sexta-feira, novembro 18, 2011

Por que Dilma faz sucesso? - JOÃO MELLÃO NETO


O ESTADÃO - 18/11/11

Pesquisa CNI/Ibope recente aponta que a presidente Dilma Rousseff, em setembro, foi aprovada por 71% da população. Esse resultado foi melhor que os de Luiz Inácio Lula da Silva e de Fernando Henrique Cardoso em igual período de governo, em seus primeiros mandatos. É um índice espetacular. O pessoal de seu partido, o PT, deveria estar exultante... Porém não está. Na verdade, os petistas autênticos - ideológicos - estão é muito apreensivos.

E qual seria a razão para tamanho desalento?

Simples. A popularidade de Dilma Rousseff não se deve ao desempenho da economia nem à excelência da sua gestão. O primeiro indica um crescimento pífio e a segunda se tem caracterizado pelo curto prazo de validade de seus ministros. Dilma está com a bola toda por motivos que os petistas julgam equivocados. Ao menos aos olhos dos militantes do partido. A sua tão festejada "faxina ética" é algo que contraria todos os dogmas da esquerda.

Combater a corrupção com moralismo não funciona, alertam alguns. A corrupção é inerente ao sistema capitalista, proclamam outros.

Basta consultar os principais blogs simpáticos à "causa" para saber que o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu - anjo decaído do poder central -, permanece sendo um ícone para a militância partidária. Por ocasião do 2.º Congresso da Juventude Petista, no último domingo, Dirceu ponderou que, "nas duas vezes em que houve lutas moralistas contra a corrupção, deu no Jânio e no Collor: um renunciou e o outro sofreu impeachment".

Já o presidente do Partido dos Trabalhadores, nesse mesmo congresso, concluiu que "os adversários de Agnelo (Queiroz, governador do Distrito Federal, investigado pelo Superior Tribunal de Justiça por suspeita de desvio de dinheiro público) são canalhas e caluniadores. Eles tentam atingir o PT".

Dirceu, ao final do congresso petista, foi brindado com uma camiseta onde se lia: "Contra o golpe das elites".

Qual é o raciocínio que rege tão estranhas manifestações?

Que elites seriam essas, malvadas, que pretendem dar um golpe no democrático governo do PT?

Pelo visto, não são as elites da política e do sindicalismo - que compartilham o governo por intermédio do PT. Tampouco as elites econômicas e empresariais - escolhidas por critérios obscuros -, beneficiadas pelo crédito abundante e subsidiado do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social, mais conhecido como BNDES. E também não são, com certeza, os privilegiados "especialistas" que prestam consultorias milionárias às empresas estatais e aos fundos de pensão, porque tudo isso também é vinculado ao PT.

Então, se as tais elites malvadas não são nenhuma dessas acima apontadas, a que outras elites os dois dirigentes partidários se referiram?

Trata-se do seguinte: os petistas, bem como os demais socialistas, entendem que o grande roubo existente na sociedade é a exploração dos proletários pelos seus patrões. E a grande missão que lhes cabe no mundo é denunciar aos pobres que eles continuam pobres porque os ricos estão cada vez mais ricos. Os burgueses, por natureza, pouco ou nada trabalham. Vivem à custa da "mais-valia" que extraem do trabalho da massa proletária. Somente por meio da "conscientização" dessa massa a revolução se tornará possível...

Dentro da lógica deles, o combate à corrupção nos órgãos do governo é uma meta secundária, uma mera manifestação de moralismo pequeno-burguês.

Num sistema igualitário - como o que eles defendem -, a propriedade privada seria abolida e, assim sendo, as pessoas não teriam mais por que ambicionar riquezas. E muito menos por que buscar obtê-las por meios escusos.

Apresentada assim, até parece uma boa ideia... Só que existe um porém.

Todas as pessoas nascem iguais, é verdade. Mas os seus anseios, os seus talentos e os seus esforços acabam por torná-las diferentes. Nivelá-las, todas, por baixo, novamente, é algo que requer coerção e arbitrariedade. E a História nos ensina que sempre que a coerção e a arbitrariedade se apresentam à porta é a democracia que foge pela janela.

Não é à toa, portanto, que os petistas pregam o "controle social da mídia". É uma forma, digamos, educada de dizer que eles pretendem tolher o nosso direito de discordar. Não, não se trata de censura à imprensa, alegam. É apenas, talvez, uma pequena limitação do que a imprensa pode publicar...

Pessoalmente, eu sempre duvidei daqueles que acreditam saber julgar, melhor do que o povo, aquilo que o povo realmente quer e precisa.

Como Deus não revelou a sua Verdade a ninguém, como a nenhum partido político é concedido o direito de se arvorar em concessionário exclusivo da virtude e das boas intenções, o mais seguro para todos é preservar a liberdade. E a liberdade só se consuma por meio do pleno exercício de eleger e poder ser eleito, da alternância no poder, da segurança de poder discordar, da sacralidade dos direitos humanos, da justiça igual para todos, do respeito às prerrogativas de cada um. E, por fim, do direito, assegurado aos indivíduos, de cada um poder ser feliz à sua própria maneira.

E quanto ao povo em geral? É justo viver na miséria? É legítimo morrer de fome? Não existiriam, também, "direitos sociais" para ele?

Sem dúvida. Mas é preciso compreender que o povo que deseja o pão é o mesmo que exige honestidade. As pessoas, que são quase todas elas decentes, não admitem que os políticos não o sejam.

É por isso que Dilma faz sucesso. E é por isso, também, que o PT não faz.

GOSTOSA


Vai ficando - RENATA LO PRETE


FOLHA DE SP - 18/11/11



Convencida de que terá mais margem de manobra para promover mudanças no Ministério do Trabalho se substituir Carlos Lupi na reforma do início de 2012, Dilma Rousseff conta com um argumento extra para insistir nesse roteiro: a permanência do pedetista por mais um ou dois meses seria, do ponto de vista da presidente, "indolor". Não há pauta relevante aos cuidados da pasta nesse período. Lupi estaria, nas palavras de subordinados de Dilma, "esvaziado" e "controlado".
Para demiti-lo agora, portanto, ela teria de se ver diante do famoso fato novo e/ou de um novo surto de incontinência verbal do ministro.

Categoria ficção 1 Deputados que estiveram com Lupi na quarta garantem ter ouvido do ministro o relato segundo o qual, em meio à reunião com Dilma, ele teria recebido apoio de Lula. Àquela altura, o pedetista tentava convencer aliados de que reunia condições para permanecer. O Planalto nega que tal telefonema tenha ocorrido.

Categoria ficção 2 Correligionários dizem ainda que o relato de Lupi sobre sua conversa com Dilma foi bem mais otimista do que o recebido do governo.

Fui ali O Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, lançado às 11h, virou a desculpa oficial de senadores aliados que ignoraram o depoimento de Lupi.

Limpeza Possível destino do PDT no governo de Geraldo Alckmin em 2012, a Secretaria de Gestão Pública perderá três de suas vitrines: Prodesp e Poupatempo devem migrar com Julio Semeghini para o Planejamento. O Detran é postulado por Andrea Calabi (Fazenda).

Shopping Em namoro com o PSDB para a eleição paulistana, os pedetistas têm histórico de alianças com o PT em 2008 e 2010, ambas impostas pela direção nacional. "O risco é comprar e não levar", diz um grão-tucano.

Eu quero Frei Betto se move na tentativa de ser indicado por Dilma para a Comissão da Verdade, projeto que a presidente sancionará hoje em cerimônia no Planalto.

Eu não O nome, porém, não se encaixa no perfil que Dilma imagina para os sete conselheiros. Depois de aventadas opções como Marco Maciel, Cláudio Lembo e até FHC, a orientação agora é procurar pessoas com conhecimento e credibilidade, mas de baixo perfil.

Regulação A direção petista marcou para o dia 25, em SP, o seminário em que discutirá a "democratização da comunicação no Brasil". O ex-ministro Franklin Martins será convidado especial.

Papel passado O PT paulistano se reúne amanhã para oficializar a candidatura de Fernando Haddad à prefeitura e enterrar as prévias. O partido também discutirá o "timing" da desincompatibilização do ministro. Marta Suplicy não foi chamada, mas haddadistas esperam que ela apareça num ato de lançamento, voltado à militância, ainda neste ano.

Brother Em encontro intermediado pela Juventude do PSDB-SP, representantes de seis entidades estudantis, entre as quais UNE, Ubes e UEE, pediram a Alckmin que ele se comprometa com a meia-entrada para eventos culturais e esportivos no Estado e com o passe de ônibus escolar intermunicipal.

Visita à Folha Marcial Angel Portela Alvarez, presidente do banco Santander no Brasil, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio
"Recado a Dilma sobre o caso Lupi: falha de memória pode ser curada com tratamento médico; falha de caráter, só com demissão e processo judicial."
MAURÍCIO HUERTAS, SECRETÁRIO DE COMUNICAÇÃO DO PPS, eivindicando a saída do ministro do Trabalho, providência que, até ontem à noite, a presidente não se mostrava inclinada a tomar antes da reforma de 2012.

contraponto
Amigo da notícia

Durante depoimento à Comissão de Assuntos Sociais do Senado, ontem, Carlos Lupi agradeceu pela possibilidade de "falar sem ser editado". Para afastar a interpretação de que estaria criticando o trabalho dos jornalistas, o ministro logo cuidou de frisar:
-Eu defendo a liberdade de imprensa!
E continuou, lembrando seu passado como jornaleiro, para chegar até a crise atual:
-Eu já ajudei a vender jornal.... e agora, pelo visto, continuo ajudando!

