quinta-feira, janeiro 05, 2012

Imobilismo e centralização - ADRIANO PIRES


O ESTADÃO - 05/01/12

O imobilismo e a centralização marcaram a atuação do governo no setor de energia em 2011. Isso vem aumentando o risco regulatório, reduzindo investimentos e pode comprometer o suprimento futuro de energia no País.

No petróleo, passou-se mais um ano sem que fosse realizado o leilão de áreas de exploração. Desta vez o argumento seria o impasse criado entre os entes da Federação em torno da Distribuição dos royalties.Ofato é que a ausência de leilões diminui a área de exploração,comprometendo o crescimento da produção futura de petróleo, diminui investimentos e geração de empregos e pode levar as empresas a procurarem outros países. Em relação aos derivados de petróleo, 2011 foi caracterizado por grandes subsídios aos preços da gasolina e do diesel, desrespeitando o acionista da Petrobrá se reduzindo o valor de mercado da empresa. Isso provocou um recorde de importações de gasolina.

No gás natural, 2011 terminou com a declaração do presidente da Petrobrás de que não há mais gás no Brasil para celebrar novos contratos, em particular com as usinas térmicas. O segmento é um monopólio desregulado nas mãos da Petrobrás. Por causa disso, o setor não se desenvolve e o País perde a oportunidade de ter maior participação do gás na sua matriz energética. Ou seja, todos os agentes do mercado de gás natural são reféns da Petrobrás.

Na energia elétrica, o imobilismo é refletido na indefinição do governo se vai prorrogar ou licitar as concessões vincendas na geração, transmissão e Distribuição. O leilão de energia elétrica A-5- na verdade um leilão A-4- realizado em dezembro retrata o atual equívoco do governo em não aproveitar o fato de o País possuir uma diversidade de fontes energéticas e estimulá-las. Se não, vejamos, a pouca presença dashidrelétricas no leilão se deve à não obtenção das licenças ambientais; as usinas termoelétricas se ausentam porque a Petrobrás alega não ter gás para comprometer seu fornecimento; e nas demais fontes, como as PCHs e a Biomassa, o motivo da baixa presença são os preços pouco atraentes do leilão. Enquanto o carvão está sendo penalizado pelo preconceito de ser uma fonte altamente poluente. Às eólicas será imputada a responsabilidade de suprir a demanda mesmo sem linhas de transmissão para transportar a energia gerada no Nordeste para o centro de carga na Região Sudeste. O governo deveria pesar essa realidade para implantar os leilões regionais e por fontes, aproveitando as vantagens comparativas da diversificação da matriz elétrica, e garantir o suprimento à demanda.

No setor dos biocombustíveis a situação não é diferente. No Etanol, a falta de políticas públicas tem diminuído os investimentos em novos canaviais e mesmo na sua renovação. A consequência é o aumento nos preços do Etanol, a queda no seu consumo e dúvidas quanto ao tamanho da sua participação na matriz de combustíveis.

Em 2011 a política tributária também foi totalmente equivocada entre a gasolina e o Etanol. Hoje, a carga tributária incidente sobre a gasolina é de 35%, ante 47% em 2002. No caso do Etanol, a carga atual é de 31% na maioria dos Estados brasileiros; e, no caso do diesel, só 22%. Salta aos olhos que os combustíveis mais sujos e ambientalmente indesejáveis têm sua carga tributária reduzida ao longo do tempo.Se considerarmos a carga tributária em proporção ao poder calorífico de cada uma das fontes, o Etanol, que é um combustível limpo e renovável e deveria ser incentivado, é o que apresenta a maior carga tributária.

No Biodiesel foi mantida a atual mistura de 5%, não se levando em consideração a capacidade ociosa existente no parque instalado. Também não se criou um marco regulatório de que o setor tanto precisa para se desenvolver com maior segurança econômica e jurídica.

Além disso, deu-se continuidade aos leilões mantendo a posição de única compradora da Petrobrás, não estimulando maiores concorrência e eficiência.

Em 2012, o setor de energia precisa de políticas públicas e de interlocutores no governo, para dar fim ao imobilismo e à centralização que emperraram a agenda em 2011.

Atraso ambiental - ARTHUR LAVIERI


O GLOBO - 05/01/12


O ano de 2011 ficará marcado como aquele em que a geração de energia eólica finalmente decolou no Brasil. Além da queda acentuada do preço, que hoje se equipara ao das térmicas a gás e hidrelétricas, a chegada de novos fabricantes de equipamentos e investidores confirmou a atratividade do nosso mercado. Não se removeram, entretanto, as barreiras que atrasam o desenvolvimento dessa importante fonte alternativa no Brasil. Elas ficarão ainda mais expostas quando 2012 chegar.

Entramos agora num período em que os entraves em infraestrutura e logística para projetos eólicos serão exacerbados, com o início de operação da maioria dos projetos eólicos contratados três anos atrás. É a hora de as usinas entregarem parte dos 3.900 MW de energia eólica vendidos nos leilões de 2009 e 2010. Será o ano da superação, em que apenas players sérios, com plantas bem estruturadas, conseguirão colocar de pé e em funcionamento projetos que estavam no papel.

Já no primeiro semestre, aparecerão os primeiros casos de sucesso e também as surpresas e contratempos. No dia a dia, empreendedores e fabricantes de equipamentos lidarão com problemas conhecidos dos brasileiros, como a malha rodoviária precária, a falta de espaço e de estrutura em portos para recebimento de equipamentos e movimentação de cargas pesadas, entre outros. Na área ambiental, o setor convive com a indefinição de prazos para o licenciamento de projetos. Apesar do aumento gradativo dos investimentos em energia eólica, ainda é muito lento o processo para a concessão de financiamentos de curto e longo prazos - em alguns casos, pode-se levar mais de um ano à espera da avaliação e aprovação de um projeto.

Sem solução à vista, fatores como esses se tornam grandes pontos de estrangulamento e de elevação de custos dos projetos. Questões preocupantes para desenvolvedores e fornecedores de energiaeólica, que precisam observar ainda o comportamento do mercado e as diretrizes governamentais. Um leilão do tipo A-5 da ANEEL, por exemplo, pode dar a impressão de "um futuro distante", posto que os empreendedores terão pelo menos quatro anos para a implantação de seus projetos e cinco anos para dar início à entrega da energia comercializada. À luz de alguns processos no mercado de hoje, esse prazo pode ser pequeno.

É preciso que sejam tomadas, de imediato, ações estruturadas a fim de se evitar que esses entraves afetem o desenvolvimento da geração de energia eólica no país e abalem a esperança de um futuro 100% limpo.

ARTHUR LAVIERI é presidente da Suzlon no Brasil

GOSTOSA


O desastre das verbas - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 05/01/12

É isso, sempre: o jogo político, seja pessoal ou partidário, no Brasil, é feito com dinheiro público


O problema noticiado como favorecimento a Pernambuco de verbas federais, para obras ligadas a passados e previstos desastres naturais, não é bem assim, nem é só assim.

Vale a pena saber que dinheiro não faltou, propriamente. Suficiente não poderia ser, porque a quantidade e a gravidade das áreas de risco e das reconstruções necessárias estão, ambas, em nível de calamidade.

O primeiro problema, a partir dessa disponibilidade financeira parcial, é que os critérios técnicos de sua distribuição pelo Ministério da Integração Nacional equiparam-se, nos melhores casos, às conveniências políticas (não só em Pernambuco, longe disso). E, na maioria dos casos, a razão técnica é superada pelo proveito político.

É isso, sempre: o jogo político, seja pessoal ou partidário, no Brasil, é feito com dinheiro público.

Na rubrica orçamentária de gastos com prevenção de desastres naturais e semelhantes, Pernambuco foi, de fato, o privilegiado, como denunciou Gil Castello Branco, do "Contas Abertas". E o noticiário concentrou esse fogo no ministro Fernando Bezerra, pretendente a uma candidatura alta naquele Estado. O mesmo que fez seu antecessor no governo Lula, Geddel Vieira Lima, que a Bahia teve a sorte de não aceitar como governador.

Mas o privilégio pernambucano não diz tudo das verbas para prevenção. Outros Estados receberam verbas, sob a mesma rubrica. Os R$ 32 milhões repassados à Bahia, por exemplo, quase encostam nos R$ 34 milhões pernambucanos. Mas, se o rico São Paulo recebeu quase metade da verba pernambucana, o Estado do Rio recebeu menos de R$ 4 milhões, com muito mais regiões carentes de obras preventivas.

A explicação: o PMDB paulista foi mais influente junto ao ministro peemedebista.

O desprezo aos critérios técnicos está demonstrado nos desastres que voltam a ocorrer, em áreas apontadas como carentes de prevenção em cidades e estradas serranas e no norte do Estado, desaguadouro das inundações mineiras.

O privilégio pernambucano não é todo o problema. O Orçamento de 2011 incluiu também a rubrica de reparação das consequências de desastres naturais.

A devastação violenta que acometeu Nova Friburgo, Teresópolis, Petrópolis e adjacências, no verão passado, levou a um pretenso levantamento que destinou R$ 298 milhões às obras de reconstrução.

Pernambuco e São Paulo puderam agradecer mais R$ 95 milhões e R$ 67 milhões, respectivos. Como esta e a rubrica anterior associam-se nas finalidades, Pernambuco continua muito bem servido, mas o privilégio noticiado mereceria ser relativizado.

A esta altura entra a segunda parte do tema. O Tribunal de Contas do Estado do Rio informa procurar onde se meteram R$ 11 milhões federais da remessa federal de R$ 70 milhões que, desde janeiro passado, deveriam ajudar vítimas dos desastres serranos de então. É um casinho, dirigido à secretaria estadual de Obras.

