sábado, dezembro 29, 2012

Ambientalismo republicano - KÁTIA ABREU

FOLHA DE SP - 29/12


Eu temia agressão física no Meio Ambiente; os radicais agora perderam espaço para o ambientalismo republicano


É grande equívoco separar produção agrícola do universo da preservação. A agricultura é uma das atividades ambientalmente mais sustentáveis. Não fosse assim, não se produziria mais trigo no Velho Mundo, passados milênios de safras consecutivas.

A agricultura não é nem poderia ser uma atividade degradante, sob pena de, a médio prazo, pôr em risco a produção de alimentos para a população mundial.

Como em qualquer ambiente, seja urbano ou rural, temos os que produzem com consciência e a minoria que lança mão de práticas reprováveis.

Estes últimos devem ser educados e, em última instância, punidos. Mas é bom que se diga: no setor agrícola, são exceção, e não regra geral.

O termo sustentabilidade é bom de marketing, está na moda, mas não tem referencial concreto em nosso universo mental. Trata-se de palavra criada para a ela atribuirmos um significado.

Qual o significado válido? Difícil dizer, visto que o termo pode ser empregado em diversos ambientes, nas várias regiões dos cinco continentes. E a geografia é determinante. Uma atividade sustentável nos Emirados Árabes Unidos pode não o ser no pantanal brasileiro.

É preciso ter conhecimento para bem usar o conceito. Se imaginamos, por exemplo, a produção de café no sul de Minas Gerais, não temos como a ela associar falta de sustentabilidade.

O ambiente não está degradado, novas safras se repetem a cada ano e o turismo ecológico está no orçamento de boa parte dos municípios produtores, demonstrando que a beleza cênica e a qualidade ambiental não foram afetadas pela atividade agrícola.

Fica claro, portanto, que os movimentos políticos que ostentam as bandeiras da agricultura e do ambiente não devem ser adversários. São mais produtivos o trabalho conjunto e o diálogo permanente na busca do fortalecimento do histórico de compatibilidade entre produção e preservação.

Isso não é uma tese nem um discurso. É constatação da realidade histórica, que, felizmente, tem sido reconhecida. Técnicos ambientalistas do governo sentaram-se à mesa com técnicos da produção rural em 2012.

Confesso que, até há bem pouco tempo, eu tinha receio de entrar no Ministério do Meio Ambiente. Mais do que não ser convidada, eu temia uma agressão física dos radicais que agora perderam espaço para o ambientalismo republicano.

O ministério era uma extensão de ativistas radicais originários de diversas ONGs, todas comprometidas com o acirramento da irracional disputa entre ambientalismo e produção.

Não havia técnicos ali, e sim ativistas empunhando bandei-

ras agressivas e falaciosas, numa verdadeira cruzada contra os produtores rurais.

Agricultores e pecuaristas eram vendidos à opinião pública como vilões do ambiente no Brasil, e não como trabalhadores e empresários que produzem alimentos.

Mas, para meu espanto, foi no Ministério do Meio Ambiente que realizamos uma reunião histórica em meados de novembro. Técnicos do governo sentaram-se para ouvir a CNA a convite da ministra, que queria saber o que pensam e querem os produtores rurais para o futuro e quais os gargalos que estrangulam o setor.

Hoje, já há o reconhecimento de que produção agrícola e preservação caminham juntas. A sociedade que deseja a estabilidade da produção de alimentos também cobra cuidado com o ambiente.

Para o produtor rural, esse respeito à natureza tem duplo significado. Além da manutenção de

um espaço agradável, representa o cuidado com seu bem maior: a terra, que, uma vez degradada, vai dilapidar seu patrimônio e comprometer a eficácia de seu plano de negócios.

Esse entendimento muito contribuirá para melhorar a imagem da agricultura nacional. E não apenas diante dos brasileiros como também aos olhos do mundo.

A coexistência entre produção e preservação confere tranquilidade ao campo, agrega valor à produção sustentável e não esvazia o verdadeiro movimento ambientalista republicano, cuja vigilância, mais do que útil, é fundamental a qualquer sociedade.

Eu não demitiria... - WILLIAM DOUGLAS


O GLOBO - 29/12



Publicou-se: "Diretora suborna alunos para receber bonificação em escola do Rio." Como juiz federal, já demiti a bem do serviço público vários maus servidores, mas não demitiria esta professora. Existem estudos sobre premiar alunos com dinheiro onde, de um modo geral, se entendeu que a ideia não é boa, mas ainda não há uma conclusão. Apenas dar dinheiro, um simples "toma lá dá cá", é temerário, mas não podemos ser levianos ao avaliar este caso.

A primeira coisa a notar é que o "suborno" foi para os alunos fazerem algo lícito (uma prova). Segunda, ela estava querendo aumentar a produtividade do estabelecimento que dirigia. Talvez de modo equivocado, mas ao menos se esforçando. Terceira: quais os motivos de tanto interesse em melhorar o desempenho da escola? O dinheiro que ela "investiu" era para estimular os jovens a fazer provas do Saerj, Sistema de Avaliação do Estado, um dos critérios usados pelo governo para pagar bônus aos funcionários que atingem metas. Será que o Estado do Rio está subornando os professores? Por que o Estado pode estimular com dinheiro, e a diretora, não?

Logo, sem entrar no mérito sobre se o modelo é saudável ou não, sejamos honestos e coerentes: a diretora apenas aplicou a mesma lógica à qual foi submetida. Mais: pelo que se viu nos vídeos, ela não foi orientada sobre as vantagens do novo sistema. Que tipo de treinamento gerencial ela teve para assumir a direção? Alguém a capacitou para funções diretivas ou deram a missão sem dar treinamento e meios?

O preparo dos jovens para a vida deve ser feito com muita cautela, mas não esqueçamos que no mercado, para onde se dirigem, os prêmios financeiros estão na lista, embora raramente como único vetor. A Educação tem escândalos sim, mas outros: o quanto se paga e treina um professor, o uso das verbas, a falta de atratibilidade da carreira etc. Premiar professores (e alunos) por resultados é positivo, mas não é simples. O MEC acabou de punir várias universidades com base no resultado do Enade. Tais instituições, por seu turno, ponderam que os alunos não têm estímulo para fazer tal prova - só a fazem se quiserem.

Neste quadro, as universidades públicas estão de mãos atadas, enquanto algumas das particulares andam sorteando tablets e até carros e viagens para quem faz a prova. Em suma, rico pode "subornar", escola pública continua à margem do mercado. Enfim, somos uma sociedade hipócrita e atrasada na qual a diretora que "entendeu" o sistema corre o risco de ser punida por fazer algo que, certo ou errado, a sociedade tolera.

A questão da energia - EDITORIAL ESTADO DE MINAS


ESTADO DE MINAS - 29/12
Apagão, blecaute, corte ou que nome se dê à escuridão, ela enxota investidores

A presidente da República não pode mandar o povo gargalhar de declaração oficial. "Vocês se lembram da história do raio? De que caiu um raio? No dia em que falarem para vocês que caiu um raio, vocês gargalhem", disse Dilma Rousseff, na quinta-feira, em café da manhã com jornalistas. Pois a descarga elétrica na atmosfera foi usada mais de uma vez pelo órgão governamental responsável pela coordenação e controle da operação das instalações de geração e transmissão de energia elétrica, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), como desculpa para os sucessivos blecautes no país. Se as declarações não passavam de pilhéria, não tiveram a menor graça. 
Aliás, era o caso de a presidente repreender o funcionário que levantou a hipótese, não de mandar rirem de quem faz blague com coisa séria. No dia 15, o próprio diretor-geral do ONS, Hermes Chipp, levantou a hipótese do raio ao falar do corte no abastecimento de energia que atingiu 12 estados. "Se caiu (o sistema) por causa do raio, teve falha humana", aquiesceu agora a presidente. Falha tripla, pelo que se vê. Primeiro, errou-se na operação; depois, na explicação; por fim, na condução do processo, com a autoridade máxima minimizando a gravidade das trapalhadas, quando deveria, isso sim, determinar profunda investigação e sanar as falhas, inclusive afastando eventuais incompetentes ou relapsos que descuidam de setor estratégico para o país.
Dilma foi Ministra de Minas e Energia e da Casa Civil no governo Lula, além de estar na metade do mandato, com popularidade suficiente para se reeleger em 2014. Nesse período, ganhou a fama de gerenciar com competência e firmeza, qualidades que terminaram por alçá-la à Presidência da República. Daí por que a ironia caiu tão mal quanto outra declaração. Ao referir-se à necessidade de investimentos na manutenção do sistema elétrico, afirmou com todas as letras: "Tinha (o país) de estar fazendo isso há mais tempo". Fez-se a luz, enfim? Eureca! Que a gerente se apresente com as credenciais em que o eleitor apostou e continua a apostar. Se antes o problema era de geração (estando afastado o risco de racionamento), como ela afirma, e agora é de transmissão, ao consumidor - seja pessoa física ou jurídica - importa que a eletricidade não seja incerteza.
No mesmo encontro com a imprensa, a presidente manifestou confiança na expansão econômica em 2013. Citou o corte nos juros, a inflação controlada (embora acima do centro da meta), a intenção de baixar impostos, a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) já se aproximando do programado para 2014, e apelou aos bancos privados para que colaborem com o financiamento do setor produtivo. Ao ambiente favorável, há que acrescentar a garantia do fornecimento de energia, ou nada feito. Apagão, blecaute, corte ou que nome se dê à escuridão, ela enxota investidores. Portanto, melhor chorar que gargalhar enquanto o sistema elétrico nacional estiver vulnerável.

O calendário lunar e a economia - MARCOS CARAMURU DE PAIVA

FOLHA DE SP - 29/12


Até recentemente, não se pensava em tempo contínuo, em prazos longos na China


Como em todos os países, os chineses celebram o ano que se inicia em 1º de janeiro. Recentemente, nas grandes cidades, há quem comemore o Natal. Não com sentido religioso, mas como uma espécie de dia dos namorados, em que amigos trocam presentes.

A grande festa chinesa é o festival da primavera: o início do ano lunar, mais conhecido como ano novo chinês. É nele que as famílias se reúnem, de forma parecida com a maneira como nós festejamos o Natal: o jantar na noite de véspera, a comunicação obrigatória com os parentes. As crianças ganham envelopes vermelhos com dinheiro. Numa família de classe média, todos os solteiros ganham o seu envelopinho. E, quando os pais vivem modestamente, os filhos empregados dão-lhes também um envelope.

