terça-feira, agosto 09, 2011

JOSÉ PAULO KUPFER - Esfriamento global


Esfriamento global
JOSÉ PAULO KUPFER

 O Estado de S.Paulo - 09/08/11

Fortíssimas quedas nos pregões das bolsas ao redor do mundo marcaram o início da primeira semana depois do rebaixamento dos títulos americanos de longo prazo. Os mercados vão ficar assim mesmo, instáveis e voláteis, nessa gangorra, às vezes maluca, por uns tempos. A duração do movimento e a intensidade da gangorra é impossível prever. Mas é possível prever que isso, alguma hora, passa. E quando a poeira baixar?

Existe razoável convergência entre os analistas de que está em curso, embora em seus primeiros movimentos, um desinchaço global. O processo de desalavancagem se traduzirá por uma contração da atividade econômica, puxada pelas economias avançadas, numa longa e penosa correção de rumos. É tempo de esfriamento global. Episódios desse tipo são relativamente frequentes e raros países conseguem escapar da tendência geral de contração. Quando bate uma aversão generalizada ao risco, ninguém sai ileso. Há, no entanto, ocasiões históricas em que determinadas economias crescem na contramão do restante do mundo. Foi assim, recentemente, com vários emergentes, na Ásia e na América Latina - Brasil em primeiro plano. Tendo a China como nova e fundamental protagonista, bom número de emergentes passou ao largo da crise de 2008 e experimentou altas taxas de expansão, depois dos primeiros solavancos.

Não é nada fácil adivinhar o que acabará ocorrendo, daqui até a hora da retomada, dentro de alguns anos. Mas, infelizmente, as condições que permitiram o descolamento anterior dos emergentes parecem menos disponíveis nesta segunda, mais profunda e mais abrangente etapa de percalços econômicos.

Quase três anos depois do colapso financeiro produzido pelo estouro da bolha das hipotecas nos Estados Unidos, discute-se se a economia americana sofrerá um duplo mergulho ou se continuará a trajetória recessiva em que já se encontra. Ou seja, há cJosé Paulo Kupfer - O Estado de S.Paulo

Fortíssimas quedas nos pregões das bolsas ao redor do mundo marcaram o início da primeira semana depois do rebaixamento dos títulos americanos de longo prazo. Os mercados vão ficar assim mesmo, instáveis e voláteis, nessa gangorra, às vezes maluca, por uns tempos. A duração do movimento e a intensidade da gangorra é impossível prever. Mas é possível prever que isso, alguma hora, passa. E quando a poeira baixar?

Existe razoável convergência entre os analistas de que está em curso, embora em seus primeiros movimentos, um desinchaço global. O processo de desalavancagem se traduzirá por uma contração da atividade econômica, puxada pelas economias avançadas, numa longa e penosa correção de rumos. É tempo de esfriamento global. Episódios desse tipo são relativamente frequentes e raros países conseguem escapar da tendência geral de contração. Quando bate uma aversão generalizada ao risco, ninguém sai ileso. Há, no entanto, ocasiões históricas em que determinadas economias crescem na contramão do restante do mundo. Foi assim, recentemente, com vários emergentes, na Ásia e na América Latina - Brasil em primeiro plano. Tendo a China como nova e fundamental protagonista, bom número de emergentes passou ao largo da crise de 2008 e experimentou altas taxas de expansão, depois dos primeiros solavancos.

Não é nada fácil adivinhar o que acabará ocorrendo, daqui até a hora da retomada, dentro de alguns anos. Mas, infelizmente, as condições que permitiram o descolamento anterior dos emergentes parecem menos disponíveis nesta segunda, mais profunda e mais abrangente etapa de percalços econômicos.

Quase três anos depois do colapso financeiro produzido pelo estouro da bolha das hipotecas nos Estados Unidos, discute-se se a economia americana sofrerá um duplo mergulho ou se continuará a trajetória recessiva em que já se encontra. Ou seja, há consenso de que os próximos tempos serão de contenção forçada. E que o dólar, ainda reserva mundial, talvez lenta, mas inapelavelmente, perderá valor e poder. Para complicar o que já estava suficientemente complicado, isso se dá em meio a uma turbulência na Europa. A desarrumação no sistema bancário nos Estados Unidos e Europa, deflagrada pelos subprimes, desaguou numa crise de solvência das economias periféricas da zona do euro. Num ambiente de aumento da tensão política, a Europa enfrenta dívidas e déficits públicos insolúveis pelos caminhos convencionais.

