribunal Federal - STF - (mensalão) um instrumento de desgaste e de destruição da sigla". De fato, a Ação Penal 470 jamais colocou no banco dos réus o PT, mas apenas seus dirigentes máximos, pelo menos do número dois para baixo, durante o primeiro mandato presidencial de Lula. E condenou-os um colegiado constituído, na maior parte, de ministros nomeados por dois presidentes da República petistas. Esses juízes consideraram procedente a peça acusatória apresentada por dois chefes do Ministério Público Federal colocados no cargo por Lula: Antonio Fernando de Souza, que iniciou as investigações, e Roberto Gurgel, que formalizou a denúncia.
Se, como quer o PT, sua vitória em São Paulo significa uma clara manifestação de desaprovação dos paulistanos às condenações do STF e um atestado de inocência conferido aos acusados petistas, isso quer dizer também, contrario sensu, que as derrotas do PT em Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza, Manaus, Belém, Campinas e outras centenas de municípios significam apoio às decisões da Suprema Corte. Por esse critério, as coisas vão muito mal para o PT, que afinal venceu as eleições com candidato próprio em apenas 635 cidades, que equivalem a uma população de 58 milhões dos 190 milhões de brasileiros. Fica combinado, então, que mais de 130 milhões de brasileiros condenam José Dirceu & Cia.
Por outro lado, o presidente nacional do PT, o iracundo Rui Falcão, anunciou que o partido divulgaria um manifesto contendo críticas ao que classifica de "politização" do julgamento do mensalão pelo Supremo, que, pressionado pela mídia "de direita", estaria ameaçando as liberdades individuais consagradas pela lei penal e pela Constituição. Os petistas estavam esperando apenas a realização do segundo turno do pleito municipal para saírem em defesa de seus dirigentes condenados por corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e outros delitos. E Falcão deixou claro, ao arrepio do Estatuto do PT, que os apenados não serão expulsos. Afinal, os petistas consideram Dirceu, Genoino, Delúbio e João Paulo Cunha "prisioneiros políticos" julgados por um "tribunal de exceção" - todos eles cidadãos que têm "serviços prestados ao País".
Na verdade, é o PT quem está politizando o debate sobre o mensalão. Insistem os seguidores de Lula que os ministros da Suprema Corte estão julgando sob pressão da mídia e de uma opinião pública por ela manipulada. É quase um insulto à biografia dos ministros, a maioria dos quais passou pelo crivo do comando petista no processo de escolha para compor o STF. Além disso, o argumento tropeça em outra incongruência. Se a opinião pública está pressionando a favor da condenação do mensalão, por que teria colocado nas urnas, "em alto e bom tom", um voto de absolvição dos mensaleiros?
Persistindo nas incongruências, afirmam os petistas que o mensalão é "uma farsa", ou seja, nunca existiu, mas asseguram que foi inventado, em Minas Gerais, em 1998, pelo mesmíssimo Marcos Valério, a serviço da campanha de reeleição do tucano Eduardo Azeredo. Esse escândalo já foi denunciado ao STF pelo Ministério Público e está entregue à relatoria do ministro Joaquim Barbosa. Só falta o PT - para manter-se coerente com sua incoerência - sair também em defesa dos mensaleiros tucanos, acusados das mesmas práticas criminosas que estão levando a cúpula petista à cadeia.
Eleitor garimpeiro - CRISTOVAM BUARQUE
O GLOBO - 03\11
Para vencer eleição é preciso estar sintonizado com os interesses imediatos do eleitor, mas não vale a pena vencer se não estiver sintonizado com os anseios e as possibilidades do futuro do país. Nos últimos anos, o processo eleitoral brasileiro tem se orientado apenas de acordo com a primeira parte: os interesses imediatos de cada eleitor, indicados por pesquisa de opinião pública e o uso de marketing para ajustar o discurso dos candidatos. Nas eleições municipais nenhuma relevância é dada ao longo prazo nem às concepções diferentes para o futuro da cidade.
Mas a eleição de 2012 foi caracterizada pela mistura de siglas e o vazio de ideias. A eleição municipal tende a exigir do eleitor atenção às propostas dos candidatos olhando os aspectos mais locais, mas não necessariamente imediatos.
Mesmo assim, até pouco tempo atrás, os candidatos a prefeito ou a vereador pertenciam a correntes de ideias que se chocavam. Isto acabou e permitiu as estranhíssimas alianças entre partidos que deveriam estar em lados opostos. O eleitor deixou de ser visto como um ser político, com ideias, e foi transformado em garimpeiro em busca de peneirar o que sobra dos discursos vazios dos candidatos vestidos pelos marqueteiros.
Nem mesmo a separação entre éticos e não éticos é levada em conta, porque nenhum partido está livre de marcas negativas de comportamento de seus candidatos. No último debate na TV Globo, Serra perguntou ao Haddad sobre o mensalão do PT e este respondeu que o outro deveria entender mais disto, porque o mensalão tucano é mais antigo. O assunto virou uma questão cronológica, não mais ética, porque os partidos ficaram iguais.
Em 2014, esta falta de diferença nas ideias, comportamentos e propostas, com todos discutindo apenas qual vai conduzir melhor o mesmo rumo e não quem vai oferecer um rumo melhor, ameaça repetir o mesmo aborrecimento visto no processo eleitoral de 2012. Por falta de nitidez e credibilidade que diferenciem candidatos e seus partidos, os eleitores garimpeiros vão virar eleitores jogadores, ficando obrigados a escolher de acordo com o jogo da moeda: cara ou coroa.
O Brasil precisa de propostas que ofereçam um novo rumo para o país, que aponte uma saída da economia concentradora de renda, destruidora do meio ambiente e baseada nas técnicas do passado para uma economia sustentável, de alta tecnologia e distributiva socialmente, capaz de revelar que o país não terá futuro se continuar fugindo da revolução educacional de base e da refundação de sua universidade.
A eleição de 2014 precisa trazer um discurso de reorientação, de inflexão no modelo dos últimos 20 anos. Mas dificilmente isso acontecerá. Provavelmente, os candidatos serão dominados pela mesmice, pelo cálculo de não assustar os financiadores de campanha e de servir docilmente aos marqueteiros do ano, conforme as pesquisas de opinião que reflitam o interesse imediato do eleitor garimpeiro.
Para vencer eleição é preciso estar sintonizado com os interesses imediatos do eleitor, mas não vale a pena vencer se não estiver sintonizado com os anseios e as possibilidades do futuro do país. Nos últimos anos, o processo eleitoral brasileiro tem se orientado apenas de acordo com a primeira parte: os interesses imediatos de cada eleitor, indicados por pesquisa de opinião pública e o uso de marketing para ajustar o discurso dos candidatos. Nas eleições municipais nenhuma relevância é dada ao longo prazo nem às concepções diferentes para o futuro da cidade.
Mas a eleição de 2012 foi caracterizada pela mistura de siglas e o vazio de ideias. A eleição municipal tende a exigir do eleitor atenção às propostas dos candidatos olhando os aspectos mais locais, mas não necessariamente imediatos.
Mesmo assim, até pouco tempo atrás, os candidatos a prefeito ou a vereador pertenciam a correntes de ideias que se chocavam. Isto acabou e permitiu as estranhíssimas alianças entre partidos que deveriam estar em lados opostos. O eleitor deixou de ser visto como um ser político, com ideias, e foi transformado em garimpeiro em busca de peneirar o que sobra dos discursos vazios dos candidatos vestidos pelos marqueteiros.
Nem mesmo a separação entre éticos e não éticos é levada em conta, porque nenhum partido está livre de marcas negativas de comportamento de seus candidatos. No último debate na TV Globo, Serra perguntou ao Haddad sobre o mensalão do PT e este respondeu que o outro deveria entender mais disto, porque o mensalão tucano é mais antigo. O assunto virou uma questão cronológica, não mais ética, porque os partidos ficaram iguais.
Em 2014, esta falta de diferença nas ideias, comportamentos e propostas, com todos discutindo apenas qual vai conduzir melhor o mesmo rumo e não quem vai oferecer um rumo melhor, ameaça repetir o mesmo aborrecimento visto no processo eleitoral de 2012. Por falta de nitidez e credibilidade que diferenciem candidatos e seus partidos, os eleitores garimpeiros vão virar eleitores jogadores, ficando obrigados a escolher de acordo com o jogo da moeda: cara ou coroa.
O Brasil precisa de propostas que ofereçam um novo rumo para o país, que aponte uma saída da economia concentradora de renda, destruidora do meio ambiente e baseada nas técnicas do passado para uma economia sustentável, de alta tecnologia e distributiva socialmente, capaz de revelar que o país não terá futuro se continuar fugindo da revolução educacional de base e da refundação de sua universidade.
A eleição de 2014 precisa trazer um discurso de reorientação, de inflexão no modelo dos últimos 20 anos. Mas dificilmente isso acontecerá. Provavelmente, os candidatos serão dominados pela mesmice, pelo cálculo de não assustar os financiadores de campanha e de servir docilmente aos marqueteiros do ano, conforme as pesquisas de opinião que reflitam o interesse imediato do eleitor garimpeiro.
Os últimos cem anos - DRAUZIO VARELLA
FOLHA DE SP - 03\11
A renascença do ceticismo provocou questionamentos sobre o papel da medicina na saúde pública
Duzentos anos atrás, as sangrias ainda estavam na moda. Era a época da medicina heroica, segundo a qual quanto mais grave a doença, mais agressivo o tratamento.
Na última coluna, falamos da resenha recém-publicada no "The New England Journal of Medicine", sobre a evolução da terapêutica médica desde que a revista entrou em circulação, em 1812. Mostramos que, até o começo do século 20, os tratamentos eram baseados num nebuloso equilíbrio que deveria existir entre os humores corpóreos (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra) da pessoa enferma, e não no processo que a fazia adoecer.
Na metade do século 19, o ceticismo provocado pelos insucessos dessa estratégia despertou interesse crescente pelas causas das patologias.
Motivados pelos avanços na fisiopatologia e na bacteriologia, os médicos começaram a interpretar as doenças como entidades específicas, que apresentavam causas próprias e manifestações clínicas características.
O novo modelo levou-os a procurar tratamentos ajustados à enfermidade, sem agredir o paciente. A busca, no entanto, percorreu caminhos tortuosos que levariam décadas para encontrar o rumo.
Como vimos, a primeira pista viria do laboratório de Paul Ehrlich (1854-1915), em Berlim. Depois de 605 fracassos, Ehrlich e colaboradores sintetizaram o Composto 606, ativo contra a sífilis, que se tornou conhecido como Salvarsan. Era a primeira prova do conceito de que o tratamento deveria ser específico para cada patologia.
Muitos reagiram contra essa mudança de paradigma. Temiam que o enfoque na doença afastasse os profissionais do lado mais nobre: a arte de praticar medicina.
A revolução da terapêutica só tomaria corpo nas décadas de 1940 a 1960, período em que foram licenciados mais de 4.500 produtos novos: antibióticos, anti-hipertensivos, hipoglicemiantes, antidepressivos, hormônios e muitos outros.
Em 1961, um estudo mostrou que para cada dólar gasto com medicamentos, 70 centavos iam para remédios que não existiam dez anos antes.
O entusiasmo despertado pelas descobertas da indústria farmacêutica fez surgir novas formas de ceticismo. Nas páginas do "New England", apareceram termos como "selva terapêutica" e "lavagem cerebral" patrocinada pelo marketing da indústria.
Então, sobreveio a tragédia da talidomida. Prescrita como sedativo e no combate às náuseas da gravidez, a talidomida provocou defeitos graves na formação de braços e pernas de bebês pelo mundo todo. Em 1962, um editorial da revista afirmava: "Somente a vigilância continuada e intensiva pode prevenir a repetição dessa experiência".
A preocupação com a segurança deu origem às normas rígidas dos estudos fase 1, 2 e 3 exigidos atualmente para aprovação de novas drogas.
A renascença do ceticismo provocou questionamentos sobre o papel da medicina na saúde pública. Em 1962, Thomas McKewon publicou uma análise do número de casos de tuberculose na Inglaterra e País de Gales, mostrando que a incidência havia começado a cair antes mesmo da descoberta do bacilo de Koch. O declínio estaria associado à melhora da alimentação e das condições de moradia.
O entendimento de que a descoberta de remédios eficazes é condição necessária, mas não suficiente, para ter impacto na saúde pública, seria confirmado não apenas no combate às epidemias de Aids, sífilis, tuberculose ou malária, mas até no controle de doenças degenerativas como hipertensão arterial e diabetes.
Dos purgativos, sangrias e vomitórios prescritos para recompor o equilíbrio dos humores do paciente de 200 anos atrás, a medicina que chegou ao século 21 evoluiu para utilizar drogas mais seguras, desenvolvidas para interferir especificamente com os mecanismos moleculares envolvidos na fisiopatologia.
