domingo, agosto 02, 2009

MAIS UM FAVOR A CHÁVEZ




EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO - 02/08/09


É cada vez maior a subserviência do governo brasileiro aos projetos do caudilho Hugo Chávez. No início da semana, o compañero bolivariano estava em maus lençóis, tendo de explicar como vários lançadores de foguetes AT-4, comprados pela Venezuela da Suécia, em 1988, estavam em poder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, um grupo guerrilheiro que surgiu há mais de 40 anos tentando implantar pelas armas uma ditadura maoista naquele país e hoje se dedica quase exclusivamente ao tráfico de drogas. Não apenas o governo de Bogotá exigia uma resposta. Estocolmo também queria saber por que o governo venezuelano não havia respeitado o compromisso de ser o usuário final daquele sistema de foguetes.

Como não tinha nenhuma explicação plausível a dar e não podia reconhecer publicamente que tanto ele como seu seguidor equatoriano Rafael Correa fazem o que podem para ajudar o bando armado que se sustenta do narcotráfico e do sequestro de civis, Hugo Chávez fez-se de ofendido. Repudiou qualquer tipo de interpelação, chamou de volta a Caracas o embaixador em Bogotá e congelou as relações diplomáticas e econômicas com a Colômbia. Mas isso era pouco. Passou para a ofensiva franca, cobrando satisfações do governo colombiano por este estar em negociações com Washington para ceder o uso de cinco bases militares às forças americanas - algumas centenas de soldados - que combatem as chamadas ameaças transnacionais, principalmente o narcotráfico. E, desde então, a concessão dessas bases passou a ser vista como uma ameaça real e imediata à segurança dos países sul-americanos.

O governo Lula comprou a briga do compañero Chávez e tentou dividir a conta com membros de governo estrangeiros que passavam por Brasília. O presidente Lula, depois de afirmar que "a mim não me agrada mais uma base na Colômbia", fez a ressalva de que, assim como não gostaria que o presidente Álvaro Uribe desse "palpite nas coisas do Brasil", ele também não daria palpite "nas coisas de Uribe" - mas tratou de pedir que o assunto fosse incluído na pauta da reunião da União de Nações Sul-Americanas do dia 10. A presidente do Chile, Michelle Bachelet, que estava em Brasília, agiu com grande correção diplomática, limitando-se a dizer que "nós respeitamos a soberania de cada país e as decisões que tomam". Mas o chanceler espanhol Miguel Angel Moratinos deixou de lado a circunspecção, que deveria marcar o comportamento de um visitante, e pontificou, como se Madri ainda fosse a metrópole: "É preciso cuidado para evitar tensão e militarismo na América Latina. Essa não é a melhor resposta aos problemas da região." E propôs articular reações da União Europeia contra a ampliação da presença militar dos Estados Unidos na Colômbia, muito convenientemente esquecido de que as forças americanas - e não só elas - têm livre trânsito nas bases espanholas que fazem parte da OTAN.

O chanceler Celso Amorim, por sua vez, instruiu o embaixador brasileiro em Washington a obter junto ao Departamento de Estado detalhes sobre o acordo de cessão das bases colombianas. Exigiu, ao que se informa, "transparência". Não fez o mesmo - e muito menos revelou preocupações com a segurança do Brasil - quando, há meses, o caudilho Hugo Chávez colocou à disposição das forças armadas russas todos os portos e aeroportos venezuelanos. Muito menos quis saber publicamente de detalhes dos acordos de cooperação militar assinados esta semana entre Caracas e Moscou, que preveem inclusive a realização de manobras.

Os Estados Unidos estão buscando bases na Colômbia porque Rafael Correa se recusou a prorrogar o acordo de uso da Base de Manta, a partir da qual Washington controlava o tráfego de embarcações e aviões suspeitos de envolvimento com o narcotráfico. Recorde-se que o acordo com o Equador foi assinado depois que foi recusada uma proposta para a cessão de base em território brasileiro.

Esses acordos são negociados às claras e os seus textos são publicados. Não implicam cessão, mesmo parcial, de soberania. As bases continuam sob comando do país hospedeiro e servem exclusivamente para o apoio das operações de patrulha. Disso tudo o governo preferiu fingir que não sabia, para poder prestar mais um favor a Hugo Chávez.

PARCERIAS


EDITORIAL

O GLOBO - 02/08/2009

O Brasil ganha estatura internacional devido ao bom desempenho de sua economia frente à crise. Compreensivelmente, os condutores da política externa querem que essa condição se reflita no aumento do peso político do país.
Mas frequentemente trilham caminhos que conspiram contra a meta.
É o caso da tendência da diplomacia brasileira, no governo Lula, de participar de “clubinhos” que, ao invés de somar forças, limitam a margem de manobra externa do Brasil.
Em várias situações, os formuladores da política externa ressuscitam posturas terceiro-mundistas, repetindo o erro de reunir “os fracos” na luta contra “os poderosos”.
Em outros momentos, foram retomadas posições evocativas do chamado conflito Norte-Sul. Nunca é demais lembrar a frase do ex-secretário de Estado americano Foster Dulles: “Países não têm amigos, têm interesses.” Promovido por um economista do Goldman and Sachs a Bric, grupo que o situa ao lado de China, Índia e Rússia como um dos principais países emergentes, o Brasil logo descobriu que isso, a rigor, não o faz “parceiro” dos outros três. Basta lembrar o melancólico fim da Rodada de Doha de negociações comerciais — uma das mais caras metas do Itamaraty. Em busca de salvar a rodada, o Brasil cedeu na área de serviços, em troca de concessões do Primeiro Mundo na agricultura. Mas, para decepção brasileira, China e Índia rejeitaram o acordo. Não se quer dizer com isso que o Brasil não deve ajustar seus ponteiros com os Bric, sem prejuízo de relações de igual para igual com os países ricos e dos esforços para melhorar as condições de vida nos mais pobres. Só não deve embarcar em canoas furadas, como se aproximar da China na esperança de fazer com ela uma frente mais poderosa diante, por exemplo, dos interesses americanos. As circunstâncias mudam rapidamente e, com elas, as parcerias.
Aliás, a primeira e a terceira economias do mundo — EUA e China — acabam de realizar mais um encontro para coordenar suas mútuas dependências. Pequim, com US$ 800 bilhões imobilizados em títulos do Tesouro americano, exortou Washington a não deixar o dólar se enfraquecer. Os EUA encorajaram a China a aumentar o consumo interno para que a economia chinesa possa continuar a crescer, ajudando a tirar o mundo da crise.
EUA e China podem ter rusgas geopolíticas, mas contam com sistemas produtivos complementares.
Antes da crise, dizia-se que os EUA eram o shopping, a China, a fábrica; a Índia, o call center. Haverá alguns rearranjos nesta articulação, mas nada que mude o destino relativamente comum dos dois países.
Mais uma lição para o Itamaraty.