Um corpo que cai - DORA KRAMER

 
O ESTADÃO - 18/11/11

Se realmente correspondem à realidade os relatos sobre o alto grau de exigência da presidente Dilma Rousseff em relação aos subordinados, é de se supor que na conversa de quarta- feira o ministro Carlos Lupi tenha dado a ela respostas mais precisas que as apresentadas ontem ao Senado.

Caso tenha sido vago,desmemoriado e, por que não dizer, cínico como se apresentou diante dos senadores, uma de duas: ou Dilma é mais condescendente que a fama ou não é verdade que tenha pedido a Lupi que permaneça à frente do Ministério do Trabalho e esteja prestes a demiti-lo.

Por mentir deslavadamente e por ser incapaz de fornecer dados consistentes às perguntas às quais respondia invariavelmente com uma evasiva, alegando não dispor da informação solicitada "de cabeça".

Não soube dizer, por exemplo, se havia recebido diárias do ministério na tal viagem que fez ao Maranhão em 2009 em avião pago sabe-se lá por quem para compromissos que incluíam agenda partidária.

Disse ter a "impressão" de que recebera uma diária. Poucos minutos depois, recebeu da senadora Kátia Abreu a informação: foram exatamente três diárias e meia.

Pouco antes Lupi havia se prontificado a devolver o dinheiro caso houvesse alguma irregularidade. Como, assim, "caso"? Então o ministro não sabe que além de ser proibido receber presentes e favores de qualquer natureza, a qualquer tempo e sob quaisquer justificativas também lhe é vedado o pagamento de despesas com o ministro, quando em atividade partidária? Sabe, mas se fez de desentendido, assim como usou do expediente da dissimulação para tentar dizer que não mentira ao negar semana passada na Câmara sequer conhecer o empresário Adair Meira - dono de ONG com negócios no ministério e seu companheiro na viagem ao Maranhão -, a quem ontem passou a se referir como "caro doutor Adair".

Lupi não esqueceu apenas as diárias recebidas. Não lembrou se a entidade de Adair era ou não uma das grandes operadoras no Ministério do Trabalho, não soube dar detalhes dos contratos firmados com ele, alegou desconhecer quem contrata os aviões em que viaja, enfim, não disse nada que pudesse desmentir as denúncias de que é, no mínimo, um gestor temerário.

Carlos Lupi pode até continuar ministro do Trabalho. Ao contrário do que pensam os adeptos da teoria de que os escândalos recorrentes fazem parte de uma conspiração contra o governo Dilma, sua permanência é que conspira contra a presidente.

Quanto mais tempo permanecer, mais desgaste vai produzir. Obviamente não para a oposição, mas para a presidente Dilma.

Saiu daquele depoimento no Senado menor e mais enrascado do que quando entrou. Foi corajoso ao ir? Não, foi compelido pelas circunstâncias.

Diferentemente de seus antecessores de infortúnio, Lupi não pôde contar com sessão de elogios, ficou relativamente só - à exceção do senador Eduardo Suplicy, a bancada do PT ausentou se da sessão - e teve de ouvir dois senadores do PDT defendendo sua saída para o bem do partido.

Uma situação desconfortável para a maioria das pessoas, mas não para quem não tenha nada a perder.

Para quem admirava Leonel Brizola dói na carne.

Inútil paisagem. Nesses episódios de escândalos, o governo se põe na situação daquela pessoa que depois de 15 dias de dieta constata que perdeu duas semanas e nada mais.

Com a falta de apoio do PDT, o caso voltou para o ponto inicial quando ensaiou deixar o ministro ao sereno e depois recuou porque do Planalto surgiram avisos de que sem sustentação partidária não havia como Lupi ficar.

O desgaste que poderia ser evitado, mas o PDT cumpre a escrita de que não é bom negócio abandonar governo com três anos pela frente.

Essa é a regra geral. Exceção nos últimos anos foi o PPS que apoiou Lula na eleição de 2002, ocupou o Ministério da Integração Nacional a partir de 2003 e em 2004 deixou o governo por discordar da política econômica e do padrão ético já então desenhado com o caso Waldomiro Diniz.

Ciro Gomes não quis deixar a pasta da Integração e terminou fora do partido.

Desacelerou - CELSO MING


O ESTADÃO - 18/11/11

O governo e o Banco Central têm feito seguidas advertências de que vem aí uma fase de grande prostração na economia mundial, cujos efeitos chegariam, inevitavelmente, ao bolso de cada brasileiro.

Essas previsões de fortes borrascas repetidamente anunciadas vêm ajudando a justificar e a estimular a queda dos juros. Mas também produzem o efeito colateral de levar o empresário brasileiro a pisar no freio e a ser mais cauteloso na condução dos seus negócios, embora os indicadores de consumo digam o contrário.

O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) divulgado nesta quinta-feira aponta para um recuo de 0,32% no terceiro trimestre deste ano em relação ao período imediatamente anterior - a primeira queda desde os primeiros três meses de 2009, quando o Banco Central passou a fazer esse levantamento. Em setembro, a evolução desse item praticamente estagnou em relação a agosto: não cresceu mais do que 0,02% e pode ser um forte indício de desaceleração da atividade econômica.

O IBC-Br é anunciado mensalmente. Nasceu com o objetivo de antecipar o comportamento do Produto Interno Bruto (PIB), calculado (Contas Nacionais) trimestralmente e, quase sempre, publicado no momento em que a conjuntura já está mudada.

O governo tem se mostrado bastante preocupado com o desempenho bem mais fraco da economia do que o anteriormente projetado. O PIB do Brasil neste ano, provavelmente, avançará algo acima dos 3% em relação a 2010, mas dá sinais de maior desaceleração. A ponto de deixar para trás um crescimento de 5% estimado pelo governo federal ao longo de 2012.

O que contraria esse panorama de desaquecimento da produção é o comportamento do consumo, que segue robusto apesar de alguns setores - sobretudo o de veículos e aparelhos domésticos - já demonstrarem um claro esfriamento. Os dados mais recentes são da Serasa Experian e dão conta de um impulso do comércio varejista, na acumulada do ano até outubro, de 9,1%.

Os últimos números sobre o setor apontados pelo IBGE são de setembro e registram um salto em 12 meses de 7,7%. O crédito aumentou 19,6%, também no período de 12 meses terminado em setembro - bem mais do que estava nos propósitos do governo. Esse indicador corrobora a boa fase do consumo interno, que deverá ter um novo reforço em janeiro, quando o salário mínimo terá reajuste de aproximadamente 14%. A forte elevação das importações, de 25,2% em 12 meses, sugere que boa parte da oferta está sendo suprida por fonte externa.

O arrefecimento da atividade econômica traz uma dificuldade adicional que, por sua vez, acarreta ainda uma segunda: gera uma arrecadação mais baixa do que a prevista e, portanto, tende a diminuir em volume de recursos a formação do superávit primário, de 3,1% do PIB, em 2012. E com menor contribuição da política fiscal fica também mais difícil contar com maior corte dos juros.

CONFIRA

Atrasados a receber. A equipe da Comissão Europeia encarregada de conferir as estatísticas econômicas da Grécia e as condições que o país tem de pagar suas contas verificou que o Tesouro grego tem nada menos que 60 bilhões de euros em impostos atrasados a receber. Não é nada, é um dinheiro que daria para pagar pelo menos metade dos 120 bilhões de euros prometidos a título de socorro para os gregos.

E tem a sonegação. Esses são apenas impostos não pagos, cujo recolhimento é muito difícil. À parte o fato de que os gregos arrecadam menos tributos do que os outros sócios do bloco do euro, ainda há a sonegação, considerada alta.

A um tico dos 100% do PIB. No dia 15, a dívida dos Estados Unidos chegou aos US$ 15,03 trilhões, o equivalente a 99% do PIB do país. O comitê bipartidário do Congresso americano ainda não conseguiu chegou a um acordo sobre os cortes de US$ 1,2 trilhão no prazo de dez anos, o que precisa acontecer até a próxima quarta-feira.

Rocinha e Alemão - MERVAL PEREIRA



O GLOBO - 18/11/11

O economista Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas do Rio, está lançando um estudo comparativo entre as duas maiores favelas da cidade, a Rocinha e o Alemão, e os efeitos da implantação nelas das UPPs. Ele faz parte de uma geração de economistas "cariocas" que, na sua própria definição, começou "a se debruçar sobre os caminhos e descaminhos da nossa própria terra".

Neri cita a coletânea "Rio de Janeiro: A hora da virada", de André Urani (nascido na Itália e criado em São Paulo) e Fabio Giambiagi (filho de argentinos, criado lá), cariocas por opção, como exemplo desse movimento.

