sábado, novembro 12, 2011

As viagens e o auxílio-moradia de Lupi


As viagens e o auxílio-moradia de Lupi
CORREIO BRAZILIENSE - 12/11/11

Alvo de um turbilhão de denúncias na pasta, o ministro recebeu diárias sem ter participado de compromissos fora da Esplanada e teve um aumento de 123% no benefício para bancar a habitação

Vinicius Sassine

Carlos Lupi só deixa o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) à bala, palavras do ministro. Além do uso da pasta em benefício direto aos aliados do PDT, por meio do combalido programa de capacitação profissional como mostrou o Correio nesta semana , Lupi conta com benefícios pessoais e cotidianos que também explicam o apego ao cargo.

O ministro fez 24 viagens oficiais neste ano e, em 10 delas, recebeu diárias mesmo sem ter participado de compromissos do ministério fora de Brasília. As ordens de pagamento trazem as cidades de destino, mas a agenda oficial divulgada no site da pasta informa que o ministro despachou na sede do ministério.

Uma prática recorrente de Lupi é estender as viagens pelos fins de semana, principalmente as internacionais: foi assim com Luanda (Angola), Lisboa (Portugal), Boston (Estados Unidos) e Paris (França). Em 13 das 24 viagens feitas, Lupi deslocou os voos feitos em grande parte por aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para o Rio de Janeiro, sua base eleitoral e onde tem apartamento próprio.

Em Brasília, o auxílio-moradia do ministro aumentou em 123% a partir de fevereiro. Foi o maior reajuste entre os ministros da presidente Dilma Rousseff. O aumento foi permitido a todos os ministros em função do reajuste dos salários, equiparados à remuneração dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) R$ 26,7 mil a partir de janeiro.

O auxílio-moradia pode chegar a 25% do salário e é decidido conforme critérios de cada ministério. O benefício pago a Lupi aumentou de R$ 2.687 em janeiro para os atuais R$ 6 mil. Proporcionalmente, foi o maior aumento entre os 15 ministros que pediram em algum momento neste ano a restituição do pagamento de aluguel. Dois deles receberam o teto, de R$ 6.680.

“O ministro pode agora receber com maior conforto suas duas filhas, o filho e a esposa, além do neto”, justifica a assessoria de Lupi. Antes, ele morava num apartamento de quarto e sala. Hoje, ocupa um apartamento de três quartos num condomínio luxuoso à beira do Lago Paranoá.

Estados Unidos
Para estar em Boston entre 15 e 19 de setembro, onde participou de compromissos oficiais no Consulado-Geral do Brasil, Lupi recebeu quatro diárias no valor de R$ 3.196. O ministro teve apenas dois dias de agenda oficial em Boston, onde passou o fim de semana. Em resposta ao Correio, a assessoria de imprensa de Lupi sustenta que ele recebeu somente duas diárias e meia, no valor de R$ 1.996. Não é o que consta na ordem de pagamento disponível no Portal da Transparência, da Controladoria-Geral da União (CGU). A informação é fornecida à CGU pelo próprio ministério.

Logo após chegar de Boston, Lupi embarcou para Paris, num compromisso oficial. Recebeu cinco diárias no valor de R$ 4.337 e passou o fim de semana na cidade. A agenda oficial informa dois dias de trabalho na capital francesa. Não houve agenda no fim de semana. Prática semelhante foi adotada também em viagens dentro do país. Para visitar Maranhão e Sergipe, em julho, o ministro recebeu cinco diárias (R$ 2.743). Em dois dias que aparecem como parte da viagem, Lupi despachou em Brasília.

Na maioria das viagens, o ministro passou pelo Rio de Janeiro, principalmente às sextas-feiras, sábados e domingos. “Não houve pagamento de diárias quando o ministro estava em trânsito pelo Rio de Janeiro”, diz a assessoria de imprensa. “O retorno à residência permanente tem amparo no Decreto nº 4.244, de 2002.”

O decreto estabelece as regras para o transporte de autoridades em aviões da FAB. O deslocamento ao local da residência é permitido, mas é o terceiro na ordem de prioridade para uso de aeronaves, atrás de “emergência médica” e “viagens a serviço”. “Não ocorreu pagamento irregular de diárias”, sustenta a assessoria do MTE.

Lupi está ameaçado de demissão do cargo de ministro do Trabalho. Pesa sobre assessores diretos a suspeita de cobrança de propina de entidades contratadas para oferecer cursos de qualificação profissional. Convênios foram firmados para beneficiar o PDT, partido presidido por Lupi, e são alvo de fraudes, desvios e outras irregularidades.

No avião
 O ministro fez 24 viagens oficiais neste ano, remuneradas com diárias.

 Em 10 viagens, recebeu diárias para deslocamentos fora da agenda oficial. Os pagamentos foram feitos para dias de trabalho fora de Brasília, mas a agenda oficial do ministro não trazia nenhum desses compromissos.

 Em 13 viagens, Lupi passou pelo Rio de Janeiro, onde tem apartamento próprio.

Algumas situações
Viagem a Boston e ao Rio de Janeiro Entre 15 e 19 de setembro, incluído o fim de semana R$ 3.196 por quatro diárias
Dois dias de agenda oficial

Viagem a Imperatriz, São Luís e Aracaju
Entre 14 e 19 de julho, incluído o fim de semana R$ 2.743 por seis diárias Três dias de agenda oficial

Viagem a Paris
Entre 23 e 28 de setembro, incluído o fim de semana R$ 4.337 por cinco diárias Dois dias de agenda oficial

Já o auxílio-moradia do ministro foi reajustado em 123%, a partir de fevereiro, de R$ 2.687 para R$ 6 mil. Foi o maior aumento entre os ministros de Dilma.

JORGE BASTOS MORENO - Nhenhenhém


Ausências
JORGE BASTOS MORENO - Nhenhenhém
O GLOBO - 12/11/11

“Já esteve melhor” foi o que respondeu um amigo da presidente Dilma sobre a relação dela com Cabral.
Menos pelas bravatas petrolíferas do governador e mais pela sua ausência, e a do seu vice, Pezão, na solenidade de ampliação de financiamento para alguns estados.
Dos estados beneficiados pela medida, o Rio foi o único ausente.

Fofoqueiro
Gente, se o Gilberto Carvalho trabalhasse mais e fofocasse menos, o governo estaria muito melhor.
Ele fala mal de todo mundo. Para todo mundo.

Mistério
José Serra anda indo ao Rio com uma frequência muito superior à do próprio governador Cabral.
O mais curioso é que, aparentemente, sem a menor motivação política.
É aí que mora o perigo.

Governo à distância
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, mudou-se para o Jardim de Alah, entre Ipanema e Leblon.
Alega que não aguentou o trânsito da Barra. Na verdade, quer vigiar mais de perto seu futuro oponente Aécio Neves, que nasceu e nunca arredou o pé do Leblon. Campos governa Pernambuco pelo Twitter.

Prisão VIP
Por falar nisso, a polícia seguia o Nem na Rocinha, e o meliante me seguia pelo Twitter. Só pode.

É que, na hora da prisão, enquanto seu advogado, estranhamente, queria levá-lo para a delegacia da Gávea, e não para a sede da PF, Nem implorava, como faço pelo Twitter, para ser levado à 14ª, do Leblon, onde trabalha a bela delegada Elisa Borboni.

Eduardo Cunha, se algum dia alguém conseguir te botar na cadeia, eu te recomendo também. A delegacia é boa.

Biscoito com refrigerante: cardápio indigesto
Se eu fosse do Cade, impediria a compra dos biscoitos Mabel pela Pepsi.

É, acima das questões econômicas, um duro golpe político contra o governo no Congresso.

Ou vocês acham que só os esforços da ministra Ideli e dos líderes Vaccarezza e Jucá garantem os quoruns das madrugadas no plenário?

Os próprios parlamentares já se acostumaram. Quando o deputado Sandro Mabel despeja caixotes de rosquinhas de coco, é sinal de que vão virar a noite, como aconteceu agora na votação da DRU.

E, agora, quem é que vai dar biscoitos à tigrada?