Das verbas graúdas, aquelas ali em cima, não se sabe nada ainda. Mas sabe-se, TV e jornais, da mesmice em que estão, ainda hoje quase todas as áreas serranas atingidas pela devastação de um ano atrás. Um prefeito cassado, outro prefeito afastado, aquele ali pendurado. E as ruas? As pontes? Os serviços? Os muros de arrimo? O escoramento de encostas, os desvios de riachos, os represamentos? E, sobretudo, os milhares de casas para desabrigados, muitos deles esperando ainda o teto que substitua a casa devorada pela lama por tragédia de anos atrás?

O uso político, seja pessoal ou partidário, de dinheiro público, vai muito além de uma destinação privilegiada de determinada verba. A Controladoria-Geral da União deverá ter, em breve, uma palavra preciosa sobre o destino de parte daquelas verbas.

Mas o mais necessário, suponho, seria agravar, agravar muito, sem direito a desconto algum, as penas do crime monstruoso que é se apropriar de verba pública destinada a socorrer os devastados pelas calamidades. O que, antes tudo, exigiria colhê-los e aplicá-las -o que não parece para o nosso tempo.

Soberania em baixa - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 05/01/12


Os chefes de governo já não alardeiam capacidade de exercer a soberania dos seus Estados nacionais. A crise global encarregou-se de lhes passar uma lição de humildade.

Há duas semanas, um dos mais respeitados filósofos da Europa, Zygmunt Bauman, advertia sobre o impacto a ser produzido pela ruptura entre poder e política que os novos tempos estão impondo a todo mundo.

Esta não é somente uma consequência da globalização. Como no passado aconteceu com os príncipes cujo poder foi cerceado pelos seus financiadores, agora são os dirigentes políticos dos países altamente industrializados que se mostram paralisados sob o peso da enorme gastança do setor público.

No caso dos Estados Unidos, a disparada do déficit orçamentário tem a ver com enormes despesas de guerra e, também, com políticas de bem-estar social. No caso da Europa, deve-se especialmente à atual incapacidade dos Tesouros nacionais de bancar os benefícios prometidos à população nos últimos 60 anos.

Os novos tempos são regidos por redivisão do trabalho global (que transfere empregos para os países emergentes, especialmente para a Ásia) e pela distribuição de aposentadorias precoces num quadro de envelhecimento da população e de aumento da expectativa de vida.

No contexto do mega-endividamento dos Tesouros e de paralisia dos governos, não há como aplicar a receita para enfrentamento das crises recomendada pelo maior economista do século 20, o inglês John Maynard Keynes.

Este seria o momento em que os Estados deveriam impulsionar suas despesas, sobretudo em investimentos de infraestrutura, para que pudessem fomentar o emprego, expandir a renda e retomar tanto o consumo como as atividades produtivas. Paradoxalmente, a principal contraindicação para adotar essas políticas keynesianas - a ameaça de inflação - não é o fator que impede os governos de agir. Ao contrário, os países ricos vivem hoje um período de inflação prostrada, a ponto de permitir que o maior banco central do mundo, o Federal Reserve (Fed, o dos Estados Unidos) assegurasse em agosto passado que, num período de pelo menos dois anos, ninguém devesse esperar por alta dos juros básicos no país.

O principal fator que impede a adoção de políticas keynesianas é a recusa dos mercados financeiros de continuar comprando títulos de países excessivamente endividados.

Em outras palavras, esta crise está re-ensinando os dirigentes políticos que o pleno exercício da soberania dos Estados só pode acontecer num quadro de equilíbrio de finanças públicas. O Brasil é exemplo eloquente desse ensinamento. Enquanto as contas públicos permaneceram em desordem, o governo brasileiro não teve condições de levar adiante as políticas de interesse nacional. Uma vez obtido o ajuste, ainda que incompleto, o governo recuperou sua capacidade de ação.

Os próximos anos se encarregarão de mostrar outras consequências produzidas pela atual a ruptura entre poder e política de que fala Bauman.

Distância entre intenção e gesto - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

VALOR ECONÔMICO - 05/01/11

Parece ter se tornado comum, quase consensual, a noção que o Banco Central (BC) teria "acertado o cenário" ao iniciar o processo de redução da taxa Selic em sua reunião de agosto. O crescimento nulo do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre de 2011, assim como a perspectiva de um desempenho semelhante no fim do ano passado seriam provas que, desta vez, o BC teria se posicionado "à frente da curva", o que motivou até elogios em quartéis mais associados à crítica a priori das ações da autoridade monetária.

No entanto, quando olhamos mais de perto os números, a avaliação mais favorável que se pode fazer é que o júri ainda não decidiu se o BC está correto. A rigor, pelo menos até agora, a única conclusão possível é que o cenário não se desenrolou como o previsto.

De fato, como expresso na ata daquela reunião, a decisão pelo corte da Selic resultou de "um cenário alternativo, (...) [que] admite que a atual deterioração do cenário internacional cause um impacto sobre a economia brasileira equivalente a um quarto do observado durante a crise internacional de 2008/2009. Além disso, supõe que a atual deterioração do cenário internacional seja mais persistente do que a verificada em 2008/2009". A verdade, todavia, é que não há ainda nenhum sinal de que a economia brasileira tenha sofrido um impacto equivalente a um quarto do verificado naquele momento.

Para tanto convido o leitor à inspeção dos números na tabela, que compara o desempenho econômico desde a decisão pelo corte da Selic com o observado durante a crise de 2008/09. Verificamos, por exemplo, que a produção industrial despencou 18% entre setembro de 2008 (o pico antes da crise) e fevereiro de 2009 (o pior momento capturado pela média móvel trimestral), enquanto as vendas varejistas caíram cerca de 5% no mesmo tipo de consideração.

Em resposta à queda da demanda e da produção verificou-se uma expansão considerável da ociosidade dos recursos: o desemprego (já ajustado à saída de parcela da população do mercado de trabalho no período imediatamente posterior à crise) aumentou 1,7 ponto percentual, enquanto a capacidade ocupada caiu quase 4,5 pontos. Assim, a variação das medidas do hiato de produto mostra o aumento expressivo de recursos ociosos, que, por sua vez, se materializou em queda apreciável da inflação, seja a inflação "cheia", seja seu núcleo, levando o índice a terminar 2009 praticamente na meta.

Já no período mais recente, muito embora o desempenho do ponto de vista de atividade tenha sido medíocre, marcado por queda da produção industrial e estagnação do PIB, em nada se assemelha a um impacto equivalente a um quarto do observado em 2008/09. Se é verdade que o varejo ampliado (que inclui veículos) sofreu uma queda pouco inferior a 1,5% de julho a outubro, o varejo restrito se expandiu, mostrando uma demanda interna bem mais resistente do que há três anos.

O contraste é ainda maior quando inspecionamos as medidas de ociosidade: o mercado de trabalho, na verdade, se tornou mais apertado, compensando a queda (moderada) da utilização de capacidade na indústria. Assim, a variação do hiato de produto é uma fração modesta da verificada durante a crise, certamente inferior aos 25% postulados no cenário alternativo do BC.

Estes dados nos trazem para o que, afinal de contas, é (ou deveria ser) o objetivo do BC: a inflação. Muito embora os cenários apresentados recentemente no Relatório de Inflação apontem (com ajuda da correta atualização da ponderação do IPCA) para uma taxa de inflação pouco acima de 4,5% este ano, a verdade é que, com menor contribuição do hiato e expectativas de inflação persistentemente descoladas da meta, a experiência de 2008/09 sugere, pelo contrário, que deve ser bastante difícil tirar dois pontos percentuais da inflação nos próximos 12 meses.

Isto sem mencionar (ops!) que os cenários do BC que incorporam a Selic caindo até 9,5% ao ano já mostram a inflação voltando a se acelerar no fim de 2012 e atingindo bem mais do que a meta em 2013.

É bom que se diga que, ao menos em tese, ainda há a possibilidade de deterioração adicional da situação internacional que leve o cenário corrente mais próximo daquele imaginado pelo BC há poucos meses, mas permanece sendo verdade que a convergência da inflação à meta segue dependente de uma contração de atividade que não ocorreu e que não parece ser palatável para os atuais condutores da política econômica. Assim, a única forma de concluir que o BC "acertou o cenário" é supor que ele sempre mirou acima da meta. Já isto o mercado parece ter compreendido há tempos.

Brasil vai ter um ano bom - ALBERTO TAMER


O Estado de S.Paulo - 05/01/12


Primeiros dias com certa calmaria no cenário internacional em um início de ano que será difícil. Há menos tensão depois de o Banco Central Europeu oferecer, no dia 21 de dezembro, 489 bilhões a juros reais negativos por três anos, fato inédito, pensando que os bancos iriam usá-los nas linhas de crédito. Não foi isso que aconteceu. Eles aceitaram o empréstimo e depositaram quase tudo nas suas contas (uma espécie do nosso compulsório) no próprio BCE, mesmo pagando juro maior. Até a noite de terça-feira, haviam recolhido ao BCE 446 bilhões dos 489 bilhões recebidos. Estão lá, prontos para serem usados quando a incerteza passar. Nem empresas nem consumidores estão dispostos a se endividar enquanto nada se definir. E essa definição, mais recursos para o fundo europeu socorrer os países em dificuldade, se choca frontalmente com a política meio suicida dos governos, Paul Krugman afirma, de atacar a dívida soberana aplicando um severo plano de austeridade fiscal. Uma política que levou à recessão atual e vai prolongá-la por mais dois trimestres.

Para os europeus, Keynes, que defendia a ação dos governos num momento de crise, está morto. Só que eles podem morrer antes de chegar na praia. Só a Alemanha se anima por enquanto, mas porque continua exportando para os países da zona do euro e para a China.