GOSTOSA


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ARI CUNHA

Mercadante revivido


Correio Braziliense - 02/08/2009



O senador Mercadante fala no Senado. Repreendido, perdeu a liderança do partido. Não é modesto, mas detesta jactância. Valeu popularidade no Brasil e em São Paulo, estado que representa. Seu pai, aqui era o coronel Oliva. Hoje, general. Foi em Brasília que exerceu o fulgor da carreira. Mercadante estudou na UnB. Na juventude, formou mentalidade própria com o rigor do coronel Oliva. Independente pela criação, escolheu a esquerda. O pai diz com orgulho: “Votei no Aloizio porque é honesto e idealista, mas sou apartidário”. Mercadante formou sua personalidade sólida com o exemplo dos pais. Senado não vai perder essa força moral. É exemplo para São Paulo e Brasil.

A frase que não foi pronunciada

“Não votei no Sarney para a Presidência do Senado. Só dei um empurrãozinho.”
Presidente Lula, pensando na frase toda.


Gazetear
»Muitas escolas do Brasil estão sem aulas. Seria a preparação dos jovens para evitar a gripe. O que vemos é estranho. Alunos comparecem aos shoppings, misturam-se na multidão. Convivem com doentes, andam de ônibus e ocupam lanchonetes numa convivência direta. Correm os riscos e não sentem o mal.

Satisfação
»Gerenciamento inovador tem dado resultado satisfatório no Hospital de Base. Para melhorar o atendimento ao público, o diretor, Luiz Carlos Schimin, resolveu começar com seu pessoal. Ouvir as demandas por um mapeamento de oportunidades e a partir daí criar um banco de talentos dentro do hospital. Coisas simples têm acontecido, como descobrir um funcionário capaz de editar um panfleto para a pediatria.

Obras irregulares
»O Tribunal de Contas da União suspende obras públicas irregulares do governo. Vão custar mais caro se paralisadas. Os argumentos apresentados em nenhum momento citam as razões de quem autorizou sua realização.

Marketing
»Está dando certo o plano sobre o presidente José Sarney. Todos os dias os jornais publicam nota mostrando o fato por parte do presidente do Senado. Com isso, o povo está sendo informado do outro lado. A cada um cabe fazer o conceito das notícias.

Pré-sal
»O governo continua falando muito sobre o pré-sal. Não se fala no custo, mudança da capacidade dos navios e a modernidade da retirada do óleo abaixo da camada de sal. De repente, os flaps foram recolhidos e a conversa saiu da atualidade. Quem pensou, se machucou.

Cristal
»Como dizia o filósofo de Mondubim, se três pessoas te chamam de cachorro pode usar a coleira. O presidente Lula defende os aliados até não poder mais. Foi assim com Romero Jucá, Palocci, Heloísa Helena, Cristovam Buarque, José Dirceu, os aloprados, Renan Calheiros e agora Sarney. A aposta no cafezinho é que o próximo a cair na rede será Aécio Neves.

Mais a fundo
»Resgate histórico reservando cotas nas universidades é muito pouco. Vendo um urubu aguardar a morte de uma criança debilitada na África faz crer que o Brasil é omisso com o povo que o ajudou a construir o país.

Até quando?
»Poderia ter ido além o promotor da Infância e da Juventude, Renato Varalda. Não é só política pública que falta para manter a mente sã dos jovens, como afirmou. Os pequenos criminosos e os adultos que os conduzem têm certeza da impunidade criada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

Contracheque
»Um assunto que aborrece o ministro Paulo Bernardo e que lhe tira os argumentos é a folha de pagamento do governo. É verdade que o Legislativo e Judiciário também colaboram para que essa seja a segunda maior despesa do Orçamento Geral da União. Mas um projeto de lei complementar para limitar os excessos está na frente das votações na volta das atividades do Congresso.

MÍRIAM LEITÃO

Dos males, o maior

O GLOBO - 02/08/09

O pior mal feito ao Brasil pelos políticos envolvidos em escândalos e pelo presidente Lula, com suas declarações, é ir confirmando valores tortos; é ir sedimentando a ideologia do todo-mundo-faz; é ir desanimando os cidadãos. No episódio Sarney, o presidente Lula produziu um festival de frases inconvenientes. Neste e em outros casos, o Senado ajuda a alimentar a ideia de que é um estorvo.

Lula não gosta de dar entrevistas e sua assessoria no Planalto ajuda a disseminar uma estatística com uma interpretação errada. A de que ele falou mais com a imprensa do que qualquer outro.

Entrevista é entrevista: há contraditório, há perguntas, há contraponto. Lula fala diariamente o que lhe vem à cabeça, e joga sobre os jornalistas os seus éditos.

E que éditos! Na atual crise do Senado, Lula demonstrou acreditar que algumas pessoas são melhores que as outras, quando disse que o senador José Sarney (PMDB-AP) não é uma “pessoa comum” e por isso mereceria mais respeito.

Volta-se assim à concepção do “fidalgo”, do “sabe com quem está falando?”, de todo aquele lixo que o Brasil tenta varrer lutando para que vigore a ideia da igualdade perante à lei.

Depois, criticou a imprensa por estar supostamente ignorando a “biografia” do senador. De novo, a ideia de que ele é mais igual que os outros. Mais adiante, defendeu a tese de que há mau comportamento aceitável, ao dizer que uma coisa é matar, roubar, outra é pedir um emprego. Posto assim, parece justo. Pedir emprego não é crime. Mas o que estava sendo exibido eram casos sucessivos do uso do bem público pelos interesses privados; de nomeações em série de parentes, amigos, parentes de amigos pelo senador Sarney, seus filhos e netos para o Senado da República como se fosse coisa deles e não o Senado da República. Mas se o presidente Lula passou a ler os jornais — coisa que já disse que não gosta de fazer — poderia ver que há várias outras investigações de órgãos públicos mostrando que nepotismo não é a única questão que pesa sobre o presidente do Senado.

A superficialidade com que o presidente da República trata o seríssimo caso do presidente do Senado é a mesma com a qual tratou o caso que o envolveu. No mensalão, sua primeira reação foi dizer que seu partido fez “o que é feito sistematicamente neste país”. Estava abonando assim a formação de caixa dois que pagou contas como a da publicidade da sua campanha.

Agora, quando sua posição evoluiu para o “não tenho nada com isso”, o presidente Lula também deseduca.