Não fossem as rosquinhas Mabel, a turba de famintos e sonolentos teria linchado, agora, o deputado Mendes Thame (PSDB-SP), um dos parlamentares mais educados e queridos do parlamento.

É que, lá pelas 3h, o deputado, dono também do título de um dos mais prolixos da Casa, tentou combater a prorrogação da matéria com longas metáforas.

Com todo o respeito aos dois, mas, até fisicamente, Mendes Thame é muito parecido com um também querido petista.

Tanto que o chamam de “o Suplicy da oposição”.

Filho ingrato
Saia-justa na passeata do Rio. As famílias Cabral e Garotinho caminham em sentido contrário num estreito corredor que une a Câmara Municipal ao palanque. Encontro inevitável. Cabral e Garotinho, cara a cara, viram o rosto em gesto sincronizado. As proles vão se cruzando e repetindo as coreografias dos pais, até que chega a vez de Marco Antônio Cabral, o mais político e jeitoso dos Cabral, cruzar com a bela e igualmente envolvente Clarissa Garotinho. Perguntem se ele foi solidário ao pai! Esse menino puxou ao avô. Nos seus tempos de garoto, viu, Magaly?!

Que lindo!
Eduardo Paes rendeu-se também à beleza da Clarissa, com quem tirou fotos:
— Diga para seu pai que sou o melhor prefeito que o Rio já teve.

Reforma ministerial
Se eu não engrossasse o coro dos que acham o ministro da Reforma Agrária, Afonso Florence, um baita de boa-praça, eu diria que ele sai.

Perdeu, Mercadante!
A não ser que a Dilma queira perder o seu quadro mais importante infiltrado na mídia, aposto o meu emprego se José Henrique Paim Fernandes, atual secretário-executivo do MEC, não for o sucessor de Haddad no cargo.

Kassab x Paes
Pesquisa Embratur/Ministério do Turismo aponta que São Paulo ganha do Rio não só no atendimento como também no preço dos táxis.

Um a zero
Nem também dizia que só sairia da Rocinha abatido à bala e que a polícia não tinha coragem de prendê-lo. A polícia foi mais rápida do que Dilma, com todo o respeito.

HÉLIO SCHWARTSMAN - Fábrica de Estados


 Fábrica de Estados
HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 12/11/11

SÃO PAULO - Não há melhor negócio para um político do que fabricar um Estado. Num só golpe, criam-se dezenas de empregos na Assembleia, na Câmara e no Senado, para não mencionar um sem-número de cargos no Judiciário e no Executivo. Melhor do que produzir mais um Estado, só engendrar dois de uma vez, como pode ocorrer com a repartição do Pará em três unidades.

É claro que o mundo não são apenas artimanhas. Há questões legítimas que poderiam recomendar a divisão de Estados e municípios. Na prática, porém, como ocorre a proliferação de postos e verbas, é difícil encontrar casos que não tenham sido utilizados por políticos para impulsionar suas agendas pessoais.

Para além do impacto financeiro para a União, a possível multiplicação de Estados traz implicações políticas. No Brasil, o "tributo federativo", compreendido como a compensação política dada a unidades mais fracas, é cobrado duas vezes. Uma, como é natural, no Senado, onde cada Estado tem direito a três representantes, independentemente de população ou força econômica.

Só que a mesma lógica volta a ser aplicada na Câmara, onde reaparece como distorção. A existência de pisos e tetos de representantes -nenhuma unidade pode ter menos de 8 nem mais de 70 deputados- produz uma série de inconsistências.

Pelo princípio do "um homem, um voto", São Paulo, com 41 milhões de habitantes, deveria ter 110 dos 513 deputados. A existência do teto, porém, subtrai-lhe 40 cadeiras.

Já o possível futuro Estado de Tapajós, com 1,2 milhão de pessoas, teria, pelas regras da aritmética, direito a 3,2 dos atuais 513 deputados, mas ficará com 8 (se o Estado for efetivamente criado, a Câmara deverá ser ampliada). Isso significa que o voto de um cidadão tapajoense valeria, na chamada Casa do Povo, pelo de quatro paulistas.

Uma abordagem verdadeiramente democrática da criação de Estados precisaria considerar esse aspecto.

LEONARDO CAVALCANTI - O sorriso de Lupi



O sorriso de Lupi 
LEONARDO CAVALCANTI
CORREIO BRAZILIENSE - 12/11/11

Ao divulgar a pauta dos jornais antes da publicação, o ministro tenta matar um dos fundamentos do jornalismo, o da exclusividade da informação. Os assessores deviam saber disso. Assim, poderiam demover o pedetista da esperteza em vazar dados tão caros à sociedade

O jornalismo tem códigos escritos e não escritos. Daqueles um dia redigidos, há o do direito ao sigilo da fonte, que, de tão relevante para a sociedade, está na Constituição. Foi posto ali para evitar que pequenos ou grandes tiranos obriguem repórteres a revelar o autor de uma informação.
Matérias jornalísticas são produzidas a partir de indicações de pessoas que, vez ou outra, precisam ser preservadas, caso contrário correm riscos, de maior ou menor grau. Por isso — e por conta da urgência e importância da notícia —, é razoável que repórteres publiquem informações em off.
Para o leitor pouco habituado ao universo jornalístico, é irrelevante listar reportagens produzidas a partir de informações dadas por fontes sigilosas. Os repórteres fazem tal coisa todos os dias, de forma corriqueira. Aqui, neste Correio, publicamos um bom exemplo disso na página 2 da última quinta-feira.
A reportagem Aos aliados do PDT, tudo apontou que o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem) é utilizado para turbinar filiados ao partido e atender interesses dos aliados do ministro do Trabalho, Carlos Lupi. Dois desses aliados foram assessores diretos do irreverente pedetista.
A maior parte dos recursos do Projovem vem do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), administrado pelo ministério. A verba é para atender jovens de 18 a 29 anos, com cursos de qualificação e bolsa de R$ 100. O dinheiro é repassado pela pasta a estados e prefeituras brasileiros.
A partir daí, prefeitos e governadores contratam organizações não governamentais (ONGs). Dirigentes dessas entidades contaram ao repórter Vinicius Sassine que o dinheiro era direcionado a aliados de Lupi. Perceba: nesse momento, a informação em off foi repassada para a apuração.
Com o cruzamento de dados, o repórter conseguiu mostrar os nomes e os estados dos políticos beneficiados com o programa. Entre eles, Flávia Morais, eleita deputada federal pelo PDT goiano. Antes, ela foi secretária de Trabalho de Goiás e acusada de compra de votos pelo Ministério Público Federal.
Ao longo de uma apuração, um repórter checa dados com fontes oficiais de informação e pede o que no jargão jornalístico é chamado de "outro lado". As assessorias de imprensa, por sua vez, têm papel fundamental. Podem, inclusive, oferecer elementos fortes o suficiente para "derrubar" a pauta.
Aqui, entra outro código, este não escrito, pois pressupõe princípios não apenas profissionais, mas também morais. Ao ter acesso às informações da reportagem, assessores devem defender a lisura, sem tentar desqualificar a pauta injustamente ou mesmo constranger jornalistas.
Não é isso o que vem ocorrendo na pasta do Trabalho.
Nos últimos três dias, o ministro tem usado um blog para responder a perguntas de repórteres e, assim, divulgar para a mídia o trabalho de apuração, antes mesmo que sejam apresentadas ao leitor. Reportagens em gestação do Correio, O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo foram expostas.

Esperteza
Os pedidos de informações foram repassados à assessoria de Lupi para que o jornal melhor informasse o cidadão. Se tal ação vai fragilizar o ministro, o problema é dele, que não trabalhou de forma coerente. Ao contrário do que Lupi imagina, a única guerra aceita por um repórter é pela informação.
Ao divulgar a pauta dos veículos, Lupi tenta matar um dos fundamentos do jornalismo, o da exclusividade da informação até o momento em que é publicada. Algo que deve ser respeitado em qualquer circunstância. Os assessores do ministro deviam saber disso.
Assim, eles, os assessores, poderiam demover o ministro Carlos Lupi da esperteza em vazar informações tão caras à sociedade.

