quinta-feira, outubro 03, 2013

O troca-troca da reforma - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 03/10

Dilma levará em conta o tamanho de cada bancada aliada na hora de redistribuir os cargos dos ministros que serão candidatos em 2014

A eleição ainda nem chegou, Lula mal entrou em campo em favor dos petistas, mas a relação entre PT e PMDB está a cada dia mais azeda. A última rusga se deve à nomeação de Francisco Teixeira para o comando do Ministério da Integração Nacional. Ainda que seja interino, a escolha de um técnico deixou aos peemedebistas aquela sensação de que o senador Vital do Rêgo Filho foi preterido. Nem a promessa de, quem sabe, entregar o cargo em janeiro serviu para acalmar deputados e senadores do partido. Numa reunião da bancada ontem, o tema foi tratado como “descaso” por parte do Planalto. Mas, diante do frenético troca-troca de partido dos últimos dias, Dilma só nomeará ministro depois de conhecer a nova cara da base aliada.

O PMDB, que está há tempos nesse ônibus petista, espera a nomeação para breve, independentemente da força de cada bancada. O próprio senador diz a amigos que o ministério estará de portas abertas para recebê-los num futuro próximo. Ocorre que interlocutores do governo afirmam que a reforma ministerial tem outros ingredientes além da simples troca do PSB pelo PMDB, conforme mencionamos aqui en passant ontem.

Dilma pretende avaliar a correlação de forças que surgirá até sexta-feira. O Pros, por exemplo, terá uma bancada superior a 20 deputados. O PDT, de 23, é bem capaz que passe para 10, um a menos do que tem hoje o PRB. E há de se levar em conta que o PDT tem hoje o Ministério do Trabalho, enquanto o PRB comanda a Pesca, com o senador Marcelo Crivella (RJ). Ninguém diz abertamente, mas se o PDT mantiver apenas 10 deputados, ficará difícil deixar a pasta do Trabalho sob comando do partido.

Para completar a ira dos aliados para com o governo e o PT, os pré-candidatos a governador pelo Partido dos Trabalhadores correm mundos atrás de aliados nessa fase pré-campanha. Em Mato Grosso do Sul, o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) conquistou PSD, PSC, PCdoB, PV e Pros. Em São Paulo, o PT percorre os municípios em busca de aliados para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, tirando musculatura de partidos amigos do governo Dilma.

Enquanto isso, no Congresso...
Tudo isso deixou no parlamento um gosto de “a vingança será maligna”, especialmente, entre os peemedebistas. Na Comissão Mista de Orçamento, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que deveria ter sido votada em julho, permanece represada. O Orçamento de 2014, então, nem se fala. Nada vai para frente enquanto não sair o tal orçamento impositivo, fruto de queda de braço no Senado. E, se o PMDB não se sentir prestigiado em breve, é bem capaz de o governo terminar com algum susto por ali.

E na oposição...
O senador Aécio Neves (PSDB-MG), pré-candidato do partido à Presidência da República, espera, de braços abertos, os peemedebistas insatisfeitos com o governo Dilma. Ele sabe que, em alguns estados, o partido de Michel Temer irá apoiá-lo. Mesmo com a permanência de José Serra no partido, o senador por Minas Gerais continua na linha de frente como principal nome do PSDB para concorrer contra Dilma Rousseff. Em conversas reservadas, os tucanos afirmam que a bancada deseja a renovação do nome que vai disputar o Planalto. No Paraná, por exemplo, o evento do partido teve cara de pré-campanha, com Aécio carregado nos ombros dos militantes.

Resta saber, entretanto, que forças terão a ex-senadora Marina Silva e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). A preços de hoje, Marina balança na bolsa de apostas, uma vez que não se sabe sequer se conseguirá formalizar a criação da Rede. Ontem à tarde, no Congresso, deputados comentavam que ficou tudo muito corrido. Ainda que Marina consiga montar o partido, não haverá tempo para proceder as filiações dentro do prazo exigido pela legislação eleitoral. Ou seja, a saída agora é buscar uma legenda alternativa para os integrantes da Rede e, depois, passada a eleição buscar a sigla de Marina.

A situação de Eduardo Campos é mais confortável, mas não chega a ser um oásis. Seu partido foi desidratado com o auxílio do governo Dilma. No Ceará, por exemplo, depois da saída de Cid e de Ciro Gomes do PSB para o Pros, Eduardo simplesmente não tem palanque no estado. Os Gomes, o PT e o PMDB estão hoje com Dilma, e o ex-senador Tasso Jereissati prepara um palanque para o PSDB.

Nesse contexto, a sorte de Eduardo será a divisão de alguns palanques com o PSDB. Em Minas Gerais, por exemplo, eles devem compor uma única chapa. Hoje, Eduardo Campos estará em Belo Horizonte, para a filiação do presidente do Atlético-MG, Alexandre Kalil. De lá, irá ao Rio de Janeiro, para uma reunião com o deputado federal Romário (PSB) e novas filiações ao partido. Não foi à toa que, ontem, nem deu quórum para votação na Câmara. Estão todos correndo para seus estados, em busca de times para 2014. Nós, por aqui, continuamos de olho em Marina.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 03/10

Grupo planeja complexo imobiliário de R$ 150 mi
O grupo JMalucelli, que atua com energia, construção e seguros, entre outros setores, planeja instalar um empreendimento com hotel, condomínios residenciais e área de preservação ambiental em Itapema (SC).

O projeto de R$ 150 milhões é desenvolvido em parceria com a Paysage Imóveis e está em fase de licenciamento. Ainda não há data prevista para o lançamento.

"Não temos um cronograma porque precisamos de definições do órgão ambiental", diz Edson Deos, coordenador do empreendimento.

"Em dezembro, protocolamos o estudo ambiental. Agora estamos aguardando a licença prévia", afirma.

O anteprojeto prevê a construção de 180 casas divididas em quatro condomínios, além de 44 apartamentos distribuídos entre pousadas, flats e unidades hoteleiras.

O grupo JMalucelli já trabalha no setor de turismo --possui um hotel em São Francisco do Sul (SC) e outros dois em Guaratuba (PR).

O novo projeto, porém, não significa que a companhia irá priorizar o segmento.

"Na verdade, vemos como uma oportunidade a mais para o setor imobiliário. Esse tem sido um dos focos de atuação do grupo face ao grande número de terrenos e áreas que temos", diz o presidente, Alexandre Malucelli.

Em relação à atuação da empresa na indústria hoteleira, Malucelli afirma que as atuais unidades foram "oportunidades pontuais de investimento" e que elas não têm participação "relevante" no faturamento --que atingiu cerca de R$ 2 bilhões em 2012.

LINHA DIRETA COM LONDRES
O Estado de São Paulo e o Reino Unido assinam hoje um memorando que formaliza a relação bilateral entre os governos. Um grupo de trabalho será formado para desenvolver projetos de cooperação.

"É a primeira vez que o governo britânico estabelece relações formais com um governo subnacional na América Latina, por isso é extremamente simbólico", diz Rodrigo Tavares, assessor internacional da gestão paulista.

As áreas prioritárias para atuação conjunta serão educação, administração penitenciária, ambiente, investimentos, transparência e combate à corrupção.

"Fica claro que o grupo de trabalho não versará sobre assuntos bilaterais de política externa entre Brasil e Reino Unido. Ele atuará em áreas de competência constitucional interna do Estado."

Um acordo semelhante foi assinado neste ano com os Estados Unidos.

"Até o final de 2013, deveremos formalizar as relações com os governos da França, da Alemanha e do Canadá", afirma Tavares.

GUERRA FISCAL
Empresas que receberam incentivos fiscais concedidos por Estados, como redução ou até mesmo isenção de ICMS, não deveriam ser punidas após decisões do STF que consideraram inconstitucionais os benefícios.

A avaliação é da advogada Mary Elbe Queiroz, que preside o Instituto Pernambucano de Estudos Tributários.

No Distrito Federal, o Ministério Público chegou a propor ações para que companhias devolvessem valores.

"As empresas foram atraídas com incentivos, investiram, criaram empregos. Não podem ser prejudicadas pela inconstitucionalidade praticada pelos Estados."

A advogada Claudia Maluf, sócia do escritório Demarest, afirma que o STF deveria modular a decisão, ou seja, fazer valer os efeitos apenas a partir do julgamento.

"Haveria, ao menos antes de uma reforma tributária, a minimização do problema."

"A solução mais justa, de fato, seria que se pusesse uma pá de cal sobre o passado e que a decisão fosse dada exclusivamente em relação ao futuro", diz Daniella Zagari, sócia do Machado Meyer.

Número de paulistanos endividados se mantém estável
O número de famílias endividadas na cidade de São Paulo permaneceu estável em setembro, segundo levantamento da FecomercioSP.

O índice ficou em 52,6% --mesmo valor registrado no mês de agosto.

"O nível de endividamento estava oscilando entre 52% e 57% desde março. Agora parece que houve uma estabilização", diz Fernanda Della Rosa, assessora econômica da entidade.

A retração no número de endividados é decorrente da inflação mais branda, que aliviou o orçamento das famílias. O aumento da taxa Selic também diminuiu a procura por financiamentos.

A expectativa é que o indicador caia nos próximos meses com o pagamento do décimo terceiro salário.

"É uma redução típica dessa época do ano, mas que indica que o Natal terá boas vendas. O consumidor estará livre de contas e poderá se endividar", diz Della Rosa.

A pesquisa também mostra que 13,9% das famílias da capital paulista tinham contas atrasadas no mês passado --queda de 3,5 pontos percentuais ante agosto.

Voos... Executivos da concessionária Aeroportos Brasil Viracopos vão participar neste fim de semana, na cidade de Las Vegas, nos Estados Unidos, de reuniões com 21 representantes de companhias aéreas internacionais.

...internacionais O encontro marca a tentativa de aumentar a oferta de voos para outros países. Hoje, só a TAP tem voos de passageiros. Outras 23 empresas de carga têm operações internacionais no aeroporto de Campinas (SP).

Intercâmbio... A Investe SP, agência de desenvolvimento do governo paulista, assinou um acordo de cooperação com a Aicep, órgão para investimento e comércio exterior de Portugal. É o quarto do tipo firmado pelo Estado.

...de investimentos O pacto, formalizado ontem, vai possibilitar o envio de funcionários da instituição paulista à sede da companhia portuguesa com o intuito de trocar experiências e prospectar negócios para o Estado.

