FOLHA DE SP - 06/10
Relatório sobre recursos humanos coloca o Brasil em posição ruim de gigante sem qualidade
O Brasil não trata bem seu capital humano. É o que aparece nitidamente no "Relatório de Capital Humano", que acaba de ser divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, a entidade que promove, todo janeiro, os encontros de Davos.
O Brasil fica no 57º lugar entre 122 países. Já é um resultado ruim, se se considerar que o país está entre as oito maiores economias do mundo. Quer dizer que tem tamanho, mas não tem qualidade.
Piora as coisas saber que países de bem menor desenvolvimento relativo ficam à frente do Brasil, casos de Costa Rica (35º), Chile (36º), Panamá (42º) e Uruguai (48º), sem falar em Barbados, país caribenho que, na 26ª posição, é o mais bem situado na América Latina/Caribe.
Para fechar o círculo negativo, o que afunda a posição brasileira é educação, um dos quatro pilares que constituem o levantamento. Nesse quesito, que recolhe indicadores quantitativos e qualitativos de todos os três níveis de ensino, o Brasil fica em obsceno 88º lugar.
É claro que sempre cabe um pouco de desconfiança desse tipo de ranking. Mas, no caso do "Capital Humano", parece um sólido compêndio de 51 indicadores, com aparente pouca margem para subjetividade (a íntegra pode ser consultada em www.weforum.org).
Ainda mais que os três primeiros colocados (Suíça, Finlândia e Cingapura) são de fato países em que o capital humano é empoderado, se o leitor me permite usar um termo de que não gosto, mas que entrou na moda.
O objetivo do relatório, diz o Fórum em sua apresentação, é "fornecer uma panorâmica holística e de longo prazo sobre como os países alavancam seu capital humano e estabelecem forças de trabalho que estejam preparadas para as demandas de economias competitivas".
O Fórum leva em conta que "o capital humano de uma nação --as habilidades e capacidades das pessoas postas para uso produtivo-- pode ser um determinante mais importante para seu sucesso econômico a longo prazo do que virtualmente qualquer outro recurso".
Se essa definição está correta, o Brasil está mal preparado, em todos os quatro pilares, que são "saúde e bem-estar" (49º lugar), "força de trabalho e emprego" (45º) e no ambiente para a força de trabalho, ou seja, a moldura legal, a infraestrutura e outros fatores que permitam retorno em capital humano, item em que ocupa o 52º lugar.
Vale observar que, na capa em que a revista "The Economist" faz implodir o foguete Brasil que ela própria lançara aos céus há um par de anos, fatores relativos a capital humano (educação em primeiro lugar) também eram apontados como responsáveis pelo suposto (ou real?) fracasso do Brasil.
Não adianta, portanto, ironizar a "Economist", como fez a presidente Dilma Rousseff, por mais que os problemas conjunturais que ela aponta sejam de fato exagerados, pelo menos do meu ponto de vista.
O fato é que o Brasil tem problemas estruturais que o amarram ao solo faz gerações.
Não é culpa de Dilma ou só de Dilma, mas está na hora de encará-los em vez de chutar o espelho que os mostra.
domingo, outubro 06, 2013
O Prêmio Nobel de Paz Interior - DORRIT HARAZIM
O GLOBO - 06/10
O governo queria acessar as mensagens criptografadas de todos os usuários da empresa. Ao contrário dos gigantes da internet, que abriram suas portas para dar acesso à NSA, Ladar Levison disse não
Semana tensa para quem está em casa à espera de ter o nome anunciado como vencedor de um dos Prêmios Nobel 2013. Amanhã se conhecerá o laureado de Medicina (ou Fisiologia). Na terça, o de Física. Na quarta, Química. E na sexta, o sempre mais estelar Nobel da Paz, único a lidar com algo de fácil compreensão para qualquer ser humano.
Só que, na prática, sabe-se, a paz é tudo menos um conceito fácil, muito menos universal. E os critérios da Comissão de Seleção são tão elásticos quanto as variações do conceito. Meio mundo não perdoa até hoje a omissão de Mahatma Gandhi da lista dos laureados, apesar de ele ter sido indicado cinco vezes consecutivas — a última delas poucos dias antes de ser assassinado. Outros podem estranhar que Adolf Hitler e Josef Stalin puderam, à sua época, constar da lista de indicados.
É que pelas regras da Fundação Alfred Nobel no rol de pessoas autorizadas a indicar candidatos caberia até mesmo o deputado federal Natan Donadon. Indicações podem ser feitas por membros do Congresso e do Governo de qualquer país, membros do Judiciário de Cortes Internacionais, reitores universitários, acadêmicos de entidades que promovem a paz ou de institutos de relações internacionais, detentores do Nobel, membros e ex-membros e ex-conselheiros do Comitê.
Traduzindo os critérios aos dias de hoje, caso um ministro do governo sírio sucumbisse ao ímpeto de indicar o líder Bashar al-Assad para desviar dele a acusação de uso de armas químicas contra a população, poderia fazê-lo.
Para a edição deste ano, o Nobel tem uma candidata de ouro, pois é merecedora de admiração universal: a adolescente Malala Yousufzai, baleada na cabeça pelo Talibã em 2009 ao teimar em frequentar a escola no Paquistão. Difícil imaginar que o Comitê deixe passar oportunidade tão rara de fazer reinar a paz em torno de uma escolha.
Bem mais polêmica promete ser a edição de 2014, que teve uma primeira indicação oficializada já esta semana: a do presidente russo Vladimir Putin, sempre certeiro na habilidade de cronometrar oportunidades. A indicação foi apresentada por uma entidade que se intitula Academia Internacional de Unidade Espiritual entre Nações do Mundo, com sede em Moscou, e representa uma dupla estocada no presidente americano Barack Obama. Além de justificar a escolha de Putin como premio a seu êxito “em transformar a ameaça de ataque militar dos Estados Unidos à Síria numa negociação de paz internacional”, deixa subentendido que o líder russo já fez mais do que Obama, laureado em 2009 sem ter feito nada além de chegar à Casa Branca como primeiro presidente negro.
Uma segunda candidatura em fase de construção roubaria a cena em 2014, se concretizada: a do analista de sistemas fugido da NSA, Edward Snowden. Snowden é um dos três finalistas ao Prêmio Sakharov de Direitos Humanos 2013, cujo vencedor será anunciado quinta-feira. Seus dois concorrentes são a menina Malala, franca favorita, e um grupo de dissidentes de Bielorussia presos em 2010.
O mero fato de Snowden ter chegado a finalista, como “lançador de um alerta mundial que arriscou a sua liberdade para ajudar a proteger a nossa”, indica o quanto a sua biografia está sendo reescrita com o passar do tempo. O Prêmio Sakharov foi criado em 1988 pelo Parlamento Europeu em homenagem ao cientista e dissidente soviético de mesmo nome, não para premiar a paz, mas a liberdade de pensamento.
Na mesma semana de expectativa às nobres honrarias uma curta notícia mais terrena por pouco não passa despercebida. Tem por protagonista involuntário um candidato ao Prêmio Nobre de Paz Interior — enfrentou gente graúda para poder dormir tranquilo.
Ele se chama Ladar Levison, é cidadão americano e em maio último encontrou o cartão de visitas de um agente do FBI embaixo da porta ao voltar para sua casa, em Dallas, no estado do Texas. Ao longo dos quatro meses seguintes defendeu como pode a Lavabit, sua pequena porém conceituada empresa de criptografia, das exigências de quebra de sigilo apresentadas pelos agentes da lei. O governo queria ter acesso à conta de e-mail criptografada de Edward Snowden, usuário da Lavabit, o que lhe era facultado pela legislação de exceção pós o atentado de 11 de setembro de 2001. Solicitações semelhantes já haviam sido feitas anteriormente envolvendo outros suspeitos, como um pedófilo, e Levison sempre as atendera.
Desta vez, contudo, os agentes exigiam muito mais. Queriam as ferramentas necessárias para acessar as mensagens criptografadas de todos os usuários da empresa. Àquela altura, já fora divulgado que Snowden usava o e-mail da Lavabit como garantia de confidencialidade e a clientela da firma tinha saltado de 40 mil para mais de 400 mil usuários.
Só que, ao contrário dos gigantes da internet que abriram suas portas para dar acesso à NSA, Levison disse não. “Ninguém precisa grampear uma cidade inteira para grampear o telefone de um só cara”, comparou ele em entrevista ao “New York Times”. Passou a usar de subterfúgios para não entregar o segredo.
Até que em agosto, esgotados todos os recursos, recebeu ordem judicial para entregar os códigos sob pena de uma multa diária de U$ 5 mil e percebeu-se sem saída. Antes de cumprir a ordem, porém, alertou todos os seus usuários e fechou a empresa que criara dez anos antes tornando de pouca serventia os códigos solicitados.
Uma campanha de arrecadação de fundos para ajudar nas despesas legais desse empresário de 32 anos, saudado como herói da internet, arrecadou 24 mil dólares no dia do lançamento. Pode ser menos do que o Nobel da Paz (1,2 milhão de dólares) e inferior ao Sakharov (50 mil euros) . Mas também merece ser aplaudido de pé.
O governo queria acessar as mensagens criptografadas de todos os usuários da empresa. Ao contrário dos gigantes da internet, que abriram suas portas para dar acesso à NSA, Ladar Levison disse não
Semana tensa para quem está em casa à espera de ter o nome anunciado como vencedor de um dos Prêmios Nobel 2013. Amanhã se conhecerá o laureado de Medicina (ou Fisiologia). Na terça, o de Física. Na quarta, Química. E na sexta, o sempre mais estelar Nobel da Paz, único a lidar com algo de fácil compreensão para qualquer ser humano.
Só que, na prática, sabe-se, a paz é tudo menos um conceito fácil, muito menos universal. E os critérios da Comissão de Seleção são tão elásticos quanto as variações do conceito. Meio mundo não perdoa até hoje a omissão de Mahatma Gandhi da lista dos laureados, apesar de ele ter sido indicado cinco vezes consecutivas — a última delas poucos dias antes de ser assassinado. Outros podem estranhar que Adolf Hitler e Josef Stalin puderam, à sua época, constar da lista de indicados.
É que pelas regras da Fundação Alfred Nobel no rol de pessoas autorizadas a indicar candidatos caberia até mesmo o deputado federal Natan Donadon. Indicações podem ser feitas por membros do Congresso e do Governo de qualquer país, membros do Judiciário de Cortes Internacionais, reitores universitários, acadêmicos de entidades que promovem a paz ou de institutos de relações internacionais, detentores do Nobel, membros e ex-membros e ex-conselheiros do Comitê.
Traduzindo os critérios aos dias de hoje, caso um ministro do governo sírio sucumbisse ao ímpeto de indicar o líder Bashar al-Assad para desviar dele a acusação de uso de armas químicas contra a população, poderia fazê-lo.
Para a edição deste ano, o Nobel tem uma candidata de ouro, pois é merecedora de admiração universal: a adolescente Malala Yousufzai, baleada na cabeça pelo Talibã em 2009 ao teimar em frequentar a escola no Paquistão. Difícil imaginar que o Comitê deixe passar oportunidade tão rara de fazer reinar a paz em torno de uma escolha.
Bem mais polêmica promete ser a edição de 2014, que teve uma primeira indicação oficializada já esta semana: a do presidente russo Vladimir Putin, sempre certeiro na habilidade de cronometrar oportunidades. A indicação foi apresentada por uma entidade que se intitula Academia Internacional de Unidade Espiritual entre Nações do Mundo, com sede em Moscou, e representa uma dupla estocada no presidente americano Barack Obama. Além de justificar a escolha de Putin como premio a seu êxito “em transformar a ameaça de ataque militar dos Estados Unidos à Síria numa negociação de paz internacional”, deixa subentendido que o líder russo já fez mais do que Obama, laureado em 2009 sem ter feito nada além de chegar à Casa Branca como primeiro presidente negro.
Uma segunda candidatura em fase de construção roubaria a cena em 2014, se concretizada: a do analista de sistemas fugido da NSA, Edward Snowden. Snowden é um dos três finalistas ao Prêmio Sakharov de Direitos Humanos 2013, cujo vencedor será anunciado quinta-feira. Seus dois concorrentes são a menina Malala, franca favorita, e um grupo de dissidentes de Bielorussia presos em 2010.
O mero fato de Snowden ter chegado a finalista, como “lançador de um alerta mundial que arriscou a sua liberdade para ajudar a proteger a nossa”, indica o quanto a sua biografia está sendo reescrita com o passar do tempo. O Prêmio Sakharov foi criado em 1988 pelo Parlamento Europeu em homenagem ao cientista e dissidente soviético de mesmo nome, não para premiar a paz, mas a liberdade de pensamento.
Na mesma semana de expectativa às nobres honrarias uma curta notícia mais terrena por pouco não passa despercebida. Tem por protagonista involuntário um candidato ao Prêmio Nobre de Paz Interior — enfrentou gente graúda para poder dormir tranquilo.
Ele se chama Ladar Levison, é cidadão americano e em maio último encontrou o cartão de visitas de um agente do FBI embaixo da porta ao voltar para sua casa, em Dallas, no estado do Texas. Ao longo dos quatro meses seguintes defendeu como pode a Lavabit, sua pequena porém conceituada empresa de criptografia, das exigências de quebra de sigilo apresentadas pelos agentes da lei. O governo queria ter acesso à conta de e-mail criptografada de Edward Snowden, usuário da Lavabit, o que lhe era facultado pela legislação de exceção pós o atentado de 11 de setembro de 2001. Solicitações semelhantes já haviam sido feitas anteriormente envolvendo outros suspeitos, como um pedófilo, e Levison sempre as atendera.
Desta vez, contudo, os agentes exigiam muito mais. Queriam as ferramentas necessárias para acessar as mensagens criptografadas de todos os usuários da empresa. Àquela altura, já fora divulgado que Snowden usava o e-mail da Lavabit como garantia de confidencialidade e a clientela da firma tinha saltado de 40 mil para mais de 400 mil usuários.
Só que, ao contrário dos gigantes da internet que abriram suas portas para dar acesso à NSA, Levison disse não. “Ninguém precisa grampear uma cidade inteira para grampear o telefone de um só cara”, comparou ele em entrevista ao “New York Times”. Passou a usar de subterfúgios para não entregar o segredo.
Até que em agosto, esgotados todos os recursos, recebeu ordem judicial para entregar os códigos sob pena de uma multa diária de U$ 5 mil e percebeu-se sem saída. Antes de cumprir a ordem, porém, alertou todos os seus usuários e fechou a empresa que criara dez anos antes tornando de pouca serventia os códigos solicitados.
Uma campanha de arrecadação de fundos para ajudar nas despesas legais desse empresário de 32 anos, saudado como herói da internet, arrecadou 24 mil dólares no dia do lançamento. Pode ser menos do que o Nobel da Paz (1,2 milhão de dólares) e inferior ao Sakharov (50 mil euros) . Mas também merece ser aplaudido de pé.
Prioridade e objetividade em falta - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR
GAZETA DO POVO - PR - 06/10
Estava ruminando algumas ideias para colocar neste espaço dizendo o que penso de se gastar R$ 80 milhões na reforma dos gabinetes dos desembargadores do Tribunal de Justiça, atropelando pareceres técnicos e dúvidas dentro do próprio órgão, quando li o primoroso artigo de José Lucio Glomb sobre o assunto. Posso até adicionar alguma coisa nova e importante a ele; só que o que é importante não será novo e o que é novo não será importante.
O artigo de Glomb me lembrou três lições que aprendi a respeito da administração pública com quatro mestres notáveis: Alípio Ayres de Carvalho, Ítalo Conti, Pedro Viriato Parigot de Souza e Jayme Canet Júnior: a escolha de prioridades, a clareza e objetividade no que se faz ou se pretende fazer, e o real significado do termo “serviço público” como atributos insubstituíveis dos atos dos governantes.
Não basta fazer algo útil, é necessário fazer antes o que é mais útil; essa é a definição de prioridade. E para quem? Para o maior número de pessoas: serviço público é servir ao público; tão simples como isso. Se o Judiciário paranaense tivesse um fórum cível apresentável na capital do estado e instalações minimamente condignas nas comarcas, o que claramente não tem, talvez se justificasse – talvez – gastar R$ 80 milhões em uma reforma dos gabinetes para melhorar as condições de trabalho de seu alto clero. Fora disso, é um investimento discutível e adiável. Da mesma maneira como é discutível e adiável gastar mais de R$ 100 milhões por ano durante 25 anos para criar nove centros de atendimento ao público em um estado que tem quase 400 municípios e milhares de prédios em petição de miséria, como pretende o tal programa “Paraná Tudo Aqui”.
Alípio chegou a ser ridicularizado pela sua obsessão pela escolha correta de prioridades, mas graças a ele e a alguns poucos outros incompreendidos é que os primeiros esforços concatenados de planejamento surgiram em nosso estado, auxiliando Ney Braga posteriormente a executar muitas daquelas prioridades em uma gestão exemplar. De Parigot nem falar: na Copel, que ele presidiu com rigor ético e brilhantismo, não se comprava um clipe de papel sem que estivesse estabelecida a prioridade das coisas a fazer.
A outra lição que tive a graça de receber se referia à clareza e à objetividade do que o governante pretende fazer. Jayme Canet Júnior e Ítalo Conti eram fanáticos da objetividade. Ítalo, com aquele seu jeitinho cordial que personificaria o hay que endurecer sin perder la ternura, era de uma franqueza absoluta e não deixava dúvidas sobre o que pensava a respeito de um assunto e do que esperava de seus auxiliares para encaminhá-lo ou resolvê-lo. Canet era menos dado a ternuras e cultivava uma solene antipatia pela enrolação ou pelas meias revelações. Seu bordão inesquecível era “vamos ser práticos”; e, quando alguém tentava convencê-lo de alguma coisa indefensável, declarava em alto e bom som que a única coisa que não suportava é que quisessem lhe passar atestado público de burrice!
Fico pensando no que os dois achariam de um projeto que promete cortar mil cargos comissionados sem dizer exatamente quais – e cria outras mil funções gratificadas sem dizer exatamente para quê; elimina quatro secretarias financeiramente insignificantes e institui uma outra. Com o detalhe adicional de que não é claro para o grande público se os cargos eliminados estão ou não preenchidos. Se não estiverem, o que confessadamente acontece com boa parte deles, acho que devemos todos voltar aos bancos escolares para reaprender aritmética: como é que se elimina gasto deixando de gastar com o que já não estava custando nada?
Estava ruminando algumas ideias para colocar neste espaço dizendo o que penso de se gastar R$ 80 milhões na reforma dos gabinetes dos desembargadores do Tribunal de Justiça, atropelando pareceres técnicos e dúvidas dentro do próprio órgão, quando li o primoroso artigo de José Lucio Glomb sobre o assunto. Posso até adicionar alguma coisa nova e importante a ele; só que o que é importante não será novo e o que é novo não será importante.
O artigo de Glomb me lembrou três lições que aprendi a respeito da administração pública com quatro mestres notáveis: Alípio Ayres de Carvalho, Ítalo Conti, Pedro Viriato Parigot de Souza e Jayme Canet Júnior: a escolha de prioridades, a clareza e objetividade no que se faz ou se pretende fazer, e o real significado do termo “serviço público” como atributos insubstituíveis dos atos dos governantes.
