domingo, janeiro 08, 2012

Júri popular - RENATA LO PRETE

FOLHA DE SP - 08/01/12


FÁBIO ZAMBELI (interino) 


Em defesa do poder de investigação do Conselho Nacional de Justiça, a Ordem dos Advogados do Brasil mobilizará a Igreja Católica e artistas em nova campanha contra a corrupção no Judiciário. Movida pela ameaça de esvaziamento do papel do CNJ, catalisada por processos de associações de juízes em curso no STF, a entidade promoverá ato público no dia 31, em Brasília.

À ocasião, dirigentes da OAB pretendem integrar a CNBB a movimento análogo ao da Lei da Ficha Limpa, que desaguou no Congresso com um milhão de assinaturas. A ideia é levar para além dos tribunais a discussão sobre privilégios e desvios da magistratura.

Caixa-preta 1 Do presidente nacional da Ordem, Ophir Cavalcante, que já havia capitaneado frente em prol da corregedora Eliana Calmon em março do ano passado: "O CNJ é fundamental para dar mais transparência à Justiça brasileira, que, entre todos os poderes, ainda é o mais fechado".

Caixa-preta 2 Sob nova direção, a Corregedoria Geral de Justiça de SP usará redes sociais para colher denúncias contra juízes via internet.

Na mesa A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba protagoniza saia-justa que tem origem no lento preenchimento de cargos no segundo escalão federal. Dilma recebeu indicação de Guilherme Almeida para a presidência do órgão há 50 dias.

Em família Enquanto isso, permaneceu no posto Clementino Coelho, irmão de Fernando Bezerra. Com a polêmica atuação do ministro da Integração Nacional na destinação de verbas antienchentes, o nepotismo pegou mal. A Casa Civil interveio para bancar a troca.

Isonomia Um curioso observou: em meio a denúncias, o zelo de Dilma com Bezerra até agora só é comparável ao tratamento dedicado a seu amigo do peito Fernando Pimentel (Desenvolvimento).

Ampulheta Embora o governo tenha se empenhado para tranquilizar o PSB diante das denúncias de que o ministro favoreceu Pernambuco na distribuição de recursos, ninguém no Planalto se aventura a garantir sua permanência no cargo se ele prosseguir sob ataque.

Restos... O PMDB se ressente de chegar às urnas em 2012 sem um ministério que lhe renda dividendos eleitorais. Perto da reforma na Esplanada, seus dirigentes miram Transportes e Cidades.

...a pagar O partido reclama da ingerência de outras siglas. Nas pastas peemedebistas, à exceção da de Assuntos Estratégicos, secretários-executivos indicados pelo Planalto são tão influentes quanto os ministros.

Upgrade Após um ano de investimentos em baixa, o Ministério do Turismo estima gastar R$ 70 milhões com convênios e projetos em 2012. Para a promoção internacional de destinos brasileiros, a Embratur reservou R$ 139 milhões, mesma cifra de 2011.

Linha cruzada O governo paulista fechou contratos de obras e compra de vagões para o primeiro trecho do monotrilho de Congonhas, que integra o pacote da Copa. Espera agora a licença de instalação, que depende da Secretaria do Verde de Gilberto Kassab.

Nos trilhos Pré-candidato à prefeitura paulistana, Gabriel Chalita (PMDB) montou estratégia de imersão em bairros da periferia durante o recesso parlamentar. O deputado passou a visitar os extremos da capital. Sempre que possível, utiliza trem e metrô.

com LETÍCIA SANDER e FLÁVIO FERREIRA

tiroteio
"Os critérios do governo para o uso de verba pública são secretos ou impublicáveis, por não serem republicanos. E Dilma, que manda em tudo, como explica tudo isso?"

DO PRESIDENTE NACIONAL DO PSDB, SÉRGIO GUERRA (PE), analisando o papel da presidente no gerenciamento da crise que envolve a destinação de recursos do Ministério da Integração Nacional para prevenção a enchentes no país.

contraponto
Delação premiada
Durante sessão do STF, em abril de 2011, entrou em pauta a concessão do benefício de licença-prêmio a juízes. Ao ingressar no debate do tema, o ministro Carlos Ayres Britto disse:

-Lembro que a licença é um prêmio que a legislação confere a quem revela, enquanto servidor público, uma exemplar assiduidade.

Num plenário em que 3 dos 11 ministros estavam ausentes, o ministro Marco Aurélio Mello disparou:

-Vemos que assiduidade é algo raro!

Banco não confia em banco - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 08/01/12


Dia 1.º o euro completou dez anos em meio a atormentada crise de confiança.

Os bancos europeus já não confiam uns nos outros porque não sabem em que situação patrimonial se encontram. Na última terça-feira, o Banco Central Europeu (BCE) recebeu o recorde de 453,2 bilhões de euros em depósitos overnight dos bancos. Todo o mercado financeiro prefere deixar as sobras de caixa no BCE em troca de uma remuneração mais baixa a reemprestá-las a outros bancos. Tem medo de que a qualquer momento sobrevenham novas grandes quebras. Não há falta de dinheiro. Desde maio, só o BCE injetou na economia a bagatela de 211 bilhões de euros em recompra de títulos de dívida da Grécia, Irlanda, Portugal, Itália e Espanha.

O principal resultado dessa procura de refúgio dos bancos no BCE é o brutal estancamento das operações de crédito, que não apenas aumenta as dificuldades para rolagem dos títulos públicos nos mercados, mas também aprofunda a recessão econômica.

Os líderes europeus contribuíram pesadamente para essa enorme crise de confiança. O sistema bancário europeu começara a sangrar alguns anos antes, quando da crise provocada pela quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. Esse enfraquecimento cresceu quando os dirigentes europeus, especialmente o presidente da França, Nicolas Sarkozy, insistiam em demonizar todo o sistema financeiro, culpando-o pelo colapso.

O que conta aqui não é o tamanho da responsabilidade dos bancos, mas, sim, o impacto do discurso oficial de que a crise se deve sobretudo à ganância dos bancos - que não fazem outra coisa, segundo eles, senão tirar proveito da fragilidade dos Tesouros dos Estados nacionais do bloco do euro.

Foi essa acusação que justificou a decisão dos chefes de governo de que os credores (os bancos) devessem pagar boa parte da conta da quebra da Grécia.

A primeira consequência foi a institucionalização do calote que, em seguida, aumentou o contágio dos títulos de outros países, especialmente para a Espanha e para a Itália. Outra consequência foi a disparada dos juros pagos pelos países mais endividados da Eurolândia (veja mais no Confira).

A partir do momento em que os bancos ficaram sujeitos a calotes oficiais, passou a ser reconhecido que seus ativos (suas aplicações) não valem o que dizem que valem.

A desmoralização dos balanços bancários já havia começado em julho de 2010, com o fiasco do primeiro teste de estresse aplicado nos 91 maiores bancos europeus. A conclusão fora a de que apenas um punhado de instituições financeiras não precisaria mais do que pequenos reforços de capital. Mas, nas semanas seguintes, quebraram os bancos irlandeses.

Um ano depois, novos testes de estresse apontaram para necessidades de reforço de capital em só oito bancos, num total não superior a 2,5 bilhões de euros. Um mês depois, o Fundo Monetário Internacional (FMI) avisou que seriam necessárias injeções de capital oito vezes maiores, de 200 bilhões de euros.

A encrenca se aprofunda e, no entanto, as autoridades europeias seguem aturdidas e paralisadas pelos próprios erros que já cometeram.

Arma de repetição - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 08/01/12
Imagine um leitor que por algum motivo tenha parado de ler jornais por um tempo e voltado a ler nos últimos dias. A única dúvida que ele terá é por que mudou o nome do ministro. Será informado de que o ministro que privilegiou seu estado na distribuição de verbas contra desastres chama-se Fernando Bezerra e não Geddel Vieira Lima.
A explicação dos ministros para a alta concentração das verbas em seus estados é a mesma. Ambos disseram que seus redutos - a Bahia, no caso de Geddel; Pernambuco, no caso de Bezerra - receberam mais por terem preparado de forma mais eficiente os projetos a serem financiados. Igual também é a frase: "o meu estado não pode ser discriminado." Claro que não pode ser, o que o país discorda é do coincidente privilégio.
Os episódios recentes envolvendo ministros mostram que as fórmulas empregadas por eles se repetem, seja em flagrantes de clientelismo, seja em casos mais graves, de corrupção mesmo. De vez em quando, os ministros caem diante de evidências de um malfeito. Mas mais importante que a troca de ministros é implantar antídotos que impeçam a reconstrução de esquemas semelhantes. Em vez de Bahia, Pernambuco. Mas a fórmula de destinar verbas ao reduto eleitoral foi a mesma. É o que precisa ser evitado.
O pior é que cidadãos dos dois estados não podem dormir em paz apesar da abundância da verba, porque os estados não estão mais protegidos. O dinheiro não vai para a região obedecendo a alguma ordem de emergência e critérios de eficiência para proteger a população. Vai para catapultar o projeto eleitoral do ocupante do cargo. No caso de Geddel, era para preparar sua campanha ao governo do estado; fracassada, por sinal.
De diferente nos dois casos apenas a atitude do presidente. Lula negou as evidências que os números mostravam. Disse que era tudo leviandade e acusou uma suposta "exploração política". Os dados mostravam que, de 2004 a 2009, o Rio tinha recebido 0,69% das verbas e a Bahia, 40%. Dilma teria determinado agora que a liberação passe pela Casa Civil.
Políticos ou técnicos apadrinhados têm ocupado ministérios para usá-los como donatarias para suas ambições eleitorais ou como base de financiamento para seus partidos. A destinação preferencial das verbas é um caso de clientelismo, mas houve outros casos em que há mecanismos muito mais lesivos. Uma fórmula já detectada e que levou à queda de ministros é a da criação de ONGs ligadas ao partido do ministro, para transferir a elas dinheiro público, que, no fim, vai para a legenda.
Em alguns episódios passados descobriu-se que as ONGs tinham como endereço algum local desabitado e como responsável alguém que sequer sabia que seu nome era utilizado. Normalmente, segue-se um roteiro conhecido: apanhado diante da evidência, o ministro em questão dá declarações que ofendem a inteligência do distinto público. Quando suas respostas e as evidências do malfeito se acumulam, o governante derruba a pessoa do cargo. O caído some nas sombras, deixa de ser cobrado pelos seus atos e espera o esquecimento para voltar; os esquemas montados para surrupiar dinheiro público trocam de donos; e assim, o país aguarda o próximo escândalo.
Seria bom aprender com a repetição. O mau uso do dinheiro público, de tanto se reproduzir, ficou previsível. Há casos e casos, há clientelismo, corrupção, mas as fórmulas em um e outro caso estão ficando repetitivas. O governo que queira defender o bom uso do dinheiro público pode desmontar os esquemas e prevenir, em vez de demitir.
Um governo de coalizão se faz com a distribuição de algumas áreas para os partidos que dividem o poder, mas o exercício dos cargos deve ser para implantar as políticas que aquele partido defende. O cargo é espaço para execução das políticas que defenderam na formação do programa comum de governo. Se forem bem executadas, os partidos ganham musculatura eleitoral. O erro não é a divisão do poder, é o nomeado tomar posse do posto como se fosse propriedade privada.
A política brasileira entendeu errado a lógica da coalizão. O ministério ou o cargo não é propriedade do nomeado, do seu partido, da sua facção no partido, dos seus apadrinhados. Os políticos demonstram que entenderam que o dinheiro que trafega por ali tem que ter como destino preferencial a pavimentação do caminho que os levará à reeleição, em primeiro lugar, ao aumento da bancada do seu partido, em segundo.
Os relatos dos mesmos descaminhos estão cansando o eleitorado. As pessoas contemplam com fadiga os labirintos nos quais o dinheiro do seu bolso acaba desviado para outros fins que não o de melhorar o país e financiar políticas públicas. Cidadãos e cidadãs estão perigosamente se convencendo de que os políticos são todos iguais, a corrupção é indestrutível, o pagamento de impostos, uma inutilidade. Esse desalento pode ser o ovo de uma serpente que, em algum momento no futuro, conquiste seguidores para teses que ameaçam a democracia representativa.

