quarta-feira, dezembro 21, 2011

IED recorde - CELSO MING

O ESTADÃO - 21/12/11

O Banco Central começou este ano projetando uma entrada de Investimento Estrangeiro Direto (IED) de US$ 45 bilhões. Até novembro, revelou nesta terça-feira, desembarcaram no Brasil US$ 60,1 bilhões. As novas estimativas são de que chegará aqui um total de US$ 65 bilhões em 2011 - uma diferença de nada menos que 44%.

Alguns economistas comemoram o recorde e essa surpreendente capacidade do Brasil de atrair capitais, mesmo num ano de forte crise internacional.

Outros, no entanto, vem tamanho potencial com suspeita. Entendem que boa fatia desses ativos não passa de aplicações de curto prazo destinadas à especulação com juros, disfarçadas de recursos de longo prazo com o objetivo de escapar do IOF, de 6%, do qual o IED está isento. Em junho, o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Olivier Blanchard, defendeu esse ponto de vista.

Outro grupo de economistas prefere sustentar que essa forte entrada de capitais concorre para derrubar a cotação do dólar no câmbio interno - e, assim, para tirar competitividade do produto brasileiro, que fica mais caro em dólares. Ao longo de todo este ano, alguns dirigentes de entidades empresariais e economistas recomendaram que o governo deixasse de se omitir diante desse afluxo e rejeitasse com determinação a entrada de "capitais indesejados". Isso implicaria instalar um serviço de seleção, como o do boiadeiro que se posta à porteira do mangueirão e decide que vaca pode e qual não pode entrar para um trato especial de ração.

A definição de critérios para o que deveria ser considerado "capital indesejável" é complicada, provavelmente inútil. Nessa armadilha o governo Dilma não caiu. Imagine-se o Brasil tão necessitado de capitais para seu desenvolvimento e, no entanto, disposto a esnobar a entrada de capitais estrangeiros.

Assim, uma equipe de burocratas examinaria qual investimento atenderia ou não aos interesses nacionais. Uma vez liberada, não há como rastrear a aplicação de um dinheiro que não leva carimbo. Uma empresa já pode ter em caixa recursos para investimento futuro e, ainda assim, preferir trazer mais de fora e, em seguida, aplicá-los em outra atividade. Isso mostra que essas propostas voluntaristas não têm cabimento.

Neste ano (até novembro), nada menos que 54,8% do IED se destinou ao setor de serviços (eletricidade, serviços financeiros, comércio, telecomunicações, etc.). Outros 33,7% foram para as atividades primárias (agropecuária e mineração). E apenas 10,1% tomaram o rumo da indústria.

Por aí se vê que também na destinação do IED a indústria vai perdendo importância em relação ao total do setor produtivo do Brasil. Parte dos líderes do empresariado usa estatísticas como essa para denunciar o que entende como "processo crescente de desindustrialização no Brasil". E, no entanto, não é a indústria que está se tornando nanica; é o setor de serviços que vai ganhando corpo - algo natural ao processo de desenvolvimento econômico de um país.

CONFIRA

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgado nesta terça mostra clara desaceleração das contratações no Brasil - vê-se no gráfico. Em 12 meses (até novembro), 2,3 milhões de postos foram criados, 20% a menos do que no mesmo período em 2010 (2,9 milhões).

Retificação . Como bem observou o leitor Flávio Brunetti Zullo, há um erro na coluna passada, no 3º parágrafo. "Quando embicar para baixo", a cotação do dólar não provocará desvalorização do real, como ficou escrito. Trará, sim, a sua valorização.

GOSTOSA


Importar para consumir - ROLF KUNTZ


O ESTADÃO - 21/12/11
O crescimento da economia brasileira será maior no próximo ano, mas as contas externas serão mais fracas que em 2011, segundo as novas projeções do Banco Central (BC). Na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, referiu-se ao déficit comercial dos manufaturados, cerca de US$ 88 bilhões até outubro, como "o principal problema" do País, neste momento. Se a bola de cristal do BC estiver bem regulada, o ministro terá mais um motivo para dar atenção ao comércio exterior e, de modo especial, às condições de atuação da indústria. Pelas novas estimativas, o valor das exportações deverá chegar a US$ 267 bilhões em 2012, com elevação de apenas 4,3%. Em contrapartida, as importações deverão aumentar 7% e atingir US$ 244 bilhões. Haverá uma inversão no desempenho: a receita calculada para 2011, US$ 256 bilhões, deve ser 26,7% maior que a do ano passado, enquanto a despesa deve ter um crescimento pouco menor, de 25,3%.

Exportações em crescimento mais lento são compatíveis com um cenário de crise na Europa e nos Estados Unidos e expansão provavelmente mais lenta na China. Se esse quadro se confirmar, a receita obtida com os produtos básicos e semimanufaturados crescerá menos que em 2011, porque a evolução das cotações será menos favorável. Neste ano, até novembro, os básicos e semimanufaturados proporcionaram US$ 145,2 bilhões, 62,1% do valor total.

Um crescimento maior e sustentado pelo consumo se refletirá nas importações. Em 2011, até novembro, bens de capital só representaram 21,1% do valor importado. Será reproduzido o quadro observado em anos de expansão econômica maior que a de 2011, quando as compras externas avançaram mais velozmente que as vendas. O desemprego continuará baixo nos próximos meses, disse o presidente Alexandre Tombini, falando no Senado na terça-feira. Isso garantirá o vigor do consumo.

Essa expectativa, compatível com a previsão de maior crescimento econômico, é parte da explicação das projeções do balanço de pagamentos. Enquanto os novos números eram divulgados pelo banco, o presidente Tombini apresentava aos congressistas sua avaliação da economia. Ele mencionou a expansão estimada por economistas do mercado: 3,4% em 2012, com aceleração para 3,7% no período de um ano encerrado no primeiro trimestre de 2013. Mais explícito que o presidente do BC, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem revelado as próprias projeções - na faixa de 4,5% a 5% no próximo ano. A presidente Dilma Rousseff tem repetido esses números como metas para 2012.

Pelos cálculos do BC, o saldo comercial diminuirá 17,8%, de US$ 28 bilhões para US$ 23 bilhões. Mas o déficit de serviços e rendas aumentará de US$ 84 bilhões para US$ 90,7 bilhões. O saldo das transferências unilaterais diminuirá de US$ 3 bilhões para US$ 2,7 bilhões. Somadas todas essas parcelas, o déficit em transações correntes passará de US$ 53 bilhões em 2011 para US$ 65 bilhões no próximo ano.

Esse déficit será financiado sem problema pelo saldo da conta financeira e de capital, US$ 70 bilhões. Mas o investimento direto estrangeiro, incluído nessa conta, ficará em US$ 50 bilhões. Parte do buraco das transações correntes será coberta por empréstimos e capitais especulativos.

Não haverá nada especialmente dramático na piora da conta corrente. Se as projeções estiverem certas, o déficit passará de 2,1% para 2,4% do PIB, uma proporção administrável. Além disso, a captação de poupança externa poderia ser um fator de aceleração do crescimento - se fosse destinada principalmente, é claro, a financiar o investimento e não o excesso de consumo público e privado, como tem ocorrido.

Esse déficit, em princípio, não justifica maior preocupação. O problema sério está mesmo na conta de mercadorias. O superávit comercial brasileiro tem dependido exclusivamente da exportação de produtos básicos e semimanufaturados. É tolice condenar a exportação desses bens, mas também é tolice descuidar das condições para exportar maior volume de manufaturados. A indústria ainda é a fonte principal dos bons empregos, no Brasil, e um importantíssimo núcleo de absorção e de desenvolvimento de tecnologia.

Política industrial não se faz só com protecionismo e com alguns estímulos dirigidos a segmentos eleitos pela corte brasiliense. Não há, de fato, nada parecido com uma política de modernização industrial no Brasil, embora a presidente e seus ministros afirmem o contrário. Nenhuma economia se torna mais produtiva quando só se cuida de alguns poucos núcleos. Até os ignorantes em futebol entenderam a lição: o Barcelona, e não Messi, ganhou o campeonato mundial de clubes. Isso vale também para a política de desenvolvimento.

Um resultado chamado pecado - ALEXANDRE SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 21/12/11

Os 18 leitores já sabem minha visão sobre a natureza da crise europeia: mais que uma questão fiscal (que existe, mas é fruto, não causa, da crise), as crescentes tensões na continente refletem um problema de competitividade das economias periféricas relativamente às centrais. Isto dito, é necessário explicar o que entendo por “competitividade”, sem o que corremos o risco de entrar novamente numa discussão moral sobre as “formigas” que promoveram reformas e as “cigarras” que as empurraram para o Dia de São Nunca.

