sábado, fevereiro 25, 2012

Socuerro! Sogra de BBB é praga! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 25/02/12


E o Carnaval continua! Carlinhos Brown vai pro Oscar! Vai ter Carnaval no Oscar! OBA! Rarará!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E a manchete do Piauí Herald: "Serra anuncia que só será candidato se NÃO houver eleição". Rarará! E quem vai ser vice do Serra? A Sonia Abrão!
E esta: "Esfera de metal cai do céu no Maranhão". Foi Deus que jogou tentando acertar o Sarney! E eu adoro a Susana Vieira! Tá sapucando na maionese: ela disse que se acha parecida com a Jennifer Lopez.
Ou a véia fumou uns baseados ou confundiu as cervejas. Confundiu com o dragão da Skol. Rarará!
E o Carnaval continua! Carlinhos Brown vai pro Oscar! Vai ter Carnaval no Oscar! OBA! E um amigo: "E o discurso de vitória do Carlinhos Brown? Chupa Hans Zimmer. Alphabetagamatizado!". Rarará!
E começou o inferno fiscal: o IPVA é impagável. E o meu carro é implacável! E declarar Imposto de Renda na ressaca do Carnaval? Declaro duas dúzias de periguetes, três abadás e um mamãe sacode. Melhor: declaro que tô duro! Pronto! Não pode fazer essa declaração: declaro que tô duro?! Então, declaro que a Dilma tá gorda, que o Aécio tem bafo de onça e que a minha vizinha tá dando pro porteiro. Rarará! É isso!
Os impostos no Brasil não são altos. Nós é que somos baixos! Rarará! E socuerro! Todos para o abrigo! Me mate um bode! Apareceu a sogra do BBB! "Rafa beija Renata e sogra vai processá-lo por traição"! É um novo espécime: sogra de BBB! Eu já tinha visto ex-BBB, namorada de BBB, ex-namorada de BBB, mas nunca sogra de BBB.
Se sogra já é uma desgraça, imagine sogra de BBB! Rarará!
E a sogra é a cara da Vanusa! E já imaginou se toda sogra processasse o genro por chifre? Travava o Judiciário de vez. Devastava a Amazônia só pra papelada!
E sabe qual é a diferença entre o "BBB" e o lixão? Ambos fedem, mas no lixão dá pra fazer reciclagem! Rarará! E todo ano eu peço pro Boninho fazer um "BBB" só de sogras.
1) Cada um paga R$ 10 pra inscrever a sogra. 2) As sogras devem permanecer na casa por 45 anos. 3) Nenhuma sogra será eliminada. E não tem paredão. Só paredão de fuzilamento. Rarará!
E adorei esta faixa em Santa Teresa: "Xixi, uma vez só R$ 1. Pulseira do xixi, R$ 4. Válida pra todo o período de Carnaval". Adorei a pulseira do xixi. Pacote mijada! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Falta de interesse - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 25/02/12

Antes de um Gosplan de educação profissional - política de economia planejada da antiga União Soviética - , é preciso ouvir a demanda do trabalho e do capital. É assim que o economista Marcelo Neri, do Centro de Pesquisas Sociais da Fundação Getulio Vargas, no Rio, define os resultados de uma pesquisa baseada no processamento e análise do suplemento especial da Pnad feita para o Senai, sobre as razões da falta de demanda por cursos profissionalizantes.

Ao mesmo tempo em que a pesquisa revela a busca crescente pelos cursos profissionalizantes na Classe C emergente, mostra também números impressionantes: nada menos que 83% das razões apresentadas pelos pesquisados sem educação profissional se referem à falta de demanda, e não de oferta.

Isto é, os cursos oferecidos não encontram correspondência no mercado nem no interesse dos alunos, e uma coisa tem a ver com a outra.

Em particular, 69% daqueles sem educação profissional apontam falta de interesse nos cursos oferecidos, e não falta de cursos.

A perda de interesse, por sinal, também é a razão apresentada por 55% dos que abandonaram no meio tais cursos.

A falta de interesse das empresas em contratar, por sua vez, explica 31% da não recolocação no mercado dos egressos destes cursos.

Segundo o economista Marcelo Neri, a falta de interesse reflete a inadequação dos cursos às necessidades das pessoas.

No caso da educação profissional, o que preocupa, aponta Neri, é que a falta de interesse também é a principal razão (40,7% do total) para a população de 15 a 17 anos que deveria estar no ensino médio regular não frequentá-lo.

A inadequação dos cursos técnicos reflete as especificidades do mercado de trabalho, como o oferecimento de um curso de datilografia quando as pessoas querem um de informática, exemplifica Marcelo Neri.

Esse seria o lado Gosplan de não se olhar para o que as pessoas, que formam o mercado de trabalho, querem.

Outro ponto importante para o economista é que falta informação da população em geral sobre os impactos do curso. Por exemplo, o técnico médio alavanca o salário em 14% para cima do que se obtém com o médio regular.

Neri diz que uma linha de investigação que não vem sendo explorada devido à falta de dados é composta de perguntas diretas aos jovens sem educação profissional sobre a falta de motivações: seria a falta de interesse, necessidade imediata de geração de renda, ou seriam baixos retornos prospectivos percebidos por eles?

Essas questões encontram respostas a partir do depoimento daqueles sem curso profissionalizante. A falta de demanda da população, que é a razão majoritária para não fazer cursos profissionalizantes, se divide por sua vez em dois tipos básicos: falta de interesse intrínseco (68,8%) e falta de condições financeiras (14,17%), que a princípio é um motivo de demanda, mas, como ressalta Marcelo Neri, poderia ser enfrentado com a oferta de bolsas de estudo profissionalizantes, como nas tentativas de atrelá-las ao programa Bolsa Família, na criação de um Prouni do ensino técnico, ou em outras iniciativas de governos estaduais na área.

Os demais motivos alegados ou são residuais (6,57%) e a falta de oferta (10,47%). As motivações de oferta, por sua vez, dividem-se em falta de escola na região (8,64%), falta de curso desejado na escola existente (1,4%), falta de vagas nos cursos existentes (0,43%).

A demanda pregressa por educação profissional está positivamente correlacionada com a escolaridade das pessoas, passando de 3% para os sem escolaridade regular e chegando a 23,5% aos 8 anos completos de estudo, fase de entrada no ensino médio, quando cresce ainda mais aceleradamente, atingindo o ápice nos 10 a 12 anos completos de estudo regular, ocorrendo aqui um planalto em torno dos 45%.

Este é o ponto quando ocorre a passagem do ensino médio para o ensino superior. A partir dos 12 anos de estudo, a demanda começa a cair chegando aos 31,1% nos 16 anos de estudo, estabilizando a partir deste ponto.

Marcelo Neri analisa que gestores e pesquisadores têm o hábito de basear decisões e sugestões de política pública seguindo perspectiva de oferta, e não de demanda.

"Frequentemente nos esquecemos que o derradeiro teste da política pública se dá na sua aceitação, ou não, pela respectiva clientela final", lamenta.

Por exemplo, quando perguntamos aos pequenos empresários qual a natureza da maior dificuldade percebida do negócio, se é deficiência de tecnologias, infraestrutura, formalização, crédito, mão de obra qualificada, entre outras, a resposta mais frequente é nenhuma das alternativas, mas "falta de clientes ou excesso de concorrência no mercado".

Os dados do CPS da FGV mostram que proporção semelhante é encontrada em pesquisas que perguntam ao jovem de 15 a 17 anos por que não está na escola regular: 67% das respostas abrangem elementos de demanda como falta de interesse ou renda.

Antes de partir para um grande Gosplan de educação profissional é preciso ouvir a demanda do trabalho e do capital, adverte Marcelo Neri.

Não basta ter no papel um bom plano de educação profissional que atenda prioridades produtivas vislumbradas para a nação, mas ele tem que antes, e acima de tudo, atender as aspirações dos trabalhadores e das empresas.

O estudo da Fundação Getulio Vargas do Rio mostra que a análise da demanda por educação profissional é muito mais complexa que a da educação regular.

O menu profissionalizante inclui cursos de qualificação profissional, técnico de ensino médio e graduação tecnológica numa miríade de temas indo da informática à saúde passando por cursos de estética e de gestão, entre outros.

Nessa selva de cursos de diferentes níveis e temas ofertados por diferentes atores é fácil se perder no caminho, adverte o trabalho da FGV.

A persistência do racismo - LÚCIA GUIMARÃES

 O Estado de S.Paulo - 25/02/12


Randall Kennedy, da Harvard Law School, fala sobre o preconceito na política americana



Em novembro de 2008, quando milhões de americanos se congratulavam, certos de que haviam dado mais um passo para redimir nas urnas seu histórico pecado original - o racismo -, o dono de uma loja de conveniência em Standish, Estado do Maine, pendurou o aviso: "A Loteria Osama Obama de Espingarda". A aposta custava US$ 1 e o apostador estaria adivinhando quando o recém-eleito Barack Hussein Obama seria assassinado. O subitamente mais ocupado Serviço Secreto registrou a iniciativa do comerciante mentecapto, uma entre as milhares que tornaram o primeiro presidente negro da história americana um dos mais frequentes alvos de complôs assassinos entre os moradores da Casa Branca.