ANDREI BASTOS - Monique e a Justiça



Monique e a Justiça
ANDREI BASTOS
O GLOBO - 12/11/11

Monique tem uns 30 anos e está no oitavo mês de gravidez do nono filho. Sim, foi isso mesmo que você leu: nono filho! Isso seria apenas uma coisa incomum nos dias de hoje se a história dessa mãe não fosse um rosário de sofrimentos.

Monique é muito pobre e mora na Cidade de Deus, onde sua vida faz o inferno parecer um paraíso. De uma primeira relação, com o homem para quem foi dada aos 15 anos pela mãe, nasceram quatro filhos — três meninos, hoje com 11, 9 e 5 anos, e uma menina, hoje com 7 anos.

Com o fim desse relacionamento, por força da fuga de Monique da violência doméstica praticada pelo marido, e o começo de outro, mais quatro crianças nasceram — três de apenas uma gravidez. Um dos trigêmeos morreu e nos sobreviventes foi constatada uma alergia mortal à lactose. O abismo se abriu.

O pai das primeiras crianças, segundo relatos de Monique, além de espancá-la com frequência, começou a abusar sexualmente da própria filha — e esta passou a praticar com os irmãos o que aprendeu. Essa criança, que sempre manifesta medo do pai e da casa dele, teve despertada uma epilepsia insuspeita.

Para maior infelicidade de Monique, o mundo cão em que vive não se restringe à sua família e à sua casa, ganhando a dimensão do próprio mundo. Apesar de ter reagido e se separado do homem a quem foi dada como mulher, ela e seus filhos sofreram um revés terrível com a concessão da tutela antecipada da guarda das crianças determinada pela própria Justiça para o pai suspeito de abusador. Com o atordoamento natural de quem já perdeu a noção da própria dor e problemas de saúde graves que podem comprometer sua vida durante o parto, Monique ainda encontra forças para lutar pelos filhos que a cegueira da Justiça lhe roubou e pela vida dos gêmeos sobreviventes, que só podem se alimentar de um leite especial e caro.

Mas que Justiça é essa que, literalmente cega, se deixou levar por labirintos obscuros de favorecimento à possível sordidez humana? Talvez a explicação esteja fora dos tribunais e se encontre nos descaminhos do pai. E que poder é esse, que torna comuns infernos como o de Monique? Que obsessão move alguém para obter a guarda de crianças e, como se não bastasse, para abrir inúmeras ações judiciais contra a mãe?

Este é o fio puxado da história dessa mãe que, com gravidez avançada, procurou ajuda na OAB/RJ para conseguir o leite especial para seus bebês gêmeos alérgicos à lactose. As pessoas se mobilizaram e conseguiram o leite e a casa da Cidade de Deus. Mas Monique precisa de muito mais, precisa de justiça! 



ANDREI BASTOS é jornalista e integra a Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ.

JOSÉ SIMÃO - Ueba! Belfort nocauteia Galvão!


Ueba! Belfort nocauteia Galvão!
JOSÉ SIMÃO 
FOLHA DE SP - 12/11/11

Vai ser hilário o Galvão transmitindo luta: "ÉÉÉÉÉÉÉ PORRRRRRADA! Porrada do Brasil!"

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E o ministro do Trabalho, que só sai abatido a bala, diz que ama a Dilma. Como é o nome do filme? Amor à prova de balas! Com Lupi e Dilma. Direção: Zé do Caixão! Rarará!

E é hoje. Não perco. A luta, a UFC, narrada pelo Galvão Urubueno e Vitor Belfort! Queria ver a luta desses dois, isso sim. Seria a luta do ano: Galvão x Belfort! "Bem, amigos da Rede Globo". "Amigos da Rede Globo, o caraca, PÁ". "Veeem que é tua, Beeelfort". "Cala a boca, Galvão, PÁ". Rarará!

Vai ser hilário o Galvão transmitindo luta: "Vai pra cima dele, Cigano, chuta, bate forte, dá na cara dele, ÉÉÉÉÉÉÉ PORRRRRRADA! Porrada do Brasil!".

Berrando nos erres. Onde ele vai tem erre. RRRRubinho, RRRRonaldo, RRRRonaldinho, RRRRobinho, PoRRRRRada!

Por isso que tá rouco. Mais rouco que a foca da Disney! Galvão, a Foca da Disney!

E o Galvão de novo: "Chute no saco, pode, Arnaldo?". "Joelhada na boca, pode, Arnaldo?". E Arnaldo: "A regra é clara, vale tudo". E adorei o nome do lutador brasileiro: Cigano. O Cigano Igor! Rarará!

E uma amiga me disse que o Galvão é o Sarney da Globo! Rarará! E a selecinha no Gabão? "Mano fica sem testar o gramado no Gabão". Então passou fome!

E jogar com o Gabão é problemático: ganhar é covardia e perder é vexame. Seria mais eletrizante jogar com os pigmeus de Botsuana! Ou com os monges do Nepal!

E Gabão é aquele país em que presidente é cargo vitalício. Ops, hereditário, passa de pai pra filho! E o locutor mais famoso do Gabão é o Gabão Bueno! Rarará!

E a frase que tá na boca do povo: prenderam o traficante porque ele se chamava Nem, se fosse Enem tinha vazado! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

E as fotos do Neymar no iate? Com aquele cabelo de pica-pau. Cabelo e corpo de pica-pau. Fazendo pose, de sunga, e segurando no pingolim. Olha o meu artilheiro aqui. A legenda da foto seria: Neymar mostra o pica-pau!

E mais um predestinado. Responsável pelo carregamento da transportadora Mercosul Line: Carlos CARREGA! Esse já foi batizado com o emprego garantido. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