Eles viram. Mas ninguém viu isso? Todo mundo viu. Christine Lagarde se cansou de alertar. Na mensagem de fim de ano não poderia ter sido mais pessimista. A situação é grave e exige ação. Até Angela Merkel admitiu em sua mensagem de fim de ano que "2012 será sem dúvida pior que 2011". Nicolas Sarkozy não vai tão longe, afinal tem eleição pela frente e quer se reeleger, mas concorda que a situação está cada vez mais difícil.

O teste de janeiro. De acordo com levantamento da agência Bloomberg, os países da zona do euro têm de rolar títulos no valor de 215 bilhões - há outras estimativas, mas os valores giram em torno disso. Vai ser difícil. O primeiro teste vem hoje, quando a França vai propor ao mercado renovar 8 bilhões; o segundo, no dia 12, com a Espanha precisando rolar 3 bilhões. E tem Grécia, Itália. Ao todo, mais de 1 trilhão.

Os analistas do mercado não veem outra saída a não ser o BCE comprando títulos dos países endividados e não se limitando apenas a dar liquidez ao sistema. Mas nada se resolverá enquanto, ao mesmo tempo, a economia não voltar a crescer estabelecendo a confiança que empresas e consumidores perderam nos governos e nas instituições.

Brasil até aproveita. O Brasil navega bem nesse mar em que os investidores buscam porto seguro. Saem do euro, correm para nós, onde há apenas pequenas marolas e céu azul. Os dólares e os euros continuaram entrando em dezembro e neste início de ano. Na terça-feira, o Tesouro captou mais US$ 750 milhões para vencer em 2021(!), pagando a menor taxa de juros da história. Houve mais procura do que oferta e ele pode voltar ao mercado. Para grande surpresa do governo, a demanda por papéis do Tesouro chegou a US$ 3,6 bilhões.

Superávit mais superávit. De acordo com dados do Banco Central, o Brasil encerrou o ano com um saldo cambial de US$ 65,2 bilhões. Um aumento de nada menos que 168% sobre o ano passado. Foi o melhor ano desde 2007. E isso apesar da saída de dólares nos últimos meses por empresas internacionais que foram socorrer as sedes. Houve superávit financeiro, comercial e entrada recorde de investimentos diretos com empresas atraídas pela expansão do mercado interno.

Chega. A coluna não vai cansar o leitor com mais números. Estão todos aí, muito bem mostrados, com detalhes, no Estado. O Brasil não está sentindo falta de investimentos externos. Os dólares entram via captação, mercado financeiro, investimentos em produção. O ano passou, outro se inicia e tudo indica que para nós, vai continuar assim porque o governo, a presidente, o BC e a equipe econômica reafirmam que vão continuar e até intensificar a política que deu certo. Há razão, leitores, para confiar.

Febeapá - ROGÉRIO GENTILE

FOLHA DE SP - 05/01/12

SÃO PAULO - Gilberto Kassab tem revelado, nos últimos tempos, um traço de sua personalidade que pouca gente conhece. O prefeito paulistano é, antes de tudo, um piadista.
Primeiro, declarou que o seu novo partido, o PSD, não seria "nem de direita, nem de esquerda, nem de centro". Depois, confrontado com o fato de que muitas das suas metas administrativas não tinham ainda sido cumpridas, afirmou que a nota de sua gestão é "dez com louvor".
Agora, o prefeito decide extinguir, oito meses após sua criação, a Secretaria Especial de Articulação para Grandes Eventos -engendrada para ajudá-lo nos preparativos de acontecimentos importantes como a Copa.
Não entendeu a sutileza do humor kassabiano? Pois bem, a mando do prefeito, o secretário especial Walter Feldman trabalhou praticamente esse tempo todo na Inglaterra, a cerca de 9.500 quilômetros da cidade que paga seu salário.
A sua missão era recolher dados e acompanhar a organização da Olimpíada que ocorrerá em Londres, em julho. Informações que, evidentemente, serão extremamente importantes para que São Paulo possa ajudar o Rio de Janeiro a organizar a sua competição, em 2016, bem como para auxiliar a própria capital paulista na Copa de 2014.
O agravante nessa história toda é que Kassab exonerou Feldman anteontem de suas funções na prefeitura para que possa assumir uma cadeira do PSDB na Câmara dos Deputados.
E os preparativos para a Copa, acabaram? E a tal necessidade de ter alguém que fizesse os entendimentos com os órgãos internacionais, leia-se Fifa, como previa o decreto que fixou as incumbências da secretaria? Nada disso mais importa?
Em seu blog, o deputado disse que entregou a Kassab um relatório "com mais de mil páginas de projetos em diversas áreas para que São Paulo possa definitivamente agregar negócios e desenvolvimento sustentável". Ok, então está certo. Resta saber se alguém acha isso tudo engraçado.

CLAUDIO HUMBERTO

“O novo EcoSport terá muito axé!”
Ministro Aloizio Mercadante, louvando a ciência e tecnologia do carro made in Bahia

MINAS RECEBEU TREZE ALERTAS DE RISCO DE CHUVAS

Os órgãos de Defesa de Minas Gerais emitiram, desde outubro de 2011, pelo menos treze alertas sobre o risco de chuva intensa no Estado. Apesar dos avisos, as águas destruíram 66 municípios, causaram seis mortes e deixaram centenas de desalojados. O governador tucano Antônio Anastasia afirma que adotou medidas preventivas, mas alega que o volume de água foi “sem precedentes”.

ADIANTOU?

Dentre as medidas, o governador cita investimentos de R$118 milhões na empresa de energia Cemig, e “ obras e capacitação de pessoal”. 

NÃO FUI EU

O ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) garante que o sistema de monitoramento de chuvas “tem feito todos os alertas”.

SUMIU DO MAPA

Enquanto Minas naufraga, nem assessores sabem em que país está o senador Aécio Neves (PSDB). O ex-governador quer a Presidência. 

É NISSO QUE DÁ

Dos 56 municípios brasileiros com risco de desastre por chuvas, apenas dois receberam verbas do programa de prevenção do governo. 

PSB: CIRO MINISTRO NÃO É INDICAÇÃO DA SIGLA

O senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE) acredita que “só por escolha pessoal de Dilma” o correligionário Ciro Gomes poderá assumir a pasta da Ciência e Tecnologia, conforme se especula há dias. “O partido já tem sua cota na Esplanada”, resume o senador. Questionado se Ciro, conhecido pelo temperamento explosivo, estaria cotado porque ficaria “contido” no ministério, Valadares foi taxativo: “Dilma não se intimida com nada. Se ela escolher Ciro, será pela competência”.

EDUCAÇÃO VIRTUAL

Fez um ano ontem (4) o post do ministro Mercadante no Twitter, com seu discurso de posse na Ciência e Tecnologia. O único de 2011. 

TRABALHEIRA

O Tribunal Regional do Trabalho multou em R$ 74 mil a construtora Cotebrás, por descumprir contrato. Não poderá ter outros no TRT.

1,2, 3... 6!

Alimentos da cesta básica têm, pelo menos, seis tributos: PIS, Cofins, IR, ICMS, IPI, contribuição previdenciária e contribuição sobre o lucro.

DOUTORA HONORIS VAIA

A prefeita Luizianne Lins (PT) ganhou título de campeã de vaias após réveillon promovido por ela em Fortaleza (CE). Foi vaiada ao aparecer no telão e, não satisfeita, recebeu do palco coro entoado por 1,5 milhão de pessoas. Questionada sobre o fato, ela jura que só ouviu aplausos.

MICO HISTÓRICO

O ex-presidente Lula fica em 2º. Foi vaiado maciçamente por 90 mil pessoas na abertura do Pan, em 2007, no Rio. À época, o governo alegou que a vaia foi orquestrada pelo ex-prefeito Cesar Maia (DEM). 

BALA PERDIDA

O deputado federal Guilherme Mussi (PSD-SP) quer dar banana a macaco com seu projeto prevendo placas especiais identificando deputados e senadores. Muitos evitam até usar em público o broche parlamentar.

MY PRECIOUS

Da senadora Kátia Abreu (TO), sobre a batalha judicial do PSD para conseguir o precioso tempo de televisão: “A bagagem de um político é seu tempo de TV. Sem ele, a gente não tem nada”.

PROFISSÃO DE MORTE

Foram cinco assassinados em 2011. Nesta terça (3), o radialista da rádio Sucesso em Camaçari (BA), Laércio de Sousa, foi morto a tiros por dois homens, após ameaças de morte pelo celular. A ONG Repórteres Sem Fronteiras pede urgência na investigação, contra a “impunidade”. 

TRAGÉDIA ITALIANA

Um jornal de Messina, Sicília, desvendou a tragédia da indigente brasileira Maria das Graças, 51, morta de fome e frio ao relento, na segunda (1). Baiana de Salvador, “Gal” acompanhou o marido italiano para ser pintora. Alcóolatra, teria morrido de crise diabética.

AL MARE

A Marinha comprou três barcos patrulha da inglesa BAE, por 133 milhões de libras, com transferência de tecnologia, construídos para Trinidad e Tobago, que desistiu do contrato. A BAE estava no vermelho. 

LÁ COMO CÁ

A paulista Vetec não entregará a segunda ponte só para cargas entre Foz do Iguaçu (PR) e Puerto Franco, Paraguai, prometida para julho de 2010, diz o jornal ABC Color. Lula firmou o acordo em 2008. 

FIM DA PICADA

O ex-jogador Ronaldo Nazário pegou dengue no Rio. O mosquito engordou seis quilos. 

PODER SEM PUDOR

PALOCCI FALANDO MAL DE MANTEGA


O deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical, cruzou com o ex-ministro Antônio Palocci no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Paulinho lia nos jornais que o ministro Guido Mantega (Fazenda) preparava medida provisória garfando R$ 2,2 bilhões do FAT para pagar dívidas de agricultores com multinacionais. 