De fato, quando explicito meu argumento é comum ouvir alguma afirmação do gênero: “o trabalhador alemão é muito mais produtivo que o italiano/espanhol/etc, e não há como economias tão desiguais competirem no contexto de uma moeda comum”. Tipicamente este tipo de colocação sugere que a superioridade germânica seria de tal ordem que, na concorrência com as demais economias europeias, a Alemanha sempre sairia à frente, como expresso na acumulação de enormes superávits externos às expensas de seus parceiros da Zona do Euro.

Entretanto, este tipo de afirmação não sobrevive a um exame mínimo dos dados. Segundo o FMI, no período imediatamente anterior à adoção do euro (1995-99), já com as taxas de câmbio alinhadas para a unificação, os países periféricos apresentavam um superávit externo da ordem de US$ 15 bilhões/ano, contra um déficit de US$ 19 bilhões/ano registrado pela Alemanha. Independente dos sinais do balanço externo, porém, eram resultados modestos relativamente ao tamanho das economias envolvidas.

A partir da adoção da moeda comum a coisa mudou de figura. A periferia registrou déficits próximos a US$ 67 bilhões/ano contra superávits alemães na casa US$ 96 bilhões/ano de 2000 a 2008. Entre 1999 e 2008 a periferia viu seu déficit saltar US$ 163 bilhões (de US$ 13 bilhões para US$ 176 bilhões), enquanto o superávit teutônico aumentou cerca de US$ 273 bilhões (de um déficit de US$ 27 bilhões para um superávit de US$ 246 bilhões).

À dramática alteração no seu balanço externo correspondeu considerável apreciação da taxa de câmbio na periferia relativamente à Alemanha. Dado que a moeda é comum, isto poderia parecer um contrassenso (como um euro espanhol poderia se apreciar relativamente ao euro alemão?), mas não é, pois as taxas de inflação no período que se seguiu à adoção do euro foram consideravelmente distintas.

Assim, entre 2000 e 2007 a inflação na periferia foi de 5% (Itália) a 14% (Grécia) mais alta que na Alemanha, o que corresponde à apreciação do câmbio real. Não por acaso as cinco economias com maior diferencial de inflação com relação à Alemanha naquele período são também as economias que hoje enfrentam a crise mais aguda.

A queda nas taxas de juros da periferia que se seguiu à unificação monetária levou à forte expansão da demanda interna nestes países, liderada no caso grego pelo governo e nos demais pelo setor privado. Isto se traduziu em redução do desemprego na periferia e pressão sobre os salários (e inflação), pois os trabalhadores do centro não migraram para lá.

Com a crise de 2008 e a conseqüente reversão dos ingressos de capitais, a periferia se viu obrigada a restaurar a competitividade perdida, isto é, desvalorizar o câmbio, o que, sob a moeda única, teria que ocorrer pela queda dos preços internos relativamente aos alemães. Todavia, com a baixa inflação alemã, torna-se necessária deflação na periferia, um remédio amargo quando preços e salários não são flexíveis e quando a migração para o centro também não é uma alternativa viável, pois requer elevação apreciável do desemprego.

A perda de competitividade não foi, pois, um pecado da periferia, mas resultado da lógica da integração monetária. O desafio é recuperá-la sem romper com esta mesma lógica, ainda não compreendida pela liderança europeia.

Feliz Natal, bom ano e até janeiro!

NOVA CARA DA VILA - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 21/12/11
Quatro casas na rua Aspicuelta próximas à Girassol, na Vila Madalena, serão demolidas. Em uma delas funciona a loja de Ronaldo Fraga. O arquiteto Luigi Fiocca, dono dos imóveis, conta que pensou em fazer ali um minishopping, mas desistiu. "Temos o projeto de um prédio de escritórios, de quatro andares, com um jardim público no térreo", diz. "Seguiremos a linha da nova arquitetura. Estamos salvando o bairro. A tendência geral é de muitos prédios se formando."

TODOS PELA VILA
O projeto de um prédio na Aspicuelta deu vida ao Movimento pela Vila, que pede o tombamento de uma parte do bairro. Quem coordena a ação é o fotógrafo e empresário Fernando Costa Netto, organizador da Mostra SP de Fotografia. "A Vila não tem vocação para Itaim Bibi e a Aspicuelta não pode virar a nova João Cachoeira [rua com muitas lojas e pequenos centros comerciais, além de prédios de escritórios]."

ABAIXO-ASSINADO
Costa Netto diz que o movimento recolherá assinaturas em um abaixo-assinado. O músico Edgard Scandurra, morador da Vila há 12 anos, e o arquiteto Carlos Motta, no bairro desde 1975, apoiam. "Verticalizar não é somente derrubar o acervo cultural existente no bairro mais charmoso de SP. É violentar um dos poucos espaços que ainda preservam uma memória arejada no sentido amplo, cultural", diz Motta.

BALANÇA
Com os votos no STF (Supremo Tribunal Federal) divididos em relação aos poderes que o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) deve ter para investigar magistrados, a nova ministra, Rosa Weber, torna-se peça-chave na votação, que deve ocorrer no próximo ano. Integrantes do órgão observam que ela já está sob a "zona de influência" da ministra Cármen Lúcia -voto certo contra o conselho.

BALANÇA 2
Além de Cármen Lúcia, são considerados votos certos contra o CNJ os dos ministros Marco Aurélio Mello, autor da liminar que já coloca restrições em vigor, Ricardo Lewandowski, Luiz Fux e Cezar Peluso.

FRENTE DA OPOSIÇÃO
Ricardo Sayeg, que lançou na semana passada sua candidatura à presidência da OAB-SP, tenta atrair o apoio dos três advogados que disputaram com o atual mandatário, Luiz Flávio Borges D'Urso, na eleição de 2009: Rui Fragoso, Hermes Barbosa e Leandro Pinto.

NOVA ETIQUETA
A consultora Claudia Matarazzo, do cerimonial do governo de SP, está de editora nova, a Planeta. Lançará em fevereiro versão atualizada de "Etiqueta sem Frescura", incluindo dicas para evitar gafes no mundo virtual. E prepara livro inédito para o segundo semestre de 2012.

GRANDE AMIGO
Miguel Falabella foi homenageado na 2ª Conferência Nacional LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), anteontem, em Brasília. O trabalho dele foi reconhecido e apoiado por causa da novela "Aquele Beijo", que tem o travesti Ana Girafa (Luis Salém).

MINHA FILHA!
Já a cantora Claudia Leitte amargou uma moção de repúdio aprovada por 98% dos delegados. É que, em entrevista, ela disse: "Eu adoro os gays, mas prefiro que meu filho seja macho". No total, foram votadas 70 moções de apoio, recomendação e repúdio.

CAMPANHA
Durante a conferência, foi lançada campanha de TV contra a homofobia da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República com o PNUD, a Unesco e a TV Globo.

NOITE NATALINA

A atriz Regina Duarte, o cantor Ronnie Von e o comediante Tom Cavalcante e sua mulher, Patrícia, foram à 9ª edição do Natal do Bem, anteontem, no hotel Hyatt, em São Paulo. O casal de apresentadores Roberto Justus e Ticiane Pinheiro também circulou pelo evento beneficente, organizado pelo Lide (Grupo de Líderes Empresariais). A dupla sertaneja Victor e Leo fez apresentação para os convidados.

ENCONTRO NA PISTA
O diretor Wolf Maya, a estilista Helena Linhares e a modelo Renata Bonjesus foram à festa It's Miller Time, que aconteceu em uma casa de eventos na Vila Leopoldina, em São Paulo. A chapeleira Graciella Starling e o empresário Marcus Elias também estavam entre os convidados do evento.

CURTO-CIRCUITO

O Museu da Energia inaugura hoje, às 19h, a mostra de fotografias "Padrões", de Zaida Siqueira.

A chef Carla Pernambuco faz festa hoje no Studio 768, em frente ao Carlota, para os participantes do programa "O Aprendiz".

A peça "Como se Tornar uma Supermãe em Dez Lições" estreia em 13 de janeiro no teatro Gazeta. Classificação: livre.

O restaurante Mestiço abrirá para o jantar no domingo, 25.

A festa de pré-Réveillon Hedkandi, em Punta del Este, terá sua terceira edição no dia 30, no Parador Gecko Solanas.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

Espécies em extinção - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 21/12/11
A decisão liminar do ministro Marco Aurélio Mello que retira do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a prerrogativa originária de investigar denúncias de desvio de conduta envolvendo magistrados é uma sinalização ruim no tocante à percepção de que o chamado controle externo do Judiciário representou um avanço na direção da abertura de um Poder fechado.

Se confirmada pelo plenário, a sentença jogará definitivamente de volta aos tribunais regionais a tarefa de investigar os seus e o CNJ terá perdido seu mais substantivo motivo de existir. Do ponto de vista da sociedade, um retrocesso.