À parte as celebrações, as diferenças no calendário têm algum impacto sobre o comportamento empresarial. Até muito recentemente, a programação dos negócios na China ia de um ano lunar a outro.

Não se pensava em tempo contínuo, em prazos amplos. Só recentemente, os empresários passaram a perceber que o crescimento a taxas elevadas não é garantido.

Por isso, expandiram o horizonte de planejamento. Mas o ano novo lunar ainda é a grande referência para começar e terminar projetos.

Todas as empresas fecham as portas por pelo menos uma semana para festejá-lo. Como também fecham conjuntamente, por uma semana, no festival do meio de outono e na data nacional.

No melhor espírito da cultura local, os líderes anunciados no Congresso do Partido Comunista, em novembro, assumem o governo apenas em março de 2013, depois do ano novo lunar.

Até lá, interpretam-se os sinais que vão sendo dados aqui e ali para estimar o futuro.

O mais expressivo foi o novo chefe do partido, Xi Jinping, ter feito a sua primeira viagem fora de Pequim a Guangzhou, onde a experiência de abertura deslanchou, em 1978. Seu propósito foi homenagear o pai da China moderna, Deng Xiaoping, e reforçar o compromisso com as reformas.

A economia encerra o ano com melhores perspectivas do que começou, fruto do afrouxamento monetário, de investimentos estatais e do aumento do consumo.

A indústria voltou a crescer, a moeda voltou a se apreciar e a inflação está baixa.

Mas a grande pergunta ainda é: qual será o grau de coragem dos novos líderes, ou o nível de entendimento entre as diferentes correntes do partido para redefinir os rumos de um sistema que deu certo, mas cristalizou práticas e interesses que precisam ser mudados?

A melhor resposta até o momento está numa frase do futuro primeiro-ministro, Li Keqiang: se novo governo não levar adiante as reformas, não fará grandes erros, mas pesará sobre ele uma responsabilidade histórica.

Num mundo em que a Europa, os Estados Unidos e tantos outros países estão focados apenas no curto prazo -a renovação das dívidas, o abismo fiscal-, a frase de Li é um sopro de encorajamento.

Mas passar do discurso à prática não será trivial.

Gargalo ambiental no Rodoanel - EDITORIAL O ESTADÃO


O ESTADÃO - 29/12

O cumprimento do cronograma das obras do Trecho Leste do Rodoanel Mário Covas está ameaçado pela lentidão do processo de licenciamento ambiental. Representantes do consórcio SPMar, responsável pela construção, asseguram que, se até o início de janeiro as licenças para dois lotes das pistas não forem concedidas, máquinas serão paralisadas e haverá dispensa de operários.

Os prejuízos provocados pela demora vão além das demissões e do custo das horas de máquinas paradas. Somam-se a eles o impacto negativo no transporte de carga de todo o País, que conta com a entrega desses 44 quilômetros de pistas prometidos para o primeiro trimestre de 2014.

Esse novo trecho ligará as Rodovias Dutra, Fernão Dias e Ayrton Sena ao Sistema Anchieta-Imigrantes, livrando os caminhoneiros da congestionada Marginal do Tietê.

O licenciamento da obra do Trecho Leste está sendo feito por lotes. Há cinco deles já licenciados e em construção nas cidades de Ribeirão Pires, Suzano e Mauá, na Grande São Paulo. Outros dois, que somam 15 quilômetros de pistas, esperam pelas licenças desde abril. Um desses, o Lote 5, fica entre dois trechos que já estão em obras e, por isso, é hoje um vazio que impede a junção das pistas. Uma ponte suspensa sobre a várzea do Rio Tietê - que será a segunda maior do País, com 12 quilômetros de extensão, só perdendo para a Ponte Rio-Niterói - está sendo construída de forma isolada, desconectada dos demais trechos.

A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) afirma que falta uma parte da documentação - já requisitada ao consórcio - para a liberação. O sistema de licenciamento ambiental no Estado não consegue atender como deveria às necessidades da região metropolitana de São Paulo. Estudos comprovam que a falta de estrutura, de recursos humanos e de tecnologia - que são indispensáveis para dar maior rapidez aos processos de licenciamento, principalmente de projetos complexos - estimulam o uso do artifício da devolução repetida dos projetos aos interessados para complementações, exatamente como ocorre agora no Trecho Leste.

Trata-se de um procedimento administrativo protelatório usado para justificar os atrasos provocados pela incapacidade de atender à demanda. É evidente que há de se considerar também a possível existência de falhas e incorreções nos estudos apresentados.

No entanto, numa obra que exige investimentos vultosos, de mais de RS 2,5 bilhões, não é razoável supor que o consórcio não se esforce para cumprir o cronograma, atrasando assim o retorno do investimento, que virá principalmente dos pedágios. Seria lutar contra seus próprios interesses.

Cidades que terão as novas pistas em seus perímetros já convivem com as obras em estágio avançado. Em Mauá, por exemplo, as pistas do Rodoanel margeiam a Avenida Humberto de Campos, um dos principais corredores do município.

Também em Ribeirão Pires o movimento da construção alterou a rotina da cidade e seus planos de urbanização.

As obras começaram em agosto de 2011, com o trevo que ligará o Trecho Sul do Rodoanel e a Avenida Papa João XXIII com o Trecho Leste. Em outubro daquele ano, a segunda fase das obras começou com a instalação da usina de concreto da fábrica de vigas, em Suzano. Dois meses depois foi a vez da construção do túnel Santa Luzia. Em janeiro passado, as demais obras emperraram. Mesmo assim, outros três lotes tiveram os pedidos de licenciamento protocolados na Cetesb. Mas tudo indica que devem enfrentar os mesmos problemas dos demais.

Os prazos para as concessões dos licenciamentos, extremamente longos, oneram os investimentos e atrasam as obras, como mostram os exemplos deste e de outros trechos já concluídos do Rodoanel.

Se o governador Geraldo Alckmin deseja mesmo acelerar, como tem dito, as obras do Trecho Norte e a construção do Ferroanel, deve se esforçar para melhorar o emperrado sistema de licenciamento ambiental.

Entre avanços e carências - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 29/12


Os últimos anos confirmam que, assim como a China está para o crescimento econômico, o Brasil está para o desenvolvimento social, como sintetizou o presidente do Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Neri. Ainda assim, nem as radicais transformações socioeconômicas registradas desde o início da estabilidade, há quase duas décadas, foram suficientes para aproximar os dois Brasis que outro economista, Edmar Bacha, definiu há algum tempo como Belíndia _ o lado Bélgica, rico, e o Índia, pobre. Uma aproximação consistente entre esses dois polos, com a redução dos abismos sociais, exige que o país tenha capacidade de levar sua população a depender menos das políticas de transferência de renda e mais dos ganhos do trabalho, reforçados pela maior rentabilidade em consequência de uma educação de mais qualidade.
De todas as transformações registradas no país depois da estabilização econômica, nenhuma alcançou tanta repercussão quanto a notável ascensão social dos brasileiros e, em consequência, o salto do país na direção de padrões semelhantes aos de nações adiantadas. Favorecidas pelas políticas de inclusão social, mais de 30 milhões de pessoas _ o equivalente a toda a população da Venezuela _ ascenderam para as classes A, B e C. Desse contingente, 20 milhões, quase duas Bolívias, saíram da pobreza. Em consequência, 53% da população brasileira, agora, é de classe média e desfruta de um país mais democrático, mais justo, menos desigual, mais alfabetizado, mas também mais velho. O crescimento no número de idosos impôs desafios novos tanto no âmbito educacional quanto no da Previdência, para os quais será preciso buscar soluções urgentes. Os problemas, porém, não se resumem a esses dois aspectos, estendendo-se a uma série de outros pontos igualmente preocupantes.
Nos últimos anos, o poder público tem dado prioridade a bolsas de auxílio financeiro e a socorros eventuais que ajudam a melhorar o poder aquisitivo das faixas de menor renda, mas pouco contribuem para suprir falhas no atendimento a demandas básicas. A mais gritante das carências é a que persiste na área de saúde pública _ tema apontado sistematicamente como a maior preocupação dos brasileiros em pesquisas de opinião pública. A chaga, em total desacordo com o Brasil emergente, resulta do descaso contumaz do poder público a essa área, contaminada por gestões ineficientes e por práticas de corrupção.
O mesmo país que avança economicamente e, apesar da frustração do Produto Interno Bruto (PIB) em 2012, amplia renda e reduz desigualdades não se dispôs a enfrentar questões relacionadas à saúde e ao bem-estar da população. Ainda hoje, quase 40% das residências brasileiras não têm qualquer tipo de saneamento básico. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas 0,6% das casas não contavam com água encanada e vaso sanitário com descarga nos dados do último Censo. O comparativo dá uma ideia de quanto o Brasil ainda precisa avançar para atender pontos elementares numa área que tem tudo a ver com a saúde da população.
Uma simples elevação na média de anos de estudo é suficiente para tornar os cidadãos mais bem informados e, portanto, mais exigentes em relação a seus direitos, entre os quais se incluem ações para assegurar maior qualidade de vida. O poder público, por sua vez, deve se comprometer em fazer a sua parte em relação a esses e outros aspectos essenciais para suprir carências da população, com ênfase sobretudo em educação de qualidade. O país precisa criar as condições para apostar mais nos ganhos do trabalho, com ênfase na educação, e menos em ajudas oficiais como alternativa para a redução de desigualdades.

Dilma entre a gestão e a política - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO -29/12


A presidente herdou do segundo governo Lula o descompromisso com reformas estruturais, mas algumas se tornam cada vez mais prementes, como a do INSS



A presidente Dilma vira fio desencapado quando lhe é feita alguma pergunta sobre problemas no setor elétrico. Ministra de Minas e Energia, responsável pela área durante quase todo o primeiro governo Lula, até assumir a Casa Civil, na turbulência do escândalo do mensalão, Dilma parece se sentir atingida toda vez que se abordam as incertezas existentes na área. É um positivo sinal de defesa da autoestima, mas que não tranquiliza quem depende de energia — todos.

Foi sintomática a reação da presidente, ao tratar do assunto, em café da manhã com jornalistas, quinta, no Planalto. Por coincidência, naquele mesmo momento, suados passageiros ainda tentavam embarcar no aeroporto do Galeão, no Rio, atingido por um apagão na noite anterior, cuja responsabilidade o governo tende a jogar sobre a Light, para proteger a há tempos desacreditada estatal Infraero. (Impossível de ser inocentada na conversão de um outro aeroporto em sauna, o Santos Dumont, por falhas constantes no sistema de ar-condicionado).