MERVAL PEREIRA - Brasil no G-6


Brasil no G-6 
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 12/11/11

Ao mesmo tempo que somos afetados pela crise internacional que se agrava a cada dia, ameaçando reduzir nosso crescimento a níveis medíocres, somos beneficiários dela e da transformação do quadro de relações de poder e de interesses globalizados num mundo multicêntrico que a duras penas vai abrindo caminho para os países emergentes que têm sua melhor expressão nos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e a recém-chegada África do Sul, o S de South Africa), acrônimo criado por um banco de investimento para facilitar a compreensão das transformações que ocorriam no mundo e que se tornou quase que uma instituição de vida própria.
Mesmo crescendo a apenas 3% ao ano, o PIB brasileiro aumentará mais que o dos países europeus e o dos Estados Unidos nos próximos anos, o que colocará o país no G-6 da economia mundial, à frente da França e da Inglaterra.
Mas crescerá menos que emergentes como China e Índia. Brasil e Índia, devido ao baixo índice educacional e à falta de infraestrutura, crescerão em velocidade menor que Rússia e China nos próximos 20 anos, segundo estudo da Goldman Sachs, criadora dos Brics.
Mas, mesmo a lista das dez maiores economias do mundo devendo ser bastante diferente da de hoje nos próximos anos, há um detalhe fundamental: as maiores economias, medidas pelo Produto Interno Bruto (PIB), provavelmente não serão as mais ricas em termos de renda per capita.
Pelas projeções, os cidadãos dos Brics continuarão sendo mais pobres na média que os cidadãos dos países do G-6 de hoje, com exceção talvez da Rússia. O Brasil, se conseguir manter uma média de crescimento do PIB de 3,5% ao ano, chegará a 2050 com uma renda per capita de US$26.500, próximo do que já têm hoje França e Alemanha (cerca de US$23 mil), menos do que o Japão e os Estados Unidos hoje (cerca de US$33 mil).
Para se ter uma ideia de como a evolução dos países não se dá de maneira uniforme, basta lembrar que o Brasil já teve crescimentos sustentados do PIB de níveis asiáticos: de 1950 a 1959, média de 7,15%; de 1960 a 1969, média de 6,12%; e, de 1970 a 1979, de 8,78%.
Até 1980, o Brasil cresceu mais que a média mundial: de 1900 a 1980, a renda per capita brasileira cresceu em média 3,04%, enquanto a renda mundial cresceu 1,92%.
O período de maior crescimento foi o de 1950 a 1980, quando o país cresceu em média 4,39% sua renda per capita, para um crescimento médio mundial de 2,83%.
Nesse período, o Brasil figurou entre os dez países mais dinâmicos do mundo. O PIB per capita do Brasil em 1980 equivalia a 30,5% do dos Estados Unidos e, em 2009, era de 22,7%.
No mesmo período, a Coreia do Sul, que tinha PIB per capita menor que o do Brasil, foi de 18,8% para 60% do PIB per capita dos EUA.
Mesmo que chegue a ser a 6ª economia de um mundo conturbado, o país continuará tendo desvantagens competitivas sérias.
Os países que fazem parte da OCDE, os mais avançados do mundo, aplicam cerca de 7% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, o Brasil não passa de 1%, sendo suplantado largamente por Coreia do Sul e China, países que estavam atrás de nós nesse setor nos anos 1980.
Em 1960, a Coreia tinha escolaridade média superior à do Brasil em 1,4 ano de estudo, e essa diferença já está em mais de 6 anos.
A participação brasileira na produção mundial caiu de 3,1%, em 1995, para 2,9%, em 2009. No mesmo período, a China saltou de 5,7% para 12,5%, e a Índia foi de 3,2% para 5,1%.
O embaixador Marcos Azambuja, que já representou o Brasil em diversos organismos internacionais, inclusive em relação aos Brics, considera que o acrônimo foi "uma invenção necessária", menos talvez para a China e para a Rússia, que, como grandes vitoriosas na II Guerra Mundial, já tinham espaço assegurado no sistema das Nações Unidas, mas, sobretudo, para a Índia, a África do Sul e o Brasil, as três potências às quais se aplica com maior propriedade, segundo ele, o rótulo de "grandes emergentes".
Quando se assinou a Carta da ONU, lembra Azambuja, a Índia ainda não era sequer independente e apenas uma joia na coroa do Império Britânico; a África do Sul ainda montava o regime do apartheid isolada e depois enfrentada com a África pós-colonial que começava a nascer.
O Brasil, na sua análise, pesava muito menos do que hoje, e nossa contribuição na guerra para a causa aliada, embora certa e valiosa, foi menos importante do que pretendíamos então e pretendemos hoje.
A reivindicação de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, além dos aspectos objetivos do lugar que o país ocupa hoje na nova ordem mundial, tem um lado histórico pouco conhecido, já tratado aqui na coluna, que reforça tanto a aspiração brasileira quanto a ideia de que a importância estratégica do Brasil desde a origem foi minimizada pelas grandes potências vitoriosas.
Como único país da América Latina que lutou na Segunda Guerra Mundial ao lado das forças dos Aliados, o Brasil teve no presidente Roosevelt, dos Estados Unidos, um defensor de sua participação no Conselho, mas na reunião de Dumbarton Oaks a proposta encontrou resistências da Grã-Bretanha e da URSS.
A própria delegação americana recomendou que Roosevelt desistisse da ideia. Tanto britânicos quanto soviéticos eram refratários a aumento no número de assentos permanentes além dos cinco já definidos - EUA, Rússia, China, França e Reino Unido -, alegando que, se fosse expandido, o conselho poderia ver sua eficácia comprometida.
Churchill e Stalin tampouco veriam com simpatia a hipótese de permitir o ingresso de mais um "voto certo" para os Estados Unidos.
O presidente Franklin Roosevelt, que se havia empenhado pessoalmente em favor da China, era quem melhor poderia levar adiante sua intenção de criar mais uma cadeira permanente, mas sua morte, pouco antes da Conferência de São Francisco, eliminou em definitivo essa possibilidade.
Quando Truman assume, não era mais imperativo cultivar a amizade de Getulio Vargas ou tolerar abusos de seu regime autoritário. (Continua amanhã)

WALTER CENEVIVA - O DIP e a crise



O DIP e a crise
 WALTER CENEVIVA
FOLHA DE SP - 12/11/11


Hoje, a ONU, assim como o direito internacional público como um todo, não diz a que veio

DIP, no título da coluna, é Direito Internacional Público, ramo da ciência jurídica para nações e organismos internacionais, nas suas relações em tempos de paz. A aplicação do DIP, no dia a dia do planeta, tem sido criticada por não ter força para impor ao faltoso a correção de ato considerado ilegal.
O leitor objetará: se o cumprimento da regra desse direito não for imponível ao condenado, nem será propriamente um direito. No direito internacional privado, a força de coerção existe. Suas normas repercutem no espaço interno da nação.
Não é assim no direito internacional público, conforme se vê neste momento de crise econômica e política, até aqui sem força obrigatória das soluções adotáveis fora das fronteiras da nação que tenha originado a crise. O contágio poderá atingir todo o planeta. Haverá pressões, mas não a coerção irresistível do direito.
Pensemos na ONU, o maior de todos os organismos internacionais que, de quando em quando, parece ter força para impor suas resoluções. Não nos enganemos: quando a providência adotada contrariar a vontade dos Estados Unidos e da China, da Inglaterra e da França e da Rússia, mesmo ajustada ao interesse da maioria, a voz dos outros países será inútil. Só os cinco referidos têm poder individual de veto para decisão que contrarie seu próprio interesse.
Na crise da Europa, outro exemplo de diferenças está no Banco Central Europeu. Por injunções da política do Velho Mundo, o Banco não quer gastar reservas com nações que já calotearam ou calotearão seus credores no futuro próximo. Um provérbio antigo diz: casa em que todos mandam, todos gritam e ninguém tem razão. Os melhores motivos, sem força efetiva para dar solução à crise, valem tanto quanto um conto da carochinha, ou até menos.
Para que gastar fortunas no sustento dessa gente toda da ONU a viver a boa vida em Manhattan? Uma razão é que a ONU ainda tem alguma utilidade como fórum mundial, mas é só. Como se viu no Iraque, também é palco ideal para versões falsas do detentor do veto, quando convém a este, empurradas garganta abaixo dos "primos pobres". Hoje, a ONU, assim como o direito internacional público como um todo, não diz a que veio.
Pior não há, nos dias atuais, nem houve no passado, para a ânsia de compor soluções ajustadas ao interesse comum da maioria de todos os seres vivos da Torre de Babel terráquea. No pós-guerra de 1939/1945, a bipolaridade nós-eles separou o universo pró-Estados Unidos da América do universo pró-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A superpotência militar impôs sua vontade, em treinamentos de ataque em várias partes do mundo, contra nações pequenas. Só falhou no Vietnã, tanto quanto a França falhara antes, isso porque o Executivo americano não tinha a menor idéia do que iria enfrentar.
Tudo resumido, pode-se concluir. As soluções não decorrerão do direito internacional público. Não virão coletivamente, porque não há como consertar, a curto prazo, os pólos distantes de interesses contraditórios. No longo prazo, como sempre aconteceu, quase tudo se acertará, mas ficarão as feridas abertas. Como disse o general gaulês Breno, derrotado pelos romanos: "Ai dos vencidos!" ("Vae victis!"). Note bem: 390 anos antes de Cristo.

GOSTOSA


KÁTIA ABREU - Democracia versus baderna


 Democracia versus baderna
KÁTIA ABREU
FOLHA DE SP - 12/11/11

A ainda jovem cultura democrática brasileira enseja equívocos conceituais que frequentemente a ameaçam e a desmoralizam. Não é de estranhar, dada a origem autoritária de nossa República, que emergiu de um golpe de Estado, e a escassa cultura não só de nosso povo, mas também de parte de nossa elite.

O preâmbulo vem a propósito dos acontecimentos que envolvem a discussão, no Senado, do Código Florestal. Além de não se dar ao trabalho de ler a proposta -e lhe imputar acusações absurdas-, a minoria militante que a ela se opõe se arvora em falar em nome do povo, que não lhe deu tal delegação.