Mostra que é possível não ter qualquer compromisso com o que fez e disse na véspera, e demonstra de novo falta de compreensão do funcionamento das instituições.

O presidente tem a ver sim com tudo isso.

Quanto mais não seja porque tem ordenado que a sua base política apoie Sarney a qualquer preço, já que o mais importante é o cálculo político para as eleições de 2010. E de 2014. O presidente já não governa, monta palanques estaduais. Para isso passa por cima até do próprio partido.

Nenhuma surpresa neste caso do seu apoio ao senador Sarney. O Lula que faz isso é o mesmo que beijou a mão do então senador Jader Barbalho (PMDB-PA), hoje deputado; que disse que entregaria um cheque assinado em branco ao ex-deputado Roberto Jefferson; que defendeu Renan Calheiros (PMDB-AL) no indefensável episódio do pagamento das contas da amante por uma empreiteira. É o mesmo que defendeu todos os envolvidos em escândalos desde o começo do governo, e depois tratou de dizer “não tenho nada com isso” quando a crise se agravou.

Um país pode sair maior de um escândalo quando seus líderes tomam as decisões certas e as instituições funcionam punindo o mau comportamento. Ou um país pode se acostumar com o erro, quando os líderes se esforçam para que a população aceite como parte da rotina o que é desvio, distorção, anomalia. Em todos os países há escândalos e corrupção. Em alguns, eles servem para construir avanços institucionais.

Infelizmente não parece ser este o caso do Brasil.

O Senado, com seus 183 anos de história, parece não ter percebido o risco que corre. Começa a ser visto como uma instituição obsoleta.

Para que serve mesmo? Podem se perguntar os que elegem os representantes e pagam seus custos. Os escândalos vão se tornando rotina. O Conselho de Ética da Casa com 75% de integrantes envolvidos em algum tipo de irregularidade e presidida por um senador sem voto pode dar às pessoas alguma esperança de que se comporte de acordo com o nome que tem? Só para citar três titulares, o presidente do Conselho, Paulo Duque (PMDB-RJ) é suplente do suplente; Wellington Salgado (PMDB-MG) é suplente; Gim Argello (PTB-DF) é suplente de um ex-senador que foi afastado por escândalo. O Senado tem hoje 20% de senadores sem voto, políticos que não têm compromisso algum com o eleitor, até porque não chegaram lá através dos eleitores.

Se o Senado quer confirmar a ideia de que é caro, fonte de desvios, e com utilidade duvidosa, deve continuar fazendo exatamente o que tem feito. Deve continuar dando demonstrações diárias de que não é uma instituição que pertence ao país, mas sim aos senadores, seus familiares, assessores, amigos; que mesmo sendo integrante do Poder Legislativo, legisla secretamente e em causa própria; que despreza a opinião pública.

O presidente Lula, se quer deixar como sua mais forte herança a dissolução de valores, deve continuar assim, falando sem refletir no impacto que isso causa no país, principalmente nos jovens. Deve continuar improvisando ao sabor do interesse do dia e atento apenas à lógica eleitoral.

GOSTOSA

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BRASÍLIA - DF

Uma carta na manga

Luiz Carlos Azedo e Com Guilherme Queiroz

Correio Braziliense - 02/08/2009



O governo move mundos e fundos com os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para evitar o embargo do modelo de TV digital adotado no Brasil por decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, à revelia do Congresso. Provocada por uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) movida pelo minúsculo PSol, a Procuradoria Geral da República (PGR) considerou inconstitucional o Decreto nº 5.820/2006, que instituiu o Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD).

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O parecer é assinado pelo ex-procurador geral Antonio Fernando de Souza. Foi solicitado pelo relator da Adin no STF, ministro Carlos Ayres Britto, que deve definir seu voto até o fim do mês e está sendo pressionado pelo governo a rejeitar a ação. Caberá ao presidente do Supremo, Gilmar Mendes, decidir quando a matéria será julgada. Caso o STF acolha a Adin, o decreto terá de ser encaminhado ao Congresso para discussão e aprovação. O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), graças ao partido de Heloísa Helena, esfrega as mãos: segundo aliados, se o Supremo derrubar o decreto, terá um trunfo nas mãos para enfrentar os grandes meios de comunicação de massa que exigem a sua cabeça.

Lucro// O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), desistiu de vender o BRB para o Banco do Brasil, que puxou o freio de mão das aquisições por causa da crise. No balanço semestral, a ser publicado em 20 de agosto, o banco do GDF anunciará o maior lucro de sua história.

Digital


Quanto ao mérito da polêmica sobre a TV Digital, a Procuradoria Geral da República corrobora a tese de que o SBTVD não é simples atualização de tecnologia de transmissão de TV, como argumenta o governo. Segundo a PGR, a transmissão em sinal digital teria de ser considerada como um serviço diverso da transmissão analógica, para o qual seria necessária nova concessão de canais, uma atribuição do Poder Legislativo, responsável pelas concessões e renovações de outorgas.

Errático



O governador de São Paulo, José Serra (foto), do PSDB, deixa cada vez mais confusos os aliados. Empenhado em não esticar a corda em relação ao presidente Lula, fala como candidato a presidente da República nos encontros reservados, mas em eventos públicos discursa como candidato ao Palácio dos Bandeirantes. Enquanto isso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensifica a presença em São Paulo para consolidar a candidatura de Ciro Gomes (PSB) com as lideranças petistas.

Fôlego


A propósito, Sarney resolveu defender a aprovação de uma lei de responsabilidade da mídia e direito de resposta. Foi convencido pelo líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), a desafiar os críticos na imprensa, enfrentar seus desafetos na Casa e não aceitar a proposta de afastamento do cargo feita pela bancada do PT, muito menos a renúncia exigida por DEM e PSDB.

Sinistro



A estratégia de Renan Calheiros (foto) contra a oposição é mesmo sinistra. Pediu ao presidente do Conselho de Ética, Paulo Duque (PMDB-RJ), para arquivar as 11 representações contra Sarney; aceitar a representação contra o líder do PSDB Arthur Virgílio (AM), que está pronta e será assinada pela presidente do PMDB, deputada Iris de Araújo (GO); e designar o senador Wellington Salgado (PMDB-MG) como relator da representação contra o tucano. Em tempo, Renan desistiu de representar contra o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) para não abrir uma segunda frente.