Com a ênfase característica, a presidente afasta qualquer risco de apagão no país — embora já hajam ocorrido alguns em amplas regiões do país nos últimos meses — enquanto defende o novo modelo que impõe a “modicidade tarifária” aos concessionários, na renovação de concessões. Nas estatais federais, a presidente, representante do sócio controlador, ordenou a aceitação dos termos para renovar as concessões, apesar da grita dos acionistas minoritários. Se as novas tarifas não conseguirem sustentar as empresas, o Tesouro as bancará, num perigoso retorno a um passado em que o contribuinte sustentava sem saber estatais deficitárias. Até tudo explodir em inflação.

Neste dois primeiros anos de governo, metade do mandato, o uso da mão pesada do Estado neste caso simboliza bem o estilo da gestão Dilma na economia: ações tópicas, sem sintonia fina, que, juntas, resultam no retraimento do setor privado, temeroso em assumir riscos em projetos de investimento. Aquele escolhido para ser um “campeão nacional”, com livre acesso a Brasília e aos financiamentos do BNDES, não reclama. Mas uma economia bastante diversificada como a brasileira precisa de políticas amplas, horizontais.

Se, em questões técnicas, a presidente demonstra ser refratária a críticas, inamovível em suas convicções, mesmo que não se saiam bem nos testes de aplicação prática, nestes primeiro dois anos de poder ela tem revelado razoável e até supreendente habilidade política.

Na entrevista de balanço de 2012, deixou claro manter-se distante dos ministros que indica para o Supremo, como precisa ser, defendeu, como de praxe, seu partido, o PT, e sem cair na armadilha de discutir agora as eleições de 2014, uma indesejada antecipação de agenda.

Um dever de casa para Dilma em 2013 seria transpor para a administração da economia a capacidade de se adaptar às situações e entender os problemas que demonstra na política.

Metas para 2013 - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 29/12


O Banco Central já provou que estava certo, pelos idos de agosto de 2011, ao desafiar a noção convencional de que os juros reais (descontada a inflação) não poderiam cair abaixo de 5% ou 6% e ao conferir mais peso para a atividade econômica em suas decisões.

Tais sucessos, contudo, parecem ter criado um excesso de confiança na cúpula do BC. Generaliza-se agora, em consequência de seu alinhamento com o desenvolvimentismo simplista do Palácio do Planalto, a convicção de que a autoridade monetária tolerará inflação acima do centro da meta por tempo prolongado.

Além de definir a taxa básica de juros (Selic) e medidas como depósitos compulsórios para bancos, o BC conta com um instrumento fundamental para obter a convergência da inflação em direção à meta de 4,5%: a comunicação.

A forma de divulgar sua estratégia influencia expectativas de consumidores e empresas quanto a níveis de atividade e preços, o que obviamente afeta a inflação real. É evidente a necessidade de transmitir clareza e determinação.

As projeções de inflação do BC, no entanto, têm sido tão desacertadas quanto as do ministro da Fazenda, Guido Mantega, a respeito do PIB. Previu 5% para 2011, e a taxa ficou em 6,5%. Para 2012 projetou otimistas 4,7%, mas o IPCA deve ir a 5,8%.

No relatório de inflação da semana passada, o exercício se repete: o BC espera 4,8% em 2013, ao passo que analistas privados contam com o mínimo de 5,5%.

Parte dos erros de previsão decorre de eventos pontuais, como altas de preços agrícolas. Mas também persistem os fatores estruturais que tornam o Brasil uma economia mais inflacionária. Como explicar uma taxa sempre dois ou três pontos acima da média global, com a média de crescimento do PIB de apenas 1,8% nos últimos dois anos?

A indexação continua como grande problema. À correção anual do salário mínimo, sempre com ganhos reais relevantes, soma-se a leniência com gastos públicos na Fazenda, que ainda trabalha para desvalorizar o real sem atentar para o impacto nos preços.

A credibilidade do BC foi conquistada a duras penas. Não é seu papel coadjuvar o otimismo pueril do governo, mas deixar claro para todos que não tolerará aventuras inflacionárias -em 2013 ou depois.

PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV 29/12


10h30 - Hull City x Leeds United, Inglês (2ª divisão), ESPN Brasil

10h45 - Sunderland x Tottenham, Inglês, Fox Sports

12h15 - Harlequins x London Irish, Inglês de rúgbi, ESPN +

13h - Manchester United x West Bromwich, Inglês, Fox Sports

13h - Norwich x Manchester City, Inglês, ESPN

13h - Fulham x Swansea, Inglês, ESPN Brasil

14h45 - Rice x Air Force, futebol americano universitário, ESPN +

15h20 - Brighton x Watford, Inglês (2ª divisão), ESPN

15h30 - Arsenal x Newcastle, Inglês, ESPN Brasil

16h30 - Imperatriz x Sesi, Superliga masc. de vôlei, SporTV

18h15 - West Virginia x Syracuse, futebol americano universitário, ESPN +

21h30 - São Bernardo x Canoas, Superliga masc. de vôlei, SporTV 2

21h45 - Texas x Oregon State, futebol americano universitário, ESPN +

22h - Central Michigan x Michigan, basquete universitário, Bandsports

1h15 - TCU x Michigan State, futebol americano universitário, ESPN +

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“O ano de 2013 vai ser de grande expansão econômica”
Ministro Guido Mantega (Fazenda) exercitando seu melhor talento, o de palpiteiro


DOSSIÊ CONTRA FILHA DE MANTEGA PASSOU POR ROSE

Rosemary Noronha, amiga íntima que Lula fez chefe de gabinete do escritório da Presidência em São Paulo, tinha na sala monitor com transmissão em tempo real das imagens das câmeras de vigilância da garagem e da portaria do prédio. Investigadores desconfiam que Rose forneceu a inimigos do ministro Guido Mantega (Fazenda) detalhes que abasteceram um dossiê sobre sua filha, a modelo Marina Mantega.

OLHUDA

Rose sabia da entrada e saída de Marina Mantega em seu Audi preto. O inimigo em questão era Ricardo Flores, ex-presidente da Previ.

VOCÊ JÁ SABIA

José Genoino, que é suplente, deve assumir o mandato de deputado federal na próxima quarta (2), como esta coluna antecipou no dia 22.

UFA!

Lula deve estar aliviado: Dilma adiou a reforma ortográfica para 2016, quando pretende lançar sua autobiografia só com figurinhas.

PERGUNTA NO CÉU

Se Dilma considera apagão “falha humana”, será “falha divina” cair raio numa central energética?

OMC PÕE AZEVEDO COMO ALTERNATIVA AO ITAMARATY

A candidatura de Roberto Azevedo, que nasce muito forte, deverá levá-lo à direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), mas já o coloca como alternativa para ministro das Relações Exteriores. Embaixador de carreira com formação em engenharia, construiu na chefia da missão brasileira OMC, desde 2008, reputação de negociador brilhante, neutro, admirado pela capacidade de promover o consenso.

UM A MENOS

A eleição de Roberto Azevedo seria a melhor notícia para o chanceler Antônio Patriota: o mandato de diretor-geral da OMC é de quatro anos.

PEGANDO O BONDE

O governo brasileiro apoia agora o embaixador Roberto Azevedo para chefiar a OMC, mas colegas de outros países falam nisso há meses.

LIDERANÇA

Durante visitas à OMC, em Genebra, o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) se impressionou com a liderança de Azevedo.

TRINTA DINHEIROS

A agora comportada CNBB botou a mão no bolso do contribuinte e dele arrancou R$ 419.921,50, via Ministério da Justiça, a pretexto de elaborar um projeto sobre “o papel dos cristãos” na luta pela anistia.

VASSOURINHA

O prefeito eleito, Fernando Haddad (PT), declinou do convite para entrar antes da posse no Palácio Matarazzo, sede da Prefeitura de São Paulo. Não quis repetir FHC, que se sentou na cadeira antes do tempo.

GENRO DA SOLIDÃO

O governador gaúcho Tarso Genro jogou a toalha e abandonou os companheiros à prisão. Mas antes eles já o tinham entregue à solidão gaúcha. Motivo: chatice. É um homem densamente solitário.

LULO-ESQUECIDO

Nos meios jurídicos, o tema preferido é o artigo de Marcio Thomaz Bastos afirmando que o STF faz “repressão”. Dispensado em seus serviços pelo bicheiro Carlos Cachoeira, o ex-ministro da Justiça se alvoroça para prestar serviços ao lulo-esquecimento.

SEM CARTEIRADA

De uma médica do ministro Edison Lobão, em Brasília: “Nunca vi um paciente assim. Obedece a tudo que lhe é prescrito, espera ser chamado e nunca diz que tem pressa para ser atendido”.

DISSE QUE VAI

Uma nova fábrica de fármacos, em Itapira (SP), dará autonomia ao Brasil, que ainda importa 85% dos princípios ativos dos genéricos. A notícia foi dada ao ministro Alexandre Padilha (Saúde) por Ogari de Castro Pacheco, fundador da Crisálita. Dilma deve ir à inauguração.

FOI MAL

Ex-ministra de Minas e Energia e no terceiro ano de mandato, Dilma perdeu a fama de “gerentona” atribuindo falha humana aos apagões constantes. Se o gerente não sabe, o boy vai comandar o negócio.

BOLA FORA

Defensora das mulheres, Dilma deve ter oficializado sem saber a promoção do ministro de segunda classe Alfredo Leoni a embaixador no Paquistão. Ele foi condenado por agredir uma oficial de chancelaria.

PENSANDO BEM...

...já apagaram a luz do aeroporto. Agora só falta sair.


PODER SEM PUDOR

UM PACIENTE EM FRIA

O programa de inauguração do Hospital dos Radialistas, no Rio, previa até uma cirurgia a ser realizada pelo então presidente, Juscelino Kubitschek, que era médico em Carlos Frias. Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, não deixaria de fazer uma advertência:

- Não é preciso ser Carlos para entrar em frias. E fígado não é rim, que todo mundo tem dois...

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Descaso na gestão pública: Prefeitos não reeleitos deixam caos em cidades
Folha: Inspeção em SP só será exigida para carros com 5 anos
Estadão: Dilma tem 1º déficit de contas públicas e fica longe da meta fiscal
Correio: Moma: Acervo permanente
Zero Hora: MP denuncia policial por ameaçar juíza gaúcha
Estado de Minas: 600 prefeitos na mira do MP

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Desembarque - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 28/12


No governo, a batata da diretoria da incompetente Infraero está assando a temperaturas maiores que o calor qu tem feito no Santos Dumont com ar-condicionado quebrado.

