sábado, fevereiro 16, 2013

Um estilo próprio - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 16/02

A ideia por trás da oferta de compra da Heinz pelo fundo 3G e pelo grupo de Warren Buffett é a que tem acompanhado o grupo brasileiro: os investidores mais ativos estão olhando bons gestores e o mercado de alta tecnologia; por isso eles apostam em gestão de excelência, mas em mercados de consumo de massa. Assim eles construíram um império com vários ramos.

Portanto, não é estranho que eles tenham olhado para a Heinz. O movimento tem coerência com o que fizeram quando compraram o Burger King, vindos do setor de bebidas. Aliás, ontem o Burger King anunciou em Nova York um aumento de 94% no lucro do último trimestre do ano.

O empresário Jorge Paulo Lehmann começou com o Banco Garantia nos anos 1980, que acabou vendendo para o Credit Suisse, banco no qual havia iniciado como estagiário. Lehmann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, os três do 3G, estão há bastante tempo em mercados de consumo de massa com as Lojas Americanas e a velha Brahma. Quando o "Financial Times" deu como manchete que Buffett e Brazil Tycoon (Buffett e magnata brasileiro) fizeram uma oferta pela Heinz, estava simplificando o que é complexo. Lehmann não é apenas um magnata brasileiro indo às compras.

O 3G é um grupo formado por brasileiros com uma rede de negócios globalizados. Eles continuam tendo escritório no Brasil, parte dos negócios é aqui, mas a sede do 3G é Nova York. A cervejaria, que um dia foi do Rio e depois comprou a paulista Antartica e se transformou na Ambev, fez novas compras no exterior, inclusive a americana Anheuser Busch. Hoje, o grupo AB Inbev é controlado pelo 3G e por 300 famílias belgas. A maioria do capital é dos belgas mas a gestão ficou sempre com os brasileiros. Virou a maior cervejaria do mundo em volume de vendas.

Eles são, como disse Warren Buffett em entrevista, "os caras da operação" ou "os que farão todo o trabalho". Essa sempre foi a marca que levaram do Brasil: uma gestão de resultados. Eles investem muito em "pessoas excelentes que fazem extraordinária diferença", como definem internamente. Acreditam em estrutura de gestão sofisticada, muita disciplina, foco no resultado e estrutura espartana em torno dos seus executivos. Ninguém tem sala, carro, avião. Pelo menos no corporativo. Os luxos são privados.

A imprensa no Brasil diz que os dois investidores - Jorge Paulo e Buffett - se encontraram num voo por acaso, em dezembro, e começaram a conversar sobre isso; o "Financial Times" diz que eles se encontraram no conselho da Gillette, do qual fazem parte. Lehmann e Buffett são amigos, encontram-se com frequência, são sócios, têm inúmeras ocasiões para conversar.

Buffett é o que é: surpreende, ousa, aposta. Seu Berkshire Hathaway é um conglomerado com mais de 70 negócios adquiridos em 40 anos. Na entrevista que concedeu à CNBC, ele disse: "Estou pronto para um novo elefante, se você encontrar algum andando me conte." Portanto, a Heinz foi o elefante da vez, mas não o último do investidor.

O site Beyondbrics avalia que não se deve esperar novas grandes aquisições de brasileiros no exterior, lembrando que a Vale está há dois anos retraída, e o JBS, que fez a compra do Pilgrim´s Pride fortemente apoiado pelo BNDES, não parece estar com novos planos. Qualquer correlação com outros movimentos de empresas brasileiras não faz muito sentido, porque o private equity é há muito tempo um grupo globalizado.

O empresário Jorge Paulo Lehmann e a cultura empresarial que consolidou com seu grupo de amigos e sócios não é o Brasil indo às compras. Ele tem seu jeito de fazer negócios que não se parece muito com a cultura da maioria das grandes empresas brasileiras.

Perdendo o bonde - KOLF KUNTZ

O ESTADO DE S. PAULO - 16/02
O fim da crise global poderá ser o marco de mais um fracasso brasileiro. Enquanto governos mais sérios tentam criar os alicerces de uma nova fase de prosperidade, Brasília continua discutindo a guerra cambial e brigando no Fundo Monetário Internacional (FMI) para adicionar alguns pontos de porcentagem a seu poder de voto. Nenhum país poderoso mudará sua política monetária ou fiscal para evitar reflexos no câmbio, nem a limitada redistribuição de votos afetará os ramos do FMI ou servirá ao desenvolvimento brasileiro. Economias emergentes e em desenvolvimento já têm votos mais que suficientes para exercer um respeitável poder de barganha. Mas só as autoridades brasileiras parecem acreditar num bloco dos Brics ou agem como se houvesse um alinhamento automático de países do Norte e do Sul. Pior para o Brasil. Quando o mundo entrou em recessão, em 2008, o País parecia um time promissor a caminho da primeira divisão. Poderá estar no rumo da terceira, quando o mundo rico voltar a crescer e a China tiver avançado em seus ajustes.

Nesse momento, os emergentes mais dinâmicos e governados com mais seriedade, incluídos alguns latino-americanos, já estarão ocupando seus lugares para a nova etapa de prosperidade. No meio da crise, uma economia mundial mais dinâmica está sendo forjada, com programas de reformas e novos pactos comerciais entre blocos e países de todas as regiões.

A recém-anunciada negociação de um acordo de comércio e investimentos entre Estados Unidos e União Européia, os dois mercados mais ricos e mais desenvolvidos, é parte desse esforço de remodelação. As conversações entre países desenvolvidos e em desenvolvimento para a criação de uma Parceria Trans-Pacífico são um empreendimento aparentemente menos ambicioso. Mas essa iniciativa se soma a várias outras manobras para integração das economias da Ásia e do lado ocidental das Américas - com riscos evidentes para o comércio brasileiro, já afetado na vizinhança pela forte concorrência da China e de outras potências orientais.

O presidente Barack Obama citou as duas negociações em seu pronunciamento sobre o estado da União. Houve reações divergentes em Brasília. Alguns diplomatas apontaram o projeto comercial de americanos e europeus como um novo estímulo para a busca de acordos relevantes ou, no mínimo, para a conclusão das conversações entre Mercosul e União Européia. Mas também houve quem menosprezasse a novidade e até duvidasse da formação do megabloco do Atlântico Norte.

Quanto a um ponto, pelo menos, parece haver coincidência de opiniões no governo: qualquer nova iniciativa do Brasil e de seus parceiros regionais dependerá da solução de problemas do Mercosul. Em termos concretos, o Brasil está amarrado aos problemas da Argentina e, portanto, às ambições políticas e às trapalhadas econômicas da presidente Cristina Kirchner. Nenhum acordo de livre-comércio será celebrado pelo bloco, ou por qualquer de seus sócios, enquanto a Casa Rosada estiver comprometida com a ala mais protecionista dos empresários argentinos. Por enquanto, no domínio dos Kirchners, há apenas o aprofundamento das políticas em vigor. As barreiras comerciais permanecem, o controle de preços se amplia (já com problemas de abastecimento interno) e as estatísticas oficiais continuam sendo feitas à moda da casa.

Mas a presidente Dilma Rousseff e seus estrategistas internacionais parecem aceitar como natural, sábia e confortável a vinculação da diplomacia e dos interesses comerciais do Brasil a políticas desse tipo. Aceitaram o golpe contra o Paraguai e apoiaram a admissão da Venezuela no Mercosul pela porta dos fundos. A maior potência industrial da América do Sul depende, para fixar suas metas internacionais, da disposição de um governo vizinho populista, trapalhão e desacreditado internacionalmente. Basta a opinião desse governo, diante da passividade brasileira, para determinar os caminhos e descaminhos do Mercosul. Criado para servir à integração regional e facilitar a inserção de quatro países na economia global, o bloco transformou-se num trambolho, um entrave a qualquer esforço mais sério e mais ambicioso de diplomacia econômica.

O Mercosul limitou-se a acordos com economias em desenvolvimento, nem sempre no alto das prioridades comerciais, e orientados freqüentemente por preconceitos ideológicos. Nem os acordos com parceiros sul-americanos, os mais próximos, serviram de forma equilibrada à economia brasileira. Nem mesmo contribuíram para dificultar o ingresso crescente de produtos fabricados na Ásia. Essa invasão tem ocorrido mesmo no interior do bloco, onde o protecionismo argentino tem deslocado produtos brasileiros em favor de mercadorias fabricadas no Oriente.

Com o fracasso da Rodada Doha, o Brasil perdeu sua principal aposta no jogo das negociações. Nada sobrou além de um regionalismo de baixo retorno e de um terceiro-mundismo de centro acadêmico. A América do Sul ainda é o principal destino das exportações brasileiras de manufaturados, mas até nesse terreno o País tem dificuldade para competir.

Sem a rodada global, os governos mais adultos negociam acordos bilaterais e regionais. Esses acordos podem até complicar o sistema multilateral, mas são o jogo disponível neste momento - e o Brasil está fora. Nada mudará enquanto o governo confundir política internacional com passeata e subordinar sua diplomacia a interesses imaginários de blocos inexistentes, a começar pelo Brics. Se olhasse mais para o inundo, esse governo estaria de fato muito mais preocupado com as vantagens e desvantagens comparativas do Brasil e menos empenhado na retórica inútil da guerra cambial.

O papa Bento XVI anunciou a intenção de se isolar depois de abandonar o Vaticano. Dificilmente estará mais distante do mundo num convento do que estaria no Palácio do Planalto.

Abram alas para o agro - KÁTIA ABREU

FOLHA DE SP - 16/02

O agronegócio é o responsável, há anos, pelos sucessivos superavit da balança comercial


Quando a Unidos de Vila Isabel adentrou o Sambódromo, às 5h40 da terça-feira de Carnaval, já o personagem homenageado em seu samba-enredo, o homem do campo, estava em plena labuta.

Não pôde assistir ao vivo a homenagem. Acorda-se cedo no meio rural. Ao alvorecer, todos já estão a postos.

E mesmo feriados como o do Carnaval não interrompem a produção, que põe na mesa do brasileiro a melhor e mais barata comida do mundo.

O belíssimo enredo "A Caminho da Roça", com que a Vila Isabel venceu o desfile carioca, admirado em todo o mundo, fez, enfim, jus a um segmento da sociedade brasileira historicamente negligenciado (e vilipendiado) por parcela influente das classes cultas, em nome de interesses político-ideológicos.

A luta pela estatização do campo, projeto antigo da esquerda revolucionária, tenta atribuir ao produtor rural a responsabilidade pelas mazelas sociais do país, quando a realidade é justo o oposto.