Conselho/ Amanhã, às 17h30, serão empossados os novos conselheiros do Conselho Nacional de Justiça (CNJ): ministro Ives Gandra Martins Filho; desembargadores Leomar Barros Amorim e Milton Augusto de Brito Nobre; juízes Paulo de Tarso Tamburini Souza, Morgana de Almeida Richa, Nelson Tomaz Braga e Walter Nunes da Silva Júnior; advogados José Hélio Chaves de Oliveira e Jefferson Luiz Kraychychyn, procurador José Adônis Callou de Sá e promotor Felipe Locke Cavalcanti. Os dois últimos serão reconduzidos ao cargo. Marcelo Neves, professor da USP e da PUC-SP, indicado pelo Senado, já tomou posse.

Cuidado/ Taxistas do Aeroporto Tom Jobim, no Galeão, especialistas em sobrevivência, por causa da Linha Vermelha, adotaram medidas contra a gripe suína. Desligam o ar-condicionado, desinfetam os bancos com álcool e põem máscaras de proteção ao primeiro espirro do passageiro.

Arrastão/ Governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) fará um arrastão eleitoral, se fechar a chapa da reeleição com o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado Armando Monteiro (PTB), e o ex-prefeito do Recife João Paulo (PT) para o Senado. Quer derrotar Marco Maciel (DEM) e Sérgio Guerra (PSDB), candidatos à reeleição ao Senado, e fazer dois terços dos deputados federais.

Alvarás


O Conselho Nacional de Justiça já analisou a situação carcerária de 26.328 presidiários em 12 estados do país e concedeu benefícios a 7.029 pessoas. Às vésperas de completar um ano, o mutirão carcerário do órgão já libertou
4.571 pessoas que estavam presas irregularmente.

MERVAL PEREIRA

Discutindo a relação

O GLOBO - 02/08/09

A relação dos políticos com a população, e o papel dos meios de comunicação nessa intermediação, vem mudando com o advento das novas tecnologias, mas os estudiosos do assunto alertam que é irrealista imaginar que a opinião pública não seja afetada pelas denúncias veiculadas pela grande mídia. O cientista político Alberto Carlos Almeida, especialista em análise da opinião pública, autor do best seller “A cabeça do brasileiro”, lembra que tanto no mensalão quanto na crise das mordomias no Congresso, que desaguou na crise das denúncias contra o presidente do Senado, José Sarney, foi a grande imprensa que comandou o processo de denúncia e apuração

A mudança na intermediação existe, lembra Rosental Calmon Alves, professor da Universidade do Texas. Ela é parte desse processo, mas não é absoluta, tanto que quando o Michael Jackson morre, os blogs podem dar a notícia antes, mas os sites de notícias vão lá em cima na audiência. “As pessoas falam entre elas, mas precisam da mídia profissional para ter informações confiáveis”.

Da mesma forma, o papel fiscalizador do jornalismo, por exemplo, não está em questão, diz ele. Quando o deputado Sérgio Moraes diz que está “se lixando” para a opinião pública e que mesmo com as denúncias “nós somos eleitos da mesma maneira”, ele está, sem saber, falando mais dos defeitos de nosso sistema eleitoral do que da falta de influência dos meios de comunicação no eleitorado.

Alberto Carlos Almeida ressalta que o eleitor na periferia, que luta pela sobrevivência, “não faz a junção de causa e efeito entre a corrupção e as dificuldades de sua vida. E nem os políticos fazem essa ligação”.

A longo prazo, a situação só melhora com a educação, mas ele vê nesse processo lento “sinais claros de que já está acontecendo. Alguns políticos não conseguem se eleger para cargos majoritários.

O eleitorado vai dando um jeito de punir”.

Já Miguel Darcy de Oliveira, que trabalha com ONGs em comunidades carentes, diz que “os políticos estão convencidos de que a população não sabe se exprimir, e a população está convencida de que os políticos não sabem ouvir”.

Este divórcio se rompe mais facilmente nas eleições majoritárias do que nas proporcionais, pois o tempo de exposição dos candidatos a cargos executivos permite à massa dos eleitores formar sua opinião. “Nas eleições parlamentares, o sistema eleitoral fragmenta a informação e o voto. Daí a importância do voto distrital para corrigir esta distorção”, analisa.

O cientista político Alberto Carlos Almeida concorda, e diz que Brasil está em processo de mudança “de que às vezes a gente não se dá conta”. Antes, diz ele, a população não tinha dinheiro para circular, hoje “tem um dinheirinho sobrando, e cada dia vai sobrar mais”.

A consequência é que estão consumindo um pouco mais de informação, que ficou mais barata também com a internet nas lan houses e os jornais populares.

“Quem tinha menos informação passou a ter mais. Por outro lado, na sociedade de massa a informação vai ficando mais fragmentada”.

Por isso, lembra Rosental Calmon Alves, os jornais estão fazendo todo esforço possível para se tornarem mais interativos, mais participativos.

“As pessoas querem ler, ver e ouvir o que a mídia profissional diz. Mas também querem ser lidas, vistas e ouvidas, e querem ler, ver e ouvir pessoas como elas, que não são os profissionais. O que existe é um ambiente de mídia diferente, mas que não substitui o que já há”.

Ao contrário de tornar as opiniões na mídia impressa obsoletas, a tecnologia as torna mais relevantes ainda, acredita Rosental.

Miguel Darcy de Oliveira diz que o debate de temas de interesse público, como violência, aborto ou drogas, coloca desafios similares.

“Quando se reduzem problemas complexos a respostas simplistas, temos grandes maiorias favoráveis à pena de morte, proibição do aborto e criminalização das drogas.

Quando o tema é apresentado de maneira mais humana, como fazem por exemplo as novelas, a discussão ganha outra qualidade, e a população forma sua opinião”.

Ele acredita que cada vez mais “as pessoas elaboram seus pontos de vista e fazem suas escolhas com base no que vivem e veem”. Miguel Darcy acha que a sociedade está na frente da política, e a crise da representação reside “menos na desinformação das pessoas e muito mais na incapacidade dos políticos”.

Rosental destaca que uma das novas funções do jornalismo é a de ser “o facilitador das conversas das pessoas que estão na internet. Você passa de uma audiência passiva para um público ativo, e essa é que é diferença”.

Como a maior parte dos blogs repercute o que sai na mídia, o jornalismo profissional é tão importante. “Ele tem uma estrutura, uma deontologia, uma forma profissional de colher e checar informações que a vasta maioria dos blogueiros não tem”, constata Rosental.

Isso não quer dizer, lembra, que em alguns setores de nicho os blogs não comecem a dar furos. “Na área de tecnologia, por exemplo, existem blogs tão especializados que até os jornalistas que cobrem o tema para os grandes jornais precisam acompanhar por que eles dão furos.

Mas são blogs que têm uma base financeira, de reputação, de muitos anos”.

