quarta-feira, setembro 19, 2012
Razões do abandono - ROSÂNGELA BITTAR
VALOR ECONÔMICO - 19/09
Uma das explicações para a queda de José Serra na preferência do eleitorado, passando ao segundo depois de ostentar meses um primeiro lugar na disputa da prefeitura de São Paulo, é o aumento cumulativo da rejeição ao político sobre o qual não pesam denúncias de corrupção ou críticas de incompetência em nenhum dos cargos que já exerceu. A rejeição, porém, é crescente, embora não o tenha impedido de vencer disputas e eleger-se prefeito, governador, deputado e senador. Analistas têm se debruçado sobre a questão e, recentemente, registraram que a rejeição a Serra ocorre sob várias razões, entre elas uma que, em março, estava sendo apresentada como sinal de vitalidade e modernização do PSDB: as eleições primárias para escolha do candidato do partido a prefeito da maior cidade do país.
À época, Serra decidiu candidatar-se à última hora e, embora dois candidatos tenham cedido seu lugar a ele, outros permaneceram na disputa, sendo que um deles, o ex-deputado e secretário José Aníbal, estabeleceu uma luta renhida, lastreada em inimizade anterior, que lhe tirou condições, inclusive, de unir-se ao vencedor ao fim do processo.
Nas avaliações mais distanciadas da refrega da campanha eleitoral foi exatamente esta novidade, as prévias, que teriam piorado a situação de Serra porque entregaram todo o ouro aos bandidos. Ou seja, tantas e tamanhas foram as críticas internas, destrutivas, que os adversários não tiveram sequer o trabalho de preparar o enfrentamento, ele já veio pronto para usar. E, ao contrário do que ocorre em outras democracias avançadas, com sistema partidário sólido, a campanha prévia, em São Paulo, impossibilitou a união de todas as forças em torno do candidato internamente vitorioso.
Em sistema eleitoral imperfeito, as prévias são risco
O exemplo mais recente dos Estados Unidos, onde a preferência do partido Democrata foi disputada por Barack Obama e Hillary Clinton, estabelece a distância que o Brasil ainda mantém de um sistema político organizado em partidos fortes. Depois de uma disputa radical mas realizada dentro de determinados limites, inclusive de civilidade, o presidente Obama teve condições de convidar a oponente Hillary a integrar seu governo como principal ministra.
Bem, aqui não se aceita derrota, principalmente quando os contendores são do mesmo partido. Os insatisfeitos saem e criam outra agremiação ou ficam de fora minando o vitorioso. Quem tinha alguma experiência em prévias, como o PT, abandonou o projeto quando resolveu que a melhor política era submeter-se à vontade de um cacique, Luiz Inácio Lula da Silva. Pode ter sido uma boa ideia pois, mesmo sem prévias, a candidata que o ex-presidente preteriu, Marta Suplicy, assinou, inclusive, atestado de derrota do escolhido, Fernando Haddad: assegurou que ele não venceria as eleições.
Impensável essa falta de limite e inviabilização da união partidária nos países onde o exercício do poder é coisa séria e os partidos são instituições fortes. Os ataques não transpõem a linha do bom senso para permitir a união depois. Aqui, já se criou a sub-legenda, instituiu-se a figura do inimigo municiador da campanha adversária, e um lutador interno à espreita na sala ao lado. Por este prisma, pode-se concordar que a experiência de prévias do PSDB não deu certo.
Mas o peso das prévias no aumento da rejeição não é uma conclusão consensual. Políticos que foram indiferentes a ela também lhe tiram agora o atributo de ter provocado, com a exposição dos defeitos do candidato, a queda nas pesquisas. Reconhece-se, nesse grupo de pensamento, que a prévia do PSDB em São Paulo provocou certo desgaste, mas não absoluto. Mais que a disputa primária, nesta corrente atribui-se o pior efeito a um certo esgotamento da admiração pelo PSDB, devido ao tempo no poder. Teria sido, também, a impaciência do eleitorado com a disputa PSDB e PT, que em São Paulo tangencia a questão político-partidária para centrar-se na radicalização que beira o ódio. Há, também, o problema grave da histórica rejeição ao Serra, que vem se acumulando reforçada pela rejeição ao Gilberto Kassab. Uma ojeriza ao prefeito que vem comprovar, também, a impaciência do eleitorado com a prática política tradicional. Debates sobre dados revelaram que a rejeição ao prefeito se deve menos à sua atuação na administração da cidade do que à dedicação à criação de novo partido, o PSD.
E, com todas essas razões de rejeição, o político em causa ainda tem chances de ir ao segundo turno, que é uma outra eleição, como teve de lograr êxito nas disputas anteriores para cargos de prefeito, governador e senador. Por que? Pela rejeição aos demais, dizem os analistas, além dos que, diante das opções, preferem seguir com aquele que rejeitavam.
Mesmo sem terem um peso absoluto no desgaste, as prévias, com o sistema eleitoral brasileiro, são um risco para os partidos.
Ex-deputado, agora consultor político em São Paulo, Arnaldo Madeira avalia que o Brasil continua a ter no seu sistema eleitoral um problema sério. A prévia exige uma estrutura partidária mais forte do que é a brasileira. Sendo um dos melhores quadros do PSDB à época em que exercia mandato, Madeira diz que o partido precisa se renovar, encontrar um discurso e não se sabe se terá capacidade e competência para fazer isso. Tudo isso impacta o quadro partidário. "Há uma dinâmica na sociedade brasileira, hoje, muito forte. O processo de renovação na área empresarial, na classe média, é muito forte e os políticos não estão conseguindo acompanhar o que está acontecendo".
O exemplo mais uma vez é o dos Estados Unidos, exatamente o discurso de Bill Clinton na convenção do partido Democrata há poucos dias. Do gestual ao conteúdo, da cena à empostação, tudo impressionou. O Brasil de hoje é um deserto de figuras e ideias políticas expressivas. Quem está no comando, hoje, era baixo clero há uma década. E não se habilita a enfrentar a questão do sistema eleitoral. Um lamento cíclico que ecoa a cada dois anos.
MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO
FOLHA DE SP - 19/09
Aeroportos regionais de SP revertem prejuízo
Os 31 aeroportos regionais de São Paulo administrados pelo Daesp (departamento aeroviário do Estado) reverteram seus resultados dos últimos anos entre janeiro e julho, segundo o órgão.
O balanço dos primeiros sete meses do ano fechou com R$ 2 milhões de lucro, ante R$ 6,5 milhões negativos no mesmo período de 2011. Em 2010, foram R$ 17,8 milhões, também negativos.
Até julho deste ano, a receita ficou em cerca de R$ 27 milhões, enquanto as despesas foram de R$ 25 milhões.
Receitas de aeroportos abrangem, entre outros, as tarifas de pouso e permanência das aeronaves e as tarifas comerciais, como a concessão de áreas para construção de hangares e lojas.
As despesas correspondem a contratos de prestação de serviços e outros.
O desempenho se deve à elevação do tráfego, segundo Ricardo Volpi, superintendente do Daesp.
A movimentação de passageiros subiu quase 70% entre janeiro e agosto de 2010 e igual período deste ano.
"O outro fator importante foi o aumento dos investimentos. O Estado investiu R$ 60 milhões em 2011. Em 2012 serão R$ 70 milhões. A média histórica é bem inferior", diz.
Além da elevação do tráfego, a relevância das receitas comerciais, como o aluguel de hangares, deve ser observada, segundo Jorge Eduardo Leal Medeiros, professor da Poli-USP.
"Os aeroportos estão ficando mais maduros para concessões", afirma.
QUARTO E COZINHA
Fonte de 20% do faturamento de R$ 600 milhões da Atlantica Hotels, os restaurantes da empresa passarão por um processo de reformulação. Seis marcas estão sendo desenvolvidas para eles.
Cerca de 80% dos restaurantes dos hotéis da companhia receberão uma das marcas nos próximos oito anos.
A Atlantica também irá aumentar sua atuação direta no segmento. Responsável hoje por 43% das unidades instaladas em seus hotéis, ela pretende elevar esse número para 55%.
"Com esse projeto, queremos aumentar a fidelidade do cliente", diz Christian Mansfeld, diretor da empresa.
A administradora está com contratos fechados para fazer a gestão de mais 48 hotéis. "São R$ 1,7 bilhão em investimentos", afirma Paul Sistare, presidente da empresa que atua em 77 hotéis com 11 bandeiras.
SUS...
A convite do Conselho das Américas, o ministro Alexandre Padilha vai apresentar em Washington (EUA) o Sistema Único de Saúde (SUS) e o desenvolvimento de parcerias público-privadas na área para autoridades e CEOs de grandes empresas americanas de diferentes setores.
...para americanos
O ministro mostrará que tem grande interesse em atrair investimentos para a produção no Brasil de medicamentos, equipamentos e tratamentos. O mercado de saúde brasileiro movimenta 8,4% do PIB e movimenta em torno de R$ 20 bilhões por ano.
LIGADO
A empresa de call center AeC vai abrir mais uma unidade na Paraíba ainda neste ano.
Com a nova filial, em Campina Grande, a empresa pretende superar 5.000 funcionários no Estado, onde terão sido investidos cerca de R$ 30 milhões em recursos próprios neste ano, segundo Cássio Rocha de Azevedo, sócio da empresa.
Cerca de 2.600 empregos já foram criados.
"Em uma região onde há carência de emprego, o impacto é forte, principalmente entre os jovens, que, em geral, não estão dispostos a poupar. Isso vai se tornar consumo na região", diz.
Outros três pontos no Nordeste estão sendo estudados para a abertura de novas unidades com proporções semelhantes até março.
BANQUEIRO INDIFERENTE
A opinião pública e as críticas dos investidores não influenciam muito a remuneração dos executivos do setor financeiro mesmo após a crise de 2008.
Pesquisa da EIU (Economist Intelligence Unit) mostra que 43% dos profissionais entrevistados acreditam que o impacto desses fatores externos sobre sua remuneração chegou inclusive a diminuir nos últimos anos. Apenas 29% deles disseram que a influência aumentou.
O mesmo acontece em relação ao apetite por risco das empresas. Quase 40% dos ouvidos afirmaram que a influência diminuiu.
Negócio...
A Pretorian, fornecedora de equipamentos para lutas, fechou contrato com o UFC para patrocínio de 19 eventos de MMA (artes marciais mistas, na sigla em inglês) até o final de 2013.
...no tatame
O acordo é válido para torneios realizados nos Estados Unidos, Europa e Ásia. A brasileira será a primeira empresa do país a exibir sua logomarca nos octógonos da competição.
Debate
O ministro Gilmar Mendes, do STF, será um dos debatedores de um evento realizado na USP nos dias 24 e 25 deste mês para discutir novas tecnologias e seus reflexos nos negócios e no direito.
Petróleo atrairá mais investimentos para o país - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 19/09
A racionalidade, enfim, prevaleceu, e o governo autorizou a Agência Nacional do Petróleo (ANP) a marcar para o ano que vem (maio e dezembro) novas rodadas de licitação para exploração e produção de petróleo. A rodada de maio deverá envolver mais de uma centena de blocos em bacias terrestres e marítimas que não estejam na área de descobertas na camada do pré-sal. Mas, como serão blocos em bacias de "nova fronteira", certamente despertarão interesse de várias empresas e consórcios. Especialistas chegam a prever que, em função da disputa, o Tesouro Nacional poderá arrecadar, apenas em bônus de assinatura, mais de US$ 1 bilhão - independentemente dos investimentos que se concretizarão a seguir.
Em relação à licitação que, em princípio, está programada para o fim de 2013, o governo condiciona a concretização da rodada à aprovação, pelo Congresso, do conjunto de leis que envolvem o marco regulatório específico para a camada do pré-sal, sob regime de partilha, em vez de concessão. Grande parte dessa legislação já foi aprovada e sancionada, mas há um embate envolvendo o pagamento de royalties sobre a produção desses blocos, e as autoridades alegam que, sem uma solução para o problema, pendências jurídicas poderiam comprometer o resultado da licitação. Espera-se, então, que o governo se empenhe para obter um acordo que concilie os interesses de estados produtores e não produtores.
De qualquer forma, o anúncio da retomada das rodadas poderá reanimar a indústria do petróleo, que começava a mudar seu radar para outras direções. Há cinco anos, o Brasil chegou a ser o centro das atenções do setor em função das descobertas na camada do pré-sal, mas o país foi perdendo oportunidades de atrair mais investimentos que tanta falta fazem hoje para impulsionar a economia.
Perdeu-se um tempo precioso na ilusão que a Petrobras poderia bancar todas as inversões de capital necessárias para o alcance das almejadas metas de produção. O que aconteceu foi uma estagnação exatamente porque a estatal não teve condições, gerenciais e financeiras, para levar adiante todos os seus projetos, simultaneamente, com eficiência. A Bacia de Campos não recebeu o merecido tratamento e a produção dos blocos mais antigos entrou em declínio numa rapidez preocupante.
A Petrobras pode recuperar a produção, desde que o governo pare de usá-la apenas como instrumento para executar suas políticas e a trate como uma empresa importante, com acionistas privados, que não pode ignorar a concorrência. Há uma considerável zona de convergência entre os objetivos da Petrobras como empresa e as iniciativas para que a demanda por bens e serviços da indústria do petróleo seja aproveitada por companhias já existentes ou que venham a se instalar no Brasil. O critério dessa zona de convergência deve ser o da racionalidade econômica.