Não basta fazer algo útil, é necessário fazer antes o que é mais útil; essa é a definição de prioridade. E para quem? Para o maior número de pessoas: serviço público é servir ao público; tão simples como isso. Se o Judiciário paranaense tivesse um fórum cível apresentável na capital do estado e instalações minimamente condignas nas comarcas, o que claramente não tem, talvez se justificasse – talvez – gastar R$ 80 milhões em uma reforma dos gabinetes para melhorar as condições de trabalho de seu alto clero. Fora disso, é um investimento discutível e adiável. Da mesma maneira como é discutível e adiável gastar mais de R$ 100 milhões por ano durante 25 anos para criar nove centros de atendimento ao público em um estado que tem quase 400 municípios e milhares de prédios em petição de miséria, como pretende o tal programa “Paraná Tudo Aqui”.
Alípio chegou a ser ridicularizado pela sua obsessão pela escolha correta de prioridades, mas graças a ele e a alguns poucos outros incompreendidos é que os primeiros esforços concatenados de planejamento surgiram em nosso estado, auxiliando Ney Braga posteriormente a executar muitas daquelas prioridades em uma gestão exemplar. De Parigot nem falar: na Copel, que ele presidiu com rigor ético e brilhantismo, não se comprava um clipe de papel sem que estivesse estabelecida a prioridade das coisas a fazer.
A outra lição que tive a graça de receber se referia à clareza e à objetividade do que o governante pretende fazer. Jayme Canet Júnior e Ítalo Conti eram fanáticos da objetividade. Ítalo, com aquele seu jeitinho cordial que personificaria o hay que endurecer sin perder la ternura, era de uma franqueza absoluta e não deixava dúvidas sobre o que pensava a respeito de um assunto e do que esperava de seus auxiliares para encaminhá-lo ou resolvê-lo. Canet era menos dado a ternuras e cultivava uma solene antipatia pela enrolação ou pelas meias revelações. Seu bordão inesquecível era “vamos ser práticos”; e, quando alguém tentava convencê-lo de alguma coisa indefensável, declarava em alto e bom som que a única coisa que não suportava é que quisessem lhe passar atestado público de burrice!
Fico pensando no que os dois achariam de um projeto que promete cortar mil cargos comissionados sem dizer exatamente quais – e cria outras mil funções gratificadas sem dizer exatamente para quê; elimina quatro secretarias financeiramente insignificantes e institui uma outra. Com o detalhe adicional de que não é claro para o grande público se os cargos eliminados estão ou não preenchidos. Se não estiverem, o que confessadamente acontece com boa parte deles, acho que devemos todos voltar aos bancos escolares para reaprender aritmética: como é que se elimina gasto deixando de gastar com o que já não estava custando nada?
O nó de Marina - ANA DUBEUX
CORREIO BRAZILIENSE - 06/10
A sentença do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de negar o registro à Rede Sustentabilidade, partido que a ex-senadora Marina Silva pretendia criar, e, em consequência, a decisão de Marina Silva de se aliar ao PSB e compor uma chapa com Eduardo Campos deixam as próximas eleições majoritárias mais instigantes. A chapa Marina- Eduardo Campos (PSB) pode levar a um segundo turno e atrapalhar os planos do tucano Aécio Neves de estar nele. Pode tornar a campanha menos polarizada e mais interessante, embora não signifique uma ruptura com as estruturas partidárias e com o modo de se fazer política atual. E não vai aí nenhum juízo de valor sobre a qualidade dos mandatos, apenas a constatação de que o desejo de mudança mostrado nas ruas, em meados deste ano, dificilmente será atendido em 2014.
Portanto, quem pensava numa eleição embalada pela ventania transformadora, à semelhança das manifestações, pode se frustrar. Aos partidos de aluguel, denunciados nesta semana em matérias do Correio, somam-se propostas semelhantes, soluções de continuidade e alguns novos nomes com velhos discursos. Sobra a promessa, bastante enfatizada por Marina em seu discurso de filiação, de que essa aliança não significa "mais do mesmo". É esperar para ver.
Aqui em Brasília, a decisão de Marina levou a consequências que podem impactar profundamente as eleições locais. Certamente, a disputa será menos polarizada, devido à aliança entre Rodrigo Rollemberg (PSB) e José Antônio Reguffe (PDT). Campeão de votos no Distrito Federal, Reguffe pode comprometer os planos de reeleição do governador Agnelo Queiroz e o retorno de tradicionais políticos, como Joaquim Roriz e o grupo ligado a ele. Se não sair candidato ao governo, é possível que Reguffe seja o vice dos sonhos de Rollemberg ou mesmo o nome para o Senado, deixando a chapa bastante competitiva. Afinal, Marina teve sua votação mais expressiva aqui em Brasília - a capital foi a única do Brasil onde ela teve a maior votação entre os presidenciáveis, em 2010. Neste sentido, é um cenário diferente do que se esperava no Distrito Federal.
Na edição de hoje, o Correio publica um generoso balanço de como começa a se desenhar o quadro eleitoral de 2014. Aproveite para refletir, em especial sobre nossa cidade. Cabe a cada um examinar a situação, com seus próprios critérios, com os históricos já conhecidos e com a obviedade do fato de que a política local é pródiga em nos envergonhar com a ficha corrida de políticos corruptos. Dar de cara novamente com um espantoso escândalo, como a Caixa de Pandora, seria um golpe terrível para o futuro da capital. Mas deixo a pergunta no ar: será que a maioria do eleitorado de Brasília levará em conta esse passado e fará uma escolha criteriosa de quem vai merecer seu voto? Ou seguirá a lógica do "rouba, mas faz"; do corporativismo; do interesse particular e de outros pensamentos que são a base de uma política anacrônica?
Portanto, quem pensava numa eleição embalada pela ventania transformadora, à semelhança das manifestações, pode se frustrar. Aos partidos de aluguel, denunciados nesta semana em matérias do Correio, somam-se propostas semelhantes, soluções de continuidade e alguns novos nomes com velhos discursos. Sobra a promessa, bastante enfatizada por Marina em seu discurso de filiação, de que essa aliança não significa "mais do mesmo". É esperar para ver.
Aqui em Brasília, a decisão de Marina levou a consequências que podem impactar profundamente as eleições locais. Certamente, a disputa será menos polarizada, devido à aliança entre Rodrigo Rollemberg (PSB) e José Antônio Reguffe (PDT). Campeão de votos no Distrito Federal, Reguffe pode comprometer os planos de reeleição do governador Agnelo Queiroz e o retorno de tradicionais políticos, como Joaquim Roriz e o grupo ligado a ele. Se não sair candidato ao governo, é possível que Reguffe seja o vice dos sonhos de Rollemberg ou mesmo o nome para o Senado, deixando a chapa bastante competitiva. Afinal, Marina teve sua votação mais expressiva aqui em Brasília - a capital foi a única do Brasil onde ela teve a maior votação entre os presidenciáveis, em 2010. Neste sentido, é um cenário diferente do que se esperava no Distrito Federal.
Na edição de hoje, o Correio publica um generoso balanço de como começa a se desenhar o quadro eleitoral de 2014. Aproveite para refletir, em especial sobre nossa cidade. Cabe a cada um examinar a situação, com seus próprios critérios, com os históricos já conhecidos e com a obviedade do fato de que a política local é pródiga em nos envergonhar com a ficha corrida de políticos corruptos. Dar de cara novamente com um espantoso escândalo, como a Caixa de Pandora, seria um golpe terrível para o futuro da capital. Mas deixo a pergunta no ar: será que a maioria do eleitorado de Brasília levará em conta esse passado e fará uma escolha criteriosa de quem vai merecer seu voto? Ou seguirá a lógica do "rouba, mas faz"; do corporativismo; do interesse particular e de outros pensamentos que são a base de uma política anacrônica?
A escolha de Marina - JOÃO BOSCO RABELLO
O ESTADO DE S. PAULO - 06/10
A surpresa da aliança entre o governador Eduardo Campos e a ex-ministra Marina Silva é proporcional à sua eficácia política e eleitoral. A escolha do PSB por Marina dobra o potencial de dois candidatos que,isolados,já garantiam a realização de um segundo turno. Juntos, acrescentam à disputa a competitividade que faltava e podem mesmo roubar do PSDB o papel de protagonista da oposição.
Ao se unirem, somam as imagens de perseguidos por um partido que, no governo, trabalhou para impedir a criação da Rede Sustentabilidade e mostrou com o rompimento da aliança para a prefeitura do Recife, origem da dissidência do governador, que não respeita acordos. Sem confiança não se faz política e a confiança que sobrou na aliança de ontem falta historicamente ao PT.
Não era mesmo um desfecho fácil de imaginar, pela condição de candidatos de Campos e Marina,que os tomava concorrentes ao mesmo cargo. Alógica política poderia prever esse pacto num segundo turno eleitoral, jamais antes do primeiro. Só a renúncia de um dos dois à candidatura presidencial poderia alterar essa realidade,o que parece já ter acontecido com a admissão de Marina em apoiar Campos.
De todos os candidatos postos, só Campos e Marina têm aseu favor o trunfo da novidade, a que se junta agora o do desprendimento ao formarem uma dupla em que um abdicará em favor do outro. O elo, explorado ontem nos discursos feitos no evento de filiação,é a ruptura com a "velha política" como pediram os manifestantes nas passeatas de junho, da qual a aliança anunciada é sua materialização.
Enquanto os dois oferecem o espetáculo da união pela causa comum,de uma nova forma de se fazer política, o PSDB volta à estaca zero na definição de seu candidato e reproduz o conflito que, em 201 o, ajudou a derrotar o partido. Em 48 horas, Marina encerrou o debate com seus correligionários sobre o rumo a tomar após o revés na Justiça Eleitoral, e anunciou a opção politicamente mais racional de dar sentido à derrota no tribunal mantendo seu projeto em cena.
A chapa Campos-Marina é duro revés no esforço do ex-presidente Lula em polarizar a eleição novamente com o PSDB e abala o voo de cruzeiro que caracterizava até ontem a campanha da reeleição da presidente Dilma Rousseff. Ao risco de agravamento da economia em 2014 e a provável prisão de condenados do mensalão acrescenta agora às suas preocupações de estrategista a solidez de uma oposição até ontem fragilizada.
Campos ganha a militância que lhe faltava na campanha, importante reforço para nacionalizar sua candidatura. Não por acaso, disfarçava ontem o êxtase que invadiu sua rotina sem maiores avisos.
Mais votos
É consenso entre os políticos que o governo ganhou a briga com as corporações médicas que resistiram à importação de profissionais, o que deve lhe render dividendos eleitorais principalmente no Norte e Nordeste.
Risco
Já na economia caem os ganhos com a redução da energia e com a queda da taxa de juros. A Selic já voltou a subir e a conta de luz está na fila.
Bahia
Na Bahia, o ex-deputado Geddel Vieira Lima (PMDB) pode romper a aliança governista e abrir palanque para Eduardo Campos.
Walters - LUIS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 06/10
O Stanislaw Ponte Preta, grande humorista, também escrevia “sério”, mas com outro nome. Escrevia contos e comentários que assinava com seu nome verdadeiro, Sergio Porto. Stanislaw Ponte Preta era ao mesmo tempo o criador de personagens inesquecíveis e ele mesmo um personagem inesquecivel, criado por Sergio Porto — seu Walter Ego, como diria o próprio Lalau. Já o Millôr fazia humor e falava sério sem mudar de nome, e nos ensinou que você pode tratar das últimas questões da existência sem perder a graça, ou das mais bobas sem ser bobo.
Graham Greene não mudava de nome, mas dividia sua obra em literatura e o que chamava de “entretenimentos”, que incluíam policiais e comédias. Sua literatura “séria” era fortemente marcada pela desilusão política e a busca da salvação numa conduta ética particular ou na religião. Pode-se imaginar Greene começando um “entretenimento” como quem tira férias das suas angústias, ou troca sapatos apertados por chinelos de dedo.
Nunca ficou claro por que o Fernando Pessoa usava tantos heterônimos, já que a poesia de Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e os outros que ele inventou não era muito diferente da sua. Talvez fosse apenas a vontade, comum a artistas, de ser muitos. No meu caso — note a naturalidade com que pulei de Fernando Pessoa à minha pessoa — foi por necessidade. Quando comecei a trabalhar em jornal uma das minhas funções era escrever para a página de opiniões quando faltavam articulistas, e usava dois pseudônimos que muitas vezes se contradiziam. Nunca chegou a haver polêmica aberta entre os dois, mas o Luis Volpe e Fernando Lopes claramente se odiavam, e viviam trocando farpas
O Stanislaw Ponte Preta, grande humorista, também escrevia “sério”, mas com outro nome. Escrevia contos e comentários que assinava com seu nome verdadeiro, Sergio Porto. Stanislaw Ponte Preta era ao mesmo tempo o criador de personagens inesquecíveis e ele mesmo um personagem inesquecivel, criado por Sergio Porto — seu Walter Ego, como diria o próprio Lalau. Já o Millôr fazia humor e falava sério sem mudar de nome, e nos ensinou que você pode tratar das últimas questões da existência sem perder a graça, ou das mais bobas sem ser bobo.
Graham Greene não mudava de nome, mas dividia sua obra em literatura e o que chamava de “entretenimentos”, que incluíam policiais e comédias. Sua literatura “séria” era fortemente marcada pela desilusão política e a busca da salvação numa conduta ética particular ou na religião. Pode-se imaginar Greene começando um “entretenimento” como quem tira férias das suas angústias, ou troca sapatos apertados por chinelos de dedo.
Nunca ficou claro por que o Fernando Pessoa usava tantos heterônimos, já que a poesia de Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e os outros que ele inventou não era muito diferente da sua. Talvez fosse apenas a vontade, comum a artistas, de ser muitos. No meu caso — note a naturalidade com que pulei de Fernando Pessoa à minha pessoa — foi por necessidade. Quando comecei a trabalhar em jornal uma das minhas funções era escrever para a página de opiniões quando faltavam articulistas, e usava dois pseudônimos que muitas vezes se contradiziam. Nunca chegou a haver polêmica aberta entre os dois, mas o Luis Volpe e Fernando Lopes claramente se odiavam, e viviam trocando farpas
Vocês pensam que é moleza - JOÃO UBALDO RIBEIRO
O GLOBO - 06/10
Assim como pimenta no uropígio do próximo é refresco (alieno culo piper refrigerium, no sábio dizer de Terêncio, ou Sêneca, ou Juvenal, ou alguém assim — ninguém vai checar), o trabalho alheio parece sempre mais fácil que o nosso. Há muitos e muitos anos, o famoso cronista José Carlos Oliveira, talvez o mais lido do seu tempo, de vez em quando levava a máquina de escrever para o bar. Lá pedia seu drinque e escrevia sua crônica. Um dia, um visitante deslumbrado foi apresentado a ele e comentou, emocionado:
— Se eu escrevesse assim como o senhor, nunca mais trabalhava!
Pois é. Não é trabalho. Nada do que o escritor faz é trabalho, notadamente miudezas, como frases. Todo dia alguém pede uma frasezinha ao escritor. É somente uma frasezinha de duas ou três linhas, coisa para no máximo uns cinco minutos, entre bolar a frase, escrevê-la e enviá-la por e-mail a quem a pediu. Na verdade, como sabe todo aquele que moureja no teclado, a frasezinha é muito mais difícil do que um texto longo. Tanto assim que o camarada que bola um slogan, ou seja, uma frasezinha, costuma ser muito bem pago e com justiça, porque é um trabalho penoso e estressante, em que pouca gente tem sucesso. Mas escritor escreve frases ótimas, inclusive slogans, à menor solicitação e, se o freguês não gostar, ainda o acusa de má vontade, incompetência ou ambas. E cobrar pela frasezinha, nem pensar. Fico imaginando o diálogo entre um escritor e um diretor de criação de uma grande agência.
— Quanto já deve ter rendido aquele slogan ótimo que você criou para a Brazilian Monkey Business Development Corporation? — pergunta o escritor. — É um conglomerado muito grande, deve ter sido uma baba.
— A esta altura, não dá para calcular, deve estar em vários milhões de dólares.
— Vários milhões? Interessante.
— Interessante por quê?
— É que eu também crio frases. Praticamente todo dia eu crio uma frase, a demanda é muito maior do que você pensa.
— E quanto costumam pagar?
— Em dinheiro ou em símbolos?
— Como assim, símbolos?
— É que quase não há pagamento em dinheiro, costuma ser simbólico. Uma vez eu me queixei de que o supermercado não aceitava símbolos como pagamento e morreram de rir, acharam uma grande frase, mais uma grande frase minha. E me fizeram um pagamento simbólico, é claro.
— É sempre assim?
— Geralmente. Uma vez ou outra, é mais substancial. No sábado mesmo, um camarada veio aqui ao boteco, agradecer pela frase que eu fiz para ele, e estava tão satisfeito que me pagou dois chopes. E acho que pagaria até mais, mas, naquela hora, tinha um compromisso com os patrocinadores do evento. Com minha frase, o dinheiro do patrocínio agora ia sair, me agradeceu muito por ajudar a cultura. São essas coisas que fazem o sujeito amar sua profissão.
Antigamente, quando dava alguma sorte, o escritor ganhava uns trocados de direitos autorais. Ainda ganha, mas está ficando difícil, não apenas porque há um movimento para acabar com essa excrescência de direito autoral, como, por exemplo, todos os meus livros estão disponíveis para serem baixados da internet, em dezenas ou centenas de sites de tudo quanto é canto, em todo tipo de versão, inclusive de áudio, com resumos, sinopses, material para quem quer saber sobre o livro sem ter que o ler e assim por diante. Para esses casos, não sou consultado ou comunicado e muito menos sou pago, nem mesmo em símbolos. Chope, então, esqueçam, sai muito caro.
Há quem se condoa dessas tristes vicissitudes e proponha saídas para a sobrevivência do escritor. Como já tive oportunidade de comentar aqui, uma das propostas mais em evidência é a adaptação do escritor aos novos tempos, através de capacitação profissional em áreas do entretenimento, da cultura e do lazer. Tocar um instrumento musical, cantar de forma pelo menos aceitável, dançar, declamar, assoviar, sapatear, cozinhar e dar receitas, guiar turnês em locais históricos, servir de escort para senhoras que apreciem as belas letras e assim por diante. Há toda uma gama de habilidades que podem ser adquiridas e que se tornam cada vez mais indispensáveis ao escritor, é preciso manter um olho na modernidade e na pós-modernidade, o que lá seja isso.
Tenho pensado em cantar, porque me permite pedir a colaboração da baianada. Peço a Ivete Sangalo e a Daniela Mercury para ajudarem o conterrâneo menos favorecido e tenho certeza de que elas me darão a mão, enquanto eu abro uma noite de autógrafos interpretando músicas de Caetano e Gil, sem que eles recebam um vintém de direitos autorais, pois também têm que se modernizar. A sapatear a idade não ajuda, mas toquei tarol no saudoso Bloco do Jacu em Salvador e posso animar uma batucada, sei marchinhas de cor e acho que posso oferecer meus dotes de puxador a outro bloco de carnaval, em troca da venda de meus livros aos participantes, a preços de ocasião.
Nas próximas semanas, escrever-lhes-ei da Alemanha. Vou à feira do livro de Frankfurt, que desta vez homenageia o nosso país. Depois vou a Berlim, acho que só volto no fim do mês. Prometo fazer o melhor possível para não envergonhar o Brasil e para aprender técnicas de última geração, que ajudem na manutenção de nossa literatura. Sonhar todos podem e quem sabe se não serei o primeiro escritor a mercadejar seus livros no Municipal, enquanto entoa uma ária de Wagner?
Assim como pimenta no uropígio do próximo é refresco (alieno culo piper refrigerium, no sábio dizer de Terêncio, ou Sêneca, ou Juvenal, ou alguém assim — ninguém vai checar), o trabalho alheio parece sempre mais fácil que o nosso. Há muitos e muitos anos, o famoso cronista José Carlos Oliveira, talvez o mais lido do seu tempo, de vez em quando levava a máquina de escrever para o bar. Lá pedia seu drinque e escrevia sua crônica. Um dia, um visitante deslumbrado foi apresentado a ele e comentou, emocionado:
— Se eu escrevesse assim como o senhor, nunca mais trabalhava!