Alberto Carlos de Almeida acha que a Justiça tem um papel importante de impedir a impunidade e deixa uma lacuna.

“Nos Estados Unidos, a Justiça usa até cálculo de probabilidades para definir uma fraude financeira. Se a probabilidade de um sequência de números for pequena e ela acontecer, isso é considerado como prova na Justiça.

Aqui o João Alves pode ganhar toda semana na loteria, e ninguém nota”.

Miguel Darcy de Oliveira lembra que a adesão popular ao Plano Real e a mudança nos padrões de consumo de energia quando do apagão “são exemplos de que problemas complexos, quando bem explicados, podem ser entendidos e influenciam comportamentos.

O problema é que estes exemplos são raros”.

AUGUSTO NUNES

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O doutor em censura só esqueceu de mandar prender a foto

1 de agosto de 2009

Dácio Vieira, Sarney e turma

Os cinco sorrisos ao lado do homem à esquerda realçam o semblante monalisa-no-primeiro-esboço. A sisudez do terno escuro-brasília corretamente suavizada pela flor na lapela, os cabelos grisalhos como as sobrancelhas, o olhar ausente sugerindo que a cabeça flutua por latitudes nada frívolas, os ombros levemente vergados dos que carregam toneladas de pendências a resolver —as aparências gritam que aquilo é um juiz. E é.

Não um juiz qualquer. É um desembargador. Não um magistrado em começo de carreira que despacha no fórum acanhado do grotão. O desembargador Dácio Vieira delibera sobre o destino das gentes e das coisas no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. Ele está bem no retrato do grupo de convidados para a festa de casamento. Ângela, sua mulher, e Sânzia Maia, mulher do Alto Funcionário do Congresso, não estão bem nem mal. Ambas com o corpo sitiado pelo vestido tomara-que caia, ambas com os músculos da face distendidos nos limites impostos pelo dermatologista, ambas com o sorriso à prova de angústia de quem está chegando do shopping ou saindo para o shopping, elas apenas completam a paisagem.

O problema é o resto da foto. O cenário confirma que foi feita na festa de casamento da filha do Alto Funcionário Agaciel Maia, durante 15 anos o onipotente e onipresente capataz do Senado. É o mais alegre entre os cinco. À sua direita, o senador José Sarney capricha na pose de padrinho da noiva e imortal da Academia. À esquerda do anfitrião, o senador Renan Calheiros camufla com o sorriso de aeromoça a permanente desconfiança de que logo a casa vai cair.

O autor, não identificado nos créditos, talvez soubesse que fotografava um desembargador acidental confraternizando com três prontuários. Mas não poderia saber que estava produzindo a prova de um crime que nem fora ainda planejado. Consumou-se neste 31 de julho, quando o homem pago pelos contribuintes para fazer Justiça se nomeou censor da imprensa brasileira e proibiu o Estadão de divulgar informações sobre bandalheiras promovidas por um bando de que fazem parte Sarney, Renan e Agaciel.

O advogado Dácio Vieira virou juiz contornando o campo minado dos concursos pelo atalho do “quinto constitucional”, que levou um consultor jurídico do Senado ao emprego de desembargador. Amigo e parceiro de Agaciel e Renan, percorreu a trilha desbastada pelo benfeitor José Sarney. Esses defeitos de fabricação explicam tanto a decisão temerária quanto o argumento atrevido que evocou para socorrer o protetor em apuros. Dácio alegou que são coisas privadas, e não assunto público, as obscenas conversas telefônicas que comprovam o desvio de dinheiro público para empresas privadas.

Assinada pelo desembargador, a decisão foi ditada pelo cúmplice. O doutor em censura só esqueceu de mandar prender a foto.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Os limites da tolerância

O GLOBO - 02/08/09

Devemos ficar atentos a novos populismos, de esquerda ou direita

Em artigo anterior, a propósito do encontro entre culturas distintas sem uma guerra entre civilizações, utilizei o livro de Ian Buruma, “Occidentalism”. Em livro recente o antigo professor de Oxford aproximou o foco para entender o que aconteceu em seu país natal, a Holanda, que, de país calvinista, reservado e tolerante se tornou palco de ações violentas. Um líder populista “de direita”, Pim Fortuyn, foi assassinado em 2002 por um fanático não muçulmano. E o cineasta Theo Van Gogh, que criticava o desrespeito à liberdade e aos direitos humanos por parte de certas correntes islâmicas, acabou assassinado em novembro de 2004 por um ativista muçulmano ligado a grupos terroristas.

Teria terminado o momento da história em que a Holanda se distinguiu pela capacidade de absorção de culturas diversas? Não foi para lá que se mudaram os judeus espanhóis e portugueses perseguidos pela Inquisição? Não foi em Amsterdã que houve a única greve geral de monta contra a deportação dos judeus? Não foi na Holanda que Baruch Spinosa filosofou e, mais recentemente, em 1934, Huizinga disse que vivia no país da tolerância no qual mesmo os extremismos seriam “moderados”? E não é certo que 45% da população de Amsterdã em 1999 era de origem estrangeira? E o prefeito na época dos assassinatos não se chamava Cohen, bem como um importante vereadoradministrador da cidade não ostentava o nome de Ahmed Aboutaleb?


Por suas regras tolerantes, a Holanda acolhe perseguidos políticos. Há milhares de refugiados sírios, iranianos, marroquinos, berberes, turcos, somalis, grupos tamil de Sri Lanka etc. Além das muitas centenas de milhares de “trabalhadores convidados”, como são qualificados os que encontram emprego e trazem as famílias. Entre estes, muitos são de origem surinamesa ou vindos da Indonésia, educados em língua holandesa, o que lhes facilita a integração. Sendo assim, até que ponto algo específico da cultura e da religião muçulmanas engendraria a violência atual e as reações racistas ressurgentes? Buruma procura demonstrar que as diferenças de visão entre fundamentalistas ocidentais ou islâmicos podem conviver com mútuo proveito, desde que não usem a força e respeitem as regras da Constituição laica. Não desconhece os argumentos, como os da somali Ayan Hirsi Ali, e de alguns intelectuais de passado esquerdista e presente paixão conservadora, que alertam para os riscos de leniência na defesa dos valores universais da civilização ocidental. Mas pondera que a incorporação desses valores é proveitosa quando advém de reação na própria cultura islâmica e não como uma imposição externa.

Há que reconhecer, porém, pensa Buruma, que a Holanda do passado, branca, burguesa, liberal, tolerante, hoje é uma sociedade multirracial e multicultural, que faz parte da Comunidade Europeia e sofre a influência das multinacionais, em suma, da “globalização”.