O incidente é lembrado por Randall Kennedy em seu livro The Persistence of the Color Line: Racial Politics and the Obama Presidency (A Persistência da Divisão de Cor, Política Racial e a Presidência Obama, Pantheon Books, US$ 26,95). Kennedy é professor da Harvard Law School e dono de um currículo acadêmico estelar que inclui uma passagem como analista de processos para o lendário Thurgood Marshall, o primeiro juiz negro da Suprema Corte americana.

O livro faz o contraponto da euforia que cercou a eleição de Barack Obama com a realidade ainda enfrentada por mais de 12% da população americana. Um país, onde, diz o professor, a elite branca tem "alergia" a reconhecer a persistência do racismo; onde a população carcerária negra passa de 39%; e a direita se sente à vontade para questionar, do privilégio de um cargo eletivo ou do poleiro de comentarista de TV, a legitimidade do presidente.

"O racismo ainda é relevante", escreve Randall Kennedy, lembrando que o Senado americano só elegeu três negros em toda sua história - um deles, Barack Obama - e não abriga nenhum senador negro hoje. A eleição de Obama, ele conclui, não inaugurou uma era em que os políticos negros se livraram do peso do racismo: "Apenas demonstrou que a seleção racial não impede em termos absolutos a chance de vitória de um candidato presidencial negro". Em outras palavras, Obama mudou a história por ser eleito. E, prevê o professor, com uma dose de desapontamento, é por novembro de 2008 que ele deve ser lembrado, mais do que por suas ações de governo.

Apesar da escrita sóbria e da argumentação meticulosa característica do pensamento legal, Kennedy se torna mais enfático na conversa ao vivo, quando fura o balão da narrativa nacional que inclui, a seu ver, ficções como "a era pós-racial". Leia a seguir, a conversa de Randall Kennedy com o Sabático.

Em 2010, o senhor passou uma semana em São Paulo dando um curso sobre ação afirmativa. Como foi a experiência?

Foi muito interessante. Na turma do curso, a maioria dos estudantes era contra ação afirmativa racial. Aqui nos Estados Unidos é o contrário, os estudantes são, geralmente, a favor. Tivemos uma boa discussão. Foi importante falar com gente que parte de outra perspectiva. Uma coisa que me chamou muita atenção foi o grau em que as pessoas negam o que para mim é óbvio, que há estratificação racial no Brasil.

Na introdução do novo livro o senhor critica a noção de que a eleição de Barack Obama sinalizou o começo de um período pós-racial no país. Esta ideia tem perdido defensores. De onde ela partiu?

Pós-racial é uma variação de outro jargão, color blindness (não enxergar a cor). O que existe é este desejo coletivo de se afastar do passado racista. Muitos americanos querem se libertar deste fardo, do sentimento de culpa. Assim como "color blind" pós-racial é uma formulação para atender a este impulso.

Como é que o país vai daquele momento histórico de aparente cicatrização da ferida racial - a celebração na noite da eleição de 2008, no parque de Chicago - para a virulência de caráter racial contra um ocupante da Casa Branca?

Veja, assim como o Brasil, este país é muito grande. As câmeras estavam todas voltadas para o Grant Park de Chicago. Nem todo mundo celebrou. Havia muita gente triste, inclusive na rede Fox, de Rupert Murdoch. A tristeza se transformou em raiva e ressentimento. A eleição foi mais apertada do que pensávamos. Lembro que Barack Obama não levou a maioria do voto branco, apesar de tantos brancos terem votado nele. Mesmo na fase de maior popularidade na campanha, havia um número razoável de pessoas profundamente opostas a Obama. E, francamente, durante a eleição, uma das coisas que ele teve que superar foi o sentimento entre certos negros de que, se ele chegasse perto da vitória, haveria violência contra ele. Obama e sua família foram bravos e aceitaram isto. Você não ouve falar muito destas ameaças a Obama hoje. Mas o medo de que haveria reação violenta existia. Ninguém deve se surpreender com a violência retórica anti-Obama que vemos hoje. Posso argumentar: diante da nossa história, o que me surpreende são os ataques não serem mais abertos. O que acontece de fato, é a linguagem em código. Por exemplo, a controvérsia dos "birthers", que questionaram a certidão de nascimento do presidente. O Donald Trump, que pagou investigadores para ir ao Havaí e espalhou que Obama teria tirado notas muito baixas para chegar a Harvard. Este tipo de discurso é obviamente racista.

Se o racismo dirigido contra Obama é tão óbvio, porque não é mais denunciado? A mídia americana é tímida neste aspecto?

Sim, com certeza! Temos um par de razões: a elite branca americana sofre ou de ignorância sobre esta realidade ou simplesmente nega, é uma parte do problema. A outra é que o racismo é estigmatizado. É proibido chamar alguém de racista ou até sugerir, a não ser que a pessoa se identifique, "sou racista". Um sujeito como o locutor Rush Limbaugh, por exemplo, não vai usar a palavra "nigger", ele não precisa dela para passar sua mensagem. Ao Obama, resta enfrentar esta negação. Ele não tem como dar nome ao problema. E, mesmo se ele denunciar toda esta linguagem em código, vai ser acusado de paranoico e demagogo. E, assim, ele se cala. Naquele incidente durante o discurso para uma sessão conjunta do Congresso, em setembro de 2009, em que o deputado Joe Wilson gritou "Você mente!", foi preciso Jimmy Carter, um ex-presidente branco e sulista, para declarar em público que aquilo foi uma explosão de ressentimento racial.

O discurso A More Perfect Union (Uma União Mais Perfeita), feito por Obama durante a controvérsia sobre seu pastor Jeremiah Wright, em 2008, é considerado um ponto alto da oratória presidencial americana e um dos melhores exemplos de discurso racial conciliatório. No livro, o senhor expressa reservas sobre o discurso.

O discurso é brilhante. Mas o seu valor reside em demonstrar a perfeita compreensão de um presidente sobre seu público, o público que ele precisa acalmar. Falo sobretudo da audiência de brancos. Como fazer um discurso sobre a ferida racial completamente despido de acusação? Mas o que Obama não pode dizer é exatamente o que o impediria de se reeleger. O eleitor branco americano não tolera o menor tom de acusação. É como uma alergia que se estende até a uma crítica leve sobre a injustiça racial. Eu quero o Obama reeleito. Eu não quero que ele faça o discurso que falta. Prefiro esperar pelo momento em que alguém na Casa Branca possa quebrar o tabu.

No momento, o apresentador de TV Tavis Smiley e o professor de Princeton Cornel West se uniram nas críticas a Obama por não se concentrar nos problemas que afetam de maneira desproporcional a população negra.

Muito do que eles dizem é verdade. Mas o que os dois não levam em conta é que Obama não é um animador de TV. Não é um acadêmico falando num seminário. Nem é um Martin Luther King. Ele não existe sem votos, não pode ser cândido. A situação me faz lembrar aquele momento do filme Questão de Honra, quando o Jack Nicholson grita para o Tom Cruise: "Você não aguenta a verdade!".

Como o senhor vê a relação do presidente com os artistas populares negros? A campanha de reeleição está divulgando a lista do iPod dele. Ele gosta muito do Jay Z.

Ele precisa ser cauteloso. Por um lado, quer continuar a cortejar a base negra, os negros americanos são a âncora da coalizão Obama. Ele precisa de mais do que apoio, precisa de entusiasmo. Então, nós temos o Obama citando a história cultural negra e a música do Jay Z. Mas a maioria do eleitorado continua a ser branca. Com o rap, ele tem que tomar cuidado. Em 2008 eu fiquei assustado, quando ele fez um discurso respondendo a críticas da então adversária Hillary Clinton. Ele fez aquele gesto, como quem passa a escova no casaco, era uma referência à gravação de Dirt Off Your Shoulder, do Jay Z. Se você vai ouvir a gravação, ela soa misógina e muito vulgar.

O senhor atribui a Michelle Obama um grande impulso à candidatura entre o eleitorado negro, em 2008. O quanto ela ainda é importante nesta campanha?

Ela foi a grande legitimadora do Obama. No começo, ele era tão desconhecido que muitos nem sabiam que ele era negro. Ele tinha um passado multirracial e exótico. Já a Michelle tem a história familiar. É mais escura do que ele, a família fugiu do racismo no Sul, ela cresceu no bairro negro de Chicago. Mas hoje ele precisa menos desta legitimidade racial. O Obama é o soul brother número um da América.

Muita gente estranhou quando a primeira-dama reagiu ao livro Os Obamas, de Jodi Kantor, um livro lisonjeiro para o casal, com o comentário, "tentam me impingir esta imagem de mulher negra ressentida".

Foi totalmente impolítico da parte dela. Não entendi mesmo. O Obama jamais diria algo assim.

O senhor explora os significados da primeira eleição de Barack Obama. Qual seria o significado de uma reeleição?

