sábado, julho 14, 2012

Aí é too much - MARCELO RUBENS PAIVA


O Estado de S.Paulo - 14/07


Depois brotará o vazio no pasto da solidão, e ela perguntará antes de dormir para seu confidente, o travesseiro: "Não é melhor ser menos exigente? Quem vai cuidar de mim quando ficar velhinha?" Até lá, vamos curtir, baby...

Ela jamais diria que a solteira é aquela que perdeu a ocasião de tornar um homem infeliz. Acreditava nas relações. Apostava no amor. Sua solteirice? Temporária, posta em xeque.

Queria apenas curar a ressaca da separação recente. Farreando, por que não? Queria por um período aliar a independência financeira com a afetiva. Queria se divertir sem parar, ir ao cinema sozinha, viajar com amigas e amigos, reclamar que todos os homens são tolos e infantis, e que os caras mais lindos, gays.

Porém, a fase festiva sofreu dois grandes baques:

1. O ex-marido se juntou com uma garota que não precisava de sutiã, luzes no cabelo, nem maquiagem, e andava enjoando em demasia; o peito tinha aumentado, e a barriga, começado a ficar redonda. Aquele ex que nunca quis ter filhos. Mudou de ideia ou foi forçado a?

2. O anúncio de que a melhor amiga, que recebia convites para as melhores festas, com quem saía todos os finais de semana e aprendeu a ser adolescente depois de madura, viajava nos feriados prolongados, desabafava sobre as loucuras do ex e as idiossincrasias das paqueras, estava... namorando! Com um garoto interessante, cheio de amigos interessantes que trabalhavam juntos num coletivo interessante e faziam projetos de interesse social, tecnológico e além de tudo sustentáveis.

Claro que ela refez os planos, baixou a guarda, deixou a teimosia no armário e flutuou pela correnteza da vida. Até enroscar numa curva e ser seduzida por Pedro, que tocava pandeiro no grupinho de pagode do coletivo, que se reunia no happy hour as sextas-feiras. E que fez tudo certo: a esnobou até o limite, xavecou no momento preciso, investiu com as armas apropriadas, falou o que precisava ser dito e, enfim, a beijou exatamente quando a brecha apareceu depois de gentilmente trazer a quinta latinha.

Pedro foi um mestre. Conquistou o grande troféu, a solteira mais cobiçada. Recebeu reconhecimento dos amigos e adversários. Mas o convívio... Sempre ele a denunciar nossas incongruências.

Pedro é daqueles que atendem celular no elevador. Viciados em UFC. OK, é um segmento forte do mercado. Que buzinam para os carros da frente assim que abre o farol. Tudo bem, ela se dizia, nem tudo é perfeito. Que param em vagas de idosos no shopping e ainda contam vantagem: "Dentro de estabelecimentos comerciais não podem multar."

Um dia ele implicou com a unha vermelha dela. "Não é coisa de empregada?", disse ao entrar no carro quando ela foi pegá-lo, desviando do caminho, num dia de congestionamento recorde, sem ao menos passar na sua casa, para não atrasarem para o sambão do coletivo, para o qual trocou o almoço pela manicure.

Calma, garota, não seja exigente. Sou suficientemente lúcida para admitir que não existe o par perfeito, ilusão, escapismo utópico inventado pelos românticos, e que exigir de alguém o mesmo comportamento social é um exercício de fraqueza narcisista de pessoas problemáticas que só conseguem se relacionar com o espelho.

Sustos apareceram no primeiro jogo de futebol pela TV que viram juntos. Ela não era fanática. Nem o ex. Gostava, assistia, e que ganhasse o melhor.

Já Pedro... O time dele disputava cabeça a cabeça a liderança do campeonato com o de maior rivalidade. Xingava o juiz e os bandeirinhas sem economia. O fato de uma bandeirinha ser mulher incrementava os impropérios: "Vaca, piranha! Vai pra cozinha, filha da mãe!" Ela achava engraçado porque quando a decisão do outro bandeirinha, homem, era colocada em dúvida, sua heterossexualidade também.

Quando o zagueiro do próprio time deu uma furada, expressões de preconceito social foram proferidas sem nenhum sentimento de culpa: "Burro! Imbecil! Se pensasse direito não seria jogador de futebol!"

Quando o time fez um gol, a gritaria foi suficiente para matar de vez todos aqueles com problemas cardíacos na vizinhança. No apito final, palavras de carinho e solidariedade foram proferidas quando ele abriu a janela e começou a gritar: "Chupa, desgraçados, filhos da pu%$! Toma, seus via#$s do car%&*$!" O tempo em que ele ficou se comunicando aos berros com outros vizinhos aliados e adversários foi suficiente para esvaziar o estádio.

Então, como se diz no jargão do esporte bretão, o que era promessa virou dúvida. Mas antes de um julgamento sem direito à defesa, ela ouviu do travesseiro: "Egocêntrica, não consegue conviver com ninguém, perdoar, aceitar as diferenças, passará o resto dos dias sozinha! O problema está em você!" Perdeu a prática, menina. Vamos. Vai dar certo.

Ficou surpresa quando numa manhã viu na rede social que ele mudara o status para "um relacionamento sério". Surpresa, lisonjeada e receosa. Pedro jogava publicamente um estatuto de responsabilidades. Já está na hora de alterarmos o status?

À tarde, o pânico tomou conta. Ele mudou a foto do perfil. Não era mais a que beijava o escudo do time, mas uma foto dos dois, isso mesmo, dele com ela, abraçados no sambão, olhando para a lente, cada um segurando uma latinha, foto de que ela nem lembrava, em que, por sinal, ela estava péssima, de retinas vermelhas e com a testa enrugada. Parecia uma tia e seu afilhado.

Antes mesmo de ela sugerir que aquela foto não era apropriada, recebeu uma mensagem com outra foto deles abraçados anexada, em que ela estava pior, com a sugestão: "Se quiser usar no seu avatar."

Foi o fim. Celular no elevador, impropérios futebolísticos, comentários desrespeitosos que exaltam a luta de classes, parar na vaga de idosos e implicar com esmalte vermelho... Mas foto de casalzinho no perfil individual de rede social? Aí é too much.

Sua resposta foi um calculado: "Pedro, precisamos conversar."

MEDO DE PHODER!!!


Argentina vai vigiar até conta de luz - ARIEL PALACIOS


O ESTADÃO - 14/07


Sob controle Argentina O governo Cristina Kirchner determinou que o fisco seja informado quando o consumidor gastar mais de US$ 220 com telefone, energia, gás e água. 


O governo da presidente Cristina Kirchner intensificou o controle sobre a vida econômica dos cidadãos argentinos ao publicar a resolução 3.349 da Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip), a receita federal local, que obriga as empresas de serviços públicos a informarmensalmente os agentes do Fisco sobre os clientes que gastam mais de 1 mil pesos (US$220) em telefoniafixa, celulares, energia elétrica,gás eágua.

O governo Kirchner alega que a medida é para "otimizar a função fiscalizadora" da receita federal.

Mas os críticos do governo sustentam que a medida deixa, cada vez, mais o governo Kirchne rparecido com uma versão argentina do Big Brother, do escritor inglês George Orwell (uma tirania que observava cada movimento de seus cidadãos).

Desde maio, o governo observa de perto os argentinos que compram dólares para viajar ao exterior. Para realizar a compra de dólares, os argentinos devem fazer um pedido à A fip, no qual, além das datas de ida e volta da viagem, precisam explicar detalhadamente os motivos da ida ao exterior, os lugares onde farão escala e onde ficarão.

O governo também proibiu os argentinos de comprar dólares par a aplicar nos Estados Unidos, tradição de mais de quatro décadas.

Também acabou com as operações imobiliárias na moeda americana (100% das compras eram realizadas em dólares).

Os empresários que ousam criticar o governo correm o risco de serem acusados de "golpistas" em rede nacional de rádio e TV pela presidente Cristina. Na quinta-feira, ela voltou a protagonizar o papel policial ao vivo em discurso de inauguração de uma fábrica de máquinas agrícolas.

Bruscamente, deixou de lado sua fala sobre tratores para relatar que havia lido no jornal Clarín que o empresário imobiliário Jorge Toselli havia declarado em entrevista que as restrições sobre as compras de dólares haviam provocado uma grande queda nos negócios. Cristina aproveitou para acusar Toselli de estar em situação irregular com o Fisco. Horas depois, o "Cuit" (equivalente ao CNPJ) do empresário foi suspenso.

Ontem, o presidente da Câmara Imobiliária Argentina, Néstor Walenten, afirmou que seus colegas expressaram "solidariedade" a Toselli. "Acho que toda a sociedade está com medo. Com esses métodos, até eu tenho." Desde2009, o governo de Cristina Kirchner também obriga as empresas de cartão de crédito a informar sobre os clientes que gastam mais de 3 mil pesos (US$ 655). Por esse motivo, muitos argentinos optam por fazer seus pagamentos em dinheiro.

Inflação. Os deputados dos partidos da oposição anunciaram que a inflação em junho, foi de 1,63%. De acordo com os parlamentares que elaboram uma média dos índices estimados pelas principais consultorias econômicas, a inflação acumulada nos primeiros seis meses do ano foi de 11,6%.

Dessa forma, a Argentina ocupa o primeiro lugar no ranking de inflação na América do Sul, ultrapassando a Venezuela, onde a inflação foi de 7,5%. Nos últimos 12 meses, a inflação na Argentina alcançou 23,96%. Já o governo da presidente Cristina Kirchner anunciou ontem que a inflação oficial de junho foi de apenas 0,7%, menos da metade do índice calculado pelas consultorias econômicas.

A Rosa e a cana - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 14/07


Rosa da Silva, de 36 anos, é cortadora de cana. Ela mora em Barra Bonita, interior de São Paulo. Sua rotina é assim: acorda às 4h, faz o almoço para deixar para o marido e a filha e separa as refeições que fará no serviço. Às 5h30m, está no ônibus para ir ao trabalho, onde chega às 7h30m. No dia em que conversou com a coluna, tinha cortado 70 metros, o que é pouco. No dia anterior, cortara 352, o que considerou "mais do que bom".

Rosa é a ponta de uma cadeia produtiva que chega ao posto de combustível. Um setor em crise. O governo prepara um pacote setorial. Periga ser mais um remendo.

Rosa não aceitaria ser chamada de "boia-fria". Seria ofensivo. Ao percorrer sua rotina, nota-se que a diferença não é só do nome. Ela não é contratada por um "gato", é funcionária da Raízen, empresa resultante da fusão da Shell com a Cosan. É transportada por uma empresa contratada pelo empregador. Ao chegar ao canavial, antes de começar o trabalho, faz exercícios que aprendeu com um fisioterapeuta. Trabalha cerca de uma hora, dá um tempo para fazer a primeira refeição e depois continua no batente. Encerra o expediente às 15h30m.