Telefone com sinal
A operadora Oi implantou 632 novos sites (locais onde ficam as antenas que transmitem sinal) de telefonia celular nos oito primeiros meses deste ano. Desse total, 418 são de tecnologia 3G e 214 de 2G.

Também foi ampliada a capacidade de 2.334 sites de telefonia móvel 2G já instalados, de acordo com informações da empresa.

Neste ano, a Claro instalou 1.587 antenas 3G em todo o país, além de outras 246 2G.

Na Telefônica Vivo, por sua vez, foram pouco mais de 3.500 antenas.

A TIM não informa o número de sites criados no decorrer do ano, mas afirma que somará aproximadamente 14 mil unidades até o ano que vem.

Segundo a companhia, 24 quilômetros de fibra ótica serão expandidos. A ampliação seguirá as metas previstas pela Anatel.

O capital A Casa do Saber promove a partir de outubro diversos encontros com CEOs de empresas que passaram a vender ações na Bolsa de Valores. Participam, entre outros, Constantino Júnior, da Gol e Jean-Marc Etlin, do Itaú BBA.

Panos... As vendas de tecidos no comércio atacadista subiram 1,8% em setembro na comparação com agosto. O sindicato paulista do segmento atribui o resultado ao início do abastecimento das lojas para o fim do ano.

...quentes No mercado de cama, mesa e banho, apesar do declínio de 3,7% em agosto em relação ao mês anterior, o movimento foi positivo em julho (4%) e junho (1,5%), sempre na comparação com os 30 dias precedentes.

Expansão A rede especializada em bolsas e acessórios Couro&Cia. vai abrir 140 lojas nos próximos cinco anos. Até o fim de 2013, a previsão é inaugurar cinco pontos. A expansão deve incrementar o faturamento da empresa em 30%.

O que as pessoas querem - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 03/10

Esses médicos podem não resolver, mas também não fazem piorar o sistema. O problema é ficar nisso



Três coisas mudaram profundamente o Brasil, e para muito melhor: a Unidade Real de Valor, estranha criação de economistas, que preparou a introdução do Real; as privatizações (telecomunicações, siderurgia, mineração, petróleo, estradas); e a Lei de Responsabilidade Fiscal, com regras e limites ao gasto público.

"Houve passeatas pedindo isso? Nenhuma. As pesquisas apontavam para isso? Não. O que houve foi liderança, uma capacidade de apontar rumos e uma articulação eficiente para aprovar o que tinha que ser aprovado no Congresso e implementar o que dependia da ação de uma tecnocracia eficiente".

Essa é a observação muito pertinente do economista Fábio Giambiagi, em entrevista publicada no jornal “Estado de S.Paulo”, no último domingo. Aponta para um problema crucial nos dias de hoje: a falta de lideranças que... liderem, ou seja que não se guiem apenas pelo que os marqueteiros propõem a partir de pesquisas de opinião. Ou de manifestações populares.

Claro que pesquisas e manifestações são sinalizações importantes. Mas elas não conduzem diretamente a políticas. E, não raro, pedem providências contraditórias. Por exemplo: todo mundo reclama dos impostos que pagamos e todo mundo pede mais e melhores serviços públicos, que exigem mais gastos.

A maior bronca da população, indicada em pesquisas e nas redes, está nos serviços de saúde, especialmente os públicos. Há reclamações, e muitas, contra os planos e seguros privados, mas parece claro que a população absorveu aquilo que a Constituição diz — saúde é direito de todos e dever do Estado. Resumindo: que todo brasileiro tem o direito de ser atendido a tempo, de graça, por bons médicos, em bons hospitais e postos de saúde ou em casa mesmo.

Não é fácil entregar isso. Estudos abundantes mostram as dificuldades do setor, que estão, sim, na falta de mais dinheiro, mas, principalmente, na baixa produtividade. Com o dinheiro atual, daria para fazer mais e melhor.

Mas isso exige, por exemplo, regras de gestão baseadas no mérito, na avaliação frequente da eficiência, prêmios para os competentes e punições, incluindo demissões, para quem não cumpre as metas. Dá para medir a eficiência de um hospital e seus funcionários? Dá e é bastante fácil, seja o hospital público ou privado.

Difícil, no setor público, é introduzir sistema e metas. Sindicatos de funcionários certamente vão reclamar — como sempre reclamaram — de modo que há um custo político nessa mudança.

Mas será que os funcionários são todos vagabundos e incompetentes? Está claro que não.

É verdade que muita gente prefere um emprego mediano, com salários medianos, sem ganhos expressivos, mas também sem risco de demissão ou de cobrança. Para os líderes sindicais, é mais fácil defender um sistema que iguale todos, ainda que por baixo, do que um modelo de ganhos e riscos. É nesse quadro que os sindicatos se dedicam basicamente a pedir reajustes salariais, sempre limitados dada a restrição dos recursos. O resultado é um médico e um enfermeiro competentes e que trabalham pesado — e ganham a mesma coisa que aqueles que mal aparecem no serviço.

Coloque aqui professores, policiais, funcionários em geral — e vai-se encontrar um quadro parecido.

Quer dizer, então, que não tem jeito? Tem. Experiências diversas, aqui e lá fora, e o simples bom senso sugerem que a maioria dos trabalhadores, no setor público ou privado, topa um sistema de meritocracia, desde que explicado e implantado com argumentação e num ambiente pacífico. Só que dá trabalho e exige verdadeira liderança, inclusive uma que corra riscos.

É mais fácil inventar o Mais Médicos. Quem pode ser contra a colocação de médicos em lugares que não tinham esse profissional? É claro, porém, que um punhado de médicos — dez mil que sejam — não vai fazer diferença num universo de mais de 350 mil, o número desses profissionais atualmente trabalhando no Brasil. E nem que sejam altamente capacitados serão capazes de superar a falta de estrutura e de recursos verificada nos lugares mais necessitados.

Mas dá para fazer uma festa na chegada de 150 cubanos, com uns bons pontinhos na pesquisa. Parece que o governo está fazendo alguma coisa. Digamos que tudo bem. Um pouquinho de marketing não faz mal, não é mesmo? Esses médicos podem não resolver, mas também não fazem piorar o sistema.

O problema é ficar nisso. Assim como congelar tarifas é a reação mais fácil e mais popular — e a menos eficiente diante da bronca com os serviços de transporte. Assim como eliminar pedágios é a resposta mais demagógica e marqueteira, no mau sentido, quando as pessoas reclamam do estado das vias públicas.

Eis o ponto: protesto, já temos, ainda bem. Faltam-nos lideranças, à esquerda e à direita, que saibam responder mesmo a broncas ocultas.

Devagar demais - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 03/10

Mais um resultado medíocre da indústria. Em agosto não houve nem crescimento nem queda da produção industrial sobre junho. Mas o número final tem de ser encarado como negativo porque o IBGE reviu para menos (-2,4%) do que tinha visto antes (-2,2%) a produção de julho. Ou seja, o ponto de partida de agosto ficou abaixo do que se imaginava. No acumulado dos oito primeiros meses do ano, o crescimento da indústria foi de apenas 1,6% e, em 12 meses, de 0,7%.

A nota positiva está no segmento de bens de capital (máquinas e equipamentos) que avançou 2,6% em agosto e 13,5% no acumulado de janeiro a agosto. É indicador de que, apesar de tudo, a indústria está investindo, o que também está sendo confirmado a partir das informações colhidas no movimento de importações que, neste ano, vêm crescendo à média diária de 6,5%.

Alguns analistas olham para curvas como as que estão publicadas ao lado e se preocupam com o que entendem como forte volatilidade da atividade industrial. Mas o resultado é lamentável também quando se examinam as médias móveis trimestrais, que minimizam o efeito volátil.

O mau desempenho da indústria não pode ser debitado quase unicamente à crise externa, como estão argumentando as autoridades. É verdade que nos nove primeiros meses deste ano a exportação de produtos industrializados caiu 2,6%. Aí há muito jogo contra do próprio governo, na medida em que tolera injustificadamente a retranca comercial, contrária aos tratados, por parte da Argentina e pouco ou quase nada vem fazendo para abrir mercado externo para a produção brasileira (e não só para a indústria), por meio de acordos comerciais.

Mas o buraco é ainda mais embaixo. Os custos de produção continuam subindo em reais; até mesmo o excelente desempenho agrícola produz um efeito ruim porque estressa ainda mais a utilização da já precária infraestrutura brasileira; os custos trabalhistas estão aumentando; e a burocracia da Receita Federal chegou ao cúmulo de exigir das empresas duas contabilidades paralelas, com duas auditorias também paralelas.

O governo alardeia, como há três dias o fez o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que tem baixado os custos: do crédito, da energia elétrica, dos encargos sociais. São iniciativas casuísticas, pouco abrangentes e quase sempre temporárias. Quando são minimamente eficientes, provocam distorções, porque favorecem algumas empresas em detrimento de outras e desequilibram preços relativos. Tudo isso contribui para minar a confiança, fator que também ajuda a derrubar o resultado.

A competitividade da indústria brasileira, que é reconhecidamente baixa, está para enfrentar novos impactos dramáticos nos próximos anos, quando as indústrias instaladas nos Estados Unidos, no Canadá e no México tiverem acesso a gás natural e energia elétrica a uma fração do custo atual em consequência da revolução do xisto. Não há mobilização do governo para enfrentar esse novo nível de competitividade do qual a indústria americana começa a tirar proveito.

Um mês para esquecer - EVERARDO MACIEL

O Estado de S.Paulo - 03/10

A monarquia britânica reserva a expressão annus mirabilis para assinalar os anos de fartura e sucesso, em contraposição ao annus horribilis, no qual prevalecem as desventuras. Para a economia brasileira, setembro de 2013 pode ser tido como o mensis horribilis, pela impressionante conjunção de notícias ruins, desbancando a tradição de agosto.

A balança comercial, no período de janeiro a setembro, registrou o maior déficit desde 1998 (US$ 1,62 bilhão).

Há muito tempo o Brasil não conhecia déficit primário nas contas do setor público. Agosto nos brindou com um déficit de R$ 432 milhões, a despeito das recorrentes tentativas das autoridades fiscais de escamotear a clara tendência de deterioração das contas, desde a crise financeira de 2008, mediante discursos que pretendem desqualificar a geração de superávit primário ou práticas ridículas de "contabilidade criativa".