Como nas demais "revoluções terapêuticas" dos últimos dois séculos, outra vez o progresso estará longe de ser linear e contínuo. Haverá fases de entusiasmo alternadas com frustração e ceticismo.
À medida que a atenção médica se volta para as minúcias dos alvos moleculares, corremos risco de ficar mais expostos à abordagem reducionista de destruir germes, células malignas, trocar genes e reparar mecanismos defeituosos, sem levar em conta que a função primordial de nossa profissão é aliviar o sofrimento humano.
A renascença do ceticismo provocou questionamentos sobre o papel da medicina na saúde pública
Duzentos anos atrás, as sangrias ainda estavam na moda. Era a época da medicina heroica, segundo a qual quanto mais grave a doença, mais agressivo o tratamento.
Na última coluna, falamos da resenha recém-publicada no "The New England Journal of Medicine", sobre a evolução da terapêutica médica desde que a revista entrou em circulação, em 1812. Mostramos que, até o começo do século 20, os tratamentos eram baseados num nebuloso equilíbrio que deveria existir entre os humores corpóreos (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra) da pessoa enferma, e não no processo que a fazia adoecer.
Na metade do século 19, o ceticismo provocado pelos insucessos dessa estratégia despertou interesse crescente pelas causas das patologias.
Motivados pelos avanços na fisiopatologia e na bacteriologia, os médicos começaram a interpretar as doenças como entidades específicas, que apresentavam causas próprias e manifestações clínicas características.
O novo modelo levou-os a procurar tratamentos ajustados à enfermidade, sem agredir o paciente. A busca, no entanto, percorreu caminhos tortuosos que levariam décadas para encontrar o rumo.
Como vimos, a primeira pista viria do laboratório de Paul Ehrlich (1854-1915), em Berlim. Depois de 605 fracassos, Ehrlich e colaboradores sintetizaram o Composto 606, ativo contra a sífilis, que se tornou conhecido como Salvarsan. Era a primeira prova do conceito de que o tratamento deveria ser específico para cada patologia.
Muitos reagiram contra essa mudança de paradigma. Temiam que o enfoque na doença afastasse os profissionais do lado mais nobre: a arte de praticar medicina.
A revolução da terapêutica só tomaria corpo nas décadas de 1940 a 1960, período em que foram licenciados mais de 4.500 produtos novos: antibióticos, anti-hipertensivos, hipoglicemiantes, antidepressivos, hormônios e muitos outros.
Em 1961, um estudo mostrou que para cada dólar gasto com medicamentos, 70 centavos iam para remédios que não existiam dez anos antes.
O entusiasmo despertado pelas descobertas da indústria farmacêutica fez surgir novas formas de ceticismo. Nas páginas do "New England", apareceram termos como "selva terapêutica" e "lavagem cerebral" patrocinada pelo marketing da indústria.
Então, sobreveio a tragédia da talidomida. Prescrita como sedativo e no combate às náuseas da gravidez, a talidomida provocou defeitos graves na formação de braços e pernas de bebês pelo mundo todo. Em 1962, um editorial da revista afirmava: "Somente a vigilância continuada e intensiva pode prevenir a repetição dessa experiência".
A preocupação com a segurança deu origem às normas rígidas dos estudos fase 1, 2 e 3 exigidos atualmente para aprovação de novas drogas.
A renascença do ceticismo provocou questionamentos sobre o papel da medicina na saúde pública. Em 1962, Thomas McKewon publicou uma análise do número de casos de tuberculose na Inglaterra e País de Gales, mostrando que a incidência havia começado a cair antes mesmo da descoberta do bacilo de Koch. O declínio estaria associado à melhora da alimentação e das condições de moradia.
O entendimento de que a descoberta de remédios eficazes é condição necessária, mas não suficiente, para ter impacto na saúde pública, seria confirmado não apenas no combate às epidemias de Aids, sífilis, tuberculose ou malária, mas até no controle de doenças degenerativas como hipertensão arterial e diabetes.
Dos purgativos, sangrias e vomitórios prescritos para recompor o equilíbrio dos humores do paciente de 200 anos atrás, a medicina que chegou ao século 21 evoluiu para utilizar drogas mais seguras, desenvolvidas para interferir especificamente com os mecanismos moleculares envolvidos na fisiopatologia.
Como nas demais "revoluções terapêuticas" dos últimos dois séculos, outra vez o progresso estará longe de ser linear e contínuo. Haverá fases de entusiasmo alternadas com frustração e ceticismo.
À medida que a atenção médica se volta para as minúcias dos alvos moleculares, corremos risco de ficar mais expostos à abordagem reducionista de destruir germes, células malignas, trocar genes e reparar mecanismos defeituosos, sem levar em conta que a função primordial de nossa profissão é aliviar o sofrimento humano.
Déficit do INSS cresce com a desoneração da folha - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 03\11
Entre agosto e setembro, as contas da Previdência Social foram negativas em R$ 11,1 bilhões, afetadas não apenas pela antecipação do 13.º salário dos aposentados e pensionistas, como pela política de desoneração das contribuições. Para que fossem beneficiados 40 setores de atividade - que, em geral, passaram a recolher tributos menores sobre a folha de salários -, houve redução de R$ 923,9 milhões da receita líquida do INSS, que terão de ser cobertos pelo Tesouro.
Comparando os primeiros nove meses de 2011 e de 2012, as receitas da Previdência Social aumentaram 13%, ou R$ 22,1 bilhões, empurradas pelo crescimento do emprego e da renda (a massa salarial avançou 13,36%). Porcentualmente, as despesas evoluíram menos (12,9%), mas, em valores efetivos, avançaram R$ 26,5 bilhões - o que elevou o déficit do período em R$ 4,3 bilhões. Até setembro, o déficit foi de quase R$ 39,2 bilhões, ante cerca de R$ 34,9 bilhões no mesmo período do ano passado.
A maior pressão sobre as contas previdenciárias vem do aumento do número de benefícios (771 mil, neste ano, atingindo 25,47 milhões de pessoas). Cresceram mais as aposentadorias por tempo de contribuição (+4,1%) e por idade (+3,8%).
Em média, os benefícios aumentaram 9,4% (R$ 76,17), na esteira dos reajustes do salário mínimo e do aumento dos vencimentos acima do piso. A diminuição do número de pensões por morte (1,2%), auxílio-doença (3,5%) e auxílio suplementar (4,7%) contribuiu para que as contas não fugissem muito às previsões oficiais. Ainda assim, entre os primeiros três trimestres de 2011 e de 2012, o déficit em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) aumentou de 1,14% para 1,20%, numa ligeira pressão adicional sobre o resultado primário, cujo comportamento é muito inferior ao necessário para a meta de 3,1% do PIB, em 2012.
Graças ao elevado nível do emprego, a previdência urbana teve superávit de 0,27% do PIB entre janeiro e setembro, ante 0,20% do PIB no mesmo período de 2011. E a previdência rural foi deficitária em 1,48% do PIB, acima do 1,34% do PIB registrado no ano passado.
Dada a importância das contas do INSS para os resultados fiscais, o governo deveria dar o sinal de que pretende adequar as regras às tendências demográficas. Em vez disso, o presidente da Câmara, Marco Maia, insiste em votar o fim do bônus previdenciário, o que poderá agravar ainda mais as contas do INSS, já enfraquecidas pela política de desoneração da folha de vários setores de atividade.
Ajuste das construtoras - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 03\11
É um ciclo. Depois de um período de forte crescimento, as construtoras têm que arrumar a casa. O endividamento subiu, a mão de obra encareceu, houve estouro no orçamento e atraso nas obras. Por isso, nos próximos dois anos o setor pode encolher.
Mas a dinâmica da retomada pode vir do crédito mais barato, emprego forte e a demanda ainda não atendida.
Se o setor da construção residencial e comercial encolher um pouco, como preveem economistas e empresários, não deve ser por muito tempo. Mas há alguns problemas neste momento.
O endividamento das construtoras que têm ações em bolsa - 14 das principais empresas do setor - quadruplicou em quatro anos. Era de R$ 9 bilhões em 2008, é de R$ 36 bilhões atualmente. A dívida líquida era 25% do patrimônio líquido, hoje, é 85%.
Elas tomaram muito crédito, estão alavancadas. E captaram também no mercado acionário.
O presidente da MRV Engenharia, Rubens Menin, conta que o ciclo da construção civil é longo e muitas empresas esgotaram a capacidade de fazer dívidas. O crescimento acelerado esbarrou em gargalos, como a mão de obra. A receita não entrou no balanço no momento esperado. A ordem agora é: reduzir lançamentos, vender terrenos e fazer caixa.
- Há um problema de financiamento das construtoras.
O mercado acionário está fechado e o endividamento das empresas está elevado. A queda da Selic ajuda, mas ainda pode haver dois anos de encolhimento - admite Menin.
Os lançamentos estão em outro ritmo. No primeiro trimestre de 2011 foram R$ 16,7 bilhões lançados por estas 14 empresas que têm capital aberto.
No mesmo período de 2012, foram R$ 9,9 bilhões, ou seja, uma queda de 40%. Mesmo no Minha casa, Minha vida, programa destinado à baixa renda, com subsídio do governo, haverá queda nos lançamentos, de R$ 10,6 bi, para R$ 3,6 bi projetados para este ano.
Essa diminuição é definida na Cyrela como "período de ajuste".
O diretor de relações com investidores, José Florêncio Neto, disse que a empresa já esperava isso e reduziu a 50% o endividamento.
Mas ele acredita que o setor vai bem.
- Não podemos esquecer os fundamentos.
Há ainda uma demanda grande por imóveis, a confiança dos consumidores continua elevada, o crédito ficou mais barato e o desemprego continua baixo. Tudo isso ajuda - disse.
Os consumidores estão mais atentos, demoram mais a tomar decisão, as visitações aumentaram, numa prova dessa cautela do comprador. Um prédio residencial com 100 apartamentos vendia 65 em um ano, hoje vende 50. Isso é visto como sinal de amadurecimento.
Melhor um pequeno esfriamento do que crescimento desordenado que leve à bolha. Na bolsa, o setor está com queda de 17% este ano, mas com diferenças de performance. A MRV chegou a cair 20%, agora está em alta. A Cyrela está com alta de 21%. A Gafisa cai 10%, e a PDG está com queda forte, de quase 40%.
A venda de material de construção cresce pouco, apenas 1,3% até setembro, segundo dados da Abramat.
O dado reforça a tese do esfriamento, porque o setor vinha crescendo fortemente nos últimos anos e tinha previsões bem mais otimistas para este ano.
O presidente da entidade, Walter Cover, já está revendo para baixo a previsão do crescimento.
Há quem esteja preocupado com o grau de endividamento das empresas e com a queda da demanda.
Algumas construtoras, além de se alavancarem, compraram terrenos na expectativa de que o ritmo de lançamentos continuasse o mesmo. Mas a avaliação mais comum é que o mercado está encolhendo para se ajustar e depois voltar ao ritmo de alta.
Falhas de comunicação - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 03\11
Durante muito tempo, os economistas repetiram que os bancos centrais lidam com enormes problemas, como juros, câmbio, nível de emprego, atividade econômica, operando uma única alavanca: a da política monetária.
Política monetária nada mais é do que a calibragem do volume de moeda na economia, que qualquer banco central faz por meio da compra e venda de títulos públicos. Se os vende, está retirando moeda em volume equivalente ao que é pago pelo mercado pela aquisição desses títulos. Se, ao contrário, compra títulos, injeta moeda.
Um tanto simplificadamente, o volume de moeda no mercado é determinado pelo seu preço, os juros. Quando puxa os juros para cima, um banco central retira dinheiro do mercado (reduz sua oferta) até o nível dos juros pretendidos; se quer derrubar os juros, tem de baixar seu preço, tem de aumentar o volume de moeda na economia. Como quase sempre é o volume de moeda na economia que determina o preço de mercadorias e serviços, a política monetária é o principal instrumento de controle da inflação. Daí o regime de metas de inflação.
O professor Delfim Netto lembrou em sua coluna de terça-feira no Valor Econômico que não é verdade que um banco central opere apenas a política monetária. Conta ainda com outro poderoso instrumento: a comunicação do que pretende. Se goza de credibilidade, basta manifestar o que deseja para que toda a economia aja de acordo.
Um dos mais reconhecidos especialistas em política monetária, o atual presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, alguns anos antes de assumir seu cargo, dizia que um banco central deve atuar como patrão de um barco a remo. Fica à proa e canta a direção, o ritmo e a força das remadas. Quanto mais integrados forem patrão e remadores, mais eficiente será a condução do barco - ou, no caso, mais eficiente será a política de juros.