Isso suscita reações defensivas agarradas a diferenças religiosas e culturais.

No lugar das identidades nacionais e das tradições políticas democráticas que davam coesão à sociedade, multiplicam-se identidades comunitárias, religiosas ou não, que com frequencias e chocam com a cultura cívica anterior.

Em outros termos, a convivência democrática não se pode basear mais na assimilação da cultura nacional predominante e na aceitação pelos recém vindos das regras do “país legal” tal como ele existia antes. O filme francês “Entre os muros da escola” é exemplo vivo das dificuldades de moldarem-se os jovens de origem migrante, mesmo nascidos na Europa, à cultura nacional, acrescento. Entretanto, a crise que prevalece não é devida apenas à existência de “duas — ou mais — culturas”, mas a que muitos não se conformam que “seu mundo” acabou: “O povo começa a se sentir não representado. Ele não sabe mais quem são os responsáveis. Isso ocorre quando os ‘oligarcas’ modernos, como o social-democrata Ad Melkert, começam a perder amarras no sentimento popular.

Mais do que irrelevantes, eles começam a ser alvos de hostilidade ativa. A política de consenso contém suas próprias formas de corrupção: a política fica emperrada na rotina de uma elite autoperpetuada, trocando empregos entre os membros do clube, para lá e para cá”.

No mundo emergente os desajustados são numerosos, não se restringem aos new comers. Há também os que sendo originários de “famílias de raiz” não se conformam com a nova sociedade. De certo modo quase todos estão “desenraizados”, daí os populismos, de direita ou de esquerda (aliás, mutantes), o terrorismo, o apego aos vários fundamentalismos, à violência.

O que tudo isso pode ter a ver com o Brasil? Pouco e, talvez, muito. Temos a sorte de viver sob uma cultura que também aprecia a tolerância (a despeito de recentes tentativas de fazer nascer um “racismo antirracista" como diria Sartre). Sem as diferenças religiosas e linguísticas com as quais os europeus se defrontam, somos também um país de migrações, embora hoje predominantemente internas. Portanto, de “desenraizados”.

E desenraizados não são apenas os recém incluídos , geográfica e ou socialmente, na sociedade moderna. São também os oligarcas que não se conforma m que ela clame por nov as práticas e não querem perceber as mudanças. O mais triste ocorre, como agora, quando os que chegaram ao poder para renovar e adaptá-lo aos novos tempos aderem aos hábitos do “clube oligárquico” e se autoatribuem a “missão histórica” de perdoar os transgressores e dar continuidade às velhas práticas.

É nesse ponto que cabe o paralelo com a situação descrita por Buruma. Não só a advertência sobre os riscos de violência, mas de riscos de novos populismos, de esquerda ou de direita, que possam preencher com uma retórica cativante a falta de sintonia entre as instituições (desmoralizadas) e o sentimento das massas.

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COISAS DA POLÍTICA

Pronto. Armou-se o impasse no Senado

Tales Faria

JORNAL DO BRASIL - 02/08/09

Nunca antes na história desse país, parafraseando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se desenhou um impasse tão grande no Senado Federal quanto o que agora se anuncia com a representação que o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), promete que o partido apresentará contra o líder do PSDB, Arthur Virgílio Neto (AM), no Conselho de Ética.

Houve, sim, um embate até de maiores proporções, quando dois poderosos senadores que se revezaram na presidência da Casa, Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA) e Jader Barbalho (PMDB-PA), distribuíram acusações e impropérios em plenário, um contra o outro. Além de fortíssimos no Senado, ambos detinham, na época, o controle de seus partidos. E o DEM não era essa coisinha de hoje em dia. Dividia com PMDB, PSDB e PT, em iguais condições, o poderio no Congresso e na política brasileira. Foi uma grande contenda, mas sem impasses. Guerra aberta mesmo. Que acabou sendo vencida pelo PMDB – então com o apoio velado do PSDB e do Palácio do Planalto, e até uma certa torcida a seu favor do PT – depois que ACM foi pego violando o painel de votações. Mas Jader Barbalho não saiu ileso. Terminada a brigalhada, a imprensa voltou-se contra a origem de seu patrimônio, e o peemedebista acabou tendo também de renunciar ao mandato. Voltou ao Congresso como deputado, mas hoje só detém algum poder no seu estado.

Ali foram duas as acusações – a da violação do painel e a do crescimento patrimonial exagerado – que resultaram em processos no Conselho de Ética, mas que tramitaram em tempos diferentes. Agora, não. As representações contra Sarney tendem a tramitar ao mesmo tempo da tal ação do PMDB contra Virgílio. Isso tende a gerar uma tremenda confusão. O PMDB provavelmente terá o apoio do PT e até do Palácio para alfinetar ou mesmo ferir de morte o senador tucano num processo, mas, no outro, o partido sangrará com as estocadas seguidas da oposição e da imprensa em cima de Renan Calheiros e de Sarney.

– Será ruim para todo mundo. Ninguém ganha com esse tipo de coisa. Um verdadeiro jogo do perde-perde – aponta o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).

Até por ter esta avaliação, ele não consegue acreditar que o cenário de duas ações concomitantes no Conselho de Ética irá se confirmar. Tanto que, na sexta-feira, Guerra (que neste caso poderia ser chamado de Paz) pegou o telefone e ligou para Renan Calheiros.

– A mim, pareceu que Renan está disposto a colocar um fim nessa história. Eu expliquei que é preciso um desarmamento geral de espíritos, e ele pareceu concordar – conta o tucano.

Mas ao falar com a coluna Renan não se mostrou tão disposto a recuar. Diante da pergunta sobre o que fazer para sair do impasse, respondeu:

– A saída é o voto. As representações contra Sarney são baseadas em notícias de jornal. No caso de Virgílio, serão apresentados documentos.

De fato, o PMDB e o PT têm votos suficientes para, se quiserem, deixar em apuros o tucano. Entre as acusações, há situações realmente constrangedoras, como o contrato de cinco pessoas de uma mesma família com pagamentos de horas extras por quatro anos. Ou o empréstimo de dinheiro público obtido junto ao ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia. E o próprio pedido de desculpas de Virgílio, em discurso na tribuna, tecnicamente pode ser visto como uma confissão de quebra de decoro, portanto, motivo para cassação.

Mas, por outro lado, também não são poucas nem tão etéreas assim as acusações contra Sarney, os atos secretos da Mesa Diretora nomeando apadrinhados e aparentados do presidente da Casa, as conversas telefônicas de seu filho, Fernando Sarney, enfim, as hoje incontáveis denúncias que se têm levantado na imprensa.

