sábado, janeiro 05, 2013

A previsão do passado - WALTER CENEVIVA

FOLHA DE SP - 05/01


Cabe a nós, o povo, insistir na compatibilização da escrita constitucional com a realidade nacional


Grande exemplo histórico da previsão errada, no passado, foi a de Napoleão Bonaparte, ao invadir a Rússia dos czares. Acreditou que obrigaria a monarquia russa a se render, assim que conquistasse Moscou. Não conquistou. A desastrada profecia otimista parecia aceitável, em começos do século 19.

Mais incompetente foi Adolf Hitler. Quase na metade do século 20, pretendeu dar realidade ao sonho de Bonaparte. Seu fracasso foi pior que o francês. Também desconsiderou o inimigo insuperável: o "general" inverno.

Se tomarmos o passado como base de previsões novas, precisa-mos saber que os enganadores do povo dispõem de novos instrumentos. Por isso, o primeiro cuidado a adotar está em defender, em debate livre, as soluções democráticas, para garantia da adesão voluntária.

Contraponto do parágrafo precedente será a composição heterogênea do povo brasileiro, no nível ainda alto do analfabetismo, nas distâncias significativas entre as duas primeiras linhas da sociedade e as outras. Compreendem os mais ricos ou de maior preparo cultural e o elevado percentual numéricos das demais categorias.

A derrocada argentina no combate sobre as Malvinas é mostra recente da imprudência dos falsos profetas, comuns em pretensas lideranças "milagrosas".

A contar de tais exemplos, podemos tentar prever o futuro do Brasil, na difusão de seus fundamentos essenciais, desde o art. 1º da Carta (soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana), sem descuidar dos valores sociais do trabalho, da livre iniciativa, do pluralismo político. Temos de dar conteúdo real ao art. 2º da Constituição. Ali se lê, quanto aos poderes da União, da independência de uns frente aos outros; da harmonia, que deveria ser imperativa entre eles. É o que está escrito na Carta.

Nós, porém, sabemos que se trata de uma impropriedade do texto, pois regra da harmonia substancial não se mostra na realidade da República, dos Estados e municípios.

Cabe a nós, o povo, insistir na compatibilização da escrita constitucional com a realidade nacional. Possibilitará, ainda que a prazo, a instalação de mecanismo sério, dos direitos vigentes na relação entre níveis de governo.

Os elementos complementares da previsão programática já estiveram presentes na coluna. Convém reiterá-los, junto com os direitos e garantias fundamentais, bem como os deveres individuais e coletivos que lhes correspondem, no equilíbrio do seu exercício extensivo a todos e a cada um de seus habitantes. Programa essencial para tal fim -insistentemente afirmada no passado- é a extensão desses valores, acoplados aos deveres consequentes.

O passo inicial consiste em lutar pela igualdade de todos perante a lei, precedida pela obviedade de que, assim como a segurança e a garantia da propriedade, não é definitiva no Brasil de hoje.

Superar obstáculos e transformar a previsão sonhada em realidade exigem, em primeiro lugar, que cada ser vivente do país saiba de seu direito. Que se entusiasme com a defesa. Que o reclame como valor jurídico e não como favor do poderoso.

Cada desigualdade que for eliminada será um passo para melhor. A luta será digna, ainda que ultrapasse o espaço de uma vida, ante o relevo da obra. Parece quixotesca, mas vale a pena.

ANJA DO SOM - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 05/01


A romena Anca Gavris, 38, tocou violino com Andrea Bocelli no seu show em SP, em dezembro. Ela veio para o Brasil há dois anos para se juntar à Osesp e acabou ficando.

Neste ano, ela fará uma homenagem ao poeta Paulo Bonfim. "Vou me apresentar em frente a um mural que tem poesias dele pintadas, em SP."

MEDIDA CERTA
Os frequentadores do Vigilantes do Peso no Brasil perderam ao todo 331 mil quilos em 2012. Desse total, 118 mil foram eliminados só no Estado de São Paulo. Em 2011, a perda de peso nacional ficou em 308,7 mil quilos -sendo 106 mil em SP.

ZONA LESTE MAGRA
Na capital paulista, o bairro que mais emagreceu foi o Tatuapé: 8.800 quilos. Em segundo lugar ficaram os associados das reuniões na avenida Paulista. No total, perderam 8.000.

CUMPRA-SE A LEI
Netinho de Paula (PC do B), secretário municipal de Igualdade Racial, diz que, "atendendo à solicitação do prefeito", vai priorizar a implementação na cidade de uma lei federal de 2003, que torna obrigatório o ensino sobre cultura e história afro-brasileira nas escolas públicas e particulares.

CACHOEIRA DO AMOR
O pastor que casou Carlinhos Cachoeira no dia 28 de dezembro conta que o empresário estava muito calmo durante toda a cerimônia. "Ele sorria muito", diz Vitor Hugo Queiroz, da igreja Nova Vida de Anápolis (GO). "Mas preferiu não fazer os votos de bodas."

O CONDE CASAR-SE-Á
Chiquinho Scarpa vai se casar com a empresária Marlene Nicolau. Depois de pedir sua mão, recebeu ontem em sua mansão a diretoria da Microcamp, empresa de Nicolau, para anunciar.

"Ainda não temos data definida", diz Scarpa, que pensa em fazer sua terceira boda em São Paulo. "Quem sabe até em casa. Veremos."

VOZ QUE NÃO CALA
O sertanejo Daniel está reaproveitando cantores do programa "The Voice Brasil", do qual ele foi jurado.

"Já cantei num show meu com a Carol Marques. E quero convidar outros participantes para apresentações."

MAMA ÁFRICA
O moçambicano Stewart Sukuma vem ao Brasil no mês que vem. O cantor, que é Embaixador da Boa Vontade da Unicef, se apresentará junto com a banda Nkhuvu no dia 24 de fevereiro no Auditório Ibirapuera.

LISTA VIP
Andrea Barata Ribeiro, que fundou a O2 Filmes ao lado de Fernando Meirelles e Paulo Morelli, é a única latino-americana entre as 12 empresárias de entretenimento mais importantes do mundo, em eleição da revista estadunidense "The Hollywood Reporter". Ela foi a produtora-executiva de filmes como "Cidade de Deus", "Ensaio sobre a Cegueira" e "Xingu".

PRÊMIO PRÉDIO
O troféu do Prêmio Governador do Estado para a Cultura será feito neste ano pelo artista plástico Luiz Hermano. Ele diz ter se inspirado na arquitetura da cidade de São Paulo para criar a peça.

VIRADA DE DISCO
O DJ Konrad se apresentou na festa de música eletrônica Mothership da boate D-Edge, na Barra Funda. Convidados como a modista Patricia Tessarolo e a estudante Graziela Belfort foram recebidos na balada pela hostess Natalia Scabora.

TRANCOSO É UM GLOBO
Atores globais como Alinne Moraes, Rodrigo Simas e Nathalia Dill foram à festa Saravá, em Trancoso, no sul da Bahia. O piloto Thiago Camilo também esteve no evento, em que só tocaram músicas nacionais.

CURTO-CIRCUITO
Vanessa Jackson se apresenta hoje no Bar Brahma do centro. 18 anos.

O Gero reabre das férias hoje, às 19h, nos Jardins.

O Ferretti Club Day é hoje, em Angra dos Reis.

O Dia de Reis será celebrado amanhã, às 19h, no bar Balcão, nos Jardins.

Quem vai deter Eduardo Campos? - JORGE BASTOS MORENO - Nhenhenhém


O GLOBO - 05/01


As principais lideranças políticas do país já trabalham com o seguinte cenário eleitoral para o ano que vem: Dilma x Eduardo Campos x Aécio.

A dúvida é apenas em relação a Aécio, não naquilo que depender dele. Pelo contrário, o senador já assumiu sua condição de candidato. É que, em se tratando do PSDB, hoje, ninguém faz nada sem o aval do governador Alckmin.

A candidatura Eduardo Campos já tem adeptos de mais para ser desfeita sem danos políticos ao governador de Pernambuco. E une o estado inteiro, menos o PT, naturalmente.

- A candidatura, não ele, avançou demais. Não dá mais para recuar! - afirma o até ontem maior adversário de Campos, o ex-governador Jarbas Vasconcelos, um dos líderes da oposição ao PT.

Dilma também trabalha com a hipótese, menos Lula. Para o ex-presidente, a hipótese Eduardo Campos não existe. O que existe é a candidatura Eduardo Campos.

Em forma
FH, no "Manhattan Connection", perguntado sobre com quem ficaria numa ilha deserta, se com Angelina Jolie ou Gisele Bündchen, respondeu na bucha:

- A Suellen! Se pudesse. Mas, com a minha idade, não ousaria tanto. Não passa de sonho de velho.

Elegância
Pois não é que a coluna conseguiu localizar a "Mulher do Ano" numa ilha perto do Caribe, acompanhada de um bando de amigas?!

- Ilha deserta???? Não poderíamos trocar por uma linda tarde de sol na Prainha????? Na verdade não sou muito fã de lugares desertos, mas certamente adoraria conversar com alguém que tem as maiores qualidades que um homem pode ter, independentemente da idade. Fernando Henrique é um homem inteligente e lisonjeador. Estou envaidecida com os elogios.

Gêmeos
Chalita está mandando e desmandando na prefeitura de São Paulo mais do que o prefeito Fernando Haddad.
Até quando? Não sei!

Mas deve durar por um bom tempo. É que a família Haddad, inclusive a Primeira-Mãe, passou o réveillon na casa do futuro ministro da Ciência e Tecnologia, e dona Norma saiu encantada com o anfitrião, ao ponto de dizer que iria adotá-lo como filho.

Não será difícil. O próprio filho dela, que é a vaidade em pessoa, reconhece ser muito parecido com Chalita.

Ladino
Renan Calheiros está trabalhando sua candidatura à presidência do Senado em surdina. Pretende anunciá-la somente às vésperas da eleição e, assim, evitar que ela exponha o seu passado de presidente deposto. Acha que, agindo assim, a mídia se esquece dele. Leda certeza!

Se não sou eu...

Afago
Ah, já ia me esquecendo, ainda na entrevista ao "Manhattan Connection", perguntaram a FH quem ele gostaria, entre Lula, Collor e Sarney, de ter como parceiro de naufrágio por dez anos numa ilha. E ele, de chofre:

- Sarney! Pelo menos conversaríamos sobre literatura e uma porção de coisas amenas.

Emoções
Pois não é que, a exemplo da Isis Valverde, fui encontrar Sarney na solitária ilha do Curupi, no Maranhão. "O dono do mar" e ex-dono desta coluna estava emocionado. Primeiro, com o meu telefonema (há um ano ele não saía aqui ). Depois, com as declarações do outro ex-amigo:

- As declarações foram muito generosas. Nós dois não precisaríamos de uma ilha deserta para estarmos juntos. Eu gosto dos livros do FH, e ele, dos meus. E gostamos muito de literatura.

Embate
Sarney já até sonha com esse encontro:

- Eu aproveitaria para puxar um tema que Fernando Henrique adora: o seu fascínio pelo Sérgio Buarque de Holanda e de seus embates com Gilberto Freyre.

Velhos babões
Como amigo da Casa do Saber, em nome daquele "feixe de luz" chamado Maria Fernanda Cândido e do Armando Strozenberg, mentores da entidade, ofereci essa meca da cultura nacional como local do encontro entre os dois ex-presidentes.

FH foi o primeiro a aceitar, mas com a seguinte exigência:

Que o debate entre Sarney e ele seja mediado pela Isis Valverde.

Sarney topou no ato. Acha Isis parecida com a sua Saraminda.

Será que na idade deles vou ficar também babão?

Onde as crianças nascem menos - ALEXANDRE VIDAL PORTO

FOLHA DE SP - 05/01


População do Japão não para de cair; vendem-se mais fraldas para adultos que para crianças no país


NO JAPÃO, a cada 31 segundos, nasce uma pessoa. A cada 26, morre outra. Ou seja, tem mais gente morrendo que nascendo.

Desde 2007, a população japonesa não para de diminuir. Segundo o governo, de 2011 a 2012, o país perdeu o número recorde de 212 mil pessoas. Nesse ritmo, até 2060, os japoneses, hoje 128 milhões, estariam reduzidos a 86 milhões apenas.

Em 2012, nasceram 18 mil crianças a menos que em 2011. Essa tendência está diretamente vinculada à baixa taxa de fertilidade das japonesas. Hoje, a média de filhos por mulher é de 1,39. Para que a população se mantivesse estável, seria necessário que ela alcançasse 2,1.

A redução do número de filhos é explicada, ao menos parcialmente, por razões econômicas. A conjuntura de recessão desencoraja a constituição de novas famílias. As pessoas se casam menos e mais tarde. A manutenção de um filho é cara: em 2009, os cinco primeiros anos de educação infantil custavam cerca de US$ 73 mil, 2,5 vezes mais que nos Estados Unidos, por exemplo.

Além disso, ter filhos dificulta o avanço profissional das mulheres. Como trabalhar 15 horas por dia - coisa comum no Japão- quando se tem criança pequena em casa? Diante desse dilema, número cada vez maior de mulheres tem priorizado a carreira profissional e decidido não ter filhos.

Com a redução no número de nascimentos e uma das expectativas de vida mais elevadas do planeta, o Japão se transformou no país desenvolvido com a mais alta proporção de idosos. No mercado japonês, vendem-se mais fraldas descartáveis para adultos que para crianças. Hoje, 24% da população total é de idosos. Em 2060, os idosos serão 40%.

Essa tendência é uma bomba-relógio populacional. A cada cem segundos, o Japão tem uma criança a menos. Segundo Hiroshi Yoshida, professor de economia da Universidade de Tohoku, a prevalecer esse quadro, em maio de 3011, não haverá mais crianças no país.

O envelhecimento da população imporá sobrecarga crescente ao sistema previdenciário. Também terá impacto sobre o nível da produtividade e o ritmo do crescimento. Agora, mesmo que a taxa de fertilidade subisse, tomaria mais de uma geração para que a diferença pudesse ser economicamente verificada.

A incorporação de imigrantes poderia ajudar a compensar o deficit demográfico, mas essa hipótese parece não ser considerada pelas autoridades japonesas. O governo está ciente da questão e estabeleceu um ministério específico para o tema. Algumas políticas têm sido implementadas, mas os resultados têm ficado aquém das expectativas.

Contudo, a despeito do que faça o governo, é fundamental que a comunidade empresarial reconheça e assuma seu quinhão de responsabilidade. É importante para toda a nação que a cultura corporativa e o ambiente laboral incorporem regras de proteção ao convívio familiar e protejam o avanço profissional das trabalhadoras com filhos. A contribuição que as mulheres japonesas podem dar ao sistema produtivo de seu país, mais do que valiosa, é necessária. Não deve ser desprezada.

Quando ao subir o homem desce - ALOÍSIO DE TOLEDO CESAR


ESTADÃO - 05/01


O Brasil talvez seja o unico pais do mundo onde uma pessoa condenada pelos crimes de corrupção e formação de quadrilha, por decisão do mais alto tribunal da República, assume no Congresso Nacional o cargo de deputado federal, podendo atuar na elaboração de leis. Meu Deus, qual será a validade dessas leis que vierem a ter o autógrafo de José Genoino?

É vergonhoso, humilhante, afrontoso verificar que isso acontece logo depois de o Senado ter dado um pé no traseiro de Demóstenes Torres, em face da suspeita de envolvimento criminoso do então senador com o contraventor Carlinhos Cachoeira. Os crimes praticados por José Genoino, e que levaram à sua condenação, são muito mais graves, de tal forma que sua posse na Câmara dos Deputados eqüivale a chicotear a República e a negar o Estado de Direito, pelo qual a Nação tanto lutou. É um ato vergonhoso que mancha definitivamente a biografia do agora parlamentar.

Não percebe esse político que sua presença no Congresso será um prato cheio para seus adversários? A qualquer palavra que diga, sempre alguém o lembrará de que é uma pessoa condenada por corrupção e formação de quadrilha. Isso certamente atingirá não somente a sua pessoa, mas também o partido político do qual foi presidente, e até mesmo o País.

Quando ocorria o seu julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, por haver atuado, como presidente do Partido dos Trabalhadores, no avanço em dinheiro público para farta distribuição a amigos e aliados políticos, a ministra Çármen Lúcia, que o julgava, procurou deixar claro que não estava "julgando uma biografia", mas, sim, casos concretos de corrupção e formação de quadrilha.

A menção feita à "biografia" resulta da reputação que Genoi-no incorporou à sua carreira política como combatente armado na luta contra o regime militar implantado no Brasil em março de 1964. Naquela época, certamente com patriotismo, mas sem maior inteligênciaecomfra-gilíssima estratégia, jovens sem experiência lançaram-se a uma luta de poucas armas exatamente contra a única instituição que detinha o poderio bélico.,

Sob o ardor da juventude, assaltaram bancos, dinamitaram cofres para resgatar dinheiro e chegaram ao exagero de seqüestrar o embaixador dos Estados Unidos e a jogar uma poderosa bomba sobre o quartel do II Exército, em Sãó Paulo, fazendo em pedaços o infeliz soldado Mário Kozel Filho, de 18 anos, que ali estava de sentinela.

Essas ações de confronto representaram para os detentores do poder os melhores argumentos de que necessitavam para não devolver o poder aos civis. Na 2.a Seção do II Exército, onde atuava o serviço secreto militar, seguiam-se reuniões sempre com o mesmo desfecho: "Como devolver o poder a esse bando de loucos?".

Aquela juventude armada, à qual nunca se negou coragem, teve como integrante e participante, além de José Genoino, uma estudante de nome Dilma Rousseff, agora presidente da República. O movimento pendular da História é sempre surpreendente e serve para mostrar que no Chile, no Brasil e no Uruguai os guerrilheiros de ános atrás, que lutaram contra as ditaduras, chegaram ao poder não pelaviolência, mas pelo voto (e já no poder - isso é incrível - não se mostraram muito diferentes daqueles a quem haviam combatido).

No caso especial do Brasil, a reconquista do poder pelos civis veio a ocorrer não pelo ardor juvenil que levou à violência e à luta armada. O poder foi reconquistado por força de atos de inteligência e boa estratégia demonstrados por homens nada violentos como Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela, Mário Covas e tantos outros.

Esses políticos, que até hoje fazem muita falta, pareceram adotar o estilo de Gandhi quando resolveu ogor-se ao domínio britânico ná índia, fazendo uso, tão somente, da não violência e da não cooperação. Esse movimento, a que Gandhi dava o nome de "Satyagraha", procurava mostrar a força da verdade e da ausência de medo. Exatamente por não encontrarem como combatê-lo, os britânicos acabaram pegando os seus chapéus, os seus tacos de golfe evoltaram para a Inglaterra.

No Brasil, a devolução poder aos civis também veio a ocorrer, mas sempre com muita tensão. Poucas pessoas têm conhecimento das dificuldades, dos esforços e das cobranças que o então governador paulista Paulo Egydio Martins fazia ao presidente Ernesto Geisel para que promovesse uma abertura política que, mesmo lenta, avançasse progressiva e irreversivelmente. Sem o uso de bombas, ou de armas, enfim, o País aos poucos voltou a ter eleições, mas, por lamentáveis falhas dos eleitores, repetidamente são eleitas pessoas destituídas do necessário preparo.

Isso acontece desde os tempos do Brasil colônia, quando o satírico Gregório de Matos, em seus versos, dizia: "Quem sobe a alto lugar, que não merece, homem sobe, asno vai, burro parece, que 0 subir é desgraça muitas vezes". E ele completava que melhor é user homem em baixo, do que burro em cima".

A biografia de José Genoino, objeto de admiração por seus seguidores de partido, não mereceria ter esse complemento vergonhoso, porque a contamina por inteiro. A sua posse no Congresso Nacional representa praticamente a anulação de eficácia da Lei da Ficha Limpa, conquista nacional

Realmente, alguns milhares de políticos não puderam sequer disputar cargos eletivos pelo fato de suas biografias estarem ornamentadas por ilícitos administrativos e por delitos. Alguns prefeitos eleitos nem ao menos puderam assumir seus cargos em razão desses vícios não aceitos pela referida lei.

Aposse de Genoino desmoraliza a Lei da Ficha Limpa e certamente servirá de paradigma para que outros condenados, sem os seus direitos políticos, assim como ele, também possam tomar posse. É triste ter de assistir a mais esse espetáculo de desprezo à inteligência das pessoas.

Ueba! Falta muito pro Carnaval? - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 05/01


Ô Pato caro! E manco! Ultimamente o Pato só fazia gol na filha do Berlusconi. É verdade!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Piada Pronta: "Cachoeira está se convertendo, diz pastor evangélico". Se convertendo em euro ou dólar? Jesus tá sabendo disso? E, com a lábia do Cachoeira, é mais fácil o pastor se converter ao jogo do bicho!

E adorei o Zeca Pagodinho na enchente em Caxias. Com seu possante quadriciclo. O Zeca devia ser prefeito de Caxias! Tira o Zito e bota o Zeca! Não deixa a enchente me levar! E ele tomou quantos engradados de água de enchente?!

E a manchete do Piauí Herald: "Zeca Pagodinho multado pela Lei Seca". Diz que ele estava salvando 12 engradados de cerveja das enchentes!

E diz que tudo é culpa do lixo! Então atenção, cidadão: não pode jogar lixo e nem votar em lixo!

E o futebol? Tô adorando as contratações de 2013! "Transferência de Pato ao Corinthians é a mais cara do futebol brasileiro." O Pato dos ovos de ouro.

Ô Pato caro! E manco! Ultimamente o Pato só fazia gol na filha do Berlusconi. É verdade! Na Itália era assim: o Milan entrava com o pato, e o Berlusconi com o pinto! E sabe qual é a semelhança entre o Pato e o Ganso? Ambos estão bichados! Rarará!

E o Santos fechou com o Montilla. E com o Pinga! Ron Montilla e Pinga! Agora só falta contratar o Adriano Imperador. E tem mais: este Pinga jogava no Al-Gharafa! E isso é futebol ou granja? Pato, Ganso, Pardalzinho!

E olha o site Futirinhas: "Santos fecha com Montillo. Corinthians fecha com Pato, São Paulo fecha com Vargas. E o Palmeiras fecha as portas". Rarará! Não se pode mais falar em futebol sem zoar o Palmeiras. É compulsão! O Palmeiras virou o Sarney do futebol!

E o site CornetaFC revela que o Vargas é a cara da Maria Gadú! O São Paulo quer fazer um shimbalaiê! O São Paulo contratou a Maria Gadú. Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

O Brasileiro é Cordial! Primeira placa do ano direto de Esmeraldas, Minas: "Feliz 2013! E que neste novo ano você coloque o lixo na porta da perereca da sua mãe". Rarará!

E uma pergunta clássica de todo mês de janeiro: falta muito pro Carnaval? Falta! Faltam 25 dias úteis. Ou seja, inúteis! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Risco Garotinho - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 05/01


A ala governista do PR está em pânico com a possibilidade de o deputado Anthony Garotinho (RJ) se eleger líder da bancada. Dizem que será um "complicador" na relação com o Planalto, num momento em que o partido tenta emplacar um ministro. Esse grupo não sabe o que fazer para deter o ex-governador. Uma das estratégias é lançar vários candidatos para dispersar os votos.

Corrida em direção ao Paraguai
Com a construção do linhão de 500kW, ligando a Usina de Itaipu e Assunção, capital do Paraguai, empresas brasileiras estão abrindo subsidiárias no país vizinho. Os investimentos mais fortes são nas áreas de fabricação de cimento, de produtos agrícolas, de insumos agrícolas, têxteis e tintas. Além da oferta de energia barata, o que atrai os investidores é a baixa carga tributária. No Paraguai, ao contrário do Brasil, só é cobrado um tributo, o IVA, de 10%. Outro fator de atração é a legislação trabalhista antiga. Lá, não há nada parecido com o FGTS brasileiro, nem seus trabalhadores são beneficiados por um programa de assistência à saúde como o INSS.

“Vocês estão loucos!”
Luiz Inácio Lula da Silva Ex-presidente da República, reagindo aos petistas que defendem o lançamento de sua candidatura ao governo de São Paulo nas eleições de 2014

Cortejando a oposição
Candidato a presidente da Câmara, Júlio Delgado (PSB-MG) começa sua campanha pelo Norte do país. Na semana que vem, com o aval dos prefeitos de oposição, fará reuniões com deputados em Manaus, Belém e Macapá.

"Dolce far niente"
O contraventor Carlos Cachoeira e sua mulher, Andressa Mendonça, foram vistos ontem embarcando faceiros num táxi-aéreo no aeroporto de Salvador. Acompanhados por forte esquema de segurança, carregavam grande quantidade de compras e presentes. Cachoeira, alvo da Operação Monte Carlo, da PF, ficou nove meses preso em 2012.

As voltas que o mundo dá
Portugal está protestando devido à dificuldade de engenheiros lusitanos obterem autorização para exercer a profissão no Brasil. Há duas décadas, quem vivia esse drama eram dentistas brasileiros que tentavam se radicar no país europeu.

Os tucanos emplacaram
O governador Cid Gomes (PSB-CE), os petistas e aliados estão possessos. O presidente do BNB, Ary Lanzarin, nomeou, para comandar a área de comunicação do banco, Nilton Almeida. Ele é de carreira, mas dirigiu a Fundação Queiroz Jereissatti e foi secretário de Cultura no governo Tasso Jereissatti (PSDB). "É um verdadeiro disparate!", protesta o líder do PT, José Guimarães.

"Está todo mundo aqui"
O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) está fazendo campanha a líder da bancada na Câmara em... Miami. Ele foi para o réveillon e resolveu ficar pela quantidade de colegas de partido curtindo as férias no balneário americano.

Com a pulga atrás da orelha
A equipe da ministra Miriam Belchior (Planejamento) ficou indignada com as críticas vindas do Planalto pelo fato de a ministra estar de folga. Alegam que Miriam trabalhou no Natal e no ano-novo, e que está tudo sob controle.

O governo Dilma prevê safra agrícola recorde de 182 milhões de toneladas. E alto preço de mercado, devido à quebra de safra nos EUA e na Rússia.

Redução de danos - FÁBIO ZAMBELI - PAINEL


FOLHA DE SP - 05/01


Enquanto técnicos da Fazenda buscam equação para a dívida da Prefeitura de São Paulo com a União, o governo de Dilma Rousseff ajudará o aliado Fernando Haddad a enfrentar o período das chuvas, desafio inicial da gestão petista. Por meio do PAC, o Ministério das Cidades acaba de autorizar o repasse de R$ 640 milhões para três obras emergenciais antienchentes na capital: a drenagem nos córregos Aricanduva e Zavuvus e a contenção de encostas em 13 áreas de alto risco.

Mutirão Inspirado no modelo da gestão de Marta Suplicy (2001-04), Haddad quer treinar 400 moradores de áreas de risco para atuar na Defesa Civil, antecipando a evacuação de moradias na iminência de deslizamentos.

Sinal amarelo A manifestação de sem-teto que bloqueou ontem o acesso ao edifício Matarazzo, sede da prefeitura, aumentou a tensão entre petistas que alertavam Haddad sobre as expectativas que sua campanha alimentou nos movimentos sociais.

