sexta-feira, agosto 07, 2015

Efeitos do dólar - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 07/08

O dólar já passou a ser o novo perigo inflacionário que entrou nos radares dos analistas. E até do Banco Central, pelo que se depreende da Ata do Copom. O dólar subindo mais do que o previsto tem impacto no índice de preços, que já subiu por outros reajustes, como o da energia. Por enquanto, a previsão mais frequente é que os juros não vão cair, mas também não vão subir mais até o fim do ano.
Há quem diga que o dólar já fez estragos suficientes e pode haver novo aumento de juros, mas é cedo para dizer com segurança. O que a Ata da última reunião, divulgada ontem, informa é que os preços administrados terão um aumento maior do que o Banco Central previa há um mês e meio. No último encontro, calculava que subiria 12,7%. Agora, acha que esses preços subirão, em média, 14,8%.

Curioso é o eufemismo do Banco Central para falar da recessão brasileira. Diz que "o processo de ajustamento macroeconômico" leva a um "crescimento abaixo do potencial" e que há um "processo de distensão no mercado de trabalho". O Brasil está, na verdade encolhendo, e não crescendo abaixo do potencial, e no ano que vem não se espera crescimento. Isso não será efeito do ajuste, mas do desajuste feito anteriormente.

Para o ano que vem, o BC está otimista em relação à inflação. Na Ata, registra que está se fortalecendo o cenário de convergência para 4,5% no final de 2016. Diz que o efeito defasado da alta de juros ajudará no esforço para se atingir o centro da meta e ressalta que as projeções dos analistas são de desaceleração do índice.

Essa é a boa notícia no meio de um cenário nebuloso. As expectativas são de que no ano que vem se conseguirá derrubar vários pontos no IPCA. A taxa terminará acima de 9% este ano, e as projeções do mercado, capturadas pela pesquisa Focus, são de que ela chegará ao final do ano que vem em 5,4%.

A última reunião do Copom aconteceu logo depois da decisão do governo de reduzir a meta de superávit primário. Na época, muitas previsões eram que os juros subiriam 0,25%. A partir da decisão, as projeções subiram para 0,5%, o que, de fato, aconteceu. O BC admitiu ontem que essa piora do quadro fiscal é prejudicial ao controle da inflação.

Hoje, o IBGE divulga a inflação de julho, e a expectativa é que a taxa seja menor do que a de junho. O problema é que, ainda assim, será muito mais alta do que julho de 2014, que foi de 0,01%, e isso fará o índice acumulado em 12 meses escalar de 8,89% para perto de 9,5%. Quanto mais tempo a inflação ficar nesse patamar, mais ela se fortalece pela indexação; mais renda tira dos trabalhadores; mais desconfiança leva aos empresários.

O novo problema agora é o dólar porque ele passa a ser um novo fator a se juntar a vários outros que têm pressionado os índices de preços. Há poucos meses, foi a crise hídrica que afetou as lavouras e aumentou o custo dos alimentos. Também houve o impacto do preço da energia, que o BC calcula que aumentará 50% este ano. As pressões têm se revezado sobre o índice, e por isso a taxa de juros foi elevada.

A preocupação do BC com o câmbio levou o diretor da Política Monetária, Aldo Mendes, a dizer ao "Valor Econômico" que considera a cotação "esticada demais", fora dos fundamentos. Isso fez a moeda cair em relação à máxima do dia. Há uma semana, o dólar valia R$ 3,33, no dia da última reunião do Copom. Ontem, chegou a ser vendido por R$ 3,57 e fechou em R$ 3,53. Os cenários de referência de mercado, analisados também pelo Banco Central, estimam a moeda em R$ 3,25. Ou seja, tanto o Copom quanto os bancos e as consultorias terão que refazer as projeções de inflação caso o dólar se mantenha no patamar atual.

Essa alta também tem impacto sobre os custos e as dívidas das empresas. A Petrobras divulgou uma queda de 90% no seu lucro do segundo trimestre porque, entre outros motivos, o dólar mais caro encarece os derivados que importa. A sua dívida bruta subiu 18% desde dezembro, saltando de R$ 350 bilhões para R$ 415 bi. Cerca de 80% da dívida está em moeda estrangeira.

Mas a mais importante fonte de incerteza na conjuntura atual, entretanto, é a crise política, porque ela aumenta o risco de perda do grau de investimento. Isso reduz a entrada de investidores e eleva a pressão sobre o câmbio. Existem outros motivos que influenciam no dólar, como a recuperação da economia americana, com provável alta de juros, e a desaceleração da China. O principal fator, no entanto, é a incerteza interna.

Desfecho político domina toda a pauta econômica - CLAUDIA SAFATLE

VALOR ECONÔMICO - 07/08

Ao contaminar uma economia já frágil, mergulhada em recessão, sob forte desequilíbrio fiscal e em meio à batalha para derrubar a inflação de mais de 9%, a crise política de desfecho ainda desconhecido assume o centro das preocupações dos responsáveis pela política econômica do governo.
Para o Banco Central vem daí, e não dos fundamentos econômicos, a razão para a forte desvalorização do real frente ao dólar que ontem chegou a ser cotado a R$ 3,5702. Primeiro o BC avisou que a taxa que estava sendo praticada era um exagero. No final do dia, a instituição aumentou a rolagem dos "swaps" cambiais de 60% para 100% a partir de hoje.

Na hora do almoço o diretor de Política Monetária, Aldo Mendes, passou uma mensagem cristalina ao mercado. Ele disse ao Valor PRO: "O nível atual da taxa de câmbio está muito além, ou muito acima, do que seria explicado pelos fundamentos econômicos do país, mesmo considerando o delicado momento politico. O preço do dólar está claramente esticado. Entendo que os agentes estão agindo aparentemente com pouca racionalidade". E alertou: "Comprar moedas nesses níveis pode representar um risco potencial de perda no médio prazo". O recado era o sinal de que o BC atuaria mais no mercado de câmbio, que está pressionado pela escassez de liquidez.

O dólar, depois de testar a máxima, encerrou o dia com valorização de 1,34% diante do real, cotado a R$ 3,5361. Ainda não se sabia da rolagem integral dos swaps, anunciada pelo BC no início da noite.

A crise política associada às incertezas na economia deu início a um movimento de saída de recursos do país. Dados do BC apontam que o fluxo de julho foi negativo em US$ 3,9 bilhões, gerado sobretudo pela saída de US$ 8,37 bilhões pelo financeiro. Há uma demanda por dólar físico de quem quer deixar o Brasil e, talvez, só a rolagem de "swaps" cambiais não atenda a esse mercado. Em situações semelhantes do passado o BC fez leilões de linha com compromisso de recompra e vendeu reservas cambiais, mediante "ração diária" ou leilão.

A turbulência política não está explícita no balanço de riscos da inflação que o BC cita na ata do Copom, divulgada ontem, mas permeia a avaliação do câmbio, da atividade econômica e está na raiz da obliteração do objetivo fiscal.

A ata reproduz o comunicado da última reunião que elevou os juros para 14,25% ao ano. "O Comitê entende que a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para a meta no final de 2016", diz a ata.

Ao conceito de "suficientemente prolongado", porém, o Copom agregou uma nova expressão: "desvios significativos". Ou seja, os riscos para que as projeções de inflação do comitê convirjam com segurança para a meta de 4,5% em 2016 "são condizentes com o efeito defasado e cumulativo da ação de política monetária, mas exigem que a política monetária se mantenha vigilante em caso de desvios significativos das projeções de inflação em relação à meta".

Assim, o BC deixou aberta a porta para uma retomada do ciclo de aperto monetário caso a inflação escape da meta e quis manter ambíguo o quanto considera ser um desvio significativo.

A avaliação da autoridade monetária é que o mercado fez a leitura correta da ata. Há quem tenha enxergado, também, um indício de que a convergência estrita para a meta de 4,5% em dezembro de 2016 talvez não seja mais um imperativo a ferro e fogo.

"A análise do balanço de riscos me diz que o hiato do produto vai se ampliar e fazer com que as projeções do BC cheguem em 4,5%, mesmo que o câmbio não jogue a favor. Essa é uma análise subjetiva do balanço de risco, com a qual pode-se concordar ou não, mas que os banco centrais podem e devem fazer", disse um ex-diretor do BC que viu, nessa questão, uma mudança em relação ao que vinha sendo dito até agora.

Nesta semana os movimentos dos partidos da base aliada e das oposições se intensificaram na busca de uma solução política que abrevie a crise. As declarações do vice-presidente Michel Temer, os elogios ao PSDB e pedido de apoio, feitos pelo chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, em comissão na Câmara dos Deputados, na quarta feira, foram interpretados como o sinal mais evidente do desânimo que tomou conta do governo e, mais especificamente, do Palácio do Planalto.

Dilma tentou reagir na semana anterior, com a reunião dos governadores e nesta, em uma articulação de um encontro com os maiores empresários do país para antes do dia 16, data de convocação dos protestos de rua. As primeiras sondagens sobre a realização desse encontro com os representantes do PIB não foram muito animadoras. O risco é de haver mais ausência do que presença.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem dito a interlocutores que "a questão politica é passageira, a mudança do cenário econômico, com o fim do ciclo das commodities, é duradoura".

Diante das dificuldades que enfrenta no Congresso para ter aprovadas as medidas de ajuste fiscal, e tendo na presidência da Câmara o deputado Eduardo Cunha, totalmente hostil a uma agenda que não seja a sua, Levy tem argumentado com algumas as lideranças políticas que o curto prazo não pode desviar totalmente a atenção do que é estratégico para o país, que é "a necessária preparação da economia para que o Brasil possa enfrentar e prosperar em um mundo mais competitivo e de baixo crescimento".

Passados 70 anos da destruição de Hiroshima e Nagasaki, não faltou quem, em um ato de dramaticidade, comparasse o que pode vir a acontecer com o governo às duas bombas atômicas jogadas nas cidades do Japão no fim da Segunda Guerra Mundial: a primeira, " little boy", e, três dias depois, a segunda, "fat man".

Aos amigos petistas - NELSON MOTTA

O GLOBO - 07/08

Nunca perdi um amigo por causa de política. Tenho vários amigos petistas que merecem meu afeto e respeito, alguns até minha admiração, e convivemos bem porque quase nunca falamos de política, talvez por termos assuntos mais interessantes a conversar. Mas agora o assunto é inevitável. E eles estão mais decepcionados do que eu.


Também tenho amigos tucanos, comunistas, conservadores, não meço a qualidade das pessoas pelo seu time, religião ou suas crenças políticas, em que sonhos, idealismo e equívocos se misturam com ambição, desonestidade e incompetência para provocar monstruosas perdas de vidas, dignidade e dinheiro ao coitado do povo que todos eles dizem amar.

O PT está caindo aos pedaços, depois de 13 anos no poder, com grandes conquistas e imensos desastres, mas a perspectiva de ser governado pelo PMDB ou pelo PSDB não é animadora. Claro que há gente decente e competente nos dois partidos, mas a maioria de seus quadros e dirigentes não é melhor do que os piores petistas, e vice-versa.

Chegamos finalmente ao “nós contra eles” que Lula tanto queria ... quando era maioria ... e agora se volta contra ele, perseguido como os judeus pelos nazistas e os cristãos pelos romanos ... rsrs.

Se não fosse tão arrogante e autoritária, Dilma mereceria pena, porque não é desonesta, mas é mentirosa e sua incompetência nos dá mais prejuízos do que a corrupção. Suas falas tortuosas são a expressão da sua confusão mental.

E se Lula não fosse tão vaidoso e ambicioso, tão irresponsável e inescrupuloso, não teria jogado a sua história na lama por achar que está acima do bem e do mal e que nunca descobririam que ele sempre soube de tudo.

Petistas inteligentes e informados sabem que o sonho acabou, game over, zé fini, não por uma conspiração da CIA, dos coxinhas ou da imprensa golpista, mas pelos seus próprios erros, pelo baixo nível e alta voracidade dos seus quadros, pela ganância e incompetência que nos levaram ao lodaçal onde chafurdamos.