O setor cria hoje menos emprego do que antes; mas de mais qualidade. Poderia ser melhor. Ainda recebe pelo volume de cana que consegue cortar. Ao fim do dia, o medidor registra. Recebeu no mês passado R$ 820.

O salário melhorou, o tratamento também. Mas continua sendo temporário: é dispensada ao fim da safra. Mora numa casa pequena, mas própria, de um conjunto habitacional. Tem em casa geladeira, tanquinho e, em breve, micro-ondas. Na refeição que leva para o campo há uma mistura balanceada: arroz, feijão, carne e salada.

O que todo mundo vê como avanço, para ela é um problema: hoje, há menos queima da cana. Isso reduz o material particulado no ar que os campos de cana emitem e que faz mal à saúde de todos os que o aspiram. Sem a queima, no entanto, seu trabalho é mais difícil, o que explica a diferença de produtividade.

- A palha, sem tacar fogo, machuca muito a mão. Ontem (9 de julho, feriado da Revolução Constitucionalista), a cana estava queimada. Gosto do trabalho, mas é muito judiado. O salário tinha que ser melhor. Eles podem pagar de R$ 0,14 a R$ 0,18 o metro da cana cortada. Imagina quanto tenho que fazer para ganhar o dia. Hoje, tô detonada, a mão está formigando, inchada, porque a cana era muito pesada. Tem que ser duro na queda para aguentar esse serviço. Eu já acostumei, adoro a roça, gosto de cortar cana, dos amigos que tenho, mas é desgastante. Acho o salário baixo pelo sacrifício que fazemos.

Rosa não acredita que esse tipo de trabalho vai desaparecer, até porque as colheitadeiras arrancam a cana pela raiz, e os trabalhadores têm que replantar.

- Há mais máquinas no canavial tomando o serviço, mas temos que melhorar o que elas fazem.

O marido de Rosa trabalha na prefeitura como ajudante de motorista; o filho mais velho, que já tem 22 anos e um filho, parou de estudar na antiga sétima série e é pintor. A filha de 12 anos continua estudando. As rendas dela e do marido, somadas, chegam a R$ 2,3 mil.

- Com os dois salários, graças a Deus, não temos dívida. Só fazemos uma quando acabamos de pagar outra, mas já passamos muito aperto - conta.

Ela consegue poupar um pouco todo mês. Acaba de receber R$ 400 extra, de participação nos resultados. Guardou. Seu sonho: comprar um carro. Vermelho. Já está tomando aulas de direção.

Quando Rosa, a cortadora de cana, comprar um carro enfrentará o mesmo dilema de todos os motoristas: que combustível colocar no tanque? O que manterá sua indústria de pé ou a gasolina? O governo favorece a gasolina.

Se Rosa já tivesse carro, seria melhor abastecê-lo com álcool, porque em São Paulo está valendo a pena. Mas em vários estados, o álcool continua custando mais do que 70% do preço da gasolina e, por isso, não vale a pena.

Edison José Ustulin não conhece Rosa, mas é outra parte da mesma indústria. Ele fornece cana para a Raízen, além de ser presidente da Associação dos Fornecedores de cana de Barra Bonita. Tem uma longa lista de reclamações em que estão: custo alto da mão de obra, falta de trabalhador para algumas funções qualificadas, como motorista, custo "escorchante" de capital, condições climáticas mais adversas, alta tributação, baixa remuneração para seu produto, que está retardando a reforma dos canaviais.

Acha que se o governo quer, de fato, o álcool hidratado como parte da matriz energética brasileira, precisa manter políticas definidas por um prazo de 15 a 20 anos, porque o investimento na área agrícola precisa de dez anos para amortizar, na área industrial, até 20 anos.

- Não podemos ter uma visão imediatista. Não adianta propagar aos quatro cantos do mundo a bandeira do etanol e suas vantagens, se aqui é tratado como um combustível de segunda classe. Faltam políticas de longo prazo, financiamentos de longo prazo, redução da tributação em toda a cadeia produtiva. Há seis anos, o preço da gasolina não sobe, asfixiando o preço do etanol. O álcool naufragou, ou seja, não se consagrou por falta de políticas públicas fundamentadas nas suas próprias características.

Da conversa com Rosa e Edison já se conclui que o caso do etanol não será resolvido com mais um pacotinho.

A resiliência de Russomanno - FERNANDO RODRIGUES


FOLHA DE SP - 14/07


SÃO PAULO - Há um fator até agora imponderável na disputa para prefeito na capital paulista. O candidato Celso Russomanno (PRB), que enfrenta uma pendência com a Justiça Eleitoral, tem sido dado como carta fora do baralho há meses, mas sua pontuação nas pesquisas de opinião não evanesce. Ao contrário.

No final do mês passado, Russomanno chegou a 24%. É o segundo colocado isolado. Tem três vezes mais do que qualquer um dos terceiros colocados, entre eles Fernando Haddad (PT) e Gabriel Chalita (PMDB). E está a sete pontos de distância do líder da disputa no momento, José Serra (PSDB), cuja marca é de 31%.

O senso comum é dizer que Russomanno é um candidato sem sustentação partidária sólida. Pertence ao PRB, uma legenda ligada a religiosos. Seu desempenho seria só por causa de sua presença em programa televisivos. Nada mais.

Tudo considerado, Russomanno estaria condenado a desidratar por completo em breve.

Ocorre que há dois anos o mesmo Russomanno não caiu ao chão quando foi candidato a governador de São Paulo. Em julho de 2010, ele chegou a 11% num levantamento do Datafolha. Depois, de fato caiu. Mas cravou nas urnas respeitáveis 5,4%. Na capital, teve 6,7% dos votos válidos.

A queda de Russomanno em 2010 foi grande. De julho até o dia da eleição, ele perdeu perto da metade dos seus pontos acumulados em pesquisas de opinião -ficou, porém, longe do zero. A se repetir esse cenário agora, ele cairá para algo próximo a 12% ou 13%. É um desempenho robusto e que pode impedir o progresso de alguns candidatos.

O maior prejudicado pode ser Fernando Haddad. Há uma profecia petista segundo a qual o candidato do partido sempre tem 25% dos votos em disputas paulistanas, no mínimo. Com tantos candidatos médios e com Russomanno teimando em não evaporar, sobra menos espaço de onde o PT possa arrancar apoios.

GOSTOSA


Mercosul - mais turbulência a bordo - JOSEF BARAT


O Estado de S.Paulo - 14/07


O objetivo político de unir países e reduzir o potencial de conflitos na América Latina remonta ao tratado que criou a Associação Latino-Americana de Livre Comércio, nos anos 60 e, posteriormente, a Associação Latino-Americana de Integração, nos anos 80. Brasil e Argentina caminharam para o livre comércio pela Declaração de Iguaçu, de 1985. Com a adesão do Paraguai e do Uruguai, os quatro países signatários do Tratado de Assunção, de 1991, criaram o Mercosul, aliança comercial que visava a dinamizar a economia regional pela livre movimentação de mercadorias, pessoas e capitais. A evolução se daria pelo estabelecimento inicial de uma Zona de Livre Comércio (na qual os países signatários não tributariam ou restringiriam entre si as importações), convertendo-se em União Aduaneira a partir de 1995.

A associação dos quatro países como União Aduaneira almejou promover a livre circulação das mercadorias oriundas dos membros associados e adotar uma tarifa externa comum. O compromisso seria o de aplicar a mesma taxação em relação à importação de bens de países fora do bloco, eliminando a concorrência entre os associados e fornecedores. Como bloco econômico, amparado em acordos intergovernamentais - e reduzidas ou eliminadas as barreiras ao comércio -, o Mercosul poderia buscar alguma forma de governança que evoluísse, no longo prazo e por meio da uniformização de variáveis macroeconômicas, para um mercado comum e até mesmo para uma união econômica e monetária. Para dar partida à formação do bloco, a dinâmica da globalização fez a lógica econômica caminhar mais rápido que as complexas negociações políticas. A globalização - associada à acelerada evolução tecnológica da informação - alterou radicalmente as características da produção de bens e serviços. A fragmentação das cadeias produtivas (em escala regional e mundial) dispersou a produção de componentes, partes e montagens finais. A integração horizontal induziu a terceirização da produção e dos serviços, alterou os conceitos de localização e territorialidade, ampliou e tornou mais complexos os fluxos de matérias-primas, componentes e produtos. Assim, as novas cadeias produtivas impuseram pressões para eliminar barreiras fiscais e burocráticas à livre circulação de mercadorias.

Neste contexto, já se configuravam entre os quatro países cadeias produtivas fragmentadas que impunham maior fluidez na circulação de mercadorias e pessoas, ou seja, foi a dinâmica do mercado e as necessidades das empresas que buscaram a integração mais plena no comércio regional, a redução de assimetrias e a adição de valor às cadeias produtivas. Foram empresas brasileiras de porte e transnacionais (especialmente montadoras de veículos) que buscaram maior espaço para reorganizar e adicionar valor às suas cadeias de produção. O espalhamento de partes dessas cadeias acabou por forçar barganhas e negociações entre os países-membros para que pudessem alcançar bases de maior reciprocidade. Os eventuais conflitos políticos e ideológicos cederam espaço para o pragmatismo das trocas comerciais e ampliações de mercado. Houve crescimento do comércio regional na esteira do dinamismo das novas formas de produção e complementaridade econômica. Mas a prática do Mercosul acabou indo na contramão da proposta original de instituir o livre comércio, em razão de medidas protecionistas, barreiras tarifárias, dificuldades burocráticas e bloqueios de passagem das mercadorias. A consolidação de um bloco econômico exige estabilidade no ambiente político, preservação das diretrizes estipuladas em acordos e tratados e regras previsíveis. As turbulências recorrentes com a Argentina há muito tempo ameaçavam a desconstrução do Mercosul. Agora, temos a entrada de um parceiro irrequieto (tipo bem turbulento, mesmo) que, ainda por cima, ganhou o jogo no "tapetão", agravando essa ameaça. Ações políticas irrefletidas estão destruindo um esforço de décadas na direção da maior integração econômica.

Savana é bacana - ROBERTO RODRIGUES


FOLHA DE SP - 14/07

As relações entre o Brasil e o Japão no campo agrícola são históricas, bastante conhecidas e foram sempre muito bem aproveitadas por ambos os países.
A primeira delas se deu logo após as levas iniciais de imigrantes japoneses chegarem ao Brasil, pouco mais de um século atrás, e que vieram trabalhar basicamente na agricultura. Trouxeram em sua bagagem duas grandes contribuições para o agro brasileiro.

Uma foi a tecnologia para o setor hortifrutigranjeiro: novas variedades de produtos hortícolas foram acrescentadas ao nosso cardápio e nossas saladas ficaram mais ricas e variadas.