Acredito que ele vai ser reeleito. Mas Obama nunca será tão popular quanto foi na noite da eleição de 2008. E nunca será tão reverenciado como foi no dia da posse. Você só pode eleger o primeiro presidente negro uma vez. Uma reeleição vai ser vista como outro marco. Mas não teremos mais a intensidade simbólica e emocional. O Obama abriu a imaginação de muitas pessoas de cor nos Estados Unidos. O grande legado dele vai ser ter sido eleito. E, ao fim de oito anos, não acho que vai haver nenhuma legislação histórica. Ele está fazendo o que a Hillary Clinton poderia ter feito. O seu grande legado vai ser psicológico, ele mudou a psicologia da América. Reconheço que é uma coisa impressionista e não vai aparecer, quem sabe, antes de 30 anos. A partir de então, acho que vai florescer uma geração política permitida pela aparição do Obama.

A erosão do Estado - FERNANDO RODRIGUES


FOLHA DE SP - 25/02/12


BRASÍLIA - Uma repartição na Bahia decidiu contratar nove pessoas para o curioso cargo de "representante territorial de cultura". Entre os pré-requisitos estava a "atuação em sindicatos, partidos e organizações da sociedade civil".

O despautério foi noticiado pela mídia. O governador da Bahia, Jaques Wagner, do PT, abortou a operação. "Achei um absurdo, injustificável", disse. Como consequência, foi demitido um dos responsáveis diretos pela tentativa de oficializar o aparelhamento do Estado.

Esse episódio é exemplar da erosão dos valores e do senso comum dentro do Estado. O "aparatchik" do PT baiano só escreveu o edital de contratação exigindo atuação partidária porque se sentiu à vontade. Um bípede com Q.I. acima de 60 sabe que numa democracia é impróprio exigir de um servidor público que se filie a um partido político.

Porteira arrombada, cadeado nela. O governador Jaques Wagner achou um absurdo. O responsável direto foi demitido. Muito bem. Só que a história não fecha. E quem explica o ambiente propício no governo baiano para se criar constrangimentos como esse? Claro, porque a última coisa que se poderia imaginar é que um integrante do governo da Bahia tenha tirado apenas de sua cabeça a ideia de exigir filiação partidária de novos contratados.

Em política não há ingênuos. Todos sabem muito bem como tais coisas acontecem. Não é de hoje nem de ontem que políticos contratam apaniguados para incrustá-los na máquina pública. Essas cracas sempre existiram.

A novidade agora é a sem cerimônia de tentar dar um ar de legalidade a algo ignóbil. Essa deterioração do Estado tem sido constante e gradual. A volta do país à democracia civil em 1985 não conseguiu por um freio nesse péssimo hábito. A chegada do PT ao poder central e em alguns Estados seria uma novidade. Não foi. O fracasso prossegue.

GOSTOSA


Troca - SÉRGIO PUGLIESE


O GLOBO - 25/02/12


Guarda italiano suspende multa de lambreta rubro-negra para ter reforço carioca no time


FAENZA, Itália

Longe das Lei Secas e Choques de Ordem que brotam em cada esquina do Rio, o carioca Rodrigo Duque Estrada, após passear pelas belas ruas de Faenza, pequena cidade ao norte da Itália, onde mora há oito anos, estacionou sua lambretinha vermelha e preta para caminhar e pegar sol no Parque Bucci. Trabalha com gastronomia e eventos no badalado Osteria della Sghisa, dorme pouco e precisava relaxar. Mas alguns metros depois viu um policial, cara de mau, aproximar-se e anotar sua placa. Voltou correndo.

- Oi! Bom dia, senhor! Por que está me multando?

- Porque aqui não é permitido estacionar scooters e motos, só bicicletas. Não viu a sinalização alertando? - respondeu, sem disfarçar a impaciência.

O aviso realmente era gigante e a lambreta descansava milimetricamente sob a placa, ridículo.

- Impressionante como não vi.....distração total - desculpou-se, com um sorriso amarelo.

- Mas um painel deste tamanho? É impossível não vê-lo! - resmungou o guarda Ivan, enquanto prosseguia as anotações.

Realmente era incontestável, indefensável, inexplicável.......

- Só posso pedir desculpas - admitiu, baixinho.

A cara triste do menino do Rio, certamente desenvolvida em mergulhos teatrais, no Tablado, levou o policial a erguer uma das sobrancelhas e observá-lo.

- De onde é?

De onde mais poderia ser? Moreno, recém-chegado de uma temporada de surfe na costa francesa, malhadão, sorriso fácil, rato de praia, neto de Dona Inês e, acima de tudo, bom de lábia!

- Sono brasiliano! Vengo da Rio de Janeiro - respondeu, orgulhoso, com sotaque ítalo-carioca.

Quando ouviu "Rio de Janeiro" a sobrancelha erguida deu lugar a um sorrisinho malicioso, reservado aos grandes estrategistas.

- Rio! Praias, belas mulheres e.....futebol! Joga futebol?

Peraí! É até falta de respeito perguntar isso para um carioca da gema, cria da escolinha do Flamengo e ídolo no Maconhão, tradicional campo de soçaite, na saída do Túnel Rebouças. Calma, Dona Inês, o apelido do campo é esse, fazer o quê? Dona Inês Estrada é a avó coruja, fã de carteirinha do moleque. Ela lembrou que o neto também era craque em piruetas e faltava pescoço para guardar tantas medalhas conquistadas na ginástica olímpica do Mengão.

-- O futebol é minha paixão e me considero bom de bola, sim - respondeu com a inconfundível marra carioca, ao estilo baixinho Romário.

O policial respirou aliviado com a revelação e guardou o bloquinho no bolso.

- Jura? Que ótimo! E por qual time torce?

Aí, virou bagunça. Ivan deu um braço e Rodrigo abocanhou o corpo todo! Olhos arregalados, como em transe, sacudiu os ombros do guardinha e encarou-o firme antes de gritar, relembrando os velhos tempos de Raça Rubro Negra, no Maracanã:

- Tifo per il Flamengo!!!! Flamengo fino allá fine!!!! (Torço pelo Flamengo!! Flamengo até morrer!!!).

E emendou.

- Jogo na praia, em salão, cimento, terra batida, paralelepípedo, pé-de-moleque, ladeira.....

Um jogador completo, pensou o fominha Ivan, que construíra um campinho nos fundos de sua casa. E um brasileiro bom de bola por lá, além de levar fantasia às peladas de sábado, ainda colocaria os adversários no bolso. Seria a salvação da lavoura! Então, foi a vez dele, olho no olho, balançar os ombros de Rodrigo e propor, entusiasmado.

- Cavolo! Allora ti lascio il mio numero e vieni a giocare con noi! La multa lasciamo perdere, facciamo finta di niente! L´unica cosa che devi promettere è di venire a giocare nella mia squadra! Ci conto!!! (Puxa!!!! Então deixo o meu número e vem jogar conosco! A multa deixamos para lá!! A única coisa que precisa me prometer é vir jogar no meu time! Te espero!).

Rodrigo carimbou a proposta ali mesmo. Prometeu ficar de olho vivo nas placas e virar garoto propaganda das leis de trânsito. Desculpou-se pela infração e partiu.

Feliz, o guarda Ivan observou sua nova contratação sumir em direção ao parque. Antes de entrar na viatura, retirou o bloquinho do bolso e arrancou a página da multa. Com um sorriso maroto, transformou-a numa bolinha e a jogou para o alto. Na sequência, matou no peito, fez três embaixadinhas e com um chute preciso acertou a pelota de papel dentro da lata de lixo.

MISTURA DE RITMOS - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 25/02/12


O guitarrista, compositor e produtor João Erbetta, 40, - na foto com seu gato Tom, 12- faz show hoje, às 23h, com sua banda, Los Pirata, no Centro Cultural Rio Verde, na Vila Madalena. Ontem, se apresentou com o João Erbetta Trio no Festival São Paulo Representa, na Funarte, na Barra Funda. O paulistano também integra a banda de Marcelo Jeneci.

"Nos meus shows mesclo os rios Mississipi e Capibaribe", diz ele, que viveu por cinco anos nos EUA e tem como referência o jazz de Nova Orleans. Em 2009, o músico tocou "Tico-Tico no Fubá" para a primeira-dama Michelle Obama, na Casa Branca.

DRUMMOND REVISITADO
A editora Companhia das Letras começa a reeditar a obra de Carlos Drummond de Andrade em março. E já definiu os cinco primeiros títulos que relançará: "A Rosa do Povo", "Claro Enigma", "Contos de Aprendiz", "Fala, Amendoeira" e "Sentimento do Mundo" - este, em edição de bolso.

DRUMMOND NA CIDADE
Estão programados eventos no Sesc, além de saraus na Cooperifa e na Biblioteca Mário de Andrade. E também uma aula sobre Drummond dada por Noemi Jaffe para detentas da penitenciária feminina de Santana.

