domingo, julho 28, 2013

REINVENTANDO A VIDA - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 28/07

Aos 66, Renata Sorrah está no ar em "Saramandaia" e conta como envelhecer é um aprendizado difícil: "Você tem que saber se inventar"

Renata Sorrah, 66, moradora do Jardim Botânico, no Rio, anda "encantada" por São Paulo. "Sei que também tem violência, mas tô achando a cidade tão bonita", diz.

E emenda elogios a duas figuras da cena cultural paulistana: o diretor do Sesc, Danilo Santos de Miranda, e o secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira.

"O Danilo podia passar uma temporada no Rio, ficar uns dois anos lá", diz à repórter Lígia Mesquita. "E eu adoraria ter o Juca nosso secretário no Rio [risos]. Estamos muito carentes em toda essa parte cultural."

A atriz cita teatros do Rio que estão fechando. "O Gloria fechou... O Eike [Batista, dono do hotel Gloria] prometeu fazer outro e até agora nada." A carioca passou um mês e meio vindo toda semana para a capital paulista apresentar "Esta Criança", que ficou em cartaz até junho no Sesc Vila Mariana.

A montagem da Cia. Brasileira de Teatro levou o Prêmio Shell de melhor cenografia, direção e iluminação e rendeu a Renata o de melhor atriz. "Acho muito bom ganhar prêmio. Tem gente que fala: Hum, prêmio?'. Eu acho um reconhecimento."

O texto, do francês Joel Pomerat, fala de relações familiares. "O mundo tá tão moderno; as relações, virtuais. E a gente esquece essa celulazinha que é a familiar. Se você começa bem, se seu DNA tá bom, tá meio caminho andado", afirma.

É nos palcos que ela busca novas famílias, atuando, na maioria das vezes, com grupos teatrais. "Comecei com o Amir Haddad [diretor teatral] no Tuca. E o Amir me falou: O teatro salva'."

E ela, que chegou a cursar psicologia, concorda com o diretor. "O teatro me salvou, fez eu ser uma pessoa melhor. Não sei o que seria se não fosse atriz. Mas ele me ajudou a abrir minha cabeça, a ter compaixão pelo outro ser humano, a saber traduzir a vida pra mim", diz.

Sempre procurou revezar o trabalho nos palcos com atuações na televisão. Muitas delas marcantes na história da teledramaturgia nacional, caso da alcoólatra Heleninha em "Vale Tudo" (1988) e da vilã Nazaré Tedesco em "Senhora do Destino" (2004).

"Não tenho preconceito com a TV. É um trabalho para os atores", diz. "Sempre tive sorte. Nunca fiz algo que pensei: Ai, que horrível, não queria ter feito'. Claro que tem coisas que gosto mais, e outras que gostei um pouco menos, mas fiz bem."

Está no ar em "Saramandaia", novela das 23h da Rede Globo, como Leocádia, mãe de Gibão (Sergio Guizé), um rapaz que tem asas. "Estou adorando. É contra todo esse preconceito, esse bullying com pessoas diferentes", afirma ela, sobre os personagens que dão vida ao realismo fantástico da trama de Ricardo Linhares, inspirada em Dias Gomes. "Hoje todo mundo tem que ser igual, tem que se vestir igual, pensar igual. Então é legal você aceitar as diferenças."

A atriz falou à coluna sobre outros temas como envelhecer, relações virtuais e a cultura das celebridades. A seguir, um resumo dos principais pontos.

ENVELHECER
Você aprende, assim como quando é criança, quando é adolescente. Todas as partes da vida são aprendizado. Você aprende a envelhecer também. Tem que aprender, senão não fica bom. Tô num ponto que é difícil. Tá ligado ao final. Quando você é adolescente, tem um caminho grande. Quando se tem mais de 60, você começa a ver que isso é finito, tem alguns amigos que morrem, tem seu pai com 99 anos.

Tenho um neto de três anos, uma neta de um. É revigorante. Ainda quero trabalhar muito, fazer coisas legais.

PAPÉIS APÓS OS 50
O teatro é mais generoso [com as mulheres]. A TV e o cinema, não. Aí você começa a fazer as mães. Você tem que saber se inventar, inventar a vida. Não pode deixar a vida montar em cima de você, senão ela te maltrata. É você que monta nela, dá a direção.

VAIDADE
Tudo é aprender. Você vê fotos suas mais jovem e fala: "Como tava bonitinha". E eu nem me achava tão bem [risos]. Já fiz plástica nos olhos, mas agora decidi que não vou mais fazer.

CELEBRIDADES
Tem ator que gosta desse star system', dessa coisa de celebridade, de ser atriz o tempo inteiro. Eu acho que ser atriz é outra coisa, é minha profissão. Tenho orgulho, gosto, estudo. Mas isso não me dá glamour, nada.

E há agora uma coisa tão engraçada, de as pessoas normais quererem ser celebridades. Acho uma maluquice essa coisa de "quero aparecer, ser celebridade por um dia".

PRIVACIDADE
Não gosto e nunca deixei muito [invadirem a minha privacidade]. Nossa vida é tão boa quando tem um charme, uma coisa que é só sua, acho essencial. Não existe disposição maior do que você estar no palco. Ali podem me devastar, escanear. Mas, fora dele, não. É a minha vida, são as minhas coisas; tenho minha casa, meus amores, meus amigos, meus netos.

SÓ NO VIRTUAL
Tenho um pouco de medo dessas relações virtuais. Por isso, cada vez gosto mais do teatro. Tenho medo dessa solidão das pessoas em frente a um computador. Vejo às vezes em restaurante casais que não conversam, cada um com seu iPhone ou seu tablet. Acho um pouco assustador, não sei no que isso vai dar.

CINEMA
Eu tenho vontade de fazer mais cinema [seu último filme foi "Árido Movie", de Lírio Ferreira, em 2006].

Folha - Você já contou que o recado na sua secretária eletrônica era em alemão porque esperava que um dia o diretor Wim Wenders ligasse para você. Hoje de quem espera um telefonema?

Um Woody Allen, um Stephen Daldry. Mas sabe quem eu gostaria mesmo? O Karim Ainouz [cineasta cearense]. Eu fiz uma pequena participação em "Madame Satã" [2002], adoro ele.

LEI ROUANET
Acho que a lei hoje em dia é às vezes mal usada. Para coisas que você fala: "Não é possível". A lei é boa, mas precisa ser revista. Pra quem dar, como dar. E o Norte do país? Os artistas de lá têm as mesmas oportunidades que nós aqui do Sul temos?

Será que tem que ter Lei Rouanet pra fazer livro de final de ano de empresa? Aí não acho bacana. Mas, pra montar espetáculo, é.

Folha - E o que acha de musicais que captaram dinheiro com a lei e cobram R$ 300 o ingresso?

Acho uma loucura. Se você ganha incentivo fiscal público, se está usando dinheiro público, o ingresso tem que ser barato. Custar muito caro fica muito elitista.

DILMA ROUSSEFF
Foi minha candidata, em quem votei. Gosto dela.

Em berço esplêndido - CELSO MING

ESTADÃO - 28/08

Um expressivo número de relatórios e de análises técnicas vem advertindo para o forte impacto negativo sobre a indústria brasileira que começa a ser causado pela importante revolução energética em curso nos Estados Unidos. No entanto, nem o governo nem os dirigentes da indústria parecem mobilizados para uma resposta adequada para o que vem vindo aí.

A novidade, que já tem três anos, é a abundante produção de gás de xisto que vai sendo colocado no mercado dos Estados Unidos a preços correspondentes a cerca de 20% dos praticados tanto no Brasil como na Europa.

Esse tema já foi objeto de vários comentários neste espaço, mas é preciso recuperar o principal. Trata-se da produção de gás por meio de microfraturamento de formações de xisto (rochas que contêm petróleo e gás) por meio de injeção a alta pressão de uma mistura de água, areia e certos compostos químicos.

Hoje cerca de 2 mil empresas nos Estados Unidos atuam nesse negócio. Em mais alguns anos deverão dobrar e contribuir para a autossuficiência em gás e petróleo dos Estados Unidos, que a Agência Internacional de Energia prevê para 2025.

Independentemente das importantes consequências geopolíticas a serem provocadas pelo fim da dependência americana do suprimento de países problemáticos, a perspectiva de abundância de gás a preços baixos deverá deflagrar nova onda de industrialização nos Estados Unidos e nos países que vierem a adotar a nova tecnologia.

A presidente da Petrobrás, Graça Foster, tem repetido que, nas atuais condições, não há possibilidade de competir com esse gás. Em outras palavras, essa é uma forte ameaça à indústria brasileira, especialmente as eletrointensivas e aquelas altamente dependentes do gás natural como matéria-prima, como os setores do vidro, cerâmica e petroquímica, que deverão enfrentar uma concorrência dizimadora.

Este governo, sempre tão disposto a proclamar as excelências de sua política industrial, ainda não esboçou nenhum movimento em direção à definição de uma estratégia para enfrentar essa nova situação.

O Brasil tem vastos reservatórios de xisto. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) avalia que apenas três formações (Parecis, Recôncavo Baiano e Parnaíba) têm potencial para produção de 17 trilhões de metros cúbicos de gás.

O primeiro leilão de concessão de gás não convencional está agendado para novembro, mas até agora não há clareza nas suas regras. O pressuposto é o de que as operadoras terão liberdade para adotar a nova tecnologia do microfraturamento. Mas os eventuais interessados terão de operar quase às cegas, por falta de mapeamento geológico que indique a extensão e as características das jazidas.

Também falta balizamento ambiental para esse tipo de atividade, dado o risco de contaminação dos lençóis freáticos e a forte demanda de suprimentos de água. Esse é um fator que, por si só, aumentará os riscos e reduzirá o potencial de receita do Tesouro em bônus de assinatura.

O câmbio vai continuar a se desvalorizar - SAMUEL PESSÔA

FOLHA DE SP - 28/07

O movimento no câmbio produzirá queda de renda nas famílias; a vida não será fácil para o próximo governo


A trajetória do câmbio nos próximos anos será de desvalorização. A depreciação não será somente para compensar a maior inflação doméstica em relação às moedas de nossos parceiros comerciais.

Observaremos nos próximos anos uma trajetória de desvalorização do real acima da que ocorreria apenas para neutralizar a diferença de inflação. Em economês, pode-se dizer que teremos uma desvalorização do câmbio real.

Os oitos anos da Presidência de Lula foram de forte valorização cambial. O câmbio nominal foi de R$ 3,5 por dólar, na virada de 2002 para 2003, até R$ 1,6, em junho de 2008. Entender os motivos que produziram essa espetacular trajetória de apreciação da moeda ajuda a desenhar cenários para os próximos anos.

Um primeiro ponto importante é notar que a maior parte da valorização do câmbio foi um fenômeno de equilíbrio de longo prazo. Isto é, o movimento do câmbio nominal pode ser bem descrito por movimentos de outras variáveis associadas à dinâmica cambial.

Nesse sentido, apesar de valorizado, o real não esteve em lugar errado. Mas quais são os determinantes do câmbio no longo prazo?

A dinâmica cambial de longo prazo depende essencialmente de três variáveis: o passivo que o país tem contra o resto do mun- do (chamado em economia de passivo externo líquido), os termos de troca (relação entre preço das exportações e importações) e os ganhos de produtividade.

Quanto menor o passivo líquido contra o resto do mundo, quanto melhores os termos de troca e, quanto maior a produtividade, mais valorizado será o câmbio.

O período de janeiro de 2003 até meados de 2011 pode ser dividido em três subperíodos. No primeiro, em razão do forte ajuste fiscal do segundo mandato de FHC e dos anos iniciais de Lula na Presidência e da fortíssima queda do investimento em 2003, tínhamos superavit em conta-corrente. A redução de demanda doméstica aumenta a exportação e reduz a importação.

O superavit externo atingiu quase 2% do PIB em meados de 2005, contribuindo para que o passivo externo líquido caísse.

A partir de 2005, à medida que o superavit externo começou a cair, a taxa de crescimento da economia acelerou-se. Adentramos o segundo subperíodo da valorização cambial. O crescimento mais forte reduziu o passivo externo líquido como proporção do PIB, mesmo com um superavit em transações correntes menor.

Finalmente, a partir do momento em que nosso crescimento foi interrompido em seguida à crise de 2008, o novo padrão de retomada da economia mundial --China e emergentes à frente e economias centrais no chão-- promoveu forte ganhos de termos de troca para o Brasil.

Diferentemente do que se acredita, os ganhos de termos de troca no período anterior à crise foram pequenos, da ordem de 6%. Os fortes ganhos de termos de troca no período pós-crise, que atingiram 25%, mantiveram o câmbio em trajetória de valorização, apesar de a economia estar crescendo pouco e já apresentar deficit externos.

Mais recentemente, toda essa dinâmica, ligada ao período de valorização cambial, inverteu-se. Hoje, temos deficit externo na casa de 3% do PIB, crescimento de 2% e termos de troca estáveis, com elevada probabilidade de queda em razão de uma possível redução mais acentuada de crescimento na China.

A combinação de crescimento mais fraco com deficit externo maior produzirá necessariamente a elevação do passivo externo líquido. Maiores valores para o passivo externo líquido forçosamente desvalorizarão ainda mais o câmbio.

O processo será lento, pois a maior parte de nosso passivo contra não residentes é denominado em nossa moeda. Consequentemente, o próprio processo de desvalorização do real reduz o passivo em moeda externa e minora o efeito sobre o câmbio. No entanto, enquanto experimentarmos a combinação de deficit externo elevado com crescimento baixo, vamos acumular passivo contra o resto do mundo.

O movimento que ocorrerá no câmbio ajudará a indústria de transformação a recuperar seu dinamismo, mas certamente produzirá queda de renda nas famílias brasileiras. A vida não será fácil para o próximo governo.

Travessa da política - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 28/07

O plebiscito surgiu como proposta numa hora de tumulto do país e pareceu a alguns uma forma de a presidente fugir de problemas; a outros, uma forma de tirar força do Congresso. Para o ministro Joaquim Barbosa, independentemente do contexto em que apareceu, a ideia de haver mais plebiscitos e referendos no país é boa. "É uma forma de revigorar a democracia."

O argumento de Barbosa na entrevista que me concedeu - veja na editoria País - foi que assim que se falou em "plebiscito" o país foi atingido por uma "demofobia" (medo do povo). Esse medo de que o povo não entenda ou não saiba escolher não se justifica, segundo ele, porque, explicado bem, tudo pode ser entendido. E na consulta basta formular bem a pergunta:

- Ouvir o povo é sempre uma boa ideia, dar a palavra ao povo. Quantas democracias têm plebiscito e referendos frequentemente? Nos Estados Unidos, França, Itália. Na União Europeia, as adesões aos sucessivos pactos foram feitos através de referendos.

O presidente do Supremo já vem dizendo que o sistema eleitoral brasileiro tem que ser alterado, acabando-se com a fórmula atual do cálculo de sobras, que permite que um candidato com muito voto eleja políticos quase sem voto; pensa que o suplente tem que ser eliminado e propõe, no lugar, que haja eleição em caso de morte de senador, por exemplo:

- Os TREs estão preparados para fazer rapidamente uma nova eleição parcial.

Ele define como "abominável" o sistema de lista fechada, mas usa o mesmo adjetivo para o sistema atual, em que os partidos, sem qualquer transparência, aproveitam-se das sobras do quociente eleitoral:

- É uma burla da vontade do eleitor, que votou em alguém e vai eleger mais quatro ou cinco políticos escolhidos pela cúpula do partido.

Ele é um defensor do sistema distrital, convencido de que resolveriam esses problemas que ocorrem hoje na democracia brasileira:

- O sistema distrital é mais transparente, expressa mais a vontade do eleitor e cria a identificação direta do eleitor com o eleito.

Sobre os Tribunais Regionais Federais, cuja criação ele decidiu suspender, a explicação que deu é que isso é rotineiro. Atribui as críticas à falta de informação sobre como funcionam as instituições. Decidir nas férias dos ministros é uma prerrogativa do presidente, explicou. Depois, o assunto volta ao ministro para o qual foi distribuído. Mas, já entrando no mérito, ele diz que o Judiciário brasileiro tem garantias contra interferências políticas. O risco de aceitar que o Legislativo crie tribunais é que ele pode querer também suprimir.

- Permitir que políticos interfiram de alguma maneira criando ou suprimindo tribunais é abrir as portas para a fragilização do Judiciário. Isso, a sociedade não quer, e a Constituição não permite.

Lembrei que ele votou no presidente Lula e na presidente Dilma e foi escolhido por Lula, mas, mesmo assim, teve que fazer o voto que levou à condenação de lideranças fundamentais do PT. Quis saber se havia sido doloroso para ele. Ele respondeu com segurança:

- Nem um pouco, ali eu estava cumprindo meu dever, como sempre cumpri nestes 39 anos e meio de serviços ao Estado brasileiro. Como é o presidente que nomeia os ministros, ele não pode escolher um amigo, ou um cupincha, um subordinado. Ao contrário, tem que escolher alguém com postura de estadista. Alguém que vai encarar um processo como esse de maneira mais natural. Eu não tomo conhecimento, ignoro a qualidade e as condições das partes que estão sendo julgadas. Uma das tragédias do Brasil é a justiça criminal de classe.

Pedi que ele apontasse um dos problemas do Brasil, e ele disse que é o mesmo que outros países: falta de líderes e visão de longo prazo. O mundo inteiro está com falta de lideranças, na sua opinião. Acha que no Brasil o problema surge da ditadura, que criou um vácuo, e do sistema político eleitoral, que tem impedido o surgimento dessas lideranças. Pessoas que poderiam ir para a política, mas se perguntam: por que vou me meter nisso? Por que vou frequentar esse tipo de gente?

Por isso ele acha fundamental modernizar o sistema político. A longa entrevista na Livraria da Travessa, no Rio, foi interrompida por pessoas que estavam por perto. Uma vez, por um crítico; outras três vezes, por pessoas que disseram que votariam nele.

Simples, mas difícil - HENRIQUE MEIRELLES

FOLHA DE SP - 28/07

Presidente de empresa global europeia, com presença industrial importante no Brasil, relatou que parou de investir em produção para exportação devido aos custos elevados no país. Na visão dele, mesmo no mercado interno cresce a dificuldade de repasse integral de custos, pois o aumento de preços já afeta a demanda.

Ele destacou como inibidores do investimento os al- tos custos logísticos, trabalhistas e tributários, as incerte- zas com a pouca previsibili- dade das políticas macroe- conômicas e a situação fiscal e inflacionária.

Sua opinião resume o que pensa grande número de investidores e dirigentes de empresas sobre o Brasil hoje, principalmente no setor industrial.

O problema de logística e infraestrutura só pode ser enfrentado com uma série de licitações bem-sucedidas, que atraia capital e competência técnica. Para isso, serão necessárias taxas de retorno compatíveis com o risco, quando comparadas com o retor- no oferecido em outros lugares do mundo.

É essencial entender ainda que a decisão de investimento é de cada empresa, e dificilmente haverá coincidência de avaliações entre grande número delas. As experiências de sucesso passam pelo incentivo à maior concorrência possível para obter o menor custo. Nesse contexto, a fixação de taxa de retorno pelo governo é vista como um grande limitador.

Os custos trabalhistas e a reforma fiscal terão de ser enfrentados, mas são ques-tões legislativas de resolução mais longa por envolver conflitos de interesse e grande vontade política.

Já a questão da inflação começa a ser enfrentada pelo Banco Central e seria facilitada por uma contenção de gastos do governo capaz de equilibrar a economia.

Diante dessa conjuntura, a alternativa na visão de muitos é uma mera depreciação do real que compense a baixa produtividade e os custos excessivos. Mesmo que a deterioração do cenário torne factível essa via, o aumento do custo dos produtos importados demandaria das autoridades monetárias e fiscais medidas mais duras para evitar seu repasse ao restante dos preços.

E a desvalorização da moeda só é eficaz se aceitarmos mudança de preços relativos na sociedade, com setores que produzem bens comercializados no exterior se apropriando de parcela maior da renda nacional em detrimento de setores imensos como o de serviços, cujos preços não são cotados internacionalmente e não se beneficiam do real desvalorizado.

Em resumo, as soluções são relativamente simples, porém de difícil implementação, dados os custos políticos de um ajuste econômico mais sério, rigoroso e eficaz.

Aquém da imaginação - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 28/07

O papa Francisco e os jovens - os hóspedes - saíram-se muito bem. Já o poder público - o hospedeiro - saiu-se muitíssimo mal da Jornada Mundial da Juventude que, durante uma semana, expôs em detalhes as deficiências que marcam uma grande distância entre a fantasia de querer e a capacidade do País de fazer grandes eventos.

Como ficou demonstrado, "imagina na Copa" não é apenas um bordão travesso ou mera abstração do contra. É produto da confrontação diária de que a má qualidade dos serviços prestados aos brasileiros não corresponde à pretensão de ofertá-los em larga escala a multidões de visitantes.

Engarrafamento, falha de planejamento, falta de transporte, filas imensas nos pontos de ônibus sempre insuficientes, caos nas estações do metrô, nada a que os locais não estejam acostumados.

Da mesma forma estamos familiarizados com a desculpa de que "nessa época do ano choveu além do previsto", apresentada pela prefeitura do Rio ante a impossibilidade de se realizar a vigília de oração e a missa de despedida do papa no lodaçal em que se transformou o campo preparado (?) em Guaratiba, na zona oeste da cidade.

Os moradores dessa e de outras regiões - não só do Rio, aqui uma espécie de maquete dos enguiços existentes Brasil afora - estão habituados a sofrer os efeitos das chuvas tidas por nossas autoridades como ocorrências imprevisíveis. As pessoas morrem, perdem suas casas, ficam desamparadas e é sempre a mesma coisa: culpa da abundância inesperada de São Pedro.

Os transtornos da Jornada funcionaram como um resumo de repercussão amplificada do grito dos cidadãos que foram às ruas. Também daqueles que, nas pesquisas, registram concordância com as manifestações deflagradas pela saudável ousadia da juventude imune aos efeitos da anestesia de um falso Brasil reinventado na imaginação (para não dizer manipulação) do ex-presidente Luiz Inácio da Silva.

No embalo dessa fabulação, deixou-se de lado o ensinamento do velho dito: "Quem não tem competência não se estabelece". Várias das reclamações que se viram nas placas de junho estavam retratadas nos desacertos da Jornada de julho, em logística e duração incomparável com a Copa do Mundo e a Olimpíada.

O enredo criado por Lula quando dos espetáculos promovidos para celebrar a escolha do Brasil como sede dos dois certames não combina com os fatos. Não resistiu ao primeiro teste da realidade de falta de estrutura, disciplina, seriedade, realismo e responsabilidade para fazer frente ao tamanho do compromisso assumido.

O ensaio na primeira viagem internacional de Francisco cobre de descrédito o País, que saiu da Jornada menor do que entrou. O papa, generosamente bem humorado, pediu desculpas ao prefeito pela "bagunça" que estava fazendo na cidade, quando eram os anfitriões os responsáveis pela série de confusões.

No início, temia-se que a repetição dos protestos e atos de vandalismo tumultuasse o ambiente. No fim, o que tumultuou foi justamente a inépcia do poder público, alvo das manifestações cuja motivação ficou patente. Ao mesmo tempo, comprovou-se a razão pela qual as autoridades não souberam dar aos manifestantes uma resposta à altura.

A despeito da improvisação, a festa que hoje se encerra foi bonita. Pelo conteúdo de espiritualidade que estimula positivamente e cria uma atmosfera de boa vontade, bem entendido. A mesma condescendência, porém, não haverá quando do campeonato de futebol e dos Jogos Olímpicos.

Se o mundo deu agora um mau (e merecido) testemunho a respeito da ineficácia da organização, não é nem de se imaginar, mas de se constatar previamente, a dimensão do vexame que se avizinha no horizonte.

Sem sinais de trégua - JOÃO BOSCO RABELLO

O Estado de S.Paulo - 28/07

A proximidade do fim do recesso informal do Legislativo, daqui a sete dias úteis, projeta revezes políticos com potencial para agravar a paralisia que tomou conta do governo desde a primeira queda nos índices de aprovação, reforçada pelas pesquisas feitas após os protestos de rua. O Congresso retoma a pauta do ponto conflagrado em que a interrompeu, com a base em rebelião com a presidente Dilma Rousseff.

O Planalto não conseguiu, na verdade sequer tentou, qualquer gesto consistente que contribuísse para evitar o avanço da proposta de orçamento impositivo das emendas parlamentares e ainda inflamou o clima pela derrubada de vetos presidenciais, cuja dificuldade histórica foi recentemente abrandada pela mudança do procedimento regimental para votação. A aprovação dessas matérias, que migrou do possível para o provável, poderá ocorrer ainda no mês de agosto.

Por uma liberalidade, o veto presidencial só contava prazo para votação após sua leitura em plenário, o que podia não ocorrer nunca, conforme atestam os mais de mil arquivados recentemente pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Agora, esse prazo conta a partir da chegada do veto ao Legislativo, o que impõe sua apreciação mensal.

Há pelo menos cinco matérias com vetos polêmicos na mira de parlamentares - desde o que impede a transmissão de concessões de táxi de pai para filho, de motivação eleitoral, até os da MP dos Portos e do Código Florestal, de importância estratégica para o País. O recente veto ao fim da multa de 10% sobre o FGTS para os empregadores piorou ainda mais o humor com o Planalto.

Este, cuja continuidade representa um confisco, por já ter cumprido seu papel compensatório em relação às perdas dos Planos Collor e Verão, foi extinto pelo Congresso, sensível à pressão justificada do meio empresarial, mas vetado por Dilma. A tentativa do governo de reagir aos protestos de rua desgastando o Legislativo, e a votação secreta, autorizam a previsão da derrubada de, pelo menos, alguns dos vetos na fila de espera.

Quanto ao orçamento impositivo, além do poder de sedução que lhe empresta apoio suprapartidário, pela independência em relação ao Executivo, reverte a relação histórica em que o governo contingencia as emendas e traduz para a sociedade como chantagem a pressão do Congresso pela sua liberação, subtraindo ao político seu maior trunfo - a entrega de recursos em suas bases, impondo-lhe imenso prejuízo eleitoral.

Sua adoção, muito provável, vai exigir da presidente Dilma mais disposição e capacidade de negociação política, o que - já se viu - contraria sua natureza, mas cuja falta agrava o seu isolamento e, por extensão, o do PT no Congresso.

Aquarela sangrenta do Brasil - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 28/07

Somos dos países onde mais se morre de tiro, um dos mais desiguais e muito mal educados


CONSIDERE UM PAÍS que está entre os dez mais violentos do mundo: um dos países onde mais se morre por causa de tiro.

Nesse mesmo país, a população adulta mal passou da escola primária, em média. Nas estatísticas mundiais de anos de instrução, esse país está para lá de centésimo lugar numa lista de 185 nações.

Esse país fantástico também é um dos dez mais desiguais em termos econômicos (de renda individual, mas não apenas).

Esse país é o Brasil.

Tais estatísticas não são lá novidade, mas vêm à lembrança porque o Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela), uma ONG do Rio, divulgou neste mês compilação muito útil e bem feita de dados sobre mortes por armas de fogo no Brasil dos últimos 30 anos.

Os números deveriam ser motivo de atenção em particular neste momento de suposta autoanálise nacional, em que o "gigante acordou", embora ainda tenha sono ao ler estatísticas e estudos sobre si mesmo. O "gigante", rudimentar, desinformado e despolitizado, acha que os problemas nacionais se deveriam todos a uma casta corrupta de políticos (que elegemos distraidamente).

Numa lista de cem países, o Brasil está em oitavo lugar em homicídios e no nono no quesito "mortes por armas de fogo" (isto é, estamos no topo do ranking mesmo levando em conta o tamanho da população).

Desde quando há estatísticas mais confiáveis (20, 30 anos), latino-americanos quase dominam a lista dos mais violentos, com centro-americanos à frente, seguidos de Venezuela, Colômbia, México e Brasil.

A taxa de mortes por arma de fogo no país é igual à do México. Oito vezes a chilena. Mais que o triplo da argentina. O dobro da americana, o país rico mais violento do mundo.

Alagoas, Pará, Bahia, Paraíba e Espírito Santo são os Estados brasileiros mais violentos. Rondônia, Piauí, Santa Catarina e São Paulo, os mais pacíficos.

Aliás, São Paulo é uma das três capitais onde menos se morre por tiro. O Estado tem uma taxa de morte à bala similar à dos EUA e foi um dos mais bem-sucedidos na redução da mortandade na última década.

A taxa de mortes por tiro nos municípios brasileiros nada tem a ver com índices de desenvolvimento humano, renda, saúde, educação e tamanho da população, indica o cruzamento dos dados (feito por esta coluna). Políticas de segurança, o fato de a cidade ser nova e/ou estar perto de zonas de risco (fronteira, tráfico) etc., afetam as estatísticas.

O Cebela lembra pesquisas do Conselho Nacional do Ministério Público, entre outras, a respeito do motivo da mortandade. Entre os crimes resolvidos (proporção baixíssima, de 5% a 8% do total), grande parte era de assassinatos por motivos fúteis e/ou impulso: "brigas, ciúmes, conflitos entre vizinhos, desavenças, discussões, violências domésticas, desentendimentos no trânsito".

Ou seja, por ninharias, o brasileiro rasga a fantasia fina de civilização e atira: é tosco e tem uma arma à mão para cometer barbaridades (quando não tem arma de fogo, tem um automóvel: somos um dos povos que mais se mata também no trânsito).

Desigualdade de renda, social, de poder, violências, falta de educação: há algo de anormalmente errado com o Brasil. O "gigante" precisa acordar para isso.

Sem concorrência - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 28/07

Moreira Franco, ministro da Secretaria de Aviação Civil, é uma das presenças mais inexplicáveis no governo


As próximas concorrências para concessão de aeroportos a grupos privados -a do Galeão e a de Confins (Belo Horizonte)- estão encaminhadas de modo a não serem concorrências. As regras fixadas satisfazem-se com as aparências.

Na atual etapa do processo licitatório, os editais estão pendentes de parecer do Tribunal de Contas da União, motivo de intenso trabalho de "lobby" para que os quesitos básicos não sofram restrição. Um deles em especial.

É a proibição de que consórcio já vencedor da concessão de um aeroporto concorra a outro. Dizia em entrevista no dia 17 o ministro da Secretaria de Aviação Civil, Moreira Franco, a respeito do edital limitativo: "Nós não queremos o monopólio privado, nem o monopólio público. Ele não é conveniente para o cidadão".

Há outras inconveniências para o cidadão. Uma delas, a invocação de um argumento falso. Já foi feita a concessão de dois aeroportos a um só consórcio. O de Brasília, em fevereiro de 2012, e o de Natal, em agosto de 2011, foram ambos concedidos ao consórcio Inframérica, do qual faz parte a empreiteira Engevix.

Além disso, está por ser provado que a redução de disputantes dificulta mais a formação de monopólio, ou mesmo de oligopólio, do que maior número de competidores tecnicamente habilitados. E monopólio privado nem poderia haver, já feitas concessões de aeroportos a grupos distintos, como os de Viracopos e de Guarulhos.

Confrontado com uma série de reportagens do "Jornal da Band" sobre aeroportos brasileiros, na qual foram referidas estranhezas motivadas pelos editais, um titubeante Moreira Franco disse ao telejornal: "O edital pode mudar. O governo quer competição". O "governo", pode ser; a Secretaria de Aviação Civil, não. Já a elaboração dos elementos para a concorrência do Galeão e de Confins foi entregue à empresa EBP (Estruturadora Brasileira de Projetos), pela secretaria de Moreira Franco, sem concorrência.

Moreira Franco é uma das presenças mais inexplicáveis no governo. E esse inexplicável duplicou com a sua mudança da já imprópria Secretaria de Assuntos Institucionais para a de Aviação Civil. Se a anterior lhe era descabida, da segunda a sua habilitação não está à altura nem de aviãozinho de papel. Bem, nesta haveria muitas e altas concorrências.

De fato, o prontuário de Moreira Franco em assuntos de concorrência é de fartura provavelmente, ele também, sem concorrência. A modalidade de concorrências criada pelo seu governo no Rio, nos anos 80, gerou uma série numerosa de revelações de resultados antecipados nestes textos aqui. Foram várias concorrências para o metrô, outras para edificações como um imenso Palácio da Polícia, um gigantesco complexo de abastecimento de água que até hoje não faz falta, bilhões de dólares em concorrências que Moreira Franco teve de anular, por fraudes.

Todas com participação das maiores empreiteiras, Andrade Gutierrez, Mendes Jr., OAS, Camargo Corrêa, todas -entre elas, claro, a Odebrecht, uma espécie de detentora de exclusividade sobre o Galeão, cujos dois terminais, os tais "novos" e péssimos, as pistas, acessos e tudo mais lhe foram entregues, como sempre, em concorrências ("""""""""""""""": ponha aspas à vontade).

Cabral precisa descobrir o Brasil - ELIO GASPARI

O GLOBO - 28/07

Sérgio Cabral foi reconduzido ao governo do Rio em 2010 com os votos de dois terços do eleitorado. Uma vitória para ninguém botar defeito. Em menos de três anos tornou-se um governador detestado. Talvez seja exagero acreditar que é o pior entre seus pares, mas pode-se ter certeza de que foi o que impôs a maior quantidade de desaforos ao seu povo. Gosta de uma viagenzinha, mas tem no colega Cid Gomes um rival. Usa o helicóptero da Viúva para levar o cão Juquinha a Mangaratiba, mas queima menos combustível que os ministros da doutora Dilma na JetFAB (1.664 solicitações em seis meses). Comparado com o comissário Alexandre Padilha, é um sedentário. O ministro da Saúde voou 110 vezes, na maioria dos casos para São Paulo. Diz bobagens, já defendeu o aborto informando que a Rocinha era "uma fábrica de produzir marginal", mas foi um dos governadores do Estado que, com ajuda federal, mais investiu em programas de recuperação dessas comunidades. É dado a breguices: "Este é o melhor Alain Ducasse", disse, referindo-se ao restaurante onde concluíra um repasto, em Mônaco.

Desde que o "Monstro" saiu às ruas, Cabral desafiou-o. Disse que "essas manifestações estão tendo um caráter, um ar político que não é espontâneo da população". (Na semana passada elas tinham o apoio de 89% dessa população.) Fabricada era a passeata que seu governo organizou para apoiá-lo na disputa pelos royalties do petróleo. Tinha cercadinho VIP e pulseirinhas para celebridades.

Cabral justificou seu uso privado de helicópteros públicos dizendo que "não sou o primeiro a fazer isso no Brasil". Esqueceu-se de dizer que não reincidirá no folguedo. Há duas semanas um carro da sua polícia atirou numa área onde havia manifestantes. Quem foi? Pfff. O prefeito de Miguel Pereira homenageou-o num evento cuja convocação dizia o seguinte aos beneficiários do programa "Renda Melhor": "O não comparecimento poderá resultar na perda do benefício. (...) Levem seus familiares". A prefeitura disse que foi um "equívoco". Sua assessoria esclareceu que não sabia de nada.

No seu pior momento, Cabral informou que "nesses atos de vandalismo tem a presença de organizações internacionais. (...) Sabemos que há organizações internacionais estimulando o vandalismo e o quebra-quebra". Em seguida criou uma comissão para apurar os atos de violência. Havia um casal que se declarou a serviço da Abin. A polícia disse que apreendeu 20 molotovs com um preso? Cadê ele? Vinte coquetéis com uma só pessoa? O único preso, com espalhafato, nada tinha a ver com a história. Salvou-se pedindo socorro à Mídia Ninja. Graças a ela e a um vídeo da TV Globo, sua inocência ficou estabelecida. Quem criou a patranha? No meio disso tudo, a PM prendeu um pedreiro na Rocinha, e ele sumiu. A polícia diz que ele desapareceu depois de ter sido liberado. Cadê o vídeo da sua saída da UPP? A câmera enguiçara na véspera.

A conexão da polícia do Rio e das milícias com barbarizações deveria assustar Cabral. Já houve época em que o submundo das meganhas carioca e federal se meteu em coisa parecida. Num caso, em setembro de 1980, a descrição da cena da explosão de uma banca de jornais na jurisdição da 28º DP chegou ao conhecimento do seu titular e do Palácio do Planalto. Sentaram em cima. Sete meses depois o governo explodiu no Riocentro.

Cabral pode não ter entendido o que está acontecendo no país, mas não se eximirá de ser cobrado pelo que acontece no seu governo.

EREMILDO, O IDIOTA

Eremildo é um idiota e passava pela rua Pinheiro Machado quando viu o Palácio Guanabara praticamente cercado pela tropa de choque da Polícia Militar. Por cretino, não sabia o que era aquilo e perguntou a um peregrino o que acontecia. Ele lhe disse que as altas hierarquias dos governos municipal, estadual e federal estavam lá. O idiota foi em frente, convencido de que, com o cerco do Guanabara, o papa Francisco fizera seu primeiro milagre.

CUBATOUR

Boa notícia para o comissariado em geral e para o ministro Aldo Rebelo em particular. Está na reta final a negociação para a abertura de uma frequência de voos da Cubana de Aviación na rota Havana-São Paulo. No próximo Carnaval Aldo poderá ir para a ilha levando a família sem torrar tempo de voo dos jatinhos da FAB. Os companheiros poderão fumar a bordo, pois a Cubana não faz parte da Iata.

LULA NO SÍRIO

Há mais de quatro semanas a equipe médica que acompanha a saúde de Lula marcou um check-up rotineiro para o final deste mês ou início de agosto. Se e quando ele ocorrer, alimentará boatos, mas isso servirá apenas para confirmar que, enquanto a verdade é coisa difícil de se obter, todo boato é verdadeiro, pois, seja qual for, reflete um desejo de quem o passa adiante.

Nosso Guia quer que todas as informações sejam divulgadas.

CUIDADO

O comissariado do Itamaraty acredita que a viagem da doutora Dilma a Washington, em outubro, será um refrigério para sua popularidade. Se ela fizer discursos como o que leu para o papa, podem tirar a carruagem da chuva.

THOMAS REED ERA PODEROSO, LEMBRA DELE?

Na quinta-feira havia cerca de 900 mil pessoas na praia de Copacabana quando o papa Francisco pediu um momento de oração pela jovem Sophie Morinière, que morreu na Guiana Francesa a caminho da Jornada Mundial da Juventude. Fez-se tal silêncio que só se podia ouvir as ondas do mar. Essa mesma multidão silenciosa fazia um barulho estrondoso quando passava o papamóvel.

Esse homem capaz de mobilizar tanta alegria e esperança não tira sua força só da simplicidade e do sorriso. Afinal, a igreja está cheia de padres e bispos tristes. Antes dele, tristes foram Pio 12, Paulo 6º e Bento 16. Alegres, só João 23, João Paulo 1º e, em certos momentos, João Paulo 2º. A força de Francisco, e de todos os papas, vem da capacidade de acordar em todos sentimentos de solidariedade, misericórdia e, caso haja, de fé.

Muita gente vê nesses sentimentos simples banalidades que devem ser submetidas a lógicas superiores (e aí, cada um tem a sua). Para quem acha que ele só deixou palavras, vale a pena recordar um episódio ocorrido no final do século 19, quando um amigo entregou uma cópia de um texto do papa Leão 13 a Thomas Reed, presidente da Câmara dos Estados Unidos. Ele era um dos mais ricos, poderosos e brilhantes políticos da época, e respondeu: "Diante da enorme desimportância disso, fico sem palavras".

Leão 13 mudou o rosto da igreja com a encíclica Rerum Novarum, falando dos direitos e deveres do capital. E Reed? Quem se lembra dele?


O Estado e a sociedade - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 28/07
O primeiro governo Lula representou uma experiência inédita de inovação no recrutamento nas bases partidárias, sindicais e locais. Nas áreas de gênero e etnia (afrodescendentes) também iniciou um padrão de crescente participação, todavia, em patamares ainda irrisórios.

O trabalho "Elites burocráticas, dirigentes públicos e política no Poder Executivo do Brasil, 1995-2012", da cientista política Maria Celina Soares D"Araujo, da PUC-Rio, compara o perfil dos altos dirigentes públicos no Brasil de 1995 a 2012, abrangendo os governos de Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e os dois primeiros anos de Dilma Rousseff, num total de 18 anos de gestão pública federal, e chega à conclusão de que o primeiro governo Lula "foi um caso atípico na densidade da interface entre sociedade e Estado".

Na coluna de ontem, vimos como o governo Lula destaca-se na utilização de petistas e sindicalistas no primeiro nível de assessoria, os DAS 5 e 6 e os cargos de Natureza Especial. Outra marca forte dos governos do PT observada nesta pesquisa é a presença de dirigentes públicos recrutados nos estados e municípios, em especial no primeiro governo Lula.

O trabalho analisa os vínculos do grupo de dirigentes com outras organizações e associações da sociedade civil, procurando detectar quantos desses dirigentes tiveram algum engajamento cívico ou associativo antes de assumir o cargo. Ele leva em conta movimentos sociais, experiências em gestão local e em conselhos vinculados a políticas públicas, bem como filiação a associações profissionais.

O engajamento associativo dos dirigentes públicos por governo mostra que os de Lula foram os que mais utilizaram experiências em movimentos sociais (46,5% no primeiro, 45,1% no segundo), enquanto nos de Fernando Henrique apenas 24% dos assessores tinham essa experiência, e 36% no governo Dilma.

O trabalho destaca "um estável percentual de cerca de 20% dos ocupantes de cargos de DAS níveis 5 e 6 que procedem do próprio órgão do serviço público federal em que passaram a atuar em cargo de confiança". Juntando-se aos servidores de outros órgãos ou esferas "vemos que a grande maioria foi recrutada no serviço público desmontando, pelo menos parcialmente, a tese de que esse seria um espaço privilegiado para a nomeação aleatória de protegidos políticos".

Os não servidores em cargos de DAS cresceram percentualmente nos governos do PT, mas nunca chegaram a ocupar um terço desses indicados. Maria Celina D"Araujo ressalta, porém, que "não se pode desconsiderar que entre esses servidores de carreira há pessoas altamente partidarizadas ou politicamente engajadas, especialmente no caso do PT, partido com forte atração entre os funcionários públicos em geral".

Ainda sobre engajamento político deste grupo, foi examinado o envolvimento dos dirigentes públicos filiados a partidos em cargos de direção nas organizações partidárias a que pertenciam. No governo Fernando Henrique, o percentual era de 7,5%, subindo para 10,7% e 12,3% nos consecutivos governos Lula, baixando para 9,6% no governo Dilma.

Ou seja, conclui Maria Celina, em todos os casos, a julgar pela exiguidade dos cargos de direção em cada partido frente ao número de filiados, esse percentual é expressivo levando a supor que acesso a cargos de direção partidária, independente do partido, é um atalho eficaz para a administração pública. Provavelmente o inverso também é verdadeiro.

Dada a alta inserção do PT em governos locais tornou-se imprescindível localizar em que nível da federação foram recrutados os dirigentes que eram funcionários públicos, diz ela. Os dados parecem coerentes com a lógica partidária e com o perfil de cada presidente. Lula da Silva em seu primeiro mandato foi o que mais recrutou dirigentes nos municípios e nos estados, num total 27,5%.

Dilma voltou a aumentar o recrutamento nos municípios (5,4%), mas diminuiu a participação dos estados e aumentou a do nível federal. A presença de funcionários municipais nesses cargos era praticamente nula no governo Fernando Henrique o que atesta a tese de um maior compromisso dos governos do PT com o aproveitamento de suas bases locais, em alguns casos, considerados espaços de excelência.

Afiando as unhas - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 28/07

BRASÍLIA - Contra fatos, não há argumentos. Só esperneio, ameaças e a criação de inimigos fictícios.

Na economia: a arrecadação federal parou no tempo, praticamente igual à do ano passado; o corte de R$ 10 bilhões no Orçamento não convenceu; o rombo nas contas externas cresceu 73% no primeiro semestre, em relação a 2012; os brasileiros gastaram o recorde de US$ 12,3 bilhões (?!) no exterior em apenas seis meses.

Mas o pior é que a geração de empregos, centro do discurso otimista da presidente Dilma em pronunciamentos internos e mundo afora, começa a sentir o peso de PIB baixo e inflação no teto da meta. O índice ainda é bom, mas a queda de 20% em relação ao primeiro semestre do ano passado fez o governo revisar para baixo a previsão de vagas para 2013.

Na política: Dilma expôs publicamente sua birra com o PT ao se recusar a ir à reunião do Diretório Nacional petista, apesar de estar a poucos quilômetros do local do evento.

Se a relação com o próprio partido está nesse pé de guerra, imagine-se com os demais partidos da base aliada. Assim como o PSD, que tinha uma pesquisa pró-Dilma antes das manifestações, mas subiu em cima do muro depois, também PTB, PDT, PP estão olhando de longe, de binóculo. E o que eles veem é que, pela primeira vez, o número dos que aprovam o governo é menor do que os que desaprovam.

Mas o pior é o PMDB, que, mesmo tendo a Vice-Presidência da República, faz uma enquete interna perguntando, um a um, se é o caso ou não de manter a aliança com o PT em 2014. Isso serve para mexer com os nervos de Dilma e com o instinto de sobrevivência dos governistas em geral.

Tudo, porém, vai mudar daqui para a frente, pois Lula ressurgiu de Lilongwe e está "afiando as unhas" para enfrentar os verdadeiros culpados pelo caos na economia e na política: "as forças conservadoras".

Não concorda com ele? Então vá se queixar ao bispo, porque o formidável papa Francisco já vai embora.

É a comida, estúpido - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 28/07

SÃO PAULO - Como ninguém até agora ofereceu uma boa narrativa de causa e efeito para os protestos de junho, vale a pena investigar se não estamos diante de um fenômeno complexo, daqueles que resistem a explicações lineares.

Um bom indício de que este pode ser o caso vem de um trabalho de Marco Lagi e colaboradores do NECSI (New England Complex Systems Institute) publicado em 2011. Ali, os autores mostram que há uma correlação importante entre os preços de alimentos calculados pela FAO (agência da ONU para a agricultura) e a ocorrência de protestos em todo o mundo. Sempre que o índice FAO sobe, ocorrem mais manifestações.

Em 13 de dezembro de 2010, o grupo escreveu para o governo dos EUA informando-o de que havia identificado um limiar para os protestos e, quatro dias depois, o tunisiano Mohamed Bouazizi ateava fogo a si próprio, iniciando a Primavera Árabe.

É claro que não há novidade em dizer que falta de comida engendra revoltas e até revoluções. Maria Antonieta e os brioches estão aí para prová-lo. O trabalho do NECSI inova ao descrever o preço dos alimentos no contexto dos sistemas complexos como um ponto de virada matematicamente determinável, a partir do qual qualquer evento pode deflagrar protestos em massa. Esse mecanismo não fica restrito a lugares onde a maioria da população vive perigosamente perto da fome, podendo ocorrer até em países mais desenvolvidos.

Não sei se esse modelo é exato, mas, se for, ajuda a entender situações como a do Brasil e da Turquia, onde protestos muito específicos se irradiaram e assumiram proporções que, embora não sejam revolucionárias, metem medo nos governantes.

Segundo o pessoal do NECSI, podemos esperar novas agitações em escala global a partir de agosto, quando o índice FAO deve ultrapassar o limiar do perigo. A conferir.

Agradeço ao leitor Claudio Galperin, que me alertou para o estudo.

A janela do amanhã - GAUDÊNCIO TORQUATO

ESTADÃO - 28/07

Ao lembrar que a juventude é a “janela pela qual o futuro entra no mundo”, no discurso que abriu sua agenda no país, o papa Francisco quis ressaltar o motivo de sua peregrinação –presença na Jornada Mundial da Juventude – e também alertar os políticos que aos jovens devem ser dadas condições para exercer de maneira condigna seu papel na sociedade. Foi bastante claro: “a nossa geração se demonstrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhe espaço”. Um recado adequado no momento oportuno para a platéia certa. A população jovem brasileira soma 51 milhões de pessoas – 10 milhões entre 15 a 17 anos, 23,1 milhões entre 18 a 24 anos e 17,5 milhões entre 25 a 29 anos – sendo, nos últimos tempos, o motor da mobilização social nas grandes e médias cidades do país. Como agrupamento mais descontente com a classe política, desfralda o simbolismo citado pelo carismático pontífice para fustigar as fortalezas do poder e, à sua maneira, aplainar os caminhos de um amanhã que se lhe apresenta sombrio, uma existência que ameaça ser mais sofrida que a de seus pais.

"O segmento jovem, ademais, é o que possui visão mais pragmática da política e entende que esta se desvia de sua finalidade básica, atender ao bem comum.”

O fato é que aos jovens não tem sido oferecido espaço para participação mais efetiva no processo político-institucional. Não que lhes seja tolhido o direito de ingressar na vida pública. O que os afasta da esfera política são as formas tradicionais de representação, o modus operandi dos atores, as ações e atitudes escandalosas que sujam a imagem dos representantes nas instâncias federativas. Pesquisa feita por Época/Retrato mostra que apenas 1% dos jovens é filiado a partido político, o que não quer dizer desinteresse pela política, eis que dois em cada cinco adolescentes entre 16 e 18 anos gostariam de seguir carreira política em uma moldura partidária mais limpa. Outro mapeamento, feito pelo Centro de Pesquisas do Instituto Paulista de Adolescência, revela que menos de 20% dos jovens de 16 a 18 anos possuem título de eleitor. Corrobora-se a visão de que os poucos jovens que decidem enveredar pela trilha política são cooptados por uma cultura viciada em “ismos” (fisiologismo, grupismo, mandonismo, nepotismo), acabam se transformando em “novos coronéis”, passando a compartilhar os currais da velha política. Não por acaso, temos uma arcaica e gigantesca máquina política, povoada com 64 mil cargos eletivos, de presidente a vereador; candidatos a prefeito e vereador somam 380 mil. Não é de surpreender que as temáticas de interesse dos jovens, a partir da educação, ficam longe das pautas congressuais. Quando o assunto é pertinente– como a questão dos cursos de medicina e importação de médicos– a voz da estudantada avoluma-se em protestos.

Na verdade, as políticas públicas voltadas para as causas dos jovens são pontuais e segmentadas. É o caso do programa Bolsa-Família. Não se nega que milhões de brasileiros deixaram o território da miséria, o que proporcionou melhores condições de vida aos jovens pobres. Porém, os jovens da classe média tradicional não foram contemplados com programas orientados para o aperfeiçoamento de suas condições educacionais e profissionais, o que acaba contribuindo para adensar a contrariedade no meio da pirâmide social. Seus horizontes ficaram mais turvos, contribuindo para fortalecer a cadeia de mobilização e unindo elos da corrente de indignação que agrega muitos parceiros. Sem comandos de líderes tradicionais, os jovens acorrem às ruas e dão forma a um novo pólo de poder, na sustentação da hipótese de que “se o poder centrífugo não atende ao clamor das turbas, o poder centrípeto o empurrará”. A par de demandas reprimidas, registra-se o desfile de casos escabrosos, principalmente na apropriação vergonhosa de recursos públicos, fato que contribui para aumentar o produto nacional bruto da insatisfação social. O segmento jovem, ademais, é o que possui visão mais pragmática da política e entende que esta se desvia de sua finalidade básica, atender ao bem comum. Tem faltado, isso sim, compreensão sobre o papel da juventude na sociedade. A velha classe dirigente, por seu lado, luta a todo custo para preservar o status quo.

Entender o jovem exige, primeiro, inseri-lo no quadro de transformações ocorridas nas últimas décadas. Karl Popper e Konrad Lorenz constatam, em sua obra “O Futuro Está Aberto”, a existência de um abrangente processo de massificação na sociedade, caracterizado, sobretudo, pela perda de valores. O fim da Guerra Fria desfez as clássicas divisões ideológicas. Os países romperam fronteiras, integrando-se aos mercados globais e acompanhando a evolução tecnológica. O capital físico, variável-mor do crescimento econômico, cedeu lugar ao capital humano, caracterizado pelo conjunto de capacitações que as pessoas ganham por meio da educação, do treinamento e da experiência para desempenhar suas atividades com competência. Essa é a nova ordem que instiga os jovens. Quando falta a matéria prima deste novo ciclo – que caracteriza a Sociedade da Informação e do Conhecimento – a frustração se estabelece. Da frustração para a revolta, o passo é curto, a rebeldia se impõe. Não estão os jovens preocupados com ideologia, direita ou esquerda. Pode ser que, em um ou outro país, o fundamentalismo de cunho religioso seja o leit motiv das mobilizações. Por aqui, o pragmatismo abre alas. Nossos jovens não vivenciaram os anos de chumbo. Apenas uns poucos ouviram de seus pais os ecos dolorosos do passado. A preocupação que os move agrega coisas como educação, emprego, melhoria dos serviços públicos. Reivindicam condições para competir em um mercado cada vez mais exigente.

Se nossa geração não souber abrir espaço para a juventude, a janela do futuro ficará fechada. Abram os ouvidos, políticos e dirigentes, à profecia desse jesuíta, o papa Francisco.


Aladim e o gênio da garrafa - LUIZ WERNECK VIANNA

O ESTADO DE S. PAULO - 28/07

Sobre as jornadas de junho rios de tinta já foram derramados e outros tantos ainda vêm por aí, na busca de explicações para o levante popular de âmbito nacional que tudo e todos pôs de pernas para o ar. Nada mais justo, porque eventos dessa natureza, quando o social, desavindo com as margens institucionais que lhe conformam o hábito e orientam seu cotidiano, irrompe nas ruas com a fúria de um fenômeno natural, marcam, em geral, o fim de uma era e o começo de outra. Não se pode mais não ver: esgotou-se o ciclo da modernização "por cima" que, em ondas sempre renovadas, cada qual com um estilo adaptado às suas circunstâncias - do de Vargas dos anos 1930 ao de Lula e Dilma nos dias atuais, passando pelo de Juscelino e dos generais-presidentes do regime militar -, vem dominando a imaginação das nossas elites políticas e os objetivos que perseguem.

A longa duração de tal ciclo certamente pode ser explicada pelas características próprias da nossa formação, em que o Estado trouxe para si a tarefa de criar uma nação a partir de uma teoria política, como nas lições de Euclides da Cunha, e fez do Direito Administrativo, sob a interpretação estatólatra do influente ministro do Império visconde do Uruguai, um dos principais instrumentos para a realização dos seus propósitos. Modelar por cima uma massa tida como amorfa rumo aos ideais civilizatórios, discipliná-la e exercer sobre ela uma pedagogia cívica demandava a ação permanente do educador até que ela viesse a demonstrar estar apta a se auto-orientar.