Seu trabalho resultou na montagem dos importantes cinturões verdes no entorno das grandes cidades brasileiras, dando também condições para a criação de nossas centrais de abastecimento.

E a outra foi o espírito associativo: os colonos japoneses tinham o sentimento do trabalho em conjunto. Com isso surgiram as grandes cooperativas que por muitas décadas organizaram a produção hortícola e comandaram o cooperativismo brasileiro, como a Cooperativa Agrícola de Cotia e a Sulbrasil, mais tarde desaparecidas por diversas e lamentáveis razões.

A segunda grande articulação agrícola entre o Brasil e o Japão ocorreu nos anos 70, com a "descoberta" do cerrado brasileiro, através do Programa Prodecer. Necessitando ampliar sua garantia de segurança alimentar, o Japão se associou ao Brasil para conquistar o cerrado, até então desprezado pelos agricultores nacionais. Pior que isso: havia até um dito popular --"cerrado, nem dado e nem herdado"-- que explicitava o pouco caso para com aquele bioma.

Fazia sentido: havia terra boa ainda por explorar e ninguém queria se habilitar em um território de terras pobres, onde sem corretivos e sem fertilizantes nada se produzia. Pois foi o Prodecer que abriu definitivamente as portas da vasta região. Claro que isso só foi possível com o desenvolvimento de novas tecnologias, e a EMBRAPA tem muito a ver com isso, bem como o sistema cooperativista.

Foi através das cooperativas agropecuárias existentes, inclusive a Cotia e a Sulbrasil, que o Prodecer foi implementado. Sem elas, jamais o projeto teria vingado.

E o Japão e o Brasil se beneficiaram, e muito, dessa nova fronteira agrícola.

Mas, desde então, ambos os países vêm tentando trabalhar em conjunto visando o desenvolvimento de terceiros países, sem resultados concretos. O sonho de se associarem para desenvolver regiões tropicais com nossa tecnologia e o dinheiro deles foi ficando para trás.

Até que, recentemente, a ação conjunta da Agência Brasileira de Cooperação (do Itamaraty) e da Jica japonesa decidiu desenvolver a savana de Moçambique, região muito semelhante ao nosso cerrado.

A Fundação Getulio Vargas, através da GV Projetos e do GVAgro, foi selecionada para montar o programa. A ideia é ocupar 14 milhões de hectares da região chamada Corredor de Nacala, cidade portuária de excelente calado.

O projeto é ambicioso: levar para aquela região a nossa tecnologia agrícola de alimentos, fibras e energia, bem como investir em infraestrutura e logística --de ferrovias a porto, passando pela armazenagem e a agroindústria--, promovendo uma agricultura sustentável à imagem da que criamos no cerrado.

Vamos capacitar produtores moçambicanos, especialmente os pequenos, estimular a montagem de cooperativas agropecuárias, levar investidores do Brasil e do Japão para agroindústrias. E a GV planejou a criação de um fundo financeiro capaz de alavancar recursos do Brasil e do Japão para implantar o empreendimento.

Esse fundo, recentemente lançado em Brasília, captará recursos públicos e privados nos dois países e será o trampolim para o sucesso da Savana de Nacala.

Assim como a velha ideia de que "cerrado, nem dado e nem herdado" já desapareceu há décadas do nosso cenário, seguramente em breve ouviremos outro refrão:

"Savana também é bacana, especialmente a moçambicana".

Picolé ou suflê? - VERA MAGALHÃES


FOLHA DE SP - 14/07

SÃO PAULO - Qual é a marca da gestão Geraldo Alckmin em São Paulo? Um ano e meio depois do início da terceira passagem do tucano pelo Palácio dos Bandeirantes, não é possível responder de bate-pronto.

A falta de um projeto que norteie o governo e dê musculatura política para que Alckmin dispute uma reeleição com inédito grau de acirramento preocupa aliados do tucano.

Além do PT, que elegeu como objetivo número um apear o PSDB do poder no Estado mais rico da Federação após 20 anos, Alckmin terá em seus calcanhares um adversário novo, de ambição ilimitada e grande influência em seu campo político: Gilberto Kassab e o camaleônico PSD.

Esses dois atores podem ou não estar juntos em 2014 para derrotar o tucano, mas já agem hoje para miná-lo. O discurso comum é o de que, após cinco mandatos, o PSDB não tem mais o que oferecer a São Paulo.

Para se contrapor a ele, Alckmin exibe, hoje, uma administração frouxa nos objetivos e tímida nos resultados, seja em razão da crise econômica, seja pela falta de uma linha ditada por ele. O ritmo do governo é lento, sua imagem é opaca e começam a brotar problemas em áreas como transportes e segurança pública.

Auxiliares se ressentem da tendência à centralização de decisões por parte do governador, a ponto de mínimas costuras serem feitas por ele, pessoalmente. Também é generalizada a queixa de que o tucano ouve as ideias, mas custa a executá-las.

O projeto no qual o governo aposta, a integração metropolitana, precisa ser testado nas urnas. E garantir a vitória na capital é fundamental, embora o peso de Alckmin na campanha de José Serra tenha sido diminuído pelo onipresente Kassab.

O grande ativo do governador ainda é a imagem pessoal de gestor honesto e boa-praça. Resta saber se é possível transformar o "Picolé de Chuchu" numa iguaria mais substanciosa, como um suflê -e se, após tantos anos, a receita ainda funciona frente a rivais com apetite renovado.

Símbolo de corrupção e incompetência - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 14/07


A desmontagem do esquema de corrupção construído no Ministério dos Transportes a partir de 2003, quando o então presidente Lula doou a Pasta a futuros fundadores do PR, ajudou a criar a ideia da "faxina ética" em torno da presidente Dilma.

No arrastão de demissões, no ano passado, tiveram destaque o próprio ministro, Alfredo Nascimento, senador pelo Amazonas, presidente do partido, e o poderoso diretor-geral do Dnit, Luiz Pagot, responsável pela assinatura de contratos de obras e - tão ou mais importante - acertos em torno dos famigerados aditivos contratuais. Mas só depois de carimbados no balcão de negociatas montado no ministério pelo partido e entregues, segundo as denúncias, à gerência do indefectível Valdemar Costa Neto (PR-SP), mensaleiro, obrigado a renunciar ao mandato para escapar à cassação e voltar à Câmara na eleição seguinte.

Na época, ficou em segundo plano o presidente demitido da Valec, estatal de construção de ferrovias, vinculada ao ministério, José Francisco das Neves, o Juquinha, no cargo desde o primeiro ano da gestão Lula. Mas hoje não só Juquinha frequenta também o noticiário policial gerado pela corrupção, como a Valec virou símbolo de como a incompetência e a corrupção podem prosperar numa empresa estatal. Na Valec, sob a batuta de Juquinha, essas duas características observadas na área pública se somaram à perfeição.

Juquinha, também parceiro de Costa Neto neste ramo do Executivo federal, foi preso no início mês, acusado de praticar fraudes, e de se beneficiar delas, em licitações de obras em trechos da Ferrovia Norte-Sul, um projeto que se arrasta há duas décadas, outro monumento à incúria estatal. A Operação Trem Pagador - nome bem escolhido -, executada pela Polícia Federal em Goiás, atingiu também Marivone Ferreira das Neves e Jader Ferreira das Neves, mulher e filho de Juquinha, beneficiados pelo estonteante aumento de patrimônio do ex-presidente da Valec.

Algo digno de um desses gênios empreendedores do mundo digital: o valor dos bens de João Francisco, apenas os já identificados até agora, chega a R$ 60 milhões, bem mais que o R$ 1,5 milhão declarado por Juquinha em 2003, ao assumir a Valec. A contrapartida da gestão predatória é, como sempre, enorme prejuízo para a sociedade.

José Eduardo Castello foi nomeado para a Valec no fim do ano passado e instalou auditorias na obra da Norte-Sul, para levantar a dimensão do estrago. Foi inspecionada, segundo o jornal "Valor", a maior parte dos 855 quilômetros do trecho Sul, entre Palmas (TO) e Anápolis (GO). Apenas em estruturas e trilhos mal instalados será feita uma despesa adicional de R$ 400 milhões, ou quase meio bilhão de reais.

Em pelo menos 210 quilômetros serão necessárias obras corretivas, portanto em 25% do trecho. Erros graves se distribuem por cinco lotes, representando metade dos 855 quilômetros da ferrovia.

É um grande escândalo dentro de um outro, o próprio aparelhamento feito no Ministério dos Transportes para fins pecuniários e também de nepotismo (um filho do ex-ministro Alfredo Nascimento virou empresário de sucesso). A Valec mereceria uma investigação ampla e profunda, por ser emblemática do que pode acontecer quando o fisiologismo toma de assalto o Estado.

Rio+20 - e os resultados? - DOM ODILO P. SCHERER


O Estado de S.Paulo - 14/07


A Conferência Rio+20, da Organização das Nações Unidas (ONU), sobre o desenvolvimento sustentável, encerrada no último dia 22 de junho, certamente não alcançou os resultados que muitos esperaram. No entanto, dizer simplesmente que foi um fracasso também não me parece realista. Para começar, não houve recuos em relação à Rio-92 e houve bons avanços em vários sentidos, além de expressiva participação de delegações oficiais e uma saudável mobilização da sociedade civil. E isso não é indiferente.

Chegar a acordos entre atores tão numerosos e com interesses tão diversificados não é tarefa simples, como no caso da Rio+20. As organizações não governamentais (ONGs) e outras organizações da sociedade civil apontaram para o mundo que queremos e precisamos; e os responsáveis pelo governo dos povos teceram consensos para construir juntos, por enquanto, o mundo possível. Os dois ainda estão bem distantes...

Fruto positivo da conferência realizada na cidade do Rio de Janeiro foi o próprio fato de se ter chegado, com a liderança do Brasil na fase final de um longo processo de negociações, a um documento de consenso - havia o risco de não se chegar a nenhuma declaração comum. Um avanço importante foi a afirmação clara de que a pessoa humana está no centro do desenvolvimento sustentável, que deve contemplar a superação da pobreza e a qualidade de vida das populações. Também merece destaque o fato de se ter clareado melhor o conceito de "desenvolvimento sustentável", que deverá sempre apoiar-se em três pilares: econômico, social e ambiental. Esses três critérios, e não mais apenas o produto interno bruto (PIB), deverão ser levados em conta, daqui por diante, na avaliação sobre o estado do desenvolvimento de um povo.

A meu ver, porém, o resultado mais significativo consiste na renovada consciência sobre as dimensões do problema ambiental. Isso ficou claro nas falas de numerosos chefes de Estado, ou de seus representantes, bem como nas manifestações das organizações da sociedade civil, na Cúpula dos Povos. É absolutamente vital para o futuro que a atividade econômica e a sustentabilidade ambiental andem juntas. E isso requer uma revisão drástica dos atuais sistemas de produção e dos hábitos de consumo. Os estilos de vida precisam ser menos materialistas e consumistas, mais sóbrios e solidários, tendo em vista também as gerações futuras. Nossos hábitos e nossa cultura precisam mudar, para uma relação mais sustentável com a natureza e o ambiente da vida.