DESPEDIDA
Eliana Tranchesi, dona da Daslu que morreu na madrugada de ontem, tentava uma última cartada contra o câncer no pulmão com o qual lutava desde 2005. Em janeiro, começou tratamento com uma nova droga vinda da Alemanha. Neste mês, contraiu pneumonia, o que complicou seu quadro de saúde.

DESPEDIDA 2
Sem poder caminhar há meses, Tranchesi montou um escritório em sua casa, com escrivaninha cheia de lápis coloridos. Com eles, continuava a criar e a desenhar coleções.

DESPEDIDA 3
Sua advogada, Joyce Roysen, lamentava ontem "não ter conseguido anular" a sentença que condenou Tranchesi a 94 anos de prisão por sonegação fiscal. "Mas a Eliana morreu inocente. A sentença estava suspensa, não tinha eficácia, pois nossa apelação ainda não fora julgada pelo Tribunal Regional Federal de SP." Ela diz que, em anos de convivência, "nunca vi Eliana praguejar contra o processo ou contra a doença. Ela sonhava, olhava pra frente".

ENCRUZILHADA
O conselho da pré-campanha de Fernando Haddad à prefeitura deve se reunir hoje para um debate "acalorado", segundo um dos integrantes. Uma ala defende que ele intensifique as visitas à periferia da cidade, para crescer no eleitorado mais simpático ao PT. Outra, que procure mais "a classe média".

É que, sem o apoio de Gilberto Kassab, o PT teria que buscar já quebrar resistência nessa faixa da população.

SEM EXCURSÃO
Carlinhos Brown não terá a companhia de ninguém de sua família na cerimônia do Oscar, amanhã, em Los Angeles. Quem o acompanhará será sua empresária, Claudia Lima. O músico e Sérgio Mendes concorrem na categoria melhor canção.

A ROCHA
O MuBE (Museu Brasileiro da Escultura) terá uma grade fixa de teatro em seu auditório a partir de abril. A ideia é ter peças e apresentações de stand-up comedy todos os sábados.

E, amanhã, o museu exibirá o Oscar, com coquetel e bolão para os convidados.

A TODO VAPOR
A atriz Cleyde Yáconis, 88, filma neste fim de semana, em SP, o curta "Fala Comigo Agora", de Joaquim Lino.

SUJEITO TOTAL
O rapper Rappin Hood apresentou o show "Sujeito Homem" anteontem no Sesc Pompeia, com sua banda, que tem entre os integrantes o bandolinista Henrique Araújo. A estilista Gabriela Cherubini, a dentista Tayane Castro e o publicitário Cauê Bottura assistiram.

CURTO-CIRCUITO

O cartunista Glauco Villas Boas será homenageado hoje com a inauguração do parque Três Montanhas, na alameda Roraima, em Osasco. A partir das 15h, com apresentações do grupo Jah I Ras e da banda do Céu de Maria.

O Grupo Mix Brasil lança na quarta a revista "H Magazine", com festa no clube Yacht.

O Tom Jazz apresenta hoje, às 22h, o show "O Samba de Roda de Dalua e Mestre Maurão". 18 anos.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

Cresçamos todos de maneira sustentável! - CONNIE HEDEGAARD


O Estado de S.Paulo - 25/02/12


As realizações sociais e econômicas que temos visto no Brasil nos últimos anos são notáveis. Precisamos incluir mais pessoas no futuro global. Não podemos estabelecer limites para o crescimento. Mas de que tipo de crescimento precisamos? Crescimento econômico a qualquer custo?

O crescimento, per se, não é nosso inimigo, nem nosso problema. É a maneira como crescemos - e a maneira como continuamos a crescer - que nos apresenta um desafio comum.

Uma criança nascida hoje é uma dentre 7 bilhões de seres humanos e, durante a sua vida, essa criança verá a população mundial crescer outros 3 bilhões. Mais pessoas terão acesso à classe média, inclusive no Brasil. São boas notícias.

Mas até essa criança nascida hoje fazer 18 anos, em 2030, o mundo precisará de, pelo menos, 50% mais alimentos, 45% mais energia e 30% mais água. Todo dia, o equivalente a 24 mil campos de futebol de florestas é desmatado ou queimado. Dentro de 20 anos nosso abastecimento de água atenderá a apenas 60% da demanda mundial. Esses são os tipos de desafio que hoje nos confrontam.

Quando levamos essas cifras em consideração, fica claro que continuar como vamos não é opção. E estaremos enganados se pensarmos que essa é a opção menos dispendiosa. Em verdade, não é. Ao contrário, é cara demais.

É por isso que precisamos de um modelo de crescimento mais sustentável. Essa é uma das recomendações-chave no novo relatório do Painel de Alto Nível sobre Sustentabilidade Global da ONU, do qual tive a honra de participar. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, criou esse painel e nos convidou a elaborar uma visão de longo prazo com vista à conferência Rio+20, a ser realizada em junho no Brasil.

Assim, precisamos redefinir o crescimento. E lidar com a mudança climática é uma parte crucial desse modelo de crescimento sustentável. A mudança climática é um multiplicador de ameaças e sem ação climática o próprio futuro estará em jogo.

O crescimento favorável ao clima deve ser inteligente para produzir mais com menos insumos. Obter mais usando menos. O que nos beneficiará a todos. Inclusive ao Brasil.

É importante que todos os países - incluindo as economias emergentes - contribuam para a redução das emissões de gases de efeito estufa. É evidente que países diferentes, com economias diferentes, deverão fazer coisas diferentes. Mas o importante mesmo é que todos contribuam para um uso mais eficiente dos recursos.

Na Europa, já estamos reduzindo nossas emissões. Temos metas obrigatórias de redução de emissões e renováveis, um preço para o carbono e medidas de eficiência energética. E estamos procurando maneiras mais inteligentes de tributar menos o que se ganha e mais o que se queima.

Aprendemos duas lições importantes na Europa. Primeiro, que as metas obrigatórias funcionam. Ajudam os governos a manter o foco, mesmo quando surgem outras prioridades políticas. Em segundo lugar, que sinalizar com os preços ajuda. Impulsiona a inovação e os investimentos mediante a criação de incentivos permanentes à redução de emissões, mesmo durante a pior crise econômica em décadas.

É, por isso, crucial estabelecer um preço para a poluição ambiental, de maneira a construir um modelo sustentável de crescimento global. O Painel sobre Sustentabilidade Global recomenda que até 2020 todos os governos estabeleçam tais sinais/preços valorizando a sustentabilidade, de maneira a orientar as decisões de consumo e investimento dos lares, das empresas e do setor público.

Temos de fazer os poluidores pagarem. Mas fazê-lo de maneira inteligente, usando mecanismos de estabelecimento de preços e mercados de carbono. Assim, também poderemos levantar recursos adicionais para investimentos e desenvolvimento sustentável, especialmente nos países em desenvolvimento.

A Conferência do Clima em Durban (COP 17), na África do Sul, no final do ano passado, foi um passo importante no sentido de confrontar o desafio climático. E o Brasil foi uma força ativa e construtiva para se obter um resultado favorável: um acordo para se iniciarem negociações sobre um arcabouço jurídico global realmente novo para ação climática. Um acordo que reflita a realidade de mundo interdependente de hoje.

Isso é importante não apenas porque o Brasil é especialmente vulnerável a condições climáticas extremas, severas e frequentes, mas também porque a transição para uma economia global de baixo carbono representa uma enorme oportunidade de modernizar as nossas economias, estimular o crescimento e gerar empregos.

Assim, a boa notícia para todos é que a sustentabilidade não implica menor crescimento econômico. A sustentabilidade obtém-se mantendo e melhorando a qualidade de vida, enquanto garantimos que a poluição não solape o crescimento econômico. Sustentabilidade quer dizer maneiras mais inteligentes de produzir, cidades mais inteligentes, com ar mais limpo e menos poluição, menos barulho e menos congestionamentos. Sustentabilidade quer dizer lares mais eficientes do ponto de vista energético. Sustentabilidade significa contas de energia mais baixas.

Os líderes mundiais precisam utilizar a conferência Rio+20 para colocar o desenvolvimento sustentável no coração da agenda econômica global, que é o seu lugar, e não um meio ambiente isolado das decisões econômicas mais importantes.

Como fizemos em Durban, agora a tarefa da União Europeia e do Brasil é trabalhar, juntos, para encontrarem soluções realmente globais, confiantes e orgulhosos da nossa liderança nessa área. Usemos a reunião de cúpula Rio+20 para iniciar a transição global para um modelo de crescimento sustentável para o 21.º século. Essa é a transição de que o mundo tanto precisa.

A escalada do petróleo - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 25/02/12


Desta vez é o Irã. Só em fevereiro, os preços do petróleo medidos tanto pelo tipo Brent, formados em Londres, quanto pelo West Texas Intermediate (WTI), definidos em Nova York, subiram perto de 11% (veja o gráfico).

O puxador imediato das cotações é a ameaça de ataque aliado ao complexo nuclear do Irã, conjugada com a decisão, já tomada, de um boicote da União Europeia ao comércio iraniano, a partir de 1.º de julho.