É triste, amigos petistas, o sonho virou pesadelo, mas não foi a direita que venceu, foi o partido que se perdeu. O medo está dando de 7 a 1 na esperança.

"Presos na Maria Antônia" - CLÓVIS ROSSI

Folha SP - 07/08

Sempre achei que a esquerda, nacional e internacional, ficou soterrada sob os escombros do Muro de Berlim. Até aí, dava para entender embora não para justificar. Afinal, a queda do Muro e o consequente fim simbólico do comunismo foram acontecimentos tão transcendentais que teriam mesmo que desnortear até quem estava do lado de cá do Muro, quanto mais os que simpatizavam com o lado derrotado.

O que surpreende, agora, com o manifesto de escritores e artistas em defesa de José Dirceu, é que esse pessoal não conseguiu sair nem sequer da rua Maria Antônia, cuja simbologia antecede de muito a queda do Muro. É inacreditável que gente que parece inteligente não perceba que José Dirceu deixou há séculos de ser o jovem idealista que lutava contra a ditadura nas barricadas estudantis de 1968.

Nem era preciso o mensalão ou, agora, o petrolão para fazer uma constatação tão óbvia.

Bastava saber, por exemplo, que Dirceu admitiu à revista "Piauí", em 2008, que prestava consultoria ao bilionário mexicano Carlos Slim, um dos três homens mais ricos do mundo, segundo a revista "Forbes".

A esquerda, inclusive muitos ou todos que assinam o manifesto, sempre denunciou a maneira como se enriquece no México (ou no Brasil).

Um idealista de verdade jamais prestaria serviços a esse tipo de empresário.

O estranhamento não é apenas meu, mas de um fundador do PT, o cientista político Rudá Ricci, que se afastou do partido desencantado.

Escreveu Rudá após a entrevista de Dirceu à "Piauí":

"O grande problema não foi se expor como um megaconsultor, homem de R$ 15 mil por consultoria, ou R$ 150 mil mensais. Esta vaidade de se expor é estranha para um ex-clandestino de esquerda. Revelar que trabalha para o homem mais rico do mundo também é estranho para um ex-presidente do maior partido de esquerda do país. Mas são idiossincrasias que acometem as melhores famílias".

À essa lucrativa "idiossincrasia" somaram-se consultorias –não devidamente comprovadas, segundo a Polícia Federal– às maiores empreiteiras do país.

No tempo em que a esquerda pensava, não deixava de denunciar a promiscuidade entre obras públicas, tocadas em geral por essas mesmas empreiteiras, e poder público.

Hoje, ao defender Dirceu, defende-se automaticamente a promiscuidade, como se houvesse maracutaia do bem (as "nossas") e do mal ("as dos outros").

Os pedidos, em voz quase inaudível, para que o PT faça um reexame de suas práticas já surgiram em 2008, na esteira do mensalão.

Rudá Ricci, por exemplo, escrevia então: "Seria fantástico se o julgamento [do mensalão] provocasse um debate franco entre petistas e toda esquerda tupiniquim. Mas já não tenho mais 20 anos. Não tenho motivos para acreditar que o brilho da utopia seja mais forte que as cores reluzentes do poder absoluto e domesticador".

Bingo, Rudá. O poder domesticou não só dirigentes do PT mas também uma fatia da intelectualidade, o que é um contrassenso: intelectual, por definição, é contestador.

'O quadro fiscal é tão catastrófico como em 80' - FABIO GIAMBIAGI

ENTREVISTA
'O quadro fiscal é tão catastrófico como em 80' - FABIO GIAMBIAGI

KARLA SPOTORNO 

O ESTADÃO - 07/08


O Brasil de hoje lembra os piores momentos dos anos 80. O País não enfrenta a hiperinflação, mas "o quadro fiscal é tão catastrófico quanto aquele". A conclusão é do economista Fabio Giambiagi, especialista em finanças públicas.

Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, Giambiagi considerou que a sessão do Congresso que aprovou, na madrugada de quinta-feira, a PEC 443 (que eleva salários de advogados da União e procuradores dos Estados) "se assemelha a uma espécie de Baile da Ilha Fiscal. Isso não vai dar certo, é uma rota para o desastre".



Essa "rota", carregada de aumento de gastos públicos, pode levar o País a perder o grau de investimento, alerta o economista, que está prestes a lançar um novo livro sobre a economia brasileira (Capitalismo Modo de Usar, Editora Elsevier). A seguir, trechos da entrevista.

O que significa para as finanças públicas e para o ajuste fiscal a derrota do governo na Câmara?

O que está acontecendo é muito grave. Eu fiquei assistindo à TV Câmara, com aquele desfile de líderes de partidos da base aliada votando a favor da PEC à qual a Fazenda corretamente se opunha. A impressão que dava é que não há governo. A situação me lembrou os piores momentos dos anos 80. Não temos a hiperinflação daqueles tempos, mas o quadro fiscal é tão catastrófico quanto aquele.

Por que o sr. considera a situação muito preocupante?

A base aliada quer todos os bônus de ser governo, mas sem ter nenhum ônus. Então, o governo se converte em algo disfuncional, onde inventam-se gastos do nada e não há a menor preocupação com a consistência disso.

Faltou alguém questionar a "consistência" do projeto?

Estamos com um déficit público (nominal), nos últimos 12 meses, de mais de 8% do PIB. Tenho dito que estamos no regime do que eu chamo de "9 Bis": a perspectiva para o ano está se aproximando de 9% de inflação e 9% do PIB de déficit. Talvez a inflação seja um pouco maior e o déficit, um pouco menor, mas são números assustadores. Nessa situação, a sessão de ontem do Congresso se assemelha a uma espécie de Baile da Ilha Fiscal. Isso não vai dar certo, é uma rota para o desastre.

Há o risco de os municípios e os Estados serem afetados por essa aprovação, no sentido de terem de aprovar uma equalização salarial?

Vai depender do que for aprovado. Mas é evidente que, direta ou indiretamente, as carreiras análogas a nível estadual serão as próximas da fila a pedir aumento. Temos um PIB que vai encolher pelo menos 2% e o Congresso aprovando aumentos exorbitantes. Qualquer cidadão na rua percebe que uma coisa não combina com a outra.

Para alguns, um verdadeiro ajuste fiscal depende de mudanças na Constituição Federal. Qual é a sua avaliação? Por quê?

A ironia é que essa PEC é justamente uma mudança na Constituição, mas que constitui a rigor uma contrarreforma. Mudanças na Constituição são importantes, mas no momento o mais importante de tudo é que Executivo e Legislativo deixem de ser o que são hoje: duas paralelas que não se encontram nem no infinito. "Checks and balances" são parte da democracia, mas um País não pode funcionar quando Executivo e Legislativo estão inteiramente divorciados, e toda semana o Congresso aprova uma medida que dinamita as bases da estabilidade.

A sinalização de que o Congresso Nacional está disposto a aprovar as chamadas "bombas fiscais" pode antecipar a perda do grau de investimento?

Isso me lembra um velho tango argentino, onde há uma estrofe que diz 'Y vos interpretás / las cosas al revés...' A agenda do ajustamento é uma, e o que temos assistido no Parlamento é exatamente o contrário: em vez de um ajuste tributário, a protelação desse ajuste; em vez de ajuste de gastos, mais gastos. É claro que, do jeito que as coisas estão se passando, estamos fazendo todo o possível para acelerar o processo que levaria ao "downgrade" (perda do grau de investimento).

A Lava Jato impõe uma ruptura em uma dinâmica de corrupção que envolve empresas e políticos e que, aparentemente, sustentou o modelo de coalizão política no Brasil. O atual combate ao governo mostra que essa dinâmica foi realmente rompida e que nenhuma outra a substituiu?

Não concordo totalmente. Uma coisa é dizer que há vícios que são antigos, e de fato são, mas não concordo que a corrupção tenha sido o amálgama que permitiu ao presidente da República governar desde a redemocratização. De qualquer forma, espero, como cidadão, obviamente, que a Lava Jato seja um divisor de águas, sim.

Não seria necessário lembrar ao PSDB, à oposição dentro do PMDB e a todos os outros partidos da oposição que aprovações como a de ontem inviabilizam a gestão de qualquer presidente, não apenas a do PT?

A equação fiscal é a mesma, qualquer que seja o governante: se o gasto for maior que a receita, será preciso aumentar a dívida pública. Se há partidos que aprovam a "pauta bomba" e no futuro o governo muda de mãos, são eles que terão de honrar o cheque. Quem sofrerá é o bolso do cidadão. Será preciso aumentar o Imposto de Renda, por exemplo, para aumentar o salário do funcionalismo. Eu me pergunto: será que é isso que o cidadão quer?

quarta-feira, agosto 05, 2015

Governo admite perda de controle - IGOR GIELOW

folha de sp - 05/08

Embora o Palácio do Planalto mantenha um ar de distanciamento que corresponde pouco com a realidade, três dos principais atores políticos do governo Dilma Rousseff foram a campo nesta quarta (5) admitir com franqueza o óbvio: é grave a crise, e no momento, incontrolável.

O mais eloquente foi o vice-presidente, Michel Temer (PMDB-SP), alçado desde o começo do ano a coordenador político. Num tom raramente visto de nervosismo, ele clamou por união nacional e admitiu a gravidade da situação política e econômica.

O recado era direcionado principalmente, mas não apenas, ao Congresso em rebelião. A manutenção da votação de uma "pauta-bomba" na terça (4), após os líderes concordarem que ela deveria ser adiada, é sinal claro do clima em Brasília.

O vice-presidente também se colocou como alguém com "capacidade de reunificar todos", o que num contexto em que o cargo da chefe está ameaçado por eventuais pedidos de impeachment e pela baixíssima aprovação, poderá ser objeto de especulações distintas.

Temer havia se reunido mais cedo com Joaquim Levy (Fazenda), principal porta-voz até aqui dos apelos ao Congresso. O ministro deu também sua palhinha, dizendo não desejar "ruptura" no Congresso e apontado a gravidade da crise.

Por fim, um improvável Aloizio Mercadante (Casa Civil) falou em "acordos suprapartidários" para superar ao menos a crise econômica –como se ela fosse dissociável da política. De todo modo, a fala completa o cenário de que o governo, ou parte dele, parece ter entrado em pânico.

O que vem por aí não ajuda os governistas. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), maquina sua vingança contra o que considera perseguição pelo Planalto. Para cada declaração defendendo a responsabilidade nas decisões, uma ação de bastidor para alfinetar o governo, como poderá ser atestado nas votações da noite desta quarta.

Nesta quinta (6), Dilma e seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, aparecerão no programa de TV do PT e, até aqui, o partido não deu sinais de que irá mudar isso. Chamará para si um provável megapanelaço, que servirá de aperitivo para o protesto que pedirá a saída de Dilma do governo no dia 16.

Isso ocorre no momento em que o mesmo Cunha limpa a área para eventual apreciação das contas de 2014 de Dilma e eventuais pedidos de impeachment, em acordo tático com a oposição. Dono da bola e pressionado pela certa denúncia que sofrerá pela Procuradoria-Geral da União por acusações de levar dinheiro no petrolão, o presidente da Câmara ditará o "timing" de todo o processo.

Por fim, o fantasma das apurações da Lava Jato segue em ritmo acelerado de assombração. O temor de delações premiadas que possam comprometer ainda mais o PT e o governo só fez crescer, além do impacto simbólico da nova prisão do ex-ministro José Dirceu.

Enquanto o PT acredita que poderá rebater nas ruas esse tsunami, com atos no dia 20, os principais atores do governo dão sinais de que entenderam a natureza do problema.

terça-feira, julho 28, 2015

O Proibidão do Porto - GUILHERME FIUZA

REVISTA ÉPOCA

O GIGANTE SE CONTORCE TODO PARA NÃO VER QUE O PETROLÃO É PARTE DE UM PROCESSO DE PILHAGEM

O gigante está sambando. Num ataque crônico de sonambulismo, ele vem requebrando freneticamente -em formidáveis acrobacias para manter Dilma Rousseff no Planalto. A cada novo petardo da Lava Jato expondo a indústria de corrupção montada pelo PT no topo da República, o gigante mostra seu poder de esquiva, No melhor estilo Ronaldinho Gaúcho, ele olha sempre para o lado em que a bola do petrolão não está. E acaba de contrair um doloroso torcicolo, em sua guinada para não ver a literatura explosiva dos bilhetes de Marcelo Odebrecht na cadeia.