Ele destaca que economistas cariocas traçaram as principais políticas públicas nacionais, do PAEG (Programa de Ação Econômica do Governo) dos anos 1960 ao Real, passando pelo Cruzado e chegando ao regime macroeconômico vigente, mas não só.

Do desenho do SUS ao Bolsa Família, que teve em Ricardo Paes e Barros e Ricardo Henriques figuras fundamentais, economistas do Rio sempre exerceram papel de destaque.

Nesse ínterim de ações nacionais, porém, os "três Rios" - cidade, estado e metrópole - "foram assoreados, perdendo importância", lamenta Neri.

O ponto de partida do trabalho da equipe da FGV-Rio foi a constatação de que moradias iguais (mesmo tamanho, materiais, acesso a serviços públicos) têm aluguéis 25% mais depreciados nas favelas do que no restante da cidade. "É o "efeito-favela" sobre o valor dos imóveis", diz ele.

Agora na comparação do pré e pós-UPP, essa situação começa a mudar. Segundo os estudos, os aluguéis subiram, após as UPPs, 6,8% mais nas favelas que no asfalto.

Mas Neri adverte que as favelas não são um bloco monolítico. "As UPPs implantadas em diferentes favelas terão impactos econômicos diferenciados".

O trabalho, baseado em 150 mil entrevistas nas duas comunidades, registrou a baixa esperança relativa dos moradores da Rocinha (pré-UPP) frente às possibilidades de transformação. "Esta mudança de percepções e atitudes talvez seja o maior desafio da intervenção", adverte Neri.

A pesquisa se debruça sobre as diferenças entre os complexos da Rocinha e do Alemão, e versa sobre quatro aspectos: em primeiro lugar, as condições de trabalho na Rocinha são claramente superiores às do Alemão.

Porém, dada a topografia local e sua posição privilegiada em relação à área já estabelecida como rica, e aquela em expansão da cidade, o estudo constata que há uma precariedade habitacional maior na Rocinha, "traduzida em maior aglomeração de pessoas e famílias em lugares menores e mais precários".

A terceira parte do tripé comparativo do estudo de Neri revela a menor presença do Estado sob as suas diversas formas na Rocinha: pior oferta de quase todos os serviços públicos, inclusive infraestrutura urbana, o que precariza as condições de moradia.

Apesar do dinamismo econômico, a Rocinha é a região administrativa da cidade com escolaridade mais baixa, seja na população em geral, seja na população ocupada, o que reflete a carência histórica de políticas públicas e imigração de áreas de menor escolaridade, ressalta o estudo da FGV.

Essas seriam razões para a baixa esperança relativa de seus moradores (pré-UPP) frente às possibilidades da política pública, seja ofertada pelos três níveis de governo, seja ofertada por organizações não governamentais (ONGs).

Segundo a pesquisa, a Rocinha é, em diversos aspectos, o inverso do Rio, identificado como "nordestinamente informal", enquanto a Rocinha, apesar de ser a favela mais nordestina do Rio, é "fordista formal", o que quer dizer que empregos com carteira são mais importantes na Rocinha.

O Rio é capital de alta escolaridade (a quinta das 27 capitais), enquanto a Rocinha tem a menor escolaridade de todas as 34 regiões administrativas da cidade.

O Rio é velho e a Rocinha é uma favela jovem.

Se as duas favelas estão na mesma faixa de tamanho, o seu perfil social e econômico é completamente diferente, mostra o estudo.

O Alemão se alinha mais ao perfil das favelas da periferia do Rio por estar em área pós-industrial, economicamente estagnada, enquanto a Rocinha está incrustada na área mais rica da cidade e nas vias de expansão rumo a oeste.

Isso faz com que a Rocinha tenha um mercado de trabalho mais pujante, apesar de - surpreendentemente, destaca o estudo - estar mais distante do Estado que o Alemão e outras favelas da Zona Norte.

Segundo seus moradores, as oportunidades de trabalho e renda são muito superiores na Rocinha do que no Alemão: 27,8% das pessoas na Rocinha dizem que essas oportunidades são pelo menos boas, contra 8,19% no Alemão.

Como resultado da "força econômica privada", há bem menos donas de casa na Rocinha (7,1%) do que no Alemão (11,22%).

O distanciamento da Rocinha do Estado é captado pela menor presença de funcionários públicos (0,16% na Rocinha e 0,42% no Alemão).

Há mais empregados privados na Rocinha (37%) do que no Alemão (27,8%), em particular, entre estes, empregados formais (31% na Rocinha e 20,4% no Alemão).

Apesar do viés ao emprego com carteira, o maior viés é em direção ao trabalho. Como consequência, há mais empreendedores na Rocinha (10,1%) do que no Alemão (8,5%).

O estudo coordenado por Marcelo Neri salienta que, se o mote pré-UPP era "ilegal, e daí?", o pós-UPP parece ser "legal, e aí?". Mas como o choque de ordem desemboca no choque de progresso?

O estudo analisa "as relações sinérgicas entre a segurança e a economia na formação de direito de propriedade, e como isso pode ser potencializado", seja por meio do que classificam de "choque de formalização", acompanhado de um menu de políticas de apoio aos pequenos negócios preconizado pelo Sebrae-Rio, seja pela oferta de microcrédito de qualidade, como aquele que chega aos morros do Rio por meio da associação entre o Crediamigo e o VivaCred.

Começou a era do mundo finito - WASHINGTON NOVAES


O ESTADÃO - 18/11/11

A perplexidade é geral, depois da queda do sétimo governo na Europa (Islândia, Reino Unido, Irlanda, Portugal, Eslováquia, Grécia e Itália) e jácoma Espanha na alça de mira, com uma dívida pública insustentável e uma taxa de desemprego onde 21,5% (48% entre os jovens). E tudo acontece simultaneamente com a crise política que se alastra nos países árabes e a expansão do movimento "Ocupem o mundo", dos jovens norte americanos que protestam sentados nas ruas, diante da casa dos poderosos. Para onde vamos? "Quem não estiver confuso está mal informado", já diagnosticou o ex-ministro Delfim Netto (Conjuntura Econômica - FGV, setembro de 2011). De fato, quando Brasil, Índia e China se dizem dispostos a ajudar - via Fundo Monetário Internacional (FMI) - a Europa a sair da crise, chega se a um ponto inconcebível há menos de uma década. Pois ao mesmo tempo se torna claro que "a Europa se prepara para uma década perdida" (Agência Estado, 16/10) e se chega ao "fim do sonho americano" (Celso Ming, Estado, 19/10).

"Vai sair um mundo diferente", prevê Delfim. A seu ver, "a crise que está aí resulta de governos incompetentes, míopes, e de uma disfunção do sistema financeiro, que em vez de servir ao setor real acaba servindo-se dele. Os derivativos podem estimular uma melhoria de funcionamento do sistema, mas também podem tornar-se armas de destruição em massa, porque os bancos centrais - na verdade, os governos -não conseguiram entender aonde eles deveriam nos levar". Certamente é uma visão que tem que ver com números pouco citados, de um giro financeiro de US$ 600 trilhões anuais, para um produto bruto mundial de US$ 62 trilhões por ano, dez vezes menos. Isto é, especulação cada vez mais afastada do real, das coisas concretas.

Agora, parece inescapável. A Comissão Europeia prevê recessão para o continente em 2012, que, segundo o FMI, é um alerta para todos os países desenvolvidos (Folha de S.Paulo,12/11). Mesmo no Brasil a Confederação Nacional da Indústria revê sua previsão para o crescimento do PIB interno, de 3,8% para 3,4% este ano (Agência Estado, 12/11). E até a China parece retrair seu ritmo, enquanto os Estados Unidos chegam a um déficit anual do governo de US$ 1,299 trilhão, quase tanto quanto todo o PIB anual brasileiro. Mas quase todos os países continuam a recusar o que os relatórios do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) vêm propondo desde o início da década de 1990: uma taxa de 0,5% sobre as transações cambiais e financeiras no mundo - para conter a especulação e ajudar a diminuir a pobreza -, uma ideia que surgiu do economista James Tobin.

Estranho que pareça, num quadro como esse pouco se discute na área econômica o que já é óbvio no diagnóstico de organismo da ONU e outros: a questão do impasse na área dos recursos naturais e sua tendência ao agravamento.

Mais uma vez, o ex-ministro Delfim Netto, que em outras épocas parecia fechado à questão: "Estamos caminhando para instituições em que a cooperação, o altruísmo e as preocupações com o meio ambiente são maiores, enquanto a restrição ao crescimento é um pouco mais aguda, porque pela primeira vez se tem consciência de que não cabem na Terra 10 bilhões de pessoas com renda per capita de US$ 20mil". Ou seja, o consumo atual já é insustentável e será cada vez mais com o crescimento inevitável da população. Os diagnósticos da ONU já nos mostram consumindo mais de 30% além da capacidade de reposição da biosfera terrestre; se tivermos de aumentar a produção de alimentos em 70% nas próximas décadas para atender à população crescente e à redução da pobreza, agravaremos a situação, pois a "pegada ecológica" (área necessária para atender às necessidades de um ser humano) também já está mais de 30% além da disponibilidade - e seu crescimento significará mais degradação do solo, mais desertificação, mais crise da água, mais perda da biodiversidade, etc., etc. Sem falar em agravamento das mudanças climáticas. Mas como se fará se 1,44 bilhão de pessoas no mundo ainda não dispõem de energia elétrica e em sua maior parte terão de ser abastecidas com mais queima de carvão e petróleo, principalmente na China e na Índia, como adverte a Agência Internacional de energia? E como tirar do âmbito da fome crônica quase 1 bilhão de pessoas? Outros padrões de consumo terão de ser observados. Nossos modos de viver terão de ser repensados.