Vale dizer, não o único, mas mais um de uma série. Nos últimos tempos, vários passos atrás vêm sendo dados em relação a colegiados encarregados do trato da questão ética na vida pública, todos eles em franco processo de desmonte.

O Conselho Nacional de Justiça, com seus diversos processos de investigação abertos, afastamento de juízes e a tribuna por intermédio da qual a corregedora Eliana Calmon vinha mexendo em feridas até então intocadas, era dos poucos ainda em atividade de fato.

No Executivo, a Comissão de Ética Pública nunca conseguiu se firmar realmente como instância em que seriam dirimidos dilemas éticos para o exercício de ocupantes de cargos do primeiro escalão. De um lado, por ausência de autoridade legal e, de outro, pela indiferença com que os governantes encaram o papel dos conselheiros.

O golpe fatal foi dado quando a comissão recomendou o afastamento do então ministro do Trabalho, Carlos Lupi, e à presidente da República ocorreu de imediato não demiti-lo, mas transparecer desconfiança sobre aquela decisão e deixar que o ministro fizesse o gesto da saída.

Mas é no Legislativo que o processo de esvaziamento é mais evidente e, por que não dizer, mais nocivo, pois teoricamente trata-se do poder onde se exerce cotidianamente a representação popular.

Primeiro, abriu mão da prerrogativa de legislar. Juntando-se a primazia dos projetos de iniciativa do Planalto à supremacia das medidas provisórias na pauta, essa função na prática transferiu-se ao Executivo.

Depois, perdeu muito de sua capacidade de abrigar o contraditório devido à amplitude da maioria governista.

A outra função do Congresso, a de fiscalizar, vem caindo gradativamente num enorme vazio.

Aí a razão é dupla: há a hegemonia da situação, sempre pronta a barrar qualquer iniciativa séria de investigação ou mesmo de esclarecimento de questões importantes, mas há também o corporativismo, ativo no impedimento de punições a casos de quebra do decoro parlamentar.

As Comissões Parlamentares de Inquérito não se instalam e, quando se instalam, não funcionam, os Conselhos de Ética da Câmara e do Senado são meras peças de decoração, pedidos de informação são ignorados e até os depoimentos em comissões para esclarecimentos viraram arena de espetáculos pífios. 

Espécies em extinção, os instrumentos de fiscalização perdem paulatinamente sua razão de ser, a República perde seus controles e com isso a condição essencial para o funcionamento das instituições em estado de normalidade.

Ditatorial. A escalada de ações contra o grupo que edita o jornal Clarín - de oposição ao governo - culminando com a ocupação militar da TV por assinatura Cablevisión e a proposta de lei para alterar a distribuição de papel para jornais fazem de Cristina Kirchner uma triste figura na cena mundial.

Ela põe a Argentina no patamar indecoroso a que Hugo Chávez levou a Venezuela e do qual um país leva anos para se recuperar. A truculência de governantes não costuma terminar bem. Uma hora, o que dava sempre certo na ação dos tiranetes começa a dar sempre errado.

Conviria que se prestasse atenção ao que se passa na Argentina antes de se conferir crédito ao argumento dos que aqui consideram a hipótese de haver boas intenções na defesa da tese do controle social da mídia.

Alguns recorrem à violência explícita, outros se disfarçam sob alegações legalistas, mas, no fim, tudo resulta em autoritarismo.

Chicana no STF - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 21/12/11


Decisão do ministro Marco Aurélio Mello de suspender poderes do CNJ é mais uma demonstração de corporativismo no Judiciário

A criatividade demonstrada por alguns advogados nos processos judiciais, em busca de brechas na legislação que possam mudar subitamente uma decisão que se afigurava justa, é chamada, no jargão da área, de "chicana". Nesta semana, numa inusitada troca de papéis, o país viu uma dessas manobras ser patrocinada por um ministro do Supremo Tribunal Federal.

O ardil deu-se em meio à discussão de um processo de grande importância para o futuro do Judiciário: a delimitação dos poderes do Conselho Nacional de Justiça.

Criado para ser uma instância de controle, o CNJ tem a missão de combater desvios e aumentar a transparência administrativa e processual do Poder Judiciário.

A decisão do Supremo, como já observou esta Folha, poderá reafirmar essa função ou relegar o órgão a um papel apenas decorativo no jogo de poder da Justiça brasileira.

O ministro Marco Aurélio Mello é o relator do processo, que esteve na pauta da corte ao longo de praticamente todo o segundo semestre deste ano, mas não foi ainda julgado pelo plenário. Em setembro, o próprio ministro-relator chegou a solicitar que a matéria fosse retirada da pauta, alegando que não haveria "clima" para uma decisão.

Para surpresa da opinião pública, que anseia por uma discussão transparente sobre o tema, Marco Aurélio Mello esperou o último dia de trabalho do STF para conceder uma liminar que simplesmente suspende os poderes do CNJ.

Pela decisão do ministro, válida até o tribunal voltar a se reunir, em fevereiro, o Conselho não pode mais agir quando notificado de uma denúncia. Precisará aguardar a apuração a ser conduzida pelas corregedorias estaduais. O ministro também suspendeu o prazo de 140 dias que o CNJ estipulava para que fossem concluídos os processos disciplinares locais.

A consequência é que, até o fim do recesso, o CNJ terá seus poderes reduzidos para investigar eventuais irregularidades envolvendo a atuação de juízes.

O Supremo, com o ministro Mello à frente, tem se revelado, com acerto, contumaz crítico do abuso do governo federal na edição de medidas provisórias. Liminares como esta, que impõem a decisão do ministro sem que o colegiado do STF se pronuncie, de certa forma seguem a mesma linha impositiva da legislação "baixada" pelo Executivo e despertam apreensões quanto ao aperfeiçoamento do sistema de freios e contrapesos na democracia brasileira.

As frequentes movimentações de magistrados com o propósito de cercear a atuação do CNJ evidenciam as dificuldades para superar o tradicional corporativismo do Poder Judiciário, acostumado, há décadas, a lidar com seus problemas intramuros.

GOSTOSA


Ueba! Bolívia lança o pónetone! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 21/12/11

É o PÓNETONE! Ou panecoca! Você come o panetone, dança em cima da mesa e vomita na sogra!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Contagem regressiva! Faltam dez dias pra começar o fim do mundo!
E mais uma predestinada: secretária de Saúde de Vargem Grande, no Maranhão: Shirlânia das Dores! Deve ter sido parteira do Sarney. E adoro esse nome, Shirlânia. "Ai, doutora, tô com uma dor na shirlânia." Rarará!
E eu vou mandar um cartão de Natal pro Bolsonaro: "Meus votos é que você nunca mais tenha votos". Rarará! E esta: "Bolívia lança panetone fabricado com farinha de folhas de coca". Ueba! É o PÓNETONE! Ou panecoca! Você come o panetone, dança em cima da mesa e vomita na sogra! Rarará!
E os ministros lançam o PROPINETONE! Panetone fabricado com farinha de propina!
E eu prometi nunca mais fazer trocadilho com peru no Natal, mas olha o cartaz da padaria aqui em frente: "Nesse Natal deixe o seu peru nas nossas mãos". Daria pra, pelo menos, a gente conhecer os donos ou donas das mãos? Daria pra gente conhecer o resto do corpo? Rarará!
E a greve dos aeroviários? Pro dia 22! Eu sei como resolver essa greve dos aeroviários. Dá um CHEQUE VOADOR pra cada um! Ué, não é aeroviário? Quanto vocês querem? Dois milhões de reais? Cheque voador, vuuuum. Pelo menos voa.
Já imaginou passar o Natal no aeroporto? Aeroporto, não, aeroparto. Porque é um parto pra voar. Rarará! Ceia de natal no aeroparto: barra de cereal. E o peru? O peru você pega do comissário mais próximo!
E a Infraero? "Atenção senhores passageiros, arranjem um canto pra dormir e feliz Natal." Rarará!
Ou, então, vai de ônibus. "Senhores passageiros do voo 4.378, dirijam-se para a rodoviária mais próxima." E só quero ver quando tiver a greve dos usuários. É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
E o ser humano é dividido em quatro estágios. 1) Você acredita em Papai Noel. 2) Você não acredita mais em Papai Noel. 3) Você se veste de Papai Noel e anima o Natal da família. 4) Você PARECE o Papai Noel. Rarará!
E neste fim de ano tem uma amiga minha que tá dando até pra cueca em varal. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

122 páginas em um dia - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 21/12/11