Nenhum outro segmento contribui tanto para o desenvolvimento econômico e social do país.

Senão, vejamos: é o agronegócio o responsável, há anos, pelos sucessivos superavit da balança comercial brasileira e responde também por 30% dos empregos formais do país.

Nosso superavit anual nas exportações é de US$ 79,4 bilhões; o superavit final do país é de US$ 19,4 bilhões, o que significa que o agro financia os US$ 60 bilhões de deficit dos outros setores. Dá cobertura, por exemplo, aos US$ 22,2 bilhões que os turistas brasileiros gastam lá fora, enquanto os estrangeiros deixam aqui apenas US$ 6,6 bilhões.

Mais: o agro brasileiro é hoje modelo em todo o mundo. Estudo sobre produtividade agrícola em 156 países, publicado pelo Ministério da Agricultura dos Estados Unidos (USDA), constata que o crescimento desse setor entre nós foi, na década de 2000, de 4,04%, enquanto a taxa mundial no mesmo período foi de apenas 1,84%.

Deve-se isso ao aporte tecnológico e à dedicação ao trabalho -dedicação exaltada pelo enredo da Vila Isabel: "Semear o grão.../saciar a fome com a plantação/é a lida.../arar e cultivar o solo/ver brotar o velho sonho/alimentar o mundo/bem viver/a emoção vai florescer", diz um trecho do samba, cantado pelos milhares de foliões que lotaram as arquibancadas do Sambódromo.

Não obstante, ao setor se quer imputar a herança colonial-escravagista do país, rotulando-o como atrasado, quando, inversamente, é o que mais incorpora tecnologia de produção e mais investe no aprimoramento de sua mão de obra.

Acusam-no de predador ambiental, num país que preserva nada menos que 61% de seu território com cobertura vegetal nativa e utiliza menos de um terço (27,7%) para a produção de alimentos.

Nenhum outro país exibe números sequer aproximados.

A Amazônia, foco da cobiça internacional -e obsessão dos ambientalistas a serviço de ONGs estrangeiras-, teve reduzidos, de 2004 para cá, em nada menos que 84% os desmatamentos.

Ninguém preserva -e conhece- mais a natureza e o ambiente que quem deles depende para sobreviver: o homem do campo. Daí o absurdo das acusações que lhe são assacadas.

Na linguagem do samba, pode-se dizer que o agro tem sido a comissão de frente da economia brasileira. Não atravessa o ritmo e garante há anos o desfile da vitória do desenvolvimento do país.

É, pois, inadmissível que não tenhamos ainda um sólido sistema de seguro agrícola e que se expulsem produtores rurais de suas terras em nome de uma antropologia ideologizada e ultrapassada, que conspira contra o bem-estar social.

E ainda: que tenhamos os portos mais ineficientes do mundo, graças a uma minoria que defende interesses particulares em prejuízo do país.

A homenagem da Vila Isabel representa um importante -e justíssimo- reconhecimento do Brasil urbano e popular a um segmento que, como nenhum outro, o tem servido com competência e dedicação.

E que, mesmo enfrentando forças obscurantistas e poderosas, não deixará de fazê-lo jamais.

Aos que jogam contra o país, nosso lema é: abram alas!


Cenas inéditas no Vaticano - ALBERTO DINES

GAZETA DO POVO - PR - 16/02

Renúncia, hipocrisia, renovação – palavras-chave de uma semana fadada desde já a entrar na história não apenas da Igreja Católica, mas também do pensamento ocidental. O ponto alto do pontificado de Joseph Ratzinger não foi sua ascensão como Bento XVI, mas a forma escolhida para retomar o seu nome de batismo e encerrar a sua missão formal.

Em abril de 2005 os vaticanistas – especialistas em assuntos seculares da Santa Sé – o classificaram prospectivamente como papa-tampão, transitório. Previam um mandato linear, desatentos à extensa e sutil gama de elementos espirituais geralmente postos a serviço dos intelectuais alemães. Geist, em seu idioma, é muito mais do que “alma”; é também moral, refinamento, entendimento superior, transcendência.

Na segunda-feira, a palavra usada para descrever a decisão papal foi “renúncia”; mais exato seria o substantivo “abdicação”: o sacerdote Joseph Ratzinger abriu mão do poder num mundo cada vez mais polarizado em busca de poderes, mas não capitulou como ser pensante, sensível, responsável, com uma noção muito clara dos deveres humanos.

Os pretextos iniciais de doença e fragilidade ou não foram bem entendidos no latim do primeiro comunicado ou foram interpretados na escala de valores simplista da comunicação contemporânea. A verdade é que dois pronunciamentos depois este senhor de 85 anos, alegadamente debilitado, estava em plena forma.

Na última quinta, durante 45 minutos, naquele que deverá ser o último encontro com o clero da diocese romana, com extraordinária firmeza convocou a Igreja para uma “verdadeira renovação”. E ainda teve ânimo para enfocar questões altamente controversas e delicadas, como as distorções da mídia na cobertura do Concílio Vaticano II (1962-1965) e a responsabilidade dos católicos alemães no Holocausto.

O sermão na missa da Quarta-Feira de Cinzas, talvez o último, conteve uma candente denúncia contra a hipocrisia religiosa e foi consagrado por uma ovação dos presentes, de pé, estendida ao longo de vários minutos. Cena raramente vista no Vaticano.

As corajosas opções de Ratzinger acionam naturais remissões históricas e não apenas no tocante a um Gregório XII forçado a renunciar há cerca de 600 anos para evitar uma fatal fragmentação da Igreja. Mais recentemente, há apenas 500 anos, outro sacerdote e teólogo alemão, igualmente bem fundamentado, denunciou a hipocrisia que imperava na Cúria Romana sob a forma de venda de indulgências.

Martinho Lutero foi excomungado pela Igreja, perseguido pelo imperador, resistiu e produziu o maior cisma dentro do cristianismo. Nem tudo o que pregou estava correto; a epilepsia ou a megalomania o distanciaram dos princípios éticos da sua cruzada anticlerical, mas a sangria do cisma luterano não pode ser desconsiderada mesmo meio milênio depois. A humanidade é a mesma.

Ao clamar contra a hipocrisia e proclamar a necessidade de renovação em seguida à inesperada abdicação do imenso poder pontifício, Joseph Ratzinger exibe surpreendente rejuvenescimento. Sereno, desafiante, mostra aos vaticanistas e aos que neles confiam que a transição começa agora.

Terminado o pontificado, pode começar um apostolado. Esta também é uma situação inédita nos anais do Vaticano.

O escândalo do cavalo-boi - GILLES LAPOUGE

O ESTADO DE S. PAULO - 16/02

A Europa lançou uma enorme perseguição dos culpados, dos "bandidos" que levaram ingleses, franceses, noruegueses ou italianos a ingerir congelados de carne de boi fabricados na realidade com carcaças de cavalo.

Como os circuitos dessa fraude colossal, comas dimensões de um continente, estão tão entrelaçados como um nó górdi, .a localização dos verdadeiros responsáveis exigirá tempo, dias e semanas. A espera da conclusão da impossível investigação, surgem os rumores: todos os integrantes do enorme mercado da carne congelada européia só tem uma preocupação: explicar que o culpado é o outro.

Entre eles está um que, desde o início do escândalo ocupa o lugar do

"culpado ideal": a Romênia. Em primeiro lugar, os cavalos que foram encontrados sob o nome de "carne bovina" nas bandejas de congelados do continente inteiro, foram abatidos em dois abatedouros romenos, o "Doly Camp" e "Carmolimp".

Mas não é tudo. Os romenos, na Europa, têm péssima reputação. Os humoristas de Paris, Bruxelas ou Berlim têm o hábito de mostrar todos os romenos como "ladrões", "impostores", mendigos imundos e perversos prontos para pôr a mão na carteira dos ricos europeus. Há dois anos, no governo Sarkozy, o ministro francês do Interior Claude Guéant oficialmente alertou a França contra a "delinqüência romena".

Esta imagem sinistra dos romenos é estimulada pela presença dos Roms (ou ciganos), e todos esses saltimbancos, errantes vindos da Romênia e quase instalam com suas caravanas miseráveis em qualquer lugar, vivendo da mendicância ou de pequenos furtos, à espera de serem enviados de volta para seu país, depois do que retornam e recomeçam a roubar.

Portanto, desde que o escândalo eclodiu, toda a Europa aponta o dedo acusador para a Romênia. Ora, a investigação internacional que foi iniciada desmente radicalmente esta tese. Os romenos são inocentes.

Ingênuos. Os dois abatedouros não cometeram a mínima indelicadeza. Eles abateram os cavalos conforme lhes foi pedido e os enviaram, escrupulosamente rotulados, como "carne de cavalo" e não "carne bovina". Foi depois, em outros países, que o delito ocorreu.

Eis a triste verdade: os bandidos, os ladrões, os canalhas, não são os romenos, os "infames Roms, os ciganos ladrões de galinhas". Não! São os maravilhosos ingleses, higiênicos, limpos e escrupulosos, os bravos franceses, delicados e honestos, os holandeses de olhar azul, transparente e leal! E o mundo ao avesso. Confiar em quem, meu Deus? Uma vez que temos um país, a Romênia, talhado sob medida para assumir o papel de "bode expiatório", culpado de todas as canalhices cometidas na Europa, eis que este "bode expiatório" se revela tão puro como os lírios do campo.

Parece que estamos ouvindo uma parábola do Novo Testamento e que logo vai seelevar a vozde Jesus chamando os "fariseus" tão decentes, piedosos, tão devotados à lei, de hipócritas./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

A pureza pela metade - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 16/02

BRASÍLIA - O novo partido político a ser lançado hoje pela ex-senadora Marina Silva não deseja receber doações eleitorais de empresas "sujas". Estão excluídos fabricantes de bebidas alcoólicas, cigarros, armas e agrotóxicos.

A ideia é oferecer aos eleitores uma opção mais pura na corrida presidencial de 2014. Além de representar "um novo mundo possível", Marina também rejeitará um certo tipo de dinheiro.

O marketing é bom, mas a pureza oferecida está pela metade.

Empreiteiras, por exemplo, ficaram fora do "índex marinista". Em 2010, a Andrade Gutierrez doou R$ 1,1 milhão para a campanha presidencial de Marina. A Camargo Corrêa entrou com mais R$ 1 milhão.