Falou-se muito em "economia verde", respeitosa do ambiente, e era desejável que se chegasse a definições mais concretas para torná-la possível. Todavia as economias mais desenvolvidas e os maiores poluidores não se animaram a abandonar as fontes de energia nuclear ou fóssil, como o petróleo e o carvão mineral. Essa foi uma das maiores reclamações daqueles que advertem a respeito dos riscos do aquecimento global. Mesmo vital para o futuro, contudo, isso não é simples, porque pressupõe a reorganização de toda a economia.

Além de verde, a economia deveria também ser "azul", com atenção especial às águas. A escassez de água doce será um problema grave para o futuro próximo. Também muitos países pequenos temem pela sua sobrevivência, tirada, sobretudo, dos oceanos. A crescente contaminação das águas, a pesca predatória e a diminuição sensível das espécies de vida nas águas são ulteriores preocupações.

Muito oportuna foi a distinção feita por uma jovem na abertura da conferência: não se trata simplesmente de construir o mundo que "queremos", mas aquele que "devemos" edificar e cuidar juntos.

De fato, o voluntarismo dos projetos humanos, imposto à natureza e ao ambiente, nem sempre é o critério melhor: o mundo precisa de respeito às suas próprias leis, não devendo ser visto apenas como objeto do desejo e da vontade humanas, que o podem levar ao caos e à destruição.

Infelizmente, faltou definir um organismo na ONU para acompanhar globalmente, e com competências próprias, as questões ambientais; nem se assegurou um fundo para ajudar os países mais pobres a superarem a pobreza, ou para financiar as mudanças no modelo econômico, necessárias para o desenvolvimento sustentável. Tampouco se estabeleceram regras para facilitar o acesso às tecnologias necessárias para uma economia mais verde. No fundo, as decisões e os custos para o desenvolvimento sustentável ficaram por conta de cada país e isso, certamente, será pouco eficaz. As grandes economias, em geral, e os maiores poluidores não se comprometeram, de modo efetivo, na busca de soluções para a crise ambiental.

Entre as lacunas do documento final da Conferência Rio +20, observo também a falta de reconhecimento da contribuição das religiões e igrejas para o desenvolvimento sustentável. É inegável que estas contribuem para a educação, o cultivo de valores, para formar e mudar a cultura e para socorrer os membros mais frágeis da comunidade humana. Faltou, igualmente, uma palavra de apreço à família, sujeito social e econômico básico, indispensável no cuidado das pessoas e de sua formação para uma nova cultura e para o desenvolvimento sustentável.

As organizações da sociedade civil mostraram o seu papel determinante para promover mudanças nas políticas públicas e nas decisões dos governos. A solução para as graves questões postas na conferência depende da interação de dois sujeitos: autoridades constituídas e sociedade civil organizada. Penso que a Rio+20 manifestou esse esforço conjugado, indispensável para a eficácia de qualquer declaração ou lei. E isso faz esperar que ela não tenha sido um ponto de chegada, mas uma etapa na busca de soluções melhores.

Ereções 2012! Vote na Bixa Muda! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 14/07

Sabe por que o Maluf apoia o Haddad? Porque o Haddad não é bom de provas. E o Maluf detesta provas

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Ereções 2012! A Volta da Galera Medonha. Eu adoro os candidatos a vereador. Direto de Juazeiro do Norte: Bixa Muda! Com o slogan: "Juazeiro muda. É só votar na Bixa Muda". Rarará! Sensacional. A bixa é muda, mas dubla até a Whitney Houston. É verdade! Tem vídeo no YouTube!
E esta aqui do Ceará: Tina Taner, Perereca do Alumínio. Ainda bem que é perereca "do" alumínio. Se fosse perereca "de" alumínio ia precisar de um abridor de lata.
E tem Homem Caju, Gato a Jato e Jesus do Hip-Hop! E em Curitiba tem o candidato Linguiça de Circo. Eu vou votar no Linguiça de Circo! A linguiça deve fazer cada coisa! Rarará!
É o que eu sempre digo: candidato no Brasil não é político, é personagem. E sabe por que o Maluf tá apoiando o Haddad? Porque o Haddad não é bom de provas. E o Maluf detesta provas. Rarará! O Haddad é um candidato que assombra. À sombra do Lula! Rarará!
E o Serra Vampiro Anêmico? O Serra devia ser prefeito de cidade espírita. Prefeito de Umbral, aquela cidade do filme "Nosso Lar".
E o Serra é o único candidato cujo o vice é mais importante do que ele. Porque o Serra larga tudo no meio!
E vou lançar minha candidatura a prefeito de São Paulo pelo meu partido PGN (Partido da Genitália Nacional)! Com o slogan: "Chega de demagogia! Sexo de noite e sexo de dia!". Prometo lançar o Vale-Motel pros pobres pararem de transar no muro daqui de casa. Rarará!
E prometo liberar o topless no Ibirapuera. Sem restrição de idade! E sabe como se chama "topless" em Portugal? Tetas ao léu! Rarará!
E adorei a charge do Amarildo com duas senhorinhas vendo TV! "Demóstenes cassado será substituído pelo ex-marido da mulher do Cachoeira!" "Tá parecendo novela." "Max é amante de Carminha, que é casada com Tufão, que atropelou o ex-marido dela." "Tá parecendo o Senado!" "Avenida Senado." Rarará!
Ah, e querem impugnar a candidatura da Bixa Muda! Preconceito. É bixa, surda, muda, mas não é ladra nem analfabeta!
E a Gretchen sai de "A Fazenda", se separa do 16º marido e ele, pecuarista, volta pra sua fazenda! Cada um na sua fazenda! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

BOLÃO DO CACHOEIRA - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 14/07

O empresário Carlinhos Cachoeira errou por pouco o placar da votação da cassação de Demóstenes Torres. Apostava em 50 votos a favor, contra os 56 que definiram a perda do mandato do senador de Goiás. Assistiu pela TV da sua cela no presídio da Papuda, em Brasília, a sessão na qual o amigo declarou em seu discurso de defesa que, "se Cachoeira cometeu crime, cana nele".

É A VICE
Quando sinaliza que vai enfrentar o governo e disputar a presidência da Câmara, o PSB está de olho sobretudo em 2014. Um dirigente do partido analisa que, com o PMDB no comando da Casa e também do Senado, "não haverá força no mundo" capaz de tirar dos peemedebistas a vaga de vice na sucessão de Dilma Rousseff.

TABULEIRO
Mas a sigla não entraria na briga sem aval do Planalto nos bastidores. Aposta no interesse do governo de impedir que o governador Eduardo Campos (PE), melindrado sem a vice, saia candidato à Presidência em 2014. E cause um estrago no Nordeste, onde Dilma é boa de voto.

ÍNDICE POLUIÇÃO
A Confederação Nacional da Indústria fechou acordo com a Fundação Getúlio Vargas para capacitar 150 profissionais a realizar inventários de emissões de carbono. O curso vai de setembro a dezembro. O objetivo é definir padrões para medir a emissão de gases do efeito estufa no processo industrial. A falta de indicadores de sustentabilidade foi um dos principais debates da Rio+20.

EU VOLTAREI
Marisa Monte retorna a São Paulo para mais seis shows de sua turnê "Verdade uma Ilusão". A cantora se apresentará de 28 de setembro a 7 de outubro no HSBC Brasil. Os ingressos começam a ser vendidos no dia 18.

BRASILEIRINHOS
Alessandra Ambrósio, que participará da cerimônia de encerramento da Olimpíada de Londres, levará o filho Noah Phoenix, de dois meses, e a filha Anja Louise, 3, para a capital inglesa. A top foi convidada pelo Comitê Organizador Rio 2016 a representar o país no evento.

PRAIA DE PAULISTA
A tatuadora Kat Von D, a empresária Flávia Sampaio e a atriz Bruna Thedy foram à inauguração da Sephora, no JK Iguatemi. Também no shopping, a Miu Miu abriu sua primeira loja no país. A estilista Fernanda Rolim e a blogueira Vanessa Derani conferiram. E os empresários Rodrigo e Daniel Rosset fizeram coquetel na Scarf Me.

PIANÍSSIMO
O pianista Nelson Freire se apresentou junto com a Osesp (Orquestra Sinfônica de São Paulo), sob regência de Marin Alsop, no parque Ibirapuera, anteontem. O clarinetista Giuliano Rosas também tocou no concerto, que adiantou parte do repertório a ser executado no BBC Proms, em Londres, no dia 15 de agosto.

25 de março à francesa
O shopping JK Iguatemi ganhou ares de 25 de Março na noite de anteontem, na inauguração da primeira loja de maquiagem Sephora no país. "As pessoas esperam há anos a chegada no Brasil. Parece a 25 de Março no Natal", comparou a fotógrafa Adriana Sansone, uma das convidadas VIPs, que faziam fila já às 20h30 para entrar na loja.

Na muvuca, estavam as atrizes Carolina Ferraz, Nathalia Dill e Larissa Maciel, entre outras famosas.

Seguranças controlavam as clientes mais afoitas do lado de fora do "cercadinho". Duas hostess com maquiagem extravagante e um tablet em mãos conferiam os nomes na lista. Funcionários e entendidos ensinavam a pronuncia correta do nome da loja em francês: "Seforrá", com ênfase na última sílaba.

O presidente global da marca, Christopher de Lapuente, antecipou e encurtou a fala inaugural. "Eu queria fazer um discurso de dez, 15 minutos sobre a Sephora, mas tinha tanta gente, tanta gente, que eu resumi", comentou. "É, você ia ser linchado", brincou a assessora ao lado dele.

A tatuadora Kat Von D, protagonista do reality show "LA Ink" e uma das atrações mais aguardadas da noite, lançou uma linha de maquiagens com seu nome. Chegou atrasada e visivelmente incomodada com a multidão e os flashes. Ficou dez minutos e não disfarçou a irritação ao ser abordada por adolescentes que pediam autógrafos.

Flávia Sampaio, namorada de Eike Batista, prometia voltar outro dia para fazer compras. "Tá muito cheio. Volto num dia mais vazio e com o maquiador, senão a gente compra tudo errado!"

A atual companheira do sétimo homem mais rico do mundo achou válida a comparação com a rua de comércio popular do centro paulistano. "Isso é sinal de sucesso." No Rio, ela conta que já foi ao Saara, o similar carioca à rua tradicional de compras de SP. "Quero muito conhecer a 25 de Março. Vou fazer uns 'power looks' lá", disse. "Dá pra ser bonita e fashion comprando na 25."