A pesquisa Focus, do Banco Central, que captura previsões do mercado financeiro, elevou a projeção de inflação para 2013 de 5,81% para 5,82%, bem próximo do teto da meta inflacionária. Mais grave, para 2014 se espera uma inflação ainda maior (5,84%). Não se pode, além disso, desconhecer o represamento de vários preços de combustíveis, energia elétrica e transportes públicos. Restou evidente que o controle dos preços dos combustíveis e da energia elétrica conseguiu, tão somente, produzir danos seriíssimos à saúde financeira da Petrobrás e da Eletrobrás.

A ambígua e mal elaborada política de concessões produziu, em setembro, fracassos memoráveis: ninguém se habilitou à licitação da Rodovia BR-262, que liga Minas Gerais ao Espírito Santo; as grandes empresas norte-americanas e britânicas (Chevron, Exxon Mobil, BP e BG) não se animaram a apresentar propostas para o Campo de Libra, joia do pré-sal e primeira área a ser explorada no regime de partilha.

O Relatório de Competitividade Global do Fórum Econômico Mundial, divulgado naquele fatídico mês, mostrava que o Brasil, no cômputo geral de competitividade, caiu da 48.ª para a 56.ª posição, e, em relação à eficiência do governo, desabou da 111.ª posição para a desastrada 124.ª posição. De igual forma, a pesquisa anual do Banco Mundial sobre a facilidade para fazer negócios (Doing Business 2013) registrou que o País caiu da 128.ª para a 130.ª posição e, especificamente em relação ao pagamento de tributos, da 154.ª para uma impressionante 156.ª posição, num universo de 185 países.

O Banco Central reduziu de 2,7% para 2,5% a projeção de crescimento do PIB para 2013, mesmo considerando o pífio desempenho de 2012 (0,9%). Essa projeção é inferior à prevista para América Latina e Caribe (3%), segundo a Cepal, e somente superior à da Venezuela (1%).

Até no campo social setembro trouxe má notícia. O índice de analfabetismo, apurado em 2012 e em queda desde 1999, voltou a crescer, representando 8,7% (13,2 milhões de pessoas) da população maior de 15 anos. Ainda que esse índice tenha suscitado algumas controvérsias estatísticas, sua apuração decorre da mesma metodologia utilizada em toda a série histórica.

Tudo isso pode ser agravado com os ventos que sopram do norte. É muito provável que a política de expansão monetária dos EUA esteja chegando ao fim, implicando valorização dos juros básicos e do dólar. Para enfrentar a inflação decorrente da desvalorização do real, só restará a elevação dos juros, com repercussões na economia doméstica. Assim, o mensis horribilis pode ser o prenúncio de um annus horribilis.

É indispensável uma correção de rumos na política econômica. Sem preconizar saídas, um bom começo seria abandonar a arrogância, o voluntarismo e a fixação em surradas teses.

Martin Wolf, um dos mais abalizados economistas contemporâneos, em entrevista a O Estado de S. Paulo em 15/9/2013, observou que "expansão fiscal em países com problemas estruturais só gera inflação". E, quanto ao Brasil, sentenciou: "O Estado brasileiro é ineficiente e corrupto".

Oi? - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 03/10

Empresa que se funde com a Portugal Telecom foi uma "campeã nacional" patrocinada pelo Estado


A OI É de certo modo uma das maiores empresas privadas estatais do Brasil, se não a maior.

Oi? Como assim, privada e estatal? Talvez seja mais preciso dizer que a Oi é resultado de uma grande parceria público-privada. Talvez também seja impreciso dizer que a empresa seja "do Brasil", pois até ontem, ao menos, não se sabia muito bem quem controlaria a CorpCo, fusão da Oi com a Portugal Telecom.

A Oi nasceu TeleNorteLeste no estrambótico leilão de privatização da telefonia estatal, em 1998. Como tantos grupos que venceram leilões, talvez um pouco mais, ficou de pé apenas com auxílio financeiro estatal. A empresa privatizada seria a Telemar, mais tarde Oi, que engoliria a Brasil Telecom com ajuda estatal em 2008-2009. Desde a privatização, a Telemar-Oi seria a empresa do setor que mais receberia empréstimos do BNDES.

Como se recorda, em 2008 vivíamos os anos do Brasil Grande de Lula, do "milagre do crescimento", do Brasil petrolífero em breve com assento na Opep, quiçá no Conselho de Segurança da ONU. Um país grande precisa de grandes negócios, ou de grandes empresas internacionalizadas, "campeãs nacionais". Isto é, de multinacionais brasileiras, naturalmente criadas com grandes empréstimos baratinhos do BNDES e outras parcerias público-privadas.

O governo Lula patrocinou politicamente e garantiu o financiamento oficial de fusões e aquisições de empresas (algumas meio falidas), a criação de oligopólios privados, por meio do BNDES e arranjos com Petrobras, Banco do Brasil e fundos de pensão paraestatais. Patrocinou a reorganização do controle da grande empresa, o que o governo FHC fez por meio das privatizações subsidiadas. O que FHC privatizou, Lula conglomerou.

Pode ser que a criação de empresas de grande escala seja útil (para quem?), que valha a pena do financiamento estatal subsidiado (qual o tamanho da pena?), mas o processo todo está sub judice, e não devido à possível "desnacionalização". Com a palavra, os universitários.

A Oi pegou esse bonde do Brasil Grande de Lula. Vários bondes. Pelas normas que pautaram a privatização e o pós-privatização das teles, a Oi não poderia comprar a Brasil Telecom. O governo Lula arranjou a mudança legal, ad hoc, depois de anunciada a operação entre as empresas, tudo em 2008.

O BNDES indireta, mas pesadamente, barateou a operação financeira, que beneficiou as empresas Andrade Gutierrez e La Fonte (família Jereissati), até outro dia na prática donas da Telemar e da Oi.

Até 2010, o BNDESPar tinha uns 31% do capital; fundos de pensão de estatais, controlados politicamente pelo governo, tinham 18%. Nesse ano, Lula e a direção do BNDES articularam com o governo português, a Oi e a Portugal Telecom a entrada dos portugueses na tele "campeã nacional", então superendividada, entre outros problemas. Lula resolveu um problema político e empresarial em Portugal e ajudou a arrumar a vida da Portugal Telecom, que deixava a sociedade com a Telefônica na Vivo.

Sim, a Oi foi grande investidora numa pequena empresa de um filho de Lula, motivo de grande escândalo, ora esquecido. Mas essa andorinha não fez o verão da onda de oligopolização patrocinada pelo Estado. Esse buraco é mais fundo.

Balanço da indústria - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 03/10

A gangorra industrial continua balançando. O IBGE informou que em agosto a indústria cresceu zero, e a queda que já havia sido forte no mês anterior piorou de -2% para -2,4%. Em junho, a indústria havia crescido 2,1%. O movimento da economia este ano tem sido errático, com altas fortes, seguidas de grandes recuos. O país não atingiu o crescimento sustentado em 2013, vai aos trancos e barrancos.

O ano havia começado bem para o setor industrial mas o cenário se inverteu. De janeiro a abril, houve alta 3,1%; de maio a agosto, queda de 2,3%. O resultado divulgado ontem reforça as previsões de que o PIB do terceiro trimestre ficará em torno de zero, ou negativo, depois do forte crescimento do segundo tri.

Na semana passada, a presidente Dilma Rousseff afirmou em seu twitter que o Brasil teve o terceiro maior crescimento do mundo no segundo trimestre, com alta de 1,5% em relação ao primeiro trimestre, o que daria uma taxa de 6% anualizada. No ranking, há vários países na frente do Brasil naquele período, como China, Turquia, Colômbia, Argentina, Cingapura. Foi de fato um bom resultado, mas nem a própria área econômica do governo espera que se repita o mesmo número no terceiro trimestre. Essa estagnação da indústria em agosto, depois do tombo de julho, é um indicador que prenuncia um número fraco para o período.

Um número não faz verão. O que realmente é relevante é entender o movimento oscilante do ano. O PIB cresceu 0,6% no primeiro trimestre, acelerou para 1,5% no segundo, mas tem colhido números fracos no terceiro. É por isso que o Banco Central rebaixou de 2,7% para 2,5% a previsão de crescimento do ano como um todo. O Ministério da Fazenda também já reduziu suas projeções. De todos os setores, a indústria é que mais tem oscilado. Dos oito meses já divulgados este ano, até agosto, houve alta em apenas quatro, queda em três e uma estagnação.

O IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) revisou de 2,5% para 2% a projeção de crescimento da indústria este ano. A Rosenberg Associados também cortou para 1,7%. Se forem confirmados esses números, o país não conseguirá em 2013 se recuperar do tombo de 2,6% que a indústria sofreu no ano passado. O Departamento de Pesquisa Macroeconômica do Itaú acredita que a produção industrial voltará a crescer em setembro, mas ainda assim fechará o terceiro trimestre no negativo. Por isso, o banco estima que o PIB do período também ficará negativo, em 0,5%, depois da forte alta do segundo trimestre. A média móvel trimestral foi também de crescimento nulo: de -0,1%.

O dado que mais tem chamado atenção na indústria este ano é o da produção de bens de capital, que são os investimentos. No acumulado de janeiro a agosto, houve alta de 13,5%. No ano passado houve uma forte queda de 12,2% no mesmo período. Segundo o IBGE, o destaque dos investimentos é a produção de equipamentos de transporte, que cresceu 22%. A produção de caminhões, que foi a grande vilã do ano passado, destravou este ano. É preciso que ela se normalize para, de fato, saber o ritmo real dos investimentos.

O terceiro trimestre, que acabou na semana passada, deve ter sido o período mais fraco do ano. As expectativas dos institutos de pesquisa e dos bancos são de que no quarto tri o país terá um número melhor. Se for isso, o ano terá sido uma gangorra: um trimestre médio, um segundo muito bom, um terceiro fraco, talvez negativo, e um quarto de pequena recuperação. Melhor do que no ano passado, sem dúvida, mas um resultado ainda aquém do que o país precisa.

O investimento-aliche e outro nó fiscal da União - ROBERTO MACEDO

O Estado de S.Paulo - 03/10

Quem lê meus artigos sabe que muitos sempre dão ênfase à necessidade de ampliar os investimentos públicos e privados no Brasil. Sem isso seu produto interno bruto (PIB) continuará a mostrar taxinhas de aumento como em 2011 e 2012. As previsões são de que também virão em 2013 e 2014, o que daria uma taxinha média perto de 2% nesses quatro anos.