Até porque em muitos setores a crise aguda já bate à porta. Como observa o professor Maurício Waldman, pós-doutorando em Geografia pelo Instituto de Geociências da Unicamp, a situação já é insustentável em muitos setores. No século 20 a população multiplicou- se por 4; o consumo de carvão, por 6; o de cobre, por 25; o de metais em geral chegou, em 2008, a 1,4 bilhão de toneladas, o dobro dos anos 70, sete vezes mais que em 1950; o consumo de alumínio passou de 2milhões de toneladas em 1950 para 40 milhões em 2008; o de plásticos multiplicou-se por 18 em 34 anos. Como já se comentou neste espaço em outros artigos, a disponibilidade de muitos dos metais usados nas tecnologias mais abrangentes de hoje (telefones, computadores, etc.) está gravemente ameaçada. Por tudo isso, lembra o professor Waldman a frase do filósofo Paulo Valéry: "Começa a era do mundo finito".

E como começa, ainda uma vez é preciso insistir: o Brasil tem de pensar uma estratégia fundada nessas visões, já que tem posição privilegiada no mundo em matéria de território, água, biodiversidade, possibilidade de plantios, matriz energética limpa e renovável - tudo o que é fator escasso no mundo e já foi dito e repetido neste espaço.

A essa estratégia - em substituição à ideia de crescimento econômico puro e simples,desatento ao quadro mais amplo - é que se poderá chamar de uma verdadeira modernidade. Não precisamos esperar que a crise de recursos e consumo insustentáveis nos atinja mais a fundo.

A quem eles acham que enganam? - HÉLIO SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 18/11/11

SÃO PAULO - O bonito de apanhar políticos com a boca na botija é que eles se saem com explicações tão mirabolantes que valem por uma aula de psicologia. Flagrado em vídeo fazendo o que havia dito que não fizera, Lupi esclarece que não tem "memória absoluta".

O ainda ministro não é um caso isolado. Para Palocci, foram as liquidações antecipadas de contratos; José Roberto Arruda recorreu aos panetones; Renan Calheiros fez bons negócios com vacas; o "mensalão" virou "recursos não contabilizados"; até Collor bolou a engenhosa Operação Uruguai.

A quem eles pensam que enganam? Quem acredita nessas lorotas? E a resposta, ainda mais intrigante, é que os próprios políticos, ou ao menos parte de seus cérebros, acredita.

Um modelo para explicar essas extravagâncias é o da dissonância cognitiva, segundo o qual a mente procura sempre harmonizar suas cognições, isto é, pensamentos, sensações e memórias. Quando elas estão em conflito e percebemos isso, diz-se que estão em dissonância.

E o problema é que essas tais dissonâncias cognitivas são uma verdadeira tortura neuronal. Para evitar a dor da contradição, o cérebro simplesmente trapaceia. A fim de reconciliar as cognições, ele se utiliza do que estiver à mão. Valem truques bobos, como simplesmente fingir que não viu. Não é um acaso que um dos mais arraigados hábitos de políticos seja responder só o que lhes interessa, ignorando as perguntas difíceis.

Quando isso não é suficiente, linhas de defesa mais complexas são acionadas. Memórias podem ser suprimidas e alteradas. Cognições harmonizadoras podem ser criadas.

O detalhe é que a pessoa quer tanto acreditar na versão que lhe é mais favorável que, muitas vezes, não distingue suas próprias fabulações da mais dura realidade. Perde até mesmo a noção de quão esfarrapadas parecem suas desculpas a observadores que não estão em dissonância.

CLAUDIO HUMBERTO

“A gente quer mobilizar o País contra a Fifa”

Deputado Romário (PSB-RJ), em campanha para que a Fifa respeite as leis brasileiras

LUPI IMPEDE REUNIÃO NO PDT E PERDE APOIO 

Após outro depoimento desastroso, desta vez no Senado, o ministro Carlos Lupi (Trabalho) manobrou contra o próprio partido, evitando que a executiva se reunisse para discutir sua situação. Os pedetistas estão envergonhados com o flagrante de mentira de Lupi. Ele teve ajuda de um dos poucos aliados que restam no PDT para impedir a reunião: o secretário-geral Manoel Dias alegou “mal-estar” e não viajou a Brasília.

RABO PRESO

Manoel Dias deve a Lupi o cargo da mulher, Dalva, diretora-executiva da Fundacentro. Ela mora em Curitiba e o órgão fica em São Paulo.

OLHA O NÍVEL

André Figueiredo, presidente do PDT, aliado de Lupi, escondeu-se dos pedetistas, driblando a pressão para convocar a reunião da Executiva.

OUVIDOS MOUCOS

Brizola Neto (RJ), Paulinho da Força (SP), Antonio Reguffe e o senador Cristovam Buarque (DF) insistem em reunir a Executiva, em vão.

FRITURA DEMORADA

Quando resolve ser má, Dilma é melhor ainda: deixa o denunciado ardendo em chamas até ele não aguentar mais e pedir o boné.

CÂMARA ATORMENTA CRIANÇAS COM VÍDEO CHOCANTE

Levados à sessão solene, na Câmara dos Deputados, pelo Dia de Oração e Ação pela Criança, 90 alunos de três a dez anos de idade foram submetidos a um vídeo com imagens chocantes de crianças e bebês mortos, mutilados, atirados no lixo, em estado de decomposição. Pais protestaram, pediram ajuda ao deputado Luiz Couto (PT-PB), que estava presente, mas ele se omitiu. Deve ter achado “politicamente correta” a tortura a crianças intelectual e emocionalmente imaturas. 

ORAÇÃO À ESTUPIDEZ

A deputada Liliam Sá (PSD-RJ), responsável pela presepada, informou que pretendia, com o vídeo torturante, “orar pelas crianças sofridas”.

RODAPÉ

Lupi se disse “a favor da liberdade de imprensa”, porque falando dele os jornais “vendem mais”. Pescou a teoria em livro da biblioteca de Lula.

IDIOTAS, NÃO

Parodiando o ex-ministro Jobim (Defesa), o único que pediu para sair do governo, “os corruptos perderam a modéstia”.

MÉDICO NO BANCO DOS RÉUS

O juiz Tiago Pinto Carvalho decidiu que o médico Lucas Seixas Doca Jr, que faz cirurgias de redução bariátrica, vai a júri popular pela morte de Fernanda Wendling, uma professora do UniCeub que ele operou em 2006. É a segunda acusação de homicídio contra Lucas Seixas.

IMPERÍCIA MORTAL

A outra vítima do médico Lucas Seixas Doca Jr foi Maria Cristina da Silva, 37, morta há três anos. O intestino dela foi perfurado durante a cirurgia e a paciente morreria de infecção generalizada, dias depois.

RESISTENTES 

O Movimento de Resistência Leonel Brizola, formado por pedetistas no Rio, cobrou atitude mais firme do presidente interino do PDT, André Figueiredo, no caso Lupi Pinóquio. Ouviu silêncio como resposta.

MAIS ESSA

Não bastassem os problemas com Lupi, chega a Brasília o presidente da Guiné, Alpha Condé, para discutir com Dilma o impasse na construção de uma ferrovia que envolve interesses da Vale e ele brecou. Hum...

CAÇA A KASSAB

Prefeitável do PRTB, Levy Fidelix vai processar o prefeito paulistano Gilberto Kassab (PSD) por reduzir a tarifa de inspeção veicular a partir de 2012, ano eleitoral. A empresa de vistoria também não gostou.

SEM QUERER, QUERENDO

Fundador da Bancoop e ex-ministro da Previdência, o deputado Ricardo Berzoni (PT-SP) garantiu no Twitter que não quer a vaga de Lupi, apesar do ostracismo. “Não me queixo de nada”, explicou ele.

CALHAMAÇO 

O relatório do novo Código de Processo Civil na Câmara estava pronto, mas o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) pediu que o relator, Sérgio Carneiro (PT-BA), incluísse todos os outros 89 projetos sobre o tema.

APO É ESPORTE 

A Autoridade Pública Olímpica, antes na alçada do Ministério do Planejamento, foi vinculada oficialmente ao Ministério do Esporte – que estava cercado pela CGU no Orlandogate. Agora, o caminho está livre.

PENSANDO BEM...

...Com tanta pirueta de avião, ministro Lupi se habilita à Esquadrilha da Fumaça.

PODER SEM PUDOR

CHAVE DE GALÃO

O ex-embaixador do Brasil em Washington, Roberto Abdenur, demitido pelo então chanceler Celso Amorim, por telefone, gosta de jogar futebol. Certa vez, numa quarta-feira, hora do almoço, ele se paramentou todo e exigiu vaga em uma pelada de filhos de diplomatas no Clube das Nações, em Brasília. 