CURTO-CIRCUITO
Patricia Durães, coordenadora educacional do Itaú-Cinemas, foi convidada a apresentar na Itália os projetos Clube do Professor e Escola no Cinema.

O projeto Dança no MIS será lançado hoje, às 18h.

O restaurante Le Bou tem menu especial para comemorar a queda da Bastilha até o dia 21.

A governadora Rosalba Ciarlini (DEM-RN) jantou no Antiquarius dos Jardins com o deputado Campos Machado, secretário-geral do PTB, na semana passada. Discutiram 2014.

com LÍGIA MESQUITA (interina), ELIANE TRINDADE (colaboração), ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER e OLÍVIA FLORÊNCIA

Pena de Morte - DRAUZIO VARELLA

FOLHA DE SP - 14/07


Os rigores da lei cairiam exclusivamente sobre os mais pobres. Não é assim até hoje?


Não me sai da cabeça a imagem dos iranianos enforcados em guindastes, que a Folha publicou na "Primeira Página" duas semanas atrás.

Tenho certeza de que se houvesse um plebiscito, a pena de morte seria implantada também no Brasil. Para a maioria dos eleitores, bandido que tira a vida de um ser humano merece o mesmo destino da vítima, sem qualquer comiseração. Os mais radicais incluem nessa categoria os traficantes e os que assaltam à mão armada.

A lei do olho por olho é a saída mágica que a população encontra para acabar com a violência que nos assusta nas ruas e nos aprisiona dentro de casa. É justo manter a sociedade refém de uma minoria? Para que os cidadãos ordeiros possam viver em paz, não seria mais fácil eliminar fisicamente esses poucos que nos infernizam? A morte deles não serviria de exemplo para os que estão em início de carreira?

De fato, há situações em que a pena de morte tem grande poder intimidatório. É o caso da execução de desertores em tempo de guerra, do linchamento em pequenas comunidades ou dos assassinatos brutais que acontecem nas cadeias, condições extrajudiciais em que o direito de defesa sequer entra em cogitação.

Nos três casos citados há um denominador comum: o curto intervalo de tempo existente entre a prática do ato ilícito e a execução da sentença. O desertor enfrenta o pelotão de fuzilamento assim que é localizado, o estuprador que mata a criança na cidadezinha é linchado na hora e o presidiário acusado de delatar um plano de fuga morre no mesmo dia.

Para que a pena de morte tenha caráter educativo, há que ser aplicada de imediato. Quanto mais tempo decorrer entre o crime cometido e a punição do criminoso, menos didática e exemplar ela será.

A urgência para levar a cabo a execução sumária, por sua vez, tem um efeito colateral: é obrigatório fechar os olhos para injustiças eventuais, o que nesses casos significa matar homens e mulheres inocentes.

Como nas sociedades civilizadas a ideia de enforcar alguém é cada vez menos popular e a possibilidade de o Estado tirar a vida da pessoa errada é inaceitável, a pena de morte perdeu adeptos na maioria dos países. Os que ainda a defendem argumentam que bastaria garantir ao acusado amplo de direito de defesa.

É esse direito amplo o ponto crucial da questão, porque são raros os réus confessos, ainda que todas as evidências estejam contra eles. Para assegurar-lhes que não serão sentenciados injustamente, é necessário dispor de tempo, testemunhas, acareações, advogados de defesa, promotores e juízes, para não falar nos custos financeiros.

Veja o caso dos norte-americanos, em que o condenado aguarda anos e anos nos famigerados corredores da morte, até que um dia venham buscá-lo para a cerimônia fúnebre, realizada de forma secreta e envergonhada, como bem lembrou Hélio Schwartsman em sua coluna.

Um castigo administrado dez, 15 anos depois de um crime do qual ninguém mais se recorda, tem impacto zero na redução da criminalidade, como demonstram inúmeros estudos. Nos Estados americanos que aboliram a pena capital, os índices de criminalidade não aumentaram; naqueles que ainda a mantém, eles não são mais baixos.

Agora, analisemos o caso do Brasil. Com um Judiciário desigual e moroso como o nosso, quanto tempo levaria para que todos os prazos e recursos processuais fossem esgotados? Num país com enorme dificuldade para prender os que assaltam os cofres públicos, seria fácil condenar à morte uma pessoa influente, por mais hediondo que fosse o crime?

O assaltante da periferia que praticasse um latrocínio teria acesso a advogados com o mesmo preparo técnico do que o assassino impiedoso bem-nascido?

Não é preciso ser catedrático de direito penal para imaginar que o desenlace fatal levaria muitos anos para ocorrer. Escapariam dele os que tivessem dinheiro para contratar bons criminalistas, capazes de engendrar manobras jurídicas que tornariam os processos intermináveis.

Os rigores da lei cairiam exclusivamente sobre os mais pobres. Não era dessa forma no passado, e não é assim até hoje? Quem tem dinheiro, por acaso chega a cumprir em regime fechado o número de anos a que foi condenado? Em 23 anos frequentando cadeias, nunca vi.

O ajuste do diesel - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 14/07


O segundo reajuste dos preços do óleo diesel em apenas 21 dias pela Petrobrás indica que o governo Dilma entendeu que o crescimento econômico não pode depender tanto do consumo, como vinha acontecendo, e que tem de ser deslocado para o investimento. Em outras palavras, o estrangulamento da atividade econômica do Brasil não está no lado da demanda, que segue crescendo entre 5% e 6% ao ano, mas da oferta, que está estancada.

São inúmeras as manifestações de que a Petrobrás não está dando conta do seu enorme programa de produção e de investimentos, de nada menos que US$ 236,5 bilhões em quatro anos.

E uma das causas desse atraso vinha sendo a decisão da administração do PT de fazer política de preços à custa do caixa da Petrobrás. Os preços ao consumidor, tanto de diesel quanto de gasolina, não vinham sendo ajustados aos preços de mercado desde 2008. As principais consequências disso foram: (1) o estímulo descabido ao consumo, que obrigou a Petrobrás a importar tanto diesel como gasolina, para revendê-los no mercado interno a preços mais baixos do que os pagos ao fornecedor externo; e (2) a redução da capacidade de investimento da Petrobrás. É uma situação que, agora sob a administração da presidente Graça Foster (foto), começa a ser revertida.

O reajuste anunciado na quinta-feira parece inaugurar uma política mais realista de preços. Falta explicar por que não veio antes. Não é verdade, conforme está na nota oficial, que a política de preços colocada em prática até agora fosse a do alinhamento aos níveis internacionais - embora "em uma perspectiva de médio e de longo prazos". Seja qual for o critério pelo qual se analise, não se pode considerar esse achatamento de cinco anos alinhamento nem a médio nem a longo prazos.

Esse reajuste do óleo diesel ao consumidor sugere que, pelo menos logo após as eleições, o governo Dilma autorize também a correção dos preços da gasolina. O governo zerou a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico(Cide) e, assim, tirou a capacidade de redução do impacto dos novos reajustes aos preços no varejo. De todo modo, esse passo ainda está longe de restabelecer a paridade às cotações internacionais. Os preços internos se mantêm fortemente defasados - em 20% no diesel e em 16% na gasolina, conforme cálculos do Credit Suisse.

A nova política terá algum impacto sobre os preços ao varejo. Nas próximas semanas, será inevitável que a alta do óleo diesel comece a ser repassada para os fretes e daí para os preços dos alimentos, para os transportes urbanos e para a condução escolar. Provavelmente, já na próxima Ata do Copom, a ser editada dia 19, o Banco Central já não estará mais registrando que entre seus pressupostos na formação da inflação está que os preços dos combustíveis não serão reajustados.

O redesenho da política de preços da Petrobrás tem importante implicação prática. Se a regra é realinhar cotações internas e externas, será inevitável também que a Petrobrás tenha de reajustá-las para baixo, caso se confirme um mergulho dos preços do petróleo no mercado internacional, como alguns analistas vêm preconizando diante do agravamento da crise internacional.

Caso isso se confirme, os recursos para cobrir seu enorme programa de investimentos não poderão vir dos preços ao consumidor. Terão de provir do enxugamento da empresa e de uma mais eficiente administração de custos.

Metamorfoses da infâmia - ROBERTO ROMANO


O Estado de S.Paulo - 14/07


Tempos atrás, na política internacional surgiu o apelido virulento de rogue State para indicar os países que apoiam ou alimentam o terrorismo, o narcotráfico, a corrupção sistêmica. A fórmula foi ampliada por Jacques Derrida, que a traduziu como État voyou". O termo francês voyou significa "pessoa de péssimo costume, bandido", ou "crápula". Derrida, para explicar o conceito, usa o seu oposto, a noção de respeito aplicada ao trato pessoal ou coletivo, nacional ou cosmopolita. Com semelhante divisão, ele estuda as noções e práticas de soberania legítima que prenunciam o advento de uma democracia universal.

Estados ditatoriais baseiam-se, em grande maioria, no reinado da crápula. Não apenas os líderes agem contra a lei naquelas quadrilhas erigidas em governos (cito Santo Agostinho, prudente conhecedor do gênero humano). As massas, em tais regimes, são convocadas para destruir os últimos signos de direito individual ou público. A legislação totalitária brota das sarjetas e a elas retorna, inunda tudo e todos com lama, sangue, lágrimas dos vencidos. Assim foi o período ditatorial que dominou o século 20, na esquerda ou na direita. O mesmo ocorreu nas formas civis e militares do autoritarismo que desgraçou países inteiros por longos anos, inclusive na América do Sul.

Marca da ideologia totalitária, o antissemitismo surgiu na Alemanha nazista, na Itália fascista, na URSS de Stalin e em países que o seguiam. Sobre o banditismo nazista acaba de ser publicado no Brasil o ensaio de Saul Friedländer A Alemanha nazista e os Judeus - os Anos da Perseguição, 1933-1939 (Ed. Perspectiva). Ali é mostrado o equívoco dos bem-intencionados e a má-fé dos que aderiram aos métodos hitleristas. Quanto ao antissemitismo de esquerda, a literatura é enorme, sobretudo após o fim da URSS, com a abertura de arquivos antes lacrados. Dentre os escritos que trazem documentos e análises rigorosas, menciono o de Arkadi Vaksberg, Stalin e os Judeus, o Antissemitismo Russo: uma Continuidade do Czarismo ao Comunismo (Paris, Laffont, 2003). Já a repulsa dos comunistas à palavra cosmopolitismo vem de duas origens: a redução dos alvos internacionalistas dos soviéticos ao "socialismo em um só país" e a calúnia segundo a qual os judeus não se prendem a nenhuma pátria porque desejam (segundo os forjados, para a polícia secreta de Nicolau II, Protocolos dos Sábios de Sião) dominar o mundo inteiro pelas finanças, pelas armas e pelo comércio. O antissemitismo soviético é metamorfose do seu congênere czarista.