Taxas insatisfatórias também marcaram, em média, o desempenho do PIB brasileiro nas três últimas décadas, exceto entre 2004 e 2010. Então seu crescimento foi excepcionalmente bem melhor, menos em 2009, quando veio o efeito da crise mundial que eclodiu no ano anterior. Nos sete anos desse período, a taxa anual média de crescimento foi 4,5%.

A necessidade de mais investimentos precisa ser repetida à exaustão. Eles ampliam a capacidade produtiva do País e, assim, sua oferta de bens e serviços, expandindo seu PIB. Investimentos ampliados significam também rendimentos para empresários e trabalhadores envolvidos na sua realização. Com isso passam a contar com mais renda própria e vão também ao consumo, expandindo a demanda, mas sem depender tanto da concessão de crédito, como ocorre no Brasil. Tal dependência acaba comprometendo a renda com dívidas que não deixam um legado material duradouro. O próprio crédito também deveria ser concedido mais para ampliar investimentos, como para aquisição da casa própria, impondo a necessidade de poupar para custeá-los. E, assim, significariam acréscimo ao patrimônio de quem os realiza, o que à frente lhes permitiria mais renda, investimentos e consumo, mas de novo bem assentados na expansão da capacidade produtiva e na renda assim gerada.

Renovada esta pregação, passo ao investimento-aliche. Esse peixe miudinho me veio à mente ao ver um gráfico em forma de pizza mostrando a ínfima participação dos investimentos nos gastos federais não financeiros da União em 2012. Num gráfico desse formato a área total de uma circunferência é repartida em fatias de tamanho proporcional ao de cada parte dessa área.

Tal gráfico, entre outros, foi apresentado em palestra do economista Mansueto Almeida, um dos maiores especialistas em questões fiscais do governo federal, no dia 23 do mês passado. Essa palestra foi realizada no seminário Gestão Pública e Burocracia: Desafios para o Estado Brasileiro, organizado por este jornal, que, no dia 27 seguinte, publicou caderno especial sobre o evento.

A fatia dos investimentos ficou com apenas 6% dos referidos gastos. Ora, se um grupo de pessoas estivesse a comer uma pizza com 17 aliches espalhados por cima, quem recebesse essa fatia de 6% provavelmente ficaria com apenas um dos peixinhos. Numa tabela também exibida, os mesmos investimentos representaram só 1,1% do PIB e, nos dez anos dos governos petistas, essa parcela só cresceu 0,1%(!) do PIB, apesar da ampliação da carga tributária também como proporção desse produto.

Onde foi esse aumento de impostos? Com dados da mesma tabela, calculei que 92% do aumento dos gastos dos governos petistas até 2012, como porcentagem do PIB, foram para benefícios em dinheiro como os do INSS, do seguro-desemprego, do Bolsa Família, do abono salarial e dos devidos a idosos e inválidos. Não sou contra gastos desse tipo, mas também é preciso abrir mais espaço para investimentos públicos. Houve uma opção populista e eleitoreira, e também por menor crescimento do PIB. E, ainda, por privatizar quase toda a expansão dos investimentos, ao mesmo tempo que o setor privado é asfixiado com mais impostos. É um nó a ser desatado por estadistas. Mas onde estão eles?

Outro nó em cima do descrito também foi mostrado pelo palestrante. Primeiro, ao constatar que a taxa básica de juros, ou Selic, a qual em princípio baliza a remuneração da dívida pública, caiu de 25% ao ano no final de 2002 para 7,25% no fim de 2012. Segundo, apesar disso, e com perdão do economês, "o custo implícito da dívida pública líquida" ficou estável numa taxa alta, em torno de 15% ao ano.

O que é essa coisa que deixei entre aspas? Trocando em não muito miúdos e sem maiores detalhes, o governo federal passou a aumentar fortemente a sua dívida bruta ou total, mais recentemente para financiar investimentos privados por meio do BNDES e da Caixa Econômica Federal. Com isso sua dívida bruta aumentou muito, mas a líquida, não, pois o governo fica credor dessas instituições. Porém, como os empréstimos são subsidiados, as diferenças entre o que o governo paga de juros e o que recebe dessas instituições impõe implicitamente um ônus maior para sua dívida líquida, perdendo assim o ganho potencial de uma Selic menor.

Minha conclusão foi a de que a forma como o governo financia investimentos privados prejudica o próprio investimento público. Ou seja, ao aumentar o tal custo implícito da dívida líquida com os subsídios que concede, se realizasse mais investimentos próprios com dívida adicional, isso aumentaria seus gastos pelo valor desses investimentos. Como, todavia, não segura as demais despesas, isso também reduziria o superávit primário - de novo traduzindo: receita menos despesas não financeiras -, que precisa mostrar, mesmo que cadente, para não ampliar ainda mais a desconfiança com que é visto pelo mercado financeiro e nos meios econômicos em geral.

Assim, há outro nó que estadistas ainda inexistentes precisariam resolver. E cabe outra pergunta: com o governo petista prejudicando os investimentos públicos ao ampliar outros gastos de sua prioridade e seus subsídios aos investimentos privados, virá também a privatização de serviços como os de segurança, saúde e educação?

Os marxistas de plantão, se ainda estiverem por aí, talvez se interessem também em examinar essas contradições desse capitalismo de Estado, tal como o fazem ao examinar o capitalismo tradicional.

Culpa dos cartórios? - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 03/10

Uma chance, em tese, sempre há, mas é remota a possibilidade de a ex-senadora Marina Silva conseguir o registro da Rede Sustentabilidade na sessão que deverá examinar a questão hoje à noite no Tribunal Superior Eleitoral.

Se for seguido o texto estrito da lei e confirmado que Marina não conseguiu validar as 492 mil assinaturas de apoio ela não poderá concorrer à Presidência pelo partido, embora possa fazê-lo por outra legenda.

Resta, porém, uma brecha: a relatora Laurita Vaz, cujo voto deveria ser liberado ainda ontem a tempo de ir ao plenário hoje, depois da revisão de todo o processo poderá concluir que há de fato assinaturas certificadas em número superior às 442.524 reconhecidas pelo Ministério Público e que levaram o procurador eleitoral a dar parecer contrário ao registro.

A maioria dos ministros também pode aceitar o argumento que Marina usou nos encontros que teve com eles. Segundo ela, o "espírito da lei" leva em conta a representatividade do criador de um partido e isso a senadora tem.

A presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, reconhece essa realidade. Só não aceita que, caso o registro não seja obtido, a Justiça Eleitoral venha a ser responsabilizada. Se a estrutura é pesada e burocratizada é a mesma para todas as legendas que conseguiram registro, argumenta.

Se o resultado for negativo para a Rede, a ministra já espera reação contra a Justiça Eleitoral que, no entanto, na visão dela não pode ser culpada pelo fato de alguém não conseguir concorrer a uma eleição por um determinado partido.

"Não há restrição ao direito de associação partidária nem impedimento a essa ou àquela candidatura. Apenas a Justiça Eleitoral, que funciona bem, não pode funcionar tendo como referência o tempo dos candidatos."

Sacode a poeira. Ao ficar no PSDB depois do habitual suspense sobre suas decisões, José Serra trocou o certo pelo duvidoso: no lugar de uma jornada quase impossível rumo à candidatura presidencial no PPS conseguiu o retorno ao elenco principal de um partido que praticamente lhe subtraiu todos os espaços de atuação.

Ainda sem papel definido, fato é que voltou ao jogo, tendo o silêncio público como o aliado mais retumbante que poderia ter na mudança de comportamento interno dos tucanos.

De politicamente aposentado, Serra passou a receber tratamento de protagonista. É tido como "indispensável" depois de um longo período sendo visto como coisa do passado.

Contumaz. Que o ex-presidente Lula minta e se desminta como se não houvesse amanhã e o ontem não tivesse existido, é um direito dele. Que dê a si a generosa qualificação de "metamorfose ambulante", só acrescenta informação à sua tendência a se apropriar da obra alheia.

Na vasta lista de exemplos, citemos três mais recentes. Depois de jactar-se de saber como ninguém se comportar com a discrição adequada a um ex-presidente, Lula anuncia que atuará como "candidato" pela reeleição de Dilma Rousseff.

Afirma que teria mais "critério" ao indicar ministros ao Supremo, admitindo que os escolheu com base na suposição de que seriam condescendentes no julgamento do mensalão.

Culpa o PT por ter "jogado fora" a aliança com o governador de Pernambuco quando foi ele quem avalizou a quebra de acordo para eleição à prefeitura do Recife em 2012, que resultou no afastamento de Eduardo Campos.

Que boa parte dos brasileiros considere esse comportamento normal e até elogiável indica compartilhamento da patologia. Ou ausência total de discernimento.

Difícil de entender - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 03/10

CINGAPURA - Falar em Ásia hoje corresponde a falar na China. Isso vale para nós, brasileiros, e provavelmente para a maior parte do mundo, mas há vida na Ásia, e inclusive uma economia vigorosa, além das fronteiras da China.

Voltemos a Cingapura, o menor país do continente e um dos menores do planeta e, apesar disso, com PIB de US$ 276,5 bilhões, PIB per capita de US$ 52 mil e um comércio externo de estonteantes US$ 788 bilhões em 2012. Atenção à proporção do comércio em relação ao PIB...

De surpresa em surpresa, uma delas é descobrir (e tentar entender) como um país desse tamaninho consegue atrair mais de 7.000 empresas, das mais diferentes áreas.

Daí em diante, não é mais tão surpresa assim saber que brasileiras, como as gigantes Petrobras e Vale e a contemporânea Natura, têm presença, negócios e prestígio em Cingapura, do outro lado do mundo, a 30 horas de voo de Brasília. O país, aliás, importa frango nacional (70% do consumo interno) e mira petróleo, Copa e Olimpíada.

Em contrapartida, o Brasil aproveita a expertise do país na área de portos. A Petrobras tem enormes contratos com a Keppel cingapuriana para a construção e manutenção de plataformas, e o governo Dilma encomendou estudos à consultoria IDA sobre informatização, logística e otimização das operações dos portos brasileiros.

Já não era sem tempo, pois o Brasil vai ter de correr muito para chegar perto do ritmo de Cingapura, que embarca e desembarca 80 mil contêineres por dia, gastando minutos para cada um e cruzando 600 destinos na região. Ainda bem que o espaço da coluna é curto para comparações...