BRASÍLIA - Esquentou o clima no Supremo Tribunal Federal. O ministro Joaquim Barbosa queixou-se de um pedido do presidente do STF, Cezar Peluso, para que o conteúdo integral do processo do mensalão fosse colocado à disposição de todos os magistrados da corte.
Ao interpelar Barbosa em público, Peluso argumentou sobre a "necessidade de preparar e não retardar ainda mais o julgamento de causa de maior complexidade".
Barbosa é relator do caso do mensalão. Está há cerca de seis anos com o caso. Sentiu-se ofendido. Em tom duro, ofereceu uma resposta de cinco páginas com 1.417 palavras.
No texto, Barbosa explica que os autos do processo do mensalão já estavam, há mais de quatros anos, "integralmente digitalizados e disponíveis eletronicamente". Esse dado desmoraliza os outros dez ministros do STF. Cada um deles já poderia ter se interessado em ler o que está no mais rumoroso caso de corrupção política do governo Lula.
Mas há também um aspecto pouco abonador na reação de Joaquim Barbosa. Quando foi cobrado por Peluso, ele estava em licença médica, em Nova York. Como previsto, voltou ao Brasil no fim de semana. Na segunda-feira, apresentou sua resposta indignada e, surpresa, o relatório de 122 páginas que produziu finalmente sobre o mensalão.
Fica uma dúvida: essas 122 páginas já estavam redigidas antes de sua licença médica ou Barbosa trabalhou durante o tratamento de saúde no exterior? Se o relatório foi preparado apenas na segunda-feira, essa é prova cabal de como o ritmo de um processo depende do humor do juiz que preside o caso.
O mensalão, com 38 réus, não é um julgamento qualquer. Prazos devem ser cumpridos. Só que o STF é uma corte política. Achar normal e razoável a tramitação de seis anos revela como impera ali uma indiferença incompatível com certos desafios que os ministros devem assumir.

PIB: discurso e realidade - CRISTIANO ROMERO

VALOR ECONÔMICO - 21/12/11
Não faz muito sentido imaginar que, com o mundo crescendo pouco em 2012, o Brasil vá se descolar e avançar a uma taxa elevada, quando até a poderosa China, segunda maior economia do planeta, se prepara para crescer bem abaixo da média histórica dos últimos anos. As perspectivas para a economia global, mesmo num cenário sem ruptura, não são animadoras.

Segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional, que ainda podem ser revistas para baixo, em 2012 a zona do euro deve crescer apenas 1,1%, os Estados Unidos, 1,8%, e os países emergentes e em desenvolvimento, 6,1%. Por que, nesse ambiente, o Brasil cresceria 5%?

Como tem ocorrido nos últimos anos, governo e mercado têm expectativas distintas. No governo, o Ministério da Fazenda fala em expansão entre 4% e 5% em 2012. No mercado, segundo o boletim Focus, a mediana das expectativas aponta para 3,4%. O Banco Central (BC) divulga sua projeção amanhã, como parte do Relatório de Inflação de dezembro, mas o presidente Alexandre Tombini anunciou ontem, no Senado, que espera um crescimento maior que o deste ano, que deve ficar, na melhor das hipóteses, em 3%.

Estímulos não mudam política de juros

Na semana passada, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, disse, em entrevista à Bloomberg, que o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 4% em 2012, mas, no fim do ano, deverá estar rodando a 5%, em termos anualizados. Na última sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff declarou, em entrevista, que crescer 5% no ano que vem é uma meta do governo.

Em geral, autoridades projetam taxas elevadas de crescimento para animar o chamado espírito animal dos empresários - um integrante da equipe econômica brinca: "Mais selvagem do que animal". A ideia é que o governo dispõe de mais informações que o mercado e, portanto, sabe o que está dizendo quando prevê uma determinada taxa. Dentro dessa lógica, movido por previsões oficiais, o empresário se sentiria mais motivado a investir no aumento da produção.

Há um quê de fantasia nessa história porque há no mercado, tanto no sistema financeiro quanto nas grandes empresas, departamentos econômicos sofisticados com capacidade para fazer projeções acuradas. Na verdade, quando o governo afirma, mesmo na contramão da maioria das opiniões, que o PIB avançará "x" por cento num determinado momento, os agentes econômicos entendem que Brasília fará o que for necessário para materializar essa taxa de expansão.

É, aí, que mora o problema. O BC está no meio de uma batalha para trazer a inflação a níveis próximos da meta oficial (4,5%). Em 2010 e neste ano, o IPCA, o índice oficial de preços do regime de metas, ficou bem acima do objetivo - respectivamente, 5,9% e 6,5% ou algo acima disso (o número definitivo só será conhecido em janeiro). Pelas projeções do último Relatório de Inflação, divulgado em setembro, o IPCA só cairá à meta no terceiro trimestre de 2013.

O BC já obteve as primeiras vitórias. No pior momento do passado recente, o IPCA acumulou variação em 12 meses de 7,31% (em setembro). De lá para cá, vem cedendo e deve cair, segundo estimativas de autoridades do BC e do próprio mercado, para 5,44% nos 12 meses até maio de 2012, um recuo significativo - de 1,87 ponto percentual.

Se o governo cair na tentação, como fez em 2009 e 2010, de estimular a economia a qualquer preço, produzirá dois efeitos. O primeiro é prejudicar a política de combate à inflação. O segundo é obrigar o Banco Central a interromper o processo de redução da taxa básica de juros (Selic), iniciado em agosto.

Na mesma entrevista à Bloomberg, o secretário Nelson Barbosa afirmou que as medidas para estimular o crescimento em 2012 já estão dadas, ou seja, ele não vê necessidade de novos incentivos, pelo menos não por ora. É um bom sinal.

O BC, por sua vez, avalia que as iniciativas anunciadas, inclusive na área de crédito (redução do IOF e relaxamento de algumas medidas macroprudenciais), não mudaram o cenário com que vem trabalhando desde o início do processo de redução dos juros, ocorrido em agosto.

Trata-se, igualmente, de uma boa notícia. Significa que o BC não vê, nas medidas adotadas pelo governo até agora, um estímulo demasiado à demanda, que o obrigue a rever a estratégia de política monetária. No cenário com que trabalha, o banco contempla o cumprimento da meta cheia de superávit primário das contas públicas em 2012 (algo em torno de 3,1% do PIB) e crescimento moderado da oferta de crédito na economia.

Isso permitirá ao BC continuar reduzindo a taxa Selic, provavelmente enquanto a inflação em 12 meses estiver em queda, portanto, até maio. Se a situação externa não se agravar, isto é, se não houver um evento de crédito (calote de um banco ou de um governo) na zona do euro no próximo ano, a tendência é que o BC siga promovendo ajustes moderados nos juros, entendidos por todos como cortes de 50 pontos-base (0,5 ponto percentual) a cada reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

2012 - ANTONIO DELFIM NETTO

FOLHA DE SP - 21/12/11

No momento em que se inicia 2012, que, segundo analistas que pensam conhecer o futuro, ameaça ser o "annus luctus" da ideia civilizadora que foi a criação da União Europeia e da sua moeda única, talvez seja interessante rever a nossa capacidade de previsão.

Como disse são Tomás de Aquino, "os homens não podem conhecer o futuro... a não ser por revelação Divina". Parece pouco provável que Deus escolha um economista para fazê-lo!

O infográfico abaixo revela as medianas das previsões para 2011 dos mais refinados e bem apetrechados economistas brasileiros que informam semanalmente o Banco Central. Foram divulgadas no boletim Focus, na última semana de 2010 e na terceira semana de dezembro de 2011 (praticamente as informações já conhecidas).

Verificamos diferenças muito importantes entre o que se esperava para 2011 e o que ocorreu no ano. Para 2012 não será diferente. Reconhecer esse fato é um antídoto contra um certo pessimismo que começa a dominar consumidores, empresários e banqueiros.

Já devíamos ter aprendido que quando todos (trabalhadores, empresários e banqueiros) tentam ficar líquidos, morrem abraçados à sua liquidez. Os trabalhadores veem diminuir seus empregos; os empresários, sumir os seus lucros e destruído o valor de suas empresas; e os banqueiros reduzem cada vez mais os seus empréstimos devido à queda nominal de seu patrimônio.

Não há razão para deixar de ambicionar um crescimento em torno de 4,5% em 2012, a despeito da aterrissagem desse fim do ano. O BC tem musculatura para tranquilizar o sistema financeiro, mesmo com a deterioração da situação externa. O que precisamos é: 1º) mobilizar os investimentos públicos e 2º) cooptar os empresários para não adiarem seus investimentos. A verdade é que 2012 será o que formos capazes de fazer dele.

A USP dá exemplo para o Brasil seguir - JOSÉ NEUMANNE

O ESTADÃO - 21/12/11

Os estudantes e sindicalistas de extrema esquerda que se rebelaram contra a presença da Polícia Militar(PM) no câmpus da Universidade de São Paulo (USP), sem querer,e o reitor da instituição, João Grandino Rodas, no pleno e voluntário exercício da autoridade de que foi investido, estão fazendo história.