Pois é. Não é trabalho. Nada do que o escritor faz é trabalho, notadamente miudezas, como frases. Todo dia alguém pede uma frasezinha ao escritor. É somente uma frasezinha de duas ou três linhas, coisa para no máximo uns cinco minutos, entre bolar a frase, escrevê-la e enviá-la por e-mail a quem a pediu. Na verdade, como sabe todo aquele que moureja no teclado, a frasezinha é muito mais difícil do que um texto longo. Tanto assim que o camarada que bola um slogan, ou seja, uma frasezinha, costuma ser muito bem pago e com justiça, porque é um trabalho penoso e estressante, em que pouca gente tem sucesso. Mas escritor escreve frases ótimas, inclusive slogans, à menor solicitação e, se o freguês não gostar, ainda o acusa de má vontade, incompetência ou ambas. E cobrar pela frasezinha, nem pensar. Fico imaginando o diálogo entre um escritor e um diretor de criação de uma grande agência.
— Quanto já deve ter rendido aquele slogan ótimo que você criou para a Brazilian Monkey Business Development Corporation? — pergunta o escritor. — É um conglomerado muito grande, deve ter sido uma baba.
— A esta altura, não dá para calcular, deve estar em vários milhões de dólares.
— Vários milhões? Interessante.
— Interessante por quê?
— É que eu também crio frases. Praticamente todo dia eu crio uma frase, a demanda é muito maior do que você pensa.
— E quanto costumam pagar?
— Em dinheiro ou em símbolos?
— Como assim, símbolos?
— É que quase não há pagamento em dinheiro, costuma ser simbólico. Uma vez eu me queixei de que o supermercado não aceitava símbolos como pagamento e morreram de rir, acharam uma grande frase, mais uma grande frase minha. E me fizeram um pagamento simbólico, é claro.
— É sempre assim?
— Geralmente. Uma vez ou outra, é mais substancial. No sábado mesmo, um camarada veio aqui ao boteco, agradecer pela frase que eu fiz para ele, e estava tão satisfeito que me pagou dois chopes. E acho que pagaria até mais, mas, naquela hora, tinha um compromisso com os patrocinadores do evento. Com minha frase, o dinheiro do patrocínio agora ia sair, me agradeceu muito por ajudar a cultura. São essas coisas que fazem o sujeito amar sua profissão.
Antigamente, quando dava alguma sorte, o escritor ganhava uns trocados de direitos autorais. Ainda ganha, mas está ficando difícil, não apenas porque há um movimento para acabar com essa excrescência de direito autoral, como, por exemplo, todos os meus livros estão disponíveis para serem baixados da internet, em dezenas ou centenas de sites de tudo quanto é canto, em todo tipo de versão, inclusive de áudio, com resumos, sinopses, material para quem quer saber sobre o livro sem ter que o ler e assim por diante. Para esses casos, não sou consultado ou comunicado e muito menos sou pago, nem mesmo em símbolos. Chope, então, esqueçam, sai muito caro.
Há quem se condoa dessas tristes vicissitudes e proponha saídas para a sobrevivência do escritor. Como já tive oportunidade de comentar aqui, uma das propostas mais em evidência é a adaptação do escritor aos novos tempos, através de capacitação profissional em áreas do entretenimento, da cultura e do lazer. Tocar um instrumento musical, cantar de forma pelo menos aceitável, dançar, declamar, assoviar, sapatear, cozinhar e dar receitas, guiar turnês em locais históricos, servir de escort para senhoras que apreciem as belas letras e assim por diante. Há toda uma gama de habilidades que podem ser adquiridas e que se tornam cada vez mais indispensáveis ao escritor, é preciso manter um olho na modernidade e na pós-modernidade, o que lá seja isso.
Tenho pensado em cantar, porque me permite pedir a colaboração da baianada. Peço a Ivete Sangalo e a Daniela Mercury para ajudarem o conterrâneo menos favorecido e tenho certeza de que elas me darão a mão, enquanto eu abro uma noite de autógrafos interpretando músicas de Caetano e Gil, sem que eles recebam um vintém de direitos autorais, pois também têm que se modernizar. A sapatear a idade não ajuda, mas toquei tarol no saudoso Bloco do Jacu em Salvador e posso animar uma batucada, sei marchinhas de cor e acho que posso oferecer meus dotes de puxador a outro bloco de carnaval, em troca da venda de meus livros aos participantes, a preços de ocasião.
Nas próximas semanas, escrever-lhes-ei da Alemanha. Vou à feira do livro de Frankfurt, que desta vez homenageia o nosso país. Depois vou a Berlim, acho que só volto no fim do mês. Prometo fazer o melhor possível para não envergonhar o Brasil e para aprender técnicas de última geração, que ajudem na manutenção de nossa literatura. Sonhar todos podem e quem sabe se não serei o primeiro escritor a mercadejar seus livros no Municipal, enquanto entoa uma ária de Wagner?
Fazer acontecer - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 06/10
A ex-senadora Marina Silva tem uma boa ideia na cabeça, mas como se viu no processo de formação da Rede Sustentabilidade, a vida real não necessariamente obedece aos preceitos do sonho, da fé, da esperança e das boas intenções. A maneira como ela lidou com as providências práticas exigidas para que conseguisse registrar a legenda a tempo de incluí-la na eleição de 2014 não fala bem sobre os atributos de Marina para presidir um país. Tarefa que requer, sobretudo, capacidade de fazer acontecer.
A decisão do Tribunal Superior Eleitoral pode ser discutida a partir dos requisitos da lei e do método jurássico de validação dos apoios, mas não foi discutível: o placar inequívoco de 6 a 1 baseado na insuficiência de firmas reconhecidas não deixa espaço a teorias conspiratórias.
O cuidado com a questão programática e a preocupação com a legitimidade da representação social é louvável e diferencia a Rede dos partidos criados ao molde de guichês abertos a todo tipo de negócio. Mas não justifica o descuido com o cumprimento das regras e a indiferença aos aspectos objetivos. Vale para a criação de um partido, vale mais ainda para a condução de um governo.
Esse é o desafio que se apresenta à ex-senadora, tenha ela ou não decidido concorrer à Presidência por outro partido. Para conquistar a confiança do eleitorado não basta levantar a bandeira do “reencantamento com a política”. Precisa dizer com clareza, sem dubiedade nem discursos de forma elaborada e conteúdo algo enigmático, qual o seu projeto de país e como pretende executá-lo.
Se não, corre risco é transformar sua participação política – eleitoral ou não – num bonito, mas frustrante e inútil, “happening” por não conseguir se mostrar capaz de materializar a missão a que se propõe. Por deficiência operacional e o pressuposto soberbo de que suas qualidades fazem os obstáculos se curvarem aos seus pés.
Não é pouco
Antes de julgar o julgamento e concluir que a aceitação dos recursos dos condenados do mensalão que tiveram ao menos quatro votos pela absolvição significa impunidade, seria conveniente revisitar a realidade. Começando por perguntar aos réus se eles acham que saíram impunes. A resposta é óbvia, pois 25 deles carregam condenações que na maioria dos casos já não podem ter as penas revistas e, em outros, a revisão não vai ao ponto de alterar o regime de cumprimento das sentenças.
São dois os crimes em questão: formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Se o tribunal aceitar o mérito e alterar as penas, ocorrerá, no máximo, a mudança do regime fechado para o aberto ou parcialmente aberto. De qualquer modo, das noites na cadeia nem os que porventura venham a ser favorecidos escaparão.
Pode parecer pouca coisa para os espíritos que só se sintam aplacados em sua sede de justiça com o encarceramento permanente. Mas não é irrelevante o fato de gente que já mandou e desmandou no país trocar esse papel pela condição de presidiário.
Não faz sentido dizer que a aceitação dos embargos infringentes desmoralizou o STF numa demonstração de que os poderosos têm tudo e a dureza da lei só recai sobre os desfavorecidos. O Brasil está cheio de pobres que cometem crimes atrozes, batem, matam, estupram e estão por aí à solta como provas das mazelas do sistema.
Na linha
A maior homenagem que o Brasil pode prestar à Constituição que ontem fez 25 anos é começar por cumpri-la à risca, o que não vem sendo feito notadamente quanto ao artigo 37, que exige da administração pública o cumprimento dos princípios da legalidade, transparência, moralidade e impessoalidade.
A ex-senadora Marina Silva tem uma boa ideia na cabeça, mas como se viu no processo de formação da Rede Sustentabilidade, a vida real não necessariamente obedece aos preceitos do sonho, da fé, da esperança e das boas intenções. A maneira como ela lidou com as providências práticas exigidas para que conseguisse registrar a legenda a tempo de incluí-la na eleição de 2014 não fala bem sobre os atributos de Marina para presidir um país. Tarefa que requer, sobretudo, capacidade de fazer acontecer.
A decisão do Tribunal Superior Eleitoral pode ser discutida a partir dos requisitos da lei e do método jurássico de validação dos apoios, mas não foi discutível: o placar inequívoco de 6 a 1 baseado na insuficiência de firmas reconhecidas não deixa espaço a teorias conspiratórias.
O cuidado com a questão programática e a preocupação com a legitimidade da representação social é louvável e diferencia a Rede dos partidos criados ao molde de guichês abertos a todo tipo de negócio. Mas não justifica o descuido com o cumprimento das regras e a indiferença aos aspectos objetivos. Vale para a criação de um partido, vale mais ainda para a condução de um governo.
Esse é o desafio que se apresenta à ex-senadora, tenha ela ou não decidido concorrer à Presidência por outro partido. Para conquistar a confiança do eleitorado não basta levantar a bandeira do “reencantamento com a política”. Precisa dizer com clareza, sem dubiedade nem discursos de forma elaborada e conteúdo algo enigmático, qual o seu projeto de país e como pretende executá-lo.
Se não, corre risco é transformar sua participação política – eleitoral ou não – num bonito, mas frustrante e inútil, “happening” por não conseguir se mostrar capaz de materializar a missão a que se propõe. Por deficiência operacional e o pressuposto soberbo de que suas qualidades fazem os obstáculos se curvarem aos seus pés.
Não é pouco
Antes de julgar o julgamento e concluir que a aceitação dos recursos dos condenados do mensalão que tiveram ao menos quatro votos pela absolvição significa impunidade, seria conveniente revisitar a realidade. Começando por perguntar aos réus se eles acham que saíram impunes. A resposta é óbvia, pois 25 deles carregam condenações que na maioria dos casos já não podem ter as penas revistas e, em outros, a revisão não vai ao ponto de alterar o regime de cumprimento das sentenças.
São dois os crimes em questão: formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Se o tribunal aceitar o mérito e alterar as penas, ocorrerá, no máximo, a mudança do regime fechado para o aberto ou parcialmente aberto. De qualquer modo, das noites na cadeia nem os que porventura venham a ser favorecidos escaparão.
Pode parecer pouca coisa para os espíritos que só se sintam aplacados em sua sede de justiça com o encarceramento permanente. Mas não é irrelevante o fato de gente que já mandou e desmandou no país trocar esse papel pela condição de presidiário.
Não faz sentido dizer que a aceitação dos embargos infringentes desmoralizou o STF numa demonstração de que os poderosos têm tudo e a dureza da lei só recai sobre os desfavorecidos. O Brasil está cheio de pobres que cometem crimes atrozes, batem, matam, estupram e estão por aí à solta como provas das mazelas do sistema.
Na linha
A maior homenagem que o Brasil pode prestar à Constituição que ontem fez 25 anos é começar por cumpri-la à risca, o que não vem sendo feito notadamente quanto ao artigo 37, que exige da administração pública o cumprimento dos princípios da legalidade, transparência, moralidade e impessoalidade.
A sina do Brasil - SACHA CALMON
CORREIO BRAZILIENSE - 06/10
Bastou a presidente Dilma entrar no governo para as coisas se complicarem, interna e externamente, ao ponto de assistirmos, pela primeira vez na história do Brasil, em vez de festas juninas,a uma autêntica rebelião social. Não quero, e nada me autoriza a dizer que ela é pé-frio! Não creio em superstições. O que houve foi o conúbio da má gestão do país, nas áreas da economia e da política, com uma conjuntura internacional adversa.
De conseguinte, se a presidente fosse uma governante capaz, nossos males não seriam tantos nem tão daninhos. Má gestão no setor elétrico, na Petrobras, no BNDES, nas concessões, na "contabilidade criativa", no relacionamento com o Congresso, nas relações diplomáticas, no intervencionismo comunistoide (aversão ao lucro), na manipulação dos fundos de pensão levaram o país a ficar descrente, principalmente para os que investem e produzem, os empresários nacionais e estrangeiros. Há no país uma generalizada crise de confiança. E sem ela a economia não anda. Quanto à confiança jurídica, o que dá quase no mesmo, a situação é deplorável. Dilma alterou todas as políticas econômicas e suas regras legais, haja vista a intervenção no setor elétrico, pondo a Cemig em pé de guerra.
Para não ficar em generalidades, dou exemplos concretos: a questão da tributação das filiais, controladas e coligadas no exterior, e a supressão do ágio interno e externo nas fusões, aquisições e incorporações de empresas. Num momento em que precisamos crescer, o governo vem de baixar medida provisória tributando de vez o lucro no exterior das coligadas e controladas antes de sua realização, e cortando a dedução do ágio interno e externo do Imposto de Renda (IR) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (a CSSL, que não passa de um aditivo do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas). Ao que parece, obrigado a recorrer à iniciativa privada, a administração quer controlá-la como se fossem repartições de um governo socialista.
Ficarei na questão do ágio (sobrepreço), sob o ponto de vista econômico, com foco na aquisição de ativos. A grosso modo, o ágio é um sobrepreço, um esforço do capital que se revela excessivo na aquisição de ativos cujo valor é menor, merecendo ser deduzido do IR e da CSSL. Para incentivar a concorrência nos lances da privatização, o governo FHC permitiu que o ágio - considerado um plus acima do valor real devidamente avaliado das empresas privatizáveis - fosse deduzido do IR a pagar nos exercícios seguintes. Isso incentivou, e muito, o sucesso das privatizações de empresas estatais, cronicamente mal geridas e deficitárias, como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que só dava prejuízos.
Quem não se lembra da ineficiência irritante das siderúrgicas, das empresas de eletricidade, de telecomunicações e de transportes estatais? Eram fábricas de prejuízos e de empreguismo, como o atual Sistema Petrobras. Até mesmo a Vale dava lucrinhos irrisórios. Por força da dedutibilidade do ágio, o Santander pagou mais do que o dobro do valor do Banespa. Os lances subiam, favorecendo os leilões das sucatas estatais, de modo a modernizar o país. O princípio foi ampliado e passou a ser usado nas operações entre empresas do mesmo grupo ou entre grupos (economia de impostos nas reorganizações societárias), favorecendo o desenvolvimento nacional pela redução das disfunções empresariais.
De repente, o governo, mediante medida provisória, muda a legislação e não mais admite a dedutibilidade do ágio "externo" e "interno" e põe fim às discussões legais sobre o momento em que se deve tributar o lucro das coligadas e controladas no exterior. Em ambos os casos, com efeitos retroativos, o que caracteriza desrespeito à Constituição. Mas, ao mesmo tempo, como um morcego que morde e assopra, abriu uma espécie de programa de recuperação fiscal para as empresas deixarem de discutir tais temas e pagarem as autuações a perder de vista. Assim não é possível se criar um saudável ambiente de negócios.
É hora de refletirmos sobre o descasamento entre o governo e a iniciativa privada (a que não troca vantagens com o governo). O momento é oportuno. Teremos eleição em 2014. O governo pratica o "coronelismo de Estado", confere "bolsas" de todo tipo para se manter no poder (acostumou o povo a receber "mesadas").
O Brasil precisa de um choque de gestão e de regras firmes para o empreendedorismo e a livre iniciativa, a teor do art. 170 da Constituição. Chegou a hora de encerrarmos mais um ciclo da nossa história sem relegar as políticas de inclusão social (mas que sejam efetivas e, por isso, temporárias) sob pena de entronizarmos o "Estado-mamãe" e infantilizarmos os estamentos mais pobres e ignorantes de nossa involuída sociedade em benefício de uma minoria de privilegiados encastelados no poder central, para tirar vantagens.
De conseguinte, se a presidente fosse uma governante capaz, nossos males não seriam tantos nem tão daninhos. Má gestão no setor elétrico, na Petrobras, no BNDES, nas concessões, na "contabilidade criativa", no relacionamento com o Congresso, nas relações diplomáticas, no intervencionismo comunistoide (aversão ao lucro), na manipulação dos fundos de pensão levaram o país a ficar descrente, principalmente para os que investem e produzem, os empresários nacionais e estrangeiros. Há no país uma generalizada crise de confiança. E sem ela a economia não anda. Quanto à confiança jurídica, o que dá quase no mesmo, a situação é deplorável. Dilma alterou todas as políticas econômicas e suas regras legais, haja vista a intervenção no setor elétrico, pondo a Cemig em pé de guerra.
Para não ficar em generalidades, dou exemplos concretos: a questão da tributação das filiais, controladas e coligadas no exterior, e a supressão do ágio interno e externo nas fusões, aquisições e incorporações de empresas. Num momento em que precisamos crescer, o governo vem de baixar medida provisória tributando de vez o lucro no exterior das coligadas e controladas antes de sua realização, e cortando a dedução do ágio interno e externo do Imposto de Renda (IR) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (a CSSL, que não passa de um aditivo do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas). Ao que parece, obrigado a recorrer à iniciativa privada, a administração quer controlá-la como se fossem repartições de um governo socialista.
Ficarei na questão do ágio (sobrepreço), sob o ponto de vista econômico, com foco na aquisição de ativos. A grosso modo, o ágio é um sobrepreço, um esforço do capital que se revela excessivo na aquisição de ativos cujo valor é menor, merecendo ser deduzido do IR e da CSSL. Para incentivar a concorrência nos lances da privatização, o governo FHC permitiu que o ágio - considerado um plus acima do valor real devidamente avaliado das empresas privatizáveis - fosse deduzido do IR a pagar nos exercícios seguintes. Isso incentivou, e muito, o sucesso das privatizações de empresas estatais, cronicamente mal geridas e deficitárias, como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que só dava prejuízos.
Quem não se lembra da ineficiência irritante das siderúrgicas, das empresas de eletricidade, de telecomunicações e de transportes estatais? Eram fábricas de prejuízos e de empreguismo, como o atual Sistema Petrobras. Até mesmo a Vale dava lucrinhos irrisórios. Por força da dedutibilidade do ágio, o Santander pagou mais do que o dobro do valor do Banespa. Os lances subiam, favorecendo os leilões das sucatas estatais, de modo a modernizar o país. O princípio foi ampliado e passou a ser usado nas operações entre empresas do mesmo grupo ou entre grupos (economia de impostos nas reorganizações societárias), favorecendo o desenvolvimento nacional pela redução das disfunções empresariais.
De repente, o governo, mediante medida provisória, muda a legislação e não mais admite a dedutibilidade do ágio "externo" e "interno" e põe fim às discussões legais sobre o momento em que se deve tributar o lucro das coligadas e controladas no exterior. Em ambos os casos, com efeitos retroativos, o que caracteriza desrespeito à Constituição. Mas, ao mesmo tempo, como um morcego que morde e assopra, abriu uma espécie de programa de recuperação fiscal para as empresas deixarem de discutir tais temas e pagarem as autuações a perder de vista. Assim não é possível se criar um saudável ambiente de negócios.