O Irã produz 3,5 milhões de barris de óleo cru por dia e exporta 2,5 milhões. O mercado também teme pelo fechamento do estreito de Ormuz à navegação, por onde escoa quase 40% do petróleo produzido no mundo.

No momento, os consumidores estão reforçando os estoques, fator que puxa os preços para cima. Em tempos normais, a partir de agora se fecham os contratos de fornecimento de petróleo destinados a enfrentar o aumento de consumo da temporada de verão no Hemisfério Norte, quando dispara a procura por gasolina e por combustíveis para as centrais de ar-condicionado.

Não deixa de ser paradoxal que essa alta aconteça em meio à queda da atividade econômica na Europa ou de baixo crescimento em várias outras economias do mundo. Como é o responsável por mais de 30% da matriz energética global, o petróleo continua sendo produto de alta importância estratégica. Seu consumo em escala mundial está hoje perto dos 90 milhões de barris diários, conforme relatórios da Agência Internacional de Energia e, nesta época de recessão, cresce a quase 1% ao ano. Em contrapartida, a produção tende a cair a longo prazo, por falta de reposição de reservas produtivas diante do esgotamento das atuais.

Os analistas não contam com rápida solução para o conflito com o Irã. As únicas atenuantes para uma disparada mais acentuada dos preços seriam a liberação das atuais reservas estratégicas dos Estados Unidos, de 331,2 milhões de barris, e o aumento da oferta pela Arábia Saudita, hoje de 9,8 milhões de barris diários.

A alta do petróleo exerce pressão adicional sobre o governo Dilma. Ainda na quinta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avisou que, neste ano, perseguirá um crescimento de 4,5%. No ano passado, com um avanço do PIB de apenas 2,6%, o consumo de gasolina aumentou 3%. Também neste ano, não se espera aumento de produção de etanol, dados os insuficientes investimentos na cultura de cana-de-açúcar. São fatores que aumentarão ainda mais o consumo de gasolina e diesel, os dois derivados que a Petrobrás está sendo obrigada a importar a preços cada vez mais altos para vendê-los internamente a preços subsidiados.

Como já avisou a presidente recém-empossada da Petrobrás, Graça Foster, mais cedo ou mais tarde será necessário reajustar os preços ao consumidor. Como este é um ano eleitoral, a hora de dar esse passo é agora. Com isso, a menos que o governo Dilma opte por uma redução de impostos, parece inevitável um puxão no custo de vida que, por sua vez, pode embaçar o projeto do Banco Central de derrubar ainda mais os juros.

Lua, luar - ROBERTO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 25/02/12



São tantas e tão belas as músicas que exaltam a Lua que seria necessário um livro para mostrar todas



Passei o Carnaval na roça e, mais uma vez, me impressionou a relação íntima do homem do campo com os fenômenos da natureza, que, ao longo dos tempos, foi formando uma "cultura", que passa de geração em geração, explicando fatos e até mesmo antevendo-os.

Floradas, forma das nuvens, reação dos animais, tudo explica alguma coisa. Mas a Lua é, de longe, o item mais observado: se existe um halo em volta da Lua cheia, pode esperar chuva em dois ou três dias, mas, se a minguante está parecendo um prato vazio, esqueça: seca na certa, porque o astro não vai "derramar" nada. E a influência dela no plantio, na castração de animais ou nos tratos culturais é, sem dúvida, crucial. E, na música, então...

Talvez por isso o grande Catulo da Paixão Cearense tenha sido tão incisivo: "Não há, ó gente, ó não,/ Luar como este do sertão./ A Lua nasce por detrás da verde mata/ Mais parece um sol de prata/ Prateando a solidão".

E vai além, insinuando que o cidadão urbano não tem a mesma sensibilidade do campeiro para com a Lua: "A gente fria desta terra sem poesia/ Não se importa com a Lua nem faz caso do luar".

Mas quantos outros poetas urbanos igualmente formidáveis e imortais celebraram a Lua? Pedi a alguns amigos que ajudassem a responder a essa questão, e encontramos dezenas, centenas de músicas exaltando a Lua e o luar.

E, aliás, em todas as línguas: lá estão em francês o "Clair de Lune", em inglês o "Blue Moon, em espanhol o "Contigo Aprendi" ("a ver la luz del otro lado de la luna..."). Mas são tantas e tão belas as músicas brasileiras que seria necessário um livro para mostrar todas. No entanto, algumas são fantásticas.

Orestes Barbosa escreveu "Chão de Estrelas", com uma estrofe que diz: "... a porta do barraco era sem trinco,/ E a Lua, furando o nosso zinco,/ Salpicava de estrelas nosso chão...".

Essa mistura de Lua com estrelas se repete em outras canções inesquecíveis. Cândido das Neves, vulgo Índio, tem uma passagem a respeito: "Lua, vinha perto a madrugada/ Quando em ânsias minha amada/ Nos meus braços desmaiou,/ E o beijo do pecado,/ O teu véu estrelejado,/ A luzir, glorificou".

Noel Rosa, em "Pastorinhas", também juntou Lua e estrelas: "A estrela Dalva no céu desponta/ E a Lua anda tonta com tamanho esplendor/ E as pastorinhas, pra consolo da Lua,/ Vão cantando na rua lindos versos de amor".

Portanto, também nas ruas, urbanas, a Lua é exaltada, como na melodia imortal cantada por Silvio Caldas: "A deusa da minha rua/ Tem os olhos onde a Lua/ Costuma se embriagar".

Quanta maravilha! Muitos outros tratam da Lua como se fosse um ser inteligente, agindo de forma emocional. Índio mesmo diz: "A estrofe derradeira, merencória/ Revelava toda a história/ De um amor que se perdeu/ E a Lua, que rondava a natureza,/ Solidária com a tristeza,/ Entre as nuvens se escondeu".

Já Orlando Silva, ao pedir que a Lua venha despertar a sua amada, sente-se observado por ela e chora: Canto e, por fim,/ Nem a Lua tem pena de mim,/ Pois, ao ver que quem te chama sou eu,/ Entre a neblina se escondeu".

Entre as nuvens, entre a neblina... E Ivan Lins entoa que: "Até a Lua se arrisca num palpite".

Sempre, sempre, a Lua tem sido e será fonte permanente de inspiração para apaixonados: "Poetas, seresteiros, namorados, correi,/ É chegada a hora de escrever e cantar,/ Talvez a derradeira noite de luar...".

Não, jamais, nunca haverá uma derradeira noite de luar.

Cely Campelo tomou banho de Lua, Rita Lee fez amor por telepatia na Lua que foi cantada por Gil, Caetano, Tim Maia, Chico, Lupicínio, Pixinguinha, João Bosco, Vinícius, Tom, Ary Barroso, Marcos Valle, Carlos Lyra, Dolores, Cartola, Gonzaguinha, todos os grandes.

Por isso, como diz Paulo Sérgio Pinheiro, em sua "Viagem": "Mas pode ficar tranquila,/ Minha poesia,/ Pois nós voltaremos,/ Numa estrela guia,/ Num clarão da Lua, quando serenar...".

Vamos esperar, sem esquecer o genial Nelson Cavaquinho, que decretou, definitivo: "O sol não pode viver perto da lua...".

PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV


11h - Torneio de Marselha, tênis, ESPN
11h30 - Irlanda x Itália, Six Nations (rúgbi), ESPN HD
12h - Esportes de Inverno, Mundial de bobsled, Sportv 2
13h - Newcastle x Wolves, Campeonato Inglês, ESPN Brasil
13h - Chelsea x Bolton, Campeonato Inglês, ESPN
13h - Torneio de Dubai, tênis (final), Bandsports
14h - Inglaterra x País de Gales, Six Nations (rúgbi), ESPN HD
14h - Paulistano x Vila Velha, NBB, Sportv 2
15h - Osasco x Minas, Superliga fem. de vôlei, Sportv
15h30 - Werder Bremen x Nuremberg, Campeonato Alemão, Bandsports e ESPN Brasil
15h30 - Manchester City x Blackburn, Campeonato Inglês, RedeTV! e ESPN
17h15 - Acadêmica x Benfica, Campeonato Português, Esporte Interativo e Sportv 2
17h45 - Milan x Juventus, Campeonato Italiano, RedeTV! e ESPN Brasil
18h30 - Santos x Ponte Preta, Campeonato Paulista, Sportv
19h15 - Santo André x Americana, Nacional fem. de basquete, Sportv 2
21h - Cruzeiro x Florianópolis, Superliga masc. de vôlei, Sportv
21h - Esportes de Inverno, Mundial de skeleton, Sportv 2
22h - Maratona de Tóquio, atletismo, Bandsports

CLAUDIO HUMBERTO

“Eu vou ali e já volto”
Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, sobre cirurgia para retirada de tumor

GOVERNO GASTOU R$ 54,2 MILHÕES COM FESTAS

Com obras atrasadas em portos e aeroportos, PAC empacado e outras adversidades, o governo federal gastou 

R$ 54,2 milhões em festas, coquetéis e holofotes variados em 2011. A ONG Contas Abertas apurou que o Ministério da Cultura foi campeão, com R$ 11,3 milhões, o dobro de 2010, quando o Ministério da Educação do então ministro Fernando Haddad levou o troféu festança, gastando R$ 11 milhões.