Dentro desse equívoco, tratam os que de fato detêm delegação popular -os parlamentares- como intrusos e querem impor sua vontade no grito, quando não na violência.
Assim é que, nesta semana, no curso das discussões, na Comissão do Meio Ambiente, essa minoria ativista, representada por 12 (!) estudantes da Universidade de Brasília, provavelmente ressentidos ainda da acachapante derrota no DCE, invadiu o Congresso e quis impor no grito o seu ponto de vista.
Os senadores foram ofendidos e abordados com violência. Fui pessoalmente ameaçada e insultada, tendo de sair sob escolta policial. Sabemos que o Congresso é a Casa do Povo, que a ela tem acesso para se manifestar, desde que pela ordem e com respeito, como manda a lei. Não foi o que ocorreu.
O pior é que não se tratou de um episódio isolado; ao contrário, vem se tornando recorrente, quase banal em nosso país. Assistimos, já há alguns dias, manifestação semelhante de truculência e vandalismo, na Universidade de São Paulo, onde uma minoria tenta se impor no grito, por meio de intimidação.
Os jornais informam que um punhado de estudantes -pouco mais de 70, num universo de 89 mil-, todos de classe média alta, vinculados a partidos e a organizações de esquerda, depredaram as instalações da USP, patrimônio do povo sustentado com os impostos.
Protestavam contra a presença da polícia, que reprimia o tráfico de drogas no campus. Enquanto a polícia cumpria a lei, fundamento do Estado democrático de Direito, aqueles militantes, travestidos de estudantes, promoviam o caos, impedindo que seus colegas exercessem o elementar direito/dever de estudar. "Vamos fazer a revolução", bradavam, ao mesmo tempo em que invocavam a democracia para legitimar a baderna.
E aí começa a confusão conceitual. Confunde-se liberdade com bagunça, vale-tudo. Democracia é o regime da maioria, com o reconhecimento às minorias, mas não só: é o regime da lei, sem a qual nem as maiorias nem as minorias estão seguras de nada.
Sem o estrito cumprimento da lei, a democracia não sobrevive. Torna-se rito de passagem, presa fácil dos aventureiros que dela se servem para aniquilá-la. O truque é antigo, previsto já por Lênin: usar as facilidades que a democracia oferece como meio de chegar ao poder, para então bani-la. É o que assistimos.
Há anos, o Brasil vive sob o domínio do gramscismo, estratégia de tomada do poder concebida pelo teórico italiano marxista Antonio Gramsci, que defendeu a manipulação da cultura como meio mais eficaz de promover a revolução.
Nessa engenharia maléfica, todos os polos de produção cultural -mídia, universidades, editoras, meio artístico- têm de ser dominados por um pensamento hegemônico. No caso, o socialista. Tudo o que a ele se contrapõe recebe o selo de "direita", que não significa nada, senão a maldição política e moral.
A questão ambiental, há anos, foi encampada por esses grupos, e não porque de fato os interesse. É apenas mais um meio de desestabilizar o país, enfraquecendo uma de suas maiores fontes de receita, o agronegócio, responsável pelos superavit na balança comercial do país e por um terço dos empregos.
Nem sequer conhecem o tema que abordam. Basta ver o que dizem a respeito para constatar que nem leram o projeto que será votado no Senado. O Código Florestal não anistia ninguém nem estimula o desmatamento, muito pelo contrário.
Impõe a recomposição de áreas degradadas e pune quem novamente as degradar. É inútil argumentar. São somente massa de manobra de interesses bem maiores que eles próprios desconhecem.

VIVALDO BARBOSA - Um partido que era limpo


Um partido que era limpo
VIVALDO BARBOSA
O GLOBO - 12/11/11

O PDT e o trabalhismo sempre cultuaram valores éticos e patrióticos ao longo de sua trajetória. O trabalhismo e o nacionalismo, marcas do PDT, ligam-se à Revolução de 1930 e esta, por sua vez, liga-se aos republicanos positivistas que fizeram a República no Brasil. Na história, a nação brasileira sempre reverenciou esses movimentos políticos e deu-lhes um lugar especial em nossa formação. O presidente Getúlio Vargas esteve no poder por quase 20 anos, enfrentou polêmicas e campanhas terríveis, mas nunca recebeu qualquer acusação de práticas de atos irregulares ou de corrupção, nunca se enriqueceu na vida pública. Aliás, sua família era de posses medianas. O presidente João Goulart foi deposto, os militares devassaram sua vida e não apontaram qualquer fato que o desabonasse.

Leonel Brizola igualmente teve sua vida devassada pelos militares e nada levantaram contra ele. Entrou em inúmeras polêmicas, fez diversos adversários e até inimigos. Mas até seus adversários e inimigos, por mais que fizessem críticas à sua ação política, sempre lhe devotaram respeito e sempre admiraram sua seriedade e lisura no trato da vida pública. Foi três vezes governador de estado, prefeito, secretário de estado, deputado, não se enriqueceu na vida pública. Ao contrário, o patrimônio revelado no inventário do casal, quando da morte da admirável d. Neuza Goulart Brizola, era de um terço do patrimônio que desfrutavam quando do casamento, decorrente de herança da d. Neuza.

Brizola nos legou um partido limpo e imorredouras lições de boas práticas políticas e republicanas.

Agora, todos nós nos entristecemos diante dessas notícias que envolvem diversas irregularidades no Ministério do Trabalho, onde se apontam ligações com o PDT. Nunca houve isto na história do PDT e do trabalhismo sadio.

Esta situação que envolve o Ministério do Trabalho veio nos esclarecer por que a direção do PDT procurou desorganizar e desestruturar o partido. Vejamos o quadro em que nos encontramos: nos últimos seis anos, o Diretório Nacional reuniu-se apenas duas vezes: para aprovar o apoio e participação no governo Lula e para dizer que queria continuar no Ministério do Trabalho no governo Dilma. O partido somente dispõe de 9 diretórios estaduais, o mínimo necessário para sua existência legal. Nos demais estados, adota comissões provisórias por 90 dias, sempre renovadas através dos anos, tornando os dirigentes locais dependentes da direção nacional. O mesmo procedimento adota em todos os estados em relação aos municípios. No Rio de Janeiro, por exemplo, existiam apenas 6 diretórios municipais até pouco tempo, nos demais municípios, comissões provisórias, em muitos nem isto, o partido está sem existência legal. O Conselho Político foi dissolvido. O movimento sindical foi dissolvido. O PDT é responsável pelo Ministério do Trabalho e extinguiu seu movimento sindical, que existia desde a criação do partido!

Por que desestruturar e desorganizar tanto assim o PDT? Agora, está ficando claro: o partido organizado, com seus departamentos funcionando, seus quadros e militantes atuantes, pressionaria e procuraria influenciar as ações políticas e administrativas do ministério. Mantendo o partido desorganizado, o ministério ficaria livre da influência dos quadros e militantes partidários. O ministro poderia tocar o ministério como lhe aprouvesse, valendo-se de pessoas de seu círculo pessoal e não dos quadros partidários já testados na luta política, que certamente o partido funcionando regularmente lhe imporia.

Há uma outra questão: há uma grande distorção ao envolver o Ministério do Trabalho com formação de mão de obra. A razão de ser e o destino do Ministério do Trabalho é trabalhar as relações de emprego no país, aperfeiçoá-las e, acima de tudo, procurar avançar nos direitos dos trabalhadores. A formação de mão de obra deve ficar a cargo do sistema educacional do país. São as universidades e os grandes colégios que deveriam cuidar da formação de mão de obra, utilizando os espaços e horários ociosos, pois diz respeito ao sistema escolar. Aliás, são as deficiências do sistema educacional que geram a necessidade de formação suplementar das pessoas para o mercado de trabalho. A fiscalização do funcionamento dos cursos ficaria a cargo do Ministério da Educação e das secretarias estaduais e municipais de Educação, que já estão aparelhadas para isto.

Por outro lado, utilizar-se-iam os serviços e os servidores públicos, e mesmo as instituições particulares, mas que são dedicadas ao ensino, e não as ONGs, muitas delas organizadas de forma precária, não habilitadas para a missão. Evitar-se-ia esse cenário de verbas pra cá, verbas pra lá, ONGs pra cá, ONGs pra lá.

VIVALDO BARBOSA é advogado e foi deputado federal pelo PDT do Rio.

RENATA LO PRETE - PAINEL


Sua casa, sua vida
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 12/11/11

Sepultadas as prévias, o PT prepara o mote da campanha de Fernando Haddad à prefeitura paulistana. O objetivo é associá-lo aos resultados econômico-sociais do governo de Lula, mentor da candidatura.