Onde pega Aliados do prefeito temem que a pressão contamine o debate do Plano Diretor, prioridade zero da Câmara para 2013.

Expediente Haddad tem permanecido na prefeitura das 8h às 20h nos primeiros dias de governo. O almoço, do qual participam grupos de secretários, é servido em sala anexa ao gabinete, com cardápio frugal: filé de frango, arroz, salada, purê e frutas da estação de sobremesa.

Belezura Andrea Matarazzo (PSDB) mandou reformar seu gabinete na Câmara paulistana, herdado do comunista Jamil Murad, que não se reelegeu. O tucano retirou divisórias e mandou pintar as paredes de "off white", tonalidade de branco comum em vestidos de noiva.

Companheiros Ligado à CUT, Carlos Grana (PT) nomeou Cícero Firmino, da Força Sindical, para a Secretaria do Trabalho em Santo André.

Discurso... Criticada por ministros, a declaração de Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) contrariando o STF quanto à perda de mandato de condenados no mensalão foi interpretada por correligionários como manobra para estancar o avanço das candidaturas de rivais à presidência da Câmara.

... de campanha Peemedebistas afirmam que Alves, no final do ano passado, mostrava-se refratário ao enfrentamento com o Supremo para evitar desgastes antes de assumir, mas mudou de conduta ao ser informado do avanço dos rivais. "Ele está tentando neutralizar", diz um congressista da sigla.

Calculadora Nas contas feitas por parlamentares governistas, Rose de Freitas (PMDB-ES) e Julio Delgado (PSB-MG) já teriam alcançado, juntos, mais de 150 votos. O patamar ainda é insuficiente para abalar o favoritismo do atual líder do PMDB.

Catraca Dirigentes da seção pernambucana da UNE preparam série de manifestações contra o aumento da passagem de ônibus na região metropolitana de Recife, anunciado ontem. Petistas querem usar a ofensiva para melindrar o governador Eduardo Campos e o prefeito Geraldo Júlio, ambos do PSB.

Passivo 1 Tramitam na TSE 10.625 ações de 2012 passíveis de revisão. Parte expressiva pode alterar as composições de Câmaras municipais e prefeituras. São decisões monocráticas (individuais), que abrem margem para agravos ao plenário da corte.

Passivo 2 No ano passado, deram entrada no Ministério Público Eleitoral 22 mil processos, mas o tribunal anunciou, em dezembro passado, que foram distribuídos apenas 14 mil aos ministros.

com ANDRÉIA SADI e DANIELA LIMA

tiroteio
"Demorou um ano para o PSDB introduzir a internação compulsória? Está na cara que a operação na cracolândia foi marketing puro."
DO PRESIDENTE DO PT-SP, EDINHO SILVA, sobre as medidas recém-anunciadas pelo governo paulista para o tratamento de dependentes no centro paulistano.

contraponto


Boi na linha


Enquanto se reunia com secretários no Palácio dos Bandeirantes para despachar em plena noite de domingo, Geraldo Alckmin resolveu checar informações sobre obras de seu governo no interior do Estado. Telefonou, então, para um prefeito e anunciou solenemente.

-Alô, aqui é o Geraldo Alckmin. Tudo bem?

O prefeito desconfiou que estava sendo vítima de um trote por causa do horário da ligação -já passava das 19h. Respondeu em voz alta, sem titubear:

-Ah, sei, a essa hora? Tudo bem, se for assim, aqui quem fala é George Bush.

Genoino no seu pior papel - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 05/01


Ao tomar posse como suplente de uma cadeira na Câmara dos Deputados, no dia 3, José Genoino foi parcimonioso em declarações aos jornalistas e garantiu que se sentia "confortável" ao assumir mandato parlamentar enquanto aguarda a tramitação em julgado da sentença do Supremo Tribunal Federal que o condenou, no processo do mensalão, a 6 anos e 11 meses de prisão. Na verdade, naquele momento o ex-presidente do PT poderia estar-se sentindo tudo, menos "confortável". Comprovam no todas as fotos em que aparece durante a rápida e discreta solenidade realizada no gabinete do presidente da Çâmara para dar posse a 17 dos quase 30 suplentes de parlamentares que foram eleitos prefeitos ou assumiram secretarias municipais.

O flagrante estampado na primeira página do Estado (4/1), de autoria do fotógrafo Beto Barata, tomado no momento em que Genoino prestava declarações à imprensa tendo vários microfones à sua frente, escancara a expressão constrangida de uma pessoa que tem perfeita consciência do extremo incômodo do instante que estava vivendo. Para emoldurar a cena patética, atrás de Genoino três deputados petistas que o acompanhavam - José Mentor, Ricardo Berzoini e José Guimarães, seu irmão - exibem fisionomias carrancudas mais adequadas a um velório do que ao ato presumivelmente jubiloso que testemunhavam. Muito melhor do que palavras, essa foto ilustra o transe doloroso a que a falência dos princípios republicanos está levando o ofício da política, como nunca antes na história deste país.

Nesse quadro, José Genoino é apenas um coadjuvante para o qual se apontam circunstancialmente os holofotes. Um coadjuvante a quem, com alguma indulgência, se pode atribuir o papel de vítima. Uma vítima cujos algozes não são, como querem os petistas, as elites perversas, o judiciário politizado, a mídia monopolista e vendida - enfim, tudo e todos que se recusam a alinhar-se com os planos de poder do partido dito dos trabalhadores. Genoino é, isso sim, vítima das enormes contradições do PT, da falta de escrúpulos com que a liderança da companheira-da reescreveu a história de um partido que nasceu com o compromisso de passar o Brasil a limpo.

Não tem faltado quem, indignado com o absurdo ético que representa seu retomo à condição de deputado, não hesite em classificar Genoino como "bandido". Não é justo. Bandidos há muitos na política brasileira em geral e dentro do PT em particular. Especialmente aqueles que ingressaram na vida publica arrostando o perigo de desafiar a ditadura militar e que hoje se refestelam nõ luxo dos confortos "burgueses" imbuídos da convicção de que fizeram por merecê-lo por serem "do bem". Não é o caso de José Genoino, no que diz respeito ao padrão de vida de classe media que sua família sempre teve. Mas Genoino erra. E da mesma forma como cometeu no passado o erro político de optar pela luta armada para defender a democracia, hoje Genoino erra ao não admitir os crimes em que se viu envolvido e pelos quais foi condenado. Se agisse hoje com a mesma coragem, desassombro e generosidade que há mais de 40 anos o levaram a arriscar a vida no movimento de resistência à ditadura militar, admitiria seus erros no episódio do mensalão, sem precisar quebrar o vínculo de fidelidade a seus companheiros, e teria poupado o País e a si mesmo da cena patética que protagonizou ao trocar o fundamento sólido e permanente da ética pelo oportunismo efêmero da legalidade.

"Estou cumprindo as regras, a Constituição e as normas do País, Fui eleito com 92.326 votos e estou no dever legal, correto e justo de cumprir a Constituição brasileira. " Se é de fato o homem probo envolvido em malfeitos por força das circunstâncias, como muitos brasileiros acreditam, José Genoino certamente um dia se arrependerá do cinismo dessa declaração. Pois ninguém contesta o direito que, à luz do ordenamento jurídico brasileiro, ele tem de assumir uma vaga de suplente na Câmara dos Deputados. Mas nem tudo que é legal e legítimo, é moral e ético.

José Genoino conquistou no passado o respeito até dos brasileiros que dele discordavam porque lutou por aquilo em que acreditava. Hoje procura apenas se agarrar ao que lhe convém. É pena.


De volta ao paraíso - SÉRGIO MAGALHÃES


O GLOBO - 05/01

"Peço colonos de moralidade mais comprovada, pois os que aqui vieram estão mais interessados em andar atrás das índias nuas."

Vegetação exuberante, clima ameno, água farta, porto seguro, peixes e frutas abundantes, população amistosa - a Baía de Guanabara era o Paraíso nos primórdios de sua ocupação europeia, como sugere essa carta de Villegagnon, fundador da França Antártica (1555), ao seu mentor, o chefe calvinista Coligny.

Expulsos os franceses, foi a Guanabara que ofereceu as condições geopolíticas e topográficas para o desenvolvimento e o prestígio da cidade do Rio de Janeiro e de sua simétrica, Niterói.

Por mais de quatrocentos anos, a baía aguentou maus-tratos. Mas, nas últimas décadas, foi demais. O Desmatamento assoreou seus rios, transformados em canais de esgotos. O lixo não recolhido foi carreado para ela.

Só a generosidade do mar, todos os dias invadindo as águas da Guanabara, é que ainda permite vida ante tal agressão.

Os planos de despoluição têm mais de vinte anos. Um ambicioso programa do governo do Estado, na década de 1990 arrastou-se sem resultados visíveis. Problemas de governança, problemas corporativos, projetuais e administrativos se somam para inviabilizar uma solução.

Carlos Heitor Cony diz que o "primado da burrice" imperou em determinado período de nossa história - referindo-se aos impasses que o país construiu para si mesmo. Essa atitude parece que também sustentou a ideia de que deveríamos ter ou a solução ótima ou nenhuma solução para a Guanabara.