A Andrade Gutierrez é responsável pela construção da usina nuclear Angra 3. Conclui-se, portanto, que a nova legenda aceita de bom grado dinheiro relacionado à energia nuclear -para não citar outras encrencas relacionadas a empreiteiras.

Outro exemplo é a Suzano Papel e Celulose. A empresa é muito criticada por alguns ambientalistas que a acusam de ser uma poluidora de rios. Em 2010, deu R$ 532 mil para Marina. Poderá repetir a dose em 2014.

Há mais casos. Não caberiam todos aqui. A rigor, o dinheiro de todas as grandes empresas do país será sempre incompatível com o purismo pretendido por Marina e sua nova legenda.

Essa inconsistência na fórmula de recebimento de doações não significa risco certo de fracasso para o projeto de eleger Marina presidente no ano que vem. Apenas expõe uma entre muitas fragilidades na ainda incipiente candidatura.

Para ter sucesso em 2014, Marina precisa acumular forças e vitaminar seu projeto político. Não é obrigada a ganhar o Planalto. Basta receber mais votos do que em 2010. O problema é que, quando se olha o cenário atual, essa parece ser uma missão difícil para a ex-senadora.

Estamos todos em crise - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR -16/02

A renúncia de Bento XVI abriu a porteira para profetismos tolos. Fala-se do “mal-estar das instituições”. É uma meia- verdade. Igreja, família, imprensa, escola resistem a um modelo de mundo corroído e sem projeto


Na última semana, o mundo viu surgir, súbito, uma legião de vaticanistas, sociólogos e antropólogos da religião, profetas do fim do catolicismo. Como que num mercado de peixes, fizeram um alarido próprio para esses tempos regidos pela instantaneidade das redes sociais. Seria engraçado, não fosse trágico. O “imaginário da crise” – forjado agora em torno da renúncia do papa Bento XVI, mas ontem ou anteontem ao redor de qualquer assunto da hora – só vem confirmar a incapacidade epidêmica de pensar o mundo como fenômeno, e não apenas como fato.

Essa crise – a do pensamento – é muito maior que todas as outras. E, para desalento geral, tem raízes profundas, que não neutralizaremos apenas com o botão do “curtir”, ou algo que valha. Vivemos, com todas as letras, tempo de desamparo profundo, o desamparo próprio do individualismo, ao qual nos abraçamos como que a um copo de veneno. Ele nos mata em gotas. E impede de entender o tempo e a história para além das nossas divisas umbilicais. Se há crise, essa é de valores. É mais grave que mísseis ou catástrofes climáticas. Vale lembrar a síntese esboçada pelo filósofo Adauto Novaes, ao dirigir o seminário “Civilização e barbárie”. O ponto em que nos encontramos é de que o mundo esqueceu o passado e perdeu de vista o que espera do futuro. Ora, foi sobre essas duas condições que se consolidou o que chamamos de modernidade. Procurávamos um destino comum, ao qual balizávamos com o que vinha antes e o que viria depois. Sem essa dialética, o presente vale por si mesmo, o que redunda numa tremenda cilada.

O preço, continua Novaes, é que chafurdamos no naturalismo e no artificialismo. Tudo pode. As razões de foro íntimo se sobrepõem às razões morais, reiterando o que Richard Sennett chamou de “o declínio do homem público”. Tanto a naturalidade extrema quanto a percepção epidérmica da vida se colocam contra a cultura, sem a qual nos vemos entregues à nossa própria miséria. E não estamos longe disso. Deixamos de crer na política como caminho para pactuar a convivência com o outro. Aceitamos relações sociais que nascem e morrem como as moscas. As explicações sobre toda e qualquer coisa são dadas pela técnica, em detrimento das humanidades e mesmo da teologia. Seguimos nos contentando com a abstração, o efeito, o impacto. Serão passageiros, como no mais, o resto. Assim, não caminha a humanidade.

Essa ética “presentificada”, que acaba onde começa, impede a sociedade de fazer projetos. E, sem projetos, resta a indiferença – com folga o pior dos atentados ao mundo civilizado. Pode haver quem se pergunte o que o vazio existencial da pós-modernidade tem a ver com o barulho de bateria de escola de samba criado em torno da renúncia do papa Bento XVI. A resposta, obviamente, não pode ser encontrada em meio às toneladas de fogos de artifício soltas nos últimos dias, posto que turvam a visão. É preciso ir além. E ir além dói.

A propalada crise da qual tanto se fala quando o assunto é a Igreja tem obviamente suas peculiaridades. O Vaticano virou vidraça mais de uma vez. Mas, vista de maneira isolada, a situação fica distorcida. Os dilemas que assolam a Igreja antes de tudo assolam a própria sociedade. O discurso da universalidade – sentido próprio, inclusive, da palavra “católico” – diluiu-se no que muitos chamam de “guinada subjetiva”, o “show do eu” em que nos metemos, achando que aí residia o futuro. Não nos vemos mais como parte de um grande projeto comum – de cidade, de convivência, de moralidade –, preferindo um espetáculo solo.

Como escreveu certa vez o crítico literário Terry Eagleton, da alegria de nos vermos parte de uma natureza, sendo semelhantes irmanados pelos mesmos desafios, passamos a reivindicar o direito a um discurso solitário. Ser humano não é mais ser igual, é ser diferente, habitar pequenos cosmos, estar aquém. Ao resistir a esse manifesto suicida, a Igreja se vê pressionada a adotar doutrinas confortáveis e narcisistas. Não poderá.

Em tempo. A crise social que recai sobre a Igreja afeta do mesmo modo outras instituições. O relativismo que grassa por aí atinge o sentido da família, transformada em um slogan de propaganda; a escola, que tende a se converter num centro de treinamento ou num bunker de segurança; a imprensa, rejeitada como comunidade interpretativa. Estamos todos em crise. Nisso, estamos juntos.

Novo, mas nem tanto - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 16/02

Desafio para reunião de hoje da Rede Pró-Partido está em mostrar que agremiação não se apoiará só no patrimônio eleitoral de Marina Silva


Após conseguir perto de 20 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2010, sem eximir-se de alguma identidade ideológica, a ex-senadora Marina Silva -que escreve uma coluna semanal para esta Folha- detém capital político suficiente para se aventurar na construção de um novo partido.

Mais que isso, haveria algo de incompleto no espectro partidário brasileiro sem uma legenda capaz de representar as ideias e organizações que seu nome mobiliza.

Em tese, o lugar estaria reservado ao PV (Partido Verde), que, entretanto, terminou como legenda de aluguel de luxo na campanha de 2010. Logo se deu o choque entre líderes da sigla e o poder pessoal da candidata que acolheram.

Depois de muitos anos filiada ao PT, dessa passagem meteórica pelo PV e de alguma aproximação com o PPS, Marina Silva lança agora uma nova agremiação, provisoriamente chamada de Rede Pró-Partido (o nome será definido hoje, num encontro em Brasília).

Pelo benefício de um mínimo de estabilidade e clareza para o eleitor, é de esperar que a ex-senadora finalmente encontre uma plataforma sólida para suas aspirações.

A agremiação já surge com suas ambiguidades e contradições. Seria, em tese, o ponto de encontro dos que defendem uma visão mais contemporânea do desenvolvimento, atenta para a necessidade de que ele seja sustentável e para a assimilação de comunidades autônomas, hoje marginalizadas, no processo de criação de riqueza.

Ou seja, algo bastante diferente do modelo varguista que, grosso modo, persiste no presente governo federal: grandes obras de infraestrutura, algumas problemáticas do ponto de vista ambiental, aliadas ao paternalismo redistributivo para com populações mais pobres.

A "modernidade", ou "pós-modernidade", de Marina Silva contrasta, todavia, com outras circunstâncias. Em primeiro lugar, seu partido não deixa de surgir como instrumento de uma liderança pessoal, mais do que pela confluência de movimentos descentralizados e capazes de emitir luz própria.

Tanto é assim que já se notam dificuldades na atração de outros nomes representativos, como Eduardo Suplicy ou Heloísa Helena, para o partido "de" Marina. A preposição até agora faz sentido: a ex-senadora, mesmo em razão de seus inegáveis méritos, surge como espécie de "dona" da agremiação.

Diferentemente do PSD "de" Gilberto Kassab, que obteve sucesso instantâneo em arregimentar parlamentares disponíveis a um projeto confessamente sem ideologia, a sigla de Marina há de nascer pequena, sob a égide de um nome reconhecidamente forte nas urnas.

Não é a melhor receita para um partido político, mas é uma força nova, que certamente enriquece o debate e amplia o leque das escolhas sérias à disposição do eleitor.

De erro em erro, Argentina se isola - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 16/02

Cristina Kirchner governa de acordo com suas necessidades imediatas e sem levar em conta graves consequências para o país



Cristina Kirchner governa de acordo com suas necessidades mais imediatas e adota medidas “da mão para a boca”, com desprezo para as graves consequências para o povo argentino e a credibilidade do país. O piloto, nesses voos rasantes e temerários, é o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno.

Não é de hoje que a inflação tornou-se um problema para a Casa Rosada. Moreno, então, interveio no Indec (responsável pelos índices), que passou a produzir taxas fajutos de 10% ao ano. A inflação real, hoje de 25% e em alta, continuou sendo calculada por consultorias privadas, até que elas foram ameaçadas de processo penal pelo governo. Com isto, passaram ao Congresso a tarefa de divulgar os números. O país passou a ter dois índices — o oficial, que ninguém leva a sério, e o do Congresso. Como resultado, a Argentina já foi formalmente advertida pelo FMI e corre o risco até de ser afastada do Fundo.

Quando a manipulação dos índices se tornou insuficiente, o governo recorreu a Moreno para congelar os preços, a princípio até 1º de abril. As consequências não tardaram: começaram a faltar produtos nas prateleiras da Grande Buenos Aires. O desabastecimento é um subproduto inevitável do congelamento. Outro é o surgimento do “mercado negro”, no qual as mercadorias reaparecem, mas com preço mais alto. Ao governo K o que interessa é poder trombetear uma queda da inflação, mesmo que o anúncio careça de credibilidade. E também, com isso, conter as demandas por aumento salarial. Os sindicatos querem reajustes na faixa dos 30%, mas a Casa Rosada não quer ir além dos 20%.

A farsa do congelamento ensejou um novo capítulo da guerra dos governos K contra a imprensa independente, nomeadamente os grupos Clarín e La Nación. Moreno proibiu supermercados e cadeias de varejo de publicar suplementos com ofertas de produtos nas edições dominicais dos jornais, acabando com uma de suas principais fontes de receita.