O slogan, ainda por ser construído, tentará estabelecer uma relação de complementaridade entre os dois personagens: enquanto o ex-presidente contribuiu para melhorar a vida do paulistano "dentro de casa", ampliando o acesso a bens de consumo, o ministro teria soluções para problemas que afligem o cidadão "da porta de casa para fora", notadamente nas áreas de mobilidade urbana, saúde e educação.

Local Se prevalecer a vontade do presidente nacional do PT, Rui Falcão, vereadores haddadistas vencerão a disputa interna pela coordenação da campanha do ministro da Educação. Ausente do evento de ontem que sepultou as prévias, o deputado Vicente Cândido (PT-SP) também reivindica o posto.

Lista de presença No ato convocado ontem em São Paulo para demonstrar a unidade do PMDB em torno da pré-candidatura de Gabriel Chalita à prefeitura, dois expoentes da sigla não apareceram: Paulo Skaf, desafeto do deputado e possível candidato a governador em 2014, e Wagner Rossi, ministro da Agricultura abatido na "faxina" de Dilma Rousseff. Delfim Netto, coordenador do embrionário plano de governo, também não apareceu.

Nem vem Secretário paulistano de Esportes, o ex-presidente do PMDB da capital Bebeto Haddad deixou claro a Chalita que qualquer ataque à gestão de Gilberto Kassab (PSD) na campanha será tomado como declaração de guerra à parcela do partido instalada na prefeitura.

Rebeldes... Insatisfeitos com a indefinição sobre a data das prévias do PSDB, três dirigentes municipais abandonaram reunião anteontem na sede da sigla depois que o presidente Julio Semeghini se negou a divulgar edital de convocação da consulta.

...com causa Os quatro pré-candidatos aprovaram resolução que agendava a disputa para janeiro, mas é desejo da cúpula tucana, em sintonia com Geraldo Alckmin, empurrar tudo para março.

Neocamarada Paula Pini, gerente de projetos do Banco Mundial para a África, foi escolhida por Aldo Rebelo (PC do B) para assumir a secretaria-executiva do Ministério do Esporte. Guido Mantega (Fazenda) ajudará a viabilizar o desligamento dela do Bird. O anúncio deve ser feito nas próximas semanas.

Dúvida cruel 1 Causaram rebuliço no Supremo Tribunal Federal as declarações do ministro Luiz Fux dando conta de que, diante das críticas recebidas, estaria disposto a mudar o teor de seu voto no julgamento da Ficha Limpa de modo a não beneficiar políticos que renunciaram para fugir da cassação.

Dúvida cruel 2 Lembrando que, na condição de relator, Fux teve mais tempo e condições do que qualquer outro ministro para formar seu entendimento, um colega dispara: "Talvez ele devesse ter procurado uma cadeira no Ibope, não no Supremo".

Recital Enquanto aguardava Sérgio Cabral, José Eduardo Cardozo encantou funcionários do Palácio das Laranjeiras, ontem, com sua performance ao piano. Quando chegou e ouviu o ministro da Justiça, que estudou o instrumento por mais de oito anos, dedilhando os primeiros acordes de uma sinfonia de Villa-Lobos, o governador aplaudiu: "Bravo! Bravo!".

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio
"Haddad defende a prisão dos viciados da Cracolândia, como se fosse solução. Na USP houve invasão de prédio público. No centro de São Paulo, o problema é de saúde pública."
DO LÍDER DO PSDB NA CÂMARA PAULISTANA, FLORIANO PESARO, em resposta a declarações do ministro da Educação, pré-candidato do PT à prefeitura, sobre a retirada dos estudantes que invadiram a reitoria da universidade.

contraponto
Sem perder a ternura

Em meio à tumultuada votação da DRU na Câmara, Ideli Salvatti recebeu no Palácio do Planalto o ministro de Assuntos Parlamentares de Angola, Norberto dos Santos, a quem cuidou de explicar o funcionamento do entorno da presidente Dilma Rousseff:
-Isso aqui antes era conhecido como o "núcleo duro" do governo. Agora, com toda esta presença feminina, passou a ser "núcleo doce"...
A própria ministra retificou em seguida:
-Se bem que é como uma rapadura: doce, mas dura!

CELSO MING - Banco Central caolho?


Banco Central caolho?
CELSO MING 
O ESTADÃO - 12/11/11

Políticos e empresários repetem, quase compulsivamente, que o Banco Central do Brasil não pode se limitar obsessivamente a puxar os juros para combater a inflação - como acontece hoje. Tem também de criar condições monetárias (manejo do nível de moeda na economia) para garantir o crescimento econômico e a criação de empregos.

A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou por unanimidade no início deste mês anteprojeto, depois retirado, que pretende acabar com o que muitos entendem como condição caolha do Banco Central. Deve perseguir tanto a estabilidade de preços como o crescimento econômico.

O modelo apontado é o do Federal Reserve System (Fed, o banco central dos Estados Unidos), que, por determinação legal, está obrigado a buscar esses dois objetivos simultaneamente. Quem lê os comunicados oficiais de política monetária do Fed enxerga lá, de fato, as justificativas de praxe, as de que o tamanho dos juros e suas demais operações procuram atacar as duas metas.

Na verdade, as coisas funcionam de outro jeito. O Fed trabalha com uma meta de inflação ao redor de 2% ao ano, medida pelo núcleo da evolução do custo de vida, onde são expurgadas as variações excessivas de alimentos e energia. E considera que o controle da inflação já garante, por acréscimo, o avanço econômico sustentável.

No momento, o Fed não consegue mais usar o fole da política monetária para reativar a produção e o emprego porque os juros não podem resvalar para abaixo do nível em que hoje se encontram, isto é, em torno de zero por cento ao ano.

Há muito o que mudar nos bancos centrais e na política que vêm conduzindo. Nem antes nem depois desta crise foram capazes, por exemplo, de assegurar o bom funcionamento do sistema financeiro nos países ricos. Ao contrário, trabalharam (ou se omitiram) de um jeito tal que permitiram a formação e o estouro das bolhas que levaram à eclosão da crise. Há muita gente séria que se pergunta por que os bancos centrais não carregam com certa proporção de ativos financeiros (títulos, ações, índices de valores imobiliários) a cesta de preços usada para calcular a inflação que tem de ser empurrada para a meta.

Difícil dizer como funcionaria, na prática, um duplo mandato. Em princípio, uma inflação sob controle e na meta é a melhor maneira de crescer, por alargar o horizonte para os agentes da economia planejarem seus negócios.

Em contrapartida, uma inflação alta muda drasticamente as coisas no curto prazo, na medida em que tende a tornar incompatível a coincidência de mandatos. A disparada dos preços tem de ser atacada com contração do volume de moeda na economia (alta de juros) que, no entanto, provavelmente puxaria o freio do crescimento econômico e do emprego.

Outra coisa é uma coordenação entre as políticas fiscal (controle das despesas públicas) e monetária (política de juros). Os juros podem se manter baixos se o governo disciplina suas finanças. Mas a condução da política fiscal não é tarefa de banco central; é do governo que a implanta por meio da execução do orçamento e dos controles exercidos pelo Tesouro.

A conferir. O risco é o de que, a partir de janeiro, sobretudo com a alta de 14% no salário mínimo, a inflação se descole desse 0,5% e oscile outra vez, acima do 0,7%. Também persiste a dúvida de se o governo manterá o superávit primário de 3,1% no ano que vem, de eleições. Mas cada vez mais o mercado financeiro aposta em que a estratégia do Banco Central, de obter uma inflação na meta em 2012, dará certo.

FERNANDO RODRIGUES - Uma lei imperfeita



Uma lei imperfeita

FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 12/11/11

BRASÍLIA - O título deste texto é um pleonasmo. Não há leis perfeitas. A Lei da Ficha Limpa é também cheia de qualidades e de defeitos.

O seu maior mérito é impedir a candidatura de quem já está condenado por uma instância colegiada, de mais de um juiz. O Supremo Tribunal Federal deu indicações de que aceitará como constitucional esse trecho. A regra terá um efeito profilático após algumas eleições.