Felizmente, a Olimpíada veio para sacudir esse conforto. O compromisso de a baía sediar competições náuticas obriga a uma resposta adequada e recomenda uma revisão de conceitos. Revisão que, como anuncia o governo do Estado, poderá ser capaz de conduzir à recuperação da baía no médio prazo. (Há modelos semelhantes já testados, sejam técnicos, como tratar os esgotos em tempo seco e os rios na foz, sejam de governança ou projetuais.) Se se efetivar, será ação re-fundadora, igualmente por razões ambientais, sociais, econômicas e urbanísticas.

O renascimento da Baía de Guanabara tem poder para reestruturar a cidade metropolitana do Rio de Janeiro. Niterói, São Gonçalo, Magé, Caxias e a Baixada, a Zona Norte do Rio, o Centro Histórico e parte da Zona Sul, as ilhas, o Porto - toda essa imensa região se beneficiará. Suas orlas e praias poderão recuperar parte do antigo fulgor. E novos vetores de desenvolvimento para a metrópole se moldarão, tendo como origem o polo Centro do Rio-Centro de Niterói.

Este momento de renovação das administrações municipais é oportuno para que prefeitos e governo do Estado possam alcançar um acordo propulsor da nova Guanabara. Tarefa de interesse geral, ultrapassa mandatos. Também por isso precisará contar com a participação da cidadania, das organizações sociais e da Academia no apoio e no monitoramento. (Gato escaldado... não dá para só esperar os resultados.)

A cidade reencontrando seu genius loci, o "espírito do lugar", como diziam os antigos: é o Paraíso de volta!

Fama na lama - LAURA CAPRIGLIONE

FOLHA DE SP - 05/01


SÃO PAULO - Nas ruas enlameadas de Xerém (no Rio de Janeiro), onde se contavam até ontem 2.500 desabrigados e pelo menos uma pessoa morta, apareceu um Zeca Pagodinho diferente. Sem o copo de cerveja de sempre -quase um apêndice-, o sambista arrecadou roupas, doou cestas básicas e hospedou em sua própria casa uma família de flagelados. Tornou-se "trending topic" no Twitter:

"Ele é muito humano", "É por isso que o Brasil o ama", "O sambista-herói de Xerém", e por aí vai.

"É que, no Brasil, celebridade é quem vai à ilha de 'Caras' posar em uma cama de massagem ao lado do banner do patrocinador", diz o publicitário Roberto Barros, há seis anos mantendo o blog Boa Causa (boacausa.wordpress.com). "Aqui, o famoso, quando muito, deita falação sobre Belo Monte, mas não se envolve publicamente com nada que não seja seu corpo e sua carreira."

No Boa Causa, descobre-se que Lady Gaga destacou-se em 2011 na luta contra o "bullying" e a propagação do HIV; que Brad Pitt leiloou um jantar em sua companhia para ajudar as vítimas do Katrina; que Justin Bieber arrecadou US$ 40.668 vendendo uma mecha de cabelos em prol da proteção dos animais. Que Scarlett Johansson assinou uma linha de escarpins para financiar pesquisas sobre câncer de ovários.

Quer bombar no hiperconcorrido mercado das "celebs" globais? Tem de saber: as boas ações fazem parte do show. E não é de agora. Lembre-se de Audrey Hepburn e Lady Di.

Seria injusto cobrar das celebridades locais aquilo que a maioria da população não dá. Mas não deixa de ser preocupante os marqueteiros dos artistas não estarem nem aí em que eles pelo menos pareçam solidários. No Twitter, um menino postou o comentário: "Quem diria que seria o cachaceiro quem nos lembraria da solidariedade?". A pergunta, penso, é outra: quem diria que ser solidário no Brasil seria assim solitário?

Impasses - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 05/01


Não é apenas na questão da perda dos direitos políticos dos parlamentares condenados que o Congresso pode ter um enfrentamento com o Supremo Tribunal Federal. Há outra questão polêmica em jogo no momento, com consequências mais concretas para o país do que a crise institucional que se anuncia caso o futuro presidente da Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves, mantenha a posição intransigente de seu antecessor e decida não acatar o entendimento do STF de que os mandatos dos deputados condenados no mensalão estão automaticamente cassados.

O STF havia decidido três anos atrás que a distribuição do Fundo de Participação dos Estados (FPE) obedecia a critérios inconstitucionais e teria de ser alterada até 31 de dezembro de 2012. Decidiu isso, diga-se, instado por quatro ações de estados interessados na reformulação do fundo. Nada foi feito de lá para cá, e, de última hora, a presidência do Senado conseguiu de seu departamento jurídico uma interpretação que adia para 2013 a mudança dos critérios do FPE. Mas há senadores que não confiam nessa interpretação e temem que o STF decida bloquear a distribuição do fundo, que normalmente é feito pelo Ministério da Fazenda até 10 de janeiro de cada ano. Como tanto o Legislativo quanto o Judiciário estarão de recesso na data, e o Executivo já avisou que vai distribuir o dinheiro de acordo com os critérios vigentes, pode ser que também essa crise acabe não acontecendo, acumulando mais desgastes para o Legislativo.

A lei complementar que define as regras dos fundos de participação deveria ter vigorado só nos exercícios fiscais de 1990 a 1992, mas continua em vigor com os mesmos coeficientes de divisão de 20 anos atrás. Os recursos do FPE representam quase 70% dos orçamentos de Acre, Amapá, Piauí, Rondônia, Roraima e Tocantins, e cerca de metade dos de Maranhão, Pará, Paraíba e Sergipe. Governos estaduais que já reclamam da situação financeira e querem renegociar suas dívidas com a União não conseguiriam sobreviver sem esses repasses. O fim do mundo não chegou pelo calendário maia em 21 de dezembro, mas poderá chegar a 10 de janeiro se o dinheiro não for distribuído, define um secretário de Fazenda.

Formados por parte da arrecadação do Imposto de Renda (IR) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), o Fundo de Participação dos Estados (FPE) e o dos Municípios (FPM) já estão sofrendo com os subsídios que o Planalto vem dando a certos setores econômicos, como indústria automobilística ou de eletrônicos.

As "perdas" por conta do FPM afetam, sobretudo, os municípios menores e as regiões Norte/Nordeste.

As perdas relativas ao FPE atingem basicamente Norte/Nordes-te/Centro-Oeste. Mas os incentivos do IPI e do IR afetam também os fundos constitucionais dessas regiões, que alimentam o crédito subsidiado dos bancos regionais como BNB, BASA. O total desses fundos absorve, a cada ano, 3% do IR e do IPI, a fundo perdido. O FPE e FPM absorvem uns 45%. Mais ainda, há um fundo que devolve ICMS não cobrado sobre as exportações industriais equivalente a dez por cento do IPI. Todos esses instrumentos de desenvolvimento regional estão sendo afetados pelas benesses que o governo federal faz, especialmente com o IPI. Por isso a alteração dos FPE e dos FPM é tão difícil de ser feita. De novo o Legislativo fica inerme diante de um impasse político e demonstra sua incapacidade de decisão, abrindo espaço para que o Judiciário atue.

Aliás, o Legislativo vem fazendo dessa inércia um instrumento político, como se viu agora com a descoberta de que existem mais de três mil vetos, desde o tempo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não analisados. Mas o Congresso não vota também a aprovação das contas dos presidentes da República. O Tribunal de Contas da União é um órgão auxiliar, dá parecer prévio, e, mesmo quando rejeita, a decisão só tem efeito quando o Legislativo aprova. Os políticos usam esse poder de não votar como uma chantagem permanente contra os presidentes, sem se importar para o fato de que perdem poder assim agindo.

Os incomuns - MIGUEL REALE JÚNIOR


O ESTADÃO - 05/1
O ano que findou foi marcado pelo julgamento do mensalão. O Supremo Tribunal Federal (STF) ocupou ao menos três vezes por semana a TV Justiça e os canais retransmissores em sites na internet. Os noticiários televisivos e radiofônicos, além de diversos blogs, traduziam discussões e votos, por vezes longos e complexos.
Desde o recebimento da denúncia até se iniciar o voto do relator, Joaquim Barbosa, noticiava-se na imprensa e propalava- se que não havia provas, que o julgamento iria para as calendas e terminaria em pizza. Nada disso. O impacto do julgamento pôs em primeira plana a Justiça, da qual a maioria do povo descria, pois, mesmo diante da anterior condenação de alguns autores de crimes de colarinho-branco, prevalecia a convicção da impunidade dos ricos e dos políticos.

Na verdade, o STF, ao longo do tempo, pouco se dedicara ao trabalho de juiz de primeira instância que a Constituição lhe outorgara como competente para julgar os crimes praticados por deputados federais, senadores e ministros de Estado. Era preciso descer do tablado das discussões da inconstitucionalidade das leis ou das decisões dos tribunais para se dedicar ao exame de prova: esquadrinhar testemunhos, analisar laudos periciais, confrontar documentos, bem como decidir questões preliminares e ler alegações das partes.

A dedicação do relator e o cuidado no programado pôr em pauta a Ação Penal 470, por imposição do então presidente, ministro Ayres Britto, tornaram possível o julgamento, malgrado o empenho do ex-presidente Lula, que tentou de todas as formas postergar seu início, inclusive com visita a ministro, levando a desculpa de não ser conveniente a apreciação pelo STF em ano eleitoral. Essa matéria chegou até mesmo a ser apresentada, por simpatizantes do PT e do seu candidato à Prefeitura de São Paulo, ao Tribunal Superior Eleitoral. Mas, a presidente do TSE, Ministra Cármen Lúcia, rechaçou o pedido, mesmo porque seria um absurdo pretender adiar o julgamento sob o argumento de ser possível manchar prestígio do partido. Acaso se de veria fazer um corte na História, para que o passado não influenciasse o presente?