Completados quase dois anos da política monetária desta diretoria do Banco Central do Brasil, conduzida pelo economista Alexandre Tombini, pode-se dizer que tem alguma coisa errada aí. Não deixa claro o que quer e não gosta de abrir o jogo sobre as eventuais mudanças de ritmo e de política.
Tudo seria mais claro e mais eficiente se viesse a público dizer que a crise global e o comportamento experimentalista dos grandes bancos centrais obrigam o Banco Central do Brasil a se desviar, ao menos temporariamente, das práticas-padrão de política monetária.
A vantagem desse comportamento seria aproveitar o desaparecimento quase completo da inflação no mercado global e a enorme liquidez dos mercados financeiros, para derrubar os juros básicos (Selic) no Brasil a níveis nunca antes conseguidos. Seria, também, a justificativa pela qual não persegue mais o centro da meta de inflação em cada ano calendário, mesmo que para isso fosse necessário ser alguma coisa mais tolerante com a inflação.
O Banco Central poderia jogar mais limpo com as pessoas e com a sociedade se avisasse que aquela antiga política de câmbio, que tinha por objetivo neutralizar excessiva volatilidade, deu lugar a outra, que gera cotação quase fixa da moeda estrangeira em torno dos R$ 2 por dólar, para dar mais competitividade à indústria.
Enfim, enorme gasto de energia poderia ser evitado se o Banco Central levasse a sério o uso mais adequado do seu outro instrumento de trabalho, a comunicação.
Contraste de humores - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 03\11
Há um contraste notável - e intrigante à primeira vista - entre o otimismo do consumidor e a preocupação do empresário industrial, captados em sondagens da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). As pesquisas parecem mostrar dois grupos em países diferentes e em condições econômicas muito distintas, de prosperidade e segurança, no primeiro caso, e de baixo crescimento ou mesmo estagnação, no outro. Mas o país é o mesmo, chama-se Brasil, e esses dois mundos, estranhamente, coexistem na realidade e nas estatísticas oficiais e também naquelas divulgadas pelas fontes privadas de maior credibilidade. A solução do mistério remete às deficiências da política econômica.
A confiança do consumidor aumentou em outubro, depois de três meses de estabilidade, segundo a Sondagem da CNI. O indicador subiu 2,8% em um mês e situou-se 3,1% acima daquele registrado um ano antes. Foi o maior nível desde janeiro de 2011. Os entrevistados indicaram melhores expectativas em relação à renda pessoal, ao mercado de empregos, à inflação, à situação financeira e ao endividamento.
Só houve recuo - de 1% - em relação às compras de bens mais caros, como eletrodomésticos, mas o índice foi o mesmo de outubro de 2011. De modo geral, os consumidores se mostraram mais otimistas que os dirigentes da indústria ao longo de 2011 e de 2012. Como explicar essa diferença numa economia dependente da indústria como foco de dinamismo e de empregos de maior qualidade?
Em outubro, a confiança do empresário industrial voltou a cair, depois de dois meses de alta, segundo a sondagem da CNI. O indicador diminuiu nos setores de construção, extração mineral e transformação. Neste segmento, a piora foi registrada em 20 dos 28 ramos cobertos pela pesquisa. No conjunto, houve uma avaliação pior tanto da situação presente da economia brasileira e da empresa quanto das perspectivas dos próximos seis meses.
O Sensor da Fiesp, restrito ao universo paulista, também mostrou uma redução da confiança dos industriais em outubro. Depois do pico alcançado em março, tinha ocorrido uma queda nos dois meses seguintes e um movimento de recuperação a partir de junho. Segundo os entrevistados, pioraram as expectativas em relação a mercado, emprego e investimento. Houve melhora em relação a estoque - detalhe já observado pelo pessoal da CNI, numa pesquisa nacional. Com menor volume de produtos armazenados, fica mais fácil a retomada da produção, mas a reativação depende também de outros fatores, como o câmbio e outros determinantes do poder de competição internacional. De toda forma, faltam esses detalhes nas duas pesquisas.
O indicador de nível de atividade da indústria paulista subiu 1,2% no terceiro trimestre e deve aumentar 1,1% no trimestre final, mas, apesar disso, o resultado geral do ano será 4,5% inferior ao de 2011, segundo o diretor de estudos econômicos da Fiesp. Há recuperação, mas menos intensa que a esperada há algum tempo, segundo afirmou.
O contraste entre as expectativas de consumidores e industriais fica menos estranho quando se consideram algumas peculiaridades do cenário brasileiro.
O emprego se manteve elevado, mesmo na crise, em parte graças ao setor de serviços, em parte por causa de cuidados tomados pelos industriais. Muitos preferiram manter o pessoal, mesmo em tempos ruins, para evitar a sequência dos custos de demissões e de recontratações. Além disso, a escassez de mão de obra qualificada em algumas áreas foi levada em conta.
Em segundo lugar, a massa de rendimentos, o crédito farto e estímulos fiscais restritos a alguns setores impulsionaram e continuam sustentando o consumo. A maior parte da indústria ficou à margem desses incentivos. Além disso, produtores estrangeiros supriram boa parte da demanda adicional, favorecidos por custos bem menores que os da indústria brasileira. A política anticrise cuidou muito mais do consumo que da produção. Mantido o emprego, o consumidor teria pouco motivo de queixa.
As ruas também são nossas - CACÁ DIEGUES
O GLOBO - 03\11
A lembrança da violência destrutiva dos rapazes bêbados na Cinelândia ficou como um exemplo do barbarismo com o qual precisamos acabar
À exceção daquele cabeção enfiado na Praia de Botafogo, gosto muito dos enfeites artísticos que Marcello Dantas espalhou pela cidade, através do projeto OiR (Outras ideias para o Rio).
O “Radar” montado por Ryoji Ikeda na Praia do Diabo, por exemplo, torna mais luminoso e intrigante nosso prazer de estar numa praia carioca. Assim como as “77 milhões de pinturas”, projetadas por Brian Eno sobre os Arcos da Lapa, são um exercício de misteriosa beleza, resultado do brilho contemporâneo da mente humana aplicado a signo arcaico da cidade.
Me entusiasmei particularmente com o “Labirinto de Vidro”, instalação de Robert Morris na Cinelândia, em frente ao Teatro Municipal. Trata-se de uma obra de arte e entretenimento, no meio do caminho por onde passam os que trabalham no Centro da cidade. Como o escritório de nossa produtora é por ali mesmo, vez por outra passo em frente ao labirinto e, estando com tempo, admiro-o e usufruo dele mais um pouco.
Outro dia, deparei-me com o labirinto destruído. Duas de suas paredes de vidro haviam sido estilhaçadas, inviabilizando a fruição de seu uso. Um guarda municipal percebeu minha perplexidade e veio informar que, no sábado anterior, um bando de rapazes bêbados havia promovido o apedrejamento da obra, certamente como clímax da farra do fim de semana. Fiquei chocado.
Talvez mais do que a perda da obra de Robert Morris, incomodou-me imaginar aqueles jovens em ação, bando de vândalos a destruir, por puro e perverso prazer, um objeto público que, de certo modo, também pertencia a eles.
Temos uma velha tradição de desrespeito pelo espaço público, um tipo de vandalismo social que nos é relatado pelos cronistas de nossa história, a descrever a imundície de nossas ruas e os costumes pouco civilizados de nossa população urbana. Desde sempre, acostumamo-nos a usar o espaço público como se não tivéssemos nada a ver com ele, como se não fosse nosso. Como se outro alguém que não somos nós fosse o responsável por ele, e que dele trate de cuidar.
Esse comportamento tem a ver com nossa permanente e histórica dependência do estado, com nossa condição de sociedade frágil, condenada à submissão ao estado forte e poderoso. Um estado que, por ter todo direito sobre nós, tem também o dever de cuidar de nós, seja qual for nossa classe social ou nossa posição como cidadãos.
As favelas do Rio de Janeiro sofrem com a falta de saneamento básico e de coleta de lixo, dever do estado para com seus cidadãos. Mas é comum entrarmos nas casas dessas comunidades e encontrá-las limpas, asseadas, perfeitamente arrumadas, enquanto no exterior, no chão do beco ao lado, se acumulam os restos apodrecidos de seu consumo.
Assim como é comum, nas artérias do asfalto, vermos maços de cigarro usados, latas vazias de bebidas, restos de lanches, serem atirados de automóveis caros e sofisticados, a sujar ruas e avenidas, vias públicas imundas que nos levam a lares de limpeza impecável. Como se só a casa fosse nossa, com a rua não temos nada a ver.
Em todas as classes sociais, desrespeitamos sistematicamente as leis que regem o uso do espaço público. Na praia, jogamos altinho entre banhistas e levamos nossos cães para fazer cocô à beira-mar, não importa que tenhamos passado por tantas placas que nos anunciam e explicam a proibição. Se o espaço púbico não é nosso, destruímos sua organização e uso, como os vândalos destruíram o “Labirinto de Vidro”. Não temos nada a ver com essas perdas.
Lei não é opressão, regras são fundamentais para a existência de civilização. Como disse recentemente a juíza Cármem Lúcia, do STF, a política existe para que não haja guerra. E as leis são o resultado da política, das negociações realizadas pela pólis segundo a conveniência da urbe, um arranjo social para que todos tenham os mesmos direitos e deveres, sem primazias ou preferências.
Cresci e vivi grande parte de minha vida sob a Guerra Fria, quando os interesses das duas nações em choque vinham antes das necessidades dos outros povos. O mundo entrou em pânico, entregou-se à paranoia porque, junto com a invenção da energia nuclear que melhoraria nossas vidas, as duas potências inventaram também a bomba atômica que acabaria com todos nós, num ato de vandalismo terminal.
Gosto do conhecimento, de conforto e de viver mais; portanto adoro o progresso. Mas entre o progresso e a civilização, vou ficar sempre com a civilização.
Em tempo. Dias depois de sua destruição, voltei à Cinelândia e vi que o “Labirinto de Vidro” havia sido reconstruído pelas autoridades responsáveis. Tanto melhor. Mas a lembrança da violência destrutiva dos rapazes bêbados ficou comigo, como um exemplo do barbarismo com o qual precisamos acabar.
A lembrança da violência destrutiva dos rapazes bêbados na Cinelândia ficou como um exemplo do barbarismo com o qual precisamos acabar
À exceção daquele cabeção enfiado na Praia de Botafogo, gosto muito dos enfeites artísticos que Marcello Dantas espalhou pela cidade, através do projeto OiR (Outras ideias para o Rio).
O “Radar” montado por Ryoji Ikeda na Praia do Diabo, por exemplo, torna mais luminoso e intrigante nosso prazer de estar numa praia carioca. Assim como as “77 milhões de pinturas”, projetadas por Brian Eno sobre os Arcos da Lapa, são um exercício de misteriosa beleza, resultado do brilho contemporâneo da mente humana aplicado a signo arcaico da cidade.
Me entusiasmei particularmente com o “Labirinto de Vidro”, instalação de Robert Morris na Cinelândia, em frente ao Teatro Municipal. Trata-se de uma obra de arte e entretenimento, no meio do caminho por onde passam os que trabalham no Centro da cidade. Como o escritório de nossa produtora é por ali mesmo, vez por outra passo em frente ao labirinto e, estando com tempo, admiro-o e usufruo dele mais um pouco.
Outro dia, deparei-me com o labirinto destruído. Duas de suas paredes de vidro haviam sido estilhaçadas, inviabilizando a fruição de seu uso. Um guarda municipal percebeu minha perplexidade e veio informar que, no sábado anterior, um bando de rapazes bêbados havia promovido o apedrejamento da obra, certamente como clímax da farra do fim de semana. Fiquei chocado.
Talvez mais do que a perda da obra de Robert Morris, incomodou-me imaginar aqueles jovens em ação, bando de vândalos a destruir, por puro e perverso prazer, um objeto público que, de certo modo, também pertencia a eles.
Temos uma velha tradição de desrespeito pelo espaço público, um tipo de vandalismo social que nos é relatado pelos cronistas de nossa história, a descrever a imundície de nossas ruas e os costumes pouco civilizados de nossa população urbana. Desde sempre, acostumamo-nos a usar o espaço público como se não tivéssemos nada a ver com ele, como se não fosse nosso. Como se outro alguém que não somos nós fosse o responsável por ele, e que dele trate de cuidar.
Esse comportamento tem a ver com nossa permanente e histórica dependência do estado, com nossa condição de sociedade frágil, condenada à submissão ao estado forte e poderoso. Um estado que, por ter todo direito sobre nós, tem também o dever de cuidar de nós, seja qual for nossa classe social ou nossa posição como cidadãos.