– Que absurdo! – resmungou Paulinho. 

– Claro que é um absurdo, eu jamais faria isso! – concordou Palocci. 

Diante de um Paulinho cada vez mais surpreso, o ex-ministro observou: 

– E você, Paulinho, vivia pedindo minha cabeça!...

QUINTA NOS JORNAIS


- Globo: Em 2012, de novo, verba contra enchente privilegia Pernambuco
- Folha: PM promete fim do tráfico em 30 dias na cracolândia
- Estadão: SP usa estratégia de “dor e sofrimento” na cracolândia
- Valor: MP vai regular direito a uso de redes das teles
- Estado de Minas: Sobrou tempo. Faltou dinheiro
- Zero Hora: Baixo nível de barragens ameaça energia no Estado

quarta-feira, janeiro 04, 2012

De volta ao público - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 04/01/12

Dia 29 de fevereiro, a academia Estação do Corpo, na Lagoa, no Rio, baixa as portas. Em março, retira os equipamentos. Dia 2 de abril, a área, de 18.000m², será devolvida ao estado, que a repassará à prefeitura.

Prioridade de Dilma

A prioridade de Dilma, na volta das férias na Bahia, será a organização da Rio+20, a conferência mundial sobre meio ambiente marcada para junho. A presidente teme que poucos chefes de Estado venham.

Mercado em alta

A editora 3R Studio, de revistas sobre festas (“Inesquecível Casamento”, “Inesquecível Festa infantil & Teen” etc.), lança em março uma publicação destinada às uniões homoafetivas. Vai se chamar “Momentos inesquecíveis”. A capa de estreia será com Carlos Tufvesson e André Piva, que se casaram em novembro, com festa no MAM.

Lá e cá

Acredite. Só no dia 30 de dezembro, 32 brasileiros foram ao nosso consulado em Buenos Aires se queixar de furtos. Deve ser terrível... você sabe.

Acabou em samba

O bloco Lima é Tio Meu, da turma da Lapa que cultua a obra de Lima Barreto (1881-1922), decidiu “homenagear” Carlos Lupi, o ex-ministro, no carnaval. Trecho da marchinha, de Jorge Curuca: “Dilma, eu te amo/O teu esporro é meu prazer (...)/Sou teu capacho, palhaço, pelego/Não posso perder esse emprego/Doce ministério, meu Éden, meu céu/Me deixa ser teu Pimentel...”

Crônicas de música Nelson Motta, depois de nove livros pela Objetiva, aceitou proposta da Saraiva para publicar 50 crônicas sobre música, de 1966 para cá. Começa com Clementina de Jesus e chega a Marcelo D2. Lança em setembro.

O CENÁRIO DA AVENIDA Presidente Vargas lembrava um pouco, ontem, o da Champs-Élysées, em Paris. Repare na foto do leitor Carlos Henrique Vieira Damasceno. As árvores, nestes dias de início de verão, estão repletas de folhas amareladas. O gerente de Arborização da Fundação Parques e Jardins, Roberto Okabayashi, diz que a troca da folhagem deveria ter ocorrido no inverno, mas por causa das mudanças climáticas no mundo, acontece só agora. As árvores da imagem são figueiras (Ficus religiosa), originárias da Índia. Foram introduzidas na cidade pelo engenheiro e paisagista francês Auguste Marie Françoise Glaziou (1833-1906), na segunda metade do século XIX. Aliás, Okabayashi lembra que, reza a lenda, teria sido sob a copa de uma frondosa figueira que Buda recebeu sua iluminação.

País doente
Em avaliação aqui, Edmar Bacha deu 5, lembra?, a 2011. Após elogiar Dilma (“É séria e não há crise como lá fora”), o economista condenou, entre outras questões, “a saúde em frangalhos e o protecionismo de volta”. Agora, Bacha teme que os problemas prossigam este ano, a julgar pelo anúncio do ministro Alexandre Padilha de reservar 25% do mercado à indústria local de equipamentos médicos.

Para Bacha...

O governo gastará “o meu, o seu, o nosso para que seus apadrinhados produzam mais cacarecos a preços mais altos, ao invés de importar equipamentos melhores e mais baratos”.

Tragédia nas alturas

Fez um ano ontem que o escalador brasileiro Bernardo Collares, 46 anos, desapareceu no Monte Fitz Roy, na Argentina. Seu corpo jamais apareceu.

De volta para casa
Depois de 14 anos no Brasil, o padre André Hombrados, que dirigiu a Pastoral Carcerária, resolveu voltar à França. É protesto contra a decisão da Igreja de transferi-lo para uma paróquia em Xerém, na Baixada Fluminense, onde teme por sua vida.

Cartão para merenda

A partir de fevereiro, a Secretaria estadual de Educação do Rio vai usar cartão de crédito corporativo nas escolas para compra de merenda e gastos com manutenção. Quer controlar melhor as despesas. As escolas recebem cerca de R$ 350 mil por ano.

Morar no Rio

Veja como o mercado de imóveis no Rio está aquecido. O ITBI (Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis), tributo que melhor reflete a alta de preços no setor, subiu 12% em valores reais em 2011.

Leite derramado

Domingo, às 9h, a Secretaria estadual de Obras do Rio vai implodir o resto do imóvel da antiga fábrica da CCPL, em Benfica. Usará 250kg de dinamite. O local ganhará apartamentos e áreas de lazer, com praças e uma quadra poliesportiva.

A saideira

Cícero, o garçom no Nova Capela, no Rio, pendurou a bandeja. Há três anos, ensaiou uma aposentadoria, mas acabou voltando ao batente na Lapa. O cearense, um dos mais queridos garçons da cidade, planeja abrir um bar em São Gonçalo, onde mora. Que seja feliz.

Dilemas do Estado - ODEMIRO FONSECA

O GLOBO - 04/01/12

Em 2006, no seminário Chile Sec. 21, a então presidente Bachelet foi clara: "Nossa resposta ao desafio do moderno estado social de direito é um sistema de proteção social, retomando nossa matriz histórica estatal, que proteja não somente os mais necessitados, mas enfrente as inseguranças da sociedade moderna."

Portugal mergulhou no conceito de estado segurador, que chamou de estado social. Desde a Revolução dos Cravos, a arrecadação subiu muito, mas abaixo dos gastos públicos (gastos públicos/PIB: 1974=20%; 2010=48%). O déficit publico se tornou crônico (déficit em todos os últimos 25 anos, em média 5% do PIB) e a divida pública explodiu (dívida pública/PIB: 1974=14%; 2010=95%). A poupança decresceu (poupança familiar/PIB: 1974=22%; 2010=4%) e o dinamismo econômico sumiu. O desemprego dos jovens atingiu 20%. O funcionalismo público foi quadruplicado em 25 anos. São 800 mil para população de 10,7 milhões. Estado segurador vira estado gastador rápido.

Portugal teve um empurrão econômico com as exigências privatizantes da UE e muitos subsídios externos - alguns deles risíveis. Mas em 2011 ficou insolvente e foi para o pronto-socorro. A sobrevivência depende de novo regime fiscal e de aceitar que não vai dar para pagar todos os compromissos do estado segurador. O dilema é em quem dar o cano.

O Brasil também se encantou com o estado segurador. Muitos números já são parecidos. O governo aqui já gasta mais de 40% do PIB. Somente com aposentadoria e saúde de idosos são uns 15% do PIB. Os déficits públicos são crônicos. A poupança doméstica, principalmente a pública, é diminuta; crescemos com poupança externa. A dívida pública já passou de 55% do PIB. Tivemos empurrões econômicos com privatizações e reformas, mas estas secaram desde 2005. Ainda vivemos de exportações primárias: não dá para contar com crescimento sustentado.

O Brasil está ainda numa fase boa, crescendo e com desemprego baixo. Mas precisa de reformas (trabalhista, previdenciária, educacional), privatizações, mais PPPs, investimentos privados em infraestrutura. E sistema regulador mais simples, para melhorar o ambiente empreendedor. Precisa também de um ajuste fiscal, para não parecer Portugal em mais seis anos. Krugman nos lembra que Keynes ensinou ser esta a hora boa para um ajuste fiscal. É impossível discordar de Keynes, ele só não ensinou como botar tal guizo no pescoço dos políticos. Mas com despesas públicas crescendo menos que receitas e receitas crescendo menos que o PIB, não se corta nada de ninguém. É politicamente palatável. Muitos países já fizeram esta trilha, sem "austeridade selvagem".

Não existe pronto-socorro para o Brasil, que não é os EUA, país que não tem problema de se financiar por ser o menor risco do mundo. Se o Brasil entrar numa crise fiscal o ajuste será na marra - selvagem e iníquo - quem vai pagar são os pobres. Vamos provar ser Keynes irrelevante.

Pacote não é política - ROLF KUNTZ

O ESTADÃO - 04/01/12

Subdesenvolvimento não se improvisa, escreveu Nelson Rodrigues, mas a improvisação repetida, pode-se acrescentar, é com certeza um entrave ao desenvolvimento. Depois da colcha de retalhos apresentada ao País como Plano Brasil Maior, o governo agora promete um pacote de incentivos à exportação de manufaturados. Age como se as dificuldades da indústria no comércio internacional fossem conjunturais. Não são, e nenhum empresário, analista ou funcionário envolvido direta ou indiretamente no assunto deveria desconhecer ou menosprezar esse fato.

Pelo quarto ano consecutivo a venda de manufaturados ficou abaixo de 50% do valor total exportado e pela segunda vez foi inferior a 40% (39,4% em 2010 e 36,1% em 2011). Isso não se explica somente pela valorização das commodities e também esse fato não é segredo.