A visão geral dessa Cidade-Estado é impressionante, mesmo quando se foge dos compromissos oficiais e da rota turística. Qualquer que seja o caminho, ele passa por ousadia, tecnologia e educação. A dúvida é onde ele vai parar no futuro.

A má política - SÍLVIO RIBAS

CORREIO BRAZILIENSE - 03/10
Chantagens, traições e sabotagens. O exercício da política em grandes democracias, como a do Brasil e a dos Estados Unidos, está sendo manchado com gestos deploráveis. Aqui, o troca-troca partidário sem qualquer conteúdo programático é fonte de dinheiro lavado e desviado. O pragmatismo dá as cartas e nenhum governante ousa contestá-lo. No império norte-americano, por sua vez, são as guerrilhas conservadoras que usam seu poder parlamentar para colocar a faca na garganta do Executivo, igualmente sem qualquer escrúpulo.
Onde está a velha e boa política, feita de debates, interesses legítimos da sociedade e consensos construídos pela razão? A velhíssima e má política parece ter ocupado todos os espaços deixados pela ausência de voto consciente e pela perda de referências nobres. Não por acaso, ocorrências de suborno, de sedução e de fraudes com licitações se misturam a todo momento com supostas tratativas de representantes do povo em nome do jogo democrático.

Multidões foram às ruas em junho, no Brasil, para pedir ética na política e respeito com o dinheiro público, é verdade. Mas também é óbvio que estruturas arraigadas e despudoradas são duras de desmontar. A Constituição Cidadã chega aos 25 anos como belíssimo manifesto de direitos e liberdades civis, sem, contudo, garantir um antídoto contra todo tipo de desmando feito em nome da democracia.

Apesar de as coisas andarem na velocidade da internet, há uma cultura a ser depurada e um grupo de novos líderes que precisam dar o passo adiante. O ideal seria que as vozes das ruas continuassem cobrando mudanças nas instituições políticas, enquanto outros bons políticos perdessem a vergonha de subir em caixotes nas praças públicas para defender a honradez dos mandatos populares.

Como inspiração, proponho prestar atenção em figuras que muito contribuíram para a democracia no país. Não canso de ouvir ponderações, feitas da tribuna do Senado e ouvidas por gatos pingados no plenário, do decano Pedro Simon (PMDB-RS). Combativo, mas desencantado com os rumos da política, ele lamenta não encontrar ali discursos realmente importantes. Grandes oradores e pensadores estão desaparecendo em nome do marketing político, que favorece aventureiros e vilões da má política.

A hora do pesadelo - VERA MAGALHÃES

FOLHA DE SP - 03/10

SÃO PAULO - Depois de meses tecendo sua Rede Sustentabilidade com base no tal ideário "sonhático", Marina Silva vive dias de pesadelo. Não há saída simples nem à prova de danos à sua imagem para a discussão, no limite do prazo legal, sobre se ela cumpriu os requisitos legais para criar o partido.

Digamos que a relatora Laurita Vaz encontre argumentos para, contrariando a matemática e o parecer do Ministério Público, considerar que sim. Admitamos que a maioria dos ministros do TSE siga o voto da relatora e a Rede seja, enfim, criada.

Marina não escapará de responder se foi beneficiada pelo "jeitinho" e pela mania de resolver as questões "por cima", vícios que sempre condenou na chamada "velha política".

Especulemos, ainda, que se dê o contrário, e o TSE decida que ela não obteve o número necessário de assinaturas de apoio para criar a Rede. Nesse caso, a ex-senadora terá poucas horas para decidir se ingressa ou não em outro partido sem o grau de "pureza" daquele que idealizou.

Se ela seguir o que dita o senso comum da política, fará isso e continuará detentora, no quadro de hoje, de cerca de 20% das intenções de voto para 2014. Mas tisnará a aura de política "diferente" --que a ajudou a amealhar esse capital eleitoral.

Caso siga o conselho dos sonháticos e fique sem partido, como mártir de um complô imaginário para tirá-la do páreo, se arrisca a ver esse patrimônio se esvair, a oportunidade passar e virar uma ONG política.

Há, porém, um cenário ainda pior. O TSE pode pedir novas diligências sobre a Rede e adiar a decisão final para depois de 5 de outubro. Nesse caso, se a presidenciável ingressar em outra sigla, corre o risco de ver a Rede ser criada depois, sem ela.

Tantos percalços só atestam que a ex-senadora e seus seguidores levaram muito tempo para acordar do sonho e agir segundo preceitos da realidade (e da lei). O que é um dado importante para tentar projetar o que seria um eventual governo Marina.

A atração do poder - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 03/10

Aécio Neves aprendeu com o avô Tancredo que não existe nada que agregue mais na política do que a expectativa de poder, mais até que o poder presente, que é finito, tem prazo de validade. Por isso mesmo, deveria observar com cuidado o processo de conversão do sindicalista Paulinho da Força, que organizou o partido Solidariedade para fazer oposição ao governo federal e, à primeira abordagem, já admite aderir à base governista em troca da manutenção de alguns cargos de seus novos filiados.

Potencial candidato à Presidência da República pelo PSDB em 2014, o senador Aécio havia investido no apoio ao Solidariedade, apesar de criticar a facilidade de formação de partidos de aluguel no país. Também ele esperava contar com os dois minutos e tanto que o novo partido terá na propaganda oficial e vê agora ir por água abaixo sua estratégia.

Tem razão Aécio quando diz que essa cooptação em troca de cargos depõe contra a democracia, não ajuda que as pessoas se identifiquem e se aproximem da política, porque não veem nenhuma vinculação delas com os partidos que deveriam representá-las .

Mas, na vida real - e foi com base nela que contava o apoio do Solidariedade -, o que significa essa guinada de posição do sindicalista Paulinho da Força é que a presidente Dilma ainda mantém a expectativa de poder que atrai apoiadores de todos os lados.

No Brasil há poucos políticos que mantêm posições coerentes ao longo dos governos, mesmo que fiquem no ostracismo durante muitos anos. O PT era um desses partidos quando estava na oposição e, quando assumia posições claramente antimajoritárias, como ficar contra o Plano Real ou contra a Constituição de 1988, estava preparando seu futuro, que chegou depois de 14 anos de oposição e três derrotas de Lula para a Presidência da República (uma para Collor e duas, no primeiro turno, para FH).

Para se achegarem ao governo do turno, políticos fazem o diabo, e criar novos partidos virou a mágica da hora para permitir a revisão de atitudes. O PSD de Gilberto Kassab nasceu do temor de ficar na oposição, no DEM, e amargar esse exílio político do poder.

Agora mesmo o PROS já formou a sétima bancada da Câmara com políticos vindos de vários partidos, alguns da oposição e outros do PSB que pretendem permanecer no regaço do governo.

O fato é que, com a provável ausência de Marina na corrida presidencial e a desistência de José Serra de sair do PSDB para disputar a eleição por outra sigla, o cenário é cada vez mais favorável à reeleição de Dilma.

Paradoxalmente, a desistência de Serra é prejudicial à oposição de modo geral, como salientou o deputado Roberto Freire, que o queria como candidato do seu PPS, mas é boa para a unidade do PSDB. O ex-governador já não tem condições de atrapalhar a candidatura de Aécio dentro do PSDB, mas a atrapalharia com certeza se fosse candidato por outra legenda. Seria quase impossível, por exemplo, Aécio vencer em São Paulo com Serra na disputa. Agora, sem um paulista na corrida presidencial pela primeira vez desde a redemocratização, o que falará mais alto será a máquina partidária, que estará mobilizada para eleger o governador Geraldo Alckmin em dobradinha com o candidato da sigla ao Planalto.

Até mesmo porque a máquina do PT também está fortalecida em São Paulo com a eleição do prefeito Fernando Haddad.

Também na oposição o que mais se persegue é a tal da expectativa de poder, que já foi maior quando o cenário previa vários candidatos de oposição, e a possibilidade de ir para o segundo turno parecia certa. Com a provável saída de Marina - se ela realmente não conseguir a aprovação do TSE e se recusar a ir para outra legenda -, não se sabe para onde vão os votos que seriam dados a ela. A perspectiva de que boa parte deles, ligados ao eleitorado de esquerda descontente com o PT, volte para a candidata do governo, como aconteceu em 2010, pode não se repetir.

Pelo menos por enquanto candidato à Presidência da República, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, teria aí uma chance de crescer nas pesquisas se conseguisse passar para esse eleitorado que é uma oposição à esquerda, como definiu sua candidatura o vice-presidente do PSB, Roberto Amaral.

O maior enigma é saber para onde iriam os votos evangélicos, que foram importantes na votação de Marina em 2010. Mas muita água ainda vai rolar até que se defina realmente o quadro, lá pelo começo de 2014.

Acordo implícito de cavalheiros - RAQUEL ULHÔA

VALOR ECONÔMICO - 03/10
A pré-candidatura do senador Aécio Neves (MG), presidente nacional do PSDB, à Presidência da República em 2014 acumulou boas notícias nos últimos dias. A permanência do ex-governador e ex-ministro José Serra no PSDB, confirmada na terça-feira, foi a mais importante delas, mas não a única.
No caso de Serra, o que traz mais alívio aos tucanos é a união do partido em São Paulo. Deixando o PSDB para concorrer ao Palácio do Planalto pelo PPS - possibilidade mantida até o último momento da decisão - o ex-governador enfraqueceria a candidatura do governador Geraldo Alckmin à reeleição e dividiria a base eleitoral do PSDB no Estado, o maior colégio eleitoral do país. Esse transtorno foi afastado. São Paulo fica unificado.

Nas conversas entre Aécio e Serra, ficou implícita uma espécie de acordo de cavalheiros, para tentar afastar as intrigas e fofocas entre os aliados dos dois, que tradicionalmente marcam as campanhas eleitorais do PSDB. Aécio não quer ser prejudicado em São Paulo e Serra não quer ser acusado de estar sempre armando alguma arapuca para o mineiro.

Outra combinação entre ambos é que a definição do candidato a presidente não acontecerá antes de março. É apenas um gesto político, já que Aécio é o nome consensual da legenda para a disputa. Os serristas sabem disso e não cogitam a solicitação de prévias, nem mais à frente.

De qualquer forma, esse adiamento, ainda que simbólico, mantém Serra como uma possibilidade. É um nome forte, competitivo, que não vai brigar pela vaga, mas não está totalmente fora do jogo. Se houver uma reviravolta no cenário político, ele pode ser uma possibilidade. No quadro atual, seu futuro será a disputa ao Senado ou à Câmara dos Deputados.