LIÇÃO FESTIVA

Em 2011, o MEC repetiu a façanha em valores absolutos, contribuindo para o aumento de 19,5% em um ano. A Funarte torrou R$ 8 milhões.

DEFESA DA ALEGRIA

Vice na disputa, o Ministério da Defesa gastou R$ 14,5 milhões em festas em 2011, a maioria no Exército. Em 2010, foram R$ 10,8 mi.

SALTO TRIPLO

A cada ano, gastos com festividades e homenagens aumentam. O valor saltou de R$ 17,3 milhões, em 2007, para R$ 54,2 mi em 2011. 

MÁQUINA DE DINHEIRO

Para o deputado Paulo Maluf (PP-SP), a Receita Federal “pensa que o contribuinte é uma vaca leiteira que produz mil litros por hora”.

MG: AÉCIO ESTIMULA CANDIDATURA A GOVERNADORA

Longe da dimensão nacional que dele se esperava, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) se volta à política mineira, e agora planeja lançar a bonita secretária estadual de Planejamento, Renata Vilhena, à sucessão do governador Antonio Anastasia. Ela é irmã de Carla Vilhena, âncora paulista do Bom Dia, Brasil, da Globo. Aécio chegou a citar a opção de sua irmã mandona Andrea Neves, mas recuou.

CAVEIRA DE BURRO

O tempo passa, o tempo voa, e o PSDB não se livra da expectativa do próximo artigo de FHC e da próxima crise de indefinição de José Serra.

PRAGMATISMO

Antes de decidir se disputará as eleições a prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB) mandou apurar em que pé estão as contas da prefeitura. 

PEDRA LASCADA

A Prefeitura de São Paulo gasta R$ 700 milhões com o carnaval, mas a apuração do desfile das escolas desconhece o uso do computador. 

ENFORCAMENTO

Além do carnaval, parlamentares vislumbram, ao menos, sete semanas enforcadas com feriadões neste ano eleitoral. A maioria dos feriados cai em terças, quartas e quintas-feiras, dias de sessões legislativas. 

LABORATÓRIO DO MUNDO

O governador Camilo Capiberibe e parlamentares do Amapá retiraram do projeto do Código Florestal a possibilidade de reduzir de 80% a 50% a reserva legal do Estado. Querem torná-lo “laboratório do mundo”. 

PROPAGANDA ENGANOSA

Para Carlos Zarattini (PT), “saúde, transporte e manutenção da cidade” devem ser foco do programa de governo de Fernando Haddad para a Prefeitura de São Paulo: “Tem muita propaganda e pouco resultado”. 

CARNAVAL NO MAR

Conhecido por “Maria Fumaça”, pelo fumacê poluente por onde passa, o porta-aviões “São Paulo”, ex-“Foch”, entrou para a categoria “navio alegórico” após o incêndio, no fim de semana, que matou uma pessoa depois de cinco anos no estaleiro para “reforma e modernização”. 

VOU NÃO, QUERO NÃO...

Após briga feia com o senador petista José Pimentel, o governador do Ceará, Cid Gomes, não vai participar de evento nesta segunda (27) com a presidente Dilma e a prefeita Luizianne Lins (PT) em Fortaleza. Alegou ter viagem, inadiável, para EUA e Espanha. 

PRÉ-MOTIM

A deputada distrital Erika Kokai (PT) se reúne hoje com bombeiros e policiais militares do DF para “ouvir pleitos e tentar estabelecer canal de negociações”. A tropa tem assembleia marcada para 2 de março.

CELEBRAÇÕES

Em abril, um dos mais importantes juristas do País, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Nery da Silveira, completa 80 anos. E a atriz e poeta Bruna Lombardi chega aos 60 em agosto.

VÍCIO DE LINGUAGEM

Em seus primeiros julgamentos (sobre as prerrogativas do CNJ e a Lei Ficha Limpa), a nova ministra do Supremo Tribunal Federal Rosa Weber revelou um vício de linguagem que preocupa os assessores: a expressão “a meu sentir” foi usada várias vezes em suas intervenções.

PENSANDO BEM...

...Antes, era “caiu a ficha”; agora, é “rasgou a ficha”. 

PODER SEM PUDOR

FÉRIAS MERECIDAS

Culto e de raciocínio muito rápido, o ex-ministro Rafael Greca era deputado no Paraná quando passou parte das férias no Himalaia, região pela qual tinha curiosidade. De volta, um adversário – que era baixinho –provocou:

– V. Exa. gozou férias na África. Eu prefiro as belezas da minha terra...

Greca explicou que a mais alta cordilheira do mundo fica na Ásia e fulminou:

– As pessoas têm o direito de escolher o local das férias, e geralmente o fazem de acordo com sua altura. Eu fui ao Himalaia. Vossa Excelência deve ter escolhido a baixada litorânea. 

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Brasil vai impor controle de qualidade a produto chinês
Folha: Serra decide concorrer à Prefeitura de São Paulo
Estadão: Serra discute candidatura com Alckmin e pode ir às prévias
Correio: Diversão irresponsável
Zero Hora: Piratini prevê piso de R$ 1.260 em 2014 e direção do Cpers rejeita
Estado de Minas: Risco Verde
Jornal do Commercio: Dengue sofre alta de 387% no Recife

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Dilma x Serra - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 24/02/12


Dilma, em várias reuniões ministeriais, deu um recado claro: não queria gastar sola de sapato nas eleições municipais.
Faria algumas gravações para programas de TV, poderia ir a um ou outro comício, mas... pretendia mesmo era se manter longe das disputas.

Mas agora...
Com a iminente candidatura de Serra em São Paulo, a turma do Planalto acha que a presidente terá de rever seus planos.
Gente no PT acha que o foco da campanha de Serra será bater em Dilma, o que a forçaria a a entrar em campo. A conferir.



Revolta das barcas
Todo cuidado é pouco. A 76ª DP, em Niterói, abriu inquérito para apurar a conduta de algumas pessoas que estão convocando uma manifestação dia 1o-de março contra o aumento do preço das barcas (vai passar de R$ 2,80 para R$ 4,50).
Com base no teor de mensagens nas redes sociais, e até de vídeos no YouTube, a polícia teme vandalismo.

Mas...
Tomara que o ato, legítimo numa democracia, seja pacífico.

Corredor da Justiça
O ministro Ricardo Lewandowski, presidente do TSE, em viagem ao Japão, cancelou a sessão de julgamentos de ontem.
O Tribunal Superior Eleitoral já deveria ter tido sete sessões este mês, mas só teve duas. A Rádio Corredor diz que ministros reclamam de atrasos e cancelamentos recorrentes, que retardariam as decisões.

CABRAL E PAES selaram ontem um acordo para viabilizar financeiramente a derrubada de 77 imóveis que ficam na chamada Vila União, na Barra. A comunidade, que abriga alguns borracheiros, surgiu no início dos anos 1950 e fica espremida entre a Av. Armando Lombardi e a Lagoa da Tijuca (veja na imagem aqui ao lado), próximo ao Barra Point. Em seu lugar, surgirão uma praça —— ao lado da futura estação de metrô da Barra — com uma marina que dará acesso a várias ilhas e lagoas da região 

Pagode russo
Foi agitado o voo 442 da Air France (Paris-Rio), quarta.
Um casal de russos, que parecia embriagado, entrou na classe executiva e começou a fazer saliência na cara de todo mundo.

Segue...
O comandante pediu que parassem, mas a moça se jogou na cadeira e começou a gritar.
Resumo: o casal foi preso, e o voo atrasou meia-hora.

Torturador 171
O argentino Claudio Vallejos está preso em Santa Catarina, acusado de aplicar golpes no estado, segundo a coluna “Visor”, do “Diário Catarinense”.
Ex-agente da ditadura argentina, Vallejos admitiu à revista “Senhor”, em 1986, ter participado da prisão do pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior. Tenorinho tocava com Vinicius, em Buenos Aires, em 1976, quando desapareceu.
PIB da favela
Surpresa com o grande volume de vendas, a Casa & Vídeo vai ampliar a loja inaugurada, acredite, há apenas 20 dias no Complexo do Alemão, no Rio.
A unidade já é uma das cinco maiores na rede de 69 lojas no Estado do Rio.

Sexta estrela
Ricardo Fernandes, diretor de carnaval da Unidos da Tijuca, vai fazer uma nova tatuagem.
É que, cada vez que é campeão, tatua uma estrela no corpo nas cores da escola. Será a sexta, a segunda azul e amarela.

Sapucaí 2013...
Aliás, Paulo Barros, carnavalesco da Tijuca, virou sonho de consumo da Grande Rio.

