terça-feira, dezembro 06, 2011

O país das corporações - HÉLIO SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 06/12/11

SÃO PAULO - Foi só o STF declarar a inconstitucionalidade da exigência de diploma de jornalista para o exercício da profissão que políticos de todos os naipes se articularam para reintroduzi-la, dessa vez via emenda constitucional. Se a proposta que tramita no Senado for em frente, o mais provável é que volte a ser analisada pela corte, com boa chance de ser derrubada outra vez.

A insistência com que se volta ao tema, porém, é reveladora de um dos grandes problemas do Brasil: assombrados por um espírito levemente fascista, não nos vemos como cidadãos de uma República, mas como representantes de uma determinada categoria profissional ou segmento social que seria detentor de "direitos naturais". Nesse esquema, a ação política consiste em inscrever em lei as reivindicações oriundas desses "direitos" e esperar que o Estado as implemente. Viramos o país das corporações.

A dificuldade é que, como todo mundo faz o mesmo, o arcabouço legislativo se torna uma barafunda de reivindicações sindicais promovidas a norma geral. Elas são tantas que fatalmente se chocam. É nesse contexto que se inscrevem as guerras entre médicos e enfermeiros em torno das casas de parto ou entre psiquiatras e psicólogos pelo direito de diagnosticar. Pior para os pacientes e para a sociedade.

Para provar que não exagero, uma rápida consulta às bases de dados do Congresso revela dezenas de projetos de regulamentação de ofícios.

Apesar de a Constituição afirmar que a regra geral é a do livre exercício de profissões, legisladores buscam regular (e, portanto, restringir) as carreiras de modelo de passarela, filósofo, detetive, babá, escritor, cerimonialista, depilador etc. Já resvalando no reino da fantasia, busca-se também disciplinar a ocupação de astrólogo e terapeuta naturista.

Pergunto-me como nossos parlamentares puderam esquecer de Papai Noel e das indispensáveis fadas.

Ricos no governo - LUIZ GARCIA


O Globo - 06/12/2011

Para não dizerem que a gente só fala mal do governo: a presidente Dilma reagiu corretamente à notícia de que o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, embolsara R$2 milhões em serviços de consultoria nos dois anos anteriores à posse no ministério.

Ela mandou que o ministro fosse para Brasília ainda no fim de semana - o que costuma ser castigo cruel para o pessoal do primeiro escalão - para explicar a origem desse dinheirão.

"Você não tem nada a esconder", disse ela a ele. Pois, imaginem só: pelo visto e provado, estava certa. Pimentel mostrou ao GLOBO cópias de seus contratos com a Federação das Indústrias de Minas Gerais e com uma firma particular. E provou que, descontando impostos e os custos de sua empresa, ganhara mesmo R$1,2 milhão. Ficou bem claro que Pimentel não é nenhum Palocci. Se há desmemoriados na plateia, lembremos que Antonio Palocci chefiou a Casa Civil de Dilma até que a imprensa botou a boca no trombone a propósito da veloz multiplicação de seu patrimônio pessoal. Pois vamos guardar na memória também que não há só Paloccis nos gabinetes de Brasília. Em qualquer governo.

O jornal e a opinião pública têm direito ao álibi de que, em tempos paloccianos, a gente tende mesmo a mais desconfiar do que confiar na lisura do comportamento da turma do primeiro escalão. E do segundo e do terceiro também.

Mas é preciso reconhecer que se trata de álibi frágil e injusto: a existência de um Palocci - de cuja desonestidade, também é preciso lembrar, ninguém no Palácio do Planalto parecia desconfiar - não autoriza a mídia e a opinião pública a acreditarem que o primeiro escalão do governo, o atual ou qualquer outro, está infestado por Paloccis.

A reação da presidente e de seu ministro foi correta: uma simples explicação costuma valer bem mais do que uma tonelada de indignação. Note-se que a informação publicada não era errada - mas é preciso reconhecer que o tom era de denúncia. Afinal de contas, quando a gente publica com destaque que alguém ganhou um dinheirão, e não foi apostando na sena, a sugestão implícita é a de que alguma coisa está cheirando mal.

Pois, no caso de Pimentel, não estava. Ficou a lição de que existem cidadãos endinheirados na vida pública - e que se endinheiraram antes de entrar nela.


Lupi cavou um abismo com os próprios pés - GIL CASTELO BRANCO


O Globo - 06/12/2011

É possível que, ao declarar-se à presidente Dilma, o ex-ministro Carlos Lupi tenha se inspirado na Legião Urbana, uma das melhores bandas brasileiras de todos os tempos. Uma das músicas mais conhecidas do grupo é "Pais e filhos", cuja letra traz um sábio conselho:

"É preciso amar
Como se não houvesse amanhã."

O amanhã existe. Pode demorar horas, dias, anos ou vidas, mas chega. O amor, por outro lado, ao contrário dos contos de fadas, nem sempre é sublime, incomensurável e pode ter graduações. O poeta Affonso Romano de Sant"Anna comentou, em crônica: "O melhor amor é o que desperta em nós os nossos melhores sentimentos." Isso é intrigante, pois sugere a existência de amores melhores e piores.

Pura verdade! Há casos em que o amor, de tão ruim, mata.

Com Pablo Picasso era assim. Casou-se sete vezes, mas algumas de suas mulheres se suicidaram, outras enlouqueceram. A convivência era massacrante. Tão logo vivia um novo amor, Picasso retratava-o em suas telas, mas quando a paixão ia embora pintava imagens distorcidas e até monstruosas. Suas mulheres sabiam quando estavam sendo trocadas simplesmente ao observar os seus trabalhos. O poeta francês Paul Éluard chegou a dizer: "Picasso ama intensamente, mas destrói o que ama."

Como a arte e a vida estão interligadas - no melhor e no pior - é até possível que exista algo de Picasso em Lupi. A sua insistência em manter-se no cargo fez muito mal à sua "amada", ao seu partido e ao governo. Caso houvesse solicitado afastamento assim que surgiram as primeiras denúncias da revista "Veja", teria evitado o constrangimento a que Dilma foi submetida, ao receber carta inédita da Comissão de Ética Pública recomendando-lhe a exoneração.

Aliás, a Comissão fez o que já deveria ter feito em ocasiões semelhantes. Advertiu formalmente o então ministro, sob o ponto de vista ético, e propôs a sua demissão. Afinal, até hoje ninguém sabe quem pagou o jatinho particular que conduziu o ministro pelo interior do Maranhão.

Não havia saída. Se viajou a trabalho, não poderia aceitar carona em avião arranjado pelo diretor de uma ONG, algo proibido pelo Código de Conduta da Alta Administração Federal. Na hipótese de ter viajado a serviço do seu partido, não poderia ter recebido diárias do ministério.

No rol de denúncias, também constava a acumulação de cargos públicos em Brasília e no Rio de Janeiro, dezenas de convênios da Pasta com instituições privadas dirigidas por militantes do Partido Democrático Trabalhista (PDT) e relatos de pedidos de propinas por alguns de seus assessores, com a finalidade de criar sindicatos ou evitar transtornos para as ONGs que prestavam serviços ao ministério.

Na semana passada, de forma surpreendente, Dilma pediu mais detalhes à Comissão de Ética, protelando o inevitável. O que niguém entendeu foi o porquê de Dilma ficar por tanto tempo prisioneira desse "amor" destrutivo. É provável que tenha levado em conta o início de sua vida política no PDT e o receio de ver a Força Sindical na oposição. Há quem tenha pensado na votação da Desvinculação das Receitas da União (DRU), fato que a torna, de certa forma, refém dos partidos aliados. Há, ainda, os que imaginaram que a presidente não queria antecipar o rodízio ministerial que promete acabar com as "capitanias hereditárias".

Seja como for, Dilma sentiu-se intimidada quando a faxina chegou a um dos cômodos mais sujos. A hesitação provocou reflexos negativos na sua imagem de não compactuar com a corrupção. Era a bala de prata que faltava. O ministro, que se gabava de interromper a sequência de demissões, cumpriu o ritual dos anteriores - saiu na noite de domingo. Com as suas bravatas, somente agonizou um pouco mais.

Neste episódio, o "amanhã" demorou, mas chegou. O ministro Lupi já não era "correspondido". Era um fantasma vagando pela Esplanada, completamente desmoralizado. Devia sentir ansiedade em cada telefonema do Palácio ou mesmo na ausência deles. Começava o dia lendo o Diário Oficial da União à procura do seu nome na relação dos exonerados.

Ainda que tarde, a presidente fez bem ao dar fim à novela. É possível que ao fazê-lo tenha se recordado da declaração de "amor" do ministro e do recado de um dos maiores compositores da música popular brasileira, o inesquecível Cartola. No seu clássico "O mundo é um moinho", em versos ele canta:

"De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés..."

Recuo preventivo - RENATA LO PRETE

FOLHA DE SP - 06/12/11

Cientes das divisões internas do PDT e preocupadas com o interesse de alguns petistas e da CUT na substituição de Carlos Lupi, as demais centrais, lideradas pela Força, já admitem patrocinar uma indicação "estrangeira" ao Ministério do Trabalho. O nome em discussão é o do senador Francisco Dornelles (PP-RJ), que chegou a ser sondado pelo Planalto como opção para a prevista reforma no primeiro escalão.

Com a manobra, os não-cutistas se protegeriam de perdas com eventuais mudanças na pasta, responsável pela aferição da representatividade das centrais, base de cálculo para os repasses da contribuição sindical.

Semântica Na carta de demissão, Lupi usou o termo "divulgação" ao mencionar o parecer da Comissão de Ética, decisivo para sua degola. Assim como Dilma, ele questiona a publicidade dada aos trabalhos do colegiado.

Intervalo No domingo, Lupi se dividiu entre a redação da carta e a rodada final do Campeonato Brasileiro.

O alvo Chama a atenção do Planalto o fato de que a reforma ministerial dos sonhos do PT sacrifica sobretudo o PSB. A sigla de Eduardo Campos perderia Integração e Portos, ganhando em troca apenas Ciência e Tecnologia.

Quero ser grande Petistas lembram que Campos avisou, na convenção feita para reconduzi-lo à presidência do PSB, que lançará 1.500 candidaturas em 2012 e não aceitará ingerência de aliados nas escolhas regionais.