É hora de refletirmos sobre o descasamento entre o governo e a iniciativa privada (a que não troca vantagens com o governo). O momento é oportuno. Teremos eleição em 2014. O governo pratica o "coronelismo de Estado", confere "bolsas" de todo tipo para se manter no poder (acostumou o povo a receber "mesadas").
O Brasil precisa de um choque de gestão e de regras firmes para o empreendedorismo e a livre iniciativa, a teor do art. 170 da Constituição. Chegou a hora de encerrarmos mais um ciclo da nossa história sem relegar as políticas de inclusão social (mas que sejam efetivas e, por isso, temporárias) sob pena de entronizarmos o "Estado-mamãe" e infantilizarmos os estamentos mais pobres e ignorantes de nossa involuída sociedade em benefício de uma minoria de privilegiados encastelados no poder central, para tirar vantagens.
As campeãs nacionais de desastres - ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 06/10
O sonho petista de criar um bloco de empresas financiadas pelo BNDES reeditou um pesadelo
Em 2007, o BNDES ressuscitou o zumbi da anabolização de empresários amigos e anunciou que o governo queria criar um núcleo de "campeões nacionais", inserindo-o no mundo das grandes empresas mundiais. Nesse lance, botou perto de R$ 20 bilhões em empresas companheiras.
Numa mesma semana, dois fatos mostraram o tamanho do fracasso dessa política. O conglomerado da OGX, produção megalomaníaca de Eike Batista na qual o BNDES financiou R$ 10,4 bilhões, está no chão. A "supertele" Oi, produto da fusão pra lá de esquisita e paternal da Telemar com a Brasil Telecom, tornou-se uma campeã nacional portuguesa, fundindo-se com a Portugal Telecom. Em 2010, o BNDES e os fundos de pensão tinham 49% da empresa. A nova "supertele" nasce com uma dívida de R$ 45,6 bilhões. Novamente, receberá recursos do BNDES e dos fundos companheiros. O ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, garante que essa fusão é uma "estratégia". Vá lá, desde que ele acredite que o Unibanco fundiu-se com o Itaú.
A carteira de ações do BNDESPar caiu de R$ 89,7 bilhões em 2011 para R$ 72,8 bilhões em 2012. A campeã do ramo de laticínios chamava-se LBR e quebrou. A Fibria, resultante da fusão da Aracruz (chumbada) com a Votorantim, atolou. O frigorifico Marfrig tomou R$ 3,6 bilhões no banco e acabou comido pela JBS, cujos controladores movem-se num perigoso mundo onde convivem a finança internacional e a política goiana. Já o Bertin teve que ser vendido logo depois de o BNDES entrar na empresa. (Até 2013, esse setor recebeu a maior parte dos investimentos do BNDES.)
O BNDES anunciou há meses que abandonou a estratégia da criação dos campeões nacionais. Falta só explicar quanto custou, quanto custará e que forças alavancaram os afortunados. Essa tarefa será fácil para alguns petistas e para o doutor Luciano Coutinho. Eles conhecem a história do banco.
TUDO BEM COM THOR
Eike Batista não pagou os US$ 45 milhões que devia aos seus credores, mas ninguém deve temer que seus dependentes entrem para o cadastro do Bolsa Família. Seu filho Thor, que estava em Miami com a mãe, a atriz Luma de Oliveira, veio para o Rio. Mesmo tendo prestado serviços despiciendos ao grupo OGX, recolheu aquilo a que julgava ter direito.
TIRADENTES
Quarenta anos depois do aparecimento do esplêndido "Devassa da Devassa", que recontou a história da Inconfidência Mineira, o professor Kenneth Maxwell voltou às Minas Gerais do século 18. Num texto de 57 páginas que serve de introdução à história de um livro que pertenceu a Tiradentes, Maxwell coloca no seu devido contexto a aproximação de inconfidentes com os "americanos ingleses", notadamente Thomas Jefferson, que era embaixador na França.
Coisa de quem leu tudo e é capaz de ver na articulação dos mineiros não só uma busca de ajuda junto aos subversivos da época, mas um desejo de aproximar os brasileiros do pensamento político e econômico da Revolução Industrial nascente.
Tiradentes e seus pares eram perigosos porque iam atrás das ideias dos americanos. Tanto era assim que ele tinha um livro com os textos da Declaração da Independência e as Constituições de 6 das 13 ex-colônias americanas.
Pela primeira vez, o "Livro de Tiradentes" tem sua íntegra publicada e comentada no Brasil. Até 1860, ele ficou dentro de um saco verde nos arquivos brasileiros. Passou por Santa Catarina e só voltou a Ouro Preto em 1989.
EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e acha que alguém está com saudade das manifestações de junho.
O Judiciário bloqueou a Rede de Marina Silva por falta de apoio dos eleitores e criou o Pros (ganha uma viagem a Frankfurt quem souber o que ele é) e o Solidariedade (ganha outra viagem quem não souber o que ele é).
MASSIMO (1978-2013)
Acabou-se o restaurante Massimo, meca da comida italiana e da plutocracia paulistana nos anos 80. Massimo Ferrari, a alma da casa, deixara-a em 2006. O desfecho deu-se por causa de um litígio judicial com os proprietários do imóvel, que se arrastava há anos.
CHAFURDANDO
Em março, aborrecido com uma pergunta do repórter Felipe Recondo, o ministro Joaquim Barbosa chamou-o de "palhaço", mandando-o "chafurdar no lixo". Pouco depois, sua assessoria manifestou-se: "Em nome do presidente do STF, peço desculpas aos profissionais de imprensa pelo episódio ocorrido hoje".
Passados sete meses, Barbosa oficiou ao ministro Ricardo Lewandowski, pedindo que considerasse o defenestramento da mulher de Recondo, lotada na assessoria do colega. Reputou "antiética" a posição da servidora, mas, salvo a relação matrimonial, não apresentou um único fato que amparasse o adjetivo. A senhora é servidora pública concursada desde 2000. Casou-se com Recondo em 2006.
Lewandowski rebarbou a sugestão, e Barbosa recuou.
Tudo bem, Barbosa acha que se pode descarregar sobre as atividades profissionais das mulheres os desconfortos que se gostaria de impor aos maridos.
O que não se entende é o pedido de desculpas de março. Era brincadeira, ou agora Barbosa quer um embargo infringente reverso?
A VIÚVA NA FARRA DA FEIRA DE FRANKFURT
Sempre é o caso de repetir a lição do embaixador Azeredo da Silveira: "Tem gente que atravessa a rua para escorregar na casca de banana que está na outra calçada". O Ministério da Cultura e a Biblioteca Nacional meteram-se com uma farra na feira de livros de Frankfurt e comprometeram R$ 18,9 milhões da Viúva para custear a homenagem que o país receberá.
Trata-se de um evento de negócios que começa quarta-feira, dura uma semana, mas estará aberto ao público por apenas dois dias. Para ele convidaram 70 escritores, à custa da Boa Senhora. Ganha uma viagem a Cuba quem souber a importância de uma homenagem na feira de Frankfurt para quem paga imposto em Pindorama, onde a Biblioteca Nacional, arruinada, não abre aos domingos e nela é vedado o uso de canetas. Recarga para o laptop, só num restaurante próximo.
Em 2000, quando o governo de FHC torrou R$ 14 milhões na feira de Hanover, comemorando os 500 anos do Descobrimento, o procurador Luiz Francisco de Souza acusou a empresa que montou o pavilhão brasileiro de improbidade. Se os empresários do mercado editorial brasileiro precisassem da homenagem da feira, poderiam recebê-la, com o dinheiro deles. O setor está grandinho. Faturou R$ 5 bilhões em 2012 e nele há administradores sagazes. Em 2012, o Brasil importou 13,5 mil toneladas de livros mandados imprimir na China. Afinal, custam a metade. Dão emprego a chineses e, com o dinheiro dos brasileiros, festejam-se na Alemanha.
Às vésperas da feira, viu-se que foram contratados serviços sem as devidas licitações, e um jornal alemão lembrou que entre os 70 escritores convidados há apenas um negro, Paulo Lins. Apesar disso, o Brasil é apresentado como "um país que se reinventa". Na sexta-feira, o escritor Paulo Coelho detonou a comitiva da reinvenção.
O sonho petista de criar um bloco de empresas financiadas pelo BNDES reeditou um pesadelo
Em 2007, o BNDES ressuscitou o zumbi da anabolização de empresários amigos e anunciou que o governo queria criar um núcleo de "campeões nacionais", inserindo-o no mundo das grandes empresas mundiais. Nesse lance, botou perto de R$ 20 bilhões em empresas companheiras.
Numa mesma semana, dois fatos mostraram o tamanho do fracasso dessa política. O conglomerado da OGX, produção megalomaníaca de Eike Batista na qual o BNDES financiou R$ 10,4 bilhões, está no chão. A "supertele" Oi, produto da fusão pra lá de esquisita e paternal da Telemar com a Brasil Telecom, tornou-se uma campeã nacional portuguesa, fundindo-se com a Portugal Telecom. Em 2010, o BNDES e os fundos de pensão tinham 49% da empresa. A nova "supertele" nasce com uma dívida de R$ 45,6 bilhões. Novamente, receberá recursos do BNDES e dos fundos companheiros. O ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, garante que essa fusão é uma "estratégia". Vá lá, desde que ele acredite que o Unibanco fundiu-se com o Itaú.
A carteira de ações do BNDESPar caiu de R$ 89,7 bilhões em 2011 para R$ 72,8 bilhões em 2012. A campeã do ramo de laticínios chamava-se LBR e quebrou. A Fibria, resultante da fusão da Aracruz (chumbada) com a Votorantim, atolou. O frigorifico Marfrig tomou R$ 3,6 bilhões no banco e acabou comido pela JBS, cujos controladores movem-se num perigoso mundo onde convivem a finança internacional e a política goiana. Já o Bertin teve que ser vendido logo depois de o BNDES entrar na empresa. (Até 2013, esse setor recebeu a maior parte dos investimentos do BNDES.)
O BNDES anunciou há meses que abandonou a estratégia da criação dos campeões nacionais. Falta só explicar quanto custou, quanto custará e que forças alavancaram os afortunados. Essa tarefa será fácil para alguns petistas e para o doutor Luciano Coutinho. Eles conhecem a história do banco.
TUDO BEM COM THOR
Eike Batista não pagou os US$ 45 milhões que devia aos seus credores, mas ninguém deve temer que seus dependentes entrem para o cadastro do Bolsa Família. Seu filho Thor, que estava em Miami com a mãe, a atriz Luma de Oliveira, veio para o Rio. Mesmo tendo prestado serviços despiciendos ao grupo OGX, recolheu aquilo a que julgava ter direito.
TIRADENTES
Quarenta anos depois do aparecimento do esplêndido "Devassa da Devassa", que recontou a história da Inconfidência Mineira, o professor Kenneth Maxwell voltou às Minas Gerais do século 18. Num texto de 57 páginas que serve de introdução à história de um livro que pertenceu a Tiradentes, Maxwell coloca no seu devido contexto a aproximação de inconfidentes com os "americanos ingleses", notadamente Thomas Jefferson, que era embaixador na França.
Coisa de quem leu tudo e é capaz de ver na articulação dos mineiros não só uma busca de ajuda junto aos subversivos da época, mas um desejo de aproximar os brasileiros do pensamento político e econômico da Revolução Industrial nascente.
Tiradentes e seus pares eram perigosos porque iam atrás das ideias dos americanos. Tanto era assim que ele tinha um livro com os textos da Declaração da Independência e as Constituições de 6 das 13 ex-colônias americanas.
Pela primeira vez, o "Livro de Tiradentes" tem sua íntegra publicada e comentada no Brasil. Até 1860, ele ficou dentro de um saco verde nos arquivos brasileiros. Passou por Santa Catarina e só voltou a Ouro Preto em 1989.
EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e acha que alguém está com saudade das manifestações de junho.
O Judiciário bloqueou a Rede de Marina Silva por falta de apoio dos eleitores e criou o Pros (ganha uma viagem a Frankfurt quem souber o que ele é) e o Solidariedade (ganha outra viagem quem não souber o que ele é).
MASSIMO (1978-2013)
Acabou-se o restaurante Massimo, meca da comida italiana e da plutocracia paulistana nos anos 80. Massimo Ferrari, a alma da casa, deixara-a em 2006. O desfecho deu-se por causa de um litígio judicial com os proprietários do imóvel, que se arrastava há anos.
CHAFURDANDO
Em março, aborrecido com uma pergunta do repórter Felipe Recondo, o ministro Joaquim Barbosa chamou-o de "palhaço", mandando-o "chafurdar no lixo". Pouco depois, sua assessoria manifestou-se: "Em nome do presidente do STF, peço desculpas aos profissionais de imprensa pelo episódio ocorrido hoje".
Passados sete meses, Barbosa oficiou ao ministro Ricardo Lewandowski, pedindo que considerasse o defenestramento da mulher de Recondo, lotada na assessoria do colega. Reputou "antiética" a posição da servidora, mas, salvo a relação matrimonial, não apresentou um único fato que amparasse o adjetivo. A senhora é servidora pública concursada desde 2000. Casou-se com Recondo em 2006.
Lewandowski rebarbou a sugestão, e Barbosa recuou.
Tudo bem, Barbosa acha que se pode descarregar sobre as atividades profissionais das mulheres os desconfortos que se gostaria de impor aos maridos.
O que não se entende é o pedido de desculpas de março. Era brincadeira, ou agora Barbosa quer um embargo infringente reverso?
A VIÚVA NA FARRA DA FEIRA DE FRANKFURT
Sempre é o caso de repetir a lição do embaixador Azeredo da Silveira: "Tem gente que atravessa a rua para escorregar na casca de banana que está na outra calçada". O Ministério da Cultura e a Biblioteca Nacional meteram-se com uma farra na feira de livros de Frankfurt e comprometeram R$ 18,9 milhões da Viúva para custear a homenagem que o país receberá.
Trata-se de um evento de negócios que começa quarta-feira, dura uma semana, mas estará aberto ao público por apenas dois dias. Para ele convidaram 70 escritores, à custa da Boa Senhora. Ganha uma viagem a Cuba quem souber a importância de uma homenagem na feira de Frankfurt para quem paga imposto em Pindorama, onde a Biblioteca Nacional, arruinada, não abre aos domingos e nela é vedado o uso de canetas. Recarga para o laptop, só num restaurante próximo.
Em 2000, quando o governo de FHC torrou R$ 14 milhões na feira de Hanover, comemorando os 500 anos do Descobrimento, o procurador Luiz Francisco de Souza acusou a empresa que montou o pavilhão brasileiro de improbidade. Se os empresários do mercado editorial brasileiro precisassem da homenagem da feira, poderiam recebê-la, com o dinheiro deles. O setor está grandinho. Faturou R$ 5 bilhões em 2012 e nele há administradores sagazes. Em 2012, o Brasil importou 13,5 mil toneladas de livros mandados imprimir na China. Afinal, custam a metade. Dão emprego a chineses e, com o dinheiro dos brasileiros, festejam-se na Alemanha.
Às vésperas da feira, viu-se que foram contratados serviços sem as devidas licitações, e um jornal alemão lembrou que entre os 70 escritores convidados há apenas um negro, Paulo Lins. Apesar disso, o Brasil é apresentado como "um país que se reinventa". Na sexta-feira, o escritor Paulo Coelho detonou a comitiva da reinvenção.
O Estado no pico da crise - GAUDÊNCIO TORQUATO
O ESTADO DE S. PAULO - 06/10
A ciência política ensina que Estado e sociedade formam um todo indivisível. A prática mostra que, ao menos entre nós, Estado e sociedade compõem uma dualidade em escancarado desnível. Nosso corpo social anda a passos mais avançados que o esqueleto do Estado.
Basta conferir os pulmões cheios de oxigênio de grupos que representam o espectro profissional ocupando ruas, acampando diante das Casas do poder, em Brasília e nos Estados, entrando em choque com aparatos policiais, expandindo uma locução focada na qualidade dos serviços públicos e na melhoria de condições de vida das comunidades. A visão é clara: a sociedade empunha aríetes para furar os bloqueios das fortalezas do Estado. Outra imagem que transparece é a de forças centrípetas saindo das margens para fustigar as forças centrífugas, simbolizadas pelos Poderes nas três instâncias federativas - União, Estados e municípios. Não se pense que a intenção é destruir os organismos que tributam, legislam e julgam, mas exigir deles mais eficiência no cumprimento de suas tarefas. Desse cenário conflituoso emerge a ideia de que a sociedade nunca esteve tão ativa, enquanto o Estado nunca foi tão reativo, lerdo, sem rumo.
Seja qual for o espaço da administração, as mostras de ineficiência e incúria se multiplicam. Após muito planejamento, o governo abriu leilão para a concessão da rodovia federal BR-262, um dos principais corredores de transporte de carga do País, num trecho de 375 km que passa por 22 municípios. A expectativa era enorme. O leilão, um fiasco para o Executivo. Ninguém se interessou, o que: denota curto-circuito num dos; programas-chave do governo. "Não há Judiciário mais confuso que o nosso", vem de dizer o presidente da Corte Suprema, ministro Joaquim Barbosa. Péssimo conceito. A pendenga entre o Legislativo e o Executivo é um continuum de tensões, não apenas em decorrência de medidas provisórias que trancam pautas do Congresso, mas por causa da índole do nosso presidencialismo, sempre atento ao poder imperial, com o qual mantém sob rédea curta o conjunto parlamentar. Nas instâncias estaduais e municipais, curvas e buracos desorganizam as avenidas das administrações, adensando a insatisfação social. A conclusão é inevitável: o Estado brasileiro atinge o pico da montanha de uma crise que se arrasta há décadas. Ainda está em pé por causa de estacas e ferragens que, aqui e ali, se colocam, algumas de maneira improvisada, para sustentar os barrancos.
O que fazer para que o Estado acompanhe o andar ligeiro da sociedade? Resposta na ponta da língua: reformá-lo. Ora, se esse verbo é o mais acessado do dicionário de nossas utopias, é também o mais distante de nossa realidade. A razão é óbvia: reformar, como lembra Samuel Huntington, é mudar valores, padrões tradicionais, expandir a educação, racionalizar estruturas de autoridade, criar organizações funcionalmente específicas, substituir critérios subjetivos por elementos de desempenho e promover distribuição mais equitativa dos recursos materiais e simbólicos. Ou ainda, como dizia Maquiavel, "nada mais difícil de executar, mais duvidoso de ter êxito ou mais perigoso de manejar do que dar início a uma nova ordem de coisas". No nosso caso, as barreiras culturais, formadas lá atrás com a argamassa do patrimonialismo e seus filhotes, o clientelismo e o nepotismo, formam diques quase insuperáveis no oceano da reforma do Estado. Reformar o Estado não é passar massa de reboco nos andares dos edifícios governativos, como se tem feito, aqui e ali, em momentos de tensão. Abriga tarefas hercúleas nos três Poderes que integram a estrutura de governo e envolvem questões estratégicas, definições que mudam até o modiis operandi do regime, rotinas, práticas e costumes dos entes administrativos Na esfera estratégica, um dos primeiros movimentos é na direção das funções do Estado, com a distinção entre suas atividades exclusivas (legislar, regular, julgar, policiar, fiscalizar, definir políticas, fomentar), os braços sociais e a produção de bens e serviços, visando a buscar novos modelos de desenvolvimento. A título de ilustração, essa questão não está clara na atual administração, pois o conceito de privatização é demonizado, apesar de o programa de concessões apontar para uma tomada de posição privatista repudiada pelo petismo. Não se trata, como ideólogos radicais enxergam, de defender o Estado mínimo ou combater o Estado máximo, mas fortalecê-lo para que consiga aperfeiçoar sua ação reguladora, a par de qualificar serviços e políticas sociais. A modelagem de cunho social-liberal é, seguramente, a mais adequada para gerar eficácia nas ações estatais e estimular a competição no campo privado. (O peso do conceito liberal, eis o busílis.)