Causa admiração a extremada vontade dos ministros do STF de levar avante o julgamento ao longo de cinco meses, com denodado estudo dos autos nos meses antecedentes. A sofisticada operação de obtenção de recursos públicos para financiar, por intermédio de Marcos Valé- rio e de instituições financeiras, a entrega de importâncias a deputados, visando à cooptação da vontade parlamentar, consistiu em gravíssima afronta à estrutura do Estado democrático e justifica o imenso esforço desse julgamento. Doravante não pode o STF descurar de agilizar o julgamento de outros políticos por crimes (seja contra a administração pública, sejam quaisquer outros), a fim de se fixar, na população, a idéia da inexistência da impunidade.

Mas a percepção de inexistirem pessoas acima de qualquer suspeita, eliminando-se a impunidade, cede terreno diante de acontecimentos vindos a lume recentemente. Desponta nesses fatos a curiosa relação de companheirismo entre José Sarney e Lula.

Ém junho de 2009, quando surgiram as denúncias da administração oculta do Senado pelo secretário-geral Agaciel Maia, com edição de atos secretos be- neficiadores de parentes e amigos de senadores e do próprio presidente Sarney, Lula, contrariando senadores do PT, declarou: "Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum". Dessa forma, pela palavra de Lula, consagrou-se a existência de um "incomum", cuja história o tomaria imune a qualquer responsabilização por atos do presente.

Depois foi Sarney que, diante da denúncia de Marcos Valério de que Lula sabia da pratica do mensalão, dando seu OK à operação, afirmou solenemente: "Se a declaração de Marcos Valério existiu, é uma profunda inverdade porque, na realidade, o senhor que disse não tem autoridade para falar sobre o presidente Lula, História do País, por toda a sua vida, por tudo o que ele tem feito?Em retribuição ao apoio de ser tido como "incomum", Sarney concedeu a certeza absoluta da inocência a Lula, reconhecido como um patrimônio de nossa História, um outro "incomum".

Em ambos os casos, Lula e Sarney buscam o benefício da impunidade, descartando a necessidade de apuração de fatos merecedores de esclarecimento,pois ostentam, no ver deles mesmos, a condição de homens incomuns, não sujeitos ao princípio constitucional da impessoalidade.

Na Operação Porto Seguro veio à baila que Sarney, contrariando o procedimento normal do Senado, após a rejeição de Paulo Vieira para diretor da Agência Nacional de Águas, repôs em apreciação o nome do

amigão da primeira-amiga de Lula, Rosemary Noronha. Por que reexaminar o Senado a indicação já negada? Por que realizar, a fórceps, o desejo da primeiraamiga do ex-presidente e amiga do ex-ministro José Dirceu?

Nas declarações de Marcos Valério sobre Lula podem-se vislumbrar tentativa de redução de pena (o que é inverossímil no estado em que achava o processo), vingança ou até mesmo verdade. Assim, não se pode deixar de

apurar. O envolvimento de Sarney no episódio de aprovação do espreparado Paulo Vieira, autor de indevidas interferências em vários campos da administração, também deve ser avaliado. Os dois "incomuns", diante do

quadro de fim da impunidade revelado pelo Supremo no mensalão, devem ser, então, tratados como mortais personagens.

Mexer para garantir impunidade dos "incomuns" é mexer com todos. Só assim, reagindo à pretensão de impunidade de Lula, de Sarney ou de quem quer que seja, se pode desfazer o mau hábito do "sabe com quem está

falando?", tão denunciado por Roberto DaMatta como próprio de nossa cultura tupiniquim, que faz tábula rasa do princípio da impessoalidade.

Lula e Sarney buscam a impunidade rejeitando a apuração de fatos que devem ser esclarecidos

Desde os tempos do onça - KÁTIA ABREU

FOLHA DE SP - 05/01


Combate-se o sintoma, e não a doença, que, no caso brasileiro, chama-se Estado hipertrofiado


Alceu Amoroso Lima anotava como uma das distorções de origem do Brasil o fato de que aqui o Estado surgiu antes da nação. Antes de haver povo, que seria importado de Portugal e da África, já o Estado colonial se instalava com suas leis e privilégios.

Não é casual que nosso primeiro cronista, Pero Vaz de Caminha, fosse um escrivão da Corte a chancelar a presença, ainda hoje atuante, do Estado cartorial.

Na carta em que descreve suas impressões do Brasil, pede, a certa altura, um emprego na Corte para um sobrinho que estava na África. Dava curso, assim, a um costume ainda atual.

"Senhor, nesta terra todos roubam" -começava assim, mais de dois séculos depois, em 1724, um relatório do coronel Luís Vahia Monteiro, nomeado governador do Rio de Janeiro pelo rei dom João 5º, preocupado com a crescente redução de receitas públicas na colônia sul-americana. Roubo.

Vahia, apelidado de "o Onça" pela ferocidade com que combatia a corrupção, era coronel da infantaria do Reino. O rei, que lhe tinha cega confiança, incumbiu-o da missão de promover uma faxina moral na administração da colônia. Nada de novo, não é?

Após minuciosa vistoria, Onça concluiu o que está em síntese na frase com que iniciou o seu relatório. É uma frase que, nos três ciclos da história política do país -colônia, monarquia e república-, jamais perdeu atualidade.

Não, não se trata de um traço perverso do caráter do brasileiro, até porque somos uma mescla de muitas culturas e etnias.

Até fins do século 19, nossa população era fruto da presença de três povos: o índio, o europeu ibérico e o africano -e da mestiçagem que daí resultava.

Já no final daquele século, novas correntes migratórias aqui aportaram: japoneses, alemães, libaneses, poloneses, italianos etc., mudando o perfil da população.

Também esses povos se miscigenaram aos que aqui encontraram, mas os padrões de gestão da coisa pública não mudaram muito.

O que explicaria isso? Chegou-se até a cogitar que a mestiçagem gerava perversões insanáveis, que explicariam, entre outras coisas, a corrupção brasileira. Como a corrupção é um fenômeno universal e atemporal, a tese não teve curso.

Sem pretender simplificar algo tão complexo, arrisco a dizer que a onipresença do Estado, que perpassa as diversas fases históricas do país -e é também uma moléstia planetária-, é uma das razões fundamentais do desconcerto brasileiro.

Quanto mais Estado, menor governabilidade -e, em decorrência, maior chance para a corrupção. O Estado, quando extrapola as funções para as quais foi criado, torna-se um agente da corrupção. É como o dito popular sobre a esperteza: quando é muita, vira bicho e come o dono.

O Estado brasileiro agigantou-se nos últimos tempos. Já se havia hipertrofiado ao tempo do presidente Geisel, que criou mais estatais que a soma de seus antecessores. Houve, na sequência da redemocratização, pálidas iniciativas reformistas, visando a reduzi-lo e a enquadrá-lo nas suas efetivas atribuições.

Mas o vício de origem, citado por Alceu Amoroso Lima, parece falar mais alto. Privatização, ignorada por seus detratores, tornou-se palavrão e arma de intimidação eleitoral.

O lema fascista e comunista -"tudo pelo Estado, tudo para o Estado e nada fora do Estado"- é uma realidade cultural brasileira desde os tempos do Onça, contaminando a economia, o empreendedorismo e a moral no trato da coisa pública.

Que adianta combater os mensalões sem ir à origem da moléstia? Combate-se o sintoma, e não a doença, que, no caso brasileiro, chama-se Estado hipertrofiado. É como enxugar o chão com a torneira aberta.

A corrupção só será sanada (na medida em que isso é possível) quando o país promover aquela que é a prioridade das prioridades: a reforma efetiva do Estado.

Aí, sim, começaremos a enfrentar de fato as moléstias que decorrem de seu gigantismo: corrupção, burocracia, crise federativa, engessamento da economia, bagunça tributária e, sobretudo, o abismo entre povo e nação.

Luzes e sombra - ROSISKA DARCY DE OLIVEIRA

O GLOBO - 05/01


Afunde-se, de vez, o sinistro Galeão e providencie-se uma porta de entrada digna do Rio e do maestro que lhe empresta seu nome



Cada ano que passa é um filete de tempo que escorre de nossas vidas. À meia-noite de 31 de dezembro a cidade era um feixe de nervos, dois milhões de pessoas vestidas de branco se comprimiam na areia de Copacabana. Nessa noite somos todos supersticiosos, suspensos à opacidade do futuro, ao mistério do que vem por aí. A presença mais intensa é a da esperança.

A respiração da cidade se acelerou, subiu da areia um alarido nervoso que se transformou em coro de entusiasmo quando, boquiabertos, vimos a explosão dos fogos e a chuva de ouro caindo no mar. Rompia o ano de 2013.

Esse momento se inscreverá na memória da cidade. Como não ter esperança no futuro do Rio que é capaz de produzir um evento da envergadura e da beleza do réveillon de Copacabana? Quem disse a bobagem que não estamos preparados para grandes eventos? Quando vai acabar a autoflagelação que nos leva a selecionar cuidadosamente os defeitos da cidade e calar sobre os seus feitos?