Anote aí De um aliado, ao saber que Dilma rejeita acordo com a oposição na votação da emenda 29, enquanto o Planalto se dispõe a resolver pendências individuais de senadores: "Eles vão agir no varejo".

Meio mundo Ministros foram escalados para controlar o apetite da base aliada por emendas à DRU. Se a oposição conseguir 27 assinaturas para qualquer aditivo, a tramitação terá novo atraso.

Vermelho vivo O presidente do PT, Rui Falcão, e o marqueteiro João Santana mostraram ontem a Lula o programa de TV que o partido levará ao ar nesta quinta-feira. Trata-se, segundo Falcão, do programa "mais petista" feito pela sigla em anos recentes. Lula aprovou.

Menos, menos A tática de adotar Fernando Haddad (PT) como alvo imediato e prioritário, exercitada pelos pré-candidatos Bruno Covas e Ricardo Trípoli na sabatina Folha/UOL, não é consenso no PSDB. Os críticos apontam duas contraindicações: assumir prematuramente a necessidade de aliança com o PSD e empurrar Gabriel Chalita (PMDB) para o bloco petista.

Afinidades 1 Alberto Goldman procurou dirigentes do PSDB-SP para reclamar de Bruno Covas. Para o ex-governador, ele estaria dinamitando pontes com Gilberto Kassab (PSD) ao criticar a "política higienista" que teria sido praticada na capital.

Afinidades 2 Embora o senador Aloysio Nunes, defensor da aliança com o PSD, ainda não tenha declarado apoio a nenhum dos pré-candidatos tucanos, sua equipe está mergulhada na campanha de Andrea Matarazzo.

Percepções Após levantamento de intenção de voto, a Analítica Consultoria fará pesquisas qualitativas sobre os pré-candidatos do PSDB. Aparições em sabatinas e seminários serão usadas para testar a imagem dos quatro.

Pai da matéria O juiz Fausto de Sanctis fala amanhã em seminário do Ministério da Justiça sobre lavagem de dinheiro no futebol.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"A mulher que demitiu Carlos Lupi do Ministério do Trabalho não foi a presidente Dilma Rousseff, e sim a baiana Marília Muricy."

DO DEPUTADO JUTAHY JÚNIOR (PSDB-BA), creditando o desfecho da arrastada novela à relatora da Comissão de Ética que recomendou a exoneração tanto pelo acúmulo de irregularidades como pela "falta de zelo" do pedetista.

contraponto

Maior absurdo

Em sessão da Assembleia paulista, na quinta-feira passada, deputados discutiam os reflexos do caso Controlar, que resultou no bloqueio de bens de Gilberto Kassab (PSD), a partir de ação movida pelo Ministério Público para contestar a licitação da inspeção veicular.

Disposto a mostrar solidariedade ao prefeito paulistano, seu aliado Gilmaci Santos, do PRB, foi à tribuna e disparou, cheio de indignação:

-O que fizeram com o prefeito Kassab não se faz nem com um ser humano!

Mais rigor, menos mesquinharia - FABIO GIAMBIAGI

O GLOBO - 06/12/11

Uma das características da balbúrdia ideológica em que o Brasil mergulhou nos últimos tempos é a ausência de um debate preciso acerca das escolhas do país. Não tenho nada contra - muito pelo contrário - a identificação de elementos em comum entre diferentes forças políticas. Várias vezes escrevi em favor da procura de consensos, e o fato de existirem grupos diferentes que se revezam no poder e comungam certas políticas fala bem de um país. As boas relações da presidente Dilma com FHC fazem bem à alma nacional. Sou de ascendência da Argentina - onde a recusa a sentar à mesa com quem pensa diferente é cultuada como valor pelos mais diferentes grupos - e a vida me ensinou a ter ojeriza àqueles que fazem da intransigência um estilo de vida. Na democracia, não há nada melhor que o diálogo civilizado.

Isso é uma coisa. Mistificação, porém, é algo diferente. O PP e o PSOE na Espanha, a democracia cristã e os social-democratas na Alemanha ou, aqui perto, a direita de Piñera e a esquerda de Lagos e Bachelet podem se revezar no poder e conservar um conjunto importante de políticas de Estado - e não do governo A ou B -, mas deixando claro o que muda e o que não muda, reconhecendo os méritos do adversário e definindo bem quais políticas são patrimônio coletivo da sociedade e qual é a contribuição efetiva que cada partido dá ao país nos anos em que exerce o poder.

Uma das coisas que é preciso esclarecer no Brasil é a questão do "modelo de desenvolvimento". O que acabou por se estabelecer como "sabedoria convencional" é que o governo FHC teria tido uma preocupação "obsessiva" com o ajuste e teria "arrochado" o gasto público e que depois de 2003 teria havido maior distribuição de renda e uma política fiscal voltada para a maioria da população. Em outras palavras, que um modelo "concentrador de renda" teria sido substituído por um modelo "desenvolvimentista".

A teoria dominante é que isso teria se dado em função, basicamente, de três coisas: a) o maior aumento do gasto público, livre das "amarras do FMI"; b) a política de valorização do salário mínimo; e c) o compromisso oficial com a melhora da distribuição de renda. Tal argumentação me traz à memória a frase de um antigo professor meu de História Econômica, que contestando a interpretação de um famoso livro sobre a evolução econômica do país, dizia, com fina ironia: "A explicação é muito bonita; claro que seria melhor ainda se fosse verdadeira."

Nada daquilo dito acima corresponde à verdade, uma vez que os dois governos foram muito parecidos nesse sentido: o gasto primário cresceu em termos reais em torno de 5% a.a. em cada um dos dois governos (FHC e Lula) e, em ambos, com predomínio do gasto social; o salário mínimo aumentou, para ser preciso, a uma média real anual de 4,7% nos oito anos de FHC e de 5,5% nos oito anos de Lula (o que, convenhamos, não é uma diferença que caracterize uma "mudança de modelo"); e c) o Índice de Gini das pessoas ocupadas com rendimento, conforme a PNAD, caiu de 0,60 para 0,56 com FHC e de 0,56 para 0,52 com Lula.

O governo Lula trouxe ao Brasil ganhos inquestionáveis. Entre outras coisas, eliminou a dívida externa líquida, reduziu em 1/3 a dívida líquida do setor público, e no seu governo houve um boom do emprego e a formalização do mercado de trabalho aumentou muito. Seus defensores não precisam fazer alusões a respeito de "mudanças de modelo" nem criticar as "políticas neoliberais" para fazer a apologia do período 2003/2010. Mais rigor e menos mesquinharia fariam bem ao debate. E, principalmente, aqueles que se animaram com as políticas - essas sim, diferentes - implementadas no contexto da crise de 2009 deveriam lembrar Terêncio - antigo dramaturgo de Cartago, que dizia que "hoje há grande demanda de pessoas que fazem o errado parecer certo" - e saber que, se o aumento real do gasto não for contido, o Brasil poderá pagar um alto preço daqui a alguns anos; se tiver que financiar um déficit em conta-corrente, que poderá chegar a US$100 bilhões/ano, e o resto do mundo nos perguntar, espantado ao constatar o dolce far niente local em matéria de reformas depois de 2003: "Mas o que vocês fizeram para se preparar para o futuro, nos anos dourados em que os astros sorriram tanto para o Brasil?"

Mulheres de antenas - DORA KRAMER


O ESTADÃO - 06/12/11

Celebrada na condição de primeira mulher presidente do Brasil, Dilma Rousseff até agora deixou passar seis oportunidades de atuar em consonância com a expectativa corrente em relação às mulheres, de maior rigor na vida pública.

Uma maneira de fazer isso seria mostrar genuína disposição de liderar um processo de mudança nos critérios de funcionamento do governo de coalizão.

Duas mulheres deram exemplos recentes nos quais Dilma ainda dispõe de tempo para se mirar: Eliana Calmon e Marília Muricy, baianas conectadas com a necessidade de não se deixar o Brasil, por mais sucessos que tenha na economia, perder-se nos desvãos da desqualificação moral.

Ambas demonstraram coragem e firmeza efetivas para sacudir nichos até então intocados. Eliana, corregedora do Conselho Nacional de Justiça, com suas diatribes sobre a conduta de magistrados, lança alguma luz sobre a caixa-preta do Judiciário. Faz a diferença.

Marília, autora do relatório que recomendou a saída de Lupi, deu sentido à Comissão de Ética Pública que desde a criação, no governo Fernando Henrique, nunca havia sido contundente na tarefa de zelar pela confiabilidade dos ocupantes de cargos no primeiro escalão federal.

Tanto uma quanto outra recebem críticas daqui e dali, mas mantêm suas posições. A corregedora a cada dia aponta com clareza uma deformação no Judiciário e a conselheira, quando confrontada com a insatisfação do Palácio do Planalto a respeito do voto – aprovado por unanimidade pelo colegiado –, reafirmou a posição.

No caso da presidente da República, suas ações têm implicações mais amplas, evidente. Até certo ponto são compreensíveis as dificuldades políticas que enfrenta.

Não é do dia para a noite que se vira de cabeça para baixo um sistema herdado, em vigor há muito tempo e, sob a ótica do pragmatismo extremo – governamental e eleitoralmente falando –, vitorioso. Por isso mesmo a presidente conta a seu favor com o benefício da dúvida.

Até agora Dilma Rousseff não tem seguido a trilha da ousadia. Para efeito de propaganda ela é a dona da dita “faxina”, mas no confronto com a realidade o que emerge de fato é a tomada de decisão a reboque dos fatos e a manutenção das igrejinhas nas mãos dos mesmos párocos.

Na reforma, ela pode mudar essa situação. Tudo vai depender da escolha que fizer: inovar ou deixar tudo mais ou menos como está, na suposição de que o time, sendo vencedor, deve continuar obedecendo as mesmas regras.

O que a presidente pensa sobre a reforma não se sabe. Ela tem consultado alguns ministros, Gleisi Hoffmann, José Eduardo Cardozo e Fernando Pimentel, conversa a respeito com o vice-presidente Michel Temer, obviamente deve se aconselhar com o ex-presidente Lula, mas até agora nada transpirou a respeito do essencial: a adoção de critério mais profissional para a nomeação de ministros.

Embora as apostas em Brasília apontem para alterações meramente pontuais, não se pode perder a esperança de Dilma nos reservar uma boa surpresa, conferindo conteúdo substantivo à sua gestão, a fim de que a condição de primeira mulher presidente do Brasil não seja um dístico vazio.

Atarefada

Versão corrente no Palácio do Planalto para explicar porque Dilma não demitiu Carlos Lupi na quinta-feira, quando foi anunciada a recomendação da Comissão de Ética Pública: ocupadíssima com o pacote de medidas de incentivo ao consumo e os preparativos da viagem à Venezuela, a presidente preferiu deixar para “tratar desse problema na segunda-feira”.

Cerimonial

Há duas vantagens, na visão do governo, na nomeação do secretário executivo Paulo Roberto Pinto como interino no Ministério do Trabalho: a presidente não abre espaço agora para a disputa do lugar e também evita a cerimônia de posse, com a presença de Lupi e os elogios de praxe ao demitido.

Desta vez qualquer desagravo, por mais formal que fosse, soaria especialmente constrangedor.

O mundo e a fome - CARLOS HEITOR CONY


FOLHA DE SP - 06/12/11
RIO DE JANEIRO - Mais alguns dias e Dilma Rousseff estará completando o primeiro ano de governo. É cedo ainda para uma perspectiva crítica, mas tempo bastante para alguns comentários.
Que muito trabalha, é verdade. Quase todos os dias, ela preside alguma cerimônia, assina isso e aquilo, trata dos idosos, das crianças, das florestas, da educação e da saúde. Mas a maior parte de seu expediente parece ser a tal faxina que não termina nunca, a política menor de cargos e comissões para consolidar sua base no Congresso e na mídia.

No fundo, é como se ela ainda não tivesse tomado posse. Nada fez de reprovável até agora, mas de positivo só temos intenções, as melhores possíveis, uma vez que já estão estabelecidas na Constituição.

Segundo os entendidos, entre os quais não me incluo, a situação do Brasil é boa, quase ótima diante das crises que ameaçam o mundo.

Em breve, se não estou enganado, seremos nove bilhões de habitantes neste planeta tão ameaçado, havendo nessa contabilidade mais de um bilhão de famintos.

O Brasil, que tem potencialmente a China como sua maior parceira, precisa produzir mais, principalmente no setor agrícola. Seria a hora não para uma simples reforma, mas para uma revolução agrária, na qual estaria embutida a reforma.

O sonho de JK era fazer na agricultura o mesmo que fizera no setor da industrialização e da infraestrutura. A história impediu que ele voltasse ao poder, mas já tinha estruturado um programa de metas para executar, metas concretas, com prazos e recursos que, bem empregados, poderiam transformar o país numa potência agrária.

Dilma dá tiros em várias direções, inclusive no social, que é importante, mas falta-lhe um eixo de atuação muito além da faxina prometida e ainda não concluída.

Fim de linha - JOSÉ PAULO KUPFER


O Estado de S.Paulo - 06/12/11


Está prevista para hoje a divulgação, pelo IBGE, da evolução do PIB, no terceiro trimestre de 2011. Mas já se sabe faz algum tempo que será zero ou muito perto disso, em relação ao trimestre anterior - e um crescimento abaixo de 2,5% sobre o mesmo período de 2010. Quando o Banco Central, em fins de agosto, começou o atual ciclo de corte nos juros básicos, com o objetivo de aliviar os freios da economia, o trem já vinha reduzindo a marcha.

As primeiras informações oficiais definidas para o quarto trimestre - as referentes à produção industrial em outubro, que completou três meses de quedas consecutivas - não apontaram para recuperação, nos últimos três meses do ano. Nas estimativas dos departamentos de pesquisas econômicas dos bancos e das consultorias, o PIB do quarto trimestre mostrava uma expansão de 0,5% ante o terceiro. Mas, pelo andar da carruagem, depois do resultado da indústria em outubro e dos indícios colhidos em novembro, não seria surpresa se o crescimento, entre outubro e dezembro, se limitasse a 0,3% ou até menos.

Evidências de enfraquecimento da atividade econômica podem ser obtidas na própria ação do governo. Além do afrouxamento na política monetária, Brasília voltou a oferecer medidas de desoneração fiscal, dirigidas a setores específicos. As providências deixam transparecer onde a redução do ritmo econômico já é bem nítida - por exemplo, a produção de eletrodomésticos da linha branca. Mas o impacto das medidas sobre os números do crescimento tende a ser limitado. Todas as projeções apontam para um PIB de 3% em 2011 - talvez um pouco menos, muito dificilmente um pouco mais, mesmo com os estímulos recentes.

Parece claro que a atual ação do governo se inspira no êxito da política de estímulo ao consumo que evitou o aprofundamento da retração na esteira do colapso de 2008 e abriu espaços para a forte recuperação de 2010. A dúvida é se esse movimento terá agora o mesmo efeito positivo observado naquela circunstância. Dúvida ainda maior paira sobre a consistência e a durabilidade dessas ações pontuais.

Não há disponível, pelo menos por enquanto e a não ser nos exercícios de projeção do governo, estimativas de expansão do PIB em 2012 acima de 3,5%. Só essa perspectiva de crescimento limitado é suficiente para evidenciar que ações de momento, voltadas para enfrentar choques externos, tendem a no máximo manter o ritmo atual e evitar freadas mais bruscas. Escapar de uma etapa de crescimento apenas sofrível exigirá mais do que vem sendo feito.

Deveria começar por um esforço para fugir da tentação de atribuir todas as dificuldades à crise global. É claro que o quadro internacional adverso, por variados canais de contágio, dificulta as coisas e impõe constrangimentos à expansão econômica doméstica. Mas, antes disso, é provável que ele apenas antecipe impasses e potencialize contradições que nos dizem exclusivo respeito.

Faz sentido, então, indagar se a tendência futura da economia brasileira não é a de permanecer em zona de crescimento modesto menos pela contaminação da grave crise internacional do que pelo esgotamento de um ciclo autônomo de expansão. Esse ciclo seria caracterizado pela inclusão de massas de consumidores ao mercado, via transferências de renda, e teria batido no muro por não ter sido acompanhado, no tempo e no volume requerido, pela expansão do investimento. Atribuir os maus resultados macroeconômicos do terceiro trimestre - todos os componentes da demanda agregada recuaram no período - às atribulações da economia global, em resumo, pode ser um caminho seguro para continuar a rodar em falso.

São muitas e complexas, se o diagnóstico estiver correto, as implicações desse fato para a política econômica. Uma das mais imediatas delas é indicar que ao governo não caberia apenas ligar e desligar o botão de estímulos ao consumo, conforme as circunstâncias do momento. Teria de ser dada prioridade efetiva à expansão do investimento, com a toda trabalheira derivada da aplicação dessa decisão à vida real.

Trata-se de tarefa árdua, que não se limitaria ao já difícil afazer de arrumar as suas contas correntes para abrir espaços aos investimentos públicos - pré-requisito na indução do investimento privado. Além de azeitar os canais de financiamento, com linhas adequadas, a custo compatível e de acesso facilitado, exigiria recuperar a capacidade perdida de desenhar bem e gerir com eficiência os grandes projetos estruturantes de desenvolvimento - dos quais o projeto de transposição do rio São Francisco, caindo pelas tabelas, como mostrou reportagem do Estado, no domingo, é um exemplo de como não fazer.

Em busca do novo - FELIPE SALTO

FOLHA DE SP - 06/12/11

Tomara que as prévias sejam sinal de que a oposição tenha acordado para a importância de responder a uma sociedade que clama em busca do novo



"(...) Se não for possível o sabor do fruto, ao menos que nos sobre o aroma da flor. Se não pudermos contar com o aroma da flor, que nos sobre pelo menos a beleza do orvalho sobre a folha. Mas, se nem isso for possível, que nos fique o vigor, a multiplicação contida na semente, assim como a esperança será o nome deste partido que nasce hoje." - Mário Covas, na fundação do PSDB, no ano de 1988.

No próximo ano, teremos eleições para prefeitos e vereadores. O PSDB, com o objetivo de escolher democraticamente um candidato à Prefeitura da capital paulista, sinalizou que fará eleições prévias.

O acerto na provável adoção dessa estratégia reside em dois motivos: a mobilização do partido e, principalmente, a abertura de espaços políticos para a formação de novos grupos pensantes, de novas propostas para São Paulo e para debater a política, a participação, os governos, o Estado, a administração pública e o país.

Trata-se do resgate do espírito presente na fundação do partido, da esperança, da certeza de que é papel fundamental do PSDB exercer, neste momento, uma oposição dinâmica, capaz de agregar pessoas e formular propostas.

As eleições prévias, por si só, não significam avanço, mas abrem caminhos e estimulam a disputa, motivando a militância e os simpatizantes e, com eles, mobilizando a sociedade. Com isso, o embate prévio de ideias, propostas e candidaturas acaba por se tornar uma verdadeira plataforma a envolver aqueles que desejam exercer o direito político de ajudar a formular um novo projeto para sua cidade.

O espaço para a renovação. A oportunidade para a inovação. Eis as duas asas que se podem avistar nessas prévias, a partir das quais poderão ser alçados novos voos em direção à constituição de um projeto maior para o país.

Tai voos devem ser alçados sob um olhar que não considere apenas a distribuição de renda e o crescimento como objetivos de uma nação, mas também a qualidade de vida, a preservação do meio ambiente, a justiça social, a sustentabilidade, a capacidade de dar resposta aos problemas postos pelas sociedades modernas, a constituição de políticas públicas inovadoras, em que se ouça a voz do povo, e não apenas a dos grupos de interesse.

Há a oportunidade para erigir um Estado que, a partir das conquistas democráticas, sociais e econômicas, avance em direção à modernização, à transparência e à aproximação com o cidadão.

As eleições prévias nos motivam à busca do novo, da renovação, do abandono do Estado antigo, das práticas que prejudicam a vida em sociedade, a vida fraterna, a vida que gera bem-estar. O abandono, portanto, do Estado que reforça a corrupção e a confusão entre interesses privados e públicos, pelo abraço ao Estado capaz de inovar.

Oxalá as prévias sejam o sinal de que a oposição tenha acordado para a importância de responder a uma sociedade que clama em busca do novo. Que volte, efetivamente, a criar raízes, a formar bases, a fazer uma nova política e a trazer a sociedade ao despertar de um novo amanhecer!

Dilma, a blindada, e empresários - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 06/12/11

"Intervencionista", "dura", com ministros caindo pelas tabelas, presidente é ainda popular no empresariado


É RARO ouvir de empresários e da alta direção de empresas queixas muito hostis contra Dilma Rousseff. Aliás, não se vê oposição dura à presidente em quase parte alguma.

A oposição partidária é quase invisível, ainda mais depois que Gilberto Kassab (PSD) e Eduardo Campos (PSB) sangraram PSDB e DEM.

Transcorrido um quarto do mandato da presidente, as críticas pontuais mais agressivas e públicas do mundo empresarial vieram, por exemplo, de importadores de automóveis, devido ao Imposto de Importação. Mas se trata de minoria.

Houve críticas agressivas, mas reservadas, da cúpula do mercado financeiro, muito irritada com a intervenção do governo nas Bolsas e com controles de capitais. Porém, discretamente, como de costume, governo e mercado se acertam.

A julgar pelo jeitão meio intervencionista (em economia) e duro (nas negociações) da presidente, era razoável esperar mais conflito, ainda que "nas internas", no "bastidor".

Dado, além do mais, que o governo perdeu seis ministros devido a rolos vários, havia motivo e razões para basear críticas e ações de desgaste político do governo. Não vem ao caso que empresários não deem ou não dessem a mínima para as malversações nos ministérios. As vergonheiras do Planalto serviriam de instrumento para cutucar politicamente o governo, caso houvesse insatisfação ou interesse maiores.

Mas Dilma, o governo e PT e "base" parecem coisas completamente diferentes. Dilma, por alguma graça, está blindada, como diz o clichê.

Mais que isso, conta com apoio até muito direto da cúpula empresarial. Jorge Gerdau, um líder empresarial discreto mas muitíssimo influente, assessora a presidente com análises e sugestões de reforma da administração pública.

O Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Empresarial), um think tank da indústria, é pró-Dilma nas ideias ("desenvolvimentistas") e em pessoas (seus líderes conversam bem com os governos petistas desde Lula). O presidente da combalida Fiesp é Paulo Skaf, do PMDB, da "base governista".

As grandes empresas quase todas foram bem tratadas no BNDES. Os discretíssimos empreiteiros estão felizes. Muita vez, eles e Dilma são aliados fortes nos embates com Ibama, índios, procuradores etc.

O pessoal da construção civil ficou meio amuado neste ano devido ao corte nos investimentos federais e aos atrasos no Minha Casa, Minha Vida, mas em linhas gerais está de bem com o governo.

O pessoal do grande comércio parece não ver crise alguma -nem poderia, ao contrário do pessoal da indústria, bem avariada por câmbio, juros altos, restrição de crédito e crise econômica no mundo rico.

Mas mesmo os industriais estão mais quietos. Ouve-se menos queixa contra o câmbio. Um setor ali e outro aqui recebe isenções de impostos. As associações de pequenas empresas ficaram felizes com a nova legislação do Simples. Os exportadores vão ver, enfim, a cor de parte de seus créditos tributários.

O setor teórica e ideologicamente adversário das ideias mais estatizantes de Dilma, parte da grande finança (ex-amigos de Antonio Palocci), não está amuado nem de longe o bastante para criar caso. Aliás, parte da grande banca privada é muito simpática a Dilma.

Há as queixas sempiternas a respeito de juros, impostos e reforma tributária. Mas o juro real "nunca antes" foi tão baixo. Reforma tributária, por sua vez, é apenas uma lenda, como o Curupira, que anda para trás quando parece avançar.

Afora poucos "indignados" com corrupção, os nativos estão quietos, felizes com o PIB que evolui à base de consumo, não de investimento.

CLAUDIO HUMBERTO

“Vocês já destilaram todo o seu ódio”

Carlos Lupi a jornalistas, fulminado por denúncias de corrupção e mentiras flagradas

PLANALTO: ACUSAÇÃO CONTRA PIMENTEL É FOGO AMIGO

O Planalto já mapeou as denúncias de supostas irregularidades contra o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento Industrial) e concluiu que se trata de “fogo amigo”. As acusações seriam obra da ala xiita do PT-MG, do deputado estadual Rogério Correia, que se opôs à aliança PT-PSDB-PSB, vitoriosa na eleição municipal de Belo Horizonte, em 2008. Correia nega, atribuindo as denúncias ao PSDB de Aécio Neves.

LIDERANÇA INCÔMODA

Os xiitas do PT também estariam preocupados com pesquisas em que Fernando Pimentel lidera a corrida para o governo mineiro, em 2014.

TRÁFICO DE INFLUÊNCIA

Fernando Pimentel é acusado de “tráfico de influência” na prefeitura de BH, utilizando-se de sua empresa de consultoria.

DISFARÇA, DISFARÇA

O ministro Gilberto Carvalho disfarça a armação para fazer do assessor José Feijoo ministro do Trabalho. Agora diz que não abre mão dele.

BRIGA DE PELEGOS

Gilberto Carvalho, Feijoo e o PT do ABC queriam transferir da Força Sindical para a CUT o controle do Ministério do Trabalho. Recuaram.

EX-MILITAR LEMBRA DIA DO INTERROGATÓRIO DE DILMA

Soldado na antiga Polícia do Exército (PE) em 1970, o ex-prefeito de Paiçandu (PR) Moacyr José de Oliveira diz que a foto de Dilma diante de militares no livro A vida quer coragem, de Ricardo Amaral, foi tirada na Justiça Militar de Brasília, e não no Rio. O ex- soldado lembra que, com outros colegas com metralhadoras INA, fez a segurança do interrogatório de Dilma e outros dez jovens madrugada adentro.

EMOÇÃO

Moacyr disse no blog do jornalista Ângelo Rigon que os soldados se emocionaram com o reencontro dos jovens presos com as famílias.

CONVIVÊNCIA

Dias após a audiência, diz ainda Moacyr, os onze foram libertados e conviveram por quase um mês com os militares no Batalhão da PE.

PERGUNTA PROMOCIONAL

Depois da “campanha cultural” do Tiririca, que tal o governo perguntar “Você sabe o que é ética? Eu também não”.

ATITUDE CORAJOSA

Ao assumir a direção da Polícia Civil do DF, Onofre de Moraes encontrou 940 dos seus 1.200 veículos “descaracterizados”, com placas particulares. Agora todos usarão inscrições e placas brancas. “Polícia é para ser vista”, diz o delegado, há 34 anos combatendo o crime.

PAPAGAIO DE PIRATA

É grande a ciumeira com o “lugar cativo” de Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) nas comitivas de Dilma: já foi com ela à África, China, Bélgica, Venezuela, Uruguai, Argentina, Turquia e Bulgária.

MEMÓRIA SELETIVA

A vereadora Andrea Gouveia Vieira (PSDB-RJ), que exonerou seu assessor William da Rocinha dizendo-se “espantada” com o suposto envolvimento dele com drogas e armas, visitou-o na cadeia, em 2005, e até contratou famoso advogado para defender o ex-“líder comunitário”.

SACO SEM FUNDO

Após usar seu prestígio para vender a folha de pagamento por R$ 900 milhões, o governador da Bahia, Jaques Wagner, arrumou uma grande encrenca para a Caixa: os demais governadores querem “isonomia”.

ROTUNDO ‘NÃO’ A LUPI

O deputado Giovani Cherini (PDT-RS), que defendia a saída de Carlos Lupi, pede eleição direta para todos os cargos no partido, dando “um sonoro e rotundo não a tudo o que aí está!”, como dizia Leonel Brizola.

MUY AMIGO

José Sarney deu posse com civilidade republicana ao arqui-inimigo João Capiberibe (PSB-AP) no Senado. Com a outra mão, indicou para a superintendência do Incra no Amapá Neiva Lúcia da Costa Nunes, advogada no processo de cassação de Capiberibe e da mulher, Janete.

TRUMBICADO

Secretário de Comunicação do PT, o deputado André Vargas (PR), que tem Ilário no nome, pôs no Twitter logo após a saída de Lupi: “Não significa culpabilidade, e sim falta de condições políticas”. Ah, bom...

PARCEIRÃO LENTO

Brasília é a única grande capital ainda sem decoração natalina. Antigo militante do PCdoB e “ateu, graças a Deus”, o administrador da cidade, Messias de Souza, jura que suas convicções ideológicas nada têm com a falta de providências. E jura que é “parceirão” de Papai Noel.

PENSANDO BEM...

...Não há bem que sempre dure. Nos livramos do Lupi, mas vem aí epidemia de dengue. 


PODER SEM PUDOR

NEM COM MÁGICA

Nos anos 40, o mágico Petrovsky chegou a Araxá (MG) para um show e foi logo pedir patrocínio ao prefeito José Adolfo de Aguiar, conhecido pão duro. O prefeito chamou o tesoureiro e mandou abrir o cofre na frente do mágico:

– Pode se servir à vontade.

– Mas o cofre está vazio, prefeito... – respondeu o homem, intrigado.

– Uai, o senhor não é mágico? Faça aparecer o dinheiro, ora essa!

O mágico foi embora sem fazer o show.

TERÇA NOS JORNAIS


- Globo: Crise europeia ameaça rebaixar até Alemanha

- Folha: Governo vai acabar com entrega de IR de empresa

- Estadão: Agência ameaça rebaixar zona do euro

- Correio: Pesadelo europeu

- Valor: Investimento de estatais fica longe do planejado

- Estado de Minas: Dengue liga o alerta

- Jornal do Commercio: Multidão na fila da Fiat

- Zero Hora: Reforma de Dilma abre disputa entre aliados

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Lampião é macho, macho por despacho - EUGÊNIO BUCCI

REVISTA ÉPOCA


Difícil saber o feminino do cangaceiro Lampião. Será Lampiã? Lampioa? Ou será Lamparina? Existe o feminino de Lampião? Difícil saber, mortalmente difícil. E muito perigoso. Se especularmos por essa vereda escorregadia, alguém poderá se abespinhar e dizer que está em curso uma heresia contra o legado másculo do legendário bandido. Portanto, não lhe duvidamos da masculinidade. Fica decidido que Lampião não tem feminino, é macheza pura.