Pacotes e medidas provisórias podem ser bons para emergências. Justificam-se pela urgência e pela relevância, principalmente quando é preciso enfrentar problemas inesperados ou dificilmente previsíveis. Objetivos permanentes e de longo prazo, como a expansão e a modernização da economia, a criação de empregos de alta qualidade e a ocupação de espaços no mercado global, são alcançados por meio de políticas, e não de arranjos e remendos.

O cenário muito ruim traçado para 2012 pode ser uma novidade. O Banco Central (BC) incorporou-a em sua estratégia ao iniciar o corte dos juros no fim de agosto. O Executivo levou em conta esse mesmo quadro ao esboçar o roteiro para este ano. Mas não há surpresa nos tropeços da indústria em 2011, nem nas perspectivas de um desempenho medíocre em 2012.

Em 1991, a exportação de produtos manufaturados proporcionou 56,4% da receita comercial. Nos dois anos seguintes a participação subiu para 60,1% e 61,1%, os dois níveis mais altos dos últimos 20 anos. Entre 1994 e 2007 a média foi 55,7%. Caiu para 46,8% e 44% em 2008 e 2009 e a partir daí escorregou para menos de 40%.

A queda na participação porcentual poderia ser apenas um reflexo do grande aumento da receita obtida com as commodities, mas não foi essa a história. No ano passado, o Brasil faturou US$ 92,3 bilhões com a exportação de manufaturados, 0,4% menos que em 2008 e apenas 10% mais que em 2007 - um aumento inexpressivo para um período de quatro anos. O crescimento de 16% em relação ao resultado de 2010 pouco significa, porque nem serviu para repetir a receita de 2008. Isso é estagnação, ou talvez a palavra mais adequada seja retrocesso.

Mesmo na América do Sul, onde o exportador brasileiro de manufaturados praticamente joga em casa, o desempenho tem sido fraquinho. Excluído o Mercosul, as vendas de manufaturados para a região chegaram a US$ 10,2 bilhões em 2006, US$ 11,2 bilhões em 2007, US$ 12,5 bilhões em 2008, US$ 8,6 bilhões em 2009 e US$ 10,6 bilhões em 2010 - pouco mais que o resultado de quatro anos antes. De janeiro a novembro de 2011 - última discriminação divulgada pelo governo - chegou-se a US$ 10,7 bilhões. Dificilmente se terá repetido ou superado o valor de 2007.

A maior parte dos mercados sul-americanos atravessou sem grandes problemas a crise internacional dos últimos anos. Outros exportadores, obviamente, ocuparam espaços. A China pode ter liderado o movimento, mas outros competidores certamente avançaram na região. As dificuldades para os brasileiros poderão aumentar muito, nos próximos anos, com a implantação do acordo de livre comércio anunciado pelos governos de Chile, Peru, Colômbia e México - mais um passo para a integração das economias sul-americanas, excluído o Mercosul - com a América do Norte. Algumas dessas economias já têm acordos com os Estados Unidos e fortes vínculos com potências da Ásia.

Não tem sentido separar, no Brasil, as políticas industrial e de comércio exterior. A indústria brasileira tem sido prejudicada, há muitos anos, tanto pelo amplo conjunto de ineficiências da economia nacional - não é preciso repetir a lista - quanto pelas desvantagens de acesso aos mercados mais importantes. Essas desvantagens vêm sendo agravadas pelos acordos comerciais de parceiros importantes, como os sul-americanos, com a América do Norte e a Europa.

Se pacote resolvesse problemas dessa magnitude, a indústria brasileira teria tido um desempenho comercial muito melhor nos últimos anos, porque pacotinhos e remendos não faltaram. É hora de começar a pensar seriamente no assunto e de substituir o blá-blá-blá do planejamento por planejamento de verdade. Política de modernização e produtividade se faz numa porção de frentes - educação, tecnologia, infraestrutura, tributação, diplomacia econômica, e assim por diante. O resto é piada.

Quem controla as cigarras - MARTA ARRETCHE

VALOR ECONÔMICO - 04/01/12

Dez entre dez analistas afirmam que o controle sobre as finanças dos Estados-membros é condição necessária para salvar a Europa. Esta unanimidade não deixa de ser curiosa, pois há grande divergência sobre as causas do excessivo endividamento e, mais ainda, sobre as políticas emergenciais.

Os governantes europeus parecem fracos para tomar as medidas domésticas necessárias à saída da crise. Há quem diga que o problema é de falta de lideranças. Faltariam às democracias modernas líderes como Churchill, capazes de obter o sacrifício de seus cidadãos sob circunstâncias adversas. Churchill, contudo, foi fragorosamente derrotado nas eleições de 1945!

Políticas de ajuste fiscal impõem perdas aos eleitores. Logo, têm grandes chances de levar a derrotas eleitorais. Daí decorre a solução de montar governos "técnicos" ou de coalizão nacional, na tentativa de proteger os Ulysses europeus do (en)canto das urnas.

No plano doméstico, os governos tentam evitar a punição de seus eleitores. No plano europeu, o problema é evitar que medidas para salvar os endividados hoje gerem incentivos para mais endividamento amanhã. Está clara a razão do impasse!

A história é conhecida no Brasil. Até meados da década de 90, os governos estaduais tinham grande margem para captar recursos. Podiam comportar-se como cigarras ou formigas. Os governadores jogavam suas dívidas no colo da União à proximidade do inverno, contando com o fato de que, se deixados à própria sorte, exporiam todos ao risco da escassez.

Para que a União socorresse as cigarras, barganhas políticas entre governadores e presidentes nem seriam necessárias. Não se tratava de fraqueza de vontade ou da necessidade do presidente obter apoio parlamentar. Bastava o presidente reconhecer que poderia ser responsabilizado pela escassez geral na eleição seguinte. Por isto, a saída recorrente era a União assumir a dívida dos estados. Os bancos, por sua vez, continuavam a emprestar para governos sabidamente inadimplentes, a juros cada vez mais altos, pois contavam com o socorro da União, embora cada socorro fosse apresentado como o derradeiro. Esopo ficaria desolado: eram as cigarras que davam lições às formigas!

Como pôde o Brasil sair deste impasse? E por que uma solução parece longínqua para a Europa? Resposta intuitiva, porém incompleta, é de que a Europa é uma união de países independentes ao passo que o Brasil é um Estado-nação.

A principal diferença, na verdade, remete ao dilema de todos os sistemas de governo. Diz respeito à autoridade do centro. O problema institucional europeu é ser governado por um centro politicamente constrangido. A Alemanha enfrenta problema semelhante pelas mesmas razões. Por isto, os Länder são as maiores cigarras dentre os governos regionais da Europa e o governo federal alemão é frequentemente chamado a socorrê-los.

No Brasil, as instituições que permitiram ao presidente Fernando Henrique Cardoso aprovar a Lei de Responsabilidade Fiscal são as mesmas que permitiram ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva incorporar 12 milhões de famílias ao Bolsa Família no prazo recorde de um ano. A Constituição de 1988 autorizou a União a legislar em qualquer área de política pública, em particular naquelas cuja execução está sob responsabilidade de Estados e municípios. Os constituintes deram continuidade a um modelo de Estado cujas origens datam dos anos 30, que combina ampla autoridade jurisdicional à União com limitadas oportunidades de veto aos governos subnacionais.

Nem sequer uma emenda constitucional foi necessária para aprovar a Lei de Responsabilidade Fiscal e o Bolsa Família. Bastou aos presidentes fazer uso de recursos deixados à sua disposição pela Carta.

A Lei de Responsabilidade Fiscal está baseada nos artigos que conferem ao governo central autoridade sobre as finanças dos governos subnacionais. O Bolsa Família foi iniciado por medida provisória e aprovado como lei ordinária.

Na (con)federação europeia, as instituições centrais têm muito limitada autoridade para legislar sobre as finanças públicas e as políticas sociais dos estados-membros. Em seu desenho atual, iniciativas nesta direção podem ser facilmente vetadas por uma minoria em um referendo, na volta da padaria com os pães do café da manhã de domingo.

Nossos presidentes enfrentaram resistência para implantar aquelas medidas, a despeito de seus incontestes benefícios gerais. Governadores postumamente descritos como grandes estadistas resistiram às medidas de FHC para tirá-los da confortável condição de cigarras. Lula teve de contornar a resistência de governadores e prefeitos a colaborar com uma iniciativa que traria dividendos políticos ao presidente. As limitadas possibilidades de veto dos governos subnacionais permitiram a aprovação e implementação das medidas. Em ambos os casos, restou aos derrotados a estratégia de buscar dividir os louros da vitória.

Os dirigentes europeus não contam com esta fortuna, o que lhes exige doses muito superiores de virtude. A Europa de hoje é vítima do sucesso da Europa de ontem. Exportou para o resto do mundo o modelo do Estado-nação e dos Estados de bem-estar. As identidades construídas a partir deles estão na raiz da resistência ao alargamento da autoridade legislativa da União. Por isto, a solução do impasse europeu parece tão longínqua. Ela requer substanciais mudanças institucionais para fortalecer a União. Faltou combinar as decisões de 9 de dezembro, largamente festejadas, com os parlamentos e os eleitores. Perdoem-me o plágio: estas decisões não trarão paz definitiva para a Europa!

Marta Arretche é professora livre-docente de ciência política na USP, diretora do Centro de Estudos da Metrópole e colunista convidada do "Valor"

Missão impossível - MARTHA MEDEIROS


ZERO HORA - 04/01/12
No mais novo e divertido filme da série Missão Impossível, Tom Cruise costura, chuleia e prega botão no trânsito de Dubai. Faz ultrapassagens miraculosas, tira finos, quase atropela uma cáfila de camelos, detona com um Jaguar e sai ileso feito o Papa-Léguas. A plateia delira: eis um valente super-herói.

Aí o filme termina, as luzes se acendem e cada um volta pra sua vidinha sem efeito especial, em seu carro meia-boca e sabendo-se longe de ser um ás em qualquer coisa. Somos homens e mulheres comuns, nem tão belos e com uma profissão pouco empolgante. O que poderíamos ter de semelhante com um personagem tão incrivelmente cartunesco? Ora, ora, também podemos ter inimigos! Então, elegemos os outros motoristas como nossos opositores e assim transformamos a vidinha modorrenta num videogame.

Assim perdura nosso complexo de vira-lata. Quanto mais o cara acelera, faz ultrapassagens arriscadas e tem pressa em chegar antes que o motorista de trás, mais ele atesta sua infantilidade, sua inferioridade e seu despreparo para uma vida consciente e adulta. São babacas que possuem uma visão completamente deturpada de si mesmos. Contraditórios, eles se orgulham por beber, por não usar cinto e por dirigir agressivamente, sem se dar conta de que estão demonstrando o quanto são de segunda categoria.

O que importa é conhecer os truques para voar pelas estradas, sair sem um arranhão e ainda seduzir a garota mais bonita – que é outra babaca se aguenta tudo isso quieta.

Nossas estradas não são o bicho, a sinalização é deficiente, mas nada é de pior qualidade que nossos motoristas. São homens (e algumas mulheres também) impotentes para avançar em suas profissões, impotentes para ultrapassar a concorrência com uma ideia mais criativa, impotentes para conquistar o respeito da sua turma, impotentes para educar os filhos com responsabilidade, e por isso recorrem a malabarismos e palhaçadas no asfalto.

Usam o carro como um meio de transporte não de um lugar para o outro, mas de um status para o outro – só que são promovidos a delinquentes, não a agentes secretos.

Para eles, inimigos são os que obedecem às leis, os que têm cautela quando chove, os que reduzem em curvas perigosas e “atrapalham” os velozes. Será missão impossível reajustar esse foco? A guerra no trânsito só terá menos vítimas quando motoristas imaturos tiverem amor próprio suficiente para não precisarem se exibir. Ninguém se torna mais admirável por chegar primeiro, por arriscar a vida e protagonizar cenas dignas de um filme de ação.

Esses continuarão menores que Tom Cruise (que já é pequeno) e sendo meros figurantes de uma viagem que exige bravura, sim, mas de outro tipo. A bravura de proteger sua família, de não enxergar os outros como rivais e de ter habilidade para dirigir a própria vida – que exige bem mais que um volante e um acelerador: exige cérebro.

Meninos de 18 anos, meninos de 42, meninos de 67: dirijam com prudência se forem homens.
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GOSTOSA


Antenada - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 04/01/12


Apesar de estar de férias na Bahia, a presidente Dilma está lendo jornais e ligando para seus ministros, que também estão de recesso. A ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) interrompeu seu descanso ontem por causa das chuvas. Ela se reuniu com o secretário de Desenvolvimento Regional, Sergio de Castro, que está de interino. O titular, ministro Fernando Bezerra Coelho, ainda não tinha voltado. Ele pretendia ficar de férias até 6 de janeiro, mas foi convocado.

Gargalo nos aeroportos
De volta ao batente, a ministra da Casa Civil também convocou reunião para apurar o caos aéreo, principalmente no Rio e em Brasília, anteontem, na volta do feriado. Ela se reuniu com o ministro Wagner Bittencourt (Aviação Civil) e está cobrando explicações da Infraero e das companhias aéreas. Essa é uma das principais preocupações do governo, tendo em vista a Copa do Mundo de 2014. A situação tem sido monitorada por Gleisi, que também está cuidando das concessões dos aeroportos de Brasília, Guarulhos e Viracopos. Anteontem, de 2.339 voos até as 19h, 560 atrasaram (23,9%) e 146 foram cancelados (6,2%).

"Somos protagonistas, não somos atores periféricos” — Marcus Pestana, presidente do PSDB de Minas, defendendo a reedição da aliança com o PT em Belo Horizonte, mas descartando que ela seja informal

CORRENDO ATRÁS DO PREJUÍZO. A morte da diplomata Milena de Medeiros, que voltou de Guiné Equatorial, na África, com malária, fez com que o ministro Celso Amorim (Defesa) pedisse ao Hospital das Forças Armadas, em Brasília, que ele passe a dar assistência aos funcionários que voltam dessas regiões. O diretor do hospital, brigadeiro médico José Maria Lins Calheiros, vai providenciar exames laboratoriais e assistência tão logo esses servidores retornem de suas missões no exterior.

Veneno
Integrantes do PSB dizem que o Ministério da Ciência e Tecnologia seria pouco para Ciro Gomes. Lembram que ele queria o Ministério da Saúde quando a presidente Dilma assumiu. Sem cargo público, Ciro está vivendo de palestras.

A meta
A direção do PMDB está fazendo um levantamento nacional das alianças e candidaturas próprias a prefeito nas eleições municipais. O partido, que controla hoje cerca de 1.210 cidades, pretende chegar aos 1.500 prefeitos neste ano.

Eduardo Campos já tem candidato
Os petistas ainda não sabem quem será seu candidato à prefeitura de Recife, onde o atual prefeito, João da Costa (PT), quer disputar a reeleição. Mas o governador Eduardo Campos (PSB) já mandou vários recados ao partido aliado dizendo que, para manter a prefeitura, ele só vê dois nomes no partido: o líder do PT no Senado e ex-ministro Humberto Costa, e o seu secretário de Governo, o deputado federal Maurício Rands (PT).

Diplomacia
O líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira (SP), vai à África do Sul participar do Congresso do CNA, cujo lema é “Unidade na Diversidade”. O partido, que governa aquele país desde o fim do apartheid, completa cem anos no domingo.

Segundo escalão
Se a presidente Dilma mantiver o ministro Mário Negromonte (Cidades) no cargo, o PP quer que ele substitua o secretário de Mobilidade, Luiz Carlos Bueno de Lima. Querem um nome com mais vínculos com a bancada da Câmara.

PIVÔ do escândalo dos atos secretos do Senado, o ex-diretor da Casa Agaciel Maia, agora deputado distrital, foi relator-geral do Orçamento do Distrito Federal para este ano.

O DEM do Rio Grande do Norte está sendo disputado pelos candidatos à prefeitura de Natal do PMDB, deputado estadual Hermano Morais, e do PSDB, deputado federal Rogério Marinho.

A ASSESSORIA da Presidência da República diz: “Ciro Gomes não é um problema para 2014. A presidente Dilma o considera um companheiro de governo”.

Ano novo, velhos hábitos - ROBERTO DaMATTA


O Globo - 04/01/12



Chega o Ano Novo, mas os nossos grandes problemas estão nos velhos hábitos situados naquela zona malandra centrada entre o estado (essa milionária máquina gerencial pública com suas regras opostas ao bom-senso) e a sociedade. Nós, os cidadãos comuns que não recebemos milionários auxílios-residência, não temos licença-prêmio ou atrasados a receber e nem fomos eleitos para algum cargo público com o propósito de usá-lo para virarmos nobres e, melhor que isso, ficarmos fora do alcance da lei. Nós, os comuns, não temos emprego - temos impostos e trabalho!

Entramos o Ano Novo com o Poder Judiciário em crise. Quem julga os juízes numa terra onde tudo tem lei, mas os "bandidos" (eis uma categoria cada vez mais ampla) continuam leves, livres e soltos? A Lei da Ficha Limpa foi adiada e bloqueada, o mensalão pode ser devidamente engavetado. Há, pasmem, uma lei da palmada! E o Poder Executivo faz sinal de faxina e chama falcatruas de malfeitos, enquanto a foto de Daniel, filhinho do senador ficha-suja Jader Barbalho - empossado com o ritual que aristocratiza os eleitos - fazendo o antigo sinal que nos chama de otários, é o melhor símbolo deste 2011 que findou.

Entrementes, o capitalismo vai mal. Mas a nossa economia cresce e ultrapassamos o Reino Unido. Aqui há clareza. Sabemos quem vai mal ou bem. O diabólico mercado pune os bandidos e dá um pontapé chapliniano na bunda dos hiperespeculadores. Quando não promove cadeia e uma nova consciência social nos Estados Unidos. Hoje, sabemos que o maior inimigo do capitalismo não é a classe operária, mas os gênios de Wall Street e do Silicon Valley que inventam bolhas de dinheiro fácil e superprogramas de comunicação enquanto seus usuários não têm nada pra dizer.

Mas, como compensação positiva, entramos o ano com uma intolerância maior para a bem estabelecida desigualdade dos poderosos (localizados no estado) e a igualdade devida a cada um de nós como cidadãos efetivamente republicanos. Desse aspecto, ninguém mais do que imprensa tem atuado com eficiência e equilíbrio. Pois é ela quem tem mostrado como é importante, numa sociedade igualitária, separar o que deve ter limites do mandonismo ilimitado.

Aqui, destaca-se a discussão implícita, mas em curso, do que é, de fato, servir ao governo. Não foram poucas as vezes que perguntamos aos responsáveis pela máquina pública se, afinal de contas, os mais "altos funcionários públicos" trabalham para si mesmos - como manda a ética do "corporativismo" brasileiro que, no fundo, é uma ação entre amigos com o consentimento legal do estado - ou se eles trabalham para o Brasil. Neste caso, é preciso tomar consciência que quando um sujeito vira ministro ele não tem mais vida privada quando se trata - obviamente - de consultorias e outros trabalhos que configuram conflito de interesse. Nesse ponto eu me pergunto se não precisamos de uma psicanálise coletiva.