Em relação à licitação que, em princípio, está programada para o fim de 2013, o governo condiciona a concretização da rodada à aprovação, pelo Congresso, do conjunto de leis que envolvem o marco regulatório específico para a camada do pré-sal, sob regime de partilha, em vez de concessão. Grande parte dessa legislação já foi aprovada e sancionada, mas há um embate envolvendo o pagamento de royalties sobre a produção desses blocos, e as autoridades alegam que, sem uma solução para o problema, pendências jurídicas poderiam comprometer o resultado da licitação. Espera-se, então, que o governo se empenhe para obter um acordo que concilie os interesses de estados produtores e não produtores.
De qualquer forma, o anúncio da retomada das rodadas poderá reanimar a indústria do petróleo, que começava a mudar seu radar para outras direções. Há cinco anos, o Brasil chegou a ser o centro das atenções do setor em função das descobertas na camada do pré-sal, mas o país foi perdendo oportunidades de atrair mais investimentos que tanta falta fazem hoje para impulsionar a economia.
Perdeu-se um tempo precioso na ilusão que a Petrobras poderia bancar todas as inversões de capital necessárias para o alcance das almejadas metas de produção. O que aconteceu foi uma estagnação exatamente porque a estatal não teve condições, gerenciais e financeiras, para levar adiante todos os seus projetos, simultaneamente, com eficiência. A Bacia de Campos não recebeu o merecido tratamento e a produção dos blocos mais antigos entrou em declínio numa rapidez preocupante.
A Petrobras pode recuperar a produção, desde que o governo pare de usá-la apenas como instrumento para executar suas políticas e a trate como uma empresa importante, com acionistas privados, que não pode ignorar a concorrência. Há uma considerável zona de convergência entre os objetivos da Petrobras como empresa e as iniciativas para que a demanda por bens e serviços da indústria do petróleo seja aproveitada por companhias já existentes ou que venham a se instalar no Brasil. O critério dessa zona de convergência deve ser o da racionalidade econômica.
Diminuir para crescer - ROLF KUNTZ
O Estado de S.Paulo - 19/09
A presidente Dilma Rousseff pôs em xeque mais uma parte da "herança bendita", ao autorizar o corte de 35% do pessoal de Furnas, passo necessário para o aumento da eficiência da empresa, segundo seu presidente, Flávio Decat. Oito anos de empreguismo desenfreado e de subordinação de toda a máquina federal aos objetivos políticos - e até pessoais - do presidente Luiz Inácio Lula da Silva causaram danos enormes ao aparelho de Estado. Os estragos impostos à Petrobrás são hoje muito claros. Foram revelados de forma inequívoca pela nova presidente da empresa, Graça Foster. Apesar de seus esforços para amaciar as denúncias e evitar conflitos abertos com a administração anterior, ela disse o necessário para qualificar a experiência dos oito anos anteriores. Metas irrealistas, projetos mal concebidos, desperdício de recursos e preços distorcidos foram algumas das marcas desse período.
O mesmo estilo de administração inflou os quadros de todos os segmentos do setor público federal. Em dezembro de 2010, o pessoal próprio das estatais era formado por 497.020 funcionários, segundo o Ministério do Planejamento. Em 2002, antes do início da gestão petista, havia 369.658. Houve, portanto, aumento de 34,4% nesse período. A expansão foi praticamente a mesma no setor elétrico - 34,6%, de 22.190 para 27.311 registrados. Em Furnas, a variação foi de 3.453 funcionários em 2002 para 4.906 em 2010 - um crescimento de 42,1%, bem superior à média do setor. O quadro atual, segundo informação divulgada na segunda-feira pela empresa, é formado por cerca de 6,4 mil empregados. O objetivo é reduzi-lo a 4,2 mil. A mudança, é importante notar, deve ocorrer sem prejuízo para a empresa. Ao contrário: o objetivo é torná-la mais ágil e mais capaz de competir. A reforma, segundo o presidente da Eletrobrás, José da Costa Carvalho Neto, será estendida às demais empresas do grupo.
Ao anunciar a redução de encargos sobre as contas de eletricidade, na semana passada, a presidente Dilma Rousseff permitiu-se um autoelogio, estendido, naturalmente, a seu padrinho político e antecessor no Palácio do Planalto. A era dos apagões, segundo a presidente, havia ficado para trás, numa referência ao grande blecaute do governo tucano. Não precisaria, para valorizar a redução de encargos, apelar para uma escandalosa inverdade. A história conhecida de todos os brasileiros é bem diferente. O grande apagão da virada do século foi substituído por uma porção de apagões de menor duração e de enorme extensão territorial. Os exemplos são muitos, mas deve ser suficiente a recordação de alguns. Dezoito Estados ficaram sem energia elétrica em 10 de novembro de 2009, depois de uma pane em Itaipu. Em 10 de fevereiro de 2010, oito Estados nordestinos ficaram sem eletricidade. Nos dias 3 e 4 de fevereiro de 2011, o mesmo número de Estados enfrentou um apagão, no Nordeste, por uma falha no sistema Chesf. Seis dias depois, as vítimas foram 2,5 milhões de pessoas na área metropolitana de São Paulo. Em outras palavras: com muito mais funcionários na folha de pagamento, o sistema continuou funcionando muito mal, com graves falhas técnicas, fiscalização deficiente e baixa regulação.
Nesse, como em vários outros campos da administração federal, o aumento dos quadros foi amplamente desproporcional à evolução da qualidade dos serviços. A capacidade geradora de todo o sistema nacional de energia elétrica aumentou 36,3% entre 2002 e 2010, mas o País continuou sujeito a falhas graves no fornecimento. Nessa área, como na maior parte do governo, os valores da produtividade e da qualidade ficaram em plano inferior, porque os objetivos do grupo governante eram muito diferentes. Vale a pena lembrar uma observação feita por bons analistas logo no começo da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: ele havia chegado a Brasília com um projeto de poder, mas sem projeto de governo. Esse detalhe nunca foi alterado em oito anos de mandato.
A ocupação da máquina pelos amigos, partidários e aliados obedeceu estritamente ao projeto de poder, assim como a centralização do comando da Petrobrás no Palácio do Planalto. A desastrada aliança com o governo venezuelano para a construção da Refinaria Abreu e Lima foi uma das consequências da subordinação das metas gerenciais aos objetivos políticos. O loteamento das empresas do setor elétrico seguiu o mesmo padrão, assim como a desmoralização das agências reguladoras. A presidente Dilma Rousseff nunca deveria esquecer esses fatos. Pode tentar disfarçá-los, em sua retórica, mas só conseguirá governar e deixar uma herança melhor que a recebida se mudar de rumo. O reconhecimento da ineficiência de Furnas e de outras empresas do setor elétrico é um avanço, talvez penoso, nessa direção.
O efeito tardio do mensalão - FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 19/09
BRASÍLIA - Seria o mensalão uma bomba eleitoral de efeito retardado, cujo impacto real sobre o PT se dará agora, nas disputas municipais, e em 2014? É cedo para dizer, embora existam sinais preocupantes para os dirigentes petistas.
Quando o escândalo eclodiu há sete anos, em 2005, parecia o fim da linha para o PT. Mas, em 2006, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com alguma facilidade. O fenômeno se deu por causa de três fatores. Primeiro, o caso havia arrefecido. Segundo, a denúncia não estava no Supremo Tribunal Federal. Terceiro e mais importante, a economia do Brasil estava decolando.
Hoje, a situação é inversa. A economia não vai tão bem. O mensalão renasceu no julgamento do STF, com os brasileiros sendo alertados diariamente nos telejornais noturnos que alguns políticos -muitos do PT- serão condenados por corrupção.
É impossível afirmar com precisão se os candidatos petistas patinam em grandes centros urbanos devido ao mensalão. Porém uma coisa é certa: o julgamento agora certamente não ajuda na construção da imagem de muitos nomes do PT em capitais de Estados -locais nos quais a "lulodependência" tende a ser maior.
O PT também foi ambivalente ao aceitar a tese de buscar o "novo" nestas eleições. Em São Paulo, a novidade de Lula foi Fernando Haddad. Mas os eleitores, por enquanto, parecem enxergar o predicado em outro candidato, Celso Russomanno, do PRB.
Em outras capitais, os petistas escolhidos se dizem em busca de renovação. Só que os nomes são todos velhos conhecidos. Patrus Ananias, em Belo Horizonte, Humberto Costa, em Recife, e Nelson Pelegrino, em Salvador, fazem parte do "PT de raiz". Estiveram de mãos dadas com os mensaleiros agora prestes a enfrentar alguns anos de cadeia.
É comum em política haver fadiga de material. No caso do PT, o mensalão talvez possa precipitar esse fenômeno só agora, sete anos depois.
BRASÍLIA - Seria o mensalão uma bomba eleitoral de efeito retardado, cujo impacto real sobre o PT se dará agora, nas disputas municipais, e em 2014? É cedo para dizer, embora existam sinais preocupantes para os dirigentes petistas.
Quando o escândalo eclodiu há sete anos, em 2005, parecia o fim da linha para o PT. Mas, em 2006, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com alguma facilidade. O fenômeno se deu por causa de três fatores. Primeiro, o caso havia arrefecido. Segundo, a denúncia não estava no Supremo Tribunal Federal. Terceiro e mais importante, a economia do Brasil estava decolando.
Hoje, a situação é inversa. A economia não vai tão bem. O mensalão renasceu no julgamento do STF, com os brasileiros sendo alertados diariamente nos telejornais noturnos que alguns políticos -muitos do PT- serão condenados por corrupção.
É impossível afirmar com precisão se os candidatos petistas patinam em grandes centros urbanos devido ao mensalão. Porém uma coisa é certa: o julgamento agora certamente não ajuda na construção da imagem de muitos nomes do PT em capitais de Estados -locais nos quais a "lulodependência" tende a ser maior.
O PT também foi ambivalente ao aceitar a tese de buscar o "novo" nestas eleições. Em São Paulo, a novidade de Lula foi Fernando Haddad. Mas os eleitores, por enquanto, parecem enxergar o predicado em outro candidato, Celso Russomanno, do PRB.
Em outras capitais, os petistas escolhidos se dizem em busca de renovação. Só que os nomes são todos velhos conhecidos. Patrus Ananias, em Belo Horizonte, Humberto Costa, em Recife, e Nelson Pelegrino, em Salvador, fazem parte do "PT de raiz". Estiveram de mãos dadas com os mensaleiros agora prestes a enfrentar alguns anos de cadeia.
É comum em política haver fadiga de material. No caso do PT, o mensalão talvez possa precipitar esse fenômeno só agora, sete anos depois.
Hora do investimento - CELSO MING
O ESTADÃO - 19/09
Os ministros da área econômica não gostam quando alguns analistas avisam que o atual modelo de política econômica, que privilegia o consumo, já deu o que tinha de dar e que é preciso agora reforçar o investimento.
Na verdade, apesar de não gostarem de ouvir essas críticas, já começaram a manobrar nessa direção. É pouco e esse pouco continua misturado com incentivos excessivos ao consumo. As vendas ao varejo crescem substancialmente acima da produção. Em São Paulo, licenciam-se 800 veículos novos por dia. Enfileirados, correspondem ao comprimento de uma Avenida 23 de Maio. No entanto, o governo ainda insiste em dar mais isenção de IPI para a indústria de veículos.
As grandes cidades estão emperradas em congestionamentos gigantescos. Um único acidente numa dessas pontes das marginais para tudo. A encomenda não chega, a assistência técnica fica para outro dia, as crianças passam horas enlatadas nos veículos no seu trajeto para a escola ou de volta para casa. O custo Brasil vai sendo multiplicado a olhos vistos e a paciência do público se esgotando. E não é somente São Paulo nem apenas as grandes capitais. Qualquer cidade média tem sido diariamente bloqueada pelos congestionamentos e pela falta de infraestrutura.
E se isso é assim num quadro de crescimento do PIB de meros 1,5% - como o que vai acontecer neste ano -, imagine-se o que ocorrerá caso seja confirmada a tal "velocidade de cruzeiro" com que sonha e conta o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que prevê avanço econômico em torno de 4,5% ao ano já a partir dos próximos meses.
Quem tira proveito de incentivo fiscal e de favorecimentos creditícios distribuídos pelo governo para comprar um automóvel, por exemplo, tem de aceitar uma revolução no seu orçamento doméstico. Não gasta dinheiro só com carro novo. Tem ainda o IPVA, o licenciamento, o seguro, o combustível, o estacionamento, os flanelinhas.
Mas é essa a opção; essa é a política do governo Dilma. Apenas mais recentemente parece ter caído a ficha de que é necessário investir em rodovias, ferrovias, metrôs, portos, aeroportos, comunicações, energia.
Nesta terça, sem olhar só para essa moagem diária a que se submete o consumidor e observando estatísticas macroeconômicas, o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto advertia, em São Paulo, não somente para o excesso de estímulos ao consumo, potencialmente geradores de inflação em 2013, mas também para "a falta de investimento, um problema grave", por vir caindo seguidamente desde o primeiro trimestre de 2010.
O problema é que investimento não exige apenas mais dinheiro e cada vez mais dinheiro. Exige, sim, capacidade decisória - coisa que a gente não via, por exemplo, na área do petróleo, que, há quase 4 anos sem uma nova licitação, teve nova rodada anunciada nesta terça-feira, para maio de 2013. Exige capacidade gerencial do governo, em falta hoje, porque o PAC está empacado. Exige marcos regulatórios (regras confiáveis de jogo), que também estão emperrados, como se vê, por exemplo, nas concessões de portos e aeroportos. E exige agilidade no licenciamento ambiental, que se mantém lento e nem sempre objetivo.