Mesmo assim, mesmo afirmando a macheza, temos aqui um problema de gênero. Não um problema do homem chamado Lampião, por favor, que este se encontra acima das suspeitas. Nosso problema de gênero diz respeito ao vernáculo: nem todos os substantivos, infelizmente, são do gênero masculino, de sorte que fica inviável defender a macheza do Rei do Cangaço sem o auxílio de palavras femininas. Macheza é substantivo feminino. Virilidade também é palavra fêmea. Hombridade, valentia, todos vocábulos femininos. Vai soar como provocação, mas a língua embaralha o feminino e o masculino, a maldita. Fazer o quê? Talvez ela não esteja à altura de descrever o destemido cangaceiro, encarnado pelo pernambucano Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938). Ele, sim, não tinha nada que fosse emasculado; não há de ter tido, nunca, jamais, uma "porção mulher", para adotar aqui a expressão consagrada pelo cancioneiro.

E que ninguém discuta. Cumpra-se. Foi assim que a Justiça decidiu. Foi assim que despachou o juiz Aldo Albuquerque, da 7ª Vara Cível de Aracaju, Sergipe, há pouco mais de uma semana, ao proibir a publicação e a comercialização do livro Lampião – o Mata Sete, de autoria de Pedro de Morais, em atendimento ao pedido da família do temível Virgulino. A família se declarou ofendida porque, na obra, Virgulino aparece como homossexual. Não é só. Ele teria sido um marido traído, uma vez que sua companheira, Maria Bonita, teria sucumbido ao adultério nos braços de um sujeito do mesmo bando, de nome Luiz Pedro. E mais: com suas perneiras de couro enfeitado, seu paletó azul e sua testeira salpicada de medalhinhas, o próprio Virgulino caiu de amores pelo mesmo Luiz Pedro.

Aí também não dá, raclamaram em juízo os descendentes. Os historiadores podem dizer à vontade que Lampião estuprava garotas indefesas, que lhes marcava o rosto com ferro quente, que sangrava lentamente os desafetos, cravando-lhes o punhal entre a clavícula e o pescoço. Podem dizer que ele castrava seus reféns, que arrancava olhos, línguas e orelhas. Até aí, não se vê ofensa nenhuma. Mas essa conversa de triângulo amoroso com pitadas homoeróticas, essa sim, ultraja a honra familiar. Por isso, os familiares pleitearam a censura, que chegou veloz e escura, feito uma peixeira noturna.

No livro proibido, Virgulino é gay. Nada disso! Ele só pode estuprar as indefesas e castrar os desafetos...

O episódio parece uma crônica dos costumes, mas é sério. Embora o processo ainda admita recursos – a proibição do livro já começou a ser contestada na semana que passou –, o que temos aí não é uma peça meramente cômica, mas um caso de veto à expressão do pensamento. Sem trocadilho, esse veto ao pensamento deveria nos fazer pensar um pouco mais. De que honra, afinal, nós estamos falando aqui? Há tempos, na canção "Pecado original", Caetano Veloso cravou uma de suas boas verdades: A gente não sabe o lugar certo de colocar o desejo. Pois será que sabemos o lugar certo de colocar a honra?

Eis aí outra indagação difícil, moralmente difícil, além de muito perigosa. Esse conceito, o do macho viril, guarda um quê de animalesco, de irracional, de selvagem. Se macho, se incontestavelmente macho, o Rei do Cangaço teria uma licença para aterrorizar os humildes com suas brutalidades de facínora. Ele teria sido apenas mais macho que os demais, só isso. Daí que, ele que viveu como fora da lei, tem agora, depois da morte, a sua macheza – vai no feminino mesmo – tutelada pela própria Justiça. Ele pode ser chamado de homicida e de ladrão, tudo bem. Não de marido traído. Nem de homossexual.

Essa moral polar, "monopolar", esquarteja tudo o que seja ambíguo. E, no vasto mundo dos amores, o humano não é acima de tudo um forte, mas acima de tudo ambíguo, como a própria língua. Por isso, essa moral monopolar é desumana. Ela não sabe que, como o Diadorim de Guimarães Rosa, o jagunço valente guarda dentro de si uma mulher. E que outro jagunço valente, como Riobaldo, pode amá-lo sem entender porque ama, e suspirar, perdido: "Diadorim é minha neblina". O mito sem neblina de Lampião é um tributo à intolerância.


GOSTOSA


O bom moço vendia fuzil - REVISTA VEJA

REVISTA VEJA

Festejado por políticos, artistas e ONGs como humanista, líder comunitário é flagrado em vídeo negociando armas com traficantes

Leslie Leitão

A cena dura dezenove minutos e doze segundos e se passa na Rocinha, favela de 200 000 habitantes encravada em meio a bairros nobres da Zona Sul do Rio de Janeiro. Sentado à mesa onde repousam copos de plástico abastecidos com uísque está o chefão do tráfico, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, recém-capturado pela polícia. Assessorado por um comparsa, ele negocia a compra de um fuzil de fabricação russa AK, estimado em 50 000 reais no mercado negro. O pagamento é feito com dezenas de maços de dinheiro vivo, dinheirama que toma a mesa inteira. O vídeo não deixa dúvidas quanto à identidade dos homens que vendem a arma. Um deles é William de Oliveira, 41 anos, latado no gabinete da vereadora e pré-candidata à prefeitura do Rio Andréa Gouvêa Vieira (PSDB-RJ), onde ganhava 5 300 reais. O assessor está entre as mais festejadas figuras no meio carioca de ONGs que se arvoram em prol dos direitos humanos. Ex-presidente da Associação de Moradores da Rocinha, até hoje uma liderança na favela, ele prefere se apresentar em seu blog como "William, o amigo das comunidades" .

Na última sexta-feira, de posse das imagens capturadas meses atrás por uma moradora que enviou o material sob anonimato, a polícia prendeu William e Alexandre Leopoldino da Silva, seu parceiro na venda do fuzil e braço direito na "vida comunitária". Há dois meses, Silva compunha a equipe de zeladoria do Palácio Guanabara, a sede do poder no Rio. Na delegacia, William negou com veemência o que o vídeo parece mostrar de forma inequívoca. Afirmou que o dinheiro que recebeu do traficante se destinava à campanha a deputado estadual na qual se lançou em 2010, sem sucesso. Quanto à arma, que Silva repassa às mãos de Nem, o assessor "não se lembra" de ter visto nada parecido. Dúvidas essenciais ainda pairam sobre o caso, investigado no inquérito de número 908-14422/2011. Suspeita-se que a arma tenha chegado à dupla por intermédio de PMs corruptos que atuam na região. Ao ser detido, Nem declarou que metade de seu faturamento no crime se destinava ao pagamento de propinas a esses agentes, que faziam vista grossa às barbaridades que praticava. Agora, a polícia vai ouvir as histórias de William e Silva para tentar dar um passo adiante. "Queremos desvendar uma possível teia de relações políticas mantida pela quadrilha de Nem", diz o delegado Maurício Demétrio, à frente das investigações.

Com um currículo de líder comunitário envernizado por cargos em uma dezena de associações e movimentos, William tornou-se uma das figuras mais preeminentes da Rocinha, onde nasceu. Sua reputação foi se construindo sobre duas bases: a popularidade entre os moradores e o bom convívio com os traficantes, fiadores de sua escalada. Um episódio anterior já indicava que seus laços com os marginais iam muito além da conivência que costuma marcar a atuação de organizações sociais em favelas subjugadas pelo crime. Em 2005, durante o reinado de terror implantado pelo antecessor de Nem, William foi flagrado em uma constrangedora escuta telefônica. Em nome do chefão, instruía bandidos a deixar dois fuzis roubados do Exército em uma favela dominada pela facção rival. Ficou preso por nove meses, mas conseguiu ser absolvido sob a alegação de que pretendia apenas fazer com que se livrassem dos tais fuzis, evitando um banho de sangue na Rocinha - então na iminência de uma ação policial. A emenda foi tão disparatada quanto o soneto, mas todo mundo fez que acreditou. William seguiu livre e solto, colecionando amizades nos mais diversos círculos, de políticos a artistas. Um de seus três filhos tem Flora Gil, a mulher do cantor Gilberto Gil, como madrinha.

Por sua atuação na Rocinha, ele era sempre procurado para abrir caminhos no morro - literalmente. Com a escolta de William, os obstáculos colocados pelos traficantes, de pilhas de pneus a carros velhos, eram removidos, deixando o visitante fazer seu périplo sem ser incomodado pela bandidagem. Em junho, ele ciceroneou o apresentador Luciano Huck e o ator americano Ashton Kutcher. Também já posou ali ao lado do governador Sérgio Cabral, do então presidente Lula e de Dilma Rousseff, que usou o morro como cenário de um de seus programas da campanha presidencial. Ao fundo, viam-se obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), cujo comitê na favela conta com William como integrante. A própria vereadora Andrea Gouvêa Vieira, atualmente no segundo mandato, teve em seu assessor parlamentar um passaporte valioso para fazer campanha na Rocinha. Após a prisão, dizendo-se profundamente decepcionada, a vereadora o demitiu.

A prisão de William derrama luz sobre a promiscuidade que impera entre as entidades sociais e o crime. Frequentemente, essas organizações funcionam como instrumentos do assistencialismo barato que trata de perpetuar o poder do tráfico. Na Rocinha, tal simbiose chegou ao ponto de a chapa eleita para a diretoria da maior associação de moradores da favela embalar a própria campanha com um funk em homenagem a Nem. Em prol de seus candidatos, o traficante sempre endereçou à população recado sucinto: "Não aceito derrota". Não é a primeira vez que alguém que se diz ardoroso defensor dos direitos humanos é flagrado em desavergonhada cumplicidade com bandidos responsáveis por todo tipo de barbaridade. Uma amostra dos efeitos perversos deixados por décadas de ausência do estado.

Na rota do dinheiro sujo

Quando a polícia ocupou o complexo do Alemão, o maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, vieram à tona cartas e extratos bancários até então bem guardados pelos bandidos naquele QG do tráfico. Com base em valioso material, que nos últimos meses esteve sob investigação, a Polícia Civil deflagrou, na semana passada, uma operação que se ramificou por cinco estados (Rio de Janeiro, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo). Nunca se havia rastreado de forma tão minuciosa o caminho percorrido pelo dinheiro de uma organização criminosa no país. Composta de centenas de contas em nome de laranjas e empresas-fantasma, a rede que alimentava as engrenagens do comércio de drogas foi arquitetada dentro da cadeia pelo traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, que fazia suas ordens chegar aos comparsas por meio de bilhetes escritos de próprio punho (suspeita-se que parentes e advogados se encarregavam de entregá-los).