Stalin apoiou a criação do Estado de Israel, chegou a autorizar que milhares de militares judeus soviéticos ajudassem nas lutas contra os países árabes, em maio de 1948. A URSS queria controlar e dispor do Oriente Médio contra ingleses e norte-americanos (cf. Rucker, Laurent, Stalin, Israel e os Judeus, PUF, 2001). Ao perceber que Israel não serviria aos seus alvos, o Kremlin abandonou o apoio. No mesmo tempo foi cunhada a palavra de ordem sobre o "antissionismo". Em 1949 começou na URSS a campanha contra os judeus, na qual se notabilizaram os insultos dirigidos aos cidadãos israelenses ("nacionalistas sionistas"). Unidos aos seus parentes que ainda moravam na Rússia (os "cosmopolitas apátridas"), os judeus planejariam a queda do socialismo no mundo. Naquele instante foi dissolvido na URSS, por ordem de Stalin, o Comitê Judeu Antifascista. A campanha antijudaica espraiou-se na base da sociedade russa e no Kremlin. Vem daí o chamado "complô das blusas brancas". Os próprios médicos de Stalin, de origem judaica, planejariam sua morte. Em 1952 diz o próprio Stalin: "Todo sionista é agente do serviço de inteligência americano. Os nacionalistas judeus pensam que sua nação foi salva pelos Estados Unidos, onde eles podem tornar-se ricos, burgueses. Eles pensam ter uma dívida para com os americanos. Entre meus médicos muitos são sionistas". Sionismo, em sentido pejorativo e ideológico, tem sua origem nos porões do Agitprop e nos embates da polícia política de um regime bandido. Mas assistimos hoje a outra metamorfose da propaganda antissemita, sob a máscara do antissionismo.

Não é novo o discurso pronunciado na ONU pelo vice-presidente do Irã, Reza Rahimi, no qual se adianta com irresponsabilidade fanática: "A proliferação das drogas no mundo emana do Talmude". O mesmo Talmude, assim fala a calúnia delirante, "ensina que é lícito enriquecer por meios legais ou ilegais, o que dá direito aos judeus de destruir a humanidade". A fala do líder iraniano foi nutrida pelas ideologias assassinas, o império da sarjeta na Europa.

Recordemos que também o Brasil ditatorial se alimentou de antissemitismo (basta recordar os livros de Maria Luiza Tucci Carneiro sobre a era Vargas). Lembremos que setores católicos foram antissemitas: "Já se havia dito que o êxodo dos judeus em massa, da Alemanha, obedecia a um plano político organizado contra o Partido de Hitler. (...) Malogrados, porém, esses propósitos, graças ao patriotismo do povo alemão, os judeus vão desistindo da sua conjura, e retornam às antigas atividades que exerciam, submissos às leis do país" (A Ordem, 47, 1934, cf. Cândido Moreira Rodrigues, A Ordem - uma revista de intelectuais católicos, 2005). A Igreja hoje se afasta do antissemitismo na maior parte de seus fiéis ou hierarcas.

O mesmo não ocorreu em agremiações de esquerda, que ainda seguem palavras de ordem stalinistas em terras brasileiras. Não surpreende que ideólogos comunistas apoiem o extermínio dos judeus e do Estado de Israel. Espanta que políticos e líderes, judeus e brasileiros, supostos democratas, convivam fraternalmente numa "base aliada" de governo que tolera discursos e práticas nefandos, como a do vice-presidente do Irã. De fato, não podemos aquilatar até onde vai a metamorfose da infâmia.

Ranking da verba - VERA MAGALHÃES - PAINEL



FOLHA DE SP - 14/07

Levantamento feito pela liderança do PSDB na Câmara sobre as emendas individuais (destinadas a projetos específicos pelos parlamentares) ao Orçamento mostra que o PMDB empenhou R$ 105,4 milhões até esta semana, mais que o PT, que teve R$ 89,8 milhões empenhados, e quase quatro vezes mais que o PSB, com R$ 29,39 milhões. O partido do governador Eduardo Campos conseguiu menos recursos que o PSD de Gilberto Kassab, que teve prometidos R$ 45,7 milhões.

Meio cheio... O PHS, com apenas um deputado, obteve empenhos de R$ 4,2 milhões. O PV, que se declara independente, conseguiu assegurar R$ 9,762 milhões, mais que PSDB e DEM.

...meio vazio Já o PPS, com oito representantes no Congresso, e o PSOL, com cinco, não conseguiram um centavo do governo.

Eu não Do líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), sobre o fracasso no acordo com a oposição que levou à obstrução de matérias de interesse do governo: "Me responsabilizar por não ter havido o acordo é injusto, tanto que a própria ministra Ideli Salvatti foi à Câmara e não resolveu".

Rumo a 2013 No Planalto, a aproximação de Chinaglia com a oposição é vista como uma tentativa de se dissociar do PT, que firmou acordo com PMDB, para se lançar candidato à presidência da Câmara no ano que vem.

Força-tarefa O ministro da Fazenda, Guido Mantega, telefonou ontem para empresários e federações pedindo mobilização para pressionar os deputados pela votação das medidas provisórias do Brasil Maior, que correm risco de vencer caso o Congresso não entre em recesso.

Pause O relator da CPI, Odair Cunha (PT-MG), já avisou que a videoteca completa apreendida na casa do acusado de contravenção Carlinhos Cachoeira, com filmagens de vários personagens da política, só chegará aos parlamentares em agosto.

Limonada Com aval do Planalto, a CPI tentará criar, após o recesso parlamentar, uma subcomissão para mudar a lei de licitações, flexibilizando as regras de contratação de obras públicas.

O passado... Fiador da candidatura de Márcio Lacerda (PSB) em Belo Horizonte, Aécio Neves se queixou a parlamentares nesta semana sobre a intervenção de Gilberto Kassab no PSD local em favor de Patrus Ananias (PT).

... te condena O senador lembrou a interlocutores que ajudou Kassab a fazer filiações quando o prefeito paulistano buscava dar musculatura à nova sigla em Minas.

Ser ou não ser? Dilema inquieta marqueteiros de BH: o PT enfrentará restrições para atacar a administração de agora rival Lacerda. E o prefeito tende a poupar os petistas, que mantinham 900 cargos no governo, além do vice.

Pedal Enquanto Gabriel Chalita (PMDB) e Fernando Haddad (PT) fazem passeios ciclísticos entre hoje e amanhã, José Serra decidiu criar seção de "bicicletas e mobilidade humana" em seu plano de governo. Hoje, o tucano planeja pedalar em Itaquera.

Dublê A campanha de Serra prepara agenda paralela de eventos a ser cumprida pelo vice, Alexandre Schneider. Ele irá a reuniões e atos públicos sempre que o candidato não puder comparecer.

Ampulheta O governo paulista teme que a guerra judicial envolvendo o contorno viário do Itaquerão atrase o cronograma da obra. A licitação, vencida pelo consórcio Vizol, foi barrada por liminar. Se a obstrução permanecer por mais de 45 dias, há risco aos prazos de entrega.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio
"Está explicado por que o Haddad confunde Itaim Paulista com Itaim Bibi: está usando mapa astral para se orientar em São Paulo."
DO DEPUTADO ESTADUAL ORLANDO MORANDO (PSDB), sobre o candidato do PT ter exibido no site vídeo em que astróloga prevê sua vitória para prefeito.

contraponto


Teste do bafômetro
Ao som de "Ai, se eu te pego", o ministro Garibaldi Alves (Previdência) discutia com o deputado Paulinho da Força (PDT-SP) a proposta de mudanças no fator previdenciário, no Arraiá do Trabalhador, em Brasília. Em campanha para acabar com o mecanismo que regula as aposentadorias no setor privado, Paulinho disse:

-Vou dar umas cachaças para o ministro, pra ver se amoleço seu coração pelo fim do fator.

De chapéu de palha e com um copo de cachaça em mãos, Garibaldi suspirou:

-Vou ter que beber com moderação, se não já viu...

Dilma e O Pequeno Príncipe - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 14/07


Faria sucesso num concurso de miss o discurso da presidente Dilma Rousseff na 9.ª Conferência dos Direitos da Criança e do Adolescente, em Brasília. Sua declaração mais notável, destacada pelos jornais e reapresentada exaustivamente nas tevês e rádios, foi digna de uma devota leitora d'O Pequeno Príncipe: "Uma grande nação deve ser medida por aquilo que faz para suas crianças e para seus adolescentes. Não é o Produto Interno Bruto (PIB). É a capacidade do país, do governo e da sociedade, de proteger o que é o seu presente e o seu futuro, que são suas crianças e seus adolescentes". Na interpretação mais benevolente, essa peroração é apenas uma banalidade. Na menos caridosa, é uma grande tolice apresentada na embalagem rosa da mais pobre filosofice.

Não há como discutir seriamente o bem-estar e o futuro das novas gerações sem levar em conta os meios necessários para educá-las, capacitá-las para viver com independência e dignidade e proporcionar-lhes oportunidades de ocupação produtiva e decente. Mas, também no sentido inverso, a relação é verdadeira: só se pode criar uma economia dinâmica, moderna e capaz de competir globalmente por meio da formação de pessoas qualificadas para tarefas cada vez mais complexas. Examinado de qualquer dos dois ângulos, o desempenho do governo brasileiro tem sido miseravelmente falho e nenhuma retórica pode obscurecer esse dado.

Ao contrário, no entanto, das graciosas candidatas a um título de miss, a presidente Dilma Rousseff recitou sua mensagem num tom furioso, como se reagisse a uma ofensa ou, talvez, a um imerecido golpe da Fortuna. Há uma explicação óbvia tanto para sua visível irritação quanto para a desqualificação do econômico. Horas antes o Banco Central (BC) havia divulgado seu indicador de nível de atividade, considerado uma prévia mensal do PIB. Esse indicador havia recuado 0,02% de abril para maio, confirmando vários outros sinais de estagnação da economia e reforçando as previsões de um crescimento, em 2012, menor que o de 2011.

Há um vínculo evidente entre os resultados pífios da política educacional e o emperramento da produção. No último exame do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), o Brasil ficou em 53.º lugar em leitura e em 57.º em matemática, numa lista de 65 países. O teste é realizado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Quase todas as crianças estão na escola, graças a um esforço de universalização do ensino iniciado há longo tempo, mas a formação continua péssima. Cerca de 20% dos brasileiros com idade igual ou superior a 15 anos são analfabetos funcionais, incapazes de ler e entender instruções simples. Empresas têm dificuldade para contratar, por falta de mão de obra em condições até de ser treinada no trabalho. Há um evidente funil no ensino médio, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva preferiu facilitar o ingresso nas faculdades, numa escolha errada e demagógica.

O erro na escolha das prioridades tem permeado toda a política econômica. O consumo, apesar da queda observada recentemente, continua, segundo o IBGE, maior que o observado há um ano, mas a indústria brasileira tem tido dificuldade para suprir o mercado interno, por falta de competitividade. Fabricantes estrangeiros têm ocupado uma fatia crescente desse mercado, como já mostrou a Confederação Nacional da Indústria.

Incapaz de reconhecer os erros e de impor novos rumos à política econômica, a presidente Dilma Rousseff, como seu antecessor, prefere insistir na retórica e nas bravatas. "Vamos enfrentar os desafios para garantir à população emprego de qualidade", disse a presidente no batismo de uma plataforma da Petrobrás, na sexta-feira. A plataforma foi construída, recordou, pela "teimosia de um brasileiro chamado Lula".

Seria mais justo e mais realista lembrar a enorme e custosa lista de erros cometidos na Petrobrás a partir de 2003 e apontados pela nova presidente da empresa, Graça Foster, no dia de sua posse. Foram erros de uma gestão guiada por objetivos político-eleitorais e centralizada no Palácio do Planalto - erros essencialmente idênticos àqueles cometidos na política educacional.

Primeiros solavancos - GILLES LAPOUGE


O Estado de S.Paulo - 14/07


Hoje é feriado nacional na França, o aniversário da jornada de 14 de julho de 1789, na qual a população parisiense tomou a prisão da Bastilha, o símbolo do absolutismo, e deu início ao "baile magnífico e sangrento" da Revolução Francesa, que só se encerraria dez anos mais tarde, graças a Napoleão Bonaparte.

Neste dia, tradicionalmente os presidentes concediam uma grande entrevista à TV. Nicolas Sarkozy, o presidente anterior, suprimiu o costume e com razão: ele, que falava o tempo todo, sobre tudo, finalmente nos deixou um pouco em paz nesta data. Seu sucessor, François Hollande, que não é dado a discursos, restabeleceu a tradição.

Hoje, por volta do meio-dia, ele falará à televisão.

Esta será uma entrevista importante. Hollande ainda não é muito conhecido. Está na presidência há apenas algumas semanas, mas negras tempestades já se aproximam. Aliás, a França já enfrenta uma grande tempestade.

Ontem, ouvimos o estrondo do primeiro trovão, a notícia repentina de que a montadora Peugeot fechará as portas de algumas de suas fábricas e cortará 8 mil postos de trabalho (com os empregos dos setores a elas relacionados, o total chegará a cerca de 20 mil). Mais "planos sociais" drásticos, foram anunciados em toda a indústria francesa.

É certo que o novo poder socialista nada tem a ver com essas demissões catastróficas. Trata-se de uma herança do período anterior. Nem sequer podemos dizer que a culpa é de Sarkozy. Infelizmente, a doença é mais antiga, mais grave: a França (assim como uma parte da Europa, com exceção da Alemanha), outrora uma grande nação industrial, não suporta mais a concorrência feroz do restante do mundo.

E, diante do desastre, os socialistas são obrigados a admitir sua impotência. Embora falassem incessantemente de sua "política voluntarista", de sua recusa a ceder às frias leis do mercado, agora nada podem. Estão de mãos atadas, impotentes. Não dispõem do menor instrumento, da menor alavanca para dobrar a Peugeot e conjurar a eliminação desses 8 mil empregos.

A França é um sistema liberal. Felizmente, ela não se tornará de repente, como por um passe de mágica, uma economia marxista, ou simplesmente intervencionista, a fim de fazer com que os "cruéis" capitalistas da Peugeot voltem atrás em sua decisão.

O poder socialista se limitará, portanto, a assistir ao desmantelamento do seu parque industrial (já bem massacrado), a deplorar e doará alguma ajuda às populações e às regiões maltratadas.

É a primeira dura prova para François Hollande. Até agora, ele vinha se saindo bem: nas negociações a respeito da zona do euro agiu com agudeza e clareza, e obteve de madame Merkel propostas inteligentes sobre vários pontos. Sua calma, seus silêncios e sua simplicidade agradaram muito aos franceses que estavam cansados da excitação ininterrupta de Sarkozy.

A única desafinação de Hollande foi obra de sua companheira, Valérie Trierweiler, a nova primeira-dama da França, que atacou com um tuíte inacreditável a mulher que a precedeu no coração de Hollande, a ex-dele, Ségolène Royal, grande personagem do Partido Socialista, que foi candidata à presidência em 2007.

A grotesca "guerra de damas" colocou Hollande numa posição desagradável. Ele não reagiu, consciente de que encontrar o ponto de equilíbrio seria um exercício acrobático de enorme perigo.

Mas não poderá se esconder eternamente no silêncio. Daqui a pouco, na entrevista que dará por ocasião do 14 de julho, ele será obrigado a "descer do muro". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA É CORRESPONDENTE EM PARIS

Qualidade do ensino: alternativas - WALTER CENEVIVA

FOLHA DE SP - 14/07

A capacitação deve ser aberta a todos, mas não facilitada até o ponto de sacrificar a qualidade


DUAS LINHAS do pensamento do brasileiro sobre o ensino universitário separam posições distintas. De um lado estão os que desejam a abertura de acesso para acolhimento de todos os segmentos sociais, e de outro os que privilegiam o predomínio da qualidade cultural, intelectual, técnica e pessoal do alunado, distinguido pela competência, cultura e dignidade para quem chegar ao fim do curso. É evidente que o acesso há de ser aberto a todos, mas sem que a capacitação seja facilitada até o ponto de sacrificar a qualidade, com efeito danoso para toda a cidadania.

A questão das cotas escolares é um bom passo intermediário que tem aprovado bons alunos, com capacidade cultural e interesse no estudo. Tem, contudo, dois defeitos a serem corrigidos: cria uma forma suplementar de privilégio, ainda quando atribuída à parcela substancial do povo brasileiro. De outro modo, pelo menos no nível federal, tem permitido distorções, mesmo entre os beneficiados, depois do ingresso no alunado do nível superior.

Elementos estranhos aos próprios alunos contribuíram para a maior dificuldade. O Brasil percorreu, nos últimos decênios, intenso processo de quantificação de caminhos universitários, em transformação radical de numerosas instituições particulares. Em algumas delas a insuficiência é marcante, por exemplo, quanto ao idioma e sua literatura. É comum saber-se de alunos cujo nível de leitura se resolve em resumos plastificados de obras, que não são lidas.

Para tudo, em matéria de quantidade, serve de exemplo mais um exame da Ordem dos Advogados do Brasil. A grande quantidade de candidatos e de reprovados -contados às dezenas de milhares- faz desse certame o mais criticado. Mas é certo que o índice das reprovações é filho do mau ensino recebido.

O obstáculo da chegada à universidade tem mais dois aspectos desapontadores. O primeiro deles é o da fraude, no conhecimento prévio das questões a serem propostas. O segundo exemplo está nas cotas para ingresso na universidade, com reserva privilegiada pela cor. As cotas também se ligam à política adotada nos últimos cinquenta anos, quando se passou a defender a ideia de que quanto mais ampla for a base quantitativa da pirâmide do ensino, mais se garantirá a qualidade dos que chegarem ao topo da mesma pirâmide. A prática não parece ter confirmado a garantia de qualidade proporcional expandida.

Efetivamente, a se julgar pela educação superior no Brasil, o número de doutores em todas as carreiras cresceu em proporção, mas a simples quantificação não resolve, até mesmo no sistema de cotas - compreensível por período breve, mas não a título permanente.

Com olhos para a Constituição e para os números, o nível de participação nas camadas em preparo para qualquer ramo da atividade profissional dos formandos ainda não foi avaliado de modo merecedor da confiança de todos. É objetivo a ser perseguido, para o "pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho" (Constituição, art. 205). Deve ser o centro da preocupação maior de todos nós, para que a súmula clara da Carta Magna não seja sacrificada, com grave prejuízo para o futuro da educação neste país.

É pouco e é muito - CRISTOVAM BUARQUE

O GLOBO - 14/07


O Brasil, sexta economia do mundo, tem renda anual de R$ 4,3 trilhões. De acordo com o Banco Central, o valor das dívidas corresponde a 43,3% da renda das famílias no ano. O governo abre mão de aproximadamente R$ 116 bilhões, quase 3% do PIB, sob a forma de incentivos fiscais todo ano. Desse montante no ano passado, R$ 20 bilhões só na indústria automobilística. Somente os Poderes Legislativo e Judiciário necessitam de quase R$ 30 bilhões por ano. Estima-se que os investimentos da Copa, Olimpíadas, Trem-Bala e Belo Monte vão exigir R$ 167 bilhões, ao longo de alguns anos. O gasto com o INSS é da ordem de 7,2% do PIB, e os serviços da dívida pública consomem 5,1% do PIB.

Há recursos para gastar 10% do PIB com educação (4,9% além dos atuais 5,12%), bastaria mudar as prioridades. A questão central é se há prioridade maior para a educação, em comparação com os demais setores. Mas o menosprezo brasileiro com a educação é cultural.

Por alguma razão na formação do espírito nacional, não consideramos educação como indicador de riqueza de uma pessoa, nem do conjunto dos brasileiros. Ser culto não é visto como um indicador de status social. Os educadores e os filósofos são pouco valorizados. Mesmo quem paga a escola privada do filho, em geral, não busca a educação em si, investe no salário adicional que ele terá no futuro graças ao estudo.

Politicamente, no Brasil, tudo que é para a maioria pobre fica abandonado, depois que os relativamente ricos resolvem seus problemas. E os filhos dos ricos podem pagar a escola privada, recebendo do governo cerca de R$ 4 bilhões de dedução do Imposto de Renda por ano. É assim com a saúde, o transporte, a segurança e também com a educação, que caracterizam a nossa maneira de ser. O desprezo para com a educação é também uma questão de imprevidência e de preferência pelo imediatismo. Educação é uma poupança fundamental para o futuro do país e de cada família, mas que não permite a satisfação do consumo no presente. Orgulha-nos termos a 6 maior renda nacional do mundo, e não nos envergonha sermos o 88 país em educação; nem percebemos a ameaça que esta classificação provoca para o futuro.

É possível encontrar recursos para investir até 10% do PIB na educação, se eliminarmos privilégios e desperdícios e mudarmos as atuais prioridades. Ainda se não quisermos mudar as prioridades, poderemos pensar em outros instrumentos fiscais ou mesmo em empréstimo provisório para investir em educação.

O problema, portanto, não é a falta de recursos, mas o risco de termos excesso de recursos para a educação. Se investirmos 10% no atual sistema de educação, correremos o risco de desperdiçar dinheiro. Se todo este recurso for aplicado nas atuais unidades de ensino, o sistema não seria capaz de absorvê-lo com eficiência. Serão comprados equipamentos que ficarão engavetados e haverá aumento dos salários sem a correspondente elevação na qualificação e na dedicação dos professores.