Calma, gente...
Aliás, no apagão do Galeão-Tom Jobim, quarta, um passageiro do voo 974 (Rio-Nova York), da American Airlines, gritou enfurecido:
— Se alguém aqui votar no Lula ou na Dilma é um filho da puta! Foi aplaudido.

Ai, que calor I
Dois pacientes atendidos, quarta, na emergência do Hospital municipal Pedro II, em Santa Cruz, tinham queimaduras de 2º grau por causa da exposição ao sol.

Caetano 2013
O prefeito Eduardo Paes vai convidar Caetano Veloso para fazer o show do Natal do ano que vem, na Praia de Copacabana.

Rubem Braga em Paris
Está no prelo da Editora José Olympio o livro “Retratos parisiense — 31 crônicas de Rubem Braga”.
A obra reúne artigos e crônicas publicadas na imprensa entre 1949 e 1952, quando Braga foi correspondente na França, primeiro pelo jornal O GLOBO e, depois, pelo “Correio da Manhã”.

Plantão do governo
Quem fica em Brasília neste fim do ano, para cuidar da liberação das últimas emendas de 2012, é a ministra Miriam Belchior.

Ai, que calor II
Ontem, às 13h17m, já tinha acabado o estoque de ventiladores das Lojas Americanas, em Niterói.

Reinvenção do Fenômeno
Ronaldo Fenômeno, 36 anos, aposentado do futebol, faz jus àquela frase símbolo da propaganda oficial que ele estrelou, no início do governo Lula, em 2007, e que dizia: “Sou brasileiro e não desisto nunca”.
Ele já faturou com a imagem mais do que com o futebol.

Segue...
Membro do Comitê Local da Copa, Ronaldo é, com nove contratos, o terceiro mais requisitado garoto propaganda do país, perdendo apenas para Neymar e Ivete Sangalo, segundo acaba de concluir o Instituto Controle da Concorrência.
Neste ranking, o quarto lugar ficou com Reinaldo Gianecchini, que recebeu, depois da doença, oito convites para fazer anúncios.

Aliás...
FH, que esteve com o amigo Ronaldo, quarta, no Rio, contou que já recebeu em sua casa na Rua Maranhão, do bairro Higienópolis, em São Paulo, muita gente famosa:
— Mas ninguém foi mais paparicado na vizinhança do que Ronaldo. Merece!

Dilma em alta
A revista francesa “Challenges” traz na capa da edição deste mês, veja só, a presidente Dilma.
A chamada diz “Brasil: o país onde devemos estar” e a matéria principal é sobre as oportunidades de investimentos na terra de Dilma.

BAÍA DE M...
Não adianta tapar o sol com a vela. O calcanhar de Aquiles dos Jogos Olímpicos de 2016 é, sim, a sujeira da Baía da Guanabara, que deve receber as competições de vela. Repare nesta foto da velejadora Isabel Swan, bronze nos Jogos de Pequim, em 2008: uma montanha de lixo flutua nas águas da Baía. Muitos velejadores defendem a transferência das competições para Búzios, o balneário fluminense, temorosos que o mundo inteiro ligado nos Jogos veja atletas desviando da sujeira. Pode dar merda, literalmente. Com todo o respeito 

Pega ladrão
O músico André Valle teve sua guitarra Fender Statocaster 93 — avaliada em R$ 4 mil — furtada, na madrugada de ontem, em Ipanema.
Aconteceu quando ele saía de um show, na Rua Vinicius de Moraes, em frente ao bar onde havia tocado.

Ai, que calor III
Parceiro da coluna é testemunha. Os sprinklers (aqueles chuveirinhos contra fogo) do teto do primeiro andar do Shopping Leblon, no Rio, foram acionados pelo calor ambiente, quarta passada, na hora do almoço.

Retratos da vida
Morreu ontem, aos 90 anos, Zuleika Alambert, ex-deputada comunista. Ao lado de Heloísa Ramos, mulher de Graciliano Ramos, participou no Porto de Santos do boicote aos navios de bandeira espanhola na época da ditadura de Franco.

Ai, que calor IV
Na sauna do Santos Dumont, quinta, um amigo da coluna, que embarcaria para São Paulo, perguntou a um segurança, diante de uma porta de emergência aberta para amenizar o calorão, o porquê de o enorme ventilador atrás dele estar desligado.
Resposta:
— Não tenho autorização pra ligar, nem estou aqui pra isso.

Ponto Final
Que tal fechar o aeroporto do Galeão e transformar o local no Museu Nacional da Incúria Gustavo do Vale, presidente da Infraero? Com todo o respeito.

Sem limite - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 28/12


RIO DE JANEIRO - Milhares de pessoas foram multadas por alcoolismo e centenas presas pelo mesmo motivo, apenas no RJ e em SP, nesses feriados. Multiplique isto por dois ou três, e você terá uma ideia do número de vidas poupadas, por acidentes de carros que deixaram de acontecer graças à nova versão da lei seca -que não mais se limita ao bafômetro para aferir a quantidade de álcool no sangue de quem dirige nessas condições.

Os estudiosos estimam que 15% da população da maioria dos países têm propensão genética para o alcoolismo, e que, destes, pelo menos 10% desenvolvem a doença. Dito assim parece um número confortável. Não quando você o transfere para populações como a dos EUA, da Rússia e do Brasil -não por acaso, países com índices de alcoolismo acima da média.

Quinze por cento dos 195 milhões de brasileiros que o IBGE anunciou em 2012 significam 29 milhões com propensão para o alcoolismo. Dez por cento desses seriam 2, 9 milhões que já desenvolveram a doença. Mas um estudo da Universidade de Washington, publicado na revista "The Lancet", acusou a existência de 5, 6 milhões de alcoólatras ativos no Brasil -quase o dobro do "normal". Donde não surpreendem nossos índices de violência doméstica, mortes por intoxicação aguda e acidentes fatais de trânsito.

E por que não? Este é um país em que a empresa de maior valor de mercado é uma fábrica de cerveja, superando as de petróleo e gás, de mineração e os bancos. Deve nos valer também o título de país onde mais se urina e se dá descargas em mictórios, além de nos garantir também a supremacia mundial em barrigas.

Com tal exposição ao álcool, ao alcance de qualquer bolsa, sem limite de horário e, sabemos nós, de idade, só espanta que os índices de alcoolismo não sejam ainda mais altos no Brasil. Mas vamos esperar.

O apagão apagou a ceia de Natal - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO


O Estado de S. Paulo - 28/12


Sobre as toalhas brancas, manchas de vinho e pingos de cera sólidos. Há velas que arderam inteiramente, outras apenas metade. A chuva e que chuva, que raios - já havia terminado, os primeiros convidados tinham chegado quando a escuridão se fez em toda a região. O computador da empresa de energia informava laconicamente momento crítico em São Paulo. Isso estávamos vendo dentro de casa.

Estávamos montando a ceia de Natal, ultimando detalhes, quando as luzes se apagaram. Sorrisos: vai voltar logo. Olhando para fora, só víamos janelas escuras, bocas negras. O vinho foi aberto. Meia hora mais tarde, veio a preocupação. E se a energia não voltar? Tinha sido uma ceia longamente preparada para Marize, nossa matriarca. A primeira dela em São Paulo. Após uma vida inteira, deixou a cidade natal e veio para a capital morar perto das filhas. Um apartamento abaixo do nosso vagou, alugamos para ela, amenizando a adaptação.

Os convidados eram familiares, parentes próximos, amigos que ela não encontrava havia muito. O clima era bom, de expectativa, cordial. Cada família levou uma coisa, durante a tarde. Assados, tenders, bolos, vinhos, refrigerantes, frutas secas. Todos, com uma exceção, a de um ex-genro, o Jorge, que chegaria à noite com o peru. Então, puf, nosso pedaço mergulhou ria obscuridade. Buzinaço, congestionamentos, apitos estridentes da CET, o caos se esparramou pelo bairro de Pinheiros.

Um telefonema pelo celular, o primeiro problema. Um dos casais, que já pâssara a marca dos 8o, ficou, em dúvida. Gomo subir 13 andares? Ambos tinham boa vontade, não tinham pernas; Outra mulher, a Rose, viera de Porto Alegre para passar junto ao filho e perto de Marize. Rose também não poderia subir. Então, a própria Marize igualmente que não subiria os 11 andares entre o apartamento dela e o nosso, era demais. Desde que ela também ultrapassou os 80; tem 81, ainda que garantaque está com 89 caiu e quebrou o fêmur, aridáré um sacrifício. Baixas se sucederam.

Assim, de repente, aquele apagão que não tem culpados (Não é Dilma? Não é Alckmin?), são os raios, as chuvas, os ventos, o destino, a incompetência ou os equipamentos apodrecendo -estilhaçou uma festa de Natal. Dividiu o grupo. Na hora foi lembrado o Muro de Berlim. Um lado, o nosso, tinha tudo, as bebidas, as comidas, os aperitivos. Era o lado ocidental. O outro, tinha apenas um peru, nada mais. A ser dividido por dez. Era o lado "comunista". Como vivi essa situação nos anos 80, quando morei naquela cidade. Esplendor de um lado, pobreza do outro. Pensamos em alguém apanhar o carro e levar umas garrafas. Mas e os semáforos apagados? A rua parada? Marize, do segundo andar, pediu: podem trazer a minha ceiá? Desceram pelas escadas, pratos e bandejas nas mãos. Os que ficaram, comiam aperitivos. A luz acendeu, ouviu-se um aaaaaahhhh em toda a parte (igúal àquele antológico "Chupa Carminha!") e um minuto depois apagou.

A árvore de Natal ficou sem iluminação, com inúteis e desconsolados cordões de luzes que os netos tinham escolhido. Comidas emfim de preparação. O que dependia de um toque final de micro-ondas ficou frio. O forno foi aceso com fósforos. Outra odisséia: quem acha fósforos numa casa, no escuro, a uma hora dessas? O tender estava pronto, assim como a maionese, restava a decoração. Para olhar o lombo sendo assado, levavam a vela à boca do forno porém a luz bruxuleante era insuficiente.