As favelas do Rio de Janeiro sofrem com a falta de saneamento básico e de coleta de lixo, dever do estado para com seus cidadãos. Mas é comum entrarmos nas casas dessas comunidades e encontrá-las limpas, asseadas, perfeitamente arrumadas, enquanto no exterior, no chão do beco ao lado, se acumulam os restos apodrecidos de seu consumo.
Assim como é comum, nas artérias do asfalto, vermos maços de cigarro usados, latas vazias de bebidas, restos de lanches, serem atirados de automóveis caros e sofisticados, a sujar ruas e avenidas, vias públicas imundas que nos levam a lares de limpeza impecável. Como se só a casa fosse nossa, com a rua não temos nada a ver.
Em todas as classes sociais, desrespeitamos sistematicamente as leis que regem o uso do espaço público. Na praia, jogamos altinho entre banhistas e levamos nossos cães para fazer cocô à beira-mar, não importa que tenhamos passado por tantas placas que nos anunciam e explicam a proibição. Se o espaço púbico não é nosso, destruímos sua organização e uso, como os vândalos destruíram o “Labirinto de Vidro”. Não temos nada a ver com essas perdas.
Lei não é opressão, regras são fundamentais para a existência de civilização. Como disse recentemente a juíza Cármem Lúcia, do STF, a política existe para que não haja guerra. E as leis são o resultado da política, das negociações realizadas pela pólis segundo a conveniência da urbe, um arranjo social para que todos tenham os mesmos direitos e deveres, sem primazias ou preferências.
Cresci e vivi grande parte de minha vida sob a Guerra Fria, quando os interesses das duas nações em choque vinham antes das necessidades dos outros povos. O mundo entrou em pânico, entregou-se à paranoia porque, junto com a invenção da energia nuclear que melhoraria nossas vidas, as duas potências inventaram também a bomba atômica que acabaria com todos nós, num ato de vandalismo terminal.
Gosto do conhecimento, de conforto e de viver mais; portanto adoro o progresso. Mas entre o progresso e a civilização, vou ficar sempre com a civilização.
Em tempo. Dias depois de sua destruição, voltei à Cinelândia e vi que o “Labirinto de Vidro” havia sido reconstruído pelas autoridades responsáveis. Tanto melhor. Mas a lembrança da violência destrutiva dos rapazes bêbados ficou comigo, como um exemplo do barbarismo com o qual precisamos acabar.
A tragédia da Funai - KÁTIA ABREU
FOLHA DE SP - 03\11
Esta é a Funai dos nossos dias: incapaz de interpretar os anseios dos índios e garantir-lhes a vida
A morte sempre aflige e, na forma extrema do suicídio, converte-se em lamentável tragédia. É impossível deixar de ter compaixão, virtude cristã, quando nos defrontamos com um jovem indígena guarani-kaiowá demitindo-se da vida.
Essa trágica realidade exige explicações e atitude da Fundação Nacional do Índio.
O Estado é o guardião dessas vidas e a lei confere à Funai a missão de exercer, em nome da União, "a proteção e a promoção dos direitos dos povos indígenas".
O desgosto dos brasileiros que dirigem seu olhar compassivo aos índios é que estamos todos diante de uma estrutura anacrônica e incompetente que, atualmente, é de pouca serventia àqueles a quem deveria proteger. Esta é a Fundação Nacional do Índio dos nossos dias: incapaz de interpretar os anseios dos índios e garantir-lhes a vida.
A ineficiência se agiganta porque a Funai acumula competências que transitam pelos três Poderes da República. Ela é Executivo, ao conduzir os processos de identificação e demarcação de terras; é Legislativo, com suas instruções normativas que regulam esses processos, e também assume o papel de Judiciário, ao julgar administrativamente todas as contestações.
É simplificação irreal e equivocada resumir o drama pelo qual passam os 170 índios da etnia guarani-kaiowá a uma simples demanda por terra. As carências dos índios, inclusive os que hoje ocupam dois hectares de uma fazenda no Mato Grosso do Sul, são muito mais amplas. Falar em terra é tirar o foco da realidade e justificar a inoperância do poder público.
O índio hoje reclama da falta de assistência médica, de remédio, de escola, de meios e instrumentos para tirar o sustento de suas terras. Mais chão não dá a ele a dignidade que lhe é subtraída pela falta de estrutura sanitária, de capacitação técnica e até mesmo de investimentos para o cultivo.
A triste realidade dos dias de hoje é que os índios estão mal assistidos e os produtores rurais, desamparados. Os empreendedores do setor agropecuário possuem títulos de propriedade regularmente concedidos, em obediência às leis que regem nosso país.
A luta para colocar alimento mais barato na mesa do brasileiro não é travada por usurpadores e invasores de terras, como querem fazer acreditar algumas ONGs nacionais e internacionais e alguns movimentos sociais.
As terras indígenas ocupam 12,64% do território nacional. São, ao todo, 109,7 milhões de hectares, segundo dados da Funai. Vivem neles 517,3 mil indivíduos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Já as terras agrícolas ocupam 39,2% do território nacional, fatia que cai para 27,7% sem as áreas de preservação ambiental. Entre proprietários, seus familiares e empregados do campo, são 16,5 milhões de pessoas.
A menção a esses números não embute nenhuma objeção da CNA à eventual ampliação das áreas reservadas aos povos indígenas. Se for da vontade do governo e do povo brasileiro dar mais terra ao índio, que o façam. Mas não à custa dos que trabalham duro para produzir o alimento que chega à mesa de todos nós.
É hora de alardear um fato absurdo que, não tenho dúvida, é desconhecido pela maioria dos cidadãos. O que tensiona a relação entre índios e fazendeiros, que antes da Constituição de 1988 já ocupavam legalmente as terras em que produzem, é a injustiça praticada pelo Estado brasileiro.
Quando o governo destina áreas à reforma agrária, indeniza o proprietário pela terra e pelas benfeitorias realizadas. Já quando subtrai o chão há décadas cultivado pelo produtor, somente as benfeitorias lhe são restituídas.
Ocorre aí uma expropriação criminosa de terras produtivas, e o fazendeiro, desesperado, tem que abandonar a propriedade com uma mão na frente e outra atrás.
O que se quer é o fim de uma prática em que os governos trabalham com dois pesos e duas medidas.
Na desapropriação de terras para reforma agrária, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) utiliza-se da Lei 4.132, que prevê compra de terras com pagamento em dinheiro. Bem diferente da Funai, que, em vez de solucionar os conflitos, atua para potencializá-los.
Esta é a Funai dos nossos dias: incapaz de interpretar os anseios dos índios e garantir-lhes a vida
A morte sempre aflige e, na forma extrema do suicídio, converte-se em lamentável tragédia. É impossível deixar de ter compaixão, virtude cristã, quando nos defrontamos com um jovem indígena guarani-kaiowá demitindo-se da vida.
Essa trágica realidade exige explicações e atitude da Fundação Nacional do Índio.
O Estado é o guardião dessas vidas e a lei confere à Funai a missão de exercer, em nome da União, "a proteção e a promoção dos direitos dos povos indígenas".
O desgosto dos brasileiros que dirigem seu olhar compassivo aos índios é que estamos todos diante de uma estrutura anacrônica e incompetente que, atualmente, é de pouca serventia àqueles a quem deveria proteger. Esta é a Fundação Nacional do Índio dos nossos dias: incapaz de interpretar os anseios dos índios e garantir-lhes a vida.
A ineficiência se agiganta porque a Funai acumula competências que transitam pelos três Poderes da República. Ela é Executivo, ao conduzir os processos de identificação e demarcação de terras; é Legislativo, com suas instruções normativas que regulam esses processos, e também assume o papel de Judiciário, ao julgar administrativamente todas as contestações.
É simplificação irreal e equivocada resumir o drama pelo qual passam os 170 índios da etnia guarani-kaiowá a uma simples demanda por terra. As carências dos índios, inclusive os que hoje ocupam dois hectares de uma fazenda no Mato Grosso do Sul, são muito mais amplas. Falar em terra é tirar o foco da realidade e justificar a inoperância do poder público.
O índio hoje reclama da falta de assistência médica, de remédio, de escola, de meios e instrumentos para tirar o sustento de suas terras. Mais chão não dá a ele a dignidade que lhe é subtraída pela falta de estrutura sanitária, de capacitação técnica e até mesmo de investimentos para o cultivo.
A triste realidade dos dias de hoje é que os índios estão mal assistidos e os produtores rurais, desamparados. Os empreendedores do setor agropecuário possuem títulos de propriedade regularmente concedidos, em obediência às leis que regem nosso país.
A luta para colocar alimento mais barato na mesa do brasileiro não é travada por usurpadores e invasores de terras, como querem fazer acreditar algumas ONGs nacionais e internacionais e alguns movimentos sociais.
As terras indígenas ocupam 12,64% do território nacional. São, ao todo, 109,7 milhões de hectares, segundo dados da Funai. Vivem neles 517,3 mil indivíduos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Já as terras agrícolas ocupam 39,2% do território nacional, fatia que cai para 27,7% sem as áreas de preservação ambiental. Entre proprietários, seus familiares e empregados do campo, são 16,5 milhões de pessoas.
A menção a esses números não embute nenhuma objeção da CNA à eventual ampliação das áreas reservadas aos povos indígenas. Se for da vontade do governo e do povo brasileiro dar mais terra ao índio, que o façam. Mas não à custa dos que trabalham duro para produzir o alimento que chega à mesa de todos nós.
É hora de alardear um fato absurdo que, não tenho dúvida, é desconhecido pela maioria dos cidadãos. O que tensiona a relação entre índios e fazendeiros, que antes da Constituição de 1988 já ocupavam legalmente as terras em que produzem, é a injustiça praticada pelo Estado brasileiro.
Quando o governo destina áreas à reforma agrária, indeniza o proprietário pela terra e pelas benfeitorias realizadas. Já quando subtrai o chão há décadas cultivado pelo produtor, somente as benfeitorias lhe são restituídas.
Ocorre aí uma expropriação criminosa de terras produtivas, e o fazendeiro, desesperado, tem que abandonar a propriedade com uma mão na frente e outra atrás.
O que se quer é o fim de uma prática em que os governos trabalham com dois pesos e duas medidas.
Na desapropriação de terras para reforma agrária, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) utiliza-se da Lei 4.132, que prevê compra de terras com pagamento em dinheiro. Bem diferente da Funai, que, em vez de solucionar os conflitos, atua para potencializá-los.
Fatores eleitorais - MIGUEL REALE JÚNIOR
O Estado de S.Paulo - 03\11
Há dez anos José Serra disputava as eleições presidenciais. De lá para cá participou de todos os pleitos: Prefeitura de São Paulo em 2004, do qual saiu vencedor; em 2006 concorreu ao governo do Estado e ganhou com facilidade no primeiro turno. Não tentou a reeleição de governador, mas encarou em 2010 o desafio de nova disputa pela Presidência. Em 2012 tergiversou, disse não ser candidato à Prefeitura, mas as pesquisas, que o colocavam em primeiro lugar disparado, o animaram a tentar novamente ser prefeito.
Trata-se de demonstração precisa de desgaste de material: o nome bem conhecido, que surge mais facilmente à mente do eleitor meses antes das eleições, vai sofrendo rejeição ao longo do processo eleitoral. Mais do mesmo. Lula, ao apresentar Fernando Haddad como candidato a prefeito no Programa do Ratinho, antes do período eleitoral, disse: "O povo votará no novo porque a população de São Paulo quer mudança". Haddad timbrou sua campanha no tema "o homem novo para um tempo novo".
Agora Lula antecipa a indicação de candidato a governador de São Paulo, mencionando que o pleiteante ao Palácio dos Bandeirantes pelo PT deve ser o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, estreante em eleições.
Seria a apresentação de uma novidade eleitoral a fórmula de sucesso válido para todos os quadrantes? O que vale para São Paulo vale para a Grande São Paulo? O que constitui um mote forte para São Paulo pode não ser para uma cidade vizinha. E Lula sabe disso, pois em Diadema, município ao lado da capital, saiu em defesa da reeleição de seu candidato, Mario Reali, derrotado nas urnas, dizendo o inverso do que falou sobre Haddad e Serra: "O importante é que o povo não entre numa aventura. Em 1989, o novo era o Collor e vocês sabem o que aconteceu neste país. Não podemos colocar na prefeitura alguém que não administrou nem a própria cozinha".
Nem se pensa em criticar Lula por sua manifesta "virtude" da incoerência, que pratica com tanta proficiência e desenvoltura. É um caso perdido.
O que importa analisar é se o novo é uma exigência atual da sociedade e se Lula é mesmo um grande eleitor. As urnas demonstram que a receita do novo e o apoio de Lula não constituem, na verdade, uma solução universal, garantidora de vitória. Pois se valeu para São Paulo, não serviu para Belo Horizonte, onde o prefeito foi reeleito contra todo o esforço de Lula e Dilma, que se empenharam a fundo em favor de Patrus Ananias. Marcio Lacerda representava nas eleições o velho e o antagonismo a Lula, mas venceu no primeiro turno.