A Argentina segue na rota do isolamento. Uma das maneiras é afrontar os EUA, à maneira chavista. Assim, a Casa Rosada produziu um acordo com o Irã para, supostamente, relançar as investigações sobre o atentado contra a associação judaica Amia, realizado em 1994, em Buenos Aires, com 85 mortos e 300 feridos. A Justiça argentina pede a extradição de oito iranianos envolvidos na ação, entre eles altos funcionários do atual governo de Teerã. Com o inédito acordo, a ser ainda votado pelo Congresso, Buenos Aires solicita a cooperação do criminoso, o Irã, para deslindar o que já sabe. A Casa Rosada é acusada de se render ao Irã ,e a comunidade judaica está possessa. Com razão, tudo indica.

Mas Cristina não quer ficar para trás em relação à Venezuela e, em menor grau, ao Brasil, na parceria com os aiatolás da bomba nuclear. Doa a quem doer. No caso, dói nos próprios argentinos.

Mantega, juros e credibilidade - EDITORIAL O ESTADÃO


O ESTADO DE S. PAULO - 16/02
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, voltou a falar sobre o combate à inflação, recomendou a política de juros como principal instrumento e, mais uma vez, condenou o uso do câmbio para a contenção da alta de preços. Em outras condições, especialmente em países onde o Banco Central (BC) dispõe de uma clara autonomia operacional, aqueles comentários seriam considerados meras obviedades e descartados como irrelevantes. No Brasil, no entanto, são recebidos com atenção e chegam a influenciar, como ocorreu ontem, decisões tomadas no mercado de capitais. A atenção dispensada às palavras do ministro, nesse caso, só se justifica, tecnicamente, porque há dúvidas bem fundadas sobre três pontos essenciais para o entendimento e a avaliação da política.
Em primeiro lugar, o BC parece hoje muito menos independente do que havia sido até há dois anos e muito mais sujeito à intervenção, disfarçada ou nem tanto, da Presidência da República. Quem comanda, portanto, as decisões sobre juros?

Em segundo lugar, o próprio governo, em várias ocasiões, confundiu as formas de ação, recorrendo a instrumentos diferentes da política monetária para conter a inflação, ou, mais precisamente, a elevação do índice. O prolongado controle dos preços dos combustíveis é um bom exemplo desse tipo de interferência.

Em terceiro lugar, as autoridades têm demonstrado uma indisfarçável tolerância à inflação, gerando incertezas sobre a meta realmente escolhida. O alvo efetivo será uma taxa anual de 4,5% ou qualquer ponto até o limite de 6,5%? Em mais de uma ocasião a fala das autoridades tem justificado essa dúvida.

A própria meta de 4,5%, mantida há oito anos, é bem mais alta que a de outros países, tanto desenvolvidos quanto em desenvolvimento. Esse dado já é um forte indício de tolerância à alta de preços. Além disso, a inflação elevada tem coexistido com baixas taxas de crescimento econômico. Nem amais comum justificativa - um estímulo adicional à atividade - valeria neste caso.

O ministro Guido Mantega parece consciente de pelo menos algumas dessas dúvidas, quando se põe, como fez ontem, a falar sobre a política anti-inflacionária. Sempre se acende um sinal de alerta no governo, disse ele, quando a inflação anual supera 4,5%. Se isso for verdade, o sinal deve estar aceso há muito tempo. Fica difícil, nesse caso, explicar por que a inflação chegou a 6,5% no fim de 2011 e a 6,15% nos 12 meses terminados em janeiro deste ano.

Se todas as palavras do ministro fossem precisas, seria igualmente difícil dar conta da política de juros. O BC iniciou uma série de cortes no fim de agosto de 2011, manteve essa política durante meses, no ano seguinte, e há algum tempo tem mantido a taxa básica em 7,25%. Oficialmente, dirigentes e técnicos do BC continuam à espera de um recuo "espontâneo" da inflação, isto é, de uma alta menor de preços mesmo sem um aperto monetário. Mas é difícil conciliar também esse dado com a história do sinal de alerta.

O ministro da Fazenda começou a falar sobre inflação, juros e câmbio há algumas semanas, depois de divulgada a inflação de janeiro, de 0,86%. Se o governo insistisse em manter os juros em 7,25%, especulou-se no mercado financeiro, o BC poderia intervir no câmbio para baratear o dólar. Isso afetaria os preços vinculados ao comércio internacional e ajudaria a conter o índice de inflação. Mas o resultado seria ruim para a indústria, porque encareceria os bens exportáveis e favoreceria a importação. Essa tática seria contrária à política de depreciação cambial defendida pelo ministro da Fazenda.

Ao recomendar um combate à inflação baseado nos juros, o ministro Guido Mantega pode estar abrindo caminho para uma nova mudança da política monetária. Essa hipótese foi considerada no mercado financeiro. Mas suas declarações podem ser também uma tentativa de estimular uma alta de juros no mercado, antes mesmo de qualquer decisão de política monetária.

Isso pode ser uma forma de terceirizar, espertamente, as funções do BC. O resultado pode ser também uma confusão maior na sinalização ao mercado, com maior perda de credibilidade para o governo. É esperar para ver.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não estou cogitando mudar de partido”
Deputada Luiza Erundina (PSB-SP) recusando convite do novo partido de Marina Silva


EUA EXIGEM EXTRADIÇÃO DE ASSASSINA DO MARIDO

Um projeto de dois deputados americanos de Ohio, no Congresso dos Estados Unidos, propõe suspender ajuda econômica e dificultar a obtenção de vistos a brasileiros em troca da extradição da brasileira Claudia Hoerig, que em 2007 matou a tiros o marido, o veterano de guerra do Iraque Karl Hoerig, e fugiu para o Brasil. Ela estaria vivendo em Brasília e renunciou à cidadania brasileira em troca da americana.

QUESTÃO DE ESTADO

A pressão dos deputados americanos é inútil: a Constituição brasileira, como na maioria dos países, proíbe a extradição de nacionais.

MADE IN USA

A brecha para extraditar Claudia Hoerig, segundo os deputados, seria a cidadania americana, que a obrigaria a responder pelo crime nos EUA.

NEM AÍ

O crime e a presença de Claudia Hoering em Brasília foram revelados nesta coluna, mas as autoridades brasileiras jamais apuraram o fato.

SIM, MAS

A tradição de evitar “medidas extremas” faz do Itamaraty chacota do mundo: nunca está totalmente a favor, muito pelo contrário. Em tudo.

OPOSIÇÃO SÓ VOTA ORÇAMENTO DEPOIS DOS VETOS

O governo está preocupado: a oposição bate o pé e diz que só votará o Orçamento 2013 após apreciar os mais de três mil vetos empacados no Congresso. O líder do PSDB, deputado Carlos Sampaio (MG), ligou para o presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), propondo que, à exceção dos royalties do petróleo, os vetos sejam votados em bloco, terça (19). A questão dos royalties seria debatida no plenário.

BASE INSATISFEITA

O Planalto tenta evitar a votação dos vetos (que é secreta). Teme a derrubada ao fator previdenciário, Código Florestal, emenda 29...

NOVO CICLO

Apesar de querer fazer uma média com a presidente Dilma, Renan Calheiros decidiu votar o Orçamento apenas se houver consenso.

TEM PRESSA

O vice-presidente Michel Temer antecipou do dia 10 para 2 de março as convenções que deverão reconduzi-lo ao comando do PMDB.

PROVA DE FOGO

O embaixador no Kuwait, Roberto Abdalla, de muito boa reputação no Itamaraty, apura preliminarmente a nova denúncia de assédio moral de Américo Fontenelle, cônsul-geral em Sidney, contra seus subordinados.

NINGUÉM MERECE

Também denunciado por assédio moral no consulado-geral em Sidney, o diplomata Cezar Cidade é notório, no serpentário do Itamaraty, não só por tratar mal o público e ofender ouvidos insultando servidores e colegas ausentes. Ofende também o olfato de quem dele se aproxima.

RANKING MINISTERIAL

Alexandre Padilha (Saúde) e Edison Lobão (Minas e Energia) lideram o ranking de ministros favoritos. Dilma os recebeu em despachos únicos e longos na agenda de dois dias seguidos (quinta e sexta).

MOSTRAR SERVIÇO

Os presidentes eleitos do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), prometem fazer do limão uma limonada: querem votar os vetos, royalties, reforma tributária, FPE...

MÁQUINAS DO SABER

Proposta de emenda do deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) inclui universidades particulares em regime especial de desoneração. Algumas são instituições milionárias e fábricas de diplomas inúteis.

PAPO VELHO

Jornalões noticiam o que esta coluna deu há duas semanas: Ademar de Passos Veiga, o corregedor-geral da União, arquivou sindicância sobre irregularidades atribuídas ao ministro Luiz Adams (AGU).

PECADO ORIGINAL

O silêncio de Dilma com a renúncia do papa é novo lance na “rixa” com a CNBB desde a eleição: os bispos ainda esperam posição oficial da presidente em relação ao aborto na “maior nação católica do mundo”. O governo considera “questão de saúde pública” e “convicção pessoal”.

SUFOCO

O governo da Venezuela mostrou ontem o presidente Chávez, que “respira por aparelhos”, lendo jornal na cama com as filhas, sem os aparelhos. Deve ter ficado sem respirar para tal proeza.

PENSANDO BEM...

...o médico do venezuelano Hugo Chávez em Cuba é o dr. Photoshop.


PODER SEM PUDOR

ALGODÃO COLORIDO

O deputado Adail Barreto (CE) voltou da União Soviética maravilhado com uma plantação de algodão colorido que visitara. Contou a novidade aos trabalhadores de sua fazenda, em Iguatu, no Cariri. Um deles ouvia a conversa enquanto pitava o cigarro de palha. E desdenhou:

- Algodão colorido, doutor? Não acredito.

- Pois eu vi.

- Então - concluiu o matuto - eles adubaram a terra com esterco de pavão...

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Astro globalizado – Mundo vê meteoro cair e ferir 1.200 na Rússia
Folha: Mantega fala em aumento de juros para frear inflação
Estadão: Controle da inflação será feito pelo juro, diz Mantega
Correio: Roubo de carro faz o valor do seguro subir até 25%
Estado de Minas: Patrimônio em risco
Zero Hora: Susto, medo e curiosidade – O dia do meteoro
Jornal do Commercio: Promessa de fim dos problemas de esgoto

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Ivete na Justiça - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 15/02

A grande cantora Ivete Sangalo está enfrentando um novo processo trabalhista de grande monta. Depois de fechar um acordo com o baterista Antônio da Silva, o Toinho Batera, agora é o percussionista Fábio Obrian, 35 anos, que acionou a Justiça do Trabalho contra ela. Segundo o advogado Odonel Vilas Boas Junior, Fábio não tinha carteira e recebia como pessoa jurídica. O processo corre na 31ª Vara Trabalhista de Salvador.