O episódio é notório e recente, mas convém resumi-lo para a argumentação ficar clara: em maio,no ápice de estupros,assaltos relâmpago e outras atitudes violentas de bandidos que se aproveitavam da falta de policiamento nos espaços vazios da Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira,um estudante foi morto num assalto.A direção da universidade houve por bem firmar convênio com a PM para substituir com soldados fardados da corporação os poucos e desarmados agentes de segurança própria. Ruminando seu ódio contra a presença de agentes da lei num território que consideram, se não fora, no mínimo, além da lei,funcionários,docentes e estudantes filiados a grupos de extrema esquerda encontraram num caso isolado motivo suficiente para armar um fuzuê e tentar forçar a saída dos policiais de uma área pública da qual se acham donos. Três alunos foram flagrados fumando maconha e isso deu origem à ocupação de um prédio administrativo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH),invasão depois estendida à Reitoria. Expulsos pela PM cumprindo ordem judicial, os invasores foram levados à delegacia e libertados sob fiança.

Na semana passada, o professor de Filosofia Contemporânea Carlos Alberto Ribeiro de Moura reprovou por faltas 60 alunos que não compareceram ao número regulamentar de aulas para engrossarem o coro dos rebeldes descontentes na greve de novembro. E, pela primeira vez em dez anos, a USP expulsou seis alunos que, sob idêntico pretexto de protesto, ocuparam salas da Coordenadoria de Assistência Social (Coseas) dizendo reivindicar melhoria nas condições de moradia e aumento do número de vagas no Conjunto Residencial da USP (Crusp), na mesma Cidade Universitária, no ano passado. Tanto em 2010 como no mês passado,os pretensos rebeldes quebraram computadores, destruíram prontuários e depredaram os prédios invadidos, construídos e mantidos com dinheiro público.

Como era de esperar, os dirigentes de centros acadêmicos e sindicatos de funcionários acusaram o reitor Rodas de perseguição política, classificando as expulsões de "autoritárias" e as reprovações impostas por Moura, de"intempestivas".As acusações baseiam-se em confusão idêntica àquela com a qual pretenderam confundir a presença da polícia para garantir a vida das pessoas e exercer a força legítima em no medo Estado Democrático de Direito com ocupações manu militari da época da ditadura. Agora o argumento mentiroso é que as expulsões foram baseadas num regimento introduzido por decreto durante o mesmo regime arbitrário.O regimento, na verdade, data de 1990, sob a égide da Constituição de 1988 e de um presidente eleito democraticamente.

A mistificação tem o mesmo objetivo cínico de jogar areia nos olhos do cidadão comum, que sustenta com muito sacrifício os privilégios usufruídos pelos estudantes da USP e tem como recompensa por isso a destruição de prédios e equipamentos comprados com seu dinheiro e tendo muitas vezes de pagar escola particular para os próprios filhos. Os invasores dos prédios em novembro usaram a desfaçatez deslavada de considerar instrumento de tortura os ônibus em que foram transportados para a delegacia e tiveram a cara dura de se dizer"presos políticos" durante as poucas horas em que foram fichados pela Polícia Civil antes de serem liberados sob fiança bancada pelos sindicatos de servidores da USP.

Ou seja, por mim e por você, leitor, pois tais sindicatos, como quaisquer outros, vivem do imposto sindical arrecadado de um dia de trabalho de todo portador de carteira assinada no Brasil, sindicalizado ou não. Isto é: os baderneiros que se amotinaram para deixar o câmpus" sagrado" livre para a atuação de estupradores, assaltantes, assassinos e traficantes de entorpecentes destruíram patrimônio adquirido com o suor do cidadão, inclusive o mais pobre, e foram soltos sob fiança desembolsada por todos os trabalhadores.

Nem todos os 73 desalojados dos prédios ocupados estavam matriculados na USP.Cabe à autoridade informar à sociedade o que fazia em tais edifícios gente alheia à atividade acadêmica fingindo protestar em defesa dela.

Convém lembrar que quadrilheiros do crime organizado de facções como o Comando Vermelho (CV), no Rio, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo, aprenderam nos cárceres em que a ditadura os misturou com presos políticos o emprego da definição de "preso político" para conquistarem a simpatia da população e o beneplácito da autoridade. Os estudantes e seus agregados na invasão não são os primeiros nem serão os últimos a recorrer ao eufemismo como tábua de salvação.

Portanto,as atitudes exemplares do professor Carlos Alberto Ribeiro de Moura e do reitor João Grandino Rodas não apenas restauram a autoridade da administração de uma instituição de ensino e pesquisa que já foi mais respeitada. Elas também deveriam servir de exemplo em outros ambientes institucionais nos quais a leniência quanto ao cumprimento da lei e o relaxamento da ordem põem em xeque o conceito fundamental da democracia, que é o da igualdade de todos perante a norma jurídica. Nesta República do vale- tudo para alguns e onde nada podem quase todos, políticos são autorizados a movimentar caixa 2 em campanha eleitoral, o que não é permitido a cidadãos comuns na escrita de suas contas. A punição a quem cabulou aulas e destruiu equipamentos na USP deveria servir de ponto de partida para atitudes semelhantes no exercício da política e na gestão pública.

GOSTOSA


'Jogo bonito' - DANIEL PIZA


O Estado de S.Paulo - 21/12/11


É curioso, mas não surpreendente, que tenha sido necessário o Barcelona confirmar sua óbvia superioridade técnica e tática sobre o Santos para que muitas pessoas lamentem o nível medíocre do futebol brasileiro. No resto do tempo, é a mesma ladainha: temos o melhor campeonato do mundo, com vários clubes candidatos ao título; a ginga nacional é imbatível desde que não haja complexo de vira-lata; Neymar nada teria a aprender jogando num grande clube europeu, pois a mestiçagem nos fez o povo eleito na arte do futebol; etc., etc. Como acham que nos bastam "auto-estima" e dinheiro, pois a habilidade é um dom que Deus ou o DNA já nos deu, são incapazes de reconhecer uma entressafra de talentos - da qual um Neymar sozinho não nos redime - e a melhor fase de outras escolas do ludopédio.

Daí essa desculpa de que o problema do Santos foi justamente não jogar à brasileira. Sim, é verdade, a escola de Pelé sempre foi a da realização de todos os fundamentos (passes, dribles, chutes) associada ao improviso, à criatividade, à ousadia; foi combinar aproximações e simulações para atingir o objetivo da vitória. E é isso que, simplesmente, como disse Pep Guardiola, faz o Barça. O time mantém a bola rolando de pé em pé, sem chutões nem chuveirinhos, fica no campo adversário a maior parte do tempo e busca frequentemente o gol, busca entrar na área para nocauteá-lo com classe. Mas, opa, quem disse que é assim que os brasileiros interpretam seu próprio futebol? O que se ouve é que organização nunca foi nosso forte, que nossa "essência" é o efeito sem esforço, a poesia sem prosa, que a vantagem no placar é menos relevante que um drible da foca - e que faltou ao Santos "se divertir" para fazer frente ao Barcelona...

Ao mesmo tempo - e este hiato é o problema central - não vemos nada disso aqui. É um futebol cheio de faltas, trombadas, correrias desordenadas, bolas rifadas, de escassos gols e brilhos - como o futebol do campeão nacional deste ano, o Corinthians. Os treinadores ficam à beira do gramado gritando "Tira daí!", "Mata a jogada!", "Pega, pega!", "Cruza na área!". E depois têm a cara de pau de dizer que o Barcelona joga "sem atacantes" - como se Messi não ficasse sempre a menos de 20 metros da área e não fizesse um gol por partida, como se Villa ou Pedro não entrassem em diagonal às costas da zaga o tempo todo, como se os meias Xavi, Iniesta e Fábregas não apoiassem muito e não marcassem decisivos gols. Veja Daniel Alves: ele é um lateral e joga na linha dos zagueiros... adversários! Nada de "volantes de contenção", nada de atacantes paradões e toscos.

Fico à vontade para criticar o futebol brasileiro dos últimos cinco ou seis anos porque, enquanto todos chamavam a geração de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos e Cafu de "estrangeiros" e "mercenários", eu os defendia como herdeiros honrosos de um estilo que combina refinamento e eficiência. Agora é preciso pensar diferente para jogar diferente. Ou melhor, para voltar aos bons tempos do "jogo bonito".

Dor caricatural - TUTTY VASQUES

O ESTADÃO 21/12/11

A julgar pela comoção descontrolada nas ruas de Pyongyang após a notícia da morte de Kim Jong-il, o ‘Querido Líder’ era uma espécie de Mamonas Assassinas da Coreia do Norte. Nem quando Tancredo Neves morreu se viu nada igual por aqui!