De fato, foi sob um sistema de orientação centralizador, estatista, com o vértice do poder político dotado de um decisionismo que não conhecia freios e contrapesos, que o País transitou à sua moda para a civilização, superando as forças centrífugas que ameaçavam a sua unidade e evitando o risco maior, na avaliação de suas elites, do caudilhismo que imperava no mundo hispano-americano.

As nações, tal como os indivíduos, anotava Tocqueville nas primeiras páginas de A Democracia na América, carregam consigo as marcas de suas origens, e foram elas que ressurgiram dominantes no regime republicano, em particular na recriação do regime pela chamada Revolução de 1930, portadora do projeto de modernização do País pela indústria e pela criação de uma moderna força de trabalho. Nessa hora decisiva de mudanças sociais e econômicas, ao Estado caberia o papel estratégico de instituir as bases materiais e ideais para essa grande transformação, adotando a fórmula corporativa nas relações entre as classes sociais sob a sua tutela, ao tempo em que se instituía, como no texto da Carta de 1937, em intérprete privilegiado "do pensamento da Nação". A modernização seria filha do decisionismo político.

Mais uma vez essa modelagem, em seus traços principais, foi bem-sucedida, e seria reiterada em momentos seguintes, particularmente no regime militar, quando se completou a obra da modernização econômica com a incorporação do mundo agrário ao modo de produção especificamente capitalista. Na esteira desses processos, contudo, e a partir das profundas mudanças operadas em nossas estruturas demográficas e societais, emergiram movimentos sociais e partidos políticos que denunciaram a natureza autocrática do sistema historicamente imperante, abrindo espaço para a democratização do País.

Dentre esses novos personagens, destacaram-se o sindicalismo das fábricas metalúrgicas do ABC e o Partido dos Trabalhadores, nascido da iniciativa de suas lideranças, apresentando-se como portadores de uma nova agenda sindical e política. Partiu deles a denúncia do caráter tutelar da legislação trabalhista, que logo evoluiu para uma contundente crítica ao processo pelo qual se realizou a formação histórica brasileira, subscrevendo argumentos de pensadores como Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro, que, por afinidades eletivas, concederiam suporte intelectual à fundação do novo partido.

A trajetória do PT surge, então, alinhada ao tema moderno da autonomia dos seres sociais quanto ao Estado, em clara oposição à cultura heterônoma prevalecente, mas sua ênfase nos movimentos sociais, no basismo e no assembleísmo seria responsável, nos seus primeiros tempos, por uma recusa acrítica da política, assim como sua interpretação sinistra da História do País não lhe permitiria a valorização dos seus aspectos positivos.

O caminho eleitoral foi o da sua preferência, opção que conduziu à busca de alianças políticas, às quais aderiu com maior desenvoltura quando a conquista do governo se tomou uma possibilidade tangível. Nesse movimento, a expressividade do moderno, que era sua marca identitária, aos poucos se diluiu, em especial quando se tomou governo, levando-o a absolver acriticamente a História do País, antes objeto de sua feroz condenação. O passado não seria mais uma página virada, mas uma experiência a ser retomada, e, nessa toada, Lula e seu sindicalismo se reencontraram com a era Vargas, virando as costas para o moderno e tudo de novo que emergia da vida social.

Retomam-se a ideologia do nacional desenvolvimentismo e políticas de grandeza nacional e, no pior estilo da modernização autoritária, o moderno se alia ao atraso oligárquico não para induzir sua transformação, mas para se fundir com ele. A estatização dos movimentos sociais desertificou a sociedade civil, deixando-lhe apenas as redes sociais, por onde a juventude e seus valores por autonomia respiram.

O itinerário das jornadas de junho, das ruas aos sítios do Congresso e do Palácio do Planalto, significa um estado de rebelião contra esse retorno. Agora que o gênio saiu da garrafa, ninguém sabe o que ele pode aprontar, e não é verdade que tenhamos à mão um Aladim capaz de negociar com ele.

Solidariedade na ilha - JOÃO UBALDO RIBEIRO

O GLOBO - 28/07

‘A presidenta, coitada. Eu estive pensando que não haveria melhor maneira de começar o programa Braços Abertos do que com ela’



Contam os mais antigos que, faz algumas décadas, em Salinas da Margarida, em plena festa da padroeira Nossa Senhora do Carmo, Zecamunista encerrou um comício do Partidão com um discurso incendiário no qual, agitando o punho na direção do céu, xingou o padre e repetiu várias vezes que a religião é o ópio do povo. Acabado o comício e pouco antes de o delegado levá-lo em cana novamente, ele foi muito cumprimentado por cidadãos que se agradaram especialmente dessa parte do ópio, mas, mal ele se recuperava da surpresa, descobriu que o pessoal não sabia o que era ópio e, na maior parte, achava que se tratava de um elogio fino, desses que a gente não entende direito, mas finge que entende, para não passar por iletrado.

Tudo indica que ele nunca superou esse trauma da juventude, pois não se manifesta mais sobre o assunto, a não ser quando muito provocado. Nem mesmo a visita do Papa suscitou qualquer manifestação da parte dele, que assistiu ao noticiário na televisão do Bar de Espanha muito composto e sem gritar nenhuma palavra de ordem. Na verdade, circula até uma fofoca, quiçá invenção de algum marido sem espírito esportivo, ou parceiro de pôquer ressentido, altamente difamatória para um bolchevique de quatro costados, segundo a qual ele conseguiu a colaboração de alguém que conhecia alguém que iria estar com Sua Santidade, para ver se descolava uma bençãozinha para a estampa de São Caetano que tem em casa e de quem se murmura à boca pequena que ele é devoto. São Caetano é o paciente, compreensivo e laborioso padroeiro dos jogadores, apostadores e dos que precisam de sorte em geral, mas Zeca desmente tudo com indignação, embora, se desafiado a renegar o santo, disfarce, mude de assunto e, no máximo, responda que não aceita provocações da direita e não entra em discussões pequeno-burguesas. De forma que, diante de uma história tão eivada de dúvidas e controvérsias, não chegou a causar surpresa o anúncio que ele fez, de que a visita do Papa o tinha inspirado.

— Eu confesso que fui influenciado pelo Papa — disse ele. — Somente depois da visita dele foi que eu me toquei.

— Você se converteu?

— Me respeite! Eu nunca traí meu currículo, eu sou subversivo desde os oito anos, boicotei a páscoa da escola duas vezes e já tomei muito porre de vinho de padre, roubado da sacristia, me respeite. Somente um ignorante é que acha que um materialista cem por cento, como eu, não pode sentir solidariedade humana. Não tem nada de conversão, ele apenas me levou a conceber um novo projeto aqui para a ilha, só que desta vez não é visando o lucro, é por uma recompensa moral, por assim dizer espiritual. E também pode ajudar na imagem aqui da ilha, a hospitalidade é muito importante para o turismo.

— É como aquele outro plano que você bolou, para fazer aqui a cadeia dos condenados do mensalão?

— Não aquele eu abandonei, só vai ter preso mensaleiro na outra encarnação e, como eu não acredito em outra encarnação, é nunca mesmo, esqueça essa besteira, foi tudo brincadeira deles. Não, agora é um projeto muito diferente, ainda não achei um bom nome para o programa, mas creio que talvez Braços Abertos ficasse bem. O primeiro em que eu pensei foi Aconchego da Consolação, mas achei com pinta de filme mexicano de antigamente. Braços Abertos, que é que você acha? Você acha que ela ia compreender o espírito da coisa e até recuperar sua crença na humanidade?

— Zeca, o que é que você andou bebendo? Não entendi nada, ela quem?

— A presidenta, coitada. Eu estive pensando que não haveria melhor maneira de começar o programa Braços Abertos do que com ela, todo mundo ia saber da iniciativa e ver como a ilha seria a solução para muitos. Eu tenho o coração mole, fico comovido com o sofrimento dela.

— Eu não sei de sofrimento nenhum dela.

— Você desconhece a política, eu conheço a política. Você veja, coitadinha, nada deu certo, ela não levou sorte. Praticamente tudo foi para trás, a bagunça é grande, quem era para ajudar atrapalha muito mais do que ajuda, ninguém se entende direito, é um pega pra capar muito feroz, cadê o meu pra lá, cadê o meu pra cá, só estão com ela enquanto acharem que dá futuro. E agora já começaram a se engalfinhar e a disputar o que vai aparecer e o que vai sobrar. Ninguém mais liga para ela, que não sabe se expressar direito e, quando começa a falar, parece que vai dar um cascudo em alguém, coitadinha. Eu fico com pena, é muito duro, às vezes eu penso que ela está ali, querendo fazer pose de cáiser prussiano, mas com vontade de chorar, é desumano.

— Eu nunca tinha pensado nisso.

— É que você também é desumano. Mas eu vou fazer um convite a ela para vir esquecer as mágoas aqui. Agora não, ainda é muito cedo, ela ainda não acreditará, se alguém contar a ela o que vai acontecer. Mas daqui a pouco, a começar pelos atuais bajuladores, vai ter gente sem querer atender ao telefonema, vai ter gente mandando dizer que não está, vai ter mais gente ainda dizendo a ela uma coisa e fazendo outra, vai ter até um cara do cafezinho sem as mesmas mesuras de antigamente, outros vão deixar de lembrar o aniversário, é um conjunto de coisas sutil, mas muito cruel, eu fico comiserado. Aqui ela vai ser recebida com carinho e compreensão, vai até conseguir fazer amigos.

— Que é isso, amigos ela já tem.

— Possivelmente, mas agora não dá para ela saber quem são eles. Ela ainda tem muito susto pela frente e o Braços Abertos chegou para ajudar. O Papa aconselha amar o semelhante. E a semelhanta, como diria ela.

O poder do Papa - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 28/07

Dizem que certa vez Stalin reagiu à notícia de que o Vaticano o teria reprovado, por alguma razão, com a pergunta desdenhosa: ‘E quantas divisões tem o Papa?’ A emoção das multidões que ele mobilizou serviria como uma resposta a Stalin


Os Papas já tiveram o poder de reis. A história da Europa é, em grande parte, a história desta divisão de poder, e da luta entre os dois absolutismos, o dos Papas e o dos monarcas. O Geoffrey Barraclough (historiador favorito do Paulo Francis quando este ainda era de esquerda e escrevia no “Pasquim”) tinha uma tese segundo a qual a rivalidade de Roma com os reis explicava a superioridade da Europa sobre as sociedades orientais, que já eram civilizadas quando a Europa ainda era terra de bárbaros, mas governadas por dinastias antigas, rígidas e incontestadas, e por isso paradas no tempo.

Na Europa, quem não quisesse se submeter a uma monarquia tinha a opção de se submeter à Igreja. A troca era de um império teocrático por outro, claro, mas criou-se o hábito de dissidência e de pensamento dialético, prólogo para o desenvolvimento científico que viria depois, apesar do obscurantismo da Igreja. E a opção determinou que a Europa não fosse um império monolítico, e sim uma coleção de pequenos Estados.