E aplicou autêntica chave de galão: “Quero jogar, sou ministro”. Obteve a vaga, mas a garotada se vingou: ninguém lhe passou a bola. O jogo inteiro.

SEXTA NOS JORNAIS


Globo: Vazamento de óleo no RJ pode ser 23 vezes maior

Folha: Lupi recebe diária por viagem com agenda partidária

Estadão: Em meio à crise, agência de risco eleva nota do Brasil

Correio: PIB cai, Brasil está em alta

Valor: Guerra cambial diminui, mas controles continuam

Jornal do Commercio: MEC reprova 55% das faculdades do Estado

Zero Hora: Dirigente de ONG fala a ZH: "Eu provoquei a mudança no discurso do ministro"

quinta-feira, novembro 17, 2011

A morte no ar - ANCELMO GOIS



O GLOBO - 17/11/11


Documentos obtidos por advogados americanos revelam que a Airbus chegou a deliberar internamente alterações no sistema de manetes e de alarme dos A-320 após acidentes em Moscou (2003) e Taiwan (2004).
Se tivesse feito as tais mudanças, dizem os advogados das vítimas, talvez a empresa evitasse o acidente da TAM que matou 199 pessoas em 2007.

Segue...
E-mails e memorandos internos da Airbus foram anexados à ação indenizatória movida pelo escritório Brasil, Pereira Neto, Galdino, Macedo Advogados em nome das vítimas, cujo valor beira a uns R$ 500 milhões.

Bem-vindos
Será dia 16 dezembro, no CCBB do Rio, o primeiro concerto da OSB Ópera e Repertório, formada pelos 37 músicos dissidentes da orquestra. Na regência, Daniel Guedes.

Vera Cruz carioca
Em volume de produção, não se compara, é claro, à antiga Vera Cruz, que realizou 22 filmes em quatro anos. Mas pelo ritmo... quem sabe. A Conspiração, que já era a produtora brasileira com maior média de filmes por ano (três), aumentará esta marca em 2012: vai rodar e lançar cinco longas.

VascoPad
Terça à noite, um parceiro da coluna que seguia para São Paulo no mesmo vôo do time do Vasco percebeu que 13 dos 19 jogadores usavam... iPads. Sem contar cinco integrantes da comissão técnica.

Filme de suspense
Dilma mata o pessoal do cinema do coração com a demora na nomeação de Miguel Faria Jr. para uma diretoria da Ancine. O nome do cineasta foi enviado ao Palácio do Planalto pela ministra Ana de Hollanda em agosto — e, até agora, nada.

Ônibus escolar
Dilma vai comprar 2.600 ônibus para transporte escolar de 60 mil alunos cadeirantes, em todos os estados, até 2014. Anuncia hoje no lançamento do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Segundo o Censo de 2010, há no país 45,6 milhões de pessoas com alguma deficiência. É quase um quarto da população.

Quem você quer ser?
A Sextante lança este mês no Brasil o livro “Quem você quer ser?”, da jornalista americana Maria Shriver, ex de Arnold Schwarzenegger. Escrito antes da separação, ela conta o drama de largar o jornalismo por causa da carreira política de Schwarzenegger, governador da Califórnia.

Suprema felicidade
O filme “A suprema felicidade”, de Arnaldo Jabor, vai abrir o 4º Festival do Cinema Brasileiro em Moscou, dia 23.

Oferta e procura
Três dias depois da tomada do Vidigal, o preço do moto-táxi subiu de R$ 2,50 e R$ 3.

I love you, Rocinha
A rede de cursos de idiomas Yes vai abrir, em dezembro, sua primeira unidade na Rocinha, para 600 alunos.

Obra embargada
A Associação de Moradores do Jardim Botânico, no Rio, denunciou que Sérgio Côrtes, secretário estadual de Saúde, estaria fazendo uma obra irregular em sua cobertura, na Lagoa. Uma arquiteta da prefeitura foi ao local, não conseguiu acesso e optou por embargar a obra. Depois, a Secretaria de Urbanismo a liberou, “assim que ficou provado não se tratar de acréscimo da unidade e sim de uma reforma”.

Morar bem
O atacante Fred, do Fluminense, comprou uma cobertura na Av. Vieira Souto, endereço de bacanas em Ipanema.

O garoto Pedro II
Está saindo do forno um livro sobre o francês Julien Pallière (1784- 1862), autor, entre outros, deste retrato de Dom Pedro II na infância. A obra sobre o artista, que desembarcou no Rio em 1817 com a princesa Leopoldina, é assinada por Ana Pessoa, Júlio Bandeira e Pedro Correia do Lago. Sairá pela Editora Capivara.

ESTAS ESTÁTUAS

 femininas, de madeira, têm despertado curiosidade em pontos do Rio como Morro da Providência, Copacabana, Praça XV, Central, Lapa, Méier... Não são propaganda de nenhuma empresa. São, na verdade, parte da campanha “Quem ama abraça”, pelos 30 anos do Dia internacional de luta pela não violência contra mulheres (25 de novembro). A ideia é espalhar as estátuas pela cidade, acompanhar a reação das pessoas e, depois, divulgar à opinião pública, simbolicamente, como as mulheres são tratadas. Dia 22, todas serão reunidas no Largo da Carioca para que o povão veja o estado de cada uma. Mas, em poucos dias, o balanço já é cruel: a da Central foi roubada, a da Lapa foi arrastada até a Cinelândia e toda customizada por estudantes etc. Ação igual é feita em Belém, Vitória, Natal e Porto Alegre

Na corda bamba - ILIMAR FRANCO



O GLOBO - 17/11/11

A presidente Dilma vai aguardar o depoimento do ministro Carlos Lupi (Trabalho) hoje no Senado para decidir seu futuro. A avaliação no Planalto é que, a despeito de sua disposição de ficar, Lupi está cavando a própria cova e perdendo sustentação no seu partido, o PDT. O governo teme pelo desempenho de Lupi, que tem uma queda pela fanfarronice, estilo que já é ruim em situações normais e pode ser fatal em momentos críticos.

O primeiro dilema do PSD
O terceiro maior partido da Câmara, o PSD, termina o ano organizado em 4.600 municípios, com 5.900 vereadores e 560 prefeitos. Mas, em janeiro, vai enfrentar seu primeiro debate interno: participar ou não do Ministério da presidente Dilma. O partido é heterogêneo, mas todos que aderiram à nova sigla procuraram, de alguma forma, se aproximar do governo petista. Mesmo assim, integrantes de sua direção consideram que o partido deve continuar apoiando o governo, mas sem participar do Ministério. Esses dirigentes avaliam que, para crescer, o partido precisa ter maior flexibilidade para fazer alianças nos estados.

"A crise é de confiança” — José Serra, ex-governador de São Paulo, sobre a crise que atinge a Europa

LAVANDO AS MÃOS.
 A expectativa do governador Sérgio Cabral (RJ) sobre a mediação da presidente Dilma no debate dos royalties pode se frustrar. Ontem, para o governador Renato Casagrande (ES), Dilma afirmou que o governo tem dificuldade de patrocinar um entendimento devido à existência de posições radicalizadas. Dilma quer que os estados se entendam. No mais, manifestou-se contra o rompimento dos contratos e declarou serem irreais as projeções do senador Vital do Rêgo (PMDB-PB).

Água fria
O vice-presidente Michel Temer foi ao Espírito Santo, na última sexta-feira, lançar o ex-governador Paulo Hartung (PMDB) para a prefeitura de Vitória mas, chegando lá, ele desconversou. Hartung disse que só vai decidir no ano que vem.

Cotado
O nome mais falado ontem, no Planalto, no caso de queda do ministro do Trabalho, era o do deputado Vieira da Cunha (PDT-RS). Na década de 80, ele foi vice do ex-marido de Dilma, Carlos Araújo, para a prefeitura de Porto Alegre.

Gustavo Franco, a crise e a felicidade
Presidente do Banco Central no governo FH, Gustavo Franco, ao participar de palestra em Portugal sobre o "Índice de Felicidade" promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian, afirmou que se ele fosse presidente do Banco do Brasil compraria títulos da dívida europeia. A posição do governo Dilma é que os europeus devem recorrer ao FMI. Essa postura é idêntica à dos europeus na crise que o Brasil enfrentou no governo FH. Seus governos nunca compraram papéis da dívida brasileira.

Tem fila
Apesar de os estados não produtores de petróleo pressionarem para votar a redistribuição dos royalties no dia 30, na Câmara, a prioridade do governo, depois da votação da prorrogação da DRU, é o Orçamento da União.

No ar
Assim como há indefinição da Fifa sobre a meia-entrada para estudantes e a venda de bebida alcoólica nos estádios, proprietários de cadeiras cativas no Maracanã não sabem ainda se poderão usufruir desse direito durante a Copa.

SETE CHAVES. Ao sancionar a criação da Comissão da Verdade, amanhã, a presidente Dilma não vai anunciar o nome de seus integrantes.

O SENADOR Cristovam Buarque (PDT-DF) quer o partido fora do governo e numa posição de independência. Agora, os aliados de Lupi no partido ameaçam apoiar essa linha em caso de demissão.