O Brasil já mostrara toda a sua ginga ao virar a cara, numa pirueta radical, para o encontro secreto de Dilma com Lewandowski em Portugal. A presidente da República e o presidente do Supremo Tribunal Federal, irmãos de credo, reúem-se às escondidas fora da capital portuguesa, no momento em que o maior escândalo de corrupção da história do país (envolvendo o governo dela) tem seu destino nas mãos da instância judiciária máxima (presidida por ele). Normal. No que o encontro vazou, a dupla explicou tudo: a reunião foi para discutir o reajuste dos servidores da Justiça.

Perfeitamente compreensível. Não há outra forma de discutir salário de funcionários públicos a não ser cruzando o Oceano Atlântico para um cafezinho clandestino. No Brasil, é mais fácil uma aberração dessas virar rap — o Proibidão do Porto — do que acordar a platéia para os riscos que rondam a Operação Lava Jato. Como os brasileiros se cansaram de ver no mensalão - ou pelo visto não se cansaram —, esse gato se esconde com o rabo de fora.

A inabalável posição de Lewandowski pró-mensaleiros, em harmonia com a inabalável lealdade de Dilma aos companheiros apanhados em situação de roubo, é a sinfonia que se repete no petrolão. Entre as cenas que se seguiram ao Proibidão do Porto está o cerco ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha - personagem venenoso que fustiga o governo. Surgiram oportunamente indícios, embalados por declarações providenciais do procurador Janot - um homem providencial - empurrando Cunha para o STF de Lewandowski. O presidente da Câmara respondeu que não vé problema em ser investigado no Supremo, desde que Dilma seja também.

É esse tipo de comentário que faz o gigante rebolar. Como assim, investigar Dilma? Por que investigar a presidenta mulher, mãe, avó e que até tem um cachorro? Que foi perseguida pela ditadura? (Embora hoje não se saiba ao certo quem persegue quem.) De sua cela, Marcelo Odebrecht mandou a resposta: porque ela recebeu dinheiro sujo do petrolão diretamente de uma conta na Suíça para sua campanha presidencial. Que tal? Essa informação foi captada pela Polícia Federal de um celular do empreiteiro preso, em forma cifrada, mas bastante clara. Como já vinha se desenhando com clareza nas delações premiadas, praticamente todas apontando para financiamento de Dilma e do PT com propinas do petrolão, através do ex-tesoureiro Vaccari.

Por uma enorme coincidência, a empreiteira é a mesma em favor da qual Lula é suspeito de fazer tráfico internacional de influência, conforme investigação em curso no Ministério Público. O instituto Lula diz que vários ex-presidentes viajam para defender interesses das empresas de seus países. Resta saber se algum deles recebe cachês estratosféricos das empresas que defendem ou se viaja com uma bolsa BNDES a tiracolo para fazer brotar instantaneamente qualquer obra em qualquer lugar.

O gigante se contorce inteiro para não ver que o petrolão, como o mensalão, é parte de um processo de pilhagem - aí incluídas outras táticas parasitárias como as pedaladas fiscais, tudo a serviço da transfusão de dinheiro público para um grupo político bonzinho se eternizar no poder. O Brasil está comendo o pão que o diabo amassou, mergulhando numa recessão que não segue o panorama mundial, nem continental - e ouve numa boa o companheiro Ricardo Lewandowski declarar, após o Proibidão do Porto, que a derrocada econômica nacional é decorrente da crise de 2008 nos Estados Unidos...

Claro que ninguém perguntou nada ao presidente do STF sobre a conjuntura econômica. Mas não precisa, porque eles estão ensaiadinhos e são desinibidos. A ópera-bufa não tem hora para acabar, enquanto a platéia estiver dormindo.


ELA BATEU EM RETIRADA - REVISTA VEJA


Advogada de metade dos delatores da Lava-Jato, Beatriz Catta Preta abandona clientes e deixa subitamente o país — ao menos um amigo diz que ela recebeu ameaças
REPORTAGEM: Mariana Barros e Laryssa Borges

Mudar-se para Miami sempre esteve nos planos da advogada Beatriz Catta Preta. Há um ano ela abriu um escritório de consultoria na cidade americana, para onde viaja frequentemente com o marido e o casal de filhos — queria, inclusive, que o menino frequentasse uma escola bilíngue em São Paulo para se preparar para a mudança. Mas a ideia era ir para lá em "dois ou três anos", como chegou a dizer a um conhecido, e não bater em retirada como ela fez na semana passada. Há duas semanas, a advogada que negociou a delação premiada de nove dos dezoito réus confessos da Lava-Jato fechou o seu escritório em São Paulo, dispensou recepcionista e secretárias e parou de atender o celular. Na segunda-feira 20, enviou um e-mail a todos os seus clientes anunciando que não mais faria a defesa deles, Ato contínuo, deixou o Brasil.

Nada indicava que isso ocorreria. Catta Preta, como é conhecida, estava com a carteira de clientes abarrotada. Mesmo aos mais antigos, não tinha dado nenhuma pista de que pretendia mudar de país. "Só soube quando recebi o e-mail, nem imaginava", disse o operador financeiro Lúcio Bolonha Funaro, que está com ela desde 2003. Algo de muito grave fez com que Catta Preta decidisse sair de cena — e há indícios de que ela estava apavorada quando o fez. Em maio, por razões desconhecidas, deixou de mandar o filho à escola e pediu à direção o trancamento da matrícula. Em junho, foi a vez de tirar também a menina mais nova da escolinha que frequentava. Um advogado próximo de Catta Preta afirmou a VEJA que ouviu de um amigo comum aos dois que ela vinha recebendo ameaças e que, por isso, teria saído "fugida" do país.

No último dia 9 de julho, a advogada havia recebido uma ordem de convocação para depor na CPI da Petrobras com o objetivo de "explicar a origem dos recursos dos pagamentos de seus clientes". O requerimento de convocação foi assinado pelo deputado Celso Pansera, integrante do PMDB fluminense e acusado pelo doleiro Alberto Youssef de tê-lo ameaçado por ordem do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, de quem seria "pau-mandado".

Uma semana depois da convocação de Catta Preta, um de seus clientes, o ex-executivo da Toyo Setal Julio Camargo, afirmou em depoimento ao juiz Sergio Moro que Cunha tinha pedido 5 milhões de dólares de propina. Camargo não havia citado o nome de Cunha em seu depoimento anterior. A coincidência das datas suscitou especulações de que a convocação da advogada à CPI pudesse ser uma retaliação de Cunha pela inclusão de seu nome — que, ele já saberia, estava por vir — no depoimento de Camargo. O ex-diretor da Toyo Setal também foi convocado à CPI pelo mesmo deputado Pansera.

A súbita decisão de Catta Preta de abandonar seus clientes, a Lava-Jato e o Brasil adicionou mais um toque de mistério a uma carreira construída à margem do território habitado pelos grandes criminalistas brasileiros. Descrita por colegas como reservada e de poucas palavras, ela se formou na Unip e fundou a própria banca em 2002, quando deixou o escritório do ex-procurador da República e desembargador federal Pedro Rotta, morto em 2011. Foi ele quem lhe abriu as portas para o mundo de clientes endinheirados: doleiros, empresários e banqueiros. Em 2006, já em carreira-solo, ela fechou seu primeiro caso de delação de grande repercussão. Os clientes eram dois doleiros pegos na Operação Farol da Colina, da Polícia Federal, os sócios Richard A. de Mol Van Otterloo e Raul Henrique Srour. Desde então, firmou outros acordos importantes, mas o estrelato veio no ano passado, quando negociou a primeira de todas as delações premiadas da Lava-Jato, e até então a mais bombástica de todas, a do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. Em outubro, quando ele foi para casa de tornozeleira eletrônica, ela deixou o caso.

Na ascensão da advogada, um personagem desempenhou papel fundamental: Carlos Eduardo Catta Preta Júnior, o marido, de quem herdou o sobrenome, é que trata das negociações com os clientes, estabelece o valor dos honorários e cuida das cobranças do escritório. Amigos dizem que ele tem grande influência sobre a mulher. Embora se declare oficialmente comerciante, Carlos Eduardo é conhecido como "doutor Carlos". O casal se conheceu em 2001, quando ele foi preso em Alphaville, na Grande São Paulo, com 50 000 dólares em notas falsas presas na cintura, dentro de um saco plástico. Em sua casa, agentes do Denarc, o departamento de combate ao tráfico de drogas, encontraram mais 350000 dólares falsos guardados no banheiro. Aos policiais, Carlos Eduardo contou que estava tentando vender as notas para se livrar do prejuízo que havia tomado ao vender a um indiano 17 quilos de esmeraldas retiradas de uma mina de pedras preciosas que arrendara na Bahia. Um amigo indicou-lhe o escritório de Pedro Rotta, onde trabalhava Beatriz Lessa da Fonseca, este o nome de solteira de Catta Preta. Ela o defendeu, conseguiu que respondesse ao processo em liberdade e tornou-se sua namorada. Em 2003, Carlos Eduardo foi condenado a três anos de prestação de serviços comunitários por crime de moeda falsa. Os dois se casaram, tiveram dois filhos e passaram a viajar com frequência para Miami. De acordo com amigos, é lá que estão agora. Sem previsão de retorno. O que teme Catta Preta?

Falta de compostura - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 28/07

Maior responsável pela grave crise política, econômica, social e moral em que o País está mergulhado depois de mais de 12 anos de domínio petista, Luiz Inácio Lula da Silva tenta reagir à queda do pedestal em que se entronizou graças à conjugação de circunstâncias históricas alheias à sua vontade, com a habilidade e a falta de escrúpulos com que manejou um populismo irresponsável. Diante da revelação, da forma mais dolorosa possível para os brasileiros, de seu legado maldito e apavorado com a perspectiva cada vez mais próxima de ter de prestar contas à Justiça de seu envolvimento em acontecimentos que o beneficiaram e a toda sua família, Lula entrega-se ao destempero retórico.

Perdeu completamente a compostura.

Na sexta-feira passada, em discurso na posse da diretoria do Sindicato dos Bancários do ABC, em Santo André, Lula não teve o menor constrangimento em se colocar no papel de vítima de “nazistas” e de uma “elite perversa” que não aceita conquistas sociais. Numa tentativa canhestra de explicar a decepção em que se transformou o poste que escolheu para substituí-lo na Presidência, atribuiu o desastre ao machismo da elite: “Nunca tinha visto na vida pessoas que se diziam democráticas (sic) e não aceitaram uma eleição que elegeu uma mulher presidente da República”.

Com a popularidade em baixa, não seria agora que Lula se exporia diante do “povo”. Só fala a plateias selecionadas que não representem ameaça à sua megalomania. Diante de tal público, sente-se à vontade para derramar todo seu repertório de demagogo sacramentado. Parece não lhe ocorrer, no entanto, que o que ele imagina ser uma deferência especial sua a uma plateia selecionada significa, na verdade, um insulto aos cidadãos que, salvo a hipótese de se tratar de fanáticos irredimíveis, só estão ali porque Lula lhes atrai a curiosidade. E nada mais. Quanto aos áulicos, estes estão dispostos a aceitar e aplaudir qualquer barbaridade que profira, como essa de que a culpa pelo desastrado governo de Dilma é dos machistas que não aceitam o fato de ela ser presidente.

No cenário armado em Santo André, Lula lembrou seus dias de líder que fazia oposição a “tudo isso que está aí”: “Quero dizer para vocês que estou cansado de mentiras e safadezas; estou cansado de agressões à primeira mulher que hoje governa esse país; estou cansado com o tipo de perseguição e criminalização que tentam fazer à esquerda desse país. Parece os nazistas criminalizando o povo judeu e romanos criminalizando os cristãos”. Pois é. O homem, logo quem, está cansado de “mentiras e safadezas”. E ainda finge ser de esquerda, o que, definitivamente, é um dos poucos equívocos que não lhe podem ser imputados. A única coisa autêntica nessa arenga foram os erros de português.

Embora seja hoje um rico e ativo membro do jet set internacional, Lula mantém a humildade: “Eles não suportam que um metalúrgico quase analfabeto tenha colocado mais gente na faculdade do que eles, não suportam que a gente não deixou privatizar o Banco do Brasil”. Defendeu as realizações sociais e econômicas que efetivamente promoveu em seu governo enquanto navegou nas águas de uma conjuntura internacional favorável e de uma política econômica interna pautada pelos princípios “liberais” herdados dos governos tucanos. Mas ignorou, é claro, que todas aquelas conquistas estão hoje comprometidas pela teimosia do governo Dilma em impor ao País uma “nova matriz econômica” estatista. E lamentou: “Eu, sinceramente, ando de saco cheio. Profundamente irritado. Pobre ir de avião começa a incomodar; fazer faculdade começa incomodar; tudo que é conquista social incomoda uma elite perversa”.

Para concluir, a manipulação desavergonhada dos números: “A inflação está 9%, com perspectiva de cair. Quando eu peguei esse país, a inflação estava a 12%, o desemprego a 12%”. Só esqueceu de mencionar que antes do Plano Real, em junho de 1994, a hiperinflação era de mais de 47% e que a meta do atual governo, de 4,5%, sempre esteve longe de ser cumprida.

Cada vez menos, Lula consegue reunir plateias dóceis para deitar falação. Muito pouca gente se engana com ele. Para a grande maioria dos brasileiros, Lula e tudo o que ele representa foram uma ilusão passageira.

Lula e seu discurso de ódio - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 28/07

O ex-presidente demoniza os críticos, que não passariam de ricos cruéis que não suportam ver um pobre ter um prato de comida

Tornou-se lugar comum, ao tratar do nível do debate político brasileiro, criticar a polarização, o radicalismo e a agressividade com que são tratados aqueles que têm opiniões discordantes. Das mídias sociais às tribunas do Poder Legislativo, usa-se e abusa-se de termos pejorativos como se bastasse, para sair vencedor de um debate, colar um rótulo no outro. O termo “discurso de ódio” virou muleta do governo e da blogosfera chapa-branca para patrulhar qualquer manifestação mais enfática de oposição, mas o exagero não quer dizer que o discurso de ódio não exista – ele está mais vivo que nunca. E um de seus grandes fomentadores, se não o maior deles, atende pelo nome de Luís Inácio Lula da Silva.

Na sexta-feira passada, na posse da nova diretoria do Sindicato dos Bancários do ABC, em Santo André (Grande São Paulo), o ex-presidente comparou os adversários do PT a nazistas. “Estou cansado com o tipo de perseguição e criminalização que tentam fazer à esquerda desse país. Parece os nazistas criminalizando o povo judeu e romanos criminalizando os cristãos”, afirmou, sem medo da analogia absurda que fazia, que chega a ser ofensiva a grupos que realmente foram vítimas de perseguição arbitrária e assassinato em massa. A comparação com o nazismo não é nova: Rui Falcão, presidente do partido, usou o mesmo recurso em janeiro de 2013 para criticar a imprensa e o Ministério Público.

O discurso aos bancários veio na sequência de outro, talvez ainda mais relevante por causa da plateia a que se destinou. Em junho, em Roma, na abertura de uma conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), Lula criticou o “preconceito por parte da imprensa brasileira e de alguns setores privilegiados da sociedade” nos seguintes termos: “Eu nunca pensei que dar comida aos pobres causasse tanta indignação”, segundo os sites do PT e do Instituto Lula. O discurso dos “ricos incomodados com a ascensão social dos pobres” é característico do lulismo e também esteve presente no evento de Santo André, quando o ex-presidente repetiu que “pobre ir de avião começa a incomodar; fazer faculdade começa a incomodar; tudo que é conquista social incomoda uma elite perversa”. Mas acusar a “elite” de se indignar porque os outros têm o que comer eleva a demonização a um novo patamar.

A consequência desse tipo de discurso é clara. Quem adota práticas nazistas, ou quem acha absurdo que os pobres tenham o que comer, só pode ser um demônio, e com demônios não há conversa; há apenas o enfrentamento e, se possível, a aniquilação. Demônios não têm direitos, precisam ser caçados, “apanhar nas ruas e nas urnas”, como disse uma vez José Dirceu. É assim que Lula enxerga todos aqueles que se opõem ao projeto de poder petista. Isso poupa o ex-presidente de um trabalho ingrato: o de argumentar contra aqueles que criticam a maneira como o partido conduz a economia, o de defender o intervencionismo estatal contra os que desejam um ambiente de negócios mais amigável ao empreendedor, o de explicar o enorme carinho do governo por ditadores latino-americanos e africanos, o de defender os crimes cometidos por líderes do PT em benefício do partido, como o mensalão. Os adversários do lulopetismo criticam seu ideário e suas práticas, como convém ao debate democrático. Mas é muito mais fácil criar uma lenda negra em que os críticos são, na verdade, ricos cruéis que não suportam ver um pobre ter um prato de comida.

E, se depender dessa retórica, o ódio a esse tipo de monstro que quer ver o pobre morrer de fome chegaria até a ser justificado – basta lembrar o que disse, em 2007, Matilde Ribeiro, então ministra da Igualdade Racial, que em entrevista à BBC Brasil considerava “natural” a “reação de um negro de não querer conviver com um branco”. Embora Matilde afirmasse logo em seguida que não estava incitando discriminação, seguiu adiante com a demonização, afirmando que “quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou”, anulando os indivíduos reais e transformando-os apenas em membros de uma classe “opressora” ou “oprimida”.

Assim, os adversários políticos, em vez de serem simplesmente os defensores de uma ideologia diversa, que se enfrentam no campo das ideias, se tornam verdadeiros inimigos do povo, ou da pátria – uma imagem que evoca a retórica dos piores totalitarismos. É isso que Lula vem pregando, e com isso ele desagrega a sociedade. Não é disso que o país precisa. Que os petistas capazes e preparados para entrar no debate respeitando seus interlocutores, usando argumentos e não rótulos, possam tomar a dianteira na cena pública e derrotar o discurso de ódio.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

GOVERNO TENTA SE REAPROXIMAR DE EDUARDO CUNHA

O Palácio do Planalto tenta desesperadamente restabelecer “diálogo” com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), que anunciou publicamente o seu rompimento com o governo Dilma e o PT. O problema é que Cunha lidera de fato a Câmara e a conduz para as decisões que considera acertadas, inclusive em votações que podem custar o mandato de Dilma, como rejeição das contas e impeachment.

JOGANDO A TOALHA

Destacado para a missão, o vice-presidente Michel Temer já jogou a toalha. Até ensaiou conversa, mas Eduardo Cunha o desestimulou.

LENHA NA FOGUEIRA

Dilma quer Renan Calheiros como “bombeiro” junto a Eduardo Cunha, mas o presidente do Senado é mais inclinado a jogar lenha na fogueira.

PREÇO DA INEXPERIÊNCIA

Eduardo Cunha não aceita intermediários e Dilma não percebeu isso. Se ela quer restabelecer pontes, terá de reconstruí-las pessoalmente.

CARTA NA MANGA

Dilma considera recorrer a uma amiga, jornalista Cláudia Cruz, para tentar se reaproximar de Eduardo Cunha, o apaixonado marido dela.

DEPUTADOS DO PSDB VETARAM O PAPO COM LULA

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ouviu a bancada tucana na Câmara dos Deputados para recusar encontro com Lula. Deputados não estão dispostos a amenizar o combate ao governo Dilma. Pelo contrário, o pedido de Lula, recebido com sinal de fraqueza, será usado para estimular a população a comparecer às manifestações de 16 de agosto. FHC já avisou que o momento não é para aproximações.

CALMA LÁ

Os tucanos avaliaram que um encontro das cúpulas partidárias soaria como “conspiração” contra a repulsa da população a Dilma e ao PT.

PEDIDO TARDIO

“Um aproximação deveria ter vindo em momento de crise econômica e não política”, avalia o líder do PSDB em exercício, Nilson Leitão (MT).

LIDE COM ROLLEMBERG

O Grupo Lide, de empresários, liderado no DF pelo ex-senador Paulo Octavio, almoça hoje (28) com o governador Rodrigo Rollemberg.

FLERTE EXPLOSIVO

O Planalto monitora, apavorado, os pedidos de reunião de Eduardo Cunha com o governador paulista Geraldo Alckmin e outros líderes tucanos. Avaliam que nada de bom pode sair desses conchavos.

PANELAÇO

Boa parte do PT não aceitou muito bem a ideia de Dilma aparecer no programa da sigla que vai ao ar dias antes dos protestos de agosto. O temor é que a aparição provoque panelaço e estimule os protestos.

#VEMPRARUA

Cresce o apoio ao protesto nacional contra o governo Dilma, marcado para 16 de agosto. No fim de semana, adeptos do movimento desfilavam em Brasília com um caixão representando a morte do PT.

SAÍDA É REGULAMENTAR

Para não se indispor com taxistas e nem com a população, que exige o exercício do direito de escolher o Uber, grandes cidades mundo afora regulamentam o serviço eventual de motorista particular. Na Cidade do México, o pessoal do Uber paga ao município 1,5% sobre cada corrida.

FALTOU O ‘MATADOR’

Craque em campo e senador muito atuante, Romário (PSB-RJ) não conseguiu driblar a denúncia de suposta conta não-declarada de R$ 7,5 milhões na Suíça. Reclamou da notícia, mas não foi matador.

APARECEU

O presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, que anda evitando viagens internacionais, passou o fim de semana na companhia de uma paniquete no condomínio Saint Tropez, no Rio de Janeiro.

MÃO ABERTA

O secretário de Saúde do DF, Fábio Gondim, não distingue brotoeja de catapora, mas se valoriza: diz que trocou uma suplência de deputado federal pelo cargo. Não é nada, não é nada, não é nada mesmo.

PÁTRIA EDUCADORA?

No país da Pátria Educadora, o município de Itaitinga (CE) realiza concurso para professores de Educação Básica, com salário distante do piso nacional (R$ 974,80) e para pedreiros (R$ 1.019,14 mensais).

PERGUNTA NA PAPUDA

Vaca de R$ 2,2 milhões declarada em mensagens cifradas de Marcelo Odebrecht também tem direito a tossir ou só a mugir mesmo?



PODER SEM PUDOR

O CANIL QUE FOI SEM NUNCA TER SIDO

Antes de a presidente Dilma Rousseff mandar construir um canil para seu cão labrador "Nego", nos jardins do Palácio Alvorada, somente um outro governo viu algo parecido. Durante visita a Portugal antes da posse, no início dos anos 1960, o casal Eloá e Jânio Quadros ganhou uma cadela, e logo após se mudar para o Alvorada a primeira-dama mandou erguer um canil. Jânio somente soube da história certo dia, logo cedo. "Não quero ver o menor resquício disto quando voltar do trabalho!", ordenou. E o canil sumiu, como ainda se lembra, com detalhes, o arquiteto Carlos Magalhães, que era do Departamento de Obras Complementares da Novacap, que construiu e demoliu o canil com rapidez meteórica.

segunda-feira, julho 27, 2015

Iluminismo na merda? - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 27/07

Um cidadão consciente deve sempre olhar dentro do vaso sanitário para saber quem é em profundidade.

Sinto dizer ao meu leitor, mas esta coluna de hoje, talvez, venha a feder um pouco. Coisas desse nosso mundo contemporâneo. Sinto muito. Impossível evitar.