Aecistas dizem que esse acordo atende totalmente à estratégia do grupo. Ou seja, o senador mantém suas viagens pelo país como presidente do partido e só assume sua candidatura no ano que vem. E, espera-se, com o apoio formal de Serra. O ex-governador pretende viajar, fazer suas palestras e expor suas críticas aos governos do PT.

Outro movimento favorável à pré-candidatura tucana ocorreu sábado, em Curitiba. Aécio conseguiu garantir uma aliança entre o governador do Paraná, Beto Richa, e o senador Álvaro Dias, seu desafeto, para as eleições do próximo ano.

Os dois estarão na mesma chapa, vista como a mais forte do Estado. São mais 500 mil votos no Paraná, segundo tucanos. Álvaro chegou a cogitar sair do PSDB, o que preocupava o partido. Aécio conseguiu mantê-los no mesmo palanque, cada um candidato à reeleição a seu atual cargo.

O terceiro movimento recebido pelo PSDB como favorável à candidatura de Aécio foi a criação do Solidariedade, partido organizado pelo deputado Paulo Pereira da Silva, que deixa o PDT. Ainda que deputados da base governista tenham migrado para a nova legenda e mantenham disposição de apoiar a presidente Dilma Rousseff, esse é um fato minimizado pelo PSDB.

Essas alianças locais são consideradas irrelevantes. Os tucanos estão seguros de que a aliança nacional do Solidariedade será com o PSDB, o que agrega precioso tempo de propaganda eleitoral gratuita na televisão.

Após esses três movimentos contabilizados a favor de Aécio, agora as atenções de seus aliados estarão voltadas para a decisão a ser tomada hoje pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com relação à Rede Sustentabilidade, garantindo ou não a criação do partido para a ex-ministra Marina Silva concorrer ao Palácio do Planalto.

Tanto Aécio quanto o governador Eduardo Campos (PE), que pretende disputar a presidência pelo PSB, são defensores da criação do Rede e do direito de Marina disputar o Planalto pela nova legenda. O argumento é que sua participação na eleição afasta o risco de Dilma Rousseff ser eleita em primeiro turno.

Mas, entre tucanos, há quem diga que, no fundo, a torcida é para que Marina não dispute. Ela no jogo a briga será entre os três - Aécio, Eduardo e Marina - para ver quem irá para o segundo turno com Dilma. Sem Marina, há quem acredite, no PSDB, que Aécio possa crescer e conquistar uma boa fatia desse eleitorado de Marina.

A decisão não foi fácil para Serra. Ele esteve com um pé no PPS, legenda pela qual pensou em disputar a Presidência da República, mesmo considerando chance praticamente zero de vitória. Não tinha expectativa de alianças eleitorais e o tempo de televisão seria mínimo.

Mas evitaria o desconforto de permanecer no PSDB e ter de fazer campanha para Aécio. E ainda ser acusado de estar por trás de qualquer fato negativo que ocorresse no caminho do senador.

Se saísse do PSDB, Serra incomodaria mais Aécio. Ele sabe que entregou uma mercadoria ficando no partido. Não tem a menor possibilidade, hoje, de ser escolhido candidato a presidente. Mas imprevistos podem acontecer. O resto é futuro.

Líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), formalizou, em seu parecer à PEC do orçamento impositivo , a proposta de vincular a ações e serviços de saúde os recursos de 50% das emendas parlamentares incluídas ao Orçamento da União. Mas há muita resistência na Câmara dos Deputados, Casa que apresentou a sugestão de destinar à saúde 40% das emendas. Braga e os líderes do Senado receberam do Palácio do Planalto a garantia de que o percentual de 50% estava negociado com os deputados. Mas, por enquanto, não é o que se percebe. E, como a PEC será novamente submetida à Câmara, os deputados poderão suprimir esse dispositivo. Ou seja, o orçamento impositivo pode acabar sendo aprovado sem vinculação à saúde. Por outro lado, Braga determinou que 15% da receita corrente líquida da União serão aplicados no setor, ainda que em cinco anos. Nesse ponto, parece haver acordo.

Os números de Marina - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 03/10

Ministro tem razão ao dizer que as providências de Marina deveriam ocorrer nos cartórios, e em tempo


Marina Silva e sua hipótese de partido chegam hoje ao dia crucial envoltos em barafunda ainda maior do que a briga com os números que lhes ocupou os últimos meses. Não bastando a posição da Procuradoria Eleitoral contra o registro ao partido, no Tribunal Superior Eleitoral explicita-se uma tese complicadora para a defesa de Marina Silva, sobre os milhares de apoios eleitorais não autenticados pelos cartórios.

O ministro João Otávio de Noronha antecipou-se ao julgamento de logo mais e negou que os cartórios eleitorais, como afirma a defesa da pretendida Rede Sustentabilidade, precisassem justificar a não autenticação de apoios assinados por eleitores. "Não justificaram", expressão utilizada pela defesa, deu estatura maior do que a conveniente à atitude dos cartórios, enfraquecendo o argumento.

O verbo no seu devido tamanho seria, por exemplo, informar. Informar o motivo da impugnação: a assinatura não confere, o número do título é de outro eleitor, ou não existe, e demais casos. E tais informações os cartórios, como toda repartição pública, devem sim aos cidadãos e às iniciativas que adotem. Ou ficaremos todos à mercê da vontade, do desleixo ou do interesse de funcionários, que assim se tornariam um poder insuperável.

Tanto o cidadão deve explicações ao Poder Público, como o Poder Público as deve aos cidadãos. Do contrário, no primeiro caso é a desordem total e, no segundo, o regime de arbitrariedade em nome do Estado. Até já vivemos esta segunda situação, mas o que nos cabe é recusar qualquer resquício que a imite.

O ministro tem razão ao dizer que as providências de Marina Silva deveriam ocorrer nos cartórios, e em tempo. Ao que conste, houve a tentativa, pelo menos em parte dos cartórios no país afora. É o que sugere o próprio argumento da "falta de justificação". Mas, se não houve a providência, faltou, nem por isso o assunto está encerrado.

O Tribunal Superior Eleitoral é responsável pelo processo eleitoral desde suas preliminares às titulações eletivas. Deve, portanto, o exame do que se passou com tantos dos apoios alegados por Marina Silva, deve uma decisão a respeito e deve uma explicação pública, para que não restem dúvidas fundadas e acusações interesseiras. Se a Rede Sustentabilidade deve ser aprovada ou não, já é outro assunto, a depender só de que o TSE faça convincentemente o que lhe couber.

PROTESTO

Convém notar: dos 17 presos por excesso de violência na balbúrdia de terça-feira no centro do Rio --nenhum professor-- dois foram identificados como criminosos com mandados de prisão por roubo à mão armada.

NA HISTÓRIA

O papa Francisco não quer apenas que se saiba do seu propósito de reformar a Cúria e o Vaticano --cristianizá-los, é isso--, quer também que se saiba por que deseja fazê-lo. E tem a coragem de dizê-lo com franqueza estonteante.

"A corte é a lepra do papado" --que irado ateu ousou, nos últimos séculos, uma definição assim dura e crua sobre os "cortesãos vaticanocêntiricos"?

Estamos, pode-se admitir, diante de um fenômeno, na acepção mais límpida da palavra. Testemunhá-lo será um privilégio histórico.

Muita política, pouca saúde - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 03/10

A cada dia que passa, as peripécias do programa Mais Médicos só reforçam aquilo que se suspeitava desde o seu lançamento - que debaixo da retórica demagógica que o envolve está apenas uma jogada política destinada a favorecer a candidatura do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ao governo de São Paulo, que é hoje, junto com a reeleição da presidente Dilma Rousseff, o grande objetivo do PT. É isso que explica a sua improvisação - cujas consequências negativas se multiplicam - e o fato de que esse programa não tem muito a ver com as verdadeiras prioridades do setor de saúde.

Movido pela ânsia de tornar popular o ministro, o governo improvisou aquele programa e atropelou as entidades representativas dos médicos brasileiros. Com uma medida provisória, contornou a obrigatoriedade legal do exame de revalidação dos diplomas dos médicos estrangeiros e dos brasileiros formados no exterior, substituindo-o por um registro provisório a ser dado pelos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs), com base em exigências mínimas.

Não satisfeito, vem recorrendo à Justiça Federal para obrigar os CRMs de alguns Estados - que a seu ver demoram muito a liberar esse registro - a fazer isso rapidamente. E tem conseguido decisões favoráveis em primeira instância. Inconformado, o presidente do CRM de Minais Gerais, João Batista Gomes Soares, renunciou. Antes dele, seu colega do Paraná, Alexandre Augusto Bley, sentindo-se pressionado pela sofreguidão do governo, já havia feito o mesmo.

Mas isso ainda é pouco perto do que acaba de acontecer. O governo conseguiu que a Comissão Mista do Congresso que analisa a Medida Provisória do Mais Médicos aprovasse dispositivo que transfere dos CRMs para o Ministério da Saúde o poder de dar o registro provisório aos médicos estrangeiros.

A matéria ainda precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado, mas, com a ampla maioria que tem nessas duas Casas, isso será fácil para ele. Em resumo, quem quer que se oponha ao programa será neutralizado.

O governo não aceita limites e se mostra determinado a passar como um trator sobre as objeções das entidades médicas, que tentam tomar um mínimo de cuidados com relação ao preparo de médicos de cuja competência técnica dependem milhares de vida. Ele vence, mas não convence, porque o seu diagnóstico da saúde no Brasil deixa muito a desejar, para dizer o mínimo. Não podia ser diferente, pois o que o move, antes de tudo, é o interesse eleitoral, não o desejo genuíno de identificar e atacar as deficiências do sistema de saúde brasileiro.

A falta de médicos, que é real, está longe de ser a principal delas, como quer fazer crer o governo. Antes dela estão, por exemplo, os graves problemas de infraestrutura - referentes a hospitais e equipamentos médicos - que dificultam o trabalho dos próprios profissionais que estão sendo contratados a toque de caixa. Tanto é verdade que o governo parece cego pela paixão política, que o Ministério da Saúde se descuidou de gastar nesse item fundamental o dinheiro que para isso tem disponível em 2013. Até agosto, investiu apenas 26,5% dos R$ 10 bilhões que reservou para a compra de equipamentos e a execução de obras.