E vamos parando por aqui para não parecer que esta Coluna está ranheta demais.
Na verdade, apesar de não gostarem de ouvir essas críticas, já começaram a manobrar nessa direção. É pouco e esse pouco continua misturado com incentivos excessivos ao consumo. As vendas ao varejo crescem substancialmente acima da produção. Em São Paulo, licenciam-se 800 veículos novos por dia. Enfileirados, correspondem ao comprimento de uma Avenida 23 de Maio. No entanto, o governo ainda insiste em dar mais isenção de IPI para a indústria de veículos.
As grandes cidades estão emperradas em congestionamentos gigantescos. Um único acidente numa dessas pontes das marginais para tudo. A encomenda não chega, a assistência técnica fica para outro dia, as crianças passam horas enlatadas nos veículos no seu trajeto para a escola ou de volta para casa. O custo Brasil vai sendo multiplicado a olhos vistos e a paciência do público se esgotando. E não é somente São Paulo nem apenas as grandes capitais. Qualquer cidade média tem sido diariamente bloqueada pelos congestionamentos e pela falta de infraestrutura.
E se isso é assim num quadro de crescimento do PIB de meros 1,5% - como o que vai acontecer neste ano -, imagine-se o que ocorrerá caso seja confirmada a tal "velocidade de cruzeiro" com que sonha e conta o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que prevê avanço econômico em torno de 4,5% ao ano já a partir dos próximos meses.
Quem tira proveito de incentivo fiscal e de favorecimentos creditícios distribuídos pelo governo para comprar um automóvel, por exemplo, tem de aceitar uma revolução no seu orçamento doméstico. Não gasta dinheiro só com carro novo. Tem ainda o IPVA, o licenciamento, o seguro, o combustível, o estacionamento, os flanelinhas.
Mas é essa a opção; essa é a política do governo Dilma. Apenas mais recentemente parece ter caído a ficha de que é necessário investir em rodovias, ferrovias, metrôs, portos, aeroportos, comunicações, energia.
Nesta terça, sem olhar só para essa moagem diária a que se submete o consumidor e observando estatísticas macroeconômicas, o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto advertia, em São Paulo, não somente para o excesso de estímulos ao consumo, potencialmente geradores de inflação em 2013, mas também para "a falta de investimento, um problema grave", por vir caindo seguidamente desde o primeiro trimestre de 2010.
O problema é que investimento não exige apenas mais dinheiro e cada vez mais dinheiro. Exige, sim, capacidade decisória - coisa que a gente não via, por exemplo, na área do petróleo, que, há quase 4 anos sem uma nova licitação, teve nova rodada anunciada nesta terça-feira, para maio de 2013. Exige capacidade gerencial do governo, em falta hoje, porque o PAC está empacado. Exige marcos regulatórios (regras confiáveis de jogo), que também estão emperrados, como se vê, por exemplo, nas concessões de portos e aeroportos. E exige agilidade no licenciamento ambiental, que se mantém lento e nem sempre objetivo.
E vamos parando por aqui para não parecer que esta Coluna está ranheta demais.
Tem, mas acabou - ALEXANDRE SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 19/09
O BC possui várias metas, como para o câmbio e para os juros. Só deixou de ter a meta para a inflação
Eu bem que queria escrever sobre a ata do Copom, mas, mesmo sob a nova frequência semanal, outros temas me forçaram a adiar o assunto. Não acho, porém, que tenha perdido a atualidade, pois me parece claro que, se restava ainda dúvida acerca da sobrevivência do regime de metas no Brasil, a ata foi a metafórica pá de cal.
Em particular, o parágrafo 19 é o epitáfio: ali o Copom reconhece que sua projeção para a inflação em 2012 está acima da meta, assim permanecendo até meados de 2014.
É verdade que sinalizar a inflação acima da meta por quase dois anos não chega a ser inédito. Mais de uma vez o BC teve que reconhecer situações como essa.
A novidade agora é que, mesmo sob um cenário inflacionário desfavorável e com tempo de sobra para reagir a ele, o comitê preferiu continuar reduzindo as taxas de juros e contar com um milagre (também conhecido como "convergência não linear da inflação à trajetória de metas") a cumprir a tarefa que lhe foi designada pelo decreto 3.088/99, qual seja, tomar as decisões de política que tragam a inflação de volta à meta.
Segundo o Copom, "embora (...) o curto prazo tenha sido negativamente impactado por choques de oferta associados a eventos climáticos, domésticos e externos, [o cenário inflacionário] manteve sinais favoráveis em prazos mais longos". Como desculpa para a inação, essa afirmação peca em mais de um aspecto.
A começar porque a persistência da inflação acima da meta por dois anos (repita-se) não é um evento de curto prazo. E nós, leitores da ata, bem que gostaríamos de saber quais são os "sinais favoráveis" a que o BC se refere, visto que em momento algum se mencionam projeções indicando a reversão do processo inflacionário.
Afora isso, há a questão do tratamento do chamado "choque de oferta". Este é dito "negativo" quando reduz as quantidades disponíveis e, por conta disso, eleva os preços e é "positivo" quando, ao contrário, eleva a quantidade e faz cair os preços.
O BC, há tempos, afirma que não combate os efeitos diretos de choques de oferta, ou seja, não eleva a taxa de juros quando o choque é negativo, partindo do pressuposto de que estes, em geral, se dissipam em alguns meses, sem necessariamente contaminar a inflação por períodos mais longos.
Obviamente, por simetria, o BC não deveria também reduzir os juros quando ocorrem choques favoráveis de oferta, que, da mesma forma, tendem a desaparecer passado algum tempo.
No entanto, não é o que se observa. Enquanto o aumento dos preços internacionais de commodities é invocado como razão para não subir a taxa de juros, eventos favoráveis, como o corte temporário de impostos sobre veículos e, não duvidem, a recente redução de encargos sobre energia elétrica, são alegremente considerados motivos para a redução da Selic.
E, cá entre nós, tomar o aumento internacional de preços de commodities como um choque de oferta equivale a esticar o conceito bem mais do que seria recomendável.
Para agricultores americanos, a seca reduziu as quantidades e elevou preços, configurando um choque clássico de oferta. O agricultor brasileiro, por outro lado, só percebe os preços em alta, sem prejuízo da quantidade. E, se é verdade que os preços mais altos prejudicam o consumidor, é bom lembrar que o país produz bem mais do que consome, gerando um benefício líquido para o Brasil.
Trata-se, em outras palavras, de um choque, sim, mas um choque positivo e de demanda!
Note-se, por fim, que a contaminação dos preços domésticos só é possível porque o BC não permite que o dólar se barateie como deveria ocorrer em face do aumento dos preços de commodities. Na prática, ao fixar uma meta para a taxa de câmbio, o BC admite que aumentos de preços fora do país acabem por se materializar domesticamente.
Em outras palavras, o BC tem várias metas: para o câmbio, para o crescimento, para a taxa de juros. Só acabou a meta para a inflação.
O BC possui várias metas, como para o câmbio e para os juros. Só deixou de ter a meta para a inflação
Eu bem que queria escrever sobre a ata do Copom, mas, mesmo sob a nova frequência semanal, outros temas me forçaram a adiar o assunto. Não acho, porém, que tenha perdido a atualidade, pois me parece claro que, se restava ainda dúvida acerca da sobrevivência do regime de metas no Brasil, a ata foi a metafórica pá de cal.
Em particular, o parágrafo 19 é o epitáfio: ali o Copom reconhece que sua projeção para a inflação em 2012 está acima da meta, assim permanecendo até meados de 2014.
É verdade que sinalizar a inflação acima da meta por quase dois anos não chega a ser inédito. Mais de uma vez o BC teve que reconhecer situações como essa.
A novidade agora é que, mesmo sob um cenário inflacionário desfavorável e com tempo de sobra para reagir a ele, o comitê preferiu continuar reduzindo as taxas de juros e contar com um milagre (também conhecido como "convergência não linear da inflação à trajetória de metas") a cumprir a tarefa que lhe foi designada pelo decreto 3.088/99, qual seja, tomar as decisões de política que tragam a inflação de volta à meta.
Segundo o Copom, "embora (...) o curto prazo tenha sido negativamente impactado por choques de oferta associados a eventos climáticos, domésticos e externos, [o cenário inflacionário] manteve sinais favoráveis em prazos mais longos". Como desculpa para a inação, essa afirmação peca em mais de um aspecto.
A começar porque a persistência da inflação acima da meta por dois anos (repita-se) não é um evento de curto prazo. E nós, leitores da ata, bem que gostaríamos de saber quais são os "sinais favoráveis" a que o BC se refere, visto que em momento algum se mencionam projeções indicando a reversão do processo inflacionário.
Afora isso, há a questão do tratamento do chamado "choque de oferta". Este é dito "negativo" quando reduz as quantidades disponíveis e, por conta disso, eleva os preços e é "positivo" quando, ao contrário, eleva a quantidade e faz cair os preços.
O BC, há tempos, afirma que não combate os efeitos diretos de choques de oferta, ou seja, não eleva a taxa de juros quando o choque é negativo, partindo do pressuposto de que estes, em geral, se dissipam em alguns meses, sem necessariamente contaminar a inflação por períodos mais longos.
Obviamente, por simetria, o BC não deveria também reduzir os juros quando ocorrem choques favoráveis de oferta, que, da mesma forma, tendem a desaparecer passado algum tempo.
No entanto, não é o que se observa. Enquanto o aumento dos preços internacionais de commodities é invocado como razão para não subir a taxa de juros, eventos favoráveis, como o corte temporário de impostos sobre veículos e, não duvidem, a recente redução de encargos sobre energia elétrica, são alegremente considerados motivos para a redução da Selic.
E, cá entre nós, tomar o aumento internacional de preços de commodities como um choque de oferta equivale a esticar o conceito bem mais do que seria recomendável.
Para agricultores americanos, a seca reduziu as quantidades e elevou preços, configurando um choque clássico de oferta. O agricultor brasileiro, por outro lado, só percebe os preços em alta, sem prejuízo da quantidade. E, se é verdade que os preços mais altos prejudicam o consumidor, é bom lembrar que o país produz bem mais do que consome, gerando um benefício líquido para o Brasil.
Trata-se, em outras palavras, de um choque, sim, mas um choque positivo e de demanda!
Note-se, por fim, que a contaminação dos preços domésticos só é possível porque o BC não permite que o dólar se barateie como deveria ocorrer em face do aumento dos preços de commodities. Na prática, ao fixar uma meta para a taxa de câmbio, o BC admite que aumentos de preços fora do país acabem por se materializar domesticamente.
Em outras palavras, o BC tem várias metas: para o câmbio, para o crescimento, para a taxa de juros. Só acabou a meta para a inflação.
Religião na política - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 19/09
A contaminação das campanhas eleitorais no País pela disputa religiosa é um fenômeno crescente e preocupante que conspira contra o fundamento constitucional do Estado laico. Em São Paulo e em outras importantes cidades brasileiras, como o Rio de Janeiro, esse lamentável fenômeno se agrava nos últimos tempos, e por aqui explode no atual pleito municipal, especialmente em função de uma questão que não tem nada a ver com eleições: o acirramento da disputa entre a Igreja Católica e as confissões evangélicas, à frente a Igreja Universal do Reino de Deus.
Dias atrás o conflito entre católicos e seguidores da igreja do bispo Edir Macedo reacendeu-se por causa da divulgação, pelas redes sociais, de texto publicado em maio de 2011 no blog do pastor da Universal Marcos Pereira, presidente do Partido Republicano Brasileiro (PRB) e atual coordenador da campanha de Celso Russomanno à Prefeitura da capital. O texto continha duras críticas à Igreja Católica por conta da edição, pelo MEC, do chamado "kit gay", manual de orientação didática acusado pelo lobby evangélico no Congresso Nacional de fazer apologia do homossexualismo. A reação foi tão violenta que o então ministro da educação, Fernando Haddad, mandou suspender a publicação.
O reavivamento dessa polêmica, movido certamente por interesses eleitorais, provocou vigoroso contra ataque da Igreja Católica: no último domingo a Arquidiocese de São Paulo divulgou longa e dura nota assinada pelo cardeal arcebispo dom Odilo Scherer, lida durante as missas, sob o título Política, com ofensas à Igreja, não!. Afirma o documento que a Arquidiocese, em obediência aos cânones da Igreja Católica e às determinações da Justiça Eleitoral, orienta seus fiéis "para que os espaços e os momentos de celebrações religiosas não sejam utilizados para a propaganda eleitoral partidária, nem para pedir votos para candidatos", embora reconheça que "também deu orientações e critérios sobre a participação dos fiéis na campanha eleitoral e na vida política da cidade e sobre a escolha de candidatos idôneos, embora sem citar nomes ou partidos". Em seguida, afirma que a Igreja Católica foi "atacada e injuriada, de maneira injustificada e gratuita, justamente num artigo do chefe da campanha de um candidato à Prefeitura de São Paulo".
Afirma ainda a nota que "a manipulação política da religião não é um benefício para o convívio democrático e pluralista e pode colocar em risco a tolerância e a paz social". E conclui reiterando "orientação para que os fiéis católicos votem de maneira consciente (...) para que nossa cidade seja governada por autoridades dignas e atentas à promoção do bem da cidade, mais que aos interesses de parte". Forçado pelas circunstâncias, o fato é que o chefe da Igreja Católica em São Paulo acabou misturando política com religião e contribuindo para ampliar a "manipulação" que sua nota condena.
Não deixa de ser irônico, de qualquer modo - e isso, na verdade, reflete o nível rasteiro desta campanha eleitoral -, o fato de que Celso Russomanno, candidato pelo partido comandado pela Universal, faz questão de ostentar sua condição de "católico fervoroso". Na medida em que política e religião não se devem misturar, não há problema no fato de um candidato a prefeito católico ter o apoio de fiéis de outra confissão religiosa. Ocorre que, neste caso, apesar do discurso e da pose, Celso Russomanno, para usar a expressão popular, "não é muito católico" nem seus apoiadores no comando do PRB são simples correligionários, mas hierarcas de uma poderosa organização religiosa que é dona de um partido político.
Assim, se não fosse falso e mal-intencionado, soaria apenas como ofensa pueril ao discernimento dos eleitores o argumento usado no maior caradurismo por Russomanno, no debate promovido pelo Estado e pela TV Cultura, para rebater as acusações de que sua candidatura estaria a serviço dos interesses das organizações, religiosa e comerciais, do bispo Edir Macedo: "No meu partido 80% dos membros são católicos; 20% são evangélicos, dos quais 6% seriam da Igreja Universal. Portanto, não existe um partido político comandado por uma igreja". O fato é que a legenda de Russomanno é comandada por uma igreja.
O batismo do tatu - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 19/09
Concordância absoluta não há de existir, mas é possível receber com alguma simpatia a escolha de um tatu-bola como símbolo da Copa do Mundo de 2014. Evitaram-se as opções mais óbvias: a arara-azul, o mico-leão-dourado, o canarinho cansado de guerra.
Para além da óbvia forma esférica, a escolha do bicho se justifica porque faz parte da fauna brasileira, enfrenta alguma ameaça de extinção e é animal de pouca agressividade -embora os mais fanáticos possam reclamar de sua preferência por táticas defensivas.
Menos justificáveis são os nomes propostos para a mascote. Depois de longa análise e deliberação, a Fifa apresenta três possibilidades para votação no portal da entidade.
Amijubi. Zuzeco. Fuleco.
Amijubi porque "juba" significa "amarelo" em tupi e porque se compõe das palavras "amizade" e "júbilo". Zuzeco porque combina "azul" e "ecologia". "Ecologia", novamente, mas aqui ao lado de "futebol", aparece em "Fuleco".
Criatividade, intuição linguística e eufonia ausentaram-se tristemente das propostas do comitê da Federação Internacional de Futebol. Que foi composto, aliás, por membros de seu departamento jurídico, e não por marqueteiros ou poetas. Tratava-se de evitar nomes que já tivessem registro comercial.
Nessa circunstância talvez se note a contradição básica da iniciativa. De um lado, o artificialismo de tentar embutir no nome da mascote mensagens ecológicas a todo custo, juntamente com a rósea concepção de um mundo mais feliz nos gramados esportivos.
De outro, o cálculo comercial e jurídico, num evento milionário e altamente profissionalizado. Haveria aí lugar para ingênuos congraçamentos florestais?
A contradição faz parte de todo acontecimento esportivo, sem dúvida. Um bonito espírito de união internacional não sobrevive nessas ocasiões sem uma infraestrutura financeira capaz de viabilizá-lo, e a festa não se faz sem admitir rivalidade renhida.
O segredo do marketing está justamente em lidar com essa contradição de modo criativo. Uma agência publicitária brasileira, cujo nome ficou em conveniente segredo, apresentou 450 nomes possíveis para a mascote.
Dessa lista misteriosa, o departamento jurídico da Fifa selecionou os três concorrentes. Só se espera que, no campeonato em si, a disputa se dê entre finalistas de melhor qualidade técnica.
Concordância absoluta não há de existir, mas é possível receber com alguma simpatia a escolha de um tatu-bola como símbolo da Copa do Mundo de 2014. Evitaram-se as opções mais óbvias: a arara-azul, o mico-leão-dourado, o canarinho cansado de guerra.
Para além da óbvia forma esférica, a escolha do bicho se justifica porque faz parte da fauna brasileira, enfrenta alguma ameaça de extinção e é animal de pouca agressividade -embora os mais fanáticos possam reclamar de sua preferência por táticas defensivas.
Menos justificáveis são os nomes propostos para a mascote. Depois de longa análise e deliberação, a Fifa apresenta três possibilidades para votação no portal da entidade.
Amijubi. Zuzeco. Fuleco.
Amijubi porque "juba" significa "amarelo" em tupi e porque se compõe das palavras "amizade" e "júbilo". Zuzeco porque combina "azul" e "ecologia". "Ecologia", novamente, mas aqui ao lado de "futebol", aparece em "Fuleco".
Criatividade, intuição linguística e eufonia ausentaram-se tristemente das propostas do comitê da Federação Internacional de Futebol. Que foi composto, aliás, por membros de seu departamento jurídico, e não por marqueteiros ou poetas. Tratava-se de evitar nomes que já tivessem registro comercial.
Nessa circunstância talvez se note a contradição básica da iniciativa. De um lado, o artificialismo de tentar embutir no nome da mascote mensagens ecológicas a todo custo, juntamente com a rósea concepção de um mundo mais feliz nos gramados esportivos.
De outro, o cálculo comercial e jurídico, num evento milionário e altamente profissionalizado. Haveria aí lugar para ingênuos congraçamentos florestais?
A contradição faz parte de todo acontecimento esportivo, sem dúvida. Um bonito espírito de união internacional não sobrevive nessas ocasiões sem uma infraestrutura financeira capaz de viabilizá-lo, e a festa não se faz sem admitir rivalidade renhida.
O segredo do marketing está justamente em lidar com essa contradição de modo criativo. Uma agência publicitária brasileira, cujo nome ficou em conveniente segredo, apresentou 450 nomes possíveis para a mascote.
Dessa lista misteriosa, o departamento jurídico da Fifa selecionou os três concorrentes. Só se espera que, no campeonato em si, a disputa se dê entre finalistas de melhor qualidade técnica.
CLAUDIO HUMBERTO
“Todo e qualquer governo tem deslizes”
Senador Jorge Viana (PT-AC), defendendo Lula da acusação de chefiar o mensalão
ESTATAL QUER PAGAR TRILHOS LÁ FORA
Edital lançado pela estatal Valec, do Ministério dos Transportes, para compra de trilhos, colocou um elefante atrás das orelhas em órgãos de controle como o Tribunal de Contas da União e Controladoria Geral da União. Prevê pagamento aos fornecedores, no exterior, de 95 mil toneladas de trilhos, no valor de R$ 220 milhões, bem longe dos olhos vigilantes do TCU e da CGU. E mais ainda dos bancos brasileiros.
QUEM MANDA
O inexperiente presidente da Valec caiu, mas quem manda na estatal é Miguel Masella, secretário-executivo do Ministério dos Transportes.
RÉU NO COMANDO
Outro mandachuva na Valec, Ricardo Garofalo Loos, é réu por improbidade e fraude em licitações no escândalo do VLT de Brasília.
DINHEIRO A RODO
Estatal de existência quase ignorada, a Valec virou notícia com a prisão do ex-presidente José Francisco das Neves por corrupção.
FÉRIAS ADICIONAIS
A greve dos bancários é a décima consecutiva, e até já entrou para o calendário anual de folgas. Vai durar cerca de um mês, como as outras.
ATIRAR EM LULA PARA ACERTAR HADDAD
O PSDB decidiu usar acusações do operador do mensalão, Marcos Valério, envolvendo Lula no maior escândalo de corrupção do País, para minar seu apadrinhado Fernando Haddad (PT), que disputa a Prefeitura de São Paulo. Com rejeição em alta, o tucano José Serra teme não conseguir chegar ao segundo turno contra Celso Russomanno (PRB), que lidera as pesquisas com folga.
TIRO CERTEIRO
Para o deputado Vanderlei Macris (PSDB-SP), Valério quer levar mais gente para o buraco: “Atingiu bem no coração do PT, que é o Lula”.
FALTA O FEIJÃO
O Brasil vai doar 8 mil toneladas de arroz ao Senegal, vítima da seca e colheita escassa. Já no Sertão nordestino...
ORDEM UNIDA
Militares do grupo Ternuma fazem “vaquinha” para a defesa do coronel da reserva Brilhante Ustra, acusado de tortura no regime militar.
O CANSAÇO DO VELHO GUERREIRO
O senador Pedro Simon (PMDB-RS), 82, andava fraco, desanimado, e logo saiu o diagnóstico: anemia profunda. Sexta (14), pediu para discursar da tribuna sentado. Segunda (17), tomou uma transfusão de plasma e foi medicado. Uma bateria de exames investiga causas.
PESO NA BALANÇA
Para o advogado de Roberto Jefferson, Luiz Francisco Barbosa, as acusações de Marcos Valério contra Lula favorecem a absolvição de seu cliente, provando que ele não é “falastrão”.
TE CONHEÇO?
A mulher de Marcos Valério, Renilda, garantiu na CPMI dos Correios, em 2005, que o marido “não conhece e nunca se encontrou com Lula”. Vai ver que o então presidente estava disfarçado de José Dirceu.
FOI ARRAES QUEM FEZ
Para turbinar seu candidato a prefeito no Recife, o governador Eduardo Campos atribuiu a ele o programa Chapéu de Palha, na verdade criado por seu avô Miguel Arraes, em 1989, para amparar trabalhadores rurais na entressafra. O candidato Geraldo Júlio tinha só 18 anos.
ROUBO NO TST
A insegurança em Brasília invadiu o Tribunal Superior do Trabalho. Um funcionário teve o carro arrombado e um par de tênis furtado, à noite, no estacionamento. A segurança do TST garante rondas até as 20h.
GASODUTO PIAUIENSE
O ministro Edison Lobão (Minas e Energia) assegurou ontem a Luiz Gonzaga Paes Landim, superintendente da Sudene, que em maio a Agencia Nacional do Petróleo vai leiloar os 13 blocos de exploração de gás no Piauí, para viabilizar um antigo sonho no Estado: o gasoduto.
ILUMINADO
Os relógios de rua de São Paulo vão funcionar de novo com a francesa JCDecaux. Quem teria acertado os ponteiros do negócio, na gestão de Marta Suplicy, foi o então marido “Luiz Favre”, mas só fechou agora.
ESTRADA DA VIDA
O Tribunal Superior do Trabalho decidiu que um caminhoneiro de SP vai receber R$ 10 mil da empresa que o impediu de ir ao velório da mãe. Preso na ditadura, Lula foi ao de dona Lindu, e ainda ganhou indenização como perseguido político.
O DNA DA DNA
Corre na internet que, além de Marcos Valério, Lula enfrenta outro dissabor: teste de DNA do programa do Ratinho provou que ele é o “pai do mensalão”.
PODER SEM PUDOR
O PAPA-DEFUNTO
Deputado estadual paraibano, João Gonçalves (PSDB) ganhou fama por frequentar velórios. A crônica política local informava seu apreço por acompanhar autópsias e ajudar a vestir defuntos. Raramente foi dado a perder enterro. Presidente da Assembleia Legislativa da Paraíba, Artur Cunha Lima, também tucano, certa vez acompanhava um velório, quando, de repente, percebeu a chegada de João Gonçalves. Foi logo avisando:
- Vá embora, João, porque este defunto é meu.
Senador Jorge Viana (PT-AC), defendendo Lula da acusação de chefiar o mensalão
ESTATAL QUER PAGAR TRILHOS LÁ FORA
Edital lançado pela estatal Valec, do Ministério dos Transportes, para compra de trilhos, colocou um elefante atrás das orelhas em órgãos de controle como o Tribunal de Contas da União e Controladoria Geral da União. Prevê pagamento aos fornecedores, no exterior, de 95 mil toneladas de trilhos, no valor de R$ 220 milhões, bem longe dos olhos vigilantes do TCU e da CGU. E mais ainda dos bancos brasileiros.
QUEM MANDA
O inexperiente presidente da Valec caiu, mas quem manda na estatal é Miguel Masella, secretário-executivo do Ministério dos Transportes.
RÉU NO COMANDO
Outro mandachuva na Valec, Ricardo Garofalo Loos, é réu por improbidade e fraude em licitações no escândalo do VLT de Brasília.
DINHEIRO A RODO
Estatal de existência quase ignorada, a Valec virou notícia com a prisão do ex-presidente José Francisco das Neves por corrupção.
FÉRIAS ADICIONAIS
A greve dos bancários é a décima consecutiva, e até já entrou para o calendário anual de folgas. Vai durar cerca de um mês, como as outras.
ATIRAR EM LULA PARA ACERTAR HADDAD
O PSDB decidiu usar acusações do operador do mensalão, Marcos Valério, envolvendo Lula no maior escândalo de corrupção do País, para minar seu apadrinhado Fernando Haddad (PT), que disputa a Prefeitura de São Paulo. Com rejeição em alta, o tucano José Serra teme não conseguir chegar ao segundo turno contra Celso Russomanno (PRB), que lidera as pesquisas com folga.
TIRO CERTEIRO
Para o deputado Vanderlei Macris (PSDB-SP), Valério quer levar mais gente para o buraco: “Atingiu bem no coração do PT, que é o Lula”.
FALTA O FEIJÃO
O Brasil vai doar 8 mil toneladas de arroz ao Senegal, vítima da seca e colheita escassa. Já no Sertão nordestino...
ORDEM UNIDA
Militares do grupo Ternuma fazem “vaquinha” para a defesa do coronel da reserva Brilhante Ustra, acusado de tortura no regime militar.
O CANSAÇO DO VELHO GUERREIRO
O senador Pedro Simon (PMDB-RS), 82, andava fraco, desanimado, e logo saiu o diagnóstico: anemia profunda. Sexta (14), pediu para discursar da tribuna sentado. Segunda (17), tomou uma transfusão de plasma e foi medicado. Uma bateria de exames investiga causas.
PESO NA BALANÇA
Para o advogado de Roberto Jefferson, Luiz Francisco Barbosa, as acusações de Marcos Valério contra Lula favorecem a absolvição de seu cliente, provando que ele não é “falastrão”.
TE CONHEÇO?
A mulher de Marcos Valério, Renilda, garantiu na CPMI dos Correios, em 2005, que o marido “não conhece e nunca se encontrou com Lula”. Vai ver que o então presidente estava disfarçado de José Dirceu.
FOI ARRAES QUEM FEZ
Para turbinar seu candidato a prefeito no Recife, o governador Eduardo Campos atribuiu a ele o programa Chapéu de Palha, na verdade criado por seu avô Miguel Arraes, em 1989, para amparar trabalhadores rurais na entressafra. O candidato Geraldo Júlio tinha só 18 anos.
ROUBO NO TST
A insegurança em Brasília invadiu o Tribunal Superior do Trabalho. Um funcionário teve o carro arrombado e um par de tênis furtado, à noite, no estacionamento. A segurança do TST garante rondas até as 20h.
GASODUTO PIAUIENSE
O ministro Edison Lobão (Minas e Energia) assegurou ontem a Luiz Gonzaga Paes Landim, superintendente da Sudene, que em maio a Agencia Nacional do Petróleo vai leiloar os 13 blocos de exploração de gás no Piauí, para viabilizar um antigo sonho no Estado: o gasoduto.
ILUMINADO
Os relógios de rua de São Paulo vão funcionar de novo com a francesa JCDecaux. Quem teria acertado os ponteiros do negócio, na gestão de Marta Suplicy, foi o então marido “Luiz Favre”, mas só fechou agora.
ESTRADA DA VIDA
O Tribunal Superior do Trabalho decidiu que um caminhoneiro de SP vai receber R$ 10 mil da empresa que o impediu de ir ao velório da mãe. Preso na ditadura, Lula foi ao de dona Lindu, e ainda ganhou indenização como perseguido político.
O DNA DA DNA
Corre na internet que, além de Marcos Valério, Lula enfrenta outro dissabor: teste de DNA do programa do Ratinho provou que ele é o “pai do mensalão”.
PODER SEM PUDOR
O PAPA-DEFUNTO
Deputado estadual paraibano, João Gonçalves (PSDB) ganhou fama por frequentar velórios. A crônica política local informava seu apreço por acompanhar autópsias e ajudar a vestir defuntos. Raramente foi dado a perder enterro. Presidente da Assembleia Legislativa da Paraíba, Artur Cunha Lima, também tucano, certa vez acompanhava um velório, quando, de repente, percebeu a chegada de João Gonçalves. Foi logo avisando:
- Vá embora, João, porque este defunto é meu.
QUARTA NOS JORNAIS
- Globo: Eleições 2012 – Candidatos já gastaram R$ 1 bilhão em campanhas
- Folha: Haddad diz que associá-lo a José Dirceu é degradante
- Estadão: Governo reage a críticas e anuncia leilões de petróleo
- Correio: Bando de Cachoeira terá passaportes loqueados
- Valor: Fazenda fará mudanças na previdência privada aberta
- Estado de Minas: O preço das cotas
- Zero Hora: Enxurrada e vento de 100 Km/h
terça-feira, setembro 18, 2012
Rei morto, rei posto - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 18/09
A ideia da ex-ministra Ana de Hollanda era arrumar suas coisas em Brasília e retornar ao Rio hoje.
Mas preferiu antecipar sua volta no fim de semana. É que, ainda na sexta, cortaram seu telefone e queriam levar o computador com suas coisas pessoais.
Segue...
Tudo bem que deve ser coisa do terceiro escalão, afinal a ex-ministra foi superbem tratada por Dilma e Marta Suplicy.
Mas retrata um pouco a alma humana.
Entre sem bater
A Casa da Palavra lança este mês uma biografia do Barão de Itararé (1895-1971), o jornalista, escritor e humorista que lançou o jornal de humor "Manha" (sem til mesmo), nos anos de 1920.
A obra, de Claudio Figueiredo, vai se chamar "Entre sem bater”
Em tempo...
O título tem a ver com a prisão e a tortura do Barão depois de publicar no "Jornal do Povo" a história do marinheiro João Cândido.
Na saída da cadeia, pôs um aviso na porta da Redação: "Entre sem bater"
Tente outra vez
A17? Vara Cível do Rio determinou que a Warner Brasil pague R$ 93 mil às herdeiras de Raul Seixas e a Paulo Coelho, por conta da venda de sucessos da dupla, entre os quais "Tente outra vez’!
Deus castiga!
O Frei Gino, da Paróquia São Francisco de Paula, na Barra, parou missa de domingo, a das 18h, para dar uma bronca nos fiéis.
Ele diz que um paroquiano roubou o dedo da imagem de São Francisco de Paula.
ENCONTRO INÉDITO EM ‘ALÔ, DOLLY’Marília Pêra e Miguel Falabella, os talentosos atores, vão estar paramentados assim e juntos no palco pela primeira vez na carreira. Estreiam dia 12 de outubro “Alô, Dolly”, a versão brasileira de “Hello, Dolly”, um dos maiores clássicos da Broadway, no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon. Marília, a diva do nosso teatro, vai reviver o papel que foi interpretado pela grande Bibi Ferreira, em 1964, na primeira e única montagem do espetáculo no Brasil. A superprodução tem 29 atores em cena e uma orquestra com 16 integrantes. Que sejam felizes! •
Ponto de vista
O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos discorda de que o STF esteja cedendo a pressões da mídia, no caso do mensalão:
— Acho que vários juízes compartilham o julgamento negativo sobre a atividade política, especialmente da política de maior apelo popular, prevalecente no meio ilustrado brasileiro.
Aliás...
Para o presidente da Casa Rui Barbosa, o fenômeno do julgamento negativo sobre a atividade política "não é só nacional."
É. Pode ser.
Todo mundo nu
A terra treme em Brasília com todo tipo de disse me disse sobre Marcos Valério e o seu possível arsenal contra alguns figurões do PT.
Fala-se que o operador do mensalão petista tem até fotos de festas de gente graúda com moças, digamos, fogosas. A conferir.
Povo de SucupiraA Globo Marcas lança dia 30 agora o DVD de "O bem-amado” 40 anos após a estreia da novela de Dias Gomes.
O ano do Nelson
Esta microescultura de Nelson Rodrigues é parte da mostra do artista plástico Zé Andrade, que estreia na reabertura da Biblioteca do CCBB, no Rio, dia 12 de outubro.
Há também esculturas de Fernando Sabino, João Ubaldo Ribeiro, Vinicius de Moraes, Aldir Blanc, Ziraldo e Verissimo.
Cidade partida
Um dado mostra como escola boa fica, quase sempre, em bairros de classe média ou alta. A conta é do economista Mauro Osório.
Os resultados do Ideb de 2011 apontam que 33% das 70 melhores escolas da 1? à 5? série do Rio estão na Zona Sul e Grande Tijuca. E apenas 16,9% deste grupo de melhores unidades de ensino estão na Zona Oeste, região da cidade com os piores indicadores sociais e de renda.
Briga de bicheiros
A 2? Vara de Cachoeiras de Macacu interrogou ontem o PM Marcelo Alves da Silva, um dos acusados de tentar matar Rogério Mesquita (executado em 2009) por causa da disputa pelo espólio do bicheiro Maninho, morto em 2004.
Segundo o MP, o crime teria sido encomendado por Shanna Garcia, filha de Maninho.
Guerra dos artistas
Barretão reúne hoje uma tribo de artistas em torno de Eduardo Paes.
Grande Hotel
A Secretaria municipal de Urbanismo licenciou o projeto da GL Eventos de construção de um hotel de 306 quartos no Riocentro, no Rio.
Poxa, Boninho
Boninho foi visto furando a fila da ArtRio, domingo.
A ideia da ex-ministra Ana de Hollanda era arrumar suas coisas em Brasília e retornar ao Rio hoje.
Mas preferiu antecipar sua volta no fim de semana. É que, ainda na sexta, cortaram seu telefone e queriam levar o computador com suas coisas pessoais.
Segue...
Tudo bem que deve ser coisa do terceiro escalão, afinal a ex-ministra foi superbem tratada por Dilma e Marta Suplicy.
Mas retrata um pouco a alma humana.
Entre sem bater
A Casa da Palavra lança este mês uma biografia do Barão de Itararé (1895-1971), o jornalista, escritor e humorista que lançou o jornal de humor "Manha" (sem til mesmo), nos anos de 1920.
A obra, de Claudio Figueiredo, vai se chamar "Entre sem bater”
Em tempo...
O título tem a ver com a prisão e a tortura do Barão depois de publicar no "Jornal do Povo" a história do marinheiro João Cândido.
Na saída da cadeia, pôs um aviso na porta da Redação: "Entre sem bater"
Tente outra vez
A17? Vara Cível do Rio determinou que a Warner Brasil pague R$ 93 mil às herdeiras de Raul Seixas e a Paulo Coelho, por conta da venda de sucessos da dupla, entre os quais "Tente outra vez’!
Deus castiga!
O Frei Gino, da Paróquia São Francisco de Paula, na Barra, parou missa de domingo, a das 18h, para dar uma bronca nos fiéis.
Ele diz que um paroquiano roubou o dedo da imagem de São Francisco de Paula.
ENCONTRO INÉDITO EM ‘ALÔ, DOLLY’Marília Pêra e Miguel Falabella, os talentosos atores, vão estar paramentados assim e juntos no palco pela primeira vez na carreira. Estreiam dia 12 de outubro “Alô, Dolly”, a versão brasileira de “Hello, Dolly”, um dos maiores clássicos da Broadway, no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon. Marília, a diva do nosso teatro, vai reviver o papel que foi interpretado pela grande Bibi Ferreira, em 1964, na primeira e única montagem do espetáculo no Brasil. A superprodução tem 29 atores em cena e uma orquestra com 16 integrantes. Que sejam felizes! •
Ponto de vista
O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos discorda de que o STF esteja cedendo a pressões da mídia, no caso do mensalão:
— Acho que vários juízes compartilham o julgamento negativo sobre a atividade política, especialmente da política de maior apelo popular, prevalecente no meio ilustrado brasileiro.
Aliás...
Para o presidente da Casa Rui Barbosa, o fenômeno do julgamento negativo sobre a atividade política "não é só nacional."
É. Pode ser.
Todo mundo nu
A terra treme em Brasília com todo tipo de disse me disse sobre Marcos Valério e o seu possível arsenal contra alguns figurões do PT.
Fala-se que o operador do mensalão petista tem até fotos de festas de gente graúda com moças, digamos, fogosas. A conferir.
Povo de SucupiraA Globo Marcas lança dia 30 agora o DVD de "O bem-amado” 40 anos após a estreia da novela de Dias Gomes.
O ano do Nelson
Esta microescultura de Nelson Rodrigues é parte da mostra do artista plástico Zé Andrade, que estreia na reabertura da Biblioteca do CCBB, no Rio, dia 12 de outubro.
Há também esculturas de Fernando Sabino, João Ubaldo Ribeiro, Vinicius de Moraes, Aldir Blanc, Ziraldo e Verissimo.
Cidade partida
Um dado mostra como escola boa fica, quase sempre, em bairros de classe média ou alta. A conta é do economista Mauro Osório.
Os resultados do Ideb de 2011 apontam que 33% das 70 melhores escolas da 1? à 5? série do Rio estão na Zona Sul e Grande Tijuca. E apenas 16,9% deste grupo de melhores unidades de ensino estão na Zona Oeste, região da cidade com os piores indicadores sociais e de renda.
Briga de bicheiros
A 2? Vara de Cachoeiras de Macacu interrogou ontem o PM Marcelo Alves da Silva, um dos acusados de tentar matar Rogério Mesquita (executado em 2009) por causa da disputa pelo espólio do bicheiro Maninho, morto em 2004.
Segundo o MP, o crime teria sido encomendado por Shanna Garcia, filha de Maninho.
Guerra dos artistas
Barretão reúne hoje uma tribo de artistas em torno de Eduardo Paes.
Grande Hotel
A Secretaria municipal de Urbanismo licenciou o projeto da GL Eventos de construção de um hotel de 306 quartos no Riocentro, no Rio.
Poxa, Boninho
Boninho foi visto furando a fila da ArtRio, domingo.
O governismo não compensa - JOSÉ AUGUSTO GUILHON ALBUQUERQUE
FOLHA DE SP - 18/09
Que disputa é esta em que Maluf pode optar entre os palanques do Lula e do Serra e o malufismo votará com Russomanno? Não há opção
As eleições na capital estão se revelando uma caixinha de surpresas.
A primeira delas é que, até agora, o tão esperado efeito Lula não deu o ar de sua graça. Nas eleições de 2010, a esta altura Dilma já estava garantida no segundo turno, enquanto o novo protégé de Lula continua comendo poeira, já tendo gasto meia sola de sapato.
Outra surpresa é a inversão de papéis entre Serra e Russomanno. Pelo andar da carruagem, não está de todo excluído que seja Serra, e não Russomanno, quem disputará com Haddad a honra de chegar ao segundo turno na lanterna, contra o candidato populo-malufo-evangélico que, tal um Jânio redivivo, come o eleitorado centrista de Serra pelas duas bordas, à direita e à esquerda.
Poupado até ontem pela esperteza dos adversários que o consideravam carta fora do baralho, Russomanno vem nadando de braçada, juntando rejeições ao lulismo a rejeições ao tucanato, somadas ao voto malufista.
O lugar do malufismo nestas eleições -ao mesmo tempo oficialmente no palanque do PT e profundamente enraizado no populismo de direita que inspira Russomanno- é muito revelador: esta é uma eleição sem rumo e sem norte, deixando o eleitor sem opção.
Que disputa política é esta em que Maluf pode optar entre os palanques do Lula e do Serra e o malufismo votará com Russomanno?
Onde estará o eixo dessa competição entre variantes de um governismo envergonhado, difuso e onipresente? Obviamente não com o candidato petista, subproduto do ressentimento de Lula face às sucessivas derrotas que os paulistanos lhe têm infligido, imposto ao PT goela abaixo e com quem o eleitorado petista mais fiel sequer consegue se identificar.
Tampouco serão essas outras caras novas, com pouco ou nenhum lastro conhecido e que disputam entre si a medalha de melhor comportamento junto ao padrinho e à madrinha dos pobres.
Quanto a Serra, deixou-se iludir pela extensão do tempo de TV e pela esperança de que o marketing resolvesse tudo.
Mas quem elege é mesmo o cidadão comum e, em São Paulo, o governismo não compensa. O paulistano não deve sua existência a nenhum governo, já não tem paciência com a corrupção, a impunidade, o desperdício, a incompetência, o eterno improviso, a mudança quase diária de normas e leis, o nível que o compadrio e o filhotismo atingiram em nosso país.
Isso sem falar na intimidação e no desrespeito aos direitos essenciais dos cidadãos, impostos por hordas de desordeiros que afrontam as leis e paralisam o país, mimetizando a luta de classes em autêntico deboche para com os mais necessitados.
O gesto do STF, ao castigar impiedosamente os graúdos, tratando a bandidagem como criminosos que são, está tendo um impacto profundo na população. Talvez não dure, mas enquanto durar o eleitor não vai aceitar, de seus representantes, nada menos do que um gesto à altura.
Que disputa é esta em que Maluf pode optar entre os palanques do Lula e do Serra e o malufismo votará com Russomanno? Não há opção
As eleições na capital estão se revelando uma caixinha de surpresas.
A primeira delas é que, até agora, o tão esperado efeito Lula não deu o ar de sua graça. Nas eleições de 2010, a esta altura Dilma já estava garantida no segundo turno, enquanto o novo protégé de Lula continua comendo poeira, já tendo gasto meia sola de sapato.
Outra surpresa é a inversão de papéis entre Serra e Russomanno. Pelo andar da carruagem, não está de todo excluído que seja Serra, e não Russomanno, quem disputará com Haddad a honra de chegar ao segundo turno na lanterna, contra o candidato populo-malufo-evangélico que, tal um Jânio redivivo, come o eleitorado centrista de Serra pelas duas bordas, à direita e à esquerda.
Poupado até ontem pela esperteza dos adversários que o consideravam carta fora do baralho, Russomanno vem nadando de braçada, juntando rejeições ao lulismo a rejeições ao tucanato, somadas ao voto malufista.
O lugar do malufismo nestas eleições -ao mesmo tempo oficialmente no palanque do PT e profundamente enraizado no populismo de direita que inspira Russomanno- é muito revelador: esta é uma eleição sem rumo e sem norte, deixando o eleitor sem opção.
Que disputa política é esta em que Maluf pode optar entre os palanques do Lula e do Serra e o malufismo votará com Russomanno?
Onde estará o eixo dessa competição entre variantes de um governismo envergonhado, difuso e onipresente? Obviamente não com o candidato petista, subproduto do ressentimento de Lula face às sucessivas derrotas que os paulistanos lhe têm infligido, imposto ao PT goela abaixo e com quem o eleitorado petista mais fiel sequer consegue se identificar.
Tampouco serão essas outras caras novas, com pouco ou nenhum lastro conhecido e que disputam entre si a medalha de melhor comportamento junto ao padrinho e à madrinha dos pobres.
Quanto a Serra, deixou-se iludir pela extensão do tempo de TV e pela esperança de que o marketing resolvesse tudo.
Mas quem elege é mesmo o cidadão comum e, em São Paulo, o governismo não compensa. O paulistano não deve sua existência a nenhum governo, já não tem paciência com a corrupção, a impunidade, o desperdício, a incompetência, o eterno improviso, a mudança quase diária de normas e leis, o nível que o compadrio e o filhotismo atingiram em nosso país.
Isso sem falar na intimidação e no desrespeito aos direitos essenciais dos cidadãos, impostos por hordas de desordeiros que afrontam as leis e paralisam o país, mimetizando a luta de classes em autêntico deboche para com os mais necessitados.
O gesto do STF, ao castigar impiedosamente os graúdos, tratando a bandidagem como criminosos que são, está tendo um impacto profundo na população. Talvez não dure, mas enquanto durar o eleitor não vai aceitar, de seus representantes, nada menos do que um gesto à altura.
Os estrangeiros perguntam - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 18/09
LULA VAI voltar? Mas Dilma Rousseff não é muito popular, com mais de 70% de aprovação? Onde fica a praia "x", que tem baleias? Muito animadora a "Clean Record Law" (Lei da Ficha Limpa). O Brasil melhora na corrupção, mas regride na economia, com Estado demais. Existe um bom restaurante brasileiro na região de Boston?
Reunião informal, "festa", com professores de Harvard e universidades da região, além de pesquisadores e estudantes e brasileiros vários. A maioria conhece razoavelmente o Brasil. Poucos falam de economia. Muito "brasilianista" agora se dedica mais a assuntos como sexo, educação, religião, ambiente, "culturas das periferias", empreendedorismo.
Quem fala de economia trata de protecionismo e/ou dos motivos do baixo crescimento recente.
A conversa curta, em meio ao barulho, não permite descobrir se o interlocutor conhece bem a política econômica. Pode ser que as perguntas apenas tenham sido sugeridas pelo mais recente dos muitos textos que a "Economist" ou o "Financial Times" publica desancando o governo brasileiro.
Seja como for, pergunta-se por que o Brasil barra importações ("até louças! Comida congelada!", dizem), por que o governo "só" compra de empresas nacionais, por que barrou a importação de carros, por que a Petrosal, por que o BNDES subsidia multinacionais no Brasil, por que o Brasil não segue o exemplo de Chile, Peru, Colômbia e México, que montam uma área de livre comércio "de verdade".
Mas há quem lembre que Dilma quer "reduzir o custo Brasil" (assim mesmo, em português) e lançou também um "plano de privatizações" (as concessões na área de infraestrutura). Os professores mais "heterodoxos" da universidade obviamente não estão na festa.
Muitos falam de Lula, que faz menos de um mês deu entrevista ao "New York Times". O texto da reportagem sugeria que Lula poderia voltar, embora talvez não em 2014.
Querem saber também o que o ex-presidente tem a ver com o "julgamento da cúpula do Partido dos Trabalhadores" (o julgamento do mensalão), como diz um conviva.
Este brasileiro ouve várias congratulações sobre o progresso nacional no combate à corrupção. Mencionam especificamente tribunais barrando candidatos podres ao posto de prefeito, obviamente o julgamento do mensalão, as tentativas de barrar o tráfico no Rio (sic) e até as providências do Conselho Nacional de Justiça. Enfim ninguém pergunta da Amazônia, mas comentam os problemas com direitos de trabalhadores rurais e escravidão.
Uma pesquisadora observa que o Brasil tem uma presidente mulher e a maior cidade do país teve "recentemente" duas prefeitas, também um progresso "admirável", ao qual os americanos resistem.
Por que Dilma Rousseff é tão popular, se é tão discreta e a economia tem crescido tão pouco? É o desemprego baixo? Foi o apoio que deu ao combate à corrupção (a demissão de ministros enrolados pegou bem até aqui fora)?
Um professor diz que Dilma tenta dar "racionalidade ao debate político brasileiro, muito radicalizado no governo anterior". Mas na rodinha discute-se se ela terá o "impulso" de fazer grandes reformas econômicas (FHC) ou "sociais" (Lula).
Muita calma nessa hora! - TUTTY VASQUES
O Estado de S.Paulo - 18/09
Ainda não se pode responsabilizar a torcida do Palmeiras por toda situação que ameace fugir de controle em São Paulo! Ontem mesmo, tanto o quebra-quebra nos trilhos do trem quanto o incêndio na favela não tiveram, decerto, nada a ver com a derrota de véspera para o Corinthians.
O que não diminui a preocupação até de quem não é palmeirense com a possibilidade de uma volta do Verdão à segundona. Se, faltando 13 rodadas para escapar da catástrofe, a galera começou a quebrar estádio e lanchonete por conta, sabe Deus onde isso vai parar!
Mal comparando, multidões em fúria são todas iguais e pelo menos duas delas protagonizam más notícias internacionais de grande porte no momento.
A explosão de ira detonada no Oriente Médio por um filmete da 5.ª divisão do cinema americano faz sombra no noticiário às manifestações explícitas de ódio chinês fervoroso contra tudo que é japonês - aí incluídos carros e restaurantes -, em função da disputa por uma porcaria de arquipélago inabitável entre os dois países.
Besteira, como se vê, argumentar com a Mancha Alviverde que não há motivos para sair por aí barbarizando a cidade. Melhor pedir calma ao pessoal, e rezar!
Exemplo frustrado
Que coisa feia a briga judicial da família de Orestes Quércia pela herança do ex-governador que, pelo visto, não deixou para mulher e filhos o que tinha de melhor: o total desapego pelo dinheiro! Que Deus o tenha!
Basta!
Parado numa blitz da lei seca no Rio, o ex-comandante do Bope Fernando Príncipe Martins teve bons motivos para se recusar a soprar o bafômetro. Se desse essa confiança a um subalterno, o soldado que o abordou ia acabar querendo saber o que faz um coronel da PM pilotando um Porsche zero-quilômetro. Francamente!
Essa não!
Sempre à frente de seu tempo, Curitiba pode até mudar sua intenção de voto em Ratinho Jr., azarão nas pesquisas, se o candidato a prefeito insistir em ficar por aí dizendo que "meu pai dá credibilidade à minha campanha". Peralá! Pega mal pro eleitor!
Vai que...
Está aberta a Semana de Carona Solidária. Ainda que isso não vá melhorar em nada o trânsito na cidade, é sua grande chance de se oferecer para levar aquela vizinha ao trabalho sem parecer uma cantada barata.
Revelação decepcionante
Por razões diversas da bronca da família real britânica, fãs de Kate Middleton também estão inconformados com a publicação de fotos da mulher do príncipe William de topless. Alegam que a duquesa de Cambridge parecia bem mais interessante nas fantasias de cada um. Há controvérsias!
Ra, rai, ri, ri...
Parentes e amigos de Silvio Santos estão preocupados! Depois do Bozo e da Hebe, o dono do SBT mandou chamar o Lombardi de volta à emissora.
PT parte para o improviso - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 18/09
Nos tempos do telefone “orelhão”, que funcionava à base de ficha, criou-se a expressão “caiu a ficha”, usada quando alguém de se dava conta da importância ou da gravidade de determinado fato. É mais ou menos isso que aconteceu ontem no comando petista e entre os réus do mensalão. A leitura de parte do voto do relator Joaquim Barbosa no capítulo que trata da compra de apoio no Congresso já foi suficiente para tirar quaisquer esperanças de absolvição na Ação Penal 470. E olha que Barbosa apenas começou a tratar do núcleo político. Mencionou justamente o caso do PP, um partido que, na época, nem da base aliada era, mas, mesmo assim, recebeu recursos. Logo, estaria aí, na visão do relator, caracterizada a compra de votos. Para alguns petistas, a senha está dada: se Barbosa diz que houve votos comprados, dirá que houve compradores, ou seja, o antigo núcleo petista está com os dias contados e, justamente nessa reta final da temporada eleitoral.
Barbosa ainda lia seu voto ontem, quando o PT fez circular uma nota chamando seus militantes às ruas para defender o partido, o legado do governo Lula e tentar tirar a estrela da sombra dos malfeitos, alguns já julgados — como o caso do fundo Visanet, em que o STF considerou que houve desvio de dinheiro público. Por isso, logo na primeira linha, a comissão executiva nacional apoia as medidas econômicas da presidente Dilma Rousseff, citando as mais populares — redução dos juros e das tarifas de energia elétrica. Tenta, assim, vincular o partido justamente àquelas medidas que tiveram apoio unânime. Afinal, quem não gosta de juros baixos e conta de luz mais barata?
Em seguida, a Executiva Nacional petista entrou no que interessa no momento à legenda: levar seus militantes a defender seus candidatos nessas eleições. A forma como o PT convoca seus filiados à campanha lembrou os tempos antigos, quando o partido não tinha tanto dinheiro, nem poder. Era uma época em que muitos corriam à loja de tecidos mais próxima em busca de um pano vermelho para costurar em casa a sua bandeira do PT. Eram voluntários lutando por uma causa. Agora são novamente convocados para afastar esse clima de condenação e lembrar ao eleitor as coisas boas do governo Lula. Resta sabe se atenderão ao chamado.