O Ocidente tem bons motivos para desconfiar da reação carpideira dos norte-coreanos, que até então só haviam se mostrados na TV oficial em duas situações: marchando ou acenando bandeirinhas em cerimônias militares.

Chorando aos baldes daquele jeito, francamente, o resto do mundo jamais tinha visto em lugar nenhum do planeta. Os americanos não chegaram a se jogar no chão em momentos de desespero quando assassinaram John Kennedy.

Aqui no Brasil, nem em velório de texto de Nelson Rodrigues a gente encontra viúvas inconsoláveis expondo de maneira tão visceral o que o autor chamava de “dor caricatural”.

Contra a tese de que tamanho drama seria encenação promovida pela propaganda comunista, deve-se dizer o seguinte: ninguém finge tão mal! Se pedir pro cigano Igor chorar por Kim Jong-il, ele seria mais convincente diante das câmeras.

Cá pra nós, tem alguma coisa terrivelmente verdadeira no sofrimento coletivo na Coreia do Norte. Ou não!

Vidão

O réveillon vai começar mais cedo na casa de Oscar Niemeyer. O arquiteto completa na sexta-feira de véspera 38 mil dias de vida. A festa começa já no dia 30!

3º tempo

A CPFL Energia ainda está investigando o caso, mas é possível que apagão de 45 minutos em Santos na madrugada desta terça-feira tenha sido uma singela homenagem dos moradores da cidade à volta de Neymar & Cia do Japão.

Outra pessoa

O ator Tiago Abravanel já emagreceu 10 quilos interpretando Tim Maia no teatro. Periga acabar a temporada em 2012 com físico ideal para emendar sua carreira em musical sobre a vida de Gonzaguinha!

Deusa da vara

Vocês viram a Fabiana Murer de salto alto e minissaia de franjas na entrega do prêmio de Atleta do Ano? Ninguém prestou a menor atenção em César Cielo, que ao lado da saltadora no palco chorava feito norte-coreano durante a entrega dos respectivos troféus.

Faltou dizer

'Não chores por mim, Coreia do Norte!' (Kim Jong-un)

Bronze a vera

Marília Pera está relançando na novela Aquele Beijo o tom de pele puxado para a cor de abóbora que celebrizou o bronzeamento artificial de Vera Fisher em O Clone, lembra?

A devassa da devassa - RENATA LO PRETE

FOLHA DE SP - 21/12/11
Defensores do trabalho da Corregedoria Nacional de Justiça chamam a atenção para o esforço -recompensado com liminares de Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandowski- das associações de magistrados em caracterizar como "devassa" investigações na verdade bastante focalizadas sobre a folha de pagamento de tribunais. No caso do TJ-SP, caíram na malha fina menos de cem pessoas de um total de quase 50 mil.

Diante das decisões dos ministros -o primeiro esvaziou o poder da corregedoria; o segundo suspendeu apuração de enriquecimento ilícito-, um colega pergunta: "A quem o discurso da 'devassa' protege?".

Bem na hora Comentário ouvido ontem em Brasília, em referência à célebre frase da corregedora Eliana Calmon e à abortada investigação sobre o Tribunal de Justiça de São Paulo: "Quando o Sargento Garcia estava chegando perto, o Zorro deu um jeito de escapar".

Em vão No entanto, quem teve acesso a algumas das descobertas da corregedoria em SP afirma: se insistirem em manter essa caixa trancada, ela simplesmente explodirá sozinha.

Modo de fazer Lewandowski, que agora sustou as inspeções do CNJ sobre ganhos de servidores, magistrados e familiares em 22 tribunais do país, decidiu em liminar, um ano atrás, validar concurso promovido pelo TJ do Rio no qual o conselho encontrara uma série de indícios de fraude. O caso nunca mais retornou à pauta.

Eliminatórias 1 Dada como certa entre os operadores da organização da Copa, a saída de Ricardo Teixeira do comando da CBF é motivo de disputa entre os amigos do peito Lula e Sérgio Cabral.

Eliminatórias 2 Enquanto o ex-presidente tenta emplacar Andrés Sanchez, de saída do Corinthians e indicado para a diretoria de seleções, o governador ainda bate o pé por um nome do Rio.

Onde pega Apesar do discurso de apoio a Demétrio Vilagra, ameaçado de cassação pela Câmara de Campinas, o comando do PT avalia que a divisão da sigla no governo "tampão" implodiu as chances de sucesso da defesa do prefeito, acusado de se beneficiar de propina na gestão do afastado Dr. Hélio (PDT).

Melhor de três Vilagra delegou a articulação política aos secretários Renato Simões (Governo) e Tiãozinho Arcanjo (Serviços Públicos). O desenho escanteou Gérson Bittencourt, ex-titular dos Transportes, do grupo de Marta Suplicy.

#controlarfeelings Elival da Silva Ramos, procurador-geral do Estado, provocou saia-justa ao pedir cuidado jurídico extra nas PPPs do governo paulista, citando a licitação da inspeção veicular de Gilberto Kassab. O prefeito é aliado do presidente do conselho de parcerias, Guilherme Afif (PSD).

Mala direta A CCJ do Senado deve apreciar hoje parecer de Francisco Dornelles (PP-RJ) pelo arquivamento de projeto aprovado pela Câmara que garante ao consumidor o direito de ser informado por carta, com aviso de recebimento, da sua inscrição no SPC. Hoje, o envio da correspondência simples é suficiente para "negativação".

Visita à Folha Luiz Schwarcz, presidente da editora Companhia das Letras, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço. Estava com Lilia Schwarcz e Maria Emilia Bender, diretoras editoriais, Matinas Suzuki Jr., diretor de Novos Negócios, e Clara Dias, assessora de imprensa.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"Até recentemente, medidas controvertidas no 'apagar das luzes' eram costume do Congresso. Agora isso chegou ao Judiciário, só que por decisão monocrática."

DO DEPUTADO CHICO ALENCAR (PSOL-RJ), sobre liminar concedida pelo ministro Marco Aurélio Mello na véspera de um recesso que se prolongará até fevereiro, esvaziando os poderes da Corregedoria Nacional de Justiça.

contraponto

Caixeiro viajante

Em reunião ontem para expor ao secretariado de Geraldo Alckmin os projetos estratégicos que o governo paulista pretende implementar por meio de PPPs (Parcerias Público-Privadas), o vice Guilherme Afif justificou assim sua facilidade em fazer a apresentação:

-Olha, eu sou egresso da área de vendas, da área de seguros. Passei a minha vida inteira convencendo as pessoas de que "morrer é um bom negócio". Então, apresentar para vocês um plano de R$ 25 bilhões de investimentos em infraestrutura é moleza!

Só sobrevive quem tem talentos - LIGIA AGUILHAR

O Estado de S.Paulo - 21/12/11


Pequeno empresário precisa, como nunca, achar e manter bons funcionários para ser competitivo e lucrativo

O bom desempenho da economia brasileira após a crise de 2008 e o crescimento acelerado observado durante o ano passado contribuíram para que o Brasil chegasse muito perto de um cenário de pleno emprego.

Esse panorama começa a mudar por conta dos efeitos no Brasil da crise internacional. Em novembro deste ano, o número de contratações formais superou em apenas 42,7 mil as demissões - o pior resultado para o mês desde 2008. Por isso, encontrar e reter talentos passa a ser fundamental para que os pequenos e médios negócios enfrentem sem sobressaltos esse período de turbulência.

Os empreendedores perceberam essa necessidade faz algum tempo - dados do Anuário do Trabalho, elaborado pelo Sebrae em parceria com o Dieese, indicam que as pequenas empresas aumentaram os salários em um ritmo três vezes maior do que as grandes e médias corporações brasileiras. Mesmo assim, ainda está difícil lidar com a escassez de mão de obra qualificada e, ao mesmo tempo, competir por ela com grandes empresas. Há queixas por todas as partes. Para especialistas, porém, não há outro jeito: o empreendedor precisa mudar a postura.

"Nenhuma empresa vai encontrar no mercado pessoas preparadas, nem reter os trabalhadores, sem oferecer ao menos os benefícios básicos", diz Wilson Amorim, professor do programa de gestão da Fundação Instituto de Administração. "O empresário terá de aceitar que para o trabalho dele ficar melhor, será necessário investir."

Salário compatível com o mercado e a oferta de benefícios como auxílio alimentação e plano de saúde, inclusive, deixaram de ser diferenciais na hora de contratar. Para atrair e reter talentos, a empresa precisa agora moldar os benefícios conforme o perfil dos funcionários.

Os mais jovens preferem que a empresa ofereça qualidade de vida, não altos salários. Profissionais que ainda têm nível médio de formação gostam de desafios profissionais associados com remuneração variável.

Já os mais experientes, encontrarão estímulo se receberem uma participação do negócio. "Não pode é pensar que por ser pequena a empresa não tem calibre para contratar um bom funcionário", analisa o professor do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV, Tales Andreassi.

Mas nenhuma política de benefícios deve ser gratuita. O empresário precisa estabelecer metas claras para extrair o melhor de sua equipe, afinal, será essa força de trabalho que sustentará o bom desempenho dos pequenos negócios daqui pra frente.

Confira abaixo as estratégias adotadas por empreendedores como você para solucionar o problema da falta de talentos. Investindo de 1% a 5% do faturamento em benefícios, eles tornaram seus empreendimentos mais atraentes e, principalmente, multiplicaram o lucro.

Agências reguladoras - o caminho é longo - JOSEF BARAT


O ESTADÃO - 21/12/11



Mais um ano de turbulências nas agências reguladoras.

Não muito ostensivas - sem interferências truculentas, como em episódios do passado -, mas preocupantes o suficiente para induzir uma reflexão sobre o futuro.

Apesar dos avanços inegáveis, a verdade é que, após uma década e meia, essas agências ainda são objeto de controvérsias e incompreensões. Pergunta-se, com frequência, para que servem e que papéis desempenham. No ambiente político são vistas como corpos estranhos, que não se encaixam na tradição patrimonialista e predatória que baliza a administração pública brasileira.

Em geral é difícil entender por que a regulação das concessões de bens ou serviços públicos (ou de bens de consumo coletivo) é necessária. No essencial, trata-se de garantir a modicidade dos preços e o acesso ao consumo; assegurar padrões adequados de qualidade e segurança; definir condições de entrada no mercado; proteger os interesses dos consumidores; além de lidar com externalidades negativas, monopólios naturais e garantir um ambiente de segurança jurídica para investidores, concessionários e produtores.

Sem dúvida, as agências devem implementar as diretrizes emanadas das políticas públicas setoriais de longo prazo.

Mascabe a elas formular normas técnicas, estabelecer mecanismos para monitorar, avaliar desempenho, fazer cumprir normas, coletar informações, auditar, inspecionar, promover mudanças de comportamento, aplicar sanções e promover as atividades reguladas. Devem atuar, inclusive, no sentido de evitar conflitos de interesses entre governo, concessionários (ou produtores) e consumidores, além de proteger esses últimos das assimetrias ou deficiências da informação.

Apesar das especializações setoriais, as agências têm muito mais problemas em comum do que diferenças, começando por limitações impostas pela cultura administrativa e política do País, que tende a tolhera independência nas decisões e a objetividade da regulação.

Além disso,existe a dificuldade de os ministérios entenderem a separação das funções de planeja reformular políticas públicas daquelas de regulação e normatização técnica dos serviços concedidos.

São muitos os riscos que ameaçam as agências, destacando-se o aparelhamento político - partidário e a degradação da qualidade técnica, pela interferência na ocupação de cargos e funções. Já não são incomuns as tentativas de uso político das agências como" feudos"departidos ou fonte de financiamento de campanhas eleitorais.

Não menos importante é a falta de autonomia financeira para o livre exercício de suas funções, o que as torna vulneráveis às pressões do Executivo.

Há, ainda, casos de agências em que a desproporção de peso entre o regulado e o regulador é gritante, estando sempre presente o risco de captura por interesses privados, além de ficarem reféns de pressões do Legislativo para beneficiar setores regulados.

A grande questão para o futuro é como evitar, ou ao menos mitigar, esses riscos.Logicamente, as agências devem ser objeto de auditoria independente, além de submeter relatórios anuais e prestar contas ao Legislativo.Deforma realista, a autonomia não pode se dar à custa de uma coordenação inadequada ou conflito entre o formulador das políticas públicas e o regulador. Como essa fronteira é frequentemente mal definida, o governo insiste em intervir no funcionamento das agências reguladoras, tentando retirar poderes - embora, idealmente, a relação entre o ministério setorial e o regulador deva ser de cooperação, visando ao desenvolvimento do setor regulado.

Cabe às agências se fortalecerem por meio de moderna capacitação técnica e de boas práticas de regulação, mas tendo em vista sempre a estabilidade do sistema regulador como um todo. Devem, ainda, se proteger das interferências nos processos de seleção de recursos humanos, gestão de recursos financeiros e no processo de tomada de decisões, além de maior transparência perante a sociedade. A realidade, no entanto, ainda impõe um longo caminho a percorrer...

Problema de arquitetura - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 21/12/11
SÃO PAULO - A liminar do ministro Marco Aurélio Mello que esvaziou os poderes do CNJ para fiscalizar juízes representa um retrocesso, pois empurra para os tribunais, isto é, para pessoas perigosamente próximas aos investigados, a responsabilidade primária de processá-los.

E isso tende a ser um problema. Como mostra Daniel Kahneman em seu recém-lançado "Thinking, Fast and Slow", nossas mentes operam sob dois registros independentes e complementares. Há o Sistema 1, intuitivo, baseado em sentidos e emoções e que é muito rápido. Não temos de raciocinar antes de recusar comida estragada ou fugir de um predador.

Já o Sistema 2 é analítico e se vale de ferramentas como probabilidades e lógica formal. Ele é abstrato e lento.

Idealmente, um processo judicial seria decidido apenas pelo Sistema 2, que avaliaria o peso das evidências e calcularia o veredicto. Na prática, o Sistema 2 é preguiçoso, dispersivo e ainda se deixa levar por erros às vezes infantis gerados pelo Sistema 1.

Um exemplo chocante da inabilidade humana para julgar vem de um estudo com juízes do comitê que decide os pedidos de liberdade condicional em Israel. Os casos são distribuídos por sorteio e a junta os analisa por cerca de seis minutos. O índice de rejeição é alto: só 35% das condicionais são concedidas.

O problema é que as concessões se concentram no período imediatamente posterior às refeições, quando os juízes estão descansados e bem alimentados. Nesses momentos, 65% dos pedidos são aprovados, contra zero nas horas de maior fome.

Muito do que tomamos como decisões pensadas está contaminado por vieses e caprichos do Sistema 1.

A questão aqui não é confiar ou não nos desembargadores, mas, sim, criar estruturas que sejam o menos vulneráveis possível a influências espúrias, como compadrio, corporativismo e até os níveis de glicemia do julgador. O problema, no fundo, é a arquitetura do cérebro humano.

CLAUDIO HUMBERTO

“É cheque em branco para um governo que demitiu seis por corrupção”
Senador Agripino Maia (DEM-RN), sobre a aprovação da DRU para o governo Dilma

COMPRA DE ARMAS DÁ ROLO NO RIO E EM BRASÍLIA

Conforme antecipou a coluna na segunda (21), a americana ArmaLite ganhou a licitação da Polícia Rodoviária Federal, de 300 carabinas calibre 5.56 por quase R$ 1,3 milhão. Mas não levou: a PRF decidiu cancelar, mas a representante em Brasília vai recorrer. Na Secretaria de Segurança Pública do Rio, também se deu mal: o Ministério Público investiga a compra de fuzis pelo dobro do preço de mercado.

MADE IN USA

Concorrentes apostam, nos bastidores, que a estratégia é essa mesmo: reconsiderar o recurso e dar vitória à americana no fim do ano.

PULO DO GATO

Um agente da comissão técnica da Polícia Civil do Rio que teria, digamos, “apreço” pela ArmaLite, até especificou a arma na licitação.

SURPRESA!

Guido Mantega (Fazenda) garantiu no Estadão que “o Brasil chegou ao fundo do poço em outubro e já saiu”. E deu de cara com... A China. 

‘HERMANA’

A presidente argentina Cristina Kirchner imitou ontem um dos piores momentos da ditadura brasileira: a invasão militar ao jornal Clarín.

MINISTRO DA DEFESA TOMA BRONCA EM RITUAL MILITAR

Segunda (19), após a apresentação dos generais promovidos, a mais rápida da História, Dilma saiu do local ao lado do servilíssimo ministro Celso Amorim (Defesa). Sem ter preocupação de ser ouvida pelos fotógrafos a poucos metros de distância, ela foi ríspida com Amorim: “P(*), quando for assim você tem que me avisar!”. Ele tentou disfarçar, retardando o passo e fingindo risada silenciosa, como se acabasse de ouvir piada, e não uma bronca federal. Mas foi inútil: todos ouviram.

OUVIDOS MOUCOS

Muito nervosa, a assessoria de Celso Amorim disse ignorar a bronca testemunhada pelos fotógrafos, e que “é ótima” a relação entre os dois.

CHÁ DE SUMIÇO

De papagaio de pirata manjado do ex-presidente Lula, Celso Amorim passou à condição de ilustre desaparecido no governo Dilma.