Nem mesmo a China, a imensa força que tracionou o mercado de commodities e abriu espaços, na primeira etapa da crise, para o crescimento dos emergentes, dá mostras de que conseguirá manter o crescimento acelerado das duas últimas décadas. Inflação e pressões sociais são alguns dos elementos que se avolumam e estão presentes nos sinais de esgotamento de um modelo que, atrelado à locomotiva americana, a partir de uma política cambial amarrada às variações do dólar, pode sofrer com o aprofundamento dos problemas nos Estados Unidos e na Europa.

É nesse cenário externo pouco animador que a economia brasileira terá de resolver seus problemas domésticos. Os vetores que promoveram a inclusão de grandes contingentes de consumidores no mercado doméstico - programas de transferência de renda, ampliação do crédito e importações - e sustentaram um salto no PIB em 2010 parecem perder força. Além disso, altas das cotações no mercado de commodities, que ajudaram o País a manter sustentável o crescente déficit externo, também contribuíram para a deflagração de pressões inflacionárias.

Agora, com os previsíveis ajustes na economia global, depois de um primeiro momento de procura por ativos que elevariam as cotações, pode ocorrer uma inversão na direção dos preços das commodities. Nesse caso, o que passaria a ajudar no controle da inflação também poderia colaborar para complicar o lado externo.

Mesmo em posição melhor do que o restante do mundo, nessa fase de esfriamento e potencialização de turbulências globais, a economia brasileira também pode ser obrigada a esfriar - ajustes, por sinal, já estavam em marcha quando esta segunda etapa da crise global se apresentou. A economia brasileira, ainda periférica e sem problemas de solvência, pode sofrer, com episódios de aversão ao risco, que levam ao colapso quase instantâneo dos fluxos de crédito. É nessas horas que juros altos, câmbio valorizado, carga tributária elevada e escassez de mão de obra qualificada escancaram nossas deficiências competitivas e cobram a conta. onsenso de que os próximos tempos serão de contenção forçada. E que o dólar, ainda reserva mundial, talvez lenta, mas inapelavelmente, perderá valor e poder. Para complicar o que já estava suficientemente complicado, isso se dá em meio a uma turbulência na Europa. A desarrumação no sistema bancário nos Estados Unidos e Europa, deflagrada pelos subprimes, desaguou numa crise de solvência das economias periféricas da zona do euro. Num ambiente de aumento da tensão política, a Europa enfrenta dívidas e déficits públicos insolúveis pelos caminhos convencionais.

Nem mesmo a China, a imensa força que tracionou o mercado de commodities e abriu espaços, na primeira etapa da crise, para o crescimento dos emergentes, dá mostras de que conseguirá manter o crescimento acelerado das duas últimas décadas. Inflação e pressões sociais são alguns dos elementos que se avolumam e estão presentes nos sinais de esgotamento de um modelo que, atrelado à locomotiva americana, a partir de uma política cambial amarrada às variações do dólar, pode sofrer com o aprofundamento dos problemas nos Estados Unidos e na Europa.

É nesse cenário externo pouco animador que a economia brasileira terá de resolver seus problemas domésticos. Os vetores que promoveram a inclusão de grandes contingentes de consumidores no mercado doméstico - programas de transferência de renda, ampliação do crédito e importações - e sustentaram um salto no PIB em 2010 parecem perder força. Além disso, altas das cotações no mercado de commodities, que ajudaram o País a manter sustentável o crescente déficit externo, também contribuíram para a deflagração de pressões inflacionárias.

Agora, com os previsíveis ajustes na economia global, depois de um primeiro momento de procura por ativos que elevariam as cotações, pode ocorrer uma inversão na direção dos preços das commodities. Nesse caso, o que passaria a ajudar no controle da inflação também poderia colaborar para complicar o lado externo.

Mesmo em posição melhor do que o restante do mundo, nessa fase de esfriamento e potencialização de turbulências globais, a economia brasileira também pode ser obrigada a esfriar - ajustes, por sinal, já estavam em marcha quando esta segunda etapa da crise global se apresentou. A economia brasileira, ainda periférica e sem problemas de solvência, pode sofrer, com episódios de aversão ao risco, que levam ao colapso quase instantâneo dos fluxos de crédito. É nessas horas que juros altos, câmbio valorizado, carga tributária elevada e escassez de mão de obra qualificada escancaram nossas deficiências competitivas e cobram a conta.

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