Já no Recife, o PT, que governa a cidade há 12 anos, se viu derrotado por um candidato novo, Geraldo Julio, eleito no primeiro turno. Humberto Costa, o candidato do PT imposto por Lula, representava o velho, como conhecido político pernambucano, antes vereador, deputado estadual, federal, secretário de Estado, ministro e senador. Figurou só em terceiro lugar, atrás do candidato do PSDB.
O candidato a prefeito de Salvador também sustentado por Lula e Dilma, o petista Nelson Pelegrino, deputado estadual e federal, foi vencido por político de franca oposição ao lulismo, o neto de ACM, o ACM Neto, uma mistura do velho e do novo, revivendo a imagem do avô, legendário coronel da política baiana. O PT perdeu também em Fortaleza, sofrendo, portanto, derrota nas principais capitais do Nordeste. No Norte foi vencido em Manaus e Belém.
Em Campinas, Jonas Donizette, antigo vereador, deputado estadual e federal, ganhou a eleição de pretendente novo, apoiado por Lula e Dilma, o ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Mário Pochmann.
Como se vê, as eleições municipais têm sua lógica própria. Nem Lula nem o novo são os fatores determinantes do sucesso ou da derrota. As eleições municipais seguem preferências muito específicas dos problemas vividos pelas cidades. Não se conseguiu nacionalizar as eleições municipais. O mensalão e o apoio de lideranças nacionais tiveram sua influência, mas não foram determinantes.
A condenação do núcleo político do PT, em vista de sofisticado esquema de manutenção do poder por meio de corrupção, apesar de colar essa marca no partido, pouco respingou na opção municipal: em geral não se deixou de votar em Haddad por ter a cúpula do PT sido condenada nem se votou por essa razão em Serra. Tal não significa desinteresse pelo mensalão, mas sensível compreensão de que o voto hoje em candidato a prefeito não condena nem absolve o passado de terceiros. Será, contudo, diverso no pleito para presidente.
A vitória de Haddad não constitui a absolvição do PT nem a condenação do Supremo Tribunal Federal, e em especial do ministro relator Joaquim Barbosa, visto como fidedigno portador da justiça por muitos eleitores do petista.
Resumindo, em muitas cidades o novo foi vencedor, bem como Lula e Dilma foram os ganhadores. Mas, ao mesmo tempo, o velho venceu e Lula e Dilma foram derrotados em colégios eleitorais importantes. É preciso, portanto, examinar cada município em suas condições particulares e em face das figuras dos concorrentes: em São Paulo, foi Haddad que ganhou ou Serra que perdeu, visto seu elevado índice de rejeição?
O processo do mensalão deve perdurar como exemplo. Não cabe condenar alguém tão só para intimidar os demais membros da sociedade, mas a condenação justa de fatos comprometedores do cerne das instituições democráticas pode ajudar a que a classe política venha a exercer corretamente suas funções.
Em suma, a condenação no mensalão não se refletiu nas eleições municipais, nem se pode considerar Lula, Aécio Neves ou Eduardo Campos como grandes eleitores, pois cada município apresentou razões próprias para suas opções conforme características específicas.
Muita terra, pouco índio - MARCELO LEITE
FOLHA DE SP - 03\11
Os 20 mil ianomâmis do Brasil vivem numa terra indígena com 96.650 km², área maior que a de Portugal.
Na reserva indígena Dourados (MS), cerca de 12 mil guaranis (caiovás e nhandevas) dispõem de 35 km². São mais que 340 pessoas por km².
Quem acha que os índios do Brasil têm terra demais deveria ser confrontado com dois pedidos: defina "índios" e defina "terra demais".
De aicanãs a zuruahãs, há 238 etnias no diretório "Povos Indígenas do Brasil", do Instituto Socioambiental (ISA). Vivem em 680 terras indígenas e falam 180 línguas.
Fazendeiros -em especial pecuaristas, vanguarda do atraso no campo- gostam de citar que as terras indígenas ocupam 13,3% do território brasileiro, 1.128.702 km² de 8.514.877 km². Poucos sabem, porém, que 98,5% dessas áreas ficam na longínqua e pouco valorizada Amazônia.
Todas as outras terras indígenas do país abarcam 1,5% do território nacional. Aí se incluem as minúsculas "reservas" sul-mato-grossenses (era esse o nome na década de 1910, quando o Serviço de Proteção ao Índio, precursor da Funai, passou a instituí-las para confinar "bugres", um termo eivado de racismo e ainda utilizado na região).
Sem as reservas, não haveria hoje fazendas em Mato Grosso do Sul. Com elas, são os cerca de 50 mil guaranis brasileiros que se acabam. Alcoolismo, suicídios e violência completam a obra iniciada pela escravização nas mãos de portugueses e espanhóis. Quatro séculos atrás.
Isso quer dizer que o Estado todo deve ser devolvido aos guaranis? Nunca vai acontecer. Não dá para rebobinar a história. Os proprietários que possuem títulos fundiários de boa-fé podem e devem ser indenizados, não só pelas benfeitorias, mas pela "terra nua".
Para isso foi criado, neste ano, o Fundo Estadual de Terras Indígenas. Os fazendeiros mais estouvados preferem aferrar-se a intermináveis recursos judiciais, quando não ao emprego de violência.
Os guaranis têm do seu lado a Constituição, que reconhece os direitos originários dos índios sobre as terras que tradicionalmente ocupam (mas nunca se cumpriu o prazo de cinco anos -vencido há 19- para a União concluir a demarcação de todas as terras indígenas do Brasil).
O barulho em torno do despejo dos 170 guaranis confinados em um hectare (0,01 km²) da fazenda Cambará, em Iguatemi (MS), decorre de o Estado brasileiro enfim ter começado a se mexer na região em litígio. Um acordo firmado em 2007 entre Ministério Público Federal e Funai determina que se faça a demarcação de 30 territórios tradicionais, emperrada pelas ações na Justiça.
As áreas já demarcadas somam 1.240 km², segundo o ISA. Menos de 0,4% do Estado de Mato Grosso do Sul.
Os 20 mil ianomâmis do Brasil vivem numa terra indígena com 96.650 km², área maior que a de Portugal.
Na reserva indígena Dourados (MS), cerca de 12 mil guaranis (caiovás e nhandevas) dispõem de 35 km². São mais que 340 pessoas por km².
Quem acha que os índios do Brasil têm terra demais deveria ser confrontado com dois pedidos: defina "índios" e defina "terra demais".
De aicanãs a zuruahãs, há 238 etnias no diretório "Povos Indígenas do Brasil", do Instituto Socioambiental (ISA). Vivem em 680 terras indígenas e falam 180 línguas.
Fazendeiros -em especial pecuaristas, vanguarda do atraso no campo- gostam de citar que as terras indígenas ocupam 13,3% do território brasileiro, 1.128.702 km² de 8.514.877 km². Poucos sabem, porém, que 98,5% dessas áreas ficam na longínqua e pouco valorizada Amazônia.
Todas as outras terras indígenas do país abarcam 1,5% do território nacional. Aí se incluem as minúsculas "reservas" sul-mato-grossenses (era esse o nome na década de 1910, quando o Serviço de Proteção ao Índio, precursor da Funai, passou a instituí-las para confinar "bugres", um termo eivado de racismo e ainda utilizado na região).
Sem as reservas, não haveria hoje fazendas em Mato Grosso do Sul. Com elas, são os cerca de 50 mil guaranis brasileiros que se acabam. Alcoolismo, suicídios e violência completam a obra iniciada pela escravização nas mãos de portugueses e espanhóis. Quatro séculos atrás.
Isso quer dizer que o Estado todo deve ser devolvido aos guaranis? Nunca vai acontecer. Não dá para rebobinar a história. Os proprietários que possuem títulos fundiários de boa-fé podem e devem ser indenizados, não só pelas benfeitorias, mas pela "terra nua".
Para isso foi criado, neste ano, o Fundo Estadual de Terras Indígenas. Os fazendeiros mais estouvados preferem aferrar-se a intermináveis recursos judiciais, quando não ao emprego de violência.
Os guaranis têm do seu lado a Constituição, que reconhece os direitos originários dos índios sobre as terras que tradicionalmente ocupam (mas nunca se cumpriu o prazo de cinco anos -vencido há 19- para a União concluir a demarcação de todas as terras indígenas do Brasil).
O barulho em torno do despejo dos 170 guaranis confinados em um hectare (0,01 km²) da fazenda Cambará, em Iguatemi (MS), decorre de o Estado brasileiro enfim ter começado a se mexer na região em litígio. Um acordo firmado em 2007 entre Ministério Público Federal e Funai determina que se faça a demarcação de 30 territórios tradicionais, emperrada pelas ações na Justiça.
As áreas já demarcadas somam 1.240 km², segundo o ISA. Menos de 0,4% do Estado de Mato Grosso do Sul.
Gargalos que o câmbio não desobstrui - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 03\11
Um dos mais sérios obstáculos aos ganhos de produtividade pelas empresas está na precariedade da logística do país. Sem investimentos e o setor privado, não se irá longe
Assim que passar de vez o rescaldo eleitoral, os problemas da economia voltarão a ganhar destaque na agenda de trabalho do governo. Talvez até acelere este retorno o mau resultado colhido pela indústria no mês de setembro, quando a produção setorial, calculada pelo IBGE, encolheu 1% em relação a agosto, depois de três meses consecutivos de alta. Superou as expectativas pessimistas.
Em bases anuais, a indústria retrocedeu 3,5%, mais uma confirmação de que o PIB de 2012 não ultrapassará em muito o 1% de crescimento. Para permitir comparações, houve ajustes estatísticos no cálculo da taxa de setembro, pois o mês teve apenas 19 dias úteis, contra 23 em agosto e 21 em setembro do ano passado. Mas, mesmo que possa ter ocorrido algum desvio nestes ajustes, não se tem dúvida de que o setor industrial fraquejou, apesar de todos os incentivos ao consumo.
Reforça-se, assim, a necessidade de um enfoque mais amplo nas análises da conjuntura. Fica cada vez mais evidente que não será um câmbio congelado em R$ 2 que restabelecerá a competitividade da economia brasileira em bases sólidas. Quando a taxa cambial oscilava bem abaixo disso, acenava-se com o paraíso para quanto ela fosse desvalorizada e chegasse onde se encontra já há algum tempo. Houve a desvalorização, mas as terras de leite e mel continuam distantes, para além do horizonte.
À parte a questão do esgotamento ou não da capacidade de as famílias aumentaram o endividamento para continuar nas compras, há gargalos no país que pressionam o custo das empresas, sem que a taxa de câmbio possa aliviá-las.
Neste sentido, é elucidativa pesquisa da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte, feita junto a 126 grandes empresas que respondem por 20% do PIB brasileiro. O levantamento concluiu que precariedades no sistema logístico do país geram perdas anuais de R$ 83,2 bilhões, quase o gigantesco orçamento público da Saúde.
Estradas mal conservadas, burocracia, precariedades na malha ferroviária, dificuldades no uso integrado dos diversos modais de transportes, tudo somado reduz bastante o poder de competição do país, ainda mais num momento de dificuldades econômicas mundiais. No longo e histórico ciclo de expansão mundial sincronizada, finalizado de uma vez na explosão da bolha imobiliária americana na segunda metade de 2008, estas “desvantagens comparativas” não apareciam tanto. Diferente de hoje em dia.
Esclarecedoras comparações: no Brasil, exportar um contêiner custa US$ 1.790 (só de burocracia, US$ 690), contra US$ 1.050 nos Estados Unidos, US$ 1.055 na Índia, US$ 872 na Alemanha, US$ 500 na China e, em Cingapura, US$ 456. Daí a dificuldade, por exemplo, nas exportações de manufaturados.
Sem investimentos em infraestrutura, com grande participação da iniciativa privada, não se irá longe. Mesmo com o câmbio a R$ 2 ou mais.
Um dos mais sérios obstáculos aos ganhos de produtividade pelas empresas está na precariedade da logística do país. Sem investimentos e o setor privado, não se irá longe
Assim que passar de vez o rescaldo eleitoral, os problemas da economia voltarão a ganhar destaque na agenda de trabalho do governo. Talvez até acelere este retorno o mau resultado colhido pela indústria no mês de setembro, quando a produção setorial, calculada pelo IBGE, encolheu 1% em relação a agosto, depois de três meses consecutivos de alta. Superou as expectativas pessimistas.