Vivemos num mundo ridículo, como costumo dizer, que em 500 anos será esquecido. Não teremos mais do que um pequeno parágrafo nos tratados de história. Nós, cheios de nossas frescuras, mimimis, direito a isso e àquilo, enfim, uns mimados.

No futuro, nossos descendentes olharão para nós com a mesma condescendência com que olhamos para a moçada que cultua a chuva. E não terão nenhuma paciência para nossas frescuras.

Mas, antes de irmos à matéria indigesta de hoje, preciso fazer um reparo filosófico. O que é o Iluminismo? O Iluminismo é um movimento filosófico do século 18 que, em uma das suas faces mais conhecidas, o utilitarismo, foi marcado pela obsessão da melhoria da condição de vida informada pela ciência e pela técnica.

Um derivado direto dessa obsessão é a ideia de que, se as pessoas forem “bem informadas”, a vida delas ganhará em “qualidade”. Essa ideia tomou conta de tudo, da TV aos encontros motivacionais do mundo corporativo.

Aqueles mesmos que visam fazer as pessoas acharem que está tudo lindo se um guru em gestão disser que está tudo lindo. Emociona-me quando ouço alguém falar que não está interessado em melhorar minha qualidade de vida. Das novelas aos jornais, tudo um bando de gente chata pregando o bem.

Dito isso, voltemos ao fedor. Para isso, vou contar um fato que me aconteceu poucos dias atrás. Estava eu, minha família e alguns amigos tomando café da manhã numa padoca no interior de São Paulo. Infelizmente, na padoca, uma TV estridente mostrava um “programa de qualidade de vida”. E qual era o conteúdo “científico” desse programa? Antes, um detalhe.

Tenho um amigo bem esquisito que há anos diz que um dia esses caras de qualidade de vida iriam querer nos ensinar a “fazer cocô de forma saudável”. Normalmente, consideraríamos essa fala um simples delírio de um cara esquisito. Mas eis que ele acertou em cheio. Foi profético e com isso nos ensina uma nova máxima sobre o mundo contemporâneo: aposte no ridículo e você será um profeta do século 21.

Bem, finalmente, o fato. Ainda suspeito que talvez eu tenha entendido mal o que vou contar. Um delírio, talvez? Pode ser. Recomendo a dúvida cética diante do que vou narrar.

O programa de qualidade de vida era um programa que parecia entrevistar pessoas que falavam de seus hábitos de banheiro. Dito de forma direta: formas saudáveis de fazer cocô. Sim, meu caro. Sim, minha cara. Tape o nariz. Ou talvez não. Afinal, sendo tudo natural, a merda é tão natural como um beijo na boca.

Assim pensam os novos naturalistas da saúde total. Se para alguns maníacos “eu sou o que eu como”, por que não “eu sou o que eu cago?”.

Na telinha, depois de cenas de pessoas no local em questão, falando sobre seus hábitos fecais, assim como quem conta viagens para a Disney, um especialista mostrava pequenos montinhos de massinhas que simulavam tipos de fezes. Claro, tudo cientificamente fundamentado. Fezes X isso, fezes Y aquilo. Terei eu entendido errado?

Como se tratava de um programa de TV, só podemos imaginar que a produção não viajou na maionese e esse tipo de informação vai bem com o café da manhã das pessoas. Afinal, tudo é natural, não?

Logo, um cidadão consciente, que vota bem e recicla lixo, que respeita o meio ambiente e usa transporte público, deve também saber fazer cocô de um jeito saudável. E mais: deve sempre olhar para dentro do vaso sanitário para saber quem ele é em profundidade.

Imagino sites especializados em tipos de cocô fazendo de nós cidadãos bem informados acerca de nossas fezes. Isso é mais do que simples consciência social. Isso deve ajudar você a não ter hemorroidas e a gastar menos com saúde e também a fazer o Estado gastar menos com você.

Imagino um mundo com campanhas a favor da “merda consciente”. Fotos no Instagram? Como não pensar que meus queridos românticos acertaram em cheio, quando pressentiam que o Iluminismo ia dar em merda?


As habilidades de Dilma - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 27/07

É preciso acabar de uma vez por todas com a lenda segundo a qual a presidente Dilma Rousseff enfrenta imensas dificuldades políticas porque não é afeita ao varejo das negociações com o Congresso e porque ela tampouco se anima a se expor aos eleitores em busca de popularidade. O desastre de sua presidência não resulta dessas características, e sim de sua incontestável incapacidade de diagnosticar os problemas do País e de ministrar-lhes os remédios adequados. A esta altura, a maioria absoluta dos brasileiros, de todas as classes sociais, já se deu conta de que o problema de Dilma não é sua reclusão ou sua ojeriza aos políticos, mas simplesmente sua incompetência. Prometeram-lhes uma “gerentona” e lhes entregaram uma estagiária.

Portanto, tende a ser inútil a mais nova ofensiva de comunicação planejada pela assessoria da presidente com o objetivo de reverter o mau humor do País em relação ao governo petista. Inútil porque, enquanto se tenta mostrar uma Dilma mais “humana”, que é o que pretendem os marqueteiros do Planalto, conforme revelado em recente reportagem do Estado, os problemas concretos que resultam de sua má gestão continuarão a assombrar os brasileiros na vida real, especialmente o desemprego, a queda da renda e a inflação.

A mudança na comunicação de Dilma é tratada como questão de urgência urgentíssima, pois a pressão sobre a presidente é intensa. Estão programadas para o dia 16 de agosto manifestações que, a julgar pela pronunciada queda de popularidade da presidente, devem ter grande afluência e visibilidade. Além disso, crescem as suspeitas de que as falcatruas constatadas pela Operação Lava Jato podem ter ajudado a irrigar as campanhas eleitorais petistas, inclusive a de Dilma. E há também a percepção de que a irresponsabilidade fiscal da presidente ao longo de seu primeiro mandato, maquiada por truques contábeis, pode resultar em um processo que comprometa de vez o seu mandato. Tudo isso se dá em meio à certeza de que sua base no Congresso é apenas nominal, não representando nenhuma garantia de sustentação, especialmente em meio ao azedume da opinião pública nacional com o espantoso escândalo de corrupção na Petrobrás e com o desastre na economia.

Anuncia-se que o novo arsenal de comunicação de Dilma incluirá a participação da presidente em programas populares de TV e também a criação de um site chamado Dialoga Brasil, em que ministros responderão a dúvidas, sugestões e críticas dos internautas sobre programas do governo. Além disso, Dilma pretende fazer um giro por cidades do Nordeste com a difícil missão de tentar demonstrar que ainda tem popularidade – ela teve expressiva votação na região na eleição de 2014, mas mesmo lá, segundo as últimas pesquisas, a desaprovação a seu governo disparou.

As recentes tentativas de Dilma para melhorar sua imagem foram feitas a partir de iniciativas pessoais, com resultados embaraçosos – ela chegou a saudar a mandioca e a elogiar a “mulher sapiens” em um discurso. Além disso, ao dizer que defenderia seu mandato “com unhas e dentes”, Dilma trouxe o tema do impeachment definitivamente para a pauta política. Até os áulicos da presidente consideraram essas manifestações desastrosas.

Agora, porém, a mobilização do Planalto parece se dar de acordo com as diretrizes de seu padrinho, o ex-presidente Lula, que várias vezes cobrou de Dilma que viajasse mais pelo País e encostasse “a cabeça no ombro do povo” para ouvir suas queixas. Lula também pretende viajar pelo Nordeste e convencer os movimentos sociais a se mobilizar na defesa de sua afilhada. A estratégia para “vender” um governo ativo, com uma “agenda positiva”, foi combinada por Lula com Dilma em um encontro no Alvorada na semana passada, segundo o jornal O Globo.

Dilma, Lula e os petistas agarram-se assim à crença de que basta melhorar a comunicação com os eleitores para que esse combalido governo comece a respirar e a dar a volta por cima. De fato, a atividade política é baseada em imagem, marketing e slogans, mas, como mostram as agruras de Dilma, só isso não é suficiente: se a embalagem do produto vendido estiver vazia, o consumidor se sentirá enganado e não tornará a comprá-lo.

Cruz e espada - COLUNA PAINEL DA FOLHA

FOLHA DE SP - 27/07
NATUZA NERY (interina)

Governadores da oposição relatam desconforto com o aceno do Palácio do Planalto para uma reunião com Dilma Rousseff, que busca usar o ato como demonstração de governabilidade. Dizem que, institucionalmente, não têm como recusar o chamado presidencial, mas se preocupam com a possibilidade de que pareçam sócios da crise. Lembram ainda que a pauta discutida em encontros recentes, como o que reuniu os governadores do Sudeste há duas semanas, não teve avanços.

Lá e cá 
Geraldo Alckmin (PSDB) receberá governadores de ao menos oito Estados para um almoço no Palácio dos Bandeirantes nesta terça-feira. Eles estarão em São Paulo para a abertura de uma feira do setor da pecuária.

Ombro amigo 
O tucano tem duas prioridades para a reunião que fará nesta segunda com Eduardo Cunha (PMDB-RJ): a reforma do ICMS e as alterações no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Eu primeiro 
Quer convencer o presidente da Câmara a priorizar a mudança no ECA sugerida pelo governo, e não a já aprovada no Senado.

Deixe estar 
Peemedebistas já ensaiam discurso para dar sustentação a Eduardo Cunha quando acontecer sua esperada denúncia na Lava Jato. "Denúncia não significa condenação. Veja só o caso de Adarico Negromonte, denunciado e absolvido", diz Lúcio Vieira Lima (BA).

Leque 
Para um partido que não lança um nome ao Planalto desde 1994, o PMDB exibe agora ampla vitrine de possíveis candidatos à Presidência da República em 2018.

À mão 
O vice Michel Temer, que em viagem internacional revelou a investidores um certo desejo de concorrer, conversou mais de uma vez sobre a possibilidade de a ministra Kátia Abreu (Agricultura) sair candidata.

Guarda-roupa 
Pesando 68 kg, Dilma abriu o baú das roupas antigas. Precisou contratar uma costureira para diminuir o figurino presidencial em dois números.

Foco 
O Planalto vai investir no convencimento de ministros do TCU que considera "mais técnicos" para tentar reverter a provável rejeição das contas de Dilma. A ideia é que Benjamin Zymler e Walton Alencar atuem como "formadores de opinião".

Quem avisa 
Antes do anúncio da mudança da meta fiscal, Joaquim Levy (Fazenda) indicou a parlamentares que o contingenciamento do Orçamento poderia ser de R$ 15 bilhões. Ouviu que esse valor corria o risco de ser cortado ao meio pelo Congresso.

Cortina... 
Apesar de ministros de Dilma afirmarem que o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia não sai por culpa da Argentina, um importante auxiliar presidencial sustenta que o maior entrave aos avanços fica dentro do Brasil.

de fumaça 
De acordo com esse assessor, as indústrias automotiva e química fazem forte lobby nos bastidores contra as negociações, por temor de concorrência com produtos europeus.

É a crise 
Para conter despesas, Mauro Vieira (Relações Exteriores) tem usado voos de carreira nos deslocamentos internos de seu giro de uma semana pela Ásia.

Trânsito 
Investigadores ainda tentam entender a razão de Marcelo Odebrecht, mesmo sabendo que o cerco se fechava, ter sido tão displicente a ponto de escrever e-mails comprometedores, que acabaram servindo de base para seu indiciamento.

Radar 
"É como passar no sinal vermelho em frente a uma viatura", disse um deles.

Concreto 
A força-tarefa da Lava Jato celebra a operação como uma revanche da anulação da Castelo de Areia. "Ela ruiu, mas a Lava Jato reconstruiu", diz um importante investigador, sobre a ação cassada pela Justiça em 2011.

TIROTEIO

Com panelas à mão, o Brasil espera ansioso para ver Lula tentar defender na televisão o projeto que arruinou e assaltou o país.
DE JOSÉ ANÍBAL (PSDB-SP), presidente do Instituto Teotônio Vilela, sobre a participação do ex-presidente Lula no programa de TV do PT em agosto.