Entre as engrenagens capazes de conferir maior velocidade ao motor do Estado, algumas são bem conhecidas. A meritocracia, por exemplo. Por que não implantar, de cima para baixo, a política do mérito, exigindo quadros profissionais qualificados, adequados às funções, treinados nas habilidades gerenciais? O atendimento político, por sua vez, deveria restringir-se às áreas específicas e, caso se levante o argumento da preservação do presidencialismo de coalizão, os partidos deveriam indicar perfis técnicos condizentes com os cargos. A gestão passaria por um banho de capacitação em todas as instâncias. Ao servidor público, mais valorizado, seria propiciada motivação profissional, a partir de remuneração condizente com o mercado de trabalho. O excesso burocrático seria contido, evitando-se a escadaria dos papéis e o retardamento das ações e decisões. Na frente da Previdência, urge consolidar uma política voltada para tampar os buracos do sistema, de forma a equilibrar as contas do Estado.
O conselho do ministro Joaquim Barbosa - JOAQUIM FALCÃO
CORREIO BRAZILIENSE - 06/10
Perguntado por Ricardo Boechat sobre o conselho que daria ao próximo presidente da República em relação ao Judiciário, Joaquim Barbosa respondeu: reúna-se com os presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo tribunal Federal, para buscar simplicidade, objetividade e eficiência na administração da Justiça.
Ou seja, o ministro Barbosa não defendeu um determinado modelo de Judiciário, uma determinada lei, ou propôs novo código. Propôs simplesmente um pacto político, entre poderes, de caráter não governamental, não partidário e nacional. Pacto de Estado. Sem este pacto político, o Judiciário continua como está. E a desconfiança popular também. A última pesquisa da Faculdade de Direito da Fundação Getulio Vargas, de São Paulo, indica que mais de 60% dos brasileiros não confiam no Judiciário. Por que priorizar um pacto?
Provavelmente, por alguns motivos. Primeiro, por que não faltam - no Congresso, no Judiciário, no Ministério da Justiça, nas universidades, nas associações, na mídia - projetos de todos os tipos, uns ótimos, outros irreais, outros corporativos, para combater o que o ministro Barbosa aponta de bacharelismo barroco, confusão processual, ingerência política, medo de aplicar a lei.
O que falta é disposição, convergência e forca política para escolher os melhores projetos, adotá-los e implementá-los. E por que falta, já que todos estão de acordo que é preciso mudar?
Por razão simples. O modelo atual, com morosidade, barroquismo e medo, tem seus beneficiários, seus defensores ocultos. Em outras palavras, o modelo atual é lucrativo econômica e politicamente para alguns setores do Judiciário e da sociedade. Esses setores praticam o discurso da mudança, encobrindo a prática da manutenção. São poderosos e hegemônicos. Influenciam ainda decisivamente a Presidência da República, o Congresso Nacional e o próprio Supremo. Alguns exemplos.
Quem inunda a Justiça Federal e a estadual é o próprio Poder Executivo, com questões fiscais e previdenciárias, com privilégios processuais que geram ineficiências nas cobranças. Transferem os custos de cobrança do Executivo para o orçamento do Judiciário. Sem falar nos precatórios que legalizaram a moratória dos tesouros. Reformar a Justiça significaria o Tesouro Nacional e os tesouros estaduais e municipais reformarem suas relações com o Judiciário.
Quem inunda as justiças estaduais são as concessionárias de serviços públicos e as empresas de consumo de massa, ao conflitar com os direitos do consumidor, a ponto de fazer com que os juizados especiais sejam hoje uma das maiores fontes de processos que chegam ao Supremo. Patologia maior não há. Reforma da Justiça significa apenas o próprio Supremo e juízes e tribunais estaduais se autodefenderem. Barrarem demandas temerárias, protelatórios e de má-fé.
Em vez de criarem uma jurisprudência que cada dia beneficia mais a morosidade, criarem uma rigorosa e economicamente punitiva jurisprudência antimorosidade.
Faltam estradas no Brasil. Mas quem mais constrói estradas desnecessárias no Brasil é a jurisprudência do Judiciário, para o mero passar de processos indevidos que não pretendem chegar à Justiça. Nem deixar que cheguem. É a estrada ao contrário. Em vez de ser de alta velocidade, é quase de velocidade nenhuma.
Bacharelismo barroco, como denuncia o ministro Barbosa, não é apenas um estilo de fazer advocacia. São interesses econômicos e políticos concretizáveis. Não é um adorno cultural e profissional. Quando a lei estabeleceu que divórcio consensual não precisaria de juiz, bastava registro em cartório, bem como certos tipos de inventário, em pouco tempo se notou que as exigências barrocas dos cartórios tornavam mais caro e demorado o processo trazido pela lei simplificadora. A morosidade do Judiciário era mais célere e barata.
O pacto sugerido pelo ministro Barbosa implica numa radical mudança de pauta. Hoje, todos discutem novos códigos: processual civil, penal, comercial. Nenhum com análises de impacto de custos que viabilizam o operacional. Se aprovados, vão ser aplicados da mesma maneira que os atuais. Vale a pena? Lidar com interesses corporativos faz parte da democracia. Deixar que eles comandem a pauta do Estado, não.
Ou seja, o ministro Barbosa não defendeu um determinado modelo de Judiciário, uma determinada lei, ou propôs novo código. Propôs simplesmente um pacto político, entre poderes, de caráter não governamental, não partidário e nacional. Pacto de Estado. Sem este pacto político, o Judiciário continua como está. E a desconfiança popular também. A última pesquisa da Faculdade de Direito da Fundação Getulio Vargas, de São Paulo, indica que mais de 60% dos brasileiros não confiam no Judiciário. Por que priorizar um pacto?
Provavelmente, por alguns motivos. Primeiro, por que não faltam - no Congresso, no Judiciário, no Ministério da Justiça, nas universidades, nas associações, na mídia - projetos de todos os tipos, uns ótimos, outros irreais, outros corporativos, para combater o que o ministro Barbosa aponta de bacharelismo barroco, confusão processual, ingerência política, medo de aplicar a lei.
O que falta é disposição, convergência e forca política para escolher os melhores projetos, adotá-los e implementá-los. E por que falta, já que todos estão de acordo que é preciso mudar?
Por razão simples. O modelo atual, com morosidade, barroquismo e medo, tem seus beneficiários, seus defensores ocultos. Em outras palavras, o modelo atual é lucrativo econômica e politicamente para alguns setores do Judiciário e da sociedade. Esses setores praticam o discurso da mudança, encobrindo a prática da manutenção. São poderosos e hegemônicos. Influenciam ainda decisivamente a Presidência da República, o Congresso Nacional e o próprio Supremo. Alguns exemplos.
Quem inunda a Justiça Federal e a estadual é o próprio Poder Executivo, com questões fiscais e previdenciárias, com privilégios processuais que geram ineficiências nas cobranças. Transferem os custos de cobrança do Executivo para o orçamento do Judiciário. Sem falar nos precatórios que legalizaram a moratória dos tesouros. Reformar a Justiça significaria o Tesouro Nacional e os tesouros estaduais e municipais reformarem suas relações com o Judiciário.
Quem inunda as justiças estaduais são as concessionárias de serviços públicos e as empresas de consumo de massa, ao conflitar com os direitos do consumidor, a ponto de fazer com que os juizados especiais sejam hoje uma das maiores fontes de processos que chegam ao Supremo. Patologia maior não há. Reforma da Justiça significa apenas o próprio Supremo e juízes e tribunais estaduais se autodefenderem. Barrarem demandas temerárias, protelatórios e de má-fé.
Em vez de criarem uma jurisprudência que cada dia beneficia mais a morosidade, criarem uma rigorosa e economicamente punitiva jurisprudência antimorosidade.
Faltam estradas no Brasil. Mas quem mais constrói estradas desnecessárias no Brasil é a jurisprudência do Judiciário, para o mero passar de processos indevidos que não pretendem chegar à Justiça. Nem deixar que cheguem. É a estrada ao contrário. Em vez de ser de alta velocidade, é quase de velocidade nenhuma.
Bacharelismo barroco, como denuncia o ministro Barbosa, não é apenas um estilo de fazer advocacia. São interesses econômicos e políticos concretizáveis. Não é um adorno cultural e profissional. Quando a lei estabeleceu que divórcio consensual não precisaria de juiz, bastava registro em cartório, bem como certos tipos de inventário, em pouco tempo se notou que as exigências barrocas dos cartórios tornavam mais caro e demorado o processo trazido pela lei simplificadora. A morosidade do Judiciário era mais célere e barata.
O pacto sugerido pelo ministro Barbosa implica numa radical mudança de pauta. Hoje, todos discutem novos códigos: processual civil, penal, comercial. Nenhum com análises de impacto de custos que viabilizam o operacional. Se aprovados, vão ser aplicados da mesma maneira que os atuais. Vale a pena? Lidar com interesses corporativos faz parte da democracia. Deixar que eles comandem a pauta do Estado, não.
Shutdown na democracia - FLÁVIO MORGENSTERN
GAZETA DO POVO - PR - 06/10
Há governantes que não sabem dividir o poder. Ou não conseguem trabalhar com o poder dividido. A democracia, em definição moderna, é o poder divido por definição. Alguns governantes não querem meio poder. Querem o poder total. Não são apenas ditadores. Os maus-tratos com a oposição são comuns em sistemas políticos em que os poderes se contrabalanceiam – mas nos quais grandes políticos chefiando um poder se sentem desconfortáveis com a “concorrência”. Barack Obama é um desses políticos. Às voltas com o Legislativo sabiamente recusando sua gastança desgovernada, reconstrói a narrativa dos fatos para sangrar os republicanos como grandes vilões, enquanto ele, sozinho, tenta salvar a América.
O orçamento americano prevê as despesas recorrentes. Não aprovadas até a data limite, são simplesmente cortadas – ao contrário da esbórnia brasileira, em que se usa orçamentos de anos anteriores sem dó. Elas incluem boa parte do que o governo gastará, vigiadas de perto pelos deputados (representatives). Não haver o “acordo” entre democratas e republicanos, portanto, gera o chamado shutdown, um “fechamento” para balanço geral, que afeta todo o país: desde funcionários públicos federais parados até as verbas que mantêm o Memorial da Segunda Guerra, em Washington – para onde Obama mandou sete agentes das forças de segurança para impedir uma manifestação pela sua manutenção, sem ter enviado nenhum desses agentes para Bengazi, na Líbia, durante um atentado terrorista.
Mas são os congressistas que escolhem onde se corta. A atual composição das casas indica maioria republicana na Câmara e maioria democrata no Senado. Eis que surge Obama, e vincula o seu Obamacare aos gastos governamentais. O Obamacare já passou como lei, faltando a votação de seu orçamento. É estratégia republicana aberta e declarada, agora, discutir esses novos gastos governamentais, que já estão deixando a América à bancarrota.
Não se discute, portanto, o Obamacare, mas seus custos. Obama, vinculando-os ao orçamento federal na marra como uma coisa única, vende a esparrela de que está fazendo uma lei pelos pobres, e os malvados republicanos lutam contra uma lei já aprovada. Sabendo que toda a imprensa mundial está a seu lado (onde mais recebe críticas é em seu próprio território), sua narrativa cola como grude.
O Poder Executivo ser contrabalanceado pelo Legislativo foi sempre admitido como norma nas democracias modernas. É como uma indicação de juiz ao STF: ela parte do Executivo, mas o juiz precisa de uma sabatina dos deputados. Isso nunca antes havia sido questionado em mais de 200 anos de república americana.
A historieta de Obama passa à retórica violenta. Diz que os republicanos estão armando um golpe de Estado, mirando uma lei já votada. Bill Clinton passou 28 dias com um shutdown em mãos sem apelar para essas invencionices. Newt Gingrich, então presidente da Câmara, acertou as contas para o adversário democrata, que, após se submeter a contragosto à austeridade, forjou a ideia de que ele próprio construiu o arranjo. It’s the economy, stupid.
Hoje a situação se obnubila, e Barack Obama, o presidente plenipotente com um Nobel da Paz em mão, pode apelar à busca por inimigos da pátria, como bem clamou seu guru, o anarquista radical Saul Alinsky. É do feitio da mentalidade dos golpistas encontrar golpistas em cada cérebro que saiba ligar pontos sem precisar do poder central e de seu sorridente rosto que sabe ganhar eleições.
Há governantes que não sabem dividir o poder. Ou não conseguem trabalhar com o poder dividido. A democracia, em definição moderna, é o poder divido por definição. Alguns governantes não querem meio poder. Querem o poder total. Não são apenas ditadores. Os maus-tratos com a oposição são comuns em sistemas políticos em que os poderes se contrabalanceiam – mas nos quais grandes políticos chefiando um poder se sentem desconfortáveis com a “concorrência”. Barack Obama é um desses políticos. Às voltas com o Legislativo sabiamente recusando sua gastança desgovernada, reconstrói a narrativa dos fatos para sangrar os republicanos como grandes vilões, enquanto ele, sozinho, tenta salvar a América.
O orçamento americano prevê as despesas recorrentes. Não aprovadas até a data limite, são simplesmente cortadas – ao contrário da esbórnia brasileira, em que se usa orçamentos de anos anteriores sem dó. Elas incluem boa parte do que o governo gastará, vigiadas de perto pelos deputados (representatives). Não haver o “acordo” entre democratas e republicanos, portanto, gera o chamado shutdown, um “fechamento” para balanço geral, que afeta todo o país: desde funcionários públicos federais parados até as verbas que mantêm o Memorial da Segunda Guerra, em Washington – para onde Obama mandou sete agentes das forças de segurança para impedir uma manifestação pela sua manutenção, sem ter enviado nenhum desses agentes para Bengazi, na Líbia, durante um atentado terrorista.
Mas são os congressistas que escolhem onde se corta. A atual composição das casas indica maioria republicana na Câmara e maioria democrata no Senado. Eis que surge Obama, e vincula o seu Obamacare aos gastos governamentais. O Obamacare já passou como lei, faltando a votação de seu orçamento. É estratégia republicana aberta e declarada, agora, discutir esses novos gastos governamentais, que já estão deixando a América à bancarrota.
Não se discute, portanto, o Obamacare, mas seus custos. Obama, vinculando-os ao orçamento federal na marra como uma coisa única, vende a esparrela de que está fazendo uma lei pelos pobres, e os malvados republicanos lutam contra uma lei já aprovada. Sabendo que toda a imprensa mundial está a seu lado (onde mais recebe críticas é em seu próprio território), sua narrativa cola como grude.
O Poder Executivo ser contrabalanceado pelo Legislativo foi sempre admitido como norma nas democracias modernas. É como uma indicação de juiz ao STF: ela parte do Executivo, mas o juiz precisa de uma sabatina dos deputados. Isso nunca antes havia sido questionado em mais de 200 anos de república americana.
A historieta de Obama passa à retórica violenta. Diz que os republicanos estão armando um golpe de Estado, mirando uma lei já votada. Bill Clinton passou 28 dias com um shutdown em mãos sem apelar para essas invencionices. Newt Gingrich, então presidente da Câmara, acertou as contas para o adversário democrata, que, após se submeter a contragosto à austeridade, forjou a ideia de que ele próprio construiu o arranjo. It’s the economy, stupid.
Hoje a situação se obnubila, e Barack Obama, o presidente plenipotente com um Nobel da Paz em mão, pode apelar à busca por inimigos da pátria, como bem clamou seu guru, o anarquista radical Saul Alinsky. É do feitio da mentalidade dos golpistas encontrar golpistas em cada cérebro que saiba ligar pontos sem precisar do poder central e de seu sorridente rosto que sabe ganhar eleições.
O dilema da imigração - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 06/10
CINGAPURA - Desde que o mundo é mundo, as pessoas buscam áreas melhores para viver e os mais fortes tentam subjugar os mais fracos. E, hoje, a migração é um problema imenso e muito delicado.
Os pobres, e os nem tanto, do mundo inteiro mudaram a cara dos EUA, os africanos continuam morrendo a caminho da Europa, os bolivianos se candidatam à semiescravidão no Brasil e os asiáticos de países periféricos fazem fila na porta dos países líderes ou bem-sucedidos.
O dilema tem contornos econômicos, políticos, culturais, humanitários e morais. E divide opiniões acaloradas. O que fazer?
Na minúscula Cingapura, a resposta é dura e pragmática e pode estar gerando pessoas de segunda classe, ou castas. Aos cidadãos, tudo. Aos PhDs estrangeiros, tudo e mais um pouco. E, à mão de obra desqualificada que vem de fora, o trabalho pesado, os dormitórios amontoados e, claro, a lei.
Estes, os que não têm onde cair mortos, assinam contratos de trabalho com prazo fixo e especificando que não têm --e não terão-- direito à cidadania. E, já que falamos em castas, há entre eles levas de toda a vizinhança, desde a superpovoada Índia à miserável Bangladesh.
Os homens trabalham no porto, por exemplo, e as mulheres, como empregadas e babás. Eles são proibidos de casar e ter filhos e os patrões são instados a denunciar quando uma das pobres coitadas que cuidam dos seus bebês engravida. Ela é, então, sumariamente devolvida ao seu país, tal como uma Olga Benário fora do cenário de guerra.
Diante do óbvio espanto, a justificativa é que o tamanho do país --que pode ser atravessado de uma ponta a outra em uma hora e meia de carro-- não permite condescendência. "Se vierem todos, a ilha afunda", diz uma alta funcionária.
Essa é uma das grandes questões em Cingapura, nos EUA, na Europa e nos países líderes de suas regiões. E tem de ser tratada sob o interesse coletivo e a dignidade individual.
CINGAPURA - Desde que o mundo é mundo, as pessoas buscam áreas melhores para viver e os mais fortes tentam subjugar os mais fracos. E, hoje, a migração é um problema imenso e muito delicado.
Os pobres, e os nem tanto, do mundo inteiro mudaram a cara dos EUA, os africanos continuam morrendo a caminho da Europa, os bolivianos se candidatam à semiescravidão no Brasil e os asiáticos de países periféricos fazem fila na porta dos países líderes ou bem-sucedidos.
O dilema tem contornos econômicos, políticos, culturais, humanitários e morais. E divide opiniões acaloradas. O que fazer?
Na minúscula Cingapura, a resposta é dura e pragmática e pode estar gerando pessoas de segunda classe, ou castas. Aos cidadãos, tudo. Aos PhDs estrangeiros, tudo e mais um pouco. E, à mão de obra desqualificada que vem de fora, o trabalho pesado, os dormitórios amontoados e, claro, a lei.
Estes, os que não têm onde cair mortos, assinam contratos de trabalho com prazo fixo e especificando que não têm --e não terão-- direito à cidadania. E, já que falamos em castas, há entre eles levas de toda a vizinhança, desde a superpovoada Índia à miserável Bangladesh.
Os homens trabalham no porto, por exemplo, e as mulheres, como empregadas e babás. Eles são proibidos de casar e ter filhos e os patrões são instados a denunciar quando uma das pobres coitadas que cuidam dos seus bebês engravida. Ela é, então, sumariamente devolvida ao seu país, tal como uma Olga Benário fora do cenário de guerra.