Por falar em clima…
Dentro do PT, há quem diga que essa defesa deveria ter sido feita há alguns anos — e pelo próprio Lula. Durante todo o período que esteve no governo, o ex-presidente não enfrentou o debate do mensalão. Em 2011, quando recém havia deixado a Presidência da República, Lula mencionou no aniversário do partido que era chegada a hora de discutir esse assunto de forma clara dentro da legenda. Mas o tempo passou, o ex-presidente foi cuidar de outros temas e, depois, veio o câncer que tirou Lula de cena. Agora, curado, ele volta em pleno julgamento embolado com a eleição municipal. Mas não se pode colocar a culpa em Lula. O PT, ao longo de sete anos, simplesmente não encontrou um tempo para fazer esse debate e construir a sua defesa política antes do julgamento. Foi empurrando com a barriga. Primeiro, foi a reeleição de Lula, depois a construção da candidatura de Dilma. O resultado é que agora terá que improvisar, a três semanas das eleições.
Paralelamente, há outro problema nesse improviso: parte daqueles que costuravam suas próprias bandeiras saíram para fundar o PSol ou seguiram outros rumos, justamente por discordar não só da proposta de reforma da Previdência, mas também da aliança com partidos que classificavam de “direita”, como o PP, o PTB e o antigo PL — coincidentemente os mesmos que têm seus comandantes em 2004 como réus na Ação Penal 470.
Por essas e outras é que, da mesma forma que os petistas vislumbram a condenação de seus antigos comandantes, muitos no partido não têm dúvidas de que enfrentarão nas próximas três semanas talvez a eleição mais difícil de toda a sua história. E, diante de decisões do STF, soa falso dizer que tudo não passou de armação política. Esse discurso, o PT ainda não encontrou. Diz apenas que os réus têm CPF e não CNPJ. Ou seja, o partido não fez até agora — e, pelo visto, não fará — o debate do mensalão. (E olha que até aqui não citamos sequer as supostas declarações de Marcos Valério e a tentativa de envolver Lula no enredo. E é de se estranhar o silêncio do PT a respeito dessas supostas declarações. A nota do partido, convocando os militantes, fala em eleição, na defesa de Lula, mas não explica os motivos pelos quais Lula, o mais popular do partido, precisaria de defesa. Diante dessa constatação, é possível afirmar que o PT continua firme na decisão de afastar a eleição do mensalão. Se vai dar certo, outubro dirá.)
A vida e os autos - MERVAL PEREIRA
O Globo - 18/09
A parte mais sensível do julgamento do mensalão, justamente a que cuida do envolvimento de políticos na trama criminosa, começou ontem cercada de fatos que não estão nos autos, mas na vida real: as denúncias atribuídas ao lobista Marcos Valério publicadas na revista “Veja”, a entrevista do ex-ministro José Dirceu, réu no processo, afirmando que não pretende fugir do país mesmo condenado, e o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, dando declarações cuidadosas sobre o envolvimento do ex-presidente Lula no mensalão.
Fatos da maior relevância que demonstram a etapa delicada da História política que vivemos atualmente.
O relator Joaquim Barbosa escolheu a dedo começar esta etapa do julgamento pelo PP, pois é o caso exemplar da compra de apoio político em troca de dinheiro. Partido que estava na oposição, o PP passou-se para o governo sem que houvesse nenhum motivo político relevante naquele momento para a adesão.
Até ali, nosso presidencialismo de coalizão não estava tão desmoralizado quanto hoje, quando todos cabem no barco governista a troco de cargos e salários. No início do primeiro governo Lula, ainda havia uma divisão de partidos mais claramente definida, e era preciso fazer a maioria à custa de pagamentos.
Além disso, o PP montou esquema de lavagem de dinheiro muito sofisticado, usando a corretora Bonus Banval, o que serve como exemplo da acusação de lavagem de dinheiro, que, para Barbosa, vem junto com a de corrupção passiva.
Essa, aliás, promete ser a discussão mais acalorada no plenário do STF. Se até agora as condenações e as absolvições foram definidas por placar elástico, a acusação de lavagem de dinheiro contra João Paulo Cunha foi aceita por placar bastante apertado, 6 a 5.
Nessa conta entram não apenas os votos dos ministros Lewandowski e Toffoli, que absolveram João Paulo até mesmo da acusação de corrupção passiva, mas até os que, como Rosa Weber, o fizeram por questões de entendimento jurídico. Para ela, a ocultação do dinheiro recebido por ato de corrupção faz parte desse crime, não significando um crime separado passível de nova punição.
Isso quer dizer que os que votaram pela condenação de João Paulo pelos dois crimes podem repetir a dose nesta rodada, ou, se um deles mudar de posição, pode até mesmo influir na sentença do ex-presidente da Câmara, já que os ministros podem mudar de voto até o acórdão com a decisão final do julgamento. Retirar a acusação de lavagem de dinheiro pode reduzir a pena de um condenado entre três a dez anos.
O relator deve ocupar pelo menos mais uma sessão, se não a totalidade das sessões desta semana, para ler o seu voto, pois estão em jogo nada menos que 23 réus e dezenas de acusações.
E o revisor provavelmente usará igual tempo para ler o seu voto de contraponto, o que levará o julgamento para um tempo bem além do previsto, quem sabe entrando mesmo por novembro.
Apesar disso, os ministros não entram em acordo para fazer sessões extras, uns porque, como Marco Aurélio Mello, acham que o julgamento não deve ter tratamento especial além do que consideram razoável, outros porque têm compromissos já assumidos ou trabalham também no Tribunal Superior Eleitoral.
Mas até mesmo os que, como o presidente Ayres Britto, gostariam de fazer mais sessões para apressar o julgamento, já veem no prolongamento dele fatores positivos. Como, por exemplo, o detalhamento da acusação e da defesa, assim como o debate entre os ministros vogais, para dar uma demonstração de que o julgamento obedece aos melhores ritos do estado de direito.
Simultaneamente, com o interesse crescente da população, alguns ministros estão convencidos que as sessões do STF se transformaram em exemplo de democracia e devem ter um efeito exemplar para os hábitos políticos do país.
O desfile de mutretas, encontros em quartos de hotéis, acordos políticos às escondidas em troca de dinheiro serve para demonizar essas práticas.
Ao mesmo tempo, os comentários paralelos, ora chamando a atenção para aspectos do rito do devido processo legal, ora para criticar atitudes heterodoxas na negociação política, além do teor dos próprios votos dos ministros, serviriam como uma lição de democracia.
A parte mais sensível do julgamento do mensalão, justamente a que cuida do envolvimento de políticos na trama criminosa, começou ontem cercada de fatos que não estão nos autos, mas na vida real: as denúncias atribuídas ao lobista Marcos Valério publicadas na revista “Veja”, a entrevista do ex-ministro José Dirceu, réu no processo, afirmando que não pretende fugir do país mesmo condenado, e o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, dando declarações cuidadosas sobre o envolvimento do ex-presidente Lula no mensalão.
Fatos da maior relevância que demonstram a etapa delicada da História política que vivemos atualmente.
O relator Joaquim Barbosa escolheu a dedo começar esta etapa do julgamento pelo PP, pois é o caso exemplar da compra de apoio político em troca de dinheiro. Partido que estava na oposição, o PP passou-se para o governo sem que houvesse nenhum motivo político relevante naquele momento para a adesão.
Até ali, nosso presidencialismo de coalizão não estava tão desmoralizado quanto hoje, quando todos cabem no barco governista a troco de cargos e salários. No início do primeiro governo Lula, ainda havia uma divisão de partidos mais claramente definida, e era preciso fazer a maioria à custa de pagamentos.
Além disso, o PP montou esquema de lavagem de dinheiro muito sofisticado, usando a corretora Bonus Banval, o que serve como exemplo da acusação de lavagem de dinheiro, que, para Barbosa, vem junto com a de corrupção passiva.
Essa, aliás, promete ser a discussão mais acalorada no plenário do STF. Se até agora as condenações e as absolvições foram definidas por placar elástico, a acusação de lavagem de dinheiro contra João Paulo Cunha foi aceita por placar bastante apertado, 6 a 5.
Nessa conta entram não apenas os votos dos ministros Lewandowski e Toffoli, que absolveram João Paulo até mesmo da acusação de corrupção passiva, mas até os que, como Rosa Weber, o fizeram por questões de entendimento jurídico. Para ela, a ocultação do dinheiro recebido por ato de corrupção faz parte desse crime, não significando um crime separado passível de nova punição.
Isso quer dizer que os que votaram pela condenação de João Paulo pelos dois crimes podem repetir a dose nesta rodada, ou, se um deles mudar de posição, pode até mesmo influir na sentença do ex-presidente da Câmara, já que os ministros podem mudar de voto até o acórdão com a decisão final do julgamento. Retirar a acusação de lavagem de dinheiro pode reduzir a pena de um condenado entre três a dez anos.
O relator deve ocupar pelo menos mais uma sessão, se não a totalidade das sessões desta semana, para ler o seu voto, pois estão em jogo nada menos que 23 réus e dezenas de acusações.
E o revisor provavelmente usará igual tempo para ler o seu voto de contraponto, o que levará o julgamento para um tempo bem além do previsto, quem sabe entrando mesmo por novembro.
Apesar disso, os ministros não entram em acordo para fazer sessões extras, uns porque, como Marco Aurélio Mello, acham que o julgamento não deve ter tratamento especial além do que consideram razoável, outros porque têm compromissos já assumidos ou trabalham também no Tribunal Superior Eleitoral.
Mas até mesmo os que, como o presidente Ayres Britto, gostariam de fazer mais sessões para apressar o julgamento, já veem no prolongamento dele fatores positivos. Como, por exemplo, o detalhamento da acusação e da defesa, assim como o debate entre os ministros vogais, para dar uma demonstração de que o julgamento obedece aos melhores ritos do estado de direito.
Simultaneamente, com o interesse crescente da população, alguns ministros estão convencidos que as sessões do STF se transformaram em exemplo de democracia e devem ter um efeito exemplar para os hábitos políticos do país.
O desfile de mutretas, encontros em quartos de hotéis, acordos políticos às escondidas em troca de dinheiro serve para demonizar essas práticas.
Ao mesmo tempo, os comentários paralelos, ora chamando a atenção para aspectos do rito do devido processo legal, ora para criticar atitudes heterodoxas na negociação política, além do teor dos próprios votos dos ministros, serviriam como uma lição de democracia.
Para começar - VLADIMIR SAFATLE
FOLHA DE SP - 18/09
Peço permissão para falar na primeira pessoa, pois creio que o valor do que gostaria de relatar não é meramente anedótico.
Há uma semana, achei por bem fazer um teste e perguntar à minha filha de 12 anos como ela imaginaria o mundo no ano de 2030.
A ideia era procurar descobrir alguém que vê o futuro como um campo completamente virgem. Talvez uma oportunidade para ouvir a voz de sujeitos para quem 2030 seria seu espaço de direito. Espaço que, a princípio, poderiam moldar a partir da soberania de sua vontade.
Mas, aos poucos, sua descrição foi assemelhando-se a uma distopia de cidades à beira de um colapso, pessoas obesas por não fazerem exercícios e celulares de hologramas.
A primeira reação foi acreditar que tinha forçado um pouco a mão na ideia de uma educação baseada no desenvolvimento do senso crítico. Não deixa de ser surpreendente ouvir alguém tão novo e tão crítico a respeito das possibilidades de transformação do futuro.
Mas talvez tal fenômeno deva ser compreendido de outra forma. Ver o futuro como uma distopia é a expressão mais simples de desconforto com o presente. Há algo no presente que parece se esgotar rapidamente. Como ainda não temos a imagem do novo, a figura do futuro problemático aparece como sinal de respeito pelo que ainda não é possível.
Muitas vezes, a verdadeira esperança não está na crença radiante em um mundo reconciliado. Essa crença, quando aparece muito cedo, acaba por matar toda reconciliação possível. Por isso, a verdadeira esperança sempre é precedida por uma profunda recusa. Dessa recusa vem a abertura para realizar o que ainda não sabe-mos como fazer.
Theodor Adorno costumava dizer que a posição atual do artista era a de alguém que deve fazer coisas que não podem ser esboçadas previamente como projetos intencionais. Ele deve ser capaz de confiar no que não consegue enxergar completamente. Isto porque ele sabe que deve conseguir fazer falar o que ainda não tem figura.
Essa estranha confiança dos artistas adornianos é o que acolherá a recusa de alguns que, agora, estão a sair da infância e a caminhar em direção a um momento de profunda reconstrução. Uma reconstrução na qual experiência subjetiva e experiência social se entrelaçam.
Por caminhos os mais insuspeitos, a vida sempre consegue resolver os problemas que ela coloca para si. Às vezes, ela tenciona as expectativas ao máximo, pois sabe que só isso coloca a criatividade em movimento. Por tudo isso, creio que, mais uma vez, minha filha tem razão no que diz.
Peço permissão para falar na primeira pessoa, pois creio que o valor do que gostaria de relatar não é meramente anedótico.
Há uma semana, achei por bem fazer um teste e perguntar à minha filha de 12 anos como ela imaginaria o mundo no ano de 2030.
A ideia era procurar descobrir alguém que vê o futuro como um campo completamente virgem. Talvez uma oportunidade para ouvir a voz de sujeitos para quem 2030 seria seu espaço de direito. Espaço que, a princípio, poderiam moldar a partir da soberania de sua vontade.
Mas, aos poucos, sua descrição foi assemelhando-se a uma distopia de cidades à beira de um colapso, pessoas obesas por não fazerem exercícios e celulares de hologramas.
A primeira reação foi acreditar que tinha forçado um pouco a mão na ideia de uma educação baseada no desenvolvimento do senso crítico. Não deixa de ser surpreendente ouvir alguém tão novo e tão crítico a respeito das possibilidades de transformação do futuro.