Ainda que a investigação não esteja concluída, as cifras registradas em apenas cinco das empresas que serviam ao esquema já são espantosas: em um único ano, 62 milhões de reais passaram pelo caixa, para então seguir para uma turma de doleiros. Foi possível detectar remessas que eles faziam ao Paraguai, Bolívia e Colômbia para pagar por armas e drogas que abasteciam a quadrilha. O passo seguinte será tentar esquadrinhar a rota do dinheiro sujo até, quem sabe, chegar a esconderijos em paraísos fiscais espalhados pelo mundo - hipótese levantada pela polícia. "Há muito ainda que desbravar sobre a teia criminosa montada por Beira-Mar", diz o delegado responsável Flávio Porto. Com o que se tem até agora, já foi possível desarticular uma artéria vital do esquema.

Incidente em Limeira - J. R. GUZZO

REVISTA VEJA

Os políticos brasileiros, e gente que ocupa cargos públicos em geral, talvez devessem, para seu própno bem, prestar um pouco de atenção numa dessas histórias que aparecem e somem rapidamente do noticiário situado entre o mundo do crime e o da política - coisas cada vez mais parecidas, neste Brasil de hoje. Aconteceu na semana passada em Limeira, no interior do estado de São Paulo. A mulher, dois filhos e duas cunhadas do prefeito Silvio Félix, presos num rapa que dias antes havia colocado no xadrez onze pessoas ligadas à prefeitura, por denúncias de corrupção grossa, quase levam uma surra ao sair da cadeia; a Justiça, obviamente, mandou soltar todos assim que terminou o prazo de cinco dias da prisão temporária, e muita gente não gostou. Um grupo de cidadãos irados foi esperar os acusados na porta da delegacia, acertou umas pancadas em uns e outros e só não bateu mais porque a polícia não deixou. Sobrou, como imagem-símbolo dessa cena ruim, a cara apavorada da primeira-dama, refugiada no fundo de um carro da PM - além, é claro, do desconforto, comum a todos os outros, de ser chamado de "ladrão" e ter de ficar quieto.

Limeira está longe de ser um fim de mundo. Ao contrário, é um modelo daquilo que se costuma chamar, no interior, de "cidade boa". Fica a 150 quilômetros de São Paulo, tem um pouco menos de 300000 habitantes e faz parte do colar de comunidades prósperas que se estende pela região. É a mais rica do interior paulista. É a terra de nomes históricos da indústria nacional - Prada, Fumagalli, Varga. Sua economia combina as vantagens de uma área industrial dinâmica e os avanços do agronegócio. Tem boas faculdades e seu Índice de Desenvolvimento Humano, medido pela ONU, está na categoria "elevado", entre 0,800 e 0,900 - abaixo apenas do grau máximo que se pode alcançar. Infelizmente, não conseguiu ter, em termos de desenvolvimento político, os belos índices que construiu em termos de desenvolvimento humano. Limeira, nesse aspecto, é um retrato exemplar do desastre moral que marca a vida diária de tantos municípios pelo Brasil afora. Longe da atenção nacional, rouba-se numa quantidade cada vez maior de cidades e, pior ainda, rouba-se cada vez mais. Foi-se o tempo em que prefeito e vereadores se contentavam com mixaria - o dinheirinho ganho com a venda de certificados de "habite-se" ou de licenças para instalar um forno de pizza, em geral a preços moderados. Hoje em dia os delinquentes entram no ramo com a firme decisão de ficar ricos. Querem comprar fazenda, iate de 50 pés, SUV importado.

A conclusão é que Limeira vai ficando cada vez mais parecida com o Brasil da corrupção por atacado, e um número crescente de municípios vai ficando cada vez mais parecido com a Limeira de hoje. No caso que acabou explodindo na semana passada veio aos olhos do público uma história de horrores. A mulher do prefeito, os familiares e os demais envolvidos são acusados oficialmente de furto qualificado, lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, falsificação e formação de quadrilha. Em seu período de atividades, segundo o Ministério Público, compraram mais de cinquenta imóveis e juntaram acima de 20 milhões de reais. O prefeito, por sua vez, não está numa situação muito melhor - foi afastado do cargo por noventa dias, por envolvimento na mesma trama. Imagina-se a recepção popular que terá se voltar à prefeitura. Quanto aos outros, o pior parece que já passou - o pior para eles, claro. Escaparam de ficar na cadeia, e é muito pouco provável que voltem para lá com uma condenação. Tudo o que podem esperar como castigo é o incômodo de ficar pagando advogado e se aborrecendo com o processo, coisa que promete ir longe; esse bonde, quando começa a andar, não para.

É muito pouco, para a população de Limeira - e é contra isso, justamente, que se levantou a sua cólera. O problema nem é tanto a corrupção. É a certeza de impunidade penal para os acusados, por conta de um Poder Judiciário e um sistema de leis organizados de maneira a impedir, na prática, que os corruptos recebam qualquer punição verdadeira, seja qual for o galho que ocupam na árvore pública; funcionam, dia e noite, exatamente para isso. Em Limeira não houve linchamento - como ocorreu, na mesma semana, com um motorista de ônibus de São Paulo, morto a pancadas depois de ter provocado um acidente, numa dessas quebradas da periferia aonde a polícia sempre chega depois. Mas a exasperação é a mesma.

É bom tomar nota.

Juízes contra o Estado de Direito - REVISTA VEJA



REVISTA VEJA

Para defenderem os invasores da USP, magistrados afirmam que algumas pessoas estão acima da lei

Carlos Graieb 

Fundada há pouco mais de dez anos, em 13 de maio de 1991, a Associação Juízes para a Democracia (AJD) se compromete, em seu estatuto, com "o respeito absoluto e incondicional aos valores jurídicos próprios do estado democrático de direito". Não deveria ser preciso dizer isso de maneira explícita, em se tratando de juízes, mas está lá. E, estando lá, é motivo mais do que suficiente para que os magistrados, se tiverem alguma honestidade intelectual, se reúnam de imediato e dissolvam a sua entidade. Na semana passada, eles publicaram na internet um documento estarrecedor, que afronta justamente aquilo que prometem respeitar. Não há mistério no conceito de estado democrático de direito. Ele está fundado numa ideia cristalina: a de que todos são iguais perante a lei. E foi isso que os juízes decidiram negar, não nas entrelinhas ou com subentendidos, o que já seriam um escândalo, mas de maneira ululante, como diria Nelson Rodrigues.

O manifesto da AJD foi escrito em solidariedade à minoria de esquerdistas que invandiu e depredou a reitoria da Universidade de São Paulo no começo de novembro. Afirma que eles buscavam apenas "o aprimoramento da ordem jurídica, e não a sua negação". Segue-se um arrazoado assustador: "Não é verdade que ninguém está acima da lei, como afirmam os legalistas e pseudodemocratas: estão, sim, acima da lei todas as pessoas que vivem no cimo preponderante das normas e princípios constitucionais e que, por isso, rompendo com o estereótipo da alienação, e alimentados de esperança, insistem em colocar o seu ousio e a sua juventude a serviço da alteridade, da democracia e do império dos direitos fundamentais".

Convém traduzir. Em abstrato, os autointitulados juízes pela democracia asseveram que "jovens alimentados de esperança" estão acima da lei. Uma ideia tão ridícula quanto perigosa. Em concreto, os autointitulados juízes pela democracia afirmam que radicais encapuzados, que estocaram coquetéis-molotovs em um prédio público, são livres para fazer o que bem entenderem.

A ideia de um estado regido por leis que alcançam a todos, e não pelo arbítrio de um governante, nasceu no século XVII e levou mais de 200 anos para firmar raízes. É uma conquista da civilização ocidental, justamente por retirar de indivíduos, classes sociais ou partidos políticos o poder de decidir quem está acima da lei. No século XX, as nações que se afastaram desse pressuposto sofreram consequências calamitosas. Como mostra oo historiador inglês Richard Overy, tanto Hitler, na Alemanha nazista, quanto Stalin, na União Soviética, contaram com juristas dotados de um funesto desdém pelo império das leis para erigir suas ditaduras. A Alemanha deixou para trás uma extraordinária tradição jurídica ao adotar a máxima de Werner Best, chefe da divisão jurídica ao adotar a máxima de Wener Best, chefe da divisão jurídica da Gestapo, a polícia secreta nazista: "A lei e a vontade do Fuhrer são uma e a mesma coisa". Na União Soviética, Peter Stuchka, um preeminente filósofo do direito, declarou que a revolução bolchevique não significava "a vitória das leis socialistas, mas o triunfo do socialismo sobre todas as leis" (não é errado supor que Stuchka e os juízes da AJD se alimentem da mesma esperança).

Muitos indivíduos que ocuparam o poder sucumbiram, em algum momento, à tentação de acreditar que eles próprios e pessoas de seu círculo estavam acima da lei. Luiz Inácio Lula da Silva fez isso, em 2009, ao dizer que seu colega José Sarney, cercado de denúncias por todos os lados, não poderia ser tratado como "pessoa comum". O Brasil tem hoje instituições democráticas consolidadas. Os juízes - todos eles - estão entre os principais guardiões dessas instituições e do estado de direito no qual elas se alicerçam. É julgando que exercem essa guarda - e não fundando associações políticas. Quem ataca o estado de direito não pode usar toga.

Democracias fazem guerra a democracias? - RENATO JANINE RIBEIRO

VALOR ECONÔMICO - 05/12/11

Em fevereiro de 1979, a China, comunista, invadiu o Vietnã, também comunista. Quatro anos antes, o Vietnã tinha vencido os Estados Unidos após um conflito de duas décadas - a única derrota deste último país em sua história. O mundo se surpreendeu com o fato de dois Estados marxistas entrarem em guerra. Muitos disseram: em compensação, democracias não fazem guerra a democracias. Essa seria uma de suas grandes qualidades.

Mas será verdade? Na Grécia, onde começou o governo pela maioria do povo, Atenas guerreou várias outras cidades que eram igualmente democráticas. É possível que sua derrota na longa guerra do Peloponeso (431-404 antes de Cristo) - que coincidentemente é seguida pela execução de Sócrates, o modelo dos filósofos, e pela decadência da cidade-Estado - se deva em larga parte ao que hoje chamamos de "dupla moral": para os nossos tudo, para os outros, nada. O caso de Roma é ainda mais flagrante. Foi durante séculos uma república poderosa, em que o povo tinha voz, ainda que limitada, perante os aristocratas. Mas jamais soube - ou quis - reconhecer aos povos que conquistou fora da Itália os mesmos direitos que tinham os cidadãos romanos. Daí que fosse, como explicou Hobbes, uma democracia para uso interno, e uma monarquia (diríamos hoje: uma ditadura) na relação com os países colonizados.