Diante do óbvio espanto, a justificativa é que o tamanho do país --que pode ser atravessado de uma ponta a outra em uma hora e meia de carro-- não permite condescendência. "Se vierem todos, a ilha afunda", diz uma alta funcionária.
Essa é uma das grandes questões em Cingapura, nos EUA, na Europa e nos países líderes de suas regiões. E tem de ser tratada sob o interesse coletivo e a dignidade individual.
A responsabilidade do STF - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
O ESTADÃO - 06/10
Só quando instado por jornalistas opinei sobre o processo chamado “mensalão”. E não entrei na seara que é própria dos juízes: que réus deveriam ser absolvidos ou condenados e, neste caso, a quantos anos. Pessoalmente não me movem impulsos punitivos e muito menos vingativos. A maioria dos réus não cruzou comigo na vida pública; em geral seus modos de agir e pontos de vista políticos não coincidem com os meus. Mantive, é certo, um relacionamento cordial com os que tiveram mandato parlamentar. Embora entendendo as reações de indignação dos que pedem punição rápida, achei que não deveria entrar neste coro. É óbvio que existe nas ruas um sentimento de dúvida, quando não de revolta, com os resultados ainda incertos do julgamento. Afinal, para a maioria dos brasileiros, trata-se de uma das poucas vezes nas quais habitantes do “andar de cima”, como se os qualificam no falar atual, estão no pelourinho.
Agora, quando boa parte das águas já rolou, dá para comentar de modo menos emotivo o que aconteceu na fase quase final do julgamento e seus possíveis desdobramentos. Não cabem dúvidas de que a sensação de impunidade que a maioria das pessoas sente decorre menos das decisões do que da demora no término do processo. Há várias explicações para tal demora: a complexidade do julgamento com pessoas de tão alta responsabilidade política; o STF não estar habituado e talvez nem preparado para atuar como instância penal originária; os Códigos de Processo que abrem espaço a um sem-número de recursos etc. Para o povo nada disso é compreensível ou justificável. Por que demorar tanto?
Na primeira fase, a competência do ministro-relator, ao encadear as fases, e os grupos de implicados em um enredo de lógica compreensível, e a minúcia com que os juízes debateram o caso mostraram com clareza que houve desvio de dinheiro público e privado, não apenas para cobrir gastos de campanha, como afirmou o presidente Lula, mas também para obter a lealdade de partidos e congressistas mediante recebimento de dinheiro.
A dosimetria, no dizer juridiquês, a atribuição de penas específicas aos culpados, escapou à atenção do povo. O ponto culminante na primeira fase do julgamento foi determinar quem foram os mandantes. Independentemente da doutrina do domínio do fato, ou seja, quem sabedor dos atos ilícitos podia mandar seguir adiante ou interrompê-los, formou-se na opinião pública a convicção de que os mais notórios personagens, por menos rastros que tivessem deixado, foram sim responsáveis.
Mesmo sem conhecimento jurídico, a maioria das pessoas formou um juízo condenatório. As decisões dos juízes comprovaram – em geral por 9 x 2, 8 x 3 ou, mais raramente, 7 x 4, quando não por unanimidade – o veredicto popular: culpados. A opinião pública passou a clamar por castigo. A decisão de postergar ainda mais a conclusão do processo, graças à aceitação dos “embargos infringentes”, recurso de que só os doutos lembravam e sabiam dizer no que consistia, caiu como ducha de água fria. Por mais que o voto do ministro Celso de Mello tenha sido juridicamente bem fundamentado, ressaltando que o fim dos embargos infringentes no STF foi recusado pela Câmara dos Deputados, quando do exame do projeto de lei que suprimiu esses embargos nos demais tribunais, ficou cristalizada na opinião pública a percepção de que se abriu uma chance para diminuir as penas impostas.
Tal abrandamento implicará mudança de regime prisional apenas a membros do “núcleo político”. Se essa hipótese vier a se confirmar, estará consagrada a percepção de que “os de cima” são imunes e só os “de baixo” vão para a cadeia. O que às pessoas mais afeitas às garantias dos direitos individuais e menos movidas por sentimentos de vingança pode parecer razoável, à maioria da população parece simplesmente manobra para que o julgamento seja postergado, nunca termine e o crime continue sem castigo. Tanto mais que metade do Supremo encontrou argumentos para negar a vigência dos embargos infringentes naquela corte.
É fato notório, ademais, que todo o edifício jurídico-constitucional se constrói sobre realidades políticas. A indicação de dois novos membros do STF pelo governo, depois de tantos rumores de conversas com candidatos para comprometê-los com um comportamento brando no julgamento do mensalão e a infausta tentativa do presidente Lula de pedir a um ministro para não votar logo o processo exemplificam a contaminação da pureza jurídica pelas pressões políticas. O último voto sobre os embargos infringentes – sem que esta fosse a intenção do ministro que o proferiu – deu a sensação de que haverá um abrandamento das penas. Sensação que se reforça quando os juízes recém-nomeados dizem que, havendo novo julgamento, poderiam opinar de modo contrário ao da maioria anterior.
Reitero: pessoalmente não me apraz ver pessoas na cadeia. Mas isso vale para todos, não só para os políticos ou para os do “andar de cima”. E há casos nos quais só o exemplo protege a sociedade da repetição do crime. A última decisão do tribunal agrava a atmosfera de descrédito e desânimo com as instituições. Em uma sociedade já tão descrente de seus líderes, com um sistema político composto por mais de 30 partidos, em um ambiente corroído pela corrupção, com um governo com 40 ministérios, uma burocracia cada vez mais lenta e penetrada por interesses partidários, não teria sido melhor evitar mais uma postergação reforçando a descrença na Justiça?
Ao acolher os embargos infringentes o STF assumiu responsabilidade redobrada. Ao julgá-los, sem se eximir de ser criterioso, o tribunal deverá cuidar para decidir com rapidez e evitar a percepção popular de que tudo não passou de um artifício para livrar os poderosos da cadeia.
Só quando instado por jornalistas opinei sobre o processo chamado “mensalão”. E não entrei na seara que é própria dos juízes: que réus deveriam ser absolvidos ou condenados e, neste caso, a quantos anos. Pessoalmente não me movem impulsos punitivos e muito menos vingativos. A maioria dos réus não cruzou comigo na vida pública; em geral seus modos de agir e pontos de vista políticos não coincidem com os meus. Mantive, é certo, um relacionamento cordial com os que tiveram mandato parlamentar. Embora entendendo as reações de indignação dos que pedem punição rápida, achei que não deveria entrar neste coro. É óbvio que existe nas ruas um sentimento de dúvida, quando não de revolta, com os resultados ainda incertos do julgamento. Afinal, para a maioria dos brasileiros, trata-se de uma das poucas vezes nas quais habitantes do “andar de cima”, como se os qualificam no falar atual, estão no pelourinho.
Agora, quando boa parte das águas já rolou, dá para comentar de modo menos emotivo o que aconteceu na fase quase final do julgamento e seus possíveis desdobramentos. Não cabem dúvidas de que a sensação de impunidade que a maioria das pessoas sente decorre menos das decisões do que da demora no término do processo. Há várias explicações para tal demora: a complexidade do julgamento com pessoas de tão alta responsabilidade política; o STF não estar habituado e talvez nem preparado para atuar como instância penal originária; os Códigos de Processo que abrem espaço a um sem-número de recursos etc. Para o povo nada disso é compreensível ou justificável. Por que demorar tanto?
Na primeira fase, a competência do ministro-relator, ao encadear as fases, e os grupos de implicados em um enredo de lógica compreensível, e a minúcia com que os juízes debateram o caso mostraram com clareza que houve desvio de dinheiro público e privado, não apenas para cobrir gastos de campanha, como afirmou o presidente Lula, mas também para obter a lealdade de partidos e congressistas mediante recebimento de dinheiro.
A dosimetria, no dizer juridiquês, a atribuição de penas específicas aos culpados, escapou à atenção do povo. O ponto culminante na primeira fase do julgamento foi determinar quem foram os mandantes. Independentemente da doutrina do domínio do fato, ou seja, quem sabedor dos atos ilícitos podia mandar seguir adiante ou interrompê-los, formou-se na opinião pública a convicção de que os mais notórios personagens, por menos rastros que tivessem deixado, foram sim responsáveis.
Mesmo sem conhecimento jurídico, a maioria das pessoas formou um juízo condenatório. As decisões dos juízes comprovaram – em geral por 9 x 2, 8 x 3 ou, mais raramente, 7 x 4, quando não por unanimidade – o veredicto popular: culpados. A opinião pública passou a clamar por castigo. A decisão de postergar ainda mais a conclusão do processo, graças à aceitação dos “embargos infringentes”, recurso de que só os doutos lembravam e sabiam dizer no que consistia, caiu como ducha de água fria. Por mais que o voto do ministro Celso de Mello tenha sido juridicamente bem fundamentado, ressaltando que o fim dos embargos infringentes no STF foi recusado pela Câmara dos Deputados, quando do exame do projeto de lei que suprimiu esses embargos nos demais tribunais, ficou cristalizada na opinião pública a percepção de que se abriu uma chance para diminuir as penas impostas.
Tal abrandamento implicará mudança de regime prisional apenas a membros do “núcleo político”. Se essa hipótese vier a se confirmar, estará consagrada a percepção de que “os de cima” são imunes e só os “de baixo” vão para a cadeia. O que às pessoas mais afeitas às garantias dos direitos individuais e menos movidas por sentimentos de vingança pode parecer razoável, à maioria da população parece simplesmente manobra para que o julgamento seja postergado, nunca termine e o crime continue sem castigo. Tanto mais que metade do Supremo encontrou argumentos para negar a vigência dos embargos infringentes naquela corte.
É fato notório, ademais, que todo o edifício jurídico-constitucional se constrói sobre realidades políticas. A indicação de dois novos membros do STF pelo governo, depois de tantos rumores de conversas com candidatos para comprometê-los com um comportamento brando no julgamento do mensalão e a infausta tentativa do presidente Lula de pedir a um ministro para não votar logo o processo exemplificam a contaminação da pureza jurídica pelas pressões políticas. O último voto sobre os embargos infringentes – sem que esta fosse a intenção do ministro que o proferiu – deu a sensação de que haverá um abrandamento das penas. Sensação que se reforça quando os juízes recém-nomeados dizem que, havendo novo julgamento, poderiam opinar de modo contrário ao da maioria anterior.
Reitero: pessoalmente não me apraz ver pessoas na cadeia. Mas isso vale para todos, não só para os políticos ou para os do “andar de cima”. E há casos nos quais só o exemplo protege a sociedade da repetição do crime. A última decisão do tribunal agrava a atmosfera de descrédito e desânimo com as instituições. Em uma sociedade já tão descrente de seus líderes, com um sistema político composto por mais de 30 partidos, em um ambiente corroído pela corrupção, com um governo com 40 ministérios, uma burocracia cada vez mais lenta e penetrada por interesses partidários, não teria sido melhor evitar mais uma postergação reforçando a descrença na Justiça?
Ao acolher os embargos infringentes o STF assumiu responsabilidade redobrada. Ao julgá-los, sem se eximir de ser criterioso, o tribunal deverá cuidar para decidir com rapidez e evitar a percepção popular de que tudo não passou de um artifício para livrar os poderosos da cadeia.
Coligação democrática - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 06/10
O acordo firmado entre o PSB, do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e a Rede Sustentabilidade, da ex-senadora Marina Silva, antecipado no meu blog ontem pela manhã, tem um objetivo claro: oferecer aos eleitores, com o que chamam de coligação democrática , uma opção ao que Marina definiu como oposição pela oposição e situação pela situação , que é nada mais do que a polarização entre PT e PSDB que prevalece nas eleições presidenciais desde 1994.
Como, ao ficar no PSDB, desistindo do sonho de disputar mais uma eleição presidencial, o ex-governador José Serra disse que seu objetivo era ajudar a derrotar o PT, temos uma corrida presidencial em que o partido do governo estará desafiado tanto pela oposição à esquerda , de dentro da base governista, quanto pela oposição oficial.
Os analistas políticos do governo sempre consideraram que a oposição mais perigosa era a de dentro da base governista, o que confere à nova coligação democrática um caráter de principal obstáculo à reeleição da presidente Dilma Rousseff.
O clima do acordo entre Marina e Eduardo Campos é de rejeição à maneira de fazer política do PT. A ex-senadora saiu do embate pela formação do seu partido, o Rede, com o ânimo de denunciar as manobras governamentais para barrar sua pretensão no TSE, e esse estado de espírito coincide com o de Eduardo Campos, que acusa o PT de ter tentado com golpes baixos tirá-lo da corrida presidencial.
Na madrugada de sexta para sábado, a ex-senadora Marina chegou a fazer um discurso mais contundente para seus aliados, se referindo ao perigo de métodos chavistas de fazer política prevalecerem no Brasil, mas, na entrevista coletiva, não repetiu a classificação, embora não a negasse. Tudo indica que o aviltamento da política a que se refere tenha sido traduzido, no auge da emoção, pela adjetivação mais contundente.
Os dois usaram palavras duras ontem para criticar as tentativas do governo para tirá-los do páreo, embora tenham evitado fazer menção direta à presidente Dilma ou ao governo. Mas as entrelinhas do que não foi dito falam por si, como diria Marina.
Para fazer o que fez, apoiar a candidatura do governador Eduardo Campos à presidência da República, Marina não precisaria se filiar ao PSB. Ela fez isso com dois objetivos: criar um fato político de impacto e estar preparada para assumir a candidatura a vice se as negociações programáticas entre a Rede Sustentabilidade e o PSB chegarem a bom termo.
Com isso afastou também seu maior receio, que era o de ser apontada como uma política tradicional que estava apenas atrás de uma legenda para se candidatar. Colocando o programa adiante dos interesses pessoais, ela julga ter dado uma resposta aos que se preparavam para apontar incoerência em seu comportamento político.
O governador Eduardo Campos teve um ganho político grande com a jogada de mestre deste fim de semana, mas pode vir a ter, mais adiante, muitos problemas para administrar. A começar pelo relacionamento entre os militantes do PSB com os da Rede na organização do programa comum.
Outro problema que pode surgir é a ex-senadora Marina continuar aparecendo nas pesquisas de opinião como potencial candidata, obtendo mais apoio do eleitorado do que ele. Como ele controla a máquina partidária, dificilmente sua postulação será colocada em xeque, mas haverá constrangimento político.
De qualquer maneira, foi uma jogada de mestre de ambos, cada qual reforçando seus interesses imediatos e, sobretudo, reforçando uma imagem de renovação da política que essa aliança heterodoxa simboliza.
Justiça pelo avesso - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 06/10
Tudo indica que o TSE favoreceu os culpados pelas estranhezas na tramitação do partido de Marina
Inocências e culpas receberam tratamentos invertidos nos dois casos mais recentes que trouxeram os altos tribunais às apropriadas altitudes também do noticiário. No primeiro caso, o Tribunal Superior Eleitoral ofereceu cena e voz. No outro, não chega a ser surpresa, o protagonista foi o ministro Joaquim Barbosa.
Tudo indica que o Tribunal Superior Eleitoral, mesmo com os votos em geral bem argumentados dos seus ministros, favoreceu os possíveis culpados pelas estranhezas na tramitação do pretendido partido de Marina Silva. Ainda que não houvesse "uma ação deliberada" de "mais de 53% dos cartórios" eleitorais, na gravíssima acusação feita por Marina Silva, os indícios de anormalidade na verificação dos apoios de eleitores (necessários 492 mil) foram, pior do que inexplicados, suspeitos.
O deputado Miro Teixeira, do Rio e entusiasta da Rede de Marina, sustenta que "no ABC (Grande São Paulo), a quantidade de apoios rejeitados pelos cartórios é absolutamente anormal". Para admitir a possibilidade dessa anormalidade e de sua dimensão, é só lembrar-nos de que o ABC é uma cidadela da CUT e do PT, contrários à criação da Rede, e de que outros também levantavam lá um partido, o plagiário Solidariedade do Paulinho da Força Sindical.
Mais difícil é admitir que, em tais circunstâncias, os comandos da Rede tivessem a ingenuidade de aplicar no ABC o trabalho mais promissor em outras regiões. Não foram as únicas ingenuidades influentes no desfecho negativo.
Não há dúvida da falta de 50 mil apoios válidos para o total necessário, comprovada na contagem pedida pela relatora Laurita Vaz. Mas dessa certeza não decorre a segurança de que as tantas invalidações fossem de fato motivadas, já que nem ao menos suas causas foram informadas.
Ciente desse e de outros problemas, como o irregular excesso de tempo consumido pela burocracia cartorial, o TSE deveria providenciar uma verificação por amostragem nos cartórios com rejeição anormal. Não o fez. Deu votos sólidos para o que parecia, não para a certeza do que era.
Ao pedir a retirada da servidora Adriana Leineker Costa do Supremo Tribunal Federal, por ser casada com o jornalista Felipe Recondo, que atua no Judiciário para "O Estado de S. Paulo", o ministro Joaquim Barbosa invocou uma situação contrária à ética. A situação é incomum, mas falta de ética, a haver, não estaria propriamente nela. Se existisse, viria da conduta de um ou de ambos, com o aproveitamento da relação conjugal para beneficiar o jornal e o prestígio do repórter com informações especialíssimas.
Adriana Leineker Costa, originária do STJ, está lotada no STF há 13 anos. O fato de que seu marido seja designado pelo jornal para cobrir o STF não é de sua responsabilidade. E, se ao presidente do tribunal a situação parecer intolerável, cabe-lhe pedir ao jornal a substituição do repórter ou descredenciá-lo. Punir com transferência indesejada quem não criou a situação é punir quem não tem culpa. O contrário de ato próprio de magistrado.
Tudo indica que o TSE favoreceu os culpados pelas estranhezas na tramitação do partido de Marina
Inocências e culpas receberam tratamentos invertidos nos dois casos mais recentes que trouxeram os altos tribunais às apropriadas altitudes também do noticiário. No primeiro caso, o Tribunal Superior Eleitoral ofereceu cena e voz. No outro, não chega a ser surpresa, o protagonista foi o ministro Joaquim Barbosa.
Tudo indica que o Tribunal Superior Eleitoral, mesmo com os votos em geral bem argumentados dos seus ministros, favoreceu os possíveis culpados pelas estranhezas na tramitação do pretendido partido de Marina Silva. Ainda que não houvesse "uma ação deliberada" de "mais de 53% dos cartórios" eleitorais, na gravíssima acusação feita por Marina Silva, os indícios de anormalidade na verificação dos apoios de eleitores (necessários 492 mil) foram, pior do que inexplicados, suspeitos.
O deputado Miro Teixeira, do Rio e entusiasta da Rede de Marina, sustenta que "no ABC (Grande São Paulo), a quantidade de apoios rejeitados pelos cartórios é absolutamente anormal". Para admitir a possibilidade dessa anormalidade e de sua dimensão, é só lembrar-nos de que o ABC é uma cidadela da CUT e do PT, contrários à criação da Rede, e de que outros também levantavam lá um partido, o plagiário Solidariedade do Paulinho da Força Sindical.
Mais difícil é admitir que, em tais circunstâncias, os comandos da Rede tivessem a ingenuidade de aplicar no ABC o trabalho mais promissor em outras regiões. Não foram as únicas ingenuidades influentes no desfecho negativo.
Não há dúvida da falta de 50 mil apoios válidos para o total necessário, comprovada na contagem pedida pela relatora Laurita Vaz. Mas dessa certeza não decorre a segurança de que as tantas invalidações fossem de fato motivadas, já que nem ao menos suas causas foram informadas.
Ciente desse e de outros problemas, como o irregular excesso de tempo consumido pela burocracia cartorial, o TSE deveria providenciar uma verificação por amostragem nos cartórios com rejeição anormal. Não o fez. Deu votos sólidos para o que parecia, não para a certeza do que era.