Mas talvez tal fenômeno deva ser compreendido de outra forma. Ver o futuro como uma distopia é a expressão mais simples de desconforto com o presente. Há algo no presente que parece se esgotar rapidamente. Como ainda não temos a imagem do novo, a figura do futuro problemático aparece como sinal de respeito pelo que ainda não é possível.
Muitas vezes, a verdadeira esperança não está na crença radiante em um mundo reconciliado. Essa crença, quando aparece muito cedo, acaba por matar toda reconciliação possível. Por isso, a verdadeira esperança sempre é precedida por uma profunda recusa. Dessa recusa vem a abertura para realizar o que ainda não sabe-mos como fazer.
Theodor Adorno costumava dizer que a posição atual do artista era a de alguém que deve fazer coisas que não podem ser esboçadas previamente como projetos intencionais. Ele deve ser capaz de confiar no que não consegue enxergar completamente. Isto porque ele sabe que deve conseguir fazer falar o que ainda não tem figura.
Essa estranha confiança dos artistas adornianos é o que acolherá a recusa de alguns que, agora, estão a sair da infância e a caminhar em direção a um momento de profunda reconstrução. Uma reconstrução na qual experiência subjetiva e experiência social se entrelaçam.
Por caminhos os mais insuspeitos, a vida sempre consegue resolver os problemas que ela coloca para si. Às vezes, ela tenciona as expectativas ao máximo, pois sabe que só isso coloca a criatividade em movimento. Por tudo isso, creio que, mais uma vez, minha filha tem razão no que diz.
Um só Deus, muitas vozes - CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SP - 18/09
Serra olhou para a moça e disparou: "Você é árabe e está vestida desse jeito?"
A jornalista vestia uma T-shirt branca discreta e jeans idem. Suponho que Serra deve ter pensando que mulher árabe usa obrigatoriamente o véu islâmico, talvez a burca.
Conto esse episódio, obviamente micro, apenas para pontuar o fato de que "o público e a mídia ocidentais tendem a ser no geral ignorantes a respeito do Islã e da natureza dos movimentos islamitas", como diz Joost Hiltermann, sub-diretor do Programa para o Oriente Médio e o Norte da África do International Crisis Group, dedicado à prevenção de conflitos.
Completa o especialista: "O movimento islamita é muito diverso, com muitas diferentes ideologias, metas e métodos".
Essa diferenciação é essencial se se quiser entender melhor as manifestações dos últimos dias a pretexto de um filme que ofende o Profeta Maomé. A violência empregada nelas dá a sensação de um levante dos muçulmanos contra o Ocidente ou mais precisamente os Estados Unidos.
Impressão falsa. Foi, essencialmente, uma agitação salafista (o movimento ultra-ortodoxo que pretende viver o Islã como nos tempos do Profeta; "salaf" em árabe quer dizer exatamente "predecessor" ou "ancestral").
Tariq Ramadan, um dos principais acadêmicos do Islã no Ocidente, já havia deixado claro esse aspecto na excelente entrevista que Marcelo Ninio fez com ele, publicada ontem, ao dizer que os militantes salafistas usaram o filme "com o objetivo de se apresentar como a única e exclusiva corrente islâmica".
Os salafistas não são os únicos nem sequer os majoritários nem a violência é predominante no Islã, como o demonstra a equação assim apresentada por Joost Hiltermann:
"Todos os militantes da Al Qaeda são salafistas mas nem todos os salafistas são membros da Al Qaeda ou de qualquer outra variante de 'guerra santa' violenta; de fato, a maioria dos salafistas são inteiramente pacíficos".
Mais: "Embora todos os salafistas sejam muçulmanos, a vasta maioria dos muçulmanos não são salafistas, o que significa dizer que estamos falando da minoria de uma minoria, de um grupo extremamente pequeno de pessoas que, no entanto, por sua extrema violência tem influência desproporcional".
Influência ainda maior quando se acrescenta a visão de Jean-François Daguzan, diretor-adjunto da Fundação para a Pesquisa Estratégica de Paris, para "El País": a força dos grupos violentos "cresce ante a debilidade do Estado (Líbia) ou o que se percebe como debilidade dos partidos islamitas no poder (Egito, Tunísia, Marrocos), que não sabem bem como enfrentá-los, se com dureza ou mediante negociação".
Tudo somado, é razoável supor que a galáxia continuará desafiando a compreensão do Ocidente
Incentivos fiscais e desenvolvimento regional - ANTONIO DELFIM NETTO
Valor Econômico - 18/09
O imperativo de uma reforma fiscal constitui unanimidade entre nós. É, portanto, paradoxal que mudanças nessa área apresentem tanta dificuldade para avançar. No caso do sistema tributário - apenas uma dimensão da questão fiscal -, todas as tentativas de reforma até agora foram frustradas, principalmente pela impossibilidade de reunir o necessário consenso dos entes da Federação em torno de uma agenda mínima.
Em sua essência, nosso sistema atual continua sendo o sistema de 1967 - desvirtuado e, pior, com uma carga tributária bem mais alta. Encontra-se evidentemente superado pelo tempo, dada a magnitude das mudanças ocorridas na economia brasileira desde então.
A insistência na utilização de um sistema desenhado para uma realidade econômica, doméstica e mundial, completamente diferente, produz sérias distorções na economia. Sua inadequação aos tempos atuais vem causando estragos na nossa competitividade, especialmente graves no setor industrial.
O sistema tributário está evidentemente superado pelo tempo
Igualmente importante, o sistema vem se tornando crescentemente obsoleto como esteio do pacto federativo, o grande acordo que mantém a convivência harmônica entre União, Estados e municípios. Em muitas instâncias, talvez em função da dificuldade para enfrentar de forma definitiva os problemas, soluções provisórias foram adotadas, como nos casos dos critérios de rateio dos fundos de participação e dos incentivos e benefícios de ICMS concedidos pelos Estados. Em ambos os casos, a Constituição prevê a regulamentação da matéria por meio de novas leis complementares.
No primeiro, a regra provisória de rateio, de 1989, foi declarada inconstitucional pelo STF. No segundo, a nova lei complementar do ICMS simplesmente omitiu o tema, mantendo assim a solução provisória de utilização da Lei Complementar 24, de 1975, ou seja, de obrigatoriedade da aprovação de qualquer benefício estadual de ICMS, por unanimidade, no Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz).
Especialmente no caso dos incentivos estaduais, de longe a mais complexa das questões federativas, a falta de uma solução definitiva vem provocando um quadro de insegurança jurídica muito preocupante, pois causa adiamentos e/ou cancelamentos de investimentos, com sérios prejuízos para a nossa capacidade de crescer e gerar emprego e renda.
Não é sustentável o contexto atual, no qual ações abarrotam a Justiça, em grande maioria arguindo a constitucionalidade dos créditos de ICMS gerados no comércio interestadual a partir de operações que auferiram benefícios/incentivos nos Estados de origem, sem que os mesmos tivessem sido aprovados pelo Confaz. O tema, inclusive, encontra-se sob a ameaça de edição de súmula vinculante pelo Supremo.
Torna-se urgente retirar o foco do debate do Judiciário, trazendo-o novamente para o campo político. Somente um grande acordo político pode pacificar o atual ambiente de conflito. A busca de uma solução para o problema requer uma reflexão sobre as causas que lhe deram origem.
A questão apresenta, sem dúvida, múltiplos aspectos. Um dos mais relevantes relaciona-se à política de promoção do equilíbrio regional. Efetivamente, a redução das disparidades regionais consta como objetivo estratégico de todos os planos nacionais de desenvolvimento. Ocorre que com o passar do tempo, por uma série de razões, a União foi paulatinamente abandonando suas responsabilidades no campo do desenvolvimento regional.
A tendência acentuou-se principalmente a partir da crise fiscal e da promulgação da nova Constituição, em 1988, que impactaram negativamente as contas federais, e da abertura ao exterior promovida em 1991. Como consequência, a União desinteressou-se dos impostos compartilhados, notadamente o IR e o IPI, que constituem a base de recursos dos fundos de participação. Essa base caiu, entre 1988 e 2010, de 78% para 48% do total de recursos arrecadados pela União, reforçando o processo de enfraquecimento dos Estados, principalmente dos menos desenvolvidos, os mais dependentes da receita proveniente dos fundos de participação.
Estados fracos enfraquecem a Federação. De fato, os Estados detêm hoje (2010) cerca de 25,3% da receita total do bolo tributário, contra 38,3% em 1965 e 30,0% em 1988. Enquanto isso, tanto a União quanto os municípios experimentaram aumentos expressivos, principalmente os últimos, que, de cerca de 8,9% em 1965, alcançaram em 2010 nada menos que 18,5% do bolo tributário. O mais grave é que tais mudanças na repartição do bolo de recursos não tiveram a contrapartida correspondente na divisão de encargos entre as três esferas.
Está claro que passou da hora para se editar uma nova lei complementar, que modernize a regulamentação da concessão de incentivos de ICMS, como prevê a Constituição Federal. É preciso encontrar uma solução que preserve o instrumento da harmonização, mas, ao mesmo tempo, devolva aos Estados, dentro de limites bem definidos, algum grau de autonomia.
Essa seria uma iniciativa importante no contexto de uma política de desenvolvimento regional, instrumento fundamental em um país como o nosso, que, a despeito do progresso alcançado em muitas áreas, apresenta ainda enormes e persistentes disparidades regionais.
Na rede - SONIA RACY
O ESTADÃO - 18/09
O documento será encaminhado ao Ministério das Comunicações e à Anatel.
Na rede 2
Uma sugestão é endurecer as regras para responsabilizar provedores de internet que divulgam conteúdo impróprio de terceiros – como racismo.
Pela proposta, em tramitação na Câmara, eles são obrigados a retirar o conteúdo do ar só após serem notificados por um juiz. Até lá…
Na rede 3
O projeto, diga-se, vem causando rebuliço entre deputados há mais de duas semanas. Parlamentares alinhados com Dilma querem, primeiro, votar o Marco Civil; já a oposição defende que o melhor, antes, é tipificar os crimes cibernéticos.
Dança de cadeiras
Maria Luiza Viotti está de malas prontas. Depois de ceder seu lugar a Luiz Alberto Figueiredo na ONU, vai para a embaixada de Berlim.
Tem lógica
Aos que estranham o fato de tanto Serra como Haddad não baterem forte em Russomanno, vai aqui uma explicação apurada junto a especialistas em eleição.
O PSDB, tradicionalmente, tem 60% dos votos no centro expandido de SP e, hoje, está com 25%. Já o PT, que conta com 50% dos votos da periferia, hoje está com 20%.
Tem lógica 2
Ao bater em Russomanno, a expectativa é de que ele caia, sim, nas pesquisas. O problema é onde, fator importantíssimo na briga para estar no segundo turno.
Não se sabe se o candidato da TV Record cairia primeiro na área dominada pelos tucanos (aí, Serra subiria, garantindo o segundo turno) ou se perderia votos primeiro na periferia – permitindo a Haddad subir e ultrapassar Serra.
Futuro de lado
No almoço de Lula e Haddad com os governadores do Nordeste, domingo, em São Paulo, Aloizio Mercadante e Alexandre Padilha eram só elogios a Marta Suplicy. Lembrados por repórteres que os três são prováveis pré-candidatos ao governo do Estado de São Paulo, ambos saíram pela tangente.
Explicaram que, no momento, só têm cabeça para seus… ministérios.
Way in
Não será tentando comprar a Amil que a gigante americana UnitedHealth Group, com faturamento de mais de US$ 110 bilhões por ano, entrará no vasto mercado brasileiro.
Contrariando as expectativas, a empresa decidiu não atuar no segmento de seguro-saúde. Os americanos se assustaram com as “especificidades” regulatórias.
Way in 2
Entretanto, vão entrar na área de serviços de assistência à saúde. Como? Criaram a Optum do Brasil, que está comprando uma pequena companhia de serviços.
Não entra mosquito
Salman Rushdie– escritor cuja cabeça valorizou e está sendo leiloada por U$3,3 milhões no Irã – deu determinação a seus agentes pelo mundo: não comentar os ataques às embaixadas americanas no mundo árabe.
“Deixo esta função para Mitt Romney”, justificou Rushdie.
Bombordo
André Ribeiro, a bordo de seu carro, desafiará um… barco a motor. Ambos sairão hoje da ponte das Bandeiras e irão até a ponte dos Remédios (o Cebolão) – em pleno horário de pico.
Dentro do projeto Por Uma Cidade Navegável, promovido pelo São Paulo Boat Show.
Finger de luxo
E executivos da Etihad já estão à caça de um lugar para abrir escritório em São Paulo.
A empresa aérea inicia operações no País em junho de 2013, na rota Cumbica-Abu Dhabi.
Na frente
Ronaldo gravou com Zeca Camargo no Rodeio dos Jardins, sexta. É o Medida Certa?
Em prol da Amigoh, Martha Medeiros, Maythe Birman, Claudia Cinel, entre outras, organizam lançamento de joias de Ana Cláudia Rocha e Ana Appolinário. Amanhã, no Morumbi.
A Prada arma festa na loja do Shopping JK. Hoje.
André Singer lança o livro Os Sentidos do Lulismo. Hoje, na FFLCH-USP.
A pré-estreia do filme Boca acontece hoje, no Cine Livraria Cultura da Paulista.
Rosana e Marcelo Cunha armam evento gastronômico e leilão para arrecadar fundos para a Fundação Oftalmológica Dr. Rubem Cunha. Quinta, no Rubaiyat Faria Lima.
O Conjunto Nacional e a Sala São Paulo apagarão os relógios por um minuto, às 20h de hoje. Ação do Tucca para conscientizar a população sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer de olho infantil.
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