Para onde os médicos cubanos e de outras nacionalidades, que o governo está importando com tanto alarde, vão enviar os casos mais graves que diagnosticarem? Para os corredores de hospitais superlotados que, além de vagas, não dispõem também de equipamentos para os exames necessários?

Mais grave ainda que esse é o velho e bem conhecido problema da defasagem da tabela de procedimentos do SUS, que cobre apenas 60% dos custos. Como as Santas Casas e os hospitais filantrópicos não têm como arcar indefinidamente com esse prejuízo, já se aproxima o momento em que, ou deixarão de atender pelo SUS, ou irão à falência. E, como respondem por 45% dos atendimentos dos SUS, isto significará o colapso do sistema público de saúde.

Esses são os verdadeiros problemas da saúde, mas cuidar deles não dá votos a curto prazo. Logo, isso não ajuda o ministro Padilha.

Greve de professores extrapola a Educação - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 03/10

A agenda político-eleitoral de partidos mais à esquerda leva sindicato a deixar de atuar, como deveria ser, exclusivamente em favor da categoria profissional



Enquanto as manifestações de rua, iniciadas em junho, se alastraram pelas capitais e não muito depois começaram a perder força, no Rio aspectos políticos locais mantiveram mobilizações localizadas. O mais importante delas, a greve de professores estaduais e municipais. Desde o período inicial da redemocratização, quando, na rearticulação sindical, surgiu o Sepe (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação), não se via manifestações como as atuais. Mas a violência, hoje, parece maior.

É estranho, para os menos avisados, que esta mobilização ocorra quando o professorado municipal, onde é maior a tensão, consegue não apenas um novo plano de cargos e salários — o último tinha pouco mais de 20 anos — mas também um reajuste real, acima da inflação, de 8%. Reconheça-se que a remuneração do magistério continua baixa para a importância da função, mas, além do aumento, passam a haver novas e melhores regras de reenquadramentos e promoções.

Porém, a aprovação do plano, na Câmara de Vereadores, terça, fechou o Centro, prejudicando milhares de pessoas, porque Cinelândia e adjacências serviram de área para confronto entre sindicalistas, vândalos e PMs até o início da noite. A violência é explicada, em parte, pelo perigoso fenômeno de grupos anarquistas (black blocs, por exemplo) que se aproveitam, principalmente em Rio e São Paulo, das mobilizações para depredar.

Ocorre, ainda, a subordinação do Sepe a plataformas político-eleitorais de partidos mais à esquerda — PSOL, PSTU —, em que a prioridade é enfrentar a aliança partidária no poder no estado e na prefeitura.

Surgido sob direta influência do PT, com o tempo o Sepe se radicalizou. Simboliza bem o atual sindicato dos professores a cena de um líder sindical, na terça-feira, enaltecendo, de cima do carro de som, a ação de vândalos do black blocs.

Não se contesta, é claro, a liberdade de organização política, conquista da redemocratização. O PT e a CUT têm origens que se entrelaçam, por exemplo. Mas propostas da CUT não transitam com facilidade no governo federal do PT. Caso da bandeira da jornada de 40 horas. E vice-versa. Pois a necessária reforma da Previdência, que parte do PT já se convenceu ser necessária, é rejeitada pelo braço sindical do partido.

Quando partido e sindicato se misturam ocorrem problemas como a crise da GM em São José dos Campos, em que os metalúrgicos, radicalizados pelo PSTU, levaram a montadora a começar a transferir a produção para outras unidades do grupo. Os metalúrgicos perdem os empregos e o município, arrecadação. O fenômeno é clássico e esteve por trás do esvaziamento de Detroit (EUA).

Na greve de professores é mais grave. Se operários podem procurar colocação em outras regiões, milhares de crianças e jovens, a maioria de famílias de renda mais baixa, do extrato social que PSOL e PSTU se arvoram a representar, têm prejuízos no aprendizado de difícil ou impossível recuperação.

Emaranhado de Marina - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 03/10

Decisão do TSE sobre Rede Sustentabilidade ganha importância num cenário com poucos candidatos competitivos na oposição


Julgar a criação da Rede Sustentabilidade, partido da ex-senadora Marina Silva, já não se mostrava tarefa comezinha para o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Basta dizer que o Ministério Público Eleitoral, ao recomendar que o registro da legenda não seja autorizado, manifestou certo pesar por posicionar-se contra uma agremiação marcada pela lisura dos procedimentos --e representante legítima de parcela expressiva da população, seria o caso de acrescentar.

O caldo eleitoral, já intricado, ganhou uma dose extra de complexidade com a decisão de José Serra de permanecer no PSDB.

A competição política, segundo opinião bastante difundida entre estudiosos das ciências sociais, é um dos parâmetros para mensurar democracias modernas. Incerteza quanto ao resultado de uma eleição e oposição efetiva ao poder estabelecido estão em relação direta com a qualidade do regime.

Serra, se tivesse resolvido lançar-se candidato por outro partido, sem dúvida teria condições de tornar menos previsível a disputa. Ex-governador e ex-prefeito de São Paulo, além de ter concorrido duas vezes à Presidência, encontraria, mesmo fora do PSDB, apoio suficiente para fragmentar o pleito.

Ao manter-se nos quadros tucanos, Serra trabalhará a favor da provável candidatura de Aécio Neves, mas ninguém imagina que o fará com afinco. Sendo conhecidas as divergências entre os dois, é razoável supor que muitos votos deixarão de ser colhidos nessa empreitada conjunta.

A decisão do TSE sobre a Rede, portanto, terá impacto ainda maior no grau de competição da eleição presidencial de 2014. Marina Silva é dona de capital político nada desprezível. Foram quase 20 milhões de votos em 2010 e, na mais recente pesquisa Datafolha, ela contava com a preferência de 26% dos eleitores.

Como se sabe, porém, o partido que ela pretende criar não foi capaz de cumprir as exigências formais da Justiça Eleitoral. Consta que faltaram cerca de 50 mil das 492 mil assinaturas válidas necessárias.

Em sua defesa, a Rede afirma que os cartórios eleitorais demoraram para avaliar as listas de apoio e que rejeitaram 98 mil assinaturas sem haver justificativa para tanto.

Razoáveis ou não, as alegações não escondem o considerável deficit organizacional da Rede. Eurípedes Júnior, eleito em 2008 vereador de Planaltina (GO) com apenas 810 votos, conseguiu criar o Pros.

No atual cenário, parece que só a flexibilização das regras poderá dar a Marina um partido para chamar de seu --solução inaceitável e, passe o trocadilho, insustentável para quem tenta se mostrar diferente dos demais políticos.

Vandalismo é tolerável? - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 03/10

Ações policiais de repressão e investigação a casos comprovados de vandalismo durante manifestações de rua vêm recebendo duras críticas de usuários de mídias sociais, que as classificam de atos políticos e de tentativas de criminalizar os movimentos sociais. Dois casos recentes potencializam a polêmica: a busca e apreensão determinada pela Justiça em residências de ativistas políticos supostamente envolvidos em vandalismo no Tribunal de Justiça e as pichações e danos causados por professores no museu Julio de Castilhos e na Catedral Metropolitana de Porto Alegre. Tais ações não podem ser classificadas de outra maneira senão como já o faz o Código Penal. Vandalismo é crime, não há como atenuar essa classificação. A não ser que a sociedade brasileira altere o seu conceito de democracia e ordem social, fazendo constar nas suas leis uma tolerância ainda maior com atitudes individuais que prejudicam a coletividade.
O embate registrado hoje entre quem reivindica o direito de protestar e quem tem a missão constitucional de fazer valer a lei não ocorre apenas no Rio Grande do Sul. Desde junho, quando se intensificaram os protestos por todo o país, até agora, o poder público vem se adequando para conviver com a nova realidade. Com as mudanças, representantes da sociedade recorrem cada vez mais à pressão direta no esforço de chamar a atenção para uma agenda que consideram não estar merecendo a atenção adequada. A questão é que, depois de reagirem com excessos reconhecidos num primeiro momento, as forças policiais se recolheram. Em consequência, abriram caminho para que grupos minoritários, em sua maioria integrados por manifestantes de máscara, tentassem substituir o tom pacifista de quem sai às ruas sem precisar recorrer ao anonimato e ao radicalismo.
O que vem ocorrendo hoje no Rio Grande do Sul reproduz, de certa forma, iniciativas comuns em outros Estados, tanto no âmbito policial quanto judicial. Da mesma forma como manifestantes mascarados são obrigados a se identificar, as abordagens policiais também têm sido filmadas. Em ambos os casos, o objetivo é evitar excessos que prejudicam os cidadãos e impõem um custo financeiro à sociedade, sempre que alvos estratégicos são depredados. As consequências são ainda mais difíceis de serem aceitas quando até mesmo educadores, de quem a sociedade espera exemplos, se envolvem na prática de vandalismo. Atos como esses contribuem para desfazer muitos argumentos de ativistas hoje inconformados com ações policiais que veem como excessivas e como perseguição política.
Certamente, não há como dissociar regimes livres e manifestações populares, desde que os participantes não atentem contra direitos constitucionais. No Brasil e em qualquer outra democracia, porém, não pode haver transigência em relação a atos como depredações de bens públicos e privados, pois são crimes previstos em lei.

Os riscos da crise americana - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 03/10
Descontrole de gastos públicos é praga mundial da qual nem a mais poderosa economia do planeta escapa. Nos Estados Unidos, há 96 anos existe um teto para o endividamento interno, solenemente elevado em frequência média superior a mais de uma vez por ano ao longo desse tempo. Só na década passada, rompeu-se o limite em uma dúzia de ocasiões.
Desde o governo Ronald Reagan (1981-1989), lembrou o presidente Barack Obama, foram 45 alterações. A questão é que já não se cumpre o ritual como antes, sem alarde, de forma quase automática. A disputa fratricida entre as duas forças políticas dominantes no país, democratas e republicanos, fez dessa matemática um cabo de guerra sem vencedores.

Desta vez, o discurso da austeridade foi radicalizado para tirar do mandatário o que seria, talvez, a grande marca social do governo dele em dois mandatos: a implantação de um sistema de assistência médica para milhões de cidadãos. Os republicanos temem o efeito eleitoral de tal medida, que abre os cofres públicos para universalizar o seguro de saúde entre os americanos.