O COMANDO Militar do Leste quer se retirar do Complexo do Alemão. Seus comandantes dizem que a presença militar está se desgastando e reclamam da tensão diária com os chefes do tráfico para restabelecer o poder na região.

EDITORIAL O ESTADÃO - Já passou da hora


O ESTADÃO - 17/11/11

A presidente Dilma Rousseff perdeu dois consecutivos "momentos ótimos" para demitir o ministro do Trabalho, Carlos Lupi. O primeiro foi na quarta-feira da semana passada, quando, atingido pela denúncia de que assessores diretos seus chantagearam ONGs conveniadas com a pasta, o ministro afrontou a autoridade da presidente. "Duvido que a Dilma me tire, ela me conhece muito bem", desafiou. "Para me tirar, só abatido à bala." A segunda ocasião surgiu quando ele tentou consertar a fanfarronada da antevéspera com uma tirada cafajeste, que não há de ter passado em branco para alguém, como a sua chefe, atenta para o que se convencionou chamar sexismo. "Presidente Dilma, desculpe se eu fui agressivo", apelou. "Eu te amo."

No trato com os subordinados, ela é conhecida por ser fulminante no gatilho. Na remoção de membros de sua equipe afogados em escândalos, porém, só parece agir quando percebe, na vigésima quinta hora, que a inação ameaça se transformar em desmoralização. Perto disso, o eventual benefício de se guardar de problemas com as legendas dos ministros desmascarados e, conforme o caso, com o seu patrono Lula não compensa o custo do desgaste diante da opinião pública. Assim foi com Alfredo Nascimento, titular dos Transportes, do PR; Wagner Rossi, da Agricultura, e Pedro Novais, do Turismo, ambos do PMDB; e Orlando Silva, do Esporte (PC do B). Só foi diferente com o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que caiu não por corrupção, mas por incontinência verbal. (O primeiro a cair, o chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, ainda não era ministro quando fez a fortuna escondida que o levaria ao pelourinho.)

É verdade que, apesar de ir a reboque da imprensa na descoberta das falcatruas, primeiro, e de esperar demais, depois, para tirar das denúncias as suas inevitáveis consequências, Dilma tem sido recompensada pela aprovação nas pesquisas. Mas se algo desgasta a sua imagem de presidente despachada não é a sempre citada relação sem precedentes entre o seu tempo de casa e o número de auxiliares demitidos. É a sua convivência com o malcheiroso interregno entre a crise aberta com a exposição das maracutaias ministeriais e o seu costumeiro desfecho. Em nenhuma das situações mencionadas apareceu um "fato novo" que jogasse a favor dos ministros encalacrados. O normal é o contrário - e não está sendo diferente com o bravateiro Lupi.

Desde que, no começo do mês, a revista Veja revelou o esquema da suspensão dos repasses a ONGs contratadas pelo Trabalho e sua reativação mediante pagamento de pedágio, vieram à luz, entre outras coisas, o aparelhamento da pasta pelo PDT do ministro, em Brasília e nos Estados; o favorecimento de correligionários nos convênios para treinamento de pessoal; o acúmulo de irregularidades nesses negócios; o aval à criação de sindicatos patronais fantasmas, ou seja, que não representam nenhum setor de atividade; e, por fim, a prova do contubérnio do ministro com o dono de uma ONG beneficiada com R$ 13,9 milhões em contratos. Há uma semana, no mesmo depoimento à Câmara dos Deputados em que declarou seu "amor" pela presidente, Lupi negou que conhecesse o empresário Adair Meira, da ONG Pró-Cerrado, e que tivessem viajado juntos pelo Maranhão a bordo de um King Air alugado por ele. Fez também chegar a negativa ao Planalto.

Desmentido por outra reportagem da Veja, por imagens que o mostram desembarcando do táxi aéreo seguido pelo empresário e pela confirmação dele ao Estado de que viajara com Lupi "num trecho" do Maranhão em dezembro de 2009, o ministro se tornou para Dilma o que ela permitiu que se tornasse ao mantê-lo na Esplanada: um fator de desmoralização. Não resiste a um sopro o argumento de que, fadado a cair na reforma do Gabinete prevista para o início do ano, a sobrevida do mentiroso por um punhado de meses seria "administrável" pela presidente sem danos adicionais. Sim, Lupi manda e desmanda no PDT, de que é presidente licenciado apenas no papel, o que dificultaria mais uma substituição de um correligionário por outro. Ainda assim, Dilma tem de se livrar dele, a que custo for. Tentar varrer a crise para debaixo do tapete será pior - para ela e o seu governo.

GOSTOSA


Derretendo - CELSO MING


O ESTADÃO - 17/11/11

A deterioração do mercado europeu de títulos de dívida aumenta todos os dias. Tende a transformar em lixo tóxico não só os papéis de dívida soberana da Grécia, de Portugal e da Irlanda, mas também os da Itália, da Espanha e, possivelmente, da França (veja o gráfico).

O aplicador apenas se arrisca a amarrar seu dinheiro a esses ativos em troca de juros cada vez mais altos. E os devedores não conseguem se limitar a rolar dívidas em vencimento; têm também de encontrar financiamento para novos rombos, uma vez que operam com déficits orçamentários altos demais. A dívida vai ficando mais e mais cara. E insustentável.

Em outras palavras, o contágio está se espraiando inclusive para países grandes demais para serem socorridos. Alguns dirigentes políticos despejam seus desabafos. Tentam convencer o resto do mundo de que estão sendo vítimas de sórdida especulação. O ex-primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, mostraram reações desse tipo.

Não apenas banqueiros e gente de classe média vêm rejeitando o que, até recentemente, era considerado ativo sem risco. Também bancos centrais, seguradoras e fundos de pensão ou de investimento vêm agindo assim.

Por mais que tenha sido proclamado como inevitável, o calote da Grécia trincou o cristal e foi entendido como grave precedente. O recado passado foi o de que essas coisas podem acontecer a qualquer um, às melhores famílias. E pior: a probabilidade de que realmente ocorram cresce também todos os dias.

Outro fator que precipitou a rejeição foi o encaminhamento mal amarrado que as lideranças da área do euro deram para o novo mecanismo de resgate, o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. A decisão foi submetê-lo a uma engenharia financeira complexa, cujo resultado seria a multiplicação do seu poder de fogo. Deveria funcionar como uma espécie de garantia parcial a transferências de recursos que ninguém sabe de onde sairiam. Tanto assim que, até agora, os técnicos não foram capazes de montar o novo sistema. Itália, Espanha e, ao que tudo indica, também a França precisarão de enormes transfusões de sangue novo, no entanto, já não se sabe como isso poderá ser feito.

Na terça-feira, artigo do New York Times perguntou por que o Banco Central Europeu (BCE) pode prestar assistência ilimitada aos bancos, mas não aos Estados nacionais. Questionamento com o mesmo conteúdo poderia ser feito de outra maneira: por que os bancos grandes não podem afundar – e, por isso, têm de receber ajuda –, mas os Estados nacionais podem quebrar?

A dinâmica dos fatos vai empurrando o BCE para o inevitável, ou seja, para, enfim, em nome da salvação do euro, exercer sua função derradeira, até agora, inominável: emprestador de última instância. Falta saber quanto mais o mercado de bônus terá de ruir e quanta turbulência mais terá de acontecer para que as autoridades se decidam.

CONFIRA

Como errou? Até agora não foi bem explicado o suposto erro da agência de classificação de risco Standard & Poor"s (S&P) que, no dia 9, por alguns minutos, manteve no seu site o anúncio do rebaixamento dos títulos da França.

Errou por quê? A S&P avisou que foi um erro de edição. Ficou a impressão de que a decisão já havia sido tomada e estava à espera sabe-se lá de que sinal verde. E que algum desavisado apertou o botão errado na hora errada.

Bomba atômica. Como um rebaixamento dos títulos franceses seria o estouro de uma bomba atômica no mercado de títulos, é compreensível a exasperação do governo da França. O presidente Nicolas Sarkozy há meses vem advertindo que seria um desastre se seu país chegasse a esse ponto.

Decolando. Só que, de lá para cá, o rendimento (yield) dos títulos da França está alçando voo no mercado secundário, como mostra o gráfico acima.