Na entrada de um Ano Novo, vale uma pausa para pensar se vamos continuar assistindo à riqueza de todos ser desperdiçada ou seguir para o bolso de nossa aristocracia governamental e dos seus apaniguados. Esses "altos funcionários" que tudo sabem, tudo decidem e - aí está a chave no negócio - tomam um copo de vinho com quem comanda essa incrível máquina de produzir dinheiro sem aparentemente dar prejuízos a ninguém porque é um aparelho isento de responsabilidade. Máquina montada por uma elite escravista que realizou uma brutal internalização do seu espírito hierárquico e patrimonialista em todo o sistema. Esse espírito que até hoje nos isenta de culpa pelo que somos e pelo enorme descaso relativamente aos nossos próximos desiguais.

A igualdade cívica é um ideal. E, no entanto, a desigualdade é, no Brasil, não apenas um fato histórico capital, mas é também - apesar de alguns esforços - um valor. Temos altos funcionários e representantes do povo que são intocáveis. Suspenda-se por um momento a norma da hierarquia, instituindo uma corregedoria atuante em nível nacional, e temos uma crise no Judiciário que decorre da igualdade. Onde há igualdade, há conflito e, como consequência, ausência de bom-senso na sua resolução. O "engavetamento" e a "prescrição", esses gêmeos do nosso DNA legalístico forjado em Coimbra, conforme aprendi com José Murilo de Carvalho, são o modo (ou o "jeitinho") de mostrar quem fala mais alto.

Em 2011 voltamos a ser atrapalhados não apenas pela economia, onde perdas e danos sempre existem e são - eis o ponto - relativamente impessoais, mas pelo estado. Um estado que continua personalizado e aristocratizante, insensível à racionalidade num mundo claramente preocupado com a suficiência e com a sustentabilidade.

Registro, com um pesar indizível, a morte de Daniel Piza, que lia e admirava. Envio a todos os seus próximos um meu abraço solidário. Ninguém deve morrer aos 41 anos. Mas assim corre o mundo e agora cabe a cada um de nós honrar a sua busca, o seu amor aos livros, a sua inteligência e a sua honestidade.

O fim de (quase) tudo - ANTONIO PRATA

FOLHA DE SP - 04/01/12

Ficamos pensando na bola de fogo consumindo o Everest, a Teodoro Sampaio e os casais apaixonados


Na manhã do dia 1º, meu amigo me liga, deprimido:

-Você sabia que o mundo vai acabar?

Penso tratar-se de uma dessas bobagens que misturam calendário Maia com filme-tragédia e começo a desancar o marketing hollywoodiano, mas meu amigo explica que não é nada disso. Viu num documentário que a Terra acabará daqui uns bilhões de anos, quando o sol, tendo esgotado seu combustível, dará um último suspiro, transformando-se numa gigante vermelha e engolindo nosso simpático planeta. Ficamos um tempo em silêncio, os dois pensando nesta bela e terrível imagem: a bola de fogo consumindo o Everest, a Teodoro Sampaio, os avestruzes, os casais apaixonados, as usinas nucleares e as fronhas nos varais.

-Olha, não chega a ser exatamente um consolo, mas daqui uns bilhões de anos nem eu nem você vamos mais estar por aí...

-Eu sei, mas eu achava que a humanidade ia continuar. Que o teto da Capela Sistina, as gravações do Cartola, os poemas do Walt Whitman e os peitos da Claudia Cardinale em "Era uma Vez no Oeste" ficariam pra sempre, só que tudo vai desaparecer... Isso não te angustia?!

-Não quero parecer muito egoísta, mas o que vai ser das pinceladas do Michelangelo depois que eu bater as botas não tá entre as minhas maiores preocupações.

-Pois tá entre as minhas. Antes, eu achava que o mundo era eterno e que se eu escrevesse um livro muito bom [meu amigo é poeta], esse livro ia se juntar a todas essas coisas que permanecem. Mesmo que ficasse no fundo de uma biblioteca, numa estante perdida entre um zilhão de estantes, ia estar lá: minha pequena colaboração para a humanidade. Você nunca quis produzir algo que sobrevivesse a você?

-Sinceramente? Concordo com o Woody Allen, quando disse que não queria atingir a imortalidade através da sua obra, preferia atingi-la simplesmente não morrendo. Uma vez cadáver, que diferença faz ser ilustre ou desconhecido? Ruim mesmo é nunca mais comer um frango a passarinho, é ou não é?

Meu amigo não responde. Parece um tanto decepcionado com a minha insensibilidade. Procurou um ombro fraterno para chorar a transformação de toda a poesia em poeira cósmica e eu venho com essa de frango a passarinho? Lembro, então, de algo que li num livro e que pode melhorar a situação:

-Calma! Nem tudo vai acabar: mesmo depois do fim da Terra, as ondas de rádio que emitimos continuarão se propagando por aí.

-Quer dizer que das obras completas da humanidade vai sobrar só o conteúdo das AMs e FMs?!

Percebo minha gafe, mas é tarde. Meu amigo se desespera. Shakespeare virará pó, mas a voz de Justin Bieber, agora mesmo, viaja pela Via Láctea; e se em algum canto houver vida inteligente -e a vida inteligente tiver construído um radinho-, o legado de nossa passagem pelo cosmos ressoará, eternamente: "Baby, baby, baby oooh/ baby, baby, baby oooh/ baby, baby, baby oooh". Realmente, não faltam motivos para se deprimir.

Dívidas que vencem - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 04/01/12


O problema das dívidas dos países que vencem este ano não é tão grande quanto parece, mas é suficientemente grave. Ontem, a Bloomberg chegou ao número assustador de US$ 7,6 trilhões vencendo em 2012; isso é mais do que uma China. Parece uma grande encrenca. Mas o importante não é o tamanho da dívida e sim a capacidade de pagar. O Japão é o maior devedor, mas não tira o sono de ninguém.

Do total, US$ 3 trilhões são títulos que terão que ser pagos ou rolados pelo Japão. O país tem a maior dívida do mundo em relação ao PIB há muitos anos e sempre conseguiu financiá-la a um custo muito baixo, às vezes até negativo. Tem uma enorme capacidade de poupança e seus maiores credores são os próprios japoneses.

A segunda maior conta que bate este ano é a dos títulos americanos, aqueles para os quais os investidores correm em momento de insegurança. Os US$ 2,6 trilhões que vencem este ano serão facilmente rolados. A ansiedade que houve no ano passado foi criada pelo impasse político que impedia a elevação do teto da dívida. A paralisia decisória continua sendo a grande dificuldade dos Estados Unidos.

Outro país que terá um grande vencimento é a Alemanha - US$ 285 bilhões - mas também sobre ela não há dúvida sobre a capacidade de pagamento. A Alemanha está no centro da crise por ser a economia mais poderosa num continente em convulsão, mas tem enorme capacidade de pagamento. O país tem tido dados positivos, destoantes dos de outros países da área. Ontem, saiu a taxa de desemprego de 6,8%, a mais baixa desde 1991. No mesmo dia, na outra ponta da crise europeia, a Espanha chegou ao inacreditável índice de 22% de desemprego.

A China entrou na conta da Bloomberg porque tem US$ 121 bilhões vencendo, mas sinceramente ninguém pensa que o país não possa pagar esse valor, montada como a China está em US$ 3,2 trilhões de reservas cambiais. O Brasil teria por essa conta US$ 169 bi vencendo no ano. Tem mais do que o dobro disso de reservas cambiais. Se houver mais escassez de oferta de crédito, como ocorreu em 2008, os juros ficarão mais caros. Nesse contexto, o Brasil terá problemas que poderá enfrentar com as mesmas armas de 2008, quando o BC irrigou o mercado usando em parte as reservas.

Noves fora os que podem se financiar, sobram os grandes problemas e o maior deles é da Itália. Há outras encrencas graves como Grécia e Espanha. O que cria instabilidade não é o volume da dívida vencendo, mas a confiança na capacidade de o país honrar seus compromissos, ou equilibrar suas contas em algum dia no futuro. Se há dúvidas de que o país cumprirá suas metas - e ontem a Espanha disse que não cumprirá - isso significa que a dívida será realimentada pelo déficit e continuará crescendo. A tendência é a de os bancos pediram uma taxa maior para rolar as dívidas e neste contexto vai se formando um círculo vicioso. Quanto maior a desconfiança, maior será a taxa de juros cobrada pelos investidores. Quanto mais elevada for a taxa, mais dificuldade o país terá de pagar e portanto maior a desconfiança dos bancos credores.

As contas feitas pela Consultoria Tendências mostram dados um pouco diferentes dos da Bloomberg, e estão em euros, mas pode-se conferir no gráfico abaixo que há problemas graves nas dívidas de alguns países europeus. A Itália tem a maior concentração de vencimentos no primeiro trimestre - C130,6 bilhões - o que significa dizer que está entrando no ano com dificuldades. A França também tem uma concentração de títulos a serem renegociados, ou refinanciados, no primeiro trimestre. São C 124 bilhões. A eleição presidencial na França adicionará um grau a mais de incerteza nesse quadro.

Outra forma de olhar os dados é comparando com seu PIB. A Alemanha que não tem problema grave de rolagem de dívida tem títulos vencendo que representam 9% do seu PIB; a Grécia, sobre a qual há muitas dúvidas sobre a capacidade de o país honrar seus compromissos, tem dívida vencendo em 2012 equivalente a 27% de sua economia. A Itália terá que resgatar ou rolar um quarto do seu PIB.

Ontem, a Grécia falou o que todos vinham pensando mas não tinham coragem de falar. Admitiu que pode sair da Zona do Euro. O problema das dívidas soberanas continua grave, mas o número de US$ 7,6 trilhões de vencimentos em 2012 faz com que ele pareça ainda maior.