Em bases anuais, a indústria retrocedeu 3,5%, mais uma confirmação de que o PIB de 2012 não ultrapassará em muito o 1% de crescimento. Para permitir comparações, houve ajustes estatísticos no cálculo da taxa de setembro, pois o mês teve apenas 19 dias úteis, contra 23 em agosto e 21 em setembro do ano passado. Mas, mesmo que possa ter ocorrido algum desvio nestes ajustes, não se tem dúvida de que o setor industrial fraquejou, apesar de todos os incentivos ao consumo.
Reforça-se, assim, a necessidade de um enfoque mais amplo nas análises da conjuntura. Fica cada vez mais evidente que não será um câmbio congelado em R$ 2 que restabelecerá a competitividade da economia brasileira em bases sólidas. Quando a taxa cambial oscilava bem abaixo disso, acenava-se com o paraíso para quanto ela fosse desvalorizada e chegasse onde se encontra já há algum tempo. Houve a desvalorização, mas as terras de leite e mel continuam distantes, para além do horizonte.
À parte a questão do esgotamento ou não da capacidade de as famílias aumentaram o endividamento para continuar nas compras, há gargalos no país que pressionam o custo das empresas, sem que a taxa de câmbio possa aliviá-las.
Neste sentido, é elucidativa pesquisa da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte, feita junto a 126 grandes empresas que respondem por 20% do PIB brasileiro. O levantamento concluiu que precariedades no sistema logístico do país geram perdas anuais de R$ 83,2 bilhões, quase o gigantesco orçamento público da Saúde.
Estradas mal conservadas, burocracia, precariedades na malha ferroviária, dificuldades no uso integrado dos diversos modais de transportes, tudo somado reduz bastante o poder de competição do país, ainda mais num momento de dificuldades econômicas mundiais. No longo e histórico ciclo de expansão mundial sincronizada, finalizado de uma vez na explosão da bolha imobiliária americana na segunda metade de 2008, estas “desvantagens comparativas” não apareciam tanto. Diferente de hoje em dia.
Esclarecedoras comparações: no Brasil, exportar um contêiner custa US$ 1.790 (só de burocracia, US$ 690), contra US$ 1.050 nos Estados Unidos, US$ 1.055 na Índia, US$ 872 na Alemanha, US$ 500 na China e, em Cingapura, US$ 456. Daí a dificuldade, por exemplo, nas exportações de manufaturados.
Sem investimentos em infraestrutura, com grande participação da iniciativa privada, não se irá longe. Mesmo com o câmbio a R$ 2 ou mais.
O drama sem-fim dos haitianos - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 03\11
Por incrível que pareça, degradou-se ainda mais a situação dos imigrantes haitianos abrigados provisoriamente nos confins do Acre. Não bastasse o drama de abandonar o país em que viviam em razão da calamidade em que se encontra o Haiti após o grande terremoto de 2010, esses imigrantes, enquanto aguardam a emissão de autorização para permanecer no Brasil, perderam a pouca ajuda que o governo acriano lhes dava. Por falta de dinheiro, foi suspenso o fornecimento de alimentos, e o aluguel da casa onde eles estão abrigados não está sendo pago. Assim, está claro que é urgente o socorro a essas pessoas, mas não se pode perder de vista que tal crise resulta principalmente da enorme porosidade das fronteiras amazônicas - um convite à ação dos "coiotes", criminosos especializados em contrabandear pessoas. Enquanto resolve qual é a melhor maneira de socorrer esses refugiados, o governo brasileiro faria bem se reforçasse o policiamento para frustrar a ação das quadrilhas que ainda lucram com a tragédia haitiana.
Os refugiados chegam a pagar US$ 1 mil para cruzar a fronteira. Eles saem de Porto Príncipe, a capital do Haiti, e vão de navio até o Panamá e, em seguida, para o Equador e o Peru. De Lima, seguem de ônibus até o Brasil, pela Rodovia Transoceânica. Alguns fazem o percurso a pé. Outra rota parte de Ibéria, no norte da Bolívia - é uma caminhada de 8 quilômetros no meio da mata até a estrada que leva a Cobija, na fronteira com o Acre. Um dos principais destinos é a cidade acriana de Brasileia, por onde já passaram mais de mil haitianos e onde hoje estão 216 deles, a maioria estudantes de 20 a 30 anos de idade, com alguma qualificação. O governo brasileiro deverá legalizar sua situação em breve, mas, até que isso aconteça, sua condição de vida se agrava dia a dia.
A Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Acre informou que não tem mais condições financeiras de dar assistência aos refugiados, principalmente a alimentação, e aguarda ajuda federal. "A secretaria literalmente quebrou, acabou, não tem mais nada", disse o secretário Nilson Mourão à Folha (25/10). Os gastos do governo acriano com os refugiados somam mais de R$ 2 milhões desde dezembro de 2010, quando a crise humanitária começou. O fornecedor de alimentos suspendeu o serviço em 19 de setembro, em razão de uma dívida de cerca de R$ 60 mil. Assim, os haitianos passaram a depender de doações, e a situação é crítica - há apenas um fogão para cozinhar para todos.
Desde o terremoto de 2010, cerca de 5 mil haitianos entraram no Brasil pelas fronteiras amazônicas. O governo vinha dando vistos a todos os refugiados por razões humanitárias, mas em janeiro decidiu definir uma cota de 1.200 vistos anuais, com validade de cinco anos. Até agora, apenas metade dos ilegais teve sua situação regularizada. Enquanto isso, há informações de que novos grupos de refugiados já se preparam para cruzar a fronteira. Como disse a deputada Perpétua Almeida (PC do B-AC), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, "o tráfico (de pessoas) se intensificou porque os 'coiotes' atuam com mais rapidez do que as autoridades".
Preocupado em aliviar o ônus sobre o Acre, seu secretário de Justiça pede "que não haja mais restrições para o ingresso desses imigrantes no País, para que eles possam seguir seu caminho com mais tranquilidade em busca de uma vida melhor". Trata-se de um óbvio exagero. Embora a emergência humanitária seja inegável, não se pode ignorar um aspecto essencial desse drama: o de que o Brasil tem sido bem mais amistoso que seus vizinhos em relação aos imigrantes ilegais haitianos - basta saber que eles foram expulsos do Peru e que o Equador reforçou recentemente suas fronteiras para impedir que eles entrassem.
O governo brasileiro deve encontrar um meio de tratar da questão com sensibilidade, e parece que vem fazendo isso, mas não pode, como querem alguns, tomar para si a responsabilidade de cuidar de todos os haitianos abatidos pela tragédia, abrindo as fronteiras sem nenhum critério ou restrição. Nenhum país do mundo faria isso.
Cultura na periferia - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 03\11
No que concerne à cultura, o programa do prefeito eleito Fernando Haddad (PT) poderia ser resumido -em geral e com uma dose de humor- pela conhecida "boutade" segundo a qual o que é bom não é novo, e o que é novo não é bom.
Com efeito, entre as novidades figura a construção de dois "centros culturais de referência", um na zona leste e outro na zona sul da capital paulista. Esses prédios, decerto "sustentáveis", contariam com biblioteca, cinema, salas de exposição, teatro multiuso, livraria, oficinas de artesanato, ludoteca, espaços de convivência, cursos de artes e unidades digitais.
Ninguém de boa-fé seria contrário à descentralização da oferta cultural, para que atinja populações da periferia de São Paulo.
Ocorre que a construção de edifícios milionários esbarra não apenas no irrealismo orçamentário (a Secretaria Municipal de Cultura dispõe de R$ 440 milhões em 2012), mas na evidência de que instalações para promover a cidadania nos extremos do município são mais eficazes quando congregam lazer, esporte, cultura e educação.
Nesse sentido, o programa de Haddad é mais realista e promissor quando sugere o uso das estruturas dos CEUs e a melhoria de equipamentos e espaços já construídos, para transformá-los em "polos multifuncionais" -que poderiam ser replicados, a custos mais factíveis, em áreas desassistidas.
Antes de ceder à cultura da engenharia civil e das placas de obras, que tanto seduz governantes, o prefeito eleito ganharia se usasse um pouco mais a imaginação.
Sem prejuízo das políticas bem-sucedidas ora em curso, que não podem ser descontinuadas, o caminho a seguir parece estar na aproximação da área cultural com a escola, na difusão de programas digitais, no apoio às associações artísticas locais e na melhoria da programação e das condições da infraestrutura que já existe.
É indispensável também o entrosamento com o Estado e com os projetos do setor privado. Os centros de referência propostos pelo programa de Haddad, aliás, são unidades equivalentes às do Sesc, que já atua, como se sabe, em bairros periféricos da cidade.
Quanto aos recursos orçamentários, é legítimo que as secretarias procurem ampliá-los. É preciso, contudo, que prevaleça o princípio de realidade. As demandas são muitas, e os recursos, escassos.
Mesmo que a prefeitura obtenha êxito na renegociação de sua dívida com o governo federal, a destinação dos investimentos tem de seguir uma hierarquia.
Não faz sentido propor uma lei para dedicar uma fatia fixa do Orçamento à cultura. A ideia de "carimbar" recursos engessa o Executivo. É tão descabida quanto a proposta -esta mais pueril- de "democratizar" o Theatro Municipal.
Com efeito, entre as novidades figura a construção de dois "centros culturais de referência", um na zona leste e outro na zona sul da capital paulista. Esses prédios, decerto "sustentáveis", contariam com biblioteca, cinema, salas de exposição, teatro multiuso, livraria, oficinas de artesanato, ludoteca, espaços de convivência, cursos de artes e unidades digitais.
Ninguém de boa-fé seria contrário à descentralização da oferta cultural, para que atinja populações da periferia de São Paulo.
Ocorre que a construção de edifícios milionários esbarra não apenas no irrealismo orçamentário (a Secretaria Municipal de Cultura dispõe de R$ 440 milhões em 2012), mas na evidência de que instalações para promover a cidadania nos extremos do município são mais eficazes quando congregam lazer, esporte, cultura e educação.
Nesse sentido, o programa de Haddad é mais realista e promissor quando sugere o uso das estruturas dos CEUs e a melhoria de equipamentos e espaços já construídos, para transformá-los em "polos multifuncionais" -que poderiam ser replicados, a custos mais factíveis, em áreas desassistidas.
Antes de ceder à cultura da engenharia civil e das placas de obras, que tanto seduz governantes, o prefeito eleito ganharia se usasse um pouco mais a imaginação.
Sem prejuízo das políticas bem-sucedidas ora em curso, que não podem ser descontinuadas, o caminho a seguir parece estar na aproximação da área cultural com a escola, na difusão de programas digitais, no apoio às associações artísticas locais e na melhoria da programação e das condições da infraestrutura que já existe.
É indispensável também o entrosamento com o Estado e com os projetos do setor privado. Os centros de referência propostos pelo programa de Haddad, aliás, são unidades equivalentes às do Sesc, que já atua, como se sabe, em bairros periféricos da cidade.
Quanto aos recursos orçamentários, é legítimo que as secretarias procurem ampliá-los. É preciso, contudo, que prevaleça o princípio de realidade. As demandas são muitas, e os recursos, escassos.
Mesmo que a prefeitura obtenha êxito na renegociação de sua dívida com o governo federal, a destinação dos investimentos tem de seguir uma hierarquia.
Não faz sentido propor uma lei para dedicar uma fatia fixa do Orçamento à cultura. A ideia de "carimbar" recursos engessa o Executivo. É tão descabida quanto a proposta -esta mais pueril- de "democratizar" o Theatro Municipal.
Adaptação à China - MARCOS CARAMURU DE PAIVA
FOLHA DE SP - 03\11
É como se no grande jogo dos negócios entrasse um participante com baralho próprio e cheio de coringas
O ingresso da China na OMC, há dez anos, não produziu apenas o efeito de amarrar os chineses às regras vigentes. O mundo também teve que se adaptar a eles.
É mais ou menos como se houvesse chegado ao grande jogo dos negócios e dos entendimentos econômicos internacionais um novo participante, que, mesmo aderindo às regras, jogasse com um baralho próprio e cheio de coringas, podendo sempre arrear uma canastra.
Parte dos coringas, há que se registrar, vem de uma realidade concreta. A China fez o dever de casa em matéria de infraestrutura.
Além disso, dispondo de muita poupança, pôde facilmente ampliar a produção para exportar e, posteriormente, financiar investimentos de suas empresas no exterior.
Parte tem contornos menos visíveis. Está nas práticas chinesas de negociação, que envolvem uma relação não evidente entre os interesses público e privado, muito tempo utilizado em conversas, grandes interrogações quanto a quando e como se vai fechar um entendimento.
Empresários brasileiros confessam frequentemente ser levados à loucura pelos chineses.
Nada disso é de surpreender. Os asiáticos operam mesmo numa moldura intelectual e reflexiva diferente da nossa. E os chineses tenderão mais a se aproximar das práticas ocidentais do que os ocidentais das práticas chinesas. É impossível para nós ser como eles.