Aprovada pelo Congresso desde 2010 - não por acaso, quando a negociação do trato da dívida passou a complicar-se -, a reforma deveria ter entrado em vigor na terça-feira. Mas chantagem maquiavélica a adiou. Maioria na Câmara dos Representantes, a oposição incluiu no Projeto de Lei orçamentária dispositivo que joga para o ano seguinte a vigência das mudanças, conhecidas por Obamacare.

Resultado: os governistas, que dominam o Senado, rejeitaram o novo texto. Como terça-feira era o primeiro dia do ano fiscal de 2014 nos EUA, o país amanheceu sem Orçamento. Foi como acionar um freio de mão na máquina estatal, com serviços públicos parando de funcionar por falta de recursos. Para piorar, o endividamento ameaça ultrapassar o teto (hoje em US$ 16,7 trilhões) nos próximos 15 dias. Ou o limite sobe mais uma vez, ou a maior potência mundial entrará em moratória, passando à condição de caloteira já em 17 de outubro.

Problema dos EUA? Não só. Estima-se que 800 mil funcionários federais tenham sido dispensados e 1 milhão estejam com o salário suspenso. Fora o caos interno - com parques, monumentos e museus fechados, além de até o Pentágono, a Nasa e órgãos de inteligência afetados -, trabalhadores com os braços cruzados representam produção em baixa, dinheiro a menos circulando.

Ou seja, é um tiro no pé da recuperação econômica nacional e, por tabela, da mundial, altamente dependente da locomotiva norte-americana, abalada desde o estouro dos títulos podres do mercado imobiliário, seis a sete anos atrás. À crise do subprime, vale lembrar, seguiu-se a derrubada dos até então aparentemente sólidos mercados de várias nações europeias, disseminando prejuízos (ainda não recuperados) por todos os continentes.

Republicanos e democratas têm, pois, responsabilidades para além das fronteiras norte-americanas. A esperança está em que os oposicionistas xiitas do Tea Party ouçam a opinião pública - que pesquisas mostram condenar fortemente a obstrução ao Orçamento - e construam uma saída com a ala moderada do partido. Liberar recursos a conta-gotas, como proposto, é perpetuar a chantagem, a apreensão, a incerteza. Quanto ao presidente, precisa sair da defensiva e liderar as negociações para romper o impasse.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Todos se submetem às regras do jogo”
Ministro Marco Aurélio (STF), cético em relação às chances do Rede, de Marina Silva


SOLIDARIEDADE E PPS SÃO OPÇÕES DE MARINA SILVA

O presidenciável do PSDB, Aécio Neves, já articula alternativas de filiação para Marina Silva, caso o Rede Sustentabilidade não receba registro da Justiça Eleitoral. Os tucanos avaliam que a candidatura da ex-senadora é crucial para levar eleições ao segundo turno, e apostam que o recém-criado Solidariedade possui tempo de TV razoável para abrigá-la. Outra alternativa é o PPS, de estreita ligação com o PSDB.

SONDAGENS

O PSDB já andou sondando as condições para a filiação de Marina no PEN e no PRB, mas este último descartou qualquer possibilidade.

TODO SEU

De olho em ser eleito deputado federal por São Paulo, o presidente do PEN, Adilson Barroso, já colocou a sigla à disposição de Marina Silva.

SOCIALISTAS

Líderes tucanos acham que o PPS seria o partido mais adequado para Marina, com promessa de mútuo apoio em eventual segundo turno.

CASÓRIO

O presidente do PPS, Roberto Freire (SP), garante não estar discutindo a filiação de Marina, mas torce para que “o casamento dê certo”.

PARA 71,4%, PESQUISAS NÃO INFLUENCIAM O VOTO

Pesquisa nacional constatou que 71,4% dos brasileiros não levam em conta as pesquisas eleitorais para definir sua escolha, demolindo o mito de que o eleitor “não gosta de desperdiçar o voto”. Do total, 56% acham que deve ser livre a divulgação de resultados de pesquisas nas proximidades da eleição. Realizada pelo Instituto Paraná Pesquisas em setembro, o levantamento ouviu 2.502 eleitores em 169 municípios.

PÚBLICO, NÃO

Apenas 16,8% dos eleitores entrevistados pelo Instituto Paraná Pesquisas aprovam o financiamento público de campanhas.

PRIVADO, SIM

Em relação à origem do financiamento eleitoral, 56,15% dos brasileiros dizem preferir exclusivamente recursos privados nas campanhas.

CALMA NESTA HORA

A presidente Dilma telefonou ontem ao vice Michel Temer marcando reunião hoje no Planalto. Na pauta, o próximo ministro da Integração.

CORPO MOLE

Deputados do PMDB acusam Michel Temer de não se esforçar para garantir o Ministério da Integração para o partido, o que teria levado à nomeação do interino Francisco Teixeira, ligado a Cid Gomes.

PRESSÃO

Marina Silva convocou aliados para realizarem novo ato em defesa da criação do seu Rede, nesta quinta-feira, em frente ao Tribunal Superior Eleitoral, que examinará eventuais abusos na rejeição de assinaturas.

MUNDOS E FUNDOS

O Planalto joga pesado para convencer deputados a desistirem de ir para o Solidariedade, partido do opositor Paulo Pereira da Silva, da central Força Sindical, para se filiar ao PROS, ligado ao governo.

MÉDICOS E MONSTROS

Em meio à chegada dos médicos cubanos, a Comissão de Direitos Humanos de Cuba – sim, existe – denunciou 708 prisões em setembro, as maiores dos últimos anos. Cuba rejeita as recomendações da ONU, com a complacência do governo brasileiro.

LADEIRA ABAIXO

O Brasil está em 57º lugar em capital humano, no relatório 2013 do Fórum Econômico Mundial, atrás da Rússia; em 88º lugar, entre 122 países, na Educação, com índices negativos em bem-estar e saúde.

FARRA DE EVENTOS

De olho em 2014, a Presidência da República reservou R$ 63,7 milhões para eventos ligados às secretarias de Comunicação, Juventude, Mulheres e à Comissão Nacional da Verdade.

JOGO HISTÓRICO

O reitor do UniCeub, Getúlio Lopes, sonha com um jogo de basquete para garantir
lugar na história do esporte: o campeoníssimo Brasília, seu time, contra o Flamengo, em pleno estádio Mané Garrincha.

OS RICOS TAMBÉM CHORAM

Vão-se os iates, ficam as Ferrari, para ricaços com dinheiro do BNDES.

O QUE É ISSO, DOUTOR?

Dilma disse ontem em Natal que os pacientes hoje nem são mais tocados, prometendo que o programa Mais Médicos terá abordagem mais humana. E revelou: “Meu médico sempre me apalpou”.


PODER SEM PUDOR

POLÍTICOS ASTRONAUTAS

Inventor, José Le Senechal convidou Jânio Quadros a integrar a tripulação do primeiro disco voador que concebeu na prancheta. O ex-presidente agradeceu a distinção num bilhetinho, e, entre outras coisas um tanto siderais, disse ao inventor:

- Já me imagino voando para outros mundos, e tenho a convicção de que eles não poderão ser piores do que este em que vivemos.

Acrescentou que tal viagem daria prazer não só a ele, mas também a muitos políticos...


QUINTA NOS JORNAIS

Globo: Violência policial: Inquérito culpa PMs por tortura e morte de Amarildo
Folha: Em meio a dúvidas, Oi se funde à Portugal Telecom
Estadão: Endividada, supertele nacional se une a portugueses
Valor: Portugueses ampliam controle na Oi
Estado de Minas: Onde mora o perigo
Zero Hora: Itamaraty tenta liberar bióloga presa na Rússia
Brasil Econômico: Fusão fortalece planos de Oi e PT para crescimento

quarta-feira, outubro 02, 2013

Nós e a cidade - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 02/10


Uma casa e um smartphone: você precisa de mais alguma coisa? Hoje a gente se enclausura e faz uma vida. O que fica do lado de fora da janela é apenas uma cidade com ruas que levam a outras clausuras: a do escritório, a da academia, a da igreja, a do shopping, a do estádio, a da casa de amigos e familiares. Durante o trajeto, de um ponto a outro entre as clausuras, vamos reclamando do trânsito e olhando para os lados com aflição, a fim de conferir se não há ninguém nos seguindo, à espreita.

A cidade em que vivemos deveria despertar o mesmo sentido de lar que nossa casa desperta. Também é uma referência emocional, e o natural seria que circulássemos por ela com desenvoltura, alegria, entusiasmo – valorizando os passeios e nos sentindo acolhidos. Uma cidade é um espaço de integração e dinamismo, um elemento vivo. Ela deve ser boa para nós, deve nos reservar um futuro. Uma cidade – a nossa cidade – deve nos convidar para fazer parte dela com profundidade, como um chamado amoroso. Mas para amá-la precisamos confiar nela, admirá-la e considerá-la protetora.

Que condição de cidadania pode haver em transitar apressadamente entre clausuras, em não desfrutarmos do acolhimento que uma cidade, qualquer cidade, deveria oferecer a quem nela vive?

Uma amiga teve o carro roubado às 14h de um lindo dia de sol enquanto estacionava aqui perto de casa. Minha cunhada resgatou o filho na escola enquanto acontecia um tiroteio na praça em frente. Uma conhecida foi assaltada duas vezes no mesmo mês e no mesmo quarteirão. Isso restrito à minha vizinhança, imagino que você também colecione histórias sobre a sua.

Quem já teve o privilégio de viajar para locais mais seguros não se conforma com a indignidade de caminhar pela própria cidade desconfiando de quem cruza pela calçada. Comerciantes atendem por trás de grades depois de certa hora – como se ainda houvesse um horário mais perigoso do que outro. É ridículo se sentir ameaçado pelo lugar onde se vive.

É por isso que apoio os que lutam para atualizar nosso Código Penal. Prisão perpétua para crimes hediondos, fim do regime de progressão (que o preso cumpra sua pena integralmente) e redução da maioridade penal para 16 anos quando houver prática de assassinato, estupro, sequestro, pedofilia, tráfico de drogas, de órgãos, de armas. Chega do prende e solta.

Política é a arte de se deixar seduzir pelo poder, mas que poder? Nossos engravatados discursam pomposamente, cortam fitas de inauguração, vivem em reuniões, fazem de conta que representam o povo, enquanto o povo continua negligenciado pela retórica, pela burocracia, pela lerdeza, por leis obsoletas, por interesses eleitoreiros e pelo DNA defeituoso deste país que, em vez de permitir que nos encantemos por nossas cidades, faz apenas com que tenhamos medo delas.