Modernamente, é verdade que nenhum país democrático invadiu outro que também o fosse. Mas a questão ateniense e romana continua presente: várias democracias adotam um padrão para uso interno e outro, bem diferente, para uso externo. Todo o colonialismo e, por que não dizer, imperialismo modernos assim se explicam. No século XIX, a Grã Bretanha, a França e os Estados Unidos já eram Estados democráticos - menos do que hoje, mas bastante. No entanto, negavam a outros países os direitos de seus cidadãos. Há coisa pior, porém.

Refiro-me às intervenções de alguns desses países para eliminar movimentos democráticos em nações subdesenvolvidas. O caso talvez mais grave, até porque o feitiço se virou contra o feiticeiro, é o do Irã. Em 1953, o primeiro-ministro Mossadegh, favorável a uma democracia em estilo ocidental, é deposto por um golpe promovido pela CIA. O episódio é bem estudado por Stephen Kinzer, em seu excelente "All the Shah"s Men". O xá volta ao poder, reprime ferozmente os rebeldes, prende Mossadegh (não ousa executá-lo) e - um quarto de século depois - é deposto por uma oposição religiosa que sequer existiria, caso a oposição leiga dos anos 50 tivesse podido se expressar. O que se segue - a teocracia islâmica - é pura culpa dessa agressão de um país democrático a um que tentava tornar-se democrático.

Ou pensemos no apoio dos Estados Unidos ao golpe contra João Goulart, presidente do Brasil, ou Salvador Allende, do Chile. Nos dois casos, tratava-se de países democráticos, com governos escolhidos segundo a Constituição em eleições limpas. Ora, subverter um regime, apoiar a deposição de um governo não são formas de fazer guerra? Então um regime democrático, o americano, guerreou outros, o brasileiro e o chileno, para não falar em muitos mais. Portanto, democracias fazem sim, na Antiguidade ou na era moderna, guerras umas a outras.

Que consequências podemos tirar desse fato? Primeira, se isto é um consolo, que entre si as democracias não fazem guerras explícitas, declaradas, como invasões. Se é verdade que "a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude", porque o desonesto se envergonha de sua desonestidade, então - pelo menos - os governantes democraticamente eleitos sabem que é feio atacar um regime democrático ou que se está democratizando. Faz alguma diferença, mas talvez seja pouca, porque a hipocrisia não impede o delito.

A segunda consequência é mais complicada. Digamos que a democracia é contagiosa, no melhor sentido do termo. Ela atrai. Então, quando uma democracia se fecha sobre si e nega direitos - seja a negros, a árabes, a mulheres, a quem for - ela se torna vulnerável e, pior, começa a sabotar a si mesma. Parece que uma democracia tende a ser aberta, integral, em expansão: não só amplia os direitos de quem a integra como, também, alarga o número dos que reconhece como pessoas, titulares de direitos. Aqui entra em cena o cosmopolitismo: a ideia, que vem do filósofo grego Diógenes, o Cínico, de que existe algo como um "cidadão do mundo", um "kosmopolites". Uma polis confinada em si mesma não faz sentido. Indo mais longe: é ou deveria ser da natureza das polis, dos Estados democráticos, serem amigos.

Não vivemos num mundo de conto de fadas, onde todas as democracias são gentis entre si. Mas a história mostra que os regimes populares do mundo antigo - a democracia ateniense e a república romana - sucumbiram por não saber integrar o dentro e o fora, os direitos reconhecidos a seus membros e o desprezo e exploração votados ao estrangeiro. Se a democracia é atraente e por isso tende a se hiperpovoar, isso não se resolve fechando-se suas portas ou, pior, reprimindo-se outros povos para que não a ameacem. Até porque novas democracias podem ser diferentes das que já existem. A democracia brasileira, sustento há tempos, coloca a necessidade de um afeto político democrático que rompa com uma tradição nossa do afeto autoritário, que até poucos anos prevalecia em nosso país. As democracias árabes, que poderão existir ou não, formulam novas perguntas. Não temos ainda as respostas mas - com toda a certeza - ela não virá negando-se o que conseguiram de democracia, porém somente o aumentando. Mesmo que isso implique riscos.

O laranja do cartola - REVISTA VEJA

REVISTA VEJA

Ao aceitar assumir um cargo decorativo na organização da Copa, Ronaldo arrisca sua reputação e ajuda Ricardo Teixeira a continuar mandando nas sombras


Desde que ficou famoso, aos 17 anos de idade, Ronaldo Luís Nazário de Lima exerceu diversos papéis. Começou como o garoto-prodígio que fez parte da seleção brasileira tetracampeã mundial. Tornou-se o craque consagrado, eleito três vezes o melhor do mundo e o maior artilheiro da história das Copas. Encarnou o vilão da derrota do Brasil para a França na final do Mundial de 1998 e, quatro anos depois, virou o herói do pentacampeonato. Foi também a vítima de zagueiros violentos, que quase teve a carreira abreviada por contusões em série nos joelhos, e, por fim, "o gordo", que, próximo da aposentadoria, voltou para o Brasil, conquistou a torcida do Corinthians e se transformou em um empresário bem-sucedido: De todos os papéis que desempenhou, saiu, se não aplaudido, ao menos de cabeça erguida. Entre os picos e os abismos de sua carreira, construiu uma trajetória vitoriosa e uma reputação de honestidade e coragem. Agora, o ex-jogador arrisca-se a pôr tudo isso a perder. Na semana passada, aceitou assumir um novo papel - o de laranja de Ricardo Teixeira, um dos cartolas mais enrolados do futebol mundial.

Ronaldo foi nomeado por Teixeira para o conselho de administração do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014. No papel, é um cargo pomposo. Na prática, apenas um biombo para o presidente da CBF continuar no controle da Copa sem ter tanta visibilidade. Na cerimônia de transmissão do cargo, ele disse ao novo aliado uma frase que revela com clareza suas intenções: "A imprensa é toda sua, Ronaldo". A nomeação do ex-jogador ocorre num momento em que Teixeira está na berlinda, rompido com a Fifa e com o governo federal. Ambos querem afastá-lo da organização da Copa. Joseph Blatter, o presidente da entidade que controla o futebol, ameaça divulgar novas acusações de corrupção contra Teixeira. A presidente Dilma Rousseff, que desde o início do mandato tem deixado evidente seu desprezo pelo chefe da CBF, recusou uma oferta de reaproximação intermediada pelo novo ministro do Esporte,Aldo Rebelo. Ameaçado de perder poder na organização da Copa, o cartola achou mais prudente se esconder nas sombras e trabalhar nos bastidores para sobreviver. Ou seja, escolheu perder os anéis para não perder os dedos - e, com os dedos intactos, manter o poder nas mãos.

A função de Ronaldo será de relações públicas, para não dizer decorativa. Tratará com a imprensa e será a estrela de eventos promocionais. Enquanto isso, os negócios da Copa continuarão tratados por aliados e subordinados de Teixeira, que nem mesmo se afastou formalmente do COL. A diretora executiva do comitê é Joana Havelange, sua filha. O diretor jurídico é Francisco Mtissnich, advogado da CBF. O coordenador de operações é Ricardo Trade, ex-funcionário de suas empresas. E o diretor de comunicação é Rodrigo Paiva, assessor de imprensa da CBF. Enquanto o laranja Ronaldo sorri e posa para fotos, essa turma comandará os contratos e as negociações bilionárias para a Copa, que deve movimentar mais de 100 bilhões de reais. A função do ex-jogador será parecida com a que Franz Beckenbauer teve na Copa da Alemanha em 2006, de embaixador do evento. E distante da exercida em 1998 pelo francês Michel Platini, que comandou de fato a Copa e, depois, se tornou um respeitado dirigente, cotado até para chefiar a Fifa.

A nomeação de Ronaldo não foi o único golpe de Teixeira para tentar sair das cordas. Ele tem se aconselhado com o ex-presidente Lula, em busca de apoios nos meios políticos e no mundo esportivo. Por sugestão do corintiano Lula, escolheu o presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, para ser o novo diretor de seleções da CBF - e, depois da Copa, seu candidato à presidência da entidade. Andrés tem a missão de quebrar as resistencias dos principais times brasileiros ao cartola e impedir que seja criada uma liga de clubes para organizar o Campeonato Brasileiro, o que colocaria ainda mais pressão sobre Teixeira. A estratégia do cartola, porém, parece não ter sido eficiente. Dilma, em conversas com assessores, adiantou que não pretende negociar as pendências da Copa com Ronaldo. Blatter segue empenhado em derrubar o rival do trono da CBF e impedir que ele dispute sua sucessão em 2015 - promete novas denúncias ainda nesta semana e quer fazer mudanças no estatuto da Fifa que impeçam a candidatura de "fichas-sujas".

Com as mudanças no COL, Teixeira continua como sempre esteve: com poder, sem credibilidade e envolvido em suspeitas. Já Ronaldo tem muito a perder. Além de meter as chuteiras no pantanoso terreno em que Teixeira chafurda há décadas, ele corre o risco de se dar mal nos negócios. Algumas das empresas que patrocinam jogadores agenciados por ele, como a Claro e a AmBev, são concorrentes das que patrocinam a CBF e a Fifa. Mesmo diante do conflito de interesses, Ronaldo se recusou a abandonar o comando da empresa para assumir o novo cargo. Já se disse de Pelé que, de boca fechada, era um poeta. Ronaldo está a caminho de provar que, fora dos campos, é o rei da bola fora.

Presente de Natal - PAULO GUEDES

O GLOBO - 05/12/11

O governo baixou um pacote fiscal para estimular as vendas de Natal e blindar o crescimento da economia brasileira contra a crise externa durante o ano eleitoral de 2012. A maior parte da redução de impostos é para incentivar a compra de imóveis de baixa renda, geladeiras, fogões, máquinas de lavar, pães e massas alimentícias. É uma tentativa de reeditar, em versão moderada, o bem-sucedido choque fiscal expansionista de 2009, que empurrou para 7% a taxa de crescimento em 2010.

Serão discretos os efeitos desse presente de Natal. As desonerações tributárias chegaram a quase R$25 bilhões em 2009, sendo agora estimadas em pouco mais de R$7 bilhões. Havia também naquela ocasião uma demanda reprimida por bens de consumo duráveis de uma população de baixa renda em ascensão para a classe média. Mas, apesar de seus modestos efeitos, o pacote de Natal, associado à queda das taxas de juros e ao reajuste de 14% do salário mínimo, tenta garantir um crescimento de 4,5% em 2012.

Merece registro o reconhecimento do governo de que a redução de impostos seja o caminho correto para estimular a produção e criar empregos. Afinal, a contração econômica global tornou-se um buraco negro, deflagrando a guerra mundial por empregos. E a frustrante inapetência da social-democracia por reformas só piora as coisas. As distorções em nossos mercados de trabalho são colossais. Os excessivos encargos previdenciários e a obsoleta legislação trabalhista já são responsáveis pela exclusão econômica e social de 50 milhões de brasileiros. A enorme cunha fiscal aumenta o custo do trabalho para as empresas, derruba o salário dos trabalhadores e exclui dos mercados formais exatamente os mais desfavorecidos.

Além disso, temos impostos indiretos abusivos, aumentando os preços para os consumidores e baixando as margens de lucro dos varejistas e dos produtores. Já é hora de pensarmos os impostos no contexto de uma reforma fiscal abrangente. Não há outro modo de garantir o crescimento sustentável e a geração de empregos que buscamos de pacote em pacote. É também a única forma de recuperar a credibilidade do governo. Afinal, o Ministério da Fazenda havia prometido maior superávit fiscal para que o BC baixasse os juros sem estourar a meta de inflação. E também afirmara aos estados produtores de petróleo que o governo federal não tinha recursos para evitar a guerra dos royalties.

Nocauteados pela lógica - REVISTA VEJA


REVISTA VEJA
Ao propagarem a desinformação em vídeo sobre a usina de Belo Monte, atores viram piada na web. Mas o papelão rendeu boas lições

André Eler e Laura Diniz



Você já ouviu falar da hidrelétrica de Belo Monte?" A pergunta, feita pela encantadora atriz Juliana Paes, foi ouvida 3,2 milhões de vezes nas últimas duas semanas. Ela abre um vídeo com cinco minutos de duração em que dezenove atores e atrizes do elenco da Rede Globo se revezam para discutir a construção de Belo Monte, a usina que está sendo erguida no Rio Xingu, no interior do Pará. Não é um assunto propriamente eletrizante nem algo que pareça capaz de arrebatar o público majoritariamente jovem da internet. Mas a popularidade dos atores, somada a uma peculiaridade do filme - o flagrante desconhecimento que seus protagonistas demonstraram sobre o assunto -, acabou por transformar o vídeo em um marco da internet brasileira. Se a disseminação do conhecimento é a mola propulsora da humanidade, a propagação da ignorância às vezes também funciona.

Foi o que aconteceu diante da tagarelice bem intencionada dos atores. Aos espectadores com um mínimo de familiaridade com o tema, as faias alarmistas em defesa "dos índios, dos rios e da Floresta Amazônica" soaram ingênuas e equivocadas, quando não francamente constrangedoras - como no momento em que um dos atores confunde o Pará com Mato Grosso e outra afirma que hidrelétricas não produzem energia Limpa. Esse desfile de desinformação incomodou outra turma, aquela que usa a cabeça também para pensar. Foi assim que o vídeo dos atores rendeu outros três sobre o mesmo tema, feitos por universitários que aprenderam ser a lógica o melhor balizador de opiniões. Munidos dessa ferramenta, os estudantes levaram a nocaute os atores, ou melhor, as "celebridades"- essa categoria "super conectada com esses assuntos de ecologia", como ironizou o humorista Rafinha Bastos, outro que se juntou à turma da razão em feliz imitação, também em vídeo, de celebridade-desmiolada-que-abraça-qualquer-causa-politicamente-correta, mesmo sem ter a mais pálida ideia do que se trata.

Os vídeos dos estudantes, ao contrário do filme dos atores, foram precedidos por pesquisas e trazem cálculos e informações hidrológicas e geográficas que ajudam a entender o que é Belo Monte e quais são as suas implicações. Completos e exatos, colocados no ar na internet na hora certa, os vídeos podem até levantar a suspeita de ter sido patrocinados pelos maiores defensores da usina, o governo e as suas construtoras. Não existe, porém, nenhum indício de que os estudantes não tenham reagido espontaneamente à baboseira dos artistas globais. O primeiro vídeo foi feito por Cassio Carvalho, um engenheiro de 25 anos que vive em Brasília. Na ponta de uma caneta hidrográfica, ele mostrou que o impacto ambiental da construção de Belo Monte que vem sendo alardeado é um exagero. Gravou seus cálculos, como em uma aula, e postou a sequência no YouTube. Em seguida, alunos de engenharia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de São Paulo, entraram na discussão. "Quando vimos tantas informações erradas divulgadas por atores famosos, ficamos assustados. As pessoas confiam neles. Fizemos o vídeo para esclarece-las", diz a estudante Roberta Valezio, de 19 anos, que participou da gravação da Unicamp. Outra turma de engenharia, desta vez da Universidade de Brasília (UnB), fez o mesmo. Somados, o vídeo dos atores e as respostas a ele alcançaram 4,3 milhões de visualizações em quinze dias. Para efeito de comparação, registre-se que o hit humorístico Tapa na Pantera (2006), um dos maiores sucessos da internet brasileira, foi visto até hoje 7 milhões de vezes. Com a fundamental diferença de que se tratava de uma deliciosa e rematada bobagem, feita (propositadamente) para provocar risos. A série de filmes sobre Belo Monte é de outra natureza: trata-se de uma discussão de interesse público e que foi reconhecida como tal pelos frequentadores da rede, como mostra o impressionante número de acessos aos vídeos. "O que aconteceu é algo totalmente inédito no Brasil", afirma Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getulio Vargas. A internet já havia servido de palco para um debate nacional em 2010, quando 2 milhões de pessoas assinaram a petição da Lei da Ficha Limpa. Neste ano, nova mobilização na rede ajudou a divulgar o Movimento contra a Corrupção, que levou milhares de brasileiros às ruas. A diferença é que, naqueles casos, havia um consenso em torno do tema. Desta vez, o que ocorreu foi um debate. "Foi a primeira vez que pessoas se reuniram na internet para discutir um assunto controverso e de relevância nacional", diz Daniel Domeneghetti, fundador do E-Consulting Group, empresa líder em estratégia de comunicação pela internet.

Ao se consolidar, a discussão sobre Belo Monte passou a girar em torno de três eixos: 1) A usina é necessária? 2) Há alternativas melhores do que ela? 3) Qual será o real impacto de sua construção? Cálculos simples deixam claro que a resposta à primeira questão é um peremptório sim. Sem novas fontes de energia, o Brasil não poderá crescer 5% ao ano na próxima década, como prevê o governo e esperam os brasileiros. Diz o economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega: "A humanidade passou quase 3000 anos com renda e expectativa de vida estagnadas. Três fatores mudaram esse cenário: o fortalecimento das instituições, o avanço da ciência e o aumento na produção de energia. Um mundo sem energia é um mundo de trevas". Sob esse aspecto, Belo Monte é um gigantesco farol: terá potência média de 4571 megawatts - o suficiente para prover 40% de todo o consumo residencial do Brasil. No país, só Itaipu produz mais energia.

Quanto à segunda questão, a que trata da possibilidade de fontes alternativas, a resposta é simples: aenergia produzida pelas águas dos rios amazônicos é hoje a mais limpa e mais barata das opções. "Países desenvolvidos usaram todo o seu potencial hidráulico e só depois buscaram outras fontes. No Brasil, usamos apenas um terço do que podemos", diz Maurício Tomalsquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). As outras fontes, ou são mais poluentes, como o carvão, ou mais caras, como a energia solar. "Para instalar painéis capazes de captar a mesma energia que será produzida em Belo Monte, seria preciso investir 274 bilhões de reais - dez vezes o custo da usina", diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. A energia eólica é uma aposta mais realista para o futuro. Na última década, o seu custo de produção caiu pela metade. Hoje, ela ainda é mais cara do que a hidrelétrica, mas deve tornar-se competitiva assim que condições técnicas e financeiras possibilitarem a ampliação da sua escala de produção. As hélices, porém, exigem condições de vento muito favoráveis, só encontradas em alguns pontos geográficos, e nunca serão a única fonte de energiade um país, pois o regime de ventos é incontrolável.

Qual será o real impacto de Belo Monte? É risível a argumentação de que as tribos indígenas da região serão "arrancadas como uma mandioca da terra", como disse o ator Sérgio Marone, que escreveu o roteiro do vídeo dos atores com base em informações fornecidas por uma ONG Primeiro porque nenhum dos 2200 índios da região vive na área a ser alagada. Aliás, eles estão satisfeitos com a obra. "A usina vai melhorar a nossa vida", disse a VEJA o cacique Manuel Juruna. de 68 anos "Ela vai trazer mais progresso para nossa aldeia.

Quase metade da área de 520 quilômetros quadrados a ser inundada por Belo Monte faz parte do próprio leito do rio. A outra metade é coberta por pasto, lavouras de cacau e mata nativa Ainda assim, será inevitável a remo - e em condições que em nada lembram o cenário idítico das novelas. As casas da região, equilibradas sobre palafitas, não têm saneamento básico. A água usada e os dejetos que os moradores produzem vertem de canos de PVC diretamente no Rio Xingu. Num desses trechos, na semana passada, a dona de casa Sandra Cardoso de Lima lavava a louça e limpava um peixe, com metade do tronco submerso no rio. Perto dali, outras mulheres faziam o mesmo, rodeadas por crianças que brincavam em meio aos dejetos despejados pela vizinhança. "Não sei ainda onde vão me botar, mas sei que a nossa vida vai melhorar", diz Sandra.

A reação via internet dos estudantes que sabem fazer contas é um fenômeno que já produziu boas lições. Uma delas é pelo filósofo Denis vez mais, quem fala sem saber o que está dizendo fica sujeito a ser desmentido rapidamente". Outra é que o ambiente virtual não altera uma lei que sempre vigorou no mundo físico: à luz da razão, não há sombra que consiga se fazer passar por realidade - nem quando envolvida pelo talento de bons atores.