O que mais chama atenção na atual realidade, no entanto, não é a China. É que os valores ocidentais estão mudando. As ideias de livre comércio, livre fluxo de investimentos, baixa interferência do Estado na economia real estão pouco a pouco ganhando novos contornos.
É no contexto desses novos contornos que se insere a decisão do governo Obama de mandar a empresa Ralls engavetar o projeto de uma planta de energia eólica, porque os equipamentos são fornecidos pela chinesa Sany. Ou a decisão do Comitê de Inteligência da Câmara americana de colocar na lista negra as empresas Huawei e ZTE.
Nos bons tempos em que só o discurso liberal ditava os rumos, ninguém se referia ao fato de que os EUA têm, desde 1975, um Comitê de Aprovação de Investimentos, cuja justificativa é de segurança, mas cujo mandato é mais genérico: monitorar o impacto de investimentos estrangeiros, inclusive os de portfólio, ou seja, puramente financeiros.
É a crise, dizem muitos. Ou o quadro político, argumentam outros.
O Tesouro americano, a quem sempre cabe posições puristas, saiu dizendo que a decisão do comitê sobre a Ralls foi extraordinária.
Mas se decisões dessa natureza, tomadas por quem sempre deu a direção, têm como pano de fundo a realidade eleitoral americana, política interna, retaliação, protecionismo, vão-se os rumos para a economia internacional, ficam apenas as circunstâncias.
Assim, tudo terá que ser repensado, inclusive, e principalmente, o papel de instituições multilaterais como a OMC. O mundo terá, em última análise, que tratar da adoção de um novo baralho, comum a todos.
E como isso é impossível num momento de crise, não há alternativa senão aprender a jogar com quem tem os coringas.
É como se no grande jogo dos negócios entrasse um participante com baralho próprio e cheio de coringas
O ingresso da China na OMC, há dez anos, não produziu apenas o efeito de amarrar os chineses às regras vigentes. O mundo também teve que se adaptar a eles.
É mais ou menos como se houvesse chegado ao grande jogo dos negócios e dos entendimentos econômicos internacionais um novo participante, que, mesmo aderindo às regras, jogasse com um baralho próprio e cheio de coringas, podendo sempre arrear uma canastra.
Parte dos coringas, há que se registrar, vem de uma realidade concreta. A China fez o dever de casa em matéria de infraestrutura.
Além disso, dispondo de muita poupança, pôde facilmente ampliar a produção para exportar e, posteriormente, financiar investimentos de suas empresas no exterior.
Parte tem contornos menos visíveis. Está nas práticas chinesas de negociação, que envolvem uma relação não evidente entre os interesses público e privado, muito tempo utilizado em conversas, grandes interrogações quanto a quando e como se vai fechar um entendimento.
Empresários brasileiros confessam frequentemente ser levados à loucura pelos chineses.
Nada disso é de surpreender. Os asiáticos operam mesmo numa moldura intelectual e reflexiva diferente da nossa. E os chineses tenderão mais a se aproximar das práticas ocidentais do que os ocidentais das práticas chinesas. É impossível para nós ser como eles.
O que mais chama atenção na atual realidade, no entanto, não é a China. É que os valores ocidentais estão mudando. As ideias de livre comércio, livre fluxo de investimentos, baixa interferência do Estado na economia real estão pouco a pouco ganhando novos contornos.
É no contexto desses novos contornos que se insere a decisão do governo Obama de mandar a empresa Ralls engavetar o projeto de uma planta de energia eólica, porque os equipamentos são fornecidos pela chinesa Sany. Ou a decisão do Comitê de Inteligência da Câmara americana de colocar na lista negra as empresas Huawei e ZTE.
Nos bons tempos em que só o discurso liberal ditava os rumos, ninguém se referia ao fato de que os EUA têm, desde 1975, um Comitê de Aprovação de Investimentos, cuja justificativa é de segurança, mas cujo mandato é mais genérico: monitorar o impacto de investimentos estrangeiros, inclusive os de portfólio, ou seja, puramente financeiros.
É a crise, dizem muitos. Ou o quadro político, argumentam outros.
O Tesouro americano, a quem sempre cabe posições puristas, saiu dizendo que a decisão do comitê sobre a Ralls foi extraordinária.
Mas se decisões dessa natureza, tomadas por quem sempre deu a direção, têm como pano de fundo a realidade eleitoral americana, política interna, retaliação, protecionismo, vão-se os rumos para a economia internacional, ficam apenas as circunstâncias.
Assim, tudo terá que ser repensado, inclusive, e principalmente, o papel de instituições multilaterais como a OMC. O mundo terá, em última análise, que tratar da adoção de um novo baralho, comum a todos.
E como isso é impossível num momento de crise, não há alternativa senão aprender a jogar com quem tem os coringas.
O fascínio por Obama - GILLES LAPOUGE
O Estado de S.Paulo - 03\11
Se os europeus tivessem de escolher hoje o presidente americano, Barack Obama ganharia com 75% dos votos, e Mitt Romney se contentaria com 8%. França e Alemanha seriam as primeiras. Elas conferem ampla maioria ao presidente. Para elas, Obama receberia 90% dos votos. Estes resultados são surpreendentes. De fato, estes mesmos europeus decepcionaram-se com Obama, aliás, como todo mundo. Em 2009, a Europa foi invadida por uma onda que poderíamos definir como um fervor, ou uma histeria coletiva. O mundo seria salvo por este presidente, negro, bem apessoado, dançante, eloquente. Obama era um homem "inspirado".
Evidentemente, ele não manteve suas promessas. As expectativas eram tão exageradas, tão desmedidas que só poderiam se frustrar. Entretanto, apesar deste desencanto, Obama continua fascinando os europeus. Houve, a bem da verdade, uma certa atração por Romney, no início da campanha eleitoral, quando ficou claro que ele não era o imbecil total que nos haviam injustamente pintado. Mas isso não importa: Obama continua o preferido.
Contudo, em quatro anos, passamos da ilusão lírica à racionalidade. A campanha eleitoral americana é julgada de maneira muito severa na Europa. Não apenas por causa dos rios de dólares que a ofuscam. Mas principalmente porque ela chega a constituir uma caricatura do caráter americano que é o oposto de todas as idiossincrasias europeias.
Resumindo, grosso modo, podemos dizer: a Europa passa o tempo se lamentando, anunciando desastres, se denegrindo, chorando, esperando catástrofes, enquanto os EUA são otimistas por natureza.
Nem Obama nem Romney insistiram nos "fracassos" americanos. E, no entanto, estes fracassos são numerosos: no que se refere à pobreza infantil, os EUA estão no 34.º lugar entre os grandes países, logo à frente da ... Romênia. Quanto à mortalidade infantil, estão em 49.º.
O número de presos é mais elevado do que na China, na Rússia, no Irã ou em Cuba, como revela o jornal The New York Times. São campeões do mundo em obesidade. E o pior: não se destacam pela frequência das relações sexuais, aliás estão em 24.º lugar, ao lado da Nigéria.
Mas, desde o seu nascimento, os EUA jamais primaram pela autocrítica. Eles são os melhores, e ponto final. E o mundo é lindo. Por que Jimmy Carter foi esmagado por Ronald Reagan? Carter tinha os pés no chão, era pessimista, falava de uma crise de confiança. Reagan era a encarnação do otimismo. Ele via os EUA galopando à frente dos povos do mundo, carregado pelos ventos do triunfo e da glória, sob o olhar de um Deus tão feliz quanto ele. E Reagan tinha razão: graças a seu otimismo insano, foi um presidente excelente.
Os europeus ficam igualmente impressionados pela incapacidade dos americanos de se questionarem. Os EUA têm razão e basta. Eles seguem o caminho dos justos. Jamais do mea culpa. É o caso do furacão Sandy.
Indubitavelmente, Nova York deu ao mundo um espetáculo de profissionalismo, de sangue frio, de dedicação, resistência e coragem admiráveis.
Por outro lado, até o momento, nenhuma voz americana perguntou sobre os perigos mortíferos que estes constantes tornados revelam, nos EUA e no mundo inteiro. Mas os excessos do clima, a fúria das águas e do céu não seriam um sintoma do aquecimento global que os EUA - e Romney tanto quanto Obama - ignoram friamente, ao mesmo tempo em que são o segundo país do mundo que mais polui, depois da China e nos próximos 50 anos estas desordens do céu constituirão, sem dúvida, um dos mais graves perigos do planeta? / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Juventude, em si, não produz ideias novas”
Ex-presidente FHC defendendo a renovação do discurso do PSDB
INTERNET: CLIENTE NÃO TEM VEZ CONTRA OPERADORAS
Tanto na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) quanto no Ministério das Comunicações (MC) engolem seco e não respondem, ao serem indagados pela coluna por que permitem que as empresas de telefonia entreguem 10% ou 20% da velocidade de conexão à internet que vende, e não permite que o consumidor, na mesma medida, pague apenas pelos serviços efetivamente recebidos, em idêntica proporção.
MEDIÇÃO INÚTIL
O Ministério das Comunicações diz que o consumidor poderá medir a qualidade do serviço de internet. Mas ainda pagará o que não recebe.
ESTELIONATO?
Ao vender um pacote de mega bits, “não significa que a empresa tenha a obrigação de entregar esta velocidade o tempo todo”, diz o MC.
ASSIM, Ó
São conhecidas as relações especiais da Anatel com as empresas do setor. Já suas relações com o consumidor são quase inexistentes.
PROPAGANDA ENGANOSA
A Claro jura, na propaganda, que oferece “a conexão mais rápida” à internet. Na prática, sua velocidade de conexão é de irritar tartarugas.
STJ DÁ RAZÃO A PESCADORES CONTRA A PETROBRAS
Após mais de dez anos e inúmeros recursos da Petrobras na Justiça, parece ter chegado ao fim a briga de pescadores artesanais que tiram seu sustento das baías de Antonina e Paranaguá, no Paraná. O Superior Tribunal de Justiça reconheceu que os pescadores têm direito a indenização por causa do rompimento de um duto da estatal na Serra do Mar, em fevereiro de 2001, que impediu a pesca ali por seis meses.
PT SE CUIDE
O senador Armando Monteiro (PTB-PE) não se importa de bajular o governador Eduardo Campos: “Ele provou que não é subalterno”.
MALDADE
Adversários da indicação de Luiz Adams (AGU) ao Supremo espalham na internet que no seu currículo não consta nem curso de mestrado.
CERTEZA E DÚVIDAS
Cássio Cunha Lima é fortíssimo candidato ao governo da Paraíba, em 2014, mas o PSDB tem dúvidas jurídicas se ele poderá se candidatar.
MAMMA MIA!
Os italianos estão horrorizados com os 10,8% de desemprego no país. Quase empatamos: o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) cravou 10,9% em sete capitais do Brasil.
CULPA DELE
Em conversas reservadas, a presidente Dilma põe na conta do senador Eduardo Braga (PMDB-AM) a “fria” de ir a Manaus para um comício de Vanessa Graziotin (PCdoB), candidata derrotada à prefeitura local.
BOA IDEIA
O deputado Fernando Francischini (PEN-PR) quer emplacar um projeto que obriga a indústria a colocar um chip nas armas de fogo. “Vai ter a vida inteira da arma: onde foi fabricada, para quem foi destinada (...)”.
VACAS RAQUÍTICAS
Preterido pelo PT na disputa em Recife, o deputado João Paulo afirma que o partido está pagando pelos seus pecados com a vitória do PSB de Eduardo Campos: “Foram muitos erros. Agora, vai ficar difícil”.
CHEIRANDO MAL
O cocaleiro Evo Morales nomeou o ator Sean Penn embaixador para a “descriminalização” do consumo da folha de coca, matéria-prima da cocaína. Não informou se pagará pelo trabalho em mercadoria.
DE PERTO
O deputado Alessandro Molon (PT-RJ) vai sugerir à comissão externa da Câmara visita à zona de conflito onde estão índios Guarani-Kaiowá, em Mato Grosso do Sul. Eles se recusam a desocupar fazenda.
PROVOCAÇÃO
O governador Agnelo Queiroz irritou o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) ao escrever seu nome errado (“Cristovão”) no documento indicando Abdon Araújo como presidente do BRB. Eles não se bicam.
FRITURA
A Alimentação Perfeita, maior fornecedora de “quentinhas” de Pernambuco e alvo de ação na Justiça por suposta fraude na venda de sua sede, estaria funcionando sem
licença em Recife há doze anos.
JÁ ERA
Com 92% de rejeição e afastada por suposta fraude na Saúde, a prefeita Micarla de Souza (PV) ganhou apelido em Natal: “KiCarla?”.
PODER SEM PUDOR
INÉPCIA EVIDENTE
Certa vez o deputado Luiz Viana Neto começou a discursar na Câmara:
- Filho e neto de governadores da Bahia...