Ahmadinejad não vem aí - CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 08/01/12

Desta vez, giro americano do presidente do Irã não passa pelo Brasil, o que nos poupa de falsas polêmicas 

O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad começa hoje, pela Venezuela, mais uma excursão pela América Latina. Mas desta vez, ao contrário de 2009, não virá ao Brasil, o que nos poupa de outra polêmica inútil.
Refiro-me, especificamente, ao intenso ruído em torno da tentativa turco-brasileira de arrancar um acordo do Irã sobre seu programa nuclear, que levou a uma bateria de acusações de que o governo Lula estava, na verdade, ajudando Teerã a ganhar tempo para fazer a bomba.
Cansei de escrever, com base em fatos, inclusive obtidos de fontes norte-americanas, que Lula nada mais fizera do que seguir, ao pé da letra, sugestões contidas em carta que lhe enviou o presidente Barack Obama às vésperas da iniciativa turco-brasileira. Inútil. Prevalece sempre a versão ou por desinformação, ou por má-fé, ou ambas juntas.
Pulemos, pois, para o presente. Ahmadinejad irá, além de Caracas, a Equador, Cuba, Nicarágua e Guatemala, nestes dois últimos países para a posse dos respectivos presidentes. O Brasil não se interessou em convidá-lo nem ele se ofereceu para vir, ao menos segundo a versão de Marco Aurélio Garcia, o assessor diplomático da presidente.
Garcia desdramatiza qualquer interpretação sobre a não vinda. Mas não dá para esquecer que Dilma introduziu duas mudanças na atitude do Brasil em relação ao Irã. Primeiro, condenou a pena de apedrejamento a que foi condenada Sakineh Ashtiani, acusada de adultério. Depois, a diplomacia brasileira votou a favor de uma investigação sobre direitos humanos no Irã, quando Lula nunca se manifestou a respeito. É verdade que aprovar uma investigação não é a mesma coisa que condenar um dado país, mas a mudança é relevante, mais ainda aos olhos de um regime fechado que divide o mundo em amigos ou inimigos sem meios-termos.
Poupado o Brasil de novas polêmicas, elas de todo modo acompanham a viagem de Ahmadinejad, reacendendo o pavor de uma perigosa infiltração iraniana na América Latina. Basta ver o que diz Ileana Ros-Lehtinen (republicana da Flórida), presidente do Comitê de Relações Internacionais da Câmara de Representantes : "A atividade iraniana no Hemisfério Ocidental ameaça a segurança regional e a estabilidade".
Que o Irã está ativo na América Latina é fato, do que dá prova a estatal Press TV ao informar: "A promoção de uma abrangente cooperação com países latino-americanos está entre as principais prioridades da política externa da República Islâmica".
Mas Stephen Johnson, diretor do Programa Américas do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington, põe as coisas em perspectiva: "O comércio entre o Irã e a região triplicou entre 2008 e 2009, mas o comércio com cada país latino-americano é ainda apenas uma lasca da torta do país, correspondendo a menos de 1% em todos os casos".
Outro ponto que agita o noticiário em torno da viagem do iraniano é a possibilidade de que use a América Latina para romper ao menos parcialmente o isolamento do regime. Sem visitar Brasil, Argentina e México, as chances tendem a zero.

A utopia matou um rato - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 08/01/11
Karl Marx certamente morreria de vergonha se ainda estivesse vivo para ver em que se transformou, na Coreia do Norte, o sonho da sociedade igualitária e fraterna que ele concebeu.
Revoltado com a selvageria do capitalismo de sua época, quando o trabalhador não gozava de qualquer direito, concebeu uma sociedade que, em vez do domínio da burguesia, fosse governada pelos trabalhadores.
Na sua visão equivocada, o empresário nada produzia mas apenas se apropriava do que produziam os trabalhadores, que, como os criadores da riqueza, deveriam gozar dela e dirigir a sociedade.
Ignorava, logo ele, que tão ou mais importante que o trabalho manual é o trabalho intelectual, sem o qual a economia não avançaria e a sociedade tampouco. Numa coisa, porém, ele estava certo: o capitalismo é um regime voraz que, movido pela sede de lucro e poder, a tudo devora. Até a si mesmo, como acabamos de ver no caso da bolha imobiliária nos Estados Unidos, que arrastou a economia norte-americana e a europeia a uma crise de consequências imprevisíveis.
A tomada de consciência, naquela época, do que era o capitalismo, alimentou a luta ideológica que conduziu à revolução comunista, inicialmente na Rússia e depois na Ásia e na Europa oriental, chegando até Cuba, na América Latina.
Só que, em nenhum desses casos, a classe operária assumiu o governo do país, mas, sim, o partido comunista ou, mais precisamente, os seus dirigentes, que passaram a usufruir dos privilégios próprios à classe dominante.
É verdade que, em quase todos eles, medidas foram tomadas em benefício dos trabalhadores, cuja condição de vida melhorou bastante, mas não tanto quanto nos países capitalistas desenvolvidos. É que os capitalistas aprenderam a lição e viram que seria melhor perder alguns anéis do que todos os dedos.
Isso durou grande parte do século 20, até que, para surpresa de muita gente, o sistema socialista começou a ruir e praticamente acabou.
E não foi em função de nenhuma guerra, de nenhuma invasão militar: acabou porque não tinha condições de competir com o capitalismo que, ao contrário do comunismo, não nasceu de uma teoria, mas do processo econômico mesmo. Por isso o capitalismo é vital, criativo, voraz e destituído de ética, como a natureza. É evidente que um sistema, dirigido por meia dúzia de burocratas, não pode competir com um modo de produção que vive da iniciativa individual, ou seja, de milhões de pessoas, que querem melhorar de vida e enriquecer.
A República Popular da Coreia do Norte é filha da Guerra Fria que, após a Segunda Guerra Mundial, opôs os Estados Unidos e a União Soviética. Essa disputa teve um de seus momentos mais críticos na guerra entre o exército ianque, tropas chinesas e soviética na península coreana, dividindo-a em duas: a Coreia do Norte, comunista, e a Coreia do Sul, capitalista.
Mas não é só filha da guerra: é a perpetuação simbólica desse antagonismo, que já não existe mais em parte alguma, exceto lá. Como naquela época, até hoje a Coreia do Norte investe mais em armamento do que em qualquer outra coisa, mantém um dos maiores Exércitos do mundo e insiste em afirmar-se como potência nuclear.
Isto quando o sistema socialista já desmoronou no mundo inteiro e a própria China -que era a expressão máxima do radicalismo revolucionário- aderiu ao modo de produção capitalista. O governo da Coreia do Norte ignora tudo isto e assegura que o socialismo invencível dominará brevemente o planeta.
Mas as mentiras servem também para mitificar os próprios governantes, transformados em predestinados salvadores do povo.
Kim Jong-il, o ditador que acaba de morrer e que nascera na Sibéria, ganhou por berço a montanha sagrada de Paektu. A locutora que noticiou sua morte na televisão o fez em soluços, como durante a espetacular cerimônia fúnebre, milhares de crianças, mulheres e soldados desfilaram fingindo soluçar convulsamente. Todos soluçavam, menos o filho que o substituirá. É que os grandes líderes, como os deuses, não soluçam.
Marx morreria de vergonha: ali a história voltou a uma espécie de monarquia farsesca, onde o poder passa de pai para filho sob os aplausos da plateia assustada.

O petróleo cultural - SÉRGIO AUGUSTO

O Estado de S.Paulo - 08/01/12

Alçada a 'Opep da cultura', a Comissão Europeia propõe programa de fomento às artes em geral, na contramão da pindaíba, reinante



Nas grandes crises econômicas, a cultura é sempre uma das primeiras vítimas, senão a primeira sacrificada no altar orçamentário. "Aqui é diferente", apregoavam os espanhóis até pouco tempo atrás, sem evidências em contrário. Até que em meados do mês passado, premido pela crise em curso, o governo espanhol fechou aquele centro cultural de Avilés, projetado por Niemeyer e ainda novinho em folha, e anunciou um corte de 50% nas verbas destinadas a museus e às artes em geral. Sem crédito na praça e com um dos mais elevados índices de desemprego da zona do euro, a Espanha, após três décadas de bonança financeira e fulgor cultural, não faz mais a diferença.

