terça-feira, abril 16, 2013

Prisão dos mensaleiros refunda a República - MARCO ANTONIO VILLA

O GLOBO - 16/04

O epílogo do processo do mensalão é o começo do fim dos ‘homens-pulhas’ e a abertura da política para quem quer servir ao Brasil



O julgamento do mensalão está chegando à sua etapa decisiva. O processo, na verdade, começou quando da instalação da CPMI dos Correios, em maio de 2005. A brilhante produção do relator Osmar Serraglio e das sub-relatorias permitiu, depois de muitos meses de trabalho e inúmeras pressões vindas do Executivo, aprovar, numa sessão muito conturbada, devido à ação dos petistas, seu relatório em abril de 2006. Foi, sem sombra de dúvidas, a mais importante e eficiente CPMI da história do Congresso.

Juntamente com o trabalho dos congressistas, foi aberta em Minas Gerais investigação pelo Ministério Público Federal para apurar as denúncias, pois dois braços do mensalão, o publicitário e o financeiro, tinham lá sua base inicial. A somatória dos dois excelentes trabalhos permitiu que, em agosto de 2007, o inquérito 2.245 fosse aceito pelo STF e se transformasse na Ação Penal 470. Deve ser recordado que não foi nada fácil o recebimento do inquérito. Foram 4 sessões de muito debate, porém o STF não se curvou. Registre-se o triste papel do ministro Ricardo Lewandowski, que, em um restaurante de Brasília, após a última sessão, foi visto falando ao celular, muito nervoso, que não tinha sido possível amaciar (a expressão é dele) as acusações contra José Dirceu. Falava com quem? Por que tinha de dar justificativa?

A terceira — e mais longa — batalha do processo foi o trabalho desenvolvido entre agosto de 2007 até julho de 2012 para a confecção da Ação Penal 470. Foram dezenas e dezenas de depoimentos, documentos, laudos, registrados em milhares de páginas organizadas em mais de duas centenas de volumes. Deve ser destacado o importante papel do Ministério Público Federal, que permitiu apresentar o conjunto das provas e a acusação efetuada com ponderação e argúcia pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Mas, é óbvio, nunca é demais ressaltar o papel central em todo este processo do relator, o ministro Joaquim Barbosa. Não é exagero afirmar que, se não fosse a sua determinação — apesar de tantas dificuldades —, os trabalhos não teriam chegado a bom termo. Deve ser lembrada ainda a lamentável (e fracassada) tentativa de chantagem contra o ministro Gilmar Mendes efetuada pelo ex-presidente Lula.

Em 2 de agosto de 2012, finalmente, teve início a quarta batalha, o julgamento propriamente dito. Foram 53 sessões. Centenas de horas de debates. Com toda transparência, o Brasil assistiu a um julgamento único na nossa história. Não foi fácil chegar ao final dos trabalhos com a condenação de 25 réus. Algumas sessões foram memoráveis, especialmente no momento da condenação do núcleo político liderado por José Dirceu, sentenciado por formação de quadrilha — considerado o chefe — e nove vezes por corrupção ativa, além de mais três membros da liderança petista.

A quinta — e última — batalha é a que estamos assistindo. Depois da publicação do acordão e com os recursos apresentados pelos advogados, inócuos, pois não foram apresentadas novas provas que pudessem justificar alguma mudança nos votos dos ministros, teremos finalmente o cumprimento das sentenças. Mas, até lá, serão semanas tensas. Já vimos várias tentativas de desmoralização do STF. A entrevista do quadrilheiro e corrupto José Dirceu, condenado a dez anos e dez meses de prisão, acusando o ministro Luiz Fux de traidor, foi apenas uma delas. Os advogados de defesa, pagos a peso de ouro, vão tentar várias manobras, mas dificilmente obterão algum êxito. Outra tentativa de desmoralização foi a designação dos condenados José Genoíno e João Paulo Cunha para a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. É neste momento que cresce a importância dos dois ministros mais antigos do STF: Celso de Mello e Marco Aurélio. Devem servir de escudo contra a tentativa golpista do petismo de pressionar os ministros mais jovens da Corte para conseguir, através de algum subterfúgio, a revisão das penas.

A sociedade não pode silenciar. Muito menos perder o foco. É no STF que está sendo jogada a sorte do estado democrático de direito. Os mensaleiros golpistas sabem que perderam, mas os democratas ainda não perceberam que ganharam. No momento que os condenados ao regime fechado estiveram adentrando o presídio, a democracia brasileira vai estar obtendo umas das suas maiores vitórias. Era muito difícil, quase impossível, encontrar alguém que, no início do processo, imaginasse a condenação dos mensaleiros. E mais, que eles fossem (como irão) cumprir suas penas. A satisfação não advém de nenhum desejo de vingança. Longe disso. É sentimento de justiça. Quando José Dirceu estiver cruzando o portão de entrada do presídio — certamente com um batalhão de jornalistas aguardando sua chegada — isto deverá servir de exemplo para todos aqueles que continuam desrespeitando a legalidade, como se estivessem acima das leis, cometendo atos que violam o interesse público, a ética e a cidadania.

Estamos há mais de cem anos procurando homens públicos republicanos. Não é tarefa fácil. Euclides da Cunha, em 1909, numa carta ao seu cunhado, escreveu que “a atmosfera moral é magnífica para batráquios”. E continuou: “Não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas, dos Pachecos empavesados e dos Acácios triunfantes”. A confirmação das sentenças e o cumprimento das penas podem ser o começo do fim dos “homens-pulhas” e a abertura da política para aqueles que desejam servir ao Brasil. Iniciaremos a refundação da República.

Um coração triste - ARNALDO JABOR

O Estado de S.Paulo - 16/04

A recente regulação trabalhista das empregadas domésticas tem provocado grande desconsolo em patroas peruas. Em pânico, descobriram que há 'classes sociais' e que as criaturas que limpam banheiros e fazem feijão não foram trazidas por um vento, sem endereço, sem sobrenomes, sem carteiras.

Por isso, lembrei-me de Um Coração Simples, de Flaubert, um dos maiores contos da história da literatura. Minha família também teve uma empregada perfeita, como a Felicité do conto, que durante a vida toda cuidou de uma família francesa de província como de um templo sagrado. Nossa Felicité chamava-se Hermínia. Era quase um fiapo, quase nada, pretinha, magrinha, mirrada e viera da roça como todas as empregadas da época. Achávamos que 'roça' era um lugar de onde vinham as pessoas pobres, outro país, com batatas e mandiocas, pastos de bois e empregadas que se agregavam a famílias urbanas. A 'roça' era o resto de um país de escravos libertos que continuavam escravizados por salários magros e se alojavam no quartinho perto do tanque. Hermínia trabalhava com meus avós que moravam ao lado de meus pais. Ela cozinhava, arrumava a casa, lavava, passava, com pequeno salário que guardava, pensando num futuro onde havia um enxoval e uma casinha. Viera muito mocinha; era da idade de minha mãe e minha tia e cresceu junto com elas, que casaram e tiveram filhos; ela não teve filhos nem casou, mas continuou rindo sem inveja, cuidando das crianças que não teve, a quem amava com devoção de 'mãe preta', como se nomeara. Talvez como consolo, falava sempre de um namorado que nunca ninguém viu chamado Ormezindo (lembro do nome que me fascinava e pensava: "Como será o Ormezindo?").

Ele nunca apareceu, nunca o vi. Em um fim de ano, ela o esperou para uma visita prometida. Não veio num dia, nem no outro. Até que uma prima ligou de um telefone público e ela se trancou no quartinho do quintal. Eu vi pelas frestas que ela chorava no chão, agarrada numa imagem de São Jorge, de capa vermelha, lança e dragão. Não tive coragem de entrar no quartinho, pois percebi que ela estava longe dali, chorando e falando com alguém em algum lugar da terra de onde viera. No dia seguinte, botou um vestido preto e foi à tenda espírita, de onde voltou mais calma, pois a mãe do centro lhe disse que um dia ela ia encontrar o Ormezindo de novo. Minha avó segredou-me que o Ormezindo aparecera morto na estrada de Pati do Alferes, onde se conheceram.

E a vida continuou. Todo mundo envelhecendo e só Hermínia continuava igual, como se o tempo não passasse sobre ela. Ali, sob o caramanchão do quintal, lembro de meu avô de pijama engraxando os sapatos, minha tia lavando os cabelos, minha avó regando as flores, e de mim mesmo, que ela fazia girar num corrupio que me arrancava risadas infinitas.

Sua presença atemporal me dava a sensação de que nossa vida suburbana era imutável. Hermínia era a empregada perfeita, tão diferente das criadas de mamãe, como a América, cozinheira maluca que (ela afirmava) voava até o teto, onde ficava grudada como uma lagartixa. Todas invejavam vovó com seus cabelos azuis que Hermínia tingia no quintal em uma bacia de louça. "Empregada boa é sorte..." - diziam as vizinhas.

Minha avó morreu de repente e meu avô, lentamente. Vovó deu um suspiro e finou-se; meu avô foi ficando lelé. Hermínia levava-o para passear e ele gostava de ver a estrela de néon da cervejaria Princesa, onde ele me levava sempre na infância.

Depois, ela foi morar com ele num apartamento de Copacabana, onde ele falava confusamente sobre seu passado. Consciente da memória frágil, um dia perguntou-me rindo: "A vida não tem sentido ou sou eu que estou gagá?" Ela cuidou de meu avô até o fim e me ajudou a pô-lo no caixão da Santa Casa.

Depois da morte de vovô, Hermínia foi trabalhar com minha mãe, mas não foi feliz. Minha mãe tinha caído numa progressiva depressão bipolar tendo horríveis fobias, como a cisma de que o gato do vizinho a odiava e lhe mostrava as garras ferozmente. Hermínia levou-a a um centro espírita 'linha branca' e a vidente lhe garantiu, com voz grossa de caboclo, que ninguém a perseguia, nem o gato. Não adiantou; piorou, pois mamãe acusou-a de ter parte com o Demônio do centro espírita. Hermínia aceitou a humilhação com a resignação do sofrimento pobre, aprendido entre milharais e pastos de capim-gordura.

Papai não falava quase, lendo revista na sala, de pijama, ouvindo os delírios de mamãe, pastoreada pela criada, virada em acompanhante.