CONTRAPONTO

Deu quórum

No início de julho, pouco antes do recesso parlamentar, o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), foi à Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado falar sobre as ações do Estado para combater a crise hídrica.
Com apoio de quatro de seus secretários, que haviam se licenciado do cargo na mesma semana para retomar as atividades na Câmara, o tucano conseguiu atrair uma legião de deputados aliados para escutá-lo no Senado.
Ao final, um dos parlamentares brincou com o governador sobre o quorum elevado, arrancando risos:
-Se o Eduardo Cunha tivesse vindo, era possível até que colocasse uma PEC para votar!

Acabou o sonho - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 27/07

Christiano Tavares, 15 anos, tinha um sonho: tornar- se famoso como nadador. Foi brincando em uma poça de água suja da Favela de Manguinhos, Zona Norte do Rio, que ele ganhou notoriedade e entrou para os anais do Programa de Aceleração do Crescimento ( PAC), uma das joias da coroa dos governos Lula e Dilma. Desde o último dia três, o corpo de Christiano jaz em uma cova rasa no Cemitério de Inhaúma.

A HISTÓRIA DE Christiano tem lugar garantido na memória da maioria dos 37 mil habitantes de Manguinhos, um lugar miserável controlado pelo Comando Vermelho, facção criminosa que explora o tráfico de drogas. Entre os oito anos de idade, quando foi catapultado para o estrelato, e os 15, quando morreu fumando crack, Christiano subiu ao céu e desceu ao inferno sem compreender direito o que lhe acontecia.

COM ELE ascendeu, e agora começa a cair, uma humanidade resgatada da miséria para o consumo de bens supérfluos que jamais haviam estado ao seu alcance. Bens que poderiam ter sido trocados por outros essenciais e duradouros, como Educação, Saúde, Segurança e transporte coletivo, por exemplo. Mas quiseram os donos do poder político do país que não fosse assim.

CHRISTIANO DEIXOU de ser um menino igual aos outros de Manguinhos quando Lula, às vésperas de viajar ao Rio para o lançamento de obras do PAC em favelas, viu uma foto dele na capa do jornal carioca "Extra". Sorridente, Christiano fingia nadar num vazamento de água no meio de uma rua. Lula então teve uma ideia. E ordenou a assessores que localizassem o menino.

NO DIA 7 DE março de 2008, Christiano foi a principal estrela do comício que reuniu no Complexo do Alemão o presidente da República, ministros de Estado, governador, prefeito e demais autoridades. Na ocasião, Lula anunciou que Manguinhos ganharia uma piscina para que Christiano e meninos de sua idade pudessem nadar. O orador foi delirantemente aplaudido.

AO SE DESPEDIR de Lula naquele dia, Christiano descobriu que seu nome mudara. As pessoas passaram a chamá- lo de Lulinha. E ele gostou. Simpático, gentil, caiu no gosto da comunidade. Passou a ser paparicado por todos. Um clube de classe alta da Barra da Tijuca conferiu- lhe o direito de livre acesso às suas instalações para que aprendesse a nadar. Não deu certo.

FALTOU DINHEIRO para o transporte de Christiano. Abandonada pelo marido, dona Bianca Pereira, 35 anos, deu duro como faxineira para sustentar Christiano e as filhas Sthepannie, 14 anos, e Milhena, 12 anos. Sthepannie está grávida de seis meses. "Dei de tudo a Christiano para que não se metesse com drogas e traficantes", conta dona Bianca. "Até roupa e tênis de marca eu dei".

À FAMÍLIA, deu uma televisão de tela plana e um computador. Promovida à mãe de Lulinha, recebeu do governo um apartamento de dois quartos. E viu com orgulho o filho encontrar- se outra vez com Lula. Foi na entrega, em maio de 2009, de 20% das obras do PAC em Manguinhos. Quantas pessoas desfrutaram do mesmo privilégio?

DE CALÇÃO DE banho, touca e óculos providenciados pelo cerimonial da presidência da República, Christiano inaugurou a piscina prometida por Lula. Foi a última vez que nadou ali. A piscina fica dentro de uma escola que ele não pode frequentar. Dona Bianca sentiu que seu filho, aos poucos, foi murchando junto com o sonho de virar um nadador famoso. Ele morreu em um posto de saúde onde está afixado um gigantesco retrato dele como menino símbolo do PAC.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

DILMA PROMETE REFORMA MINISTERIAL APÓS O AJUSTE

A presidente Dilma insinuou ao PMDB uma possível reforma ministerial tão logo o ajuste fiscal seja aprovado. A reforma pode incluir a redução de ministérios, como prega o PMDB, que para ela era tabu. E também admite “abrir mão” de ministros como José Eduardo Cardozo (Justiça), que ficaria radiante com isso, e Aloizio Mercadante (Casa Civil), cuja saída é reivindicada por aclamação, entre aliados e o ex-chefe Lula.

ZERO À ESQUERDA
Outro ministro que será trocado em razão da inutilidade da sua atuação é Manoel Dias (Trabalho). O PDT perderá a boquinha para o PMDB.

ALVES, O BREVE
Há menos de cem dias no cargo, o ministro do Turismo deixará o cargo com um novo apelido: “Henrique Alves, o Breve”.

AGARRADO À RAPADURA
O ministro Henrique Alves e criticado por nada fazer e por não haver se demitido após seu padrinho Eduardo Cunha haver rompido com Dilma.

DOUTOR CARDOZO
Segundo amigos, após deixar o cargo, José Eduardo Cardozo planeja uma temporada na Espanha, dedicando-se a concluir um doutorado.

JÁ SÃO 255 DEPUTADOS PRÓ-IMPEACHMENT DE DILMA
O Planalto e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), concordam pelo menos uma coisa: ambos estimam que 255 dos 513 deputados federais já se manifestam abertamente pela admissibilidade da proposta de impeachment da presidente Dilma. Neste momento, doze propostas estão tramitando. O governo espera ainda reverter a posição de deputados do PTB e do PP; eles somam 64 deputados.

PEDALADAS NA BERLINDA
Oposição acha que o impeachment ganhará fôlego após o TCU julgar as “pedaladas fiscais” e as manifestações do dia 16.

VOTAÇÃO MÍNIMA
São exigidos no mínimo 342 votos para que os parlamentares promovam o impeachment da presidente Dilma.

OFENSIVA
Dilma liberou R$ 300 milhões em emendas parlamentares ainda de 2014, na expectativa de “acalmar” deputados e senadores.

ARMAS NA MESA
O governo já sabe que a decisão do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, de votar as contas de governos, é combinada com Renan Calheiros, presidente do Senado. Por isso que entrou em pânico.

MÊS DO DESGOSTO
Agosto, mês do desgosto. O velho espectro volta a rondar a política brasileira. Aves agourentas lembram histórias como o suicídio de Getúlio Vargas e a renúncia de Jânio Quadros. Barbas de molho, cabelos em pé. Passarinhos na muda. Todo cuidado é pouco.

JÁ É DE CASA
Novo morador ilustre de Brasília, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) começa a ser visto nos fins de semana. Passeando com a família e frequentando restaurantes. É o campeão em pedidos de selfies.

VELHO CONHECIDO
Procurados por assessores de Dilma sobre a viabilidade do pacto pró-governo, líderes na Câmara respondem que o problema da articulação do governo é conhecido e tem nome e sobrenome: Aloizio Mercadante.

CONSTRANGEDOR
Esta coluna revelou há meses a nomeação do concunhado do filho do presidente do Tribunal de Contas da União para chefiar a unidade que fiscaliza infraestrutura, área de atuação do autor da indicação. Esse episódio é um dos que mais constrangem os ministros do TCU

DEIXA DISSO
O PSB tem se irritado com os flertes da senadora Marta Suplicy (SP) e o PMDB. Oficialmente o presidente do PSB, Carlos Siqueira, coloca panos quentes. Garante que Marta vai se filiar no dia 15 de agosto.

DEDO NA ÁGUA
Animou a oposição a pesquisa CNT/MDA, que mostra o completo “derretimento” da avaliação de Dilma. Mas o termômetro final devem ser as manifestações contra o governo, marcadas para 16 de agosto.

RENOVAR OS VOTOS
Após o recesso, o Planalto quer reunir governistas para “repactuar a base aliada”, criando uma tropa de choque para enfrentar Eduardo Cunha. O problema é encontrar gente disposta a defender o governo.

PENSANDO BEM...
...a Lava Jato prendeu tanta gente graúda da Odebrecht e da Andrade Gutierrez que seus conselhos de administração poderiam se reunir na carceragem da PF.

domingo, julho 26, 2015

Mais um golpe na frágil confiança - SUELY CALDAS

O ESTADÃO - 26/07

A credibilidade é essencial para qualquer governo perseguir uma trajetória de progresso para o país. Sem confiança no futuro, empresários não investem, trabalhadores perdem empregos, instituições enfraquecem, a população e o país empobrecem. Tem sido assim com muitos governos da América Latina que embarcam na aventura do populismo, descontrolam os gastos públicos, o dinheiro seca, os governantes fracassam e o país entra em parafuso. Venezuela e Argentina vivem esse dilema há alguns anos. O Brasil é o novo ocupante desse barco de náufragos. Muito da crise econômica em que o País mergulhou decorre da falta de confiança: Dilma Rousseff vai mesmo fazer o que precisa ser feito para organizar o caos das contas públicas e planejar a volta do crescimento econômico ou seu discurso de austeridade terá vida breve? Essa incerteza tem sido a maior razão da resistência de empresários investirem no País.

Pois bem. Se antes já estava difícil de acreditar, agora Dilma acaba de aplicar um golpe mais fundo na recuperação da confiança ao reduzir a meta de superávit primário de R$ 66,3 bilhões para R$ 8,7 bilhões. Pior: ela mostra não acreditar nem na sua própria meta ao permitir uma folga para o raquítico superávit virar um déficit de R$ 17,7 bilhões em 2015, caso receitas extraordinárias não se concretizem. Ou seja, a nova trajetória do governo já começa frouxa, enfraquecida, acanhada e rendida a quem tem poder de expandir gastos públicos e oferece um salvo-conduto para gastar mais. No Congresso, onde Dilma enfrenta crescente oposição e até ameaça de impeachment, há uma fila interminável de propostas para aumentar despesas capazes de desmantelar qualquer governo.

Derrotado na decisão de reduzir a meta fiscal, o ministro Joaquim Levy tem se esforçado para aplacar o choque do golpe e recuperar alguma credibilidade. Diz que não jogou a toalha, não abandonou o ajuste fiscal nem deu passaporte para os de sempre gastarem mais. Quem conhece Levy sabe que ele é duro na queda, mas sua expressão era de embaraçado constrangimento, de alguém que não crê nos argumentos que expressa, ao explicar as novas metas à imprensa, na quarta-feira. Vitorioso no embate, mas assustado com a reação negativa do mercado, o ministro Nelson Barbosa defendeu em entrevista ao Estado um caminho que Dilma já rejeitou com veemência em 2005: um ajuste fiscal baseado em metas para travar a expansão dos gastos. Atenção, não é corte de gastos, é um ajuste fiscal envergonhado, como é o conceito de privatização do PT.

O líder de um país pode recuperar a confiança com atitudes. Mas a tentação populista da classe política brasileira requer um caminho mais estruturante e impessoal, para garantir credibilidade capaz de atravessar governos e proteger a população de políticos aventureiros. Esse caminho começou a ser construído no governo FHC com o desmanche de alguns ralos por onde escorria dinheiro público e que foram vedados. O primeiro foi a privatização dos bancos estaduais, que fabricavam dinheiro para governadores esbanjarem em campanhas eleitorais e em benesses a amigos, a parentes e a eles próprios e que tornavam a dívida do Estado impagável. Com o mesmo fim, governadores abusavam das empresas estaduais de energia elétrica, que repassavam dinheiro para governadores gastarem livremente. Novamente a privatização fechou o ralo. O terceiro foram as operações de Antecipação de Receita Orçamentária (ARO), que governadores ofereciam em garantia aos bancos em troca de empréstimos que enchiam o cofre do governador em exercício e subtraía do próximo que lhe sucedia. E a dívida só aumentava. Uma lei passou a proibir as AROs. Por fim, a Lei de Responsabilidade Fiscal pôs em ordem as contas públicas dos Estados, fixou limites para endividamento e gastos com salários e estabeleceu punição a governadores e prefeitos infratores.