Comemos à luz de velas, tentando consolo no romantismo, trocando informações pelos celulares, cujas baterias logo pifaram. "E aí no lado comunista?", perguntávamos. Eles riam: "É, mas o lado comunista temluz. Dividimos irmãmen-. te o peru. Só que ficamos sem presentes." Como todos os anos, para evitar aquele excesso de presentes há quem dê muitos, levado pela generosidade, ocasionando um desequilíbrio combinou-se usar o velho amigo secreto. Eagora? Os que não tinham podido vir?

Uma fórmula chinesa, lembrada pela prima Liz, foi aplicada. Cada um recebe um número. O primeiro olha a pilha de pacotes, apanha o que mais lhe convém, agradecia. E assim por diante. Porém, se um dos convidados decide que prefere "roubar" de alguém que já escolheu, pode; Vai lá e seqüestra. Dessa maneira, escolhas e "roubos" se sucederam até o último. Então, pacotes foram abertos, muito homem recebeu creme de beleza (mulher adora dar), mulher recebeu cueca ou barbeadores de última geração, terminei com um ralador de queijo elétrico, providencial. Dali em diante, começaram as negociações, entre risos. Risos na escuridão. ,

As velas ameaçavam extinção, iam diminuindo. Somos uma civilização que depende da energia elétrica. De repente, a luz se fez, à meia-noite. Gritos ecoaram de todas as janelas. Marize subiu para receber abraços e presentes. Estava feliz, conversava. "Cadê o resto?", perguntou. Afinal, queria ver a amiga Rose que veio do Sul. "E a Margô, o Jorginho, o doutor Gerard, a Bia, a Beti-na, as meninas da Bia?" Estas tinham vindo dos Estados Unidos, onde moram. Pequenas decepções. Ainda teve uma hora de doces, frutas. Uma nova garrafa de vinho foi enxugada. Muitos " tinham idade para lembrar a velha comédia com Doris Day, Onde Estavas Quando as Luzes se Apagaram?.

Já que não existe política energética, nem ministro, nem responsável, ganhamos blackout no Natal e fica ; por isso. Anotamos em nossos deveres para 2013: muitas velas. Fósforos.

Lanternas e pilhas suficientes. Lampiões. Coolers cheios de gelo. Se possível, um gerador. Lembrei-me que à tarde, fazendo as derradeiras com; pras, percebi que muitos comerciantes têm um gerador ao lado do estabelecimento. Ou, no próximo ano, combinar tudo com quem tem casa térrea. Viva Lula, viva Dilma, viva Lobão, viva Alckmin, que têm helicópteros e provavelmente geradores pagos por nós. E disseram que não há apagões. Esperem até a chuva cair.

O ano em que a Justiça venceu - ROBERTO FREIRE

BRASIL ECONÔMICO - 28/12


Neste período em que tradicionalmente são feitos balanços e retrospectivas do ano que chega ao fim, o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) aparece como o episódio de maior relevância.

A mais alta Corte do país condenou políticos flagrados em atos de corrupção e estabeleceu o que pode ser um novo parâmetro de conduta para os agentes públicos. Figurões do PT como José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e João Paulo Cunha foram condenados à prisão.

Ficou provado que o governo comprou partidos e parlamentares em troca de apoio político e usou dinheiro público para financiar o esquema.

Dirceu, tido como braço direito do ex-presidente, foi considerado chefe de quadrilha e terá de cumprir pena em regime fechado. Como o samba de uma nota só dos governos petistas tem a marca da corrupção em moto-contínuo, antes mesmo do término do julgamento do mensalão eclodiu um novo escândalo.

O Brasil descobriu a existência de uma organização criminosa que fraudava pareceres técnicos e atuava em favor de empresas junto ao governo. A ex-chefe de gabinete do escritório da Presidência em São Paulo, Rosemary Noronha, nomeada por Lula e integrante de seu círculo mais íntimo, usava sua proximidade com o ex-presidente para atender aos interesses da quadrilha.

E não parou por aí. Logo depois do ‘Rosegate', eis que o operador financeiro do mensalão, Marcos Valério, volta a ocupar as manchetes com denúncias feitas em depoimento à Procuradoria Geral da República.

Segundo ele, que revelou ter sido ameaçado de morte por pessoas ligadas a Lula, o ex-presidente teria autorizado empréstimos e até recebido dinheiro do esquema para o pagamento de gastos pessoais. O empresário ainda acusou dirigentes do Banco do Brasil de terem estipulado a agências de publicidade um "pedágio" de 2% do valor dos contratos, que deveria ser repassado ao PT.

Na economia, o Brasil termina o ano com índices pífios de crescimento. No terceiro trimestre, o PIB avançou 0,6% em relação aos três meses anteriores, e o país deve fechar 2012 com expansão de menos de 1,5%, bem atrás dos outros membros do grupo dos Brics.

A herança deixada por Lula é pesada: sofremos com graves deficiências de infraestrutura, vide o setor elétrico, o sucateamento de estradas, rodovias e portos, além de um contínuo processo de desindustrialização. Para piorar, o risco de inflação já começa a se tornar preocupante.

Nas eleições, apesar do uso desenfreado da máquina em favor das candidaturas petistas, as forças de oposição ao governo saíram fortalecidas das urnas.

O PT teve uma vitória importante em São Paulo, mas nem mesmo a participação ostensiva de Dilma e Lula no palanque evitou derrotas fragorosas em outras capitais, como Salvador, Manaus, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife, Vitória, Teresina e Porto Alegre. Em 2013, cabe à oposição continuar exigindo os resultados que não foram entregues à população nesta metade inicial de governo.

Também é preciso cobrar dos órgãos competentes a investigação dos escândalos de corrupção que se sucedem com velocidade espantosa. Nossa missão é construir uma alternativa consistente que se contraponha ao desgastado modelo petista. O Brasil clama por um novo projeto.

"Ben-Hur" - FERNANDA TORRES

FOLHA DE SP - 28/12


A posição do dominante e do dominado independe de credo ou etnia. É uma questão de ocasião histórica


EU SEI que não é de bom tom gostar de Charlston Heston. Mas como controlar as impressões da infância? Amo Charlston Heston à loucura, especialmente a fase bíblica e a sua filmografia niilista, pós-Guerra Fria, comendo Soylent Green e apanhando no "Planeta dos Macacos".

Revi "Ben-Hur" com meu filho pequeno. Os olhos nórdicos de Heston contrastaram com a morenice do Crescente Fértil, seu corpo musculoso arqueou, colapsando a cabeça sobre o peito, enquanto elevava a corcova para sustentar o peso do sofrimento humano. Heston se contorce quando ama e quando odeia e se desloca em câmera lenta, como se o ar fosse feito de gelatina.

São cenas de uma dificuldade ímpar para o intérprete. Falar em pausas solenes, reagir em "big close" à notícia de que a mãe e a irmã contraíram lepra na masmorra, exibir-se em tanga acorrentado ao remo e conduzir a biga. A biga! Quem da Royal Shakespeare Company comandaria os cavalos com a dramaticidade de Heston?

A representação mais poética que o cinema já produziu do mito da caverna de Platão está em "Ben-Hur". Do fundo escuro da gruta dos leprosos, uma gigantesca boca negra exibe uma paisagem ao sol, estática, como nuvem, em contraste com o breu da cova. A mãe leprosa balbucia um "tenho medo", enquanto a futura nora a leva em direção ao luminoso Paraíso. "O mundo é muito mais do que se vê", assegura Esther.

Chorei e emendei com "Os Dez Mandamentos", onde o saiote egípcio e a peruca em tufo lateral não ajudam o ianque. Yul Bryner leva vantagem em trajes típicos. Mas o anacronismo vai além das vestes.

As convicções pessoais do astro contradizem o discurso misericordioso de seus personagens. A águia romana fez ninho na América e Heston, bélico e republicano, encarna seu poderio. Ele é mais alto, mais forte e atlético do que todos os figurantes a quem chama de sua gente.

Após o fim da Segunda Guerra, os americanos foram elevados à condição de escolhidos de Deus.

Heston encarna Judá, o príncipe hebreu, com a convicção de que representa o bem e a justiça. Mas a mesma potência que ajudou a derrotar Hitler arrasou Hiroshima com a determinação das Legiões e, depois, exportou o "american way of life" à maneira de Roma.

Em "A Vida de Brian", obra prima dos Monty Python, radicais palestinos debatem sobre a vilania do Império de César. O que Roma nos deu? Indaga um revolucionário.

Estradas, responde alguém. E aquedutos! Mais outro. A arquitetura! Saneamento básico, educação e progresso! A arte e os banhos! A lista não tem fim.

O movimento sionista, fundado para dar um ponto final às perseguições milenares às juderias, recebeu o apoio de homens como o barão de Rothschild, cujas doações à causa arremataram 125 mil acres de terra prometida.

Israel trouxe desenvolvimento e riqueza para a região, mas também segregação, injustiça, insatisfação e revolta. É o enredo de "Ben-Hur" só que ligeiramente fora de ordem, com os judeus no papel de romanos e os árabes no papel de judeus. É estranhíssimo.

A maior afronta do mundo árabe, segundo Hany Abu Assad, meu amigo palestino de Nazaré, é resistir ao consumismo imposto pelo Ocidente. Sua postura é similar à de Ben-Hur perante Messala, que recusa a exigência do tribuno de se transformar em romano. Hany diz que a burca é uma bênção para as mulheres feias e provoca afirmando que a escravidão da eterna juventude, pregada pela Max Factor, é um mal igualmente deplorável.

E ainda lança uma profecia digna das Sete Pragas do Egito: as catástrofes naturais obrigarão o homem a retornar à sua origem primitiva, na qual pastores, agricultores e artesãos resistirão às vacas magras enquanto os que sucumbiram à luxúria da modernidade, não.

Dá o que pensar. Eu, por preconceito gerado pelo fato de os muçulmanos não se parecerem comigo, acreditei que o terno bem cortado de Bashar-al-Assad e o Louboutin de sua esposa seriam garantias de civilidade, mas sua elegância inglesa foi proporcional à ferocidade.

A posição do senhor e do escravo, do dominante e do dominado, independe de credo ou etnia. É tudo uma questão de ocasião histórica. Basta ver "Ben-Hur" com a perspectiva dos últimos 50 anos.