Ao pedir a retirada da servidora Adriana Leineker Costa do Supremo Tribunal Federal, por ser casada com o jornalista Felipe Recondo, que atua no Judiciário para "O Estado de S. Paulo", o ministro Joaquim Barbosa invocou uma situação contrária à ética. A situação é incomum, mas falta de ética, a haver, não estaria propriamente nela. Se existisse, viria da conduta de um ou de ambos, com o aproveitamento da relação conjugal para beneficiar o jornal e o prestígio do repórter com informações especialíssimas.
Adriana Leineker Costa, originária do STJ, está lotada no STF há 13 anos. O fato de que seu marido seja designado pelo jornal para cobrir o STF não é de sua responsabilidade. E, se ao presidente do tribunal a situação parecer intolerável, cabe-lhe pedir ao jornal a substituição do repórter ou descredenciá-lo. Punir com transferência indesejada quem não criou a situação é punir quem não tem culpa. O contrário de ato próprio de magistrado.
Uma farsa atrás da outra - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 06/10
Parecia uma cena copiada de Bananas, a clássica comédia de Woody Allen, filmada em 1971, sobre golpes e revoluções na América Latina, em que o autor interpreta um impagável Fidel Castro. O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, surge em rede nacional de TV para anunciar, em meio a um patriótico discurso comemorativo de uma batalha travada há 200 anos no norte do país, a expulsão de três diplomatas americanos. Ele os acusa de "fazerem ações (sic) para sabotar o sistema de eletricidade" nacional. E apela para o velho mote: "Yankees, go home!".
Na Venezuela chavista, diferentemente da máxima de Marx de que a história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa, a história oficial é uma sequência interminável de farsas. Em março, pouco antes de comunicar a morte do caudilho a quem havia sucedido ainda em vida, Maduro mandou expulsar dois adidos militares dos Estados Unidos, sob a acusação de urdir "planos desestabilizadores". Na semana passada, deixou de participar da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, alegando riscos à sua "integridade física".
O trio inclui a principal enviada de Washington a Caracas, a encarregada de negócios Kelly Keiderling. Desde 2010, as respectivas representações estão sem embaixadores, embora os EUA sejam o maior comprador do petróleo venezuelano. Antes de se ir, a diplomata tomou a incomum iniciativa de convocar uma entrevista para responder à delirante versão de que ela e seus dois colegas haviam instigado atos de sabotagem contra o sistema elétrico venezuelano, além de repassar fundos à oposição, tendo em vista as eleições municipais de 7 de dezembro próximo no país.
O governo americano reagiu conforme o protocolo. Repeliu a invencionice contra os seus representantes e expulsou igual número de diplomatas venezuelanos. Com isso, esfumam-se as irrealistas expectativas de que a morte de Chávez pudesse levar a uma distensão das relações bilaterais, depois de 14 anos de ataques do bolivariano ao "maldito império dei dólar", com o qual nunca deixou de fazer negócios.
Mas, como sempre, tudo vale na tentativa de jogar areia nos olhos do povo e impedir que o partido do regime se saia mal no pleito que se aproxima - è que Maduro considera um referendo sobre a sua gestão. Ela tem sido um completo desastre. Nada, rigorosamente nada, melhorou para os venezuelanos desde a eleição encharcada de fraudes do antigo vice de Chávez, em abril último. A rigor, quase tudo piorou.: Segundo o Banco Central da Venezuela, o desabastecimento subiu para 20%, puxado pelos bens de consumo cotidiano -do leite ao papel higiênico. A inflação é da ordem de 40%, a mais alta da América Latina.
No paralelo, o dólar vale 42 bolívares, ante 6,3 no oficial. O volume das reservas em moeda forte desceu ao menor nível em nove anos, amputando a capacidade do país de importar gêneros de primeira necessidade, pagando em dólar. A criminalidade, a corrupção e os apagões seguem o seu curso habitual. Assim também as farsas. Maduro fala em adotar "medidas especiais" contra os meios de comunicação que estimulariam a corrida aos supermercados ao abordar a crise de escassez no país.
Seria um caso típico da proverbial profecia que se cumpre por sí mesma, não fosse por um detalhe que desmancha a teoria conspiratória da "guerra psicológica contra a segurança alimentar do povo", no dizer de Maduro, Vários periódicos, sobretudo no interior, tiveram a circulação suspensa ou simplesmente fecharam por falta de tinta e papel de impressão. "O governo acusa os empresários privados de provocar desabastecimento", protestou o presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa da SXP, o uruguaio Cláudio Paolillo. "Mas omite a falta de insumos para a publicação de jornais, sendo o único responsável por permitir sua importação." Maduro quer evitar a todo custo que o desabastecimento se torne tema da campanha eleitoral, constata o sociólogo venezuelano Luis Vicente León, "Por isso, ameaça a imprensa com a censura ou a autocensura."
Na Venezuela chavista, diferentemente da máxima de Marx de que a história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa, a história oficial é uma sequência interminável de farsas. Em março, pouco antes de comunicar a morte do caudilho a quem havia sucedido ainda em vida, Maduro mandou expulsar dois adidos militares dos Estados Unidos, sob a acusação de urdir "planos desestabilizadores". Na semana passada, deixou de participar da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, alegando riscos à sua "integridade física".
O trio inclui a principal enviada de Washington a Caracas, a encarregada de negócios Kelly Keiderling. Desde 2010, as respectivas representações estão sem embaixadores, embora os EUA sejam o maior comprador do petróleo venezuelano. Antes de se ir, a diplomata tomou a incomum iniciativa de convocar uma entrevista para responder à delirante versão de que ela e seus dois colegas haviam instigado atos de sabotagem contra o sistema elétrico venezuelano, além de repassar fundos à oposição, tendo em vista as eleições municipais de 7 de dezembro próximo no país.
O governo americano reagiu conforme o protocolo. Repeliu a invencionice contra os seus representantes e expulsou igual número de diplomatas venezuelanos. Com isso, esfumam-se as irrealistas expectativas de que a morte de Chávez pudesse levar a uma distensão das relações bilaterais, depois de 14 anos de ataques do bolivariano ao "maldito império dei dólar", com o qual nunca deixou de fazer negócios.
Mas, como sempre, tudo vale na tentativa de jogar areia nos olhos do povo e impedir que o partido do regime se saia mal no pleito que se aproxima - è que Maduro considera um referendo sobre a sua gestão. Ela tem sido um completo desastre. Nada, rigorosamente nada, melhorou para os venezuelanos desde a eleição encharcada de fraudes do antigo vice de Chávez, em abril último. A rigor, quase tudo piorou.: Segundo o Banco Central da Venezuela, o desabastecimento subiu para 20%, puxado pelos bens de consumo cotidiano -do leite ao papel higiênico. A inflação é da ordem de 40%, a mais alta da América Latina.
No paralelo, o dólar vale 42 bolívares, ante 6,3 no oficial. O volume das reservas em moeda forte desceu ao menor nível em nove anos, amputando a capacidade do país de importar gêneros de primeira necessidade, pagando em dólar. A criminalidade, a corrupção e os apagões seguem o seu curso habitual. Assim também as farsas. Maduro fala em adotar "medidas especiais" contra os meios de comunicação que estimulariam a corrida aos supermercados ao abordar a crise de escassez no país.
Seria um caso típico da proverbial profecia que se cumpre por sí mesma, não fosse por um detalhe que desmancha a teoria conspiratória da "guerra psicológica contra a segurança alimentar do povo", no dizer de Maduro, Vários periódicos, sobretudo no interior, tiveram a circulação suspensa ou simplesmente fecharam por falta de tinta e papel de impressão. "O governo acusa os empresários privados de provocar desabastecimento", protestou o presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa da SXP, o uruguaio Cláudio Paolillo. "Mas omite a falta de insumos para a publicação de jornais, sendo o único responsável por permitir sua importação." Maduro quer evitar a todo custo que o desabastecimento se torne tema da campanha eleitoral, constata o sociólogo venezuelano Luis Vicente León, "Por isso, ameaça a imprensa com a censura ou a autocensura."
Os fundamentos do pessimismo - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 06/10
Inflação, baixo crescimento e deterioração fiscal fazem prever reavaliação do Brasil por agências de risco e dão razão à ‘Economist’
A imagem do Cristo Redentor decolando na capa da “Economist”, prestigiada revista inglesa, de quatro anos atrás, foi usada na edição na semana retrasada para simbolizar o contrário, as dificuldades do país. O mesmo Cristo metamorfoseado em foguete caia em parafuso ilustrado pelo título sugestivo:“O Brasil estragou tudo?”
Os sorrisos que em 2009 recepcionaram, em Brasília, aquele número da revista desapareceram, e a forma mais elegante de governistas rebaterem a “Economist” foi dizer que se, há quatro anos, os ingleses exageraram no otimismo, agora erraram na mão no pessimismo. Mas é incontestável que, independentemente de maior ou menor ênfase no pessimismo, a revista acertou no sentido do diagnóstico.
No quesito investimentos em infraestrutura, um dos mais frágeis pés de barro do Brasil, a “Economist” traz números inquestionáveis: enquanto o país investe 1,5% do PIB no setor, o mundo, em média, despende 3,8%; e muito mais precisaria ser investido pois toda a infraestrutura brasileira equivale a apenas 16% do PIB, quando o índice em grandes economias é de suntuosos 71%.
Eis porque — cita a publicação inglesa — o produtor de soja no Mato Grosso gasta 25% do valor da carga para transportá-la até o porto contra competitivos 9% do agricultor americano de Iowa.
Um dos blocos do conjunto de textos sobre o Brasil trata, também com acerto, da gravidade do problema do sistema previdenciário do assalariado da iniciativa privada, colocado em xeque pela conjugação da inevitabilidade do envelhecimento médio da população com as aposentadorias em idades relativamente baixas no Brasil, por não haver limite etário para a obtenção do benefício.
Além disso existe um sistema de pensões pouco encontrado no mundo, outra das molas de propulsão do sistema rumo a sérios e maiores desequilíbrios. A ausência de normas que protejam o Tesouro e o contribuinte, neste aspecto, também chama a atenção dos ingleses. Se uma jovem de 25 anos casar com um cinquentão nada impede que, se ela ficar viúva ainda como força de trabalho ativa, receba pensão integral pelo resto da vida. Por isso, essas pensões já equivalem a 3% do PIB brasileiro, enquanto nos países desenvolvidos filiados à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) são menos de 1%. Daí pensões e aposentadorias no Brasil pesarem no PIB tanto quanto em países de população mais madura — pouco mais de 10%.
Quando os brasileiros ficarem mais velhos, o índice, se nada for feito, irá às nuvens. Como o campo político no poder, com o PT à frente, não quer encarar esta e outras reformas, o pessimismo da “Economist” está bem fundamentado.
E, no curto prazo, a inflação, o baixo crescimento e a degradação do quadro fiscal — esta não disfarçada pela “contabilidade criativa” — já fazem agências de avaliação risco sinalizarem uma redução na nota do Brasil. Não é um bom momento para o país.
Inflação, baixo crescimento e deterioração fiscal fazem prever reavaliação do Brasil por agências de risco e dão razão à ‘Economist’
A imagem do Cristo Redentor decolando na capa da “Economist”, prestigiada revista inglesa, de quatro anos atrás, foi usada na edição na semana retrasada para simbolizar o contrário, as dificuldades do país. O mesmo Cristo metamorfoseado em foguete caia em parafuso ilustrado pelo título sugestivo:“O Brasil estragou tudo?”
Os sorrisos que em 2009 recepcionaram, em Brasília, aquele número da revista desapareceram, e a forma mais elegante de governistas rebaterem a “Economist” foi dizer que se, há quatro anos, os ingleses exageraram no otimismo, agora erraram na mão no pessimismo. Mas é incontestável que, independentemente de maior ou menor ênfase no pessimismo, a revista acertou no sentido do diagnóstico.
No quesito investimentos em infraestrutura, um dos mais frágeis pés de barro do Brasil, a “Economist” traz números inquestionáveis: enquanto o país investe 1,5% do PIB no setor, o mundo, em média, despende 3,8%; e muito mais precisaria ser investido pois toda a infraestrutura brasileira equivale a apenas 16% do PIB, quando o índice em grandes economias é de suntuosos 71%.
Eis porque — cita a publicação inglesa — o produtor de soja no Mato Grosso gasta 25% do valor da carga para transportá-la até o porto contra competitivos 9% do agricultor americano de Iowa.
Um dos blocos do conjunto de textos sobre o Brasil trata, também com acerto, da gravidade do problema do sistema previdenciário do assalariado da iniciativa privada, colocado em xeque pela conjugação da inevitabilidade do envelhecimento médio da população com as aposentadorias em idades relativamente baixas no Brasil, por não haver limite etário para a obtenção do benefício.
Além disso existe um sistema de pensões pouco encontrado no mundo, outra das molas de propulsão do sistema rumo a sérios e maiores desequilíbrios. A ausência de normas que protejam o Tesouro e o contribuinte, neste aspecto, também chama a atenção dos ingleses. Se uma jovem de 25 anos casar com um cinquentão nada impede que, se ela ficar viúva ainda como força de trabalho ativa, receba pensão integral pelo resto da vida. Por isso, essas pensões já equivalem a 3% do PIB brasileiro, enquanto nos países desenvolvidos filiados à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) são menos de 1%. Daí pensões e aposentadorias no Brasil pesarem no PIB tanto quanto em países de população mais madura — pouco mais de 10%.
Quando os brasileiros ficarem mais velhos, o índice, se nada for feito, irá às nuvens. Como o campo político no poder, com o PT à frente, não quer encarar esta e outras reformas, o pessimismo da “Economist” está bem fundamentado.
E, no curto prazo, a inflação, o baixo crescimento e a degradação do quadro fiscal — esta não disfarçada pela “contabilidade criativa” — já fazem agências de avaliação risco sinalizarem uma redução na nota do Brasil. Não é um bom momento para o país.
Confiança em baixa - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 06/10
Ainda não é o fim do mundo, mas, no painel de controle da aceitação do Brasil como país confiável para investimentos, mais uma das luzes verdes trocou de cor: ficou amarela. Na semana passada, uma das três maiores agências internacionais de risco de crédito, a Moody"s, alterou ligeiramente o viés da classificação da dívida brasileira. Continuamos na condição de grau de investimento, mas a perspectiva "positiva", ou seja, de alta, foi trocada pela de "estável". Na prática é um aviso de que a agência tão cedo não espera boas notícias.
Isso quer dizer que o Brasil, como economia segura para as grandes poupanças do mundo, permanece na faixa Baa2 da agência, na companhia da Itália e do Peru, e abaixo dos emergentes México, Rússia e Índia. A diferença é que os investidores ficam avisados de que devem apostar menos em nosso país nos próximos meses. Há quem não goste das agências de risco e critique a credibilidade delas. O problema é que a opinião desses críticos não faz a menor diferença para os grandes fundos e bancos de investimentos. Eles precisam, até por razões estatutárias, ancorar suas decisões de aplicar o dinheiro dos clientes em algum parecer profissional externo. Fundos previdenciários de vários países desenvolvidos costumam ser obrigados por lei a condicionar a aplicação de recursos no exterior ao balizamento de instituições como a Moody"s.
O trabalho de acompanhar de perto a economia de diversos países e de suas empresas mais importantes tornou-se, por isso mesmo, altamente especializado. Essa tarefa é valorizada por uma das características mais marcantes do mercado financeiro, que é a da antecipação dos fatos negativos ou positivos. Assim, enquanto a maioria dos indicadores econômicos clássicos medem o presente e o passado recente, os graus de investimento dessas agências tentam antecipar a condição do tomador de crédito de quitar suas dívidas de médio e longo prazos.
A agência justificou o rebaixamento com argumentos clássicos: o aumento do endividamento público em relação ao PIB, a manutenção de baixas taxas de crescimento da economia, a injeção continuada de recursos fiscais nos bancos públicos e a redução da confiabilidade das estatísticas do manejo fiscal.
A Moody"s não foi a primeira a chamar a atenção do mercado para os sinais de piora das condições que levaram o país ao grau de investimentos nos últimos anos. Mais rigorosa, a Standart & Poor"s já havia revisado a nota do Brasil em junho, baixando-a de "estável" para "negativa", em razão do baixo crescimento e da expansão dos gastos do governo.
Na verdade, essas agências não descobriram nada que economistas brasileiros já não tivessem diagnosticado. Será, portanto, perda de tempo contestar as avaliações que motivaram o rebaixamento. E já que o governo decidiu invocar a eficiência do setor privado e está em busca da participação do capital internacional nos inadiáveis projetos de infraestrutura do país, não parece prudente desconhecer a importância desses avisos. Melhor será corrigir rumos e práticas, enquanto há tempo para isso.
Isso quer dizer que o Brasil, como economia segura para as grandes poupanças do mundo, permanece na faixa Baa2 da agência, na companhia da Itália e do Peru, e abaixo dos emergentes México, Rússia e Índia. A diferença é que os investidores ficam avisados de que devem apostar menos em nosso país nos próximos meses. Há quem não goste das agências de risco e critique a credibilidade delas. O problema é que a opinião desses críticos não faz a menor diferença para os grandes fundos e bancos de investimentos. Eles precisam, até por razões estatutárias, ancorar suas decisões de aplicar o dinheiro dos clientes em algum parecer profissional externo. Fundos previdenciários de vários países desenvolvidos costumam ser obrigados por lei a condicionar a aplicação de recursos no exterior ao balizamento de instituições como a Moody"s.
O trabalho de acompanhar de perto a economia de diversos países e de suas empresas mais importantes tornou-se, por isso mesmo, altamente especializado. Essa tarefa é valorizada por uma das características mais marcantes do mercado financeiro, que é a da antecipação dos fatos negativos ou positivos. Assim, enquanto a maioria dos indicadores econômicos clássicos medem o presente e o passado recente, os graus de investimento dessas agências tentam antecipar a condição do tomador de crédito de quitar suas dívidas de médio e longo prazos.
A agência justificou o rebaixamento com argumentos clássicos: o aumento do endividamento público em relação ao PIB, a manutenção de baixas taxas de crescimento da economia, a injeção continuada de recursos fiscais nos bancos públicos e a redução da confiabilidade das estatísticas do manejo fiscal.
A Moody"s não foi a primeira a chamar a atenção do mercado para os sinais de piora das condições que levaram o país ao grau de investimentos nos últimos anos. Mais rigorosa, a Standart & Poor"s já havia revisado a nota do Brasil em junho, baixando-a de "estável" para "negativa", em razão do baixo crescimento e da expansão dos gastos do governo.
Na verdade, essas agências não descobriram nada que economistas brasileiros já não tivessem diagnosticado. Será, portanto, perda de tempo contestar as avaliações que motivaram o rebaixamento. E já que o governo decidiu invocar a eficiência do setor privado e está em busca da participação do capital internacional nos inadiáveis projetos de infraestrutura do país, não parece prudente desconhecer a importância desses avisos. Melhor será corrigir rumos e práticas, enquanto há tempo para isso.
Bom senso no futebol - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 06/10
A divulgação do calendário do futebol brasileiro para o próximo ano, quando o país promove a Copa do Mundo, foi recebida com justificadas reações de insatisfação.
Desta vez não foram só os críticos contumazes da desorganização da modalidade que se pronunciaram. Também partiram protestos de um movimento de jogadores intitulado Bom Senso Futebol Clube.
Tradicionalmente alheios a tais questões, os atletas parecem enfim inclinados a assumir um papel ativo nos destinos do esporte mais popular do Brasil.