Esse réveillon não é banal, mesmo se, ao longo dos anos, nos acostumamos a integrá-lo ao nosso calendário do verão que começa quando se acende a árvore da Lagoa e termina na Quarta-Feira de Cinzas. Ele exprime o que a cidade já é e o que mais pode vir a ser. Não é banal reunir dois milhões de pessoas que, entre ritos diversos, orações e carnaval, celebram o amanhecer de um novo ano.

Classes, credos, gerações se misturam e a festa acaba sendo uma metáfora poderosa do amanhecer de uma nova cidade, aquela, sonhada por todos, sem violência, belíssima, festiva, com um sentido de grandeza associado à criatividade e à arte. Ali está representada toda a população carioca que acorre dos subúrbios, das favelas e dos bairros de classe média a esse bairro de classe alta que pertence a todos porque, no imaginário dos cariocas e no cartão de visitas com que nos apresentamos ao mundo, é o símbolo mesmo do Rio. Quem não sabe cantarolar Copacabana, princesinha do mar?

É preciso aprender a ler os sinais que a cidade emite para além de suas mazelas cotidianas, que não são só suas, mas participam do estilo de vida das grandes metrópoles, esse inferno equivocado e massacrante que ninguém sabe quem inventou e que se abate sobre todos. O Rio, depois de um longo período de depressão coletiva, está emitindo uma mensagem de esperança e de confiança em si que deve ser entendida e acolhida.

A esperança tem vida própria e nos expulsa das cavidades protetoras da memória onde se escondem fundadas decepções. É ela que, quando um cansaço imenso busca o testemunho das desilusões, arrogante, vira as costas e anuncia que viaja nua para o futuro. Explica que os otimistas podem se enganar e que os pessimistas já se enganam no ponto de partida. Antes de partir, anuncia: “Tenho uma boa notícia.” E é ela que todos querem ouvir, ela, que é a senhora do amanhecer.

Otimismo ou pessimismo ficam na plateia. A esperança dá um passo à frente, entra em cena. Sabe que tem influência sobre o que quer mudar. Faz acontecer.

Ora, morar no Rio é conviver em permanência com luzes e sombras, alegrias e sustos, o que exige de todos, como condição de sobrevivência, uma esperança constante de conseguir que a excelência que a cidade demonstra em certos momentos se sobreponha ao descaso lá onde ele mina o cotidiano. Um belo desafio para o Ano Novo.

Se a noite de Copacabana foi deslumbrante, tivemos também amargos momentos de trevas: no dia mais quente do ano, o Aeroporto do Galeão apagou-se. Naufragou. Esse sinistro Galeão naufragado é, literalmente, a face sombria da cidade.

Lembrem-se as autoridades responsáveis queTom Jobim não merece ter seu nome enxovalhado.Tom era luminoso. Quem não teve a sorte de ser seu contemporâneo veja no magistral filme de Nelson Pereira dos Santos, “A música segundo Tom Jobim”, o quanto a cidade lhe deve. Precisamos ter um aeroporto à altura de sua música, belo como o réveillon de Copacabana, alinhado aos padrões de qualidade de que o Rio vem sendo capaz e que impressionam o mundo. O Rio que é, também, a entrada do Brasil.

Afunde-se, de vez, o sinistro Galeão e providencie-se uma porta de entrada digna do momento que o Rio está vivendo e do maestro que lhe empresta seu nome. Tampouco nós e os que nos visitam merecemos tamanho desrespeito.

São essas zonas de sombra que servem de argumento às suspeitas, infundadas, sobre a capacidade da cidade de acolher grandes eventos.

Tenho um voto e uma esperança para o ano que começa: que Tom Jobim nos proteja e que as luzes feéricas do 31 de dezembro continuem a iluminar toda a cidade.

Desimportante por opção - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 05/01


BRASÍLIA - A Câmara e o Senado vêm perdendo relevância desde 1988, quando o Congresso escreveu e promulgou a atual Constituição.

Um exemplo atual da pequenez rotineira é a discussão sobre a expulsão imediata dos deputados condenados pelo mensalão. O comando da Câmara só pretende cumprir a decisão do Supremo Tribunal Federal depois de ouvir o plenário da Casa em voto secreto.

O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), e o possível futuro ocupante dessa função, Henrique Alves (PMDB-RN), já se posicionaram contra o que proferiu a Justiça.

É um discurso inútil e paroquial. É inútil por se tratar de ação a ser tomada daqui a seis meses, um ano ou mais. Produzir uma crise retórica agora equivale a atravessar a rua para pisar numa casca de banana.

Já o paroquialismo é uma marca registrada do Legislativo. Se for para proteger a corporação, vale tudo. Até confrontar a Justiça.

Deputados reclamam da decisão do STF por dois motivos. Primeiro, os ministros da corte teriam dado uma interpretação elástica à Constituição (beneficiando-se da ambiguidade do texto). Segundo, a composição do tribunal estaria fragilizada por integrantes suscetíveis à opinião pública durante o julgamento do mensalão.

Sem entrar no mérito argumentativo dos deputados, cabem duas perguntas. O que fez o Congresso durante as últimas décadas para corrigir as ambiguidades da Constituição? E qual foi a iniciativa dos congressistas para aperfeiçoar o sistema de nomeações para as cortes superiores do Poder Judiciário? A resposta é uma só: nada.

Numa entrevista a Catia Seabra, o provável próximo presidente da Câmara, Henrique Alves, disse: "Cada um no seu pedaço". Muito bem.

O pedaço da Câmara, entre outros, como o de todos os brasileiros, é aquele no qual decisões judiciais são cumpridas.

Credibilidade arranhada - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 05/01


A manobra contábil usada pelo governo, para simular o cumprimento de metas das contas públicas, compromete a imagem que o Executivo vinha construindo na busca da austeridade.



O empenho com a gestão das contas federais, reconhecido pela própria oposição, acaba de ser ameaçado por uma manobra contábil da União. Para chegar perto do cumprimento da meta de superávit fiscal de 2012, o Planalto sucumbiu a uma tática que, se confirmada com os elementos divulgados até agora, nunca havia sido usada por nenhum governante. O que o Executivo fez foi um subterfúgio, sustentado por complexos mecanismos de trocas financeiras. O objetivo final, enfim alcançado, é resultado da apropriação de parte do Fundo Soberano do Brasil, o que permitiu ajustes na contabilidade federal, capazes de simular números próximos do compromisso assumido no início do ano.
O governo correu o risco de comprometer a própria reputação, usando indevidamente o dinheiro de uma espécie de poupança, criada para socorrer o país em momentos de turbulência econômica. O detalhe comprometedor é o que denuncia a forma como isso foi feito. O Planalto recorreu, em segredo, ao BNDES e à Caixa Federal para, fazendo operações cruzadas, em dezembro _ com o envolvimento até mesmo de ações da Petrobras _ ter acesso a pelo menos R$ 12 bilhões. Em síntese, socorreu-se quase secretamente de uma reserva especial, para tapar furos contábeis.
Infelizmente, o governo agiu na surdina. Fez tudo o que o setor público não deve fazer. O Executivo é obrigado a dar publicidade aos seus atos, sempre que estes envolvem recursos financeiros cuja aplicação precisa ser transparente, especialmente quando os protagonistas são um banco estatal e uma grande empresa com controle do governo. A prática adotada abre um precedente de alto risco, por dar a entender que o Planalto pode recorrer a outras formas pouco usuais de resolver seus problemas financeiros. Além disso, é preciso considerar que a atitude governamental subestimou a capacidade de fiscalização do Congresso, que já se manifestou, no sentido de exigir esclarecimentos dos ministros da Fazenda e do Planejamento.
É frágil o argumento, que certamente será utilizado, de que a manobra não compromete as instituições envolvidas, por ser apenas uma transferência de recursos de um caixa para outro. Não é bem assim. O governo mexeu num fundo com destinação específica, para produzir um resultado enganoso do esforço fiscal representado pela economia que procura fazer para pagar os juros da dívida. Desde o início do atual governo, foi exaltada a preocupação da presidente Dilma Rousseff em corrigir uma falha de seu antecessor, que descuidou da busca do equilíbrio entre receita e despesa. Durante os dois primeiros anos, até a descoberta da manobra agora divulgada, a chefe do Executivo marcou de fato sua gestão por ações concretas nesta direção. Ao se apoderar de recursos do Fundo, para assim poder maquiar suas contas, o governo compromete uma conduta e desrespeita os que levaram a sério a prioridade à austeridade.


Descrédito - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 05/01


Maquiagem da poupança fiscal no fim do ano mina ainda mais a confiança na política econômica da presidente Dilma Rousseff


O governo Dilma Rousseff coloca sob risco um patrimônio da política econômica brasileira conquistado a duras penas ao longo de quase duas décadas. Trata-se da confiança dos agentes privados nas ações e nos compromissos assumidos pelas autoridades.

A manobra contábil, nos últimos dias de 2012, para maquiar o fiasco na meta de poupança pública -o chamado superavit primário- é decerto o golpe mais ostensivo na credibilidade do governo. Coroa uma série de atitudes voluntariosas que puseram em segundo plano a perseguição de objetivos centrais da política econômica.