Saques na Argentina - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S. Paulo - 28/12


O Natal não foi nada festivo na Argentina. Uma onda de 300 saques varreu 40 cidades do país, deixando quatro mortos pelo caminho e reavivando a lembrança de um outro dezembro, o de 2001, quando cenas semelhantes precipitaram a queda do presidente Fernando de la Rúa. Na época, os argentinos viviam uma crise econômica que marcaria profundamente sua história recente. O cenário atual não é o mesmo, ainda que o governo de Cristina Kirchner usualmente torture os índices para que eles digam o que lhe interessa, mas o fato é que a situação, de desconfortável, passou a ser perigosa para a presidente argentina. Tanto é assim que Cristina passou vários dias sem se pronunciar sobre os trágicos eventos - logo ela, que gosta tanto de falar. Antes de enfrentar ela mesma o problema, preferiu deixar a seus auxiliares a tarefa de, como sempre, apontar o dedo para líderes sindicais, acusando-os, sem provas, de "quebrar o momento de alegria e descanso do povo argentino".

Cristina jamais admitirá que os saques podem ter sido resultado da pobreza persistente em várias partes da Argentina, pois seria admitir que a decantada redistribuição de riqueza na última década não tem a dimensão que o governo alardeia, senão como fruto de estatísticas distorcidas. As imagens dos saques deixam claro: não eram militantes sindicais os que partiram para a violência, mas os indigentes e os marginalizados, que mal aparecem nas planilhas fabricadas pelo governo. Não se pode ignorar que os dirigentes sindicais Hugo Moyano e Pablo Micheli, que até pouco tempo atrás eram aliados do kirchnerismo e que foram marginalizados por Cristina, certamente têm muito interesse na desmoralização do governo, mas é sintomático que a Casa Rosada aponte suas baterias contra esses adversários, acusando-os de incitar os saques, poucos dias depois que esses sindicalistas, demonstrando rara unidade política, promoveram grandes mobilizações populares e greves.

O padrão do governo de Cristina, que agora se repete, é jamais assumir qualquer responsabilidade pelos problemas do país, atribuindo-os sempre a terceiros, como se houvesse uma conspiração permanente. Além dos sindicalistas, a culpa geralmente recai sobre a imprensa e o Judiciário. Para os governistas, a oposição não é capaz de discutir "democraticamente" e apela para a violência. No entanto, quando Moyano estava do lado do governo e mandou que seu sindicato de caminhoneiros bloqueasse a distribuição dos jornais Clarín e La Nadón, que são críticos do governo de Cristina, ninguém na Casa Rosada se queixou; afinal, Moyano era então um brucutu oficialista.

O fato é que, passados mais de dez anos de kirchnerismo, os pobres argentinos parecem ter se cansado de alimentar-se de discursos e de estatísticas fajutas. A oportunidade política apareceu a seus adversários porque Cristina foi incapaz de enfrentar os crescentes problemas. Menos de 30% dos argentinos agora declaram apoio à presidente, um porcentual muito distante dos 54% de votos que ela obteve quando se reelegeu, em outubro de 2011. A corrosão de sua popularidade é diretamente proporcional aos indicadores da crise. O desemprego, de quase 89%, é o mais alto dos 7 últimos dois anos, e a perspectiva de abertura de vagas é pouco animadora, uma vez que a economia está estagnada. Além disso, os argentinos vêm sentindo no bolso aquilo que o governo tenta esconder, isto é, uma inflação de até 30% ao ano.

Mesmo nas cordas, porém, Cristina mantém o estilo truculento. O último ato foi a ordem para que a Sociedade Rural Argentina (SRA) desocupasse o edifício que utiliza como centro de convenções desde 1875. A justificativa é uma suposta dívida que a SRA tem em relação ao terreno, que a entidade nega. Segundo a SRA, o governo não poderia ordenar a desocupação sem que a Justiça aprecie o caso. Como resposta, os ruralistas promoveram um locaute de 24 horas, deixando de comercializar gado, e acusaram Cristina de "confisco". Mais uma vez, e agora sem qualquer recurso à Justiça, a presidente argentina recorre a instrumentos de força como meio de vingança política.

Do fundo do baú - LUIZ PAULO HORTA

O GLOBO - 28/12


Além lado afetivo, há outro: a carta como documento histórico, literário, ou sociológico. As pessoas vão guardar e-mails? É uma coisa mais precária, e a pressa da vida moderna conspira contra isso



Eu tenho uma amiga que, todos os anos, me enviava um belo cartão de Natal, às vezes desenhado por ela. Este ano, em vez de cartão, chegou uma gentil mensagem eletrônica. Eu entendo, ficou mais fácil. E dessa maneira, você manda para quantas pessoas quiser. Mas não há comparação entre um cartão (que você custa a jogar fora) e uma mensagem eletrônica.

Isso ainda é mais verdade para essa maravilhosa forma de comunicação que é a carta. É difícil imaginar o que a carta representa na história da humanidade. Primeiro, como laço afetivo. Certo, pode-se pôr sentimento numa mensagem eletrônica. Mas ela tem um caráter menos pessoal que uma carta. Recebendo a carta, você sabia que era só para você. Que uma determinada pessoa, num cantinho do universo, sentou-se numa mesa, escolheu papel, uma caneta, e começou a escrever para você. A emoção podia começar na caixa do correio — pelo formato do envelope, pela letra que você conhecia.

Isso pelo lado afetivo. Havia outro, enorme: a carta como documento histórico, ou literário, ou sociológico. Aqui no Brasil, começou com a carta de Pero Vaz, o primeiro documento da nacionalidade. Pouquíssimo tempo depois, as cartas do padre Manoel da Nóbrega prestam informações preciosas sobre um país recém-nascido.

Não há nenhuma certeza de que as pessoas vão guardar e-mails. É uma coisa mais precária, e a própria pressa da vida moderna conspira contra isso. Assim, talvez deixem de se repetir coisas como:

1) As cartas de São Paulo, básicas para a história do cristianismo.

2) Dois conjuntos de cartas romanas: as de Cícero e as de Sêneca, que, sozinhas, garantiriam um conhecimento quase íntimo de uma época grandiosa. As de Cícero, mais pictóricas, tecidas com as histórias do dia a dia. As de Sêneca, o retrato de um filósofo que foi o Montaigne dos romanos.

3) As cartas de Fénelon. Esse grande bispo francês foi um incomparável diretor de consciências na França de Luís XIV. Sua correspondência é uma combinação única de beleza literária e finura espiritual.

4) As cartas de Flaubert, talvez a sua obra-prima (tenho uma preciosa edição francesa em sete volumes). O caso de Flaubert é um bom exemplo. Como ele vivia isolado, totalmente dedicado aos seus (poucos) romances, a carta era o seu meio de comunicação com o mundo. Sendo ele o escritor que era, surgiram maravilhas literárias. Mas o tom é absolutamente íntimo. Não vai muito bem com a eletrônica.

5) A correspondência entre Machado de Assis e Joaquim Nabuco. Este é um tesouro bem nosso. Nabuco era dez anos mais moço que Machado, e foi seu parceiro na formação e consolidação da Academia Brasileira de Letras. Para além do puramente literário, o que essas cartas revelam é o encontro, o diálogo, entre dois espíritos supriores. Tem o sabor de um velho vinho do Porto.

A lista poderia ir longe. Na literatura romântica, por exemplo, as cartas de amor entre Elizabeth Barrett Browning e seu futuro marido Robert Browning, todos dois grandes poetas. No século XX, as cartas que tanto enriquecem a estante kafkiana. Sem serem famosas, as cartas de Thomas Mann são um dos melhores meios de aprofundar o conhecimento desse grande romancista alemão.

Isto não é para ser um exercício de saudosismo. Cada época tem suas coisas boas — ou más. Normalmente, nesses casos, ganha-se por um lado e perde-se pelo outro. O ideal é quando se pode conservar tudo — ou quase tudo.

Foi o que aconteceu com a música. Houve um momento (começo do século XIX) em que o piano pareceu desbancar definitivamente o cravo. Antes que chegasse o piano moderno, houve o pianoforte, de som mais suave, que até Mozart preferiu usar, em seus concertos com piano. E o cravo sumiu, ou quase. Até que, já em pleno século XX, uma polonesa chamada Wanda Landowska conseguiu mostrar que, para um certo repertório, o cravo era definitivamente mais recomendável que o piano. E assim tivemos versões modernas (e fascinantes) das sonatas de Scarlatti, e do “Cravo bem Temperado”, de Bach.

Hoje, você tem todos os meios possíveis e imagináveis de transmissão do som. Você adapta um plug ao ouvido e se desliga do mundo. Mas os nossos antepassados também tinham prazeres bem sofisticados. Minha avô paterna, quando jovem, morava numa fazenda de café perto de São João del Rey. Ela e uma irmã mais velha tocavam piano — um belo piano de cauda; e uma vez por mês, recebiam a visita de um professor alemão, que chegava em lombo de burro e trazia um violoncelo na garupa. Havia a aula tradicional; e, depois, professor e alunas aplicavam-se a algum trecho de música de câmara. Tenho certeza que Beethoven — sempre no repertório — devia soar de um modo muito raro nesse serões da fazenda, cercados de imensos silêncios.

Falta uma política de comércio exterior no Brasil - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S. Paulo - 28/12


Com um comércio internacional reduzido, em parte por falta de uma política para essa área, o Brasil tem um superávit na balança comercial muito concentrado e que vem se reduzindo nos últimos anos.

De fato, o superávit da balança comercial, que chegou a US$ 25,99 bilhões nos 11 primeiros meses de 2011, caiu neste ano para US$ 17,1 bilhões, uma redução de 33,9%, com as exportações acusando queda de 4,7% e as importações, de apenas 1,1%.

O que importa são o número reduzido de países com os quais temos superávit e, mais ainda, a tendência que se verifica de redução do superávit. No ano passado, o maior superávit foi com a América Latina e o Caribe, de US$ 17,2 bilhões, que caiu neste ano para US$ 11,3 bilhões, um recuo de 35,4%. No Mercosul, que deveria ser a área de maior vigor do nosso comércio, houve queda de 55,9% do superávit, e a maior responsável é a Argentina, onde a queda do superávit brasileiro foi de 66,6%.

É bem conhecida a política protecionista argentina, que nosso governo aceita pacificamente, desconsiderando a redução de 21,2% de nossas exportações para este país. Enquanto a Argentina conta com mais de 50% das nossas exportações para os países do Mercosul, o México tem uma participação insignificante nas exportações do Brasil, embora o crescimento do seu PIB seja muito superior ao do nosso.

A participação dos países asiáticos no nosso comércio externo é importante, apesar do nosso superávit com eles ter caído 17,2%, por causa da queda do superávit com a China, em grande parte em razão do preço do minério que se reduziu em 36,6%.

Infelizmente, exportamos para este país apenas commodities, enquanto importamos da China produtos manufaturados.