O estopim da revolta foi a iniciativa da CBF de antecipar o reinício das atividades para o dia 12 de janeiro, com os campeonatos estaduais --forma de compensar a paralisação imposta pela Copa do Mundo, que será realizada de 12 de junho a 13 de julho.
Nessa hipótese, os jogadores da elite não teriam direito a um mês corrido de férias após o exaustivo calendário deste ano.
Considerando a necessidade de uma fase de preparação atlética antes das competições, a CBF propôs inicialmente que os jogadores gozassem de uma parte das férias em dezembro --atletas que não integrassem o elenco da seleção zerariam o saldo durante a Copa.
A movimentação dos atletas já surtiu resultados. Algumas federações concordaram em postergar o início dos estaduais para 19 de janeiro. A questão, contudo, não se resume ao ano da Copa.
A irracionalidade do calendário brasileiro é tema antigo, para a qual também contribuem as competições continentais, à espera de reestruturação duradoura. A proposta mais razoável é sincronizar a agenda local com a da Europa, que detém a liderança econômica e técnica do futebol mundial.
Tal caminho traria vantagens para clubes e jogadores. A coincidência de datas permitiria que as equipes participassem dos rentáveis torneios internacionais de pré-temporada. Também os períodos de contratações seriam coincidentes, evitando a migração de atletas em meio aos campeonatos.
Não basta, entretanto, promover tal mudança se os torneios continuarem a se atropelar, exigindo em demasia dos jogadores dos principais clubes. É preciso equacionar o calendário de modo a reservar datas para competições nacionais e internacionais sem a realização de jogos em curto período de tempo. Uma questão de bom senso.
A divulgação do calendário do futebol brasileiro para o próximo ano, quando o país promove a Copa do Mundo, foi recebida com justificadas reações de insatisfação.
Desta vez não foram só os críticos contumazes da desorganização da modalidade que se pronunciaram. Também partiram protestos de um movimento de jogadores intitulado Bom Senso Futebol Clube.
Tradicionalmente alheios a tais questões, os atletas parecem enfim inclinados a assumir um papel ativo nos destinos do esporte mais popular do Brasil.
O estopim da revolta foi a iniciativa da CBF de antecipar o reinício das atividades para o dia 12 de janeiro, com os campeonatos estaduais --forma de compensar a paralisação imposta pela Copa do Mundo, que será realizada de 12 de junho a 13 de julho.
Nessa hipótese, os jogadores da elite não teriam direito a um mês corrido de férias após o exaustivo calendário deste ano.
Considerando a necessidade de uma fase de preparação atlética antes das competições, a CBF propôs inicialmente que os jogadores gozassem de uma parte das férias em dezembro --atletas que não integrassem o elenco da seleção zerariam o saldo durante a Copa.
A movimentação dos atletas já surtiu resultados. Algumas federações concordaram em postergar o início dos estaduais para 19 de janeiro. A questão, contudo, não se resume ao ano da Copa.
A irracionalidade do calendário brasileiro é tema antigo, para a qual também contribuem as competições continentais, à espera de reestruturação duradoura. A proposta mais razoável é sincronizar a agenda local com a da Europa, que detém a liderança econômica e técnica do futebol mundial.
Tal caminho traria vantagens para clubes e jogadores. A coincidência de datas permitiria que as equipes participassem dos rentáveis torneios internacionais de pré-temporada. Também os períodos de contratações seriam coincidentes, evitando a migração de atletas em meio aos campeonatos.
Não basta, entretanto, promover tal mudança se os torneios continuarem a se atropelar, exigindo em demasia dos jogadores dos principais clubes. É preciso equacionar o calendário de modo a reservar datas para competições nacionais e internacionais sem a realização de jogos em curto período de tempo. Uma questão de bom senso.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“ACM Neto é um baixinho tinhoso”
Senador Agripino Maia (RN), presidente do DEM, sobre o ‘miniprefeito’ de Salvador
HENRIQUE ENFRENTA PT E PROMETE PAUTAR VOTO ABERTO
Contrariando ala lulista do PT, o presidente da Câmara, Henrique Alves, tem pressa de votar a proposta de emenda que determina voto aberto para cassação de mandato por quebra de decoro e condenação criminal transitada em julgado. Ele disse ao relator Vanderlei Macris (PSDB-SP) que teme desgaste ainda maior, caso o voto fechado seja mantido e o deputado ladrão Natan Donadon, novamente absolvido.
MENSALEIROS
A aprovação da PEC do voto aberto pode dificultar a vida de deputados mensaleiros que querem manter mandato, por isso o PT é contra.
AÇÃO PROTELATÓRIA
O presidente da comissão que discute o voto aberto, Sibá Machado (PT-AC), “evaporou” e cancelou a última reunião sem justificativas.
PARECER PRONTO
O relator Vanderlei Macris está com parecer pronto para ser votado na comissão. A matéria seguirá para votação em dois turnos no Plenário.
COM A BARRIGA
Alinhada com Henrique Alves, a Comissão de Ética tem enrolado o processo contra Donadon para dar tempo de apreciar o voto aberto.
GOVERNO NÃO PUNE E PERSEGUE QUEM DENUNCIA
Único anistiado político por decisão judicial, ratificada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Roberto Machado, 70, escreveu a Dilma pedindo “transparência” na concessão de sua pensão, que está no “limbo” há 5 anos. Em tratamento de câncer, impedido de trabalhar na empresa após denunciar falcatruas na Indústrias Nucleares do Brasil no governo FHC, Roberto vive com ajuda de parentes.
VIDA DESTRUÍDA
O anistiado político Roberto Machado afirma que a “ditadura ainda instalada” na INB destruiu sua vida.
SEM FIM
Tramita há 17 anos o processo em que Roberto Machado denunciou aluguel irregular de urânio de US$ 62 milhões a empresa alemã falida.
ESTÁ EM OUTRA
Suplente da ministra Gleisi Hoffmann (PT), o senador Sérgio Souza terá trabalho para convencer o PMDB a apoiá-la na disputa pelo governo do Paraná. O partido negocia com o PSDB do governador Beto Richa.
HISTÓRICO
Aliado do presidenciável Aécio Neves (MG), o deputado Bruno Araújo (PE) comemora, aliviado, a decisão de José Serra (SP) de permanecer no PSDB: “Foi o segundo ‘fico’ mais importante desde dom Pedro I”.
OLHO EM 2014
O deputado Miro Teixeira avisou ainda na segunda (30) ao presidente Carlos Lupi que sairia do PDT para disputar o governo do Rio em 2014, condição acertada diretamente com Ciro Gomes e Hugo Leal do PROS.
QUEM MANDA
O ministro Antônio Andrade (Agricultura) afirma que a presidente Dilma Rousseff é que vai decidir se ele disputará reeleição à Câmara em 2014: “Tenho compromisso; é ela quem vai definir o tempo que vou ficar no governo”.
TESTEMUNHA
Fiel escudeiro de José Serra, o senador tucano Aloysio Nunes (SP) participou das principais negociações com o presidente Aécio Neves que levaram Serra a decidir pela permanência no PSDB.
PAREDÃO
A bancada do PMDB teme que o senador Vital do Rêgo (PB) seja “fritado” no noticiário até dezembro, caso a presidente Dilma mantenha decisão de nomear o ministro da Integração apenas no fim do ano.
REDEMOINHO
O primeiro submarino nuclear ainda não saiu, mas o governo já gastou R$ 1,7 bilhão no estaleiro e na base naval da Marinha para construí-lo.
ASSIM NÃO DÁ
Relatório do Banco Mundial mostra o Brasil em 130º lugar para abrir empresa, entre 185 países, atrás de Honduras. Na campeã Nova Zelândia, abre-se on-line, em 24 horas. E com menos imposto.
POR FORA
Presidente do PMDB-TO, o deputado Júnior Coimbra até agora não foi procurado pela senadora Kátia Abreu para falar de sua filiação: “Ela fez contato com outra ala da sigla, tudo por intermédio da cúpula nacional”.
‘AH, FALA SÉRIO’
O novelista global Aguinaldo Silva perguntou no Twitter: “Vocês juram que gostariam de ter Marina Silva como presidente depois da Dilma?”.
PODER SEM PUDOR
UM CHOCOLATE ESPECIAL
Amigo pessoal de Jânio Quadros, Leonardo Famá gostava de usar o banheiro particular do presidente, que se incomodava com nádegas de estranhos. Jânio pediu a seus assessores que passassem chocolate pastoso após Famá usar o banheiro. Não deu outra:
- O que é isso?, espantou-se o amigo do presidente com tanta sujeira espalhada pelas paredes, teto e vaso sanitário.
Jânio pôs o dedo na consistência pastosa, levando-a à boca e comentou:
- É merda mesmo!
Senador Agripino Maia (RN), presidente do DEM, sobre o ‘miniprefeito’ de Salvador
HENRIQUE ENFRENTA PT E PROMETE PAUTAR VOTO ABERTO
Contrariando ala lulista do PT, o presidente da Câmara, Henrique Alves, tem pressa de votar a proposta de emenda que determina voto aberto para cassação de mandato por quebra de decoro e condenação criminal transitada em julgado. Ele disse ao relator Vanderlei Macris (PSDB-SP) que teme desgaste ainda maior, caso o voto fechado seja mantido e o deputado ladrão Natan Donadon, novamente absolvido.
MENSALEIROS
A aprovação da PEC do voto aberto pode dificultar a vida de deputados mensaleiros que querem manter mandato, por isso o PT é contra.
AÇÃO PROTELATÓRIA
O presidente da comissão que discute o voto aberto, Sibá Machado (PT-AC), “evaporou” e cancelou a última reunião sem justificativas.
PARECER PRONTO
O relator Vanderlei Macris está com parecer pronto para ser votado na comissão. A matéria seguirá para votação em dois turnos no Plenário.
COM A BARRIGA
Alinhada com Henrique Alves, a Comissão de Ética tem enrolado o processo contra Donadon para dar tempo de apreciar o voto aberto.
GOVERNO NÃO PUNE E PERSEGUE QUEM DENUNCIA
Único anistiado político por decisão judicial, ratificada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Roberto Machado, 70, escreveu a Dilma pedindo “transparência” na concessão de sua pensão, que está no “limbo” há 5 anos. Em tratamento de câncer, impedido de trabalhar na empresa após denunciar falcatruas na Indústrias Nucleares do Brasil no governo FHC, Roberto vive com ajuda de parentes.
VIDA DESTRUÍDA
O anistiado político Roberto Machado afirma que a “ditadura ainda instalada” na INB destruiu sua vida.
SEM FIM
Tramita há 17 anos o processo em que Roberto Machado denunciou aluguel irregular de urânio de US$ 62 milhões a empresa alemã falida.
ESTÁ EM OUTRA
Suplente da ministra Gleisi Hoffmann (PT), o senador Sérgio Souza terá trabalho para convencer o PMDB a apoiá-la na disputa pelo governo do Paraná. O partido negocia com o PSDB do governador Beto Richa.
HISTÓRICO
Aliado do presidenciável Aécio Neves (MG), o deputado Bruno Araújo (PE) comemora, aliviado, a decisão de José Serra (SP) de permanecer no PSDB: “Foi o segundo ‘fico’ mais importante desde dom Pedro I”.
OLHO EM 2014
O deputado Miro Teixeira avisou ainda na segunda (30) ao presidente Carlos Lupi que sairia do PDT para disputar o governo do Rio em 2014, condição acertada diretamente com Ciro Gomes e Hugo Leal do PROS.
QUEM MANDA
O ministro Antônio Andrade (Agricultura) afirma que a presidente Dilma Rousseff é que vai decidir se ele disputará reeleição à Câmara em 2014: “Tenho compromisso; é ela quem vai definir o tempo que vou ficar no governo”.
TESTEMUNHA
Fiel escudeiro de José Serra, o senador tucano Aloysio Nunes (SP) participou das principais negociações com o presidente Aécio Neves que levaram Serra a decidir pela permanência no PSDB.
PAREDÃO
A bancada do PMDB teme que o senador Vital do Rêgo (PB) seja “fritado” no noticiário até dezembro, caso a presidente Dilma mantenha decisão de nomear o ministro da Integração apenas no fim do ano.
REDEMOINHO
O primeiro submarino nuclear ainda não saiu, mas o governo já gastou R$ 1,7 bilhão no estaleiro e na base naval da Marinha para construí-lo.
ASSIM NÃO DÁ
Relatório do Banco Mundial mostra o Brasil em 130º lugar para abrir empresa, entre 185 países, atrás de Honduras. Na campeã Nova Zelândia, abre-se on-line, em 24 horas. E com menos imposto.
POR FORA
Presidente do PMDB-TO, o deputado Júnior Coimbra até agora não foi procurado pela senadora Kátia Abreu para falar de sua filiação: “Ela fez contato com outra ala da sigla, tudo por intermédio da cúpula nacional”.
‘AH, FALA SÉRIO’
O novelista global Aguinaldo Silva perguntou no Twitter: “Vocês juram que gostariam de ter Marina Silva como presidente depois da Dilma?”.
PODER SEM PUDOR
UM CHOCOLATE ESPECIAL
Amigo pessoal de Jânio Quadros, Leonardo Famá gostava de usar o banheiro particular do presidente, que se incomodava com nádegas de estranhos. Jânio pediu a seus assessores que passassem chocolate pastoso após Famá usar o banheiro. Não deu outra:
- O que é isso?, espantou-se o amigo do presidente com tanta sujeira espalhada pelas paredes, teto e vaso sanitário.
Jânio pôs o dedo na consistência pastosa, levando-a à boca e comentou:
- É merda mesmo!
DOMINGO NOS JORNAIS
- O Globo: Bicho cresceu no Rio com ajuda de torturadores
- O Estado de S. Paulo: Marina acerta ida para o PSB e admite ser vice de Campos
- Folha de SP: Marina se une a Campos para 2014
- Correio Braziliense: Aliança Marina-Eduardo embaralha eleições
- Jornal do Commercio: Aliança com Marina fortalece Eduardo
- Zero Hora: Marina Silva entra no PSB para ser vice de Campos
sábado, outubro 05, 2013
Festival de insensatez - ZUENIR VENTURA
O GLOBO - 05/10
O que causa mesmo inveja a um carioca são a segurança e a ordem nas ruas de Manhattan
Nova York não é meu sonho de cidade, talvez por falta de intimidade com a língua e com a paisagem, que me lembra Tom Jobim implicando com a altura dos prédios: “NY é para ser vista de maca”. Como cantou o grande Cole Porter, “I love Paris” — na primavera, no outono, no inverno, em “qualquer momento” (menos no verão, quando as duas ficam insuportáveis). Mas reconheço que nenhuma outra metrópole dispõe de tanta oferta cultural quanto a capital do mundo (dizem que perde para Londres, que conheço pouco). Atualmente, há cerca de 30 espetáculos em cartaz na Broadway, ou seja, pode-se ver um por noite durante um mês. Na terra do fast-food, mais do que musicais, concertos, peças, óperas e exposições, só mesmo comida. Em cada quarteirão um bar, uma lanchonete, um restaurante.
Come-se dentro, mas também do lado de fora. O nova-iorquino ou está com a boca cheia ou falando ao celular — às vezes as duas coisas ao mesmo tempo. Come-se até sentado na fonte do Lincoln Center, enquanto se espera, por exemplo, a Filarmônica de NY acompanhar Yefim Bronfman ao piano no Concerto nº 1, de Tchaikovsky. Isso, por si só, valeu a viagem. Aliás, em termos de “valeu a viagem”, há também a magnífica mostra de Edward Hopper, sem falar na nova montagem de “Pippin”, cujas riquezas da coreografia e da expressão corporal dispensam o resto. Não é preciso entender, basta ver para se deslumbrar.
Mas o que causa mesmo inveja a um carioca são a segurança e a ordem da cidade. Andando nas últimas semanas pelas ruas de Manhattan, não tive um sobressalto, uma ameaça, não vi um avanço de sinal, não ouvi uma freada brusca, um buzinaço estridente. Isso deve acontecer, claro, mas como exceção. A comparação é tanto mais chocante quando você volta e encontra a Cinelândia, palco de eventos cívicos memoráveis, transformada em campo de batalha. De um lado, a polícia usando todo tipo de truculência contra professores. Uma professora de História repete por e-mail o que ouviu dos policiais: “Vamos acabar com esses filhos da puta (...). O corpo estremecendo, os olhos lacrimejando e os ouvidos zunindo, já surda, deixei o cenário. Cenário de guerra, arapuca de arame.” A vereadora Teresa Bergher (PSDB), indignada com a violência policial, resumiu: “Um dia negro para a democracia.” De outro lado, vândalos depredando e saqueando bens públicos e até bares tradicionais como o Amarelinho e o Vermelhinho. E, se não bastasse, xingando artistas na entrada de um festival de cinema. O próximo ato deve ser queimar livros em praça pública.
De parte a parte, uma marcha de insensatez que, pelo visto, deve continuar.
O que causa mesmo inveja a um carioca são a segurança e a ordem nas ruas de Manhattan
Nova York não é meu sonho de cidade, talvez por falta de intimidade com a língua e com a paisagem, que me lembra Tom Jobim implicando com a altura dos prédios: “NY é para ser vista de maca”. Como cantou o grande Cole Porter, “I love Paris” — na primavera, no outono, no inverno, em “qualquer momento” (menos no verão, quando as duas ficam insuportáveis). Mas reconheço que nenhuma outra metrópole dispõe de tanta oferta cultural quanto a capital do mundo (dizem que perde para Londres, que conheço pouco). Atualmente, há cerca de 30 espetáculos em cartaz na Broadway, ou seja, pode-se ver um por noite durante um mês. Na terra do fast-food, mais do que musicais, concertos, peças, óperas e exposições, só mesmo comida. Em cada quarteirão um bar, uma lanchonete, um restaurante.
Come-se dentro, mas também do lado de fora. O nova-iorquino ou está com a boca cheia ou falando ao celular — às vezes as duas coisas ao mesmo tempo. Come-se até sentado na fonte do Lincoln Center, enquanto se espera, por exemplo, a Filarmônica de NY acompanhar Yefim Bronfman ao piano no Concerto nº 1, de Tchaikovsky. Isso, por si só, valeu a viagem. Aliás, em termos de “valeu a viagem”, há também a magnífica mostra de Edward Hopper, sem falar na nova montagem de “Pippin”, cujas riquezas da coreografia e da expressão corporal dispensam o resto. Não é preciso entender, basta ver para se deslumbrar.
Mas o que causa mesmo inveja a um carioca são a segurança e a ordem da cidade. Andando nas últimas semanas pelas ruas de Manhattan, não tive um sobressalto, uma ameaça, não vi um avanço de sinal, não ouvi uma freada brusca, um buzinaço estridente. Isso deve acontecer, claro, mas como exceção. A comparação é tanto mais chocante quando você volta e encontra a Cinelândia, palco de eventos cívicos memoráveis, transformada em campo de batalha. De um lado, a polícia usando todo tipo de truculência contra professores. Uma professora de História repete por e-mail o que ouviu dos policiais: “Vamos acabar com esses filhos da puta (...). O corpo estremecendo, os olhos lacrimejando e os ouvidos zunindo, já surda, deixei o cenário. Cenário de guerra, arapuca de arame.” A vereadora Teresa Bergher (PSDB), indignada com a violência policial, resumiu: “Um dia negro para a democracia.” De outro lado, vândalos depredando e saqueando bens públicos e até bares tradicionais como o Amarelinho e o Vermelhinho. E, se não bastasse, xingando artistas na entrada de um festival de cinema. O próximo ato deve ser queimar livros em praça pública.
De parte a parte, uma marcha de insensatez que, pelo visto, deve continuar.
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