O superavit primário deveria ser algo simples de entender e atingir. O setor público compromete-se a gastar uma quantia a menos do que arrecada de impostos. Contabilizam-se os desembolsos em ações típicas do Estado -pagar a servidores, fornecedores, aposentados, beneficiários de programas sociais etc. Ficam de fora, numa conta à parte, as despesas com juros. Com isso, garante-se que o endividamento público fique sob controle.

Em 2012 os governos federal, estaduais e municipais obrigaram-se a economizar juntos o equivalente a 3,1% do PIB, quase R$ 140 bilhões. Em anos ruins, a administração federal pode acionar o recurso, previsto na regra geral, de subtrair dessa conta desembolsos com o Programa de Aceleração do Crescimento. Abatidos esses gastos, a meta cairia para 2,3% do PIB.

Mesmo assim, fechada a conta de novembro, a poupança ao longo do ano, de 1,9% do PIB, não cumpria o objetivo. Então o governo federal deslanchou em dezembro uma operação meramente contábil para alcançar os R$ 19 bilhões restantes e dissimular o fracasso.

Forçou Caixa Econômica Federal e BNDES a pagarem R$ 7 bilhões em dividendos ao Tesouro. Num só mês, esses dois bancos estatais enviaram à Fazenda o equivalente a 35% de todos os dividendos transferidos nos outros 11 meses.

Além disso, transferiram-se para o Tesouro R$ 12,4 bilhões do Fundo Fiscal de Investimento e Estabilização -instrumento criado em 2008 que serviu, na prática, para financiar a Petrobras com dinheiro do contribuinte.

Tanta criatividade contábil, embutida numa teia de decretos feitos para não criar alarde, foi inútil para o objetivo original do superavit primário -economizar despesa do governo. O setor público não poupou um tostão com isso.

A incapacidade de controlar os gastos de acordo com o pactuado na lei orçamentária já seria um fator de desgaste para a confiança no governo. Mas a tentativa de enganar o público com toscos malabarismos fiscais vai cobrar um preço ainda mais elevado.

PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV 05/01


7h - Torneio de Brisbane (final), tênis fem., Bandsports

10h - Aberto de São Paulo (semifinais), tênis masc., SporTV 2

10h30 - Brighton x Newcastle, Copa da Inglaterra, ESPN

11h - Vasco x Botafogo-SP, Copa São Paulo, RedeTV

11h - Bahia x Criciúma, Copa São Paulo, Rede Vida

13h - Levante x Athletic Bilbao, Espanhol, ESPN Brasil

13h - Southampton x Chelsea, Copa da Inglaterra, ESPN e ESPN +

13h - Torneio do Qatar (final), tênis masc., Bandsports

14h - Gil Vicente x V. Guimarães, Português, SporTV 2

15h - Granada x Valencia, Espanhol, ESPN Brasil

15h - Catania x Torino, Italiano, Fox Sports

15h - West Ham x Manchester United, Copa da Inglaterra, ESPN e ESPN +

15h - Purdue x Michigan State, basquete universitário, Bandsports

16h - Botafogo x Santo André, Copa São Paulo, SporTV 2

16h - Paulistano x Franca, NBB, SporTV

17h45 - Lazio x Cagliari, Italiano, Fox Sports

18h30 - Porto x Nacional, Português, Bandsports e SporTV 2

19h - Palmeiras x Confiança-SE, Copa São Paulo, ESPN Brasil, Rede Vida e SporTV

19h30 - Houston Texans x Cincinnati Bengals, futebol americano (playoffs), ESPN e ESPN +

21h - Flamengo x Rondonópolis, Copa São Paulo, ESPN Brasil e SporTV

23h - Green Bay Packers x Minnesota Vikings, futebol americano (playoffs), ESPN e ESPN +

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Houve ilegalidades eleitorais, infelizmente, mas não mensalão”
Deputado Ricardo Berzoini (SP) endossa o coro do PT de que mensalão nunca existiu


AÉCIO PATROCINA CRIAÇÃO DE PARTIDO DE SINDICALISTAS

Cotado para disputar a Presidência em 2014, o senador Aécio Neves (MG) tem estimulado a criação do Partido Solidariedade (PS), que será formado por integrantes de movimentos sindicais como Força Sindical, Nova Central e UGT. O tucano quer faturar o apoio do setor – que hoje tem fortes ligações com o PT – nas eleições de 2014 e abrir espaço para debandada de membros de partidos governistas, incluindo o PSD.

EXPECTATIVA

Os organizadores do novo partido, que conta com o apoio do deputado Paulinho da Força (PDT), esperam reunir 37 deputados federais.

FILHO PRÓDIGO

O senador Aécio Neves pediu ao deputado Fernando Francischini (PEN-PR) para se filiar ao Partido Solidariedade ou voltar ao PSDB.

TRAMPOLIM

O deputado Francischini, que recentemente deixou o tucanato pelo PEN, também recebeu convite para se filiar ao PP e ao PMDB.

PRA CHAMAR DE SEU

Os tucanos, que têm fama de elitistas, sonham com braço sindical ligado ao partido, o que o aproximaria das classes média e baixa.

BRASILEIRA VAI PENHORAR AVIÃO DA TAP POR DÍVIDA

Um Airbus 330 da combalida Transportes Aéreos Portugueses poderá ser “garfado” semana que vem, por determinação da Justiça do Trabalho. O arresto do avião será para garantir o pagamento de dívida de quase R$ 750 mil do Consulado Português em Brasília a uma ex-funcionária brasileira. As dívidas das representações diplomáticas de Portugal no Brasil chegam a quase R$ 15 milhões.

PROTESTOS

A privatização da TAP, dirigida pelo gaúcho Fernando Pinto, é alvo de investigação na Assembleia da República e protestos de portugueses.

POR POUCO

A TAP quase foi vendida, mês passado, ao colombiano-brasileiro Germán Efromovich, dono da Avianca do Brasil, o único interessado.

PONTE

O jornal português Público revelou que o escritório do ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu facilitou encontros de Efromovich com o governo em Lisboa.

POSTE

Na primeira reunião de secretários, Luciano Rezende (PPS), prefeito de Vitória, disse que gostaria de pregar em um poste o primeiro corrupto que descobrir na prefeitura. Rezende sucedeu a João Coser (PT).

FRACASSO DE BILHETERIA

Condenado no Supremo, José Genoino justificou a posse na Câmara dos Deputados para “honrar os 90 mil votos” em 2010. Mas nenhum eleitor defendeu seu direito “legítimo” de retomar o mandato.

SANTA CEIA

Com lugares previamente marcados, sobrou para Luiz de Deus (DEM-BA) sentar-se ao lado de Genoino (PT) na posse na quinta (3), após Iara Bernardi (PT-SP) trocar a plaqueta indicativa com outro deputado.

Reciclagem

Aliada do novo prefeito paulistano, Fernando Haddad, Luiza Erundina (PSB) justifica porque não apareceu na posse do petista: “viajei com a família pra fazer uma reciclagem. Pouco tenho tempo para eles”.

PORRA-LOUQUICES

O aspone top-top Marco Aurélio Garcia está em Cuba acompanhando a doença de Chávez. Conhecido pela modéstia, o presidente do Uruguai, José Mujica, desistiu porque os médicos o proibiram de visitar o porra-louca.

MARATONA

O deputado Osmar Terra (RS) viaja amanhã para Santa Catarina, e já planeja roteiro de visitas aos correligionários nos Estados, inclusive do Nordeste, em busca de votos para a liderança do PMDB.

RENÚNCIA AGUARDADA

Se o ex-advogado do falecido Leonel Brizola, Siqueira Castro, renunciar ao cargo de conselheiro federal pela OAB-RJ será logo atendido. É muito ruim a sua convivência com nova diretoria da entidade.

CURRAL DA MORTE

O jornalista Jorge Oliveira lançou em Brasília o livro Curral da Morte, que conta a história do tiroteio na Assembleia Legislativa de Alagoas durante o impeachment do governador Muniz Falcão, quando morreu um deputado e dezenas de outros ficaram feridos.

PENSANDO BEM...

...com o presidente em coma, mas “consciente”, a Venezuela é o único país do mundo dirigido por um ectoplasma.


PODER SEM PUDOR

PRESTES, UM ELITISTA

Transcorriam acalorados os debates na Constituinte de 1945. O líder comunista Luís Carlos Prestes ocupava a tribuna quando foi interrompido mais uma vez pelo deputado Barreto Pinto, que desejava estabelecer uma polêmica com ele. Prestes não lhe deu a menor confiança. Sem retirar os olhos do discurso, ele expressou uma visão surpreendentemente elitista:

- Não dou aparte a deputado de 400 votos.

E seguiu em frente.

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Ano novo velhos problemas- Nepotismo avança nas prefeituras pelo Brasil
Folha: Aluno do 9o ano de SP sabe matemática como o do 5o
Estadão: Manobra fiscal faz Caixa virar sócia até de frigorífico
Correio: Empresas têm R$ 240 bi, mas temem investir no país
Estado de Minas: Consumidor também pune planos de saúde
Zero Hora: Venezuela prepara futuro pós-Chávez
Jornal do Commercio: Ônibus sobe para R$ 2,25