Trombose nas mãos
O percussionista, ainda segundo o advogado, era músico exclusivo há 14 anos da cantora e está com trombose aguda nas mãos, decorrente do trabalho. 

Data marcada
A ThyssenKrupp marcou para o dia 22 agora a entrega da proposta final dos pretendentes à compra da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA).

Aliás...
Não há muita boa vontade no Rio com Benjamin Steinbruch, um dos pretendentes para comprar a CSA. O empresário, que transferiu a sede da CSN do Rio para São Paulo, também não é muito popular em setores de Volta Redonda.

Casa das orquídeas
A irlandesa Lucinda Riley, autora de “A casa das orquídeas”, editado pela Novo Conceito, vem ao Brasil no fim do mês. Riley vai fazer pesquisa para seu próximo livro, cuja história se passa no Rio. Depois ela segue para Búzios, onde vai ficar escrevendo.

No mais...
A presença de bicheiros no carnaval que passou foi discreta. Melhor assim.

DOLCE FAR NIENTE APÓS A FOLIA
Depois do alvoroço do carnaval bem que dá uma vontade danada de mergulhar nessas águas límpidas da Cachoeira Bonita, no Parque estadual do Desengano, em Santa Maria Madalena, a 223 quilômetros do Rio. °O lugar”, garante o secretário Carlos Minc, °ganhou muito com a instalação da Unidade de Polícia Ambiental há cinco meses”. De lá pra cá, esta espécie de UPP florestal realizou 104 ações que levaram à apreensão de armas e motosserras e à prisão de caçadores, além de coibir invasões e destruir fornos de carvão. Que Deus proteja este paraíso e a nós não desampare jamais 

Calma, gente
Além das concorrentes, teve mais gente insatisfeita com a vitória da Vila Isabel. Circulou ontem nas redes sociais uma espécie de protesto assinado por Renato Martelleto, coordenador das Feiras Orgânicas do Rio e suplente de vereador pelo PSOL. Dizia que quem ganhou o carnaval “foram os dirigentes da G.R.E.S Vila Isabel e não o povo brasileiro”.

Segue...
É bronca antiga. Refere-se ao patrocínio que a escola recebeu da Basf, produtora de agrotóxicos. Martelleto diz que essas substâncias matam 10 mil brasileiros por ano.

Carnaval da UPP
O carnaval de 2013 provou que a paz dá o maior samba. No Grupo Especial venceu a Vila Isabel, do Morro dos Macacos. Na Série A ganhou o Império da Tijuca, do Morro da Formiga. E na Série D, a última divisão das escolas, a vitória foi da Mocidade Unida do Santa Marta, do morro de Botafogo, o primeiro a receber uma UPP. Eu apoio.

Santo filósofo
O Arcebispo do Rio, D. Orani Tempesta, autorizou a abertura do processo de beatificação do padre Maurílio Penido. A iniciativa foi da Academia Brasileira de Filosofia. Morto em 1970, padre Penido foi um teólogo de renome e fundou a Faculdade de Filosofia da UFRJ. Dedicou a vida à igreja. Morreu virgem.

Por falar em santo
O Círculo Monárquico do Rio reagiu à historiadora Mary Del Priore que, sobre o pedido de beatificação da Princesa Isabel, dsse que ela não era bem uma santa. O chanceler Ohannes Kabderian, lembra a frase da princesa, “mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria para libertar os escravos no Brasil”, e diz que a definição de santo é aquele que praticou as virtudes cristãs em grau heroico.

Que seja feliz
Alexandre Louzada, o carnavalesco, está deixando a Mocidade. 

Haja perna
Veja como é dura a vida dos coleguinhas da fotografia. Um deles instalou um aplicativo no celular para calcular quantos quilômetros percorre. Na Sapucaí, de sexta a segunda, andou, em média, 13,7 km por dia.

Contrato quebrado
Os atores Pérola Farias e Rafael Almeida serão indenizados pela loja Myddia em R$ 35 mil. A decisão é do desembargador Gilberto Dutra. Eles dizem que fecharam contrato de uso de imagem para divulgação da coleção da marca por quatro meses. No entanto, as fotos continuaram no site da empresa depois desse período.

Maricá no ar
A prefeitura de Maricá, a 60 km da capital fluminense, lançou edital para contratar um serviço de táxi aéreo. A razão é... não sei.

UMA MILITAR SEDUTORA
Thaíssa Carvalho vai voltar à TV em “Flor do Caribe”, próxima novela das seis. Revelada em “Viver a vida” como a sedutora empregada Cida, ela agora vai ser uma tenente. Mas sem perdera sensualidade, como dá para ver na foto aí ao lado. Prende eu

Oscar, câmeras pela paz - LUCAS MENDES

BBC Brasil - 14/02

Em Bilim, um vilarejo palestino com 1.100 habitantes, é fácil achar a casa de Emad Burnat. A porta de madeira é uma bandeira do Brasil. Numa de suas 5 câmeras quebradas há outra. O palestino Emad é cidadão brasileiro por casamento com Soraia, de 42 anos, muçulmana devota, mãe de seus quatro filhos. O português dele é tão quebrado quanto o árabe de Soraia.


A câmera com a minibandeira é uma das cinco usadas no documentário5 Câmeras Quebradas, concorrente ao Oscar neste domingo. Algumas foram quebradas mais de uma vez pelos soldados de Israel e consertadas. Uma delas salvou a vida de Emad. O tiro entrou pela lente quando ele estava rodando. A bala continua dentro da câmera.

Emad começou a gravar em 2005, quando nasceu seu quarto filho Gibril e Israel começou a construção de um muro no meio das terras dos moradores de Bilim. Os pequenos protestos nos fins de semana cresceram, atraíram israelenses e estrangeiros. Vieram os soldados e os conflitos.

A área foi designada "zona de segurança militar". Numa noite, os soldados entraram na casa de Emad. Ele começou a filmar e recebeu ordens do soldado: "Aqui é zona de segurança militar. Você não pode filmar".

"Aqui é minha casa e filmo o que eu quiser". Passou três semanas na prisão e seis semanas em prisão domiciliar, falsamente acusado de jogar pedras nos soldados. Na Justiça, o processo levou três anos para ser anulado.

Muitas das 700 horas filmadas durante sete anos são pela perspectiva do filho, que agora está com 8 anos, a caminho de Los Angeles com o pai e a mãe para participar dos Oscars.

O filme é uma pedrada em Israel. Guy Dividi, codiretor do filme, ativista israelense, tinha ido a Bilim fazer seu próprio documentário sobre os palestinos que trabalhavam na construção de um nova assentamento em Bilim. Conheceu Emad e convenceu o palestino a unir os esforços. Ele traria, além de talento, verba.

A edição e o texto final do filme, em árabe, lido por Emad, foram criações de Dividi, que recebeu dinheiro de Greenhouse, um projeto israelense que financia uns dez filmes por ano. Outra parte dos US$ 400 mil, custo do documentário, veio da França.

Porque Israel financia filmes contra Israel? Liberdade ou estupidez? O debate está nos ares americanos e israelenses.

5 Câmeras Quebradas não é o único filme israelense crítico do governo de Israel que concorre ao Oscar. Com mais chances ao prêmio, The Gatekeepers entrevista seis ex-diretores do Shin Bet, a agência antiterrorista israelense. Eles abrem o jogo como contiveram e sufocaram os palestinos. Os seis, que nunca tinham falado em público, são a favor de um acordo de paz.

O documentário, também financiado pelo Estado de Israel e premiado em vários festivais, foi ao ar na televisão israelense e, como 5 Câmeras Quebradas, exibido em cinemas comerciais. O primeiro-ministro de Israel, Bibi Netanyahu, não viu nem vai ver, anunciou o porta-voz.

5 Câmeras Quebradas não é o primeiro documentário campeão de prêmios e críticas dirigido por um alguém com ligações com o Brasil sobre o muro de Israel que divide cidades palestinas e destrói fontes de sustento da população. A brasileira Julia Bacha dirigiu e produziu Budrus, sobre um vilarejo de 1.500 habitantes onde a filha de um líder comunitário assume a liderança da resistência pacífica e vence a batalha.

No caso de Bilim, os moradores conseguiram reaver no Supremo de Israel um terço das terras perdidas pelo muro.

O Oscar tem um poderoso lobby judeu, um poder mais falado do que medido, mas é inédita e intrigante esta combinação de dois filmes críticos de Israel concorrendo a melhor documentário no mesmo ano.

Para os conservadores americanos, o Oscar representa uma elite esquerdista que ignorou 2016: Obama’s America, de Dinesh D'Souza, recordista de bilheteria com US$ 34 milhões. Nem entrou nos semifinalistas.

Os dois filmes anti-Israel , 5 Câmeras Quebradas e The Gatekeepersque não vão faturar nem US$ 1 milhão nos Estados Unidos, vão dividir os votos e favorecer Searching for Sugar Man sobre um cantor, conhecido como Rodriguez, que lançou dois álbuns na década de 70, continuou desconhecido no cenário musical americano, mas se tornou um dos maiores ídolos na África do Sul. Graças ao documentário, Rodriguez rescussitou nos Estados Unidos.

Não existe a menor possibilidade de um dos dois documentários ressuscitar a paz no Oriente Médio.

Heróis sob suspeita - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 15/02

RIO DE JANEIRO - Morreu na semana passada, aos 71 anos, Walt Sweeney, famoso jogador de futebol americano e, como todos os famosos jogadores de futebol americano, justa e maciçamente desconhecido no resto do planeta. Mas Sweeney morreu atirando. Desde que pendurou as chuteiras, em 1975, e se viu dependente de remédios, começou uma campanha contra os treinadores e médicos de seus clubes, responsabilizando-os por isso.

Segundo Sweeney, ele e seus companheiros eram dopados para jogar: "Davam anfetaminas antes do jogo. Depois, sedativos, para acalmar, e analgésicos, para disfarçar as dores. E, o tempo todo, esteroides, que eles diziam ser vitaminas. Para mim, tomar essas drogas era tão normal quanto treinar. Quem não aceitasse era multado".