Pena que as ações de FHC foram limitadas, focaram mais em Estados e municípios e quase nada no governo federal, o que possibilitou as pedaladas fiscais. Lula e Dilma nada construíram, ao contrário, desconstruíram.

sábado, julho 25, 2015

Diálogo inviável - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 25/07

Há um pressuposto equivocado nessa proposta de diálogo entre os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique, o de que toda conversa é boa em uma democracia. Foi-se o tempo em que uma conversa institucional com o PT poderia significar algum avanço democrático.

Desde que o mensalão foi desvendado, em 2005, qualquer conversa desse tipo tornou-se inviável, pois o PT revelou-se um partido que adota meios corruptos para fazer política, e usa o Estado para financiar seus esquemas, com o objetivo de dominar a máquina pública pelo maior tempo possível, negando a alternância no poder, ponto fundamental da democracia representativa.

O PT não é, certamente, o único partido político que se envolveu em corrupção na História do Brasil, mas é, até que se prove o contrário, o único que sequestrou o Estado brasileiro para montar um esquema de domínio político na tentativa de se perpetuar no poder.

Até o mensalão, os esquemas corruptos eram manipulados por grupos políticos avulsos, ou mesmo por indivíduos, e até a origem do esquema, usado originalmente em Minas pelo grupo do governador tucano Eduardo Azeredo, tinha o objetivo de financiar campanhas regionais com a manipulação de verbas oficiais.

Ao levar para o plano nacional esquemas que funcionavam regionalmente e de maneira eventual, o PT inaugurou uma nova fase da corrupção brasileira, muito mais danosa à democracia, porque se alimenta da própria máquina do Estado para continuar dominando-a indefinidamente.

Conceitualmente perverso, o avanço sobre estatais como a Petrobras e a Eletrobras - para, por meio do desvio de recursos do Estado brasileiro, controlar a vida partidária nacional e desvirtuar o sistema de coalizão partidária através de distribuição de verbas ao Legislativo - envenena o nosso sistema democrático, desmonta a convivência harmônica entre os Poderes da República, quebra o sistema de pesos e contrapesos próprio da democracia representativa.

A corrupção generalizada no país não é de hoje, como já destaquei em outras colunas, e o fato de ter se espalhado até o mais modesto município brasileiro só mostra que a impunidade fez aumentar a possibilidade de corrupção. Ao mesmo tempo, está sendo desmontado na Petrobras um esquema corrupto que não é trivial e que já mostrou suas garras no episódio do mensalão.

Vou repetir aqui alguns conceitos que já desenvolvi em outras colunas, para mostrar como a questão é intrincada. Em vez de combater a corrupção disseminada, como prometia fazer antes de chegar ao poder, o Partido dos Trabalhadores, ao contrário, aderiu à maneira brasileira de fazer política e transformou-a em um método de dominação do Poder Legislativo e de perpetuação de poder.

Quando Lula disse que no Congresso havia 300 picaretas, em tom de crítica, parecia o líder político que queria mudar a maneira de governar o país. Mas, ao chegar a sua vez de mostrar a que veio, Lula comandou um governo que institucionalizou a corrupção para garantir apoio político, aperfeiçoando e aprofundando as técnicas que eram usadas naturalmente pelos políticos brasileiros há décadas.

Que havia corrupção na Petrobras muito antes de o PT chegar ao poder, ninguém discute. O que é espantoso é que essa corrupção tenha chegado ao ponto a que chegou e tenha se tornado institucional, um método de dominar o poder político no país.

Como partido organizado e bem comandado, o PT transformou a roubalheira generalizada em instrumento de controle político.

O que mudou nos anos petistas é que a roubalheira nas principais áreas do governo foi monopolizada pelo esquema político que almeja a hegemonia. Sem mudar essa postura diante da democracia, não há razão para a busca de um diálogo.


Portas de saída - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 25/07

Os economistas têm dito que existem três requisitos para o país sair da crise: recuperar a confiança, aumentar os investimentos, elevar as exportações. Os números mostram que isso não começou a acontecer. As exportações e os investimentos despencaram no primeiro semestre, a confiança está nos níveis mais baixos em várias sondagens, a bolsa de valores voltou ao vermelho.

O saldo comercial foi positivo em US$ 2,2 bilhões no primeiro semestre, revertendo o déficit de US$ 2,5 bilhões do mesmo período do ano passado. Mas esse número dá uma falsa sensação de que as nossas exportações estão se recuperando. O fato é que as vendas externas caíram 14% de janeiro a junho, e o saldo só ficou positivo porque as importações despencaram mais: 18%. Nem a desvalorização do real ajudou a dar um impulso externo, pelo menos até agora. De janeiro a junho, a receita com exportação foi US$ 16 bilhões menor do que no mesmo período de 2014.

A indústria brasileira continua encolhendo sua participação no mundo. A exportação de bens de capital caiu 3,8% no semestre. A de bens de consumo teve queda de 8,8%. A venda de combustíveis e lubrificantes caiu 20%, mostrando mais uma vez que a Petrobras tem gargalos insuperáveis na área de refino, que foram agravados pelas denúncias de corrupção e superfaturamento em projetos investigados pela Operação Lava-Jato. Com a queda dos preços das commodities, as exportações de produtos alimentícios caíram 16%, e as de produtos minerais recuaram 26%.

A confiança continua baixa, e há vários indicadores mostrando isso. No mercado financeiro, o índice Ibovespa voltou a operar abaixo dos 50 mil pontos e acumula queda este ano. O dólar é negociado no valor mais alto desde 2003. Os juros cobrados dos títulos do governo brasileiro no exterior também subiram, e o mercado já começa a precificar o risco da perda do grau de investimento.

O Índice de Confiança dos Consumidores medido pelo Ibre/FGV caiu à mínima histórica em julho. Foi a quarta vez no ano que atingiu recordes negativos na série que começou a ser pesquisada em setembro de 2005. Desde as eleições de outubro, a redução chega a 19%. Os indicadores de confiança do comércio, da indústria e da construção civil seguem a mesma tendência e se mantêm nos piores níveis das séries.

Nos investimentos, é cada vez menos provável que o governo consiga ser bem sucedido com as concessões de infraestrutura. Com a necessidade de arrecadar mais para manter o ajuste fiscal, o modelo adotado será o de outorga onerosa, contemplando como vencedores os consórcios que desembolsarem uma quantia maior por cada projeto leiloado. Em tempos de crise e incerteza, a reação das empresas é justamente a contrária: preservar o dinheiro em caixa. A alta dos juros também encarece o financiamento.

A produção de bens de capital registra queda de 20% nos cinco primeiros meses do ano, segundo dados do IBGE. Na comparação de maio com o mesmo mês do ano passado, a retração é de 26%. A Abimaq, entidade que representa o setor de máquinas e equipamentos, estima em 25 mil as demissões nos últimos 12 meses e diz que há empresas tendo dificuldade até para pagar impostos. O ajuste fiscal atingiu as linhas subsidiadas do PSI/Finame, que barateava o crédito das encomendas, e a alta da alíquota que desonerava a folha de pagamento foi encarada como aumento de custos. A entidade criou um grupo de gestão de crise e chegou a cogitar o pagamento de impostos em juízo, como forma de protesto, e o fechamento de fábricas por um dia. Abandonou a ideia, felizmente, por recomendação do departamento jurídico.

O país caminha para o oitavo mês do ano sem conseguir vislumbrar de onde virá a recuperação. Tudo é agravado pela crise política e pela baixa popularidade da presidente Dilma Rousseff. Muitos alertaram sobre os erros da política econômica dos governos Lula e Dilma. Foram esses equívocos que nos trouxeram até aqui. O período de bonança, com os altos preços das matérias-primas e o estímulo ao consumo, chegou ao fim sem que o país tenha se preparado para uma nova realidade.


O custo do afrouxamento - CELSO MING

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O ESTADÃO - 25/07

Na política, as coisas só estão piorando e ameaçam arrastar a economia


O ponto positivo no afrouxamento da meta fiscal é o de que, desta vez, o governo Dilma não está garantindo o inviável para entregar depois o supostamente prometido com os disfarces conhecidos: contabilidade criativa, pedaladas e operações parafiscais. O resto é muita incerteza.

Os ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa não conseguem explicar como é que contribuirão para aumentar a credibilidade da política econômica com decisões cujo cumprimento depende de variáveis econômicas incertas, como a do comportamento da arrecadação, e de desdobramentos políticos imponderáveis. A arrecadação não caiu apenas porque há forte recessão. Caiu também porque as grandes empresas não estão pagando e, aparentemente, não há o que as faça pagar. Além disso, o desdobramento da política depende do desfecho de 10 ou 12 pedidos de impeachment.

Não há garantia de que a nova meta fiscal (a tal de 0,15% do PIB) seja cumprida, nem com os escapes previstos. Não há garantia de que a dívida pública, que crescerá com o aumento do déficit e dos juros, ficará sob controle. E não há garantia de que novas capitulações fiscais não acontecerão.

A presidente Dilma não aguentou as pressões e, aparentemente, já não se importa se o rombo aumentar. Quem argumenta que não fez nada de errado quando infringiu a Lei de Responsabilidade Fiscal, como consta nas respostas às questões encaminhadas pelo Tribunal de Contas da União, não pode mesmo achar errado descumprir novamente a lei. Não é o ministro Nelson Barbosa quem está dizendo que as pedaladas são permitidas enquanto não for estabelecido um limite a partir do qual possam ser consideradas infração? Se o governo Dilma pensa assim é porque outras infrações são possíveis - até que saia a regulamentação que defina esses e outros parâmetros.

A opção feita não contém a recessão. Ao contrário, tende a aumentá-la porque cria incertezas. Depois da revisão da meta, os analistas rebaixaram ainda mais as projeções sobre o desempenho do PIB deste ano e do seguinte.

Mais recessão aumenta mais o desemprego, reduz a arrecadação e o rombo fica maior. Além disso, esse quadro não deve fortalecer o governo, como pretendeu a presidente Dilma. No ano que vem, tem eleições. Quantos vereadores o PT será capaz de fazer?

A presidente Dilma avisou que não quer a dureza do ajuste para não asfixiar o trabalhador. Mas a decisão tomada tende a sufocar ainda mais politicamente o governo.

Há outras maneiras de enfrentar a derrubada de arrecadação. A primeira delas seria cortar despesas. Parecia a opção do ministro Joaquim Levy. A outra seria fazer um esforço de investimento, o que implicaria apressar os leilões de concessão, exigir mais empenho dos organismos encarregados de expedir licenciamentos ambientais e desfazer-se de ativos públicos, como a Petrobrás já anunciou. “Deixamos claro o que não podemos fazer”, defende-se o ministro Levy. Mas ele já não mostra se consegue fazer o que pode fazer.

Não dá para apostar em que o Brasil “parou de piorar” e que, “daqui para frente, só vai melhorar”. Na política, as coisas só estão piorando e ameaçam arrastar a economia.


CONFIRA:






Aí está a evolução das cotações do dólar no câmbio interno nesta semana. Dá uma noção da alta provocada pela revisão da meta fiscal.

Mais juros

A nova alta do dólar tende a aumentar ainda mais os preços dos importados. Portanto, produzirá inflação. É mais um fator que obrigará o Banco Central a reforçar a política monetária (política de juros). Nesta quarta-feira, o Copom provavelmente aumentará os juros básicos (Selic) em mais meio ponto porcentual, para 14,25% ao ano. Falta saber até onde vai esse arrocho monetário.
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Um filme de horror a que ninguém quer assistir - ALBERTO DINES

GAETA DO POVO - PR - 25/07

Uma das primeiras apostas de Hollywood para levar mais gente aos cinemas utilizou um truque psicológico extremamente simples: pavor. Há mais de um século, tal como antes na literatura, as pessoas eram atraídas pelo que deveriam abominar e, graças a esta contradição, surgiram os Frankensteins, os Dráculas, médicos loucos, fantasmas, almas do outro mundo, lobisomens, monstros importados do passado, do fundo do mar, do espaço, do futuro.