Renan jura, de pés juntos, que não passa pela cabeça do PMDB nem de Sarney a licença da presidência do Senado. E que Lula e o Palácio do Planalto não recuaram no apoio e, portanto, estão todos prontos para ir até o final na luta. Sérgio Guerra, apesar do gesto de paz de sexta-feira, também diz que seu partido não aceitará a execração de Virgílio.

– Truculência da maioria não é solução nesse caso. Pode paralisar tudo no Senado, criar uma confusão nunca vista – afirma.

E quem conhece os bastidores da política sabe que isto também é verdade. O impasse armado tem potencial para paralisar o Congresso.

CARLOS EDUARDO NOVAES

A janela insensata


JORNAL DO BRASIL - 02/08/09

Às vezes penso que Lula ao deixar o trono da República deveria tentar a carreira de técnico ou comentarista de futebol. Dentre todos os temas da vida nacional é o que ele esgrima com mais intimidade. Dificilmente mostra-se bestialógico. Agora mesmo andou esbravejando contra essa tal janela por onde escapam nossos melhores jogadores, que deixam seus clubes em pleno Campeonato Brasileiro, dito o maior do planeta.

Nisso Lula tem toda razão. Há que se respeitar a soberania nacional também no futebol. Já não somos uma república das bananas onde os gringos vão chegando e carregando nossos craques em meio à competição como se isso aqui fosse o quintal de suas casas. Duvido que se fosse o inverso – quem sabe um dia? – os europeus permitissem que desfalcássemos seus times durante a temporada oficial. Quando a Europa abre a janela e vai às compras, quem sofre é o torcedor brasileiro, que fica a ver navios e aviões partindo com seus ídolos. A cada Ramires ou Nilmar ou André Santos que parte o futebol pentacampeão torna-se mais pobre (e os clubes não ficam mais ricos!).

Lula pede uma solução para o problema. Tenho certeza de que a CBF já estaria se mexendo caso o presidente usasse da mesma veemência com que defende o rei do Maranhão. Carregar nossos jogadores com o campeonato em curso equivale a atropelar a apresentação de uma orquestra e retirar o trombonista ou o baterista (ou ambos) do palco – para desespero dos maestros. Entendo que os clubes brasileiros vivem de pires na mão e gostariam de ver um janelão aberto o ano inteiro. Mas será que os jogadores não poderiam fazer as malas no nosso período de férias? Assinariam os contratos agora, na janela, e aguardariam a bola parar de rolar para saírem discretamente pela porta dos fundos, sem revoltar os torcedores nem prejudicar a campanha dos clubes no Brasileirão.

É preciso acabar com essa subserviência, esse nosso complexo de inferioridade. Somos os melhores do mundo – tesos e endividados, mas ainda os melhores. Urge estabelecer novas regras – se é que há alguma! – para essas transações. O que os europeus fazem – e só fazem porque permitimos – é quase uma invasão de privacidade. Quero esse, quero aquele, aquele outro, e vão enchendo seu carrinho de compras. Ainda bem que o Brasil é o maior produtor mundial de jogadores. Imagina amanhã ou depois um clube europeu batendo à porta do, digamos, Corinthians para comprar jogadores.

– Quais jogadores o senhor está querendo?

– Todos!

Não é uma hipótese a ser descartada no futuro.

Só lamento que não haja também uma janela parlamentar para nossos políticos. A mim não incomodaria nada ver o Congresso desfalcado, atuando com seus suplentes, alguns melhores do que os titulares. Ao contrário do que ocorre no futebol – onde sentimos as perdas – na política soltaríamos foguetes quando aparecesse alguém querendo contratar o Sarney para presidir o Senado do Cazaquistão.

SEM DOR


PARA....HIHIHIHI

O Piolho

Dois piolhos se encontram na cabeça da mulher, e um diz para o outro:

-Cara, estou com uma sede danada! Voce sabe onde eu posso encontrar água? O outro disse, ao chegar na testa mulher:

-Claro, colega! Você desce aqui e bem mais embaixo você encontrará dois morros, você passa pelo meio, e vai descendo. . . Mais embaixo tu encontrará um poço seco, mas vai descendo, e mais embaixo tu encontrará uma mata. Adentra essa mata e em seguida tu encontrará um rego com uma bica de água abundante. Mais tarde, os dois se encontram de novo na cabeça da mulher:

O piolho pergunta para o outro:

-E aí cara, tu encontrou água?

-Quando eu cheguei na bica tinha uma serpente bebendo água e eu voltei correndo!

CLÓVIS ROSSI

As bases e as drogas

FOLHA DE SÃO PAULO - 02/08/09

SÃO PAULO - É bom que o governo brasileiro cobre transparência da Colômbia a respeito da instalação de três bases norte-americanas no vizinho. Transparência é sempre útil, e muito pouco praticada na América Latina (Brasil inclusive).
Mas seria melhor ainda se o governo brasileiro tivesse, por fim, a coragem de cobrar transparência também de Hugo Chávez a respeito dos lança-foguetes vendidos pela Suécia à Venezuela e que foram parar nas mãos das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, nascidas como guerrilha política e transformadas, faz anos, em puro narcoterrorismo).
Chávez, em vez de transparência, adotou a tática clássica e barata de gritar "pega ladrão" e fugir, aproveitando-se da confusão. Ou seja, em vez de dar explicações, preferiu acusar a Colômbia, congelar as relações (pela quinta vez, aliás, no que já virou folclore) e deixar que o bafafá ficasse centrado nas bases norte-americanas.
Qual é a maior ameaça à segurança dos cidadãos da América Latina em geral, inclusive da Venezuela e do Brasil: as bases dos Estados Unidos na Colômbia ou as bases dos PCCs, Comandos Vermelhos e outros grupos delinquentes, como as Farc, nos diferentes países da região? Bases que fazem a delinquência desafiar o monopólio das armas que deveria ser do Estado.
O argumento de que as bases na Colômbia gerarão corrida armamentista no subcontinente é ridículo, como já demonstrou ontem Igor Gielow. Se os Estados Unidos quisessem invadir qualquer país da região não precisariam de bases neles, como o demonstrou o Reino Unido na Guerra das Malvinas (1982), ao fazer pó das Forças Armadas argentinas, sem precisar suporte territorial, mesmo partindo de muito mais longe.
O resto soa a esquerdismo caquético de quem não conseguiu ainda tirar o cérebro dos escombros do Muro de Berlim.

GOSTOSA


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TOSTÃO

O drible, o passe e o gol

JORNAL DO BRASIL - 02/08/09

Na coluna anterior, escrevi que, para ser um ótimo jogador, é preciso, antes de tudo, conhecer e executar bem as coisas comuns e essenciais. Disse ainda que é necessário aprender a regra antes da exceção.