A Alemanha pode fazer. Não porque viva uma ressurreição cultural comparável à da Espanha pós-franquista ou de muito crédito ainda disponha na praça, mas porque, além disso, tem há seis anos um ministro da Cultura de se tirar o chapéu. Bernd Neumann, que nesta sexta-feira chegou aos 70, talvez nunca se torne tão famoso quanto Malraux ou Jack Lang, mas boa parte da Europa já o conhece de nome e por façanhas nada modestas, como, por exemplo, convencer a durona Angela Merkel, com a crise já fazendo estragos no continente, a investir € 50 milhões (R$ 118 milhões) a mais em cultura.

Semana atrasada, Neumann criticou a queda de nível da televisão pública do país. Fez um discurso contundente contra a sujeição de canais sem compromissos comerciais à estupidez reinante nos concorrentes. Merkel deveria emprestá-lo aos países vizinhos. E também ao Brasil.

Para Neumann, o bem mais precioso da Europa, seu maior capital de giro, é a cultura. Há três meses, na abertura do Congresso Europeu de Cultura, na cidade polonesa de Wroclaw, o filósofo Zygmunt Bauman rufou o mesmo tambor. "O futuro da Europa depende da cultura", proclamou o teórico da "liquidez" (não no sentido econômico) do mundo moderno, preludiando um arrazoado sobre a "babelização" do planeta, cada vez mais "um arquipélago de culturas", a seu ver carente de uma "nova Biblioteca de Alexandria", capaz de armazenar tudo que o "mosaico de diásporas" em curso vem produzindo.

Além de propor a criação de um "sistema integrado de traduções", que no mínimo tiraria uma legião de tradutores do desemprego, Bauman sugeriu aos presentes que se abstivessem de ver televisão durante os quatro dias do congresso, "para não se contagiarem pelo pessimismo". Mesmo 13 mil km distante de Wroclaw, acatei a recomendação do filósofo, e até hoje não abandonei a dieta.

A partir do segundo dia, tomou conta do congresso a interminável discussão sobre as diferenças entre arte (realização individual) e cultura (contribuição coletiva), recursos públicos e privados (ambos derivam de nossos impostos, certo?), mas sem sacrifício da questão central: como trazer a cultura para o centro do discurso social e econômico da nova sociedade? A certa altura, alguém lançou uma proposta de slogan: "A cultura é o petróleo da Europa".

No início da semana, a Comissão Europeia, alçada à condição de Opep da cultura continental, propôs um programa de fomento às artes em geral na contramão da pindaíba reinante. Batizado de Europa Criativa, é um projeto de perfil germânico, à altura do € 1,2 bilhão que Bernd Neumann tem em caixa para incrementar as atividades culturais na Alemanha. No total, será €1,8 bilhão alocado em artes visuais e performáticas, cinema, música, literatura e arquitetura, nos países da Eurozona, ao longo de seis anos. A desova começará em 2014 e beneficiará cerca de 300 mil artistas. Falta o principal: a concordância de todos os governos em abrir mão de recursos para gastos tidos como mais prementes até por quem considera a arte mais duradoura que a vida.

A despeito do ceticismo de uns ("o programa não estimulará a economia") e outros ("é ingenuidade supor que a arte possa arrefecer as tensões num mundo tão dividido como o nosso"), prevalece o otimismo dos que se comprometeram com a ideia de que aproveitar e estimular o potencial criativo das pessoas é um caminho seguro - e o mais digno - para se alcançar as metas de crescimento sustentável, de empregos e coesão social previstas para 2020.

Tão ou mais árduo será despertar o interesse da iniciativa privada em participar desse mutirão com uma nova mentalidade. Critérios de seleção pessoais e mercadológicos não terão vez. Mas como lidar com as corporações que criaram as próprias linhas de crédito cultural e pautam suas escolhas de olho no mercado? "O lucro fácil não pode ser o objetivo de quem financia o que quer que seja usando incentivos fiscais", interveio na discussão o artista plástico Dexter Dalwood.

Um dos muitos ingleses preocupados com a situação peculiar de seu país na crise econômica, Dalwood receia que artistas do Reino Unido não sejam contemplados pelo Europa Criativa por causa da oposição do primeiro-ministro David Cameron ao tratado econômico firmado mês passado e do crescente isolamento da Inglaterra da Europa continental. Um dos cardeais da Comissão Europeia já desfez tais rumores. "Não haverá retaliações", prometeu. Mas algumas barbas continuam de molho.

O euro teve, essa semana, sua maior queda frente ao dólar nos últimos 15 anos. Embora ancorada na libra, a "velha e pérfida Albion" não tem muito do que se vangloriar. Os mais recentes dados sobre o ensino no Reino Unido são esmorecedores: cortes profundos no orçamento e demissões em massa de professores, com destaque para os que ensinam arte, música e atividades artísticas afins. O governo Cameron não parece, pois, muito inclinado a investir em cultura, além da fortuna que enterrou nas Olimpíadas de Londres.

Também nisso os ingleses se diferenciam dos franceses. Nenhum outro povo acredita mais em seu "petróleo cultural" que os franceses. Boas razões não lhes faltam. Em 2010 o Museu do Louvre recebeu 5% a mais de visitantes que no ano anterior. Foram quase 9 milhões de visitantes, praticamente o dobro dos que pisaram no Museu Metropolitan de Nova York.

Todos 'japoneses' - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 08/01/12
A eleição para a prefeitura de São Paulo, conforme está se desenhando até o momento, mais parece a perfeita tradução da mediocridade da política brasileira. Todos os candidatos até aqui apresentados são "japoneses", diz-se na gíria política, isto é, são todos igualmente desconhecidos do eleitorado e semelhantes nos seus anonimatos.

Diante desse quadro, não restou ao PSDB alternativa que não fosse a prévia, uma maneira de a direção partidária lavar as mãos na escolha de seu candidato, deixando que a militância decida o destino do partido que, pela primeira vez em muitos anos, ela, direção, não conseguiu definir.

Ao mesmo tempo, as prévias podem impulsionar uma revitalização da militância tucana na capital paulista, o que daria novo fôlego ao partido.

Os tucanos estão à frente do governo do estado de São Paulo há nada menos que 16 anos e retomaram o controle da prefeitura em 2004, quando José Serra, derrotado em 2002 para a Presidência da República por Lula, venceu a petista Marta Suplicy, tendo como vice Gilberto Kassab, àquela altura no DEM, que assumiria o posto para Serra disputar (e vencer) o governo do Estado em 2006.

O único nome forte para o PSDB tentar manter a hegemonia política na prefeitura seria o do próprio Serra, que até o momento mostra-se firme na disposição de não concorrer, guardando-se para uma hoje improvável candidatura presidencial em 2014 pelo PSDB.

Mas ainda há setores do partido que alimentam a esperança de que Serra venha a se candidatar no último momento, que seria entre março e abril.

O adiamento das prévias para março foi feito de comum acordo entre o governador Geraldo Alckmin e Serra. O governador espera dar tempo para Serra se decidir. Serra diz que ganhou tempo para tentar um acordo entre os partidos aliados.

Na sua visão, o ideal seria que cada um dos partidos potencialmente aliados - PSDB, PSD, DEM e PPS - indicasse seu candidato, e as pesquisas e negociações decidiriam a chapa mais forte.

Há, no entanto, quem acredite, inclusive no PT, que Serra deixou a decisão para março para ganhar mais tempo. Desta vez, a famosa indecisão de Serra tem sua razão de ser: se anunciar que disputará a Prefeitura, estará ao mesmo tempo anunciando que abandonou de vez seu sonho de vir a presidir o Brasil.

Isso porque, para dissipar qualquer dúvida de que ficará na prefeitura até o final do mandato se eleito, uma de suas principais fontes de rejeição hoje, teria que também anunciar seu apoio à candidatura de Aécio Neves à Presidência pelo PSDB em 2014.

Mesmo que sua candidatura à Presidência continue inviável no PSDB, Serra sempre teria a opção de tentar seu sonho presidencial por outra legenda, o PSD de Kassab ou o PPS, numa manobra radical.

O fato é que para disputar a prefeitura paulistana de forma competitiva será necessário ter um discurso coerente, o que fica difícil para o PSDB em relação à gestão de Kassab. se os dois partidos forem para a disputa desunidos.

Este foi o problema de Alckmin em 2008: não podia atacar a prefeitura, pois Kassab completara, de modo absolutamente fiel, o mandato de Serra na cidade, e também não podia defendê-la.

Neste ano, separados, nem o PSDB nem o PSD terão discurso na campanha, e o mais provável é que, sem a aliança, Kassab opte por não lançar candidato próprio, para não virar o grande saco de pancada da campanha, além do mais com pouco tempo de TV.

Para uma aliança, o PSD tem um candidato mais forte politicamente que os pré-candidatos do PSDB: o vice-governador Afif Domingos, que entra bem na classe média paulistana e tem a rede das Associações Comerciais como suporte a um discurso de defesa do consumidor, que marca sua vida política, levando-o a quase se eleger para o Senado. A outra opção de Kassab, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, peca pela falta de apoio político.

a aliança do PSD de Kassab com o PSDB se mostrar inviável - e tudo indica que o será, pela distância que separa Alckmin do prefeito - , o mais provável é que o PSD se aproxime do PT, o que poderia dar vitória ao candidato de Lula, o hoje ministro da Educação Fernando Haddad, até mesmo no primeiro turno, pois traria para ele parte da classe média paulistana.

Mesmo com a impopularidade do prefeito em baixa neste momento, ele tem ainda recursos para reverter essa imagem. Além do mais, será difícil para o PSDB atacar sua gestão, pois ele tem se mantido fiel às diretrizes da gestão de Serra, e um ataque à sua gestão pode reverter contra o próprio PSDB.