FIM DO MUNDO

Faltam 365 dias para o último dia do calendário Maia. E um pouco menos para selar a sorte de Cesar Maia na eleição municipal do Rio.

CEGO EM TIROTEIO

Promessa ainda não confirmada de liderança oposicionista, o tucano Aécio Neves (MG) passou pertinho de uns setenta jornalistas ontem, pelas 16h20, no Senado, e nem foi percebido. Tampouco os percebeu.

EM DEFESA DO CNJ

Em rara posição uníssona, de Ana Amélia Lemos (PP-RS) a Pedro Taques (PDT-MT), de Humberto Costa (PT-PE) a Pedro Simon (PMDB-RS), o Senado criticou a decisão do ministro Marco Aurélio (STF) de impedir que o Conselho Nacional de Justiça investigue magistrados.

ESVAZIAMENTO

A audiência pública de Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, foi esvaziada ontem no Senado. Da oposição, apareceram apenas Demóstenes Torres (DEM-GO) e Flexa Ribeiro (PSDB-PA).

CORPO A CORPO

O presidente da Associação dos Juízes Federais, Gabriel Wedy, passou o dia ontem de gabinete em gabinete pedindo apoio aos líderes para incluir o reajuste do Judiciário no Orçamento da União.

COMEÇOU?

A célebre blogueira cubana Yaoni Sanchez anunciou, no Twitter, que vários exemplares do jornal oficial Granma foram queimados perto da Praça da Revolução, em Havana. “Queimaram rápido, de tão finos”.

DOR BRASILEIRA

O drama da carioca Miriam comove Loiret, centro da França: os pais juntaram as economias para tratar o raro tipo de epilepsia da jovem em 2007, mas o governo francês ameaça expulsá-los. Uma ONG de deficientes físicos apoia o caso na Justiça. Miriam já vai à escola.

ROMPIMENTO

O senador Rodrigo Rollemberg (PSB) ameaça abandonar a base aliada do governador do DF, o petista Agnelo Queiroz. O senador ainda desdenha do próprio papel de aliado: “Eu nunca fiz parte mesmo...”.

LAMENTO

Houve no Brasil quem ficasse consternado com o falecimento do tirano Kim Jong-il. É o caso da ex-senadora gaúcha Emilia Fernandes, grande admiradora do regime da Coreia do Norte, que visitou várias vezes.

PERGUNTA NO FUNERAL

Aquela choradeira toda dos norte-coreanos no enterro de Kim Jong-il não foi gás lacrimogêneo? 

PODER SEM PUDOR

SOUZA DANTAS, O BREVE

O jornalista Raimundo de Souza Dantas era um discreto funcionário do Ministério da Fazenda, no Rio, e tinha algo que o diferenciava dos colegas: era amigo do presidente Jânio Quadros. Sonhava com a diplomacia. Jânio o nomeou embaixador em Gana (África), mas, três meses depois, renunciaria ao mandato, devolvendo Souza Dantas a sua salinha na antiga repartição. Do contínuo ao chefe, os cruéis colegas não paravam de ironizar:

– Bom dia, embaixador!

– Já bateu o ponto, embaixador?

QUARTA NOS JORNAIS


Globo: Criação de emprego no Brasil tem seu pior momento da crise  

Folha: Ministro do STF deu liminar que o beneficia 

Estadão: Nova suspeita sobre Enem foi ignorada por Haddad 

Correio: Uma rodovia, duas tragédias, cinco mortos 

Valor: Braskem elege Brasil para investir 

Zero Hora: RS disputa R$ 12,t bi Prisões por embriaguez ao volantes crescem 57,9% no RS 

terça-feira, dezembro 20, 2011

Um país se faz... - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 20/12/11


Dilma vai lançar em janeiro, depois das férias na Bahia, o Programa do Livro Popular.
A Biblioteca Nacional já trabalha no projeto. Até a semana passada, já havia catalogado no programa cerca de 4.700 livros com preços até R$10. Sexta, em audiência pública com editoras, livrarias e distribuidoras, apresentou os editais.

Dilma vai a Obama
Martelo batido. Dia 15 de março, Dilma desembarca em Washington para encontro oficial com Obama.

Cimento e tijolo
A Odebrecht superou em 2011 a marca de 160 mil funcionários de 63 nacionalidades diferentes. Saiu de 118 mil.
Ao longo do ano, a empresa contratou uma média de 3 mil trabalhadores por mês, impulsionada por seus negócios no Brasil e pelo crescimento de sua internacionalização.

Pirarucu de gringo
O ministro Luiz Sérgio, da Pesca, assina amanhã documento que legaliza a criação do pirarucu em cativeiro e possibilita, pela primeira vez, sua exportação.
Importadores de Japão, França e Alemanha esperavam há tempos autorização para comprar o peixão brasileiro, considerado o “bacalhau da Amazônia”.

Pancada na Rocinha
A Rocinha será ringue do Jungle Fight, maior evento de MMA da América Latina, que reunirá grandes nomes do esporte e amadores da comunidade interessados em apanhar, perdão, em lutar.
Será dia 21 de janeiro. 

A volta de Agnaldo
O MinC autorizou Agnaldo Rayol, 73 anos, o grande cantor de sucessos românticos como “A praia” e “A noiva”, a captar R$ 1,2 milhão pela Lei Rouanet.
Agnaldo, que trabalhou também como ator e apresentador, vai produzir um CD e um DVD.

O CÉU DO RIO tem dado espetáculo nestes dias de fim de primavera que alternam sol e chuva. Veja estes dois postais capturados pelos leitores Eduardo Franzotti (depois do temporal de sábado)e Ricardo Bins Livi (logo após a chuvarada de sexta). Eduardo estava em São Francisco, Niterói — — de onde (diz uma máxima) se tem a melhor vista do Rio. Ricardo fez sua foto do alto do Corte do Cantagalo 

Memórias de Cacá
Cacá Diegues, 71 anos, está escrevendo suas memórias “intelectuais, artísticas, políticas e pessoais”. O título provisório é “Romance do Cinema Novo”.
Sai em 2012 pela Objetiva. O cineasta centra o texto naquele movimento revolucionário do cinema brasileiro, em sua convivência com os colegas e no momento político dos anos 1960.

Memórias de Judt...
A Objetiva também vai lançar em 2012 “O refúgio da memória”, que o inglês Tony Judt concluiu três meses antes de morrer, em 2010, vítima de esclerose lateral amiotrófica (ELA).
No livro, o historiador lembra as revoltas estudantis de 1968, em Paris, e as divergentes políticas sexuais da Europa.

Quintana eterno...
Outra aposta para 2012, pelo selo Alfaguara, é o relançamento da obra de Mário Quintana:
Serão cinco títulos — um deles, uma compilação inédita.

Meu, seu, nosso
O MP do Rio entregou à Justiça ação em que pede a condenação de 12 agentes públicos de Magé, RJ, por “improbidade administrativa e abuso de poder político”.
Entre os acusados, o ex-prefeito Anderson Cozzolino, vereadores, secretários e servidores.

Encostas do Rio
Sai hoje no DO da prefeitura: a GeoRio abrirá licitação para obras de contenção de encostas no Parque Nacional da Tijuca e em 11 pontos da cidade nas zonas Norte e Oeste.
O investimento, de uns R$ 52 milhões, vem do PAC 2.

Pega ladrão
Stephen Bocskay, brasilianista americano, namorado da atriz Giulia Gam, desembarcou domingo no Galeão, às 10h05m, de um voo da Delta, e... surpresa.
Sua mala chegou cortada, provavelmente por faca, sem seu anel de formatura. Stephen vai cobrar o preju na Justiça.

As terras de Eike
Outro dia, Eike Sempre Ele Batista foi surpreendido por um grupo, em Campos, RJ, no restaurante Picadily.
Era uma turma de São João da Barra que chiava de desapropriações em favor de empreendimento do empresário.

Fugiro Nakombi
Um parceiro da coluna é testemunha ocular da história.
Dias atrás, o prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, não conseguiu jantar num restaurante japonês da Região Oceânica de sua cidade. Muito vaiado, teve de sair para, digamos, não virar sushi.

FÃ DE XUXA desde, digamos, “baixinho”, Thiago Abravanel, o neto de Sílvio Santos que brilha como Tim Maia no teatro, recebe, cheio de emoção, a apresentadora nos bastidores do Casa Grande

JÚLIA LEMMERTZ e Sophie Charlotte, as queridas atrizes, posam num intervalo das gravações de “Fina estampa”, a novela da TV Globo, no Projac

PONTO FINAL
Gente malvada espalha na internet que nosso talentoso ator Pedro Cardoso e a francesa Christine Lagarde, diretora do FMI, são a mesma pessoa disfarçada de Agostinho, da “Grande família”. A coluna esclarece que é mentira. Com todo o respeito.