Não há dúvida de que, atualmente, nossos mais dinâmicos parceiros são países subdesenvolvidos e emergentes. O que nos falta é poder oferecer- lhes produtos manufaturados mais sofisticados e de maior densidade tecnológica. Naturalmente, não podemos condenar o protecionismo quando estamos exportando e praticá-lo quando importamos. Uma maior abertura de nossa economia seguramente permitiria um aumento de nossa exportações.

Enquanto nosso superávit comercial com a União Europeia caiu, neste ano, 20,3%, em razão da retração econômica, com os Estados Unidos continuamos a ter déficit, embora se reduzindo de 57,1%. É de esperar que voltaremos a ter um superávit com este país.

Atacado e varejo

Esse número é importante por ser muito usado para corrigir aluguéis (residenciais e comerciais) e operações do sistema financeiro. O maior problema do IGP-M é carregar alta

dose (60%) de preços no atacado. Por isso, nem sempre é o mais adequado para corrigir valores atrelados à cesta do custo de vida. Em todo o caso, em pouco tempo os preços praticados no atacado tendem a se transferir também ao varejo.

Um golpe de mestre - OTÁVIO BRAVO

O GLOBO - 28/12


Até sair o acórdão do STF sobre o mensalão, Congresso terá condenados atuando em plenário e nas comissões



O ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, pode ter vários defeitos, mas de bobo ele não tem nada. Com a decisão de negar-se a decretar a prisão imediata dos condenados no julgamento do mensalão, ele consegue, de uma tacada só, atingir seis objetivos:

1. Esvazia (ainda que em aparência) o discurso de parcialidade do julgamento, exaustivamente repetido pelos críticos da condenação;

2. Reafirma a credibilidade do STF junto à opinião pública, pois se ele deixasse a decisão para qualquer outro ministro (ou mesmo para o plenário) choveriam críticas em caso da ausência de decretação imediata da prisão (como "herói nacional’,’ Barbosa é o único ministro do Supremo acima do bem ou do mal; isso é fato, ainda que não seja salutar para as instituições);

3. Impede uma crise institucional mais séria, que já se desenhava nos últimos dias, com ameaças de cassação de ministro do STF, por parte do presidente da Câmara, e de processo por prevaricação de deputado, por parte de ministros do Supremo;

4. Não se arrisca à utilização da prisão imediata como jogada de mídia por parte dos acusados (publicou-se, há alguns dias, que alguns dos acusados, se presos, exigiriam ser algemados e fotografados, em óbvia vitimização);

5. Impede o desgaste de — uma vez mais — ser obrigado a justificar eventual mudança jurisprudencial do STF;

6. Deixa o problema da questão dos mandatos dos parlamentares nas mãos do Congresso. Negar a prisão, nesse momento, significa rejeitar a execução imediata da decisão condenatória do STF. Assim, a cassação efetiva dos mandatos também só se dará após o trânsito em julgado do acórdão (ou seja, depois de interpostos os recursos — embargos declaratórios — por parte dos condenados). Ou seja, até lá o desgaste de ter membros condenados por corrupção passiva, peculato e formação de quadrilha é do Congresso. E o STF ainda pode tripudiar: "Se vocês acham que a competência para cassar é de vocês, por que não promovem (ou tentam promover, já que a votação é secreta) a cassação dos parlamentares condenados, nos termos regimentais? Ou preferem assistir passivamente à atuação, em plenário e em comissões (como a de Constituição e Justiça), de congressistas condenados criminalmente por corrupção, peculato etc...?’

Qualquer pessoa pode expressar restrições pontuais à atuação do ministro Barbosa (inclusive sobre sua conduta no caso do mensalão, embora tais restrições não correspondam, por evidente, a acreditar na inocência dos acusados). Sua postura, em julgamentos passados, mostrou-se, por diversas vezes, excessivamente draconiana e parece óbvio que a convivência com ele, em plenário e fora dele, deve ser dificílima.

Mas essa decisão, independentemente do mérito da condenação (até porque, nesse aspecto, Inês já é morta, velada e enterrada, ou seja, o caso está encerrado), foi, antes de tudo, uma prova de inteligência. Verdadeiro golpe de mestre.

Estupidez por inteiro - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 28/12


SÃO PAULO - O Brasil, como se sabe, coleciona muitas normas estúpidas, mas nenhuma, a meu ver, supera o instituto da meia-entrada para estudantes. O caso é emblemático porque transborda de erros desde a concepção até a execução.

Para começar, a meia-entrada suprime os mecanismos do livre mercado numa das áreas, o lazer, onde funcionam bem, sem necessitar de nenhuma ingerência estatal, além das inspeções do Corpo de Bombeiros. Empresários do setor têm todo interesse em manter as casas cheias, para o que o fator preço é determinante.

No nível pedagógico, a meia irradia ilusões nefastas. Ela dá a impressão de que basta aprovar uma lei para criar direitos. É claro que não é assim. Para fechar as contas, os empresários aumentam o valor da entrada inteira -e, por tabela, o da meia. O saldo líquido é que fica mais difícil calcular custos (nunca se sabe qual porcentagem de meias será vendida) e o cidadão que não é estudante nem idoso (a meia foi estendida para esse grupo) paga um preço extorsivo.

Ainda que fosse desejável distribuir subsídios na área de lazer, a meia estudantil é um jeito burro de fazê-lo. O grupo proporcionalmente mais beneficiado é dos filhos da classe média alta, que vai com mais frequência a espetáculos, e que poderia perfeitamente prescindir do mimo.

Para completar o festival de bizarrices, as meias foram implementadas de forma tal que compraram a docilidade do movimento estudantil para o governo. Como em muitas praças cabe à UNE, às UEEs e assemelhados emitir as carteirinhas (que embutem uma boa mais-valia), elas se tornaram o ganha-pão dessas entidades.

E é claro que as coisas podem piorar. Parlamentares gostaram tanto de fazer caridade com bolsos alheios que, depois dos estudantes e dos idosos, ameaçam agora conceder meia-entrada para todos os jovens até 29 anos. Só pagariam inteira os pobres mortais na faixa dos 30 aos 59, uma fatia de apenas 18,5% da população.

Mais um apelo federal - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 28/12


A presidente Dilma Rousseff fez ontem mais um apelo aos bancos privados. Desta vez, para que se dediquem a canalizar recursos para o financiamento de projetos de investimento. "Todo o peso do financiamento de longo prazo recai no BNDES. Precisamos de uma presença maior do setor privado para dar musculatura ao sistema", disse.

É ótimo que o governo esteja diretamente interessado em criar condições para o desenvolvimento do mercado de capitais para propiciar recursos fartos e baratos para o investimento. Mostra o entendimento de que uma política econômica voltada ao consumo não garante por si só o avanço econômico.

O problema é que a mobilização dos bancos para a concessão de recursos para o investimento não se faz com lindos apelos. É necessário criar condições que ativem essas energias.

Até recentemente, a maior dificuldade para obter capitais de longo prazo (funding para o investimento) vinha diretamente da má condução das finanças públicas. Um Estado muito gastador exigia que praticamente toda a poupança nacional fosse canalizada para o financiamento das despesas correntes do setor público. O grande tomador de recursos era o Tesouro, que pagava juros altíssimos para garantir o monopsônio (único tomador). Não havia recursos para o investimento.

A observância da Lei de Responsabilidade Fiscal e a formação de um superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) começam a criar essas condições. A queda dos juros básicos (Selic) é a primeira indicação disso.

Mas é preciso mais. A presidente Dilma avisa que o BNDES não pode ficar sozinho na tarefa de financiar o investimento. Falta reconhecer que, por política do governo, o BNDES é dos maiores obstáculos para que o setor privado assuma a tarefa.

O BNDES recebe enormes injeções do Tesouro a custo quase zero e faz financiamentos a juros subsidiados. Como é que, assim, os bancos podem competir com o BNDES no crédito de longo prazo, se não dispõem das mesmas vantagens?

Não dá para dizer que os bancos privados não se interessam por operações de financiamento de longo prazo. Os R$ 210 bilhões em saldos de crédito para compra de habitação proporcionados por todo o sistema bancário (inclusive pelos bancos públicos), com até 30 anos de prazo para retorno dos ativos, provam que o longo prazo não assusta. O que afasta os bancos é o descasamento entre ativo e passivo. Sem recursos de longo prazos, é difícil garantir financiamentos de longo prazo. Uma das razões para não haver recursos de longo prazo é o Imposto de Renda não fazer distinção relevante entre aplicações de curto e de longo prazo. Se tem de pagar a mesma coisa, o aplicador vai, obviamente, preferir aplicações de curto prazo.

Mas isso não é tudo. O crédito bancário não é a única fonte de recursos de longo prazo. Boa parte desses recursos implica o funcionamento de um mercado saudável de capitais. Um dos principais motivos para o mercado de ações deixar de ser grande fonte de recursos de longo prazo é a atuação desastrada das autoridades. O governo Dilma é apontado como o maior destruidor de patrimônio público. Em seu governo, duas das maiores empresas públicas brasileiras, a Petrobrás e a Eletrobrás, perderam mais de R$ 80 bilhões em valor de mercado, em consequência de decisões tomadas por seu governo.

Ou seja, se o governo Dilma quer o florescimento do mercado de capitais, tem de mudar o modo como o vem tratando.

Consumo impróprio? - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 28/12


Não existe, provavelmente porque seria inútil, um levantamento sobre formas e maneiras de combater o tráfico e o uso de drogas no Brasil.

A proposta mais recente, que deve ser votada pelo Congresso em fevereiro, tem defensores e críticos. Se transformada em lei, criará a internação compulsória em comunidades terapêuticas para quem for apanhado com drogas. Alguns adversários acham que é castigo excessivo; os que a defendem sustentam que é isso mesmo que a sociedade deseja, mas não há provas disso. O principal problema parece ser a dificuldade de distinguir entre viciados e traficantes.

Uma especialista da ONU, Ilona Szabo, lembra que a quantidade de drogas em poder do cidadão não prova coisa alguma: apenas cria para o traficante a necessidade de ter estoques do produto escondidos e só levar consigo pequenas quantidades de cada vez. Nada mais simples.

Os números da repressão são pouco animadores. Uma pesquisa recente mostrou que, num período de um ano e meio, 66% dos presos com drogas eram réus primários, e quase metade carregava menos de cem gramas de maconha. Ou seja, a repressão está concentrada na arraia-miúda.