É pena
O desembargador Jorge Luiz Habib, da 18a- Câmara Cível do Rio, determinou a proibição de qualquer evento musical no antigo Quilombo Sacopã, na Lagoa, onde era realizada uma feijoada todo segundo sábado do mês.

Carnaval família
Caetano, com bursite no ombro, jantou com os filhos Zeca e Tom nas madrugadas de terça e quarta no Porcão de Ipanema.
Nosso cantor fez a festa de fãs e turistas, e posou para fotos.

Duro na queda
Oscar Niemeyer, 104 anos, ficou feliz com a notícia de que será enredo da União da Ilha ano que vem.
Aproveitou e ligou para Paes. Avisou que quer assistir a todos os desfiles das campeãs, amanhã. Grande Niemeyer.

Tempo esgotado - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 24/02/12


Chegou a hora de Serra abrir o jogo. Não dá para deixar o PSDB exposto à realização de uma prévia “café com leite”, termo que as crianças usam em referência aos mais novos que entram na brincadeira só para constar
Virou novela. E o pior: novela naquela fase chata, em que você sabe que uma coisa importante para o desenrolar da trama está prestes a acontecer e nada sai do lugar, levando o telespectador a trocar de canal. É nessa fase que se encontra o folhetim paulistano do PSDB. E o tempo de José Serra — apontado dentro do partido como o único capaz de tirar o partido dessa pasmaceira — está no fim, dada a proximidade das prévias, marcadas para 4 de março. 
E venhamos e convenhamos: tudo o que Serra poderia sonhar, conforme escrito aqui há alguns dias, ele obteve. O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, ouviu de gente de seu próprio partido que era tarde demais para dizer que apoiaria Serra e que largar o PT agora, só mesmo se os petistas dispensassem o PSD. Kassab, entretanto, foi fiel a quem lhe estendeu a mão há alguns anos, fazendo dele candidato a vice-prefeito. Já está dito e redito que seu destino será apoiar Serra de corpo e alma. Mesmo que alguns integrantes do PSD não gostem. 
Quanto ao DEM, há alguns meses, os democratas tinham feito exigências para compor uma aliança. Disseram que só aceitariam ficar ao lado do PSDB, fosse Serra ou qualquer outro nome, se tivessem o direito de indicar o candidato a vice na chapa. Hoje, a turma do já aceita ficar ao lado de Serra, dando-lhe liberdade total para escolher o vice. Ou seja, mais uma pecinha que, há algumas semanas, era considerada “fantasia” na cabeça dos tucanos, acaba de virar realidade. 

Por falar em realidade...Dentro do PSDB de São Paulo, a névoa que causava o receio de abandono no meio da campanha, também se dissipou. Os tucanos ligados ao governador Geraldo Alckmin estão cada vez mais cientes de que, se pode ser ruim com Serra, será muito pior sem ele, uma vez que, em termos de votos em São Paulo, o ex-governador tem bastante e ainda pode ajudar na reeleição de Alckmin em 2014. 
Para completar, o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, declarou recentemente que apenas Serra, diante das circunstâncias, pode servir de resistência ao projeto do PT de matar a oposição no maior celeiro de votos do país, leia-se São Paulo. Era a cereja do bolo que faltava. A cúpula do partido, que há alguns meses tratava o ex-governador e ex-prefeito como página virada, agora lhe rende homenagens. 
Serra, realmente, errou na campanha presidencial. Errou no tempo, tropeçou ao não fazer a defesa das privatizações e deixar que predominasse o discurso do PT, de demonização do processo. Não jogou com a sua turma. Dentro do PSDB, muita gente se recorda que Serra citava apenas as suas realizações enquanto ministro da Saúde, como governador de São Paulo — mas, justiça seja feita, não foi um mau governo. A Nota Fiscal Paulista ganhou versões em vários estados, inclusive a Nota Legal, no Distrito Federal. O programa de atenção aos idosos, idem. 

Por falar em tempo...Uma das críticas a Serra na campanha de 2010 foi o fato de ter demorado a assumir a candidatura. Quando ele saiu candidato, Dilma já tinha tomado para si a simpatia de Lula junto à população, uma vez que passou todos os quatro meses iniciais rodopiando pelas inaugurações ao lado do presidente. Serra, por sua vez, não citava a palavra “candidato”. Dizia que seu trabalho era governar São Paulo. 
Agora, Serra não tem essa obrigação de outros cargos. Pode perfeitamente assumir a candidatura. Mas tem que fazer isso logo. Se não assumir esta semana, antes da prévia de 4 de março, que está à disposição do partido para ajudar na tarefa de barrar o crescimento do PT, Serra terá perdido o timing. Afinal, tudo o que ele queria — e que muitos achavam impossível — aconteceu. 
Chegou a hora de Serra abrir o jogo. Não dá para deixar o PSDB exposto à realização de uma prévia “café com leite”, termo que as crianças usam em referência aos mais novos que entram na brincadeira só para constar, sem valer ponto. Serra só pode adiar essa decisão se não for candidato. Em sendo, para fazer o anúncio depois da prévia, terá que obter a certeza de que os eleitores tucanos votantes optarão por um quinto nome, fora dos que estão colocados. No caso, o dele, Serra. No mais, tudo o que poderia fazer de Serra um candidato de peso está posto. Ou seja, chegou a hora de sair da toca e, como um tucano de bico duro, enfrentar a campanha. Afinal, o ano começa agora. E a campanha, na prática, também. 

Clima, impérios e bruxas - HÉLIO SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 24/02/12


SÃO PAULO - Secas moderadas podem ter contribuído para o fim dos maias. Qual o papel do acaso e de forças a ele correlatas, como intempéries e cataclismos, na história?

Um pouco por culpa da tendência de seres humanos de nos colocarmos como centro de tudo, um pouco por excessos da tradição marxista, que só tinha olhos para as relações econômicas, a historiografia passou um bom tempo menosprezando fatores geográficos e climáticos.

A moda começou a ser quebrada com a publicação de obras como a do geógrafo Jared Diamond, que, em "Armas, Germes e Aço" e "Colapso", colocou a ecologia e o clima como explicações centrais para o surgimento e o ocaso de civilizações.

Na mesma linha de pesquisa vão Raymond Fisman e Edward Miguel que, em "Economic Gangsters", atribuem boa parte dos desastres da África aos caprichos do clima. Eles analisaram a relação entre secas e guerras civis e concluíram que o fator climático explica os conflitos até melhor do que as divisões étnicas e religiosas. Para esses economistas, uma queda de 5% no PIB, comum em vários países nos anos de seca, eleva em 50% (de 20% para 30%) o risco de ocorrer uma guerra civil nos 12 meses seguintes.

Fisman e Miguel também acharam correlações mais improváveis, como aquela entre a falta de chuvas e o maior número de mulheres assassinadas por bruxaria na Tanzânia. A deterioração das condições econômicas leva as famílias a sacrificarem alguns de seus membros. A escolha acaba recaindo sobre as "bruxas", isto é, as duplamente vulneráveis: mulheres mais idosas.

Nós, no conforto de nossos supermercados, já nos esquecemos de que, durante a maior parte de sua existência, a humanidade travava uma luta diária pela sobrevivência, na qual pequenas variações, como o volume de precipitações ou o humor do tirano de plantão, podiam revelar-se decisivos para o futuro do grupo.

Como o CNJ pode limpar mais a ficha - MARIA CRISTINA FERNANDES

VALOR ECONÔMICO - 24/02/12


Duas semanas separaram duas decisões do Supremo, a que garantiu o poder de investigação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre a magistratura e a que referendou o veto a candidatos condenados por deliberação colegiada ainda que não definitiva.

À primeira vista, as duas decisões, de grande apelo popular, parecem se contrapor. Os mesmos juízes cujos poderes estarão sob a lupa do CNJ são aqueles que se veem reforçados pela possibilidade de condenar carreiras políticas ao limbo. O STF estaria garantindo prerrogativas à magistratura com uma mão e tirando-as com a outra.

Ambas as decisões tiveram placar apertado. Os poderes do CNJ foram garantidos por seis votos a cinco enquanto a Ficha Limpa teve a aprovação de sete ministros e a oposição de quatro. Dos 11 ministros, apenas quatro votaram favoravelmente tanto ao CNJ quanto à Ficha Limpa (Ayres Brito, Joaquim Barbosa, Rosa Weber e Cármen Lúcia).

O exame dos votos mostra que as duas questões não foram relacionadas, mas o que a proximidade dos julgamentos revela é que a defesa das prerrogativas do Conselho presidido pela ministra Eliana Calmon é uma das maiores garantias contra arbitrariedades a que a magistratura se arrisca na missão de que foi imbuída pela Ficha Limpa.

Juízes, das menores às maiores comarcas, terão o poder de destruir projetos eleitorais eventualmente legítimos que, por contrariarem interesses políticos e empresariais, acabam denunciados a meios de comunicação partidarizados e acabam virando réus em processos judiciais.