No Brasil, talvez por força da infantilização das grandes audiências – para as quais medo não tem charme –, um filme de horror chamou a atenção de um dos mais importantes jornais do mundo sem provocar grande frisson, apesar de nosso protagonismo na película.

“Recessão e suborno: a crescente podridão no Brasil” foi o título do editorial desta quinta-feira no secular Financial Times, o jornal cor-de-salmão que raramente pisa em falso quando dá opinião (sobre música, vinho, política ou macroeconomia) e, por isso, foi vendido no mesmo dia por mais de R$ 4 bilhões de reais aos japoneses da Nikkei. “Incompetência, arrogância e corrupção tiraram do Brasil seu encanto mágico (...) Não é de admirar que o país hoje seja comparado a um infindável filme de horror.”

Que o governo não reagisse ou reagisse no estilo inglês – glacialmente – era o esperado. Designado para responder, Jacques Wagner, ministro da Defesa, contestou com o argumento de veterano cinéfilo: “não é filme de horror, mas de superação”. A surpresa veio da repercussão – quase nenhuma. Por solidariedade e/ou despeito, nossa mídia enfiou a viola no saco e saiu de fininho. Para não ser denunciada como alarmista ou golpista, talvez por sentir-se absolutamente desamparada diante de uma crise tão disseminada e ameaçadora, a verdade é que a retórica e o racionalismo anglo-saxônico se impuseram aos floreios da prosa neolatina.

Ao associar de forma direta, impiedosa, o fenômeno macroeconômico da recessão à esfera criminal onde se encaixa o suborno, o jornal escancara a natureza da nossa desgraça. Para não deixar dúvidas quanto à gravidade do que está sendo investigado, adiciona dois penosos ingredientes raramente utilizados nas avaliações sobre o que aconteceu na Petrobras: incompetência e arrogância.

Para coroar o diagnóstico, o arrasador substantivo – podridão – que nos remete a Shakespeare e ao inconformado Hamlet, ao reconhecer que “há algo de podre no reino da Dinamarca”. Na injusta metáfora, o Bardo não se referia apenas ao casal regicida (mãe e padrasto de Hamlet), mas à sociedade desmoralizada, corrompida, desprovida de senso moral que permitiu a consumação e a ocultação do crime.

Entende-se por que o editorial não foi transcrito e traduzido na íntegra em nossa imprensa: por pudor e autoestima. Verdadeira bomba arrasa-quarteirão, espalha estilhaços, fere a todos que, mesmo de longe, percebem o enredo. O interminável filme de horror do qual somos personagens e espectadores, ao contrário do que apregoam os mestres no gênero, parece condenado ao insucesso. Ninguém faz questão de vê-lo, o desfecho ainda demora. Nossas plateias são impacientes, se resignam às longas e artificiosas telenovelas, mas quando se trata de crises exigem soluções imediatas, no atual mandato.


As mortes de Lulinha - IGOR GIELOW

FOLHA DE SP - 25/07

BRASÍLIA - Em 2008, o diário "Extra" flagrou um menino negro nadando numa poça resultante de um vazamento na favela onde morava em Manguinhos, zona norte do Rio.

Consta que o então todo-poderoso presidente Lula se comoveu com a cena e resolveu transformar o local em vitrine de regeneração sob a bandeira do PAC, programa que tinha uma "mãe", Dilma Rousseff.

O menino, Christiano Pereira Tavares, foi levado ao palanque das autoridades para as devidas fotos e a promessa de construção de uma piscina na "comunidade", o eufemismo do politicamente correto para esses lugares esquecidos pelos políticos depois dos comícios.

Agora, o mesmo "Extra" informa que Lulinha, como o garoto foi apelidado após encontrar Lula, morreu aos 15 anos sob suspeita de overdose na unidade de saúde que ostenta sua foto sorridente na parede.

Manguinhos segue pobre, e a piscina, segundo o relato, abandonada. A família de Lulinha melhorou um pouco de vida, mas o quadro de desagregação segue inalterado.

Além de tragédia, a morte do garoto, se confirmada pelos motivos apontados, encarna um retrato da decadência do legado da era PT no poder. O investimento no combate à miséria, prioridade digna mesmo que tenha sido só eleitoreira, é tisnado pela realidade -do petrolão que já grassava à época ao desastre de gestão que atolou o país sob Dilma.

Sem bonança externa e com o sorriso de Levy, a classe que emergiu pela via perversa do consumo vai voltando para seu nicho anterior; brilha solitária na ruína a TV de tela plana na qual a irmã de Lulinha, grávida aos 14 anos, vê desenhos animados.

Não morre apenas Lulinha. Morre uma ilusão que teve, como toda farsa, lampejos de euforia. Morre o país cujo futuro radiante, para quem quis acreditar, havia chegado. A construção da realidade, ainda mais com os atores à disposição, será dolorosa.

Lulinha não verá nada disso.

Ficou difícil baixar os juros - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 25/07

Se o Banco Central (BC) tivesse metas e parâmetros semelhantes aos do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), não lhe faltariam motivos para desacelerar a curva de altas da taxa básica de juros (Selic). Afinal, a impressionante derrocada da economia brasileira no primeiro semestre do segundo governo de Dilma Rousseff está levando junto milhares de empregos.

O efeito da paralisia que tomou conta de praticamente todos os setores da atividade econômica tem sido devastador sobre o único indicador que vinha conseguindo resistir à onda de desconfiança na capacidade do governo de reanimar a economia. O desemprego fechou o semestre em 6,9%, a taxa mais alta dos últimos cinco anos registrada em um mês de junho.

E, como se não bastasse, até o próprio governo reviu para baixo a sua projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano, que passou a ser negativa, de 1,49%. Isto significa que nem os cálculos oficiais autorizam expectativa de melhora na economia e, portanto, de queda das demissões.

Nos Estados Unidos, isso já teria levado o Fed a comandar política monetária menos apertada, ou seja, a reduzir as taxas de juros para estimular o investimento e a disposição para o consumo. Mas a inflação lá é muito baixa e o Fed não tem que enfrentar uma corrida de preços provocada pelo tarifaço que, agora, põe fim ao adiamento eleitoreiro dos ajustes que deveriam ter sido praticados no Brasil, nos últimos dois anos.

A autoridade monetária brasileira enfrenta o desafio de conter e, depois, baixar uma das taxas de inflação mais altas do mundo: 9% ao ano, o que equivale ao dobro da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional. O próprio Banco Central não espera devolver a inflação ao ritmo de 4,5% por ano antes dos últimos meses de 2016 e começo de 2017.

Alguns sinais positivos de que esse caminho estava sendo cumprido tinham levado analistas do comportamento da política monetária a um breve clarão de otimismo para os próximos meses. Tanto é assim que a maioria dos agentes do mercado ouvidos pelo próprio BC apostavam, até o início desta semana, que a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), agendada para o dia 29, não deveria aumentar a Selic em mais do que 0,25 ponto percentual.

Mas esse era um cenário construído antes de o governo anunciar a drástica redução da meta de superavit fiscal de 1,1% do PIB para o modestíssimo 0,15%. A verdade é que, por mais que o próprio governo tente amenizar o efeito desse corte sobre a política monetária, não há mais como manter a expectativa de alívio nas taxas de juros.

O Banco Central, em várias de suas manifestações, vinha comemorando a saudável ajuda do aperto fiscal no combate à inflação. Pelo menos nos últimos quatro anos, a autoridade monetária se viu sozinha na luta contra a inflação, já que não podia contar com os efeitos benéficos sobre os preços de uma política fiscal mais contracionista que, nem de longe, era adotada pelo comando do Tesouro Nacional.

Por isso mesmo, é razoável rever as expectativas quanto aos rumos que tomará o BC. Muitos já apostam em alta de 0,5 ponto na quarta-feira, como um sinal de que o ajuste fiscal menor será em alguma medida compensado com o endurecimento da política monetária. Quer dizer mais peso na conta da sociedade.


Dilma e o fiador honorário - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 25/07

Derrotado na discussão sobre a nova meta fiscal, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, ainda pagou o mico de ter de explicar e defender a mudança de rumo anunciada por ele e por seu colega do Planejamento, Nelson Barbosa. Para cumprir essa missão, teve de renegar posições mantidas publicamente e de se apresentar como coautor de uma decisão digna dos piores momentos do mandato anterior da presidente Dilma Rousseff. Tendo rejeitado a opinião do ministro Levy e optado pela política mais frouxa e menos convincente, a presidente se lembrou de um detalhe: o perdedor havia sido considerado, pelo menos até quarta-feira, data do anúncio da nova orientação, o fiador da política econômica.

A solução imediata foi mandar seus subordinados elogiar o ministro da Fazenda e reafirmar sua condição de avalista. A ordem foi cumprida. Com isso, o avalista, confirmado em sua posição honorífica, virou fiador de uma política de baixa credibilidade. Já não há blindagem possível, porque o déficit de credibilidade, nesse caso, é da chefe de governo, e ela se expôs inteiramente, no episódio, de forma irremediável.

A presidente deixou clara, mais uma vez, sua pouca disposição de bancar medidas sérias de correção das finanças públicas e de reparação dos erros cometidos durante quatro anos. Alguns desses erros, como o prolongamento, depois da pior fase da crise, da chamada política “anticíclica”, foram herdados de seu antecessor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e agravados.

Um dos condutores da política nesse período foi o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Tinha acesso fácil à presidente Dilma Rousseff, mas deixou o governo em 2013. Está de volta, como ministro do Planejamento, e são notórias as divergências entre ele e seu colega da Fazenda, ainda classificado, por determinação presidencial, como avalista do governo. Mas têm prevalecido as opiniões de Barbosa, como noticiou muitas vezes a imprensa.

O ministro da Fazenda tem mencionado, para explicar as dificuldades da política fiscal, a retração dos negócios e as táticas defensivas adotadas pelos empresários nas relações com o Fisco. Este detalhe já havia sido apontado em recente estudo da Receita Federal. São argumentos verdadeiros. A recessão tem sido, sem dúvida, mais severa do que previram analistas brasileiros e estrangeiros. Os danos causados à economia pelos erros cometidos nos quatro anos anteriores são enormes. A política do primeiro mandato da presidente Dilma é, sem dúvida, a causa principal dos males hoje vividos pelos brasileiros, como recessão, desemprego e inflação disparada. Tudo isso explica a perda de receita de impostos e contribuições neste ano, mas os problemas da política fiscal estão associados também a outros fatores.

O mais importante é a fraqueza política da presidente. Essa fraqueza decorre em parte de suas características pessoais e em parte da estratégia de seu partido, subordinada inteiramente às ambições políticas de seu líder principal, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sem apoio do PT, a presidente pouco pode fazer – e nada tem feito, pessoalmente – para garantir a fidelidade dos partidos aliados.

Nenhum governante fraco – e nesse caso as deficiências pessoais da presidente são determinantes – conduz uma política de ajustes dolorosos e de reformas complexas. Depois de quatro anos chefiando um governo marcado pela incompetência, pela maquiagem das contas, por um voluntarismo quase infantil e por lambanças variadas, a presidente causaria enorme surpresa se iniciasse o segundo mandato com um programa audacioso de correções e de reformas. A menor surpresa, nesse caso, seria o apoio dos companheiros e aliados.

Desde o início o ministro Levy esteve comprometido com um programa tímido de ajuste e de reformas. Nem isso deu certo. A receita falhou, a despesa continuou crescendo e a meta de ajuste em 2015 foi virtualmente zerada. Ninguém explicou, até agora, por que se deve esperar um empenho mais firme nos próximos anos.