Parece óbvio, mas não é. Quando era professor de medicina, notava que um grande número de alunos sabia e gostava mais das coisas raras, das exceções, que da regra. Pareciam saber muito, porém sabiam pouco. Não sabiam as coisas básicas. Isso ocorre em todas as atividades.

No futebol, podemos dizer que os fundamentos técnicos da posição (passe, drible, finalização, desarme, cruzamento) são a regra. É preciso fazê-los bem para ser um ótimo jogador. Não é o que muitas vezes acontece. Alguns atletas extremamente habilidosos e criativos não vão para frente por causa dessa deficiência. Outros, mais técnicos que habilidosos, têm mais sucesso.

A habilidade é a intimidade com a bola, a capacidade de dominá-la, colá-la aos pés e escondê-la do adversário. O drible é uma mistura de habilidade e técnica.

A criatividade é a capacidade de, em uma fração de segundos, encontrar uma solução diferente, perceber as posições e os movimentos de todos os que estão à sua volta e de calcular a velocidade da bola, dos companheiros e dos adversários. Hoje, especialistas chamam isso de inteligência sinestésica.

A bola não procurava Romário, como gostavam de dizer. Romário estava sempre livre para fazer o gol porque sabia, antes dos outros, aonde a bola ia chegar.

O sonho dos treinadores é transformar o futebol em um jogo cada vez mais exato, de técnica, como o vôlei. Assim, eliminariam os acasos, e as estratégias seriam mais valorizadas. Bastaria treinar bastante e repetir no jogo. Os melhores ganhariam sempre dos piores. O futebol perderia o encanto.

O talento é a síntese das virtudes e das deficiências. Nenhum talento individual é suficiente se o atleta não tiver também talento coletivo e ótimas condições físicas e emocionais. Talento coletivo é a capacidade de se adaptar às características dos companheiros e de ter a consciência de que o brilho individual depende do brilho coletivo.

Dou mais valor ao passe decisivo, como os excepcionais passes dados por Hernanes, contra o Grêmio, e Cleiton Xavier, contra o Fluminense, que aos gols marcados por Dagoberto e Diego Souza nessas partidas. Os passes foram muito mais bonitos e mais representativos de uma grande técnica.

Os gols são mais valorizados que os passes. Quando se fala da carreira de um jogador, principalmente de um meia ou atacante, contam sempre o número de gols que ele fez. Ninguém sabe quantos foram os passes decisivos para gols. O artilheiro é o herói, mesmo se for um grosso e atrapalhar o futebol coletivo da equipe.

Se o drible é o mais lúdico dos lances, e o gol define o resultado (muitas vezes, não há relação entre o placar e a história da partida), o passe é o mais solidário dos fundamentos técnicos. O passe é a união, a ponte, entre o individual e o coletivo, entre o desejo, a ambição e a razão.

DANUSA LEÃO

Tem solução? Talvez

FOLHA DE SÃO PAULO - 02/08/09


Elas sabem que somos todos fundamentalmente sós, embora procuremos negar essa realidade



Outro dia combinei de jantar com uns amigos; nos encontraríamos diretamente no restaurante às 10h. Mas sabe aquele dia em que você não está muito bem? Para dizer a verdade, está mal?
Quando se está assim a pele fica sem brilho, o cabelo fica ruim, mas você pensa: chego lá, tomo uma bebida, e quem sabe, tudo pode melhorar. Peguei um táxi, mas o trânsito estava ruim, tudo parado. Olhei para o lado direito, uma calçada vazia; à esquerda, um ônibus, também parado; o motorista, jovem, olhou umas duas vezes para o relógio. Alguém devia estar esperando por ele, pensei. E pensei também no meu quase tédio, indo para um restaurante caro, cuja conta seria provavelmente mais alta do que seu salário de um mês e onde ele jamais poria os pés.
Fiquei pior.
Como seria a vida daquele motorista? Se às 10h da noite ele ainda estava trabalhando, devia começar lá pelas 2h da tarde -e provavelmente fazia um biscate na parte da manhã.
Devia morar longe, tendo que largar o ônibus e pegar uma condução para chegar em casa, o que aconteceria lá pelas 11h. A essa hora a mulher talvez já estivesse dormindo, e ele ia ter que fazer um prato e botar para esquentar antes de cair na cama, morto de cansaço e sem ter nem com quem conversar.
O que será que aquele motorista pensava da vida? Que era assim mesmo que tinha que ser? Ou teria planos, planos de poder ir a um restaurante de vez em quando, tomar uma cerveja, voltar para casa, abraçar a mulher com muito amor, sabendo que no dia seguinte ia poder acordar mais tarde, botar uma bermuda e ficar em casa de bobeira, vendo qualquer coisa pela televisão?
De toda maneira, ele certamente estava melhor que eu. O trânsito não andava, e eu só prestava atenção no motorista. Ele estava tranquilo, cumprindo sua obrigação, sem nenhum sinal de impaciência; apenas vivendo sua realidade, sem pensar em muita coisa a não ser no trânsito, que não era para estar assim parado àquela hora. Teria acontecido algum acidente? Não, era só porque tinha começado a chover. Os carros começaram finalmente a andar, e cheguei para o meu encontro. O bar era moderno, aliás moderníssimo, os sofás, de couro, e a música que tocava, absolutamente insuportável. Tomei o primeiro drinque rápido, o segundo mais devagar, mas não consegui entrar no clima. Num espaço muito curto de tempo tinha vivido em dois mundos, não sabia qual era o real, e sentia que não pertencia a nenhum dos dois.
Ao do motorista, certamente que não; ao do bar onde estava, tão sofisticado e tão chique, também não.
Então não pertencia a mundo nenhum? E alguém pertence a algum?

Algumas pessoas são assim; em certos momentos têm a ilusão de fazer parte de um grupo, seja ele político, intelectual, boêmio, de meditação, ou a qualquer outro, mas nunca conseguem. Elas sabem que somos todos fundamentalmente sós, embora procuremos durante todo o espaço de uma vida negar essa realidade, que nem chega a ser triste, é apenas a realidade. Quanto esforço elas fazem -fizeram- para se encaixar em algum desses universos sem nunca conseguir; e será que alguém consegue? De verdade?

As pessoas às vezes se sentem irremediavelmente sós; mas basta um dia encontrar um novo amigo, um novo amor, para o mundo ficar mais bonito e a vida voltar a valer a pena.
É isso que se procura e às vezes encontra; e quando acontece, é bom demais.