Entre os aspectos incertos da Lei da Ficha Limpa está o caso do político que renuncia ao mandato para escapar de uma possível cassação. Essa pessoa deve ficar inelegível "desde o oferecimento de representação ou petição capaz de autorizar a abertura de processo", mesmo sem um processo formal aberto?

No início do julgamento desta semana sobre a constitucionalidade da lei, o ministro do STF Luiz Fux sugeriu que não é o caso. Quem renuncia ao mandato sem ter um processo de cassação aberto contra si não deve ficar inelegível. No dia seguinte, Fux recuou. Disse considerar mudar sua interpretação.

Pela regra atual, o deputado ou senador acusado de quebra de decoro mantém seus direitos se renunciar antes da abertura do processo no Conselho de Ética. Essa foi uma inovação dos anos 90. No passado, o político tinha o direito de abrir mão do mandato até o último minuto, quando a punição já era certa.

Ocorre que a brecha hoje ainda é grande. O deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP), acusado de envolvimento no mensalão, renunciou e fugiu da cassação. Voltou a Brasília reeleito. A manobra foi noticiada pela mídia. Os indícios contra ele eram conhecidos. Os eleitores paulistas não se importaram. Deram a esse político um novo mandato.

Se fechar essa porta, o STF impedirá lambanças iguais. Mas estará banindo eleitoralmente pessoas ainda não processadas. A decisão é difícil e delicada. Moldará parte da política daqui em diante.

EU E A GRÉCIA


MÔNICA BERGAMO - PÚBLICO-ALVO


PÚBLICO-ALVO
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 12/11/11

A atriz Veridiana Toledo encerra amanhã, no teatro da União Cultural Brasil-EUA, a temporada paulistana da peça "Meu Trabalho É um Parto". Ela reuniu, pela internet, 223 histórias de gravidez e achou que a plateia iria lotar de gestantes (que têm direito a ingressos grátis e brindes). "Mas elas foram em número 'baixérrimo'. Descobri que as grávidas estão no supermercado, nas filas de banco, mas não na noite", conta.

SEM DESCANSO

Mais de 130 peças de túmulos, algumas de bronze, foram roubadas entre janeiro e o início de novembro no cemitério da Consolação, em SP. Foram registrados dez boletins de ocorrência e nove prisões em flagrante, com nove pessoas indiciadas.

SURPRESA

Muitos dos furtos só foram descobertos no último dia 2, feriado de Finados, quando familiares visitaram as sepulturas dos parentes. O serviço funerário paulistano diz que intensificou a ronda nos cemitérios da cidade.

MEMÓRIA
A campanha Cumpra-se!, para que o Brasil acate os termos da condenação que o país recebeu da Corte Interamericana de Direitos Humanos pelo desaparecimento de 62 pessoas na Guerrilha do Araguaia (1972-1975), pretende fazer, no dia 24, uma manifestação em frente ao escritório da Presidência em SP. Uma das determinações da sentença, que completará um ano na data do protesto, é que o Brasil apure e puna os responsáveis pelo sumiço dos guerrilheiros.

PRESENTE
O ex-presidente Lula ganhou de presente do deputado Julio César (PSD-PI) o livro "Maria, Passa na Frente!". Ele estava internado para um check-up no hospital Sírio-Libanês no mesmo dia em que o petista fazia a primeira sessão de quimioterapia. A obra é descrita como de "testemunhos sobre o poder da frase: 'Maria, Passa na Frente!'. Nas tempestades da vida, nos momentos difíceis, nas indecisões, descubra como a Mãe de Deus quer passar à tua frente e te ajudar!".

LIGADONA
A cantora Macy Gray, que se apresenta no dia 24 no festival F1 Rocks, no Via Funchal, em SP, pediu potes com multivitaminas, vitamina C mastigável e vitamina B12 no camarim. Outra atração, a inglesa Jessie J, exigiu "refeição quente de boa qualidade (não fast food)".

NOITE DE BEBEL
Bebel Gilberto fez show na festa de lançamento da revista "Harper's Bazaar" no Brasil. Convidados como a apresentadora Luciana Gimenez, a estilista Sarah Burton e a designer Charlotte Dellal circularam pela Ballroom, nos Jardins.

VERDE
O Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), vai ser a sede do EcoVision, festival internacional de cinema, que se realizará pela primeira vez no Brasil. O evento, que reúne filmes de temática socioambiental, acontece em junho de 2012. Integra o calendário do Momento Itália/Brasil. Filmes de 80 países serão exibidos ao ar livre, em meio às obras de arte contemporânea do museu.

BONS DRINKS
O rapper americano Kanye West, que se apresenta hoje no festival SWU, em Paulínia (SP), está hospedado na suíte presidencial do hotel Tivoli Mofarrej. A diária do quarto custa R$ 30 mil.

West chegou ao hotel às 2h da manhã de ontem e retornou às 7h fazendo alguns pedidos: garrafas de tequila, conhaque e vodca. E também barbeador elétrico, pasta e escova de dente.

AI, MINHA COLUNA
A asa de anjo que a top Alessandra Ambrosio usou no desfile da Victoria's Secret, em Nova York, na quarta, pesava 25 quilos. Era feita com cristais Swarovski, ouro e outras pedrarias.

DEVAGARINHO
Depois de ficar no gargarejo no show da cantora Maíra Freitas, filha de Martinho da Vila, no Prêmio Congresso em Foco, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) convidou-a para conhecer o Congresso. Passaram a manhã da terça-feira passada no Senado, e Suplicy fez questão de contar, em detalhes, a história da Casa à cantora.

CURTO-CIRCUITO
Fernando Morais e o deputado Newton Lima falam sobre biografias no Congresso Brasileiro de Escritores, em Ribeirão Preto.

O livro "Uruguaya Tú Eres Parte: No Te Quedes Aparte" será lançado hoje, a partir das 10h30, no Museu da Casa Brasileira.