Ninguém pode ser culpado pela dependência de ninguém, e Sweeney, se não se desse bem com o que lhe davam, podia ter-se recusado, encerrado a carreira e se convertido à odontologia ou ao ventriloquismo. Talvez por isso, suas acusações, que ele levou aos tribunais, nunca lhe tenham rendido os milhões que pedia como compensação financeira. Não serviram nem para que a NFL (National Football League), uma espécie de CBF dos EUA, passasse a fiscalizar para valer as competições.

Não importa. O caso de Sweeney, que coincide com o do ex-ciclista Lance Armstrong e seu escandaloso histórico de doping, lança sombras retrospectivas sobre os grandes atletas americanos que quebraram recordes, viraram filmes e se tornaram nossos heróis. E por que os americanos, e não os bielorrussos ou os australianos? Porque, com raras exceções, só os americanos eram vendidos mundialmente.

Muhammad Ali, dizem as agências, está muito mal. Eu lamentaria saber que seus nocautes, pelos quais tanto torci, saíram de algum aditivo, e não de suas luvas.

Na moral - NELSON MOTTA

O Estado de S.Paulo - 15/02

"Parei minha moto no shopping, roubaram a tampa da válvula do pneu. Tinha uma ótima tesoura Tramontina para tosar cachorros, mas alguém que esteve na minha casa a trocou por uma de pior qualidade. O médico me mandou tirar radiografia desnecessária só para gastar dinheiro do plano de saúde. Minha revista semanal sumiu na portaria do prédio."

A prosaica semana de um leitor carioca, tão banal e parecida com a de milhões de brasileiros de todas as classes sociais que são vítimas constantes de pequenos (e grandes) roubos e malandragens públicos e privados, mostra como isto está arraigado na nossa cultura, atravancando o crescimento do nosso IDH, por mais que se invista em educação, tecnologia e infraestrutura.

Será que estamos condenados para sempre a essa cultura nefasta? Ou já foi pior e aos poucos está mudando por força da lei, da polícia e da Justiça? E dos bons exemplos que se espalham na mídia e nas redes sociais, embora os piores exemplos venham justamente dos que têm por obrigação a conduta exemplar: os políticos que fazem do Congresso uma das instituições mais desmoralizadas diante da população.

Tudo bem, o Brasil está rico, poderoso, solidário, mas 43% dos alfabetizados não sabem ler, mais da metade das cidades não tem esgoto tratado, 1/3 das Câmaras Municipais - e do Congresso Nacional - estão nas mãos de processados ou condenados pela Justiça. Não é uma questão de ideologia, é de uma cultura, que não muda com leis, programas ou verbas, mas com o tempo e os exemplos que vêm de cima e de fora, em casa e no trabalho. Moralismo otário? Ou exigência do desenvolvimento social?

Nos anos 60, acreditava-se que a revolução castrista não só transformaria a política, a economia e a cultura em Cuba, mas criaria o "novo homem cubano", limpo, livre e solidário, mas hoje os furtos, transgressões e malandragens se tornaram um modo de vida na ilha, pela nobre causa de comer todo dia.

Não bastam a economia, a educação e a tecnologia, é o exercício dessas leis não escritas - porque todos conhecem - que vai tornar melhor, ou pior, viver em um país rico e sem miséria. Na moral.

Resposta ao apocalipse - MICHEL LAUB

FOLHA DE SP - 15/02

Em que tempo, do Descobrimento a 2012, artistas de verdade não o foram?


Faça o teste: digite o nome de qualquer hit brasileiro dos anos 1980 no YouTube. Entre os comentários, 99% de chance de alguém ver ali os vestígios de uma era de ouro. A nostalgia inclui Rádio Táxi, Dr. Silvana, até o ursinho Blau-Blau, e pode ser resumida nas palavras do internauta Xreynato: "A mídia só dá valor para essas porqueiras de hoje".

Seria injusto dizer que foi isso, mas em alguns momentos pareceu isso o que fez a "Carta Capital" de 6/2. Sob a manchete "O vazio da cultura", nomes como Vladimir Safatle, Daniela Castro e Rosane Pavam diagnosticaram a situação da área no país. O tom geral é o de que não há mais grandes artistas, não há políticas públicas efetivas e a produção sucumbiu ao mercado e à vulgaridade.

Daria para responder de várias formas. Para começar, o passado sempre leva vantagem: é fácil citar três ou quatro mortos, pinçando-os entre centenas na vulgaridade de quando estavam vivos, e comparar suas obras hoje completas, de sentidos evidenciados por anos de distanciamento, com o caos fragmentário atual.

Também não enxergo a irrelevância brasileira, como defende Safatle, diante de equivalentes contemporâneos. Entre eles, a literatura chilena (unicamente Roberto Bolaño, que morava fora do país e lá situou seus melhores romances) e o cinema argentino (do qual só nos chegam os filmes importantes, alguns nem tão bons, quase todos sobre rescaldos da ditadura na vida de Ricardo Darín).

Mas gosto é discutível, claro. Interessa-me é outro ponto do artigo do professor: o que ele chama de "inibição do julgamento", que seria causa ou efeito de fatores como relativismo e condescendência populista. Sem crítica cultural rigorosa, diz o texto, não é possível consolidar uma cena com "capacidade de induzir novos artistas e dar visibilidade a problemas comuns".

O diagnóstico está correto em parte. De fato, o hábito de acompanhar a produção e medi-la sob a régua da elite pensante, no bom sentido do termo, está em crise. Um problema até quantitativo: quem consegue ler 50%, 30%, 1% dos livros publicados hoje? E quem está dando uma resposta analítica relevante nesse novo cenário?

Discordo é da conclusão de Safatle: a relação entre qualidade do que se produz e preparo e disposição de quem julga não é necessariamente direta. A primeira pode sobreviver sem a segunda. Da parte dos que se dedicam à tarefa de ser "antena cultural", e como colunista também integro o time, o embaralhamento de hierarquias parece se misturar à consciência melancólica da perda de poder.

Parece uma conclusão dura, mas só ela explica que -como faz Mino Carta no editorial da revista- se considere o atual panorama tão pior que o de décadas anteriores. Cresci entre o fim do regime militar e o governo Sarney, e sei o que é ficar a mercê de pouquíssimos canais de difusão cultural -Embrafilme, meia dúzia de gravadoras e editoras, TV aberta sem concorrência.

Se falamos em indústria cultural, é lógico que ela terá menos poder numa época de hiperprodução descentralizada. Nos anos 1980, quando se tinha notícia de uma parte bem maior do que era lançado, a "crítica de peso" até tinha elementos para dizer que nada prestava (e dizia, lembro bem). Hoje, diante de um panorama infinito de artistas, obras e gêneros, que vão dos quadrinhos aos instrumentistas eruditos, do rap ao vídeo experimental, fazê-lo requer limitar a análise ao "mainstream" ou cair num reducionismo pretensioso.

Ao avaliar os últimos dez anos, Safatle não cita a palavra internet. É ela que, com o barateamento dos meios de produção de conteúdo, num impacto análogo ao da invenção da imprensa ou da revolução industrial, tornou a nova era tão difícil de ser interpretada. O cânone crítico sofreu com isso, não há dúvida, o que posso até lamentar. Quanto à arte, que é capaz de superar limites mercadológicos, tecnológicos e sociais (ou a falta deles), não vejo motivo para tanto pessimismo.

Afinal, nenhum contexto impede que a ele se reaja criativamente. Machado de Assis, um negro, surgiu no período escravocrata. A própria "Carta Capital" o cita e dá voz a nomes -como Kleber Mendonça, diretor de "O Som ao Redor"- que seriam exceções ao apocalipse. A pergunta é: em que tempo, do Descobrimento a 2012, passando pelo reinado do ursinho Blau-Blau, artistas de verdade não o foram?

Era melhor antes - HERMANO VIANA

O GLOBO - 15/02

‘Não é chique gostar das coisas, mas a oferta cultural brasileira atual é muito interessante’


Enquanto eu escrevia sobre a abundância (ver a coluna da semana passada), uma série de artigos decretou “o vazio da cultura” no Brasil. Fiquei me sentindo alienígena. Vivo em um planeta diferente daquele habitado por quem não enxerga nada potente em nosso país. Meu problema é oposto: não dou conta da quantidade de coisas interessantes que considero merecedoras de divulgação/debate neste meu pequeno espaço no jornal. Estou sempre em dívida com uma lista enorme de pautas que não perdem a atualidade. São trabalhos culturais brilhantes, que podem despertar vocações artísticas em muito mais gente se forem conhecidos melhor.

Sei que este meu otimismo desvaloriza meu passe. É mais chique falar mal de tudo. A maledicência nos garante aplausos calorosos em palestras. Atrai igualmente muitos seguidores no Twitter. Viramos heróis por causa de nossas opiniões do contra. Natural que assim seja: Lucien Jephargnon, historiador que já foi tema de uma coluna inteira por aqui, publicou um livro delicioso chamado “Era melhor antes”. Essa modinha pessimista já dura 30 séculos: ninguém pode pretender ser original dizendo que hoje tudo vai mal.

No século primeiro, Petrônio, autor de “Satyricon”, escreveu sem humor nenhum: “Fica pior a cada dia... Ninguém mais acredita que o céu é céu”. Plínio, o Jovem não gostava dos jovens de seu tempo: “Eles não respeitam ninguém, não imitam ninguém; são os modelos deles mesmos”. O poeta Juvenal afirmava que o problema vinha de longe: mesmo no tempo de Homero a raça humana já era decadente e “hoje a terra só alimenta homens perversos e atrofiados”. Temos sorte de estarmos vivos 21 séculos depois...

Vivos mas vazios? Penso que o vazio tem sido menosprezado nessas lamentações. Os budistas propõem um conceito precioso para sairmos bem desse niilismo paralisante: Shunyata — quer dizer vazio, mas também interdependência e abertura. Como fala o monge coreano Misan (que descobri por causa de “Gangnam style”): “O mundo vazio que inclui tudo”. Tudo conectado. Talvez aí resida a pista para compreender a distância entre o modo como percebo o que há de importante na dinâmica cultural contemporânea e aquele que denuncia nossa perdição. Contra o “era melhor antes”, digo que não é melhor agora: é diferente; as coisas estão mais abertas e interdependentes. No lugar do regime da escassez que produz gênios, temos um regime de criatividade distribuída em rede, e o processo criativo é mais aberto, à procura de obras abertas, permanentemente inacabadas.

Por isso não é útil tentar convencer os apóstolos do vazio não budista de que não estamos tão decadentes assim, apresentando exemplos de vigor nas artes de agora. Não vou convencê-los: Tom Jobim ou Guimarães Rosa vão ser sempre “melhores” do que meus interesses atuais, até porque são produtos de um mundo onde fazia sentido ser “melhor” assim, quando todos os olhares/julgamentos podiam apontar para a mesma direção. No mundo pós-internet, tudo está junto e misturado: a retromania (todo o passado cultural a um clique), a xenomania (toda a diversidade cultural a um clique), a facilidade de produção (todo smartphone vai se tornar rapidinho estúdio cinematográfico, além de distribuidora).

Não estou dizendo que obras geniais não existam. Por exemplo (correndo o risco de fazer o que eu disse que é inútil): tenho certeza de que “Daytripper”, de Fábio Moon e Gabriel Bá, é um dos grandes momentos da criação nacional, em qualquer gênero — e demonstra claramente a maturidade das histórias em quadrinhos brasileiras, com muito mais gente desenvolvendo trabalhos originais e reconhecidos mundialmente. Porém, seu público é bem específico, e mesmo que estabeleça seu cânone particular, dificilmente vai adquirir status de conhecimento/reconhecimento geral. Não por falta de qualidade, é claro.

Pensei nisso ao abrir link que Ronaldo Lemos (ele deveria ser coautor desta coluna) me mandou para a lista de 100 melhores discos brasileiros de 2012, seleção da Rockinpress (que se diz “a página bege da música brasileira”): nunca nem tinha ouvido falar de metade dos artistas listados. Digo isso envergonhado, plenamente consciente da seriedade do trabalho de quem fez a escolha dos “melhores”, todos nas minhas bookmarks para tentar escutar suas músicas depois, um depois que talvez nunca chegue.

É a mesma sensação que tenho ao abrir a página do Carlito Azevedo no caderno Prosa deste jornal. Fico alegre só de saber que há tanta gente nova escrevendo poesia com tanta qualidade (e intuo o debate crítico que torna possível essa produção). Anoto nomes para ler mais, quando der. Não fico angustiado com tanta oferta. É assim mesmo. Eta vazio gostoso!


Ueba! Brasileiro é papa tudo! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 15/02

E o importante não é que o papa seja um brasileiro, o importante é que não seja um argentino. Rarará!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Piada Pronta: "Assalto à geladeira pode ser distúrbio de Kamilla do BBB". Sabe como é o nome da comilona? Kamilla Salgado. E a psicóloga se chama Aline Sardinha. Ou seja, não vai ficar boa nunca!

E esta: "Dilma fratura o dedão do pé, diz Traumann". O porta-voz da Dilma se chama Traumann. Se eu fosse porta-voz da Dilma, meu nome também seria TRAUMA!

E os papáveis? Começaram os papáveis! Tem até papável argentino! Papa argentino não dá certo porque argentino pensa que é Deus! Acúmulo de funções!

E o Maradona ia ser coroinha! E iam beatificar a Evita, canonizar a Cristina e espalhar que o Pelé é o anticristo! Eu já avisei: se o papa for argentino, eu viro evangélico. Mudo pra umbanda! Rarará!

E atenção! Tem papável brasileiro: dom Odilo Scherer! Pelo nome dos cardeais brasileiros, o mundo vai pensar que o Brasil foi colonizado pelos vikings! Se o papa for brasileiro, a fumacinha vai ser verde amarela.

E vai ter trio elétrico. Com transmissão do Galvão: "ÉÉÉ do Braasil! Vai que é tua, dom Odilo! Vai, dom Odilo! Até o chão, dom Odilo! Mostra pra eles que Deus é brasileiro!".

E se o papa for brasileiro vai se chamar papa tudo! Rarará! E se o papa for argentino vai se chamar papa frita! Uma das melhores coisas da Argentina: papa frita!

E o importante não é que o papa seja um brasileiro, o importante é que não seja argentino. Rarará! E eu tenho uma foto do primeiro papável: o Inri Cristo de vespinha com a legenda: "Partiu, Vaticano!". O sotaque de papa ele já tem! Rarará!

E adorei a charge do Duke com a mulher perguntando ao marido: "O que é essa fumaça preta saindo da tua cabeça?". "Habemus Dívidas!" Rarará! É mole? É mole, mas é meu! Ops, é mole, mas sobe!

E o Carnaval? E o rescaldo do Carnaval? Tem um amigo meu que não tá de ressaca porque ainda tá bêbado! E diz que o trio mais animado de Curitiba foi o caminhão do Liquigás tocando "Pour Elise"!

E o site O Coco tá Seco fez a lista das coisas que se precisa recuperar depois do Carnaval: os pés, a carteira, o fígado, o juízo, o caráter e o bom gosto musical. Ah, e o pau com cãibra. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

A oposição inerte - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 15/02

Quando um líder governista admite que a situação da economia é tal que os adversários poderiam “nadar de braçada”, e se surpreende que isso não tenha ocorrido, algo está errado com a oposição


Nunca antes na história deste país, a oposição foi tão inexpressiva quanto agora. Nem mesmo no auge do regime militar, tão poucas cadeiras foram ocupadas por parlamentares dispostos a cumprir o papel de fiscalizar criticamente a atuação do Executivo. Hoje, temos um Congresso funcionando sob pleno ambiente democrático – mas, dos seus 594 parlamentares (513 deputados e 81 senadores), apenas pouco mais de uma centena, se tanto, ocupa as bancadas dos partidos de oposição, o que também não é garantia de que, individualmente, exerçam seus mandatos com ânimo oposicionista.

Já tivemos no passado realidades bem distintas. Uma volta ao tempo nos levará à lembrança do radicalismo oposicionista que desembocou no trágico suicídio de Getúlio Vargas em 1954. Muitos viveram campanhas memoráveis como a das Diretas Já, de repúdio aos grilhões do regime militar. Testemunhamos também o impeachment do presidente Fernando Collor e, por fim, não se exclua o papel representado pela oposição até a chegada ao poder, em 2002, do ex-presidente Lula. Os traumas que eventualmente tenham provocado não tiram da existência de uma oposição organizada e consequente o mérito de ser instrumento de aperfeiçoamento da democracia.

Lamentavelmente, estamos hoje em tempos diferentes. Parece já não haver sequer disposição para o confronto político, ainda que limitado às ideias. Pelo contrário. Aos velhos e tão conhecidos métodos de cooptação de que o governo se utiliza para alargar ao infinito suas maiorias, somam-se os interesses particulares dos parlamentares, sempre ávidos em agradar para, em troca, gozar dos benefícios que o poder central lhes concede. É o resultado da reciprocidade tão bem explicitada há 30 anos pelo falecido deputado Roberto Cardoso Alves – líder de um tal “centrão” – que adaptou à política do adesismo sem fronteiras a frase de são Francisco de Assis: “É dando que se recebe”.

Como “é dando que se recebe”, o Executivo doa benesses na forma de liberação de emendas e cargos e, em compensação, recebe votos de apoio que lhe permitem aprovar o que bem quiser no Parlamento. Em sentido contrário, é dando seus votos em favor do governo que deputados e senadores recebem a contrapartida de que passam a se achar merecedores. Em nome desta “política”, nem se fala em votos, porque sequer ousam assumir a tribuna para simples críticas à atuação do governo.

A tal ponto a inação oposicionista é grave e profunda que foi preciso que, dia desses, um espantado líder governista se regozijasse com o fato de a oposição não ter aproveitado a oportunidade de “nadar de braçada” diante dos números ruins da economia brasileira recém-revelados – inflação em alta, PIB sem sinais de crescimento, câmbio descontrolado, combustíveis em alta, Petrobras em queda... Números, diga-se, de responsabilidade da gestão errática da economia sob a presidente Dilma Rousseff e que, portanto, mereceriam toda a atenção crítica da oposição. Mas nada. Nem mesmo discursos.

Trata-se de um mal que se faz à democracia – sobretudo por se tratar de uma omissão absolutamente injustificada. Afinal, não estamos sob o tacão totalitário-demagógico de um Hugo Chávez, que espalhou a moda por outros países da América Latina, nem sob regime policial e de partido único à moda de Cuba. Temos voto livre, imprensa livre, opinião pública livre, Constituição em vigor, poderes republicanos em pleno gozo de suas prerrogativas. Entretanto, não temos oposição congressual, embora não faltem motivos para que ela se expresse com vigor e dê sua contribuição para a correção de rumos.

Bento, o Arregão - BARBARA GANCIA

FOLHA DE SP - 15/02

Alguém se lembra de que Cristo padeceu na cruz? Que mensagem de resiliência Bento 16 nos deixa?


Fala a verdade: em latim? Mas justo o papa que abriu conta no Twitter, inaugurando uma via direta de comunicação com os fiéis, foi pedir demissão em uma língua morta, para que o menor número possível de pessoas na sala pudesse decifrar o que ele estava dizendo? Do que tinha medo, de que alguém gritasse lá do fundo: "Schettino, torni a bordo!", em alusão ao comandante do Costa Concordia que deu no pé enquanto seu navio naufragava?

Está certo que até o exorcista-chefe do Vaticano, monsenhor Gabriele Amorth (pois é, desdenham de Tupã e têm um espanta chifrudo de plantão), no cargo há 25 anos, andou dizendo que "o Diabo age dentro do Vaticano".

Já faz tempo que o inquilino mudou-se para lá. Não foi pouco escândalo a quebra fraudulenta do Ambrosiano em 1982, banco do qual o Vaticano era sócio, e que deixou um rombo de US$ 1 bilhão, um banqueiro encontrado enforcado em uma ponte de Londres e um mafioso envenenado na prisão.

Agora é a vez do "Vatileaks", padres pedófilos e um rombo de US$ 18,4 milhões nos cofres da igreja. E vem o papa lavar roupa suja no seu último dia de missa e querer nos convencer de que está muito cansado para continuar. Sinto muito, mas derrotismo por parte de quem deveria zelar por um rebanho de mais de 1 bilhão de fiéis tem limite.

E o poder simbólico da resiliência? Que mensagem de perseverança Bento 16 nos deixa? Muito conveniente exigir todo tipo de sacrifício do fiel e depois exibir publicamente tamanha frouxidão. Camarada não só abandona o voto feito (que deve ter sido bem ponderado, posto que João Paulo 2º não morreu exatamente do dia para a noite) como sai de cena mordido. Isso sim é intelectual. Que gosto!

E o pessoal ainda exalta seu gesto. "Nossa, que exemplo, que humildade!" Vem cá, será que alguém se lembra de que Cristo padeceu na cruz para salvar, entre outros, um certo religioso que ora aponta seu dedinho trêmulo e besunto de superioridade moral para falar em "hipocrisia religiosa"?

