quarta-feira, abril 15, 2009

ANCELMO GOIS

Dilma do quê?


O Globo - 15/04/2009
 

No encontro de ontem com Lula, no Copacabana Palace, o vice Pezão contou que um eleitor do interior o avisou: — O nome dela eu não sei pronunciar. Mas eu vou votar na mulher do Lula.

Deixa pra depois...

No mesmo encontro, Lula pediu a Sérgio Cabral para convencer a Portela a desistir do enredo sobre ele: — Sou grato por lembrarem meu nome. Mas acho que, enquanto eu for presidente, não faz sentido.

Luz no fim do túnel

A Quattor, gigante petroquímica formada pela Petrobras e pela Unipar, está operando com 90% de sua capacidade.

No auge da crise, em dezembro, o grupo operava com 50% de capacidade ociosa.

Luz que segue...

A ponte aérea Rio-São Paulo, que costuma ser usada como termômetro da economia, está crescendo uns 7% em abril, em relação a março.

Marketing pronto

Roseana Sarney, que pode assumir o governo maranhense amanhã no lugar de Jackson Lago, já tem slogan pronto.

Será “Maranhão: o trabalho está de volta”.

Faz sentido...

Por falar em slogan, circula na internet que o delegado Protógenes vai usar (que maldade) o seguinte mote em sua campanha em 2010, pelo PSOL: “O deputado que te escuta”.

Felizes para sempre

Está cada vez mais próximo um acordo entre a Vale (Roger Agnelli) e a CSN (Benjamin Steinbruch).

Casa de ferreiro

Ontem, vários telefones estavam mudos na sede do Ministério das Comunicações, em Brasília.

O modelo é o cara

Lula será clicado para um ensaio pelas lentes do superfotógrafo Walter Firmo.

Cine BNDES

O BNDES divulga segunda agora seu edital de fomento ao cinema em 2009. O banco vai repartir R$ 12 milhões entre 15 filmes de ficção. Outros dez documentários ratearão R$ 2 milhões.

INFORME JB

Presidente cedeu ao lobby do vice


Jornal do Brasil - 15/04/2009
 

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de estender a municípios pequenos – com população até de 5 mil habitantes – o novo plano habitacional, segundo decreto publicado ontem, teve forte participação do vice José Alencar (foto). Aconteceu que, pressionado por prefeitos do interior e deputados federais, principalmente de Minas, Alencar foi a Lula e lembrou que os pequenos municípios correspondem a nada menos que 46% da população nacional. Fatores sociais pesaram, como a lembrança de que os bolsões de pobreza nas capitais são fomentados por gente que abandona as essas cidades – muitas delas não são contempladas com programas federais. Quem comemorou foi o deputado Luiz Fernando Faria (PP-MG), de Santos Dumont. Esteve com Alencar semana passada para cobrar isso. E não só ele.

Anúncio

Na segunda-feira à noite, o anúncio da contemplação maior do programa habitacional foi feito pelo ministro das Cidades, Marcio Fortes. Onde estava? Em Minas, claro. Em Ipatinga.

País mineiro

Não por acaso, o lobby da bancada mineira tem lógica. O estado tem o maior número de cidades do país. E muitas bem pequenas.

Conselhão

Foi criado um Comitê de Acompanhamento do programa Minha Casa, Minha Vida, que prestará contas periodicamente ao Conselho das Cidades, onde os movimentos sociais têm forte representação.

No show

Decepção na Câmara dos Deputados. Convidados, Joelma e Chimbinha, da banda Calypso, não compareceram à audiência da Comissão Especial de Fonogramas e Videogramas Musicais para debater a pirataria. Provavelmente a pauta mais importante do dia...

Tietes

A comissão ficou lotada de servidores, com seus filhos, e deputados que nunca foram lá.

Guerra...

A Câmara Empresarial Israel-América Latina convidou governadores e secretários de segurança para irem ao Oriente Médio conhecer as novas tecnologias de ponta de combate ao crime. Alguns já confirmaram presença.

...e paz

A viagem será na 1ª quinzena de maio e coincide com a visita do papa Bento XVI a Israel.

Alô, doutor

A E-Pharma, com 9 mil drogarias credenciadas em 900 cidades, que tem convênio com o governo federal para a farmácia popular, vai lançar um um serviço on-line.

Alô, doutor 2

É o balcão de atendimento de múltiplas assistências – uma consulta por telefone. O cidadão cadastra-se no serviço e liga. Do outro lado da linha, nutricionistas, psicólogos e orientação médica para uma terceira opinião.

O alvo

O ministro Guido Mantega será sabatinado hoje na Comissão de Desenvolvimento da Câmara. Esperto, pediu ajuda: a presença do presidente da Casa, deputado Michel Temer.

Pré-campanha

Geraldo Magela, do PT de Brasília, convocou a turma para encontro no sábado a fim de debater a melhor forma de levar o "PT à vitória em 2010 para a Presidência e o GDF".

Sem cheque

Justiça seja feita: Waldir Pires, nomeado para o Conselho de Transparência e Combate à Corrupção da CGU, não terá remuneração. Só ganha as passagens.

CELSO MING

Hora de apostar


O Estado de S. Paulo - 15/04/2009
 


O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tem uma visão privilegiada da economia americana. Talvez nem o secretário do Tesouro tem melhores condições para aferir a pulsação cardíaca do setor produtivo.