Até que morreram os dois. Só ficou Hermínia, que foi morar com vagas primas em Caxias. Todo mês, eu mandava um dinheiro fixo para que cuidassem bem da minha babá já velhinha - se ela morresse, acabava a grana.

De vez em quando, ela me telefonava de Caxias. Dava para ouvir no fone o outro mundo onde ela vivia, agora no presente, com sons de rádios evangélicos, gritos de criança, latidos, ruídos de subúrbio longínquo. Sua voz soava um pouco como um anseio em busca do passado que tinha acabado. E como era estranho ouvi-la no presente, sua voz longe de nossa casa, como se ela tivesse sobrado da casa desabada, procurando meus avós! Ao telefone, sua voz ficava 'tatibitate' como se eu ainda tivesse 7 anos: "Oi, Arnaldinho, meu amorzinho?"

Até que um dia, ligou uma das primas para informar que Hermínia tinha feito a 'passagem' de noite. A 'passagem' fora muito calma: ela estava deitada na cama abraçada na estatueta de São Jorge.

Quando ela ainda era viva, de vez em quando eu mandava um táxi buscá-la. Ficava comigo no apartamento e eu a beijava muito, pois não havia assunto possível. Me tratava sempre como menino e ficava um pouco constrangida de estar na poltrona de veludo de mamãe que ela bem conhecia. De repente, se levantava e ia para a cozinha. Entrava com ar de titular diante da empregadinha e começava a lavar a louça. Eu protestava, mas ela fazia questão. Lavava pratos e copos com zelo. "Olha aqui o copo de cristal que seu avô gostava tanto...". Ouvindo os barulhos da louça, parecia mesmo que o passado tinha voltado.

Fusão versus criação - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 16/04

A decisão de antecipar a fusão entre PPS e PMN trouxe mais lenha à fogueira política em torno dos partidos que formam a base do governo e a oposição. Nos bastidores, políticos e advogados começam a semear algumas análises e interpretações que podem coibir uma migração para a resultante das duas agremiações. A polêmica vai ser grande e recheada de argumentos de um lado e de outro.

Uma das dúvidas foi levantada por um dos advogados do PSD, Admar Gonzaga, mentor da ação na qual o partido do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab conquistou o direito a fundo partidário e tempo de tevê. Admar lembra da resposta da ministra Nancy Andrighi à consulta 75535, feita pelo ex-líder do PSD, Guilherme Campos (SP). Ali, ficam claras as diferenças entre criação e fusão de partidos, embora, na avaliação de muitos, não sirva para clarear todo o cenário.

Pode ser que seja preciosismo do advogado. Mas a discussão virá e não vai demorar, uma vez que, no último sábado, PPS e PMN acertaram a fusão para esta quarta-feira, 17 de abril. Gonzaga está convicto de que, quem migrar para a nova legenda, que não venha do PPS e nem do PMN, estará sob o risco de sofrer um processo de perda de mandato. O PPS acha que não.

O raciocínio de Admar Gonzaga considera que só participarão da formatação do novo partido aqueles parlamentares que estiverem filiados ao PPS e ao PMN. Afinal, a fusão não requer listas com assinaturas de eleitores. Apenas convenções partidárias autorizando a união. Ou seja, não existe nada externo nesse processo.

A resolução 22.610 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de março de 2008, considera justa causa para desfiliação partidária criação ou fusão de partido, mas não fala em filiação. Portanto, no entendimento de Gonzaga, a fusão abre apenas a porta de saída. Ou seja, a resultante não pode ir aos tribunais pedir o mandato daquele que não gostou da fusão. Mas um outro partido qualquer pode perfeitamente ingressar na Justiça para reclamar o mandato daquele que se encantou com a fusão de duas outras agremiações.

Para o PPS, a fusão, entretanto, é algo tão novo quanto um partido recém-criado, fresquinho, que tenha surgido do nada — tal e qual o PSD ou a Rede de Marina Silva ou o partido de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força Sindical. O PPS considera que o partido criado a partir da fusão deverá ter um novo estatuto aprovado pelo TSE. Portanto, a partir da aprovação, haveria 30 dias para filiações por justa causa, ou seja, sem que o parlamentar esteja sujeito a perda do mandato. Afinal, é assim que funciona para um novo partido.

Os argumentos estão aí e essa polêmica estará presente hoje e amanhã, quando PPS e PMN casam-se às pressas, tudo para escapar da manobra dos aliados do governo Dilma Rousseff para evitar que novas agremiações ganhem tempo de tevê e fundo partidário. Essa história, certamente, vai parar no Tribunal Superior Eleitoral. E como ministro só fala nos autos, o jeito é aguardar.

Enquanto isso, nos celeiros dos votos…

Dilma não perde os seminários do PT onde precisa de votos, leia-se o de São Paulo e o de ontem, em Belo Horizonte, a capital mineira, onde os eventos se propagam às regiões do estado que concentra o segundo maior colégio eleitoral do Brasil. O PT sabe que, ali, ninguém tira o favoritismo de Aécio Neves, ex-governador. Por isso, qualquer pontinho conquistado agora, é considerado lucro.

E na Venezuela…

O presidente eleito, Nicolas Maduro, tem agora a tarefa de apresentar o programa de governo que ficou devendo na campanha, focada basicamente na imagem do falecido Hugo Chávez. Agora, o velório e o luto devem dar lugar ao serviço. E olha que Maduro, depois da vitória apertada, começa com oposição por todos os lados, inclusive dentro do núcleo do chavismo. Não deverá ser fácil governar o país com oposição forte e fogo amigo. Mas essa é outra história.

Esperando a verdade - VLADIMIR SAFATLE

FOLHA DE SP - 16/04

Desde o início, as suspeitas em relação à possibilidade de bom funcionamento da Comissão da Verdade eram muitas. Número reduzido de membros, tempo escasso, foco amplo: esses eram apenas alguns dos problemas levantados por vários críticos. Hoje, parece claro que as críticas não estavam erradas.

Com sete membros, mas funcionando realmente com cinco, a comissão sente a falta de mais participantes. Um ano depois de sua instalação, amplos setores da sociedade civil ainda esperam o acesso às informações que poderiam fornecer uma história mais honesta dos atentados contra a humanidade e do governo criminoso instaurado no Brasil durante 20 anos.

A comissão mostrou, por exemplo, como a presença de empresários em locais de tortura era uma constante. Mas queremos uma visão clara de como funcionava o aparato civil-militar na ditadura. Quais foram as empresas que financiaram a Operação Bandeirantes, responsável por alguns dos crimes mais brutais da ditadura? Até onde foi a participação das empresas na formação do aparato repressivo?

Vimos também quão plausível é a possibilidade de presidentes como João Goulart e Juscelino Kubitschek terem sido assassinados pela Ope- ração Condor. Seria a primeira vez na história do Brasil que descobriríamos governos que tramaram a morte de ex-presidentes. Mas qual foi a verdadeira participação do Brasil nessa internacional do terror? Como se deu a linha de comando?

Responder a tais questões tem razões muito claras. O Supremo Tribunal Federal tentou quebrar o trabalho da Justiça de transição no Brasil ao impedir que a Lei da Anistia deixasse de encobrir torturas, assassinatos, estupros e ocultação de cadáveres, perpetrados por agentes do Estado. O trabalho da Comissão da Verdade, no entanto, seria fundamental para os grupos de direitos humanos leva- rem o Brasil para as cortes internacionais, assim como para forçar o Estado brasileiro a fazer um verdadeiro de- ver de memória.

Nesse aspecto, é bom lembrar como a memória dos que lutaram contra a ditadura é cotidianamente insultada, enquanto o Estado permitir a existência de monumentos, logradouros, estradas e cidades que homenageiam ditadores e criminosos. É ainda pior quando livros de história para nossos alunos apresentam páginas a respeito da "revolução" de 1964.

A revelação constante de fatos pela Comissão da Verdade, em vez da proposta incompreensível de deixar tudo para um relatório final, seria importante por alimentar a mobilização e aumentar a pressão social contra a letargia do Estado brasileiro em respeitar sua própria história.

Derrota moral - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 16/04
A vitória por menos de 2% dos votos não apenas dá margem à desconfiança sobre a lisura do resultado na Venezuela como garante ao candidato oficial Nicolás Maduro apenas os primeiros três anos de mandato, e olhe lá. Isso porque no meio do mandato há a possibilidade de convocação de um "referendo revogatório" que pode tirá-lo do poder, caso o governo não esteja agradando à maioria dos venezuelanos.

Sem a presença física de Chávez, não tendo surtido efeito o anúncio de que ele reencarnara em um passarinho, a revolução bolivariana, apesar de controlar os meios de comunicação e as instituições oficiais que organizam a eleição, perdeu, pelos números oficiais, cerca de 700 mil eleitores, enquanto o candidato oposicionista Henrique Capriles recebeu cerca de 600 mil votos a mais do que na última eleição presidencial, quando Chávez venceu o mesmo Capriles com uma vantagem de 12% dos votos.

Maduro venceu em 16 estados, e Capriles em apenas 8, mas, como a diferença entre os dois ficou abaixo dos 2%, isso indica que o oposicionista venceu nos estados mais populosos. Mesmo os chavistas mais ferrenhos admitem que parte de seu eleitorado absteve-se de votar, e outros passaram para a oposição.

O resultado mostra que Chávez já governava na base da retórica revolucionária e que sem o seu carisma não foi possível impedir a explicitação de um descontentamento não apenas com os métodos revolucionários do chavismo, mas com os resultados do governo, vendidos como expressivos por seus áulicos, mas na verdade insuficientes para manter eternamente a população atrelada aos interesses do governo.

Se é verdade que a desigualdade foi reduzida e a pobreza combatida através das missões chavistas, também é verdade que a economia venezuelana sofre as consequências de uma política populista que é incapaz de manter os gastos sociais sem provocar efeitos colaterais terríveis como a altíssima inflação - cerca de 30% ao ano -,desabastecimento, déficit público e uma violência descontrolada nas grandes cidades, especialmente Caracas.

Além de sustentar as políticas assistencialistas, a estatal de petróleo PDVSA também garante uma política de subsídio do preço da gasolina que consome 10% do PIB, isso em uma empresa que sofre com o aparelhamento governista que lhe tira a competitividade e reduz a sua produção, que caiu 25% em relação ao que produzia há 14 anos, quando Chávez assumiu o poder.

A gasolina quase de graça fez com que o consumo tenha aumentado mais de 60% no período, o que obriga a Venezuela a importar o combustível, mesmo tendo uma das maiores reservas de petróleo do mundo. A escassez de mercadorias nos supermercados e a falta de energia elétrica e de água ora são atribuídas a um boicote das oligarquias, ora a atentados terroristas, quando não surge uma visão cor de rosa que "culpa" o aumento do poder aquisitivo dos mais pobres. Na verdade, trata-se de uma economia disfuncional.

Como a base de sua pregação política é não fazer acordos com a oligarquia, seguindo os passos de seu chefe, Nicolás Maduro vai ter dificuldade de montar um governo eficiente, ainda mais que enfrentará dissidências dentro da própria aliança chavista. Ele queria vencer por uma diferença maior que a que Chávez conseguiu na última eleição para se impor a seus adversários internos, mas obteve nas urnas uma derrota moral que o prejudicará tanto em relação à oposição, que sai fortalecida do confronto, quanto a seu próprio grupo político.

Assim como aconteceu entre a ausência de Chávez e o anúncio oficial de sua morte, Maduro governará sendo tutelado por um conjunto de forças no qual se destacam os militares. E a derrota moral do chavismo terá repercussões em toda a América Latina, onde o socialismo bolivariano estava deitando raízes. Não é à toa que foram esses os primeiros governos a acatar os resultados oficiais da Venezuela, inclusive o brasileiro.

Paradoxo venezuelano - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 16/04

SÃO PAULO - O verdadeiro vitorioso nas eleições na Venezuela é o oposicionista Henrique Capriles, que ficou com 49% dos votos, e não o presidente eleito, Nicolás Maduro, que obteve 50,75% dos sufrágios.

O paradoxo se explica. A economia venezuelana está quase quebrada. A inflação oficial acumulada nos últimos 12 meses já ultrapassa os 25% e a real deve ser bem maior. Como se não bastasse, faltam alimentos nas gôndolas dos supermercados. Mesmo que Maduro faça tudo absolutamente certo daqui para a frente, a situação ainda deve piorar bastante antes de apresentar sinais de melhora. Como brinca Fábio Zanini, o editor de "Mundo" da Folha, esta era uma eleição boa para perder.

Se tivesse levado a Presidência, Capriles teria de lidar com tal herança maldita, para utilizar o vocabulário conhecido dos brasileiros. Em poucos meses estaria enfrentando protestos potencialmente desestabilizadores. Como não venceu, será o próprio Maduro quem ficará com os ônus da política econômica chavista, que, se acertou no objetivo de distribuir melhor a renda do petróleo, o fez de maneira pouco judiciosa e até mesmo inconsequente.

Poupado desse cenário nada alvissareiro, o líder oposicionista se viu colocado na melhor posição imaginável. Seu desempenho eleitoral superou todas as expectativas. Mesmo enfrentando um cadáver entronizado em mito popular e concorrendo em condições bastante desvantajosas, ficou a apenas 265 mil votos de seu adversário. Antes do pleito, os institutos de pesquisa indicavam oito pontos de diferença.

Tudo o que Capriles tem a fazer agora é assistir à crise de camarote. Se os chavistas não tentarem nenhuma manobra desesperada, que transforme a imperfeita democracia venezuelana numa ditadura sem disfarces, o jovem político será favoritíssimo para ocupar a Presidência dentro de três (referendo revocatório) ou seis anos (mandato normal).

Prêmio à sustentabilidade - XICO GRAZIANO

O ESTADÃO - 16/04

Agricultura sustentável - esse tema motivou uma reunião, recentemente realizada em Berlim, na Alemanha, interessada em descobrir os caminhos futuros do campo. Parecer unânime: é preciso unificar a agenda da produção com a da preservação. Nada se concluiu, porém, sobre os custos dessa equação. Quem pagará a conta?

No gelo atípico deste início da primavera europeia, participaram do encontro cerca de 90 pessoas, oriundas de vários países. Durante dois dias especialistas em certificação, pesquisadores universitários, operadores de mercado, ambientalistas, agricultores e diretores de empresas, de diversos ramos da agroindústria e do comércio de alimentos, trocaram suas figurinhas carimbadas. Todos sacramentaram os conceitos básicos da sustentabilidade.

Ressaltar o óbvio, às vezes, é necessário. Por mais que alguns políticos, ou organizações civis, queiram assenhorear-se da problemática ecológica, tomando como seu privilégio decifrá-la, formou-se certo consenso na sociedade mundial em favor da sustentabilidade. Sente-se, com maior ou menor idealismo, que a pegada ecológica sobre os recursos naturais periga romper os limites do planeta. Vislumbram-se, em decorrência, modificações na produção material, no consumo e no comportamento da civilização humana. Ninguém defende a destruição ambiental.

Existe também boa concordância quanto à necessidade de mensurar a sustentabilidade. No início do movimento ambientalista, gritar era fundamental para fazer avançar a consciência sobre os problemas ecológicos. Predominavam os discursos inflamados. Agora, mais que falar, é preciso fazer. E a ação prática somente poderá ter seus resultados aquilatados por meio da metodologia científica. Medir para manejar.

Inúmeros protocolos se definem, mundo afora, estabelecendo critérios, mais ou menos rígidos e abrangentes, para verificar a sustentabilidade. Muitos deles, seus prós e contras, foram discutidos nessa reunião em Berlim. A empresa alemã Basf, promotora do evento, apresentou seu método, chamado AgBalance, pelo qual quantifica, com 69 indicadores distribuídos em 16 categorias, o "balanço energético" de uma empresa rural, incluindo todos os elos da cadeia produtiva. Muito interessante.

O enfoque do measure and management domina a agenda mundial da sustentabilidade. Presente na Alemanha, o representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) enfatizou a importância das "métricas" ao falar sobre o Global Livestock Environmental (GLE), patrocinado pelo órgão da ONU. Susanne Stalder, por sua vez, seguiu na mesma linha com o Response Inducing Sustainability Evaluation (Rise), um protocolo seguido por 1.350 produtores rurais, localizados em 37 países. Caminho sem volta.

Comandado pela Stanford University (Califórnia), com a participação das importantes entidades ambientalistas WWF e TNC, o Natural Capital Project (NatCap) detalhou seu sistema integrado de avaliação de serviços ambientais. Grandes redes de varejo, como a norte-americana Walmart, e as multinacionais de alimentos Nestlé e PepsiCo deixaram clara a força da mudança que chega pelo lado dos consumidores. Rigorosos critérios, como os do Sustentability Consortium, começam a impor-se aos fornecedores de matérias-primas, especialmente alimentos.

Fica claro que os requisitos da produção sustentável exercem, progressivamente, forte pressão sobre os agricultores. E aqui reside a grande questão. A modificação tecnológica nas práticas agrícolas, tornando-as mais amigáveis da natureza, nem sempre operam a favor da rentabilidade dos negócios rurais. Os processos sustentáveis geram, muitas vezes, custos que comprometem a sobrevivência econômica do produtor rural. São os trade-offs.

Esse viés, o da economia, normalmente tem sido minimizado nas discussões sobre o desenvolvimento sustentável. Carrega-se no ecologicamente correto, destaca-se o socialmente justo, mas se esquece do economicamente viável, deformando o famoso tripé da sustentabilidade. Por isso os agricultores começam, eles também, a definir seus protocolos de conduta. Richard Wilkins, presidente da poderosa American Soybean Association (ASA), que representa 275 mil produtores norte-americanos, com 30 milhões de hectares de cultivo, deixou claro em Berlim que eles não aceitam os ditames que lhes querem impor. Articulada com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a ASA está definindo um protocolo próprio, no qual o requisito da produção sustentável mantenha, e não roube, a terra herdada dos antepassados.

No Brasil, ninguém melhor que a Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja) se dedica ao tema. Sua proposta Soja Plus segue a linha da produção sustentável, com respeito às leis trabalhistas e ao Código Florestal. Presente em Berlim, seu representante questionou: estariam os mercados consumidores, na Europa ou alhures, dispostos a pagar um "prêmio" à sustentabilidade? Não, responderam.

Sinuca de bico. Todos defendem o desenvolvimento sustentável, mas cada qual o define, e o mensura, conforme lhe convém. Nesse jogo de interesses, estoura a corrente produtiva no elo mais fraco: os agricultores. Assim não dá. Na busca da sustentabilidade, as empresas, os consumidores ou os governos, em nome da sociedade, precisam auxiliar, e não sufocar os produtores rurais. Há uma agravante: as regras da sustentabilidade precisam levar em conta as dificuldades inerentes aos agricultores familiares dos países em desenvolvimento. Não funcionará na Ásia, nem na África ou no Brasil um protocolo refinado, elaborado pela elite dos países ricos.

Desenvolvimento sustentável exige parcerias, não se enfia na goela do agricultor. Senão, azeda a comida.

Atenção, concentração - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 16/04

Ministro da Educação, economista, ação valorizada na bolsa de apostas para possíveis candidatos do PT ao governo de São Paulo e ultimamente presença constante junto à presidente Dilma Rousseff em atos públicos ou reuniões privadas (não necessariamente relacionados à sua pasta), Aloizio Mercadante é um homem confiante.

E, sobretudo, otimista. Enquanto todas as versões sobre o estado de espírito predominante no Palácio do Planalto e adjacências dão conta da preocupação crescente em relação aos efeitos eleitorais da chegada da inflação à mesa das pessoas, Mercadante diz que o governo "está seguro" de que seus principais ativos para a disputa de 2014 estarão preservados.

Trunfos estes amplamente conhecidos: emprego e renda. O que se desconhece é em que medida, e quando, a queda na produtividade, a alta de preços, o baixo crescimento acabarão por afetar esse patrimônio.

A maioria dos analistas alerta que sem uma reação enérgica e amarga do governo, dias piores na economia inevitavelmente virão. Com eles, o aumento da probabilidade de notícias menos alvissareiras que as atuais para a reeleição da presidente Dilma.

Não é o que pensa Mercadante nem, segundo ele, o que prevalece nas análises de governo. Conforme afirmou em recente entrevista ao Estado, o ministro considera que os números do PIB não serão determinantes para abalar o bom humor da população até agora registrado nas pesquisas.

"Na percepção do cidadão em geral" - sejamos claros, do eleitorado -, "a tradução para PIB é emprego e renda". Enquanto esses dois indicadores estiverem altos, alta também será mantida a popularidade da presidente. "É isso que dá apoio social ao governo", diz o ministro, que no quesito abalo da economia não enxerga no horizonte tempo ruim em termos políticos, muito menos céu de brigadeiro para a oposição.

Em verdade, não vê abalos atualmente. São, na visão dele, "desconfortos" passageiros a serem resolvidos antes que possam se transformar em potenciais prejuízos eleitorais.

O ministro chega a fazer uma comparação irônica: "O PSDB está parecendo o PT no tempo do Plano Real". A ironia está no fato de Aloizio Mercadante ter sido um dos conselheiros petistas que garantiram ao partido que o real não tinha chance de dar certo.

De desafio para o governo mesmo Mercadante só vê a necessidade de investimento em qualificação de mão de obra como forma de o País fazer frente a um crescimento maior.

Ele não tem dúvida alguma de que o índice do produto interno será maior em 2013 (façanha não muito difícil diante do menos de 1% em 2012) nem manifesta maiores preocupações com um possível descontrole no combate à inflação.

"Não haverá e vai baixar. Aliás, já está baixando, pois a alta dos alimentos decorreu de problemas na safra agrícola cujo pico foi em outubro." De acordo com ele, a rigor não há razão para maiores temores diante do estouro da meta e do acumulado de 6,59% nos últimos doze meses.

"Desde a instituição do sistema de metas só em 2006, 2007 e 2009 a inflação esteve abaixo de 5,5%."

Carestia. A alta dos preços deu à oposição um mote. "Inflação de alimentos" é o nome do jogo, repetido frase sim outra também pelo senador Aécio Neves, candidato a oponente de Dilma pelo PSDB.

De margens. A ínfima margem de vantagem com que Nicolás Maduro foi eleito deixa-o com pequena margem de manobra para governar a Venezuela a partir dos instrumentos de manipulação chavista. Por si insuficientes e, sem o criador, ineficientes para lidar com a dura realidade da inflação, do desabastecimento e da criminalidade crescente.

Partida ao meio - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 16/04

BRASÍLIA - O chavismo manteve o governo, mas a grande vencedora na Venezuela foi a oposição.

Mesmo emparedado pelo mito Chávez, pela magia da sua morte prematura e por uma campanha agressiva, o candidato Henrique Capriles perdeu por uma margem muito mais estreita do que previam todas as pesquisas: menos de dois pontos percentuais.

Isso significa que a Venezuela está dividida ao meio e que o presi- dente Nicolás Maduro terá tempos difíceis pela frente. Sem Chávez e sem a retórica do líder, capaz de desfocar erros e desviar críticas, só resta a Maduro arregaçar as mangas e apresentar resultados.

Os obstáculos são de arrepiar: inflação descontrolada, desabas- tecimento até de alimentos, câm- bio irreal, deficit galopante, violência braba, a corrupção de sempre. E há riscos políticos.

Além de enfrentar a força e a inédita união das oposições, obtidas desde o pleito de 2012, vencido por Chávez, Maduro vai se deparar com um insidioso processo de corrosão interna no chavismo. A inveja é inerente ao ser humano. A disputa de poder, mesmo entre aliados, é a força vital da política.

Reduzem-se as chances de sobrevivência do chavismo sem Chávez e aumentam as de alternância de poder daqui a seis anos, com a vitória da oposição, possivelmente do próprio Capriles.

O que preocupa, porém, é o que vai ocorrer no país até lá. Espera-se que a oposição tenha paciên- cia, livre-se da tentação de desgas- tar o governo além do limite e aguar- de sua vez nas urnas.

É aí que entra o Brasil. A ninguém interessa uma Venezuela em chamas, sob séria crise de governabilidade. Nem ao governo do PT, até pela ideologia, nem aos empresários brasileiros, que tantos inte- resses mantêm no país, e, claro, nem a nós, cidadãos solidários com todos os nossos vizinhos.

Merecer o canudo - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 16/04
Os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) - e isso é notícia velha - mostraram que os adolescentes brasileiros, com as exceções de praxe, têm relações pouco amistosas com o idioma do país.

A culpa, obviamente, não é deles: o problema está na estrutura do ensino. Em outras palavras, se alguns estudantes fossem o que poderíamos chamar, pedantemente, de analfabetos funcionais, o problema poderia ser examinado caso a caso. Alguns adolescentes poderiam ser ajudados a aprender o uso do idioma - e para outros não haveria solução possível.

Mas o problema é muito mais grave do que se pensava: ele foi identificado em jovens que estão concluindo cursos universitários. Ou seja, estamos formando, em quantidade alarmante, advogados, economistas, jornalistas, psicólogos etc. que não sabem se exprimir por escrito.

É tristemente curioso: nenhum time de futebol contrata os chamados "pernas de pau". Mas nas profissões que exigem formação universitária não há esse cuidado elementar. O Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) já detectou que é alarmante o número de estudantes que não sabem usar o idioma com um mínimo de eficiência. Há uma notícia mais grave: em recente exame a que foram submetidos jovens que estão concluindo cursos universitários, é elevado o número daqueles que têm relações extremamente inamistosas com o idioma. Isso acontece com estudantes supostamente considerados prontos para serem advogados, administradores, economistas, psicólogos.

Alguns exemplos, entre muitos: "egnorância", "enchergar", "rasoável". Não há exagero algum na conclusão de que esses jovens que não sabem escrever também têm relações pouco amistosas com a leitura. E estão se preparando para profissões em que a necessidade de ler é indispensável a vida toda.

O Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) afirma que corrige com a necessária severidade as provas do Enem. É preciso registrar que a Ordem dos Advogados é também rigorosa no julgamento dos candidatos. Este ano, só foram aprovados pouco mais de 10% dos mais de cem mil candidatos.

Dessa discussão toda, o observador leigo pode tirar apenas uma conclusão óbvia: há uma quantidade de escolas de direito que diplomam um número excessivo de candidatos à profissão que não merecem o canudo.

Desafios das novas gerações - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 16/04

O Brasil falhou – e continua falhando – em questões cruciais para o crescimento econômico e o desenvolvimento social


Até o século 17, a condição predominante no mundo era a pobreza e a doença. O padrão de bem-estar médio era baixo e a luta pela conquista dos meios necessários à sobrevivência – alimentos, habitação, vestuário e cura das enfermidades – sempre foi árdua e custosa. Há 10 mil anos, a população da Terra era estimada em menos de 50 milhões de habitantes, época em que a humanidade só conseguiu escapar da extinção pela descoberta da agricultura.

A Revolução Agrícola, tida como a primeira, permitiu a fixação do homem em determinado local e propiciou a expansão da família e das comunidades. Ali começava a surgir a cidade. A humanidade levou até 1830 para chegar a 1 bilhão de habitantes, pois até então a mortalidade era muito alta e a expectativa média de vida, muito baixa. Veio a Revolução Industrial, ocorrida há 200 anos e que permitiu à humanidade, pela primeira vez, sonhar com um novo modo de produção capaz de aumentar o bem-estar das famílias e reduzir os níveis de pobreza, doença e sofrimento.

O crescimento econômico, o desenvolvimento social e a possibilidade de o ser humano dedicar parte de seu tempo à cultura, às artes e ao lazer se tornaram possíveis na medida em que a produtividade agrícola e industrial aumentou a taxas elevadas. Mas o Brasil não aproveitou os benefícios do progresso tecnológico criado em fins do século 18 e início do século 19: não industrializou sua economia, não elevou o nível educacional médio do povo e, apesar de rico em recursos naturais, passou o século 19 como um país pobre e de precárias condições sociais.

O começo da industrialização brasileira, a partir de 1844, parecia uma nova fase de desenvolvimento econômico e as gerações da época falavam, eufóricas, em “país do futuro”. Mesmo após essa época, a incorporação do progresso tecnológico e o crescimento da produção ocorreram de forma muito lenta e o Brasil chegou à virada do século, em 1900, muito distante dos países desenvolvidos. Nem mesmo os benefícios da água encanada, em termos de redução de doenças simples e redução da mortalidade infantil, foram vistos por aqui.

Entretanto, após a Segunda Guerra Mundial, já nos anos 50 do século passado, o Brasil experimentou uma fase de alto crescimento. Houve a expansão industrial, a agricultura melhorou sua produtividade e as cidades conseguiram desenvolver o comércio e os serviços, a ponto de a taxa de crescimento brasileira, entre 1950 e 1970, ser uma das maiores do mundo. Porém, na sequência, o país parou e os anos 80 foram uma década perdida. Somente em 1994 o país conseguiu livrar-se de sua maior doença, a inflação, e tudo indicava que a economia nacional ia deslanchar.

Muita coisa melhorou: a má distribuição de renda foi amenizada, a economia deu sinais de vigor e o país terminou a primeira década do século 21 com boas perspectivas de crescimento e a admiração do mundo. Surgiu a ideia dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), países emergentes que pareciam assumir a ponta das taxas de crescimento mundial. O Brasil apresentava uma vantagem nesse clube: democracia estável e funcionamento normal do Estado de Direito.

Mas o país falhou – e continua falhando – em questões cruciais para o crescimento econômico e o desenvolvimento social. Infraestrutura física em colapso, níveis educacionais sofríveis, alta corrupção no sistema político, violência urbana excessiva, ética social em baixa, incapacidade de crescer de forma contínua e setor público inchado e ineficiente. Além dessas péssimas características, a partir de 2011 a economia empacou e o crescimento tem sido pífio.

A agenda do futuro pode ser resumida nessas sete grandes questões e elas se constituem os desafios das novas gerações. Ou elas serão capazes de promover avanços e superar os gargalos e as falhas, ou o país do futuro não vai existir – pelo menos não como uma nação desenvolvida. Se a sociedade brasileira não for capaz de superar os desafios impostos por essas sete grandes questões, o país continuará existindo com a contradição de ser rico em recursos naturais, mas pobre, violento e de baixo padrão médio de bem-estar social.

O populismo sob ameaça - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 16/04

Há um recado claro ao herdeiro do chavismo nos resultados da eleição de domingo. As bravatas dos que se autointitulam condutores da revolução bolivariana, de que venceriam facilmente o pleito presidencial na Venezuela, foram abaladas por uma vitória apertada. O senhor Nicolás Maduro tem pela frente uma realidade que não poderá enfrentar apenas com os recursos do populismo que herdou do ex-presidente morto. A informação que sai das urnas é a de que os venezuelanos, apesar do trauma provocado pelo desaparecimento do criador do chavismo, começam a questionar um modelo sustentado por práticas típicas de governantes pouco afeitos à democracia.
A situação econômica do país é um desafio urgente. A Venezuela já não consegue sustentar sua economia com base apenas nas receitas do petróleo, que lastrearam até agora também os programas sociais governistas. Há uma demanda por investimentos em infraestrutura e modernização que o bolivarianismo não conseguiu atender. Ao contrário, desde que chegou ao poder, em 1999, Chávez marcou sua atuação pelo confronto com a livre concorrência, nacionalizando sumariamente grupos estrangeiros e restringindo também as atividades de empresas locais, em nome de uma pretensa prioridade às populações de baixa renda.
O chavismo fracassou na gestão da economia, com baixo crescimento, inflação alta e escassez de alimentos, e se defronta agora com o esgotamento de uma estratégia que dissimulava, na verdade, a perseguição a quem passou a ser identificado como oposição. Foi assim com a imprensa independente, que o governo vem tentando amordaçar. É nesse contexto que a postura do continuador do chavismo não interessa apenas a quem o elegeu ou passa a fiscalizá-lo como oposição. Num mundo cada vez mais interligado, as atitudes de Nicolás Maduro interessam também aos parceiros da Venezuela no Mercosul e a todos os povos que defendem a democracia e as liberdades como base para o êxito das relações internacionais.

Atrativos do Paraguai - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 16/04

Com a conclusão, no segundo semestre deste ano, da extensão no lado paraguaio da linha de transmissão da Hidrelétrica Itaipu Binacional até as proximidades de Assunção, numa extensão de 500 km, cresce o interesse de empresas brasileiras de buscar maior integração industrial com o Paraguai, principalmente com o objetivo de enfrentar o desafio de competitividade com produtos de origem asiática. Estudo realizado pelo Departamento de Relações. Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Fiesp, com foco no setor têxtil e de confecções, constatou que o Paraguai apresenta vantagens de custo em relação ao Brasil nos quatro quesitos examinados - mão de obra, insumos, manutenção e juros -, passando a ser uma opção mais atraente para alguns setores industriais no processo de internacionalização por que vêm passando muitas empresas do País nos últimos anos.
Como exemplo dos benefícios que empresas têxteis brasileiras poderiam usufruir integrando o Paraguai à sua cadeia produtiva, o diretor titular adjunto da Fiesp, Thomaz Zanotto, citou o custo médio de produção de uma calça jeans, que no Brasil é de US$ 7,75 e no Paraguai é de US$ 5,73 - uma economia de 35%. "Não há a menor dúvida de que vale muito mais a pena produzir essa calça no Paraguai, para atender ao mercado do Mercosul, do que importar da China", ressaltou Zanotto.

Não se trata, portanto, de fechar fábricas no País para produzir no exterior, mas de mudar de fornecedor. É claro que o Paraguai tem todo o interesse em atrair investimentos industriais, já que consome apenas 20% da energia produzida pela Itaipu Binacional, sendo sua economia baseada, em grande parte, no setor agropecuário, muito dependente de cotações internacionais e de condições climáticas. Tendo energia sobrando, o Paraguai pode oferecê-la a um custo baratíssimo. Apesar das medidas tomadas por Brasília para baixar a conta de eletricidade, o preço do quilowatt/hora paraguaio é 63% inferior ao cobrado no País.

A carga tributária é também sensivelmente menor, havendo ainda incentivos para investidores. Há basicamente três tipos de impostos: Imposto de Renda (IR) Pessoa Física, IR para empresas e o Imposto de Valor Agregado -.(IVA). Além disso, os salários, em média, são 35,5% mais baixos e os encargos sociais giram em torno de 16% da folha.

Assim, como disse o presidente da Fundación Desarollo en Democracia, Alberto Acosta Garbarino, que participou de recente seminário na Fiesp, o investimento em seu país pode ajudar a solucionar problemas dos dois lados da fronteira, aumentando a competitividade da indústria brasileira e contribuindo para o desenvolvimento paraguaio. Ele reconhece a existência de gargalos na infraestrutura e deficiências na área de educação, o que pode exigir programas de treinamento cie trabalhadores.

O comércio entre Paraguai e Brasil vem crescendo e não foi abalado pela suspensão provisória daquele país do Mercosul, desde o episódio do impeachment de Fernando Lugo, em junho de 2012. O Brasil é superavitário no comércio bilateral, não contando o comércio de "formiguinha" na região de fronteira. No ano passado, o Brasil exportou para o Paraguai US$ 2,677 bilhões e importou mercadorias no valor de US$ 987 milhões - um saldo de US$ 1,690 bilhão. A mesma tendência verifica-se nos dois primeiros meses deste ano.

Acresce que, como mencionou o embaixador Rubens Barbosa, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, o Paraguai conta com preferências da União Europeia, benefício que o Brasil perdeu em 2013. Assim, as indústrias brasileiras com filiais no país vizinho, além de exportar com tarifa zero para parceiros do Mercosul, poderiam vender mais facilmente para terceiros países.

Indústrias nacionais mais afetadas pela concorrência agressiva dos asiáticos constataram que saídas podem ser encontradas, sem que o governo precise recorrer ao aumento estratosférico de tarifas de importação. E é bom que exista uma alternativa dentro do Mercosul.

Ruins de cálculo - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 16/04

À primeira vista, há muito a comemorar na notícia de que em 2011 houve mais que o dobro de calouros em cursos de engenharia do que cinco anos antes. O aumento acelerado mostra que os jovens brasileiros estão atentos e reagem racionalmente à carência de profissionais nessa área essencial para o desenvolvimento do país.

Em 2006, mostram dados do Censo da Educação Superior do Ministério da Educação (MEC), os cursos de engenharia receberam 95 mil novos estudantes, em números redondos. Eram 5% do total de calouros. Em 2011, esse contingente havia saltado para 277 mil --um décimo dos ingressantes.

Pela primeira vez, o número de candidatos a engenheiros ultrapassou o de aspirantes na carreira de direito (199 mil). O preferido é o curso de administração, que --como o de direito-- só precisa de salas e professores para funcionar e confere formação generalista supostamente útil em qualquer setor.

O caso da engenharia é, obviamente, muito diverso. Não só exige laboratórios e bancadas como forma especialistas: engenheiros civis (24% dos calouros), de produção (19%), mecânicos (12%), elétricos (11%) e assim por diante. É desse pessoal com formação técnica apurada que o país carece.

O otimismo com o avanço na procura pela engenharia arrefece quando se leva em conta que poucos desses jovens de fato acabam por formar-se. A cada ano, apenas cerca de 45 mil obtêm seu diploma.

Como a demanda do mercado de trabalho ronda a casa de 70 mil novos engenheiros por ano, o deficit é de pelo menos 20 mil. Estima-se que a China forme anualmente 600 mil engenheiros --13 vezes a cifra do Brasil, para uma população seis vezes maior.

A grande muralha, por aqui, é a dificuldade dos alunos para acompanhar o curso. Cálculo, estatística e física vão abatendo os aspirantes ao longo dos cinco anos da graduação. A maioria deles chega à faculdade com deficiências graves nessas disciplinas, que deveriam ter aprendido no ensino médio.

O incremento rápido de ingressantes nas engenharias significa uma proporção ainda maior de jovens com má formação básica. Não é preciso ser pessimista para predizer que a deprimente proporção de formandos pode cair ainda mais.

A procura por cursos superiores para formar professores de matemática, física e química, aliás, caiu ligeiramente --de 3% para 2,8%. Aí também a carência é aguda.

Sem docentes para preparar alunos capazes de encarar as exigências acadêmicas do terceiro grau, como esperar que o país forme todos os engenheiros de que necessita? A conta não fecha.

Risco de retrocesso na política antidrogas - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 16/04

Vizinho de regiões produtoras de cocaína, corredor de escoamento da droga, ele próprio um mercado consumidor, o Brasil é um inevitável protagonista do debate sobre o problema. Além da coca, há a questão da maconha e, no momento, uma preocupante invasão do crack de quase toda a área urbana do país. É neste contexto que a Câmara dos Deputados está prestes a votar um projeto de lei, do deputado Osmar Terra (PMDB-RS), capaz de colocar a perder o que se conseguiu até agora, em termos de legislação, para aperfeiçoar a política de combate às drogas.

Tem havido enorme esforço na reciclagem da estratégia policial-militar — reconhecidamente falida — para um trabalho no campo da saúde pública, de acolhimento do viciado, concentrando-se a força da repressão contra o tráfico no atacado. Mesmo ainda falha, a legislação em vigor deu um passo no rumo correto da descriminalização do usuário, protegendo-o de achaques policiais e livrando-o do encarceramento ao lado de verdadeiros traficantes e criminosos consumados. Mas quando se trata de aperfeiçoar a lei, com definições objetivas para separar a tipificação de dependente da de traficante profissional, o projeto de lei 7.663 vai no sentido contrário, da criminalização: aumenta de cinco para oito anos a pena mínima em delitos relacionados às drogas — atinge, assim, uma zona cinzenta de viciados que traficam pequenas quantidade para sustentar o vício —; avança sobre o direito à privacidade, na criação de um inaceitável cadastro de drogados; agride preceitos técnicos ao determinar a internação compulsória de viciados, entre outras impropriedades.

Determina, ainda, a destinação de recursos públicos para as chamadas comunidades terapêuticas, supostamente especializadas no atendimento a drogados. Como este é um setor controlado por igrejas, se a lei for aprovada, o Estado, laico desde a proclamação da República, repassará a comunidades religiosas uma ação cuja responsabilidade básica precisa ser dele (SUS). Entidades de benemerência são bem-vindas, mas num papel subsidiário. A descriminalização do consumo de drogas não é invenção brasileira. Mesmo nos Estados Unidos, cujo governo federal defende a visão policial-militar de ataque às drogas, estados usam a prerrogativa do federalismo e têm aprovado em plebiscitos a liberalização da maconha para consumo pessoal e outras atenuações, dentro da ideia, correta, de que a força precisa estar concentrada no traficante. Há um movimento amplo por esta sensata mudança de rumo na política antidroga, o qual, no Brasil, tem a liderança do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “Repressão pura e simples não funciona”, repete FH. Com razão.

Os deputados precisam debater mais, levantar dados, por exemplo, sobre Portugal, onde a descriminalização faz cair o consumo de drogas e a violência em geral. Não bastam boa intenção e firmeza de propósitos para se enfrentar problemas complexos como as drogas.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“O que vocês estão fazendo aqui? Tchau!”
Presidente Dilma, ao ser surpreendida por jornalistas à saída de um evento


PT: EDUARDO, AQUELE QUE FOI SEM NUNCA TER SIDO

O presidenciável do PSB, Eduardo Campos, pode entrar para a história como o “candidato Viúva Porcina”, aquele que foi sem nunca ter sido, segundo admitiram

dirigentes do PT, em off, a esta coluna. Tudo seria uma genial armação do ex-presidente Lula: chamando-se atenção para Campos, um candidato de limitadas chances, falar-se-á menos sobre o nome do PSDB, Aécio Neves, verdadeiro representante da oposição.

RABO EXPOSTO

Um dos principais indícios da armação seria a permanência no governo do ministro Fernando Bezerra (Integração), unha e carne com Campos.

NÃO FAZ SENTIDO

Candidata à reeleição, a presidente Dilma não manteria um ministro indicado por Eduardo Campos, sendo ele um rival para valer, em 2014.

JOGO DE CENA

Trocando leves alfinetadas, Dilma e Eduardo Campos mantêm as aparências, mas a rigor não se comportam como oponentes.

TRAIÇÃO IMPENSÁVEL

Para petistas, na amizade de Lula com Campos não há margem para traição, após Pernambuco ter sido tão

privilegiado com verbas federais.

BRIZOLA NETO PRESTES A PEDIR SEGURO-DESEMPREGO

Com patrimônio declarado de R$ 129 mil, um dos menores de um ex-ministro, o suplente de deputado Brizola Neto (RJ) enfrenta dificuldades financeiras típicas de um desempregado. Ele recebe ajuda de parentes porque não tem renda. E torce para um deputado federal ser convidado para cargo no Executivo: primeiro suplente, assumiria o mandato. Ou terá de recorrer ao seguro-desemprego que dirigiu como ministro.

CORREÇÃO NÃO BASTA

Brizola fez fama de ministro honesto, avesso a esquemas. Caiu porque ousou enfrentar Carlos Lupi, antecessor sem a mesma reputação.

PORTAS FECHADAS

Presidente do PPS, Roberto Freire procurou o presidente do PEN, Adilson Barroso, para propor fusão junto ao PMN. Não obteve sucesso.

OURO DE TOLO

Renunciou o diretor do Goldman Sachs para o Oriente Médio, Khaled Eldabag, diz a Reuters. Em seu currículo, o conselho para o grupo Mudabala comprar por US$ 2 bi uma fatia da EBX de Eike Batista.

PEDIDO DE TORCEDOR

Alexandre Padilha (Saúde) ganhou de um empresário de remédios, na Fiesp, uma foto autografada do time do Corinthians vencedor do torneio de Tóquio. O corintiano pediu logo: “Quero outra para a presidenta”.

URUCUBACA NO TRIBUNAL

A presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Leila Mariano, suspendeu pagamentos à construtora Lopes Marinho, sucessora da Delta na obra da lâmina 4 do seu anexo: a área construída é menor que a contratada.

DE COR E SALTEADO

Novo ministro dos Transportes, Cesar Borges (PR), tem se debruçado sobre as principais obras (paradas e em andamento) e demandas do ministério. Nas audiências, dá show de conhecimento sobre o assunto.

DEBOCHE A BORDO

No voo 1819 da Gol, de Porto Alegre a Brasília, sábado (13), o frio era tão glacial que passageiros envolviam rosto em cachecol. Uma senhora de saúde frágil disse estar sujeita a espasmos, pediu para reduzir o frio. Trabalhando com óbvia má vontade, os comissários debocharam dela.

ÁGUA DOCE

Navio de patrulha da Marinha do Brasil está em Angola, onde a tripulação simula ações antipirataria. Já nas fronteiras daqui...

O INÍCIO DO FIM

Com diferença ínfima de votos, sob suspeita de fraude admitida até pela “simpática” Organização dos Estados Americanos, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, começa um mandato que já terminou.

PRIVATIZAÇÃO

O presidente da Empresa de Planejamento e Logística (EPL), Bernardo Figueiredo, apresentou aos senadores da Comissão de Infraestrutura as obras e planos de concessões aos próximos dez anos. As primeiras etapas devem levar de seis meses a um ano para serem licitadas.

ELEITOREIRO

O líder do DEM na Câmara, Ronaldo Caiado (GO), critica o “viés eleitoreiro” da Medida Provisória dos Portos: “É muito mais uma atitude política do que uma medida para resolver os gargalos nos portos”.

PENSANDO BEM...

...considerando os presidenciáveis que apareceram até agora, o Dr. Tomate é o maior adversário de Dilma em 2014.


PODER SEM PUDOR

SURRANDO O VERNÁCULO

Contam no Ceará que o prefeito de Crateús, Raimundo Rezende, certa vez denunciava num comício o temperamento violento de um adversário:

- ...e o Raimundo Bezerra, então, deu um tapa neu!

- "Em mim", prefeito - corrigiu um assessor, ao seu ouvido.

Rezende apontou para o assessor e gritou:

- Bateu nesse também!

TERÇA NOS JORNAIS


- Globo: A volta do terror: 15 segundos de horror
- Folha: Atentados deixam 3 mortos e ferem mais de 130 nos EUA
- Estadão: Ataque em Boston mata 2 e fere 115; EUA elevam alerta
- Valor: Governo abre espaço para política fiscal mais branda
- Zero Hora: O terror revivido
- Correio Braziliense: O terror volta a assombrar os EUA
- Estado de Minas: Ódio sem limite
- Jornal do Commercio: Terror em Boston
- Brasil Econômico: CVM pune IPO da BB Seguridade e deixa os investidores inseguros

segunda-feira, abril 15, 2013

Efeitos Colaterais - J. R. GUZZO

REVISTA VEJA

O governo brasileiro viciou-se em confundir estatísticas com realidades. Está escrito em algum papel oficial? Então é verdade. Como fomos todos informados pela presidente Dilma Rousseff, não há mais miseráveis no Brasil desde o dia 31 de março, quando foi riscado do cadastro federal o nome do último cidadão brasileiro com renda inferior a 70 reais por mês. A partir daí, quem ganha 71 mensais deixou de ser miserável, pois para a ciência estatística a miséria acaba naqueles 70 reaizinhos — ou cerca de 1,25 dólar por dia, pela média dos critérios internacionais. Daí para a frente o sujeito é promovido a pobre e deixa de incomodar tanto. "O cadastro foi zerado", anunciou Dilma. Conclusão: como não existem mais nomes no cadastro, não existem mais miseráveis no Brasil. Ah, sim, ainda há um probleminha com gente que ganha menos de 70 reais por mês e que não estava inscrita na lista oficial; é mera questão de tempo até o governo encontrar todo mundo, dar um dinheirinho a mais para eles e acabar não apenas com a "miséria cadastrada", como falam os técnicos do Palácio do Planalto, mas com o problema inteiro.

Nada disso faz nexo no mundo do bom-senso, mas o governo tomou-se dependente de um outro vício — massagear números aqui e ali e fazer uso deles para tratar como retardado mental todo brasileiro que foi à escola, prestou um pouco de atenção às aulas e acabou aprendendo alguma coisa. O problema de meter-se por essa trilha é que, com frequência, os especialistas em fazer mágicas aritméticas têm de experimentar o próprio veneno. Acaba de acontecer, mais uma vez, com as últimas cifras da ONU sobre o índice de Desenvolvimento Humano em 187 países — uma medida que informa o nível de bem-estar da população, e não da "economia". em termos de vida saudável, acesso ao conhecimento e padrão de vida decente, traduzido em dinheiro no bolso do povo. O Brasil pegou o 85° lugar em 2013, dezesseis postos abaixo do Cazaquistão e outras potências do mesmo quilate. Não é um desastre. É apenas aquilo que realmente somos — a mediocridade em estado puro. Só na América Latina, ficamos atrás de Argentina, Chile, Uruguai. Cuba, Panamá. México, Venezuela e Peru, com a Colômbia prometendo passar à frente já no próximo levantamento. Sobra o quê, aqui em volta? Só os casos de subdesenvolvimento que já estão num leito de UTI.

A coisa não para aí. Já que o negócio é ficar refogando números, como a presidente Dilma tanto gosta, por que não servir a salada inteira? Em 1980, mais de vinte anos antes de o ex-presidente Lula decidir que o Brasil tinha sido inventado por ele, o IDH brasileiro era de 522, numa escala que começa no zero e chega ao máximo de 1000; subiu sem parar nesse tempo todo, chegando a quase 700, ou perto de 35% a mais, no Ano I da Nova História do Brasil — 2003 —, quando Lula começou sua primeira Presidência. Nestes dez anos de Lula, Dilma e PT, o índice foi para os 730 onde está hoje. Mais: durante os dois anos do governo Dilma, o IDH brasileiro ficou perto do nível de pressão zero por zero. com crescimento praticamente nulo. O que toda essa tabuada está dizendo, no mundo das coisas reais, é o contrário do que diz o mundo da propaganda oficial: com a sexta ou sétima maior economia do mundo em volume, o Brasil simplesmente não consegue repassar o bem-estar dessa grandeza, nem de longe, para os brasileiros que a constroem.

O governo, assim que recebeu os últimos números, entrou no seu modo habitual de indignação automática: a ONU está errada, as cifras são injustas etc. Quer que a população acredite na demência segundo a qual um cidadão que ganha 71 reais por mês não é mais miserável; ao mesmo tempo, não quer que acredite nos números da ONU. Mais que tudo. ignora o fato de que "a revolução na renda" registrada nos governos petistas. e patenteada como invenção pessoal e exclusiva de Lula, é uma mentira: o mundo inteiro, mesmo nos casos mais desesperados da África, viveu uma rápida e inédita redução da pobreza durante os dez anos de governo lulista. De 2000 para cá, 70 milhões de pessoas saem da miséria a cada ano pelo mundo afora. Em apenas seis anos, de 2005 a 2011, a pobreza mundial foi reduzida em meio bilhão de seres humanos. Desde 2003, os países pobres vêm aumentando em 5% ao ano, em média, a sua renda per capita. De onde Lula e Dilma foram tirar a lenda segundo a qual fizeram o que ninguém jamais havia feito? Vá com calma ao mexer em estatísticas, presidente. É um produto que pode ter efeitos colaterais indesejáveis.

Ele não sabe o que faz - RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA

Mais um assassino covarde tira proveito da lei paternalista no Brasil, que considera os menores de 18 anos incapazes de responder criminalmente por seus atos. Como não sentir vergonha diante dos pais do universitário Victor Hugo Deppman, assaltado e morto na calçada de casa em São Paulo? Como convencê-los a se conformar com o Estatuto da Criança e do Adolescente, que protege o homicida de 17 anos que deu um tiro na cabeça de seu filho após roubar seu celular? Como conviver com a perda brutal de um filho e saber que seu algoz será internado por no máximo três anos porque “não sabia o que estava fazendo”?

Não consigo enxergar jovens de 16 anos como “adolescentes” ou “menores”. Eles votam, fazem sexo, chegam em casa de madrugada ou de manhã. Por que considerá-los incapazes de discernir o certo do errado? Ao tornar jovens de 16 anos responsáveis por seus atos diante da Justiça, o objetivo não é encarcerar todos os delinquentes dessa idade, mas, quem sabe, reduzir os crimes hediondos juvenis. A mudança na lei reforçaria o status que eles próprios já reivindicam em casa diante dos pais: “Eu não sou mais criança”. E não é mesmo.

Para quem argumenta que de nada adiantará reduzir a maioridade penal para 16 anos, respondo com uma pergunta: longas penas para assassinos adultos acabam com o crime bárbaro? Não, claro. Então, vamos acabar com as cadeias porque elas são custosas e inócuas? Não, claro. Longas penas servem para reduzir a impunidade e dar às famílias de vítimas a sensação de que foi feita justiça. Não se trata de “vingança”. É um ritual civilizatório. Matou? E ainda por cima por motivo torpe? Tem de pagar.

Um argumento popular contra a redução da maioridade penal para 16 anos é: e se um adolescente de 14 ou 15 anos matar alguém, mudaremos de novo a legislação? Sempre que escuto isso, lembro um caso na Inglaterra, em 1993. Dois garotos ingleses de 10 anos foram condenados à prisão perpétua por ter mutilado e matado um menino de 2 anos. A repercussão foi tremenda. Os assassinos foram soltos após oito anos de prisão. Mas não foram tratados com benevolência no julgamento. O recado para a sociedade era claro: não se passa a mão na cabeça de quem comete um crime monstruoso. Mesmo aos 10 anos de idade.

Outro argumento comum no Brasil contra a redução da maioridade penal afirma que só com boa educação e menos desigualdade social poderemos reduzir a criminalidade juvenil. Essa é uma verdade parcial. Há muitos países pobres em que jovens assaltam, mas não matam por um celular ou uma bicicleta. Eles têm medo da punição, medo da Justiça. Também acho injusto atribuir aos pobres uma maior tendência ao crime bárbaro. Tantos ricos são bandidos de primeira grandeza... Melhorar a educação e reduzir a pobreza são obrigações. Isso não exclui outra obrigação nossa: uma sociedade que valoriza a vida e a honestidade precisa acabar com a sensação de que o crime compensa. Para menores e maiores de 18 anos.

Os filósofos de plantão que nunca perderam o filho num assalto apelam à razão. Dizem que não se pode legislar sob impacto emocional. Ah, sim. Quero ver falar isso diante de Marisa e José Valdir Deppman, pais enlutados de Victor Hugo, que ouviram o tiro de seu apartamento, no 9º andar. Uma família de classe média que livrou o filho da asma com plano de saúde privado e investiu com esforço em seus estudos. A mãe falava com Victor Hugo todos os dias pelo celular. “Eu sempre falava para ele não reagir, porque a vida não vale um celular ou um carro. Ele não reagiu, mas foi morto. Estou estraçalhada por dentro.”

Victor Hugo, o Vitão, era santista fanático, um dos artilheiros do “Inferno vermelho”, apelido do time da Faculdade Cásper Libero, onde estudava rádio e TV. Sonhava em virar locutor esportivo e estava apaixonado. A câmera do prédio mostra o momento em que sua vida acabou. Mostra a covardia do rapaz, cujo nome nem pôde ser divulgado por ser “inimputável”. Na sexta-feira passada, o assassino de Vitão, infrator conhe- cido na Febem, completou 18 anos.

Seu futuro pode ser o mesmo do menor E., que, aos 16 anos, ajudou a matar no Rio de Janeiro, em 2007, o menino João Hélio. Ele pertencia ao bando que arrastou João Hélio pelas ruas, pendurado na porta de um carro que havia sido roubado de sua mãe. Após três anos numa instituição para jovens infratores, foi libertado. A Justiça o incluiu temporariamente num programa de proteção a adolescentes ameaçados de morte, o PPCAAM. Ridículo. Ezequiel Toledo de Lima foi preso em março de 2012, aos 21 anos, por posse ilegal de arma, tráfico e corrupção ativa. Ezequiel não tinha antecedentes criminais como adulto - apesar de ter matado com requintes de crueldade um menino de 6 anos. É ou não é uma inversão total de valores?


Dança do Passinho - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 15/04

Luciano Huck, observador atento das manifestações culturais nas favelas, está impressionado com o sucesso da Dança do Passinho, que junta elementos de funk e frevo.

— Pelas minhas andanças nas comunidades, é o movimento cultural mais forte que vi nestes últimos dez anos.

Campeonato...
Huck acredita que se trata de um movimento cultural pós-UPP:

— Os bons dançarinos ocuparam o posto de “reis do morro”, os “desejados do pedaço”, que no passado foi dos traficantes.

O apresentador vai levar para o programa o primeiro campeonato nacional de passinho.

A favor da oferta
O ministro Guido Mantega não concorda com os que dizem que as desonerações do governo são para estimular o consumo.

Diz que, do total de R$ 70 bilhões previstos para este ano em desonerações, R$ 30 bilhões são para estimular a oferta (desoneração da folha e do IPI de bens de capital, entre outras), e R$ 20 bilhões, para a demanda (IPI para automóveis e linha branca).

Nosso dinheiro nos EUA
Um parceiro da coluna ouviu de um funcionário do Consulado dos Estados Unidos no Rio:

— Para cada oito vistos concedidos a brasileiros, um emprego é criado... nos EUA.

Lá fora é um sucesso
Após o primeiro lugar na lista da livraria Barnes & Noble, o livro de Paulo Coelho “Manuscrito encontrado em Accra”, que não deslanchou no Brasil, chegou ao terceiro lugar de ficção capa dura da Publishers Weekly, a mais importante lista dos EUA.

Confissões de Daniel
Quinta agora, Daniel Filho começa a filmar “Confissões de adolescente”, baseado no sucesso editorial, teatral e televisivo dos anos 90.

O elenco principal será formado por: Sophia Abrahão, Malu Rodrigues, Isabella Camero e Clara Tiezzi.

O filme contará ainda com Cássio Gabus Mendes e participações das quatro da série da TV Cultura: Deborah Secco, Daniele Valente, Georgiana Goes e Maria Mariana.

Aliás...
Maria Mariana, autora do livro “Confissões de adolescente”, vai fazer um documentário sobre o tema.

Réu danadinho
A Quinta Turma do STJ julgou semana passada uma ação inusitada.

Um réu do Paraná, que contrabandeou 50 caixas de Viagra, o remedinho da saliência, pediu para que a ação penal fosse trancada. Alegou que era “uma questão irrisória”.

O tribunal manteve a ação.

Carnaval 2014
Christiane Torloni deve ser a rainha da bateria da Grande Rio.

Perigo que vem do ar
A administradora Maria Eduarda Oliveira deu queixa na 14ª DP (Leblon) contra a operadora do heliponto da Lagoa, Helisight, depois de ter sido derrubada de sua bicicleta pelo deslocamento de ar de um helicóptero.

Na hora ela não estava pedalando na ciclovia. Tinha parado atendendo ao alerta de um funcionário do heliponto.

De volta
O ex-PM Marcos Vieira Souza, o Falcon, aquele que hasteou a bandeira do Brasil na conquista do Complexo do Alemão, será reintegrado à corporação.

Acusado de ser ligado a uma milícia, ele foi absolvido pelo Conselho Disciplinar e também pelo juiz André Ricardo de Francisco, da 28ª Vara Criminal do Rio.

Jornada Mundial
A jovem Karen Keldani foi escolhida pela Arquidiocese do Rio para cantar na missa de abertura da Jornada Mundial da Juventude, dia 23 de julho, em Copacabana.

Ela foi revelada na Igreja da Ressurreição, no Arpoador.

Viva Tom!
O Prêmio da Música Brasileira vai homenagear Tom Jobim, dia 12 de maio, no Teatro Municipal do Rio.

Depois, haverá uma turnê itinerante do prêmio, patrocinado pela Vale. No Rio, o show será no dia 10 de julho, na Cidade das Artes.

Noite brasileira
O Lutetia, hotel cinco estrelas em Paris, está fazendo uma homenagem ao Brasil.

Na noite de quinta-feira, com o saxofonista Raul Mascarenhas tocando pelas galerias do hotel, foi inaugurada a exposição “Magic Brésil”, com cinco artistas brasileiros, entre eles Tuca Reinés e Tina Machado, que expõe fotografias do Rio.

Loucos de antigamente - JOSE DE SOUZA MARTINS

O Estado de S.Paulo - 15/04

O prédio do Hospício de Alienados ainda está lá, no Parque Dom Pedro II, erguido em taipa socada, vazio e abandonado, à espera de que num dia destes um temporal o ponha abaixo. Entristece as noites paulistanas como fantasma de outros tempos, assombra nossa consciência e nossa desmemória. Mulheres e homens que ali penaram e ali morreram ainda sussurram em seus corredores e cômodos os lamentos de sua solidão e de seu abandono, prisioneiros que foram de sua própria mente. Considerados loucos, foram ali confinados até o fim de seus dias.