Acima de tudo, o pluralismo reforçou a independência e a importância das cidades comerciais — Milão, Palermo, Gênova, Veneza, Marselha, Barcelona, Antuérpia, Southampton, Lisboa, as cidades da liga hanseática (o primeiro ensaio de um mercado comum europeu) etc. —, cuja competição impulsionaria as descobertas e a expansão colonial. Tudo isto porque os Papas eram iguais aos reis, inclusive na pretensão de representarem a vontade de Deus na Terra, com exclusividade.

Dizem que certa vez Stalin reagiu à notícia de que o Vaticano o teria reprovado, por alguma razão, com a pergunta desdenhosa: “E quantas divisões tem o Papa?” Desde que perdeu seu poder que rivalizava com o dos reis, o Papa só tem a seu dispor a Guarda Suíça, e assim mesmo para fins decorativos. Mas o Vaticano é o grande exemplo de um Estado cuja potência não se mede com armas — pelo menos não com armas convencionais.

Atualmente, a julgar pela recepção que ele teve no Brasil, o arsenal do Vaticano se resume ao sorriso simpático de um homem. A Igreja não tem mais a relevância política e histórica que teve antigamente e sacrificou muito da sua autoridade moral com posições retrógradas e escândalos financeiros e sexuais. Mas a emoção das multidões que ele mobilizou serviria como uma resposta ao Stalin.

Peteca e tacape - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR

GAZETA DO POVO - PR - 28/07

Há duas semanas, fui surpreendido, quando me preparava para embarcar para o exterior, por Ernani Buchmann e Adelia Woellner, que me transmitiam a notícia da morte inesperada do professor e historiador Carlos Roberto Antunes dos Santos, um verdadeiro scholar, com impecável qualificação acadêmica e ex-reitor da Universidade Federal do Paraná. Entre todos os seus traços de personalidade, um se destacava: o respeito pelas diferenças de opinião, a civilidade com que tratava seus eventuais adversários políticos na vida universitária e a elegância sóbria com que falava, escrevia e agia.

Há dias, Léo de Almeida Neves, intelectual, político e colega de Antunes na Academia Paranaense de Letras, publicou aqui na Gazeta um brilhante artigo sobre a inadiabilidade da reforma política no Brasil. Nele, Léo – alguém que pagou caro demais por suas convicções políticas – defende suas ideias com firmeza e não deixa dúvidas no espírito do leitor a respeito do que pensa e de como encara o problema político brasileiro. No entanto, ao fazer uma remissão melancólica da deterioração da qualidade de nossa vida pública, não deixou de mencionar inclusive seus adversários mais aguerridos, aos quais deve muitos dissabores e decepções.

Que há de comum entre esses dois exemplos de homens públicos? A capacidade de ter convicções sólidas, graníticas, inarredáveis, mas de defendê-las com serenidade, generosidade com as opiniões divergentes, compostura no falar e no escrever. E isso é algo que está ficando cada vez mais escasso no cenário brasileiro.

Outro dia, a presidente Dilma Rousseff foi estrepitosamente vaiada na abertura da Copa das Confederações; nada de anormal, pois no Brasil, em estádio, vaia-se até minuto de silêncio. Porém, logo depois, recebeu uma vaia ensurdecedora – desta vez, de milhares de prefeitos reunidos em Brasília. Prefeitos vaiando presidentes já carregam um ar de pura e simples falta de compostura e de educação cívica praticados por representantes políticos, com responsabilidades institucionais.

Agora, vem Ciro Gomes, que tem pretensões de ser um líder nacional, e declara em uma entrevista que “Dilma pilota uma aliança assentada na putaria”. Vamos e venhamos, isso é linguagem de membros da própria, e não deveria frequentar a retórica de um ex-ministro, candidato a presidente da República e que se considera um estadista de porte nacional. Pior ainda é verificar o surrealismo da situação: Ciro Gomes pertence ao PSB, partido que faz parte da base aliada, da aliança política que sustenta o governo de Dilma, ou seja... Diga-se de passagem que seu dileto irmão, Cid Gomes, governador do Ceará, que se notabilizou por levar a sogra e a mulher para a Europa de carona em um avião fretado com dinheiro público e por outras decisões por assim dizer heterodoxas, também demonstra por esses atos menos proximidade com conventos e casas de oração e mais proximidade espiritual com o que os antigos chamariam de casas de tolerância.

Que me perdoem a memória de Carlos Roberto Antunes dos Santos e a superioridade moral de Léo de Almeida Neves por colocá-los neste mesmo texto junto aos dois Gomes, mas o contraste entre a forma como os dois primeiros e os dois últimos entendem a política é grande demais para ser desconhecido ou deixado de lado. Como diria Luiz Geraldo Mazza, os primeiros jogam peteca, os segundos empunham tacapes.


O real custo dos serviços públicos - FLÁVIO MORGENSTERN

GAZETA DO POVO - PR - 28/07

O discurso mais repetido e incentivado a respeito dos impostos que pagamos no país é o de que é aceitável pagar altos impostos, desde que em troca de muitos serviços prestados. Esse mantra é enganoso. Um imposto, como o próprio nome diz, é dinheiro tomado à força das pessoas (alguém pode ir preso por “sonegar” impostos). Ter os chamados “serviços públicos” em troca é apenas uma forma de fazer as pessoas acreditarem que estão fazendo um bem a si próprias, e não a quem recebe e controla o dinheiro.

Uma pessoa dificilmente compraria 80 aparelhos de DVD e nenhuma televisão. Muito menos acreditaria que fez uma boa compra. Por que, então, crer que ter “muitos serviços públicos” oferecidos (e nem sempre utilizados) é algo justo e aceitável a ser recebido? Pior: por que fazer esta transação obrigatoriamente, se supostamente ela é benéfica ao próprio povo?

O Estado surge como poder de mando em um território, monopolizando o uso da força ao tentar manter alguma ordem. Quando usa essa força na economia, torna-se o único agente econômico que atua não voluntariamente, como uma empresa tentando vender produtos, mas compulsoriamente – tomando o dinheiro de outras pessoas para atuar em seu próprio benefício.

Quando o Estado oferece alguns serviços em troca do dinheiro que toma à força, apenas dá uma justificativa para as pessoas não se revoltarem. Na verdade, está realizando uma pseudovenda forçada: em vez de as pessoas escolherem com o que gastar seu dinheiro, recebem muitos aparelhos de DVD para nenhuma televisão. Com o discurso dócil dos serviços públicos, as pessoas apenas pedem mais aparelhos, acreditando que, algum dia, farão um bom negócio.

Todo esse discurso a favor do Estado é comum aos setores políticos nacionalistas e da esquerda, que querem um controle sobre a economia por um ódio contra as trocas livres entre as pessoas. Mesmo entre aqueles que conhecem as vantagens da economia livre (ou seja, as vantagens da Suíça em relação à Coreia do Norte), muitas vezes sobra um discurso de que o Estado deve atuar em setores “estratégicos”, como saúde, educação ou transportes. Quem usa dessa justificativa costuma ter um projeto político que quer impor (raiz de imposto) a todos. É esse o motivo para odiar o modelo empresarial.

Uma grande empresa como o Wal-Mart oferece serviços em massa, baratos, com rapidez e eficiência – e tomando para si a responsabilidade pelo processo (o cliente está sempre certo). Pergunte-se: qual Estado no mundo oferece serviços em massa livremente, a baixo custo, com rapidez, eficiência e responsabilidade? A quem é preferível entregar a administração da educação, da saúde, dos transportes: a uma empresa como o Wal-Mart ou ao nosso Estado (ou qualquer outro)? Há, claro, uma desvantagem: uma empresa não rende poder político que pode ser imposto sobre todo um território.

Foi o mercado criando produtos mais baratos, ou de distribuição mais eficiente, que enriqueceu os pobres. O Estado “dar” serviços, ou mesmo dinheiro, apenas pode trocar votos por algumas pequenas benesses – com o agravante de atrapalhar o mercado, tomando a riqueza (os frutos do trabalho) de toda a população. Sem o mercado barateando produtos em massa, todos os “serviços públicos” e a distribuição de renda estatal não conseguiriam comprar um chiclete em questão de poucos anos.

Meu padrasto favorito - DIANA LICHTENSTEIN CORSO

ZERO HORA - 28/07

Véspera de mais um, comercialmente exaltado, Dia dos Pais, estreia a sequência de Meu Malvado Favorito, filme de animação lançado em 2010. Trata-se da história de um vilão que encontra a redenção e o sentido da vida através da paternidade.
Como parte de um plano delirantemente maligno de sequestrar a lua em troca de resgate, Gru adota três meninas órfãs, que planeja usar para invadir a fortaleza de um vilão rival. Só que ele está mais para desprezível do que para mau, como sugere o título original: Despicable me. Na verdade é um tipo mal-humorado, um fracasso até mesmo entre os vilões. Somente um exército de Minions, pequenos e engraçados seres amarelos que trabalham para ele, o endeusa.
O convívio com as meninas o amolece e lhe faz viver experiências de felicidade inéditas. A menorzinha delas, pouco mais do que um bebê falante, é inocente a ponto de não ter medo dele e assim derrete o gelo do padrasto contrariado. Ele pretendia devolvê-las ao orfanato, o que obviamente não consegue fazer. O papel da pequena Agnes é similar ao de Boo, de "Monstros S.A.", que transforma tipos assustadores em protetores dedicados. O mesmo vale para o bebê extraviado de A Era do Gelo. Essas histórias são todas herdeiras da versão Disney de Mogli, de 1967, onde o garoto conta com a proteção paternal de dois animais machos e supostamente ferozes, uma pantera e um urso.
São tão recorrentes as histórias de pais vacilantes que precisamos perguntar-nos o que é tão assustador na experiência da paternidade, a ponto de que seja uma aventura chamar os homens ao papel. A resposta não é difícil: ser pai antigamente era simples e direto, hoje é tarefa de extrema complexidade e êxito duvidoso.
Em primeiro lugar, desapareceu a senhora do castelo montado em torno da figura do patriarca. A mãe está muito ocupada para intermediar a relação de pai e filhos. Ele que estabeleça um vínculo por conta própria. Quanto ao prestígio e poder do questionável chefe de família, bom, ele que o conquiste, se tiver cacife para tanto. Ela não o promoverá com nenhum tipo de submissão servil. Já os filhos, outrora súditos por excelência, hoje são um exército rebelde, anarquista, cujo respeito deverá ser obtido com muita lábia. Nenhum poder na família se estabelece sem uma ferrenha oposição. Deveríamos nos estranhar de que a ficção infantil relate o trabalho e a sedução necessários para convencer um homem a ser pai?
Em defesa da categoria dos pais, faço eco com o filme: aquele que aceitar o encargo tenderá a sentir-se muito menos desprezível aos próprios olhos. Antes de ajudar os filhos a crescer, será preciso aumentar a própria envergadura, necessária para prometer uma proteção na qual só se acredita sendo pai. Pouco podemos contra os tantos perigos e contratempos que ameaçam nossos filhos, mas faremos nosso melhor e com isso também nos tornamos maiores. Por isso, aqui vai minha homenagem a todos, pais, padrastos, padrinhos, homens e por vezes também mulheres que aceitam essa missão quase impossível.