O governador Geraldo Alckmin tem na reeleição seu objetivo principal, e considera que a eleição para a prefeitura não é determinante para o resultado da eleição de governo do estado.

Em conversas com aliados, ele tem lembrado que perdeu a prefeitura em 2000, mas ganhou o estado em 2002.

Num quadro mais amplo, Jânio ganhou de Fernando Henrique em 1985, e o PMDB ganhou o estado em 1986 com Quércia; Erundina ganhou em 1988 pelo PT, mas Quércia fez o sucessor em 1990. Maluf ganhou em 1992, mas Covas venceu em 1994. Serra perdeu em 1996, mas Covas se reelegeu em 1998.

Desta vez, no entanto, com a disposição de Lula de desbancar o PSDB do controle político de São Paulo, o quadro é diferente: o PT está entrando no décimo ano no governo central, com uma máquina política funcionando a pleno vapor e Lula no auge de seu prestígio político, mesmo que sua capacidade de influir na eleição de São Paulo seja reduzida, como mostraram as derrotas de Marta Suplicy e de Mercadante.

Se obtiverem o apoio da prefeitura, com Gilberto Kassab à frente do PSD, terão também uma máquina local para alavancar a candidatura de Haddad, e o prefeito se livrará da principal fonte de críticas a seu governo.

Os demais candidatos, tanto Gabriel Chalita pelo PMDB quanto eventualmente Celso Russomano pelo PRB e Soninha pelo PPS, não têm cacife político para transformar as críticas à prefeitura paulistana em elemento catalisador da campanha.

Feliz 2012! Abaixo os maias! JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 08/01/11


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
 Já tô com saudades de 2011. Principalmente dos últimos dez dias!
Voltei! Depois de comer tudo aquilo, voltamos a comer por quilo. E, depois da grande virada, todo mundo se virando. Pra pagar o cartão! E eu tenho uma amiga que deu tanto nesse fim de ano que foi apelidada de Imigrantes: ninguém vai pro litoral sem passar por ela.
E a melhor faixa de feliz Ano-Novo é de Simões Filho, na Bahia: "O Transporte Clandestino deseja a todos um feliz Ano-Novo". Clandestinos, porém educados! Rarará!
E o site Comentando disse que 2011 foi o ano em que a Europa se fudeuro! Rarará!
E eu passei o Réveillon em Cartagena, Colômbia, e só tocava Michel Teló. E uma amiga passou o Réveillon no Chile e só tocava Michel Teló! E um outro passou o Réveillon na Hungria e só tocava Michel Teló. E o chargista Jorge Braga revela um novo tipo de mosquito da dengue: o MOSQUITELÓ! "Ai, ai, se eu te pego."
E pegou o Ronaldo. O Ronalducho tá com dengue. Esqueceu de secar os pneus! Pior, esqueceu de secar o umbigo, aquela caixa d'água. E o mosquito explodiu de colesterol! Como disse o outro no Twitter: "Perdeu, mosquito!". Rarará!
E a Dilma vai lançar um programa pra extinguir a dengue no Brasil: O FIM DA PICADA! Rarará! E chegou a conta dos fogos! Você pensa que show de fogos é de graça?! Tudo embutido nos impostos. Depois do espetáculo pirotécnico, vem o espetáculo fiscotécnico: IPVA, IPTU, IPI, IR e IH... ME FERREI! É o IMF: Ih Me Ferrei! E sabe por que tributo se chama tributo? Porque os carnês vêm de três em três!
E esses maias tão de brincadeira. Dizem que o mundo vai acabar em 21 de dezembro. Por que não acaba logo em janeiro pra gente não ter que trabalhar o ano inteiro? Sacanagem. Acaba depois do Carnaval.
O meu meu slogan vai ser: "Feliz 2012! Abaixo os maias". Aliás, depois que o Restart cantou na Paulista, o mundo já acabou! E o Itaquerão vai ficar pronto em 2012. Pra sediar o fim do mundo!
Os Predestinados! É que na Bahia tem um pugilista amador chamado Décio Brasso! Rarará! E sabe como se chama o funcionário da Defesa Civil responsável pelo resgate dos desabrigados das enchentes? Juarez NOÉ!
E um amigo me disse que 2011 foi o Ano da Rabanada. Levou rabanada da mulher, da sogra, do chefe e levou rabanada da Dilma. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

GOSTOSA


Viva a China? Mais ou menos - ALBERTO TAMER


O Estado de S.Paulo - 08/01/12


O superávit comercial do Brasil com a China aumentou 125% em um ano! Viva a China? Sim, mas com realismo e sem festa. Esse saldo representa 38% do superávit comercial do Brasil no ano passado. A China é agora o nosso principal parceiro comercial, mas só importa commodities e itens básicos produzidos por elas. O assunto é velho, batido? Sim e não. É velho porque já dura anos; é novidade porque essa tendência ao invés de reverter, aumenta sem parar. Os chineses exportam mais e mais produtos manufaturados, competem - não -, arrasam alguns setores industriais importantes no Brasil o que explica em grande parte a estagnação da indústria. A China é um grande mercado para o Brasil, mas péssima parceira. Joga com tudo na disputa comercial: yuan desvalorizado, exportação por outros países, subsídios, mão de obra aviltada, sem leis trabalhistas que mereçam esse nome. Faz um pacote que a torna imbatível no mercado brasileiro e mundial; exportam todas essas vantagens, roubam empregos aqui que são criados lá. Ruim? Não. Poderia ser pior. Mas não pode continuar assim.

Preço nas nuvens. A Associação Brasileira dos Exportadores alerta para um fato marcante nas exportações para a China. Não há que se vangloriar muito com os resultados de 2011. "Dos US$ 40 bilhões que exportamos até novembro para os chineses, US$ 18 bilhões correspondem a minério de ferro, US$ 10,5 bilhões a soja e US$ 4,3 bilhões a petróleo", afirma o presidente em exercício da entidade, José Augusto de Castro. "Com a exceção de alumínio e fumo, o Brasil nunca exportou a preços tão altos!" Não foi aumento da demanda, não. Foi a especulação financeira que dominou o mercado no ano passado, com fuga das aplicações de risco e especulação com os preços das commodities. Não se consumiu mais nem se fez muito mais estoques. Se especulou mais. "Em algumas bolsas, fundos negociavam 13 vezes o volume efetivo de soja disponível." O mesmo ocorreu com o petróleo.

Ou seja, tivemos um ano atípico com os preços das commodities em alta beneficiados (se é que se pode dizer assim) pela crise financeira europeia. E Castro dá um exemplo que impressiona: "A cotação da tonelada do grão de soja aumentou nada menos que 161% entre 2000 e 2011. Passou de US$ 169 para US$ 495. Não há aumento de consumo que explique isso. O caso do minério de ferro é ainda mais impressionante. Entre 2000 e 2011, o preço da tonelada aumentou 159%".

E daí? Daí que o Brasil não pode confiar no aumento dos preços das matérias-primas para sustentar a balança comercial. Já existem sinais de que essa tendência não deve continuar. O próprio Banco Central já registra um recuo nas cotações. Segundo levantamento semanal feito pelo Economist Inteligence Unit, as cotações de todas as commodities recuaram 4,8% em dezembro, os alimentos 6,4% nesse mês e nada menos que 9% no ano. Nos metais, 17% e, apesar de o petróleo ainda manter alta de 13%, a cotação da nafta despencou 29,7%.

De novo, nenhum consumo explica isso. Só a desaceleração do movimento especulativo, que parece ter chegado ao seu limite. Isso é bom para conter a inflação, mas representa um desequilíbrio negativo para a balança comercial e um desastre para a indústria brasileira que nem chegou ao nível de produção de antes de 2008.

Ministério atento. A boa notícia é que o Ministério da Indústria e Comércio está consciente e atento ao desafio. A secretária de Comércio Exterior, Tatiana Lacerda Prazeres, que deu uma nova dinâmica de ação desde que assumiu, em janeiro, reconhece que o desafio no comércio com a China é aumentar a participação dos produtos de maior valor agregado. "Como revelam os dados, 83,7% nas vendas brasileiras para a China foram de produtos básicos, com predominância para minério de ferro (43,3%), soja (23,2%) e óleo bruto de petróleo (13,2%)."

Há mais espaço, sim. Para Tatiana Lacerda Prazeres "há nichos importantes de produtos industrializados para os exportadores brasileiros. A venda de aviões, por exemplo, registrou aumento de 68,1%, em 2011, e partes e peças de automóveis e tratores foi outra categoria de produto com elevação significativa de vendas no ano (23,7%)".

O governo não deve se contentar e menos ainda se orgulhar do excelente resultado da balança comercial em 2011, que, na verdade, evitou uma queda ainda maior do PIB. É perigoso e temerário ganhar mais não porque se exportou mais - e só commodities - mas porque as cotações aumentaram por motivos inconsistentes.

Bernardo decepciona - ETHEVALDO SIQUEIRA

 O Estado de S.Paulo - 08/01/12



Há exatamente um ano, manifestávamos nossa esperança no que poderia ser o desempenho de Paulo Bernardo, como novo titular do Ministério das Comunicações (Minicom). Agora, um ano depois, lamentamos dizer que seu trabalho ficou muito aquém do que poderia ter sido.

Examinemos sua contribuição em cada um dos segmentos prioritários das Comunicações. Ei-los:

1. Resgatar o papel do Minicom. O ministro sabe que entre as grandes prioridades do setor estão o Novo Marco Regulatório institucional, o compartilhamento da infraestrutura de banda larga (unbundling) e a universalização dos acessos de alta velocidade. Paulo Bernardo, no entanto, não mostrou nenhum interesse em aprofundar esses temas prioritários.

2. Preparação da Lei Geral das Comunicações. Nada foi feito ao longo de 2011 com relação à maior das prioridades no setor, a Lei Geral de Comunicações. Como novo o Novo Marco Regulatório, essa lei deverá abranger todas as formas de comunicação (telefonia, radiodifusão, correios, TV por assinatura, internet e outras), sob o guarda-chuva de uma única agência reguladora.

3. Tirar as rádios e TVs das mãos de políticos. Logo após tomar posse, o ministro nos deu a esperança de que iria fazer uma das coisas que o Brasil espera há décadas de sua área: moralizar as concessões de rádio e TV. Mas não moveu uma palha para mudar a situação absurda e ilegal de um terço de todas as concessões e autorizações nessa área, hoje nas mãos de senadores, deputados, governadores, prefeitos ou de seus parentes ou laranjas. São cerca de 1.200 emissoras de rádio e 150 de TV.

4. Telebrás: ou funciona ou fecha. Especialistas independentes fazem hoje duas perguntas: "Será que vale a pena manter uma estatal comprovadamente inoperante, lenta, com orçamento ridículo, na área da banda larga? Ou será que a finalidade única de sua existência é mesmo dar emprego a amigos do governo e de seu principal partido?"

5. Combater rigorosamente a corrupção. Os Correios parecem ter eliminado a corrupção. O grande problema em 2011 foi a estranha e irredutível recusa do ministro em anular uma licitação suspeita da Telebrás, cheia de irregularidades e indícios veementes de superfaturamento da ordem R$ 120 milhões, comprovados por peritos do Tribunal de Contas da União (TCU).

Mesmo contrariando a manifestação candente do representante do Ministério Público, Lucas Furtado, feita no TCU e no Congresso, o ministro preferiu fechar os olhos às denúncias e adotar a fórmula heterodoxa e polêmica, sugerida pelo Tribunal, para que a Telebrás "renegociasse" os preços com os fornecedores.

A ética manda que toda licitação suspeita e viciada seja anulada, em defesa do dinheiro público, que pertence a todos nós, 190 milhões de brasileiros. Se a Telebrás ou o Minicom anulassem a licitação viciada e fizessem uma nova licitação, com todo rigor, o País economizaria no mínimo R$ 150 milhões.

6. Fortalecimento da Anatel. Um dos caminhos para a modernização da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) seria contar com um orçamento condigno, com os recursos do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel) que, por lei, lhe pertencem. Em lugar disso, o governo Dilma Rousseff - como seus antecessores, Lula e FHC - corta o orçamento da agência e ainda confisca cerca de R$ 2 bilhões por ano do Fistel. A Anatel precisa de equipamentos avançados e mais especialistas capazes de fiscalizar com rigor as operadoras de telecomunicações, as emissoras de rádio e TV, para coibir a ação das emissoras piratas e exigir mais qualidade dos serviços.

Enfraquecer as agências é suicídio político, pois elas são órgãos de Estado essenciais para o efetivo cumprimento da lei e o aprimoramento das políticas públicas. E pior: de nada adiantará criticar as teles e operadoras de outros serviços se o governo retira sistematicamente das agências os meios para que elas fiscalizem seriamente o setor.

7. Maiores tributos do mundo. Nenhum outro país, exceto a Turquia, cobra impostos tão elevados sobre serviços de telecomunicações como o Brasil. São escandalosos 43%. Pense, leitor, no que significou isso ao longo dos últimos 11 anos, quando os governos estaduais e a União arrecadaram mais de R$ 380 bilhões de tributos de nossas contas telefônicas. Esses R$ 380 bilhões de tributos saídos de nossos bolsos equivalem a quase dez vezes o lucro líquido total das operadoras no mesmo período.

Além da cobrança de impostos tão elevados, o governo federal (desde FHC e Lula) vêm confiscando pura e simplesmente a quase totalidade dos três fundos setoriais: o Fistel, acima mencionado, o Fundo de Universalização das Telecomunicações (Fust) e o Fundo de Tecnologia das Telecomunicações (Funttel). Em 11 anos, o valor acumulado desse assalto chega a R$ 35 bilhões.

Imagine, leitor, se o País tivesse aplicado apenas esses R$ 35 bilhões das telecomunicações em um projeto de universalização da banda larga.

Assim, depois de um ano de gestão de Paulo Bernardo à frente do Ministério das Comunicações, nossa conclusão só pode ser uma: Paulo Bernardo o ministro decepcionou todos aqueles que, como eu, esperávamos alguma coisa bem melhor dele.

E o capital humano? - JOSUÉ GOMES DA SILVA

FOLHA DE SP - 08/01/12

Começa 2012, ano de Olimpíada em Londres. Mas, em 2014, será a nossa vez de sediar um grande evento internacional, a Copa, em 12 cidades brasileiras. E, em 2016, teremos a Olimpíada no Rio.

Tais eventos podem significar a oportunidade de melhoria da infraestrutura urbana e de ingresso de expressivas divisas. Assim, o mais importante legado que as duas competições poderão deixar é o da melhoria de nosso capital humano, elevando a competitividade e consolidando o Brasil como destino turístico e mercado atraente aos investidores.

Se, em paralelo às obras de estádios, aeroportos, rodovias e logradouros públicos, prepararmos as pessoas para receber bem os visitantes durante esses grandes eventos esportivos e encantarmos os torcedores que vierem assistir às competições, teremos criado um mercado de milhões de dólares anuais, numa atividade altamente geradora de emprego e renda.

O Brasil será vitrine do mundo. Precisa capitalizar essa exposição para fortalecer sua imagem como nação pujante e socialmente avançada. Devemos, sim, aproveitar alguns de nossos ícones -como praias, Carnaval e futebol-, mas demonstrando que nosso país é muito mais do que isso, na indústria, no comércio, nos serviços, no agronegócio e no turismo receptivo.

Para tanto, cabe a preparação dos profissionais em todas as áreas (nossos atletas já estão entre os melhores do mundo em muitas modalidades) com o mesmo interesse com que estamos realizando as obras de infraestrutura.

Temos grande responsabilidade na construção de uma imagem convidativa não apenas aos turistas, mas também aos investimentos produtivos.

Essa atitude positiva, que inclui a atenção com os visitantes nas ruas, irá mostrar ao mundo, pelas lentes, microfones e páginas da imprensa de todos os cantos, que somos um povo civilizado, ordeiro, educado e culto. Precisamos investir nessa imagem, fazê-la prevalecer num esforço conjunto de quase 200 milhões de brasileiros. Aliás, tal imagem precisa ser bem diferente daquela do lixo deixado nas praias no último Réveillon

Anualmente, o turismo movimenta R$ 30 bilhões no Brasil, o que é pouco para um país com tão rico potencial paisagístico, gastronômico, cultural e hoteleiro. Segundo estudos, somente a Copa de 2014 deverá atrair mais de R$ 100 bilhões em recursos gastos pelos turistas.

É este mercado que podemos tornar perene. Assim, o capital humano deverá ser nosso mais importante diferencial nas duas grandes competições. Vamos trabalhar desde já para ganharmos os jogos em quadras, piscinas, pistas de atletismo, mas também no campo dos negócios. Afinal, o Brasil é a bola da vez!

Conforme a música - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 08/01/12

BRASÍLIA - Mais do que o ministro Fernando Bezerra, um personagem secundário, quem ficou em evidência neste início de ano foi o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, uma estrela em ascensão.

Não há indícios de que Bezerra vá cair, pois ele está exposto a constrangimento por uso político do Ministério da Integração, não por desvio de dinheiro público. Só precisa ficar esperto, porque entrou na mira e diz o ditado que quem procura acha...

Quanto a Eduardo Campos, que passou o trator para eleger a própria mãe ministra do TCU: ele dança conforme a música. Está com um pé no governo Dilma, mas ensaia passos com Aécio e com Kassab. Ou seja, está em todas. Ou quase todas.

Os planos do governador passam mais pelo PSDB de Aécio e o PSD de Kassab do que pelo PMDB e pelo PT. Um tem a Vice-Presidência hoje, mas nunca se sabe o dia de amanhã. O outro tem Dilma para concorrer à reeleição, mas não parece, a olho nu, ter ninguém no horizonte para 2018. E a estratégia de Campos, que de bobo não tem nada, inclui a Vice em 2014 e a disputa pelo Planalto em 2018.

Por isso, Campos garante o primeiro lugar nas pesquisas entre os governadores, trata de fortalecer o seu PSB nas eleições municipais, tira os irmãos Ciro e Cid Gomes do caminho e se articula com Aécio e Kassab para o que der e vier. É um movimento preventivo. Um se apoia no outro e depois se vê quem tem mais musculatura para se lançar.

Se o PT espera que Dilma use sua força para enfraquecer Campos e suas pretensões, está muito enganado. A lógica de Dilma, diferentemente da de Lula, não é política, eleitoral, petista. Digamos que ela pensa e age um pouco além, ou acima, disso. Para uns, é a diferença entre a "política miúda" e a "política com P maiúsculo". Para quem preferir, vale o já batido "é técnica, não política".

Cada um que se cuide e faça seu jogo. Desde que, claro, tenha mais respeito com as verbas públicas.

A sinofobia prejudica o Brasil - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 08/01/12


O vigor comercial da China não é um problema, é uma solução para o consumidor do andar de baixo

Alguns empresários e bolsões do governo brasileiro estão namorando uma irracional sinofobia. Se um produto ou serviço vem da China, cuidado com ele, pode destruir a economia nacional.

No lance mais recente, setores do governo mostram-se preocupados com a expansão dos chineses no setor de Distribuição de energia.

Eles são sócios de três grandes concessionárias, donos de 6.000 quilômetros de linhas e acabaram de comprar por US$ 3,5 bilhões um pedaço da estatal portuguesa EDP, que opera em oito Estados brasileiros. A Eletrobras tentou ficar com o negócio, mas não teve bala.

Quem vendeu o patrimônio elétrico da Viúva foi o governo brasileiro. Se a Eletrobras não teve bala para competir, bala não teve.

Os chineses não compram Distribuidoras de energia para fazer um "gato" ligando as turbinas de Itaipu a Pequim. Como todos os outros, querem fornecer equipamentos, e os seus são mais baratos.

Quando vendem-se empresas para europeus e americanos, é o jogo jogado. Quando é o chinês quem compra, há algo de estranho nisso.

Esse raciocínio embute um preconceito. Em agosto passado, o governo anunciou uma barreira para dificultar a importação de uniformes militares fabricados na China.

Uma voz do Comando da Amazônia disse que o "made in China" das etiquetas dos fardamentos causava "desconforto psicológico". Se fossem "made in USA" causariam conforto? (O maior fornecedor das fardas era uma empresa brasileira com uma ramificação em Shangai.)

A China é o maior parceiro comercial do Brasil e em 2011 Pindorama vendeu para Pequim US$ 5 bilhões a mais do que comprou. Com os Estados Unidos ocorre o contrário, um deficit de US$ 7,9 bilhões.

A pressão protecionista do empresariado brasileiro vai em cima de produtos chineses tornados acessíveis para a patuleia: roupas, calçados, brinquedos e eletrodomésticos.

Se a indústria brasileira quer proteção, precisa oferecer desempenho e metas. Quanto tempo será necessário para fabricar camisetas mais competitivas? O ramo dos brinquedos pode sobreviver sem barreiras?

Industrial que troca eficiência por trânsito político para cavar barreiras tarifárias faz bons negócios para si. A Federação das Indústrias de Minas Gerais, por exemplo, contratou Fernando Pimentel para um consultoria de nove meses por R$ 1 milhão.

O Império do Meio trabalha com outra agenda. Há poucos meses, o Ministério do Desenvolvimento, ocupado por Pimentel, comprou 400 aparelhos de ar refrigerado e pôs dois deles no gabinete do doutor. Todos chineses, sem consultorias.

ANVISA DO B

A doutora Dilma precisa mandar uma mensagem ao Congresso propondo a criação de uma Agência de Vigilância para vigiar a Anvisa.

Na última semana de 2011, com o triunfalismo dos burocratas, o doutor Dirceu Barbano, presidente da Anvisa, disse que no Brasil não houve caso de reação adversa ao uso de próteses de silicone PIP em mulheres que fizeram cirurgias de mama.

Beleza, registraram-se problemas na Europa e nos Estados Unidos, mas nunca na história deste país algo deu tão certo como os milhares de implantes de PIP feitos aqui. Um triunfo da brigada das clínicas e dos cirurgiões plásticos.

A repórter Fernanda Bassette identificou nominalmente duas mulheres que sofreram complicações e denunciaram a fato à Anvisa. Não tiveram nem sequer resposta (havia 94 queixas na Anvisa).

Procurada, a agência deu a seguinte explicação: "Aguarde a reunião que será realizada no dia 11". O que isso quer dizer, ninguém sabe.

Barbano implantou na Anvisa uma prótese de MIP: mistificação, inépcia e prepotência.

A MODA PEGOU

Sabia-se que o governo chinês paga a militantes do Partido Comunista para batalhar na internet, defendendo o regime em blogs.

As "Brigadas dos 50 centavos" faturam o equivalente a um Big Mac por 30 posts.

Parecia coisa de ditadura. Agora sabe-se que a União Nacional dos Estudantes de Israel oferece bolsas de US$ 2.000 para seus associados que divulgarem o ponto de vista de seu país na internet durante 240 horas, com expedientes de cinco horas semanais.

EREMILDO, O IDIOTA

Eremildo é um idiota e vai procurar o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, doutor Ivan Sartori, para pedir-lhe que ampare sua reivindicação pessoal de férias de 60 dias.

O idiota leu que o desembargador defendeu as férias de dois meses para os magistrados porque elas preservam a "sanidade mental do juiz".

Eremildo lê o que pode sobre cretinismo e sabe que uma corrente de psiquiatras associa a idiotice à insanidade mental. Ele acha que, com a ajuda do doutor Sartori e férias de dois meses, deixará de ser idiota.

LÁ E CÁ

Não é só o Supremo que está enroscado na discussão de conflitos de interesses e rendimentos de juízes. Na Corte Suprema dos Estados Unidos, o presidente John Roberts viu-se obrigado a defender dois de seus colegas no relatório anual das atividades do tribunal. Os juízes Clarence Thomas e Sonia Sottomayor estão debaixo do chumbo de organizações que querem vê-los fora do julgamento da constitucionalidade da reforma do sistema de saúde promovida pelo governo Obama.

A direita quer que Sottomayor se declare impedida porque ocupou o cargo equivalente ao de advogado-geral da União no início do atual governo.

A esquerda quer que Clarence Thomas não participe do julgamento porque se esqueceu de comunicar à corte que, entre 2003 e 2007, sua mulher ganhou US$ 680 mil dólares da Heritage Foundation.

Nas cortes americanas não só os juízes são obrigados a informar suas fontes de renda, como devem mostrar também o que suas mulheres ganharam.

GOSTOSA


Adeus, Cheeta - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 08/01/12
Johnny Weissmuller, o melhor Tarzan de todos, era campeão de natação, o que significava que todos os seus filmes como o personagem tinham que incluir pelo menos uma cena dele nadando. Os jacarés sabiam disso, e ficavam na espera. “Lá vêm os jacarés”, pensávamos todos, no cinema, quando Tarzan mergulhava. “Lá vem ele”, pensavam os jacarés, desanimados. E não falhava. Tarzan mergulhava e os jacarés mergulhavam atrás dele. Sabiam que não o pegariam, que Tarzan mataria um ou dois e afugentaria o resto, mas o atacavam assim mesmo. Tarzan mergulhava sabendo que os jacarés o atacariam, os jacarés o atacavam sabendo que era inútil, e a plateia se resignava àquele ritual fatalista. Que era uma das diferenças entre o Tarzan do cinema, pelo menos na fase Johnny Weissmuller, e o Tarzan dos livros. Nos livros Tarzan era descrito como um bom nadador, mas raramente se jogava em rios ou em lagoas, com ou sem jacarés. Outra coisa: Cheeta, nos livros, era o nome do leopardo (Numa era o leão, Tantor o elefante). A Cheeta chipanzé é uma invenção do cinema.

A atriz que fazia a Cheeta morreu há uma semana. Teria 80 anos, o que sugere que não fosse mais a Cheeta original. Ela simbolizava como ninguém a importância de um certo tipo de coadjuvante no cinema, uma figura que merece um estudo que ainda não foi feito. O amigo do mocinho, o fiel companheiro que oferece companhia, bom humor ou apenas um contraste desastrado com o herói perfeito, e que volta e meia interfere decisivamente na ação. Não foram poucas as vezes, nos filmes, em que a história só pôde continuar porque a Cheeta desamarrou as mãos do Tarzan, ou foi buscar ajuda, por exemplo. Há uma longa tradição de amigos do mocinho no cinema e nos quadrinhos, passando pela relação algo suspeita do Robin com o Batman, da estranha parceria do Tonto com o Zorro que só durou tanto tempo porque eles jamais discutiram a sério a relação, do Centelha com o Tocha Humana... Uma tradição que tem sua origem literária, claro, no Sancho Pança.

Não sei se foram ditas algumas palavras no enterro da Cheeta, lembrando sua importância na história cultural do Ocidente. Ou, vá lá, apenas na história de velhos tarzanófilos. Aqui, de longe, mandei meus respeitos.

A boa hora é outra - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 08/01/12
Quanto mais Dilma espera para fazer a reforma, mais enfraquecidas ficam as siglas na disputa pelas vagas

Em vez de apressar, as más condutas ministeriais e respectivas exonerações recomendam a Dilma Rousseff empurrar a reforma ministerial até o limite, no fim de março, de desligamento dos ministros que se pretendem candidatos em outubro. Não, porém, porque tenha abandonado ou abandone a "faxina", mera criação do vício batismal da imprensa, depois usado na própria e na oposição parlamentar para cobranças à presidente. O fato é que, a rigor, cada desabamento no ministério resulta em ganho político futuro para Dilma Rousseff.

Esperada para este janeiro, a reforma ministerial foi desconfirmada de passagem pela presidente, para espanto da imprensa que criara e insistia no prazo. As sete substituições de ministros, porém -com o oitavo já na beira do trampolim para o salto sem rede e sem água- não deixaram de ser uma pequena reforma. Em especial na exclusão do poderoso, confiante e ambicioso "consultor" Antonio Palocci. Cada uma representou um problema, menor ou maior, para Dilma Rousseff. Mas em todos os casos a colheita de lucro político foi maior do que a inconveniência administrativa.

Lucro não só para sua imagem. Sobretudo, para sua autoridade na relação com os partidos aliados, muito arrogantes até então, e nas negociações com o Congresso. Na proporção em que os partidos se enfraqueceram com as más condutas de seus representantes no ministério, o reverso de sua perda resultou em fortalecimento da presidente junto ao partido em questão. E, por alguma dose de extensão, junto aos demais. Cuja vez outro ministro seu logo traria.

Assim foi, até agora, que se combinaram a queda de Palocci e o enfraquecimento do PT; de Wagner Rossi e do PMDB; de Alfredo Nascimento e do PR; de Pedro Novais e do PMDB; de Orlando Silva e do PC do B; de Carlos Lupi e do PDT.

Duas importantes alterações de comportamento, em relação à presidente e ao governo, decorreram daí, no todo ou em boa parte. Os petistas sumiram com a ideia de que se trata de um governo do PT e, portanto, a isso Dilma Rousseff deveria estar condicionada sempre. A obesidade do PMDB deixou de ser interpretada pelo líder Henrique Eduardo Alves como força sem paralelo e autorização para a arrogância grosseira, de muita impertinência e escassa política.

Lula e Fernando Henrique estabeleceram com os partidos relações de balcão. Junto à caixa registradora e ao cofre. Dilma Rousseff quer algo bem mais formal e até cerimonioso. Com o governo visto no lugar que é seu. Ficou muito longe disso, na composição do ministério inicial, embora sem ceder na distância. O "esquema Lula" agiu, ou, também se pode dizer, inviabilizou as experimentações introdutórias de uma nova concepção.

O resultado é o fracasso ministerial que está à vista, perceptível tanto em números como em débitos dos partidos. Já por isso, as exonerações necessárias de ministros dão a Dilma uma condição fortalecida para formar o que poderá ser o "seu" ministério. E quanto mais espera para a reforma ministerial, maior será o tempo em que os partidos, com PMDB e PT à frente, estarão se enfraquecendo na disputa pelas vagas, o que já ocorre. Única instância fortalecida, Dilma tenderá à possibilidade de não admitir o que não queira e até de impor o que queira.

Teríamos, então, uma novidade essencial no Brasil.

Compasso de espera - UGO GIORGETTI


O Estado de S.Paulo - 08/01/12


Os clubes olham uns para os outros vendo o que acontece. Isto é, quem contrata quem. Quem se saiu bem no ano passado sai com vantagem. Pode parar, refletir, e ver o que vai fazer. Quem se saiu mal tem de mostrar serviço. Quem se saiu muito mal se desespera e contrata quem pode, sem medir muito bem as consequências. A derrota horrorosa do Santos para o Barcelona curiosamente veio facilitar um pouco a vida dos demais clubes.

Somos todos mais ou menos iguais na nossa mediocridade. Um ou outro nome, de resto já conhecidos, são disputados arduamente. Como hoje em dia ninguém mais respeita contrato algum, todos também estão em perigo de perder alguém. Ter um jogador não significa exatamente poder contar com ele. À primeira proposta, incitado e aconselhado por patrocinadores e agentes, ele pode exigir ser negociado. A razão é sempre a mesma: dinheiro. A chamada independência financeira. Gostaria de saber quanto, na verdade, fica para o jogador no fim de todas as operações. Quanto ele recebe, deduzidas as quantias de todos os envolvidos que nessas transações é impossível calcular exatamente. Não é a independência financeira mero sonho no fim das contas?

Mas é assim que se move o futebol atualmente. Principalmente em certos clubes desesperados, acostumados a mal negociar, as coisas não se pronunciam muito boas. Acho que nessa altura ficou muito mais importante na hora de negociar observar a máxima "primeiro o homem, depois o jogador". Um jogador é formado principalmente de caráter. Inclusive no campo, na relação, com adversários e colegas. Todos os grandes times e seleções sempre se basearam nesses jogadores. Atualmente estão mais raros, é verdade. A tentação do dinheiro, a entrada de outras fontes de renda no futebol são quase irresistíveis. Mas existem, como na sociedade em geral.

Os dirigentes é que não se importam nas escolhas. Preferem, volto a dizer, principalmente nos clubes inferiorizados, em descrédito e em decadência, acreditar em milagres, em soluções que dependem do sobrenatural. Os efeitos vão se sentir depois, com jogadores encostados ganhando fortunas, quantias absurdas ainda que estivem jogando, imagine-se ganhá-las sem fazer nada. A culpa é do jogador? Nunca. A culpa é de quem contratou sem levar em conta uma série de indícios, informações que todos conhecem e que compõe o perfil de qualquer atleta. E vão se afundando cada vez mais na mediocridade e no apequenamento.

Quem não tem equipes de base fica ao sabor do mercado. E o mercado vive do desespero de quem precisa comprar. Entre ao vários clubes que contratam mal, precipitadamente e de qualquer jeito, só não entendo o caso do Palmeiras. Embora malsucedido nos últimos anos o Palmeiras é, entretanto, o único clube que devia estar tranquilo e com tempo para pensar o que é melhor para si. Recentemente foi confirmado pela CBF com títulos que lhe dão a posição de ser o clube mais campeão do Brasil. Na frente de todos, até do Santos. Os outros deveriam estar desesperados para alcançá-lo e a ele sobrar tempo para agir com a cabeça. E, no entanto, é o que pior contrata, na precipitação de um desespero injustificável.

Em defesa da canção contemporânea - PATRICIA PALUMBO


O Estado de S.Paulo - 07/01/12


No fim do ano assistimos na TV Ivete Sangalo ladeada por dois dos maiores ícones vivos da música popular, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Grande parte do repertório de autoria deles com destaque para a belíssima Atrás da Porta, de Chico Buarque, como um dos pontos altos do programa. Ivete saiu- se bem. Cantou bonito, na intenção certa e emocionou plateia e colegas, mesmo correndo o risco iminente da comparação com Elis Regina. O desfile de clássicos acabou suscitando um debate acalorado entre meus amigos e eu sobre a natureza genial dos compositores ali presentes e a novíssima geração que estamos vendo surgir. É lugar-comum dizer que não se fazem mais canções como aquelas, que a poesia contida na produção contemporânea é rasa se comparada ao lirismo de Drão, Super-homem, Amor Até o Fim, Tá Combinado, Tigresa, para citar algumas que fizeram parte do especial e, indo mais longe, o que dizer dos versos de Vinicius de Moraes, de Lupicínio, Cartola e outros mestres.

Bom, meu argumento a favor da canção contemporânea é simples, toda canção reflete seu tempo, tem contexto histórico e é a partir daí que é possível fazer juízo de valor. Como comparar a dor de cotovelo de um Antônio Maria que viveu nos anos 50, quando desfazer um casamento era um crime com punição social máxima, com a leveza de um jovem como Thiago Pethit que vive num tempo com toda a liberdade de amar que quiser? Vamos aos versos: "Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor...", Antônio Maria; ou Valsa de Eurídice, de Tom Jobim e Vinicius: "Oh, meu amado não parta, não parta de mim, ah, uma ternura que não tem fim..." Agora, Mapa-múndi, de Thiago Pethit: "Me escreva uma carta sem remetente, só o necessário e se está contente, tente lembrar quais eram os planos, se nada mudou com o passar dos anos... e me pergunte o que será do nosso amor..." Para ser menos radical na diferença, vamos para Jards Macalé e Wally Salomão com Vapor Barato nos anos 70, quando a liberdade era uma bandeira: "Vou descendo por todas as ruas e vou tomar aquele velho navio, eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus, e não me importa, honey..." Voltando algumas décadas, vamos lembrar de outro tipo de romance retratado na belíssima Último Desejo, de Noel Rosa "Nosso amor que não esqueço e que teve o seu começo numa festa de São João, morre hoje sem foguete, sem retrato, sem bilhete, sem luar, sem violão..." Para nossa tristeza, quem é que começa nestes anos 2000 e tanto uma história de amor com retrato e bilhete?

No meio da discussão apareceu uma outra questão bastante comum: onde estão os gênios desta geração? Se temos Chico, Gil, Caetano, Jobim, Noel, o que vem agora? O que virá depois? Continuo com meu determinismo histórico, não precisamos de gênios. Temos excelentes compositores, e até em maior número do que nas gerações anteriores. Com a disseminação da música pela internet, com a facilidade de acesso aos meios de produção, não há três ou quatro grandes nomes para a década, mas muitos. Listo alguns artistas com ótimas letras: o já citado Thiago Pethit, Rodrigo Campos, Tulipa Ruiz, Marcelo Camelo, Lirinha, Ava Rocha, Junio Barreto. Numa época em que casar e descasar é sazonal, o amor é Só Sei Dançar com Você: "Você sacou a minha esquizofrenia e maneirou na condução, toda vez que eu errava você dizia pra eu me soltar porque você me conduzia ...", como canta Tulipa. Os anos 50 foram difíceis para o amor; os 60 e 70, para a liberdade; os 80, uma espécie de compasso de espera; nos anos 90 se consolida a diversidade e agora colhemos os frutos de tudo isso. Tem poesia com profundidade e erudição nos versos de Lirinha, mas também uma jovem que dança para espantar a dor. Tem o fim da solidão de Marcelo Camelo e o amanhecer espantado com os preços da cidade de Ava Rocha. Só que é espalhado, diluído, solto por aí. Não está na TV.

Mais que nunca é com ouvido esperto e curioso que se ouve e se descobre a boa música. Como disse uma vez Arnaldo Antunes, não tem por que termos saudades dos movimentos. O melhor é sempre o que nos emociona e de maneira geral o que mais emociona é o que nos traduz. Cada canção a seu tempo.

Na trave - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 08/01/12

Inflação fecha o ano em 6,5%, no limite da meta, resultado apenas satisfatório, que desperta apreensões e exige vigilância do BC

Bateu na trave. A inflação fechou 2011 em 6,5%, limite superior da meta fixada pelo governo, de 4,5% ao ano. Com isso, o Banco Central livrou-se do constrangimento de ter que enviar, pela primeira vez desde 2003, uma carta ao ministro da Fazenda explicando as razões do estouro.

Em comunicado emitido logo após a divulgação do resultado, o BC considerou que o IPCA, medida oficial da variação de preços, se comportou de maneira compatível com o cenário por ele traçado. Caiu de 7,3%, no terceiro trimestre, para 6,5%, ao fim de dezembro -o que revelaria "significativo arrefecimento" das pressões inflacionárias.

Fica assim justificada, na visão da autoridade monetária, a estratégia adotada desde agosto, quando surpreendeu o mercado ao iniciar um ciclo de redução da taxa de juros antes que se mostrasse evidente a desaceleração da economia ocorrida nos meses seguintes.

Com efeito, o BC acertou ao apostar que o momento da economia mundial seria de crescente dificuldade. Além disso, já estava em curso uma redução nos preços das matérias-primas, que haviam pressionado a inflação no início do ano.

Pode-se, sem dúvida, discutir se o corte de agosto foi precipitado, diante das informações àquela altura disponíveis -mas o fato é que, em linhas gerais, a realidade não contrariou a previsão.

Ainda assim, a estratégia foi arriscada, e o quadro para 2012 está longe de ser tranquilo. Convém lembrar que a inflação de serviços, mais sensível à dinâmica interna da economia e do mercado de trabalho, fechou 2011 em 9% -a mais alta desde a implantação do regime de metas, em julho de 1999.

É provável que os preços continuem a cair nos próximos meses, por efeitos defasados do menor crescimento da economia no segundo semestre de 2011 e pela recente deflação dos preços de commodities e de bens industriais.

Por essas razões, os modelos do BC apontam para um declínio do IPCA para até 4,8% neste ano. O alívio, no entanto, pode se revelar pontual, pois as medidas concentradas no "núcleo" da inflação, que descontam os itens mais voláteis, indicam um ritmo de 5,5% ao ano -e o próprio BC projeta inflação mais alta, de 5,3%, para 2013.

Num cenário em que a economia global e a brasileira voltem a se aquecer, tais projeções podem disparar rapidamente.

O BC assumiu riscos e mostrou adequada independência, não só do governo, como deve ser, mas também dos oráculos de plantão em bancos e consultorias privadas. Mas toda cautela é pouca. A leniência num quadro ainda repleto de incertezas pode ser fatal.

Será um feliz ano novo? - TARSO GENRO

FOLHA DE SP - 08/01/11

Os setores emergentes não têm origem em paternalismos populistas e não são massa de manobra; sua mobilização vai oxigenar a vida pública do país


O ano de 2012 será decisivo para o Brasil e para a América Latina. Não se trata de uma crônica de ano novo. É uma afirmação criteriosa, fundamentada em dois cenários, um interno e outro externo.

No externo, há o cansaço tanto da social-democracia como da ideologia thatcherista-neoliberal.

A social-democracia cansou a paciência de todos, em regra, porque a sua adaptação aos novos tempos -de crise do financiamento do "estado de bem-estar"- fez com que ela cultuasse a globalização financeira e passasse a se escravizar nas suas receitas.

De outra parte, o cansaço da ideologia do neoliberalismo adquiriu seu auge na evidência de manipulações fraudulentas, pelos bancos e governos, da situação real dos estoques da dívida pública. Mais uma vez houve frustração e tédio com os seus discursos sem cor.

No cenário interno, tanto brasileiro como latino-americano, vários são os governos, com orientações distintas, que conseguiram conquistar apoio parlamentar e social para não aplicar as regras neoliberais, com objetivo de sair das suas crises e melhorar a vida do povo.

A "melhora da vida do povo", no âmbito de uma crise mundial com intervenções militares brutais e com castração de direitos sociais nos países de capitalismo avançado, é um dado relevante para avaliar a importância do próximo ano no futuro da democracia na América Latina.

Como é sabido pela ciência política e comprovado empiricamente, nem sempre a democracia gera progresso socioeconômico para a maioria, assim como nem sempre as ditaduras pioram as condições de vida dos cidadãos.

Avançar socialmente dentro da democracia não é pouco. Assim como não é pouco fazer governos serem compreendidos pelos seus povos pelo que estão fazendo e melhorar a renda e a autoestima dos mais pobres dentro de um amplo processo democrático. É muito.

E mais: a inclusão massiva de grupos populacionais no consumo, na produção e na educação gera novos sujeitos sociais e novas demandas. Alguns exemplos: melhor comida, melhor habitação, um melhor carro do ano, mais lazer qualificado, mais educação e melhor transporte coletivo, além de mais segurança para fruir a vida.

A aceleração no combate às desigualdades é que vai resolver se teremos um bom ano novo para as democracias latino-americanas.

A aceleração no combate aos privilégios, dentro e fora do Estado e das empresas públicas e privadas, reduzindo as diferenças de renda e de salários -tanto na esfera pública como na esfera privada-, é que vai criar coesão entre as classes sociais emergentes, o Estado de Direito e a democracia.

Esses novos setores sociais não são massa de manobra de ninguém. Eles não se originam de paternalismos populistas nem de conquistas de burocracias sindicais. Não são "aparelháveis", pois são dispersos na estrutura produtiva, de serviços e na estrutura de classes.

Eles não são "classe média" frustrada ou raivosa. São os "de baixo", que apareceram nas urnas e reelegeram Lula e elegeram Dilma. Aparecem nas estatísticas do ProUni, dos novos empregos e das novas atividades na produção e nos serviços.

Esses é que têm potência para constituir -em irmandade política com os demais setores do mundo do trabalho- um consenso superior, forjado a partir das suas mobilizações para a oxigenação da vida pública democrática.

Isso só poderá ser feito diretamente pela política e pelos partidos, na minha opinião os de esquerda, e cada vez menos através de demandas corporativas e setoriais.

A agenda do combate às desigualdades sociais deverá ser a pauta de uma esquerda revitalizada, que já cumpriu tarefas importante no Brasil e na América Latina, após o ciclo das ditaduras cujos fantasmas ainda nos visitam.

CLAUDIO HUMBERTO

“O Exército tem dado apoio a essa questão das enchentes”
Ministro Celso Amorim (Defesa) apelando aos “sargentos Garcia” de sempre

PT ‘DÁ TROCO’ EM EDUARDO COM BEZERRA

O escândalo envolvendo o ministro Fernando Bezerra (Integração) com direcionamento de verbas para Pernambuco, seu Estado natal e reduto político, é mais uma cartada do PT para assumir o protagonismo no governo contra a base aliada. A guerra com o PTB gerou a denúncia do mensalão; com o PCdoB lascou o ex-ministro do Esporte, Orlando Silva. Agora é a vez do PSB de Bezerra, que os petistas não engolem. 

CIÚMES DE VOCÊ

O alvo é o governador Eduardo Campos (PSB-PE), que em 2010 levou seu candidato, Armando Monteiro, à primeira vaga no Senado. 

FORA DO FOCO

O usineiro pernambucano deixou o candidato petista e ex-ministro Humberto Costa (Saúde) na segunda vaga, tirando-lhe os holofotes. 

PT EM BAIXA

Campos não sinalizou apoio à candidatura à reeleição do prefeito de Recife, João da Costa. E pior: trabalha para Bezerra ser governador. 

BRIGA EM CASA

O PT detonou o ex-ministro Pimentel (Desenvolvimento) e pôs em apuros o governador Agnelo (PT-DF), cristão novo no partido. 

RURALISTAS QUEREM QUEBRAR ACORDO DO SENADO

Relator do projeto do novo Código Florestal na Câmara, Paulo Piau (PMDB-MG) recebeu uma série de reclamações de instituições do setor produtivo sobre bacias hidrográficas em estado crítico de devastação. Conforme acordo feito no Senado, essas bacias poderão ter área de proteção ampliada por decisão dos comitês da bacia, com o aval do governador. Ruralistas apontam futura “insegurança jurídica”.

BUROCRACIA

O deputado Ronaldo Caiado (DEM) avalia que a emenda é “mais uma bobagem” do Senado: “Criam dificuldade para vender facilidade.”

CONVERSA FIADA

Para o senador Aloizio Nunes (PSDB), autor da proposta, isso é “conversa fiada” de ruralista: “Retirar a emenda seria retrocesso brutal”. 

AGORA É AUTOMÁTICO

A Imprensa Nacional facilitou para Dilma, que poderá agora pedir emprestada a guilhotina automática comprada por R$ 125 mil.

CAIXA DE SURPRESAS

Notável o ruidoso silêncio do PSDB do senador e ex-governador de Minas, Aécio Neves, no escândalo envolvendo o ministro Fernando Bezerra (Integração), que respinga no governador Eduardo Campos (PBS-PE). No ar, possível acordo na disputa à Presidência, em 2014.

BEM PASSADO

O Superior Tribunal Militar entrou 2012 com fome: além de R$ 246,5 mil para duas vans zero, R$ 25,3 mil para nove depuradores, e R$ 14,1 mil para dez geladeiras, vai gastar R$ 36,4 mil com centrífugas, sanduicheiras, cafeteiras “top” e fornos, revela a ONG Contas Abertas. 

É FERIADÃO...

Pelo menos dois projetos de lei tramitam no Congresso, mudando para segunda os feriados no meio da semana – 3,8% do PIB em 2011, calcula a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro.

...QUE PREGUIÇA...

O projeto do deputado federal Milton Monti (PR-SP), apresentado em 2003, está no Senado desde 2010, aguardando votação. Ele acredita que o projeto andou rápido e que em 2012, enfim, a farra vai acabar. 

...MAS TEM JEITO

O senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), relator da proposta, diz que continuam feriados os dias de Natal, Ano Novo, 7 de Setembro e 12 de Outubro. 

TRANSPARÊNCIA 

Relatório sobre portais de transparência, divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), revela que os mais eficientes são os de Alagoas, Santa Catarina e Amapá. Nenhum deles é governado pelo PT. Os portais permitem ao contribuinte acompanhar os gastos dos governos.

BARRA PESADA

A senadora Lídice da Mata (PSB-BA) pediu que a Secretaria de Segurança da Bahia investigue suposta ameaça de morte contra ela e o governador Jaques Wagner (PT), após ter recebido e-mail afirmando que um ex-policial militar teria sido contratado para matá-los. 

TITITI CUBANO

O governador Tarso Genro (PT) nega companhia de assessores da filha, ex-deputada federal Luciana Genro (PSOL) na viagem a Cuba, como informou assessor do PSOL. Diz que também não levou nenhum.

PENSANDO BEM...

... “Na morte da bezerra” foi antes, agora é na “morte” do Bezerra. 

PODER SEM PUDOR

GAZETEIROS HISTÓRICOS

Não é de hoje a falta de disposição dos deputados para o trabalho. Campos Salles, que presidiu o Brasil entre 1898 e 1902, enviou uma carta ao então presidente da Câmara, ex-deputado Xavier da Silveira, em que solicita sua “intervenção” para “obter o comparecimento dos deputados na sessão da Câmara”. Campos Salles se queixa em sua carta de 8 de abril de 1901 que “até hoje não temos um Orçamento sequer votado pela Câmara”. E adverte: “Nada pode ser mais grave do que isto”. Vai mais além: “É preciso não só que (os deputados) compareçam, mas que permaneçam durante a sessão, pois a praga é: entrar por uma porta e sair pela outra”.

DOMINGO NOS JORNAIS


- Globo: A vida que renasce da tragédia
- Folha: Bairros de classe média têm cracolândias privês
- Estadão: Brasil entra em 2012 como preferido dos investidores
- Correio: Supersalários? Só para Mantega & cia
- Zero Hora: Ahmadinejad prepara visita constrangedora ao Rio em junho
- Estado de Minas: Víttimas de um eterno descaso
- Jornal do Commercio: Nova classe média agora quer qualidade