Sobre o tópico hipocrisia, vale lembrar, em vez de entregar os casos à justiça comum, o então arcebispo Joseph Ratzinger, que durante 23 anos comandou a Congregação para a Doutrina da Fé, entidade encarregada, entre outros, de investigar os crimes cometidos por padres, remanejou párocos que voltaram a repetir as mesmas ofensas contra novas vítimas, deixou famílias sem resposta ou indeniza­ção e simplesmente anistiou religiosos implicados em crimes.

A relação de confiança entre católicos e párocos ficará para sempre abalada por conta dessa política de abafa. E a questão indenizatória está longe de ser resolvida.

O antecessor de Bento, João Paulo, era um misógino que se autoflagelava para expiar suas culpas. Dificilmente um exemplo de equilíbrio, diria. Do jeito que esses senhores colocam, ou bem se é católico ou se é humano.

Bem, pessoalmente, opto por ser fiel a mim, da forma mais digna e transparente possível, caminhando no sentido contrário das farsas, da impostura e das trevas que me foram impostas pela herança de uma educação católica. O que significa impedir que esses malucos de batina queiram me afastar de Cristo sentenciando que minha homossexualidade não se encaixa no conceito que eles fazem de amor.

Na teoria, a prática é outra. Um sujeito que tanto pregou o resgate de valores tradicionais sai sob uma das bandeiras menos edificantes da contemporaneidade: a da transitoriedade que a tudo achata e iguala. E o exemplo de que, mesmo em tempos da transparência da internet, ainda há quem tome o caminho medieval de agir às escuras. Já vai tarde, Bento 16.

O tempo de cada um - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 15/02

A cada dia que um jornalista queria uma avaliação futura do então presidente da Câmara, Luís Eduardo Magalhães, ele se saía com essa: “Muita calma. A cada dia a sua aflição. Não vamos antecipar problemas nem podemos agir antes que cheguem”. É assim que os partidos estão hoje em relação à recandidatura da presidente Dilma Rousseff. A sensação na base é a de que talvez esteja tarde para Dilma colocar todos os partidos aliados dentro da bolsa sem fazer muito esforço.

Ela fez isso em 2010, quando, embalada pela popularidade de Lula, chegou ao Planalto. Repetiu a dose ao longo dos dois primeiros anos de governo. Agora, com a antecipação do calendário eleitoral, o jogo de 2013 começa invertido. Muitos partidos têm a sensação de que Dilma é quem precisa deles, e não eles do governo dela.

O PR, por exemplo. Desde que o senador Alfredo Nascimento deixou o Ministério dos Transportes e o partido se declarou independente, existe a conversa de retorno à base aliada — leia-se aos cargos. Os líderes da legenda estiveram recentemente no Planalto. Ouviram da presidente que o senador Blairo Maggi não será ministro pelo PR. Nem poderia. Blairo apresentou, no ano passado, uma consulta no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para deixar o partido sem perder o mandato. Alegou problemas internos e sustentou que Valdemar Costa Neto, condenado no processo do mensalão, continua mandando na agremiação. O clima entre ele e o PR azedou de vez.

O partido, da sua parte, está hoje com aquele ar de superioridade perante o Planalto. Isso porque, conforme revelam alguns integrantes da legenda, ficaram tanto tempo fora do poder que podem perfeitamente ficar mais um pouco e tentar algo melhor num governo futuro. Afinal, se tem uma coisa que político sabe fazer é calcular o tempo. Uma nomeação em março, quando Dilma ficou de chamar o PR para uma conversa mais consistente sobre o retorno ao primeiro escalão, é praticamente 2013 perdido. Até o ministro assumir (seja ele quem for) e conhecer a máquina (seja ela qual for), o Orçamento já estará todo comprometido. E, 2014, ano eleitoral, é bem mais curto, não há tempo de fazer muita coisa por conta do prazo exíguo de liberação de recursos. Isso quer dizer, na avaliação de integrantes do partido, que Dilma perdeu o timing dessas nomeações.

Enquanto isso…

A ausência de grandes expectativas do PR em relação aos cargos que pode assumir no governo Dilma tem um outro ingrediente: o assédio de pré-candidatos a presidente. Tanto o senador Aécio Neves, do PSDB de Minas Gerais, quanto o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, tiveram conversas com integrantes do Partido da República. A conversa de Campos é de pré-candidatíssimo. Afinal, o PR tem dois minutos e meio de horário eleitoral gratuito na tevê, mais de 400 prefeitos, 37 deputados federais e sete senadores, uma estrutura nada desprezível. Se atrair o PR, Eduardo conquista ainda um nome com força em Campos, no Rio de Janeiro: Anthony Garotinho, líder do partido na Câmara. Garotinho já foi candidato a presidente da República pelo PSB. O relacionamento com a legenda esteve ruim, mas em política a necessidade faz mais milagres do que um bom anti-inflamatório.

Por enquanto, entretanto, o PR não pensa em largar Dilma. Afinal, o ano está começando e um carro oficial com bandeira verde e amarela na placa indicando que se trata de um ministro de Estado tem lá o seu charme. Os republicanos não esquecem as mágoas, mas também não vão largar o governo assim, rumo a uma aventura. Daqui para frente, essa turma, como todas as outras, vai é tratar de valorizar o passe, o que exigirá de Dilma uma paciência oriental. Resta saber se ela está disposta a adotar os velhos ensinamentos de Confúcio.

Um político a ser lembrado

Lá se vai mais uma grande estrela do passado recente do Brasil. O ex-ministro da Justiça e ex-deputado Fernando Lyra, importantíssimo na coordenação da campanha de Tancredo Neves dentro do colégio eleitoral em 1984, integrante do grupo dos autênticos do MDB, com passagens posteriores pelo PDT e pelo PSB, tinha a boa política no sangue. Fará falta neste momento em que a política parece cada vez mais desacreditada. A coluna deixa aqui as condolências à família e espera que seu exemplo inspire nossos jovens. Afinal, o tempo de Fernando Lyra se foi, e se os bons como ele não gostarem da política, outros ocuparão o lugar.

No ar, Dilma & Temer - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 15/02


O PMDB vai usar seu programa de TV no horário partidário, dia 28, para exaltar feitos do governo "Dilma e Temer" e reafirmar o "compromisso" com a presidente. Sob artilharia de Lula e do PSB, o partido quer mostrar força: ressaltará o fato de ter a Vice-Presidência e comandar Câmara e Senado -com direito a falas de Renan Calheiros e Henrique Alves. Por fim, ensaiará discurso social: Temer dirá que Dilma e ele cumprirão promessa de erradicar a miséria nos próximos dois anos.

Fechando... Em conversas recentes com ministros, Dilma Rousseff se disse disposta a abafar planos de aliados que ensaiam migrar para outros projetos políticos. Nas palavras de um interlocutor, a presidente quer "cortar a asa'' do PSB, que integra a base, mas ameaça lançar Eduardo Campos em 2014.

...o cerco O Planalto monitora conversas de PDT e PR com Campos e Aécio Neves (PSDB), outro potencial adversário de Dilma. Auxiliares defendem acomodação dessas siglas na reforma ministerial para evitar a debandada.

Vacina Aliados do governador de Pernambuco apontam que, ao tomar a iniciativa de tornar públicas irregularidades em sua pasta e as medidas que adotou para contê-las, Fernando Bezerra (Integração) está se antecipando a uma esperada devassa nos ministérios da cota socialista, tramada por governistas.

RSVP A propósito, Eduardo Campos recebeu convite para o evento que lançará o novo partido de Marina Silva, também presidenciável, amanhã em Brasília.

Carga pesada Porta-voz dos dissidentes pedetistas e crítico à medida provisória dos Portos, o deputado Paulinho da Força (PDT-SP) afirma que o projeto só beneficia os "amigos do governo". "Como só pode disputar quem tem terreno, ganham pessoas como Gilberto Miranda e Eike Batista", fustiga.

Prévia Antes de iniciar o road-show internacional para apresentar projetos de infraestrutura a investidores, Gleisi Hoffmann (Casa Civil), Antonio Patriota (Relações Exteriores) e Bernardo Figueiredo (Empresa de Logística) expõem o plano segunda-feira a embaixadores estrangeiros no Itamaraty.

Companheiro 1 Lula abrirá, no dia 27, a primeira reunião do novo comando nacional da CUT, em hotel do centro de São Paulo. O petista fará uma saudação inicial aos 130 dirigentes da central e discorrerá sobre as cenas política e econômica do país.

Companheiro 2 O evento é preparativo para a Marcha dos Trabalhadores a Brasília, durante a qual sindicalistas cobrarão de Dilma Rousseff o cumprimento das promessas de campanha.

Todos por um Geraldo Alckmin convidou os 70 deputados da bancada paulista na Câmara para café da manhã no Bandeirantes na próxima terça-feira. O governador pedirá aos congressistas que votem em bloco nas medidas provisórias dos royalties e do comércio eletrônico.

In pectore Do advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, sobre a sucessão de Bento 16: "Como a indicação do papa pode priorizar um negro e latino-americano, o escolhido poderia ser o Joaquim Barbosa. Seria bom para o Supremo e bom para a Igreja".

Codinome O advogado da União Jefferson Carús Guedes, ex-vice-presidente jurídico dos Correios e alvo de processo disciplinar sob acusação de envolvimento nos desvios da Operação Porto Seguro, se referia ao ex-diretor da ANA Paulo Vieira, em e-mails analisados pela comissão de sindicância da AGU, como "Paulo Grana".

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio
Haddad tenta vender um conto de fadas, mas a realidade é que há intensa distribuição de cargos e verbas para a base aliada.

DE FLORIANO PESARO, líder do PSDB, sobre artigo em que o secretário João Antonio (Relações Governamentais) prega nova relação com os vereadores.

contraponto


Conclave da moda


Recém-empossado presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PDE) desembarcou em Roma em 2005 para o enterro do papa João Paulo 2º. Na recepção do hotel, foi cercado pelos repórteres brasileiros. Sem hesitar, chamou um grupo de jornalistas para ir ao seu quarto:
-Vocês me ajudam a escolher a roupa para amanhã?
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), fingiu não saber da "consultoria" ao vê-lo na cerimônia:
-Presidente, o senhor está muito alinhado!
-A gente tem bom gosto, né, Renan? - respondeu o presidente da Câmara, todo prosa, sem notar a ironia.