Tempo de mudança - JANIO DE FREITAS


FOLHA DE SP - 17/11/11

Ainda que Carlos Lupi encontre as improváveis explicações para evitar sua queda agora, a fragilidade ética do governo não dispensa Dilma Rousseff de começar o próximo ano com a reforma ministerial engatilhada, como fruto da prudência de estudá-la desde já.
O grito contra a corrupção, que começa a se elevar sob diferentes formas, dirige-se necessariamente a alguém. E não pode ser senão à presidente: é geral o desconhecimento, e Dilma Rousseff não pode corrigi-lo, de que todos os escândalos ministeriais, do primeiro ao caso Lupi, vêm de fatos do governo Lula.
Mesmo que esse dado fundamental fosse mais lembrado pela imprensa, a responsabilidade de Dilma Rousseff, como chefe do governo, a deixaria com Lula no alvo das cobranças. A montagem do governo leva a sua assinatura, como sinal de aceitações surpreendentes.
Nas condições em que está montado o governo, minado pela invasão de representantes de interesses eleitorais e negociais, em qualquer momento pode eclodir, nem precisa ser em nível ministerial, um escândalo de controle difícil pela Presidência. Com efeitos de gravidade muito maior do que uma precipitada substituição como as de até agora. A passividade da opinião pública se esgota.
E o apetite da imprensa está afiado. Em parte dela, até mais do que isso, rompidos certos rigores não dispensáveis. É um agravante a mais para o problema de Dilma Rousseff com seu governo, mas pensar a reforma parcial do ministério não é problema menos complexo.
Aguardar abril, quase meio ano para as substituições, seria aceitar riscos excessivos. Fazê-las antes de definidas as pré-candidaturas e as desincompatibilizações, no fim de março, implica dificuldades políticas com os governadores, as lideranças partidárias, as bancadas e, claro, os pretensos concorrentes às eleições. Um nó apertado.
Mas aí também estaria a ocasião para a montagem de um governo mais pelo critério da competência e menos pela submissão aos arranjos políticos. Os quais, em geral, são de outras coisas mais do que políticos. Os escândalos que o digam.
Lidar com o nó vai mostrar-nos uma face de Dilma Rousseff ainda desconhecida, e provavelmente de grande importância no futuro.

SILÊNCIO
A praça egípcia Tahrir, onde se concentrou sem repressão o protesto pacífico que fez Mubarak renunciar, recebeu da imprensa americana o duplo batismo de praça da Liberdade e praça da Democracia.
Por determinação do prefeito de Nova York, a polícia americana, com sua conhecida violência, arrancou da praça Zucotti a concentração do Ocupe Wall Street, protesto pacífico contra o domínio antissocial do setor financeiro.
Que nome simbólico deveria ter a praça Zucotti?

Os comedores de batata - CARLOS HEITOR CONY


FOLHA DE SP - 17/11/11

RIO DE JANEIRO - Sempre foi complicada a história da humanidade. Momentos bons, em minoria, momentos péssimos, na maioria -acredito que nunca se chegará a um acordo sobre a sua importância ou a sua utilidade.
Neste início do século 21, mais uma vez ela se marca por uma redundância de problemas que vão da crise na Europa do euro, dos movimentos em países árabes -que estão sendo chamados de Primavera Árabe-, de guerras e conflitos localizados a um não saber o que fazer generalizado e medíocre.
Os otimistas sempre encontrarão motivos para citar os "punti luminosi" que foram criados em tantos séculos de história. A filosofia de Platão, a lógica de Aristóteles, a obra de Shakespeare, a "Nona Sinfonia", a genialidade de Leonardo da Vinci, a conquista espacial e os telefones celulares. Tudo bem.
Os pessimistas (que, por definição, estão bem informados) teriam muito mais a citar. A questão é obter uma imagem da colossal geleia que resulta do todo, metendo o bem e o mal num gigantesco liquidificador do tamanho da Terra, que não deixa de ser um misturador de coisas, girando em torno do Sol e de si mesma.
Se fosse escolher uma cena que expressasse tudo isso, eu pensaria numa obra de Van Gogh, de 1885, "Os comedores de batata". É um quadro meio sinistro, mas vital: todos estão comendo o que plantaram, fim de um dia e início de uma noite, um lampião combalido ilumina dramaticamente o rosto de camponeses exaustos. Não é aquela lâmpada enorme e acesa que Picasso colocou em "Guernica", mostrando o quê? A devastação de um bombardeio -corpos e animais decepados, um momento funesto da humanidade.
O lampião de Van Gogh é neutro, não tem opinião, mostra o que deve ser mostrado, todos nós comendo batatas, inclusive as que não merecemos.

O capital entra pelos fundos? - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 17/11/11

A IMPRESSIONANTE quantidade de dinheiro que tem entrado no país sob a rubrica de "investimento estrangeiro direto" causa suspeita e controvérsia desde pelo menos meados deste ano.
A querela é do tipo "quando a esmola é muita, o santo desconfia". Desconfia-se de que parte do dinheiro registrado como investimento direto seria na verdade aplicação no mercado financeiro, em ações e, principalmente, em papéis de renda fixa (em juros). Tais operações foram taxadas pelo governo desde 2009 (IOF) e de modo ainda mais salgado no final de 2010.
O Investimento Estrangeiro Direto (IED) é o nome que as estatísticas econômicas dão ao dinheiro que entra num país para comprar, ampliar ou criar empresas. Em outubro passado, o IED equivalia a mais de 3,3% do PIB (entradas acumuladas em 12 meses). Em outubro de 2010 era cerca de 1,4% do PIB.
Nesse mesmo período, o investimento estrangeiro em ações brasileiras e em títulos de renda fixa negociados no país caiu de 2,5% do PIB para o atual 0,7% do PIB.
Suspeita-se de que parte do IED seja apenas aplicação financeira que arrumou uma brecha legal (ou ilegal) para fugir do IOF salgado.
O economista Darwin Dib, da equipe de pesquisa econômica do banco Itaú, discorda. Em relatório do banco para clientes, Dib chama a suspeita de teoria da conspiração.
Os argumentos do economista:
1) A retomada forte do IED no Brasil começou em janeiro de 2010, muito antes do IOF salgado sobre aplicações em ações e em renda fixa;
2) O interesse dos investidores externos pelo mercado de renda fixa e de ações diminuiu não apenas devido ao IOF maior. No final de 2010, o imposto subiu ainda mais para operações em renda fixa, mas não para ações. Porém, a tendência de queda nos dois tipos de investimento foi a mesma (Dib mostra gráficos razoavelmente convincentes para ilustrar a tendência);
3) Parte do IED é composta de "empréstimos intercompanhia" (recursos emprestados por uma múlti para sua filial estrangeira). Houve aumento razoável do dinheiro investido no país por meio dessa rubrica. Aí estaria a chave do "disfarce" de parte do IED em aplicação financeira -uma burla.
Dib argumenta que não é o caso. O aumento da entrada de dinheiro classificado na rubrica "empréstimos intercompanhia" nos últimos 12 meses ocorreu em relação a uma base baixa, deprimida.
Em 2008, explica Dib, houve grande baixa nos empréstimos intercompanhia devido à seca de crédito mundial, dada a explosão da crise financeira nos EUA.
Depois do colapso financeiro de setembro de 2008, os "empréstimos intercompanhia" caíram de 35% do total do IED para 5% em apenas dez meses, segundo os dados de Dib.
Em suma, o aumento desses empréstimos nos últimos 12 meses é a recuperação de um tombo pontual.
4) Para reforçar essa tese, Dib diz ainda que os "empréstimos intercompanhia" passaram a aumentar antes do IOF mais salgado. Mais: tais empréstimos (aqueles com vencimento em até 720 dias) pagam a mesma alíquota de 6% das aplicações em títulos de renda fixa;
5) Outras tentativas de burlar o IOF (por exemplo, por meio de aumento de capital) são ainda mais custosas e perigosas e implausíveis.

Por um fio - ELIANE CANTANHÊDE


FOLHA DE SP - 17/11/11

BRASÍLIA - Você conhece algum ministro ou governador que tenha caído por usar avião de empresário que mantenha interesse em sua pasta/governo? Não, não é mesmo, governador Sérgio Cabral?
Apesar disso, o ministro Carlos Lupi, do Trabalho, vai tentar reduzir o estrago atribuindo sua queda a uma viagem ao Maranhão num jato do empresário Adair Meira, da Fundação Pró-Cerrado, responsável por ONGs que têm convênios com o Trabalho. E vai, como sempre e como todos, botar a culpa na imprensa.
Lupi, porém, está por dias, ou por horas, ou por um fio, por suspeitas de desvios de dinheiro público, por falar demais e por mentir.
Em depoimento no Congresso, o ministro disse que não viajara no tal jatinho nem conhecia Adair Meira. Pois não é que apareceu até foto do ministro descendo do avião? E que Adair Meira contou que ele próprio estava a bordo com o ministro?
O pior é o que veio antes e depois da viagem de Lupi com Meira. Antes, a Controladoria-Geral da República já tinha alertado o Trabalho para mais de dez irregularidades num convênio de R$ 2,3 milhões com a Pró-Cerrado. Depois, o ministério assinou novos convênios com a fundação, num total de R$ 11,6 milhões.
Sem falar na história esquisitona dos sete sindicatos patronais do Amapá, inclusive da indústria naval. Indústria naval no Amapá?!
Assim, realmente fica difícil para Dilma manter o ministro e o sangue frio (logo ela!), como gostaria, até a reforma ministerial do início de 2012. Vai terminar seu ano de estreia com um número recorde e cabalístico de quedas de ministros: sete.
Lupi é candidatíssimo a ser o sétimo a cair, o sexto por suspeitas de corrupção. O principal foi Antonio Palocci, que abriu a fila e deu o Prêmio Esso de Jornalismo aos repórteres da Folha Andreza Matais, José Ernesto Credendio e Catia Seabra. Eles fizeram um trabalho irretocável, motivo de orgulho para a categoria.