MIRIAM LEITÃO - Direção do vento



Direção do vento
MIRIAM LEITÃO 
O GLOBO - 12/11/11


O governo Dilma atravessa o seu décimo primeiro mês com o sexto ministro atingido por acusação de corrupção, com as previsões de crescimento do ano tendo caído de 5% para em torno de 3% em 2011 e com a situação internacional em crise muito maior do que o previsto. O Brasil ainda sustenta o crescimento, mas o mundo navega tempos de imprevisibilidade.
China e Brasil sustentam o Brasil. A China divulgou esta semana um número de queda da inflação, mostrando que há chance de manter o crescimento com inflação baixa. No Brasil, parte da alta do PIB se deve ao mercado de trabalho, que tem a menor taxa de desemprego em nove anos. A renda cresce menos e o crédito desacelera, mas tanto um quanto o outro estão em níveis bem mais altos do que no ano passado.
Há quem veja boas notícias até na área externa, onde a crise é maior, como o economista José Roberto Mendonça de Barros.
- A Grécia é um caso perdido, a Itália é grande demais, mas não está confirmado o cenário de duplo mergulho que tanto se temia. Os Estados Unidos não estão em recessão, apenas com um crescimento fraco de 2%, o Japão voltou a crescer se recuperando da grande queda após o terremoto e a China continua bem - lembrou.
Outra boa notícia, segundo ele, pode vir da agricultura brasileira:
- O clima foi bom, o plantio está indo bem, pode haver boa safra.
Os preços das commodities agrícolas caíram um pouco e isso reduzirá o total do superávit comercial brasileiro em 2012. Por outro lado, reduz um pouco a pressão inflacionária aqui e na China.
O cenário econômico não é como o do ano passado, de forte crescimento, mas o país evitou a recessão.
- O Natal não será o do 7,5% de crescimento do PIB como no ano passado, mas será bem razoável, as encomendas foram altas. Nos últimos trinta dias, no entanto, os números pioraram muito mais do que se previa. Agora, há muitas empresas pisando no acelerador, principalmente na indústria, que terá um crescimento pífio de 2% este ano. O pior da queda da produção industrial de setembro é ver o encolhimento do investimento: a queda nos bens de capital foi de 5% no último dado, o de setembro - diz Mendonça de Barros.
Há alguma chance de que a inflação fique no teto da meta este ano, na opinião do economista. Já se sabia que ela cairia no acumulado de 12 meses neste fim de ano, mas o governo teve que fazer algumas mágicas para aumentar a chance de ficar na meta, como adiar o aumento do IPI do cigarro e tirar a Cide da Petrobras para reduzir o aumento da gasolina:
- Uma parte é gol de mão, mas há alguma chance de se chegar aos 6,5%.
A conjuntura econômica se mantém, apesar da incerteza externa, mas quem tenta olhar para frente não consegue ver mudança estrutural nem na economia nem na política. A presidente permanece prisioneira do mesmo enredo. Teve que montar seu governo com partidos da base. Loteou a Esplanada. E a cada dia surgem denúncias contra um ministro. Ela demite o dono do "malfeito", como prefere chamar os casos de corrupção, desvio, promiscuidade, uso da máquina pública em que têm sido apanhados seus ministros. Até agora já caíram ministros do PT, PMDB, PR, e balança um do PDT. O mesmo padrão de "malfeito" se repete nos estados e municípios. O enredo está sendo encenado em cada recanto do país. A corrupção apodrece o que toca, se espalha, cria padrões de comportamento viciados. Desvia recursos públicos, tira eficiência da economia, mina a confiança na democracia.
Outro problema, que em parte está vinculado a este, é a falta de uma agenda de reformas. O governo Dilma não tem projeto claro e vive a reboque do Congresso e das crises. Ele não tem projeto de reforma tributária, apenas aceita ser emparedado pela maioria que tira receita dos royalties de petróleo dos dois estados produtores; não faz reforma orçamentária, luta apenas por mais sobrevida a uma ferramenta que veio para ser provisória há 17 anos, a DRU; não tem qualquer plano ousado na educação, apenas se esforça para explicar a sucessão de erros no Enem.
Sem projeto o país vai se arrastando. Ainda cresce no mundo em crise, mas dependente da demanda chinesa. O consumo interno é em parte formado por elevação da renda e do emprego, mas outra parte é por endividamento. São insistentes os alertas de analistas externos de que o país pode estar entrando em uma bolha de crédito. As obras de logística para a Copa, as Olimpíadas, mas principalmente para o próprio país, estão indo a passos lentos. O ajuste fiscal se faz com aumento de arrecadação e adiamento de investimentos. A inflação está ainda acima do teto da meta e terá no ano que vem o choque da elevação do salário mínimo. O superávit comercial depende fundamentalmente dos preços das commodities, mas o déficit em transações correntes permanece grande, apesar de não ser explicado por novos investimentos, mas por gastos na conta turismo.
É preciso cautela nas comemorações. Como alguns países pioraram demais, o Brasil parece navegar em mares tranquilos. Mas o fundamental não está respondido: em que direção vai esta caravela?

ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR - Estudantes - da ditadura aos baseados



Estudantes - da ditadura aos baseados
ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR
O ESTADÃO - 12/11/11

Para quem viu os estudantes de São Paulo enfrentando o Exército nas ruas, naqueles dias nada saudosos de luta contra a ditadura militar, é profundamente entristecedor observar os estragos feitos pela minoria que invadiu a USP,ao fundamento obsceno de defender colegas presos pela Polícia Militar quando fumavam maconha.

Os estudantes paulistas sempre tiveram bandeiras mais nobres.

Em 1932, quando a ditadura de Getúlio Vargas negava a outorga de uma Constituição ao povo brasileiro, milhares deles se alistaram às forças que enfrentariam com armas os defensores do ditador. Vem daquela época o verso gravado em bronze na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco: "Quando se sente bater no peito heroica pancada, deixa-se a folha dobrada enquanto se vai morrer".

Afolha dos dias presentes não é mais aquela dobrada no livro, mas o de uma conhecida erva que anestesia e enfraquece a vontade de alguns.

A mesma bandeira de luta contra a ditadura foi empunhada décadas depois também por estudantes para exigir eleições diretas e livres. A Faculdade de Direito da USP, na época, foi ocupada por seus alunos em circunstâncias que deixariam envergonhados esses que agora, quem sabe ao efeito de baseados, tomaram a Reitoria e conseguiram obter uma assombrosa desaprovação pública de sua conduta.

Nestes dias de inacreditável insegurança coletiva, quando grupos armados invadem residências e enfrentam sem medo a polícia com armas de grosso calibre, não dá para entender os grupos minoritários de estudantes da Cidade Universitária que não querem a segurança proporcionada pela Polícia Militar.Enfim, num momento em que a presença de policiais militares é desejada por praticamente todos, nas ruas, avenidas, ao lado das escolas, é incrível que essa minoria faça baderna pública para impedir atividade que é de interesse coletivo. Não é possível que os estupros e os assaltos ocorridos na Cidade Universitária não ensinem a essa minoria a necessidade de policiamento.

É forte e assustadora a informação de que na raiz de tudo está o desejo de uso livre de drogas.

Tão surpreendente se mostra essa versão que é preferível torcer para não ser verdadeira, mas, pelo que mostram os fatos, infelizmente o pretendido afastamento de policiais teria mesmo esse objetivo.

Num mundo como o nosso, de diferentes escalas de valores, é compreensível que as minorias exprimam os seus inconformismos.

Realmente, se estamos num Estado de Direito, exercido em regime republicano, as manifestações, quando exercidas com razoabilidade, servem até mesmo para fortalecer a democracia. Mas quando as minorias inconformadas agem por impulso e se afastam da lei,descumprindo - a deliberadamente, contra a vontade da maioria, o caminho a ser seguido para a manutenção da ordem é exatamente o adotado pelo governo paulista.

Diante de decisão judicial, devidamente fundamentada, que determinava a desocupação da Reitoria, com a retirada dos estudantes, não poderia ser outra a conduta da Polícia Militar. A desocupação efetivou-se com base na força necessária, mas sem violência,retirando-se e detendo-se os estudantes renitentes, que ali permaneciam por lamentável teimosia.

Quem teve a oportunidade de assistir na televisão à invasão da USP pelos policiais militares sentiu claramente o propósito determinado de afastar os estudantes, mas, ao mesmo tempo, não ceder às provocações. Todos sabemos como nessas horas o surgimento de uma vítima poderia alterar completamente a situação - e isso, felizmente, não aconteceu.

O comportamento desses estudantes, levados coercitivamente para a delegacia de polícia do bairro, faz lembrar infração de diferentes tipos penais, significando que deverão judicialmente responder pelos estragos.

A falta de razoabilidade seguramente vai custar-lhes bem caro, podendo até resultar na perda da primariedade, o que é danoso para qualquer pessoa, mas, sobretudo, para quem ainda vai iniciar sua atividade profissional.

Chama também a atenção o fato de se tratar de estudantes da mais famosa universidade do País, cujo acesso é sonhado por milhões de brasileiros. Sem nenhuma dúvida,os que ali conseguem penetrar, após sofrido vestibular, são pessoas privilegiadas, porque,em vez de pagar pelos estudos, terão como "sócio" o Estado paulista, que nada cobra desses alunos.

Os estudantes que trabalham durante o dia e fazem faculdade à noite não estão nesse grupo de privilegiados que tomaram a Reitoria. Em verdade, tornou-se público que a maioria dos estudantes reprova a invasão e deseja que a Polícia Militar cuide da segurança local. Curiosamente, a vontade dessa maioria é afrontosamente repudiada pela minoria radical de invasores, os quais, cobrindo a cabeça com panos (assim apareceram na televisão),fazem lembrar outros radicais - exatamente aqueles que usam o argumento das bombas.

Além do movimento de políticos que invadem terras alheias para se firmarem e obterem vantagens pessoais e de organizações mais recentes que ocupam prédios de particulares usando como massa de manobra a sofrida classe dos que não possuem casa própria, é um absurdo ver nascer essa revolta sem causa de estudantes privilegiados, que causaram a impressão de estar sob o efeito da conhecida erva.

O fato de esses estudantes não quererem a polícia perto deles é muito significativo e torna desnecessária qualquer outra explicação. Enfim, querem ter uma liberdade afrontosa aos costumes e até mesmo aos demais colegas, os quais preferem, por grande maioria, a presença da Polícia Militar na Cidade Universitária.

ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR:DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO