domingo, abril 22, 2012
Os ladinos, os bobos e a esperança - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 22/04/12
"Tenho a certeza de que, após a deflagração desta operação, muitos dirão que o jogo ilegal era reprimido em Goiás. Não é verdade." Esta é a opinião do juiz federal Paulo Augusto Moreira Lima, manifestada por escrito na decisão em que deferiu o pedido da Polícia Federal para que, com base no que se apurou na Operação Monte Carlo, fosse decretada a prisão do contraventor Carlinhos Cachoeira, cujas trampolinagens serão agora objeto de investigação também pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) em processo de constituição no Congresso Nacional.
Para o magistrado, a "assustadora" ingerência da quadrilha de Cachoeira no Estado de Goiás, particularmente no que diz respeito ao aparelho policial, resultou numa enorme farsa no combate à rede de meliantes que, sob o comando daquela figura notória, explora a jogatina no Estado: "É a famosa conversa de ladino para bobo. Tínhamos 'pseudoatuações' e simulação de persecução penal, para conferir impressão de enfrentamento ao crime", afirma o juiz em seu despacho de 23 de fevereiro. E assim, tendo as garantias da impunidade, Carlinhos Cachoeira comandou o crime em Goiás por 17 anos.
A manifestação do magistrado goiano só não é completamente estarrecedora porque, a partir da prisão de Cachoeira, não houve um só dia em que novas revelações não tenham escancarado a extensão e a profundidade da ação criminosa daquela quadrilha e seus cúmplices - agentes oficiais e privados -, não apenas em Goiás, mas em praticamente todo o País, e em todos os níveis de governo.
Por exemplo, está na berlinda o governador tucano Marconi Perillo, cujo governo, como as evidências sugerem, parece ter o rabo preso com o meliante. E a mesma suposição é válida para o governo petista do Distrito Federal e sabe-se lá quantas outras administrações públicas, a começar pela federal, que tem na Construtora Delta, a maior beneficiária das obras do PAC, um prestador de serviços envolvido no esquema corruptor de Carlinhos Cachoeira.
O Brasil já perdeu, no escândalo do mensalão, em 2005, uma excelente oportunidade de ir a fundo no combate à corrupção na vida pública. A deliberada omissão e conivência dos governantes e políticos em geral, inclusive os da oposição, permitiu que os principais responsáveis saíssem do escândalo incólumes - a não ser aqueles que ainda correm o risco de ser condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) - e até fortalecidos nas urnas, a ponto de se sentirem à vontade para definir o episódio como "farsa". Como consequência, durante o segundo mandato de Lula, o relacionamento espúrio entre agentes públicos e privados, como têm revelado as investigações da Polícia Federal, criou raízes cuja extensão talvez agora se revele, se a CPI do Cachoeira não terminar em pizza.
Ecoando as palavras do magistrado federal que olha para o aparato policial do Estado de Goiás e vê uma organização criminosa, as atenções dos brasileiros que ainda têm capacidade de se indignar com a dissolução ética e moral que parece dominar a coisa pública começam a se voltar para o julgamento do processo do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal, e para os trabalhos da nova CPI, que poderão ajudar a remover parte do entulho de corrupção que contamina o País.
A rara convergência das forças parlamentares do governo e da oposição a favor da instalação da CPI do Cachoeira seria uma notícia auspiciosa se não se soubesse que o que cada banda pretende não é mais do que colocar a outra na linha de fogo.
O Partido dos Trabalhadores, atiçado por Lula, entra na refrega com a faca nos dentes, sequioso por demonstrar que os criadores da "farsa do mensalão" não têm idoneidade para acusá-lo de nada. Os oposicionistas querem botar lenha na fogueira de um novo "mensalão", talvez como recurso derradeiro para obstar a hegemonia política do lulopetismo nas próximas décadas. O PMDB, com astúcia, permanece atento às oportunidades que certamente surgirão para aumentar seu cacife na partilha do butim. E o Palácio do Planalto, comprometido com as reiteradas manifestações de Dilma Rousseff a favor da "transparência", atua discreta e diligentemente para manter a CPI sob controle. Para o distinto público resta a esperança!
Uma empresa de um novo Brasil - ELIO GASPARI
O GLOBO - 22/04/12
COMO DIRIA Bob Dylan, alguma coisa está acontecendo aqui, mr. Jones, mas você não sabe o que é. Na semana passada, a empresa brasileira BRMalls, que é dona e/ou administradora de 46 shoppings em 15 Estados e 29 cidades, anunciou que no primeiro trimestre deste ano seu faturamento cresceu 25%, chegando a R$ 4,1 bilhões.
Ela surgiu há cinco anos, com seis pequenos shoppings. Tornou-se a líder do mercado e no ano passado seus centros comerciais tiveram 360 milhões de visitantes, que movimentaram R$ 16 bilhões. Suas ações valorizaram-se 360%. A empresa vale R$ 10 bilhões.
Mr. Jones tem dificuldade para entender isso, sobretudo porque ele viu as imagens de shoppings vazios na China, por excesso de oferta. O êxito do BRMalls reflete a conjunção de três acertos: percebeu que o consumidor brasileiro mudou, viu que quem investe ganha dinheiro e entrou no mercado com uma gestão profissional e meritocrática.
Entre 2008 e 2010, a empresa tomou um olho roxo metendo-se a administrar a Daslu, templo de exibicionismo da grã-finagem nacional.
Hoje a clientela dos shoppings da BRMalls é a chamada classe média emergente, um nome chique para o que nada mais é que o trabalhador brasileiro. As classes B e C têm uma renda familiar que vai de R$ 1.600 a R$ 6.900. Em 2003, havia 66 milhões de pessoas na classe C. Em 2009, chegaram a 95 milhões e, em 2014, poderão ser 113 milhões.
Enquanto no andar de cima o dinheiro que sobra vai para investimentos e no de baixo vai para alimentação, esse segmento consome. De uma maneira geral, nessa faixa a renda dos trabalhadores cresceu 9%, contra uma inflação de 5%. O freguês dos shoppings gasta em média cerca de R$ 70.
A empresa acreditou na expansão do mercado, na ampliação do acesso ao crédito e na queda dos juros. Em janeiro de 2007, a taxa Selic estava a 13,25% ao ano e agora está em 9%, com os bancos finalmente competindo nos custos que jogam em cima de seus clientes. A BRMalls investiu R$ 6 bilhões, no ano passado abriu um grande shopping na Mooca (SP), outro no Irajá (RJ) e inaugurará um terceiro em cima da rodoviária de Belo Horizonte.
Até aí o êxito foi da empresa para fora. Para dentro, enquanto o comércio é controlado por empresas familiares, a BRMalls é inteiramente profissional. Parente, nem namorada. A idade média de seus 350 funcionários está em 30 anos. Quando foi criada, tinha 15 sócios e a cada ano promove três pessoas de seu quadro. Hoje são 27. Todos os funcionários ganham bônus, mas se um leva dois salários, o melhor leva 20. Um craque que entra na empresa aos 25 anos pode sonhar em fechar seu primeiro milhão de reais aos 30.
A BRMalls descende da cabeça de Jorge Paulo Lemann, o empresário que mais produziu milionários na história do Brasil e também o que mais botou dinheiro em atividades filantrópicas. Seu negócio é a caça ao mérito. Formado no sistema financeiro, hoje tem os pés na produção (AmBev). Na lista da Forbes, além dele, com US$ 12 bilhões, há duas de suas crias: Marcel Telles (US$ 5,7 bilhões) e Carlos Alberto Sicupira (US$ 5,2 bilhões).
O sucesso da BRMalls deve-se a Carlos Medeiros, seu executivo-chefe. Ele organizou a empresa aos 33 anos, vindo do banco de investimentos de Lemann. Fala pouco, não vai a Brasília desde 1998 e, nos últimos cinco anos, jamais pisou no BNDES. Viaja com mala de mão e o que gosta mesmo é de correr maratonas pelo mundo afora. A BRMalls trabalha com uma infantaria de 3.000 funcionários nos shoppings. Vai dar trabalho, mas Medeiros acredita que conseguirá desenhar um sistema de bonificação (por meio de ações) para uma parte dessa tropa.
AO CARPATHIA
O comissariado petista desistiu da ideia de procrastinar o julgamento do mensalão. Discute-se agora quem conseguirá chegar ao Carpathia, o navio que recolheu um terço dos passageiros do transatlântico cujo naufrágio completou cem anos.
Ele recolheu um terço dos desabrigados. (Como o outro barco não trazia sorte para quem se metia com ele, o Carpathia foi torpedeado em 1918, quatro meses antes do fim da Primeira Guerra.)
DESASTRE
Numa longa entrevista ao repórter Carlos Costa em que criticou a ação da ministra Eliana Calmon, corregedora do Conselho Nacional de Justiça, o ministro Cezar Peluso lembrou que, trabalhando na corregedoria do Tribunal de Justiça de São Paulo, lidava assim com alguns juízes: "Chamávamos os envolvidos e abríamos o jogo: 'Temos tantas provas contra vocês e, se não forem para a rua agora, iremos abrir processo. Nunca fizemos escarcéu com esses casos".
De fato, houve um caso em que pouca gente ouviu o grampo. O que faltou foi escarcéu.
SÉRGIO KIRCHNER
Cristina Kirchner assumiu o controle da petrolífera YPF em nome do futuro da Argentina. Pelo menos é o que ela diz.
O governador Sérgio Cabral desapropriou um edifício de 13 andares avaliado em R$ 500 milhões, onde funcionam 14 grandes empresas, nas quais trabalham 4.000 pessoas, para servir de anexo à Assembleia Legislativa e dar conforto a 70 deputados.
Até 2011, 33 deles estavam espetados na Justiça.
Quem sabe, até o fim do mandato, desapropriará sua casa de Mangaratiba para servir de colônia de praia para os deputados.
A ANS precisa fiscalizar o que diz
A Agência Nacional de Saúde Suplementar deveria cuidar melhor do que diz à patuleia. No domingo passado leu-se aqui que a professora Lígia Bahia tivera uma pesquisa feita para o CNPq rebarbada e estava convidada a devolver R$ 141 mil à Viúva. O trabalho mostrava as debilidades do atendimento dos planos de saúde privados que a agência é paga para fiscalizar.
No dia seguinte, numa nota oficial, os doutores informaram que “a ANS tem reiteradamente solicitado ao CNPq a entrega da referida pesquisa ou a devolução dos valores pagos, o que não foi feito até o momento”.
Horas depois, a agência divulgou outra nota. Nela, enfiaram o seguinte: “No segundo semestre de 2011, em reunião do CNPq com a ANS, obteve-se o que seria relatório da pesquisadora, Dr+. Lígia Bahia, que não guardava relação com o plano de trabalho, razão pela qual a ANS considerou a pesquisa como não realizada.”
Primeiro a professora foi acusada de não ter entregue o serviço encomendado, o que não é pouca coisa. Na mesma tarde, o centro da questão migrou para a discussão de sua qualidade, o que é outra coisa.
Fizeram isso sem explicar o que foi feito da primeira acusação. Como os doutores dizem, “a ANS se pauta pela transparência”. É tão transparente que, por meio dela, não se vê nada.
COMO DIRIA Bob Dylan, alguma coisa está acontecendo aqui, mr. Jones, mas você não sabe o que é. Na semana passada, a empresa brasileira BRMalls, que é dona e/ou administradora de 46 shoppings em 15 Estados e 29 cidades, anunciou que no primeiro trimestre deste ano seu faturamento cresceu 25%, chegando a R$ 4,1 bilhões.
Ela surgiu há cinco anos, com seis pequenos shoppings. Tornou-se a líder do mercado e no ano passado seus centros comerciais tiveram 360 milhões de visitantes, que movimentaram R$ 16 bilhões. Suas ações valorizaram-se 360%. A empresa vale R$ 10 bilhões.
Mr. Jones tem dificuldade para entender isso, sobretudo porque ele viu as imagens de shoppings vazios na China, por excesso de oferta. O êxito do BRMalls reflete a conjunção de três acertos: percebeu que o consumidor brasileiro mudou, viu que quem investe ganha dinheiro e entrou no mercado com uma gestão profissional e meritocrática.
Entre 2008 e 2010, a empresa tomou um olho roxo metendo-se a administrar a Daslu, templo de exibicionismo da grã-finagem nacional.
Hoje a clientela dos shoppings da BRMalls é a chamada classe média emergente, um nome chique para o que nada mais é que o trabalhador brasileiro. As classes B e C têm uma renda familiar que vai de R$ 1.600 a R$ 6.900. Em 2003, havia 66 milhões de pessoas na classe C. Em 2009, chegaram a 95 milhões e, em 2014, poderão ser 113 milhões.
Enquanto no andar de cima o dinheiro que sobra vai para investimentos e no de baixo vai para alimentação, esse segmento consome. De uma maneira geral, nessa faixa a renda dos trabalhadores cresceu 9%, contra uma inflação de 5%. O freguês dos shoppings gasta em média cerca de R$ 70.
A empresa acreditou na expansão do mercado, na ampliação do acesso ao crédito e na queda dos juros. Em janeiro de 2007, a taxa Selic estava a 13,25% ao ano e agora está em 9%, com os bancos finalmente competindo nos custos que jogam em cima de seus clientes. A BRMalls investiu R$ 6 bilhões, no ano passado abriu um grande shopping na Mooca (SP), outro no Irajá (RJ) e inaugurará um terceiro em cima da rodoviária de Belo Horizonte.
Até aí o êxito foi da empresa para fora. Para dentro, enquanto o comércio é controlado por empresas familiares, a BRMalls é inteiramente profissional. Parente, nem namorada. A idade média de seus 350 funcionários está em 30 anos. Quando foi criada, tinha 15 sócios e a cada ano promove três pessoas de seu quadro. Hoje são 27. Todos os funcionários ganham bônus, mas se um leva dois salários, o melhor leva 20. Um craque que entra na empresa aos 25 anos pode sonhar em fechar seu primeiro milhão de reais aos 30.
A BRMalls descende da cabeça de Jorge Paulo Lemann, o empresário que mais produziu milionários na história do Brasil e também o que mais botou dinheiro em atividades filantrópicas. Seu negócio é a caça ao mérito. Formado no sistema financeiro, hoje tem os pés na produção (AmBev). Na lista da Forbes, além dele, com US$ 12 bilhões, há duas de suas crias: Marcel Telles (US$ 5,7 bilhões) e Carlos Alberto Sicupira (US$ 5,2 bilhões).
O sucesso da BRMalls deve-se a Carlos Medeiros, seu executivo-chefe. Ele organizou a empresa aos 33 anos, vindo do banco de investimentos de Lemann. Fala pouco, não vai a Brasília desde 1998 e, nos últimos cinco anos, jamais pisou no BNDES. Viaja com mala de mão e o que gosta mesmo é de correr maratonas pelo mundo afora. A BRMalls trabalha com uma infantaria de 3.000 funcionários nos shoppings. Vai dar trabalho, mas Medeiros acredita que conseguirá desenhar um sistema de bonificação (por meio de ações) para uma parte dessa tropa.
AO CARPATHIA
O comissariado petista desistiu da ideia de procrastinar o julgamento do mensalão. Discute-se agora quem conseguirá chegar ao Carpathia, o navio que recolheu um terço dos passageiros do transatlântico cujo naufrágio completou cem anos.
Ele recolheu um terço dos desabrigados. (Como o outro barco não trazia sorte para quem se metia com ele, o Carpathia foi torpedeado em 1918, quatro meses antes do fim da Primeira Guerra.)
DESASTRE
Numa longa entrevista ao repórter Carlos Costa em que criticou a ação da ministra Eliana Calmon, corregedora do Conselho Nacional de Justiça, o ministro Cezar Peluso lembrou que, trabalhando na corregedoria do Tribunal de Justiça de São Paulo, lidava assim com alguns juízes: "Chamávamos os envolvidos e abríamos o jogo: 'Temos tantas provas contra vocês e, se não forem para a rua agora, iremos abrir processo. Nunca fizemos escarcéu com esses casos".
De fato, houve um caso em que pouca gente ouviu o grampo. O que faltou foi escarcéu.
SÉRGIO KIRCHNER
Cristina Kirchner assumiu o controle da petrolífera YPF em nome do futuro da Argentina. Pelo menos é o que ela diz.
O governador Sérgio Cabral desapropriou um edifício de 13 andares avaliado em R$ 500 milhões, onde funcionam 14 grandes empresas, nas quais trabalham 4.000 pessoas, para servir de anexo à Assembleia Legislativa e dar conforto a 70 deputados.
Até 2011, 33 deles estavam espetados na Justiça.
Quem sabe, até o fim do mandato, desapropriará sua casa de Mangaratiba para servir de colônia de praia para os deputados.
A ANS precisa fiscalizar o que diz
A Agência Nacional de Saúde Suplementar deveria cuidar melhor do que diz à patuleia. No domingo passado leu-se aqui que a professora Lígia Bahia tivera uma pesquisa feita para o CNPq rebarbada e estava convidada a devolver R$ 141 mil à Viúva. O trabalho mostrava as debilidades do atendimento dos planos de saúde privados que a agência é paga para fiscalizar.
No dia seguinte, numa nota oficial, os doutores informaram que “a ANS tem reiteradamente solicitado ao CNPq a entrega da referida pesquisa ou a devolução dos valores pagos, o que não foi feito até o momento”.
Horas depois, a agência divulgou outra nota. Nela, enfiaram o seguinte: “No segundo semestre de 2011, em reunião do CNPq com a ANS, obteve-se o que seria relatório da pesquisadora, Dr+. Lígia Bahia, que não guardava relação com o plano de trabalho, razão pela qual a ANS considerou a pesquisa como não realizada.”
Primeiro a professora foi acusada de não ter entregue o serviço encomendado, o que não é pouca coisa. Na mesma tarde, o centro da questão migrou para a discussão de sua qualidade, o que é outra coisa.
Fizeram isso sem explicar o que foi feito da primeira acusação. Como os doutores dizem, “a ANS se pauta pela transparência”. É tão transparente que, por meio dela, não se vê nada.
Virando anedota - LUIZ FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 22/04/12
A oposição entre corpo e alma não existia em tempos bíblicos, ou pelo menos na linguagem bíblica. Mas a versão em latim antigo das Escrituras que Santo Agostinho lia usava “anima” para traduzir “nefesh”, que em hebraico não quer dizer alma mas algo como sopro vital, ser, uma forma exaltada do “eu”. E foi nesse engano que tudo começou. A alma e o corpo se separaram e nunca mais se encontraram. E nunca mais se pode ler o Velho Testamento a não ser como Agostinho o lia, não como um relato da aventura do corpo humano no mundo como Deus o fez, cheio de som, fúria, sangue e sacanagem, mas como uma alegoria espiritual, em que até os cantares eróticos de Salomão queriam dizer outra coisa: a luta da alma para transcender o corpo, que para Agostinho significava a sexualidade. Tudo culpa de um mau tradutor.
Freud tentou, de certa maneira, retransformar “anima” em “nefesh”, mas como muito do que ele escreveu em alemão também foi mal traduzido em outras línguas, a confusão só aumentou. No fim a grande danação sob a qual vive a humanidade não é a da História nem da carne, é a insanável danação de Babel. Deus disse “que haja muitas línguas, e que cada língua tenha muitos dialetos”. E depois, para ter certeza que os homens nunca mais se entenderiam, completou: “E que haja tradutores”.
Um estudo, mesmo superficial como o meu, da etimologia e das transformações que as palavras sofrem através do tempo e das más traduções revela coisas fascinantes. “Escândalo” – uma palavra que nos diz muito respeito – está indiretamente ligado, na sua origem, aos pés. Sua raiz indo-europeia é “skand”, pular ou subir, de onde também vem escalada. Quem pula ou sobe precisa cuidar onde põe os pés e o grego “skandalon” significa um obstáculo ou uma armadilha. “Scandalum” em latim tanto pode significar tentação como armadilha. No francês antigo “scandal” era um comportamento anti-religioso que agredia a Igreja toda-poderosa e, da mesma origem, existia a palavra “sclaudre”, de onde vem o inglês “slander”, ou difamação.
Alguns escândalos não investigados, como acontece muito no Brasil, acabam virando anedotas. “Anedota” vem, através do francês “anecdote”, do grego “anekdotos”, história não publicada, presumivelmente tanto no sentido de inédita quanto no sentido de versão não oficial, secreta, clandestina, enfim, tipo “em Brasília não se fala em outra coisa”.
Em francês queria dizer pequeno relato ilustrativo à margem de um relato maior. No seu sentido brasileiro continua sendo uma história marginal, só que engraçada, ou se esforçando para ser. Sobrevive, na anedota, a tradição homérica da literatura oral, passada de geração a geração sem necessidade de escrita. Se for escrita, deixa de ser anedota. Muitos contadores anotam o fim da anedota para não esquecê-la mas se sentiriam heréticos se a escrevessem toda. E assim correm o risco de esquecerem o resto e ficarem com uma coleção de últimas frases sem sentido.
A oposição entre corpo e alma não existia em tempos bíblicos, ou pelo menos na linguagem bíblica. Mas a versão em latim antigo das Escrituras que Santo Agostinho lia usava “anima” para traduzir “nefesh”, que em hebraico não quer dizer alma mas algo como sopro vital, ser, uma forma exaltada do “eu”. E foi nesse engano que tudo começou. A alma e o corpo se separaram e nunca mais se encontraram. E nunca mais se pode ler o Velho Testamento a não ser como Agostinho o lia, não como um relato da aventura do corpo humano no mundo como Deus o fez, cheio de som, fúria, sangue e sacanagem, mas como uma alegoria espiritual, em que até os cantares eróticos de Salomão queriam dizer outra coisa: a luta da alma para transcender o corpo, que para Agostinho significava a sexualidade. Tudo culpa de um mau tradutor.
Freud tentou, de certa maneira, retransformar “anima” em “nefesh”, mas como muito do que ele escreveu em alemão também foi mal traduzido em outras línguas, a confusão só aumentou. No fim a grande danação sob a qual vive a humanidade não é a da História nem da carne, é a insanável danação de Babel. Deus disse “que haja muitas línguas, e que cada língua tenha muitos dialetos”. E depois, para ter certeza que os homens nunca mais se entenderiam, completou: “E que haja tradutores”.
Um estudo, mesmo superficial como o meu, da etimologia e das transformações que as palavras sofrem através do tempo e das más traduções revela coisas fascinantes. “Escândalo” – uma palavra que nos diz muito respeito – está indiretamente ligado, na sua origem, aos pés. Sua raiz indo-europeia é “skand”, pular ou subir, de onde também vem escalada. Quem pula ou sobe precisa cuidar onde põe os pés e o grego “skandalon” significa um obstáculo ou uma armadilha. “Scandalum” em latim tanto pode significar tentação como armadilha. No francês antigo “scandal” era um comportamento anti-religioso que agredia a Igreja toda-poderosa e, da mesma origem, existia a palavra “sclaudre”, de onde vem o inglês “slander”, ou difamação.
Alguns escândalos não investigados, como acontece muito no Brasil, acabam virando anedotas. “Anedota” vem, através do francês “anecdote”, do grego “anekdotos”, história não publicada, presumivelmente tanto no sentido de inédita quanto no sentido de versão não oficial, secreta, clandestina, enfim, tipo “em Brasília não se fala em outra coisa”.
Em francês queria dizer pequeno relato ilustrativo à margem de um relato maior. No seu sentido brasileiro continua sendo uma história marginal, só que engraçada, ou se esforçando para ser. Sobrevive, na anedota, a tradição homérica da literatura oral, passada de geração a geração sem necessidade de escrita. Se for escrita, deixa de ser anedota. Muitos contadores anotam o fim da anedota para não esquecê-la mas se sentiriam heréticos se a escrevessem toda. E assim correm o risco de esquecerem o resto e ficarem com uma coleção de últimas frases sem sentido.
Dois homens e um destino - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 22/04/12
Hoje, 40 milhões de eleitores da França abrem o processo de escolha do presidente do país para o período 2012-2017.
São dez os candidatos, mas somente dois chegarão ao segundo turno, marcado para o dia 6 de maio. O conservador Nicolas Sarkozy, em busca da reeleição, e o socialista François Hollande têm condições práticas de chegar lá. As pesquisas dão a vitória por folgada margem a Hollande no segundo turno, mas, entre a sela e o chão - escreveu Graham Greene -, muita coisa pode acontecer.
Sarkozy, o atual presidente, tem contra si o passivo da crise, especialmente a dívida da França que saltou dos 64% do PIB em 2007 para os atuais 83% do PIB; mais o rebaixamento da qualidade e forte ameaça de rejeição dos títulos do Tesouro da França, o que dificulta a rolagem dessa dívida; uma economia estagnada; indústria sob grave esvaziamento; e desemprego no recorde dos 10% da população ativa. (Veja, no Confira, a ficha da França.)
O projeto para sair desta crise do sempre elétrico Sarkozy não vai muito além da meia solução que está sendo montada pelos atuais líderes do bloco do euro, com a diferença de que, nas últimas semanas, Sarkozy vem reivindicando passo importante em direção à heterodoxia monetária. Apesar do claro veto alemão, quer que o Banco Central Europeu (BCE) passe a usar suas impressoras de euros para financiar Estados superendividados, como a própria a França.
A campanha de Hollande é de hostilidade a tudo o que está aí, mas é gritante a falta de proposta sobre o que colocar no lugar. Resume-se a dizer não à austeridade orçamentária; a culpar o sistema financeiro e os excessivamente folgados bancos, responsáveis pelas lambanças; e a cobrar mais impostos dos mais ricos, para garantir mais recursos a projetos destinados a tirar a economia da entalada e criar mais empregos.
O problema é que, por mais esfolados que os ricos venham a ser pelo Fisco francês, o aumento da arrecadação será insuficiente para reequilibrar as finanças públicas e acelerar a economia. E, por sua vez, desancar o mercado financeiro não ajuda a recapitalizar as instituições financeiras, cujo patrimônio está ameaçado.
Além disso, a atual crise resulta das excessivas despesas e do excessivo endividamento do Estado - problemas que Hollande parece disposto a acentuar ainda mais.
Mas no talo da fruta estão as contradições das atuais propostas macropolíticas da social-democracia. A ideia de fortalecer o Estado para aumentar a capacidade de fazer políticas esbarra no processo de globalização crescente e na perda da soberania orçamentária e política que o fortalecimento do euro está exigindo.
Os ideais da internacional socialista e da união dos trabalhadores de todo o mundo, por sua vez, esbarram na necessidade de criar empregos para os franceses e na crescente hostilidade da população contra os imigrantes e as minorias étnicas.
Em todo o caso, uma coisa é discursar no palanque e outra, bem diferente, governar. E, nessa tarefa, nem Sarkozy nem Hollande prometem coisas substancialmente diferentes.
Campeão escolhido - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 22/04/12
O grupo que é exemplo da política do BNDES de formar campeões nacionais mantém mais emprego nos Estados Unidos do que no Brasil e deu prejuízo em três dos últimos cinco anos. O presidente do JBS, Joesley Batista, explica que as vantagens da globalização de grupos nacionais vão do prestígio à abertura de mercado. A companhia já fechou quatro das cinco empresas que comprou na Argentina.
O banco colocou uma montanha de recursos em frigoríficos. Fez isso de duas formas: emprestando dinheiro subsidiado, via BNDES, e virando sócio das empresas, por meio do BNDESPar. Desde 2005, o BNDESPar investiu quase R$ 12 bilhões em três frigoríficos - JBS, Marfrig e BRF - na compra de ativos, subscrição de ações e aquisição de debêntures. O JBS, escolhido para ser o campeão nacional, ficou com a maior parte, R$ 8,1 bi. Em empréstimos, a empresa recebeu mais R$ 2,5 bi. Os números mostram como o BNDES incentivou a compra de uns por outros e aumentou a concentração no setor.
Em uma controversa operação, o dinheiro público foi usado para comprar 99,9% de debêntures lançadas pelo JBS para financiar a compra da Pilgrim´s Pride, nos Estados Unidos. A exigência feita pelo banco foi que a empresa abrisse capital no mercado americano. Veio a crise, e ela não cumpriu o prometido. O banco então converteu as debêntures em ações, e hoje é dono de 31% do JBS que, no ano passado, deu prejuízo exatamente pela compra da Pilgrim´s Pride. O Estado é o segundo maior sócio, depois da família Batista, que tem 44,6%:
- Uma coisa eu posso garantir a você, o BNDES nunca colocou dinheiro no JBS para salvar a empresa, ao contrário do que aconteceu com Aracruz, Sadia e outras na crise de 2008. O prejuízo é parte do processo de consolidação. Somos especializados em comprar empresas deficitárias, que administradas por nós dão lucro. No primeiro momento, o resultado é negativo mesmo - disse Joesley.
Em março de 2007, quando a empresa abriu capital, a ação valia R$ 7,9. Na sexta-feira, valia R$ 7,6. O banco aumentou sua participação no momento em que o grupo adquiria mais ativos, como o frigorífico Bertin, e expandia para novas áreas. No mesmo período, as ações caíram. Chegaram a valer R$ 3,5 em outubro do ano passado. Joesley Batista acha natural que o banco público seja um dos donos da sua empresa:
- O BNDES é meu sócio há três anos e é sócio da Weg há 30 anos.
Os dados do JBS mostram uma evolução explosiva dos ativos e um crescimento grande da dívida. Pelos dados da Economática, a empresa tem uma dívida líquida sobre patrimônio líquido de 65%. A dívida bruta sobre patrimônio líquido é de 95%. Em 2011, houve prejuízo de US$ 496 milhões com a unidade de frango nos Estados Unidos, e foi justamente isso deixou o grupo no vermelho no ano.
Nos EUA, o JBS é uma potência. Segundo ele, lá o grupo tem um milhão de cabeças de gado em confinamento. Este ano, engordará 2,2 milhões de cabeças. Compra 1.300 carretas de milho por dia, é o maior comprador de milho americano. Tem 70 mil empregados, 10 mil a mais do que no Brasil. Abate oito milhões de frango por dia:
- Quando o Mauro, embaixador brasileiro, pede uma audiência com o secretário de Agricultura dos Estados Unidos, ele atende porque a nossa empresa é o que é na economia americana. De lá, eu consigo alcançar mercados que não recebem carne brasileira. Foi porque estamos nos Estados Unidos é que começamos a exigir a elevação do preço para a nossa carne.
Ele diz que a empresa aprende na comparação entre as duas economias:
- Lá, para abater 6.000 cabeças eu preciso de três mil funcionários; aqui, preciso de seis mil. A produtividade lá é o dobro. A nossa indústria é muito primitiva. Lá, eu tenho cinco advogados; aqui, tenho 50. Lá, eu tenho 37 causas, aqui eu tenho sete mil.
Há outras diferenças gritantes. Aqui, como contei na coluna de ontem, que pode ser lida no meu blog, a empresa tem sido acusada de comprar carne de produtores que cometem crimes ambientais. Há até um caso de compra de gado de fazenda acusada de trabalho escravo:
- Nos Estados Unidos existe o conceito do "Animal Welfare". Lá eles mandaram fechar outro dia um frigorífico por causa da acusação de maltratar uma vaca.
Além do Brasil e Estados Unidos, a empresa está na Austrália, México, Uruguai, Paraguai e Argentina, e tem escritórios em todos os continentes. A ida para a Argentina não deu certo. Eles compraram cinco empresas e já se desfizeram de quatro:
- A Argentina enfrenta problemas. Seu rebanho diminuiu em dez milhões de cabeças nos últimos anos.
A empresa está entrando em outras áreas. Este ano vai inaugurar a Eldorado, na área de celulose, para a qual ganhou novo empréstimo do BNDES: R$ 2,7 bi.
- Normalmente, o grupo não constrói empresas, mas compra ativos com problemas e melhora a gestão. A Eldorado está sendo uma experiência de vida - diz Joesley.
O JBS tem um banco, o Original, que recebeu R$ 850 milhões do Fundo Garantidor de Crédito para absorver o Banco Matone. Coincidentemente, logo depois, o banco fez uma aposta pesada na queda da taxa de juros. Foi naquele primeiro corte, em agosto de 2011, que surpreendeu o mercado. Mas não o Banco Original. Ele ganhou muito dinheiro na queda das taxas e deu lucro de R$ 158 milhões no ano. A CVM investigou e não encontrou sinal de informação privilegiada. Joesley credita o acerto à capacidade de análise da equipe.
O cartel dos bancos - SUELY CALDAS
O ESTADÃO - 22/04/12
Afinal, foi mesmo rompido o cartel? Se a anunciada guerra entre bancos, derrubando juros para disputar clientes, se mostrar verdadeira e duradoura, vai finalmente restabelecer o que o capitalismo tem de melhor: a boa e velha concorrência, trazendo ganhos para a população, o correntista e, de carona, para o dinamismo da economia. Se o futuro confirmar o presente e tudo não passar de um "sonho de uma noite de verão", uma jogada de marketing que o tempo apaga, o crédito bancário vai enfim cumprir seu papel de financiar o consumo, o capital de giro das empresas, o progresso econômico e, quem sabe, passo seguinte, investimentos em infraestrutura e produção, com prazos mais longos nos empréstimos.
Desde sempre os bancos brasileiros atuaram em cartel. Suas taxas de juros, senão são previamente combinadas, parecem ser, tal a semelhança, com minúsculas diferenças.
Quando o mercado foi aberto para o capital externo após o Plano Real, nas cia a esperança de restabelecer a competição.
Mas os bancos estrangeiros aqui chegaram e logo se adaptaram aos "hábitos" dos nacionais e estatais.
E o País se tornou campeão mundial de juros altos, com spread (diferença entre a taxa que o banco capta dinheiro e a que pratica nos empréstimos) "colossal", como definiu a The Economist, em sua última edição.
Na reportagem, a revista inglesa se espanta com o spread brasileiro. Lembra que, na Europa, não chega a 5%; na América Latina é de 5%; enquanto no Brasil foi de 30%, na média, em 2011. Em cálculo rápido, se os bancos brasileiros cobram entre 40% a 50% ao ano no crédito a uma empresa, os países vizinhos praticam entre 8% e 15%, dependendo do valor da taxa básica do Banco Central (BC). No Brasil os impostos representam 22% do spread e o lucro dos bancos, 34,15%. Ou seja, numa operação de empréstimoa40% ao ano, o juro cairia para 28%, se ela fosse isenta de impostos e o banco reduzisse à metade sua margem de lucro. Mas continuaria alta porque os bancos e o BC incorporam no spread três outros custos: o administrativo, a inadimplência e o compulsório (depósitos que os bancos são obrigados a manter no BC), que certamente são inexpressivos em outros países.
Mesmo que a guerra de competição persista e seja bem-sucedida, a Economist considera impossível o Brasil ter juros baixos sem gerar inflação. Argumenta que o spread é consequência, e a verdadeira origem do problema está na baixa taxa de poupança do País, que se mantém em 16,5% desde os anos 90, enquanto no México, por exemplo, é de 22,6%. E, se a inflação voltar, o BC eleva a taxa Selic e o esforço de reduzir o spread é anulado.
O argumento da revista procede. Desde os anos de hiperinflação, aculturado ganho rápido, não empatar dinheiro por muito tempo, está incorporada na vida do brasileiro, dos bancos e do governo.
Prova disso é o perfil da dívida pública interna, com prazos muito curtos de pagamento, sem que o governo se preocupe em alongá- los. Daí a baixa taxa de poupança do País. Falta uma bem arquitetada regulação que gradativamente induza bancos e correntistas a enraizarem o hábito de poupar em longo prazo.
Apesar disso, o esforço pela redução do spread é bem-vindo. E, para ter sucesso, alguns empurrões são necessários nesta hora de incerteza e dúvida sobre se os bancos vão mesmo praticar as taxas que anunciam. Uma boa providência seria o BC atualizar com maior frequência e rapidez a publicação em seu site do ranking de taxas praticadas pelos bancos nas principais modalidades de crédito e dar a isso ampla divulgação.
Assim como escolhe a loja mais barata para comprar sua geladeira, o correntista escolheria o banco de menor taxa ao seu propósito - seja empréstimo pessoal, a compra de um carro, cartão de crédito, empréstimo consignado, etc.
Uma segunda providência seria criar um canal para os correntistas encaminhar em informações sobre juros e queixas e elogios aos bancos, também com divulgação pelo BC. Dar voz ao público neste momento é crucial para comprovar as promessas dos bancos e começar a consolidar a queda dos juros no Brasil.
Afinal, foi mesmo rompido o cartel? Se a anunciada guerra entre bancos, derrubando juros para disputar clientes, se mostrar verdadeira e duradoura, vai finalmente restabelecer o que o capitalismo tem de melhor: a boa e velha concorrência, trazendo ganhos para a população, o correntista e, de carona, para o dinamismo da economia. Se o futuro confirmar o presente e tudo não passar de um "sonho de uma noite de verão", uma jogada de marketing que o tempo apaga, o crédito bancário vai enfim cumprir seu papel de financiar o consumo, o capital de giro das empresas, o progresso econômico e, quem sabe, passo seguinte, investimentos em infraestrutura e produção, com prazos mais longos nos empréstimos.
Desde sempre os bancos brasileiros atuaram em cartel. Suas taxas de juros, senão são previamente combinadas, parecem ser, tal a semelhança, com minúsculas diferenças.
Quando o mercado foi aberto para o capital externo após o Plano Real, nas cia a esperança de restabelecer a competição.
Mas os bancos estrangeiros aqui chegaram e logo se adaptaram aos "hábitos" dos nacionais e estatais.
E o País se tornou campeão mundial de juros altos, com spread (diferença entre a taxa que o banco capta dinheiro e a que pratica nos empréstimos) "colossal", como definiu a The Economist, em sua última edição.
Na reportagem, a revista inglesa se espanta com o spread brasileiro. Lembra que, na Europa, não chega a 5%; na América Latina é de 5%; enquanto no Brasil foi de 30%, na média, em 2011. Em cálculo rápido, se os bancos brasileiros cobram entre 40% a 50% ao ano no crédito a uma empresa, os países vizinhos praticam entre 8% e 15%, dependendo do valor da taxa básica do Banco Central (BC). No Brasil os impostos representam 22% do spread e o lucro dos bancos, 34,15%. Ou seja, numa operação de empréstimoa40% ao ano, o juro cairia para 28%, se ela fosse isenta de impostos e o banco reduzisse à metade sua margem de lucro. Mas continuaria alta porque os bancos e o BC incorporam no spread três outros custos: o administrativo, a inadimplência e o compulsório (depósitos que os bancos são obrigados a manter no BC), que certamente são inexpressivos em outros países.
Mesmo que a guerra de competição persista e seja bem-sucedida, a Economist considera impossível o Brasil ter juros baixos sem gerar inflação. Argumenta que o spread é consequência, e a verdadeira origem do problema está na baixa taxa de poupança do País, que se mantém em 16,5% desde os anos 90, enquanto no México, por exemplo, é de 22,6%. E, se a inflação voltar, o BC eleva a taxa Selic e o esforço de reduzir o spread é anulado.
O argumento da revista procede. Desde os anos de hiperinflação, aculturado ganho rápido, não empatar dinheiro por muito tempo, está incorporada na vida do brasileiro, dos bancos e do governo.
Prova disso é o perfil da dívida pública interna, com prazos muito curtos de pagamento, sem que o governo se preocupe em alongá- los. Daí a baixa taxa de poupança do País. Falta uma bem arquitetada regulação que gradativamente induza bancos e correntistas a enraizarem o hábito de poupar em longo prazo.
Apesar disso, o esforço pela redução do spread é bem-vindo. E, para ter sucesso, alguns empurrões são necessários nesta hora de incerteza e dúvida sobre se os bancos vão mesmo praticar as taxas que anunciam. Uma boa providência seria o BC atualizar com maior frequência e rapidez a publicação em seu site do ranking de taxas praticadas pelos bancos nas principais modalidades de crédito e dar a isso ampla divulgação.
Assim como escolhe a loja mais barata para comprar sua geladeira, o correntista escolheria o banco de menor taxa ao seu propósito - seja empréstimo pessoal, a compra de um carro, cartão de crédito, empréstimo consignado, etc.
Uma segunda providência seria criar um canal para os correntistas encaminhar em informações sobre juros e queixas e elogios aos bancos, também com divulgação pelo BC. Dar voz ao público neste momento é crucial para comprovar as promessas dos bancos e começar a consolidar a queda dos juros no Brasil.
Poupança e fundos perdidos - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 22/04/12
SUPONHA-SE QUE a taxa básica de juros, a Selic, vá abaixo dos 9% para onde desceu na semana passada.
Suponha-se que, tomados de súbita e aguda consciência financeira, os investidores de fundos de renda fixa decidam migrar em massa para a caderneta de poupança, que rende pouco, mas paga mais do que alguns fundos com taxas de administração extorsivas.
Suponha-se que tais coisas ocorram antes que o governo enfim apresente um plano organizado de alterar o rendimento das cadernetas. E daí?
O pessoal do governo, do Banco Central à Fazenda, diz nas internas que se dá um jeito: baixa-se uma resolução que autorize os bancos, gestores dos fundos, a aplicar o dinheiro dos depósitos da caderneta de poupança em títulos do governo. Ou seja, se houver crise, não há crise.
A história da mudança no rendimento das cadernetas ressuscitou com a nova baixa da Selic e com a perspectiva de que a taxa básica da economia talvez não fique estacionada nos 9% ou 8,75%, como era o "entendimento" da maior parte do pessoal do mercado até o começo deste mês. Na sexta-feira, nos negócios com juros futuros apostava-se em reduções adicionais da Selic. O pessoal se guiava pelas mais recentes declarações sibilinas do BC.
Qual a relação dos juros básicos com a poupança? Os fundos de investimento mais comuns (quase todos, aliás) emprestam dinheiro ao governo, e dele recebem os juros que pagam a seus investidores. A taxa de juros básica é mais ou menos aquela que o governo paga a seus credores. Logo, se cai a taxa básica, cai o rendimento dos fundos que aplicam em títulos do governo.
A poupança tem juros tabelados, não paga taxa de administração e não paga IR. Portanto, dados um certo nível da Selic e o custo da taxa de administração, o rendimento de um fundo pode perder da poupança. Alguns já perdem.
Se o dinheiro migra em massa para a poupança, no limite falta crédito para o governo (hipótese remota, mas há o risco de distorção no mercado, de qualquer modo). Isto é, o dinheiro que seria emprestado ao governo iria para a caderneta.
Os bancos poderiam ter problemas -isso é o que parece estar pegando mais. Haveria sobra de dinheiro para empréstimos imobiliários (para onde, por lei, tem de ir a maior parte dos depósitos das cadernetas). Faltaria para outras demandas. A rentabilidade de bancos cairia. Poderia haver sustos.
Permitir que os bancos apliquem fundos depositados na poupança em títulos públicos resolveria esses problemas, pontualmente. Mas os juros da caderneta ainda seriam uma espécie de piso para ao menos certas taxas no país, como a do financiamento de imóveis. Não dá.
De qualquer modo, o governo não acredita em migração em massa. Confia na negligência e no desconhecimento financeiros do grosso da população. Além do mais, quer dar outro calor na banca. Antes de mexer no rendimento da poupança, espera ver os bancos reduzindo taxas de administração excessivas cobradas em certos fundos.
Para refrescar a memória: no ano passado, a poupança rendeu menos de 1% em termos reais (além da inflação). Houve ano ainda pior neste século. Em certos fundos, pois, o seu dinheiro pode estar sendo até mesmo corroído pela inflação.
No alvo! - AMIR KHAIR
O ESTADÃO - 22/04/12
Avalio que finalmente foi dado importante passo para balizar a taxa de juro da economia capitaneado pelas instituições oficiais.
Parabéns à presidente Dilma Rousseff, que identificou o principal freio à economia e ousou enfrentar o poderio dos bancos. A redução do juro abre espaço decisivo para o crescimento.
Análises do mercado financeiro, no entanto, repetem velho argumento usado quando foi adotada estratégia semelhante na crise de 2008, que é a perda de lucro e aumento da inadimplência do Banco do Brasil e da Caixa por rebaixarem suas taxas de juros. Na realidade ocorreu o inverso.A estratégia vitoriosa foi a troca de margem alta (spread) e baixo volume de crédito por margem menor e ampliação do mercado de clientes. Além dos ganhos de escala há a possibilidade da oferta de outros produtos aos novos clientes.
Essa estratégia poderá novamente dar certo, mas o que importa não é tanto o maior ou menor lucro bancário e sim um sistema racional, mais competitivo e em linha com o crescimento do País.
Nesse sentido é fundamental a campanha de divulgação do rebaixamento das taxas de juros para a ampliação da clientela. Os bancos privados temendo a perda de clientes anunciaram a redução nas taxas, seguindo a decisão do Banco do Brasil e da Caixa.
Resta ver como se dará na prática essa redução nos bancos privados. Se não for para valer, vão tomar na cabeça. No entanto, para atingir o objetivo da redução, o governo deve acionar outras medidas, pois esses bancos começaram mal ao apresentar 22 medidas que não mexiam em nada no exagerado spread bancário e afirmar que a bola estava com o governo. De fato, a bola foi para o governo que fez o ataque e marcou o gol. Não deve ser desprezada a vigorosa atuação dos clientes, que vão à luta para reduzir seus custos bancários.
Ao governo parece claro que não é qualquer redução dos juros nos bancos privados que vai resolver, mas sim forçá-los à prática de taxas de juros civilizadas.
Para isso tem poderosas armas e a presidente já falou que vai acompanhar pessoalmente esse processo.
Armas. A mais importante das armas é a queda da Selic. A mina de ouro das aplicações em títulos do governo vai minguando à medida em que a Selic cai.Todos os títulos governamentais vão tendo rentabilidade menor, pois se balizam na Selic e, assim, empurram os bancos para aumentar a oferta de crédito. Aí é mais difícil a prática de taxas elevadas, pois a concorrência tende a se acirrar dificultando tentativas de cartelização.
Resta ver se o governo continuará a reduzir a Selic ou se vai parar neste ano nos 9%para evitar possíveis problemas com a caderneta de poupança em ano eleitoral.
Creio que deveria ir adiante, pois ainda há espaço para redução sem risco de deslocamento de aplicações em títulos para a caderneta. As elevadas taxas de administração cobradas pelos bancos tendem a ser reduzidas e esse espaço pode acomodar a redução daSelic.
Outra possibilidade é a redução da tributação sobre os ganhos em títulos públicos ou ainda, o que prefiro, efetuar a rolagem com emissão monetária.
Enfim, existem alternativas a serem usadas em prol da redução da Selic com expressivos ganhos fiscais ao governo federal na rolagem da sua dívida mobiliária e na redução do carregamento das reservas internacionais.
Essa é a mais poderosa economia nas despesas, que poderia ser usada para forte ampliação dos programas sociais e dos investimentos em infraestrutura, bem como na desoneração tributária para a sociedade. Os recursos são expressivos: em 2011, o governo federal torrou R$181 bilhões com juros e mais de R$100 bilhões com o carregamento das reservas internacionais. Neste ano, pode torrar mais, pois a dívida e as reservas são maiores.Não faltam, pois recursos para ativar a economia. O importante é não desperdiçá-los com juros.
Outra arma poderosa é o estabelecimento de regra de depósito compulsório dos bancos no Banco Central (BC) de acordo com a taxa de juro praticada pelo banco. O depósito compulsório é formado por porcentuais dos depósitos à vista e a prazod obanco.
Na nova regra, o porcentual seria tanto menor quanto menor fosse a taxa de juro praticada pelo banco. Como Banco do Brasil e Caixa operam com taxas menores que os bancos privados, teriam aumento do volume de recursos para ampliação do crédito, o que está em linha com a estratégia de ganhar maior participação no mercado.
Sugestões. Indo adiante, o governo poderia efetivar duas medidas de forte efeito sobre a economia.
A primeira é a redução das tarifas bancárias. Elas constituem poderosa bomba de sucção de dinheiro das pessoas e empresas para os bancos. Os serviços bancários têm custos e devem ser remunerados, ma soque se vê no País é um exagero. Além de serviços precários, com recordes de reclamações dos clientes, o montante dessas tarifas chega a superar todo o custo administrativo dos bancos. Ocorreu padronização desses serviços em abril de 2008,mas nada avançou em matéria de redução dessas tarifas.
Está na hora de fazê-la, ampliando assim os recursos em poder das pessoas e das empresas, o que permite maior consumo e poupança.
A segunda sugestão traz forte impacto nas contas públicas e no câmbio. Trata-se de ampliar a liquidez da economia, ou seja, emitir moeda. Explicando: para cobrir o déficit nas contas do governo federal, a compra de dólares pelo BC para ampliarasreservas internacionais (operações compromissadas) e o aporte de recursos para o BNDES, o Tesouro emite títulos da dívida e, bem menos, ocorre a complementação com a emissão de moeda pelo BC. A emissão líquida de títulos em 2011 atingiu R$ 179 bilhões (!), pois a dívida mobiliária interna federal cresceu de R$ 1.604 bilhão para R$ 1.783 bilhão no ano. A sugestão é emitir moeda em vez de engrossar a dívida com títulos que oneram juros. A crítica é que isso gera inflação.
Nã ocreio, pois ofio condutor da inflação é externo eos preços internacionais estão estagnados ou em queda, induzindo as empresas a conterem seus preços.
A oportunidade para isso é agora, pois além da redução expressiva da despesa com juros, tem efeito decisivo sobre o câmbio, o que influi poderosamente na competitividade das empresas. Os países desenvolvidos vêm usando essa estratégia para ampliar exportações e não registraram inflação, mesmo com juros praticamente nulos. O excesso de liquidez criado pelas economias desenvolvidas só pode ser combatido com eficácia usando a mesma estratégia, que é emitir moeda, ampliando a base monetária. Liquidez se combate com liquidez. É bom mirar nesses novos alvos, pois o Brasil tem potencial para crescer bem mais e de forma saudável.
Ajudar a Europa, por quê? - ALBERTO TAMER
O Estado de S.Paulo - 22/04/12
E quem diria? A tradicional reunião do FMI, que sempre se destinou a analisar a economia mundial, apontar desafios e apresentar soluções, transformou-se esta semana na busca desesperada por recursos para enfrentar a crise financeira na zona do euro. Ela se atenuou com o empréstimo de 1 trilhão na capitalização dos bancos europeus, mas nada mudou a médio prazo. Apenas se ganha tempo para rolar a dívida, que continua aumentando. "Há uma calma desconfortável, incômoda, e a sensação de que a qualquer momento a coisa pode ficar muito ruim, piorar novamente", afirmou o economista-chefe do Fundo, Olivier Blanchard, num tom sombrio. Ele foi seguido pela diretora-gerente Christine Lagarde, que teme "novas turbulências" no mercado europeu. A situação é séria, insistiam os dois, à exaustão.
Deu certo. E a retórica funcionou. O FMI obteve quase tudo o que pedia. No início da reunião falava em US$ 500 bilhões. Na quinta-feira, as primeiras ofertas informais ficavam entre US$ 350 bilhões, US$ 380 bilhões, mas no fim da tarde de sexta-feira o FMI confirmou em nota oficial que havia ofertas de US$ 430 bilhões. Destes, US$ 200 bilhões virão da própria zona do euro e o restante de 11 países. O Fundo espera mais e fez uma espécie de apelo aos países emergentes, exatamente os que estão mais preparados para enfrentar um agravamento da crise.
Brics ainda não. O Brasil e os países do Brics não constavam dessa lista, mas no dia anterior a China falava em US$ 60 bilhões e o vice-ministro de Finanças da Rússia, Sergei Storchak, mencionava também esse valor. O ministro Guido Mantega foi cauteloso. "A posição unânime do Brics é dar suporte... aumentar os fundos do FMI, mas não vamos divulgar montantes", disse Mantega ao fim do encontro dos ministros de Finanças e dos presidentes dos bancos centrais do G-20, em Washington.
Cotas. "Nós condicionamos essa ajuda (aos membros do FMI) à conclusão da reforma das cotas, para que nós, mercados emergentes, possamos ter mais representação. Isso está no comunicado", afirmou Mantega. Há resistência da própria União Europeia. Ela propõe um critério de distribuição de cotas que a favorece. Antes dessa reunião, o ministro havia sido mais crítico e incisivo. Eles são ótimos. Pedem muito, mas não querem dar nada.
Brics 'desbricado'. Só que o Brics, como afirmou textualmente Lagarde, "não é mais do que um termo 'bacana' inventado pelo Goldman Sachs, se me recordo...Têm questões cambiais e projetos diferentes entre si." Mas o que a nossa Christine Lagarde estava querendo dizer com isso? Ora, é elementar, meu caro Watson, O Brics está dividido. A China e a Rússia já falam em US$ 60 bilhões cada um. Os chineses têm interesse em exportar mais produtos acabados e os russos, petróleo para um mercado europeu com PIB de mais de US$ 14 trilhões. Sem petróleo, a Rússia quebra.
A China vai sozinha. A China tem grande poder de negociação, pois absorve nada menos que 21% de todas as exportações europeias e a crise na zona do euro já provocou queda de 12%. Entre janeiro e outubro, a UE exportou para a China mais de 112 bilhões, ante € 92 bilhões no mesmo período de 2010. Os números impressionam. Sobram Brasil, Índia a África do Sul, sem grande importância...
Vejam os outros. Há mais. Na lista dos mais comprometidos em ajudar o FMI estão Arábia Saudita com US$ 15 bilhões, financiando indiretamente suas exportações de petróleo; a Coreia, com outros US$ 15 bilhões. E há mais US$ 15 bilhões da Grã-Bretanha, que mesmo sem estar na zona do euro tem seus bancos comprometidos lá e não quer ver o seu grande parceiro comercial afundar na recessão.
Comércio gigantesco. A China vai ajudar direta ou indiretamente a socorrer a Europa, sim, porque o comércio entre eles é gigantesco, US$ 576 trilhões no ano passado. Nesse cenário de gigantes comerciais, o Brasil não tem nada a esperar, nem mesmo esse aumento das cotas que reivindica. É simbólico porque temos pouco mais de 1%, e eles, Europa e Estados Unidos, com a enorme maioria dos votos, continuam controlando as decisões.
CLAUDIO HUMBERTO
“Estou preparado para pedir quebras de sigilo ”
Deputado Rubens Bueno (PPS-PR) ansioso pelo trabalho na CPI do Cachoeira
CACHOEIRA PODE SER O ‘LARANJA’ DOS ‘LARANJAS’
O bicheiro Carlos Cachoeira pode ser o “cérebro”, mas dificilmente seus negócios prosperariam nas mãos dos “subs”, interlocutores que parecem atores de chanchada, deslocados em gabinetes oficiais. Por trás do poder do “chefão” estariam máfias da Ásia, Espanha e da Itália – esta ainda sob implacável perseguição judicial. Estudo do Instituto Brasileiro Giovani Falcone – homenagem ao célebre juiz antimáfia – derruba a teoria de que o goiano age sozinho, controlando milhõe$.
QUE DROGA
O IBGF lembra que o Cartel de Cali deu R$ 6 milhões ao então presidente Ernesto Samper, através de um “arrecadador” oculto.
CARTEIRA DIVERSIFICADA
O modus operandi das máfias inclui a coleta de lixo, jogo eletrônico e construção civil. Cachoeira tinha parceiro coreano na loteria do Rio.
CRIME ORGANIZADO
A subcontratação de “laranjas” oficializa o dinheiro, redirecionado ao financiamento de campanhas políticas, corrompendo o poder decisório.
CPI ON-LINE
Escolhido pelo PTB para integrar a CPI de Cachoeira, Silvio Costa (PE) prevê: “Se antes era uma loucura, agora, com internet, o bicho pega”.
LÍDER DO PDT ADMITE ‘ESVAZIAMENTO’ DO TRABALHO
O líder do PDT, André Figueiredo (CE), acusa o governo de “sucatear” o Ministério do Trabalho, transferindo quase todas as suas atribuições políticas à Secretaria-Geral da Presidência, chefiada pelo ministro Gilberto Carvalho. Ele e seu assessor José Lopez Feijoo, um espanhol que foi dirigente da CUT, exercem na prática o papel do Ministério do Trabalho, na articulação política e com as centrais sindicais.
CULPA DE LUPI
O esvaziamento do Ministério do Trabalho ocorreu quando Carlos Lupi ainda era ministro, e foi revelado nesta coluna.
PRA ESCANTEIO
O Ministério do Trabalho ficou fora do comitê-gestor do Plano Brasil Maior, e da comissão que estuda desoneração da folha de pagamento.
LIPOASPIRAÇÃO
Antes atribuição do Trabalho, o programa de qualificação profissional Pronatec foi repassado para o Ministério da Educação.
TRABALHADOR DO BRASIL
Citado na CPI dos Bingos por suposto envolvimento na doação de R$1 milhão à campanha de Lula, o português Rui Mendes Francisco – ex- sócio, segundo a CPI, de dois angolanos em empresas de caça-níqueis e diamantes, ganhou visto permanente de trabalho no País, em 2011.
QG DA VOZ
A fonoaudiologia de Lula é tão importante que ele não pode fazer o tratamento em casa, em São Bernardo (SP) com um especialista, como qualquer mortal que passou por sérios problemas nas cordas vocais.
DUAS HIPÓTESES
O líder do governo, Eduardo Braga (PMDB-AM), trabalhava com duas datas para votação da Lei Geral da Copa no Senado: a otimista, até 15 de maio; a pessimista, só em junho. Mas, com a CPI, só Deus sabe.
TUCANOU
Vice-presidente da Câmara, Rose de Freitas (PMDB-ES) declarou apoio ao tucano Luiz Paulo Velloso na disputa pela Prefeitura de Vitória. Para ela, “falta capilaridade” nos candidatos do seu partido.
SOLDADOS DA OPOSIÇÃO
Os tucanos Carlos Sampaio (SP) e Fernando Francischini (PR), Rubens Bueno (PPS-PR) e o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) estão entre os que enfrentarão a “patrolagem” petista na CPI.
AINDA NO DEM
Apesar de ter saído do DEM há quase três semanas, Demóstenes Torres (GO) ainda aparece na Ordem do Dia do Senado como integrante do partido e do bloco da Minoria, composta por DEM-PSDB.
TENTANDO ACORDO
Relator do projeto dos royalties, o deputado Carlos Zarattini (PT-SP) propõe que os produtores recebam cota fixa da arrecadação, e sejam compensados pelos demais Estados em caso de baixa na produção.
Ê, VIDÃO
Pesquisa Gallup revela que os brasileiros (77%) superaram os chineses (72%) em satisfação com o nível de vida em 2011.
Mas em 2012, a animação desce a 65%.
Os russos continuam na lanterninha.
VOILÀ
Os franceses, tão atrasados que nem têm urna eletrônica, poderão votar no exterior para presidente, neste domingo, pela internet.
PODER SEM PUDOR
VELHO CONHECIDO
O presidente do Senado, José Sarney, conversava com amigos, dia antes de sua internação no Hospital Sírio Libanês, quando alguém mencionou a tese de que a cirurgia bariátrica que emagreceu Demóstenes Torres mexeu com sua cabeça, alterou o comportamento do senador goiano. Sarney discordou, lembrando que Demóstenes, antes da cirurgia, foi um opositor duríssimo do líder do PMDB, Renan Calheiros, e, já magro, também foi implacável contra ele próprio. Exibindo seu melhor sorriso Mona Lisa, Sarney sacramentou:
– Renan e eu conhecemos o Demóstenes gordo e o Demóstenes magro…
Deputado Rubens Bueno (PPS-PR) ansioso pelo trabalho na CPI do Cachoeira
CACHOEIRA PODE SER O ‘LARANJA’ DOS ‘LARANJAS’
O bicheiro Carlos Cachoeira pode ser o “cérebro”, mas dificilmente seus negócios prosperariam nas mãos dos “subs”, interlocutores que parecem atores de chanchada, deslocados em gabinetes oficiais. Por trás do poder do “chefão” estariam máfias da Ásia, Espanha e da Itália – esta ainda sob implacável perseguição judicial. Estudo do Instituto Brasileiro Giovani Falcone – homenagem ao célebre juiz antimáfia – derruba a teoria de que o goiano age sozinho, controlando milhõe$.
QUE DROGA
O IBGF lembra que o Cartel de Cali deu R$ 6 milhões ao então presidente Ernesto Samper, através de um “arrecadador” oculto.
CARTEIRA DIVERSIFICADA
O modus operandi das máfias inclui a coleta de lixo, jogo eletrônico e construção civil. Cachoeira tinha parceiro coreano na loteria do Rio.
CRIME ORGANIZADO
A subcontratação de “laranjas” oficializa o dinheiro, redirecionado ao financiamento de campanhas políticas, corrompendo o poder decisório.
CPI ON-LINE
Escolhido pelo PTB para integrar a CPI de Cachoeira, Silvio Costa (PE) prevê: “Se antes era uma loucura, agora, com internet, o bicho pega”.
LÍDER DO PDT ADMITE ‘ESVAZIAMENTO’ DO TRABALHO
O líder do PDT, André Figueiredo (CE), acusa o governo de “sucatear” o Ministério do Trabalho, transferindo quase todas as suas atribuições políticas à Secretaria-Geral da Presidência, chefiada pelo ministro Gilberto Carvalho. Ele e seu assessor José Lopez Feijoo, um espanhol que foi dirigente da CUT, exercem na prática o papel do Ministério do Trabalho, na articulação política e com as centrais sindicais.
CULPA DE LUPI
O esvaziamento do Ministério do Trabalho ocorreu quando Carlos Lupi ainda era ministro, e foi revelado nesta coluna.
PRA ESCANTEIO
O Ministério do Trabalho ficou fora do comitê-gestor do Plano Brasil Maior, e da comissão que estuda desoneração da folha de pagamento.
LIPOASPIRAÇÃO
Antes atribuição do Trabalho, o programa de qualificação profissional Pronatec foi repassado para o Ministério da Educação.
TRABALHADOR DO BRASIL
Citado na CPI dos Bingos por suposto envolvimento na doação de R$1 milhão à campanha de Lula, o português Rui Mendes Francisco – ex- sócio, segundo a CPI, de dois angolanos em empresas de caça-níqueis e diamantes, ganhou visto permanente de trabalho no País, em 2011.
QG DA VOZ
A fonoaudiologia de Lula é tão importante que ele não pode fazer o tratamento em casa, em São Bernardo (SP) com um especialista, como qualquer mortal que passou por sérios problemas nas cordas vocais.
DUAS HIPÓTESES
O líder do governo, Eduardo Braga (PMDB-AM), trabalhava com duas datas para votação da Lei Geral da Copa no Senado: a otimista, até 15 de maio; a pessimista, só em junho. Mas, com a CPI, só Deus sabe.
TUCANOU
Vice-presidente da Câmara, Rose de Freitas (PMDB-ES) declarou apoio ao tucano Luiz Paulo Velloso na disputa pela Prefeitura de Vitória. Para ela, “falta capilaridade” nos candidatos do seu partido.
SOLDADOS DA OPOSIÇÃO
Os tucanos Carlos Sampaio (SP) e Fernando Francischini (PR), Rubens Bueno (PPS-PR) e o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) estão entre os que enfrentarão a “patrolagem” petista na CPI.
AINDA NO DEM
Apesar de ter saído do DEM há quase três semanas, Demóstenes Torres (GO) ainda aparece na Ordem do Dia do Senado como integrante do partido e do bloco da Minoria, composta por DEM-PSDB.
TENTANDO ACORDO
Relator do projeto dos royalties, o deputado Carlos Zarattini (PT-SP) propõe que os produtores recebam cota fixa da arrecadação, e sejam compensados pelos demais Estados em caso de baixa na produção.
Ê, VIDÃO
Pesquisa Gallup revela que os brasileiros (77%) superaram os chineses (72%) em satisfação com o nível de vida em 2011.
Mas em 2012, a animação desce a 65%.
Os russos continuam na lanterninha.
VOILÀ
Os franceses, tão atrasados que nem têm urna eletrônica, poderão votar no exterior para presidente, neste domingo, pela internet.
PODER SEM PUDOR
VELHO CONHECIDO
O presidente do Senado, José Sarney, conversava com amigos, dia antes de sua internação no Hospital Sírio Libanês, quando alguém mencionou a tese de que a cirurgia bariátrica que emagreceu Demóstenes Torres mexeu com sua cabeça, alterou o comportamento do senador goiano. Sarney discordou, lembrando que Demóstenes, antes da cirurgia, foi um opositor duríssimo do líder do PMDB, Renan Calheiros, e, já magro, também foi implacável contra ele próprio. Exibindo seu melhor sorriso Mona Lisa, Sarney sacramentou:
– Renan e eu conhecemos o Demóstenes gordo e o Demóstenes magro…
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: Brasil ajudou a traficar armas para a Argentina
- Folha: Apoio a Dilma bate recorde, mas eleitor quer Lula em 2014
- Estadão: Delta obteve aumento de preço em 60% dos contratos
- Correio: As boas faces de Brasília
- Zero Hora: Obras injetarão no Estado R$ 14 bilhões até 2014
- Jornal do Commercio: Com Rands, Mendonça lidera a nova pesquisa
sábado, abril 21, 2012
A causa de fenômenos como Cachoeira e Demóstenes - FERNANDO ABRUCIO
REVISTA ÉPOCA
O escândalo em pauta envolve o bicheiro Carlinhos Cachoeira e suas ramificações com políticos brasileiros. Não param de surgir informações novas e fitas gravadas pela Polícia Federal mostrando intrincadas e incestuosas relações entre o Poder Público e o setor privado. Trata-se daquelas avalanches que não há mais como segurar ou domesticar, independentemente da realização ou sucesso de uma CPI. Como tais fenômenos, em maior ou menor grau, têm se repetido nos últimos anos, é imprescindível perguntar duas coisas: o que gerou uma figura como Carlinhos Cachoeira? Há outros com suas características pelo país?
Há várias causas para esse fenômeno. Elas passam pelo sistema de financiamento de campanha - e da fragilidade de seu controle -, pelo excesso de cargos comissionados no Estado brasileiro, pelas dificuldades de estabelecer competições idôneas nos processos licitatórios e, ainda, pela proliferação do discurso moralista como forma de resolver o problema da corrupção, quando o melhor sempre é aperfeiçoar as instituições e instrumentos que possam barrar a promiscuidade entre os governos e as empresas.
Sobre esse último aspecto, vale ressaltar algo: desconfie daqueles que se colocam acima do bem e do mal, procuram crucificar o acusado, mas nunca propõem mudanças mais profundas na legislação e nas estruturas de funcionamento dos governos. Mesmo que nada tivesse sido descoberto contra o senador Demóstenes Torres, sua forma de atuação sempre foi de um "salvador da pátria" e sua visão institucional geralmente foi pífia, pois o que interessava era derrubar o inimigo político - no caso, os governos petistas - a qualquer custo. É bem verdade que esse udenismo já fora praticado por políticos do PT no passado. De tal modo que é preciso buscar políticos e partidos que se guiem mais por projetos de país que por acusações morais contra seus adversários. Para lembrar um episódio célebre da política recente, o mais fácil foi derrubar Collor e seu tesoureiro de campanha, ao passo que difícil mesmo é criar um ambiente que evite a proliferação da corrupção.
Várias são as causas de fenômenos como Carlinhos Cachoeira, mas pouco se fala que a origem de suas práticas está, quase sempre, no jogo político subnacional. Foi assim com Collor em sua República de Alagoas. Foi assim nos primórdios do mensalão em terras mineiras. Foi assim com o pedido de dinheiro para campanha de Waldomiro Diniz para os candidatos do PT e do PSB no Rio de Janeiro. Foi assim em vários escândalos brasilienses dos últimos anos, derrubando senadores e governadores. Foi assim no esquema malufista paulista e seus prepostos - um até virou prefeito da capital -, que poderia ter sido pior se seu comandante tivesse chegado à Presidência da República. E agora, a política de Goiás, da qual parece que poucos sobraram das garras da contravenção e bandidagem comandada pelo "empresário" Cachoeira. Outras máfias locais existem em outros Estados do país e poderão estourar nos próximos anos, com chances de atingir a política nacional.
Como início de tudo está a forma bastante oligarquizada de realizar a política no plano estadual. Oligarquias como as famílias Barbalho e Sarney, entre as muitas que existem no cenário político, favorecem a concentração do poder político e econômico nas mãos de poucas pessoas. Isso estimula práticas antirrepublicanas e dificulta o controle do Poder Público. Cabe frisar, no entanto, que o aumento da competição política e o surgimento de novos atores sociais têm melhorado a disputa local, gerando uma pressão sobre esses "donos do poder" inédita em nossa história. Tal transformação democrática também tem propiciado o aparecimento de governantes, nos municípios e nos governos estaduais, com projetos mais inovadores de políticas públicas, com práticas de gestão mais meritocráticas e voltadas a resultados, bem como o impulso para formas de participação popular.
Mas ainda falta muito a fazer para aperfeiçoar a democracia no plano subnacional brasileiro. Recentemente, o Instituto Ethos publicou um estudo, que pode ser encontrado em seu site (www.ethos.org.br), intitulado Sistemas de integridade nos Estados brasileiros. Nesse trabalho, são apresentados alguns dados que antecipam a eclosão de escândalos no futuro. Realçam-se deficits de transparência e de controle dos Executivos. Tome-se o caso dos Tribunais de Contas. Segundo o estudo, na maioria dos Estados brasileiros, os colegiados dos Tribunais têm forte proximidade política com os atuais governantes. Os piores casos são Alagoas, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará e Sergipe.
Aquilo que a imprensa e parcela da sociedade reclamam, com razão, em relação ao plano federal, é muito pior nos Estados: a fragilidade ou quase ausência de oposição. Segundo a pesquisa do Ethos, referente ao período 2007-2010, "em oito das 27 unidades federativas, a coalizão que venceu as eleições para governador obteve maioria também na Assembleia Legislativa. Após a formação do governo, esse grupo cresceu para 21 Estados. Desse grupo, em sete a oposição foi reduzida a menos de 30%, em dois a menos de 20% e em outros dois a menos de 10%. Durante o exercício do mandato, essa tendência centrípeta tende a continuar. No final do terceiro ano de governo, eram nove os governos com oposição abaixo de 30%, três com menos de 20% e dois com menos de 10%". Como resultado desse quase aniquilamento da oposição, em poucos Estados as CPIs constituem instrumentos efetivos de accountability dos governadores.
A proximidade dos Tribunais de Contas com os governadores e a tibieza das Assembleias, além da partidarização de boa parte da imprensa regional, são fatores que criam uma situação de ultrapresidencialismo, como defini, há quase 15 anos, em livro intitulado Os barões da Federação. Coisas mudaram de lá para cá, mas com a mesma certeza se pode afirmar que ainda predomina um baixo controle dos governantes e oligarquias estaduais, redundando num sistema político pouco republicano capaz de produzir dezenas de Carlinhos Cachoeiras. Como o gasto público e as políticas do governo federal brasileiro têm grande impacto, as máfias constituídas regionalmente cada vez mais querem ter acesso ao poder central. Por isso Demóstenes Torres, um senador, era um despachante central do esquema.
Muitas são as soluções para o problema da corrupção no Brasil. Obrigatoriamente, deve-se começar pela melhora da democracia de baixo para cima, reformando a política nos municípios e nos Estados, para evitar que o Congresso Nacional e os ministérios sejam, regularmente, cúmplices da bandidagem. Mudar a lógica da política estadual é fundamental para aperfeiçoar os costumes políticos e melhorar a qualidade do debate. Tão grave quanto ser parceiro de Cachoeira foi Demóstenes, em sessão célebre do Senado, defender ter havido certo consentimento das escravas nos estupros que sofreram da elite branca. Esse reacionarismo pré-abolicionista é fruto do atraso da política local, moralista e imoral ao mesmo tempo.
Eu fumei maconha - WALCYR CARRASCO
REVISTA ÉPOCA
Não sou partidário do uso, mas não suporto a hipocrisia em torno do assunto. É tão fácil comprar como sorvete
Fumei maconha pela primeira vez aos 17 anos. Estava com meus colegas de classe quando alguém ofereceu. O cigarrinho rodou, com todos dando suas tragadinhas e se mostrando "experientes". Também quis parecer vivido, aspirei a fumaça com naturalidade. Tossi incontrolavelmente, enquanto os outros riam e me davam pancadas nas costas. Uma humilhação, pois puxar fumo já era, naqueles tempos, um ritual de integração com os mais admirados da turma. A segunda vez nem me lembro bem. Acho que tossi igual. A terceira aconteceu pouco tempo depois. Estava numa festa, e a maconha era oferecida em bandejas, como quitutes. (Ninguém pense que eu andava com uma turma da pesada, éramos todos jovens de classe média para cima, estudantes, com famílias certinhas.) Dei duas ou três tragadas lá pelas 2 da manhã. Permaneci as quatro horas seguintes olhando as palmas das minhas mãos. Ainda lembro de uma garota de uns 25 anos, preocupada:
- Você está bem?
- Muuuiiitttooooo beeeeeemmmmmm, óóóótiiiimoooo.
- Aquilo devia ser forte!
Quando amanheceu, o dono da festa me botou na rua e me arrastei com duas amigas até o ponto de ônibus.
Nunca mais fumei. Simplesmente, não faz parte da minha personalidade ter qualquer vício. Só bebo socialmente. Fumo um charuto por dia quando paro de trabalhar, na madrugada. Falta não faz, fico meses sem charutos. Talvez por ter tido um avô alcoólatra, tenho horror a qualquer tipo de dependência.
Conheci pessoas que fumaram maconha ao longo de décadas. Minha impressão é que têm pouca capacidade de realização. Um conhecido prometia:
- Vou começar um projeto de teatro.
No dia seguinte, o tonto aqui perguntava:
- E aí, falou com alguém?
- Amanhã eu falo.
E, de amanhã em amanhã, as propostas se esfiapavam.
Mas já encontrei pessoas de sucesso profissional que fumam, sim, com frequência. Não sou especialista no tema, não conheço os efeitos no metabolismo e tudo mais. Só não suporto a hipocrisia em torno do assunto.
A maconha é proibida. É mesmo?
Em Camburi, uma praia sofisticada do Litoral Norte de São Paulo, no verão a rapaziada fuma a céu aberto. Nos fins de tarde, o difícil é não sentir o cheiro. Os mais discretos sobem nas pedras. Ficam em roda aspirando a fumaça e olhando o poente. Vão me dizer que a polícia não sabe? E no Rio de Janeiro? Certa vez recebi um pessoal em meu apartamento no Leblon. Um deles perguntou se eu tinha, respondi que não. Saiu para dar uma volta, pois era a primeira vez que ia à cidade. Reapareceu 15 minutos depois. Tinha comprado. Ofereceram na rua. O mesmo acontece pelo país afora. É tão fácil comprar maconha como sorvete.
Propaganda do produto também não falta. Nos filmes americanos (outro país onde não é legal), é comum um personagem passar um cigarrinho ao outro. Sempre de um jeito simpático. Mais que isso: frequentemente a maconha é apresentada de forma positiva. No filme Professora sem classe (Bad teacher), lançado no ano passado, a mestra, interpretada pela simpática Cameron Diaz, fuma maconha direto. Há uma cena em que ela e o professor de educação física (Jason Segel) dão suas tragadinhas na quadra da escola, divertem-se e namoram. O professor de educação física fumando não passa a ideia de que maconha é saudável? No final, a professora maconheira é promovida a orientadora.Uau! Se eu fosse criar uma propaganda, não teria ideia melhor. Nos Estados Unidos, ganhou prêmios como filme teen. No Brasil, classificado para 14 anos. É para adolescentes! Fico curioso com o critério usado pelo Ministério da Justiça para a classificação indicativa.
Não sou partidário do uso da maconha. Mas contra a hipocrisia que se tornou a discussão pela liberação. Simplesmente porque o produto já está liberado. Se a propaganda subliminar via cinema é aceita, se pode ser comprado facilmente e até fumado em locais públicos, como manter a balela de que é proibido?
Nunca vi alguém capaz de pagar um bom advogado pegar cadeia por maconha. Susto sim. Mas só. Os que pagam o pato são os menos favorecidos.
Funciona como se o país tivesse duas leis. Uma para quem pode, outra para quem não pode. Muitos que hoje se esgoelam contra a liberação fingem não saber que seus filhos e netos são partidários da cannabis.
E, se faz mal como apregoam, não seria o caso de a questão ser assumida abertamente em vez de fingir que a proibição no papel resolve o problema?
Sou caretíssimo. Mas, na próxima Marcha da Maconha, sou bem capaz de ir.
Não sou partidário do uso, mas não suporto a hipocrisia em torno do assunto. É tão fácil comprar como sorvete
Fumei maconha pela primeira vez aos 17 anos. Estava com meus colegas de classe quando alguém ofereceu. O cigarrinho rodou, com todos dando suas tragadinhas e se mostrando "experientes". Também quis parecer vivido, aspirei a fumaça com naturalidade. Tossi incontrolavelmente, enquanto os outros riam e me davam pancadas nas costas. Uma humilhação, pois puxar fumo já era, naqueles tempos, um ritual de integração com os mais admirados da turma. A segunda vez nem me lembro bem. Acho que tossi igual. A terceira aconteceu pouco tempo depois. Estava numa festa, e a maconha era oferecida em bandejas, como quitutes. (Ninguém pense que eu andava com uma turma da pesada, éramos todos jovens de classe média para cima, estudantes, com famílias certinhas.) Dei duas ou três tragadas lá pelas 2 da manhã. Permaneci as quatro horas seguintes olhando as palmas das minhas mãos. Ainda lembro de uma garota de uns 25 anos, preocupada:
- Você está bem?
- Muuuiiitttooooo beeeeeemmmmmm, óóóótiiiimoooo.
- Aquilo devia ser forte!
Quando amanheceu, o dono da festa me botou na rua e me arrastei com duas amigas até o ponto de ônibus.
Nunca mais fumei. Simplesmente, não faz parte da minha personalidade ter qualquer vício. Só bebo socialmente. Fumo um charuto por dia quando paro de trabalhar, na madrugada. Falta não faz, fico meses sem charutos. Talvez por ter tido um avô alcoólatra, tenho horror a qualquer tipo de dependência.
Conheci pessoas que fumaram maconha ao longo de décadas. Minha impressão é que têm pouca capacidade de realização. Um conhecido prometia:
- Vou começar um projeto de teatro.
No dia seguinte, o tonto aqui perguntava:
- E aí, falou com alguém?
- Amanhã eu falo.
E, de amanhã em amanhã, as propostas se esfiapavam.
Mas já encontrei pessoas de sucesso profissional que fumam, sim, com frequência. Não sou especialista no tema, não conheço os efeitos no metabolismo e tudo mais. Só não suporto a hipocrisia em torno do assunto.
A maconha é proibida. É mesmo?
Em Camburi, uma praia sofisticada do Litoral Norte de São Paulo, no verão a rapaziada fuma a céu aberto. Nos fins de tarde, o difícil é não sentir o cheiro. Os mais discretos sobem nas pedras. Ficam em roda aspirando a fumaça e olhando o poente. Vão me dizer que a polícia não sabe? E no Rio de Janeiro? Certa vez recebi um pessoal em meu apartamento no Leblon. Um deles perguntou se eu tinha, respondi que não. Saiu para dar uma volta, pois era a primeira vez que ia à cidade. Reapareceu 15 minutos depois. Tinha comprado. Ofereceram na rua. O mesmo acontece pelo país afora. É tão fácil comprar maconha como sorvete.
Propaganda do produto também não falta. Nos filmes americanos (outro país onde não é legal), é comum um personagem passar um cigarrinho ao outro. Sempre de um jeito simpático. Mais que isso: frequentemente a maconha é apresentada de forma positiva. No filme Professora sem classe (Bad teacher), lançado no ano passado, a mestra, interpretada pela simpática Cameron Diaz, fuma maconha direto. Há uma cena em que ela e o professor de educação física (Jason Segel) dão suas tragadinhas na quadra da escola, divertem-se e namoram. O professor de educação física fumando não passa a ideia de que maconha é saudável? No final, a professora maconheira é promovida a orientadora.Uau! Se eu fosse criar uma propaganda, não teria ideia melhor. Nos Estados Unidos, ganhou prêmios como filme teen. No Brasil, classificado para 14 anos. É para adolescentes! Fico curioso com o critério usado pelo Ministério da Justiça para a classificação indicativa.
Não sou partidário do uso da maconha. Mas contra a hipocrisia que se tornou a discussão pela liberação. Simplesmente porque o produto já está liberado. Se a propaganda subliminar via cinema é aceita, se pode ser comprado facilmente e até fumado em locais públicos, como manter a balela de que é proibido?
Nunca vi alguém capaz de pagar um bom advogado pegar cadeia por maconha. Susto sim. Mas só. Os que pagam o pato são os menos favorecidos.
Funciona como se o país tivesse duas leis. Uma para quem pode, outra para quem não pode. Muitos que hoje se esgoelam contra a liberação fingem não saber que seus filhos e netos são partidários da cannabis.
E, se faz mal como apregoam, não seria o caso de a questão ser assumida abertamente em vez de fingir que a proibição no papel resolve o problema?
Sou caretíssimo. Mas, na próxima Marcha da Maconha, sou bem capaz de ir.
Não sou partidário do uso, mas não suporto a hipocrisia em torno do assunto. É tão fácil comprar como sorvete
Doutor Lula - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 21/04/12
A ideia de dar a Lula, dia 4, títulos de doutor honoris causa de cinco universidades cariocas (Uerj, UFF, UFRRJ, UniRio e UFRJ) esbarrou no Conselho Universitário da UFRJ, quinta. O assunto saiu da pauta da reunião por pressões de alguns professores e alunos, que temiam o uso político da concessão.
Fim do mundo
Tem político influente convencido de que Cachoeira é o verdadeiro dono da Delta. A conferir.
‘Com-terra’
Veja como o MST, às vezes, tem militantes de fora. Um dos acampados de um protesto em frente ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, em Brasília, chegou ali, quarta, numa caminhonete S-10 prata, carrão utilitário muito usado pelos, digamos, “com-terra”.
E mais...
Uma funcionária, ao vê-lo desembarcar e entrar numa barraca, perguntou como ele podia ser sem-terra e ter uma caminhonete daquelas. Resposta: — É do meu pai. Ah, bom!
Jogo perigoso
Walsh e May, as americanas do vôlei de praia que tropeçaram no circuito mundial, em Brasília, não trouxeram seu técnico, o brasileiro Márcio Sicoli, que mora em Los Angeles. Sicoli teria problemas na Justiça daqui, acusado pela ex de “raptar” o filho deles, de 3 anos.
‘Zorra’ na telona
As filmagens de “De pernas pro ar 2” começam segunda. Na continuação do longa, o elenco ganhou participações especiais de jovens comediantes como Rodrigo Sant’Anna, a Valéria do “Zorra Total”, e Tatá Werneck, do “Comédia MTV”.
ESSA FORMOSURA da natureza é uma ninfeia (Nymphaea capensis), tão linda na cor lilás, repare. A flor, que se abriu estes dias, reforça o encanto já doado pela luz do outono ao Jardim Botânico do Rio. O registro foi feito pelo nosso correspondente no verde, Laizer Fishenfeld, que garante: “Nem Claude Monet conseguiu pintar uma ninfeia comparável a esta.” Que Deus a projeta, e a nós não desampare.
‘Crow-blue’
O livro “Azul-corvo”, de Adriana Lisboa, será lançado nos EUA e na Inglaterra pelo novo selo Bloomsbury Circus, da editora britânica Bloomsbury. A edição em inglês vai se chamar “Crow-blue”.
Aqui no Brasil...
Toda a obra de Adriana Lisboa será relançada pela Alfaguara a partir de 2013, logo após a publicação de seu romance inédito “Hanoi”. Aliás, em 2013, a escritora também comemora dez anos que seu livro “Sinfonia em branco” ganhou o Prêmio Saramago.
Para chinês ler
A edição da revista literária “Granta” com a seleção dos novos autores brasileiros que a Objetiva vai lançar na Flip deste ano será publicada também na Inglaterra e… na China.
O preço do amor
O desembargador Luiz Fernando Ribeiro de Carvalho, do Rio, reduziu para12 salários mínimos, e só por mais quatro anos, a pensão paga pelo dentista Olympio Faissol à Vilma de Souza, sua ex. Aos 79 anos, pai de oito filhos, Olympio pagava 36 mínimos
(R$ 22.392).
Segue...
Segundo a decisão, Vilma “já aumentou consideravelmente seu patrimônio com a pensão”. Enquanto isso, Olympio “vem perdendo sua capacidade financeira devido ao pagamento de pensões”.
Corredor do Fórum
O subprocurador Antônio José Campos Moreira pediu ao TJRJ para abrir investigação criminal contra o juiz Rafael de Oliveira Fonseca, de Mangaratiba, afastado desde o mês passado e que já responde a processo administrativo disciplinar.
Como se sabe...
O magistrado é suspeito, entre outras coisas, de destruir provas e de vender alvarás de soltura para supostos milicianos.
Há testemunhas
Parceira da coluna ouviu ontem este diálogo no salão de depilação Pello Menos, em Ipanema:
— Por favor, eu queria virilha completa e ânus.
— Senhora, virilha completa já dá direito a ânus.
— Humm...
— A senhora quer trocar ânus por buço?
A ideia de dar a Lula, dia 4, títulos de doutor honoris causa de cinco universidades cariocas (Uerj, UFF, UFRRJ, UniRio e UFRJ) esbarrou no Conselho Universitário da UFRJ, quinta. O assunto saiu da pauta da reunião por pressões de alguns professores e alunos, que temiam o uso político da concessão.
Fim do mundo
Tem político influente convencido de que Cachoeira é o verdadeiro dono da Delta. A conferir.
‘Com-terra’
Veja como o MST, às vezes, tem militantes de fora. Um dos acampados de um protesto em frente ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, em Brasília, chegou ali, quarta, numa caminhonete S-10 prata, carrão utilitário muito usado pelos, digamos, “com-terra”.
E mais...
Uma funcionária, ao vê-lo desembarcar e entrar numa barraca, perguntou como ele podia ser sem-terra e ter uma caminhonete daquelas. Resposta: — É do meu pai. Ah, bom!
Jogo perigoso
Walsh e May, as americanas do vôlei de praia que tropeçaram no circuito mundial, em Brasília, não trouxeram seu técnico, o brasileiro Márcio Sicoli, que mora em Los Angeles. Sicoli teria problemas na Justiça daqui, acusado pela ex de “raptar” o filho deles, de 3 anos.
‘Zorra’ na telona
As filmagens de “De pernas pro ar 2” começam segunda. Na continuação do longa, o elenco ganhou participações especiais de jovens comediantes como Rodrigo Sant’Anna, a Valéria do “Zorra Total”, e Tatá Werneck, do “Comédia MTV”.
ESSA FORMOSURA da natureza é uma ninfeia (Nymphaea capensis), tão linda na cor lilás, repare. A flor, que se abriu estes dias, reforça o encanto já doado pela luz do outono ao Jardim Botânico do Rio. O registro foi feito pelo nosso correspondente no verde, Laizer Fishenfeld, que garante: “Nem Claude Monet conseguiu pintar uma ninfeia comparável a esta.” Que Deus a projeta, e a nós não desampare.
‘Crow-blue’
O livro “Azul-corvo”, de Adriana Lisboa, será lançado nos EUA e na Inglaterra pelo novo selo Bloomsbury Circus, da editora britânica Bloomsbury. A edição em inglês vai se chamar “Crow-blue”.
Aqui no Brasil...
Toda a obra de Adriana Lisboa será relançada pela Alfaguara a partir de 2013, logo após a publicação de seu romance inédito “Hanoi”. Aliás, em 2013, a escritora também comemora dez anos que seu livro “Sinfonia em branco” ganhou o Prêmio Saramago.
Para chinês ler
A edição da revista literária “Granta” com a seleção dos novos autores brasileiros que a Objetiva vai lançar na Flip deste ano será publicada também na Inglaterra e… na China.
O preço do amor
O desembargador Luiz Fernando Ribeiro de Carvalho, do Rio, reduziu para12 salários mínimos, e só por mais quatro anos, a pensão paga pelo dentista Olympio Faissol à Vilma de Souza, sua ex. Aos 79 anos, pai de oito filhos, Olympio pagava 36 mínimos
(R$ 22.392).
Segue...
Segundo a decisão, Vilma “já aumentou consideravelmente seu patrimônio com a pensão”. Enquanto isso, Olympio “vem perdendo sua capacidade financeira devido ao pagamento de pensões”.
Corredor do Fórum
O subprocurador Antônio José Campos Moreira pediu ao TJRJ para abrir investigação criminal contra o juiz Rafael de Oliveira Fonseca, de Mangaratiba, afastado desde o mês passado e que já responde a processo administrativo disciplinar.
Como se sabe...
O magistrado é suspeito, entre outras coisas, de destruir provas e de vender alvarás de soltura para supostos milicianos.
Há testemunhas
Parceira da coluna ouviu ontem este diálogo no salão de depilação Pello Menos, em Ipanema:
— Por favor, eu queria virilha completa e ânus.
— Senhora, virilha completa já dá direito a ânus.
— Humm...
— A senhora quer trocar ânus por buço?
Dois governos - JORGE BASTOS MORENO - Nhenhenhém
O GLOBO - 21/04/12
Pacto de silêncio
A informação que tanto irritou, com razão, a presidente da República, está ao alcance de qualquer pessoa no site do Senado. Qualquer funcionário da Casa Civil ou da Articulação Política poderia ter repassado isso aos seus superiores e, estes, no caso, estas (Gleisi e Ideli), poderiam ter avisado Dilma.
Mudinho da Corte
Com essas coisas, o Gilbertinho não ousa fazer fofocas. Mas deveria, por lealdade, contar à presidente, que mulher de Braga é suplente.
Campanha pobre
A “CPI do Submundo” ou “CPI de Todo Mundo”, tenha lá o nome que se queira, já conseguiu, antes de ser formalmente instalada, um efeito alvissareiro. A redução do financiamento privado de campanha pelo caixa dois das empreiteiras. Agora, em vez de comprar, muitos candidatos a prefeito terão que suar a camisa para conquistar votos.
Cadê eles?
Não há precedente. Nunca, em momentos de ebulição política no país, como o de agora, ouviu-se esse ensurdecedor silêncio dos governadores diante de uma CPI.
Boca Mole
Quem conhece Cachoeira, Cavendish e Pagot afirma que a CPI não terá muito trabalho com os três.
Não será preciso nem apertá-los.
Basta provocá-los.
O voo ousado de Eduardo Campos ao Planalto
Enquanto a mídia e o Congresso se ocupavam do caso Demóstenes, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, dava o seu passo mais ousado da sua caminhada rumo ao Palácio do Planalto: a reunificação política de Pernambuco, o estado tradicionalmente mais ideologizado da federação.
Há quase 30 anos rompidos, 20 dos quais sem sequer se cumprimentarem protocolarmente, Campos e o senador Jarbas Vasconcelos se reuniram dia desses numa casa de praia próxima a Recife, retomando a antiga amizade dos tempos em que Jarbas fora candidato a prefeito de Recife, em 85 e, eleito, fizera do neto de Arraes, ainda menino, o mais novo chefe de gabinete da secretaria de governo municipal.
As ambições de Eduardo Campos são claras: ele quer ser presidente da República já, daqui a dois anos e pouco. Antes de pousar sua nave em Pernambuco, percorreu outros centros políticos, Rio e São Paulo, principalmente, para se viabilizar como alternativa à presidente Dilma.
Entrando no Rio e São Paulo pela porta da frente, recebendo dos respectivos prefeitos as chaves das duas cidades, Campos continua cruzando os céus do país, só que agora na condição de líder político do estado de Pernambuco.
2014
Eduardo Campos e Jarbas não fizeram — e não consta dos seus planos fazê-la— nenhuma aliança para as eleições municipais deste ano, em Pernambuco.
O projeto dos dois é nacional.
Inibição
Dilma também não quer se meter com as eleições municipais. Vai passar ao largo das disputas que envolverem suas bases. No caso de São Paulo, ela acha que, não panfletando com Haddad, seu vice Michel ficará inibido de carregar Chalita.
Novela
Gente, o palácio está insuportável. Muitas fofocas.
E quase nenhum trabalho.
O Gilbertinho já até ganhou o apelido de Adauto, o X-9 da Avenida Brasil que leva tudo para Muricy.
Boca do lobo
O FMI não está fazendo bem à cabeleira platinada de Christine Lagarde. Antes de desembarcar em Washington, em julho do ano passado, para se tornar a primeira mulher a dirigir a instituição, a francesa ostentava penteados ondulados chiquérrimos. Segundo a maldade de um velho lobo da imprensa, o cabelo agora chapado faz a ex-ministra da Economia e Finanças da França parecer um Ferreira Gullar com corte chanel.
UTI da cerveja
Ontem, durante consulta de rotina para examinar suas afinadas cordas vocais, Zeca Pagodinho inverteu os papeis e acabou diagnosticando o estresse do seu otorrino Jair de Castro. Por considerar gravíssimo o estado do paciente, o “Doutor” Zeca acabou levando o médico para a UTI mais próxima: um boteco perto da própria clínica, em Ipanema.
Carne na brasa - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 21/04/12
O maior grupo brasileiro de carne, o JBS, foi notificado pelo Ministério Público do Mato Grosso pela compra de 3.476 cabeças de gado de fazendas embargadas pelo Ibama, instaladas em áreas de preservação ou flagradas em trabalho escravo. Joesley Batista, o presidente do grupo, me disse que está mais preocupado com a vida humana em risco no Brasil, porque 5 milhões de bois são abatidos por ano sem inspeção sanitária.
- As árvores derrubadas hoje podem afetar a vida humana daqui a 50 anos, mas, neste momento exato, brasileiros estão comendo carne de frigoríficos municipais sem qualquer fiscalização. O veterinário assina o bloquinho de notas, fingindo que fiscalizou, e nem olha o boi. É uma calamidade. Terríveis doenças podem ser contraídas, como a teníase, que leva à loucura. O hospício está cheio de doido que comeu carne que as autoridades não fiscalizaram - diz Joesley.
O Brasil virou o campeão mundial do mercado de carne no mundo, o BNDES colocou muito dinheiro público no projeto de concentrar e globalizar o setor. O JBS foi escolhido para ser o maior. Analisei o tema, li relatórios, falei com ONGs, Ministério Público, BNDES, e tive uma conversa de duas horas e meia com o presidente do maior frigorífico do Brasil e do mundo.
Joesley garante que fez esforço e aumentou o controle para eliminar da sua cadeia produtiva as fazendas envolvidas em crime.
- Se o JBS não comprar o bicho, outros compram. Todo mundo compra. Eu fico sendo o chato. Assinei o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público, por isso sou vigiado, mas e os que não assinaram? O BRF, empresa grande e emblemática também, tem duas plantas de abate de bovino em Mato Grosso, mas não assinou o compromisso que assinamos. O Carrefour, Pão de Açúcar, Walmart não querem saber de onde vem a carne - afirma.
Em 2009, houve uma ofensiva contra o desmatamento e outros crimes da pecuária. O Greenpeace divulgou relatório provando a ligação dos grandes frigoríficos com produtores que praticavam crimes de trabalho escravo, desmatamento ilegal, invasão de terra indígena. A ONG Repórter Brasil também investigou e denunciou. O Ministério Público Federal iniciou a campanha "carne legal". O MP, em vários estados, iniciou ações contra frigoríficos.
Os grandes supermercados assumiram compromissos públicos de que só comprariam carne de quem vigiasse sua cadeia produtiva. Foi assinado um acordo dos grandes frigoríficos de que em seis meses eles eliminariam esses crimes da sua cadeia produtiva. Não cumpriram. Ganharam novo prazo. Marfrig e Minerva não foram apanhados em novos casos, mas o JBS, sim. O MP do Acre iniciou uma Ação Civil Pública contra o JBS, em abril de 2011, por comprar de produtores com crimes ambientais e trabalhistas, mas, em seguida, o grupo assinou um TAC, que estará completamente em vigor apenas em setembro. Já no Mato Grosso, em outubro de 2011, o MP notificou a empresa porque comprovou pelo Guia de Transporte Animal, que o JBS havia abatido 3.476 cabeças de gado de 34 fazendas que cometeram crimes: 13 delas, propriedades embargadas pelo Ibama; outras, por desmatamento ilegal de produtores que grilaram terras dos indígenas Marãiwatsede; e uma (144 bois), da lista suja do trabalho escravo. Depois da notificação, a empresa não comprou mais desses produtores.
- Não somos certificadores de frigorífico, mas os compradores internacionais nos perguntam se o JBS compra de produtores com atividades ilegais. Dizíamos que ele estava com um prazo para cumprir o acordo. Agora, informamos que eles não estão cumprindo - diz Paulo Adário, do Greenpeace.
A ONG lançou a campanha "Salve a sua pele", na Feira de Bolonha, na Itália, no fim de 2011, e fez um desfile de modelos denunciando aos compradores de couro essa conexão.
Joesley Batista diz que os sistemas de informação dos órgãos públicos sobre as fazendas são falhos:
- Muitas vezes, na hora que eu compro o boi a fazenda não está na lista do Ibama nem do Ministério do Trabalho. Depois do abate, ela entra. Por isso, melhorei o sistema de fiscalização e já até devolvi boi comprado. Mas aí o outro vai e compra. Digo sinceramente, 90% do tempo eu me preocupo com outro problema gravíssimo que é a saúde humana em risco no Brasil.
A denúncia que ele faz sobre a inspeção sanitária é de fato grave. Isso não abona os outros erros. O ideal é atacar os dois problemas.
Joesley me entregou um relatório com os seguintes números: há 206 frigoríficos no Brasil que têm inspeção sanitária federal. Que é bem feita e rigorosa, segundo ele. Há 422 frigoríficos que só têm inspeção estadual. Há níveis diferentes de qualidade da fiscalização. Minas é o pior estado, segundo Joesley. Os municípios fiscalizam 762 estabelecimentos:
- Existe um sistema de padrão internacional, o Riispoa, de inspeção. Ele só é cumprido pelos fiscais do Ministério da Agricultura. Nos estados, há alguma exigência. Nos municípios, o que acontece é brincadeira. Ninguém olha nada. Das 35 milhões de cabeças de gado abatidas por ano no Brasil, 20 milhões estão sob inspeção federal, os outros 15 milhões são abatidos com pouca ou nenhuma análise. Os brasileiros que comem essa carne estão correndo riscos.
O maior grupo brasileiro de carne, o JBS, foi notificado pelo Ministério Público do Mato Grosso pela compra de 3.476 cabeças de gado de fazendas embargadas pelo Ibama, instaladas em áreas de preservação ou flagradas em trabalho escravo. Joesley Batista, o presidente do grupo, me disse que está mais preocupado com a vida humana em risco no Brasil, porque 5 milhões de bois são abatidos por ano sem inspeção sanitária.
- As árvores derrubadas hoje podem afetar a vida humana daqui a 50 anos, mas, neste momento exato, brasileiros estão comendo carne de frigoríficos municipais sem qualquer fiscalização. O veterinário assina o bloquinho de notas, fingindo que fiscalizou, e nem olha o boi. É uma calamidade. Terríveis doenças podem ser contraídas, como a teníase, que leva à loucura. O hospício está cheio de doido que comeu carne que as autoridades não fiscalizaram - diz Joesley.
O Brasil virou o campeão mundial do mercado de carne no mundo, o BNDES colocou muito dinheiro público no projeto de concentrar e globalizar o setor. O JBS foi escolhido para ser o maior. Analisei o tema, li relatórios, falei com ONGs, Ministério Público, BNDES, e tive uma conversa de duas horas e meia com o presidente do maior frigorífico do Brasil e do mundo.
Joesley garante que fez esforço e aumentou o controle para eliminar da sua cadeia produtiva as fazendas envolvidas em crime.
- Se o JBS não comprar o bicho, outros compram. Todo mundo compra. Eu fico sendo o chato. Assinei o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público, por isso sou vigiado, mas e os que não assinaram? O BRF, empresa grande e emblemática também, tem duas plantas de abate de bovino em Mato Grosso, mas não assinou o compromisso que assinamos. O Carrefour, Pão de Açúcar, Walmart não querem saber de onde vem a carne - afirma.
Em 2009, houve uma ofensiva contra o desmatamento e outros crimes da pecuária. O Greenpeace divulgou relatório provando a ligação dos grandes frigoríficos com produtores que praticavam crimes de trabalho escravo, desmatamento ilegal, invasão de terra indígena. A ONG Repórter Brasil também investigou e denunciou. O Ministério Público Federal iniciou a campanha "carne legal". O MP, em vários estados, iniciou ações contra frigoríficos.
Os grandes supermercados assumiram compromissos públicos de que só comprariam carne de quem vigiasse sua cadeia produtiva. Foi assinado um acordo dos grandes frigoríficos de que em seis meses eles eliminariam esses crimes da sua cadeia produtiva. Não cumpriram. Ganharam novo prazo. Marfrig e Minerva não foram apanhados em novos casos, mas o JBS, sim. O MP do Acre iniciou uma Ação Civil Pública contra o JBS, em abril de 2011, por comprar de produtores com crimes ambientais e trabalhistas, mas, em seguida, o grupo assinou um TAC, que estará completamente em vigor apenas em setembro. Já no Mato Grosso, em outubro de 2011, o MP notificou a empresa porque comprovou pelo Guia de Transporte Animal, que o JBS havia abatido 3.476 cabeças de gado de 34 fazendas que cometeram crimes: 13 delas, propriedades embargadas pelo Ibama; outras, por desmatamento ilegal de produtores que grilaram terras dos indígenas Marãiwatsede; e uma (144 bois), da lista suja do trabalho escravo. Depois da notificação, a empresa não comprou mais desses produtores.
- Não somos certificadores de frigorífico, mas os compradores internacionais nos perguntam se o JBS compra de produtores com atividades ilegais. Dizíamos que ele estava com um prazo para cumprir o acordo. Agora, informamos que eles não estão cumprindo - diz Paulo Adário, do Greenpeace.
A ONG lançou a campanha "Salve a sua pele", na Feira de Bolonha, na Itália, no fim de 2011, e fez um desfile de modelos denunciando aos compradores de couro essa conexão.
Joesley Batista diz que os sistemas de informação dos órgãos públicos sobre as fazendas são falhos:
- Muitas vezes, na hora que eu compro o boi a fazenda não está na lista do Ibama nem do Ministério do Trabalho. Depois do abate, ela entra. Por isso, melhorei o sistema de fiscalização e já até devolvi boi comprado. Mas aí o outro vai e compra. Digo sinceramente, 90% do tempo eu me preocupo com outro problema gravíssimo que é a saúde humana em risco no Brasil.
A denúncia que ele faz sobre a inspeção sanitária é de fato grave. Isso não abona os outros erros. O ideal é atacar os dois problemas.
Joesley me entregou um relatório com os seguintes números: há 206 frigoríficos no Brasil que têm inspeção sanitária federal. Que é bem feita e rigorosa, segundo ele. Há 422 frigoríficos que só têm inspeção estadual. Há níveis diferentes de qualidade da fiscalização. Minas é o pior estado, segundo Joesley. Os municípios fiscalizam 762 estabelecimentos:
- Existe um sistema de padrão internacional, o Riispoa, de inspeção. Ele só é cumprido pelos fiscais do Ministério da Agricultura. Nos estados, há alguma exigência. Nos municípios, o que acontece é brincadeira. Ninguém olha nada. Das 35 milhões de cabeças de gado abatidas por ano no Brasil, 20 milhões estão sob inspeção federal, os outros 15 milhões são abatidos com pouca ou nenhuma análise. Os brasileiros que comem essa carne estão correndo riscos.
Meninos de toga - TUTTY VASQUES
O Estado de S.Paulo - 21/04/12
Não será surpresa para esta coluna se o ministro Cezar Peluso madrugar no STF na segunda-feira para abrir os trabalhos da Suprema Corte botando umas tachinhas no assento da cadeira de Joaquim Barbosa, sem reparar que o colega já havia colado com Durex um rabo de papel em sua toga ao apagar das luzes do expediente de sexta-feira na Praça dos Três Poderes.
É natural que aconteça algo do gênero depois que um chamou o outro de chato, feio e bobo, além de inseguro e nervosinho, provocando resposta com adjetivações à altura do debate acadêmico que se trava: ridículo, brega, caipira, tirano, desleal e pequeno!
Tomara que o chamado "supreme bullying" em curso não chegue ao ponto de nos fazer sentir saudades do tempo em que Gilmar Mendes distribuía petelecos na orelha de uns e outros no plenário do Supremo Tribunal Federal.
O conflito entre os homens de capa preta do noticiário vem ganhando proporções de quebra-pau na hora do recreio de escola pública!
Dependendo do aguardado voto do revisor do caso do mensalão, Ricardo Lewandowski, a situação pode fugir inteiramente de controle ainda no primeiro semestre do ano.
Depois não digam que não avisei!
Voto útil
Fãs de Carla Bruni podem decidir eleições na França! Falta ainda a primeira-dama decidir se quer continuar morando no Palácio do Eliseu.
Pedófilotur
Pedófilos de todo o mundo acabam de descobrir o turismo sexual pra lá de Teerã. Quem deu a dica foi a Embaixada do Irã no Brasil ao atribuir a "diferenças culturais" as reações contra o diplomata iraniano que cultivava o hábito de bolinar meninas na piscina de um clube em Brasília. Parece que em alguns lugares do Oriente Médio isso é supernormal.
"C" de coisa fofa
Com todo respeito às empregadinhas da novela das 7, o que é a Débora Falabella na das 9 cozinhando, arrumando cama, tirando pó, servindo café da manhã...? A classe C chegou em alto estilo à telinha da Globo!
Vaidade desmedida
Anderson Silva deu agora pra dizer por aí que é "meio metrossexual". Está, decerto, exagerando.
Briga de galo
Não convidem Eike Batista e Armínio Fraga para a mesma mesa. O dono do grupo EBX está morrendo de inveja do título que o ex-presidente do Banco Central ganhou nesta semana da revista The Economist: "Shakira de Barba"!
É do Brasil?
Waltinho Salles é, mal comparando, uma espécie de Lionel Messi do cinema brasileiro: para uns e outros por aqui, a carreira internacional do diretor de La Estrada, concorrente à Palma de Ouro no Festival de Cannes, desqualifica sua identidade cultural com o país de berço. Com o craque do Barcelona, dá-se a mesma coisa na Argentina! A diferença, convenhamos, é que o
brasileiro desnaturado em questão é muito mais
bonitinho, né não?
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