Roncos da reação- DORA KRAMER

  
O Estado de S.Paulo - 17/11/11

Dias atrás foi noticiado que na reforma do ministério do início do ano a presidente Dilma Rousseff pretenderia fundir algumas estruturas de modo a reduzir a profusão de pastas, hoje perto de 40, maior até que a tão criticada quantidade de partidos, contidos na modesta cifra - pela comparação - de 29 legendas.

Estaria pensando, por exemplo, na junção dos ministérios encarregados de assuntos relativos a "minorias". Dilma também estaria cogitando da possibilidade de incorporar a Pesca à Agricultura, e assim por diante, numa lógica muito lógica.

Mesmo sendo ainda uma possibilidade, não uma realidade, denota disposição da presidente de reformar de verdade na reforma.

Mas eis que surge o PT para reclamar, dizendo que as pastas que estariam na mira da presidente para ser extintas representam "conquistas" dos movimentos sociais e por isso devem ser mantidas.

Alguns outros partidos têm feito declarações de apoio ao enxugamento, mas é de se ver se as sustentariam caso a redução os deixasse de fora da Esplanada.

É citado o PT porque foi quem gritou "alto lá" e também já havia se manifestado contrariamente a providências saneadoras.

Em agosto, quando ainda ganhava força a "faxina", não havia ficado muito claro que a presidente apenas reagia a denúncias da imprensa e os ministros demitidos eram quatro, os petistas se queixaram alegando que o "estilo" de Dilma acabaria provocando comparações negativas em relação ao governo Lula.

Temiam que a gestão do ex-presidente ficasse carimbada como "corrupta" (como se a eventual complacência da sucessora pudesse levar a conclusão oposta) e defendiam a necessidade de defender o "legado" de Lula, argumentando que as demissões poderiam desorganizar a base aliada no Congresso.

Houve um até - não qualquer um, o líder do governo no Senado, José Pimentel - que enxergou na atitude mais rigorosa do governo um caminho aberto para o passado: "A gente nunca pode esquecer que nos anos de chumbo esmagaram os políticos e as instituições. O presidente Getúlio (Vargas) teve de dar um tiro no peito", disse em discurso em tom dramático.

A expressão "roncos da reação" aplicava-se antigamente aos arreganhos do governo autoritário contra os anseios de retomada democrática.

Mal comparando, agora ocorre o mesmo quando resistem a mudanças aqueles cujo projeto é fazer do Estado um mero instrumento de seus interesses políticos.

Dilma Rousseff tem diante de si um dilema: ou os atende e deixa tudo como está ou se escora em sua crescente aceitação popular e usa o imenso poderio presidencial para o único objetivo que faz sentido: consertar o que vai mal para impedir que a democracia representativa no Brasil ultrapasse a fronteira do fundo do poço.

O mau combate. O deputado cassado e réu do processo do mensalão José Dirceu critica o caráter moralista dos movimentos de combate à corrupção.

Como não sugere outra forma (talvez amoral) de luta, fica a impressão de que para ele o ideal seria que o País aceitasse incorporar a corrupção à paisagem ou, quem sabe, defender a descriminalização desse tipo de "malfeito".

Na atual conjuntura em que vicejam rebeldes sem causa, não faltariam adeptos ao mau combate.

O que, aliás, já se nota nas manifestações ironicamente agressivas a respeito do baixo comparecimento aos atos de protesto anticorrupção.

Nada a acrescentar. Carlos Lupi foi chamado ontem ao Palácio do Planalto para se explicar à presidente Dilma Rousseff e convidado hoje a fazer o mesmo no Senado.

Diante do volume de denúncias, do constrangimento e até revolta de parte do PDT e das fotos comprovando a mentira sobre a viagem em companhia de dono de ONG acusada de desviar dinheiro de convênio, francamente, não há mais nada que o (ainda) ministro possa explicar.

Se há algo de que Lupi e seus antecessores nos recentes escândalos não podem reclamar é da falta de espaço para o amplíssimo exercício da defesa.

GOSTOSA


Quedas em série - MIRIAM LEITÃO



O GLOBO - 17/11/11


A crise europeia já derrubou os governos de Portugal, Itália, Espanha, Irlanda, dois primeiros-ministros gregos, pode influenciar na eleição francesa e já provocou derrotas políticas de Angela Merkel, da Alemanha. Os governos técnicos da Grécia e da Itália não têm varinha de condão. Até sexta-feira, Mario Monti terá que ter a aprovação do Parlamento para o novo governo italiano.

Política e economia andam colados. Não há cor predominante entre vencedores. Se o governo é conservador, ganha a esquerda; se é esquerda, ganha o conservador. O que o eleitor pede é uma nova tentativa do grupo oposto. Em janeiro, caiu o governo de Brian Cowen na Irlanda. Simplesmente entrou em colapso com a renúncia sucessiva de ministros. Em Portugal, renunciou José Sócrates. Na Espanha, o primeiro-ministro José Luiz Zapatero teve que deixar o governo. Na Grécia, caiu primeiro o governo conservador que tinha manipulado dados das contas públicas para esconder déficit e dívida. O governo socialista de George Papandreau apareceu como alternativa salvadora. Teve o mérito de tirar os esqueletos fiscais de dentro do armário e o que se viu foi assustador: dívida de 150% do PIB e déficit acima de 10%. Mas, sem capacidade de resolver o assunto, caiu também. Na Itália, Silvio Berlusconi sobreviveu a todo o tipo de denúncia de comportamento grotesco, mas não à crise que eleva o custo da dívida italiana.

Quando a economia entra em dificuldades desse tamanho, a política vai para a berlinda. Em Portugal, em março, depois de seis anos no governo, o primeiro-ministro José Sócrates renunciou. O gesto foi consequência direta da crise e do fato de que o quarto programa de estabilidade financeira foi recusado pelo Parlamento. Na Espanha, em julho, o presidente do Conselho de Ministros, José Luis Zapatero, socialista, avisou que anteciparia para este 20 de novembro a eleição que encerraria seu período no poder, que começou em 2004. A previsão é que a oposição conservadora ganhará a eleição. O novo governo assumirá no começo do ano, mas os problemas se acumulam no alto desemprego e juros cada vez mais elevados cobrados pelos bancos para rolar a dívida espanhola.

Nos últimos dias caíram os governos de Silvio Berlusconi, na Itália, e George Papandreau, na Grécia. O movimento na Itália, com Mario Monti escolhido para liderar o governo, e na Grécia, com Lucas Papademos, é o mesmo: escolher economistas, técnicos, com ligação com a União Europeia para comandar novos governos. Monti montou um gabinete sem políticos e será também ministro da Fazenda. Papademos ontem conseguiu um forte apoio do Parlamento grego para o seu governo.

É ilusão achar que técnicos resolverão tudo que os políticos não conseguiram. Eles podem ser bem sucedidos mas nenhum governo parlamentar consegue se sustentar só com técnicos, é preciso composição com as forças políticas e, mais importante, convencer a população das medidas a serem tomadas.

A crise é a mais grave já vivida pela Europa desde o fim da Segunda Guerra. Não está restrita a um país, é de todo o bloco, indo além dos que usam o euro como moeda. As medidas serão dolorosas e controversas, o que indica que mais instabilidade política varrerá a Europa antes do fim do problema.

Crises bancárias são agudas, crises fiscais, crônicas. A da Europa é fiscal, o que quer dizer que demorará muito a chegar ao fim. A Europa pode ter anos de baixo crescimento, com desemprego em alta, oscilando entre culpar ora a esquerda, ora a direita, e alimentando o ressentimento contra os imigrantes.

Há quem considere que a culpa é do mercado financeiro. Desregulado, ele é um produtor de crises e tem desestabilizado governos e países com um jogo conhecido: cobra cada vez mais juros para rolar dívida dos governos e os países vão se afundando cada vez mais. Há quem considere que a culpa é dos governos, que gastaram demais, são até hoje perdulários em alguns programas sociais que beneficiam não os pobres, mas a classe média, endividaram-se demais na ilusão de que o euro dera a eles a pedra filosofal da rolagem barata da dívida. As duas críticas têm razão. Os governos gastaram demais e fizeram dívidas insustentáveis; os mercados continuam sendo focos de crise e desestabilização, e os bancos continuam sendo socorridos sem correção dos problemas.

Os governos técnicos de Monti e Papademus darão certo dependendo da capacidade de articular programas tecnicamente sólidos e politicamente aceitáveis. Não são mágicos por serem técnicos. Enfrentarão os mesmos dilemas e impasses que os antecessores. O mundo fica melhor sem Berlusconi no comando da Itália, por motivos que vão do uso abusivo de seus veículos de comunicação até às acusações de sexo pago com menores de idade, mas Monti terá que vencer várias batalhas. A primeira será receber o apoio do Parlamento para o gabinete.

Mas a pergunta ainda não respondida é se o euro sobreviverá à crise. Os líderes da Europa não mostraram que sabem que estão encurralados. Precisam ter uma mapa do caminho para sair da crise numa área que tem um sistema monetário único para países de regimes fiscais diferenciados. Não pensar no cenário de crise foi o pecado inicial dos arquitetos da Zona do Euro.