O ministro Gilmar Mendes foi o principal porta-voz da visão de que o Supremo deve ir contra a maioria para garantir direitos constitucionais, como a presunção de inocência. Contra o argumento de que a Ficha Limpa foi um projeto de iniciativa popular com mais de um milhão de assinaturas e aprovado pelo Congresso, arguiu-se pela impossibilidade de se arregimentar tantas assinaturas sem interesses partidarizados por trás. Os algozes da Ficha Limpa também creditaram o interesse do Congresso em aprovar a lei ao instinto de sobrevivência política de parlamentares que, sob intensa pressão popular, votaram contra seus próprios direitos.

Mendes tem-se notabilizado pela defesa do ativismo judicial que preenche lacunas deixadas pelo Legislativo. Na Ficha Limpa, porém, não houve lacuna alguma. O Congresso respondeu a uma pressão popular fazendo tramitar a proposta em tempo recorde e aprovando-a com um único voto contrário. O Congresso agiria no mesmo sentido na legislatura seguinte ao mobilizar uma Proposta de Emenda Constitucional, com a adesão de senadores de todos os partidos, em defesa do CNJ caso o Supremo julgasse procedente a ação que lhe retirava poderes.

Foi no Supremo que a Ficha Limpa enfrentou inúmeros obstáculos desde sua promulgação em junho de 2010. Desde a indefinição sobre sua validade para as eleições daquele ano até questões de mérito como o poder de veto de colegiados contra os quais ainda cabe recurso judicial.

A dificuldade do Supremo de deliberar sobre a questão fez com que as eleições de 2010 transcorressem indefinidas sobre cerca de 10 milhões de votos dados a candidatos cuja sujeição à lei ainda permanecia incerta.

Nas contas de Mendes um quarto dos candidatos barrados pelas primeira e segunda instâncias têm suas carreiras políticas posteriormente regeneradas pelo Supremo.

É aí que entra a importância da decisão que manteve os poderes do CNJ. Se os magistrados barrarem candidaturas sob pressão de interesses ilegítimos, o Conselho Nacional de Justiça estará fortalecido para investigá-los e puni-los. Se quem tem poderes para julgar os políticos também estiver passível de julgamento é a democracia que ganha.

Os poderes renovados do CNJ ainda garantem a vigilância sobre a magistratura a despeito de injunções políticas de sua organização classista.

A Ficha Limpa teve na Associação dos Magistrados Brasileiros uma de suas grandes propulsoras. Foi o comando anterior da AMB que decidiu mobilizar a entidade por campanhas de cidadania.

Ao assumir a entidade no ano passado, depois de uma eleição apertada (52%), o atual presidente, o desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, Nelson Calandra, achou que era chegada a hora de retirá-la da linha de frente de campanhas como a da Ficha Limpa e colocá-la na defesa de interesses de classe.

Se a Ficha Limpa foi aceita pelo Supremo num momento em que a entidade de classe dos magistrados está sob uma gestão marcadamente corporativa, cresce a responsabilidade do CNJ.

Durante a campanha eleitoral para fazer seu sucessor na presidência da AMB, o juiz pernambucano Mozart Valadares relatou ter sido pressionado por seus pares para não se engajar pela Ficha Limpa. O argumento era de que ele se arriscava a ficar contra parlamentares que depois deliberariam sobre os salários da magistratura. O candidato de Valadares acabaria derrotado por Calandra na disputa.

Daí porque toda vigilância é pouca. A Ficha Limpa certamente não será capaz de, sozinha, moralizar a República. Terá que se valer da participação cidadã que originou a lei e, como diz o jurista Joaquim Falcão, aproximou a democracia representativa da participativa. O que a vigilância do CNJ garante é que a lei não seja desmoralizada.

Ao vencedor... as laranjas - DECIO ZYLBERSZTAJN

VALOR ECONÔMICO - 24/02/12


A notícia de que a "Food and Drug Administration" (FDA) embargou lotes de suco de laranja de origem brasileira provocou flutuação nos preços e preocupação generalizada entre produtores e exportadores. A FDA, agência americana que cuida do controle e registro de medicamentos e de produtos de defesa vegetal, pode criar problemas para o sistema agroindustrial da laranja, afetando produtores, indústria de insumos e exportadores. É inevitável que os consumidores brasileiros perguntem se o produto aqui vendido é seguro.

O fato isoladamente é relevante bem como a identificação da sua causa, no sentido de evitar futuros problemas. Voltemos à origem do conceito de "agribusiness", que traz na sua essência a ideia de "coordenação". O conceito não foi cunhado para significar a grande agricultura industrial como tem sido interpretado no Brasil, mas para ressaltar que a agricultura não pode ser tratada como um setor isolado da indústria de insumos que a precede ou da indústria de processamento de alimentos que a sucede na cadeia produtiva.

O funcionamento dos Sistemas Agroindustriais (SAGs) é complexo, pois envolve agricultores dispersos geograficamente que adotam tecnologias em geral apontadas pela indústria de insumos. A produção é processada pela indústria ou poderá ser consumida diretamente sem processamento, no caso do alimento in natura.

O tema da coordenação é imperativo e dá o mote para os estudos e pesquisas geradas nos centros dedicados ao tema em todo o mundo. A pesquisa dos últimos 20 anos converge para fato de que a competitividade dos SAGs é pautada pela adoção de tecnologias produtivas, ambientalmente compatíveis, e seguras sob o ponto de vista do consumidor final. Para tanto, a adoção de mecanismos de coordenação entre produtores e indústria se faz necessária. A indústria processadora, os agricultores e a indústria de insumos, quando conseguem aprimorar os mecanismos de coordenação, são capazes de gerar valor, criando incentivos para a cooperação de longo prazo, condição necessária para a incorporação de novos mercados.

Se no passado o alimento era produzido e consumido localmente, os atuais sistemas de produção e consumo são caracterizados pelo distanciamento entre o local da produção e processamento do local onde se dá o consumo. Tal fato gera a necessidade de mecanismos de controle de qualidade e sanidade dos alimentos bem como de normas legais e estrutura para efetuar os controles.

O fato que funcionou como o gatilho para a intensificação do controle sobre os alimentos foi o mal da vaca louca ocorrido na Europa, que gerou o critério de segurança hoje representado pelo Global-Gap, servindo de pauta para todos os SAGs que desejam chegar ao mercado europeu. Nos Estados Unidos, o FDA foi criado no século XIX a partir da Divisão de Química do Ministério da Agricultura dos Estados Unidos. Nasceu como uma resposta institucional à necessidade de controles de sanidade dos alimentos e medicamentos.

Instituições como o FDA ou seus similares europeus são movidas por razões técnicas e também por pressões políticas. Estratégias de acesso aos mercados, não raro, são marcadas por mecanismos não tarifários de proteção aos produtores locais. De modo pragmático, os SAGs que competem nos mercados internacionais devem prever situações críticas cujos sinais estão disponíveis, reorganizando a produção. Um exemplo é a substituição do uso de moléculas que gerem resíduos banidos dos mercados.

Em suma, as exigências dos consumidores, sejam elas impostas pelo mercado ou por mecanismos regulatórios, são fatores indutores de mecanismos refinados de coordenação nos sistemas de base agrícola. Cabe perguntar como anda a coordenação na agroindústria citrícola no Brasil.

Eu diria que os indicadores não são os mais animadores. Os citricultores independentes e a agroindústria tem vivido momentos cheios de emoção nas últimas décadas. O tema de maior visibilidade é o conflito distributivo que ganhou um status crônico, mobilizando o Cade e o Poder Judiciário.

A tentativa de criar um mecanismo contratual de precificação (Consecitrus), à luz da experiência do Consecana, tem mostrado uma visão imperial da indústria que sugere ter ela o modelo para a solução do problema distributivo. No mínimo, esta é uma visão ingênua, pois os modelos de sucesso são embasados em negociação de longo prazo e criação de laços de relacionamento entre agricultores, indústria de insumos e indústria de processamento.

O exemplo do uso do fungicida que contém o princípio ativo "carbendazim" apenas acentua a disritmia que caracteriza o SAG da laranja no Brasil, abrindo o flanco para a perda de poder competitivo. Os sinais são óbvios. As discussões realizadas entre o FDA, a Juice Producers Association e a Citrus-BR, em janeiro de 2012 deixaram os agricultores em condição subsidiária na mesa de negociação.

Não há sinais de que as arestas estejam sendo adequadamente trabalhadas. A indústria eleva o seu grau de integração vertical, cuja eficiência é questionável por envolver grandes investimentos em ativos, e os contratos de longo prazo entre a indústria e produtores perdem a sua capacidade coordenadora. O ambiente que impera não sugere que ações geradoras de incentivos para a cooperação estejam à vista.

A indústria e a agricultura tratam o tema com miopia usual. Se cooperassem, agricultura e indústria gerariam e protegeriam valor que poderia ser distribuído entre os setores de modo inteligente. Da maneira como tratam a cooperação, o sistema agroindustrial da laranja nos faz lembrar Quincas Borba, de Machado de Assis. As duas tribos estão famintas e acham que o campo de batatas é suficiente apenas para alimentar uma delas. Ao vencido o ódio ou compaixão, ao vencedor as laranjas