O outro lado do combate ao vício, que é a recuperação dos viciados, poderá ganhar impulso se o Congresso aprovar, em fevereiro, um projeto que cria comunidades terapêuticas e estabelece internação obrigatória para desintoxicação.

Nos debates sobre o tema, a questão mais complexa parece ser a distinção entre o vício e o crime - e certamente o grande risco é tratar o viciado como traficante - o que pode acabar por levá-lo mesmo para o tráfico. O projeto que está no Congresso talvez corra o risco de transformar usuários em bandidos.

E há outras propostas curiosas. Um anteprojeto produzido por uma comissão de juristas, por exemplo, sugere a descriminalização do plantio de maconha para uso próprio.

Se vingar, vai criar um trabalhão para a policia: como garantir que o uso próprio, na calada da noite, não se transforma em consumo impróprio?

Abrindo as portas para o mundo - MARIO GARNERO


O Estado de S.Paulo - 28/12



Há alguns anos o Brasil começou a receber uma nova onda de imigração. É claro que a imigração não é novidade para o Brasil, nosso país foi construído por imigrantes. Todos nós temos no sangue alguma história que começou em outro continente - a história recente da minha família no Brasil, por exemplo, começou como a de tantas outras famílias de São Paulo: meu pai, italiano, casou-se com minha mãe, brasileira. O Brasil é formado por gente de todas as partes do mundo. Entretanto, a grande diferença da imigração que ocorre hoje é que o Brasil anda recebendo cada vez mais imigrantes qualificados.

Não são agricultores sonhando com um pedaço de terra num continente novo, não são refugiados de guerra, não são exploradores ou aventureiros: são profissionais com excelente formação, procurados por empresas que precisam dessa mão de obra - 29.081 profissionais com nível superior receberam autorização para trabalhar no Brasil, de janeiro a julho de 2012, o que corresponde a 52% das autorizações nesse período. Desses profissionais, quase 2.500 têm cursos de pós-graduação, mestrado ou doutorado; 35% das mesmas autorizações foram fornecidas a profissionais com curso técnico especializado (procurados, principalmente, pelas indústrias automobilísticas e de extração de petróleo). Então, de todos os estrangeiros autorizados a trabalhar no nosso país no primeiro semestre de 2012, somente 13% têm uma formação educacional considerada baixa e, provavelmente, devem ter requerido asilo por serem oriundos de países em situações de risco.

Mas por que essa nova onda de imigração está ocorrendo? Porque ainda formamos muito poucos profissionais para a demanda de que o Brasil atual precisa. Um exemplo: as universidades nacionais formam 40 mil engenheiros por ano e a demanda atual é de 70 mil novos engenheiros/ano. Em consequência, essa falta de oferta de profissionais no País faz as empresas recorrerem, portanto, a profissionais estrangeiros.

Algumas pessoas enxergam esse fato como uma concorrência injusta. Para mim, não é nada mais do que saudável, pois se trata de uma forma de impulsionar a qualificação dos nossos próprios profissionais. O Brasil acaba ganhando novos parâmetros de qualidade, novas visões, um novo horizonte. Esses profissionais acabam se tornando professores e essa troca de experiências é sempre bem-vinda.

Mas se a imigração qualificada é positiva para um país, por que ela é tão difícil no Brasil? Sinceramente, não sei. Acompanho vários amigos e profissionais descrevendo o processo de liberação de um visto temporário e testemunho uma via-crúcis burocrática inexplicável. Atualmente, existem até empresas especializadas em desenrolar esse entrave. Utilizando essas empresas, o custo de um visto temporário de trabalho pode variar entre R$ 2 mil e R$ 6 mil e o tempo mínimo de liberação de um visto é de dois meses. A lista de documentos exigidos é impressionante, chega a desanimar. E como se já não bastasse toda a papelada, o estrangeiro ainda tem de passar pela aprovação do conselho regional da profissão em que atua.

Ou seja, a empresa que pretende trazer um profissional estrangeiro precisa querer muito, porque o custo é altíssimo. O estrangeiro não é empregado como um concorrente do profissional brasileiro, ele é empregado porque nenhum profissional brasileiro foi encontrado com o mesmo perfil. Essa é a regra.

Como se também não bastasse a dificuldade de receber estrangeiros que só têm a nos ajudar, ainda temos a outra via, que é a educação do brasileiro. Já citei a carência de profissionais que se formam anualmente no Brasil - só para continuar utilizando o exemplo de engenharia, a Índia forma 350 mil engenheiros por ano e a China, 600 mil. Temos, no entanto, um problema mais grave, no meu ponto de vista: o estudante brasileiro não sai do Brasil, ainda tem uma visão muito limitada da graduação, o que nos faz perder competitividade.

Os números, em comparação com nossos maiores concorrentes, são ingratos. Somente 7.500 estudantes brasileiros estão hoje em universidades fora do País. A Índia tem mais de 200 mil estudantes em universidades estrangeiras. A China supera os 300 mil. E isso não se verifica porque a Índia ou a China têm mais facilidades. Esses são países e estudantes que simplesmente aproveitam oportunidades.

Tanto universidades europeias quanto norte-americanas estão atrás de brasileiros. Mesmo quem não tem condições financeiras de sair do País pode aproveitar inúmeros programas de bolsas de estudos, incluindo o Ciência Sem Fronteiras, recém-criado pelo governo federal e amplamente divulgado pela nossa presidenta, Dilma Rousseff. Basta procurar. Basta querer estudar.

E quem pensa que o estudante estrangeiro pode eventualmente ser marginalizado e que corre o risco não ter as mesmas oportunidades lá fora que o estudante local pode repensar: 76% das patentes registradas em universidades norte-americanas em 2011 são de estudantes estrangeiros. E o futuro pode ser ainda mais promissor: 40% das 500 maiores empresas dos Estados Unidos são presididas por família de imigrantes. Portanto, se você andava pensando em estudar fora do País ou em enviar seu filho para o exterior, a hora é agora. Já. Porque o curso de inglês não garante mais emprego nem aqui nem em nenhum lugar do mundo. Vivência é a palavra.

O fato é que a economia brasileira já está inserida no mundo globalizado, não há como reverter esse processo - muita gente de fora deve vir para cá e a contrapartida também tem de ser verdade: os brasileiros precisam arriscar-se no mundo, investir, estudar, conviver. Porque esse é o brasileiro que vai vencer globalmente. Porque esse é o Brasil que vai continuar ganhando posições na economia mundial.

Puxadinhos - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 28/12


BRASÍLIA - O mais surpreendente no café da manhã de ontem da presidente Dilma Rousseff com jornalistas, conforme relatos na internet, foi a superficialidade nas falas sobre o "pibinho" de 1% neste ano e nas respostas à avalanche de críticas à incapacidade do governo de impulsionar a economia.

O máximo que Dilma disse foi que o "ambiente" será melhor em 2013 e que está fazendo "o possível e o impossível" para um maior crescimento. Soou como palavras ao vento, talvez como torcida,não como compromisso e, menos ainda, como prestação de contas sobre o que foi e o que poderia ter sido feito.

Segundo Dilma, em 2012 a prioridade foi "buscar competitividade".Citou queda dos juros, taxa de câmbio mais realista e investimentos pesados em infraestrutura.

Especialistas como o economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega veem com outros olhos. No artigo "2013, o ano da volta ao passado", ele criticou duramente o intervencionismo: "A taxa de juros baixou na marra, o regime cambial deixou de ser flutuante, o cumprimento da meta de superavit primário passou a depender de malabarismos financeiros e artifícios contábeis".

A sensação, neste final de ano, é que Dilma e o ministro Guido Mantega tentaram consertar a casa com puxadinhos. Ora a redução do IPI para carros, ora a desoneração da folha de pagamento, ora o aumento de crédito de bancos públicos.

Tudo bem, tudo bom, mas o resultado é que os EUA estão saindo da crise, a China se mantém forte, os emergentes emergem de fato e o Brasil empacou em 1% (ou menos).

Para Maílson da Nóbrega, o erro é de estratégia: o foco da política econômica é a demanda/consumo, quando o problema está na produção/oferta. O investimento só cai.

Aliás, não pega bem para uma especialista em energia atribuir tão variados apagões só a "falhas humanas". Se as há, começam de cima...

A vingança dos zumbis - NELSON MOTTA

O GLOBO - 28/12


Por que a mídia só tem credibilidade quando contribui para a popularidade de Lula e Dilma, e não quando denuncia escândalos do governo e o mensalão?



Mesmo sem ser simpática nem carismática, sem ter o dom da palavra e da comunicação, e com o país crescendo apenas 1% ao ano, a presidente Dilma Rousseff obteve índices espetaculares de confiança e aprovação pessoal na pesquisa do Ibope. Mas como os pesquisados de todo o Brasil se informaram sobre o dia a dia de Dilma e do país, sobre suas ideias, ações e resultados? Ora, pela “mídia golpista”, que divulgou nacionalmente os fatos, versões e opiniões que a população avaliou para julgar Dilma.

Os mesmos veículos informaram os 83% que tiveram opinião favorável a Lula no fim do seu governo, já que a influência da mídia estatizada e dos “blogs progressistas” no universo pesquisado é mínima. Claro, a maciça propaganda do governo também ajuda muito, mas só se potencializa quando é veiculada nas maiores redes de televisão e rádio, nos jornais, revistas e sites de maior audiência e credibilidade no país — que no seu conjunto formam o que eles chamam de “mídia golpista”.

Mas que golpismo de araque é esse, que tanto contribui para divulgar os feitos, as qualidades e a força popular do objeto de seu suposto golpe?

Por que a mesma mídia só tem credibilidade quando contribui para a popularidade de Lula e Dilma, e não quando denuncia os escândalos do governo e o julgamento do mensalão? A conta não fecha, mas eles insistem. Zé Dirceu e Rui Falcão já avisaram que a vingança dos zumbis do mensalão e do “Rosegate” vai ser a regulamentação da mídia, como na Argentina e na Venezuela, culpando o mensageiro pela mensagem.

No Brasil democrático todo mundo tem voz, fala o que quer, ouve quem quiser. Mas eles querem “pluralizar” a mídia, denunciando monopólios e ignorando a concorrência acirrada em todos os segmentos do mercado multibilionário da comunicação de massa, em que ganham mais os que têm mais credibilidade e popularidade.

Mas o Brasil não é Argentina, e Dilma não é Cristina. Além da cobertura nacional que tanto contribui para sua boa exposição e avaliação pública, ela deveria agradecer à mídia por revelar os malfeitos que lhe permitiram fazer uma faxina no seu quintal.