O problema principal não é onde conseguir os 4,9% do PIB que faltam para chegar aos 10% previstos na meta 20 do segundo PNE - Plano Nacional de Educação. O problema central é como aplicar esses recursos, depois de identificar as fontes.

Uma maneira eficiente de investir na educação seria implantar um novo sistema de educação, com paulatina federalização da educação de base; criação de uma carreira nacional do professor, com salário de R$ 9 mil por mês para os docentes desta nova carreira, que ficariam sujeitos à avaliação que poderá ocasionar demissão; e adoção da educação em horário integral, em escolas confortáveis, bonitas e bem equipadas. A implantação deste novo sistema, ao longo de 20 anos, requererá, no final, 6,4% do PIB.

O segundo PNE aprovado pela Câmara de Deputados é um conjunto de intenções sem projetos, propostas e operacionalidade. A prova é que, em vez de estimar seu custo, definiu-se arbitrariamente 10% do PIB para a educação, por coincidência o mesmo percentual que a PEC 169/1993 destinou para a saúde. O valor proposto pelo PNE II é pouco diante da riqueza da economia brasileira, mas é muito se for para aplicar no atual sistema, sem definições, sem mudanças e sem clareza.

CLAUDIO HUMBERTO

“O nosso caminho não é igual ao deles [europeus]”
Presidente Dilma, cuja política econômica proporciona um ‘Pibinho’ de padrão europeu

BRONCA DE BRAGA EM IDELI ACABA IRRITANDO DILMA

A cena não sai da cabeça das poucas testemunhas: habituado a dar broncas humilhantes em seus assessores, o senador Eduardo Braga (PMDB-AM), líder do governo no Senado, adotou a mesma atitude com a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), recentemente, numa conversa momentos antes de reunião com a presidente Dilma Rousseff, e se deu mal. Dilma ouviu tudo e tomou as dores da ministra.

ENQUADROU

Além de repreender o senador, Dilma foi solidária a Ideli: “Quem cuida da articulação política do governo é a ministra”. Braga ficou calado.

PLATEIA QUALIFICADA

A bronca de Eduardo Braga em Ideli e o troco da presidente Dilma foram testemunhados por funcionários graduados do governo.

UM CAVALHEIRO

Fontes do Planalto confessaram sua perplexidade à coluna, porque a imagem que tinham de Eduardo Braga era a de um gentleman.

BARRA PESADA

Há relatos de humilhações de Eduardo Braga contra assessores que tornam exemplo de delicadeza o jeito Dilma de tratar subordinados.

GREVE AFASTA GOVERNADOR DE CAMPANHA NA BAHIA

Desgastado com a greve dos professores, que já dura 95 dias na Bahia, o governador Jaques Wagner (PT) está recluso da campanha do petista Nelson Pellegrino à Prefeitura de Salvador. Ele quer evitar que o clima prejudique a campanha petista pela prefeitura da capital baiana. Pellegrino ficou aliviado. Em pé de guerra, educadores têm vaiado Wagner em todos os eventos dos quais ele ainda ousa participar.

SEM CONTROLE

O presidente do Sindicado dos Trabalhadores em Educação da Bahia, Rui Oliveira, é do PCdoB, sigla aliada de Jaques Wagner e Pellegrino.

PRÓPRIO VENENO

O inferno astral de Jaques Wagner faz a delícia de empresários que foram atormentados pelo seu radicalismo quando foi sindicalista.

CAFÉ COM LEITE

Dez candidatos à Prefeitura de Fortaleza deram largada na disputa pela capital cearense. Três são café com leite: do PRTB, PSTU e PPL.

SESSÃO HOT

No Senado, um escândalo é bem mais comentado que a cassação de Demóstenes Torres: circula na internet um vídeo com cenas tórridas, explícitas mesmo, de uma estonteante funcionária do gabinete do senador Ciro Nogueira (PP-PI) com o namorado dela.

MAIS DO MESMO

O senador Blairo Maggi (PR-MT) vai se licenciar em 17 de agosto. Assumirá o suplente José Aparecido dos Santos, Cidinho, ex-prefeito de Marilândia que teve as contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas.

CONJUNTO COMPLETO

Agora não falta mais nada: a lona do Circo Tihany passou a fazer parte da paisagem da Esplanada dos Ministérios, conjunto arquitetônico composto pelas sedes dos poderes e a Catedral de Brasília. Estreia hoje.

PAÍS RICO

A Funarte não mostra serviço, mas prorroga contratos milionários que é uma beleza. Dois deles, somando

R$ 22,5 milhões, fizeram a festa de uma empresa de terceirização de mão de obra, a Personal Service.

O DEMOLIDOR

Membros do PSDB estão em pé de guerra com o governador Beto Richa, que não articulou candidatura própria em nenhuma das quinze principais cidades do Paraná: “Ele está destruindo o PSDB”, criticam.

SEGURANÇA ALIMENTAR

O vice Michel Temer e o ministro Antonio Patriota (Itamaraty) viajam a Maputo, Moçambique, terça (17), para a reunião da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa sobre segurança alimentar e nutricional.

CONFUSÕES ELEITORAIS

Após imbróglio em Juazeiro, na Bahia, onde o PT havia se registrado em duas chapas adversárias, o partido decidiu vetar a candidatura de Joseph Bandeira (PT) e se manter na vice de Isaac Carvalho (PCdoB).

CANAL ABERTO

A TV Senado chegará, finalmente, ao Pará em sinal aberto. Enquanto governou o Estado, o PT impedia, porque os três senadores eram de oposição: Flexa Ribeiro e Mário Couto, tucanos, e José Nery, do PSOL.

PERGUNTA NO SEGURO-DESEMPREGO

Se o PIB não mede uma nação, como preconiza Dilma, o “Pibinho” serve para atestar a falência de sua política econômica?

PODER SEM PUDOR

A NAMORADA DE PIMENTA

Cansado, o então ministro Pedro Parente tirou uns dias de folga. Ficou longe de tudo e de todos, principalmente dos jornais e da TV, mas atendeu ao telefonema da mulher, jornalista, naquela noite de 20 de agosto de 2000:

- Pedro, o Pimenta matou a namorada!

O ministro-chefe da Casa Civil de FHC quase teve um enfarte:

- Meus Deus, que desgraça!... E eu nem sabia que ele tinha namorada!

Por um instante, ele achou que ela se referia ao ministro Pimenta da Veiga (Comunicações) - cuja namorada, aliás, é a própria mulher, Ana Paola.

SÁBADO NOS JORNAIS


- Globo: Governo cede e aumenta professores em até 48%
- Folha: Em quatro horas, PMs matam oito suspeitos em SP
- Estadão: Mercado reage bem à alta do diesel e caixa da Petrobrás terá reforço
- Correio: Governo só garante reajuste a professor
- Estado de Minas: Diesel aquece a inflação
- Zero Hora: Técnicos do Ministério da Saúde vêm ao Estado avalir casos de gripe A

sexta-feira, julho 13, 2012

Notório cartório - DORA KRAMER


O Estado de S. Paulo - 13/07


Muito admira a decisão da senadora Kátia Abreu de abrir dissidência assim como causa espanto o gesto do ex-deputado Roberto Brant de deixar o PSD em reação ao modo como o prefeito Gilberto Kassab conduz o partido.

Ambos consideraram "truculenta" a intervenção na seção mineira para propiciar o rompimento do compromisso firmado com a campanha à reeleição do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, e adesão à candidatura do petista Patrus Ananias.

Compararam o ato a ações de velhos coronéis, denunciaram desrespeito a políticos locais, reclamaram da ausência de diálogo, falaram em abuso de poder e, em carta enviada ao prefeito de São Paulo, qualificada pela autora como "desaforada", a senadora apontou "dano grave ao espírito do nosso partido".

Melífluo, Kassab preferiu o elogio ao confronto, reiterando voto de "respeito e admiração" à correligionária. Mas, se quisesse acirrar poderia perguntar a qual espírito partidário mesmo se referiu a senadora.

Tanto ela quanto Brant ou quem mais esteja insatisfeito com a condução que Kassab dá ao PSD sabiam muito bem onde estavam pisando quando se associaram a um projeto desprovido de sentido doutrinário, arquitetado com o explícito propósito de se inserir com rapidez no quadro partidário sob a égide do pragmatismo em sua feição mais extremada.

Aqui a cigana não enganou ninguém. Kassab nunca escondeu que criava uma legenda para dar continuidade à sua carreira política pós-prefeitura, já que via seu então partido, o DEM, como uma confederação de náufragos condenados ao abraço dos afogados.

A natureza do negócio sempre esteve muito clara: uma agremiação para servir de pau para toda obra, a depender dos interesses da ocasião. Um notório cartório no comando do qual Gilberto Kassab carimba alianças sob o único critério da obtenção da vantagem imediata.

Aderiu quem quis e não viu nada demais em migrar do dia para a noite da mais ferrenha oposição à profunda afeição ao governo federal.

Assinou embaixo quem não viu nada de esquisito no fato de o PSD ter se transformado em sublegenda de todos os governados de estado, à exceção de São Paulo e Rio Grande do Sul onde, no entanto, se abrigou em alianças para a eleição municipal de lógicas completamente díspares tanto em relação à afinidade com o PT no plano federal – ao ficar com o PSDB na capital paulista – quanto no tocante à origem da maioria centro-direitista dos sócios fundadores – ao se unir ao PCdoB gaúcho.

Não por outro motivo a não ser a ausência de balizas, o novo partido conseguiu rapidamente formar uma bancada tão robusta na Câmara que levou a Justiça a ignorar a legislação vigente e adotar uma "interpretação realista" para a concessão ao PSD de tempo de propaganda gratuita e acesso ao dinheiro do fundo partidário.

Embarcaram todos na norma pragmática de Kassab, celebrado como o mais novo gênio da raça da política nacional.

Uma vez atropelados os princípios e a prática sendo aceita como expressão de competência, reclamar agora do quê?

Queixaram-se os revoltosos de que em um ano e meio a executiva nacional não se reuniu uma única vez, que as decisões são tomadas de forma autocrática por Kassab, que não há democracia interna nem vida partidária.

Ora, uma legenda fundada nas bases em que se criou o PSD, sem a menor preocupação com o aperfeiçoamento dos costumes da nossa desgastada política, ao contrário, aprofundando todas as deformações existentes, não obedeceria mesmo aos preceitos de "lealdade e respeito" que foram infringidas no dizer da senadora Kátia Abreu.

Gilberto Kassab não cometeu infração alguma no tocante ao que se propôs. Não incorreu em desvio de rumo nem deveria surpreender ninguém. Muito menos os que viram no projeto dele uma janela de oportunidade.

Ademais, com todo respeito que merece a combatividade da senadora, considerar Gilberto Kassab "um rapaz moderno de São Paulo", francamente, não faz jus à perspicácia que sempre exibiu no exercício do mandato.