Representação como honra - MARCOS ROLIM

ZERO HORA - 28/07

Não se faz reforma política por fatias, nem se pergunta ao povo sobre sistemas abstratos e engenharia institucional. Democracia não é um abuso da estatística, é debate qualificado ou é manipulação. Reforma política exige uma assembleia de representantes eleitos para este fim específico, desafio imenso para o qual a disposição dos "donos do poder" (para lembrar o conceito de Raymundo Faoro) é nula. Entre os que gostariam de produzir mudanças, por seu turno, há a dificuldade inicial de formulação de um conceito e, por decorrência, a tentação de discutir propostas no varejo sem se dar conta de que cada uma delas pressupõe um sistema. Falar, por exemplo, em recall, o instituto pelo qual o eleitor pode "chamar de volta" o seu representante quando estiver insatisfeito com sua atuação, é simpático, mas só pode existir com o voto distrital. O voto distrital, entretanto, é um sistema majoritário _ não proporcional _ que só interessaria aos maiores partidos e que retiraria as minorias do parlamento. A longo prazo, o sistema estimula o bipartidarismo de fato, como no modelo americano, além de promover um tipo de representação paroquial onde os parlamentares dão toda importância ao distrito e nenhuma ao País. Como se vê, nada é tão ruim que não possa piorar.
Um bom conceito de reforma partiria da necessidade de se pensar a política
como dignidade. Para isso, todas as propostas de mudança deveriam se orientar para a necessidade de valorizar a opinião, o debate sobre políticas públicas e a disputa de projetos globais para o País. Um dos caminhos para isto é o de construir um sistema onde a representação política seja expressão da honra, e não uma carreira. Todos os eleitos teriam apenas um mandato, sendo inelegíveis após este período por pelo menos oito anos. Refiro-me a todos os mandatos, legislativos e executivos, vedada qualquer candidatura sucessiva, ainda que para outro Poder. A mesma inelegibilidade valeria para os ocupantes de cargos de confiança, de modo a desestimular o aparelhamento eleitoral da máquina pública.
A proposta tem desvantagens como a perda da experiência dos melhores
representantes e a redução da eficiência da pressão popular sobre governos e parlamentos. A pressão, entretanto, passaria a se dar sobre os partidos, o que poderia implicar em vantagens e maior consciência política. No mais, entendo que as reivindicações mais comuns e que mais "sensibilizam" governantes e parlamentares são exatamente aquelas que impedem mudanças e reformas ousadas, por conta do corporativismo reinante e das possibilidades de premiar a demagogia e a irresponsabilidade política.
Independentemente disto, teríamos uma radical e constante renovação nas
posições decisórias em missões cuja provisoriedade desestimularia os arrivistas e tornaria a demagogia algo completamente inútil. Ao contrário do que imagina o senso comum, que gostaria que os mandatos legislativos e executivos fossem gratuitos, seria preciso que os eleitos tivessem as melhores condições de trabalho e remuneração _ única forma de atrair as pessoas mais capacitadas e de evitar que a representação política seja, cada vez mais, um espaço para aqueles que não se preocupam com subsídios: os ricos e os ladrões.

A aposta no papa - ROBERTO ROMANO

CORREIO BRAZILIENSE - 28/07
Diz a lenda que Zeus, irritado com Prometeu, mandou uma caixa aos homens. Ela encerrava regalos que escondiam desgraças e sofrimentos. No fundo veio a esperança, o ataque mais pérfido dos seres divinos. No caso dos sucessivos pontificados, a esperança trouxe amargas surpresas. Os católicos do século 19 queriam modernizar a Igreja, adaptando-a à democracia representativa. Sofreram uma derrota tremenda.

Quem analisa o livro escrito por Döllinger, traduzido por Rui Barbosa, O papa e o Concílio, aquilata o quanto se perdeu na luta dos liberais contra o Vaticano. Sem eles, o catolicismo germânico foi dominado pelos conservadores. Teria sido mais difícil desarmar a sociedade se, em vez do centro reacionário, as massas católicas fossem lideradas pela formação liberal. Com a ausência da última, a Concordata de Império entre Hitler e o Vaticano permitiu liberdade maior ao nazismo. Quem duvida, leia o artigo 32 da Concordata (20 de julho, 1933) onde se determina o esvaziamento partidário católico em troca da "proteção" do pessoal eclesiástico pelos asseclas de Hitler.

Grandes esperanças foram depositadas em Eugênio Pacelli. Embora a história de sua atividade ainda seja controversa, podemos dizer que os anseios dos que não desejavam o totalitarismo e queriam apoio da Santa Sé foram desatendidos. Morto Pio XII, todos esperavam um papa de transição. João XXIII, conservador em matéria religiosa, não prometia modificações eclesiásticas e sociais.

Foram surpresas no mundo, socialista e capitalista, as medidas anunciadas pelo ancião. Ele convoca o Concilio Vaticano 2, um abalo revolucionário em todos os aspectos da vida eclesial e redige duas Encíclicas inovadoras (a Mater et Magistra e a Pacem in Terris), se aproxima dos judeus, incentiva mudanças nunca imaginadas no universo católico. Sem as encíclicas mencionadas, jamais viria à luz o grande documento da Igreja no século 20, a Populorum Progresio, de Paulo VI, acoimada como "marxismo requentado" pelo Wall Street Journal.

Morto Paulo VI, as esperanças se voltam ao "papa sorriso", João Paulo I, o breve. A eleição de João Paulo II trouxe muitas esperanças para a Igreja. Mas o seu reinado longo, repressivo, censório, enrijeceu a hierarquia, desvalorizou os fiéis na base eclesiástica, destruiu boa parte das conquistas trazidas pelo Vaticano 2. Na hora em que o polonês sobe ao trono, a Teologia da Libertação conhece o auge nas Américas. A Igreja hierárquica, que abençoara as ditaduras sul-americanas, enfrenta setores amplos do clero e dos leigos que ansiam pela democracia.

No caso brasileiro, em tempo não muito distante, além de arregimentar massas contra o governo Goulart, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desejou, em documento oficial, "leal colaboração" com os ditadores e reconheceu a legitimidade "do novo regime institucionalizado em dezembro último". Sim, leitor, falamos do Ato Institucional número 5, que permitiu dizimar opositores com torturas, exílios, ameaças de pena de morte. Alguns integrantes do episcopado, minoria combativa liderada por Evaristo Arns, Cláudio Hummes, Hélder Câmara, Tomás Balduíno, Pedro Casaldáliga, sofriam para manter a dignidade eclesiástica. A maioria dos hierarcas preferiu a "leal colaboração" com o regime tirânico.

As bases da Igreja ensaiavam os passos da liberdade e os líderes entoavam o cântico do servilismo, e assim teve início o reinado de João Paulo II. Naquele momento, publiquei o livro Brasil, Igreja contra Estado. Nele, mostrava que as esperanças dos progressistas no ocupante da Santa Sé eram infundadas. Recebi críticas virulentas e, depois, um silêncio nada obsequioso dos interessados. Esses acreditavam, acriticamente, que a própria Igreja se tornava socialista. A ilusão foi desfeita pelo papa que ajudou a desmantelar a URSS.

No Brasil e na América do Sul, ele censurou teólogos e filósofos, puniu e fechou seminários, retirou poderes dos bispos que dele discordavam. É o que ocorreu na diocese de São Paulo, esquartejada para diminuir a força de Dom Arns. No mesmo tempo em que dizimava a Teologia da Libertação e seus militantes, o papa dava as mãos a Ronald Reagan, abraçava Augusto Pinochet, calava diante da repressão no continente. Ruíram as esperanças no socialismo eclesiástico.

É de se esperar que a prudência aconselhe os responsáveis pela militância progressista católica a não apostar imoderadamente alto no atual pontífice. Sua simpatia e carisma, seu programa de luta pelos pobres e pela Justiça, sua ampla cultura teológica e humanística, seu passado jesuítico, tudo indica para um grande pontificado. Mas nada sabemos, por exemplo, sobre como serão as relações da Santa Sé com países como a Venezuela, a Argentina, o Equador, o Brasil. É naqueles Estados que se concentra a possível renascença da Teologia da Libertação. Também nada sabemos da forma diplomática a ser dada aos tratos do Vaticano no Oriente Médio (além das notícias que vazam sobre o tema), na África e na Ásia.

Se João XXIII e o Concílio foram comparados à Revolução Francesa (símile muito usado no século anterior) e se João Paulo II representa o Termidor, é cedo para dizer qual diretriz maior terá o pontificado de Francisco. Antes de festejar uma ruptura revolucionária, vale a pena seguir os passos do Vaticano sob sua tutela. Numa instituição complexa e planetária, o entusiasmo no dirigente deve ser contido. Sinais, em qualquer plano, devem ser testados antes de expostos como certezas. Na caixa de Pandora, a esperança irrefletida é sempre o mais cruel dos castigos.

A visita da verdade - ANA DUBEUX

CORREIO BRAZILIENSE - 28/07

Ao longo da última semana, durante a Jornada Mundial da Juventude, algumas evidências prevaleceram. Cito duas: o Brasil está parando, do ponto de vista da mobilidade urbana, e a Igreja Católica está de fato num caminho de aproximação com os fiéis.
Sobre a primeira, não há muito o que dizer, só a lamentar. Era previsível que o Rio de Janeiro não conseguisse prover o imenso contingente de fiéis do básico: o transporte público. Diga-se, de passagem, nenhuma cidade brasileira estaria em condições de garantir o acesso de uma multidão desse tamanho a um esquema eficiente de mobilidade, o que é muito preocupante quando os importantes eventos esportivos - as Olimpíadas e a Copa do Mundo - se avizinham. Isso é uma surpresa? Não é. Mas é o aviso mais estridente dos últimos tempos de que haverá um colapso nos sistemas de transporte e no trânsito do Brasil - e não só em períodos de grande fluxo de turistas. Se nada for feito urgentemente, o direito de ir e vir do brasileiro e de seus visitantes, já tão comprometido, será simplesmente negado.

Tirando o problema de infraestrutura, resta avaliar visita do papa Francisco pelo mais importante: a renovação da fé. Para a maioria católica brasileira e de todo o mundo, Francisco demonstrou concretamente o que os analistas do Vaticano e os primeiros sinais de seu pontificado já previam: o desejo de voltar a Igreja Católica para os seus fiéis. Sair dos muros do Vaticano e olhar nos olhos, abraçar, beijar, consolar e abençoar crianças, velhos e, sobretudo, jovens.

Com discursos e homilias simples e ao mesmo tempo intensos, Francisco pregou o não consumismo, o não materialismo, a não desilusão, a esperança. Condenou o abandono dos pobres e excluídos, insistiu na luta contra a corrupção, relembrou chagas brasileiras, como a chacina da Candelária, abençoou a família, lembrando a importância dos avós e da troca de experiência entre as gerações.

Francisco não se furtou a dizer que entendia a decepção em relação aos erros da Igreja e perdoou os erros alheios. Ainda que seja verdade que o catolicismo tenha sofrido os efeitos do distanciamento da Igreja, também é a pura realidade que a visita do papa recuperou algumas máximas de Jesus Cristo, que nunca se perderam, entre elas, a humildade. Sejamos gratos pela semana iluminada por Francisco.