"De músico, poeta e louco, todos têm um pouco", diz o refrão popular. Mas, só há pouco mais de 150 anos é que aqui em São Paulo os loucos passaram a ser considerados propriamente loucos, isto é, doentes. Até então, louco era considerado criminoso e colocado na cadeia, junto com ladrões e assassinos. Antes disso, no século 18, loucura era crime contra a religião. Coisa de hereges, de dissidentes e pactários, gente que fizera pacto com o diabo e ficara endemoninhada. Um sapateiro e traficante de escravos, Antonio da Costa Senra, imigrado dos Açores, foi aqui preso em 1782 e enviado para a Inquisição, em Lisboa, para eventualmente ser queimado vivo, porque se considerava enganado por Deus, que o fizera pobre em vez de fazê-lo rico. Dizia coisas sem nexo contra a religião. Era suspeito de ter vendido a alma a satanás em troca de riqueza.

Só em 1851 ganhou corpo a consciência de que loucura é doença e de que os loucos precisavam ser separados dos condenados. Alugou para isso o governo um sobrado na Rua de São João, esquina da Rua Aurora, contratando um médico para tratar dos enfermos. Prédio acanhado e impróprio, foram os loucos transferidos, em 1862, para o casarão ao pé da Rua da Tabatinguera, onde estivera antes o Seminário de Educandos, à beira do Rio Tamanduateí. Com adaptações, é o casarão que lá existe até hoje. Recebia pobres e ricos, escravos e livres, adultos e até crianças consideradas loucas! Muitos, trazidos do interior. Louco era o demente, isto é, o sem mente, e as consideradas pessoas de "miolo amolecido", diziam os diagnósticos da medicina de então, o "miolo mole", da linguagem popular de ainda hoje.

Ali morreu de meningite o poeta abolicionista Paulo Eiró, em 1871, que enlouquecera de amor por uma prima que se casara com outro. Mas ali morreu, em 1876, também louco, seu irmão, o padre Casimiro Antonio de Matos Sales, que fora coadjutor de Santo Amaro e político liberal. Morreram relativamente moços e foram sepultados no Cemitério da Consolação. Em versos de amor, Paulo Eiró dissera: "Pobre! Não chegará à primavera: aguarda sem gemidos, sem um grito, que uma réstia do sol da eterna esfera te arranque ao sonho aflito".

O Hospício foi transferido para uma fazenda no Juqueri, em 1903.

Nostalgia - LÚCIA GUIMARÃES

O Estado de S.Paulo - 15/04


Doutor, o homem da 'ciclopédia' tá na porta.

Ouvia a sola de borracha dos sapatos Vulcabrás cruzando apressados o corredor para a sala de visitas, onde o homem já estava instalado no sofá meio puído. O nome a gente não lembrava, afinal, mais do que um Francisco ou um João, ele era o homem da Britannica. Meu corpo franzino ficava tenso. Por que a chegada do homem plantava gotinhas de suor na testa do meu pai?

Porque o valor das 24 prestações era assustador para um médico funcionário público que tivera cinco filhos. Porque o vendedor não ia embora nunca sem arrancar a assinatura do meu pai, vencido por seu horror a confronto, envergonhado por não ganhar melhor. O ritual se repetia a cada três ou quatro anos, quando o homem voltava para nos convencer de que a família precisava de uma Britannica zero quilômetro. Nunca tivemos a nova edição de um carro, meu pai comprou seu primeiro automóvel aos 70 anos. Mas a nossa Britannica, de tempos em tempos, era zero quilômetro e a estante ocupava lugar de destaque maior do que o da cristaleira.

Quando uma edição comemorativa trouxe como bônus a réplica da primeira Enciclopédia Britannica, só faltou vestirmos roupa melhor para abrir a caixa. Eram apenas três volumes que haviam sido publicados em série, entre 1768 e 1771, como Um Novo e Completo Dicionário de Artes e Ciências. O nervosismo com a nova dívida contraída foi combatido com longas sessões de assombro diante da clareza da cultura científica estampada nas páginas artificialmente amareladas. "Leia o verbete Brasil, com 's'!", dizia o meu pai, mantendo a TV desligada. Eu obedecia, não porque estivesse fascinada com o inglês arcaico, descrevendo a colônia "de onde sua majestade portuguesa tira uma renda muito considerável". Se o orçamento da casa tinha de ser apertado para acomodar uma coleção de livros que raramente resolviam minhas dúvidas nos trabalhos de escola, havia ali um valor transcendente, estampado na expressão paterna e era preciso demonstrar apreço pela aquisição.

Acabo de me dar conta, pela primeira vez, de que a réplica da Britannica do século 18 repousa hoje próxima a uma cristaleira na minha sala de jantar. Faço refeições olhando para ela. Continuo não consultando a enciclopédia.

O prefácio começa assim:

"Utilidade deve ser a principal intenção de toda publicação. Onde esta intenção não aparece com clareza, nem os livros nem os autores terão o menor direito à aprovação da espécie humana".

O princípio, expresso por autores impregnados do Iluminismo, reunidos para compilar o conhecimento humano naquele século, não me perturba. Não abro mão da presença dos volumes que perderam a função utilitária. Mas não a sua relevância. Se a sua noção do proveitoso abraça mais do que um abridor de garrafas ou um caixa automático, o leitor há de entender por que a enciclopédia continua lá.

Esta semana assisti, pela enésima vez, a Maridos e Esposas, de Woody Allen. A reação angustiada de Gabe, vivido pelo diretor, me chamou mais atenção do que de costume: "Mudança é igual à morte", proclama ele, ao ouvir Mia Farrow se queixar da mesmice do casamento, quando, na verdade, está mais do que pronta para cair fora. Mudança não é igual à morte, naturalmente, mas o protesto do personagem Gabe soa cada vez mais sensato. Ele não defende a volta a um tempo em que não existia penicilina. Mas mudança pode ser a morte do que nos é caro. E a morte do que nos é caro, a despeito de ser ou não inevitável, só pode ser enfrentada com luto.

QUESTÃO DE TEMPO - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 15/04

Nove em cada dez pessoas com câncer de estômago e esôfago que diagnosticam a doença em estágio inicial conseguem se curar, segundo estudo que será apresentado amanhã em SP. A pesquisa, feita com 653 pacientes do hospital A.C.Camargo entre 2000 e 2012, mostra, porém, que a detecção precoce ocorre em apenas 25% dos casos.

QUESTÃO DE GÊNERO
Do total, 64% dos pacientes eram homens, segundo o cirurgião Felipe Coimbra. A instituição intensificará campanhas informando que azia e mal-estar recorrentes devem ser investigados. E que a prevenção começa na alimentação. Deve ser reduzido o consumo de sal, carnes defumadas, condimentos, álcool e bebidas muito quentes, como chás e chimarrão. O cigarro também aparece como vilão.

DILMA LÁ
A ordem de auxiliares da presidente Dilma Rousseff de disseminar no Congresso Nacional que a indicação de Luiz Fux para o STF (Supremo Tribunal Federal) foi "herança" de Lula não decola no PT. O ex-presidente sempre torceu o nariz para o magistrado. Dizia que uma pessoa apoiada ao mesmo tempo por Delfim Netto e João Pedro Stedile, líder do MST, como era o caso, não poderia ser confiável.

DILMA LÁ 2
O próprio Fux, em entrevista à Folha, disse que foi escolhido por Dilma e que Lula não o apoiou. Usava o argumento para negar que havia prometido absolver José Dirceu no caso do mensalão e mostrar que o petista não trabalhou por ele. Caso contrário, o ex-presidente o teria nomeado em 2010.

PALOCCI GARANTE
Antes de ser escolhido, já no governo de Dilma, Fux foi recebido por ministros do governo dela como José Eduardo Cardoso, da Justiça, e Antonio Palocci, então poderoso ministro da Casa Civil. A palavra que mais pesou para que a presidente nomeasse Fux foi a de Palocci, que trabalhou arduamente para que ele fosse o escolhido.

POÇO
A Petrobras investirá R$ 247 milhões em 176 projetos de cidadania e ambientais. Ao primeiro segmento serão dados R$ 145 milhões; ao segundo, R$ 102 milhões. O anúncio simultâneo será feito na quarta no Rio, em Salvador e em Brasília.

SAMBA E SPRAY
O grupo Sambô, que canta "Toda Forma de Amor", de Lulu Santos, tema de abertura da nova novela das sete da TV Globo, "Sangue Bom", se apresentará na festa de lançamento da trama, na quarta, em São Paulo.

A dupla Os Clandestinos, da canadense Shalak e do brasileiro Smoky, vai grafitar um painel de 2 m inspirado no protagonista Bento (Marco Pigossi) durante a noite.

A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA
Luis Terepins, presidente da Fundação Bienal, e Danilo Santos de Miranda, presidente do Sesc-SP, costuraram parceria para levar obras da 30ª Bienal a São José do Rio Preto, Bauru, Araraquara e Campinas a partir de amanhã.

"Juntamos a fome com a vontade de comer", diz Terepins. Com a circulação de trabalhos de 35 artistas, as duas instituições "dão uma oportunidade que raramente é oferecida a quem mora no interior do Estado", completa Miranda.

DILEMAS DE FAMÍLIA
A peça "Deus da Carnificina, Uma Comédia sem Juízo", com Julia Lemmertz, Deborah Evelyn, Paulo Betti e Orã Figueiredo, estreou temporada popular na quinta, em São Paulo. As atrizes Lucy Ramos e Ellen Roche e o diretor teatral José Possi Neto compareceram à sessão, no teatro Sérgio Cardoso.

MAGAZINE
A loja inglesa Topshop Topman inaugurou filial no shopping Iguatemi. Os diretores criativos da grife, Kate Phelan e Gordon Richardson, receberam a atriz Priscila Sol, o cantor Wilson Simoninha, a apresentadora Cuca Lazarotto e o arquiteto Matheus Ribeiro na festa, que teve show da banda Stop Play Moon e discotecagem de Luca Lauri.

CURTO-CIRCUITO
A exposição "Olhar a Toda Prova", com fotos de esportes olímpicos, será aberta hoje, às 19h30, no centro cultural da Fiesp, na avenida Paulista.

"Hoje", filme de Tata Amaral, terá estreia para convidados às 19h30, no Espaço Itaú do Frei Caneca.

Os institutos 5 Elementos e Alana fazem debate sobre educação e consumo, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

O Sesc Pompeia abre mostra do turco Hüseyin Bahri Alptekin a partir do dia 25.

A Mostra Black, de arquitetura e paisagismo, será entre maio e julho, com patrocinadores como WTorre, Dellano e Deca.