Pois ontem, depois de meses vendo coisas sinistras, Ben Bernanke mudou sua música em pronunciamento lido em Atlanta, na Geórgia: "Verificamos sinais de que o forte declínio da atividade econômica está perdendo força." Citou números sobre a melhora nas vendas de residências, no consumo e no mercado de veículos. E acrescentou: "É o primeiro passo para a recuperação."

Não ignorou o que ainda há de ruim. Reconheceu que as condições são difíceis, mas que "os fundamentos estão fortes e que estamos diante de problemas que podemos vencer com criatividade, paciência e persistência".

São termos substancialmente diferentes dos que estão na ata do Fed divulgada seis dias antes: "A atividade econômica caiu fortemente. (...) A contração se refletiu em vasta queda do emprego e da produção, (...) o consumo se mantém em níveis baixos..."

O novo discurso de Bernanke ainda avisa que não haverá recuperação sustentável sem que antes se obtenha a estabilização dos mercados financeiro e de crédito. Mas observa que há novidades: "Estamos conseguindo progressos também nessa frente."

E, de fato, há cinco semanas, Citigroup, Bank of America e JP Morgan Chase já haviam notificado os mercados dos excelentes resultados obtidos no primeiro bimestre. Segunda-feira, o Goldman Sachs antecipou um lucro líquido no primeiro trimestre acima do esperado, de US$ 1,8 bilhão, e anunciou uma nova subscrição, de US$ 5 bilhões, para completar a devolução de US$ 10 bilhões ao Tesouro.

E, ainda ontem, mesmo alertando que a crise continua forte, o presidente Obama disse que há progresso e mais esperança.

No Brasil, dá para dizer algo mais do que simplesmente que os indicadores da economia deixaram de piorar. Dá para dizer que melhoraram, especialmente nos segmentos que não dependem tanto do crédito ao consumo (veja gráficos). É preciso acrescentar que o resultado comercial (superávit) deste ano até a segunda semana de abril já é 10,9% mais alto do que no mesmo período do ano passado. E que a produção industrial parece mais robusta.

Nenhum desses indicadores pode ser tomado como garantia de recuperação. Crises como a atual estão sujeitas a recaídas e bastaria uma quebra de qualquer um dos símbolos da velha pujança dos países ricos para trazer de volta a retranca no consumo e no investimento.

Mas as apostas na vida econômica, profissional e nos investimentos não podem esperar até que haja 100% de certeza. Ninguém aposta mais, por exemplo, em que o Palmeiras foi o campeão paulista no ano passado. A hora de apostar é agora.


Confira


É por aí - De olho nas eleições, o governador José Serra ocupou, em São Paulo, um segmento que Lula ignorou: o das micro, pequenas e médias empresas.


Para atender às demandas da crise, o presidente Lula deu preferência à indústria de veículos e à construção civil. E, na semana passada, deixou vazar a informação de que estudava a redução de impostos para o setor de aparelhos domésticos. 


Mas, se é para socorrer o setor que mais emprega, a faixa das micro, pequenas e médias empresas é bem mais abrangente. Emprega 17 milhões no Brasil e 9 milhões em São Paulo (dados do Dieese).

ARI CUNHA

Excesso ou abuso de poder


Correio Braziliense - 15/04/2009
 

Os presidentes dos Três Poderes assinaram documento com detalhes importantes. Isso de entendimento entre os Poderes é da Constituição. Os assuntos tratados podem ser estudados em encontros, e não como um pacto. O humor de Lula falou das brigas até entre os clérigos. Não valeu o humor exagerado. Mas escondido entre as peças estava uma singular: reter a força da Polícia Federal. Afinal, jamais um homem de bem foi obrigado a usar algemas. Esse fato não poderia merecer assinatura do alto poder de mando. O presidente Lula da Silva, o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo, o deputado Michel Temer, presidente da Câmara, o senador José Sarney, presidente do Senado, assinaram documento irregular. Caiu a liturgia do cargo. Alguma coisa está sendo escondida. E gente boa não é. Os Estados Unidos querem devolver o dinheiro do Opportunity. Não o fazem porque o Brasil fez o pedido contra cidadão que, para nossas leis, é inocente. Pedimos a apreensão de bilhões de dólares de um homem protegido no Brasil. Perdemos o rumo. A Justiça americana quer explicações. Se o Brasil se negar, lavará o rosto com peroba. O dinheiro ficará com o banqueiro inocente pelas nossas leis.


A frase que não foi pronunciada

“Delegado Protógenes, de tanto investigar, passou a réu. Pisou no pé de alguém.”
Delegados da Polícia Federal não aceitam interferência. Estão unidos. A PF é o único departamento do governo que procura desvendar punições.


Trânsito 
Nosso blog publicou por que as rádios dos Estados Unidos não passam o dia informando onde há concentração de trânsito. A coisa lá se resolve de maneira mais fácil. Veja no blog a soma de viadutos para evitar balbúrdia. 

Som perfeito 
No aeroporto John Kennedy, em Nova York, o som é perfeito. Voz baixa e técnica na reprodução das mensagens. Onde estiver, o passageiro ouve o que deseja, o que quer saber. A coleção de caixas mostra que a tecnologia é única nos aeroportos dos EUA. 

FMI 
A notícia como foi divulgada no Brasil deixou o povo em desalinho. O Brasil faz parte dos países que não devem ao Fundo Monetário Internacional. Dizer que nós íamos mandar dinheiro para lá seria bizarro. Humilha o povo em dificuldades. 

Daslu 
Condenada a 94 anos de prisão, a presidente da Daslu, Eliana Tranchesi, passou apenas 38 horas na penitenciária. Foi rápido o tempo na cadeia. Não esqueçam de que o evento tisnou a biografia da mulher elegante que não paga imposto. A Justiça não diz quem pagará por ela. 

Economia 
Pelo índice do Odse, se merecer confiança, a renda per capita de São Paulo, na proporção de 100%, é de R$ 1.138. Brasília concorre com 99,9% e a renda per capita é de R$ 1.833. 

Privacidade 
Usar o dinheiro do FGTS não é função do governo. Os recursos pertencem aos trabalhadores. Qualquer decisão só poderá ser tomada em reunião da Comissão de Controle. A partir daí, a República poderá fazer uso desse dinheiro, que tem dono. Usurpar, é sinal vermelho.

História de Brasília

Dia 25 foi o aniversário do presidente eleito. De Brasília para São Paulo, a demora de um telefonema atingiu ao máximo de duas horas, tal era o número de chamados. (Publicado em 27/1/1961)

BOMBA-RELÓGIO

EDITORIAL

O Globo - 15/04/2009
 

 

A decisão tomada pelo presidente Lula, com o apoio de sua candidata e ministrachefe da Casa Civil Dilma Rousseff, de conceder a todos os 5.564 municípios os recursos necessários para que os prefeitos não tenham perda de receita na crise é estridente e irrefutável sinal de que a política econômica passou a se subordinar às eleições do ano que vem. Não há outra explicação.

 

Rememoremos. O Fundo de Participação dos Municípios (FPM), como o dos estados, padece, e não poderia deixar de ser assim, da retração na coleta de impostos causada pelo impacto da crise mundial no país. Retração econômica resulta em arrecadação menor, o que deve levar o poder público a “apertar os cintos”, segundo o próprio Lula pregou na semana passada.

 

Sensato conselho respondido com uma chantagem pelo bloco mais fisiológico dos prefeitos, liderados pelo inesquecível Severino Cavalcanti (PP), escorraçado da Câmara por ter cobrado propina de um prestador de serviço à Casa, e eleito no município pernambucano de João Alfredo: o governo abre os cofres ou trabalharemos contra a candidata do presidente no ano que vem, e contra a reeleição de deputados e senadores aliados.

 

A manobra estilo baixo clero funcionou e, contra a opinião dos ministérios do Planejamento e da Fazenda, a dupla Lula-Dilma criará por medida provisória um piso para os repasses do FPM de R$ 51,3 bilhões, mesma cifra transferida no ano passado. Atenção: com isso, o Planalto se compromete a repassar aos municípios o valor mais alto que eles receberam em toda a história do FPM, por ter sido 2008 o ano do ápice do ciclo de crescimento recente da economia brasileira, e da carga tributária. Um indiscutível absurdo técnico, diante do cenário já preocupante do quadro fiscal e das incertezas externas e internas.

 

Atrás de votos, o governo engessa ainda mais as despesas, enquanto as receitas caem. E não vale o argumento de que se trata de uma “medida anticíclica”, pois os municípios são clássicos gastadores de dinheiro do contribuinte no custeio de máquinas burocráticas, cuja contribuição para amortecer a tendência à recessão é praticamente nula — ou negativa, por desviar recursos de investimentos. De 2004 a 2008, o conjunto de prefeituras aumentou o quadro de servidores em 13,3%, ampliando-o de 4,5 milhões para 5,1 milhões, 5,2% da população economicamente ativa do país.

 

É esta gastança que o governo acaba de sancionar.

 

O Planalto parece confiante demais em usar a economia que a queda dos juros produz na rolagem da dívida. Pois, como a política de gastos sem limites gerará inflação, os juros terão de subir novamente, e esse dinheiro não poderá mais financiar essas despesas. É, portanto, manobra suicida bancar gastos permanentes com receitas eventuais.

 

Uma bomba-relógio já havia sido instalada nas contas públicas com os desmedidos aumentos salariais do funcionalismo, a ampliação no número de servidores, o assistencialismo avassalador e a política de reajuste do salário mínimo sem cuidados com a Previdência. Agora, a bomba foi engatilhada.

PAINEL

Plataforma 2010


RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/04/09

Com a mesma desenvoltura exibida ao negociar patrocínio da Petrobras à festa de São João em municípios baianos, Rosemberg Pinto, assessor do presidente da empresa, José Sérgio Gabrielli, atuou intensamente em campanhas petistas no Estado. Em 2008, seu apoio foi decisivo para eleger prefeitos em cidades como Itapetinga e São Francisco do Conde. A maioria dos municípios do circuito de Rosemberg recebe royalties por abrigar unidades da Petrobras. 
Amigo do governador Jaques Wagner, que o chama de ‘Berg’ desde os tempos de sindicalismo, o assessor pretende disputar vaga de deputado estadual em 2010, além de trabalhar pela candidatura de Gabrielli ao Senado e, claro, pela reeleição de Wagner.

Bala - De Michel Hagge (PMDB), prefeito de Itapetinga derrotado pelo candidato de Rosemberg no ano passado: ‘Ele trouxe e gastou muito dinheiro na campanha’.

Outro lado - A Petrobras diz que, ‘desde julho de 2008, Rosemberg Pinto não atua na área de patrocínios e não exerce suas atividades profissionais na Bahia’, ao contrário do que afirmam prefeitos do Estado. A empresa acrescenta que, neste ano, bancará o São João também em Pernambuco, Sergipe e Paraíba.

Terceiros - Apontada por prefeitos como uma das empresas escolhidas por Rosemberg para montar o São João baiano, a ST Estruturas alega que atuou nas festas de ‘apenas quatro municípios do interior baiano em 2008’. A ST é do grupo da Camarote Marketing, que recebeu R$ 200 mil da Petrobras, sem licitação, para organizar em Salvador o ‘Arraiá da Capitá’.

Classificados - José Dirceu procurou conhecidos no setor de mineração em busca de vaga para Walter Cover, que foi seu assessor na Casa Civil e acaba de espirrar da Vale.

É show! - Do presidente José Carlos Araújo (PR-BA), sobre a possibilidade de ir parar no Conselho de Ética o caso de Fábio Faria (PMN-RN), que ofereceu passagens aéreas da Câmara à então namorada famosa: ‘Eu mesmo quero ser o relator. Convoco a Adriane Galisteu em primeiro lugar’.

Conta outra 1 - Das nove modalidades de empréstimos monitoradas pelo BC, oito tiveram os juros reduzidos pelo Banco do Brasil desde janeiro. A queda média foi de 18%. Na maior parte dos rankings, as taxas do BB estão bem abaixo das de outras instituições.

Conta outra 2 - Os dados constam de boletim do Instituto Teotônio Vilela. Para os tucanos, os números desmontam o discurso de que a ‘obsessão’ de Lula pela queda do spread bancário foi o motivo da degola de Lima Neto do BB.

Pedágio - Sindicatos do setor de caminhões foram à Casa Civil se queixar. Estimam queda de até 50% nos fretes.

Menos - Os presidentes do Supremo, do STJ e do TST enviarão ao Congresso um projeto de lei para reduzir o número de feriados específicos do Judiciário. Devem desaparecer as folgas nos dias do Advogado (11 de agosto) e da Justiça (8 de dezembro), além da Semana Santa ‘diferenciada’ (começa na quarta-feira).

Tiroteio

O governo Lula passou os últimos seis anos consertando rombos deixados pelo ex-ministro Paulo Renato. Portanto, antes de falar qualquer coisa ele deveria cuidar melhor de seu quintal.

Do deputado JILMAR TATTO (PT-SP), sobre as críticas do novo secretário da Educação de São Paulo ao desempenho do governo federal na área.

Contraponto

Presente de grego

Os deputados Antonio Palocci (PT-SP) e Paulo Bornhausen (DEM-SC) conversavam sobre a crise econômica no fundo do plenário da Câmara. O petista comentou que acabara de ser designado para relatar mais uma medida provisória. Ele é um dos campeões de relatorias da Casa. 
-Acho que o governo sabe que só dá para confiar em você-, brincou o colega ‘demo’. 
Palocci riu, e Bornhausen aproveitou para provocá-lo sobre possível mudança na remuneração da poupança: 
-Tome cuidado! Desse jeito ainda vão colocar você para relatar a MP da tunga na caderneta! 
-Muito meu amigo, você...- reagiu o ex-ministro.

TOSTÃO

O corpo fala primeiro


JORNAL DO BRASIL - 15/04/09


Além de saber comandar um grupo, executar bons treinamentos, escalar bem e mudar corretamente o time durante a partida, o técnico tem a função, quase a obrigação, de definir bem a maneira de jogar, independentemente do esquema tático e do estilo de sua preferência.

A partir daí, e só assim, os atletas terão segurança para criar e improvisar. O conteúdo não sobrevive sem a forma.

Mano Menezes faz isso muito bem. O Corinthians é um time bastante organizado desde a Segunda Divisão. Não joga melhor por falta de mais talento individual.

Apesar de não ter criado boas chances de gol quando o São Paulo estava com 11 jogadores, o Corinthians foi melhor, pressionou e teve mais a posse de bola. A principal razão disso foi a necessidade, a gana de vencer. No Morumbi, as posturas podem se inverter.

Ronaldo não brilhou contra o São Paulo. Uma de suas grandes qualidades sempre foi a movimentação para receber a bola no lugar certo, no pé, para driblar o zagueiro, ou nas costas do marcador. Antes do passe, ele dribla o defensor com o corpo. Quando o zagueiro percebe seus movimentos, não dá mais para pará-lo.

Ronaldo perdeu muito de sua mobilidade, mas não perdeu a velocidade do raciocínio. Os companheiros não conseguem acompanhá-lo. Demoram uma fração de segundos, uma eternidade, para dar o passe. Dá tempo para os zagueiros chegarem primeiro.

A comunicação analógica, sem palavras, com o olhar e com outros movimentos corporais é importantíssima no futebol. O corpo fala primeiro. E não engana.

Ver sem enxergar

Na vitória sobre o Sport, Luxemburgo adotou a tática de recuar para contra-atacar. Fez o mesmo na derrota para o Santos. Não foi a tática que venceu no Recife nem foi a tática que perdeu na Vila Belmiro. Mais importantes foram outros detalhes técnicos e vários fatores imprevisíveis.

Os treinadores tentam de todas as formas se proteger do acaso e das surpresas de um jogo. Não conseguem. Assim é também na vida. Tentamos controlar o futuro, o imponderável. É impossível.

Uma das razões da vitória do Santos foi o belo gol de Neymar. Durante toda a partida, ele tentou, até conseguir, uma jogada diferente e decisiva, como devem fazer os jogadores de talento. Neymar recebeu a bola de costas, girou e, sem ver o goleiro, mas vendo, colocou a bola no canto.

Emoção e razão

Adriano não vai parar de jogar. É o que ele sabe fazer bem. Independentemente de tantas especulações sobre seus problemas, que não sei quais são, ele, depois de ter ido bem no São Paulo e de ver Ronaldo ganhar um bom dinheiro no Corinthians, decidiu voltar para o Brasil.

Adriano percebeu que é muito melhor ganhar menos aqui, que já é uma fortuna, sem perder as coisas que tanto gosta, do que ganhar mais e ficar infeliz na Europa. Foi uma atitude também racional, desde que pague as multas rescisórias do contrato. A Inter não vai querer jogar dinheiro fora.

De bermudas e chinelo, sorrindo para dizer que está muito triste, Adriano aguarda as propostas dos investidores e dos times brasileiros.

VINÍCIUS TORRES FREIRE

A porteira aberta e o mata-burro

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/04/09

Governo deve poupar menos, renegocia dívidas, dá dinheiro a cidades e deve reduzir mais impostos sobre bens duráveis



LULA DEVE mesmo reduzir a contribuição que empresas estatais dão às contas do governo. Isto é, o dinheiro que auxilia o esforço do governo em manter as contas públicas no azul, excluídos os gastos com juros (dinheiro do superávit primário). Além do mais, Lula decidiu, segundo assessores próximos, adaptar o tamanho do superávit à queda da receita de impostos. Ou seja, o governo vai colocar menos dinheiro de lado, o que é necessário para conter a alta da dívida pública.
O plano de recolher menos dinheiro do lucro das estatais vinha sendo negado pela Fazenda fazia uma semana. Mas, ontem, pessoas não lá muito satisfeitas com a ideia diziam que o governo vai mesmo deixar mais dinheiro na Petrobras e cia., a fim de reforçar o caixa das empresas e facilitar investimentos.
O governo central deveria poupar o equivalente a 2,2% do PIB (afora despesas com juros da dívida pública). Nessa conta, entram os balanços do governo federal, do Banco Central e do INSS. No caso do setor público inteiro (governo central, Estados, municípios e estatais), a meta de superávit era de 3,8% do PIB.
O superávit primário do governo central foi de 1,93% nos 12 meses até fevereiro; o do setor público, de 3,43%. Normalmente, o superávit cai ao longo do ano. Ainda assim, o resultado não foi ruim. A recessão derrubou a receita de impostos; o governo reduziu a alíquota de tributos como o Imposto de Renda (IR) e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), a fim de não deixar o PIB cair demais. Ainda positivo, é bem provável que a despesa com juros da dívida pública caia, pois os juros são declinantes (assim, mesmo poupando menos na conta "primária", a dívida pública ficaria contida, dada a redução da despesa financeira).
Mas há incerteza sobre a receita de impostos deste ano, por ora estimada em projeções oficiais otimistas sobre o PIB de 2009. Há despesas para ainda entrar na conta do governo, como reajustes de servidores.
Haverá pelo menos mais um trimestre de IPI menor para veículos. Virá mais desoneração de impostos para bens de consumo (provavelmente para a "linha branca": geladeiras, lavadoras etc.) -é coisa pequena, mas é. O governo ainda precisa definir de onde virá o subsídio prometido para casas populares (valor ainda incalculável). Prometeu dinheiro para calar as queixas das prefeituras. Ainda há as renegociações de dívidas e outros acertos, previstos ou em negociação, com o setor privado e governos estaduais e municipais. E estamos apenas em abril.
Quanto desse esforço resultará em contenção da baixa do PIB? O IPI dos veículos teve algum efeito; o plano das casas populares é uma hipótese, se andar. O resto dos gastos tem efeito escasso ou nenhum. Tende a ser mais política politiqueira.
Não se trata de uma catástrofe, decerto. Além do mais, mesmo descontada a alta excepcional da arrecadação de impostos nos últimos dois anos, os números das contas públicas foram bons (embora não se possa dizer o mesmo de sua qualidade). Abrir a porteira de gastos que contenham a recessão pode ser, dentro de certos limites, razoável. Abolir o mata-burro vai apenas esvaziar o pasto, ou melhor, os cofres, e deixar a economia menos ajeitada para o momento da recuperação.

GOSTOSA


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DORA KRAMER

Abandonado na pista


O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/04/09

Juntem-se as provas de que a Operação Satiagraha produziu estoque de material paralelo à investigação sobre o banqueiro Daniel Dantas; acrescente-se a elas a confirmação do delegado Protógenes Queiroz de que agiu para atender a interesse da Presidência da República; a esses dois fatos adicione-se a recusa do ex-chefe da Abin Paulo Lacerda de voltar à CPI dos Grampos para explicar os detalhes obscuros da operação.
Não é necessário expertise de estrategista, basta somar e aplicar rudimentos da lógica mais elementar para perceber nitidamente a existência de uma situação no aparelho de Estado, no mínimo, mal contada e, no limite, altamente suspeita.
O delegado Protógenes, verdade seja dita, não é hoje o personagem mais digno de fé da República, dada a quantidade e variedade das idas e vindas nas versões por ele apresentadas sobre sua atuação como chefe da Operação Satiagraha.
Se visto como louco ou incapaz, mentiroso ou vingativo, candidato a salvador da pátria ou oportunista explorador da utopia alheia, suas palavras, isoladamente, não seriam dignas de crédito.O problema é que o que o delegado Protógenes diz em boa medida encontra sustentação nos indícios recolhidos pela Polícia Federal na investigação sobre a atuação dele à frente de uma operação montada para capturar um banqueiro acusado de usar métodos empresariais escusos e que acabou relevando a manipulação oficiosa do aparato oficial de segurança. Ainda não se sabe exatamente por ordem de quem e para atingir quais objetivos.
Fato é que um delegado recebeu salvo-conduto para agir livremente ao arrepio da hierarquia, teve à disposição recursos abundantes, contratou agentes no submundo da arapongagem originária do antigo SNI, arquivou em casa material recolhido em escutas ilegais sobre pessoas que nada têm a ver com o objeto do inquérito em si, distribui ilegalmente senhas de acesso a equipamentos de uso restrito e, de repente, esse mesmo delegado passa a ser tratado como fosse uma deformação nascida e criada por geração espontânea, sob a qual ninguém tem responsabilidade, cujos métodos heterodoxos e atitudes fundamentalistas são condenadas.
Não obstante inverossímil, essa versão da história tem sido tacitamente aceita. De um lado por aqueles com dificuldade de raciocinar sem o maniqueísta instrumento da divisão entre o bem e o mal - Protógenes como a encarnação do santo guerreiro e Daniel Dantas no papel de dragão da maldade. De outro, pelos que deixaram o delegado “abandonado na pista” quando as coisas começaram a dar errado.
Mal comparando, como os militares encarregados de explodir a bomba no Riocentro depois de o artefato explodir no colo deles. Até o depoimento do delegado semana passada na CPI, a história pôde vingar. Protógenes calou sobre qualquer coisa que pudesse incriminá-lo, não confirmou nem desmentiu depoimentos anteriores.
Mais eis que ontem o repórter Vasconcelo Quadros publica no Jornal do Brasil uma entrevista do delegado em que ele retoma primeira versão contada ao Ministério Público do Distrito Federal, segundo a qual atuou em “missão presidencial” sob a coordenação direta do então diretor-geral da Polícia Federal e depois chefe da Agência Brasileira de Inteligência, Paulo Lacerda.
Para demonstrar a veracidade do que diz, convida o público a “prestar atenção na estrutura que colocaram à minha disposição”. E reforça: “Por que me dariam essa estrutura se não houvesse interesse do governo? O que não consigo entender é por que as coisas mudaram de uma hora para outra. As investigações voltaram-se contra o investigador.”
Reclamou de ter sido deixado “sozinho” e queixou-se da mudança de atitude de Paulo Lacerda. Antes, o recebia sempre para orientar sobre o andamento da investigação. Depois que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, denunciou ter sido grampeado ilegalmente e estar sendo alvo de tentativa de constrangimento moral, Lacerda foi exonerado, promovido a adido policial na embaixada brasileira em Lisboa e afastou-se de Protógenes.
“Ele me recebeu por apenas 15 minutos e fez questão de encerrar logo a conversa”, contou o delegado ao JB. Por que externar a mágoa depois de ter calado na CPI? Policial experiente, bem-sucedido em várias operações contra criminosos de colarinho-branco, sabe, sim, por que as “investigações se voltaram contra o investigador”.
Porque ele cometeu ilegalidades e quem deixou que fossem cometidas não queria se associar ao executor das ações subterrâneas na hora da adversidade. Há, portanto, um dilema posto: ou bem o delegado Protógenes mente e delira e, sendo assim, não cabe no figurino de salvador do Brasil ou sabe o que diz.
Nessa hipótese, está dizendo ao País que o Estado dá guarida a grupos que atuam ao arrepio dos controles sociais e institucionais, em nome de fins incertos, mediante meios que não se justificam, pondo em risco a democracia e fazendo letra morta de profissões de fé de intenções republicanas.

ELIO GASPARI

A PF insiste no autoesculacho

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/04/09

O exibicionismo da turma da "Castelo de Areia" acabará beneficiando os malfeitores



DEVE-SE AO ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, o empenho pelo restabelecimento da ordem pública na esfera da Polícia Federal. Infelizmente, ainda falta muito para que se veja luz no fim do túnel. O ministro participava de uma cerimônia comemorativa de intenções enquanto circulava por Brasília a última peraltice dos agentes que conduziram a Operação Castelo de Areia. A ela:
Os federais revelaram ter apreendido nos arquivos da Camargo Corrêa um documento no qual o senador Valdir Raupp (PMDB-RO) pede um emprego para uma engenheira. Trata-se do ofício 139/2009, assinado por Raupp. Uma polícia incapaz de perceber que um documento desse tipo é exemplo de transparência e lisura não deveria investigar senadores nem empresas. É legítimo e até desejável que um parlamentar recomende a uma empresa os serviços de uma pessoa por meio de documento oficial, numerado, datado e assinado. Se o indicado for eficiente, a empresa deverá um favor a quem o recomendou. (Raupp foi um paladino da luta pela formação da bancada que permitiu a reeleição de FFHH e é também um baluarte do sigilo das contas dos senadores, mas essa é outra história.)
A Polícia Federal sabe que não deve vazar informações de inquéritos, muito menos documentos que não querem dizer nada. Admita-se que uma compulsão exibicionista estimule até mesmo fotografias de objetos de uso doméstico de diretores da Camargo Corrêa, como um horrível cortador de charutos. Daí a se transformar um documento oficial e legítimo em veículo de suspeita vai enorme distância. No caso da engenheira, ela não foi contratada.
Existe em Washington um Museu do Crime, onde acaba de ser inaugurada uma exposição sobre a dupla de assaltantes Bonnie e Clyde (Faye Dunaway e Warren Beatty, no filme). Do jeito que os federais esculacham algumas de suas investigações, poderia ser aberto em Brasília o Museu da Comédia Policial, reunindo apenas casos risíveis de desvario.
Além do ofício de Raupp, o Museu da Comédia apresentaria, logo na entrada, o áudio de uma gravação de 2005, feita com autorização judicial, no qual o deputado Paulo Maluf mantém um breve diálogo com a secretária eletrônica do então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos: "É Paulo, bom dia". (...) Clic.
Dois anos depois, a Polícia Federal produziu outra gloriosa peça de investigação. Autorizada pela Justiça, varejou a casa de Genival Inácio da Silva, irmão de Nosso Guia. Buscavam documentos capazes de comprovar suas traficâncias de influência. O que acharam não deve ter rendido muita coisa, pois faz tempo que não se ouve falar de Vavá, imortalizado pela frase "Ô, arruma dois pau pra eu". Entre os documentos apreendidos pela polícia estava uma carta com um pedido de emprego ao senador Aloizio Mercadante. Parece elementar que uma carta a Mercadante guardada na casa de Vavá contém um pedido que não foi encaminhado.
Esse museu poderia recuperar a história de Romero Lago, o diretor da censura de cinema, rádio e televisão ao tempo da ditadura, quando a tesoura ficava sob a jurisdição da Polícia Federal. O doutor zelava pelos bons costumes e era homem da confiança do general que comandava a instituição. Não se chamava Romero nem Lago. Era Hermenildo Ramires de Godoy, estelionatário foragido da Justiça.

CLÓVIS ROSSI

O celular envenenado

FOLHA DE SÃO PAULO

MIAMI - Espertinho esse Barack Obama. Introduziu no pacote de bondades para Cuba um dardo envenenado na forma de celulares e computadores.
Explico para quem não acompanhou: na segunda-feira, o governo Obama eliminou as restrições para viagens de cubano-americanos a Cuba, assim como os limites para remessa de dinheiro para a ilha. Até aí, é o que todo o mundo sabia que iria acontecer.
Mas a suavização veio acompanhada da liberação para que as companhias norte-americanas de telecomunicações possam entrar no mercado cubano e, em conjunto com as autoridades locais, trabalhar para ampliar a rede de cobertura de celulares. Mais: os cubano-americanos poderão pagar as contas telefônicas de seus parentes residentes na ilha e também enviar-lhes celulares e computadores.
Qual é a esperteza? Simples: informação é poder. Quem tem o controle total da informação, como ocorre em países totalitários como Cuba, tem mais facilidade para controlar o poder e prolongar o controle por mais tempo.
Hoje, no entanto, celular também é informação -e a cada dia se torna ainda mais com o avanço espetacular das comunicações por esse aparelhinho que alguns já chamam de "extensão da mão". É claro que o governo cubano poderá vetar a entrada das companhias e bens norte-americanos e, por extensão, a ampliação da rede.
Mas é difícil justificar que se negue a uma sociedade os benefícios da modernidade.
Se, e quando, o pacote Obama para Cuba for plenamente implementado, o cubano médio receberá uma dose cavalar de informação, parte dela de viva voz pelo previsível aumento de visitantes vindos dos Estados Unidos (hoje são 130 mil por ano), parte via celulares/computadores/internet. Não vai ser nada fácil segurar o arcaísmo do regime.

FERNANDO RODRIGUES

Ninguém é freira

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/04/09

BRASÍLIA - Ontem surgiu mais um desvio de conduta no Congresso. O deputado Fábio Faria (PMN-RN) pagou com dinheiro público passagens aéreas para amigos e para sua ex-namorada, a apresentadora Adriane Galisteu. Michel Temer reagiu assim ao episódio: "Não é um padrão normal". É verdade. Mas, como sempre, nada acontecerá -nem Fábio Faria será admoestado.
A maior consequência dessa onda de escândalos é o enfraquecimento talvez inédito do Poder Legislativo. Até mesmo durante a última ditadura (1964-1985), os militares fechavam o Congresso quando queriam aprovar algo -e a maioria era da Arena, partido do governo.
Agora, basta baixar uma medida provisória e estamos conversados. De maneira involuntária, o presidente Lula fez nesta semana uma declaração com duplo sentido que expressa à perfeição o momento pelo qual passam as instituições.
Tendo ao seu lado os presidentes do STF, Gilmar Mendes, da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o petista soltou a boutade: "Ninguém aqui é freira e santa, e não estamos em um convento".
A suposta intenção de Lula, no contexto de sua fala, era dizer que às vezes não há harmonia entre os três Poderes. Mas o outro recado também estava lá: em Brasília, ninguém é freira ou santa. Não ocorreu a nenhum dos outros presentes, mesmo de maneira educada, fazer um reparo: "Presidente, fale por si próprio". O silêncio funcionou como confissão -apesar da ambivalência do discurso presidencial.
Assim, a avalanche de indecências vai criando uma indiferença crescente. "Não é um padrão normal", mas tudo é vendido como legal. Ontem, um deputado flagrado em um delito recente constatava: "Só recebi cinco e-mails de protesto". Eis aí uma razão para a degradação ter chegado ao ponto atual.

MÍRIAM LEITÃO

Sinais trocados


O GLOBO - 15/04/09


O governo deu vários sinais errados na política de socorro aos municípios. Eles terão direito à mesma parcela que receberam em 2008, como se não houvesse crise; quem fizer menos para se recuperar terá direito a receber mais na segunda etapa de remessa da ajuda; quem comprometeu os gastos inchando a folha será socorrido pelo governo federal. Um festival de erros.

Não há diferenciação entre o bom e o mau gestor. Aliás, existe: quanto pior, melhor para ele. Se, por hipótese, um prefeito tentando reeleição tiver aprovado aumentos irresponsáveis de salários e gastos de custeio no ano passado, agora basta culpar a crise econômica. Quem se preveniu da crise, combatendo a sonegação e modernizando a arrecadação, e estiver em condições de atenuar os seus efeitos, agora receberá menos. Todo o conjunto de incentivos é para desestimular a boa gestão e a autonomia tributária municipal.

Tudo isso tem uma motivação inescapável: quanto mais dependentes do governo federal, quanto mais “gratos” estiverem os prefeitos, melhor para a candidatura oficial à Presidência da República. A visão não é incentivar a modernização tributária, a capacidade autônoma de resolver os problemas na esfera municipal. O propósito é de manter sempre pavimentada a romaria a Brasília com pedidos de ajuda que será, de forma magnânima, dada pelo governo federal.

Em 2008 houve um aumento de arrecadação de 17%, mas o governo considerou que o teto do que foi repassado aos municípios é uma espécie de “direito” que as administrações têm e, por isso, estabeleceu que elas não receberão menos que no ano passado. Ora, o setor público como um todo tem que aprender a viver com menos, porque o país está em crise, o mundo está em crise e a arrecadação está em queda. O governo federal arrecadará menos – no primeiro bimestre a receita já caiu quase 10% –, mas a parcela dos municípios no Fundo de Participação dos Municípios (FPM) permanecerá a mesma.

Agora, o governo fala que também fará um programa de ajuda aos estados. Se o programa tiver a mesma preocupação de construir as alianças para 2010, aumentará mais um pouco o risco fiscal do país.

O Brasil sempre precisou de uma reforma tributária que descentralizasse a receita, reduzindo a dependência e o tamanho de Brasília. A excessiva centralização tributária é mitigada pela distribuição de recursos via fundos de participação. Mas tanto a centralização quanto a repartição servem para o mesmo propósito de manter a dependência em relação ao governo federal, muito útil a um governo que está em campanha, mesmo sendo muito cedo para isso.

Os municípios levaram duas propostas. O que foi aprovado é muito menos do que uma. Portanto, a pressão aumentará por novas concessões. A primeira proposta pedia o piso do que foi repartido em 2008, mas corrigido pelo IPCA. No ano passado, o bruto foi de quase R$ 50,5 bilhões, que corrigidos dariam cerca de R$ 56 bilhões, perto do previsto pelo Orçamento, de R$ 57,8 bilhões de FPM ao longo de 2009. O governo concordou, mas não corrigiu pelo IPCA, o que deu o R$ 1 bilhão. Na visão dos municípios, o governo apenas fez de conta que cedeu, mas repassará menos do previsto no Orçamento. O problema é que o Orçamento trabalhou com valores de ficção para a arrecadação e o crescimento do país, desconhecendo a crise e a recessão.

Os municípios querem, também, concessões na área da dívida com o INSS. A União cobra diversas dívidas dos municípios, e estima que teria de receber R$ 22 bilhões. Já pelas contas da Confederação Nacional de Municípios (CNM), as prefeituras é que são credoras da União em R$ 26 bilhões. É que a União reteve do FPM parcelas para pagar à previdência, mas, segundo a CNM, a Súmula Vinculante nº 8 exclui dessa conta as dívidas com mais de cinco anos com a Seguridade Social. O governo teria, então, que devolver algumas retenções. A Condeferação Nacional de Municípios quer que a União suspenda os descontos e faça um encontro de contas para se saber a real dimensão desta situação, tanto para as prefeituras como para a União. Na máquina de calcular dos municípios está registrado que o governo deve a eles esses R$ 26 bilhões. E o que fica claro é que a concessão desta semana não vai estancar a romaria a Brasília. Até porque os prefeitos sabem que o governo está de olho em 2010 e vão aproveitar a força que têm para extrair o máximo.

Até agora, neste ano, o repasse do FPM está 9,5% menor do que no mesmo período do ano passado. E, mesmo se houver recuperação econômica, os municípios temem as isenções e reduções das alíquotas do IPI e a queda de arrecadação do Imposto de Renda. As cidades dizem que não querem pagar o ônus das renúncias fiscais feitas pelo governo federal.

Os municípios grandes e as capitais recebem pouco de FPM. É a terceira fonte, depois do ISS e do ICMS. Paulo Ziulkoski, da CNM, diz que a receita própria está em queda. “A arrecadação do ICMS está caindo cerca de 6%. Tudo vai sendo contaminado nessa crise. Não temos como fazer política anticíclica. Não podemos nem cortar no custeio, quanto mais fazer o investimento. Ninguém quer demitir.”

As prefeituras têm 15,5 milhões de servidores, um contingente que cresceu nos últimos anos, na esteira do inchaço da máquina federal.

PUTARIA


QUARTA NOS JORNAIS

Globo: Vereadores do Rio criam a "bolsa-invasão"

 

Folha: Imobiliária banca vereador que atua pelo setor em SP

 

Estadão: Governo decide baixar diesel

 

JB: Derrame de remédios falsos

 

Correio: Fantasmas e parentes na folha da câmara

 

Valor: Roupa importada da China volta a invadir o mercado

 

Gazeta Mercantil: Inglaterra prepara-se para pedir ajuda ao FMI

 

Estado de Minas: Moradores de BH correm para comprar casa (pág.1)

 

Jornal do Commercio: Sporte tenta dar o troco