- Não apoiado! - interrompeu Francisco Studart, seu adversário.
- Filho e neto de governadores da Bahia... - continuou.
- Não apoiado! - interrompeu novamente o oposicionista Studart.
- Mas, deputado, eu sou mesmo filho e neto de governadores...
Studart corrigiu, arrancando gargalhadas no plenário:
- Perdão, excelência. Entendi mal: "filho inepto de governadores"...
Ex-presidente FHC defendendo a renovação do discurso do PSDB
INTERNET: CLIENTE NÃO TEM VEZ CONTRA OPERADORAS
Tanto na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) quanto no Ministério das Comunicações (MC) engolem seco e não respondem, ao serem indagados pela coluna por que permitem que as empresas de telefonia entreguem 10% ou 20% da velocidade de conexão à internet que vende, e não permite que o consumidor, na mesma medida, pague apenas pelos serviços efetivamente recebidos, em idêntica proporção.
MEDIÇÃO INÚTIL
O Ministério das Comunicações diz que o consumidor poderá medir a qualidade do serviço de internet. Mas ainda pagará o que não recebe.
ESTELIONATO?
Ao vender um pacote de mega bits, “não significa que a empresa tenha a obrigação de entregar esta velocidade o tempo todo”, diz o MC.
ASSIM, Ó
São conhecidas as relações especiais da Anatel com as empresas do setor. Já suas relações com o consumidor são quase inexistentes.
PROPAGANDA ENGANOSA
A Claro jura, na propaganda, que oferece “a conexão mais rápida” à internet. Na prática, sua velocidade de conexão é de irritar tartarugas.
STJ DÁ RAZÃO A PESCADORES CONTRA A PETROBRAS
Após mais de dez anos e inúmeros recursos da Petrobras na Justiça, parece ter chegado ao fim a briga de pescadores artesanais que tiram seu sustento das baías de Antonina e Paranaguá, no Paraná. O Superior Tribunal de Justiça reconheceu que os pescadores têm direito a indenização por causa do rompimento de um duto da estatal na Serra do Mar, em fevereiro de 2001, que impediu a pesca ali por seis meses.
PT SE CUIDE
O senador Armando Monteiro (PTB-PE) não se importa de bajular o governador Eduardo Campos: “Ele provou que não é subalterno”.
MALDADE
Adversários da indicação de Luiz Adams (AGU) ao Supremo espalham na internet que no seu currículo não consta nem curso de mestrado.
CERTEZA E DÚVIDAS
Cássio Cunha Lima é fortíssimo candidato ao governo da Paraíba, em 2014, mas o PSDB tem dúvidas jurídicas se ele poderá se candidatar.
MAMMA MIA!
Os italianos estão horrorizados com os 10,8% de desemprego no país. Quase empatamos: o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) cravou 10,9% em sete capitais do Brasil.
CULPA DELE
Em conversas reservadas, a presidente Dilma põe na conta do senador Eduardo Braga (PMDB-AM) a “fria” de ir a Manaus para um comício de Vanessa Graziotin (PCdoB), candidata derrotada à prefeitura local.
BOA IDEIA
O deputado Fernando Francischini (PEN-PR) quer emplacar um projeto que obriga a indústria a colocar um chip nas armas de fogo. “Vai ter a vida inteira da arma: onde foi fabricada, para quem foi destinada (...)”.
VACAS RAQUÍTICAS
Preterido pelo PT na disputa em Recife, o deputado João Paulo afirma que o partido está pagando pelos seus pecados com a vitória do PSB de Eduardo Campos: “Foram muitos erros. Agora, vai ficar difícil”.
CHEIRANDO MAL
O cocaleiro Evo Morales nomeou o ator Sean Penn embaixador para a “descriminalização” do consumo da folha de coca, matéria-prima da cocaína. Não informou se pagará pelo trabalho em mercadoria.
DE PERTO
O deputado Alessandro Molon (PT-RJ) vai sugerir à comissão externa da Câmara visita à zona de conflito onde estão índios Guarani-Kaiowá, em Mato Grosso do Sul. Eles se recusam a desocupar fazenda.
PROVOCAÇÃO
O governador Agnelo Queiroz irritou o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) ao escrever seu nome errado (“Cristovão”) no documento indicando Abdon Araújo como presidente do BRB. Eles não se bicam.
FRITURA
A Alimentação Perfeita, maior fornecedora de “quentinhas” de Pernambuco e alvo de ação na Justiça por suposta fraude na venda de sua sede, estaria funcionando sem
licença em Recife há doze anos.
JÁ ERA
Com 92% de rejeição e afastada por suposta fraude na Saúde, a prefeita Micarla de Souza (PV) ganhou apelido em Natal: “KiCarla?”.
PODER SEM PUDOR
INÉPCIA EVIDENTE
Certa vez o deputado Luiz Viana Neto começou a discursar na Câmara:
- Filho e neto de governadores da Bahia...
- Não apoiado! - interrompeu Francisco Studart, seu adversário.
- Filho e neto de governadores da Bahia... - continuou.
- Não apoiado! - interrompeu novamente o oposicionista Studart.
- Mas, deputado, eu sou mesmo filho e neto de governadores...
Studart corrigiu, arrancando gargalhadas no plenário:
- Perdão, excelência. Entendi mal: "filho inepto de governadores"...
SÁBADO NOS JORNAIS
- Globo: Crime Organizado – SP vai ampliar ocuparão de áreas violentas
- Folha: Ministros do STF falam em proteção a Marcos Valério
- Estadão: Valério disse que mandou dinheiro para Santo André
- Correio: Órfãos do apagão amargam prejuízo
- Estado de Minas: Ficou tudo para depois
- Jornal do Commercio: Chegou a hora do Enem
- Zero Hora: Mistério envolve morte de militar
sexta-feira, novembro 02, 2012
CAPA DA REVISTA VEJA
O que Valério contou ao MP, e o que ainda resta contar
Reportagem de VEJA desta semana mostra que o operador financeiro do mensalão já começou a falar o que sabe ao Ministério Público. Ele tratou do caso Celso Daniel e avisou que há mais o que contar
Em setembro, VEJA trouxe à tona alguns dos segredos guardados por Marcos Valério, operador financeiro do mensalão. Entre eles, a informação de que o ex-presidente Lula teve papel de protagonista no esquema. Pouco depois, o empresário informou o STF, por meio de um fax, que estava disposto a contar o que sabe. Ele também foi ouvido pelo Ministério Público. Reportagem da revista que chega às bancas nesta sexta-feira revela o que Valério disse ao MP, na tentativa de obter um acordo de delação premiada – um instrumento pelo qual o envolvido em um crime presta informações sobre ele, em troca de benefícios. À procuradoria o empresário informou, pela primeira vez, ter detalhes sobre outro caso escabroso envolvendo o PT: o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, em janeiro de 2002.
O relato do publicitário é de que Lula e seu braço-direito Gilberto Carvalho (atual secretário-geral da Presidência) estavam sendo extorquidos por figuras ligadas ao crime de Santo André – em especial, o empresário Ronan Maria Pinto, apontado pelo Ministério Público como integrante de um esquema de cobrança de propina na prefeitura. Procurado pelos petistas para dar aos achacadores o dinheiro que eles buscavam, Valério recusou: "Nisso aí, eu não me meto", disse ele em um encontro com Sílvio Pereira, então secretário-geral do PT, e Ronan. Quem relata é o próprio publicitário.
Reforma tributária - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 02\11
Encontro marcado
O primeiro encontro de Dilma com o pernambucano Eduardo Campos, depois das eleições, será sexta-feira que vem, na Bahia, durante a participação da presidente na reunião de governadores da Sudene.
De volta para casa
O carioca FH comprou um apartamento em São Conrado, no Rio.
Nova parada
Rodrigo Bethlem será secretário de Governo de Eduardo Paes.
Corredor do Fórum
A desembargadora Nanci Mahfuz, da 12ª Câmara Cível do Rio, condenou o cidadão J. A. P. a indenizar em R$ 45.860,25 a ex-noiva e o ex-sogro. É que, segundo pai e filha, o danadinho apareceu para a cerimônia de casamento... bebum e agressivo, “chegando a constranger os convidados”. Mais tarde, já na festa, “as difamações continuaram” e se estenderam à própria noiva, coitada, ao sogro e a outros integrantes da família.
Novos tempos
As Casas Bahia, depois da Rocinha, vão abrir uma filial no Morro do Alemão, no Rio.
Aproveitadores
Tem taxista de Nova York cobrando US$ 200 por uma corrida de Manhattan até o aeroporto de Nova Jersey. Normalmente, o trajeto sai por uns US$ 45.
Deve ser terrível... você sabe.
A MULTIPLICAÇÃO DO VERDE
A Secretaria estadual do Ambiente ampliou a área do Parque Estadual da Serra da Tiririca, em Niterói. Incorporou a Reserva Municipal Darcy Ribeiro e três ilhas. Segundo o secretário Carlos Minc, 20 guardas vão trabalhar na segurança do parque, que receberá R$ 1,5 milhão para estruturar o Caminho Darwin (o naturalista inglês passou por ali em 1832), o Centro de Visitantes e incrementar o ecoturismo: “Será o primeiro parque a ter serviços concedidos para arborismo e um restaurante panorâmico”, conta Minc.
A Espanha e a seca
O governador Eduardo Campos trocou de mal com a espanhola Celpe. Acusa a empresa de ser responsável pela demora da abertura da Adutora do Pajeú, que vai levar água ao sertão pernambucano:
— A Celpe não faz nada para pobre. É uma empresa privada que lucrou mais de R$ 400 milhões ano passado. Uma banda do dinheiro foi para a Espanha, para ajudar o país em crise.
Cine Dilma
Segunda agora, vai haver uma sessão especial do filme “Gonzaga, de pai pra filho”, de Breno Silveira, no cineminha do Palácio do Planalto. Estarão presentes, para uma palestra antes da sessão, o diretor, a produtora Eliana Soares e Chambinho do Acordeon, o protagonista, que dará uma canja na sanfona.
Miúdas na TV Globo
A TV Globo vai transmitir os desfiles do Grupo de Acesso do Rio em 2013, na sexta e no sábado de carnaval. Os coleguinhas Alex Escobar, do “Globo Esporte”, e Mariana Gross, do “Bom Dia, Rio”, serão os apresentadores. Até aqui, a emissora só exibia os desfiles das escolas do Grupo Especial.
Aldo é ‘porco’
Aldo Rebelo, ministro do Esporte, aproveitou uma visita oficial à Argentina, para, digamos, estreitar seus laços futebolísticos com “los hermanos”. Deu de presente à ministra do Desenvolvimento Social de lá, Alicia Kirchner, e ao reitor da Universidade de La Plata, Fernando Tauber, camisas do argentino Barcos, que joga no Palmeiras e também na seleção argentina. É que Aldo é palmeirense roxo.
Paes 2017
No lançamento da coleção do “Cadernos de samba”, quarta, no Rio, o historiador Luiz Antônio Simas, que escreveu livro sobre a Portela, provocou Eduardo Paes, o prefeito portelense, que aguardava uma dedicatória:
—Mexeram no samba, prefeito! Pô...
No que Paes devolveu:
— Já disse: quando eu sair da prefeitura, vou virar presidente da Portela. Não vai ter isso...
Aliás...
Corre na Rádio Samba que o próximo presidente da escola será... o sargento PM Marcos Vieira de Souza, o Falcon, aquele que chegou a ser acusado de chefiar uma milícia.
Melhor assim
Sobre a foto publicada aqui ontem, mostrando o perigo para quem espera ônibus no ponto em frente ao prédio abandonado do antigo Iapetec, na Avenida Venezuela, no Centro do Rio (as janelas, com vidros afiados, podem cair a qualquer momento), a prefeitura, viva!, isolou o local. Além disso, o novo secretário de Transportes, Carlos Osório, prometeu, para a semana que vem, tirar os pontos de ônibus dali. Vamos torcer, vamos cobrar.
LINDEZA EM FORMA DE ATRIZ
Juliana Alves, 30 anos, a ex-big boa, perdão, a ex-big brother que hoje brilha como atriz nas novelas da TV Globo, enfeita, com seu sorriso, o pré-lançamento da edição especial sobre o Rio da revista “Vogue Brasil”, em Ipanema. Sorri pra eu
DO LADO ESQUERDO DO PEITO
Caetano Veloso, o grande compositor e cantor, dá um abraço fraterno no amigo Milton Nascimento, um dos ícones da nossa música, que completou 70 anos no dia 26
Ponto Final
Neste Dia de Finados, veja um sintoma da crise econômica em Portugal. Quem chamou a atenção foi o escritor e humorista da terrinha Rui Zink, que pôs no Facebook a foto acima, que mostra a manchete de um jornal de lá.
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