Duplo papel - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 04/01/12

Num ano eleitoral, com o julgamento político mais importante da História recente do país, o Supremo Tribunal Federal (STF) será o centro das atenções a partir de sua volta aos trabalhos em fevereiro. Suas decisões terão necessariamente consequências políticas, seja qual for o resultado do julgamento.

O Supremo terá o duplo papel de julgar e ser julgado pela opinião pública. Nada poderia ser mais prejudicial aos interesses dos “mensaleiros” do que a polêmica em torno do Conselho Nacional deJustiça (CNJ).

A opinião pública estará com sua atenção voltada para o posicionamento do plenário do Supremo em relação à liminar que o ministro Marco Aurélio Mello concedeu nos últimos momentos do ano, quando oJudiciário entrava em recesso, congelando as ações do CNJ.

Outra liminar, esta do ministro Ricardo Lewandowski, suspendeu uma investigação no Tribunal de Justiça de SãoPaulo sobre possíveis pagamentos abusivos.

As medidas foram entendidas pela opinião pública como ações corporativas, e a corregedora do CNJ, ministra Eliana Calmon, transformou-se em heroína popular, um Dom Quixote de saias a lutar contra os gigantescos interesses corporativos do Judiciário.

Mesmo que tenha errado no tom quando iniciou o embate, ao afirmar que havia “bandidos togados”, a ministra cometeu no máximo uma inconveniência verbal, não uma inverdade.

Seu papel de combate ao corporativismo, que alimenta a impunidade dos frequentes “malfeitos” registrados nos diversos níveis do sistema judiciário, tem sido a melhor tradução do espírito que criou o Conselho Nacional de Justiça.

O CNJ não foi criado como um órgão revisor e tem amplos poderes para receber denúncias contra juízes, mesmo diretamente, sem a necessidade de que a reclamação passe pelos tribunais locais.

Os poderes são tão amplos que ele pode agir por conta própria e vinha investigando casos de corrupção na magistratura sem a necessidade de aguardar uma decisão do tribunal local.

Invertendo a judicialização da política, o senador Demóstenes Torres (DEM) apresentou emenda constitucional que garante ao CNJ o direito de julgar e punir juízes.

Na verdade, essa emenda remete ao espírito da lei que criou o CNJ e seria dispensável se não fosse a reação corporativa que levou a Associação dos Magistrados do Brasil a entrar com ação no Supremo contra o conselho.

O plenário, portanto, terá o papel fundamental de definir para a opinião pública qual é o papel do CNJ e, por consequência, qual o seu próprio papel na estrutura de poder brasileiro: se vai ficar protegendo seus interesses corporativos ou está a serviço da sociedade.

Há um movimento nos bastidores do Supremo para que se chegue a uma difícil solução, que não sacrifique a atuação do CNJ, mas atenda as associações de magistrados, que, refletindo o sentimento da classe, se sentem expostas ao que consideram arbítrio da Corregedoria do CNJ.

A posição do pleno do Supremo a respeito do papel do CNJ terá uma relação direta com o outro julgamento, o do mensalão.

Se levarmos em conta o comentário do ministro Ricardo Lewandowski, flagrado falando ao telefone celular com seu irmão depois do julgamento em que os 40 do mensalão foram indiciados, temos que admitir que essa correlação existe.

A pressão da opinião pública, que já se faz sentir nessa disputa com o CNJ a ponto de o plenário não ter julgado a questão por “falta de clima”, conforme explicação não oficial, estará mais uma vez voltada para o Supremo.

Se satisfeita com a decisão sobre o CNJ, a opinião pública transferirá para o STF a esperança de que se faça justiça no julgamento do mensalão.

Se, ao contrário, considerar que o plenário do STF atendeu mais aos interesses da classe do que aos da sociedade, a metafórica “faca no pescoço” a que o ministro Lewandowski atribuiu o indiciamento do exministro José Dirceu como “chefe da quadrilha” poderá voltar a funcionar.

É claro que os ministros do Supremo têm que se ater ao que está nos autos, mas têm também que observar o que a sociedade espera da Justiça.

Quando o mesmo ministro Lewandowski deu uma entrevista recentemente dizendo que alguns dos crimes do mensalão prescreveriam porque não haveria tempo para julgálos ainda em 2012, houve uma reação negativa da opinião pública, e alguns de seus colegas se viram na obrigação de estranhar as declarações.

O próprio ministro Joaquim Barbosa, relator do processo, entregou no dia seguinte seu voto, que, na opinião de muitos, já estava atrasado, para não ser acusado de estar postergando o julgamento.

Lewandowski, que é o revisor do voto, alegou também que teria que começar do zero a leitura do processo, e foi desautorizado por Barbosa, que revelou que o processo já estava digitalizado e acessível a todos os ministros há bastante tempo.

Esse fato certamente ajudará a nova ministra do Supremo Rosa Maria Weber, que tomou posse a 19 de dezembro.

Se ela aproveitar o recesso para começar a leitura do processo, provavelmente não terá necessidade de pedir vistas
quando o julgamento começar, talvez em maio.

Se pedir vistas, terá três meses para a leitura, o que atrasará mais ainda o julgamento, colaborando para a possibilidade de prescrição de alguns crimes, como o de organização de quadrilha, caso os acusados sejam condenados a penas de até dois anos.

Os advogados de defesa estariam contando tanto com o pedido de vistas da ministra Rosa Maria quanto com a aposentadoria de dois ministros ainda este ano: o atual presidente do Supremo, Cezar Peluso, e o futuro, Ayres Britto, farão 70 anos provavelmente no decorrer do julgamento, e, se tiverem de ser substituídos, haverá um atraso que beneficiará a maioria dos acusados com a prescrição das penas.

Há no Congresso uma emenda constitucional que prorroga para 75 anos a aposentadoria compulsória dos funcionários públicos.

Embora faça todo o sentido essa prorrogação, pois a idade de 70 anos foi fixada quando a expectativa de vida do brasileiro era bem menor, o PT certamente mobilizará a base governista para não a aprovar, para beneficiar os acusados com o atraso do julgamento.

A tesoura de Marshall - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 04/01/12
Parece haver um paradoxo no mercado de trabalho: a geração líquida de empregos formais (já ajustada pelo padrão sazonal) nitidamente desacelerou no segundo semestre de 2011, vindo de 160-170 mil postos de trabalho por mês para 100-110 mil postos mensais; por outro lado, a taxa de desemprego, também sazonalmente ajustada, caiu no período, atingindo em novembro o nível mais baixo desde 2002.

Este padrão poderia ser reconciliado caso um número expressivo de pessoas desempregadas tivesse abandonado a busca por trabalho. Sob tais circunstâncias seria concebível que a taxa de desemprego se mantivesse reduzida a despeito da baixa geração de emprego.

Entretanto, um exame mais atento dos dados de mercado de trabalho sugere não ser este o caso. Nos últimos meses, a proporção das pessoas em idade ativa trabalhando ou buscando trabalho (taxa de participação) tem se mantido razoavelmente estável e próxima à sua média. É verdade que na primeira metade do ano a taxa de participação se achava algo acima da média; todavia a redução no segundo semestre é insuficiente para explicar o comportamento discrepante da geração de empregos vis-à-vis a taxa de desemprego.

O paradoxo aparente, porém, pode decorrer de uma suposição implícita na análise acima, qual seja, que a desaceleração do ritmo de criação líquida de postos de trabalho refletiria apenas da moderação da demanda por trabalho, fruto da expansão mais lenta do produto. Há, contudo, ao menos em tese, a possibilidade que isso decorra também de limitações pelo lado da oferta.

Quando há um elevado contingente de desempregados e a demanda por trabalho se expande rapidamente é razoável esperar que a geração líquida de empregos se traduza em redução da taxa de desemprego. Todavia, à medida que nos aproximamos de uma situação em que parcela crescente da mão-de-obra capacitada se encontra empregada, a geração líquida deve desacelerar, pois agora um novo posto de trabalho não é obrigatoriamente ocupado por alguém previamente desempregado; passa a haver chance cada vez maior de tal posto ser tomado por alguém que já estava empregado.

Num caso extremo, irreal, mas que ajuda a ilustrar o problema, se todo novo emprego fosse tomado por um trabalhador previamente ocupado, a geração líquida de empregos seria zero, mas a taxa de desemprego permaneceria inalterada e baixa, como verificado no Brasil.

Isto dito, se o problema resultar da oferta de trabalho, deve haver reflexo nos salários. Caso só seja possível preencher uma nova vaga com um trabalhador já empregado, o salário oferecido ao novo candidato deverá ser superior ao que recebia anteriormente, isto é, o salário de admissão deve não apenas subir, mas também crescer mais do que o salário de demissão.

Segundo os dados do Ministério do Trabalho, é precisamente isto que temos observado. O ritmo de crescimento do salário médio de admissão se acelerou na segunda metade do ano, de 9% para 11% na comparação com o mesmo mês do ano anterior; além disto tem também superado a velocidade de crescimento do salário de demissão nesta mesma base de comparação. Esta evidência é consistente com a hipótese de limitações de oferta de trabalho terem desempenhado um papel mais relevante na moderação do ritmo de criação de empregos formais do que o observado até recentemente. Como a tesoura, a análise do mercado precisa de duas lâminas.

Embora esta não seja necessariamente a única razão por trás da desaceleração verificada na segunda metade de 2011, chega a ser surpreendente que esta hipótese tenha sido até agora ignorada. A identificação da natureza dos movimentos em qualquer mercado não pode deixar de lado a evidência pertinente aos preços, muito menos no caso do mercado de trabalho. Isto só reforça minha impressão que, quando a análise já parte da conclusão, a lógica do argumento fica irremediavelmente prejudicada.